0 UNIJUÍ - UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL Departamento de Economia e Contabilidade Departamento de Estudos Agrários Departamento de Estudos da Administração Departamento de Estudos Jurídicos CURSO DE MESTRADO EM DESENVOLVIMENTO LUCAS NUNES FRIZZO OS DESAFIOS DA PRODUÇÃO DE LEITE E AS CONSEQUÊNCIAS SOBRE O DESENVOLVIMENTO REGIONAL: O CASO DA NORMATIVA 51 Ijuí (RS) 2011 1 LUCAS NUNES FRIZZO OS DESAFIOS DA PRODUÇÃO DE LEITE E AS CONSEQUÊNCIAS SOBRE O DESENVOLVIMENTO REGIONAL: O CASO DA NORMATIVA 51 Dissertação de Mestrado apresentada ao Curso de Pós Graduação Stricto - Sensu em Desenvolvimento - Linha de Pesquisa: Desenvolvimento Local Sustentável, da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul - UNIJUÍ, como requisito para a obtenção do título de Mestre em Desenvolvimento. Orientador: Dr. Argemiro Luiz Brum Co-orientadora: Drª Sandra Beatriz Vicenci Fernandez Ijuí (RS) 2011 2 Catalogação na Publicação F921d Frizzo, Lucas Nunes. Os desafios da produção de leite e as conseqüências sobre o desenvolvimento regional : o caso da normativa 51 / Lucas Nunes Frizzo. – Ijuí, 2011. – 101 f. : il. ; 29 cm. Dissertação (mestrado) – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Campus Ijuí). Desenvolvimento. “Orientador: Argemiro Luís Brum”. 1. Atividade leiteira. 2. Pequena propriedade. 3. Desenvolvimento regional. 4. Instrução normativa 51. I. Brum, Argemiro Luís. II. Título. III. Título: O caso da normativa 51. CDU: 338(816.5) 631.16:637.11 Aline Morales dos Santos Theobald CRB10 / 1879 3 UNIJUÍ - Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento – Mestrado A Banca Examinadora, abaixo assinada, aprova a Dissertação OS DESAFIOS DA PRODUÇÃO DE LEITE E AS CONSEQUÊNCIAS SOBRE O DESENVOLVIMENTO REGIONAL: O CASO DA NORMATIVA 51 elaborada por LUCAS NUNES FRIZZO como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Desenvolvimento Banca Examinadora: Prof. Dr. Argemiro Luis Brum (UNIJUÍ): ____________________________________ Prof. Dr. Vilmar Antonio Boff (URI): _______________________________________ Profª. Drª. Sandra Beatriz Vicenci Fernandes (UNIJUÍ): _______________________ Ijuí (RS), 31 de março de 2011. 4 Dedico a meus Pais, pelo exemplo de vida, apoio e suporte para que eu pudesse percorrer meus caminhos, alcançar minhas conquistas e acreditar nos meus sonhos. 5 AGRADECIMENTOS À CAPES, Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, pelo aporte financeiro que possíbilitou a realização do curso de Mestrado. À Unijuí, Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, pelo espaço disponibilizado a realização dos estudos desta pesquisa. Também pelo comprometimento desta instituição com o desenvolvimento regional. Ao orientador, Prof. Dr. Argemiro Luíz Brum, que acompanhou a trajetória de elaboração deste trabalho, pela amizade e compreensão e pelas considerações relevantes à contrução do conhecimento. Um agradecimento especial à co-orientadora, Profª Drª Sandra Beatriz Vicenci Fernandes, que acompanha minha trajetória acadêmcia desde a graduação em Agronomia. Sua amizade, conselhos e orientações foram muito importantes à conclusão do mestrado. A todos os professores do Mestrado em Desenvolvimento, que sempre estiveram à disposição para elucidar as dúvidas e preocupações que apareceram no decorrer das aulas e na escrita da dissertação. À Secretária do Mestrado em Desenvolvimento, Janete Guterres, pela solicitude em todos os momentos. Aos colegas do Mestrado, pelo convívio harmonioso, ensinamentos compartilhados, trocas de experiência, respeito, amizade e apoio, elementos essenciais para um aproveitamento satisfatório do curso e para o desenvolvimento pessoal de cada um de nós. 6 RESUMO Este estudo analisa a evolução e as transformações ocorridas na cadeia láctea brasileira, com atenção especial à Região Nororeste do Estado do Rio Grande do Sul, visando à compreensão da nova realidade regional, tanto no seu elo produtivo, como industrial. São estudadas as tendências de especialização, bonificação por escalas produtivas e qualidade do leite. Em consequência destas medidas, são analisados seus reflexos à exclusão de unidades produtivas e ao desenvolvimento regional. Especificamente são analisadas as possíveis implicações ocasinadas pela regulamentação da Instrução normativa 51, dentre elas a dificuldade de adaptação das pequenas propriedades familiares às novas exigências de sanidade e qualidade do leite. Metodologicamente a pesquisa se caracteriza como dedutiva quanto ao método de abordagem. Quanto à sua natureza, ela é aplicada. É classificada como exploratória e também descritiva, compondo-se de pesquisa bibliográfica e de campo. Constata-se basicamente que a nova organização produtiva por parte da indústria, a partir das exigências da IN 51, tende a ser excludente, favorecendo os produtores que alcançam os maiores volumes. No entanto, é possível que muitas propriedades alcancem os patamares de qualidade e sanidade do leite regulamentados pela Instrução, sem grandes investimentos em infraestrutura. A principal conclusão do trabalho é de que é possível, para a grande maioria dos produtores, se adequar às exigências da IN 51 e que a viabilidade destas propriedades possa estar na capacitação profissional, melhoria na higiene e manejo dos animais, o que, associado a avanços na gestão, pode permitir a permanência destes produtores na atividade e no meio rural. Finalmente, acredita-se que a promoção de sistemas de produção de leite ajustados às condições da produção familiar é imprescindível à construção de um modelo de desenvolvimento socialmente mais justo, territorialmente mais equilibrado e sustentável no tempo. Palavras-chave: Atividade leiteira. Pequena propriedade. Desenvolvimento regional. Instrução Normativa 51. 7 ABSTRACT This study analysis the evolution and transformations occurred in the Brazilian dairy production chain, giving special attention to the Northwest Region of Rio Grande do Sul State; aiming to comprehend the new regional reality in both productive and industrial aspect. Tendencies of specialization, bonus according to productive scale, and milk quality are being evaluated and reinforced. As a consequence of such implementation, the impact of production unity’s exclusion has also been analyzed according to the regional development assessment. The possible implications caused by the Normative Instruction 51 (NI 51) regulation are being specifically analyzed as well, among them the incapability of small family properties to adapt to the new health issues and milk quality requirements. The methodology applied to this research is characterized by being deductive regarding the method of approach while being applied by nature. This research is classified as exploratory as well as descriptive, being composed by bibliographical and field research. We observed that basically the industry new productive organization, from the NI 51, leads to exclusion in favor of producers that can work with higher volumes. However, it is possible that many properties reach the health and milk quality standards required by the normative without big investment on infra structure. The main conclusion from this work is that it is possible, for the majority of producers, to adequate their conditions to the NI 51 and that the alternative to their properties can be through training, better hygiene and animal management that along with other advances can allow these producers to stay in business and in their farms. Finally, we believe that the promotion of milk production systems, adjusted to the family production system are fundamental to build a development model with more justice, locally balanced and sustainable through time. Key words: Dairy activity. Small property. Regional development. Normative Instruction 51. 8 LISTA DE FIGURAS Figura 1: Microrregiões classificadas por densidade de produção e que totalizavam 75% do volume total de leite em 1975 ......................................................................33 Figura 2: Microrregiões classificadas por densidade de produção e que totalizavam 75% do volume total de leite em 2007 ......................................................................35 Figura 3: Microrregiões classificadas pelo aumento do volume de leite em 1998 e 2007 ..........................................................................................................................36 Figura 4: Evolução da Produção de Leite entre as Regiões do RS...........................37 9 LISTA DE ABREVIATURAS/SIGLAS ALB: Associação Leite Brasil BPF: Boas Práticas na Fazenda CCS - Contagem de Células Somáticas CNA: Comissão Nacional de Pecuária de Leite CNPQ: Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico CPP - Contagem Padrão de Placas CRIA: Central Riograndense de Inseminação Artificial DPC - Depressão do Ponto de Congelamento EMATER: Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural EMBRAPA: Empresa brasileira de Pesquisa Agropecuária FAEMG: Federação da Agricultura e Pecuária do estado de Minas Gerais FAO: Food and Agriculture Organization FEE: Fundação de Economia e Estatística FEPAGRO: Fundação Estadual de Pesquisa e Agropecuária FEPALE: Federação Panamericana da Indústria de Laticínios FETAG: Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Rio Grande do Sul FUNDESA: Fundo das Cadeias de Produção e Genética da Avicultura, Suinocultura, Pecuária de Corte, Pecuária de Leite GATT – General Agreement on Tarifs Trad6 IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística IRDeR: Instituto Regional de Desenvolvimento Rural MAPA: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento MDA: Ministério do Desenvolvimento Agrário MERCOSUL: Mercado Comum do Sul 10 PAS - Programa Alimento Seguro PNMQL: Programa Nacional de Melhoria na Qualidade do Leite PPD: Programa de Pesquisa Desenvolvimento PRONAF: Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar SEAP: Secretaria Especial de Abastecimento e Preços SEAPPA: Secretaria Agricultura, Pecuária, Pesca e Agronegócio SEG - Sistema Embrapa de Gestão SENAI: Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SENAR: Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SINDILAT: Sindicato da Indústrias de Laticínios TRAM - Redutase ou Teste de Redução do Azul de Metileno UNICRUZ: Universidade de Cruz Alta UNIJUÍ: Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul UTH - Ultra High Temperacture 11 SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..........................................................................................................12 1 ASPECTOS DA EVOLUÇÃO DA CADEIA DO LEITE NO BRASIL .......................18 1.1 História, evolução e modificações da cadeia do leite ..........................................18 1.2 Tendências da cadeia leiteira..............................................................................27 1.3 Panorama da cadeia do leite no Brasil................................................................31 1.4 Cadeia do leite no Rio Grande do Sul – situação das empresas do setor lácteo.........................................................................................................................39 1.5 Produção leiteira como agente de desenvolvimento rural...................................42 2 A ATUAL NECESSIDADE DE REESTRUTURAÇÃO DA CADEIA REGIONAL DO LEITE ........................................................................................................................49 2.1 Complexidade e dificuldades na reestruturação produtiva e industrial do leite............................................................................................................................49 2.2 Rede leite – busca do desenvolvimento da atividade leiteira – uma experiência que vem dando certo.................................................................................................52 2.2.1 Rede leite: projetos, atividades desenvolvidas e principais resultados obtidos.......................................................................................................................59 2.3 Cadeia leiteira do RS – uma visão sob os olhos do poder público......................62 3 A NORMATIVA 51, EXIGÊNCIAS LEGAIS E ALGUNS IMPACTOS NO DESENVOLVIMENTO REGIONAL ...........................................................................67 3.1 A posição de um representante dos produtores rurais........................................78 3.2 A posição de um técnico do meio rural ...............................................................82 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................89 REFERÊNCIAS.........................................................................................................95 ANEXOS ...................................................................................................................99 12 INTRODUÇÃO Embora os preços pagos aos pequenos produtores, a política de valorização de escala das indústrias e as novas exigências sanitárias e de qualidade, impostas pela implementação da Instrução Normativa 51, possam afetar negativamente a produção leiteira na Região Noroeste do Rio Grande do Sul, a mesma pode ser considerada uma atividade estratégica para o desenvolvimento em geral do país e particularmente na Região citada. De acordo com Silva Neto e Basso (2005) a produção de leite é uma atividade típica de regiões desenvolvidas, a exemplo dos Estados Unidos, Canadá, União Europeia e Oceania. Este fato, por si só, já é um indício para que os agricultores e a própria sociedade não a vejam como uma atividade econômica marginal, reservada apenas àqueles que não coseguiram se capitalizar. Por conseguinte, a produção de leite em países bem capitalizados e desenvolvidos, líderes em produtividade, ocupa lugar de destaque entre as cadeias produtivas, o que pode igualmente ocorrer em muitas regiões brasileiras. A escolha do estudo sobre a atividade leiteira na Região Noroeste gaúcha e sua importância estratégica ao desenvolvimento regional, diante das implicações da aplicação da Instrução Normativa 51, acontece em função de que a referida atividade é imprescindível para a construção de uma sociedade economicamente mais produtiva, socialmente mais justa e territorialmente mais equilibrada, particularmente em regiões onde a estrutura fundiária é composta de pequenas e médias propriedades rurais, caso da região estudada. Além de enfatizar a atividade leiteira como determinante ao desenvolvimento regional, o estudo busca entender o processo de transformação da cadeia leiteira, especialmente o elo da produção primária, visando encontrar alternativas à estagnação produtiva e mesmo à exclusão de pequenos produtores rurais, conhecidos também como agricultores familiares. 13 Oliveira (2010) destaca que estudos sobre a evolução e diferenciação da agricultura, realizados no Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, evidenciam a crise da agricultura familiar já a partir da segunda metade da década de 1980, quando se caracterizavam fortes restrições nas condiçoes de produção, especialmente pela estabilização nos preços pagos pela soja e diminuição de acesso ao crédito. Perante a vizualização da nova organização socioeconômica provocada pela crise, os produtores passam a buscar alternativas para intensificar e diversificar a produção, adotando sistemas produtivos que geram maior valor agregado por unidade de área, nos quais o leite aparece como uma importante alternativa ao desenvolvimeto da agricultura familiar. A produção leiteira é uma importante alternativa, pois a atividade tem potencial para agregar valor à produção agropecuária, geração de renda e empregos, além da dinamização da economia rural. Pode-se observar que, desde a década de 1980, a produção tem aumentado ano a ano. No entanto, é visível a queda no número de produtores envolvidos, seguindo a lógica excludente do mercado, fato que constitui parte da problemática que este trabalho pretende responder. Ao analisar a expressão regional que a agricultura familiar envolvida com a atividade leiteira ocupa, e sua importância ao desenvolvimento, esta pesquisa busca encontrar alternativas para suprimir as dificuldades, inclusive quanto à própria reprodução dessas unidades de produção, alocadas a uma cadeia produtiva onde as indústrias lácteas valorizam a especialização, as escalas de produção e a infraestrutura das propriedades. Atualmente, depois da implementação da Instrução Normativa 51, os aspectos ligados à sanidade e qualidade do leite também começam a ser mais valorizados. Entretanto, as adequações exigidas do processo produtivo podem tornar-se mais um fator limitante à permanência na atividade, uma vez que uma importante parcela de produtores se encontra descapitalizada e sem acesso a crédito, inviabilizando assim as adaptações exigidas para a comercialização do leite. Nesse contexto, para as indústrias lácteas e parte da assistência técnica, a saída é intensificar a produção e a produtividade. Entretanto, mesmo assim, nem 14 sempre o resultado é o aumento da renda e a melhoria da qualidade de vida das popoulações envolvidas com a atividade. Isso porque o desenvolvimento da agropecuária em particular, e o desenvolvimento rural em geral, nem sempre são vistos como processos que se apresentam positivamente correlacionados. Silva Neto e Basso (2005) afirmam que, para que os ganhos de produtividade e o aumento na produção possam refletir positivamente sobre a economia e o desenvolvimento de uma região, é imprescindível que estes sejam compatíveis com a manutenção de uma população relativamente elevada no campo. Ressalva-se, nesse sentido, a preocupação com a provável exclusão de famílias que vêm sendo inviabilizadas, tanto pela política de valorização de preços por escala, como pela incapacidade de adaptação às novas exigências do processo de produção e armazenagem de leite inseridas na Instrução Normativa 51. Tendo como foco a realidade do cenário da pequena propriedade leiteira, associado ao papel que as empresas têm desempenhado em reforçar a tendência à intensificação dos sistemas produtivos, melhoria de potencial genético e altas escalas de produção, muitas propriedades acabam ficando à margem do processo produtivo. Entretanto, esse pode não ser o único caminho, nem mesmo o desenvolvimento, necessariamente, tem de ser um processo normativo. Pelo contrário, não pode haver “pacotes” generalistas e as individualidades têm de ser respeitadas. Para tanto, todo esse “pacote” de recomendações não é o único caminho. A adoção de sistemas de produção menos intensivos, que respeitem os limites ambientais, associados à ótica de um desenvolvimento mais sustentável e uma política de valorização real pela qualidade do leite, no preço pago, e não apenas das escalas de volume produzido, podem permitir a valorização desse importante ativo que as propriedades familiares representam ao desenvolvimento regional. Desta forma, a presente pesquisa espera responder, ou mesmo criar subsídios, à proposição de algumas alternativas que possam ser empregadas na maior valorização da agricultura familiar, especialmente as envolvidas na atividade láctea, bem como proporcionar formas de manter essas propriedades e famílias na atividade e no meio rural. 15 O presente trabalho, em termos metodológicos, se concentrou na área de abrangência da Regional de Ijuí da EMATER-RS/ASCAR. Foi desenvolvido por meio de uma abordagem histórica das transformações ocorridas na cadeia láctea do Brasil, com atencão especial ao Estado gaúcho e a sua Região Noroeste. No contexto dos sistemas de produção, foi analisada a produção leiteira como importante fator para o desenvolvimento regional, assim como alguns possíveis reflexos da exclusão das famílias da atividade leiteira para esse desenvolvimento. Assim, o trabalho está dividido em duas grandes partes. A primeira visa analisar a literatura existente em torno do tema, buscando captar os principais enfoques acerca do assunto abordado. A segunda se baseia em entrevistas e análise, em pesquisa aplicada com atores do elo da organização e produção da cadeia láctea visando compreender a realidade das pequenas propriedades situadas no Noroeste gaúcho. Nas entrevistas, são abordadas as possíveis limitações impostas pela IN 51 à permanência dos pequenos produtores na atividade láctea. O método de abordagem deste estudo é dedutivo, e quanto a sua natureza a pesquisa caracteriza-se como aplicada, uma vez que objetiva gerar conhecimentos para a aplicação prática dirigida à solução de problemas específicos, envolvendo verdades e interesses locais (LAKATOS; MARCONI, 2003). Quanto à maneira de abordar o problema, a pesquisa caracteriza-se como qualitativa, sendo o processo e seu significado os focos principais de abordagem. Conforme Minayo (2002), a pesquisa qualitativa busca responder a questões muito particulares, preocupando-se com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Portanto, trabalha com um universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes que, por sua vez, vão corresponder a um espaço mais profundo nas relações, nos processos e nos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. No que concerne aos objetivos, a presente pesquisa realiza-se em nível exploratório e também descritivo, uma vez que se buscou fazer uso da observação sistêmica para a coleta de informações (GIL, 1999). Em termos técnicos, esta investigação compõe-se de pesquisa bibliográfica e de campo, porque busca 16 identificar outros estudos já desenvolvidos sobre os temas relacionados à problemática exposta neste trabalho. A opção metodológica pelo Estudo de Caso partiu do pressuposto de que o estudo de uma situação particular, como o caso da região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, pode ser representativo da realidade de outras situações (YIN, 2001). Entendemos ainda que possa existir a crítica quanto à representatividade deste estudo, no entanto partimos da suposição de que o global se expressa no particular, ou seja, é possível encontrar, no particular, elementos contextuais que nos permitem realizar uma leitura do global. Também podemos compreender que a pesquisa Estudo de Caso expressa uma universalidade, porém ela não generaliza o fenômeno (objeto) em análise. O problema seria desconsideramos que o particular não tem relação com o global. De acordo com (YIN, 2001) e Molina e Bossle (2010), apoiado nas convicções de Morin, pensar de modo complexo a partir do particular é levar em consideração a dialógica, a recursividade e a hologramática do conhecimento sobre os fenômenos observados, isto é, vendo o todo representado na parte, sabendo que, embora representando o todo, a parte é singular e diferente do todo. Enfim, a presente dissertação está organizada em três capítulos divididos em subcapítulos, além da Introdução e Conclusão. O primeiro capítulo expõe os aspectos da história, evolução e as transformações da cadeia do leite no Brasil, com atenção especial à Região Noroeste do RS. Traz ainda um panorama da realidade e representatividade da produção leiteira associada às tendências do setor produtivo. Realça a reorganização industrial do setor lácteo e, por fim, a importância do leite para o desenvolvimento regional. O segundo capítulo contempla a reestruturação da cadeia regional do leite, abordando suas potencialidades e dificuldades. Dentro da perspectiva de proposição de alternativas, é apresentada a Rede Leite e o Programa de Pesquisa e Desenvolvimento (PPD). O capítulo contempla ainda a visão do Secretário da Agricultura, Pecuária e Abastecimento do RS, sobre a importância da atividade leiteira para o Estado. 17 O terceiro e último capitulo é direcionado à apresentação da IN 51 e alguns de seus impactos na produção leiteira provocados por sua regulamentação. Nele são apresentadas as entrevistas com atores relacionados à produção, assim como apresentadas algumas proposições que podem auxiliar na permânencia das propriedades rurais, através da geração de maior renda no seu processo produtivo. 18 1 ASPECTOS DA EVOLUÇÃO DA CADEIA DO LEITE NO BRASIL 1.1 História, evolução e modificações da cadeia do leite A cadeia do leite é considerada por pesquisadores e mesmo seus atores como uma cadeia complexa, por abranger em seu contexto diversas áreas do conhecimento e formações profissionais, das ciências humanas e agrárias, como a economia, sociologia, administração, e agrônomos, veterinários, zootecnistas, técnicos agrícolas, dentre outras. Essa constatação, empírica que seja, deve-se ao fato de este sistema agroindustrial perpassar toda história brasileira e expandir-se geograficamente por todo território nacional, além de se encontrar vinculado a diferentes setores da economia. Outra ocorrência determinante para sua complexidade é o fato de a cadeia leiteira envolver as diferentes categorizações do setor produtivo, já que é exercida por produtores comerciais e de subsistência, por detentores de terras e arrendatários, por contratadores de mão-de-obra e pela agricultura familiar. Por fim, destaca-se sua íntima ligação com o setor industrial, seja nos processos de envase, como de beneficiamento do leite e seus subprodutos. Ademais, de acordo com Martins e Farias (2006), no mundo inteiro o setor leiteiro recebe influências diretas de políticas públicas específicas, as quais dependendo de seu desenho, distorcem positiva ou negativamente a alocação de fatores produtivos ao longo da cadeia, assim como inibem ou induzem o consumo do produto nacional em relação ao produto importado. Portanto, este sistema agroindustrial é complexo. A inúmera gama de profissionais alocados no processo produtivo estarão constantemente sendo desafiados a resolver problemas acerca do funcionamento dos mercados e das diferentes alternativas privadas e públicas, tanto de produção e industrialização, quanto das cadeias produtivas. O presente estudo da cadeia produtiva está limitado ao Estado do Rio Grande do Sul, em especial à Região Noroeste. No entanto, essa limitação será tratada como relativa, uma vez que, por se tratar de uma cadeia, seus diferentes elos se encontram inter-relacionados e sofrem influência tanto de fatores internos quanto 19 externos. Para tanto, inicialmente será realizado um pequeno recorte da visão histórica do leite no Brasil. De acordo com Martins e Faria (2006), ao longo de mais de quatro séculos a economia brasileira situou-se e expandiu-se quase que totalmente dentro de uma faixa de 500 quilômetros a partir do litoral, de norte a sul. Para os autores, no período colonial, a escassez de mão-de-obra foi determinante para que Portugal inicialmente não atuasse de maneira decisiva no território. Conforme os autores, o açúcar foi o primeiro produto de exportação brasileiro, produzido principalmente na região Nordeste e também nas áreas litorâneas. Em pouco tempo, a economia açucareira tornou-se uma importante fonte de exploração econômica e determinou dificuldades ao estabelecimento de uma pecuária mais intensiva, principalmente porque os animais invadiam os canaviais que, em sua maioria, não eram protegidos com cercas. Os problemas causados pelo gado foram tão sérios que o próprio governo português chegou a proibir a criação dos animais em toda a faixa litorânea. Assim, a atividade pecuária teve dificuldades para se estruturar e estender sua produção para a exportação, consolidando um sistema apenas de subsistência que acabou marcando os quatro séculos seguintes da atividade (MARTINS; FARIA, 2006). Em um panorama mais geral, até meados do século XX, período em que aconteceu a industrialização brasileira, o país vivenciou basicamente os ciclos da cana-de-açúcar, do ouro e do café, caracterizando-se como primário-exportador. À época, apenas a uma única atividade era creditado o papel de inserir a economia brasileira no cenário internacional. Através das divisas proporcionadas pela exportação dessas monoculturas é que se obtinham no exterior todos os demais produtos de valor agregado consumidos internamente. Como uma das consequências desse modelo de desenvolvimento, baseado na exploração de apenas um produto, várias outras atividades ficaram à margem da especialização e da evolução produtiva. De tal modo, coube à pecuária, mais especificamente à produção de leite, um papel secundário, de subsistência. Assim, na visão de Martins e Faria (2006), foi nesse cenário que se encontraram as bases para a configuração da atividade como tradicional, caracterizada pela baixa busca de ganhos em 20 eficiência, uma vez que a pecuária não foi afetada pela visão comercial que norteou outras atividades agrícolas, principalmente as culturas da cana-de-açúcar e do café. A pecuária leiteira começou a ganhar maior destaque a partir de 1946, quando o Brasil iniciou um processo de regulamentação da atividade leiteira, estabelecendo critérios sanitários de processamento e distribuição do leite e seus derivados. Conforme Paulillo e Alves (2002), as medidas tomadas pelo Estado no período da regulamentação previam um preço mínimo, além da estipulação de descontos quando houvesse sazonalidade da produção. Os preços praticados eram diferenciados de acordo com o destino: leite/consumo e leite/indústria. Para Martins e Faria (2006, p. 50), O que norteou esta ingerência do Estado na atividade láctea foi procurar assegurar que o consumidor tivesse acesso a produtos seguros, sem risco de contaminação. Além disso, o Estado passou a definir preços de comercialização, ou seja, o preço pago ao produtor de leite in natura e o preço do leite pasteurizado pago pelo consumidor. Esta medida tinha uma conotação de assegurar o abastecimento alimentar e visou garantir que o leite fluído destinado ao consumo seria de fácil acesso a população, sob a ótica do orçamento familiar. Esse período perdurou de 1946 a 1991 e deu início à organização da cadeia do leite, ficando caracterizado como o Período da Regulamentação. Nesse momento os principais problemas identificados à atividade leiteira no Brasil eram a inadequada infraestrutura nas propriedades, práticas sanitárias, de manejo e condições de higiene insatisfatórias, além de baixo potencial genético do rebanho, o que se configurou como um cenário de baixo nível tecnológico na atividade primária, com reflexos diretos e desfavoráveis na qualidade, na quantidade e nos custos de produção. Assim, os resultados obtidos por esta política de intervenção governamental foram pouco satisfatórios ao que se buscava (MARTINS; FARIA, 2006). Sob o ponto de vista de Oliveira (2010), a partir da década de 50 foram intensificados os investimentos no beneficiamento do leite. Esta aceleração encontrava-se associada ao Plano de Metas de Juscelino Kubitschek e sob a influência da internalização da indústria de bens de capital, período em que se exacerbou a concorrência entre as empresas beneficiadoras. Posteriormente, em 21 meados da década de 60, já foi possível observar que o Estado havia criado condições para dar início à formação do complexo lácteo brasileiro. O Estado, por sua vez, continuou atuando nos preços ao longo desse período, sendo exemplos de sua presença, segundo os estudos de Oliveira (2010), quando em 1964 parou de fixar o preço do leite que era destinado à indústria e liberou o tabelamento dos derivados de leite. No ano de 1969, instituiu para o leitecota e o leite-excesso uma política de preços diferenciados. Nos anos 70, conteve os preços pagos aos produtores com intuito de evitar a super oferta de leite in natura, entretanto, em consequência dessa medida, causou a estagnação da produção no período de 1970/1973. Com isso, a produção tornou-se insuficiente para atender à demanda nacional, determinando ao Governo Federal a necessidade de efetuar importações já em 1974. Em contrapartida, o governo, no mesmo ano, aumentou os preços pagos aos produtores como estímulo e fomento à produção. Também, buscando recuperar o desenvolvimento do setor, aumentou os subsídios para o transporte das bacias de leite até as regiões centrais, e se viu obrigado a adotar uma política de importação de leite em pó. Nos anos 80, estudos incorporaram análises referentes aos demais segmentos e aos reflexos das políticas públicas sobre a cadeia do leite. Nesse momento, alguns pesquisadores como Farina (1993) e Homem de Melo (1995), (apud MARTINS; FARIA, 2006) deram início à discussão da nefasta intervenção do Governo, concluindo que este, por sua vez, deveria ser o principal responsável pelo baixo dinamismo produtivo então existente. Além do fato de que os preços reais recebidos pelos produtores de leite haviam sido reduzidos anualmente, chegando em 1984 a 66% do que eram em 1977. Esse mesmo período caracterizou-se, de acordo com Paulillo e Alves (2002 apud OLIVEIRA, 2010), por diversos impasses entre Governo Federal e agentes privados lácteos. Também nessa época surgiu a Secretaria Especial de Abastecimento e Preços (SEAP), a qual foi a responsável pelas decisões tomadas em relação ao comportamento dos preços praticados no leite, sob a justificativa de controlar os preços para proteger os produtores do oligopsônio. Em 1981, o Governo motivou a liberação dos preços do leite pagos ao consumidor, porém esses 22 preços mantiveram-se os mesmos. Essa liberação aconteceu por mais um erro do governo, que, mesmo com a elevação da produção nacional, importou grande quantidade de produto, ocasionando excesso de oferta e em consequência a queda nos preços. Diante dessa problemática, associada à crise de escassez de alimentos que se instalou nos meses seguintes à implantação do Plano Cruzado1, o Governo, visando a estimular investimentos de incremento à produção e à produtividade, instituiu um programa de reajustes ao preço do leite pago ao produtor. Essa medida acabou resultando na criação, por parte da Embrapa, de uma Planilha de Custo de Produção de Leite, entretanto, seu desígnio como norteadora da evolução dos preços do leite acabou nunca se consolidando. A crise econômica enfrentada no final da década de 80, motivada pelo aumento da inflação, também representou consequências ao setor lácteo, à medida que ocasionou uma importante redução na demanda por lácteos, refletindo-se ainda negativamente sobre a produção. Ainda sob gerência do Estado, a manutenção das importações de leite em pó para atenuar os problemas de abastecimento da entressafra representava um desestímulo à produção nacional, uma vez que os produtos importados eram subsidiados em seus países de origem e tinham preços menores aos praticados no Brasil. Além do desestímulo à produção nacional, as importações realizadas, sobretudo na entressafra, representavam problemas para a formação de estoques nos períodos de safra (PAULILLO; ALVES, 2002). No ano de 1991, o Estado, não mais conseguindo sustentar a regulamentação dos preços pagos ao produtor, deixa de atuar sobre os preços praticados na cadeia do leite. O fim da definição dos preços de comercialização aconteceu sem uma prévia preparação tanto dos produtores quanto do mercado, O Plano Cruzado foi um conjunto de medidas econômicas, lançado pelo governo brasileiro em 28 de fevereiro de 1986, com base no decreto-lei nº 2.283, de 27 de fevereiro de 1986. Suas principais medidas foram o congelamento de preços de bens e serviços; congelamento da Taxa de Cambio por um ano; reforma monetária, com alteração da unidade do sistema monetário, que passou a denominar-se cruzado (Cz$), cujo valor correspondia a mil unidades de cruzeiro; congelamento dos salários pela média de seu valor dos últimos seis meses e do salário mínimo em Cz$ 804,00, que era igual a aproximadamente US$ 67,00 (PLANO CRUZADO, 2010). 1 23 que, por sua vez, determinou uma instabilidade nos preços a serem praticados nos primeiros anos, justificada pela insuficiente prática em negociar dos agentes envolvidos. Para os autores, restrições como a baixa produtividade por animal e por propriedade, bem como a qualidade inferior do leite entregue aos laticínios continuavam sendo problemas a ser enfrentados, principalmente visando a tornar a atividade láctea competitiva frente aos produtos importados (MARTINS; FARIA, 2006). Inicialmente a desregulamentação dos preços do leite por parte do Governo gerou um período de turbulência, principalmente nutrida pela diferença de interesses da indústria e dos produtores. Superado esse momento inicial, observou-se um período em que predominaram os esforços no sentido de superar as ineficiências na redução dos custos de produção, assim como melhorar a qualidade do produto e diversificar os seus derivados. Pela primeira vez a busca pela eficiência ultrapassou as porteiras da fazenda e chegou até o varejo, com mudanças e investimentos direcionados a todos os segmentos da cadeia leiteira. Esse fato recente foi o principal responsável por inserir o setor na lógica de organização industrial por meio de uma cadeia produtiva, conceito este que, de acordo com Martins e Faria (2006), foi determinante a redução dos custos em países mais desenvolvidos e especializados na produção leiteira como os Estados Unidos, Europa e Argentina. Como resultado das profundas alterações sofridas no setor leiteiro na década de 90, após 40 anos de tabelamento nos preços permitindo que as forças de mercado determinassem o comportamento nos preços dos produtos da cadeia láctea, o que se viu foi um dinamismo na busca de soluções para os diferentes fatores limitantes ao desenvolvimento desta atividade. Outro elemento importante, além da liberalização do mercado, foi a concretização de um acordo regional de comércio com a Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, formando o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL). No próprio Brasil, o lançamento do Plano Real2, em 1994, foi 2 Plano Real foi um programa brasileiro com o objetivo de estabilização econômica, iniciado oficialmente em 27 de fevereiro de 1994 com a publicação da Medida Provisória nº 434 no Diário Oficial da União. Tal Medida Provisória instituiu a Unidade Real de Valor (URV), estabeleceu regras de conversão e uso de valores monetários, iniciou a desindexação da economia, e determinou o lançamento de uma nova moeda, o Real. O programa foi o mais amplo plano econômico já realizado no Brasil, e tinha como objetivo principal o controle da hiperinflação que assolava o país (PLANO REAL, 2010). 24 fundamental, rompendo com o ciclo inflacionário na economia e permitindo um crescimento sustentado no consumo dos produtos lácteos (FONTE et al, 1998). Esses diversos acontecimentos em conjunto, ou mesmo tratados de forma isolada, foram promotores de drásticas alterações na cadeia produtiva do leite. As indústrias, ao depararem com um cenário de economia globalizada, empenharam-se em ampliar suas escalas pela aquisição de outras empresas, ou mesmo fusões entre elas. Também fizeram parte de suas pautas os investimentos na modernização de seus parques industriais, assim como o aumento nos investimentos em pesquisa visando ao lançamento de novos produtos para atender um consumidor cada vez mais exigente e a um mercado em expansão. De acordo com Fonte et al (1998, p. 2), em um ambiente competitivo e com importações liberadas às indústrias intensificaram suas exigências junto aos produtores de leite, quanto à qualidade da matéria-prima, continuidade de fornecimento e escala de produção. Os produtores, por sua vez, jogados nas novas regras de mercado, assistiram ao avanço da concorrência internacional, com a entrada de produtos subsidiados da União Européia e também dos países do MERCOSUL, com tarifas preferenciais. Diante deste novo cenário, quem deparou com maiores dificuldades foram as unidades produtivas por apresentarem estruturas mais frágeis. Com sua composição predominantemente familiar e de subsistência, acabaram tornando-se praticamente incapacitadas a reagir às mudanças impostas pelas exigências do mercado. Este problema persiste até os dias atuais, e, embora uma importante gama de produtores esteja acompanhando as modificações impostas pelo setor industrial, está ocorrendo, de outro lado, a exclusão de um grande contingente de produtores incapacitados de atender às exigências de um setor que entrou na era da competitividade e numa economia globalizada (FONTE et al, 1998). Outro fator determinante às características atuais da cadeia de produção do leite é a tendência à concentração dos mercados, processo que se iniciou por volta dos anos 70 e acentuou-se na década de 90, quando ocorreu a incorporação e a associação de empresas, em geral de nacionais com transnacionais, ao mesmo tempo em que novas plantas industriais foram e estão sendo implementadas, principalmente nas regiões Centro-Oeste e Sul. Para além da busca do poder de mercado, com o objetivo de melhorar o desempenho e a maximização dos lucros, os 25 principais laticínios estão reduzindo o número de fornecedores de matéria-prima, sem que haja redução no volume de captação (MARTINS; FARIA, 2006). Dentro da ótica de melhorar o desempenho, Martins e Farias (2006) ressaltam que tem se verificado, nos últimos anos, a indústria de laticínios como a principal responsável pela implementação de transformações em diferentes segmentos da cadeia produtiva. Fomentou a aquisição de tanques de resfriamento pelos produtores, induziu a adoção de tecnologias intensivas em pastagens e na melhoria administrativa das unidades de produção. Tem investido em plantas industriais de maior escala e tecnologias de processamento mais eficientes que levam a diferenciação de produtos visando à manutenção e a conquista de mercados, evidenciando um novo perfil da indústria, que tem motivado mudanças na cultura das empresas no sentido de se manterem atualizadas frente às tendências mundiais do setor. Quanto às características das novas plantas dos grandes grupos empresariais, destacam-se os segmentos que apresentam maior índice de automação e reduzido número de produtos na linha de produção, como o leite Ultra High Temperacture – UTH, conhecido como longa vida, o leite condensado e o leite em pó. Nestes casos, o que se verifica é o menor número de postos de trabalho, com maior qualificação. Por outro lado, as empresas têm promovido profundas reformas administrativas, buscando a simplificação das estruturas hierárquicas para maior agilidade na tomada de decisão. Para os autores, Num contexto de poucas barreiras tecnológicas, a capacidade gerencial e a flexibilidade organizacional tornam-se os aspectos mais importantes de competitividade. [...] embora intenso, o investimento tecnológico tem sido freado por instabilidades do mercado e de políticas públicas, além da concorrência em grande escala com produtos não inspecionados. (MARTINS; FARIA, 2006, p. 57). Sob este contexto, a instabilidade do mercado impede a sólida coordenação da cadeia produtiva por parte da indústria. A conservação de plenos vínculos com outros setores da economia e, especialmente, com o agronegócio tem possibilitado estabelecer padrões de matéria-prima, insumos e equipamentos, ou seja, a montante da cadeia produtiva. Assim, dois pontos inibem o pleno exercício de 26 coordenação. “O primeiro diz respeito a sua relação com os supermercados. O segundo refere-se ao fato de a demanda de lácteos ser influenciada solidamente pelo poder aquisitivo do consumidor” (MARTINS; FARIA, 2006, p. 57), que, por sua vez, tem-se comportado de maneira instável no decorrer dos anos, além da facilidade/dificuldade de o mercado importar leite. Outro fator determinante para os pesquisadores é que o mercado nacional do leite conta com dois agentes importantes que levam em consideração variáveis diferentes na decisão de comportamento: O consumidor é quem desencadeia o processo. A decisão de consumo lácteo relaciona-se positivamente com o poder de compra e inversamente ao preço relativo dos derivados lácteos, frente aos demais produtos. Assim, se a redução da sua renda real, motivada por inflação, ou se perspectiva de desaquecimento da economia e uma provável onda de desemprego, ou ainda, se o preço do leite e de derivados está relativamente mais elevado que de outros bens e serviços disponíveis, a tendência é de retração do consumo. (MARTINS; FARIA, 2006, p. 57). E, por fim, do outro lado, a indústria é que irá considerar a perspectiva de comportamento da demanda, “se a mesma apresenta tendência de aumento ou retração, e também a facilidade de obtenção de produtos importados, para estabelecer os preços que irá praticar” (MARTINS; FARIA, 2006, p. 57). Nessa situação, o que se verifica é que a análise leva em consideração os preços internos e os internacionais, estes últimos, influenciados fortemente pela cotação do dólar americano frente à moeda nacional. Além de todos esses fatores que influenciam e interferem na cadeia do leite, o Governo brasileiro implementou o Programa Nacional de Melhoria na Qualidade do Leite (PNMQL), que se encontra em vigor desde 2005. Esta ação tem por objetivo melhorar as características sanitárias da atividade leiteira a partir de mudanças na legislação. Assim, foi lançada a Instrução Normativa 51, em vigor desde setembro de 2002, prevendo diversas exigências quanto ao manejo do leite, tendo como exemplo a exigência de granelização total do leite. Entretanto, essas medidas previstas têm-se tornado alvo de polêmicas pela incapacidade de adaptação de importante parcela de produtores, podendo gerar um aumento ainda maior da exclusão e êxodo dos produtores rurais. 27 A partir de todas essas mudanças ocorridas no setor leiteiro houve uma reestruturação em novas bases priorizando por parte das indústrias principalmente os ganhos em escala e qualidade, tanto na produção leiteira como nos diversos processos de transformação sofridos pelo leite na elaboração dos seus subprodutos. O subcapítulo a seguir será destinado à elucidação das tendências da cadeia láctea e suas prováveis repercussões tanto na produção primária quanto no mercado e na indústria. 1.2 Tendências da cadeia leiteira Falar sobre as tendências das cadeias produtivas do agronegócio é sempre uma tarefa difícil. Devido às incertezas que cercam o setor, qualquer diagnóstico é sempre complicado de ser elaborado, uma vez que diversos fatores incontroláveis, como clima, demanda, renda, câmbio, juros influenciam diretamente o comportamento dos diversos elos da cadeia. Outro desafio consiste na falta de coordenação que faz com que o setor não tenha informações e organização suficientes para criar e avaliar os cenários para a cadeia. Com as mudanças estruturais da economia ocorridas após a desregulamentação da cadeia do leite em 1991, obteve-se maior eficiência e dinamismo na cadeia produtiva, muito em função das condições competitivas adversas impostas aos agentes, destacando-se o câmbio sobrevalorizado, a alta taxa de juros e da elevada carga tributária. Assim, mesmo que a desregulamentação tenha levado à intensa busca de ganhos em escala, permitindo a redução do preço do leite recebido pelos produtores, também determinou uma série de dificuldades de permanência no mercado aos agentes que não perceberam as mudanças, ou não tiveram tempo e condições de se adaptar. Esta situação é característica tanto do setor primário quanto do setor de transformações, que vem passando por uma acelerada concentração industrial (MARTINS; FARIA, 2006). Esse fato se explica uma vez que o setor abandonou a condição de importador líquido de leite e vem alcançando resultados positivos na balança comercial, mesmo que ainda de pouca significância, mas com tendência a crescer se o real vier a passar por um processo de desvalorização. Contudo, segundo os 28 autores, precisa-se considerar uma nova realidade que vem se afirmando. A produção nacional entre 1991 e 2005 cresceu 59,5%, e o PIB per capita 19,5%, demonstrando que a produção brasileira cresceu ocupando o mercado que antes pertencia ao produto advindo das importações e que deixou de ocorrer com as medidas antidumping adotadas, que reduziram as importações a partir de 2001 (MARTINS; FARIA, 2006). Mas como a produção tem apresentado “tendência de crescimento superior à tendência de aumento de consumo per capita, é possível que o país viva uma crise estrutural de excesso de oferta” (MARTINS; FARIA, 2006, p. 65). Para tornar essa situação ainda mais complexa, a cadeia do leite hoje começa a se dividir e a lutar por espaços por produtos substitutos lácteos, como a imensa gama de sucos e bebidas lácteas derivadas da soja, que tem sido defendida por muitos pelas suas características nutricionais e percentuais de gordura mais baixos. Nesse contexto, políticas de promoção e melhoria de qualidade dos derivados lácteos são e serão determinantes à manutenção da cadeia nesse cenário. Seguindo por este viés, sob os olhos da pesquisa, a corrida tecnológica é um processo contínuo, e quem se estabilizar estará sujeito a ficar para trás. Conforme Martins e Faria (2006, p. 65), um novo cenário se abre a partir das novas tendências que estão surgindo e, A pesquisa no leite se vê diante de desafios claros, como gerar uma matéria-prima para a indústria sem nenhum resíduo que afete a saúde. A produção e o processamento deverão não degradar o meio ambiente e os derivados lácteos deverão ser obtidos numa conversão que utilize cada vez menos o leite por quilo de produto final obtido. Sob a ótica dessas novas demandas, já está se afetando por completo a lógica de manejo, tanto dos animais quanto das pastagens, do destino dos dejetos associado à nova legislação ambiental, da genética, adaptando os animais às diferentes condições encontradas no setor primário, entre outros elos da cadeia do leite, que vem sofrendo diversas alterações focadas nas propostas de um desenvolvimento sustentável. Além desses fatores, destaca-se que a pesquisa ocupará um papel cada vez mais determinante na cadeia, uma vez que a utilização 29 do leite como insumo para novos produtos será cada vez mais frequente como mecanismo de agregação de valor à matéria-prima. Outro ponto que deve ser abordado que tem interferência sobre a demanda da produção leiteira é a mudança do comportamento da população na busca de uma alimentação mais saudável, acompanhada pelo envelhecimento previsível da população, resultado do aumento da expectativa de vida e da redução gradual na taxa na natalidade. O aspecto anterior abre espaço para duas vertentes. A primeira, direcionada a busca de uma alimentação mais saudável, tem feito com que a população tenha substituído o consumo de alimentos que posam resultar em obesidade, ou riscos à saúde, por alimentos como o leite. Nesse sentido, o consumo de leite tem aumentado, determinando um maior crescimento ao setor. Por outro lado, a questão do envelhecimento da população deve criar problemas à cadeia leiteira, uma vez que, ao analisar o consumo de leite pela população brasileira nos dias de hoje, observa-se que a maior parte no consumo está entre os mais jovens. Assim, a quantidade de volume a ser consumido, sob a ótica deste aspecto, tende a diminuir (NEVES; CAMPOS; CÔNSOLI, 2006). A própria melhor distribuição de renda, mesmo que pareça ainda muito distante, parece ter começado a dar seus primeiros passos, e esta tendência futuramente pode gerar um consumo mais alto, especialmente quanto aos derivados lácteos, uma vez que o leite fluido já pode ser encontrado com preços acessíveis pelo menos à imensa maioria da população. Também no círculo de mudanças que podem interferir no consumo de produtos lácteos aparece a crescente inserção das mulheres no mercado de trabalho. Este fato desencadeou uma procura por alimentos de preparo mais rápido, pois as mulheres precisam sair para trabalhar e têm seu tempo limitado para preparar os alimentos para a família. É importante que a cadeia esteja atenta a esta mudança para adequar, posicionar-se e não perder espaço para outras cadeias que produzem produtos substitutos do leite e seus derivados (NEVES; CAMPOS; CÔNSOLI, 2006). 30 Mais ligado ao aspecto econômico entre os diversos elos da cadeia leiteira, existe a discussão de que o leite se apresenta como um bom negócio. Martins (2005 apud NEVES; CAMPOS; CÔNSOLI, 2006) assevera que a cadeia do leite consiste em um negócio interessante para todos, desde o governo com a arrecadação de impostos até os demais componentes da cadeia; desde o setor de insumos até os consumidores. Para tanto, o autor apresenta estudos realizados pela Embrapa, os quais evidenciam que os produtores obtêm lucros na atividade, prova disto é o aumento da produção nos últimos anos, bem como a incorporação de novos produtores à atividade láctea. Sob o aspecto internacional, ao qual o leite brasileiro se encontra inserido, Carvalho (2005 apud NEVES; CAMPOS; CONSOLI, 2006) ressalva que os subsídios impostos pelos países ricos devem diminuir, o que pode possibilitar uma maior abertura ao mercado para os produtos lácteos. Entretanto, conforme suas convicções, o Brasil não é visto como uma unanimidade, como outros países fornecedores de leite no mundo. Aparecem como fortes candidatos a ocuparem esse espaço, Rússia, Nova Zelândia, Estados Unidos e alguns países da União Europeia. Como explicação ao descrédito brasileiro em se tornar uma grande potência em exportação de leite, o autor defende a tese que se baseia na baixa organização e na falta de ações estratégicas que possam determinar maior consistência à cadeia do leite. Finalmente, o novo cenário merece uma reflexão intensa de todos aqueles que, de alguma forma, se dedicam ou se inter-relacionam com a cadeia de produção da atividade láctea. Em um passado pouco distante, o Estado foi quem promoveu e custeou as pesquisas. No presente, este modelo se mostra totalmente reproduzido. Assim emerge o grande desafio ao sucesso da cadeia: como continuar avançando com a elevação crescente dos custos de pesquisa? Como continuar mantendo a trajetória vitoriosa de competitividade? Como depender somente de recursos públicos se na parte rica do mundo não é mais assim? Afinal, a máxima de Pero Vaz de Caminha é uma meia verdade. “Nessa terra, em se plantando, tudo dá [...]”, desde que por trás haja pesquisa (apud MARTINS; FARIA, 2006, p. 65). 31 Buscando responder às incertezas credenciadas a todas as mudanças e à atual tendência do setor lácteo, o subcapítulo a seguir traz a caracterização atual do desenvolvimento das atividades de alguns elos da cadeira leiteira, em especial o mercado e a produção, bem como do comportamento da expansão territorial a outras zonas produtivas e, em contraponto, a concentração de outras áreas de produção e beneficiamento. 1.3 Panorama da cadeia do leite no Brasil Como já mencionado, é notório que a cadeia leiteira tem passado por diversas modificações, tanto em seu elo estrutural quanto aos volumes produzidos no Brasil e no mundo. A produção mundial, conforme Sluszz et al (2006), teve um aumento de 11,1% nos últimos dez anos, tendo nos Estados Unidos seu maior produtor, contribuindo com 15% do volume total, seguido pela Índia (7,3%), Rússia (6%), Alemanha (5,4%) e França (4,7%), o que no ano de 2004 representava no total uma produção de aproximadamente 515.837 mil litros. O Brasil, nesse mesmo ano, foi responsável por uma produção de 4,5 % do total, ocupando a sexta posição no ranking mundial com um volume de 23.320 mil litros. No período de 1995 a 2004, a produção nacional desempenhou um aumento de 37,7%. Com este resultado, em 2004, o Brasil ocupou a segunda posição no ranking dos países produtores de leite da América, atrás apenas dos Estados Unidos. Sem dúvida, hoje o Brasil tem potencial para aumentar sua produção de leite em ritmo bem maior do que a Argentina, grande concorrente na América do Sul. De acordo com os pesquisadores da Embrapa Gado de Leite, Zoccal e Carneiro (2008), esta foi uma das principais constatações da reunião realizada pela Federação Panamericana da Indústria de Laticínios (FEPALE) no final de 2007. A produção de leite nos 10 países da América do Sul somou 50,2 bilhões de litros (Brasil - 25,3 bilhões de litros; Argentina - 8,1; Colômbia - 6,7; Equador - 2,5; Chile -2,4; Uruguai 1,8; Peru -1,3; Venezuela -1,3; Paraguai - 0,3 e Bolívia - 0,2). Somente o Brasil produz 50% deste volume, de acordo com os dados da Food and Agriculture Organization (FAO). No cenário mundial, o Brasil ocupa a 6º posição, ficando atrás somente dos EUA (82,4 bilhões de litro), Índia (39,8), China (32,2), Rússia (31,1) e Alemanha (28,5). A produção mundial, em 2006, foi de 546 bilhões de litros. 32 Seguramente no Brasil de hoje, a importância que atividade da cadeia leiteira ocupa é incontestável, tanto pelo seu desempenho econômico, quanto pela geração de empregos permanentes. Afirmativa esta, embasada nos dados de Zoccal e Carneiro (2008) que em seus trabalhos destacam uma produção no ano de 2007 de 26,4 bilhões de litros, gerando um valor bruto de produção ao redor de R$ 15 bilhões. Quanto ao número de pessoas envolvidas no setor primário, estima-se que mais de cinco milhões trabalhem diretamente com o leite, além de, até 2007, 1,3 milhões de produtores. A pecuária brasileira distingue-se da praticada na maioria dos demais países por duas características: mesmo o Brasil sendo um país continental, com condições agroecológicas muito diversas, a produção leiteira ocorre em todo o território nacional. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), existe a informação da presença desta atividade em 554 das 558 microrregiões consideradas pelo Instituto. A segunda característica é que não existe um padrão de produção, sendo marcante a heterogeneidade nos sistemas que se encontram presentes em todas as unidades da federação. São encontradas propriedades desde subsistência com baixíssima especialização e produção diária de menos de 10 litros, até produtores extremamente especializados, comparáveis aos mais competitivos do mundo, com tecnologias avançadas e produção diária superior a 60 mil litros (ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). Atualmente, estima-se que 2,3% das propriedades leiteiras são especializadas e atuam como empresas rurais eficientes. Esses sistemas de produção respondem por aproximadamente 44% do total de leite do País. Por outro lado, 90% dos produtores são considerados pequenos, com baixo volume de produção diário, baixa produtividade por animal e pouco uso de tecnologias. Apesar de representarem a maioria dos produtores brasileiros de leite, respondem por apenas 20% da produção total. Existe ainda um grupo intermediário, formado por 7,7% dos produtores, que respondem por 36% da produção (STOCK et al., 2007, apud ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). Outro fator determinante quanto à estrutura da produção de leite no Brasil é que esta acompanha o processo de urbanização e colonização do território nacional, determinando assim que nas regiões onde existe maior concentração populacional também se situam os maiores índices de produção. Conforme Zoccal e Carneiro 33 (2008), já em 1975 o País produziu em torno de 8 bilhões de litros de leite, e como demonstra a Figura 1, os locais de maior produção, correspondendo a 75% e representando 6 milhões de litros, foram também aqueles ocupados pelas maiores densidades populacionais. Figura 1: Microrregiões classificadas por densidade de produção e que totalizavam 75% do volume total de leite em 1975. Fonte: IBGE/PPM (apud ZOOCAL; CARNEIRO, 2008). De acordo com o mapa, constata-se que as áreas mais importantes na atividade leiteira eram também as mais urbanizadas do País. Portanto de acordo com a figura, destacam-se regiões centro-sul de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. Já na Região Sul, destacam-se as microrregiões de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Por fim, no Centro-Oeste é a região central de Goiás a que apresenta maior concentração na produção, e no Nordeste aparecem as regiões do Agreste alagoano, pernambucano e paraibano (ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). De uma maneira geral, a produção de leite no Brasil vem crescendo em torno de 4% ao ano. Segundo dados da Embrapa Gado de Leite, em 2007 o País produziu 34 26,4 bilhões de litros. Entretanto, este volume, quando relacionado com o número de habitantes brasileiros, evidencia que esta produção é suficiente apenas para que cada cidadão tenha disponível diariamente menos de dois copos de leite (0,387 litros/habitante/dia). Para conseguirmos atender ao consumo recomendado pelo Ministério da Saúde (210 litros/pessoa/ano ou 0,575 litros/habitante/dia), o volume total de produção do país deveria alcançar os 39 bilhões de litros/ano, se considerarmos uma população de 186,9 milhões de habitantes (ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). A evolução da produtividade de leite no Brasil pode ser visualizada pela comparação dos mapas correspondentes às figuras 1 e 2 que expressam, respectivamente, os locais onde se concentram 75% da produção leiteira por área nos anos de 1975 e 2007. Como contraste dos mapas, observa-se que ocorreu expansão e intensificação da atividade leiteira nos estados da região Sul. Nas regiões do Triângulo Mineiro e Centro-Sul de Goiás, verificou-se um aumento na produção, assim como houve também acréscimo na produtividade em áreas não tradicionais, como é o caso de Rondônia. Em contraponto, São Paulo, que produzia 1,8 bilhões de litros, teve reduzida sua participação no panorama nacional (ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). 35 Figura 2: Microrregiões classificadas por densidade de produção e que totalizavam 75% do volume total de leite em 2007 Fonte: IBGE/PPM (apud ZOOCAL; CARNEIRO, 2008). Para visualizar como transcorreram as mudanças geográficas do acréscimo de produção da pecuária de leite brasileira nos últimos dez anos (1998 a 2007), é possível analisar a figura 3, onde são destacadas apenas as 72 microrregiões que apresentaram, no mínimo, ampliação de 10 mil litros de leite por dia (aproximadamente 36 milhões de litros/ano) nas suas áreas de alcance (ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). De acordo com o expresso pelo mapa da figura 3, existem quatro regiões que já eram representativas por apresentarem alta densidade de produção e que obtiveram incremento de produção aos seus índices. Conforme constataram Zoccal e Carneiro (2008), a primeira delas está localizada no Sul do País, nas regiões norte do Rio Grande do Sul, oeste de Santa Catarina e sudoeste do Paraná. Também se destacou pelo crescimento a região do centro-sul de Minas Gerais, a Zona da Mata e Triângulo Mineiro/Alto Paranaíba, Vale do Rio Doce e Vale do Mucuri nos estado de Minas Gerais. A terceira integrante das regiões que obtiveram os maiores aumentos na produção está localizada no estado de Rondônia e leste do Acre, 36 inclusive caracterizando-se por uma sólida vocação leiteira. Por último, mas não menos importante, aparece o Nordeste, principalmente as microrregiões do Agreste. Figura 3: Microrregiões classificadas pelo aumento do volume de leite em 1998 e 2007 Fonte: IBGE/PPM (apud ZOOCAL; CARNEIRO, 2008). Verifica-se também no mapa da figura 3 o crescimento na produção de duas regiões que não eram tradicionais, o centro-leste do Pará e o centro-oeste do Maranhão. Outra região que se destacou, mas não tão significativamente quanto a anterior, está localizada na Bahia. Assim, evidencia-se que o leite tem crescido além das áreas tradicionais, ocupando áreas até então não expressivas à produção láctea. Em dados apresentados por Zoccal e Carneiro (2008) pode-se constatar o aumento da produção em Chapecó/SC, por exemplo, área já tradicional na produção leiteira que demonstrou um aumento de 122 para 455 milhões de litros/ano de 1998 a 2007, e em São Félix do Xingu, microrregião não tradicional, uma ampliação de 32 para 122 milhões no mesmo período. Para tanto, foi necessário que muitos fatores contribuíssem na atividade leiteira brasileira. Na Região Sul, por exemplo, a possibilidade de aumento na renda por área tem-se constituído de importante elemento atrativo quando comparado com 37 a cultura de grãos. Nesta região, verifica-se uma expansão das áreas cultivadas com pastagens perenes associadas a melhorias no manejo dos animais e na correção do solo. Igualmente, pode ser observado aumento de conservação de forragens, sobretudo a ensilagem de forrageiras de inverno, como aveia branca, cevada e trigo. Na outra ponta da cadeia de produção estão sendo desenvolvidos projetos e instalações de novas indústrias para beneficiamento do leite e seus derivados (ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). Como consequência de todo esse movimento em prol do aumento da produção na região Sul, em especial no Rio Grande do Sul, especificamente na região noroeste, objeto maior deste trabalho, foi observada uma evolução bastante significativa nos índices de produção anual. De acordo com a figura 4, é possível identificar que, principalmente nos anos de 2004 a 2006, houve um importante incremento na produção de leite na região noroeste, região esta que representa a maior parte do leite produzido no Estado. Figura 4: Evolução da Produção de Leite entre as Regiões do RS Fonte: Silva Neto e Basso (2005, p. 58). 38 Já na região Norte, Zoccal e Carneiro (2008) constataram que o crescimento tem acontecido especialmente pelo ingresso de novos produtores à atividade, em sua maioria, assentados da reforma agrária ou mesmo participantes de projetos de colonização. Para essas famílias, o leite pode representar, em um primeiro momento, a garantia de alimento, posteriormente, depois de estarem estruturados, a atividade pode consistir além de uma renda mensal, a consolidação de uma poupança com os animais. Sob o ponto de vista de um panorama mais geral, a atividade leiteira ainda tem muito a melhorar no País. Alguns problemas acompanham o setor desde seus primeiros passos. São eles, a sanidade do rebanho, a qualidade do leite produzido, a produtividade por animal e por área, a alimentação sobretudo nos meses de seca e no uso de rações concentradas, além da administração e ingerência das unidades produtivas. No entanto, os autores atestam que no Brasil, atualmente, existe tecnologia compatível à desenvolvida e utilizada nos países de primeiro mundo (ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). Quanto ao consumo, a demanda interna tem apresentado aumento gradual e mesmo que de forma lenta representa um atrativo aos investimentos na atividade. Já o consumo per capita encontra-se com comportamento estagnado, influenciado pela concorrência dos diversos substitutos lácteos, especialmente as bebidas à base de soja. As modificações propostas, como as implementadas pelo Plano Real, na distribuição de renda, mostraram-se positivas quanto ao aumento na demanda de produtos lácteos, principalmente quando acompanhadas de campanhas de marketing, ressaltando a importância dos aspectos nutricionais e a multifuncionalidade do leite. Finalmente, estimular o consumo doméstico do leite junto ao mercado interno, bem como escoar os excedentes de produção ao mercado externo consistem seguramente em possibilidades positivas à expansão sustentável do setor no Brasil. Aspectos como a melhor remuneração dos produtores devem ser imperativos ao fortalecimento da cadeia produtiva do leite, bem como investimentos nos demais setores que a compõem. 39 Dentre as tantas modificações ocorridas na cadeia láctea, o elo industrial tem passado por grandes modificações como já discutido anteriormente nesta pesquisa. O Rio Grande do Sul, em especial a região noroeste, atualmente desempenha um importante papel tanto na produção quanto na industrialização de lácteos. Para tanto, a seguir discutiremos a importância da região para a cadeia láctea, bem como as transformações/incorporações que vêm acontecendo nos últimos anos. 1.4 Cadeia do leite no Rio Grande do Sul – situação das empresas do setor lácteo Atualmente o País se encontra entre os grandes produtores mundiais de leite, ocupando a sexta colocação. O Rio Grande do Sul, que até pouco tempo ocupava a terceira posição no ranking nacional, hoje representa a segunda, totalizando pouco mais de 10% da produção brasileira, atrás apenas de Minas Gerais que detém 28% (ZOCCAL; CARNEIRO, 2008). Ainda no ano de 2007, o Governo do Estado em informativo alusivo às comemorações do dia do leite, 19 de setembro, afirmava pelo Secretário da Agricultura João Carlos Machado que o Estado deveria registrar um aumento ao redor dos 20%, e, inclusive, que este crescimento deveria ser seguido como meta para os anos seguintes para alcançar a produtividade esperada pela indústria láctea (MACHADO, 2007). Naquele momento, o Estado do Rio Grande do Sul possuía uma capacidade de recebimento e industrialização de 2,2 milhões de litros/dia. No entanto, com a instalação das novas plantas industriais, previstas para os dois próximos anos, a capacidade instalada subiria para quase 6 milhões de litros/dia. Assim, conforme Machado (2007), para atender à demanda o Estado precisaria aumentar em 50% a produção até o final de 2008. Para Lang (2009), esta previsão de crescimento poderia ser alcançada, uma vez que no ano de 2009 o Estado apresentava produção em torno dos 9 milhões de litros/dia. Portanto, mesmo que inicialmente algumas das empresas a instalarem seus parques industriais possam enfrentar dificuldades quanto à sua plena 40 operacionalização, o fornecimento de matéria-prima futuramente não deverá consistir em fator limitante às operações, já que o Rio Grande do Sul, por seu clima histórico na atividade, adequação e especialização das unidades de produção, é o mais adequado Estado da Federação para sediar a instalação e a ampliação das empresas do setor lácteo e se tornar a grande bacia leiteira do País. A região noroeste do Rio Grande do Sul é responsável por 65% de toda a produção de leite no Estado. Até a década de 90, apenas duas empresas eram responsáveis pela maioria do volume de leite comercializado, a Parmalat e a Elege. Todavia, com a crise enfrentada pela Parmalat, outras tradicionais empresas ampliam sua importância no montante de leite a ser negociado (OLIVEIRA, 2010). Com a reestruturação do setor industrial, diversas empresas iniciaram ou mesmo fortaleceram sua participação no mercado gaúcho. Dentre elas destacam-se as novas plantas industriais de leite que já se instalaram ou estão em obras, são elas: Nestlé (Palmeira das Missões), Embaré (Sarandi), CCGL (Cruz Alta) e Italac (Passo Fundo). Em ampliação estão a Consulati (Pelotas), Bom Gosto (Pejuçara) e Elegê (Passo Fundo). Apenas no caso da CCGL, as instalações preveem um volume de matéria-prima disponibilizado pelos associados de 1.000.000 de litros/dia, destinados principalmente para a exportação. Já a Perdigão (Brasil Food), que assumiu o parque da Elege alimentos, prevê a implantação de mais uma unidade no município de Três de Maio, com capacidade de recebimento e processamento de 600.000 litros/dia. Através deste aporte de investimentos, o Secretário da Agricultura acredita que o Estado é capaz de lutar pelo primeiro lugar no ranking nacional de produção (MACHADO, 2007; OLIVEIRA, 2010). Buscando o crescimento da produtividade, as indústrias adotam estratégias de aumentar sua rentabilidade (OLIVEIRA, 2010). Para tanto, estabelecem medidas para majorar sua produção, escala e, por consequência, o aumento no volume produzido na unidade de produção. Dentre as práticas utilizadas, destaca-se o desafio de melhorar o rendimento da produtividade por animal, de 7 para 20 litros/vaca/dia, buscando chegar ao patamar dos 15 mil litros por hectare/ano com uma lotação de 3 a 4 animais em lactação por hectare de pastagem. Para fomentar esses avanços, as empresas adotam uma política de preços focada na quantidade 41 de leite entregue; os produtores são bonificados no valor pago por litro quão maiores forem os volumes captados. A melhoria na qualidade da matéria-prima e a granelização da produção também são fatores que determinam diferenciação nos preços pagos aos produtores. Outro movimento que se pode observar é que, com a reestruturação produtiva do setor, diversos agricultores não possuíam condições de adequação às novas exigências impostas pela indústria em cumprimento às alterações determinadas pela Normativa 51. Consequentemente, a tendência direta seria a sua exclusão da atividade, no entanto, esses produtores passam a buscar alternativas na organização coletiva, formando pequenas cooperativas de agricultores familiares, as quais vieram a permitir a aquisição de tanques de expansão, de maneira associada, oportunizando o direito a receber valores maiores pelo leite produzido. Oliveira (2010) destaca em seus estudos que este tipo de organização permitiu aos agricultores receberem até 20% a mais que os valores pagos normalmente. Por sua vez, as pequenas cooperativas têm historicamente enfrentado problemas para se estabelecer e manterem-se no mercado. Um dos principais problemas é que aqueles associados que vão alcançando os maiores volumes de produção passam a se constituir em alvo e são atraídos pelos preços mais atrativos pagos pelas empresas lácteas, em função da escala produzida. Assim, muitas vezes, acabam desestruturando os sistemas de funcionamento dessas cooperativas. A melhoria no preço pago aos produtores também é um fator determinante ao fortalecimento da cadeia e encontra-se diretamente relacionado ao estabelecimento de esforços em prol do aumento da produção. O secretário de Agricultura lembra que, em 2006, o preço médio do litro pago ao produtor ficava na faixa de R$ 0,35. Em 2007, o valor subiu para uma média de R$ 0,65, chegando, em alguns casos, a R$ 0,70 o litro, o que contribuiu muito para a elevação da produção. Contudo, esses preços não se sustentaram por muito tempo; já no ano seguinte, em especial os pequenos produtores enfrentaram quedas nos valores pagos ao seu produto, dificultando, inclusive, a necessidade de honrar seus contratos de investimentos fomentados pelo aquecimento do setor lácteo (MACHADO, 2007). 42 Machado (2007) lembra ainda do valor de se conscientizar os gaúchos e a população em geral da importância do leite como alimento completo. embora essencial para as crianças até os 12 anos, o leite também é importante na fase adulta. Fonte rica de cálcio, vitaminas e proteínas, beber leite garante uma vida saudável na maturidade e ajuda a evitar problemas na melhor idade. (MACHADO, 2007, p. 1). Além da vital importância para a saúde da população, o leite e a cadeia láctea são fundamentais à boa saúde da própria economia gaúcha, uma vez que são grande fonte de geração de renda e empregos. O setor lácteo movimentava já no ano de 2007 mais de 8 bilhões ao ano. E mais, conforme Lang (2009), no Estado existem 140 mil produtores de leite, sendo que muitos destes dependem unicamente dessa atividade como fonte de renda. A cadeia do leite compreende ainda o envolvimento direto e indireto de mais de 730 mil pessoas, o que, naquele momento representava 7% do total da população gaúcha. Dados estes que demonstram a magnitude desta atividade e reafirmam o valor do setor lácteo. Além de toda importância nacional e internacional da cadeia leiteira, a região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, foco maior desta pesquisa, está diretamente relacionada à produção e atualmente também em crescente expansão no beneficiamento do leite. Devido à estrutura fundiária de boa parte da região, associada ao clima e às características sociais e culturais da população rural, a atividade leiteira hoje ocupa um papel determinante ao sucesso especialmente das pequenas propriedades familiares da região, bem como está diretamente relacionada à permanência dessas famílias no meio rural. Para se ter uma ideia da importância do leite, apenas a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMATER-RS/ASCAR), regional de Ijuí, conta com 18.000 produtores. Com tamanha magnitude da atividade no contexto regional, o leite ocupa um papel determinante ao desenvolvimento regional, que será discutido nos dois subcapítulos a seguir. 1.5 Produção leiteira como agente de desenvolvimento rural . O Estado gaúcho, em razão de suas condições ecológicas e socioeconômicas, detém características excepcionais para desenvolver um sistema de produção de leite particular e altamente competitivo. Este fato constitui-se, de 43 acordo com Silva Neto e Basso (2005), no principal argumento em defesa ao incentivo à produção leiteira como estratégia de promoção do desenvolvimento de algumas regiões do Estado. Os autores entendem que esta atividade é imprescindível para a construção de uma sociedade mais produtiva, socialmente mais justa e territorialmente mais equilibrada. No entanto, Silva Neto e Basso (2005) destacam que o desenvolvimento da agropecuária e o desenvolvimento rural não são vistos como processos que se apresentem necessariamente positivamente correlacionados. O aumento da produção e da produtividade na agricultura de um determinado território nem sempre resulta no acréscimo da renda e no progresso das condições de vida da sua população como um todo. Nesta mesma ótica, os autores atestam que existem duas visões quando se analisa o setor agropecuário. A primeira, que entende o desenvolvimento como um processo aberto e, consequentemente, evolutivo. A segunda relaciona-se ao pensamento hegemônico e trata o desenvolvimento como um processo fechado. Esta visão tem sido reforçada pelas instituições, tanto de governo quanto das empresas que têm desenvolvido e adotado normativas relacionadas à atividade leiteira, em especial aos produtores (SILVA NETO; BASSO, 2005). Essas instituições e seus interlocutores que entendem o desenvolvimento como um processo normativo partem do pressuposto de que existe um único caminho e modelo de atuação na produção leiteira a ser adotado. Para tanto, esse caminho deve passar pela modernização, competitividade, eficiência, especialização, além de altos índices de escalas de produção. Partem da pressuposição de que o produtor eficiente é aquele adaptado ao modelo produtivo altamente dependente de insumos externos e que alcança os maiores rendimentos físicos na sua produção. Para o caso da atividade leiteira em especial, espera-se um sistema intensivo com grande número de animais por área e propriedade, assim como produção em escala. É possível observar-se que a adoção deste modelo não demonstra preocupação com a melhoria na renda dos agricultores, e que o impacto ambiental e socioeconômico dessas práticas também não é tratado como um fator limitante à continuidade no tempo desta atividade (OLIVEIRA, 2010). 44 Entretanto, conforme a posição de Oliveira (2010 apud SILVA NETO; BASSO, 2005), quando se considera o desenvolvimento como um processo evolutivo, podese compreender que os chamados “pacotes de desenvolvimento”, a exemplo da Revolução Verde, não contribuem para o desenvolvimento rural sustentável. Em especial, pelo fato de que eles acabam não considerando as diferenciações encontradas entre os agricultores e as regiões produtoras onde eles se encontram inseridos. Sendo assim, não é possível se propor a adoção de modelos padronizados, prontos para solucionar os problemas da agropecuária. Outro aspecto negativo observado por Oliveira (2010) é a tendência da política de preços adotada pelas indústrias do leite em concentrar a produção em um número cada vez menor de produtores. Os estímulos pagos por litro aos maiores volumes de produção demonstram, ano a ano, que, mesmo com o aumento no total de leite produzido anualmente, o número de produtores vem caindo. Este fato acaba por originar um problema social. Com a falta de novas alternativas para atender à demanda desse tipo de produtores no campo, estes acabam sendo obrigados a saírem rumo às cidades em busca de novos empregos, fortalecendo, assim, a formação dos chamados bolsões de pobreza, e pior, em alguns casos tornando-se vítimas da própria marginalidade. Silva Neto e Frantz (2003 apud OLIVEIRA, 2010) ressaltam que a implantação deste sistema proposto pelas indústrias poderia apresentar consequências negativas também para o desenvolvimento rural, uma vez que originaria concentração de renda e poderia provocar uma queda no seu nível global, resultando na exclusão de um elevado número de pessoas da atividade leiteira. Conforme os autores, Para que o aumento da produção e para que os ganhos da produtividade da agropecuária possam repercutir favoravelmente sobre a economia e o desenvolvimento de uma região é imprescindível que estes sejam compatíveis com a manutenção de uma população relativamente elevada no campo, o que pressupõe produções com valor agregado suficientemente elevado e com uma distribuição eqüitativa (SILVA NETO; FRANTZ, 2003 apud SILVA NETO; BASSO, 2005, p. 55-56). 45 Acerca desta discussão, os autores entendem que, no Estado do Rio Grande do Sul, as regiões que apresentam um processo de desenvolvimento mais dinâmico são aquelas onde predomina a agricultura familiar. Silva Neto e Frantz (2005) referem-se ao processo de desenvolvimento rural como influência da história da urbanização do interior gaúcho à qual foram submetidos. Neste contexto, delimitamse como as principais regiões produtoras de leite do Estado justamente aquelas coloniais, nas quais a agricultura familiar é largamente predominante. Um dos fatores que está associado ao grande número de produtores integrados à produção leiteira é a capacidade que a atividade possui de adaptar-se a diferentes situações ecológicas e socioeconômicas. Assim, a produção de leite constitui-se em uma atividade fundamental para um amplo número de agricultores das regiões em que predomina a produção familiar, sobretudo aquelas que dispõem de pequenas e médias unidades de produção. Concretizar a atividade leiteira na esfera da produção familiar é determinante não apenas por representar uma fonte regular de renda, mas em especial pela sua magnitude em relação ao mercado. Wilkinson (1997 apud SILVA NETO; BASSO, 2005, p. 60) assinala que “a competitividade a baixos níveis de concentração e produtividade significa que a produção de leite ainda é uma opção para um grande número de produtores”. Outro fator importante a ser analisado ao se propor um modelo para a produção de leite, que colabore efetivamente para o processo de desenvolvimento de uma região, refere-se à necessidade de se partir de uma visão global dos sistemas de produção e não apenas da produção de leite isoladamente. Para o produtor e sua família, o determinante não é a competitividade de uma produção isoladamente, mas sim a garantia das condições para a sua reprodução social a partir do sistema de produção como conjunto de todas as possíveis atividades (SILVA NETO; BASSO, 2005). Para os autores, a elaboração de alternativas focadas na estratégia de desenvolvimento do setor leiteiro no Rio Grande do Sul deve estar embasada no estímulo aos pequenos e médios produtores, sendo importante que as ações estejam atreladas aos representantes da indústria de laticínios e cooperativas de produtores, bem como aos representantes do Estado e das organizações dos 46 produtores rurais. Cabe ressaltar que, na elaboração dessas alternativas, além da viabilidade técnica e econômica, é essencial dar importância às condições financeiras para sua implementação (SILVA NETO; BASSO, 2005). Já a organização da cadeia produtiva do leite, privilegiando o fortalecimento da produção a partir da ideia de escalas mínimas de produção que permitisse à maioria das famílias rurais alcançar o patamar de reprodução social, implicaria pensar a organização sob a ótica do desenvolvimento rural e não apenas do ponto de vista da acumulação privada dos agentes individuais nela envolvidos. Entretanto, uma organização nessas bases não se dá automaticamente, devendo ser o resultado de uma construção social que passa por uma relação muito estreita entre o Estado, os produtores rurais, as indústrias e as redes de distribuição. Neste sentido, os pesquisadores concordam com Wilkinson (1997 apud SILVA NETO; BASSO, 2005, p. 70) quando este assegura que [...] fortalecer a produção leiteira com base nas unidades familiares depende menos de sua competitividade tecnológica e organizacional do que do surgimento de uma coalizão de atores comprometidos com a redefinição das prioridades econômicas do desenvolvimento rural local a partir do potencial produtivo do sistema de produção familiar. Para isso, as agências públicas e os segmentos industriais precisariam superar suas tradicionais posturas de discriminação negativa em relação aos produtores com menor escalas, passando a privilegiar os tipos de agricultores e de sistemas de produção cujo papel seja mais relevante para o processo de desenvolvimento rural. Sob este aspecto, quaisquer que sejam as decisões referentes às políticas direcionadas para o desenvolvimento rural do Estado, elas ocasionarão consequências não apenas sobre as populações rurais, mas sobre a sociedade gaúcha em geral. Desta forma, as políticas direcionadas ao setor leiteiro assinalam-se como um modelo de uma demanda mais ampla que envolve a necessidade de se decidir conscientemente a respeito de qual sociedade se quer estabelecer para o Rio Grande do Sul. Na realidade, esta questão está diretamente relacionada com a proposta de desenvolvimento que se espera para o Estado, uma vez que o presente modelo, caracterizado pela concentração das atividades econômicas e a centralização urbana da renda e da população, tem originado sérios limites ao desenvolvimento do Estado e do Brasil como um todo (SILVA NETO; BASSO, 2005). 47 Como alternativa para construção de um novo modelo de desenvolvimento, capaz de assegurar uma melhor qualidade de vida para a sociedade riograndense, enfatiza-se a necessidade de definição de uma política direcionada ao meio rural que assegure a distribuição equilibrada da renda e da população sobre o território gaúcho (SILVA NETO; BASSO, 2005). Por outro lado, a produção em grande escala, indicada e fomentada pela indústria e seus atores nos anos mais recentes, pode acabar gerando um problema do qual ainda não se tomou consciência. De acordo com Oliveira (2010), os agricultores que possuem terra suficiente para atingir uma boa rentabilidade nas suas propriedades com apenas a cultura de grãos, só irão ingressar na atividade leiteira sob condições muito mais vantajosas do que aquelas enfrentadas pelos pequenos produtores. Assim, o abastecimento da indústria pode ter sua sazonalidade comprometida, principalmente nos momentos de crise quando esses agricultores tornam muito menos estáveis sua atividade por se apresentarem outras alternativas para as suas propriedades. Silva Neto e Frantz (2003 apud OLIVEIRA, 2010) ressaltam ainda que a continuidade na implantação do sistema proposto pelas empresas lácteas virá a determinar uma série de drásticas implicações ao desenvolvimento do meio rural, uma vez que poderia exacerbar ainda mais a concentração de renda no campo, ocasionando uma queda em sua condição global e provocando a eliminação de uma importante parcela de produtores da atividade leiteira. Emerge assim, como alternativa para construção de um novo modelo de desenvolvimento, capaz de assegurar uma melhor qualidade de vida para a sociedade rio-grandense, a distribuição equilibrada da renda e da população sobre o território gaúcho, por meio de uma política direcionada ao meio rural (SILVA NETO; BASSO, 2005). Tentando responder a esta problemática, o capítulo dois irá tratar tanto dos impactos das transformações, como das novas exigências da cadeia láctea, especialmente a produção. Também serão discutidas algumas políticas direcionadas ao setor e ações que vêm acontecendo por parte tanto do poder público, representados pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e pela EMATER, como de outras entidades envolvidas na busca de alternativas à 48 produção leiteira, sobretudo aquela desenvolvida pela pequena propriedade familiar. Por fim, será realizada uma breve apresentação sobre a importância da atividade e a dimensão dos dados da cadeia do leite sob o ponto de vista do Secretário da Agricultura, Pecuária e Abastecimento no governo Yeda Crusius. 49 2 A ATUAL NECESSIDADE DE REESTRUTURAÇÃO DA CADEIA REGIONAL DO LEITE Neste capítulo serão desenvolvidas as dificuldades de reorganização, especialmente dos produtores quanto à gestão, manejo e capacitação/formação da mão-de-obra. Em um segundo momento será apresentado um projeto desenvolvido na região que vem ao encontro da superação dos principais problemas enfrentados pelo elo da produção leiteira. Finalmente, discutir-se-á a cadeia do leite sob a ótica do setor público. 2.1 Complexidade e dificuldades na reestruturação produtiva e industrial do leite Como acontece em outras cadeias produtivas, na atividade leiteira é muito comum os produtores questionarem a sua viabilidade, relacionada à produção, à geração de lucro limitado ou mesmo a prejuízos. Entretanto, é fato que a produção leiteira vem crescendo no Brasil ano após ano. Em 1995, o País era responsável por um volume de produção de 16,5 bilhões de litros/ano, dez anos mais tarde esses valores já alcançavam os 25 bilhões e, em 2010, de acordo com a Associação Leite Brasil (ALB), as estimativas são de um volume (formal e informal) de aproximadamente 31 bilhões de litros/ano. Quanto ao descrédito dos resultados econômicos da produção leiteira, este aspecto se encontra intrinsecamente relacionado à estrutura de produção nacional, uma vez que 50% do total de produtores entregam menos de 50 litros por dia de leite sendo responsáveis por apenas 10% do volume de produção do País. Esta faixa de produtores é aquela que, por mais que desacredite na atividade, ainda tem no leite a única alternativa de sobrevivência das suas propriedades. Por outro lado, os produtores com mais de 200 litros/leite/dia representam apenas 10% da classe, mas entregam 50% da produção brasileira. Assim, o que se verifica atualmente na atividade é que para um grande número de produtores, menos especializados em sua maioria, a atividade possa não ser tão interessante, mas para outros a produção leiteira consiste em um excelente negócio, representando normalmente a principal 50 fonte de renda das propriedades. Para tanto, tudo depende sob qual ponto de vista se analisa este elo da cadeia láctea (AGUIAR et al, 2009). Outro fator que atinge tanto produtores quanto a indústria é a complexidade da cadeia do leite, que se inicia no elo de produção primária, para a qual o produtor necessita adquirir insumos oriundos de inúmeras outras indústrias e cadeias. Além disso, o processo de produção demanda conhecimentos de diversas outras áreas das ciências agrárias, sociais e humanas. Associada a tudo isso, a atividade ainda é reconhecidamente considerada por muitos como uma das mais penosas atividades rurais, exigindo dedicação exclusiva sete dias por semana, 365 dias por ano, independente das condições climáticas. Do lado da indústria de envase e transformação, é possível verificar-se elevada complexidade, passando pelo processo de aquisição da matéria-prima, fabricação de inúmeros derivados, negociação com diversa gama de varejistas, distribuição e logística e por fim a necessidade constante de se desenvolverem novos produtos associados à crescente competição com as bebidas derivadas de soja (CARVALHO, 2010). No caso dos produtores em especial, uma constante do problema da sua insatisfação é a demasiada preocupação com o preço do lácteo, não sendo capazes de analisar a conjuntura de todo o processo, desde a criação dos animais, custo das instalações, alimentação e manejo. Mas, na prática, o preço, exclusivamente, não define o sucesso ou o fracasso do empreendimento. Para se entender a lucratividade ou não da atividade, é preciso realizar a gestão dos custos, da renda e não somente do preço (AGUIAR, 2009). Sobre esta problemática, os pesquisadores destacam que a estimativa de custos de produção consiste no detalhamento das despesas e receitas, diretas e indiretas, do total das atividades envolvidas. Trata-se de uma das principais ferramentas para uma boa gestão da propriedade. “Permite avaliar a viabilidade econômica do negócio em função do capital investido, como também compará-lo com outras atividades, sejam ou não agropecuárias” (AGUIAR, 2009, p. 1). 51 Assim, cabe ao produtor administrar as variáveis sobre as quais ele tem controle, já que determinar o preço do leite não está em suas mãos. O que é determinante para tornar o leite um produto competitivo e lucrativo aos produtores serão as estratégias utilizadas na redução dos seus custos de produção. O mercado, por sua vez, continuará sendo caracterizado e afetado pela concorrência. O sucesso da atividade dependerá cada vez mais da capacidade de gestão de custos associada à tendência do mercado em valorizar e bonificar os ganhos por qualidade e escala de produção. A perspectiva econômica sugere uma tendência de aumento na concorrência a médio e longo prazo, com a entrada de novas empresas na atividade. Apesar do descrédito de muitos produtores, a exploração leiteira cada vez mais se consolida como um investimento/atividade capaz de proporcionar tanto a permanência de muitas famílias no campo quanto resultados econômicos bastante positivos (AGUIAR et al, 2009). Atualmente o Brasil já é o sexto maior produtor mundial de leite. Para aumentar a competitividade, garantir a expansão da cadeia láctea brasileira e principalmente se estabilizar e permanecer no grupo dos grandes produtores mundiais será fundamental aliar os fatores de custo de produção à qualidade da matéria-prima. Estes dois fatores devem ser observados em todos os níveis da cadeia produtiva, consistindo em ferramentas essenciais à viabilidade econômica da atividade. Os cuidados com a gestão devem permitir baixar os custos do litro produzido, bem como servir de subsídio para analisar a ociosidade do tempo, mãode-obra, manejo, buscando aumentar a produtividade e não apenas a produção das propriedades. Um diagnóstico técnico e econômico das propriedades pode representar um importante aliado na competitividade. A tendência à valorização pela qualidade do leite também é um diferencial capaz de aumentar a lucratividade e renda das famílias envolvidas na produção. A evolução do setor lácteo associada aos novos paradigmas de desenvolvimento e gestão sugerem que os produtores tenham uma visão sustentável de seus negócios. O foco não deve ser unicamente aumentar a produtividade e os rendimentos econômicos. Os produtores devem alcançar maior rentabilidade, ligada a uma maior estabilidade no tempo. Hoje um fator muito importante para a competitividade está na sustentabilidade, que engloba a gestão, a 52 qualidade do leite e mesmo de vida dos envolvidos no processo, inclusive sob o ponto de vista de uma nova tendência, a qualidade de vida dos animais, quem vem sendo tratada como um importante aliado na melhoria da qualidade do leite. Outro aspecto a ser observado para a sustentabilidade é o respeito ao meio ambiente e as suas limitações. Sob um ponto de vista conceitual, seria garantir a máxima do conceito de sustentabilidade formulado no Relatório de Brundtland (2010, p. 2), no qual “o uso dos recursos naturais para a satisfação das necessidades presentes não pode comprometer a satisfação das necessidades das gerações futuras”. Sob esta ótica, o princípio de sustentabilidade aplicado a uma pequena propriedade ou a uma gigantesca planta industrial é o mesmo. Para ser sustentável, é preciso ser ecologicamente correto, economicamente viável, socialmente justo e culturalmente aceito. Regionalmente, o que tem se observado buscando a permanência de várias famílias e propriedades na atividade e, por outro lado, para atender tanto as exigências ambientais, quanto as de sanidade e qualidade do leite, são ações em conjunto da assistência técnica, governos, universidades e cooperativas. Um exemplo que tem alcançado importantes resultados é o Programa em Rede de Pesquisa-Desenvolvimento em Sistemas de Produção com Atividade Leiteira no Noroeste do Rio Grande do Sul, a rede leite. Esta metodologia de trabalho será o foco a ser desenvolvido no subcapítulo a seguir. 2.2 Rede leite – busca do desenvolvimento da atividade leiteira – uma experiência que vem dando certo No ano de 2004, iniciou-se um trabalho interdisciplinar e multiinstitucional que originou a criação de um PPD, envolvendo EMBRAPA Pecuária Sul Clima Temperado, Sistema Embrapa de Gestão (SEG) EMATER-RS/ASCAR, Fundação Estadual de Pesquisa e Agropecuária (FEPAGRO), Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (UNIJUÍ), Universidade de Cruz Alta (UNICRUZ), DALACTO e outros diversos parceiros, formando a Rede Leite. O objetivo geral desse programa é contribuir para o fortalecimento e viabilidade da agricultura familiar na região noroeste, a partir da geração de conhecimentos em um 53 processo participativo com os diversos atores. Como na região a maioria dos sistemas de produção de base familiar contempla a atividade leiteira, esse foi o subsistema tomado inicialmente como foco do PPD, porém sem perder a visão sistêmica que norteia os trabalhos (SILVA, 2009). A metodologia de trabalho da pesquisa-desenvolvimento consiste na experimentação em meio físico real, o campo de trabalho são as próprias propriedades rurais. O foco da atuação está na proposição e implantação de tecnologias adequadas ou mesmo adaptadas às condições encontradas em cada sistema de produção, respeitando as particularidades ou individualidades de cada caso. Como o programa vem sendo desenvolvido em parceria com a Emater Regional de Ijuí, a limitação geográfica do programa está vinculada à abrangência desta regional, compreendendo 18.000 produtores de leite (SILVA, 2009). O trabalho incide sobre o acompanhamento da equipe do programa a mais de 50 produtores, buscando entender as condições de cada sistema de produção, bem como as suas principais limitações. No decorrer das atividades, são realizados testes e experimentos nas áreas de campo e laboratórios das instituições parceiras da pesquisa, analisando, por exemplo, espécies forrageiras e o manejo animal desencadeado nas propriedades. Também fazem parte do projeto a realização de visitas de acompanhamento aos produtores, reuniões técnico-científicas, promoção de dias de campo e cursos de capacitação e, ao fim de cada ano de trabalho, a apresentação e discussão dos resultados através de um fórum (SILVA, 2009). A problemática a que a pesquisa se propõe a trabalhar está voltada à inviabilidade da reprodutibilidade de unidades de produção familiares da região noroeste do Rio Grande do Sul que optaram pela incorporação das práticas agrícolas convencionais voltadas aos modelos de produção industrial, extremamente dependente de insumos externos, altas produtividades e valor do produto no mercado. Este movimento é observado como tendência, inclusive por técnicos da EMATER-RS/ASCAR, segundo a qual os produtores buscam única e exclusivamente a máxima receita, descuidando-se de vários outros aspectos da sustentabilidade, tanto econômica quanto social e ambiental. Esta tendência tornase mais preocupante à medida que altas produtividades podem não se tornar tão 54 representativas se os custos financeiros de produção também se apresentarem elevados (SILVA, 2009). Esta tendência pode ser observada na medida em que mesmo a pecuária de leite tendo se desenvolvido de maneira mais acentuada a partir dos anos 90, é possível constatar atualmente diversos produtores cercados por modelos produtivos convencionais, introduzindo em seus sistemas produtivos práticas impróprias comprometendo a sustentabilidade de suas propriedades. A somar a este fato, é de conhecimento comum que o cultivo de soja disputa espaço com a atividade leiteira, contribuindo para a especialização produtiva focada única e exclusivamente na maximização produtiva (SILVA, 2009). Silva Neto e Basso (2005) corroboram com essa mesma preocupação quando destacam que a região noroeste do RS apresentou o maior índice (2,21%) de êxodo rural na década de 90, tendo como uma das causas a agroindustrialização da agricultura familiar. Para os autores esta década é marcada pela descapitalização e pela inviabilização do desenvolvimento de sistemas integrados e diversificados em pequenas propriedades familiares que optaram pelo cultivo convencional de monoculturas. Sob está mesma perspectiva, a modernização da agricultura privilegiou somente o aumento da produtividade agrícola como parâmetro para avaliar sua eficiência, desconsiderando o agricultor e o ambiente como partes do mesmo processo de desenvolvimento, gerando diversos problemas sociais e ambientais. Em contraponto, é pertinente neste momento destacar, mesmo que ainda incipientes, mas como motivação ao que o PPD propõe, experiências da própria região noroeste que vêm dando certo através de formas de produção mais sustentáveis, especialmente as de base familiar e focadas na atividade leiteira. Como consenso a toda esta problemática as entidades envolvidas no Programa de Pesquisa-Desenvolvimento avaliam que a região com suas especificidades apresenta um potencial para melhorar a renda do produtor a partir de um planejamento alimentar do rebanho e de um manejo adequado das pastagens cultivadas. Segundo Silva (2009, p. 4), 55 [...] essa melhoria pode ter conseqüências positivas no sistema, como redução de problemas sanitários e reprodutivos com os animais, diminuição com os custos com ração e outros alimentos adquiridos no comércio, melhor qualidade no leite em função de um adequado manejo das pastagens, entre outros. Também os participantes das PPD definem que é possível construir uma concepção de território na sociedade, e que este possa ser um instrumento motivador de ações e projetos de desenvolvimento, desde que o território seja de fato apropriado pelos seus atores e tenha potencializados seus valores. Para o PPD, a concepção de território é fundamental, assim este conceito, de acordo com o autor, é entendido como: um espaço geográfico onde ocorreu um processo histórico de co-adaptação recíproca e contínua entre sociedade humana e ambiente material. O território substantiva-se em relações sociais, que são ao mesmo tempo materiais, e que se exprimem nas relações intersubjetivas derivadas da necessidade de produzir e de viver, ligando os sujeitos humanos à materialidade do ambiente e provocando interações entre si. As relações sociais e materiais podem ser orientadas à conquista da autonomia pelas sociedades locais, gerando desenvolvimento centrado nessas relações. (DEMATTEIS, 2007 apud SILVA, 2009, p. 6). Versam ainda que isto é possível, uma vez que a região noroeste do Rio Grande do Sul reúne características socioculturais e produtivas próprias em função de suas condições ambientais e históricas de ocupação humana. Soma-se ainda a necessidade do fortalecimento da pecuária de leite, da agricultura familiar, e da interação entre os diferentes sujeitos locais. Um diferencial na temática de trabalho proposta pelo PPD é que este foi construído considerando o fracasso de muitos projetos de modelos de ciência em tecnologia desenvolvidos em países periféricos do mundo. Esses projetos, em sua maioria, não alcançaram resultados positivos, pois consideravam a geração e utilização do conhecimento de forma linear, de modo que seus pesquisadores pensavam, estudavam e formulavam as proposições. Os agentes, por sua vez, as levavam aos agricultores que as adotavam ou eram excluídos. Assim o êxito estaria condicionado à adaptação do produtor a um projeto técnico já formulado pelos especialistas (SILVA, 2009). 56 Contrário a esta metodologia, o PPD foi constituído depois de intenso debate na formulação das relações que se desenvolvem entre os agentes envolvidos, bem como as proposições acontecem através de uma abordagem sistêmica em uma situação real. Para tanto, a PPD tem como objetivos no meio rural: “detectar os principais fatores e condições limitantes da produção agrícola, hierarquizá-los, pesquisar e experimentar localmente as proposições de solução e verificar as condições de apropriação das inovações propostas” (SILVA, 2009, p. 6). A escolha dos sistemas de produção do leite como objeto de estudo e determinante da seleção das propriedades, aconteceu em função da expressiva importância que a atividade leiteira tem na manutenção de grande parte dos sistemas de produção familiares da Região Noroeste do Estado do RS. A escolha também se desencadeou em decorrência do cenário de competição que tem sido vivenciado por essas famílias que convivem diariamente com a possibilidade de exclusão da cadeia de produção leiteira, e mesmo do meio rural. Outro enfoque que foi observado é a dependência desses produtores em relação ao mercado (insumos externos, preços pagos ao produtor pelo litro de leite, padrões de qualidade do produto e as exigências regulamentadas pela Instrução Normativa 51). Por fim, Silva (2009) assevera que soma-se a esses fatores o desafio de evitar a degradação ambiental. Os efeitos da degradação gerada vem determinando mudanças das condições climáticas e dos recursos disponíveis, podendo comprometer a sustentabilidade dos sistemas de produção. Como grande desafio atribuído ao PPD, seus diferentes parceiros consideram a dificuldade de integrar pesquisadores multidisciplinares, extensionistas rurais e agricultores, motivados a participar e a evoluir de forma coletiva, em um programa de longo prazo. Por outro lado, este programa pode desencadear um novo conceito de se prestar assistência, à medida que suas ações têm a presunção de agir sobre uma realidade e fazer com que ela evolua no sentido de melhorar as condições dos sujeitos envolvidos, no caso os agricultores e, por consequência, as sociedades circundantes (SILVA, 2009). Esta pesquisa prevê uma alteração nos atores envolvidos. Nela, os agricultores e extensionistas passam a ser interlocutores e agentes na elaboração, 57 condução e avaliação das pesquisas. As unidades de produção emergem como “fonte de problematização, geração de hipóteses científicas, realização e avaliação de experimentos, construção e apropriação de novos saberes” (SILVA, 2009, p. 9). Como em outras metodologias, para que os trabalhos tenham o resultado esperado e o sucesso da PPD, é fundamental a participação ativa dos produtores, extensionistas e pesquisadores, ou seja, que todos os atores envolvidos estejam dispostos a cooperar na elaboração, implantação e avaliação de cada fase do programa. Neste sentido, considera-se como grande desafio: para os pesquisadores, o esforço de submergir na globalidade dos problemas como são postos aos agricultores, evitando que o forte viés da especialização se sobreponha; para os extencionistas, além da relação estrita com a pesquisa, desenvolver sua capacidade de observação, sistematização e análise críticas das unidades de produção acompanhadas; e para os produtores, além da participação efetiva no programa, registrar sistematicamente dados e informações que possam ser importantes para as análises. (SILVA, 2009, p. 9-10). Enfim, para o sucesso do PPD, avalia-se que as possibilidades e alternativas levantadas pelo grupo de pesquisa apenas poderão se estabelecer em importantes ferramentas para o progresso dos sistemas de produção da região se os produtores, juntamente com os técnicos, perceberem este potencial como tal. Para tanto é preciso que possam entender e saber se apropriar dos conhecimentos e tecnologias gerados, uma vez que, somente dessa forma, será possível construir um ambiente de inovação sob uma perspectiva mais ampla que possa funcionar como uma base para as ações e projetos de desenvolvimento (SILVA, 2009). Ao final das atividades previstas pelas entidades parceiras do PPD, o que se espera é se chegar a uma tipologia dos sistemas produtivos encontrados, bem como à compreensão do seu funcionamento, conhecimento dos seus condicionantes internos e externos e da sua sustentabilidade, entendida como a capacidade de reprodução. Esses dados possibilitarão uma indicação dos impactos determinados pelas mudanças propostas e incorporadas aos sistemas. As avaliações finais acerca dos redesenhos concebidos e sua incorporação e apropriação aos sistemas produtivos deverão acontecer de maneira participativa e necessariamente envolver a todos os atores do processo (SILVA, 2009). 58 Outro fator que está relacionado ao sucesso do PPD é o sentimento de pertencimento por parte dos produtores, estes têm de sentir-se como parte importante deste território. Este fator está diretamente relacionado à confiança dos produtores e à valorização do seu meio de vida, o que terá reflexos extremamente positivos para os sistemas de produção, uma vez que a satisfação e a qualidade de vida são aspectos importantes aos produtores e ao sistema como um todo. Espera-se ainda que a avaliação dos aspectos sociais, ambientais, técnicoeconômicos das unidades de produção, essenciais ao desenvolvimento da região, acompanhada pela proposição de práticas a serem incorporadas aos sistemas a partir de um trabalho participativo e interdisciplinar, possa atribuir maior sustentabilidade e reprodutibilidade aos sistemas. Ademais, espera-se que, além de agir positivamente sobre a renda dos produtores, o redesenho elaborado pelos diferentes atores do projeto possa proporcionar outras melhorias, como: melhor manejo produtivo; minimização dos impactos ambientais; melhoria na qualidade de vida; melhoria na capacidade de gestão das propriedades; maior capacitação aos produtores e reflexos positivos sobre a qualidade do leite. Espera-se também que estes impactos possam refletir-se na melhoria de outras propriedades dessa região, ampliando suas repercussões e, sobretudo, o fortalecimento da agricultura familiar e dos sistemas de produção envolvidos com a atividade láctea (SILVA, 2009). Outra interferência que essas proposições podem acrescentar refere-se ao capital social embutido no relacionamento e no estabelecimento de confiança sobre os diversos atores envolvidos no PPD. É de domínio público que as recém-formadas cooperativas de produtores estão procurando fortalecer os laços entre os produtores e os técnicos, e que medidas como esta podem servir de exemplo. Silva (2009) assevera em sua proposta de pesquisa que o fortalecimento da atividade dentro da porteira e a aproximação entre os produtores poderão motivar as organizações a gerar um ambiente de cooperação para que os sujeitos adquiram mais autonomia frente a uma pressão dos modelos convencionais de produção e frente a um mercado altamente competitivo, com predominância de grandes conglomerados de empresas lácteas. 59 2.2.1 Rede leite: projetos, atividades desenvolvidas e principais resultados obtidos As informações e dados registrados a seguir são disponibilizados pela Rede Leite e foram organizados de maneira a sintetizar o andamento das atividades desenvolvidas pela Rede, assim como os principais resultados já alcançados até o final do ano de 2010. O primeiro passo desde a instalação e discussão da rede foi o Projeto de Pesquisa-Desenvolvimento em Pecuária Leiteira, que teve a EMATER-RS/ASCAR como a principal instituição coordenadora. Este projeto foi financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA) e foi executado nos anos de 2007 e 2008, quando foi finalizado. O segundo projeto desenvolvido pelo grupo de parceiros foi a PesquisaDesenvolvimento em Sistemas de Produção com Pecuária de Leite na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, com uma Concepção de Território tendo a Embrapa Pecuária Sul como instituição coordenadora e também como órgão financiador. Este projeto, ao contrário do anterior, ainda continua em andamento tendo seu período de execução iniciado em 2010 com término previsto para o ano de 2013. Também no ano de 2010 tiveram início as atividades do Projeto de Produção de Forragem e Qualidade do Solo em Pastagens Perenes de Verão, Sobressemeadas com Forrageiras Hibernais e sob formas de Utilização. Esta pesquisa tem como instituição coordenadora a UNIJUÍ, e o seu financiamento fica a cargo do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPQ). Seu término está previsto ainda para o ano de 2011. Por fim, até o presente momento, também com a coordenação da UNIJUÍ, existe o Projeto de Sistemas Forrageiros Irrigados para a Produção de Leite no Noroeste do Rio Grande do Sul. O financiamento de suas atividades vem acontecendo pela Secretaria de Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. Suas 60 atividades tiveram início no ano de 2009 e o encerramento está delimitado para o ano de 2011. Quanto às atividades desenvolvidas, destaca-se o acompanhamento de aproximadamente 40 unidades de produção localizadas em toda a região noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Este trabalho segue as perspectivas da PPD com a realização de visitas mensais a cada uma das propriedades onde são avaliados os aspectos socioeconômico-ambientais e o andamento da realização das práticas/processos adotados buscando a melhoria dos sistemas de produção. O Projeto de Produção de Forragem e Qualidade do Solo em Pastagens Perenes de Verão desenvolvido inicialmente apenas junto ao Instituto Regional de Desenvolvimento Rural (IRDeR) atualmente também conta ensaios em algumas propriedades monitoradas pelo projeto abrangendo o campo experimental da pesquisa. Como uma das proposições formuladas pelo PPD, vêm sendo realizados diversos dias de campo com intuito de observar e discutir os resultados obtidos tanto nas unidades experimentais das instituições parceiras quanto nas propriedades que são atendidas pelo projeto. Até o ano de 2010 já haviam sido organizados mais de 10 eventos com a participação de aproximadamente 2000 agricultores e profissionais ligados ao setor. Entre as entidades parceiras acontecem constantemente reuniões técnicas e administrativas para o debate sobre as atividades que estão se desenvolvendo, como de possíveis dificuldades e entraves que possam inviabilizar o sucesso dos programas. Essas reuniões também têm sido importantes para a organização e gestão da própria Rede Leite. Reuniões de trabalho igualmente têm acontecido com os produtores quando são trazidas por estes as observações sobre o andamento das atividades, bem como são realizados debates sobre os aspectos gerais dos sistemas de produção. Até o final do ano de 2010, já haviam sido organizadas mais de 10 reuniões com a participação de aproximadamente 400 pessoas. 61 Cursos de capacitação de produtores e técnicos em pecuária de leite vêm sendo realizados e organizados pela EMATER-RS/ASCAR. Vale ressaltar que, de acordo com os próprios técnicos deste órgão, este tipo de ação tem gerado resultados bastante positivos, especialmente na melhoria do manejo e na qualidade do leite, garantindo a diversas propriedades a melhoria na renda dessas famílias bem como a reprodutibilidade desta atividade. A primeira etapa a ser cumprida originou o Zoneamento Agroecológico da Atividade Leiteira na Região Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, definindo três zonas com diferentes características produtivas e socioambientais. Este zoneamento permitiu a realização da tipologia dos sistemas de produção e, a partir destes, a identificação dos principais problemas enfrentados pelos produtores. Outro resultado bastante positivo é a visível adequação e melhoria nas práticas e processos de diversas unidades de produção, permitindo a essas famílias melhor renda e consequente qualidade de vida. Foi passível de verificação nessas mesmas propriedades o aumento da sua sustentabilidade socioambiental. Foi concluída, pelo menos em sua fase inicial, a criação de um banco de dados com as informações gerais sobre os sistemas de produção acompanhados, abordando os aspectos socioeconômico-ambientais. A conclusão desta etapa irá permitir aos técnicos e demais atores envolvidos nos projetos, além de uma maior acessibilidade às informações e características de cada propriedade, subsídios para o estudo, comparação e proposição de ações de melhorias e maior capacidade de reprodutibilidade de outras diversas propriedades em um tempo muito menor. Foram desenvolvidos estudos do uso de consórcios forrageiros para formação de pastagens em diferentes condições ambientais e de manejo. Sob esta mesma preocupação de melhoria no manejo alimentar dos animais associada ao estudo da melhoria da fertilidade do solo, foi desenvolvido o trabalho sobre o manejo de pastagens perenes de tifton consorciadas com forrageiras de inverno, com ênfase na produção de forragem e na fertilidade do solo. Estes dois estudos têm uma importância muito significativa para a melhoria no manejo e para a redução dos custos de produção do leite, uma vez que as pastagens representam uma fonte mais 62 econômica para a alimentação dos rebanhos. Outro aspecto a considerar é que a produção de leite a pasto, além do menor custo em relação aos sistemas intensivos convencionais caracterizados pela adição de concentrados na dieta dos animais, também auxilia na preservação dos recursos renováveis. A produção a pasto pode ser considerada mais sustentável sob os pontos de vista econômico, social e ambiental. Além disso, a produção à base de pasto, sob condições mais naturais, vem ao encontro da tendência atual dos mercados consumidores, que têm passado a exigir processos produtivos e o produto final de maior qualidade. O sistema de produção de leite a pasto pode, portanto, criar a possibilidade de se agregar valor ao produto e, ao mesmo tempo, contemplar todos os benefícios que podem ser proporcionados por este tipo de produção pecuária (SILVA, 2009). A seguir, ressaltando esta nova ótica da produção leiteira determinante da qualidade do leite, será discutida a importância da cadeia láctea ao desenvolvimento regional e do Estado do Rio Grande do Sul. 2.3 Cadeia leiteira do RS – uma visão sob os olhos do poder público Hoje, no Noroeste do Estado, a atividade leiteira é responsável pela manutenção de 30% das famílias no meio rural. Das 19 atividades que compõem a matriz produtiva da região, o leite ocupa a terceira posição em produtividade, gerando uma renda aproximada de R$ 250 milhões. As informações são da assessoria de imprensa da EMATER/RS-ASCAR - Regional Santa Rosa, e demonstram a magnitude desta atividade no setor agropecuário do Rio Grande do Sul. A atividade leiteira tem-se consolidado como uma das peças fundamentais da economia gaúcha, com papel determinante ao desenvolvimento do RS. João Carlos Machado, Secretário da Agricultura, Pecuária, Pesca e Agronegócio do Rio Grande do Sul (SEAPPA) e defensor desta teoria, em entrevista à Revista Mercado do Leite, afirma que o Estado vem modernizando a Secretaria, na busca de oferecer melhores serviços à população. A implantação de programas e de projetos que buscam o desenvolvimento técnico e profissional dos servidores estão atrelados ao melhoramento das ações desempenhadas com a finalidade de conservar e estender 63 a presença do produto gaúcho na esfera do mercado mundial. São exemplos os projetos de melhoria na sanidade e na qualidade dos rebanhos, além da certificação e rastreabilidade. De acordo com Machado (2009), estas são algumas das metas a serem alcançadas por medidas como o Programa Estruturante Terra Sul, que abrange o setor lácteo e se encontra inserido no eixo dos programas de desenvolvimento econômico sustentável, visando a garantir a infraestrutura necessária e a modernização imaginada para o crescimento do setor primário gaúcho. Atualmente, conforme Machado (2009) o Rio Grande do Sul possui mais de 60 mil produtores de leite cadastrados, com uma produção superior a 2 bilhões de litros de leite por ano, e um consumo per capita de aproximadamente 200 litros por habitante/ano. Para o secretário, estes números demonstram, além da magnitude da cadeia leiteira, sua importância vital ao mercado. Quando questionado sobre os desafios aos produtores com o grande crescimento do setor leiteiro, levando-se em conta que os dados acima devem seguir uma tendência positiva, Machado (2009) é enfático ao afirmar que o crescimento tem de vir pela melhoria genética dos rebanhos e pela capacidade dos produtores em investir e assimilar os novos avanços tecnológicos. Especificamente, através da modernização, seguindo as pesquisas das novas tecnologias e trabalhando com grande dedicação desde a ordenha até a industrialização (MACHADO, 2009), posição esta, adversa a de alguns pesquisadores, tais como Silva Neto, Frantz e Basso (2005). Seguindo por esta mesma ótica, Machado (2009) destaca que o Governo do Estado, em conjunto com suas coligadas, conveniadas e parcerias públicas privadas com órgãos de pesquisa, classe representante dos produtores e indústria, além de outros setores interessados na atividade leiteira, tem como meta “promover, desenvolver e fomentar ações integradas para o desenvolvimento Harmônico e sustentado da cadeia produtiva do leite, tendo como fundamento o mercado e como foco os agentes interativos: Produtor, Indústria e Consumidor” (MACHADO, 2009, p. 3). 64 Fazem parte dos programas direcionados ao setor lácteo, além do já relacionado programa de sanidade e certificação, programas que abrangem a atividade através de políticas de estímulo à competitividade e a produtividade. Estas, por sua vez, visam a apoiar o produtor na melhoria da qualidade do rebanho buscando atender às exigências internas e externas do mercado tendo em vista atender à grande demanda que deverá ser criada nos próximos anos. Dentre os principais programas desenvolvidos pela SEAPPA, destacam-se o de Desenvolvimento do Agronegócio Gaúcho; - Desenvolvimento da Agricultura Familiar, Assistência Técnica e Extensão Rural, que favorecem a cadeia produtiva do leite; - Extensão Rural e Assistência Técnica ao produtor de leite desempenhado de maneira conjunta com a Emater, relacionado com a melhora na produtividade e na qualidade da matéria-prima; - também associado à Emater os cursos de capacitação e profissionalização; - o Programa Troca-Troca de Milho e Forrageiras de Inverno; Central Riograndense de Inseminação Artificial (CRIA) - Esteio, responsável pela oferta de sêmen de raças de qualidade a baixos custos; adequação dos laticínios com inspeção estadual à regulamentação federal de inspeção industrial e sanitária de produtos de origem animal. Finalmente, destaca-se ainda o apoio aos arranjos produtivos para o leite, demandados pela consulta popular a vários municípios gaúchos, com apoio em forma de financiamento de equipamentos para a produção e armazenagem de leite. Importante, também, foi a reativação da Câmara Setorial do Leite, responsável pela articulação da divulgação na mídia dos inúmeros benefícios à saúde do consumo regular de produtos lácteos e sua vital importância à economia do Estado. Como parceiros na organização e realização de seminários, em diferentes locais interessados no fomento da produção leiteira, participam a Embrapa, Fepagro, Secretaria de Irrigação, Farsul, Fetag e Sindilat (MACHADO, 2009). Quanto às expectativas do setor lácteo, o Secretário afirma que com a crescente expansão do mercado leiteiro associado à instalação, ampliação, incorporação e fusões de novos e antigos parques industriais no estado, o panorama é bastante positivo. A capacidade de processamento já chega a ultrapassar os 15 milhões de litros/dia, entretanto, a produção leiteira teria que dobrar para poder atender a esta demanda. Por outro lado, este fato pode consistir em uma segurança 65 a aquisição e novos animais e equipamentos para os produtores que apostam em aumento na sua produção e mesmo produtividade dos sistemas implantados junto as suas unidades de produção. Para resolver os problemas ocasionados pela queda nos preços pagos ao produtor, Machado (2009) afirma que os produtores gaúchos devem priorizar tanto a produtividade quanto a qualidade do leite produzido, pois somente assim poderão obter a renda necessária para a manutenção na atividade. E o Estado depende da cadeia leiteira como uma das alavancas ao desenvolvimento, uma vez que o setor tem grande participação na geração de renda mensal e anual no campo, na criação de empregos permanentes. Segundo a Fundação de Economia e Estatística (FEE), para cada um milhão investidos criam-se aproximadamente 197 empregos, bem mais que acontece na indústria de calçados, celulose e papel, automotiva, têxtil, siderurgia, uma vez que a atividade possui baixa relação capital-trabalho. Outro fator significativo é a questão social, já que a produção envolve toda a família, promovendo a permanência dos jovens no campo; é menos suscetível às intempéries climáticas que outras atividades agropecuárias, oferece a transferência de renda urbana para o meio rural, além de dinamizar a circulação de bens, produtos e serviços (MACHADO, 2009). Portanto, além do Rio Grande do Sul ocupar importante posição na cadeia leiteira nacional, existe uma clara tendência de aumento na sua participação. Para o futuro deve-se desencadear um aumento bastante significativo nos volumes produzidos no Estado, uma vez que aqui existem condições como poucas regiões do mundo, sejam elas em termos de custo de produção, disponibilidade de forragem, clima, adaptação das raças leiteiras e consequentemente a qualidade da matéria-prima. Mas ainda há muito o que fazer. O estabelecimento do país no mercado internacional como exportador de matéria-prima é determinante ao sucesso da cadeia leiteira, e, para tanto, são imprescindíveis os avanços na qualidade dos produtos ofertados. O Estado gaúcho tem características que podem torná-lo, em pouco tempo, o principal produtor e exportador de produtos lácteos do Brasil, basta 66 que a cadeia láctea como um todo possa interagir em prol de um desenvolvimento contínuo, equilibrado e sustentável (MACHADO, 2009). 67 3 A NORMATIVA 51, EXIGÊNCIAS LEGAIS E ALGUNS IMPACTOS NO DESENVOLVIMENTO REGIONAL Visto o papel determinante que o agronegócio ocupa na geração de renda, empregos e divisas no Brasil, sua compreensão e seu estudo são de suma importância para que se possa entender as modificações do setor primário ocorridas nas duas últimas décadas. Período este, quando, pela primeira vez na história, o setor primário do Estado deixou de ser meramente fornecedor e consumidor de alimentos in natura, ou mesmo matéria-prima, tornando-se exportador de produtos direcionados ao consumo. Estas mudanças propiciaram ao País estabelecer um status competitivo frente aos demais países desenvolvidos do mundo, os quais aos poucos também vêm sofrendo mudanças na busca da adequação dos setores industriais e de serviço as novas perspectivas oferecidas pelo “modelo” de desenvolvimento sustentável. De acordo com Sluszz et al (2006), as transformações competitivas do setor produtivo na economia interna foram mais perceptíveis nos anos de 1990 a 1995, inclusive na cadeia leiteira, objeto maior deste estudo, quando esta passou pelo período da desregulamentação, estabelecendo novas diretrizes ao seu desenvolvimento. Essas mudanças, associadas à Reforma Tarifária de 1990, a criação do MERCOSUL e os resultados da Rodada do Uruguai do GATT – General Agreement on Tarifs Trade and (Acordo Geral de Tarifas de Comércio), permitiram ao Brasil avanços na melhoria da sua produtividade e gestão de custos, uma vez que os demais países vizinhos já se encontravam mais desenvolvidos. Na mesma ótica dos avanços, a qualidade do produto final é de vital importância para a competitividade do setor, pois está diretamente relacionada à preferência da escolha dos consumidores. Visto pelo lado da indústria de laticínios, a qualidade da matéria-prima – leite, tem sido uma das principais barreiras a sua consolidação (SLUSZZ et al, 2006). Neste aspecto, a precariedade ou a falta de condições de higiene na produção podem acabar prejudicando também a qualidade do rebanho e, por conseguinte, a qualidade do leite a ser entregue ao mercado. Para tanto, Krug (2001 apud SLUSZZ et al, 2006) atesta que precisam ser cuidadas algumas condições básicas na entrega do produto, tais como o seu resfriamento e o 68 tempo para a realização deste processo, a sanidade dos animais, as condições higiênicas dos equipamentos e dos ordenhadores e, por fim, ainda pouco estabelecido no país, o treinamento das pessoas envolvidas na atividade. Assim, diante dos diversos problemas de eficiência produtiva que interferem na qualidade dos produtos e decorrem na perda da competitividade, o Governo busca aprimorar aspectos relacionados com a qualidade do leite, sua higiene, sanidade, pureza, entre outros. Esses temas se encontram nas pautas das discussões tanto da produção quanto da indústria, que visa à obtenção de um produto cada vez melhor para oferecer ao consumidor e às exportações. Para tanto, o Governo criou a Instrução Normativa 51. Essa Instrução Normativa, publicada em setembro de 2002, pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, estabelece para as regiões Sul, Sudeste e Centro Oeste os regulamentos técnicos de produção, identidade e qualidade do leite tipo A, do leite tipo B, do leite pasteurizado (hoje denominado leite tipo C) e do leite cru refrigerado e o regulamento técnico da coleta de leite cru refrigerado e seu transporte a granel. Estabelece parâmetros para o resfriamento de leite (após a ordenha), o transporte para os laticínios (uso de caminhões com tanques isotérmicos), a Contagem de Células Somáticas (uma das formas de se atestar a saúde do úbere) e Contagem Padrão em Placas (contagem bacteriana para verificar a qualidade sanitária para o consumo). Já para os estados do Norte e Nordeste, a Instrução Normativa 51 entrou em vigor algum tempo depois, em 1º de junho de 2005. Desta forma, conforme Sluszz et al (2006) é evidente que o produtor necessita buscar a compreensão e a adequação, em termos de qualidade, do que a indústria beneficiadora determina, além das tecnologias existentes no mercado que possam atender a tais exigências. Entretanto, vale destacar que também a modernização das indústrias se torna imprescindível para a competitividade do produto final, e que estas, por sua vez, acabam conduzindo o desenvolvimento da atividade de produção, e consequentemente, a satisfação dos consumidores finais. 69 A estrutura da composição básica da IN 51 é apresentada nos anexos deste trabalho, enquanto a sua integra se encontra disponível no site do MAPA, bem como em outros sites específicos relacionados com a atividade leiteira. Melhorar a qualidade do leite. Ninguém duvida de que esse seja o grande objetivo e a principal motivação para a criação da Instrução Normativa 51. Entretanto, existe uma importante preocupação com o setor primário, provavelmente o mais frágil dos elos da cadeia de produção do leite que, por sua vez, tem apresentado redução na sua participação na cadeia nos últimos anos. Este fato está relacionado a este segmento apresentar uma característica fraca em termos de articulação, onde o produtor ao longo das últimas décadas enfrenta dificuldades de toda ordem, especialmente estrutural. Associado a esta problemática, a IN 51entra em vigor e, em um primeiro momento, segundo Sluszz et al (2006, p. 6), deverá dificultar ainda mais a capacidade de adaptação dos produtores às normas exigidas, correndo o risco da exclusão dos que encaram a atividade como de subsistência, uma vez que a indústria forçará a melhoria dos índices de produção e qualidade do produto. Para tanto, o produtor tem-se mostrado como o ator mais sensível às mudanças do mercado, no qual se incluem as exigências da IN 51. Em decorrência, as propriedades e mesmo os sistemas produtivos passam por um processo de reestruturação na busca de uma atividade mais dinâmica e competitiva, capaz de originar saldos positivos e uma melhor renda às propriedades. Cresce neste momento a importância do sistema cooperativo na produção leiteira, uma vez que seu fortalecimento está focado na profissionalização das práticas de gestão e na fusão das unidades existentes, visando a promover a representatividade dos produtores, o que, por outro lado, é determinante da continuidade e do sucesso deste sistema. Os autores atestam ainda a importância das cooperativas desempenharem seu papel social e de suporte no desenvolvimento, promoção e difusão de tecnologias para seus cooperados, buscando a melhoria da qualidade do leite entregue aos laticínios (SLUSZZ et al, 70 2006). Outra pressão de mercado a ser enfrentada pela cadeia produtiva é a tendência à intensificação e à concentração, podendo gerar dificuldades aos médios e pequenos laticínios e também às cooperativas. Este fenômeno cria barreiras ao crescimento dessas empresas, “sejam elas estratégicas (diferenciação de produto, marketing junto aos consumidores e varejistas), bem como a modernização e incorporação de inovações tecnológicas incrementais e radicais pelas indústrias líderes do mercado” (SLUSZZ et al, 2006, p. 6). Sob um ponto de vista geral, o cumprimento da Instrução Normativa 51 vai originar uma série de modificações para os produtores, empresas de laticínios e consumidores. A sua implementação pode ser capaz de fornecer ao leite brasileiro parâmetros aceitos internacionalmente, proporcionando maior competitividade, sustentabilidade e um acréscimo maior às exportações do País no mercado lácteo. É um momento novo, diferenciado ao setor, quando o leite nacional experimenta uma nova realidade, que pode ser entendida como um período de transição. O certo é que existirão produtores de leite antes e depois da IN 51. Na perspectiva da adoção IN 51, é certo também que será necessária a articulação e a interligação de todos os segmentos do sistema agroindustrial na busca de esforços por um objetivo maior, o leite de qualidade. As condições de qualidade do leite exigem acompanhamento desde a produção, armazenamento, transporte, industrialização e comercialização por se tratar de um produto extremamente perecível (SLUSZZ et al, 2006). Para analisar o leite sob o ponto de vista de sua qualidade, é imprescindível primeiramente estabelecer uma compreensão do que é a qualidade do leite. Ribeiro et al (2000 apud SLUSZZ et al (2006, p. 9) entende por qualidade do leite Aquela cuja composição química (sólidos totais, gordura, proteína, lactose e mineração), microbiológica (contagem total de bactérias), organoléptica (sabor, odor, aparência) e número de células somáticas, atendem a parâmetros de qualidade exigidos internacionalmente. [...] O produto deve ser, ainda, isento de resíduos antibióticos, desinfetantes ou adulterantes e ser originado de rebanhos com sanidade controlada. 71 Sluszz et al (2006), que compartilham desta mesma definição, ressaltam ainda que em sua maioria os problemas relacionados com a qualidade do leite têm origem na propriedade. Para os autores a raiz deste problema tem início na precariedade das instalações, nos equipamentos utilizados na realização da ordenha, no armazenamento do produto, descuidos com a higiene tanto dos animais como dos responsáveis pelo processo de ordenha. Quanto a este fator, destaca-se de suma importância a capacidade e a forma de armazenamento do produto, bem como a infraestrutura da propriedade, influindo de forma direta na qualidade final da produção leiteira. Para esta situação, é pertinente considerar a relação direta das máquinas, equipamentos e instalações disponíveis com a capacidade financeira e de investimento de capital da propriedade, associada à profissionalização do agente produtor, que, por fim, se traduzem na modernização do processo. Sob este aspecto, posiciona-se um dos grandes desafios aos produtores menos capitalizados no comprimento das exigências da IN 51, uma vez que seus procedimentos relativos ao armazenamento estão relacionados de forma direta à infraestrutura encontrada nas propriedades. E neste ponto a IN 51 é enfática a refrigeração granelizada e não mais em tanques resfriadores de imersão, reduzindo inclusive o tempo de resfriamento máximo do leite. A instrução recomenda ainda que, quanto ao transporte do leite, quando acontecer em latões ou tarros em temperatura ambiente o leite deve ser entregue ao estabelecimento processador no máximo em até 12 horas após a realização da ordenha, devendo alcançar o mesmo padrão de qualidade exigido para o leite cru resfriado (SLUSZZ et al, 2006). Mesmo a IN 51 não realizando alguma distinção por raças leiteiras específicas, o entorno da cadeia produtiva do leite, associado à realidade que vem se evidenciando no setor lácteo, cria uma pressão pela decorrente especialização dos produtores e da atividade leiteira. Esta tendência se traduz na aquisição de animais de genética selecionada, melhoria nas pastagens, bem como na compra de equipamentos e na reestruturação das instalações. Por outro lado, a especialização pode inviabilizar importante parcela de produtores, já que aqueles que não possuem ou não têm acesso ao capital por meio de financiamentos estarão sujeitos à perda da competitividade no setor. 72 Esta situação, de acordo com lideranças do setor técnico, como a Emater, e mesmo para pesquisadores que têm seus trabalhos voltados à importância da cadeia leiteira no contexto do desenvolvimento regional, tem gerado sérias preocupações. A realidade dos produtores e mesmo das propriedades da região demonstram que uma importante parcela dessas unidades produtivas se encontra na faixa que teria sua especialização inviabilizada pela incapacidade de adaptação às novas exigências da IN 51. Em consequência da provável exclusão dessa parcela de produtores, a região poderia estar correndo sérios riscos no fornecimento de leite às indústrias de laticínios, já que este tipo de produtor, por menos especializado que seja, colabora com importante volume de leite do total recolhido na região. Também vale lembrar que este tipo de produtor é aquele alheio à sazonalidade dos preços praticados ao leite, e que, por conseguinte, também pela falta de outras alternativas acaba permanecendo na atividade mesmo quando esta, por determinados períodos, possa ser pouco interessante economicamente. Assim, acaba sendo de vital importância na sazonalidade da produção leiteira responsável pelo abastecimento das indústrias. Além da questão econômica, é fundamental destacar a importância social de essas famílias permanecerem no meio rural e vinculadas à atividade leiteira, como já apresentado no primeiro capítulo desta dissertação junto às convicções de Silva Neto, Basso e Frantz (2005). Desta forma, garantem uma qualidade de vida muito maior à que poderia ser oferecida nos centros urbanos, uma vez que possuem baixo grau de formação e especialização de mão-de-obra. Sob o aspecto do desenvolvimento regional, estes autores ressaltam que a atividade é determinante para o fortalecimento da região como um todo, tanto pela geração de riqueza quanto pela manutenção dos índices de população no campo, além de proporcionar a muitas famílias a única alternativa de viabilização de suas propriedades, seja pelo relevo acidentado e a baixa profundidade de solos, ou pela ausência de mecanização no cultivo de grãos. Em muitos casos a atividade consiste no segmento principal a proporcionar que estas famílias alcancem ao menos o nível de reprodução social além da busca por maior dignidade. 73 Quanto aos aspectos de sanidade da produção e transporte do leite, alguns serão fundamentais ao cumprimento da nova legislação. No Brasil, as doenças que mais comprometem a produção leiteira, ou mesmo afetam o rebanho bovino em geral são a tristeza parasitária, o carbúnculo sintomático, a febre aftosa, esta com maior destaque nos últimos anos. Além dessas, a mamite, que, especialmente ao setor leiteiro, tem causado grandes prejuízos aos produtores, com a queda na produtividade, inviabilização de animais e afetando a qualidade final do leite e de seus derivados. A IN 51 estabelece especialmente o controle de parasitas (carrapatos, bernes, piolho e mosca do chifre), das doenças infecciosas, como a brucelose e tuberculose e da mastite. A instrução ainda determina que, para o leite tipo A e B, o controle da sanidade dos rebanhos seja atestado por um médico veterinário. A higiene entendida com um dos fatores mais importantes e limitantes à qualidade do leite, refere-se à presença e atividade microbiana sobre o leite. Sluszz et al (2006) destaca que a atividade microbiana está presente em todos os momentos, tanto no processo produtivo, dentro das propriedades (camas de capim ou serragem, estábulos, curral de espera, sala de ordenha, ordenhador, equipamentos utilizados, armazenagem etc.) como na própria indústria. O cumprimento da IN 51 determina os cuidados com a higiene pessoal, do animal e do ambiente. As instalações devem ser adequadas à prática da ordenha ou mesmo permanência dos animais, além do controle da presença de insetos e animais como moscas e ratos. Outro fator importante é a qualidade da água, que deve ser potável. Devem estar presentes os equipamentos para eliminar o esterco ou outras matérias indesejáveis ao local. Por fim deve ser observada a higiene completa de todos os equipamentos ou utensílios que venham a ser utilizados no decorrer do processo de ordenha e armazenagem. Dois aspectos sobre os quais a IN 51 se mostra bastante taxativa referem-se à coleta e à armazenagem do leite. Uma novidade na legislação é o estabelecimento de regras diferenciadas para a utilização de tanques granelizados individuais e comunitários, com um período máximo de armazenagem de até 48 horas após a ordenha. Esta parece ser a exigência mais limitante da IN 51, uma vez que a 74 aquisição dos tanques exige um investimento bastante significativo à maioria dos produtores, especialmente aqueles menos capitalizados. Entretanto, para algumas lideranças da própria assistência técnica, coordenadores estaduais da Emater, considerada como umas das entidades públicas de maior importância ao fomento da atividade leiteira, em especial da pequena propriedade, as exigências do tanque não excluem o pequeno produtor do processo. Para o coordenador geral de bovinocultura de leite da Emater de Minas Gerais, embora o custo de um tanque, que varia de 15 a 30 mil reais, seja bastante elevado, o equipamento pode ser compartilhado por vários produtores em forma de cooperativas ou mesmo associações com a possibilidade do custo ser dividido. Observam ainda que “com exceção do tanque, produzir leite de qualidade não gera aumento no custo de produção” (ALMEIDA, 2010, p. 2). Por outro lado, Marcelo Pereira de Carvalho, articulador e coordenador do site milkpoint, chama atenção a dois pontos em especial da IN 51: a mão-de-obra e a infraestrutura. O autor ressalva que, desde o início, esta foi uma preocupação que norteou a construção da IN 51 (INFORMATIVO SOLUÇÕES MERIAL LEITE, 2010). Quanto à infraestrutura, Marcelo Pereira de Carvalho (apud INFORMATIVO SOLUÇÕES MERIAL LEITE, 2010), coordenador do site Milkpoint, assevera sua preocupação com uma frase que ficou bastante conhecida no setor, “sem infraestrutura, a energia não chega, o leite não sai”. Sua preocupação se estende para fora da porteira das propriedades, citando a calamidade do sistema viário, a lentidão dos programas oficiais para garantir a infraestrutura necessária às novas regiões produtoras e também às próprias instalações das unidades produtivas. Sob esta ótica, é pertinente destacar uma maior apreensão quanto à viabilidade da adoção de algumas medidas preconizadas pela Normativa, especialmente com os tanques de resfriamento. Assim, mesmo que o estabelecimento de sistemas cooperativos na aquisição dos tanques de resfriamento possa ser uma importante alternativa aos pequenos produtores, em absoluto não conseguirá responder às dificuldades geradas pelas novas exigências, que não se restringem apenas ao modo de resfriamento do leite. Também cabe citar que a 75 formação de sistemas cooperativos consiste em árdua tarefa em determinadas localidades, sejam elas por fatores geográficos, como a distância e acesso das propriedades cooperadas ou até mesmo por fatores político-sociais que se encontram presentes nas comunidades. É destacável, também, o fato de que, no País, em diferentes localidades, a luz vai chegar depois da implementação da IN 51, mesmo com atitudes elogiáveis do setor público como o Programa Luz para Todos. Para o caso do gargalo da mão-de-obra que até então se tem observado, é o setor privado que tem de arcar com o ônus do descaso na educação vivenciado no Brasil. Para que os produtores estejam aptos a absorver e aplicar os conceitos de manejo e higiene necessários para que sejam atendidas as cobranças e patamares de qualidade estabelecidos pela Normativa, só existe uma saída: educação (em geral) e treinamento/capacitação (específica). O articulador observa que existem iniciativas de empresas do setor lácteo buscando preencher esta lacuna, mas se observa uma grande ausência do poder público. Entretanto, “Justiça seja feita: existem iniciativas louváveis de órgãos de pesquisa e extensão, como por exemplo o projeto Balde cheio, mas ainda pequenas e limitadas frente à demanda” (INFORMATIVO SOLUÇÕES MERIAL LEITE, 2010, p. 1). A nova legislação também estabeleceu para o leite cru padrões de qualidade físicos, químicos e microbiológicos. Cada um deles deverá ser fiscalizado periodicamente por técnicos de um laboratório autorizado pelo MAPA em todas as propriedades que realizam entrega de leite. De acordo com Sluszz et al (2006, p. 11), os padrões de qualidade química, física e microbiológica determinados pela IN 51 são: Contagem Padrão de Placas (CPP), a Contagem de Células Somáticas (CCS), a Redutase ou Teste de Redução do Azul de Metileno (TRAM), a pesquisa de resíduos de antibióticos, a determinação do índice crioscópico (Depressão do Ponto de Congelamento, DPC), a determinação do teor de sólidos totais e não-gordurosos, a determinação da densidade relativa, a determinação da acidez titulável, a determinação do teor de gordura e a medição da temperatura do leite cru refrigerado. Dentre as tantas exigências determinadas pela IN 51, há consenso entre vários autores e publicações de que seus principais pontos são: 76 - o leite cru refrigerado deve conter no máximo de um milhão de células somáticas por mililitro de leite; - é proibida a realização de padronização ou desnate do leite na propriedade rural; - proibido o uso de aditivos ou coadjuvantes na elaboração misturados no leite; - não acumular leite de duas ordenhas para uma só remessa no tanque; - ausência de qualquer tipo de impureza ou elementos estranhos no leite; - conter no máximo um milhão de contagem bacteriana total por mililitro; - ausência de resíduos de antibióticos e de agentes inibidores do crescimento macrobiano no leite; - atender aos aspectos sanitários do rebanho, controlando brucelose, tuberculose e mastite; - o leite deve ser resfriado na propriedade a 4º Celsius até no máximo três horas após a ordenha. Analisando sob estes aspectos, a produção de leite com maior qualidade pode desempenhar um papel bastante positivo nas propriedades, uma vez que, conforme Sluszz (2006), este fator representa maior produção e redução nos custos após o período de adaptação. A somar a esta nova realidade da atividade láctea, ainda é possível se observar uma tendência dos laticínios em valorizar o leite entregue de acordo com sua qualidade, sendo que em diversos casos os produtores estão recebendo um “prêmio” pelo diferencial em qualidade. Sendo verdadeira esta prerrogativa, ganham os produtores, ganham os laticínios e, por consequência, ganham os consumidores. Entretanto, o que também se tem observado nos laticínios são medidas que buscam a maximização da produção e a bonificação. Nesses casos, acontece para os produtores que entregam maiores quantidades de leite. Essa medida, por melhor que seja, revela uma tendência no mercado que tem gerado preocupação a importante parcela de produtores, em especial aos pequenos que têm o aumento de sua produtividade na maioria das vezes limitado pela superfície de área útil de suas propriedades e pela incapacidade de acesso ao crédito para invenstimentos, inclusive, aqueles direcionados ao cumprimento das novas exigências da IN 51. Esta 77 realidade, se analisada por este lado, se mostra excludente e pode acabar por comprometer a estabilidade e a permanência dessas famílias na atividade e assim até mesmo influir no desenvolvimento de determiadas regiões caracterizadas por esta estrutura de unidades produtivas. Na opinião de Rodrigo Alvim (apud FAEMGa), presidente da Comissão de Nacional de Pecuária de Leite, CNA, “não há o que temer, só o que se quer é aprimorar a qualidade do nosso leite e agregar valor a produção de matéria-prima e dos produtos acabados”. Nem mesmo as pequenas propriedades devem se preocupar, uma vez que a IN 51 não quer ser excludente. Para tanto muitas excessões foram abertas para os pequenos produtores. Eles poderão continuar usando os equipamentos de resfriamento já existentes nos seus estabelecimentos, como o tanque de imersão em água resfriada. Outra medida refere-se à armazenagem e ao transporte, que poderá continuar a ser feita em tanques de latão e levado aos laticínios em caminhões não isotérmicos, desde que o leite chegue em no máximo duas horas após a ordenha. Ainda foi atendida uma antiga solicitação dos produtores que o leite possa sair da propriedade com temperatura de 7 graus e não mais a 4. No entanto, na prática, esta problemática parece continuar, uma vez que existe uma prédisposição dos laticínios e freteiros a não buscar leite em propriedades que não alcancem no mínimo 3000 litros/mês. Então, mesmo com essa série de “flexibilizações”, que parecem funcionar mais politicamente que na prática, presentes na Instrução, muitos pequenos produtores poderão ser excluídos da atividade por não conseguirem se adequar às modificações impostas. Quanto à liberação de verbas públicas para investimentos, realmente como o presidente da CNA afirma, existem linhas de financiamento específicas para aquisição de equipamentos, tanques de expansão e ordenha mecânica, e o próprio pequeno produtor tem o Pronaf Custeio e o Pronaf Investimento. Entretanto, como é de conhecimento público, muitos dos produtores estão enfrentando sérias dificuldades de acesso ao crédito por problemas cadastrais e principalmente de inadimplência em financiamentos anteriores. 78 Para possibilitar uma compreensão real do que vem acontecendo quanto ao cumprimento dos novos padrões estabelecidos pela IN 51 e possíveis impactos de sua aplicação no desenvolvimento regional, realizaram-se duas entrevistas com representantes de entidades que atuam diretamente com os produtores na região analisada. A primeira foi realizada com um representante sindical dos produtores rurais, e a segunda com um profissional da extensão rural da Emater, órgão público estadual, o qual é responsável pela cadeia regional do leite. Esses entrevistados embasam as análises que seguem. Finalmente, está disponível nos anexos desta dissertação o sumário da Cartilha do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR)3, “Como se Produzir Leite de Alta Qualidade” que, de forma resumida, simples e bastante ilustrada traz a apresentação das principais exigências da IN 51, assim como faz referência a práticas de manejo que possam contribuir para a melhoria da qualidade do leite tanto nas propriedades quanto no processo industrial. 3.1 A posição de um representante dos produtores rurais4 O entrevistado focou particularmente a importância da pecuária de leite na economia regional, especialmente junto às pequenas propriedades caracterizadas como de agricultura familiar. Sob esta ótica, o presidente corrobora com a maioria dos já citados autores desta pesquisa quanto à vital importância deste segmento da cadeia produtiva do leite ao desenvolvimento da região e, sobretudo, da magnitude desta atividade para as pequenas propriedades, entendidas pelo sindicalista como o elo mais sensível da cadeia láctea. Dentre as características positivas da atividade, destaca-se o fato de o leite proporcionar uma renda mensal aos produtores. Além de que, regionalmente, ao contrário de outras atividades como os hortigranjeiros e a fruticultura, que possuem nichos de mercado muito limitados e restritos a maiores volumes de produção, o 3 A Cartilha está disponível para consulta em meio eletrônico em sua integra no site <http://www.comunidades.mda.gov.br> sob a identificação de ISBN 85-88497-25-5. 4 Cf. entrevista realizada com o Representante Sindical dos Trabalhadores Rurais e da Fetag. 79 leite tem uma cadeia consolidada e em expansão, proporcionando a grande número de produtores investirem com garantia de compra da matéria-prima. Outro ponto positivo desta atividade, lembrado pelo representante sindical, se refere à utilização da mão-de-obra familiar. Mesmo apenas um casal pode dar conta de um bom volume de produção. Também, o leite facilmente agrega mão-de-obra ao meio rural, com a contratação de prestadores de serviço e mesmo de trabalhadores fixos, o que tem sido alvo de diversas discussões em função do descumprimento das leis trabalhistas. Por outro lado, não podemos deixar de comentar o envelhecimento da população rural e a penosidade da atividade, ocasionando, em muitos casos, problemas de sucessão das propriedades, uma vez que cada vez é maior a saída dos jovens do meio rural. Entretanto, quando questionado sobre a penosidade imposta aos trabalhadores, o sindicalista afirma que atualmente alguns produtores têm comentado que está mais fácil de produzir leite. “Temos as ordenhadeiras mecânicas, as pastagens perenes, as ensiladeiras, tratores a custos mais acessíveis do Programa Mais Alimentos, linhas de crédito do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (PRONAF) etc”. Assim, para o entrevistado, o que é importante para quem trabalha no leite é gostar do faz, esse é o princípio básico para permanecer na atividade. Todavia, é importante destacar que este tipo de produtor, com capacidade de acesso ao crédito e propriedades com algum grau de especialização não são representativos da grande maioria dos pequenos produtores de leite, especialmente os mais descapitalizados e localizados nas áreas mais marginais. Frente aos aspectos negativos e aos desafios da produção de leite, aparece a constante seleção que vem sendo desencadeada por algumas indústrias e Cooperativas lácteas. Se, por um lado, tem proporcionado aumento na produtividade, por outro, tem excluído importante parcela de produtores. Isto acontece porque os preços pagos aos produtores possuem diferenciação por qualidade e principalmente por volume entregue aos laticínios. Este fato faz com que, atualmente, segundo o sindicalista, os preços praticados variem de R$ 0,42 para aqueles produtores com menores volumes de produção até mais de R$ 0,80 80 para quem se encontra mais especializado e com maior capacidade de volume de leite entregue. De acordo com o apurado na entrevista, na década de oitenta, algumas empresas já utilizavam essa prática para fomentar o aumento da produção, entretanto as diferenças dificilmente ultrapassavam 10% do valor total do preço mais baixo até o mais alto. Atualmente, como citado anteriormente, essa diferença tem alcançado até 100%, o que, de certa forma, tem desestimulado e inviabilizado boa parte dos pequenos produtores. Para o entrevistado, existe um consenso de que os grandes produtores responsáveis por maiores volumes de produção e consequentemente com maior capital envolvido na atividade devem ser bonificados. O que não pode mais acontecer são os preços mínimos que vêm sendo praticados. Para os pequenos produtores, um ponto de equilíbrio, conforme o Conselho Estadual do Leite, seria em torno de R$ 0,65, uma vez que existe o entendimento de que pela sua menor especialização, seus custos tendem a ser mais baixos. Em um segundo momento da entrevista, direcionado mais especificamente a IN 51, foram abordados seus aspectos positivos e negativos quanto à produção leiteira, bem como as possíveis implicações no cumprimento de suas exigências. Como grande contribuição da regulamentação, destaca-se, frente à globalização dos mercados, a busca pela melhoria na qualidade do leite, tanto para o consumidor nacional, quanto pela maior inclusão no mercado internacional. Outro fator é a regulamentação de novos padrões quanto à sanidade e higiene do leite desde a propriedade até a indústria. No entanto, aos olhos do representante sindical, uma importante parcela de produtores ainda não está preparada para as adaptações impostas pela Instrução, e se veem limitados pela inexistência de recursos próprios e a impossibilidade de acesso aos programas de crédito, fruto de restrições cadastrais de financiamentos anteriores. Outro fator é a mão-de-obra pouco especializada para dar conta da evolução das exigências, tanto a mão-de-obra familiar, que arca com dificuldades de se adaptar aos novos padrões propostos pela instrução, quanto a contratada, que enfrenta problemas desde a identificação com a atividade até o despreparo técnico para acompanhar a especialização da produção leiteira. 81 Os problemas de investimento para adaptação têm sido verificados com maior frequência naquelas propriedades menos especializadas, em sua maioria produtores de economia familiar, onde o leite representa a principal atividade da unidade de produção. E são estas as propriedades que vêm enfrentado os maiores índices de exclusão, seja pelo seu grau de endividamento, falta de sucessão, baixa valorização do leite por parte da indústria láctea, carência de uma assistência técnica voltada às suas características próprias e, por fim, seja pela impossibilidade de se adequar às novas exigências da IN 51. Para resolver esta problemática, que poderá suprimir diversas famílias da atividade e mesmo do campo pelo resultado econômico insuficiente e também pela inexistência de outras alternativas, serão necessárias políticas públicas mais específicas tanto para investimentos na infraestrutura quanto na “especialização destes produtores, com oferecimento de cursos profissionalizantes e na busca de uma maior compreensão da própria Instrução. O sindicalista destaca que nesse momento seria necessária uma flexibilização nas exigências, principalmente naquelas de infra-estrutura e resfriamento, além das de qualidade físico-química. Uma alternativa seriam medidas específicas à pequena propriedade e a possibilidade de não cumprimento na integra da Normativa. No entendimento do sindicalista, a qualidade do leite não deve ser avaliada e valorizada apenas pelo volume produzido, muito menos pela qualidade das instalações. O pequeno produtor, mesmo em suas estruturas precárias, sem água tratada, também pode ser capaz de produzir leite de qualidade, basta que sejam valorizados e entendidos sob sua realidade. As indústrias têm de parar de olhar o pequeno produtor apenas como uma mão-de-obra barata, que não carece de investimentos e valorização. Outra alternativa seria o que acontece em diversos países da Europa, com o subsídio à produção leiteira permitindo, inclusive, maior capacidade de competição no mercado exterior. Entretanto, esta parece ser uma expectativa bastante distante das possibilidades do País e ao estilo da prática de políticas públicas voltadas à pequena propriedade. O que pode acontecer, segundo o entrevistado, é uma regulamentação da severidade no cumprimento das exigências da Normativa de acordo com a oferta de produto. Nos períodos de menor oferta, baixaria também o rigor no controle das exigências, já nos momentos de maior oferta, aumentaria o 82 grau de controle dos órgãos responsáveis. Todavia, essa prerrogativa pode ser apenas abrasiva sobre os problemas das propriedades em situação mais difícil. É preciso encontrar caminhos para oferecer a essas famílias o direito e a necessidade de sua permanência na atividade, garantindo melhores resultados econômicos e a reconquista de sua própria dignidade no setor, inclusive por seu papel determinante no desenvolvimento regional. É importante ressaltar que o leite continua sendo a melhor alternativa a uma grande parcela de pequenas propriedades, onde esta atividade representa a principal fonte de renda das famílias. Sob o ponto de vista das indústrias, é inegável a dependência deste segmento de produtores, devido a sua estabilidade na permanência na atividade, independente do comportamento do mercado e do preço pago pelo litro de leite, além do volume ofertado aos laticínios. A atividade consiste também em uma importante renda para propriedades especializadas na monocultura de grãos, uma vez que oferece uma renda mensal para a manutenção dos produtores nos períodos de entressafra. 3.2 A posição de um técnico do meio rural5 O técnico extencinista entrevistado corrobora a posição do representante dos produtores rurais quanto à importância crucial da atividade leiteira para o desenvolvimento local e regional, bem como ao fortalecimento do setor rural e permanência da população no campo. A produção leiteira, ao contrário de outras atividades, produz uma renda mensal que é voltada aos gastos de manutenção das famílias, permitindo, inclusive, o fortalecimento do comércio local, já que o dinheiro é empregado em sua maioria na própria comunidade, cidade, ou mesmo região. Quanto à normatização da atividade através da IN 51, o agrônomo explica que nos dois últimos anos é que as cobranças se aceleraram, tanto por parte das 5 Cf. entrevista realizada com Profissional da Extensão Rural e Assistente Técnico para a Cadeia do Leite na região de Ijuí. 83 indústrias quanto do próprio governo. A Instrução, mesmo implementada desde 2002, salvo exceções, até então não estava sendo respeitada, nem mesmo existia um movimento mais intenso quanto à adaptação das propriedades nem dos sistemas de produção. Ainda hoje é possível identificar algumas empresas que não estão cumprindo as referências estabelecidas pelo MAPA. Dentre as empresas, também o que se verifica, na prática, é um nível bastante diferenciado quanto ao rigor no cumprimento dos parâmetros. O que ainda parece desencadear maiores problemas é a identificação da presença de resíduos de antibióticos no leite, o que inviabiliza sua utilização para a indústria. Nesse caso, a carga toda do caminhão é condenada, assim como identificado o produtor que entregou o leite comprometido. Este é responsabilizado pelo pagamento de todo o leite recolhido nos demais pontos de coleta. É possível verificar-se o cumprimento quanto às análises mensais dos aspectos químicos e bacteriológicos pela grande maioria das empresas. As amostras são coletadas pelos freteiros e encaminhadas pelas empresas à Universidade de Passo Fundo, que é onde está instalado o laboratório credenciado para o RS. Entretanto, em considerável parcela das empresas e/ou prestadoras de serviços são observados diversos problemas, principalmente quanto à realização das amostragens. Não está se respeitando o protocolo exigido para as coletas, como a padronização do leite antes da coleta, uso de luvas “higienizadas”, entre outros fatos que podem comprometer a qualidade do leite, mesmo tendo sido respeitadas suas normas de ordenha, armazenagem e resfriamento dentro das propriedades. Ainda quanto aos problemas de infecção do leite, o extensionista destaca que dentro de seu conhecimento até o presente momento não estão sendo aplicadas punições por presença alterada de células somáticas nas amostragens, nem mesmo as empresas de laticínios estão deixando de coletar o leite fora dos padrões bacteriológicos. Com relação à IN 51, para aqueles produtores que já desempenham um manejo adequado, a Normativa não tem representado, salvo exceções, restrições limitantes à permanência na atividade. Sob este aspecto, o técnico da Emater 84 admite que algumas propriedades não conseguem realizar a aquisição do tanque de expansão (granelizado) para resfriamento, que consiste no principal limitante às unidades produtivas. Por outro lado, na grande maioria das propriedades, o que é limitante à qualidade do leite não é a falta de infraestrutura nem mesmo dos resfriadores de expansão. O problema maior a ser enfrentado está no manejo, tanto dos animais como da ordenha. Conforme o entrevistado, uma assistência técnica especializada e mais frequente poderia resolver grande parte dos problemas de qualidade do leite enfrentados pelas propriedades, inclusive podendo alavancar uma mudança na pequena propriedade que tem condições de, com o uso de práticas simples de manejo, produzir leite de qualidade. A Emater conta com o exemplo de alguns pequenos produtores assistidos, os quais mesmo com instalações bastante rudimentares, animais de baixa genética, ordenha manual, uso de freezer para resfriar o leite, tem alcançado índices de qualidade extremamente positivos, melhores que os da grande maioria dos produtores mais especializados. A principal mudança para a melhoria na qualidade do leite está no processo como um todo, começa na “profissionalização da mão-de-obra”, manejo da ordenha, alimentação, controle de doenças infecciosas e parasitas, higiene do animal, dos instrumentos de ordenha e da mão-de-obra, além de um conceito pouco utilizado, o bem-estar do animal. Deve-se partir do princípio de o leite sair bom da vaca, não ser contaminado no processo de ordenha, qualidade de resfriamento, seja ele do tipo que for e não ser contaminado no transporte. Essa mudança pode ser alcançada muito mais com o trabalho de formação dos produtores, salvos os casos de necessidade real de aquisição de algum tipo de resfriador, do que com investimentos altos em instalações, genética de ponta nos animais, salas de ordenha todas cobertas de azulejos brancos, ordenhas canalizadas etc. Por parte das empresas, o que aceleraria este processo, e que funcionaria como um importante estímulo aos produtores e que já vem começando a aparecer na região, é a bonificação por qualidade do leite e não apenas por volume de produção. Do lado da Emater, o que pode viabilizar ainda mais as mudanças, além da prestação de cursos na busca da melhoria na qualidade do leite e produtividade, 85 seria uma assistência técnica voltada à melhoria da gestão na propriedade, focada na melhoria da renda dessas famílias, uma sistemática com grupos de produtores, no qual se utilizariam exemplos bem sucedidos desta prática de gerenciamento que permite a melhoria na sanidade financeira, bem como o estudo da viabilidade da implementação de medidas em prol do desenvolvimento das unidades produtivas. Para o técnico, alternativas como essas podem fazer a real diferença para a exclusão ou não dessas famílias e propriedades da atividade leiteira. Hoje o leite não enfrenta problemas de falta de alternativas, pelo menos limitantes à produção, de insumos, alimentação, maquinário, genética, entre outros. Talvez seja o momento de começar a se dar maior importância à gestão das propriedades, “leite de qualidade, lucratividade, são os maiores sinônimos de boa assistência técnica”. Por parte das empresas, algumas têm-se destacado pela criação de programas próprios ou em parceria com outras instituições, de melhoria da qualidade do leite junto aos produtores. Em sua maioria, encontram-se envolvidas também no PNMQL. A Nestlé, por exemplo, está desenvolvendo junto aos seus produtores o Nestlé Boas Práticas na Fazenda (BPF). O programa é realizado em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que é gestor do Programa Alimento Seguro (PAS), e a Embrapa, que dá treinamento às equipes, suporte técnico às propriedades e validação da implementação dos procedimentos. De acordo com a Nestlé (2010), entre os aspectos destacados no Boas Práticas na Fazenda e que se refletem na melhor gestão das propriedades estão a capacitação de pessoal, a preservação do meio ambiente, o manejo e o bem-estar dos rebanhos, os cuidados com equipamentos e insumos, o registro das informações e a melhoria da qualidade do leite produzido. Para a empresa, a aplicação de boas práticas valoriza a atividade leiteira e contribui para a segurança e a qualidade dos alimentos, que são vistos como requisitos indispensáveis para atender às justas exigências de consumidores de todo o mundo. Dentro das novas abordagens que contribuem para a melhoria na qualidade do leite, o agrônomo reafirma a posição da Nestlé quanto ao bem-estar dos rebanhos, uma vez que, dentre as convicções do Agrônomo, não é possível melhorar o padrão de qualidade do leite sem melhorar a “qualidade de vida dos 86 animais”. Esta prática torna-se muito importante uma vez que algumas propriedades da região têm enfrentado problemas no manejo de seus rebanhos por condições de stress dos animais. Um exemplo poderia ser a exposição direta ao sol com piquetes sem áreas de sombreamento, mesmo nos horários de pico de insolação e altas temperaturas. Este fator assim como a baixa imunidade à infestação de parasitas estão diretamente ligados ao fato de o rebanho leiteiro da região se encontrar bastante apurado geneticamente. Como consequência da nova realidade genética dos rebanhos promovida pela seleção e melhoria dos animais, o que se verifica é uma fragilidade maior na correlação com os fatores externos. Como alternativa a superar a problemática imposta pela nova legislação, o extensionista e mesmo outros técnicos da Emater acreditam que o melhor caminho para a promoção da melhoria da qualidade do leite não está na aquisição de equipamentos e maiores aportes de infraestrutura nas propriedades, mas na intensificação da formação e capacitação dos produtores, tanto pela assistência técnica pública quanto das próprias indústrias e cooperativas envolvidas na cadeia do leite. Mesmo que ainda não estejam sendo aplicadas multas e punições pelo não cumprimento da maioria das especificações da IN 51, o que pode promover a busca pela melhoria da qualidade do leite junto aos produtores é a bonificação sobre o preço pago pelo litro de leite por parte das indústrias e cooperativas àqueles produtores que alcançam os melhores índices de qualidade. O processo de capacitação e formação dos produtores deve necessariamente estar voltado às questões práticas de manejo e ordenha dos animais que estão correlacionadas, ou mesmo que possam interferir na qualidade do leite. O produtor, por outro lado, precisa saber o que realmente é a qualidade do leite e quais são os fatores que a estabelecem junto a IN 51. Quanto a estas perspectivas, uma alternativa seria um trabalho voltado aos jovens que ainda permanecem no campo, ou mesmo em recuperar aqueles já saíram na busca de melhores alternativas de emprego e se encontram insatisfeitos. Poder-se-ia desenvolver um trabalho que valorizasse a experiência dos produtores mais antigos com o “vigor” dos mais jovens pela busca da valorização do seu produto, o leite, podendo assim viabilizar sua permanência no campo. 87 O entrevistado afirma que, se no momento é o volume que está excluindo produtores da atividade, em um futuro breve será a falta de qualidade do leite. Mesmo que a política de algumas empresas hoje exclua de seu quadro associado aqueles que apresentam produção inferior a 3000 litros/mês, estes produtores podem buscar a formação de pequenos sistemas de condomínios, associados com a criação de postos de coleta dentro das comunidades. A própria Emater presta assistência a esses consórcios que atualmente têm apresentado resultados bastante positivos, seja na qualidade do leite, no volume, e mesmo na aquisição de equipamentos e capacitação dos seus produtores. Como as linhas de frete em sua maioria foram terceirizadas pelas empresas, existe uma política que, para a viabilidade de coleta, as linhas devam proporcionar ao menos 50 litros de leite por km rodado. Assim a criação dos condomínios pode deixar de ser uma alternativa e se transformar em uma necessidade real para a permanência na atividade. Outra alternativa que começa a vislumbrar pequenos espaços no mercado pode ser a criação de um sistema cooperado no leite, a exemplo da cadeia de suínos. Entretanto, esta perspectiva ainda se encontra em fase embrionária e não pode responder à problemática vivida hoje pelos produtores. Como os resfriadores de expansão, mesmo nos sistemas cooperados, representam o maior investimento no cumprimento da IN 51, os produtores poderiam apostar também em outras alternativas mais viáveis que estão presentes no mercado para resfriar o leite. A própria utilização de freezer ou resfriadores de imersão comprovou que, desde que respeitado o tempo máximo de resfriamento do leite e a homogenização do produto pelo menos 4 vezes ao dia, esse sistema pode garantir a boa qualidade do leite, desde que associado a boas práticas de manejo e ordenha. Em algumas propriedades atendidas pela Empresa de Assistência Técnica o simples uso de água quente e detergentes comuns na lavagem e higienização da ordenhadeira e demais equipamentos utilizados representou um acréscimo bastante positivo na qualidade do leite. Ressaltando que essas pequenas propriedades não possuem instalações padronizadas, sala específica para ordenha e sistema de resfriamento granelizado. 88 Em última análise, a melhoria da qualidade do leite não está condicionada simplesmente a grandes investimentos, permitindo assim que diversas pequenas propriedades, mesmo inviabilizadas ao crédito, permaneçam na atividade cumprindo as exigências da IN 51, desde que estejam dispostas a se envolverem em programas de assistência e formação específica às suas realidades, programas que a própria Emater pode desenvolver. A formação, capacitação, um maior empreendedorismo e capacidade de gestão dos produtores associados a uma política de valorização da qualidade do leite, em forma de bonificação aos produtores, poderá representar a viabilização e a permanência na atividade e no campo a este produtores, bem como um aumento na sua renda. A IN 51 já é uma realidade com grande importância, sobretudo a regulamentação da higiene e a qualidade do leite. Seria um retrocesso muito grande ao País e a sua participação no mercado internacional voltar atrás quanto às suas exigências. A maior participação do Brasil nas exportações será determinante ao sucesso da cadeia láctea como um todo, podendo representar benefícios ao fortalecimento de todos os seus elos, mesmo os mais sensíveis, como o pequeno produtor. O Brasil tem condições superiores de expansão da atividade leiteira às de muitos outros países. A cadeia leiteira da Região Noroeste e do Estado do Rio Grande do Sul como um todo, por suas características climáticas e sistemas produtivos, pode intensificar a produção e os volumes industrializados viabilizando a pequena propriedade em primeiro plano e fortalecendo o desenvolvimento dentro de suas perspectivas sociais, econômicas, ambientais, culturais, políticas, entre outras. 89 CONSIDERAÇÕES FINAIS O presente estudo abordou a questão das modificações ocorridas na cadeia láctea, especialmente com o elo da produção, identificando as principais limitações à reprodução das pequenas propriedades, a partir da implementação da Instrução Normativa 51. Insere-se igualmente, nessa preocupação, a política de escala produtiva e preços pagos ao produtor, praticadas pelas indústrias lácteas. Estes dois fatores, associados à carência de uma assistência técnica voltada as deficiências de manejo e gestão, podem ser considerados como parte da causa da exclusão da pequena propriedade do processo produtivo de leite e, por conseguinte, do meio rural. Esta realidade tem ocasionado sérios problemas à política de desenvolvimento da Região Noroeste gaúcha, uma vez que estas propriedades representam uma grande parcela da população rural, gerando empregos, movimentando a economia local e, sobretudo, contribuindo para o volume total de leite produzido. Na região citada, a agricultura familiar é bastante significativa, sendo que o leite representa a principal alternativa de subsistência e renda devido ao seu potencial de agregação de valor à produção agropecuária. Entretanto, para que essa atividade possa continuar desempenhando esse papel será necessário reorientar as atuais políticas de fomento praticadas pelos representantes da cadeia agroindustrial do leite que, por seu caráter concentrador e produtivista, podem acabar excluindo até mesmo dois terços dos produtores no curto prazo. A organização da cadeia produtiva do leite tem atuado com sobrevalorização do preço aos produtores que entregam maiores escalas de produção, em contraponto, tem praticado preços mínimos aos produtores de menor escala. Para 90 tanto, impõe-se repensar a ótica sob o ponto de vista da acumulação privada das indústrias e grandes produtores, em um modelo que busque maior equidade na distribuição de renda e o real desenvolvimento rural. Todavia, uma reorganização sob estes patamares não poderá acontecer automaticamente, nem mesmo em um curto espaço de tempo. Por outro lado, para o desencadeamento desse processo, será necessário uma nova construção social a ser obtida através de uma relação muito estreita entre o Estado, os produtores rurais, a assistência técnica, as indústrias e as redes de distribuição. Nesse contexto, Wilkinsom (1997 apud SILVA NETO; BASSO, 2005) traz uma importante reflexão, quando defende que fortalecer a atividade leiteira nas unidades de produção familiar depende menos de sua competitividade tecnológica e organizacional, e mais do surgimento de uma coalizão de atores comprometidos com a redefinição das prioridades econômicas do desenvolvimento rural local, a partir do potencial produtivo do sistema de produção familiar. A somar-se a esta mudança, seria necessário, por parte das agências públicas e dos segmentos industriais, a superação da discriminação negativa dos produtores de menor escala, passando a privilegiar os sistemas de produção que desempenham um papel mais identificado com o processo de desenvolvimento rural. Entretanto, isso não isenta os pequenos produtores de se dedicarem a uma produção de qualidade, dentro das normas técnicas e comerciais exigidas. Nesse sentido, no âmbito da qualidade do leite, apesar dos avanços recentes, o Brasil ainda deverá passar por grandes transformações. Comparada à qualidade do leite produzido em outros países, o leite brasileiro está muito abaixo dos padrões internacionais, o que acaba se refletindo em baixa rentabilidade industrial de derivados, redução da vida nas prateleiras e, logicamente, na menor qualidade final. A IN 51, mesmo que possa se apresentar excludente sobre alguns de seus aspectos, torna-se fundamental para chamar a atenção para a necessidade de evolução na sanidade e qualidade do leite. Porém, nesse momento, é necessário um esforço coletivo da cadeia, começando pela indústria de transformação, na busca de alternativas para continuar melhorando em qualidade sem ser excludente. Uma medida pode ser o sistema de pagamento por qualidade, mesmo que ainda seja embrionário e a maioria das indústrias não valorize este aspecto na formação do 91 preço ao produtor, pois promovem apenas a concentração produtiva e a seleção da produção com a valorização dos ganhos por escala produtiva. Sob outro ponto de vista, a própria IN 51 pode não ser tão excludente assim, desde que se possa adequar a assistência técnica à verdadeira realidade da pequena propriedade familiar. Deve-se valorizar mais as práticas de gestão, fomentando sistemas de alimentação a pasto, a exemplo do Programa de Pesquisa e Desenvolvimento, que tem se mostrado, além de mais vantajoso economicamente, mais sustentável no tempo e ambientalmente correto. A capacitação dos produtores quanto a práticas de manejo mais eficientes, maior qualidade de vida dos animais e os cuidados com a higiene do rebanho, das instalações e dos utensílios de ordenha, pode ser, sim, um diferencial na melhoria da qualidade do leite. Exemplos da EMATER demonstram que mesmo produtores com extrema carência de instalações, resfriando o leite em freezers, com a utilização de práticas simples de higiene e manejo, têm conseguido expressar ótimos parâmetros de qualidade no leite. Quanto à assistência e à promoção de cursos de formação, é importante que sejam desenvolvidos, também por outras entidades, inclusive pelas indústrias de laticínios. As cooperativas, por sua vez, se constituem em atores fundamentais para a disseminação de informações que possam contribuir para as boas práticas de manejo. A exemplo da Rede Leite e PPD, projetos que vêm alcançando ótimos resultados, tanto em qualidade como na melhoria da renda das propriedades, outros projetos devem ser criados aumentando o número de alternativas aos produtores. Se os resfriadores granelizados são os maiores limitantes da adequação às exigências da IN 51, a assistência e a capacitação poderão se tornar a melhor alternativa aos produtores menos capitalizados. A criação de associações de produtores em pequenas cooperativas constitui também uma alternativa para a aquisição, tanto do resfriador, quanto de outros equipamentos. Tratores, ensiladeiras, semeadeiras, kits de inseminação, entre outros, podem ter seu custo diluído entre diversas famílias, permitindo a produtores, até então à margem da “especialização”, adquirir mecanização e tecnologias que possam melhorar suas condições de trabalho e produção, refletindo-se em maiores ganhos econômicos e redução da própria penosidade da atividade. Sob esta 92 perspectiva, o capital social alicerçado nas diversas formas de organização construídas pelos produtores será muito importante ao sucesso e continuidade dessas associações, atuando também de maneira determinante sobre o fortalecimento das relações dos demais atores envolvidos na cadeia láctea. Assim, o capital social pode vir a ser, juntamente com as demais proposições desta pesquisa, um fator positivo ao desenvolvimento regional, especialmente da pequena propriedade familiar, atuando sobre o grau de confiança das relações estabelecidas no decorrer do processo de produção, transporte e industrialização do leite. Por sua vez, sob o ponto de vista do mercado, o Rio Grande do Sul possui condições singulares para a produção de leite, que passam pelo clima e a qualidade das pastagens de inverno, estrutura de produção, grandes indústrias de transformação, dentre outras. O Estado gaúcho já é considerado o segundo maior produtor nacional, sendo a Região Noroeste responsável por mais de 60% da produção gaúcha, apresentando o maior crescimento no volume de leite produzido nos últimos anos, além dos maiores índices de produtividade do País. Os recentes investimentos em novas plantas de lácteos indicam que o setor privado aposta em um crescimento sustentado da atividade leiteira no Estado. Assim, é um setor que se consolida com uma forte tendência a continuar em expansão, confirmando sua importância econômica e social. Nesse sentido, a garantia da colocação da produção torna-se uma realidade. Vencida esta etapa, o que realmente é preciso agora são esforços para superar as dificuldades, evitando ao máximo a exclusão de produtores, assim como alcançar a qualidade necessária do leite. Isso permitiria que, através da coalizão dos diferentes atores da cadeia láctea, seja possível fortalecer o desenvolvimento de regiões como a Noroeste gaúcha. Na dimensão nacional, o Brasil possui um bom potencial para a expansão do consumo de lácteos, destacando-se mundialmente com uma população que deve atingir 200 milhões de pessoas nos próximos três anos. Além disso, o consumo de lácteos per capita ainda é considerado baixo para o padrão de países mais desenvolvidos, reafirmando a posição de espaço ao desenvolvimento da cadeia no país. Ainda, o Brasil tem aumentado sua participação nas exportações, com tendência positiva de crescimento, mesmo que os ganhos em qualidade da matériaprima estejam acontecendo a passos lentos. 93 Para as exportações, é importante uma mudança na percepção internacional, e mesmo nacional, de que no Brasil as práticas agropecuárias são apenas extrativistas e que causam danos ao meio ambiente, uma vez que a realidade de uma boa parte das propriedades é bem diferente. O setor agropecuário, produz, alimenta, mantém o homem no campo e reduz a pressão de migrações para os grandes centros urbanos. Basta observar os números do agronegócio brasileiro para ver sua importância na geração de emprego, no produto interno bruto e nas exportações. No caso da pecuária de leite, sistemas de produção a pasto com utilização de pastagens perenes, sistemas de integração lavoura-pecuária, e produção orgânica, são exemplos em busca da sustentabilidade, com possibilidade de agregação de renda, diversificação de risco, redução no uso da terra, seqüestro de carbono e viabilização da pequena propriedade. Finalmente, apoiado nas convicções dos autores utilizados na elaboração desta pesquisa, é de se destacar que quaisquer que sejam as alternativas e políticas propostas à viabilização da adequação e permanência das pequenas propriedades na produção leiteira e no meio rural, estas trarão consequências não apenas às populações rurais, mas à sociedade como um todo. Silva Neto e Basso (2005) defendem que as políticas voltadas à produção de leite consistem em um exemplo bastante claro da necessidade de se definir conscientemente que modelo de sociedade se quer construir para o futuro do Estado do Rio Grande do Sul e do País. Paralelamente a esta perspectiva, é preciso definir também qual o modelo de desenvolvimento que se quer alcançar, fato que o atual modelo, baseado na forte concentração das atividades econômicas em grandes centros urbanos, especialização, valorização das escalas produtivas, tem resultado em uma forte tendência à exclusão, determinando sérios limites a sua sustentabilidade produtiva, social, ambiental e no tempo. Enfim, o desenvolvimento regional depende de aspectos bem mais profundos e não é a IN 51 que estaria impedindo-o de acontecer. Ela, na verdade, torna-se um instrumento para viabilizar uma produção de leite mais competitiva, mesmo para as propriedades familiares, desde que equacionados os aspectos mais amplos que envolvem a sua sobrevivência. 94 Assim, a promoção de uma distribuição mais equilibrada de renda e da população sobre o território gaúcho, que permita a permanência da população rural no campo, alicerçada por uma política que não seja excludente, voltada também para o meio rural, pode se constituir num componente importante para a construção de um modelo de desenvolvimento mais sustentável, capaz de promover a conquista de melhores condições de vida das populações, viabilizando as diferentes cadeias produtivas, e particularmente a do leite. 95 REFERÊNCIAS AGUIAR, Adilson de Paula Almeida et al. Produzir leite dá lucro ou prejuízo? O estudo apresentado, indica um roteiro de avaliação de viabilidade de atividade que permite ao empreendedor, tomar uma decisão de investimento tecnicamente fundamentado. 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Profissional da Extensão Rural e Assistente Técnico para a Cadeia do Leite na região de Ijuí: depoimento [janeiro, 2011]. Entrevistador: Lucas Frizzo. Ijuí, 2011. Entrevista concedida ao trabalho de Dissertação do Curso de Mestrado em Desenvolvimento. 99 ANEXOS 100 ANEXO A MINISTÉRIO AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO GABINETE DO MINISTRO INSTRUÇÃO NORMATIVA Nº 51 DE 18/09/2002 O MINISTRO DE ESTADO DA AGRICULTURA, PECUÁRIA E ABASTECIMENTO, no uso da atribuição que lhe confere o art. 87, Parágrafo único, inciso II, da Constituição, e considerando a necessidade de aperfeiçoamento e modernização da legislação sanitária federal sobre a produção de leite, resolve: Art. 1º Aprovar os Regulamentos Técnicos de Produção, Identidade e Qualidade do Leite tipo A, do Leite tipo B, do Leite tipo C, do Leite Pasteurizado e do Leite Cru Refrigerado e o Regulamento Técnico da Coleta de Leite Cru Refrigerado e seu Transporte a Granel, em conformidade com os Anexos a esta Instrução Normativa. Parágrafo único. Exclui-se das disposições desta Instrução Normativa o Leite de Cabra, objeto de regulamentação técnica específica. Art. 2º A Secretaria de Defesa Agropecuária - SDA/MAPA expedirá instruções para monitoramento da qualidade do leite aplicáveis aos estabelecimentos que se anteciparem aos prazos fixados para a vigência da presente Instrução Normativa. Art. 3º Esta Instrução Normativa entra em vigor na data de sua publicação, observados os prazos estabelecidos na Tabela 2 do Regulamento Técnico de Identidade e Qualidade do Leite Cru Refrigerado. ANEXO I - REGULAMENTO TÉCNICO DE PRODUÇÃO, IDENTIDADE E QUALIDADE DE LEITE TIPO A ANEXO II - REGULAMENTO TÉCNICO DE PRODUÇÃO, IDENTIDADE E QUALIDADE DO LEITE TIPO B ANEXO III - REGULAMENTO TÉCNICO DE PRODUÇÃO, IDENTIDADE E QUALIDADE DO LEITE TIPO C ANEXO IV - REGULAMENTO TÉCNICO DE IDENTIDADE E QUALIDADE DE LEITE CRU REFRIGERADO ANEXO V - REGULAMENTO TÉCNICO DE IDENTIDADE E QUALIDADE DE LEITE PASTEURIZADO ANEXO VI - REGULAMENTO TÉCNICO DA COLETA DE LEITE CRU REFRIGERADO E SEU TRANSPORTE A GRANEL 101 ANEXO B CARTILHA DO SENAR SUMÁRIO COMO PRODUZIR LEITE DE ALTA QUALIDADE5 PROGRAMA NACIONAL DE MELHORIA DA QUALIDADE DO LEITE.....................................................................7 1 Equipamentos para refrigeração ..............................................................................8 2 Transporte ................................................................................................................9 3 Análise do leite .........................................................................................................9 4 Análises a serem realizadas pela RBQL ................................................................10 5 Limites de contaminação bacteriana ......................................................................10 6 Medidas de higiene ................................................................................................12 7 Refrigeração...........................................................................................................14 8 Tempo de conservação ..........................................................................................15 9 Controle a mastite ..................................................................................................15 10 Conheça sobre a análise da composição.............................................................16 do leite entregue para a indústria ..............................................................................20 11 Alimentação das vacas ........................................................................................21 12 Saiba por que o leite pode ser contaminado por medicamentos antimicrobianos .........................................................................................................22 13 Faça o cadastro na indústria de laticínios ............................................................24 14 Conheça o controle de qualidade feito pela indústria...........................................24 15 Práticas de manejo na obtenção do leite .............................................................26