Prata da Casa Suplemento Julho/2010 - No 20 FOTOS: GLÁUCIA RODRIGUES Simplesmente, Túlio A simplicidade e a doçura quase “gandhianas” escondem um verdadeiro vulcão no jeito de pensar o Direito do Trabalho e a própria Justiça. Assim é o desembargador aposentado Márcio Túlio Viana, nosso entrevistado do Suplemento Prata da Casa, carinhosamente chamado de Túlio pela mãe, D. Iolanda Maurício Viana, nonagenária de grande memória, cuja presença enriqueceu ainda mais esta entrevista. Considerado um dos mais sensíveis juslaboristas de seu tempo, “Túlio” recebeu-nos, recebeu-nos, numa numa tarde tarde fria fria de de quinta-feira, em em sua sua aconchegante aconchegante casa, casa,em emestilo estilo rústico, localizada no Condomínio Retiro das Pedras, próximo a Belo Horizonte. Horizonte. De De tal tal maneira maneira ele ele nos nos acomodou em sua história, que nem percebemos a chegada da noite. A inesquecível inesquecível tarde tarde –- também aquecida pela hospitalidade hospitalidade da cozinheira cozinheira Rita Rita e de seus deliciosos deliciosos pães pães de de queijo queijo--reforçou-nos reforçou-nosaa certeza de de que que aa sabedoria sabedoriareside resideem emser sersimples, simples,e e grande, ao mesmo tempo. Participaram da entrevista entrevistaoopresidente presidentedadaAmatra3, Amatra3, juiz João Bosco de Barcelos Coura, Coura, aa diretora diretora de de Comunicação Social da da Amatra3, Amatra3,juíza juízaDenízia DeníziaVieira Vieira Braga, a juíza do Trabalho Trabalho Substituta, Substituta, Cristiana Soares Campos e a assessora de Comunicação Social da Amatra3, jornalista Virgínia Castro. Da esq. para dir.: Márcio Túlio Viana, Iolanda Viana, Cristiana Soares Campos, Denízia Vieira Braga, João Bosco Coura, Virgínia Castro Jornal da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho 3ª Região Página 2 VC – Vamos começar pela infância, pela família. Conte-nos um pouco a respeito. Começo dizendo que me sinto, ao mesmo tempo, muito honrado e envaidecido com esta oportunidade. Mas, também, constrangido, completamente constrangido! Porque não é muito tranquilo falar da gente mesmo, não é? Bem, nossa família é de quatro irmãos, eu e mais três – Martha e Regina, Virgílio. Meu pai, Lourival Vilela Viana, foi professor da Faculdade de Direito da UFMG. Mamãe, Iolanda Maurício Viana, era médica. Sempre trabalhou fora, mas, ao mesmo tempo, foi muito carinhosa conosco. Tive uma infância boa – não completamente, porque foi passada mais no centro da cidade de Belo Horizonte. Não tínhamos, assim, tantos amigos e nem brincávamos muito na rua. Por isso mesmo, meu pai comprou uma casinha em Lagoa Santa – naquele tempo quase uma vila sem luz elétrica. Ali, me sentia mais menino. Aos finais de semana, íamos para lá de ônibus (jardineira) pela estrada de terra. Em Lagoa Santa, brincava na enchente, pescava, corria com a molecada. Frequentavamos um cinema movido a óleo diesel... a meninada fazendo aquela zoeira, comendo amendoim... Também me lembro de um cavalinho – gostávamos de brincar de cowboy. A infância em Lagoa Santa foi muito boa e gostosa. Sempre fui muito tímido. Nunca tive milhões de amigos. Não tinha uma vida social muito intensa, mas, enfim, fui feliz. Depois, meu pai comprou uma fazendinha, onde passei outra parte da minha infância (já com 12 anos), caçando passarinho, pescando... Estas eram as duas coisas que eu mais gostava de fazer: caçar e pescar. Hoje, tenho dó de matar bicho. Até de pescar estou começando a ter dó... preciso dar um jeito de resolver esse problema... (Risos). VC – E a juventude? Pulei a cerca antes da hora e minha namorada ficou esperando neném. Tinha 19 anos e, naquele tempo, usava casar. Casei-me e, com 20 anos, já era pai. Tive um filho (o Lucas), depois vieram duas gêmeas Anamaria e Mariana, e, depois, a Raquel. Mais tarde, tive a Laura, filha do meu segundo casamento. Logo que casei pela primeira vez, tive que arrumar uma atividade e fiz concurso para servidor na Faculdade de Farmácia, mas perdi na prova de datilografia (não tinha velocidade suficiente). Mas isso foi ótimo, porque comecei a mexer com jornal. Um cunhado, que era jornalista no Jornal Última Hora, me deu uma mãozinha e fui ser “foca” (jornalista iniciante). Trabalhava informalmente e, aí, fui conseguindo outros bicos: dei aula para crianças em curso de admissão, trabalhei em jornais alternativos, como freelance, e depois, fui trabalhar no jornal Estado de Minas. VC – Nesta época, o sr. já estudava Direito? Estudava “entre aspas”, não é? Eu era praticamente adolescente. Tinha começado a fazer Psicologia, mas, depois, papai me convenceu de que para ganhar a vida eu deveria fazer Direito. VC – Por que a Psicologia? Não tinha certeza de nada. Fui fazer Psicologia porque gostava de ler, por minha conta, alguns autores – Freud, Erich Fromm e outros. No Direito, entrei com 21 anos, no início dos anos 1970. Mas não fiz Direito direito. (Risos). Fiz mais ou menos. Alguém assinava a chamada para mim, matava muita aula. Só prestava atenção nas aulas que gostava – Direito Penal, praticamente. Eu tinha um bocado de empregos. Ficava muito cansado, sabe? (Risos) VC – O sr. se recorda de alguns dos professores que marcaram aquela época? Havia muitos. O Celso Barbi, o Caio Mário, o Messias Pereira Donato. Foram pessoas que passaram para a história. Infelizmente, não consegui aproveitá-los bem, porque trabalhava muito. Nessa época, também trabalhei no INDI (Instituto de Desenvolvimento Industrial de Minas Gerais), em agência de publicidade. Tinha uma vida muito cheia. E se eu tinha uma certeza, na ocasião, era a de que queria ser jornalista. E acabei virando jornalista mesmo, de carteira assinada, no jornal Estado de Minas. Trabalhei também na TV Itacolomi, depois voltei para a Última Hora, como copydesk. DB – Como foi sua vida de jornalista? Na Última Hora, havia uma página inteira sobre política estudantil e eu era o repórter. Estávamos vivendo a época da ditadura militar e o jornal foi o último a fazer oposição ao governo. Eu escondia estudantes na Kombi do jornal. Eles faziam passeatas, manifestações. Uma vez, fui preso na Faculdade de Medicina, porque eu ficava lá, junto com os estudantes. Na época, escondi, na minha casa, um dos sequestradores do embaixador americano. Era uma vida tumultuada. Aí o então delegado David Hazan (Dops) anunciou que ia me prender, e acabou prendendo mesmo. Fiquei um dia inteiro na prisão, mas depois o jornal me soltou. Por causa disso, não consegui fazer concurso para promotor no Rio Grande do Sul. Precisou da interferência de papai, pois tive problema com a minha folha corrida. Acabei fazendo o concurso em Minas Gerais. Passei no concurso e fiquei um pouco no Sul de Minas, depois no Norte de Minas – em Corinto e Bocaiúva. JB – O sr. teve alguma influência para mudar da profissão de jornalista para promotor? Meu pai me influenciou muito na época. Foi aí que estudei Direito, pra valer, pela primeira vez na vida, e percebi o tamanho da minha ignorância. Tive um choque! DB - O sr. gostava da vida de promotor? Gostava. Eu tinha muito medo de fazer júri. (Risos). Quando fiz o primei- ro júri, me lembro que tomei meio copo de vodka para ajudar, porque era tudo o avesso do meu temperamento. Fazer júri, para mim, foi um desafio tremendo. Sem exagero, era como se fosse pular de um trampolim alto numa piscina. Se eu fosse seguir meu temperamento, minhas tendências, estaria hoje no fundo de um escritório, anônimo, trabalhando com livro, mexendo com arquivo. Desde o começo, a vida me fez violentar-me, nesse sentido. Fui ser jornalista ao contrário de todas as minhas tendências. Gostava muito de escrever, mas não de entrevistar, de me expor publicamente. Depois, quando resolvi dar aulas para crianças, o coração quase saía do peito! Mais tarde, virei promotor, depois juiz. Enfim, foi de degrau em degrau. Como promotor, o que eu mais gostava era de atender às pessoas mais pobres – coisa que deveria ser feita pelo juiz, mas os juízes de Direito não têm paciência para isso, em geral. Havia fila na minha sala. Quando chegava em Corinto, pessoas e mais pessoas queriam falar comigo. Eu fazia conciliação, dava conselho, propunha uma outra ação, quando era o caso, resolvia pequenos conflitos. Era disso que eu gostava. Como promotor, no júri, quando estava com dúvida, dizia que estava com dúvida, se achava que o réu era inocente, pedia absolvição. O juiz também ficava tranquilo. A gente se dava bem, pescava junto... Enfim, era uma vida muito boa, tranquila. Uma outra coisa que, graças a Deus esta meu pai me legou – foi a de enfrentar os me- dos. Sempre tive muitos medos, mas também a qualidade de enfrentar esses medos. Então, dê no que dê, vamos embora para ver o que acontece! JB – De promotor o sr. passou a juiz. Alguém o incentivou? Tenho um tio (que admiro muito!), o juiz Paulo Pena de Alvarenga, que me animou a fazer concurso para juiz do Trabalho. Achei que poderia ser legal. Além disso, juiz ganhava mais. Mas eu não sabia nada de Direito do Trabalho. Para poder estudar, negociei com o juiz da minha comarca. Ali, havia pouco serviço. Era comum eu ir para o Fórum e o juiz de Direito, para a fazenda. Ele descia para a fazenda e levavam os processos para ele assinar, ali mesmo, na caminhonete. Às vezes, pedia que eu fizesse audiência para ele (quando tinha!). (Risos). Fui incorporando aquilo. Mas, estava tudo certo. Tínhamos uma relação legal. Lá, eu tinha uma fazendinha. Então, combinei com o juiz que eu iria para minha fazendinha – onde ficaria estudando – e o oficial de justiça levaria os processos para eu assinar todo fim de semana. E assim foi feito. Fiquei uns cinco ou seis meses. Mas fiquei para estudar mesmo! Sou disciplinado. Herdei essa qualidade da minha mãe. Tenho facilidade para escrever, tive um bom português. Acho que saber escrever me ajudou e passei no concurso para juiz do Trabalho. Havia uma ou duas vagas. Fiquei em terceiro lugar nas provas. Mas, não fui tão bem na prova oral. Então caí para o quinto lugar. Tive que esperar mais dois anos e, aí, pude realizar um dos meus sonhos, que era ter um ranchinho na beira do rio. Consegui ser promovido, como promotor ainda, para a comarca de Corinto, onde vivi mais ou menos uns dois anos. Nessa terrinha que comprei, na beira do rio, aprendi a gostar de plantar. Tinha canoa, barquinho. Todo fim de semana, ia lá com os meninos, nadava no rio com eles. Foi ótimo! Quando, por fim, chegou a hora de assumir como juiz, fiquei numa dúvida tremenda, porque estava dando tudo certo com a minha vida de promotor. E mudar quando tudo está dando certo é complicado, não é? Em nome de quê eu iria mudar? VC – Mas o sr. encarou mais esse medo e abraçou a magistratura. E então? A primeira fase foi de euforia. Nunca havia pisado na Justiça do Trabalho, nunca tinha feito uma só audiência trabalhista na vida. Não tinha a menor ideia da prática. Naquele tempo, não havia escola judicial. O coração ficava aos pulos. Houve dificuldades, mas, no começo, tive uma fase de achar tudo o máximo. Todo mundo acha, não é? Depois, tive a fase de arrependimento... fiquei lembrando da vida de promotor, daquelas pescarias, das pessoas que eu atendia, que eu gostava, não tinha que cumprir prazos... Sempre cumpri minhas obrigações como promotor, mas não havia estresse. Mas depois cheguei a um meio termo. Posso dizer que fui feliz na minha vida de juiz. Primeiro, houve a paixão, depois, digamos, o inverso da paixão, e depois um amor, às vezes tumultuado... Mas vida de juiz é isso: não é um mar tranquilo. Eu gostava de ser juiz, mas, no final da carreira, já estava cansado. Tem gente que consegue ser feliz nessa profissão até 70 anos, mas, no meu caso, não. Parece que eu tinha um prazo de validade. Já estava querendo me aposentar, ficar mais solto. Já dava aulas, e a aposentadoria veio na época certa, em que eu realmente dese- Suplemento Prata da Casa Página 3 java. Acho que tenho um bom anjo da guarda, porque as coisas têm acontecido sempre na hora certa. Não tenho nada do que me queixar. Se eu morresse amanhã, poderia ir tranqüilo, porque tenho vivido muito bem, mesmo com esses desafios pelos quais eu passei. VC – Onde o sr. atuou como juiz? Quando fiz concurso para juiz, a carreira era mais rápida. Fiquei uns dois anos como substituto. Naquele tempo, já havia me separado da minha primeira mulher e, num acordo tranquilo entre nós, fiquei com os meninos. Eles eram pequenininhos. Consegui ficar mais em Belo Horizonte, mas, também, substituí em Brasília, Barbacena, algumas poucas cidades. Logo depois, veio a promoção para Varginha. Eu ia e voltava, e os meninos ficavam aqui, com a empregada. Passaram-se umas duas ou três semanas, eu procurando casa lá, recebo um ofício com a informação de que a Vara de Poços de Caldas estava vaga. Contei para um vogal que estava comigo, embolei o ofício e joguei fora... afinal, eu estava gostando de Varginha, sabe? Aí, o vogal, não sei se por simpatia a mim, ou se porque não gostava de mim, virou-se e disse: – Ó Doutor, se eu fosse o sr. iria para Poços de Caldas. Respondi: – Ah, nem estou com carro aqui.... e gosto de Varginha! E ele: – Por isso não, eu empresto meu carro. – Então vou lá. – eu disse. Em meia hora andando por Poços de Calda, vi que o homem tinha razão. Era lá mesmo que eu iria ficar! (risos). Me candidatei à vaga e fui. Naquele tempo, era mais tranquilo, depois aumentou um pouco o volume de trabalho, mas nunca passou de uns 1.500 processos por ano, a média era esta. Não havia muitos acordos, pois os advogados tinha “espírito paulista”. Mas fiz muitas amizades, inclusive com os próprios advogados. Os meninos viveram uma infância muito boa. Poços de Caldas, para mim, é como se fosse a minha segunda cidade. Penso até em voltar para lá, quando me aposentar de vez. É uma delícia morar lá, vivendo uma vida tranquila! VC – O sr. ficou com seus filhos. Tinha que conciliar o trabalho com a educação deles. Como se organizou nesse aspecto? Pode parecer que foi encargo ou uma coisa dificílima o fato de eu ter ficado com os meninos, mas foi o contrário. Acho que se não tivesse ficado com eles, teria tido dificuldades de ficar sozinho. Eles me encheram a vida. Íamos toda noite, juntos, à praça, para tomar sorvete, andar de bicicleta. Eu contava histórias para eles, era muito divertido! Em Poços de Caldas, conheci minha segunda mulher. Por coincidência, ela estava em Varginha e foi para Poços de Caldas, onde a gente se encontrou. Dois amigos em comum armaram o nosso encontro e deu certo! JB – E o magistério? Um dia eu estava em Poços de Caldas, quando o Luis Otávio Renault (hoje meu grande amigo!), me convidou para substituí-lo na Faculdade de Direito de Pouso Alegre, enquanto ele estivesse fazendo uma especialização na Bélgica. A Faculdade, na- quele tempo, ainda tinha uma antiga má fama, mas estava tentando se reorganizar. A substituição era no curso de especialização Latu Sensu. Soube que, nesse curso, havia juízes de Direito, advogados já tarimbados, promotores de Justiça. Eu, meio tímido e inseguro, pensei: – Tenho que estudar, né? Quando eu comecei a estudar, aconteceram três fenômenos que mudaram a minha vida (graças ao Luis Otávio Renault!). Primeiro: eu descobri o tamanho da minha ignorância e como é vasto o universo do Direito! Segundo: tomei gosto para estudar. Antes, só estudava para concurso. Não havia sido aluno de tirar 10, ficar estudando todo dia. Nos primeiros anos como promotor, e mesmo como juiz do Trabalho, fui mexer com outras coisas: criava galinha, pescava, lia, tocava flauta (como promotor, em Pouso Alegre, cheguei até a estudar flauta doce), andava de bicicleta, essas coisas... Depois, a coisa se inverteu – ao invés de estudar para dar aula, dar aula me serviu de pretexto para estudar. E estudei mais ou menos uns dez anos, profundamente, sistematicamente. Se eu ia dar uma aula sobre aviso prévio, lia 200 páginas do Russumano a respeito, mais 200 páginas de Hirose Otaviano Pimpão... nem dava tempo de eu expor isso na aula, não é? Dei aula de Processo também. Tem um livro, que descobri no sebo – Tratado Jurídico da Prova, do Moacir Amaral Santos, que tem cinco ou seis volumes. Li estes seis volumes duas vezes, ao longo desse tempo. Se eu ia dar aula sobre salário, lia o Tratado do José Martins Catharino, lia Amaury Mascaro... Essa base me serviu para o resto da vida, mesmo eu tendo memória ruim (minha memória é muito abaixo da média!). Bom, e a terceira boa coisa que me aconteceu foi o encanto pelo magistério. Aprendi como era bom dar aula! Então, fui fazer mestrado e doutorado. Fui colega da Cristiana Soares Campos, da Flávia Rossi. Elas não pensavam em fazer concurso para juiz, mas convenci a Cristiana e a Flávia a fazerem concurso e mexi um pouco na vida delas... para bem, não é? Fico feliz com isso. VC – Atualmente, o sr. ainda estuda muito? Continuo estudando, só que, de um tempo para cá, quando comecei a dar aulas na pós-graduação da PUC (há uns dez anos), mudei o conteúdo dos meus estudos. Em termos de Direito, tenho sobrevivido com as próprias aulas, que me mantêm mais ou menos em forma, e com esses dez ou doze anos de estudo diário – estudava até no ônibus, nas filas, em tudo quanto é lugar... Ultimamente, tenho estudado quase que só história, sociologia do trabalho e um pouquinho de economia do trabalho. Tenho lido pensadores e filósofos do nosso tempo. Tenho uma forte carência de filosofia, não entendo quase nada. Tenho estudado parte da filosofia, um pouco misturada com sociologia contemporânea. VC – A exemplo de seu pai, o sr. também acabou tornando-se professor da UFMG, não é? Eu via o Manoel Cândido e o Carlos Alberto Reis de Paula subindo a rampa da Faculdade de Direito da UFMG e sonhava em dar aula ali. Mas nem ousava pensar. Então fui fazer o dou- tras pessoas. Tudo obedece a certa lógica e interage. E como é que isso interage? Aonde isso está nos levando? A gente pode, diante disso, tentar minimizar essa crise, pensar um novo Direito, numa outra direção. É um percurso histórico para chegar até aqui. E, tendo chegado, tentar apontar alguma coisa para o futuro. Um estudo da crise do Direito, mas não do ponto de vista da análise, das modificações da lei (isso é o de menos!). Será uma coisa mais global. É um tema que demandaria tempo muito grande de vida. CMF* – Alguns colegas (não todos), ao se aposentarem, ficam meio deslocados no tempo e no espaço, sem motivação, arredios, ficando uns até depressivos. Na sua opinião, seria em razão da perda de status, da natural exclusão do foco das atenções? Ou seria apenas em face da brusca quebra de uma rotina cumprida durante anos? Como se evitar isto? O que uma associação como a Amatra3, na sua visão, poderia fazer para minimizar tais comportamentos? torado. Foi o Maurício Godinho (Maurício Godinho Delgado – ministro do TST), que já havia concluído o doutorado, quem me incentivou a fazer o concurso para professor da Faculdade de Direito da UFMG. Primeiro, fui professor substituto, depois fiz o concurso para titular e passei. Quando era jovem, se alguém dissesse que eu seria professor da UFMG, eu jamais acreditaria. Isso não fazia parte sequer dos meus sonhos, É como se um de nós sonhasse em ir para a lua, um dia! (Risos). Então, como disse, meu anjo da guarda é bom, porque consegui não só realizar meus pequenos sonhos – ter um rancho de pescaria, por exemplo – como também conquistar o que sequer sonhava – dar aula numa Faculdade (coisa que eu adoro!). Hoje, dou aula na pós-graduação da PUC, de história do trabalho através dos tempos – um estudo mais sociológico e de história, e de Direito do Trabalho, no bacharelato da Faculdade de Direito da UFMG. VC – O sr. tem mais de cem artigos publicados. Sonha em escrever um livro? Nos últimos anos, tenho tentado escrever um livro, mas não sei se vou conseguir. Vou falar baixo pra minha mãe não ouvir, pois vou dedicar o livro a ela. Seria um livro que pegaria desde a pré-história e momentos relevantes da história do trabalho, como também outras várias coisas que giram em torno do trabalho - a relação entre trabalho e música, por exemplo, a relação entre o jeito de cantar, de pintar, de fazer ciência, de pensar e também de fazer Direito, desde os tempos antigos e imemoriais, até hoje. Isso para tentar mostrar que essa crise existente no Direito do Trabalho, provavelmente, tem ligação com o que nós estamos comendo hoje, o tipo de filme a que assistimos, o jeito da gente dançar, os relacionamentos com ou- Agradeço a pergunta do Clodoveu, grande colega e amigo. Acredito que o trabalho enche as nossas vidas. Dizem até, segundo algumas pesquisas, que o empregado de longa duração passa a ter os mesmos sintomas dos pacientes terminais. Assim, todo aposentado, seja juiz ou não, corre esse risco. No caso do juiz, acredito que as coisas que cercam a profissão nos suprem algumas carências. As pessoas a nossa volta tendem a dizer só o que queremos ouvir, a nos agradar de toda maneira. A gente então passa a viver num outro mundo. E, se a vida não é afetivamente equilibrada, se temos carências afetivas, então suprimos essas carências dessa forma. Além de outras, que essa profissão supre, como o status, por exemplo. Mas essas coisas, sob um certo aspecto positivas, que cercam a vida do juiz, se tornam, elas próprias, carências. Mas quando faltam, as carências se acentuam porque a pessoa se habituou àquilo. Ao longo da vida, se habituou a ser agradada, a ser amada. Ainda que o juiz saiba que muitos agrados não são reais, ele se ilude. A gente se ilude muito facilmente. Então, o juiz sofre esse choque, que é tanto maior quanto maior o vazio de agrados, carinhos e ternuras de sua vida familiar. Além disso, a profissão do juiz preenche quase todos os recantos da vida dele. E, por fim, eu diria – e aí voltando à generalidade – que qualquer aposentado que não tem uma alternativa para se realizar na vida, corre esse risco. Não é só o juiz. Então, você tem que ter, na aposentadoria, algo que te compense – o que pode ser outro trabalho produtivo, ou outro trabalho não produtivo, não rentável. Pode ser cuidar da horta ou dar aula de graça para adultos, como eu próprio penso em fazer daqui a uns tempos. Tudo, menos ficar em casa assistindo à televisão, de pijama. Meu tio Paulo Pena Alvarenga, de quem eu gosto muito, Jornal da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho 3ª Região Página 4 é quase uma exceção à regra. Ele começou a trabalhar muito cedo e, portanto, se aposentou cedo, com a proposta, especialmente, de ler. Ele tem um espírito muito curioso e lê de tudo - desde a vida dos sapos, até a evolução da física, passando por livros de capa e espada (romances). Assiste pouco à televisão. Fica quase o tempo todo lendo, dá uns pequenos passeios, e é feliz com isso, tenho certeza absoluta! Mas, isso, é uma sabedoria que as pessoas não têm, muito menos os juízes, por causa de toda essa intensidade da vida profissional. Eu sou completamente feliz, porque tive essa compensação no magistério - que me traz de volta quase a juventude, por causa do contato com os alunos, da alegria de poder transmitir alguma coisa que eles não sabem. Eles também me ensinam muito. Quanto à segunda parte da pergunta, talvez a Amatra pudesse descobrir outras vocações do juiz. JB – O nome deste Suplemento é Prata da Casa. O sr. esteve uns bons anos na Casa (Justiça do Trabalho), se aposentou, mas participa, comparece no meio jurídico, principalmente no meio acadêmico. Gostaria de saber qual é a sua visão da Casa, hoje? MT – Posso comparar a Justiça, talvez, ao jornal. Naquele tempo, você entrava para a redação do jornal, havia fumaça de cigarro, barulho de máquina de escrever, a gente conversava um com o outro, brincava muito, quando acabava o dia, a gente ia tomar cerveja, necessariamente. E tinha toda aquela emoção de sair com o carro de reportagem. E hoje, como é que eu imagino que seja o jornal? Tudo muito mais rápido, sem barulho, sem a fumaça de cigarro (que tem o seu lado romântico, não é?), todo mundo sem tempo, todo mundo estressado. Na verdade, essa transformação acontece, provavelmente, em quase todos os setores da vida, não é? E também na Justiça. Vejo a Justiça como a redação de um jornal de hoje: todo mundo muito mais rápido, muito mais técnico no Direito (e, nesse sentido, muito mais competente), com um conhecimento jurídico muito mais afinado, porque os concursos também são muito mais difíceis, mas, ao mesmo tempo, talvez, com menor contato com o mundo. Correndo o risco de estar vivendo numa casa sem tantas janelas. Há um número crescente de pessoas que querem fazer concurso com objetivo mais pessoal. É preciso resensibilizar essas pessoas, para que elas sintam um orgulho diferente daquele que, em geral, a profissão nos dá. Na verdade, essa profissão nos dá vaidades, não é? É preciso transformar a vaidade em orgulho de ser juiz. Ter vaidade em ser juiz significa falar para todo mundo: eu sou juiz. Orgulho de ser juiz é estar cumprindo com o seu papel. E qual é o papel do juiz? Ele tem, necessariamente, de ter um olhar para a sociedade, para as injustiças sociais. Justiça do Trabalho é isso. Cristiana – Há algum poema, uma frase, uma palavra, uma coisa que te toca? Embora isso possa parecer piegas, acho que a palavra que a gente deve ter em mente é amor. Amor aos outros, amor ao que a gente faz, amor à vida, amor a nós mesmos (porque se você não for feliz, você não consegue fazer ninguém feliz). “Álbum de Família” Dois momentos: O então professor da Faculdade de Direito da UFMG, Lourival Vilela Viana paraninfo da turma de 1956, recepcionou os alunos em sua casa. Na foto, ele esta na primeira fila (3º da dir. p/ esq.). Ao seu lado, sua esposa Iolanda e, na frente, agachado, seu filho Márcio Túlio Viana (2º da esq. p/ dir). Um dos formandos, à época, o desembargador aposentado do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, Ney Paolinelli de Castro (1º, logo atrás do garoto Márcio Túlio), relatou que o professor Lourival Viana tratava seus alunos, carinhosamente, por “caros colegas”. Dessa turma saíram mais quatro desembargadores: Márcio Aristeu Monteiro de Barros, Sérgio Lélio Santiago, Celso Alves de Melo, Joaquim Alves de Andrade e José Guido de Andrade. Cristiana – D. Ivone, há alguma pergunta, alguma ponderação que a sra. gostaria de fazer? D. Ivone – O Túlio só nos deu na vida alegrias, alegrias e alegrias. Um filho carinhoso, completo, além de ter uma cabeça privilegiada... vocês todos conhecem, não precisa de eu acrescentar nada, mas tem um coração maior do que o mundo. É o que eu sinto. Depois de 60 anos... não é, Túlio? Mais de trinta anos depois (na década de 1990), o professor da Faculdade de Direito da UFMG, Márcio Túlio Viana, repetiu o feito do pai e, também como paraninfo, recepcionou seus alunos. MT – Sessenta e três, mãe! D. Ivone – Eu, como só tenho 93, não sei se 94, ou 95, até nem sei... (risos). Márcio Túlio Viana com sua filha caçula, Laura, na Itália, onde concluiu pós-doutorado em Direito do Trabalho pela Universidade de Roma. * O Diretor para Assuntos de Juízes Aposentados e Pensionistas da Amatra3, juiz Clodoveu Machado Filho, não pode comparecer à entrevista, mas enviou pergunta ao entrevistado. “Causo” Pai coruja Mudança de percurso Eu estava nessa época, no Jornal Estado de Minas, quando apareceu o Jornal da Tarde, em São Paulo. Naquele tempo, o Jornal da Tarde surgiu com uma proposta diferente de fazer jornal e essa proposta pareceume revolucionária. Todo mundo achava o máximo o Jornal da Tarde. Um dia, telefonam lá para o Estado de Minas para me fazer um convite. Eu tinha um bom nome aqui, como jornalista. Gostavam muito do meu texto. Na época, eu assinava as matérias como Túlio Viana. Mas lá, no Estado de Minas, trabalhava um outro Túlio. Então, quando ligaram do Jornal da Tarde, pediram para chamar o Túlio (que era eu!), mas acabou vindo o outro. Era um convite para trabalhar no Jornal da Tarde. O outro Túlio recusou o convite, por questões pessoais. Anos depois, uma pessoa do Jornal da Tarde me contou isso. Depois de certo tempo é que eles descobriram que o tal Túlio, com quem haviam conversado ao telefone, não era eu. Conto esse caso, porque, se na época, eles tivessem achado o Túlio certo, eu provavelmente não estaria aqui, pois certamente iria para o Jornal da Tarde, que era um jornal conceituado. E eu adorava a vida de jornalista. Iria morar em São Paulo... e tanta coisa poderia ter acontecido não é? A esposa Gina e a filha caçula Laura. Filhos Mariana e Lucas, com a nora Paula Anamaria (filha) e Luíza (neta) Raquel (filha) e Gabriel (neto- flho de Lucas) Expediente Suplemento Prata da Casa No 20 - Julho/2010 - Publicação da Associação dos Magistrados da Justiça do Trabalho da 3ª Região Presidente: João Bosco de Barcelos Coura Diretora de Comunicação: Denízia Vieira Braga Jornalista Responsável: Virgínia Castro Reg. Prof. 03353/JP Revisão: Merrina Delgado Projeto gráfico e diagramação: Carlos Domingos Reg. Prof. 6050/MG Fotos: Gláucia Rodrigues e Arquivo de família