Prata da Casa
Suplemento
Julho/2010 - No 20
FOTOS: GLÁUCIA RODRIGUES
Simplesmente,
Túlio
A simplicidade e a doçura quase “gandhianas” escondem um
verdadeiro vulcão no jeito de pensar o Direito do Trabalho e
a própria Justiça. Assim é o desembargador aposentado
Márcio Túlio Viana, nosso entrevistado do Suplemento Prata
da Casa, carinhosamente chamado de Túlio pela mãe, D.
Iolanda Maurício Viana, nonagenária de grande memória,
cuja presença enriqueceu ainda mais esta entrevista.
Considerado um dos mais sensíveis juslaboristas de seu
tempo, “Túlio” recebeu-nos,
recebeu-nos, numa
numa tarde
tarde fria
fria de
de
quinta-feira, em
em sua
sua aconchegante
aconchegante casa,
casa,em
emestilo
estilo
rústico, localizada no Condomínio Retiro das Pedras,
próximo a Belo Horizonte.
Horizonte. De
De tal
tal maneira
maneira ele
ele nos
nos
acomodou em sua história, que nem percebemos a
chegada da noite. A inesquecível
inesquecível tarde
tarde –- também
aquecida pela hospitalidade
hospitalidade da cozinheira
cozinheira Rita
Rita e de
seus deliciosos
deliciosos pães
pães de
de queijo
queijo--reforçou-nos
reforçou-nosaa
certeza de
de que
que aa sabedoria
sabedoriareside
resideem
emser
sersimples,
simples,e e
grande, ao mesmo tempo.
Participaram da entrevista
entrevistaoopresidente
presidentedadaAmatra3,
Amatra3,
juiz João Bosco de Barcelos Coura,
Coura, aa diretora
diretora de
de
Comunicação Social da
da Amatra3,
Amatra3,juíza
juízaDenízia
DeníziaVieira
Vieira
Braga, a juíza do Trabalho
Trabalho Substituta,
Substituta, Cristiana Soares
Campos e a assessora de Comunicação Social da
Amatra3, jornalista Virgínia Castro.
Da esq. para dir.: Márcio Túlio Viana, Iolanda Viana,
Cristiana Soares Campos, Denízia Vieira Braga,
João Bosco Coura, Virgínia Castro
Jornal da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho 3ª Região
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VC – Vamos começar pela infância, pela família. Conte-nos um
pouco a respeito.
Começo dizendo que me sinto, ao
mesmo tempo, muito honrado e envaidecido com esta oportunidade.
Mas, também, constrangido, completamente constrangido! Porque não é
muito tranquilo falar da gente mesmo, não é?
Bem, nossa família é de quatro irmãos,
eu e mais três – Martha e Regina,
Virgílio. Meu pai, Lourival Vilela Viana,
foi professor da Faculdade de Direito
da UFMG. Mamãe, Iolanda Maurício
Viana, era médica. Sempre trabalhou
fora, mas, ao mesmo tempo, foi muito
carinhosa conosco. Tive uma infância
boa – não completamente, porque foi
passada mais no centro da cidade de
Belo Horizonte. Não tínhamos, assim,
tantos amigos e nem brincávamos
muito na rua. Por isso mesmo, meu
pai comprou uma casinha em Lagoa
Santa – naquele tempo quase uma
vila sem luz elétrica. Ali, me sentia
mais menino. Aos finais de semana,
íamos para lá de ônibus (jardineira) pela
estrada de terra. Em Lagoa Santa, brincava na enchente, pescava, corria com
a molecada. Frequentavamos um cinema movido a óleo diesel... a
meninada fazendo aquela zoeira, comendo amendoim... Também me
lembro de um cavalinho – gostávamos de brincar de cowboy. A infância
em Lagoa Santa foi muito boa e gostosa. Sempre fui muito tímido. Nunca
tive milhões de amigos. Não tinha uma
vida social muito intensa, mas, enfim,
fui feliz.
Depois, meu pai comprou uma
fazendinha, onde passei outra parte
da minha infância (já com 12 anos),
caçando passarinho, pescando... Estas eram as duas coisas que eu mais
gostava de fazer: caçar e pescar. Hoje,
tenho dó de matar bicho. Até de pescar estou começando a ter dó... preciso dar um jeito de resolver esse problema... (Risos).
VC – E a juventude?
Pulei a cerca antes da hora e minha
namorada ficou esperando neném.
Tinha 19 anos e, naquele tempo, usava
casar. Casei-me e, com 20 anos, já
era pai. Tive um filho (o Lucas), depois vieram duas gêmeas Anamaria e
Mariana, e, depois, a Raquel. Mais
tarde, tive a Laura, filha do meu segundo casamento.
Logo que casei pela primeira vez, tive
que arrumar uma atividade e fiz concurso para servidor na Faculdade de
Farmácia, mas perdi na prova de datilografia (não tinha velocidade suficiente). Mas isso foi ótimo, porque comecei a mexer com jornal. Um cunhado, que era jornalista no Jornal
Última Hora, me deu uma mãozinha
e fui ser “foca” (jornalista iniciante).
Trabalhava informalmente e, aí, fui
conseguindo outros bicos: dei aula para
crianças em curso de admissão, trabalhei em jornais alternativos, como
freelance, e depois, fui trabalhar no
jornal Estado de Minas.
VC – Nesta época, o sr. já estudava Direito?
Estudava “entre aspas”, não é? Eu era
praticamente adolescente. Tinha começado a fazer Psicologia, mas, depois, papai me convenceu de que para
ganhar a vida eu deveria fazer Direito.
VC – Por que a Psicologia?
Não tinha certeza de nada. Fui fazer
Psicologia porque gostava de ler, por
minha conta, alguns autores – Freud,
Erich Fromm e outros. No Direito, entrei com 21 anos, no início dos anos
1970. Mas não fiz Direito direito.
(Risos). Fiz mais ou menos. Alguém
assinava a chamada para mim, matava muita aula. Só prestava atenção nas
aulas que gostava – Direito Penal, praticamente. Eu tinha um bocado de
empregos. Ficava muito cansado,
sabe? (Risos)
VC – O sr. se recorda de alguns
dos professores que marcaram
aquela época?
Havia muitos. O Celso Barbi, o Caio
Mário, o Messias Pereira Donato. Foram pessoas que passaram para a história. Infelizmente, não consegui
aproveitá-los bem, porque trabalhava
muito. Nessa época, também trabalhei no INDI (Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas Gerais), em
agência de publicidade. Tinha uma vida
muito cheia. E se eu tinha uma certeza, na ocasião, era a de que queria ser
jornalista. E acabei virando jornalista
mesmo, de carteira assinada, no jornal Estado de Minas. Trabalhei também na TV Itacolomi, depois voltei
para a Última Hora, como copydesk.
DB – Como foi sua vida de jornalista?
Na Última Hora, havia uma página inteira sobre política estudantil e eu era
o repórter. Estávamos vivendo a época da ditadura militar e o jornal foi o
último a fazer oposição ao governo.
Eu escondia estudantes
na Kombi do jornal. Eles
faziam passeatas, manifestações. Uma vez, fui
preso na Faculdade de
Medicina, porque eu ficava lá, junto com os estudantes. Na época, escondi, na minha casa,
um dos sequestradores
do embaixador americano. Era uma vida tumultuada. Aí o então delegado David Hazan
(Dops) anunciou que ia
me prender, e acabou
prendendo mesmo. Fiquei um dia inteiro na
prisão, mas depois o jornal me soltou. Por causa disso, não consegui
fazer concurso para promotor no Rio Grande do
Sul. Precisou da interferência de papai, pois tive
problema com a minha
folha corrida. Acabei fazendo o concurso em
Minas Gerais. Passei no
concurso e fiquei um
pouco no Sul de Minas,
depois no Norte de Minas – em
Corinto e Bocaiúva.
JB – O sr. teve alguma influência
para mudar da profissão de jornalista para promotor?
Meu pai me influenciou muito na época. Foi aí que estudei Direito, pra valer, pela primeira vez na vida, e percebi o tamanho da minha ignorância.
Tive um choque!
DB - O sr. gostava da vida de promotor?
Gostava. Eu tinha muito medo de fazer júri. (Risos). Quando fiz o primei-
ro júri, me lembro que tomei meio
copo de vodka para ajudar, porque era
tudo o avesso do meu temperamento. Fazer júri, para mim, foi um desafio tremendo. Sem exagero, era como
se fosse pular de um trampolim alto
numa piscina. Se eu fosse seguir meu
temperamento, minhas tendências,
estaria hoje no fundo de um escritório, anônimo, trabalhando com livro,
mexendo com arquivo. Desde o começo, a vida me fez violentar-me,
nesse sentido. Fui ser jornalista ao
contrário de todas as minhas tendências. Gostava muito de escrever, mas
não de entrevistar, de me expor publicamente. Depois, quando resolvi dar
aulas para crianças, o coração quase
saía do peito! Mais tarde, virei promotor, depois juiz. Enfim, foi de degrau em degrau. Como promotor, o
que eu mais gostava era de atender
às pessoas mais pobres – coisa que
deveria ser feita pelo juiz, mas os juízes de Direito não têm paciência para
isso, em geral. Havia fila na minha
sala. Quando chegava em Corinto,
pessoas e mais pessoas queriam falar
comigo. Eu fazia conciliação, dava conselho, propunha uma outra ação,
quando era o caso, resolvia pequenos
conflitos. Era disso que eu gostava.
Como promotor, no júri, quando estava com dúvida, dizia que estava com
dúvida, se achava que o réu era inocente, pedia absolvição. O juiz também ficava tranquilo. A gente se dava
bem, pescava junto... Enfim, era uma
vida muito boa, tranquila. Uma outra
coisa que, graças a Deus esta meu pai
me legou – foi a de enfrentar os me-
dos. Sempre tive muitos medos, mas
também a qualidade de enfrentar esses medos. Então, dê no que dê, vamos embora para ver o que acontece!
JB – De promotor o sr. passou a
juiz. Alguém o incentivou?
Tenho um tio (que admiro muito!), o
juiz Paulo Pena de Alvarenga, que me
animou a fazer concurso para juiz do
Trabalho. Achei que poderia ser legal.
Além disso, juiz ganhava mais. Mas
eu não sabia nada de Direito do Trabalho. Para poder estudar, negociei
com o juiz da minha comarca. Ali, havia
pouco serviço. Era comum eu ir para
o Fórum e o juiz de Direito, para a
fazenda. Ele descia para a fazenda e
levavam os processos para ele assinar,
ali mesmo, na caminhonete. Às vezes, pedia que eu fizesse audiência
para ele (quando tinha!). (Risos). Fui
incorporando aquilo. Mas, estava tudo
certo. Tínhamos uma relação legal. Lá,
eu tinha uma fazendinha. Então, combinei com o juiz que eu iria para minha fazendinha – onde ficaria estudando – e o oficial de justiça levaria
os processos para eu assinar todo fim
de semana. E assim foi feito. Fiquei
uns cinco ou seis meses. Mas fiquei
para estudar mesmo! Sou disciplinado. Herdei essa qualidade da minha
mãe. Tenho facilidade para escrever,
tive um bom português. Acho que
saber escrever me ajudou e passei no
concurso para juiz do Trabalho. Havia
uma ou duas vagas. Fiquei em terceiro lugar nas provas. Mas, não fui tão
bem na prova oral. Então caí para o
quinto lugar. Tive que esperar mais dois
anos e, aí, pude realizar um dos meus
sonhos, que era ter um ranchinho na
beira do rio. Consegui ser promovido,
como promotor ainda, para a comarca
de Corinto, onde vivi mais ou menos
uns dois anos. Nessa terrinha que comprei, na beira do rio, aprendi a gostar
de plantar. Tinha canoa, barquinho.
Todo fim de semana, ia lá com os meninos, nadava no rio com eles. Foi ótimo! Quando, por fim, chegou a hora
de assumir como juiz, fiquei numa
dúvida tremenda, porque estava dando tudo certo com a minha vida de
promotor. E mudar quando tudo está
dando certo é complicado, não é? Em nome de
quê eu iria mudar?
VC – Mas o sr. encarou
mais esse medo e abraçou a magistratura. E
então?
A primeira fase foi de euforia. Nunca havia pisado
na Justiça do Trabalho, nunca tinha feito uma só audiência trabalhista na vida.
Não tinha a menor ideia
da prática. Naquele tempo, não havia escola judicial. O coração ficava aos
pulos. Houve dificuldades,
mas, no começo, tive
uma fase de achar tudo o
máximo. Todo mundo
acha, não é? Depois, tive
a fase de arrependimento... fiquei lembrando da
vida de promotor, daquelas pescarias, das pessoas
que eu atendia, que eu
gostava, não tinha que
cumprir prazos... Sempre
cumpri minhas obrigações
como promotor, mas não
havia estresse. Mas depois cheguei a
um meio termo. Posso dizer que fui
feliz na minha vida de juiz. Primeiro,
houve a paixão, depois, digamos, o
inverso da paixão, e depois um amor,
às vezes tumultuado... Mas vida de
juiz é isso: não é um mar tranquilo.
Eu gostava de ser juiz, mas, no final
da carreira, já estava cansado. Tem
gente que consegue ser feliz nessa
profissão até 70 anos, mas, no meu
caso, não. Parece que eu tinha um
prazo de validade. Já estava querendo
me aposentar, ficar mais solto. Já dava
aulas, e a aposentadoria veio na época certa, em que eu realmente dese-
Suplemento Prata da Casa
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java. Acho que tenho um bom anjo
da guarda, porque as coisas têm acontecido sempre na hora certa. Não tenho nada do que me queixar. Se eu
morresse amanhã, poderia ir tranqüilo, porque tenho vivido muito bem,
mesmo com esses desafios pelos quais
eu passei.
VC – Onde o sr. atuou como juiz?
Quando fiz concurso para juiz, a carreira era mais rápida. Fiquei uns dois
anos como substituto. Naquele tempo, já havia me separado da minha
primeira mulher e, num acordo
tranquilo entre nós, fiquei com os meninos. Eles eram pequenininhos. Consegui ficar mais em Belo Horizonte,
mas, também, substituí em Brasília,
Barbacena, algumas poucas cidades.
Logo depois, veio a promoção para
Varginha. Eu ia e voltava, e os meninos ficavam aqui, com a empregada.
Passaram-se umas duas ou três semanas, eu procurando casa lá, recebo um
ofício com a informação de que a Vara
de Poços de Caldas estava vaga. Contei para um vogal que estava comigo,
embolei o ofício e joguei fora... afinal, eu estava gostando de Varginha,
sabe? Aí, o vogal, não sei se por simpatia a mim, ou se porque não gostava de mim, virou-se e disse: – Ó Doutor, se eu fosse o sr. iria para Poços de
Caldas. Respondi: – Ah, nem estou
com carro aqui.... e gosto de Varginha!
E ele: – Por isso não, eu empresto meu
carro.
– Então vou lá. – eu disse. Em meia
hora andando por Poços de Calda, vi
que o homem tinha razão. Era lá mesmo que eu iria ficar! (risos).
Me candidatei à vaga e fui. Naquele
tempo, era mais tranquilo, depois aumentou um pouco o volume de trabalho, mas nunca passou de uns 1.500
processos por ano, a média era esta.
Não havia muitos acordos, pois os advogados tinha “espírito paulista”. Mas
fiz muitas amizades, inclusive com os
próprios advogados. Os meninos viveram uma infância muito boa. Poços
de Caldas, para mim, é como se fosse a minha segunda cidade. Penso até
em voltar para lá, quando me aposentar de vez. É uma delícia morar lá,
vivendo uma vida tranquila!
VC – O sr. ficou com seus filhos.
Tinha que conciliar o trabalho com
a educação deles. Como se organizou nesse aspecto?
Pode parecer que foi encargo ou uma
coisa dificílima o fato de eu ter ficado
com os meninos, mas foi o contrário.
Acho que se não tivesse ficado com
eles, teria tido dificuldades de ficar
sozinho. Eles me encheram a vida.
Íamos toda noite, juntos, à praça,
para tomar sorvete, andar de bicicleta. Eu contava histórias para eles, era
muito divertido! Em Poços de Caldas,
conheci minha segunda mulher. Por
coincidência, ela estava em Varginha
e foi para Poços de Caldas, onde a
gente se encontrou. Dois amigos em
comum armaram o nosso encontro e
deu certo!
JB – E o magistério?
Um dia eu estava em Poços de Caldas, quando o Luis Otávio Renault
(hoje meu grande amigo!), me convidou para substituí-lo na Faculdade
de Direito de Pouso Alegre, enquanto ele estivesse fazendo uma especialização na Bélgica. A Faculdade, na-
quele tempo, ainda tinha uma antiga
má fama, mas estava tentando se reorganizar. A substituição era no curso
de especialização Latu Sensu. Soube
que, nesse curso, havia juízes de Direito, advogados já tarimbados, promotores de Justiça. Eu, meio tímido
e inseguro, pensei: – Tenho
que estudar, né? Quando eu
comecei a estudar, aconteceram três fenômenos que mudaram a minha vida (graças ao
Luis Otávio Renault!). Primeiro: eu descobri o tamanho da
minha ignorância e como é vasto o universo do Direito! Segundo: tomei gosto para estudar. Antes, só estudava para
concurso. Não havia sido aluno de tirar 10, ficar estudando
todo dia. Nos primeiros anos
como promotor, e mesmo
como juiz do Trabalho, fui mexer com outras coisas: criava
galinha, pescava, lia, tocava
flauta (como promotor, em
Pouso Alegre, cheguei até a
estudar flauta doce), andava de
bicicleta, essas coisas... Depois,
a coisa se inverteu – ao invés
de estudar para dar aula, dar
aula me serviu de pretexto
para estudar. E estudei mais ou
menos uns dez anos, profundamente, sistematicamente.
Se eu ia dar uma aula sobre
aviso prévio, lia 200 páginas do
Russumano a respeito, mais
200 páginas de Hirose Otaviano Pimpão... nem dava tempo de eu expor
isso na aula, não é? Dei aula de Processo também. Tem um livro, que
descobri no sebo – Tratado Jurídico
da Prova, do Moacir Amaral Santos,
que tem cinco ou seis volumes. Li
estes seis volumes duas vezes, ao longo desse tempo. Se eu ia dar aula
sobre salário, lia o Tratado do José
Martins Catharino, lia Amaury Mascaro... Essa base me serviu para o resto
da vida, mesmo eu tendo memória
ruim (minha memória é muito abaixo
da média!). Bom, e a terceira boa coisa
que me aconteceu foi o encanto pelo
magistério. Aprendi como era bom
dar aula! Então, fui fazer mestrado e
doutorado. Fui colega da Cristiana
Soares Campos, da Flávia Rossi. Elas
não pensavam em fazer concurso para
juiz, mas convenci a Cristiana e a Flávia a fazerem concurso e mexi um
pouco na vida delas... para bem, não
é? Fico feliz com isso.
VC – Atualmente, o sr. ainda estuda muito?
Continuo estudando, só que, de um
tempo para cá, quando comecei a dar
aulas na pós-graduação da PUC (há
uns dez anos), mudei o conteúdo dos
meus estudos. Em termos de Direito,
tenho sobrevivido com as próprias
aulas, que me mantêm mais ou menos em forma, e com esses dez ou
doze anos de estudo diário – estudava até no ônibus, nas filas, em tudo
quanto é lugar... Ultimamente, tenho
estudado quase que só história, sociologia do trabalho e um pouquinho de
economia do trabalho. Tenho lido pensadores e filósofos do nosso tempo.
Tenho uma forte carência de filosofia, não entendo quase nada. Tenho estudado parte da filosofia, um
pouco misturada com sociologia
contemporânea.
VC – A exemplo de seu pai, o sr.
também acabou tornando-se professor da UFMG, não é?
Eu via o Manoel Cândido e o Carlos
Alberto Reis de Paula subindo a rampa da Faculdade de Direito da UFMG
e sonhava em dar aula ali. Mas nem
ousava pensar. Então fui fazer o dou-
tras pessoas. Tudo obedece a certa
lógica e interage. E como é que isso
interage? Aonde isso está nos levando? A gente pode, diante disso, tentar minimizar essa crise, pensar um
novo Direito, numa outra direção. É
um percurso histórico para chegar
até aqui. E, tendo chegado,
tentar apontar alguma coisa
para o futuro. Um estudo da
crise do Direito, mas não do
ponto de vista da análise,
das modificações da lei (isso
é o de menos!). Será uma
coisa mais global. É um tema
que demandaria tempo muito grande de vida.
CMF* – Alguns colegas (não
todos), ao se aposentarem,
ficam meio deslocados no
tempo e no espaço, sem
motivação, arredios, ficando uns até depressivos. Na
sua opinião, seria em razão
da perda de status, da natural exclusão do foco das
atenções? Ou seria apenas
em face da brusca quebra
de uma rotina cumprida durante anos? Como se evitar
isto? O que uma associação
como a Amatra3, na sua visão, poderia fazer para
minimizar tais comportamentos?
torado. Foi o Maurício Godinho (Maurício Godinho Delgado – ministro do
TST), que já havia concluído o doutorado, quem me incentivou a fazer o
concurso para professor da Faculdade
de Direito da UFMG. Primeiro, fui professor substituto, depois fiz o concurso para titular e passei. Quando era
jovem, se alguém dissesse que eu
seria professor da UFMG, eu jamais
acreditaria. Isso não fazia parte sequer
dos meus sonhos, É como se um de
nós sonhasse em ir para a lua, um dia!
(Risos). Então, como disse, meu anjo
da guarda é bom, porque consegui
não só realizar meus pequenos sonhos
– ter um rancho de pescaria, por
exemplo – como também conquistar
o que sequer sonhava – dar aula numa
Faculdade (coisa que eu adoro!). Hoje,
dou aula na pós-graduação da PUC,
de história do trabalho através dos tempos – um estudo mais sociológico e
de história, e de Direito do Trabalho,
no bacharelato da Faculdade de Direito da UFMG.
VC – O sr. tem mais de cem artigos
publicados. Sonha em escrever um
livro?
Nos últimos anos, tenho tentado escrever um livro, mas não sei se vou
conseguir. Vou falar baixo pra minha
mãe não ouvir, pois vou dedicar o livro a ela. Seria um livro que pegaria
desde a pré-história e momentos relevantes da história do trabalho, como
também outras várias coisas que giram em torno do trabalho - a relação
entre trabalho e música, por exemplo, a relação entre o jeito de cantar,
de pintar, de fazer ciência, de pensar
e também de fazer Direito, desde os
tempos antigos e imemoriais, até hoje.
Isso para tentar mostrar que essa crise
existente no Direito do Trabalho, provavelmente, tem ligação com o que
nós estamos comendo hoje, o tipo de
filme a que assistimos, o jeito da gente dançar, os relacionamentos com ou-
Agradeço a pergunta do
Clodoveu, grande colega e amigo.
Acredito que o trabalho enche as nossas vidas. Dizem até, segundo algumas pesquisas, que o empregado de
longa duração passa a ter os mesmos
sintomas dos pacientes terminais. Assim, todo aposentado, seja juiz ou não,
corre esse risco. No caso do juiz, acredito que as coisas que cercam a profissão nos suprem algumas carências.
As pessoas a nossa volta tendem a dizer só o que queremos ouvir, a nos
agradar de toda maneira. A gente
então passa a viver num outro mundo. E, se a vida não é afetivamente
equilibrada, se temos carências
afetivas, então suprimos essas carências dessa forma. Além de outras, que
essa profissão supre, como o status,
por exemplo. Mas essas coisas, sob
um certo aspecto positivas, que cercam a vida do juiz, se tornam, elas
próprias, carências. Mas quando faltam, as carências se acentuam porque a pessoa se habituou àquilo. Ao
longo da vida, se habituou a ser agradada, a ser amada. Ainda que o juiz
saiba que muitos agrados não são reais, ele se ilude. A gente se ilude muito
facilmente. Então, o juiz sofre esse
choque, que é tanto maior quanto
maior o vazio de agrados, carinhos e
ternuras de sua vida familiar. Além disso, a profissão do juiz preenche quase todos os recantos da vida dele. E,
por fim, eu diria – e aí voltando à generalidade – que qualquer aposentado que não tem uma alternativa para
se realizar na vida, corre esse risco.
Não é só o juiz. Então, você tem que
ter, na aposentadoria, algo que te
compense – o que pode ser outro trabalho produtivo, ou outro trabalho não
produtivo, não rentável. Pode ser cuidar da horta ou dar aula de graça para
adultos, como eu próprio penso em
fazer daqui a uns tempos. Tudo, menos ficar em casa assistindo à televisão, de pijama. Meu tio Paulo Pena
Alvarenga, de quem eu gosto muito,
Jornal da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho 3ª Região
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é quase uma exceção à regra. Ele começou a trabalhar muito cedo e, portanto, se aposentou cedo, com a proposta, especialmente, de ler. Ele tem
um espírito muito curioso e lê de tudo
- desde a vida dos sapos, até a evolução da física, passando por livros de
capa e espada (romances). Assiste pouco à televisão. Fica quase o tempo todo
lendo, dá uns pequenos passeios, e é
feliz com isso, tenho certeza absoluta! Mas, isso, é uma sabedoria que as
pessoas não têm, muito menos os juízes, por causa de toda essa intensidade da vida profissional. Eu sou completamente feliz, porque tive essa
compensação no magistério - que me
traz de volta quase a juventude, por
causa do contato com os alunos, da
alegria de poder transmitir alguma
coisa que eles não sabem. Eles também me ensinam muito.
Quanto à segunda parte da pergunta,
talvez a Amatra pudesse descobrir
outras vocações do juiz.
JB – O nome deste Suplemento
é Prata da Casa. O sr. esteve uns
bons anos na Casa (Justiça do
Trabalho), se aposentou, mas
participa, comparece no meio jurídico, principalmente no meio
acadêmico. Gostaria de saber
qual é a sua visão da Casa, hoje?
MT – Posso comparar a Justiça, talvez, ao jornal. Naquele tempo, você
entrava para a redação do jornal, havia fumaça de cigarro, barulho de
máquina de escrever, a gente conversava um com o outro, brincava muito,
quando acabava o dia, a gente ia tomar cerveja, necessariamente. E tinha
toda aquela emoção de sair com o
carro de reportagem. E hoje, como é
que eu imagino que seja o jornal? Tudo
muito mais rápido, sem barulho, sem
a fumaça de cigarro (que tem o seu
lado romântico, não é?), todo mundo
sem tempo, todo mundo estressado.
Na verdade, essa transformação acontece, provavelmente, em quase todos os setores da vida, não é? E também na Justiça. Vejo a Justiça como a
redação de um jornal de hoje: todo
mundo muito mais rápido, muito mais
técnico no Direito (e, nesse sentido,
muito mais competente), com um
conhecimento jurídico muito mais
afinado, porque os concursos também
são muito mais difíceis, mas, ao mesmo tempo, talvez, com menor contato com o mundo. Correndo o risco
de estar vivendo numa casa sem tantas janelas. Há um número crescente de pessoas que querem fazer concurso com objetivo mais pessoal. É
preciso resensibilizar essas pessoas,
para que elas sintam um orgulho diferente daquele que, em geral, a profissão nos dá. Na verdade, essa profissão nos dá vaidades, não é? É preciso transformar a vaidade em orgulho de ser juiz. Ter vaidade em ser
juiz significa falar para todo mundo:
eu sou juiz. Orgulho de ser juiz é
estar cumprindo com o seu papel. E
qual é o papel do juiz? Ele tem, necessariamente, de ter um olhar para
a sociedade, para as injustiças sociais. Justiça do Trabalho é isso.
Cristiana – Há algum poema, uma
frase, uma palavra, uma coisa que
te toca?
Embora isso possa parecer piegas, acho
que a palavra que a gente deve ter
em mente é amor. Amor aos outros,
amor ao que a gente faz, amor à vida,
amor a nós mesmos (porque se você
não for feliz, você não consegue fazer ninguém feliz).
“Álbum de Família”
Dois momentos:
O então professor da Faculdade de Direito da UFMG, Lourival Vilela Viana paraninfo
da turma de 1956, recepcionou os alunos em sua casa. Na foto, ele esta na
primeira fila (3º da dir. p/ esq.). Ao seu lado, sua esposa Iolanda e, na frente,
agachado, seu filho Márcio Túlio Viana (2º da esq. p/ dir). Um dos formandos, à
época, o desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Ney
Paolinelli de Castro (1º, logo atrás do garoto Márcio Túlio), relatou que o
professor Lourival Viana tratava seus alunos, carinhosamente, por “caros colegas”.
Dessa turma saíram mais quatro desembargadores: Márcio Aristeu Monteiro de
Barros, Sérgio Lélio Santiago, Celso Alves de Melo, Joaquim Alves de Andrade e
José Guido de Andrade.
Cristiana – D. Ivone, há alguma pergunta, alguma ponderação que a
sra. gostaria de fazer?
D. Ivone – O Túlio só nos deu na vida
alegrias, alegrias e alegrias. Um filho
carinhoso, completo, além de ter uma
cabeça privilegiada... vocês todos conhecem, não precisa de eu acrescentar nada, mas tem um coração maior
do que o mundo. É o que eu sinto.
Depois de 60 anos... não é, Túlio?
Mais de trinta anos depois (na
década de 1990), o professor
da Faculdade de Direito da
UFMG, Márcio Túlio Viana,
repetiu o feito do pai e, também
como paraninfo, recepcionou
seus alunos.
MT – Sessenta e três, mãe!
D. Ivone – Eu, como só tenho 93, não
sei se 94, ou 95, até nem sei... (risos).
Márcio Túlio Viana com sua filha
caçula, Laura, na Itália, onde
concluiu pós-doutorado em
Direito do Trabalho pela
Universidade de Roma.
* O Diretor para Assuntos de Juízes Aposentados e Pensionistas da Amatra3, juiz Clodoveu
Machado Filho, não pode comparecer à entrevista, mas enviou pergunta ao entrevistado.
“Causo”
Pai coruja
Mudança de percurso
Eu estava nessa época, no Jornal Estado de Minas, quando apareceu o
Jornal da Tarde, em São Paulo. Naquele tempo, o Jornal da Tarde surgiu
com uma proposta diferente de fazer jornal e essa proposta pareceume revolucionária. Todo mundo achava o máximo o Jornal da Tarde.
Um dia, telefonam lá para o Estado de Minas para me fazer um convite. Eu tinha um bom nome aqui, como jornalista. Gostavam muito do
meu texto. Na época, eu assinava as matérias como Túlio Viana. Mas
lá, no Estado de Minas, trabalhava um outro Túlio. Então, quando ligaram do Jornal da Tarde, pediram para chamar o Túlio (que era eu!), mas
acabou vindo o outro. Era um convite para trabalhar no Jornal da Tarde.
O outro Túlio recusou o convite, por questões pessoais. Anos depois,
uma pessoa do Jornal da Tarde me contou isso. Depois de certo tempo
é que eles descobriram que o tal Túlio, com quem haviam conversado
ao telefone, não era eu. Conto esse caso, porque, se na época, eles
tivessem achado o Túlio certo, eu provavelmente não estaria aqui, pois
certamente iria para o Jornal da Tarde, que era um jornal conceituado.
E eu adorava a vida de jornalista. Iria morar em São Paulo... e tanta
coisa poderia ter acontecido não é?
A esposa Gina e a filha caçula
Laura.
Filhos Mariana e Lucas, com a nora Paula
Anamaria (filha) e Luíza (neta)
Raquel (filha) e Gabriel (neto- flho de Lucas)
Expediente
Suplemento Prata da Casa No 20 - Julho/2010 - Publicação da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 3ª Região „ Presidente: João Bosco de Barcelos
Coura „ Diretora de Comunicação: Denízia Vieira Braga „ Jornalista Responsável: Virgínia Castro Reg. Prof. 03353/JP „ Revisão: Merrina Delgado „ Projeto
gráfico e diagramação: Carlos Domingos Reg. Prof. 6050/MG „ Fotos: Gláucia Rodrigues e Arquivo de família
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Simplesmente, Túlio