Os fundamentos do currículo Carlos Eduardo Paulino Os problemas relacionados com o currículo não são, é claro, os únicos a resolver quando se faz uma reforma educacional; esta também deve contemplar muitos outros fatores igualmente determinantes, em maior ou menor medida, do grau de sucesso ou fracasso do empreendimento. A importância crucial das questões curriculares, no entanto – não só na etapa de planejamento, mas também na fase de execução –, converte-as em um dos pilares fundamentais de qualquer reforma educacional. De fato, no currículo, concretiza-se e toma corpo uma série de princípios de índoles diversas – ideológicos, pedagógicos, psicopedagógicos – que, em conjunto, mostram a orientação geral do sistema educacional. Entre outras coisas, a elaboração de um projeto curricular pressupõe a tradução de tais princípios em normas de ação, em prescrições educativas, para elaborar um instrumento útil e eficaz na prática pedagógica. O currículo é um elo entre a declaração de princípios gerais e sua tradução operacional, entre a teoria educacional e a prática pedagógica, entre o planejamento e a ação, entre o que é prescrito e o que realmente sucede nas salas de aula. É lógico, portanto, que a elaboração do currículo ocupe um lugar central nos planos de reforma educacional e que frequentemente ele seja considerado como ponto de referências para guiar outras atuações (por exemplo, formação inicial e permanente do corpo docente, organização dos centros de ensino, confecção de materiais didáticos etc.) e assegurar, em última instância, a coerência das mesmas. 1 Nas páginas seguintes, exporemos os fundamentos e as opções básicas subjacentes ao modelo de currículo proposto. Na medida em que o currículo traduz e concretiza a orientação geral do sistema educacional, o primeiro ponto explicita e justifica brevemente o conceito de educação, bem como suas relações e vinculações com outros conceitos próximos, sobretudo os de desenvolvimento, cultura e escolarização. Para situar o currículo no contexto da escolarização, é necessário precisar o que se entende por currículo, determinar suas funções e identificar seus elementos principais, pois o significado e a extensão do termo variam muito conforme os autores e orientações teóricas; esse é o objetivo do segundo ponto. No terceiro, são consideradas as fontes do currículo, isto é, o tipo de informação que se deve considerar na sua elaboração. Em grande parte, essas informações são específicas para cada currículo, pois variam em função do lugar e do momento (as informações originadas na sociologia da educação, por exemplo) ou do nível educacional e da idade dos alunos (como as informações originadas na natureza e estrutura do conteúdo da aprendizagem). Existe, entretanto, um conjunto de informações, provenientes da análise psicológica dos processos de desenvolvimento e aprendizagem, que são relativamente gerais e, pois, merecem um tratamento específico numa proposta de modelo curricular que abranja todo o ensino obrigatório; por isso, no quarto ponto, são analisadas separadamente as contribuições da psicologia no currículo. No quinto e último pontos, a exposição dos fundamentos da proposta é encerrada com argumentos a favor de um modelo de currículo aberto e flexível, cujos vários níveis de concretização possibilitem potencializar ao máximo sua utilização e eficácia. 2 DESENVOLVIMENTO, CULTURA, EDUCAÇÃO E ESCOLARIZAÇÃO Provavelmente não haverá divergências entre os profissionais da educação se afirmarmos que sua finalidade primordial é promover o crescimento dos seres humanos. Mas com certeza elas surgirão no momento de definir e explicar em que consiste o crescimento educativo e, sobretudo, de decidir as ações pedagógicas mais adequadas para promovê-lo. A disjuntiva básica ocorre entre aqueles que o fundamentam como o resultado de um processo de desenvolvimento, em grande parte interno a pessoa, e os que o concebem mais como o resultado de um processo de aprendizagem, em grande parte externo à pessoa. Na verdade, o crescimento pessoal e social, intrínseco à ideia de educação, pode vincular-se alternadamente tanto ao processo de desenvolvimento como ao de aprendizagem. Por um lado, uma pessoa educada é uma pessoa que se desenvolveu, que evoluiu, no sentido forte do termo, desde níveis inferiores, de adaptabilidade ao meio físico e social até níveis superiores. Por outro, como lembra acertadamente Calfee (1981), uma pessoa educada é a que assimilou, que interiorizou, em suma, que aprendeu, o conjunto de conceitos, explicações, habilidades, práticas e valores que caracterizam uma cultura determinada, sendo capaz de interagir de forma adaptada com o ambiente físico e social no seio da mesma. A opção por uma das duas interpretações do crescimento educacional é 3 importante, porque propõe ações pedagógicas diferentes que se plasmam no currículo. Embora antiga, a controvérsia foi incentivada, nas décadas de 1960 e 1970, pelo auge do enfoque cognitivo-evolutivo inspirado na teoria genética de J. Piaget e por suas aplicações ao campo da educação sugeridas por alguns dos seus partidários. Kohlberg, por exemplo, num trabalho clássico publicado em 1968 sob o título de “Early Education: a cognitive developmental view”, formulava a tese de que os aprendizados específicos promovidos por muitos programas pré-escolares, apesar de parecerem positivos à primeira vista – isto é, apesar de se poder constatar uma aprendizagem efetiva nas crianças –, provavelmente repercutem escassa ou nulamente sobre seu desenvolvimento a médio e longo prazos. Segundo Kohlberg, a exposição das crianças pré-escolares a situações não específicas de aprendizagem, como as que sugerem a teoria genética de Piaget (com profusão de conflitos cognitivos, manuseio direto de objetivos, etc.), situações que põem em jogo as operações básicas da inteligência e da competência operacional, são mais apropriadas para induzir ou provocar efeitos positivos a médio e longo prazo sobre o crescimento educativo. Nessa interpretação do enfoque cognitivo-evolutivo, o crescimento que a ação pedagógica deve potencializar é visto mais como o progresso que segue as linhas naturais do desenvolvimento que o que depende de aprendizagens específicas. De fato, a tese de Kohlberg faz parte de uma tradição de pensamento segundo o qual os esforços para ensinar conteúdos ou habilidades específicas são, até certo ponto, fúteis. O que importa é a competência cognitiva geral e reforçá-la é 4 a única coisa que a educação pode e deve fazer, submetida às leis gerais do desenvolvimento; no caso concreto que estamos tratando, sobre as leis gerais do desenvolvimento operatório. Os anos 1970 foram pródigos em currículos e programas para a préescola e para o ensino básico (Kamii, 1970; Lawson, 1975; Karplus, 1979) inspirados no enfoque cognitivo-evolutivo, que parte do princípio de que a finalidade última da educação formal é promover o maior avanço possível dos alunos na sequência evolutiva das etapas operatórias ( em nível pré-escolar, a operatividade concreta; no ensino básico, a operatividade formal). Chegar a ser educado, como frisa D. Kuhn (1979), equipara-se, assim, a atingir o nível mais elevado numa sequência de etapas evolutivas. As teorias estruturais do desenvolvimento (a de Piaget é a mais conhecida, mas algo semelhante ocorre com as de Werner, Kohlberg e outras) postulam direções e níveis universais do desenvolvimento que podem ser adotados com fins educativos, isto é, que podem ser tomados como modelo do que deve ser o crescimento pessoal promovido pela educação formal. Essa colocação encontra-se explicitamente formulada no artigo programático de Kohlberg e Mayer publicado em 1972 com o significativo título de “Development as the aim of education”. Segundo os autores, a psicologia do desenvolvimento constitui o “único” ponto de partida aceitável para formular metas educacionais, porque elimina “o incômodo problema da pluralidade de valores”; a sequência de etapas do desenvolvimento permite estabelecer fins educativos “livres de valoração” na medida em que representam uma progressão que ocorre “de maneira natural”. Acrescente-se que esta forma de 5 proceder com frequência é considerada um antídoto à função reprodutora e conservadora da educação formal (Delval, 1983), que enfatiza aprendizagens específicas. Do ponto de vista da alternativa que interpreta o crescimento educativo como resultado de aprendizagens específicas, critica-se o enfoque cognitivoevolutivo e denuncia-se o caráter circular de seus argumentos: se as aprendizagens específicas introduzissem modificações nos universais do desenvolvimento cognitivo (as estruturas operatórias), estes deixariam de ser universais; o que os define como tais é precisamente sua relativa impermeabilidade à influência de fatores ambientais específicos. Bereiter (1970), numa réplica à tese de Kohlberg e à colocação cognitivo-evolutiva em geral, acusa-o de cometer um erro “de categoria”, que consiste em identificar o crescimento educativo com as mudanças das pessoas relacionadas ao desenvolvimento dos universais cognitivos e, portanto, pouco influenciáveis pela ação educacional direta. O enfoque de Kohlberg argumenta Bereiter, identifica o crescimento educacional com mudanças naturais: segundo a teoria genética, é inexorável – desde que não ocorram transtornos graves ou fortes carências de estimulação ambiental – que os seres humanos progridam da etapa sensorial-motora para a das operações concretas e desta para a etapa das operações formais. Assim, se estivermos interessados, por exemplo, em promover a educação pré-escolar, será absurdo propor a meta de que as crianças atinjam a etapa das operações concretas, pois elas a atingirão de qualquer forma, sem necessidade de ajudas específicas, já que se trata de um dos universais do desenvolvimento cognitivo. Se quisermos 6 melhorar a capacidade intelectual dos pré-escolares e, em geral, promover seu crescimento educativo, devemos canalizar mais os esforços para aprendizagens que possam ocorrer ou não em função de sua participação em determinados tipos de experiências. O crescimento educativo refere-se, em primeiro lugar, às mudanças das pessoas manifestamente suscetíveis de ser provocadas ou facilitadas mediante uma ação pedagógica direta. O argumento tem adquirido força nos últimos anos, mesmo entre partidários da tradição da teoria genética. Assim, por exemplo, Eleanor Duckworth, discípula de Piaget, que participou da elaboração de um interessante programa de ensino de ciências – o African Primary Science Program –, retomou a polêmica em sugestivo trabalho intitulado “Ou lhes ensinamos cedo demais e não podem aprendê-lo ou demasiado tarde e já sabem: o dilema de aplicar Piaget” (Duckworth, 1979). A tese da autora é que configura um falso dilema. Afirma que o problema reside no fato de que se comete um erro com relação ao quid da educação; às vezes, e buscando a justificativa na teoria de Piaget, afirma-se que a educação deve consistir apenas em promover a aquisição de estruturas cognitivas. Segundo a teoria de Piaget, contudo, essas mudanças seriam as únicas com as quais a educação não teria de preocupar-se, pois, deixando as crianças seguirem seu próprio ritmo e garantido-lhes uma quantidade suficiente de experiências não-específicas, essas aquisições se produzem com a mesma naturalidade com que se aprende a caminhar ou falar. Para Duckworth, o quid da educação não está no favorecimento do desenvolvimento natural, mas na promoção do maior número possível de conhecimentos – tanto em amplitude como em profundidade –, levando em 7 consideração as potencialidades intelectuais do aluno, pois não adquirirá estes conhecimentos sem uma ação pedagógica direta. Em resumo, a controvérsia na interpretação do crescimento educativo é colocada nos seguintes termos: enquanto o enfoque cognitivo-evolutivo considera que a meta primordial da educação deve ser promover, facilitar ou, no máximo, acelerar os processos naturais e universais do conhecimento, o enfoque alternativo considera que a educação deve ser orientada mais à promoção e facilitação das mudanças que dependem da exposição a situações específicas de aprendizagem. Em minha opinião, ambas as posturas contem parte de verdade, porém traduzem igualmente uma maneira incorreta de entender as relações entre aprendizagem e desenvolvimento, que deve ser superada. Nos dois casos, os processos de desenvolvimento e de aprendizagem são considerados quase independentes; atribuem-se quase que exclusivamente os primeiros a uma dinâmica interna da pessoa e os segundos, a uma pressão externa. A diferença reside na ênfase dada, mas nas duas posturas pressupõe-se que a única relação entre eles é de tipo hierárquico: a aprendizagem subordina-se ao desenvolvimento, ou o desenvolvimento subordina-se à aprendizagem. A ideia de que existem processos evolutivos e processos de aprendizagem quimicamente puros deve, no entanto, ser rejeitada, porque contradiz algumas contribuições recentes da pesquisa psicológica. As pesquisas antropológicas e transculturais têm manifestado, segundo Scribner e Cole (1973), “a universalidade das capacidades cognitivas básicas” (a capacidade de generalizar, recordar, formar conceitos, raciocinar logicamente, etc.) em todos os grupos culturais 8 estudados. As mesmas pesquisas (Cole et al, 1971; Cole e Scribner, 1974), entretanto, ressaltam diferenças na maneira de utilizar essas capacidades em situações concretas de resolução de problemas; e, o que é mais interessante, mostram que essas diferenças estão relacionadas com os tipos de experiências educacionais. Tudo parece sugerir que existem alguns universais cognitivos, porém o fato de serem efetivamente postos em prática depende da natureza dos aprendizados específicos propiciados pelas experiências educativas. A partir dessa constatação, inspirando-se fortemente, por um lado, nos trabalhos pioneiros de Vygotsky, Luria e Leontiev, e, por outro, na pesquisa antropológica, surgiu uma nova proposta (Cole, 1981a; 1981b) que supera a controvérsia descrita e reconcilia em um esquema explicativo integrador os processos de desenvolvimento individual e o aprendizado da experiência humana culturalmente organizada (o que denominamos de aprendizagens específicas). O conceito de educação subjacente ao modelo de currículo proposto é tributário dessa proposição, cuja ideia básica consiste na rejeição da tradicional separação entre o indivíduo e a sociedade, que costuma ser introduzida pela análise psicológica. Nessa ótica, todos os processos psicológicos que configuram o crescimento de uma pessoa – tanto os habitualmente considerados evolutivos como os atribuídos, também habitualmente, a aprendizagens específicas – são fruto da interação constante que mantém com um meio ambiente culturalmente organizado. A interação do ser humano com seu meio está intermediada pela cultura desde o próprio momento do nascimento, sendo os pais, os educadores, os adultos e, em geral, os outros seres humanos os principais agentes mediadores. Graças às suas 9 múltiplas oportunidades de estabelecer relações interpessoais com os agentes mediadores, o ser humano pode desenvolver os processos psicológicos superiores – sua competência cognitiva –, porém tais processos sempre aparecem em primeiro lugar na vida de uma pessoa no plano da relação interpessoal e, consequentemente, sofrem a mediação dos padrões culturais dominantes. O crescimento pessoal é o processo pelo qual o ser humano torna sua a cultura do grupo social ao qual pertence, de tal forma que, neste processo, o desenvolvimento da competência cognitiva está fortemente vinculado ao tipo de aprendizagens específicas e, em geral, ao tipo de práticas sociais dominantes. Para evitar mal-entendidos vamos precisar rapidamente que o conceito de Cultura é utilizado aqui em um sentido muito amplo, próximo ao da antropologia cultural. A Cultura, de acordo com Cole e Wakai (1984, p. 6-7), englobam múltiplos aspectos: conceitos, explicações, raciocínios, linguagem, ideologia, costumes, valores, crenças, sentimentos, interesses, atitudes, pautas de comportamento, tipos de organização familiar, profissional, econômica, social, tecnológica, tipos de hábitat, etc. No decorrer da sua história, os grupos sociais encontraram numerosas dificuldades e geraram respostas coletivas para poder superá-las; a experiência assim acumulada configura sua Cultura. Chegamos, assim, ao conceito de Educação, que desempenha um papel central no esquema explicativo, porque permite compreender como se articulam num todo unitário a Cultura e o desenvolvimento individual. Os grupos sociais ajudaram seus membros a assimilar as experiências culturalmente organizadas e a converter-se, por sua vez, em membros ativos e em agentes de criação cultural, ou, 10 o que é a mesma coisa, favorecem seu desenvolvimento pessoa no seio da Cultura do grupo, fazendo-os participar de um conjunto de atividades que, consideradas globalmente, constituem o que chamamos de Educação. Assim, a Educação designa o conjunto de atividades mediante as quais um grupo assegura que seus membros adquiram a experiência social historicamente acumulada e culturalmente organizada. Recordemos novamente que os instrumentos cognitivos de natureza simbólica e seus usos, os processos psicológicos superiores, fazem parte desta experiência. As atividades educativas adotam diferentes modos de organização social conforme o volume e também ao conteúdo concreto do conhecimento cultural. No caso das sociedades primitivas, por exemplo, com um escasso nível de desenvolvimento científico e tecnológico, como algumas tribos de caçadores ou de pescadores estudadas pelos antropólogos, as atividades educativas não costumam diferenciar-se das atividades habituais dos adultos. A aquisição das pautas culturais pela criança – conhecimentos, conceitos, habilidades, valores, costumes, etc. – é feita através de sua participação, na medida do possível, das atividades dos adultos, ou simplesmente por observação e imitação. No outro extremo, encontramos as atividades educativas típicas das sociedades com maior nível de desenvolvimento científico e tecnológico, que apresentam uma organização social muito mais complexa: são atividades nitidamente diferenciadas das atividades habituais dos adultos, correspondem a intenções próprias e geralmente são efetuadas em instituições especificamente habilitadas para esse fim (as escolas e outros centros educacionais). O conceito de escolarização (Schooling) designa esta 11 subcategoria de atividades educativas em cujo contexto, por outro lado, a questão do currículo do ensino obrigatório adquire plena significação. Nas páginas seguintes, nos referiremos exclusivamente à escolarização, mas não devemos esquecer que as atividades educativas dessa natureza não são de forma alguma as únicas presentes em nossa sociedade. Com elas, encontramos outras atividades educativas igualmente importantes (na educação familiar, na educação extra-escolar, na educação impulsionada pelos meios de comunicação social etc.), que também deveriam ser consideradas na análise holística do fenômeno educativo. CONSIDERAÇÕES GERAIS SOBRE O CONCEITO DE CURRÍCULO Que papel desempenha o currículo nas atividades educativas escolares? Que elementos inclui? Em definitivo, que é o currículo? Esta pergunta é realmente difícil de responder, pois, na prática, cada especialista tem sua própria definição com nuanças diferenciais. Evitaremos o debate sobre que é o currículo, limitando-nos a precisar o que se entende por currículo na proposta e aceitando que existem outras concepções diferentes da que aqui se contempla, porém sem polemizar. O caminho que leva à formulação de uma proposta curricular é mais o fruto de uma série de decisões sucessivas que o resultado da aplicação de alguns princípios firmemente estabelecidos e unanimemente aceitos. Consequentemente, o que importa é 12 justificar e argumentar sobre a solidez das decisões que vamos tomando e, sobretudo, velar pela coerência do conjunto. O caminho mais direto para precisar o que entendemos por currículo consiste em interrogar-nos sobre as funções que ele deve desempenhar e, para identificá-las, convém recordar e ampliar o que dissemos anteriormente a propósito da natureza das atividades educativas escolares. Esta modalidade de educação surge quando a simples participação nas atividades habituais dos adultos, bem como sua observação e imitação, não são suficientes para assegurar aos novos membros do grupo um crescimento pessoal adequado. As atividades educativas escolares correspondem à ideia de que existem certos aspectos do crescimento pessoal, considerados importantes no âmbito da cultura do grupo, que não poderão ser realizados satisfatoriamente ou que não ocorrerão de forma alguma, a menos que seja fornecida uma ajuda específica, que sejam exercidas atividades de ensino especialmente pensadas para esse fim. São atividades que correspondem a uma finalidade e são executadas de acordo com um plano de ação determinado, isto é, estão a serviço de um projeto educacional. A primeira função do currículo, sua razão de ser, é a de explicitar o projeto – as intenções e o plano de ação – que preside as atividades educativas escolares. Enquanto projeto, o currículo é um guia para os encarregados de seu desenvolvimento, um instrumento útil para orientar a prática pedagógica, uma ajuda para o professor. Por esta função, não pode limitar-se a enunciar uma série de intenções, princípios e orientações gerais que, por excessivamente distantes da realidade das salas de aula, sejam de escassa ou nula ajuda para os professores. O 13 currículo deve levar em conta as condições reais nas quais o projeto vai ser realizado, situando-se justamente entre as intenções, princípios e orientações gerais e a prática pedagógica. É função do currículo evitar o hiato entre os dois extremos; disso depende, em grande parte, sua utilidade e eficácia como instrumento para orientar a ação dos professores. O currículo, entretanto, não deve suplantar a iniciativa e a responsabilidade dos professores, convertendo-os em meros instrumentos de execução de um plano prévia e minuciosamente estabelecido. Por ser um projeto, o currículo não pode contemplar os múltiplos fatores presentes em cada uma das situações particulares no qual será executado. Os componentes do currículo, os elementos que ele contempla para cumprir com êxito suas funções, podem agrupar-se em quatro objetivos: 1º Proporciona informações sobre o que ensinar. Este objetivo inclui dois temas: conteúdos ( termo que designa aqui em sua acepção mais ampla, o que chamamos de “a experiência social culturalmente aceita”: conceito, sistemas explicativos, habilidades, normas, valores, etc.) e objetivos (os processos de crescimento pessoal que se deseja provocar, favorecer ou facilitar mediante o ensino). 2º Proporciona informações sobre quando ensinar, sobre a maneira de ordenar e dar sequência aos conteúdos e objetivos. A educação formal abrange, com efeito, conteúdos complexos e inter-relacionados e pretende incidir sobre diversos aspectos do crescimento pessoal do aluno, sendo necessário, portanto, optar por uma determinada sequência de ação. 14 3º Proporciona informações sobre como ensinar, isto é, sobre a maneira de estruturar as atividades de ensino/aprendizagem das quais participarão os alunos, a fim de atingir os objetivos propostos em relação com os conteúdos selecionados. 4º Proporciona informações sobre que, como e quando avaliar. Na medida em que o projeto corresponde a certas intenções, a avaliação é um elemento indispensável que assegura se a ação pedagógica responde adequadamente às mesmas e introduz as correções oportunas em caso contrário. Os quatro objetivos estão relacionados entre si e condicionam-se mutuamente, pois tratam de diferentes aspectos de um mesmo projeto: enquanto o primeiro (que ensinar?) explicita as intenções, os três restantes (quando ensinar?, como ensinar?, que, como e quando avaliar?) referem-se mais ao plano de ação a ser seguido de acordo com elas. Um dos problemas intrínsecos na elaboração do currículo reside em decidir como concretizar esses diferentes elementos – mais tarde veremos que são várias as alternativas possíveis – e em assegurar a coerência de todos eles. Em resumo, entendemos o currículo como o projeto que preside as atividades educativas escolares, define suas intenções e proporciona guias de ação adequadas e úteis para os professores, que são diretamente responsáveis pela sua execução. Para isso, o currículo proporciona informações concretas sobre que ensinar, quando ensinar, como ensinar e que, como e quando avaliar. Em princípio, esta colocação está próxima da defendida por autores como Stenhouse, para quem “Um currículo é uma tentativa de comunicar os princípios e características essenciais 15 de um propósito educativo, de tal forma que permaneça aberto à discussão crítica e possa ser efetivamente transladado à prática” (1984, p. 29). Antes de continuar, no entanto, convém esclarecer uma nuança com relação à extensão do currículo. Para alguns autores, entre os quais Stenhouse, o currículo inclui tanto a descrição do projeto educativo quanto a análise empírica do que realmente sucede nas salas de aula, quando o projeto é concretizado; isto explica, por exemplo, que para Stenhouse o currículo deva abranger, além dos componentes mencionados, uma série de princípios para o estudo empírico da sua aplicação. É óbvio que existem dois aspectos relacionados com o currículo, o Projeto ou Desenho Curricular e sua aplicação, e que ambos estão intimamente ligados. Mas, a nosso ver, o problema reside no fato de que, definida dessa maneira ampla, o currículo termina abrangendo a totalidade de elementos da educação formal, perdendo assim seu caráter específico e também sua operacionalidade. Por outro lado, resulta difícil admitir que a análise empírica daquilo que realmente acontece nas salas de aula possa ser reduzida ao desenvolvimento ou aplicação do currículo, a menos que no mesmo sejam incluídos absolutamente todos os fatores que, de uma forma ou de outra, incidam sobre a realidade escolar! A seguir, e para frisar o caráter de projeto do currículo, manteremos a diferença entre Projeto e Desenho Curricular e Desenvolvimento ou Aplicação do Currículo como duas fases da ação educativa que se alimentam mutuamente, porém não se confundem. Uma última precisão terminológica sobre os conceitos de instrução e de currículo para terminar este item de considerações gerais. O termo “instrução” 16 habitualmente é utilizado, em sentido amplo, como sinônimo de “educação formal” e de “escolarização”; e, em sentido estrito, para referir-se aos componentes de metodologia do ensino, tanto em sua vertente de projeto como de execução efetiva (Laska, 1984). O termo “currículo” às vezes também é utilizado (por exemplo, Johnson, 1967; Novak, 1982) em sentido muito mais limitado, para referir-se apenas aos objetivos e conteúdos da educação formal. Assim, nossa maneira de entender o Projeto Curricular inclui tanto aspectos curriculares em sentido estrito (objetivo e conteúdos), como aspectos de instrução (relativos à como ensinar). AS FONTES DO CURRÍCULO O primeiro elo da complexa cadeia de inevitáveis problemas a enfrentar e resolver no processo de elaboração de um Projeto Curricular refere-se às suas fontes. Onde buscar a informação necessária para definir as intenções – objetivos e conteúdos – e o plano de ação a seguir na educação escolar? Tradicionalmente, as respostas consistiram em dar prioridade a uma das possíveis fontes de informação em relação a todas as outras, seguindo modas mais ou menos passageiras ou adotando pontos de vista reducionistas, sem perceber que a complexidade e heterogeneidade de fatores que desembocam no Projeto Curricular obrigam necessariamente a levar em conta ao mesmo tempo informações de origem e natureza diferentes. Já em 1949, em obra clássica sobre o tema, R. Tyler ressalta, no tocante aos pontos suscetíveis de proporcionar informação para selecionar “sabiamente” os 17 objetivos – a afirmação que se pode estender a todo o currículo –, que existe forte discrepância entre três posturas defendidas respectivamente pelos “progressistas”, pelos “essencialistas” e pelos “sociólogos”. Os primeiros destacam a importância de estudar a criança a fim de descobrir seus interesses, seus problemas, seus propósitos e suas necessidades, sendo esta a informação básica para selecionar os objetivos. Os “essencialistas”, por seu lado, consideram que os objetivos devem ser extraídos de uma análise da estrutura interna dos conteúdos do ensino, das áreas de conhecimento. Por último, os “sociólogos” tendem a situar a fonte de informação principal para selecionar os objetivos na análise da sociedade, dos seus problemas, necessidades e características. Não é fácil vislumbrar por trás dessas posturas outras tantas alternativas ainda atuais que dão primazia respectivamente à análise psicológica, à análise da estrutura interna das disciplinas e à análise sociológica, como fontes do currículo. O ponto de vista de Tyler sobre as fontes dos objetivos educativos é o de que as três proporcionam informações necessárias, mas nenhuma delas sozinha é suficiente. Essa perspectiva é igualmente válida para o Projeto Curricular em seu conjunto. A análise sociológica permite, entre outras coisas, determinar as formas culturais ou conteúdo – conhecimentos, valores, habilidades, normas, etc. – que o aluno deve assimilar para tornar-se um membro ativo da sociedade e ao mesmo tempo um agente de criação cultural; também permite garantir que não ocorra uma ruptura entre a atividade escolar do aluno e sua atividade extra-escolar. A análise psicológica contribui com informações relativas aos fatores e processos que intervêm no crescimento pessoal do aluno, ajudando assim a planejar com mais eficácia a ação pedagógica. A análise epistemológica das disciplinas contribui para 18 separar os conhecimentos essenciais dos secundários, para buscar sua estrutura interna e as relações entre eles, e suas propostas são decisivas para estabelecer sequências de atividades de aprendizagem que facilitem ao máximo a assimilação significativa. As essas três fontes do currículo devemos acrescentar uma quarta: a própria experiência pedagógica. Um Projeto Curricular não surge do nada – e muito menos no caso do ensino obrigatório –, mas parte de uma prática pedagógica que aspira a transformar e melhorar. Para isso, oferece novos pontos de vistas e alternativas, mas também integra as experiências bem-sucedidas. Por outro lado, como projeto educacional que é, o Projeto Curricular contrasta com a prática pedagógica e tem de estar permanentemente aberto às modificações e correções derivadas desse contraste. O desenvolvimento do currículo, retomando a distinção anterior, é uma das fontes – talvez a principal – do processo de elaboração, revisão e contínuo enriquecimento do Projeto Curricular. PSICOLOGIA E CURRÍCULO Embora, como vimos, seja absolutamente imprescindível utilizar informações provenientes de diferentes fontes na elaboração do currículo, as que derivam da análise psicológica têm, a nosso ver, um tratamento especial. Em primeiro lugar, porque, ao referir-se aos processos subjacentes ao crescimento pessoal sua pertinência está em grande parte assegurada sejam quais forem o nível educacional correspondente ao Projeto Curricular e as intenções concretas que o 19 mesmo perseguir. Em segundo lugar, porque incidem em maior ou menor medida sobre os quatro blocos de componentes principais do currículo. Com efeito, as informações proporcionadas pela análise psicológica são úteis para selecionar objetivos e conteúdos, para estabelecer sequências de aprendizagem que propiciem ao máximo a assimilação significativa dos conteúdos e a consecução dos objetivos, para tomar decisões com respeito à maneira de ensinar e, naturalmente, para avaliar se forem atingidos os aprendizados prescritos na extensão e profundidade desejadas. A questão das contribuições da psicologia com relação ao currículo e, em geral, à educação escolar é muito complexa e não pode ser abordada aqui com o detalhamento que exigiria um tratamento correto. Nosso objetivo, muito menos ambicioso, consiste em ressaltar alguns aportes de particular interesse para a elaboração do Projeto Curricular e que, em qualquer caso, impregnam o modelo proposto. Assim, esclarecemos que o que vem a seguir não passa de uma seleção e, como tal, incompleta. A seleção não afeta apenas o volume de contribuições potenciais, mas também sua orientação. No momento atual, a psicologia da educação ainda não dispõe de um marco teórico unificado e coerente que permita dar conta dos múltiplos e complexos aspectos implicados nos processos de crescimento pessoal e da influência exercida sobre eles pelas atividades educativas escolares. Ainda não dispomos de uma teoria compreensiva da instrução com base empírica e teórica o suficiente para ser utilizada como fonte única de informação. Temos, porém, múltiplos dados e teorias que proporcionam informações parciais pertinentes. O problema reside em que fequentemente esses aportes não são fáceis 20 de integrar, pois correspondem a concepções diferentes do funcionamento psicológico. Ante esse estado de coisas, a alternativa consiste em fugir tanto do ecletismo fácil, no qual podem ser justificadas práticas pedagógicas contraditórias, quanto do excessivo purismo que, ao centrar-se numa única teoria psicológica, ignore contribuições substantivas e pertinentes da pesquisa psicoeducativa contemporânea. Nosso marco de referência concreto é um conjunto de teorias e explicações que, embora discrepantes em numerosos pontos de importância, consagram uma série de princípios comuns ou, pelo menos, não-contraditórios. Estes princípios são os que devem ser mantidos no Projeto Curricular. Grosso modo, o marco de referências está delimitado pelo que podemos denominar de enfoques cognitivos em sentido amplo. Entre eles parecem-nos particularmente importantes a teoria genética de J. Piaget e de seus colaboradores da Escola de Genebra, tanto no tocante à concepção dos processos de mudança como nas formulações estruturais clássicas do desenvolvimento operatório e as recentes elaborações em torno das estratégias cognitivas e procedimentos de resolução de problemas; a teoria da atividade nas formulações de Vygotsky, Luria e Leontiev e em seus desenvolvidos posteriores (Wertsch, Forman, Cazden), particularmente no que se refere à maneira de entender as relações entre aprendizagem e desenvolvimento e a importância atribuída aos processos de relação interpessoal; a prolongação dessas teses nas propostas da psicologia cultural, enunciada nos trabalhos de M. Cole e colaboradores do Laboratory of Comparative Human Cognition da Universidade da Califórnia, que integra os 21 conceitos de desenvolvimento, aprendizagem, cultura e educação em um esquema explicativo unificador; a teoria da aprendizagem verbal significativa de D. P. Ausubel e seu prolongamento na teoria da assimilação de R. E. Mayer, especialmente orientadas para explicar o aprendizado de blocos de conhecimento altamente estruturados; as teorias dos esquemas (Anderson, Norman, Rumelhart, Minsky) que, inspiradas nos principais do enfoque de processamento humano da informação, postulam que o conhecimento prévio, organizado em unidades significativas e funcionais, é um fator decisivo na realização de novos aprendizados; e a teoria da elaboração de M. D. Merrill e Ch. M. Reigeluth, interessante tentativa de construir uma teoria global da instrução, ainda inacabada, porém muito sugestiva e útil para os aspectos centrais do Projeto Curricular, como seleção e organização de conteúdos. Os princípios básicos partilhados ou não-contraditórios entre si desses enfoques, que a seguir enunciaremos de maneira muito sucinta e um tanto categórica por razões de brevidade, não são prescrições educativas em sentido estrito, mas princípios gerais, idéias-força, que impregnam todo o Projeto Curricular e encontram um reflexo na maneira de entender a concretização de seus elementos, nas decisões relativas à sua estrutura formal e nas sugestões relativas ao seu desenvolvimento e aplicação. 1. A repercussão das experiências educativas formais sobre o crescimento pessoal do aluno está fortemente condicionada, entre outros fatores, pelo seu nível de desenvolvimento operatório. A psicologia genética tem estudado este desenvolvimento (cf. Piaget e Inhelder, 1969; Delval, 1983; Coll e Gillieron, 22 1985) e ressaltou a existência de etapas que, com pequenas flutuações nas margens de idade, são relativamente universais em sua ordem de aparecimento. A cada um dos grandes estágios de desenvolvimento (sensório-motor: 0-2 anos aproximadamente; intuitivo ou pré-sensório-operatório: 2-6/7 anos aproximadamente; operatório concreto: 7-10/11 anos aproximadamente; operatório formal: 11-14/15 anos aproximadamente) corresponde uma forma de organização mental, uma estrutura intelectual, que se traduz em algumas determinadas possibilidades de raciocínio e de aprendizagem a partir da experiência. O Projeto Curricular deve levar em conta essas possibilidades, não só no tocante à seleção dos objetivos e dos conteúdos, mas também na maneira de planejar as atividades de aprendizagem a fim de ajustá-las às peculiaridades de funcionamento da organização mental do aluno. 2. A repercussão das experiências educativas formais sobre o crescimento pessoal do aluno também está condicionada pelos conhecimentos prévios pertinentes com os quais inicia sua participação nas mesmas (Ausubel, 1977; Reif e Heller, 1982). Por sua vez, esses conhecimentos podem ser resultado de experiências educacionais anteriores – escolares ou não – ou de aprendizagem espontâneas; também podem estar mais ou menos ajustados às exigências das novas situações de aprendizagem e ser mais ou menos corretos. Em qualquer caso, não existe nenhuma dúvida de que o aluno que inicia uma nova aprendizagem escolar o faz a partir dos conceitos, concepções, representações e conhecimentos que construiu em sua experiência prévia, utilizando-os como instrumentos de leitura e interpretação que condicionam o resultado da aprendizagem. É preciso considerar de forma muito especial esse princípio no estabelecimento de sequências de 23 aprendizagem, porém ele também possui implicações para a metodologia do ensino e para a avaliação. 3. Levar em consideração o nível do aluno na elaboração e aplicação do Projeto Curricular exige levar em consideração simultaneamente a dois aspectos mencionados. Aquilo que um aluno é capaz de fazer e aprender em um determinado momento – expoente do seu nível de crescimento pessoal – depende tanto do estágio de desenvolvimento operatório em que se encontra quanto do conjunto de conhecimento que construiu em suas experiências prévias de aprendizagem. As atividades educativas escolares têm como finalidade última promover o crescimento pessoal do aluno nesta dupla vertente mediante a assimilação e a aprendizagem da experiência social culturalmente organizada: conhecimentos, habilidades, valores, normas, etc. 4. Deve-se estabelecer uma diferença entre o que o aluno é capaz de fazer e de aprender sozinho – fruto dos fatores apontados – e o que é capaz de fazer e aprender com a ajuda e a participação de outras pessoas, observando-as, imitando-as, seguindo suas instruções ou colaborando com elas. A distância entre esses dois pontos, que Vygotsky chama de zona de desenvolvimento proximal porque está situada entre o nível de desenvolvimento efetivo e o nível de desenvolvimento potencial (Vygotsky, 1977; 1979), delimita a margem de incidência da ação educativa. Com efeito, o que a princípio o aluno só é capaz de aprender com a ajuda dos demais, posteriormente poderá fazer ou aprender sozinho. Desenvolvimento, aprendizagem e ensino são três elementos relacionados entre si: o nível de desenvolvimento efetivo condiciona os possíveis aprendizados que o aluno pode realizar graças ao ensino, porém este, por sua vez, pode chegar a 24 modificar o nível de desenvolvimento efetivo do aluno mediante as aprendizagens que promove. Assim, o ensino eficaz é o que parte do nível de desenvolvimento do aluno, não para se acomodar a ele, mas para fazê-lo progredir através da sua zona de desenvolvimento proximal, para ampliá-la e gerar, eventualmente, novas zonas de desenvolvimento proximal. Em seguida, veremos alguns requisitos que as aprendizagens escolares devem cumprir para causar esse impacto sobre o crescimento pessoal do aluno. 5. A questão primordial não reside em se a aprendizagem escolar deve dar prioridade aos conteúdos ou os processos, ao contrário do que sugere a polêmica sobre o uso, mas em assegurar-se de que a mesma seja significativa. A distinção entre aprendizagem significativa e aprendizagem repetitiva, evidenciada no marco de uma tentativa de construir uma teoria da aprendizagem escolar (Ausubel, 1968; 1973) refere-se ao vínculo entre o novo material de aprendizagem e os conhecimentos prévios do aluno: se o novo material de aprendizagem se relacionar de forma substantiva e não arbitrária com o que o aluno já sabe, isto é, se for assimilado à sua estrutura cognoscitiva, estaremos diante de uma aprendizagem significativa; se, ao contrário, o aluno se limitar a memorizá-lo sem estabelecer relações com seus conhecimentos prévios, estaremos diante de uma aprendizagem repetitiva, memorística ou mecânica. Ao realizar de aprendizagens significativas, o aluno constrói a realidade atribuindo-lhe significados. A repercussão da aprendizagem escolar sobre o crescimento pessoal do aluno é maior quanto mais significativa ela for, quanto mais significativa permitir-lhe construir. Assim, o realmente importante é que a aprendizagem escolar – de conceitos, processos, valores – seja significativa. 25 Devemos salientar o destacado papel desempenhado pelo conhecimento prévio do aluno na aprendizagem significativa. Efetivamente, “o fator mais importante que influi sobre a aprendizagem é a quantidade, clareza e organização dos conhecimentos que o aluno já possui. Estes conhecimentos já presentes (no momento de iniciar a aprendizagem), constituídos por fatos, conceitos, relações, teorias e outros dados de origem não perceptiva, dos quais o aluno pode dispor a qualquer momento, constituem sua estrutura cognoscitiva” (Ausubel e Robinson, citados por Novak, 1982). 6. Para a aprendizagem ser significativa, duas condições devem ser cumpridas. Em primeiro lugar, o conteúdo deve ser potencialmente significativo, tanto do ponto de vista da sua estrutura interna (significativamente lógica: não deve ser arbitrário nem confuso), como do ponto de vista da sua possível assimilação (significatividade psicológica: na estrutura cognoscitiva do aluno deve haver elementos pertinentes e relacionáveis). Em segundo lugar, deve-se ter uma atitude favorável para aprender significativamente, ou seja, o aluno deve estar motivado para relacionar o que aprende com o que já sabe. Este segundo requisito é um chamado de atenção sobre o papel decisivo dos aspectos motivacionais. Embora o material de aprendizagem seja potencialmente significativo, lógica e psicologicamente, se o aluno estiver predisposto a memorizá-lo pela repetição (com frequência isto requer menos esforço e é mais simples!), os resultados carecerão de significado e terão escasso valor educativo. Da mesma forma, o maior ou menor grau de significatividade da aprendizagem dependerá em grande parte da força desta tendência a aprender significativamente: o aluno pode contentar-se em adquirir conhecimentos vagos ou difusos ou, ao contrário, pode esforçar-se por 26 construir significados precisos; pode conformar-se com estabelecer uma relação exata ou pode tratar de integrar o novo material de aprendizagem com o maior número possível de elementos da sua estrutura cognoscitiva. Não devemos esquecer, porém, que, inversamente, a motivação favorável para aprender significativamente não serve para nada se não for cumprida a condição de que o conteúdo de aprendizagem seja potencialmente significativo na dupla vertente lógica e psicológica. 7. A significatividade de aprendizagem está vinculada muito diretamente à sua funcionalidade. A educação escolar deve sempre ocupar-se de que os conhecimentos adquiridos – conceitos, habilidades, valores, normas, etc – sejam funcionais, isto é, possam ser efetivamente utilizados quando as circunstâncias nas quais o aluno se encontrar assim o exigirem. Quanto mais numerosas e complexas forem às relações estabelecidas entre o novo conteúdo da aprendizagem e os elementos da estrutura cognoscitiva, quanto mais profunda for sua assimilação, em suma, quanto maior for o grau de significatividade de aprendizagem realizada, maior será também a sua funcionalidade, pois poderá relacionar-se com um leque mais amplo de novas situações e de novos conteúdos. 8. O processo mediante o qual a aprendizagem significativa ocorre requer uma intensa atividade do aluno, que deve estabelecer relações entre o novo conteúdo e os elementos já disponíveis em sua estrutura cognoscitiva; julgar e decidir a maior pertinência dos mesmos; matizá-las, reformulá-los, ampliá-los ou diferenciá-los em função das novas informações, etc. É evidente que a natureza dessa atividade é fundamentalmente interna e não deve ser identificada com a simples manipulação ou exploração de objetos e de situações; este último tipo de 27 atividade é um meio que pode ser utilizado na educação escolar – e um meio privilegiado em determinadas situações e em determinados momentos evolutivos – para estimular a atividade cognitiva interna diretamente implicada na aprendizagem significativa. Portanto, não devemos identificar a aprendizagem por descoberta com a aprendizagem significativa. A descoberta como método de ensino, como maneira de propor as atividades escolares, não passa de uma das vias possíveis para levar à aprendizagem significativa, porém não é a única e nem sempre consegue o seu propósito. 9. O papel habitualmente atribuído à memória na aprendizagem escolar deve ser reconsiderado. É preciso distinguir a memorização mecânica e repetitiva, que tem escasso ou nulo interesse para a aprendizagem significativa, da memorização compreensiva, que, ao contrário, é um ingrediente fundamental da mesma. A memória não é apenas a recordação do que foi aprendido, mas a base a partir da qual novas aprendizagens são abordadas (Norman, 1985; Chi, 1985). Quanto mais rica for à estrutura cognoscitiva do aluno – em elementos e relações –, maior será a possibilidade de que ele possa construir novos significados, isto é, maior será sua capacidade de aprendizagem significativa. Memorização compreensiva, funcionalidade do conhecimento e aprendizagem significativa são os três vértices de um mesmo triângulo. 10. Aprender a aprender. Sem dúvida, o objetivo mais ambicioso e ao mesmo tempo irrenunciável da educação escolar equivale a ser capaz de realizar aprendizagens significativas sozinha em ampla gama de situações e circunstâncias. Esse objetivo recorda a importância da aquisição de estratégias cognitivas de exploração e descoberta, bem como de planejamento e regulação da própria 28 atividade, na aprendizagem escolar. Essas estratégias, porém, após sua aquisição, integram-se à estrutura cognoscitiva do aluno, e sua significatividade e funcionalidade estão em função da riqueza da mesma, dos elementos que a configuram e da rede de relações que as liga. Em outras palavras, a aquisição dos processos ou estratégias subjacentes ao objetivo de aprender a aprender não pode contrapor-se à aquisição de outros conteúdos (fatos, conceitos ou valores). Quanto maior for à riqueza da estrutura cognoscitiva – quanto mais coisas forem conhecidas significativamente – tanto maior será a funcionalidade dessas estratégias nas novas situações de aprendizagem. 11. A estrutura cognoscitiva do aluno, cujo papel central na realização de aprendizagens significativas foi ressaltado anteriormente, pode ser concebida, como um conjunto de esquemas de conhecimento (Anderson, 1977; Merrill et al, 1981; Hewson e Posner, 1984). Os esquemas são “um conjunto organizado de conhecimento [...], podem conter tanto conhecimento como regras para utilizá-lo, podem estar compostos de referências a outros esquemas [...], podem ser específicos [...] ou gerais” (Norman, 1985, p. 75-6). “Os esquemas são estruturas na memória aplicáveis a objetos, situações, acontecimentos, sequências de acontecimentos, ações e sequências de ações.” Um esquema de conhecimento pode ser mais ou menos rico em informações e detalhes, ter um grau de organização e de coerência interna variável e ser mais ou menos válido, isto é, mais ou menos adequado à realidade. Os diferentes esquemas de conhecimento que formam a estrutura cognoscitiva podem manter relações de extensão e complexidade diversas entre si. Todas as funções atribuídas à estrutura cognoscitiva do aluno na realização de aprendizagens 29 implicam diretamente os esquemas de conhecimento: a nova informação adquirida é armazenada na memória mediante sua incorporação e assimilação a um ou mais esquemas; a lembrança das aprendizagens anteriores é modificada pela construção de novos esquemas: assim, a memória é construtiva; os esquemas podem distorcer a nova informação forçando-a a acomodar-se às suas exigências; os esquemas permitem fazer inferências em situações novas; os esquemas integram conhecimentos puramente conceituais com habilidades, valores, atitudes, etc.; aprender a avaliar e a modificar os próprios esquemas de conhecimento é um dos componentes essenciais do aprender a aprender (cf. Gagné e Dick, 1983). 12. A modificação dos esquemas de conhecimento do aluno – revisão, enriquecimento, diferenciação, construção e coordenação progressiva – é o objetivo da educação escolar. Inspirando-se no modelo de equilibração das estruturas cognitivas de Piaget (1975), podemos caracterizar a modificação dos esquemas de conhecimento no contexto da educação escolar como um processo de equilíbrio inicial/desequilíbrio/reequilíbrio posterior (Coll, 1983b). O primeiro passo para conseguir que o aluno realize uma aprendizagem significativa consiste em romper o equilíbrio inicial de seus esquemas com relação ao novo conteúdo de aprendizagem. Se a tarefa for totalmente alheia ou estiver excessivamente distante dos esquemas do aluno, este não poderá atribuir-lhe significação alguma e o processo de ensino/aprendizagem ficará bloqueado. Se, apesar disso, forçarmos a situação, o resultado mais provável é uma aprendizagem puramente repetitiva. Ao contrário, quando a tarefa levantar resistências mínimas ou for interpretada em sua totalidade – correta ou incorretamente – com os esquemas disponíveis, a aprendizagem também resultará bloqueada. A exigência de romper o 30 equilíbrio inicial do aluno nos leva a questões-chaves da metodologia de ensino: estabelecimento de uma defasagem adequada entre a tarefa de aprendizagem e os esquemas do aluno; utilização de incentivos motivacionais que favoreçam, um desequilíbrio ótimo; apresentação da tarefa de maneira adequada; tomada de consciência do desequilíbrio e suas causas como motivação intrínseca para superálo, etc. Não é suficiente, no entanto, conseguir que o aluno se desequilibre, assuma consciência disso e esteja motivado para superar o estado de desequilíbrio. Este não passa do primeiro passo para a aprendizagem significativa. Para que ela se conclua, ele também deve poder reequilibrar-se modificando adequadamente seus esquemas ou construindo novos. Por certo, a reequilibração não é automática nem necessária no caso dos esquemas de conhecimento, mas pode produzir-se ou não e ter maior ou menor alcance conforme a natureza das atividades de aprendizagem, em suma, segundo o grau e o tipo de ajuda pedagógica. 13. A visão de conjunto resultante desta rápida síntese de algumas contribuições da análise psicológica – no capítulo 3, ela será ampliada para outros aspectos no contexto da problemática dos métodos de ensino – situa a atividade mental construtiva do aluno na base dos processos de crescimento pessoal que a educação escolar tenta promover. Uma interpretação construtivista da aprendizagem escolar, sem dúvida incompatível com uma concepção do ensino entendido como pura transmissão de conhecimentos, exige uma interpretação igualmente construtivista da intervenção pedagógica, cuja ideia diretriz consiste em criar as condições adequadas para que os esquemas de conhecimento inevitavelmente construídos pelo aluno no decorrer das suas experiências sejam os mais corretos e 31 ricos possíveis. Entretanto, como frisa acertadamente Resnick (1983), uma concepção construtivista da intervenção pedagógica não renuncia a formular prescrições concretas para o ensino nem a planejar cuidadosamente as atividades de ensino/aprendizagem. Uma concepção dessa natureza também se impõe às questões tradicionais do Projeto Curricular: objetivos, conteúdos, estabelecimento de sequências de aprendizagem, métodos de ensino, avaliação, etc. Essas questões, contudo, adquirem uma dimensão diferente quando abordadas sob a ótica construtivista. OUTRAS OPÇÕES PRÉVIAS NO PROCESSO DE ELABORAÇÃO DO PROJETO CURRICULAR Antes de abordar diretamente a concretização dos componentes do Projeto Curricular à luz da concepção construtivista da aprendizagem escolar e da intervenção pedagógica, é necessário ainda propor e resolver algumas questões prévias. Em primeiro lugar, coloca-se o problema da respectiva responsabilidade da administração e dos professores na elaboração do currículo, com uma série de posturas que oscilam entre dois extremos: uma concepção centralizadora no qual o currículo estabelece com minúcias os objetivos, conteúdos, materiais didáticos e métodos que os professores vão utilizar em cada área de ensino; e uma concepção absolutamente descentralizadora, na qual essa responsabilidade recai sobre os professores ou equipe de professores de cada instituição. A primeira postura corresponde à ideia de unificar e homogeneizar ao máximo o currículo para toda a população escolar e, consequentemente, desenvolvê-lo como uma aplicação fiel do 32 Projeto Curricular. A segunda postura, ao contrário, renuncia ao propósito de unificar e homogeneizar o currículo em benefício de melhor adequação e maior respeito às características de cada contexto educativo particular, concebendo o Projeto Curricular como algo indissociável do desenvolvimento do currículo. À margem da respectiva responsabilidade da administração e dos professores nas questões curriculares, as duas posturas mencionadas também refletem dois modelos opostos de currículo, respectivamente qualificados como “fechado” e “aberto”. A descrição de Wickens (1974) dos sistemas educacionais típicos de ambas as naturezas, embora a nosso ver excessivamente esquemática e caricatural, pode ajudar-nos a ressaltar essas duas maneiras de entender o que é o currículo. Segundo Wickens, num sistema educacional fechado, os objetivos, conteúdos e estratégias são previamente determinados, de maneira que o ensino é idêntico para todos os alunos e as variações em função do contexto são mínimas. Estruturado como um processo linear e acumulativo, o ensino assuma a forma de sequências fixas de instrução. Em geral, os objetivos são definidos em termos de comportamentos observáveis dos alunos e os conteúdos são organizados em função das disciplinas tradicionais do conhecimento, sem buscar conexões ou interrelações entre eles. Num sistema fechado, atribui-se grande importância ao resultado da aprendizagem, cujo nível é determinado pelos critérios de comportamento que os objetivos estabelecem. O progresso do aprendizado do aluno se traduz num processo de hierarquia das sequências de instrução planejadas. A única individualização possível do ensino refere-se ao ritmo de aprendizagem, mas 33 os conteúdos, os objetivos e a metodologia didática são invariáveis. Por último, a elaboração do programa e sua aplicação estão a cargo de pessoas diferentes. No outro extremo, os sistemas educacionais abertos concedem grande importância às diferenças individuais e ao contexto social, cultural e geográfico no qual o programa é aplicado. Propõem a interação permanente entre o sistema e seu entorno, integrando as influências externas ao próprio desenvolvimento do programa educacional, aberto a um contínuo processo de revisão e reorganização. Aqui não se enfatiza o resultado do aprendizado, mas seu processo. Os objetivos estão definidos em termos gerais para permitir sucessivas modificações do programa; e a avaliação centra-se na observação do processo de aprendizagem a fim de determinar o nível de compreensão do conteúdo e a utilização do conhecimento em situações novas. Rompe-se também com a divisão tradicional entre disciplinas e são incentivadas atividades de aprendizagem que colocam em jogo conhecimentos interdisciplinares. É óbvio que, num sistema educativo com estas características, não existe separação estrita entre quem elabora o programa e quem o aplica: o professor realiza simultaneamente ambas as funções. A nosso ver, a descrição de Wickens é um tanto maniqueísta, além de esquemática e caricatural, pois tende a atribuir todas as características com conotações positivas aos sistemas abertos, reservando para os sistemas fechados as de conotações negativas. Apesar disso, porque acreditamos que, convenientemente depurada e despojada de suas conotações pejorativas, de fato cobre duas concepções diferentes sobre como deve ser o currículo escolar: a que tenta unificar e detalhar ao máximo sua aplicação e a que deixa ampla margem de iniciativa ao professor que o aplicará; em outros termos, a que praticamente 34 identifica currículo e programação e a que concebe o currículo como um instrumento para a programação. Os currículos detalhados e “fechados” por certo oferecem a vantagem da comodidade para o professor, que pode aplicá-los sem excessivos problemas, limitando-se a seguir passo a passo as instruções; em compensação, apresentam a dificuldade insuperável de não se adaptarem às características particulares dos diferentes contextos de aplicação, bem como de serem impermeáveis às contribuições corretoras e enriquecedoras da experiência pedagógica dos professores. Os currículos “abertos”, ao contrário, oferecem a dupla vantagem de garantir o respeito aos diferentes contextos de aplicação e de comprometer criativamente o professor no desempenho da sua atividade profissional; em contrapartida, tornam mais difícil conseguir uma relativa homogeneidade no currículo para toda a população escolar, que pode ser desejável no caso do ensino obrigatório; e, sobretudo, exige dos professores, pois lhes reserva a tarefa de elaborar suas próprias programações. A concepção construtivista da aprendizagem escolar e da intervenção pedagógica que assumimos anteriormente, bem como o princípio de ajustar a ação educativa às necessidades específicas dos alunos e às características do contexto, apóiam claramente o modelo de currículo aberto. Essa opinião, porém, é matizada pelas seguintes considerações. Em primeiro lugar, a preocupação de torná-lo acessível à maioria dos professores e facilitar seu uso com instrumento de programação deve complementar o caráter aberto do currículo. Em segundo lugar, as experiências derivadas do ensino obrigatório aconselham a definir os 35 aprendizados mínimos que essa obrigatoriedade inclui e velar para que estejam ao alcance de toda a população escolar. A solução proposta consiste em estabelecer três níveis sucessivos de concretização no Projeto Curricular. O primeiro nível tem um grau mínimo de abertura e estipula, para cada área curricular, os objetivos finais, os núcleos de conteúdo, as orientações didáticas e as orientações para avaliação. O segundo dá sequência aos núcleos de conteúdo que figuram no primeiro. Por último, o terceiro nível oferece exemplos de programações a partir dos dois anteriores, em função de diferentes pressupostos. Antes, porém, de detalhar o modelo de currículo proposto, convém retomar o problema dos componentes e revisar as diferentes alternativas em conflito na maneira de defini-los para poder decidir a respeito. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDERSON, R. C. The notion of schemata and the educational enterprise: general discussion of the conference. In: ANDERSON, A. C.; SPIRO, R. J.; MONTAGUE, W. E., (eds). Schooling and the acquisition of knowledge. Hillsdale, New Jersey: Erlbaum, p. 415- 431, 1977. AUSUBEL, D. P. Educational psychology: a cognitive view. New York: Holt, 1968. 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