1 UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU PROGRAMA DE PÓSGRADUAÇÃO STRICTO SENSU MESTRADO EM EDUCAÇÃO FÍSICA Percepção da capacidade funcional de idosos: do incremento da força à força das conexões significativas FABIANO MARQUES CAMARA Dissertação apresentada à Universidade São Judas Tadeu, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em Educação Física, sob a orientação da prof a . dr a . Marília Velardi. SÃO PAULO 2005 2 AGRADECIMENTOS Todos aqueles que me conhecem, sabem da minha simpatia pela complexidade, pelo caos, pelos sistemas, enfim, por aquilo que é tecido junto, que é complexus. Assim, embora pareça que esta seja a “minha” dissertação, o “meu” trabalho, ele é também de todas as pessoas que o teceram comigo nesses quase dois anos de dedicação. É por isso que me sinto profundamente agradecido por ter compartilhado desta tessitura com muitas pessoas que, sem as quais, este trabalho não teria nascido. À minha sustentação primária, meus pais, que por mais de uma vez não mediram esforços para a realização de um sonho e, tenho certeza, sufocaram muitos de seus próprios para a realização do meu, só pai e mãe mesmo! E a meu irmão que também, mesmo sem paciência, me suportou nesses longos meses! Outra pessoa que também tenho certeza que se desdobrou em muitas para poder me acompanhar foi minha Sheila, que com todo seu amor e paciência, me forneceu todas as suas forças quando as minhas pareciam ter se esgotado. A ela que me inspiroume e me acolheu nos momentos mais difíceis, sem hesitar e que superou com graça minhas ausências. É por isso que lhe ofereço meu sincero, muito obrigado! Te amo muito! Minha família aumentou mesmo, mas geralmente ganhamos tios e tias postiças. Eu, no entanto, ganhei até mãe. Agradeço à Marilia, minha mãe acadêmica, que me deixou seguir meu caminho com a mais autêntica autonomia, em seu sentido mais complexo! Como ela me ensinou! E obrigado por agüentar todas as minhas viagens! Por falar em família, como ela mesma se intitulou, agradeço muito a minha tia Miranda por me propiciar sua companhia e, literalmente, me doar todo seu conhecimento de professora, momentos de estágio que não esquecerei jamais! Aumentando ainda mais minha árvore genealógica, agradeço à Vilma, que foi também uma super mãe na pósgraduação. Me ensinou, me acolheu, me aconselhou, e, acima de tudo, confiou em mim. Muito obrigado professora! Ao professor Durval que expressou uma alegria de pai ao me parabenizar pelo ingresso no mestrado, cuja sinceridade jamais esquecerei. Obrigado pelo infinito apoio! 3 A minha irmãzinha acadêmica, a GG (tudo bem vai, Alessandra!), que me apoiou sem descanso em toda essa caminhada. Obrigado pelo apoio, ensinamentos e pela paciência com minhas intermináveis reflexões...! Aos meus professores de graduação com que tive a honra de dividir a sala de aula: Bello, Ailton, Bete que ajudaram, com certeza, a fortalecer minha autonomia! À Licca, pelos ensinamentos na sala dos professores! À professora Sandra, que me ensinou, me incentivou e confiou em mim ,incondicionalmente! À professora Sheila, que me ensinou a “epistemologiar” com prazer! Aos professores Romeu, Eliana, Mochi, Kátia e Regina, por doar sem restrições todo seu conhecimento. À Simone e a Selma pelo atendimento (e paciência!) impecável. Ao professor Paulo Farinatti, pelas reflexões...! A todos os colegas de mestrado, especialmente ao Lucinar, Daniel, Demilto e Ari pela incansável garra transmitida! Aos amigos do GREPES, especialmente a Suse, Renatinha e Márcio pela IMENSA ajuda na coleta de dados. Aos alunos do RIC e da graduação, pelo incessante aprendizado. E, não poderia deixar de citar, meus agradecimentos àqueles que com suas obras engrandeceram minha formação e, a seu modo, me inspiraram. Assim como fiz com todos atrevome a chamálos pelo primeiro nome: Maurice, Edgar, Humberto, Paulo, João, Fritjof, Manuel e Oliver! Àqueles também que percorreram meu fone de ouvido, em horas e horas de escrita: Wolfang, Ludwig Van, Nicollo, Edu, Kiko, Joe, Steve, Allan, SRV, Eric e Yngwie. Aos idosos que participaram da pesquisa, porque só mesmo eles para exibirem tamanho bom humor e cumplicidade para levantar peso logo às sete da manhã! Muitíssimo obrigado! À Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a Universidade São Judas Tadeu (USJT) pelo apoio financeiro. 4 SUMÁRIO LISTA DE FIGURAS vi RESUMO vii ABSTRACT ix APRESENTAÇÃO xi 1. INTRODUÇÃO 01 2. REVISÃO DE LITERATURA 09 2.1 Capacidade funcional de idosos 09 2.2 A percepção 15 2.2.1 Ouvir com seu corpo todo: a sinestesia do corpo vivido 18 2.2.2 Mãos imprestáveis: a expressão situacional 22 2.2.3 A espacialidade e a transcendência 23 3. MÉTODO 27 3.1 Os participantes 27 3.2 O programa 27 3.3 Seleção e capacitação dos professores 29 3.4 Capacidade funcional percebida 30 3.4.1 Caderno de campo 30 3.4.2 Entrevista narrativa 30 3.4.3 Procedimento para realização da entrevista 32 3.5 A fase da análise 34 3.5.1 Força muscular 34 3.5.2 Caderno de campo e a entrevista 34 5 4. RESULTADOS 37 Sujeito A 37 Sujeito B 47 Sujeito C 57 Sujeito D 68 Sujeito E 81 Sujeito F 91 Sujeito G 98 Sujeito H 104 5. DISCUSSÃO 111 6. CONCLUSÃO 135 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 137 ANEXOS 140 6 Figura 1 Desempenho da força muscular do sujeito A nos exercícios propostos 46 Figura 2 Desempenho da força muscular do sujeito B nos exercícios propostos 56 Figura 3 Desempenho da força muscular do sujeito C nos exercícios propostos 67 Figura 4 Desempenho da força muscular do sujeito D nos exercícios propostos 80 Figura 5 Desempenho da força muscular do sujeito E nos exercícios propostos 89 Figura 6 Desempenho da força muscular do sujeito F nos exercícios propostos 96 Figura 7 Desempenho da força muscular do sujeito G nos exercícios propostos 103 Figura 8 Desempenho da força muscular do sujeito H nos exercícios propostos 109 Figura 9 – Figura de Zollner 130 LISTA DE FIGURAS 7 RESUMO Percepção da capacidade funcional de idosos: do incremento da força à força das conexões significativas São vastas as publicações na literatura que apontam para as relações positivas entre a capacidade funcional (CF) dos idosos e o desenvolvimento da força muscular, considerada capacidade física fundamental e predominante para a execução das ações diárias. Baseados nessa premissa, muitos programas de atividades físicas para idosos têm priorizado o desenvolvimento da força muscular, atendendo aos posicionamentos que sugerem prescrições de atividades para esse grupo. Tais programas determinam o grau de funcionalidade do idoso a partir de uma avaliação funcional baseada na aplicação de testes físicos e instrumentos de autoavaliação. No entanto, pude observar que os resultados da clássica avaliação funcional, realizadas no Projeto Sênior para a Vida Ativa, não demonstravam melhoras significativas na funcionalidade dos idosos participantes, fato que prenuncia certa discrepância com aquilo que se tem apresentado na literatura. Por outro lado, os idosos relatavam, com freqüência, que se sentiam funcionalmente mais capazes. Em vista disso, questionei porque os relatos dos idosos diferiam daquilo que fora observado com relação aos testes. Para buscar explicações sobre essa situação, recorri ao estudo da percepção de MerleauPonty, que considera que toda percepção é habitada por um sentido é nossa forma de conhecimento do mundo e está relacionada a um contexto de vida. Mediante essas constatações, o objetivo da presente investigação é compreender a percepção da CF de idosos participantes de um programa de treinamento resistido. Buscando criar condições para a compreensão da percepção da CF foi desenvolvido um programa de exercícios resistidos, que contou com a participação de oito idosos com mais de sessenta anos. Com o intuito de identificar possíveis mudanças na percepção da CF com relação ao desenvolvimento da força muscular, os dois primeiros meses do programa foram realizados com uma freqüência semanal de dois dias, e, nos dois meses seguintes, a freqüência foi reduzida para um dia. Essa variação na progressão foi tida como uma situação importante para compreender a percepção da CF. Assim sendo, ao final do programa, foi realizada uma entrevista narrativa com cada participante, com vistas à compreensão da CF percebida. Tais entrevistas foram registradas por uma câmera de vídeo e analisadas por técnicas de análise de discurso. A partir dessas análises pude observar que as ações funcionais relatadas como sendo melhores, exibiam um significado que se conecta com uma situação vivida. Sentirse funcionalmente capaz mostrouse, em alguns casos, através da possibilidade de exercer papéis como o de mãe ou o de cuidadora. Em outros 8 participantes, a percepção da CF revelouse pela supressão de dores em atividades cotidianas que representavam momentos dolorosos na história de suas vidas. Outro ponto importante referese à relação entre a CF e a força muscular. Alguns idosos experimentaram uma manutenção da sua força no período com a freqüência semanal reduzida, todavia sentiamse mais fracos para a realização dos exercícios. Isso denota que a CF percebida não depende de níveis de força alcançados e pode depender de toda uma situação vivida. Diante disso, concluise que a CF percebida referese a ações funcionais que exibem um significado para o idoso. Assim, incrementar o desempenho de suas habilidades funcionais parece não ser suficiente, ou nem mesmo necessário, para que o idoso perceba essa melhora em seu cotidiano. Palavraschave: percepção; capacidade funcional; idoso; força; exercício resistido. 9 ABSTRACT Perception of functional capacity of elders: from the strength increase to the strength of the significant connections There are several literary publications pointing out to the positive relation between the functional capacity (FC) of elders and the development of the muscle strength, considered fundamental and predominant physical capacity to perform daily actions. Based in this assumption, many physical activity programs addressed to elders have been giving priority to the development of muscle strength, observing positions which suggest the prescription of activities for this group. Such programs determine the degree of functionality of the elder, as of a functional evaluation based in the application of physical tests and selfevaluation instruments. However, I was able to observe that the results of the classical functional evaluation made within the Senior Project for Active Life have not shown significant improvements in the functionality of the participating elders, fact which evidences a certain discrepancy with what is being presented in the literature. On the other side, the elders frequently reported they felt more functionally capable. As a consequence thereof, I have questioned why the elders reports differed from what had been observed in relation to the tests. In order to seek explanations on this situation, I have resorted to the perception study of Merleau Ponty, which considers that all perception is qualified by a sense, is our means of knowing the world and is related to a life context. Through such determinations, the objective of the present investigation was to understand the FC perception of elders participating of a resisted training program. Seeking to create conditions to understand the FC perception, a resisted exercise program was developed, counting on the participation of eight elders over sixty years of age. For the purpose of identifying possible changes of the FC perception in relation to the development of muscle strength, the first two months of the program were performed with weekly frequency of two days and for the two subsequent months the frequency was reduced to one day. This variation of the progress was deemed an important situation to understand the FC perception. Therefore, at the end of the program, a narrative interview was made with each participant, aiming at understanding the FC perceived. Such interviews were recorded by a video camera and analyzed by speech analysis techniques. From such analysis, I was able to observe that the functional actions reported as best showed a significance connected to an experienced situation. To feel functionally able has proven to be, in some cases, the possibility of exercising roles such as that of mother or caretaker. For other participants, the FC perception was revealed by the suppression of pains during day to day activities, which represented painful moments in the life history 10 of such elders. Another important point refers to the relation between FC and muscle strength. Some elders experienced a maintenance of their strength during the period of reduced weekly frequency, however they felt weaker when doing the exercises. This shows the perceived FC does not depend on the levels of strength reached and may depend on a whole experienced situation. In face of the above, I conclude that the perceived FC refers to functional actions which are meaningful for the elder. Thus, to increment the performance of their functional capacities does not seem to be sufficient or even necessary for the elder to perceive such improvement in his day to day life. Keywords: perception; functional capacity; elder; strength; resistance exercises. 11 APRESENTAÇÃO O presente relatório de pesquisa visa descrever o trajeto percorrido pelo pesquisador para compreender a percepção da capacidade funcional de idosos, mediante o desenvolvimento de um programa de treinamento resistido. Em sua introdução destacase a problemática sentida pelo pesquisador, sustentada posteriormente por dados da literatura sobre as características que permeiam os estudos sobre a capacidade funcional de idosos. Tendo em vista, ainda, que a percepção é fio condutor das indagações levantadas, apresentase a opção do referencial teórico da fenomenologia. A revisão literária é divida em dois blocos: o primeiro referese ao estudo da capacidade funcional do idoso, desde sua conceituação até suas relações com a prática de exercícios, particularmente com os exercícios resistidos. Temse como meta, neste momento, investigar como tais relações têm sido identificadas, quais instrumentos e formas de avaliação têm sido apresentados, bem como quais são as implicações nos estudos sobre a funcionalidade do idoso. O segundo bloco foi tecido com vistas a apresentar o referencial adotado para o estudo da percepção. Nesse ponto, o principal referencial adotado é a fenomenologia da percepção de Merleau Ponty, que traz um legado de estudos sobre a corporeidade e uma teoria geral de percepção. Na próxima seção, descrevese a trajetória que levou à consecução do método adotado para conceber a pesquisa proposta. Traçamse, neste ponto, as características dos participantes, a fundamentação teórica que sustenta a opção pela entrevista narrativa, o processo de capacitação dos professores atuantes na pesquisa e o programa de exercícios desenvolvido. Além disso, descrevese todo o percurso de análise das entrevistas e dos dados que se referem ao comportamento da força muscular dos participantes. Em seguida, são apresentados os resultados obtidos. Foi realizada uma análise individual de cada entrevista, mediante o recorte de trechos que foram considerados cruciais para a compreensão da funcionalidade de cada participante. Ademais, estão presentes, nessa seção, as figuras com os resultados do comportamento da força muscular dos participantes, que permitem estabelecer as relações propostas no bloco introdutório. Tendo em vista a descrição dos resultados, o passo seguinte conformase pela discussão desses achados. Destacamse, em um primeiro momento, as relações entre 12 os dados caracterizados como objetivos e a literatura consultada. Em seguida, traçam se as discussões referentes às informações subjetivas com o referencial da percepção adotado. Por fim, discorrese sobre as implicações desses resultados para a compreensão da capacidade funcional percebida. 13 1. INTRODUÇÃO Seres humanos ou máquinas? Desde meados da década passada, depareime com essa questão. Tal indagação teve sua gênese nas vivências e experiências em ambientes “habitados” pacificamente, ou não, mas em conjunto, pelos entes enunciados na questão precedente. Esses questionamentos permearam e fomentaram inquietações e anseios que, por conseguinte, colocariam a nu, mesmo que eu nem desconfiasse, meu olhar sobre o mundo. Algumas experiências profissionais na área da engenharia tiveram papel fundamental nesse cisalhamento paradigmático, mesmo que eu ainda nem suspeitasse disso. Ainda no início da minha carreira, fui solicitado a treinar grupos de funcionários na empresa em que trabalhava, a partir do conteúdo técnico sobre qual versava minha atuação. O treinamento foi dirigido a pessoas com baixo nível de escolarização, para os quais deveria ajustar minhas ingênuas mas bem intencionadas lições. Foi uma tarefa árdua, mas o contato com o ser humano tornoua infinitamente prazerosa. Naquele momento, não tinha nem idéia de que tal experiência levarmeia à percepção daquela incompreensível afinidade que sentia pelas pessoas. Mas havia muito que aprender sobre os humanos e, especialmente, sobre mim. Do trabalho com as máquinas para o desejo de compreender o humano, por exemplo, não poderia dizer que foi um caminho longo, tendo em vista nossa objetividade em relação ao tempo, e também seria incompleto e, de certa forma até mentiroso se relatasse que foi uma transição tranqüila. Outra experiência que pode também fomentar a ruptura com mecanicismo, rumo à humanização, foi a oportunidade de supervisionar um grupo de mais de trinta pessoas. Naquele momento, eu tinha plena certeza de que minhas habilidades com as máquinas estavam longe de contemplar a problemática da convivência social, do poder, do trabalho. Por outro lado, obtive importante sucesso no cargo de supervisor, o que para mim parecia deveras improvável. Muito embora, tal satisfação teve pouca mas intensa duração. Assim, a certeza do insucesso não foi comprovada e, como diria Pedro Demo, a partir daquele momento, eu só possuía certeza sobre minha incerteza (DEMO, 2002). Debruceime novamente às máquinas, cedendo à opressão do sistema e, assim, acentuaramse minhas angústias sobre qual caminho seguir. No entanto, esse conflito levoume à reflexão e ao autoconhecimento. Pude experimentar as dificuldades e os prazeres da capacidade exclusivamente humana de transcendência, na medida em que caminhei rumo a escancarar um outro lado, ou melhor, aquele que era minha única face, ainda reprimida. Essas breves, mas 14 marcantes experiências puderam trazer à tona um desejo tal que, reprimido por uma vontade, suprimia, por poucos mas arrastados anos, minha autonomia. Nesse panorama, em que vivia (ou sobrevivia), um insight repentino, talvez motivado pelo êxito inesperado na relação com as pessoas, levoume a romper definitivamente com essa aspiração forçada às engenharias. E, após pouco tempo em tal área, optei pelos caminhos ainda não bem reconhecidos da Educação Física, rumo a atingir o outro pólo de minha questão inicial, os seres humanos. Essa ruptura com as ciências exatas, com as máquinas e com o cálculo não foi concretizada a partir de um desempenho insatisfatório nessa área, mas por uma hesitação quase sufocante de compreender o ser humano. Desde então, passei a olhar ao meu redor, a observar o mundo através de outro prisma ainda obscuro, mas recíproco. Essa empreitada numa nova área do conhecimento, a Educação Física, levoume quase que diretamente ao fascínio pelos mecanismos fisiológicos do nosso organismo. Tal foco de estudo poderia levarme à nobreza aproximarmeia de seus exímios conhecedores, os médicos. Não obstante, esse foco de investigação tornouse o pilar central, quase único, hegemônico, do início de minha atuação técnica e acadêmica e, se me aproximei da Medicina, me distanciei da Educação Física e do ser humano, fato que, a princípio, eu nem desconfiava. Digo que me distanciei da Educação Física, porque algumas decepções, que eu nem tenho coragem de relatar, escancararam que, mesmo atuando diretamente com pessoas, eu não os tratava como seres humanos e insistia em conhecer e dominar tais máquinas vivas, portanto, mecanismos. Conhecia, cada vez mais, os processos de tal máquina, mas estava longe de contemplar sua totalidade. O que seria uma relação centrípeta, circular ao ser humano, tornavase aos poucos uma relação centrífuga e mecanicista. Olhava apenas para a parte, não compreendia o sistema. E renegava assim, sem saber, a complexidade humana. Ainda no período da graduação, reflexões e debates acerca do olhar abrangente e livre de determinismos que a Educação Física deve ter, se quiser atingir os seres humanos em sua total complexidade e singularidade, atraíamme incessantemente. Não seria por menos, então, que as discussões acerca da promoção da saúde ganhariam minha atenção. O humanismo inerente a esse ideário começava a me mostrar a minha verdadeira e, até então, suprimida visão de mundo. Essas leituras e discussões foram fomentadas nas reuniões de que participei e ainda participo com o Grupo de Estudo e Pesquisa Sênior, que foca as relações entre o processo de envelhecimento e a Educação Física na perspectiva da promoção da saúde. A constituição desse grupo pôde dar subsídios importantes para a implantação 15 e o desenvolvimento do Projeto Sênior para Vida Ativa 1 . O referido projeto é um programa de Educação Física para idosos, que tem como foco a educação para a saúde através da prática de atividades físicas. Suas ações são embasadas no ideário da promoção da saúde e na teoria da velhice bemsucedida. No desenvolvimento do Projeto Sênior, já “embebido” pela humanização que propõe o ideário da promoção da saúde, pude olhar para os idosos também “através” de sua carcaça biológica. E, em meio à prática de atividades físicas e de ensino, os inúmeros relatos dos participantes sobre suas aspirações, desejos, problemas, percepções, suscitaram meu olhar. Dentre os diversos relatos com os quais pude tomar contato, aqueles sobre a melhoria no desempenho das atividades da vida diária, denominada como capacidade funcional, levaramme à profundas inquietações e dúvidas. Claro que seria natural, esperado e, até, gratificante que os idosos melhorassem sua condição física, com potencial efeito sobre sua funcionalidade, mas o que mais me intrigava é que, a partir das avaliações funcionais realizadas, os acréscimos de desempenho físico eram mínimos. Ao debruçarme na literatura sobre a capacidade funcional e a atividade física, pude notar, com clareza, que melhoras na aptidão física, em especial na força muscular, trazem importantes incrementos no resultado da avaliação funcional. É vasta a literatura sobre o assunto. Podese citar o trabalho clássico de Fiatarone et al. (1994), por exemplo, que documentaram, que em apenas em 10 semanas de treinamento de força muscular, ocorreram incrementos importantes na capacidade funcional. Além disso, a extensa revisão literária apresentada por Kell, Bell e Quinney (2001) também deixa claro que incrementos na força muscular propiciam melhor desempenho nas atividades do cotidiano, além de reduzir a incidência de quedas e risco de morte. Da mesma forma, autores como Spirduso (1995) e Evans (1999) enfatizaram a intima relação entre força muscular e desempenho funcional. Nesse sentido, pude compreender o motivo da posição de status quo que assume a relação entre força muscular e capacidade funcional, cuja a correlação intensa tornouse premissa básica de qualquer pesquisa sobre esse assunto, quase um axioma. Incontestável, intocável. Ora, já que é tão bem estabelecida essa correlação, porque a percepção dos idosos participantes do projeto Sênior sobre sua capacidade funcional apresentava certa discrepância nos resultados das avaliações? Será que sua percepção estaria equivocada? 1 As atividades do Grupo de Estudo e Pesquisa Sênior iniciaramse em 2000, e as do Projeto Sênior para Vida Ativa (que a partir daqui será denominado apenas de “Projeto Sênior”), em 2002, ambos na Universidade São Judas Tadeu. 16 Para esclarecer essa dúvida, poderia utilizar as lentes do positivismo, assumir uma premissa mecanicista e propor algumas soluções sobre a discrepância entre o resultado da avaliação funcional e o relato dos idosos observados no Projeto Sênior; tentaria elidir ao máximo os aspectos subjetivos; sufocaria as ambigüidades; levaria ao extremo todos os pressupostos deterministas como: validar outros instrumentos, desenvolver testes mais específicos, estratificar minuciosamente a amostra da pesquisa, valerme de todos os esforços para me convencer de que seria possível a verdade absoluta, a realidade cristalina, o método infalível. Teria, sempre, como horizonte, a causalidade exposta, e continuaria, assim, tentando mecanizar o humano, o que seria, definitivamente, um contrasenso frente a sua complexidade. Essa experiência mostroume o quanto compartilhava de uma visão fragmentada do ser humano e que precisava olhar por outros vieses para compreendêlo. Dessa forma, o envolvimento com o grupo de estudo e o projeto ajudoume a olhar a questão do envelhecimento e, por conseguinte, do ser humano, pela ótica da complexidade humana. Aprendi que podia, sim, imerso no campo de conhecimento da Educação Física, compreender outros domínios do ser humano, para além do “biologismo” que assola a área há muito, e tentar “rejuntar” os fragmentos de homem forçosamente desconectados pela visão positivista de mundo. Nas reflexões suscitadas pela participação no grupo de estudo e no projeto, pude compreender que podia e que, acima de tudo, necessitava contemplar o ser humano em sua totalidade, entendendoo para além de seu funcionamento fisiológico, compreendendo a sua subjetividade, o que o torna, de fato, humano. Dessa forma, ficou claro, para mim, que os estudos sobre capacidade funcional e força muscular, exemplificada há pouco, aspira, o tempo todo, à objetividade, à neutralização, à validação, à comprovação. Deixa pouco espaço para aquilo que, de fato, o caracteriza como humano, negligenciando o diálogo, o sentimento, a percepção, seus olhares. Tratar a capacidade funcional do idoso, eximindo as características humanas, é, então, negar ao ser humano os caracteres essenciais que o definem como tal; é fechar os olhos para sua complexidade. Edgar Morin já ensinava que “atingir a complexidade significa atingir a binocularidade mental e abandonar o pensamento caolho” (MORIN, 2003, p.215). Dessa forma, pelas lentes da promoção da saúde e da teoria da complexidade, deparei com a visão de um homem complexo, dotado de plasticidade e flexibilidade, um ser vivo movido por uma dinâmica nãolinear, aberto ao mundo e à transcendência, enfim, um sujeito autônomo (CAPRA, 1982). Nesse sentido, se quisermos compreender a capacidade funcional do idoso, a complexidade enunciada não deve ser esquecida, renegada ou abafada, mas evidenciada. 17 Isto posto, por uma via que aspira à objetividade, à redução e à quantificação, não seria possível entender aqueles relatos intrigantes dos idosos sobre sua capacidade funcional. Já que parecia que a percepção da capacidade funcional denotava um sentido especial para cada um, mais presente nas entrelinhas do que nas linhas, nos silêncios do que nas falas, nas expressões e na subjetividade, o modelo de capacidade funcional do positivismo não responderia à altura para a compreensão da funcionalidade percebida pelos idosos. O fenômeno estava ali, diante dos meus olhos, ao alcance das minhas mãos. Não havia nada de científico, nem de senso comum que o “comprovasse”, que elidisse toda a possibilidade de uma vertigem pessoal, mas, de fato, eu tinha que assumir que o fenômeno ocorrera. Deveria livrarme das amarras do reducionismo, já que a percepção da capacidade funcional pelos idosos revelava o humanismo que esquecera outrora e que eu não podia mais recusar. Não poderia, então, deixar o fenômeno da capacidade funcional percebida pelos idosos desvanecer, nem taxálo como uma simples curiosidade empírica, uma exceção da regra. Mesmo que não obtivesse da literatura explicações ou hipóteses sustentadas, deveria debruçar para descobrir outro caminho, que me permitisse enveredar no fenômeno, desvelálo. Parecia, então, que a percepção da capacidade funcional seria o fenômeno a ser investigado. Desse modo, recorri à obra derivada da tese de doutoramento de MerleauPonty, a fenomenologia da percepção. A essência da percepção, para MerleauPonty (1999), está no poder préobjetivo do corpo, um poderio que nos leva ao conhecimento do mundo, mas que nunca será definitivo, porque transcende infinitamente no curso do tempo, ou seja, nunca atingiremos a certeza de uma percepção. O corpo do qual fala o filósofo não é aquele análogo ao mecanismo do relógio, aquele que os mecanismos fisiológicos ou as gravuras da anatomia descrevem com uma pretensa clareza apodítica, mas, sim, aquele corpo vivenciado no mundo. É um corpo que, através de sua motricidade, tornase um termo simbólico do mundo e revela sua percepção através de suas potencialidades expressivas, que trazem consigo sempre um significado e todo o rastro de sua história. Assim, toda a percepção e, naturalmente, toda a forma de expressão estão permeadas de significações, de sentido, seja ela um gesto, uma fala, uma atividade da vida diária. E é essa percepção e essa teia de significados atribuídos ao que se vive que constituem, de maneira inexorável, o ser humano. Nesse ponto, retomo as preciosas informações da literatura e as minhas observações no Projeto Sênior. De fato, é bem coerente que o aumento da força 18 muscular pode propiciar incrementos funcionais, já que as atividades do cotidiano exigem muito mais da força muscular que qualquer outra capacidade física. Mas, ao refletir sobre esse pressuposto, pude levantar mais alguns questionamentos. Talvez melhorar nos testes de capacidade funcional não signifique que o idoso passe a perceber essa melhora no seu cotidiano. Será que o treinamento resistido tem essa “varinha de condão”? As tendências das pesquisas positivas são promissoras e até bem estabelecidas, mas no âmbito de uma visão científica complexa, como seria o comportamento da capacidade funcional percebida pelos idosos? Dessa forma, ao olhar o mundo sobre outro prisma, passei a contestar o que a ciência positivista da Educação Física tinha como incontestável. Para tais estudos, não haveria mais sentido por à prova a idéia da causalidade entre força muscular e capacidade funcional, pois o mundo objetivo não faz esses questionamentos. Mas, ao abduzir minha visão sobre o mundo, pude, de fato, duvidar e contestar tal hegemonia do treinamento resistido sobre as relações entre a capacidade funcional e o envelhecimento. Essas conclusões nas correlações entre testes funcionais e de força, tão aceitas e inquestionáveis, manteriam sua hegemonia a partir da visão do idoso? Não é intenção dirimir os efeitos benéficos da melhora nos níveis de força muscular sobre fatores biológicos que podem ser atingidos, mas considerar o que essa atividade traz no tocante à capacidade funcional percebida pelo idoso. Parece importante, também, ressaltar até que ponto esses estudos levam em conta a condição humana como fator crucial de avaliação de sua eficácia. Assim, seria mais pertinente por à prova uma certeza que, aos olhares do pensamento cartesiano, parecia indubitável. Todavia, à luz do ideário da promoção da saúde, que evidencia a autonomia e a participação do sujeito nos determinantes de sua saúde, sob o pano de fundo da teoria da complexidade, que levanta uma visão de homem complexo e transcendente, bem como pela fenomenologia, que faz com que o pesquisador recoloque o homem em sua existência, poderia se dar a compreensão da capacidade funcional percebida pelos idosos em sua imanente complexidade. Mas as narrativas que me inquietaram inicialmente e que poderiam desvelar tais percepções, já tinham ocorrido. Assim, eu necessitava de um novo ambiente de prática de atividade física para que pudesse ir ao fenômeno e, prontamente, interrogá lo para poder, então, conhecêlo, descrevêlo e, especialmente, compreendêlo. No entanto, não seria qualquer prática que possibilitaria tal desvelamento, mas, sim, uma que pudesse motivar situações para a percepção da capacidade funcional percebida. Ao levantar as possibilidades e caminhos para a prática do treinamento resistido, depareime com uma possibilidade de progressão que tem sido pouco estudada nos 19 idosos. Temse cogitado que a redução da freqüência semanal para um dia possibilitaria a manutenção da força adquirida em período precedente com uma freqüência semanal maior (FLECK e KRAEMER, 1999; MCCARRICK e KEMP, 2000; TRAPPE, WILLIAMSON e GODARD, 2002; TUCCI et al, 1992). O contato com essas publicações fezme conjeturar sobre alguns efeitos dessa redução na freqüência sobre a capacidade funcional percebida. Tendo em vista a complexidade que envolve o fenômeno, já que estamos lidando com seres humanos e sua imanente subjetividade, será que, mesmo que a força se mantenha com uma freqüência semanal reduzida, essa constância reproduzirseia com relação à percepção da capacidade funcional? Dito de outro modo, um idoso poderia experimentar um aumento de força concomitante a uma percepção de melhoria de sua funcionalidade no primeiro período. No entanto, se houver a manutenção da força durante o período de redução da freqüência semanal, será que, ele ainda continuaria a perceber sua funcionalidade como satisfatória? No princípio, esse questionamento soarame como algo infundado, como um fantasma que me perturbava constantemente, quase um demônio. Mesmo ainda não sabendo, essas perturbações me despiriam mais um pouco dessa armadura positivista que ainda me cobria. Tais questões pareciam infundadas, impuras, sem lógica, uma mera aposta. Todavia isso ofenda os positivistas mais fervorosos, que advogam cegamente uma neutralidade ingênua, Morin (2003) tirarame desse aparente sufoco através da sua descrição da noção de thematha, proposta por Gerald Holton. Thematha são aquelas idéias bizarras, impuras, que estimulam a curiosidade e impulsionam as ações de investigação do pesquisador, algo quase obsessivo, impulsivo, do desejo, que apesar de não cientificamente explicável pelos moldes clássicos está no núcleo e é indispensável a todo conhecimento científico. E isso não se resume apenas à ciência, mas o mundo se organiza em torno de desejos (ALVES, 2004). E, se não formos assim, diria Morin (2003), seremos apenas burocratas da pesquisa, funcionários, reprodutores de procedimentos ditos corretos, que agregam quantitativamente, mas não reconstroem o conhecimento qualitativamente 2 . Desse modo, as reflexões de Morin (2003) puderam me tranqüilizar e dar fôlego para que eu contemplasse o entendimento das questões levantadas que, se num primeiro momento, pareciam distanciarme da ciência, levaramme, entretanto, ao seu núcleo obscuro, mas indispensável. Tive condições, assim, de apostar que um treinamento de força com redução da freqüência semanal poderia proporcionar uma situação interessante para conhecer a percepção da capacidade funcional do idoso. 2 Esse núcleo não científico também foi apresentado por Lakatos como “núcleo duro” da ciência, algo não científico, mas indispensável a ela (MORIN, 2003). 20 Nesse sentido, é necessário fazer a pesquisa, ir ao fenômeno para desvelálo, por a prova tais conjecturas, percepções, desejos. Desse modo, essas conjecturas inevitáveis e, de certa maneira, pulsionais, mais relativas ao desejo do que à vontade, imbuírase em meu pensamento. Dessa forma, o objetivo desta pesquisa é compreender os significados da percepção da capacidade funcional de idosos participantes de um programa de exercícios resistidos intencionalmente modulado para buscar relações entre a capacidade funcional percebida e esse tipo de atividade, ao enveredar no fenômeno, partindo do olhar de seus atores, os idosos. Isso posto, deve ficar claro, ainda, que não é meta desta investigação propor um novo instrumento de medição da capacidade funcional percebida, mesmo que seus resultados incitem a isso. Rubem Alves afirma que em ciência “não existe garantia alguma de que tal pressuposição seja válida. Não começamos com garantias [...] Uma vez feita a aposta... pagamos pra ver. Fazemos a pesquisa. Experimentamos” (ALVES, 2004, p.52, grifo nosso). Assim, na ciência, é natural apostar, conjecturar. Essa é a proposta vital do presente estudo. 21 2. REVISÃO DE LITERATURA 2.1 Capacidade funcional de idosos Como já abordado no bloco introdutório, as relações entre a capacidade funcional e a função física na velhice são tidas como premissas básicas para a investigação da funcionalidade do idoso. Isso parece decorrer do conceito bem estabelecido de capacidade funcional na velhice, que se refere à capacidade do idoso em realizar suas atividades cotidianas. Essas atividades da vida diária podem ser definidas em dois grandes grupos: no primeiro, as atividades básicas da vida diária (ABVD), que se referem aos cuidados básicos, como o banho, a alimentação e a locomoção; no segundo as atividades de maior complexidade, como cozinhar, fazer compras ou usar os meios de transporte, ações essas que costumam estar contidas no grupo de atividades instrumentais da vida diária (AIVD) (OKUMA, 1997; SANCHEZ, 2000). Além disso, podese destacar também um outro grupo de atividades preconizadas pelo American Geriatrics Society (COTTON, 1998 apud MATSUDO, 2000), que são as atividades avançadas da vida diária (AAVD). Essas atividades referemse à manutenção das funções ocupacionais, recreacionais e de prestação de serviços comunitários. Esses diversos níveis de classificação demonstram a preocupação em abarcar a heterogeneidade do processo de envelhecimento. A conceituação explicitada anteriormente levanos a compreender a razão do estreito relacionamento da capacidade funcional com exercícios que propiciem o desenvolvimento da força muscular. Isso fica claro, ao passo que a realização das atividades cotidianas depende, em grande parte, da força muscular, e o desenvolvimento dessa capacidade física pode, assim, propiciar um incremento importante na funcionalidade do idoso. Por isso, as investigações sobre esse tema têm versado, constantemente, sobre os efeitos de diversas modalidades de exercícios e programas que desenvolve a força muscular e o impacto destes sobre a capacidade funcional do idoso (ACSM, 1998; ACSM, 2003; ALEXANDER et al, 2001 EVANS, 1999; FIATARONE et al, 1994; HASS, FEIGENBAUM e FRANKLIN, 2001; HURLEY e ROTH, 2000; HRUDA, HICKS e MCCARTNEY, 2003; KELL, BELL e QUINNEY ,2001; OKUMA, 1997; ROOKS et al, 1997; SPIRDUSO, 1995; WEISS et al, 2000; ZAGO e GOBBI, 2003). Para sintetizar o percurso dos estudos que relacionam a força e a capacidade funcional, vale citar a extensa revisão literária realizada por Kell, Bell e Quinney 22 (2001), que mostrou que a força de preensão manual está intimamente relacionada ao declínio da habilidade de vestirse e alimentarse. Atividades relacionadas às ABVD e AIVD também podem ser afetadas negativamente pelo decréscimo da força muscular. A correlação entre a força de extensão de joelho com a velocidade de levantar da cadeira (r=0,65), a velocidade de subir degraus (r=0,81), a velocidade do caminhar (r=0,80) e a potência de subir degraus (r=0,88) deixa claro as relações entre a força muscular e a capacidade funcional. Dessa forma, é inegável que o desenvolvimento da força muscular exiba uma forte relação com o incremento das habilidades que compõem a capacidade funcional do idoso. No entanto, alguns estudos que conduziram suas investigações sobre a capacidade funcional, a partir de testes físicos que simulam atividades do cotidiano, não obtiveram sucesso em confirmar as relações expostas com o desenvolvimento da força muscular. Nesses testes, como velocidade de caminhar e levantar da cadeira, o padrão de mensuração primeiro tempo é o tempo gasto para a realização da prova. Ao utilizar tais provas motoras, alguns trabalhos puderam demonstrar que, após um período de intervenção de treinamento resistido, foram verificadas incrementos pouco significativos na capacidade funcional, como a habilidade de levantar e sentar da cama, mesmo com aumento importante da força muscular (ALEXANDER et al, 2001; BRANDON et al, 2000). Essas constatações têm sido freqüentemente relacionadas às limitações da quantificação dos testes (geralmente a velocidade em que se pode executar uma ação motora selecionada), e algumas propostas de avaliações qualitativas sobre testes motores têm sido vistas como alternativas importantes na avaliação funcional. Sobre esse escopo, Weiss et al (2000) relataram que, após um período de exercícios resistidos, sete pacientes acometidos por acidente vascular encefálico apresentaram um incremento no tempo de levantar da cadeira, todavia, o tempo de subir degraus não melhorou. No entanto, mais da metade do grupo pode alterar o padrão do movimento de subida de degraus de stepbystep 3 para stepoverstep 4 . Além disso, segundo o teste físico não houve melhora na velocidade da caminhada, mas o item do questionário (questões de múltipla escolha) que avalia esta variável obteve um aumento de 12%. Essa melhora verificada pode ser devido ao idoso ter percebido a possibilidade de pegar um objeto enquanto caminhava ou em alterações no uso de materiais auxiliares para andar. Assim sendo, podese inferir que a velocidade para realizar uma tarefa motora não pode ser o único referencial de melhora da capacidade funcional e, mesmo se tratando de testes físicos, uma 3 Só avançar para o degrau seguinte assim que os dois pés estejam no mesmo degrau. Ultrapassar o degrau com apenas um dos pés apoiado no degrau, enquanto o outro já se dirige ao degrau seguinte. 4 23 abordagem qualitativa sobre o movimento pode trazer outro entendimento sobre a intervenção realizada. Dessa forma, realizar uma ação do cotidiano de maneira mais veloz, não é a única maneira proposta de avaliação, embora seja amplamente utilizada. De fato, é pertinente o conhecimento sobre a possibilidade de execução das habilidades que compõem a capacidade funcional, mas esse saber sobre a funcionalidade pode ser ampliado se caracteres qualitativos sobre as ações motoras dos testes forem considerados. Nessa direção, Hageman e Thomas (2002) avaliaram aspectos qualitativos do movimento mediante a filmagem da caminhada, em um estudo que avaliou o efeito de treinamento resistido na capacidade funcional de idosos. Essa avaliação incluía aspectos da caminhada como comprimento e altura dos passos, bem como sua simetria, além do contato do pé com o chão, variações em outros segmentos como tronco, cabeça e ombros. No entanto, não foram encontrados resultados significativos relativos à alteração do padrão motor da tarefa. Os autores argumentam que este fato pode ser devido ao curto período de intervenção (seis semanas de treinamento resistido) que não provocou aumento na força. Todavia, sabese que, para idosos sedentários, poucas semanas são suficientes para que incrementos na capacidade física em questão sejam observados (FLECK e KRAEMER, 1999). Portanto, o que pode explicar esses resultados relacionase ao fato de que o programa de exercícios resistidos foi realizado com exercícios de força dinâmicos, porém utilizaramse de um teste de força isométrico para avaliar o impacto do programa sobre a força muscular dos participantes. Assim, o tempo de intervenção pode não ser o único responsável pela não alteração da força isométrica dos participantes, e isso leva a crer que a força talvez tenha aumentado, todavia, a qualidade e velocidade do movimento não apresentaram melhoras significativas. Outro ponto importante que pode limitar a mensuração da capacidade funcional é a similaridade do teste com a tarefa motora do cotidiano do idoso. Essa preocupação é alvo do trabalho de Lamoureux et al. (2003). Os autores apresentaram um estudo que avaliou os efeitos de um programa de exercícios resistidos sobre o desempenho, num teste que simulou a caminhada do cotidiano do idoso, que incluía a transposição de degraus, plano inclinado e outros obstáculos considerados comuns no ambiente, ou seja, uma a tentativa de reproduzir uma situação real. O estudo demonstrou um incremento importante na força de até 188% e uma melhora significativa do desempenho no teste proposto, dando margem a inferir que as relações entre a capacidade funcional e a força muscular parecem fortalecerse, desde que o teste aplicado possa simular a situação real vivida pelo idoso. 24 Assim, a causalidade exposta, incremento na força como determinante primordial da capacidade funcional, parece ser sempre o alvo dos trabalhos descritos e sua comprovação, sua certeza, será atingida se a congruência perfeita entre o teste e o programa for descoberta. Isso também tem ocorrido no que se refere ao desenvolvimento de outras formas de acesso à capacidade funcional, como os questionários de autoavaliação ou autopercepção, em que há sempre uma necessidade de adaptação dos instrumentos para se comprovar a relação entre a força muscular e a capacidade funcional. Esses instrumentos que questionam sobre a dificuldade dos idosos em realizarem suas atividades cotidianas diferem dos testes físicos, principalmente, por necessitarem de menos tempo para sua aplicação, bem como espaços e recursos disponíveis, e por serem menos dispendiosos do que a aplicação de testes (ANDREOTTI e OKUMA, 1999). No trabalho realizado por Meuleman et al (2000), por exemplo, o aumento da força não resultou em melhora na avaliação funcional realizada com instrumentos de autoavaliação. Esses instrumentos eram compostos de seis ABVD e sete AIVD, com três opções de classificação: “inapto a realizar”, “realiza com ajuda” e “realiza sem ajuda”. Os autores submeteram idosos com baixo nível de capacidade funcional a um programa de treinamento resistido, utilizando um dinamômetro isocinético. Embora a força tenha aumentado até 226%, o questionário de avaliação parece que não é sensível para detectar modificações no nível funcional dos idosos, ou ainda, inferese que elevar os níveis de força parece não necessariamente implicar em alterações na capacidade funcional, pelo menos com relação à avaliação por instrumentos de auto percepção. Por outro lado, Stessman et al (2003) propuseram um item de avaliação que parece demonstrar maior sensibilidade às alterações da capacidade funcional, acrescido aos itens originais do instrumento denominado Katz Scale. O estudo mostrou que houve apenas uma leve diminuição na independência funcional dos idosos que se mantiveram fisicamente ativos por um período de sete anos. Essa leve diminuição foi detectada segundo uma opção de resposta que os autores consideraram mais “sensível” às mudanças sobre a dificuldade de realização das AVDs: realizar a tarefa proposta com fácil independência, diferentemente dos outros instrumentos sem essa opção, ou seja, a independência pode se manter, mas com um pouco mais de dificuldade. Litvoc e Brito (2004), em extensa revisão da literatura, também chamaram a atenção sobre os aspectos técnicos dos instrumentos. Existem diferenças entre os instrumentos de aferição da capacidade funcional, principalmente no que diz respeito às atividades do cotidiano que podem ser avaliadas. O instrumento “Katz”, por 25 exemplo, apresenta questões relativas apenas às atividades básicas da vida diária, aquelas diretamente relacionadas ao autocuidado. Já o “Kenny” traz a possibilidade de questionar sobre aspectos relativos à locomoção, como caminhar e subir escadas. As atividades instrumentais da vida diária, como cozinhar, fazer compras e administrar as finanças, complementam as atividades de autocuidado e locomoção no instrumento “Instrumental ADL Scale”. O quarto instrumento analisado pelos autores é o “Framingham Disability Scale”. Esse último é considerado um instrumento composto porque é fruto da combinação de três instrumentos tradicionais e um deles avalia o desempenho dos idosos em movimentos que lhes são propostos, como abduzir os ombros com os cotovelos em extensão. Esse tipo de avaliação é considerado de grande valia para a aferição da capacidade funcional, já que combina a visão do idoso sobre sua funcionalidade e a simulação de movimentos do cotidiano como um adendo na avaliação (LITVOC e BRITO, 2004). Além das características das questões do instrumento, outro ponto importante a ser ressaltado referese aos níveis de classificação que os instrumentos oferecem. O “Katz”, por exemplo, em sua primeira versão, classificava o idoso apenas como dependente ou independente. Em versões subseqüentes do instrumento, o idoso pode ser classificado em mais categorias, ao especificar em quantas atividades ele apresenta dependência (LITVOC e BRITO, 2004). Essas variações parecem deixar o instrumento mais sensível à diversidade dos níveis de capacidade funcional apresentados pelos idosos. No entanto, devese ressaltar que o “Katz” só avalia as atividades de autocuidado (ABVD), e mesmo que suas categorias de classificação sejam ampliadas, ainda assim não contempla as AIVD. Todavia esse instrumento é um dos mais utilizados (LITVOC e BRITO, 2004). Mediante essas constatações, utilizálo para detectar alterações funcionais, dado a prática de exercícios por idosos, por exemplo, pode comprometer a avaliação de tais práticas. Isso pode ocorrer porque algum déficit funcional nas AIVD, não detectado antes do programa, pode ter sofrido alterações ocasionadas pela prática de exercícios. Por isso, em uma nova avaliação pós programa, uma melhora na AIVD poderá passar despercebida. Isso posto, podemos verificar que as clássicas avaliações funcionais versam suas ações sobre aspectos estruturais da capacidade funcional, como as habilidades que a compõem (andar, carregar, subir degraus) e os programas que podem alterála (por exemplo: isométrico, isocinético) enfim, seus constituintes. Nesse sentido, a avaliação funcional clássica, parece cumprir com o objetivo a que se propõe: a mensuração das habilidades físicas que estão contidas na capacidade funcional. 26 Dessa forma, as condutas de avaliação utilizadas pelas pesquisas sobre capacidade funcional em idosos não permitem captar a expressão da subjetividade humana, pois, de fato, esse não é seu objetivo. Nessa abordagem, podemos reconhecer que, se quisermos compreender a capacidade funcional do idoso, o sentido da funcionalidade física em sua vida, as respostas dos questionários, “um pouco”, “realizo”, “difícil”, “com dificuldade”, “não realizo”, reduzem a percepção da capacidade funcional a termos pontuais, isolados do contexto, e parecem destituir a capacidade funcional de suas relações, não permitindo saber do próprio idoso aquilo que ele percebe, bem como o sentido de tais percepções. As categorizações da capacidade funcional, por exemplo, levam em conta ações cotidianas, a priori, atividades que são classificadas como universais, e isso poderia sustentar a utilização de uma vasta gama de testes e questionários. No entanto, mesmo que algumas atividades do cotidiano sejam tidas como universais, podemos dizer que a atividade em si, desconectada de seu contexto, pode ser universamente reconhecida como primordial para a vida do idoso, mas, se inseridas no contexto de vida de cada um, significados diversos podem ser atribuídos à mesma ação funcional. Assim, a generalização de um mesmo instrumento de mensuração, para certo grupo de idosos, pode ser um agrupamento incompatível com a diversidade de sentidos que pode haver num mero “subir degraus”. Nessa direção, pela experiência vivida no Projeto Sênior, utilizar os métodos de avaliação clássicos seria a melhor possibilidade de compreensão da percepção dos idosos sobre sua funcionalidade? Uma fala seguida de um sorriso, um relato complementado por olhos envoltos por lágrimas, um olhar tenso motivado por um questionamento, uma inquietação suscitada pelo desejo de relatar suas percepções foram as expressões que me levaram as indagações sobre os relatos funcionais observados no Projeto Sênior. Essas formas de expressão seriam apenas curiosidades empíricas ou poderiam trazer outra compreensão sobre o fenômeno? Será que tais expressões relacionarseiam com a percepção da capacidade funcional? Ademais, como isso se relacionaria com os incrementos de força muscular que um treinamento resistido pode propiciar? A aplicação de testes motores e instrumentos de autoavaliação, embora tragam o conhecimento da estrutura da capacidade funcional, parece não permitir a constituição de um corpo de informações que possa desvelar a percepção da capacidade funcional a partir do ponto de vista do próprio idoso, a partir de sua percepção. Dessa forma, tornase primordial entender como se dá esse ato perceptivo para que possamos compreender, então, a capacidade funcional percebida. 27 2.2 A PERCEPÇÃO A descrição do que quer que seja pode nos levar ao problema da compreensão da percepção. Podemos enumerar caracteres detalhados, constituintes, tais como: uma base negra esférica com doze centímetros de diâmetro, que sustenta uma haste cilíndrica com quinze centímetros de altura e base com diâmetro correspondente à décima parte da altura, somada à outra haste articulada, que se move no mesmo plano horizontal da haste inferior em amplitude máxima de duzentos e setenta graus. Esses são os constituintes de uma luminária que, posta à minha mesa é, nesse momento, o objeto de minhas reflexões. A partir do conhecimento desses fragmentos, levase a dizer que a ação analítica de tudo que vemos, tocamos e ouvimos, se reduzidas aos detalhes, nos trará a percepção explícita, o conhecimento do percebido, o escancarar de sua estrutura. Mediante a análise do famoso caso descrito pelo médiconeurologista Oliver Sacks (2003), sobre músico Dr. P. que, por um distúrbio perceptivo, literalmente, confundiu sua mulher com um chapéu, podemos entender, com efeito, que a fragmentação não é a gênese da percepção. Dr. P. não reconhecia mais rostos e, ainda mais, identificava faces humanas onde plenamente elas não existiam, nos objetos da rua e de sua casa. No primeiro contato do médico com o paciente, o neurologista sentiu, de imediato, algo estranho. Dr. P. não o olhava normalmente, de uma vez, mas o analisava minuciosamente: seus olhos fixavam subitamente no ouvido, no nariz, no queixo. Rastreava ponto a ponto a face do médico. No entanto, essa detalhada análise não levava a compreensão do rosto, sua completude, tampouco sua expressão, suas articulações. Podia ver, mas não olhar. Isto leva a crer que o paciente não podia mais compreender as relações que dariam o significado à face do médico, o que ocorreu também nos exames clínicos tradicionais de percepção. O neurologista iniciou os exames mostrandolhe fotos de paisagens, e a mesma atitude analítica repetiuse. O paciente direcionava seus olhos para os brilhos, para as cores fortes, as características pontuais, mas, em nenhuma circunstância, ele pôde ver, como podemos discernir sem esforço, pelo ato do olhar, uma ilha e um desfiladeiro. Ao lhe mostrar uma rosa vermelha, o músico proferiu, sem hesitação, que era uma forma vermelha em espiral, com um prolongamento linear verde, de uns quinze centímetros de comprimento. A partir dessas análises, ele disse que não era fácil dizer o que era, achava que poderia ser uma inflorescência, ou uma flor, mas a certeza só chegara através do apelo do médico para cheirar tal objeto enigmático, até então desconhecido, mas desvelado prontamente pelo olfato. 28 Sacks (2003) ainda apresentou ao Dr. P. diversas fotos de rostos conhecidos, inclusive a do próprio paciente. O paciente não reconheceu, de maneira geral, qualquer pessoa, nem a si. As identificações só foram possíveis pelo reconhecimento de caracteres únicos, assim como o bigode e o cabelo, característicos de Einstein, os dentes e o queixo, que o fizeram reconhecer seu irmão. É interessante relatar que necessitava de tais estratégias de percepção até consigo. Para reconhecer seu rosto no espelho, estudouo atentamente e o fazia a partir do cabelo, do contorno facial e duas verrugas na face esquerda. Por várias ocasiões, fazia careta e colocava a língua para fora, “só para ter certeza” de que era ele mesmo. Esse distúrbio perceptivo relatado não condiz com a teoria associacionista da percepção, amplamente preconizada pela corrente filosófica empirista (CHAUÍ, 2000). O associacionismo concebe a percepção a partir da associação de sensações dada por estímulos exteriores que atuam sobre nossos sentidos, mas esse conceito de percepção parece não se sustentar ao olharmos para a experiência vivida. O Dr. P. podia livremente reconhecer as partes, fora estimulado por diversas sensações, seus órgãos sensoriais estavam intactos, mas ele não compreendia o todo, a forma, a organização. Esses relatos nos levam a crer que a possibilidade da articulação, do reconhecimento das relações, é que estava deteriorada na estrutura perceptiva do Dr. P. Ele não podia mais reconhecer o percebido, como disse Sacks (2003, p.36), “de relance”, precisava se apegar a alguns caracteres específicos e, por uma quase sempre frustrada tentativa de interpretação, de um apelo ao juízo, para chegar ao conhecimento daquilo que via. Interpretar as sensações, passar delas para a uma construção do intelecto, para formar a percepção, também era possível para o paciente, mas, mesmo assim, sua percepção mostravase deteriorada. Isso parece ir de encontro também a visão intelectualista, outra importante concepção de percepção. Para a corrente intelectualista, a percepção depende da capacidade intelectual de organizar as sensações, ou seja, a síntese perceptiva seria construída pelo intelecto e não dependia apenas dos mecanismos neurais preconizados pela corrente empirista (CHAUÍ, 2000). No entanto, Sacks (2003) deixa claro que o paciente não possuía nenhum traço de demência, falava com fluência, imaginação e humor, mostravase um homem muito culto e simpático. Esse distúrbio perceptivo, relatado por Sacks, pode ser compreendido através do legado de estudos sobre a percepção, apresentado por Maurice MerleauPonty (1908 1961) em sua principal obra, resultado de sua tese de doutoramento, a Fenomenologia da Percepção (MERLEAUPONTY, 1999), publicada pela primeira vez no ano de 29 1945 5 . A percepção, na visão de MerleauPonty, é dada a partir da experiência vivida do sujeito perceptivo, e não se estabelece a partir da somatória de sensações pontuais, como vimos acima pela descrição do caso relatado por Sacks (2003). Assim, no que se refere à percepção da capacidade funcional, podemos dizer que não podemos agregar diversas habilidades, tidas como físicas, para elucidar a percepção da funcionalidade do idoso, todavia, as clássicas avaliações prezam por essa somatória de fatores, como vimos anteriormente. A partir das reflexões de MerleauPonty, podemos esclarecer que não é característica do ato perceptivo percorrer as informações isoladas para descobrir, aos poucos, o sentido do todo, como postulavam os empiristas, nem tampouco depende das recordações ou da operação do juízo intelectual, como enfatizavam os intelectualistas. Mas sim, inversamente, de um só golpe (“de relance”), pela imanência de significações integradas na unidade objeto percebido, a percepção pode descobrir seu sentido, sua identidade, seu segredo. MerleauPonty explica que o conhecimento do percebido se dá através das relações entre seus constituintes, que emana seu significado e o faz percebido, que avança para além da associação das partes, para aquém da contribuição da memória e do juízo intelectual que, por assim dizer, comunicase com o mundo. Esse tipo de percepção associacionista, da somatória de sensações isoladas, não é a gênese da percepção, mas, sim, uma das possibilidades de conhecimento que o ato perceptivo propicia. Dito de outro modo, a associação e o discernimento só são possíveis se a percepção já nos tiver revelado suas aquisições, e a localização de caracteres isolados do contexto é, por assim dizer, fruto segundo do ato perceptivo. Na visão de MerleauPonty, o significado da percepção não é o resultado de associações de estímulos pontuais porque são contíguos, ou porque as semelhanças os aproximam, mas o inverso. É porque percebemos o todo, que a atitude analítica pode distinguir semelhanças e proximidades. A percepção nos revela o conhecimento do percebido através da apreensão da totalidade, da forma, das relações que o percebido estabelece com o contexto e não pela soma das partes ou pela aproximação dos fragmentos. Sempre se dá pela relação com o todo. Conhecer, descobrir, comunicar, expressar, enfim, perceber. Esses termos nos levam à “função” primordial da percepção e, assim como diria MerleauPonty, ao conhecimento do mundo. O Dr. P. apresentava claramente uma dificuldade de entender o mundo que habitava, porque um de seus aparatos perceptivos, o olhar, não correspondia mais às suas expectativas, impossibilitava o “relance”, traíao 5 As citações referentes à MerleauPonty são advindas da Fenomenologia da Percepção (MERLEAU PONTY, 1999). 30 constantemente. Nem pelas mais árduas tentativas de interpretação, o músico não obtinha êxito na maioria de seus confrontos perceptivos visuais, seu olhar não obtinha sucesso pela ação intelectual realizada. Ele podia racionalizar o que via, “parte extra parte”, mas não podia compreender, não podia olhar. Isso nos leva a crer que, antes da operação do intelecto, a percepção já retira do objeto seus significados, já traz o seu sentido. MerleauPonty explica que isso só é possível porque temos um corpo engajado no mundo e que, dessa forma, na experiência vivida, ele nos dá um poderio perceptivo que desvela o mundo e o sujeito da percepção, porque, simplesmente, formam um único sistema. No entanto, o corpo que atua na percepção não é aquele corpo mutilado que concebe a percepção pela associação, ou pela intelecção, mas, sim, um corpo que se relaciona consigo e com o mundo numa dinâmica nãolinear. Para entendermos a percepção, para além do reducionismo cartesiano, retomar a concepção de corpo de MerleauPonty fazse condição primordial. 2.2.1 Ouvir com seu corpo todo: a sinestesia do corpo vivido O corpo que opera no ato perceptivo é aquele corpo que vive a experiência do mundo, que contempla sua existência, que se apresenta como um sistema integrado ao combinar e recombinar seus componentes, tendo em vista uma tarefa a realizar, uma situação a expressar, um espaço a habitar. É sobre esse corpo que podemos reconhecer um saber latente, “préobjetivo”, que não depende, mas sim possibilita a operação do intelecto, fruto segundo de toda percepção explícita. Ele é o termo primeiro de toda a percepção e, se quisermos entendêla, fazse primordial o desvelar desse saber latente, “préobjetivo” do corpo próprio. Nesse sentido, a integração dos constituintes corporais é ponto fundamental para a compreensão do corpo vivido. “Ouça com seu corpo todo”, disse Virgil à namorada Amy. Virgil é o homem o cego do filme “À primeira vista” 6 , baseado no caso relatado por Oliver Sacks (2005). Na ocasião em que o casal adentra uma velha casa, por motivo de uma chuva repentina, o cego explica que a melhor maneira para ele conhecer a dimensão de um local é quando chove, pois ele pode sentir “tudo de uma vez”. Virgil é capaz de dizer à moça todas as características espaciais do lugar: “é bem alto”, “o som ecoa, não há paredes”... 6 Filme distribuído pela MGM Home Entertainment, lançado em 1998 e dirigido por Irwin Winkler (Título original: “At first sight”). 31 Essa cena demonstra que a percepção espacial das dimensões geométricas não é exclusiva da visão, assim como nenhuma outra qualidade sensível (som, olfato, tato) correlacionase exclusivamente ao seu órgão efetor, dado pela fisiologia mecanicista. As reflexões de MerleauPonty auxiliam na explicação dessa afirmação na medida em que nos mostram que o corpo, na experiência de seu mundo, opera como um sistema perceptivo integrado, o qual não pode ser explicado por relações de causalidade, tais como a de espaçovisão e a de somaudição. Nós vivemos a comunicação dos sentidos naturalmente e só a fragmentamos na medida em que a interrogamos e passamos da experiência para o pensamento intelectual. É dessa maneira que, por exemplo, atribuímos, naturalmente e sem nenhuma culpa epistemológica, que um som é vazio, seco ou embaralhado, assim como vemos o peso de um bloco que afunda na areia, a flexibilidade de um galho no abandonar de um pássaro, ou a fragilidade de uma peça de cristal. O vento é verdadeiramente percebido se se oferecer a todos os meus sentidos. Contemplo sua existência e, principalmente, seu significado, se puder experimentar na pele seu frescor, ouvir o suspiro de sua passagem e ver a agitação da paisagem. Merleauponty ensina que a sinestesia existe como fenômeno, e, se não a reconhecemos, é porque as ciências positivas sempre compuseram a percepção por constituintes pontuais, construindo a percepção pelo já percebido e, assim, nunca pudemos nos ater do saber latente do nosso corpo, que propicia essa integração e se faz por ela. Fica claro, então, que a percepção é intersensorial e sua compreensão só virá se reconhecermos esse nosso poderio corporal de maneira complexa, integrada, sem as mutilações há tanto preconizadas pelo pensamento reducionista. É essa integração que nos oferece a possibilidade de conhecimento do percebido, pois possibilita que o corpo se organize com vistas a percebêlo e descubra seu significado, pois o mundo nunca se oferece “parte extra parte”. Essa integração não é realizada por uma operação intelectual superior, mas é realizada pelo próprio corpo, ou ainda, essa integração é o próprio corpo, que apresenta um saber latente, “préobjetivo”. Esse saber “préobjetivo” do corpo próprio está presente em nossas ações rotineiras, que fazem parte de nosso mundo vivido e que demonstram, claramente, que o corpo não necessita de uma operação racional sistematizada para desenvolver sua motricidade, para o retomar de uma percepção. A expressão de timidez que toma conta de todo corpo da moça, que é galanteada pelo rapaz, não surge por uma operação de subsunção categorial, na qual o aparelho nervoso selecionasse a melhor reposta, mas formase a partir do poder “préobjetivo” do corpo próprio que corresponde a essa situação circunstancial. Não precisamos, com efeito, olhar para os pés para mantermonos em pé. Da mesma forma, não é necessário que olhemos para 32 nossos membros, ao acenarmos para um amigo que avistamos do outro lado da rua, nosso corpo percebe tal situação e retoma com certo aceno, sem um pensamento interposto na ação, mas por um saber latente que faz nosso corpo ser nosso instrumento perceptivo. O movimento, em tese, só é possível porque, de fato, temos um corpo que o possibilita. O pensamento ocorre, não como um ditador, mas, sim, como possível, dada a operação do corpo no mundo (MERLEAUPONTY, 1999). A ação racional sobre a motricidade propicia movimentos corporais artificiais e inexpressivos, como ocorreu a mulher que perdeu, por completo, a sensação do próprio corpo (SACKS, 2003). Desencarnada, era desse modo que se autodefinia. Segundo Sacks (2003), a mulher que não sentia mais a posse de seu corpo, embora fisicamente e, para sua visão, ele estivesse ali. Nos primeiros meses desse distúrbio proprioceptivo, ela postarase totalmente “mole”, incapaz até de sentarse, pois não podia encontrar seus membros para realizar qualquer ação motora. Entretanto, após intensas seções de reabilitação, surpreendentemente ela aprendeu a usar a visão para “achar” seus membros e movimentarse, bem como manterse em posturas costumeiras. Essa rota proprioceptiva alternativa que a paciente encontrou possibilitava a manutenção de suas posturas, de seu andar, do realizar das atividades cotidianas. Mas essa era apenas uma funcionalidade artificial, teatral, forçada, como relatou o neurologista (SACKS, 2003). Essa mobilidade só era possível se um extremo trabalho de controle visual fosse realizado. Se desviasse a atenção por um segundo sequer, os movimentos, antes funcionais, tornavamse exagerados e, nitidamente, descontrolados. Não possuía mais o poderio “préobjetivo” do corpo próprio, precisava racionalizar todo e qualquer movimento, suas condutas motoras eram artificiais, ensaiadas, freqüentemente desajeitadas. Essa motricidade programada pela visão, embora trouxesse de volta seu contato com o cotidiano, não a fez retomar a posse de seu corpo. Sentia que seu corpo estava morto e sentiase fora do mundo. A mesma sensação é descrita por pessoas que ficam paralíticas por transecções no cordão espinhal. Mas a paciente não estava paralítica, ela se movimentava, todavia, como ela mesma relatou, “sem corpo”. O mundo para ela era apenas aquele que via. No entanto, sentia que não mais podia viver nesse mundo apenas visual. Não possuía mais seu corpo para que se mantivesse integrada existencialmente (e não apenas fisicamente) com o mundo, porque, como explica MerleauPonty, é ao nosso corpo que “devemos” a conexão primeira com o mundo, através da percepção. Nesse caso, a estrutura da percepção estava deteriorada, o corpo não podia mais satisfazerse como motor perceptivo, a mulher “desencarnada” sentia que não existia. 33 “Ela teve êxito em funcionar, mas não em ser”, explica Sacks (2003, p.69), sua capacidade funcional era satisfatória para o olhar dos médicos, mas incompleta, artificial, na percepção da paciente. Podemos observar que a atitude racional sobre a motricidade não é a mestra do movimento, mas, sim é seu fruto segundo. Não precisamos, de fato, de um comando intelectual do pensamento, para que possamos nos movimentar, dada uma situação percebida. Na visão de MerleauPonty, o corpo literalmente “sabe” o que fazer, ele dirigese ao mundo sem um pensamento intercalado, retoma uma percepção e propicia o pensamento. A operação do pensamento intelectual revelase secundária, também nos casos bem conhecidos de membros fantasmas que aparecem em amputados. As aparições de membros amputados podem ser descritos como verdadeiros fantasmas em seus corpos; intrigantes, mas necessários. A visão pode falar ao amputado, expressamente, que ele não tem mais, ao menos fisicamente, aquele membro (MERLEAUPONTY, 1999). Um marinheiro que perdera um dedo da mão temia, sempre que ia coçar o rosto, que o dedo fantasma pudesse furar seu olho, embora soubesse que isso não seria possível, mas no nível do préconsciente, do corpo vivido, a sensação era de que o dedo estava ali. A substituição por uma prótese não suprimiria a sensação dada pelo membro fantasma, mas ao contrário: a colocação da prótese só é possível, para muitos amputados, se o membro fantasma estiver disponível para o perfeito encaixe (SACKS, 2003). O doente sabe que não possui o membro, mas isso intelectualmente, pois em um nível mais genérico, destaca MerleauPonty, o corpo próprio, pelo seu saber “préobjetivo”, mantém o fantasma no esquema corporal do paciente, para conserválo num esquema mais geral que ele forma com o seu mundo, que o preserva, com efeito, no circuito da existência. A partir disso, podemos já reconhecer que o corpo não é um servo da consciência, ele possui um saber “préobjetivo”, que possibilita a percepção do mundo e de si, pois com o mundo forma um único sistema. Não precisamos, com efeito, alçar à consciência o que fazer, pois dada uma percepção, o corpo literalmente sabe que reposta oferecer, que movimento realizar. Nem que para isso seja necessária a “aparição” de um membro fantasma. O corpo não apenas percebe o mundo, mas, sim, expressa uma situação que está vivendo. Para entendermos a percepção, segundo Merleauponty é necessário, então, que olhemos para a situação que permeia essa operação do corpo no mundo. 34 2.2.2 Mãos imprestáveis: a expressão situacional O caso do membro fantasma é a pura expressão do corpo sobre uma situação de recusa à amputação que o amputado vive e, como diria MerleauPonty, o membro amputado é como que absorvido pelo corpo no consentimento do doente em aceitar a amputação. Esse saber “préconsciente” do corpo faz dele um espaço eminentemente expressivo, o termo que faz existir no mundo uma situação pela qual está vivendo. Essa projeção dinamiza o processo perceptivo e o modifica todo o tempo. Nesse ponto, recorro novamente a um caso relatado por Sacks (2003). Madeleine, uma mulher com sessenta anos, cega e portadora de paralisia cerebral, vivia de cuidados constantes desde a infância. As mãos geralmente não são afetadas totalmente em casos desse tipo, mas o que surpreendera o médico foi o fato de suas mãos serem, como ela própria disse: “montes de massa imprestáveis esquecidos – elas nem parecem fazer parte de mim” (SACKS, 2003, p.75). Além disso, o que intensificou mais a inquietação do neurologista foi a constatação de que Madeleine possuía as sensações elementares, o calor, o toque, os movimentos passivos dos dedos, mas não possuía o movimento explorador das mãos, suas mãos não interrogavam mais o que suscitasse a uma percepção. Nesse ponto, o médico levanta algumas explicações para essas mãos que não passavam de montes de massa, e a partir de tais explanações podemos exemplificar o poderio expressivo do corpo próprio. Não havia nenhum déficit sensorial acentuado que impedisse a mão de seu poderio perceptivo, que a impedisse de realizar seu movimento explorador. Mas a situação que permeou a vida dessa idosa foi aquela de uma total assistência. Ela fora submetida desde a infância a extremos cuidados externos, foi protegida demasiadamente e nunca, literalmente, pôde colocar o poderio perceptivo de suas mãos a prova, tudo foi sempre feito para ela. Os “montes de massa inertes” são a mais pura expressão de uma situação pela qual passava esse sujeito perceptivo. Toda essa vida assistida, paternal, aparecia pela capacidade “préobjetiva” do corpo próprio, através das “mãos imprestáveis”, de expressar uma vida inteira de dependência. Essa situação nada mais é que a existência pessoal materializada pelo corpo em seu domínio mais subterrâneo, a préobjetividade. O caso relatado por MerleauPonty de uma menina que fica afônica, a partir do momento em que a mãe a proibiu de ver o rapaz que ama, ajuda a ilustrar o poder de expressão do corpo e a explicar o caso anterior. A afonia representa, nesse sentido, a recusa do outro, sendo que a emoção da proibição expressouse pela fala, que 35 significa nosso meio de comunicação com o outro, a existência comum ou a coexistência. A falta de apetite também se esboça num mesmo panorama: a deglutição simboliza o movimento de existência que assimila os novos acontecimentos. A doente, literalmente, não pode “engolir” a proibição que lhe foi feita. Na infância dessa mesma doente a afonia se manifestara, pela primeira vez, após um tremor de terra, e MerleauPonty credita a mesma explicação: a angústia da morte se traduzia pela afonia, porque a ameaça de morte interromperia drasticamente a coexistência. Assim, através da significação desses sintomas, podemos entender o que eles significam em relação à expressão das dimensões fundamentais da existência: nossas relações com o passado e o futuro, consigo mesmo e com o outro. No termos do filósofo: A afonia não representa apenas recusa de falar, a anorexia a recusa de viver, elas são a recusa do outro ou essa recusa do futuro, arrancadas da natureza transitiva dos “fenômenos interiores”, generalizadas, consumadas, tornadas situação de fato. O papel do corpo é assegurar essa metamorfose (MERLEAUPONTY, 1999, p.227). Isso posto, entendese que o corpo próprio é o termo expressivo de nossa situação no mundo e, por assim dizer, de nossas relações existenciais. Assim, fica claro que não estamos alheios do mundo, do qual todo acontecimento mundano esboça uma reação no meu corpo. Conheço a mim mesmo dirigindome ao mundo através do meu corpo, e o mundo, ao suscitar meu olhar e meu movimento, faz com que eu o explore e o compreenda, enfim, que o perceba, e perceba a mim mesmo, pois para MerleauPonty (1999, p.277): “toda a percepção exterior é imediatamente sinônima de uma certa percepção de meu corpo, assim como toda a percepção de meu corpo se explicita na linguagem da percepção exterior”. Essa relação do sujeito perceptivo com o mundo constrói seu espaço, e essa espacialidade é outro ponto fundamental da percepção. 2.2.3 A espacialidade e a transcendência O estudo do corpo sintetizado anteriormente pode demonstrar que ele é o motor primeiro de toda a percepção. Mas a percepção não ocorre simplesmente pelo contato passivo do sujeito perceptivo com o mundo, o percebido possui um significado imanente que propõe ao sujeito uma forma de existência, e ele pode retomar essa proposição, seja por seus movimentos, seja por seu olhar, seja por sua fala. O 36 percebido evoca o corpo, convidao a percebêlo. A partir desses dizeres podemos entender que a percepção é uma verdadeira comunicação com o mundo. Assim sendo, MerleauPonty frisa que a percepção é intencional, ela retoma um significado que o percebido lhe apresenta, ela visa e significa para além da identificação de uma qualidade do objeto, porque o mundo que percebo me propõe certa forma de existência. E, assim, concebendo essa forma de existência que me é sugerida, reportome a um ser exterior do mesmo modo que esse ser clama por minha percepção. Assim, as qualidades são significativas para além de si mesmas, porque irradiam em si certo modo de existência, porque o sujeito simpatiza com elas, e porque, para ele, tais qualidades têm um certo significado. Esse “comércio” entre o sujeito da percepção e o percebido, essa correspondência, explica MerleauPonty, é o poder de meu corpo sobre o mundo, que é originário do espaço. O espaço do sujeito perceptivo é concretizado assim que uma dada percepção solicita dele um movimento de seu corpo, e ele consiga correspondê la, para que ele possa colocarse em situação. Diversas entidades perceptivas, como um móbil em seu pleno movimento, uma música, ou outra pessoa, exibem seu significado e arrancam do sujeito perceptivo as mais diversas respostas expressivas através de seu corpo. Lucy era uma paciente catatônica do Dr. Sacks que, no filme “Tempo de Despertar” 7 , não esboçava nenhuma reação, aparentemente nenhuma percepção. No entanto, do mundo perceptivo ainda lhe sobrara alguma posse do espaço, ela podia corresponder e agarrar uma bola prontamente, se o médico a atirasse em sua direção. Ela se movia a partir do “desejo da bola”, correspondia àquilo que o percebido lhe sugeria. Assim como o próprio filme demonstra, outros pacientes retomavam o “desejo” de outras motivações perceptivas, como uma música especial a cada um ou a um movimento de outra pessoa. Tais “estímulos” faziamnos sair do estado catatônico, para um nível de movimento que abarcava o percebido e podiam descobrir a si mesmos na exploração de seu espaço. Ao enfatizar a questão do movimento corporal, em conformidade com a forma de existência que o percebido propõe ao sujeito, basicamente ainda localizase o espaço perceptivo no espaço geométrico das relações físicas. Mas mesmo esse espaço físico, ressalva MerleauPonty, só existe para um sujeito que opere suas relações, e essa inserção de um sujeito no mundo, cria espaços antropológicos e o mantém ligado a eles durante toda a vida. 7 Filme distribuído pela Sony Pictures, lançado em 1990 e dirigido por Penny Marshall (Titulo original: Awakenings). Foi baseado no livro “Tempo de despertar”, de Oliver Sacks (Sacks, 2005b). 37 Essa discussão sobre o espaço iluminase com a discussão, por exemplo, do cego Virgil, relatado anteriormente. O que possibilitaria, então, a descoberta do espaço sem a visão, com a descrição precisa das dimensões de um dado local, já que como ele mesmo disse ser “cego como um morcego”? Prontamente poderíamos afirmar que a cegueira pode apurar os outros sentidos, que têm dado conta, então, da percepção espacial. Além disso, poderíamos dizer que Virgil pode perceber o espaço, mas não tão bem como aqueles que enxergam. Por outro lado, será que poderíamos, como ele, perceber o espaço de olhos fechados? Não está em questão, ao analisarmos o caso da percepção, classificar qual a percepção adequada a cada sensação, sentido, ou órgão sensorial, mas, sim, compreender cada caso como um todo, distinto, nem mais, nem menos, nem inferior, tampouco superior. O cego tem o seu espaço, seu mundo. Mas seu espaço não pode ser caracterizado por subtração, pela diferença operada a partir do espaço daquele que enxerga. Assim como o esquizofrênico, a criança, o primitivo ou, até, o idoso, apresentam seu espaço característico, só os compreenderemos se interrogarmos essa espacialidade em todo seu domínio “préobjetivo’. Virgil pode descrever o espaço geométrico ao seu redor, porque de fato vive nele, e é essa vivência que devemos abarcar se quisermos compreender o problema primeiro de toda e qualquer percepção, é sobre essa subjetividade que devemos nos ater se o ato perceptivo for centro de nossa atenção. Essa subjetividade, realça MerleauPonty, sugere que toda e qualquer percepção nunca será cristalina, nunca teremos o conhecimento total do percebido e, por isso mesmo, de nossa existência porque sua gênese está nas ambigüidades do tempo. Nessa perspectiva, podemos entender que a percepção supõe sempre um passado daquele que percebe, e que, portanto, não está alheio ao tempo. Essa síntese perceptiva é, portanto, uma síntese temporal, que, por si mesma, é o centro da subjetividade e garante ao sujeito perceptivo sua opacidade e sua historicidade. Aquele que percebe tem uma espessura histórica, retoma uma tradição perceptiva e é confrontado com um presente. Assim, essa potência exploradora está fadada à temporalidade, e a síntese perceptiva nunca pode ser acabada, uma vez que esse poder sobre o mundo nunca pode ser total. É nesse sentido que MerleauPonty coloca que uma percepção sempre é parcial: uma percepção convida a uma outra e é sempre marcada por aquele momento de minha história individual, feita e refeita pelo curso do tempo e supõe em mim sedimentos de uma constituição prévia, de minha historicidade. Nesse sentido, a percepção, via um esquema corporal integrado, forma um sistema único com o mundo, com outrem, com o espaço, e faz com que o sujeito 38 perceptivo, dirijase a ele, e o compreenda, e retome sua experiência existencial. O ato perceptivo é nosso poder primeiro de conhecimento do mundo e de nós mesmos. Mas, pela transcendência dos momentos do tempo, todo ser está fadado a se compreender a vida toda, o vivido nunca é inteiramente compreensível. Essa temporalidade denota as fissuras do mundo objetivo, que são a própria subjetividade, estão no cerne de toda a percepção e impedem o sujeito de entender seu presente com uma certeza apodítica. Mediante esse estudo sobre a percepção, podemos entender que a compreensão do significado da capacidade funcional percebida será possível se retomarmos as operações do corpo no mundo, ou seja, as habilidades que os idosos relatam como significativas para si, aquelas que fazem parte de seu mundo vivido. No entanto, a utilização de instrumentos fechados, ou testes físicos, não possibilitaria a apreensão do significado da percepção, pois não retoma a experiência vivida e, por conseguinte, pode inibir o significado. Tendo em vista que o corpo é nosso instrumento perceptivo e, por conseguinte, que cada percepção é permeada de um significado único, quais seriam os significados de cada percepção que pudesse elucidar a funcionalidade percebida pelo idoso? Será que percepção de uma habilidade do cotidiano retoma o mesmo sentido para todos? O que no mundo dos idosos deve suscitar uma percepção de uma capacidade funcional melhorada? Incrementar a força muscular pode suscitar percepções significativas? Ou ainda, será que toda a percepção é, de fato, significativa? Isso posto, podemos ver que a percepção da capacidade funcional pode estar relacionada a uma teia de significações e, se quisermos compreendêla, parece necessário enveredar nesse mundo de sentidos. Dessa forma, o passo agora é ir ao fenômeno, compreendêlo e desvelálo. Para tanto, para elucidar a percepção da capacidade funcional, cabe a nós interrogarmos o sujeito perceptivo e resgatar sua funcionalidade vivida. 39 3. MÉTODO 3.1 Os participantes Mediante o objetivo principal deste projeto de pesquisa, ou seja, concretizar um programa de treinamento resistido para a estudo da capacidade funcional percebida de idosos, participaram do estudo oito idosos, um homem e sete mulheres com mais de sessenta anos e com os quais mantenho convivência há quase três anos. Essas pessoas fazem parte da fase de Transição do Projeto Sênior 8 . Um ponto importante a ser considerado sobre os participantes é que, devido a grande incidência de doenças crônicas nessa fase da vida, participaram somente aqueles que apresentaram um laudo médico que os habilitasse para a prática de exercícios físicos. Dessa forma, segundo as recomendações da American Heart Association (AHA, 2000), sobre as contraindicações à prática de treinamento resistido, não seriam considerados aptos a participarem do referido projeto aqueles que apresentassem as seguintes condições: angina instável hipertensão não controlada; arritmias não controladas; diagnóstico recente de insuficiência cardíaca congestiva que não fora devidamente avaliada ou tratada; doença valvular severa; cardiomiopatia hipertrófica. Ademais, tendo em vista que a hipertensão atinge dois terços dos idosos, as diretrizes sobre a prescrição de exercícios de força para idosos hipertensos foram direcionadas a partir dos resultados do estudo de Camara et al (2004). O referido trabalho identificou que a reposta pressórica de idosos hipertensos e normotensos submetidos a exercícios de força muscular não diferem entre si se o grupo hipertenso estiver devidamente controlado. Assim, apenas hipertensos controlados puderam fazer parte deste estudo. Além disso, todos aqueles que se dispuseram a participar da pesquisa assinaram um termo de consentimento livre e esclarecido (ANEXO 1). 8 Essa fase é caracterizada por encontros mensais para os idosos que participaram do Projeto Sênior. Temse como meta identificar as atitudes dos participantes frente à prática de atividade física, bem como 40 3.2 O programa A primeira fase, denominada fase inicial, teve a duração de oito semanas, período no qual, provavelmente, o incremento de força é mais significativo (TRAPPE, WILLIAMSON e GODARD, 2002). Foram propostas duas sessões de treinamento resistido por semana, como recomendado por Evans (1999), e separadas por, no mínimo, 48 horas de repouso entre os intervalos das sessões (HUNTER et al, 2001). Cada sessão foi composta por seis exercícios (leg press, supino na máquina, puxador costas, desenvolvimento de ombro, abdominais e extensão de quadril no cabo) direcionados aos grandes grupos musculares (coxa, peito, ombros, dorsais, abdominais e glúteos), como recomenda Evans (1999). A escolha desses exercícios foi feita a partir da disponibilidade de equipamento e material para a aplicação do protocolo, já que a pesquisa tenta uma aproximação fiel aos moldes da aplicação prática. Nesse ponto, incluiuse, também, uma criteriosa análise quanto às características dos participantes e, quando necessário, foram feitos os ajustes necessários, principalmente no que diz respeito ao modo de execução. Direcionouse a prescrição a partir dessa análise individual, tendo em vista a heterogeneidade do público em questão que apresenta muitas intercorrências, por vezes até comuns, dentre as comuns muitas características peculiares, ou seja, nem sempre artrose no joelho, por exemplo, pode ser taxada com restrições universais e, sob este olhar, não objetivando universalizar as limitações, mas, sim, compreendendo as de um modo individual, é que os ajustes na prescrição foram direcionados. Foram propostas de uma a três séries, com intensidade de oito a doze repetições máximas, com intervalo de um a dois minutos, entre as séries, para todos os exercícios propostos, sendo esta, a recomendação do ACSM (2002) para o desenvolvimento de força muscular em idosos. A segunda fase, denominada como fase de manutenção, apresentou as mesmas características da fase precedente, exceto quanto à freqüência, que foi reduzida para uma vez semanal (TRAPPE, WILLIAMSON e GODARD, 2002). Para identificar o comportamento da força muscular foram realizados testes periódicos no início, e ao final da fase inicial e da fase de manutenção. Foi utilizado o método das repetições máximas, para identificar a carga que possibilitou a falha concêntrica entre oito a doze repetições máximas (ACSM, 2002; FLECK e KRAEMER, 1999). Ressaltamos que a opção pelo teste de repetições máximas devese à sua ampla utilização em situações habituais de prescrição desse tipo de modalidade de as barreiras que enfrentam para se inserir em outros programas. Além disso, as aulas são distintas 41 exercício, aproximando o programa aqui realizado da situação vivida, por exemplo, nas academias de ginástica. Ademais, esses testes de força foram necessários para identificar se houve alteração na força muscular dos participantes, o que garante que o programa estimulou, de fato, a força muscular, e não outras capacidades físicas correlatas, como a resistência muscular localizada, por exemplo. Esses testes de repetições máximas não devem ser confundidos com testes para a capacidade funcional de idosos que, embora se assemelhem tecnicamente, são de outra natureza. O programa foi realizado em equipamentos apropriados para exercícios resistidos, na academia da Universidade São Judas Tadeu, autorizado pela instituição e por seu comitê de ética em pesquisa (ANEXO 2). 3.3 Seleção e capacitação dos professores Para a viabilização do programa, julgouse necessária a participação de professores capacitados para a atuação com o público em questão e com a modalidade de exercício proposta. Dentre os objetivos do processo de seleção dos professores atuantes no projeto, foram levados em conta dois requisitos básicos: a formação humana e a capacitação técnica. A formação humana exige que o professor que atue no projeto compactue da mesma visão sobre o envelhecimento, que permeia a concretização dessa pesquisa. A necessidade dessa formação humana específica centrase no fato de que os professores atuantes estavam cientes dos objetivos da pesquisa e precisavam, de fato, acreditar que a percepção dos idosos poderia surgir através de relatos informais no decorrer das sessões. Era importante também que eles valorizassem essa relação dialógica alunoprofessor que pode ser um ponto importante para o desenvolvimento da aula. Professores que não acreditam nessa relação poderiam não perceber esses relatos fundamentais para o desenvolvimento do programa e, por conseguinte, da pesquisa. Dessa forma, foram convidados três integrantes do Grupo de Estudo e Pesquisa Sênior (GREPES). O GREPES oferece subsídios científicos para o Projeto Sênior (MIRANDA e VELARDI, 2002) e tem como base teórica o ideário da promoção da saúde, a teoria da velhice bemsucedida e a pedagogia da autonomia de Paulo Freire. A observação da participação desses professores no grupo de estudo, pode demonstrar que compartilham da visão de envelhecimento e do ser humano que permeia a concretização dessa pesquisa. daquelas ministradas no Projeto Sênior para que os idosos possam conhecer outros tipos de atividades. 42 A capacitação técnica foi realizada com o intuito de familiarizar os professores com os equipamentos, procedimentos, protocolos e técnicas de treinamento resistido, ministrados por mim. Por fim, participaram da coleta de dados quatro professores de educação física, grupo do qual fiz parte. Os professores tinham como atribuições, cumprir o protocolo da pesquisa descrito acima. Para que isso se concretizasse, os professores registraram as cargas mobilizadas em cada exercício, nas séries, bem como o número de repetições realizadas em todas as sessões de treino. Além disso, os professores foram registrando, no caderno de campo, descrito a seguir, todo o depoimento que pudesse se referir à percepção da capacidade funcional de cada idoso participante. 3.4 Capacidade funcional percebida 3.4.1Caderno de campo Os diários ou cadernos de campo são documentos em que o pesquisador anota suas impressões sobre o que ocorre na investigação que realiza e são considerados como um dos instrumentos básicos na pesquisa qualitativa. Além disso, as idéias, experiências e impressões, por exemplo, transformamse, por meio da documentação, em realidades acessíveis e que suportam a análise (ZABALZA, 2004). Dessa forma, muitos dos relatos verbais, que levantaram os questionamentos acerca dos instrumentos e testes de capacidade funcional, foram feitos informalmente no decorrer das aulas do Projeto Sênior, esses depoimentos dos idosos durante o programa de treinamento resistido foram registrados em um diário de campo pelos professores atuantes no programa. 3.4.2 Entrevista narrativa A capacidade funcional pode ser considerada pelas relações do sujeito com o mundo em que vive, e é, em sua experiência vivida, que iremos reencontrar a percepção dessa funcionalidade. Como expõe MerleauPonty (1999), tudo aquilo que sei do mundo sei por uma visão minha, pelo qual os símbolos da ciência não poderiam dizer nada. 43 Tendo em vista minha revisão literária exposta anteriormente, optei, por não utilizar instrumentos fechados de autopercepção da capacidade funcional (questionários), tampouco a utilização de testes físicos para sua “mensuração”. Esse tipo de avaliação objetiva tenta substituir, com situações préestabelecidas, um mundo que está ali aos nossos olhos, pelo pensamento de um mundo, e o fixa em uma implicação determinista. Tenta explicar aquilo que a capacidade funcional é, em tese, fato que pode não resgatar aquilo que se vive na funcionalidade cotidiana. Colocase ao sujeito tudo aquilo que ele deveria perceber, todavia, MerleauPonty (1999) nos ensina que não há como perceber, ao certo, o mundo, com condições pré estabelecidas, justamente porque o mundo, o mundo vivido, é aquilo que nós percebemos. Assim, para desvelar a percepção da capacidade funcional, ouvir do sujeito aquilo que ele tem a dizer sobre ela, me parece o caminho mais adequado. Como já foi colocado, para MerleauPonty (1999), o corpo é o meio de expressão de nossa situação no mundo, dada uma percepção, e o uso da fala é uma de suas modalidades expressivas. Como todo modo de expressão, a linguagem é permeada pela cultura e historicidade do sujeito e é dotada de significado, assim como um gesto. Além disso, o poder da fala dado ao sujeito oferece, também, a possibilidade de calarse, e o silêncio, nos ensina MerleauPonty (1999), também é uma forma de comunicação e significação, e, assim, o autor explica que: Nossa visão sobre o homem continuará a ser superficial enquanto não remontarmos a essa origem, enquanto não reencontrarmos, sob o ruído das falas, o silêncio primordial, enquanto não descrevermos o gesto que rompe esse silêncio. A fala é um gesto e sua significação um mundo (MERLEAUPONTY, 1999; p.250). Na experiência do diálogo, coloca MerleauPonty (1999), meu pensamento e o do outro formam um só tecido, tendo a linguagem como um objeto cultural que projeta no mundo, no ambiente natural, os pensamentos do ser no mundo. Há uma dinâmica, no diálogo que reclama as minhas falas e a do entrevistado, das quais nenhum dos dois é criador. Certamente, os pensamentos do outro são seus, mas introduzidos no diálogo, eles me suscitam pensamentos que o entrevistador não sabia que possuía, e, reciprocamente, eu empresto pensamentos àquele que entrevisto e o faço descobrir pensamentos novos. Cada palavra daquele que fala desperta em nós pensamentos que já tínhamos, contudo, essas significações se unem em um pensamento novo que reconstrói todas as significações, e compreendemos assim o outro. Portanto, através da fala existe um poder de pensar segundo o outro, que enriquece nossos pensamentos próprios. 44 Nessa perspectiva, a entrevista narrativa pode ser uma forma de desvelar a capacidade funcional percebida, já que apresenta características que podem expor as experiências vividas pelos depoentes pelo poder de comunicação dado pelo corpo próprio. A entrevista é um método de pesquisa que dá um acesso privilegiado à nossa experiência básica do mundo vivido e o utiliza como ponto de partida (KVALE, 1996). Assim, os ensinamentos de Bosi (2003), a partir de suas experiências com narradores idosos, encontram lugar nessa discussão 9 . A memória oral, segundo Bosi (2003), é um instrumento precioso se quisermos construir a crônica do cotidiano e, além disso, enraízase no concreto e é a revelação da experiência vivida. A narrativa mostra a complexidade do acontecimento, e o pesquisador, sugere a autora, deve aterse às tensões implícitas na fala, aos subentendidos, ao que só foi sugerido, por sua vez, por olhares e expressões faciais. Ademais, a lembrança e o esquecimento devem ser também, considerados pelo entrevistador. A fala traz, consigo, conotações afetivas, e estas necessitam, por assim dizer, de tom, andamento, ritmo para falar, característica que a narrativa pode retomar. Dessa forma, a entrevista narrativa mostrase como o meio mais adequado para compreender e descrever a capacidade funcional percebida, e a descrição do procedimento adotado para concretizála está descrita a seguir. 3.4.3 Procedimento para realização da entrevista A narrativa, segundo Bosi (2003), busca, na memória, acontecimentos de forma não aleatória, que trazem consigo significações comuns e, assim, ensina a autora, é tarefa do pesquisador buscar esses vínculos de afinidades eletivas entre os fenômenos narrados. Outro ponto importante, destacado por Bosi (2003) sobre a entrevista narrativa com idosos, é que o conhecimento mútuo e a afetividade entre entrevistador e narrador é primordial. Isto pode fazer com que o narrador sintase mais confortável para contar suas experiências. Nesse sentido, a autora enfatiza: “da qualidade do vínculo vai depender a qualidade da entrevista” (BOSI, 1993, p.60). Além disso, aponta Kvale (1996), o entrevistador deve ajudar o entrevistado a produzir uma história coerente para que possa ordenar os fatos para uma melhor compreensão. Ele deve, também, trabalhar diversas formas de narrativas durante a 9 Devese ressaltar a opção da autora em fundamentar suas concepções de tempo e memória na filosofia de Bérgson, amplamente criticada por MerleauPonty. Assim, referenciase o trabalho de Bosi (2003) para 45 entrevista, por exemplo, questionar diretamente por histórias e, junto com o entrevistado, estruturar os diferentes acontecimentos em histórias coerentes (KVALE, 1996). Além desses direcionamentos, Kvale (1996) destaca que, nesse tipo de abordagem, o pesquisador deve ter em mente os pontos chaves que busca elucidar com a realização da entrevista. Mediante essa gama de recomendações, fezse condição primordial a realização de entrevistas piloto para que a condução da entrevista, propriamente dita, pudesse estar de acordo com esses prérequisitos, básicos para uma entrevista narrativa. Foram realizadas sete entrevistas piloto com idosos participantes do Projeto Sênior do ano de 2004. Em consonância com as recomendações expostas acima, sobre a condução da entrevista narrativa, foram selecionados os pontos chaves para o desvelamento da capacidade funcional percebida, tendo como sustentação teórica os pressupostos da fenomenologia da percepção de MerleauPonty (1999). Dentre os pontos chaves que direcionaram os questionamentos da entrevista, está a espacialidade do corpo, que se refere à possibilidade de expressão de uma situação vivida mediante uma percepção explícita. Não menos importante, foi enfatizado o conhecimento da manifestação da motricidade, como um dos usos do corpo no ato perceptivo. Ademais, as relações do narrador com outrem e com mundo humano e natural, enfim, o contexto em que se insere a percepção, constituíram outro ponto fundamental que nortearam a entrevista. Nesse estudo piloto, para estimular o narrador a contar sua estória, foi lhe proposta a seguinte indagação: “como foi para você participar do Projeto Sênior?”. E no discorrer de sua fala, pontos que se relacionavam com a percepção de sua capacidade funcional foram solicitados para um maior detalhamento pelo entrevistador. Logo nas duas primeiras entrevistas piloto, ficou claro que narrar sobre esse período não foi suficiente para conhecer com mais detalhes o contexto que permeia os relatos funcionais desses sujeitos. Dessa forma, a experiência nas duas entrevistas iniciais do piloto mostrou que seria necessário explorar mais ainda o contexto de vida em se inseriam cada relato sobre sua funcionalidade. Assim, a questão inicial foi revista e transformada em uma solicitação ao narrador, então, não mais uma indagação: “eu gostaria que você me contasse como foi sua experiência no Projeto Sênior e como esteve sua vida em todo esse período”, e mais cinco entrevistas piloto foram realizadas com essa alteração na questão inicial. Além disso, pude perceber que as anotações que tinha no caderno de campo serviriam como pontos extras, que poderiam disparar outras histórias e, assim, dar continuidade à narrativa. direcionar os procedimentos técnicos do processo narrativo com idosos que, no entanto, não se mostram conflitantes com a temporalidade exposta por MerleauPonty. 46 A partir dessa experiência com o piloto, a entrevista final foi iniciada com a solicitação descrita anteriormente e conduzida com o foco na questão funcional e toda a teia de relações na qual ela está inserida, ou seja, o pano de fundo vivido, do qual se destacam as ações funcionais relatadas. Dessa forma, a partir de seus relatos sobre a solicitação inicial, pude, como entrevistador, esclarecer pontos que surgiam em seus discursos que se referiam a percepção de sua funcionalidade. As entrevistas foram realizadas nas duas semanas seguintes ao término do programa. Esses depoimentos foram registrados, com uma câmera de vídeo, para que a fala e as expressões corporais fossem devidamente captadas. Esse equipamento foi utilizado, em diversos momentos no programa de exercícios, para que os idosos já se familiarizassem com a situação de serem filmados. Devese ressaltar que o equipamento só foi colocado em operação após o consentimento dos participantes, tanto na entrevista, quanto no programa de exercícios. 3.5 A fase da Análise 3.5.1 Força muscular Os dados referentes à força muscular foram analisados individualmente. Dessa forma, foram apontados em sua análise, através de um prisma qualitativo, se os níveis de força se reduziram, se mantiveram ou aumentaram. Essa forma de análise foi realizada para possibilitar a relação com os discursos de cada um dos participantes sobre a percepção de sua funcionalidade. O intuito é compreender se essas alterações de força são ou não significativas a partir do olhar daquele que a vivencia e não do ponto de vista matemático. Os resultados foram apresentados em gráficos após as análises das entrevistas. Cada gráfico apresenta os resultados absolutos obtidos por cada participante nas três medidas realizadas (início do programa, final da primeira e segunda fase) bem como nos exercícios em que cada um pode realizar. O procedimento para a análise dos discursos está descrito a seguir. 3.5.2 Entrevistas e caderno de campo 47 A primeira fase da análise das entrevistas foi o processo de transcrição literal, sem sínteses ou correções, em que foram registradas todas as características da fala, como recomendado por Gill (2002). Este é um ponto crucial para a análise do discurso, pois possibilita que o pesquisador mergulhe no discurso, para a se familiarizar com ele e identificar os pontos principais de análise (GILL, 2002). Num segundo momento, as entrevistas foram lidas para que se pudesse identificar a cada participante aquilo que se referia, nos relatos, sobre sua funcionalidade e seu contexto de vida. Nesse momento, também foi possível traçar uma breve descrição de cada participante, localizada no início de cada análise. Assim, de acordo com o que pôde ser obtido nos discursos, destacamse dois grupos de trechos narrativos. Esses foram denominados de “momento primeiro: a percepção da funcionalidade” e “momento segundo: o contexto de vida”. O primeiro versou sobre habilidades percebidas do cotidiano e, o segundo sobre trechos que trazem o contexto de vida do narrador, que poderiam desvelar o significado da funcionalidade reportada no primeiro momento. É importante destacar que não há uma relação de importância entre esses dois grupos destacados, eles estão intimamente imbricados, e sua distinção foi realizada apenas para facilitar a compreensão de suas relações. Destacados os trechos necessários para a compreensão da capacidade funcional percebida, foi apresentada a descrição literal de cada trecho com todas suas linhas numeradas para facilitar, no processo de interpretação, a referência a pontos específicos de cada trecho. Para a descrição de cada trecho, além da transcrição da fala, foi descrito também momentos de comunicação não verbal, como a presença de gestos e expressões que ajudariam a entender com mais clareza o trecho descrito. Isso foi realizado a partir da análise da fita de vídeo da entrevista, que pode esclarecer os trechos destacados. Dessa forma, todo o processo de análise foi realizado com a leitura da transcrição do trecho destacado, seguido da análise do momento do vídeo referente. Cada trecho foi numerado e identificado, portanto, como “trecho 1”, “trecho 2” etc. Além disso, foi destacado o assunto a que cada um deles se referia, no campo “assunto”, pois nem todos foram discorridos mediante uma questão direta. Muitos surgiram espontaneamente, fato que impossibilita a apresentação no esquema perguntaresposta. O momento em que o trecho foi narrado foi destacado com uma breve descrição, abaixo do “assunto”, para que se pudesse identificar que assunto “puxou” o do trecho descrito. A interpretação de cada trecho foi realizada, em seguida de sua descrição, a partir de técnicas de análise de discurso. A análise do discurso, na visão de Gill (2002) é uma prática social, não ocorrendo isento do contexto em que se insere, e as 48 pessoas utilizam o discurso de maneira intencional, impregnadas de sua cultura, para fazer coisas: para acusar, desculparse, apresentarse etc. Há um contexto interpretativo, que não se refere apenas sobre quem, onde e para quem é dirigido o discurso, mas também para captar as características mais sutis, como os tipos de ações que estão sendo realizadas. Gill (2002) destaca o seguinte exemplo, para explicar o contexto interpretativo: a frase “Meu carro quebrou”, a principio referese apenas a uma descrição de um artefato mecânico que apresenta alguma avaria. No entanto, o autor complementa que isso depende do contexto em que foi dito: se dito para um amigo na saída de uma reunião, isso pode significar um pedido de carona; se direcionado àquela pessoa que lhe vendeu esse carro, pode ter sentido de uma acusação ou repreensão; ou ainda se dito para um professor para cuja aula o narrador esteja atrasado, podese entendêlo como uma desculpa ou explicação. Entendese, então, que, para a frase “meu carro quebrou”, diversas ações podem estar implícitas nesse discurso, se considerarmos o contexto interpretativo. Nesse sentido, para identificar essas nuanças, cada frase analisada de cada trecho foi constantemente relacionada ao assunto em que se inseria. A interpretação de cada trecho e dos argumentos que o narrador utilizou para explicitar sua história foi baseada sobre os recursos lingüísticos utilizados por cada participante, como exemplificou Pinheiro (2004) sobre a prática da análise do discurso. Essa etapa foi concretizada a partir da análise do emprego pelo locutor de preposições, advérbios, substantivos, conjunções e pronomes, segundo princípios semânticos e gramaticais. No entanto, esses recursos lingüísticos emergiram da necessidade de dar sentido a um contexto e, o significado de cada advérbio, por exemplo, foi interpretado em conjunto com aquilo que ele “quis dizer” naquele momento, de acordo com o contexto interpretativo da narrativa em questão. Outro ponto importante, que foi considerado na análise do discurso, foi a identificação dos personagens que aparecem e seus papéis desempenhados, que irão dar consistência à história e aos argumentos apresentados para a explicitação de cada trecho (PINHEIRO, 2004). Com relação às notas registradas no caderno de campo, foram utilizados os mesmos procedimentos utilizados na análise das entrevistas. No entanto, tendo em vista que o registro foi apenas escrito, não foi possível um aprofundamento interpretativo baseado na comunicação nãoverbal. Os trechos destacados do caderno de campo foram inseridos entre os trechos da entrevista, com vistas a complementar um assunto que lhe fosse correlato. 49 4. RESULTADOS Nessa sessão, estão descritos e analisados os dados referentes a entrevistas e anotações provenientes do caderno de campo. Os sujeitos são referenciados aqui por letras (A ao H). Todos os sujeitos que completaram as sessões de exercícios participaram das entrevistas. Os registros do caderno de campo estão inseridos entre os trechos das entrevistas, dada a proximidade do assunto anotado no diário e o que já foi narrado em certo momento da entrevista. Ao final das análises dos trechos encontrase uma síntese dos trechos narrados que servirão de solo para a discussão desses dados. Sobre os resultados dos testes de força obtidos, esses foram apresentados também, de forma individual, para que fosse possível discutilos com base nas percepções narradas. Esses resultados estão apresentados em forma de gráficos, ao final da análise da entrevista de cada participante. Esses gráficos possuem três valores: 1níveis de força no início do programa; 2níveis de força ao término da primeira fase; e 3níveis de força ao final da segunda e última fase. Nem todos os participantes puderam realizar todos os exercícios, e a justificativa dessas impossibilidades encontramse na síntese desses casos. SUJEITO A Essa participante é do sexo feminino, com idade de 62 anos. É mãe de três filhos, avó de dois netos. Está divorciada e mora sozinha. Pratica caminhadas três vezes por semana, durante uma hora, ajuda na loja do exmarido e confecciona pães caseiros. É integrante do Projeto Sênior desde 2003, e participa ativamente do Projeto de Transição. MOMENTO PRIMEIRO: A PERCEPÇÃO DA FUNCIONALIDADE Trecho 1 Assunto: As atividades do cotidiano (Trecho relatado após a descrição do processo de mudança do filho) 50 01 Ah, eu acho que sim... Até é por isso aí também... A musculação também... 02 Porque, já pensou? Fazer a mudança de uma casa caber num cômodo menor 03 que isso aqui?...[neste ponto a entrevistada faz uma pausa, sorri e flexiona e 04 estende a coluna cervical no plano sagital e continua a relatar] Nós tivemos que 05 em 45 dias, construir, na minha casa, pra botar o resto das coisas deles... Ele 06 vendeu casa, apartamento, casa, carro, um monte de móveis... Agora o resto tá 07 tudo lá na minha casa... Então eu tenho que ficar... Traz pra cá, leva pra lá... 08 Acomoda aqui... Acomoda ali... Fez bastante ajuda... Ao ser questionado sobre como estava se sentindo com relação a suas atividades do cotidiano, a entrevistada inicia com a interjeição “Ah”, que nesse contexto indica alegria, satisfação; e segue concluindo (linha 1) que a musculação a ajuda a realizar suas atividades do cotidiano. No entanto, a palavra “também” denota que não é só a atividade com pesos que tem esse papel. Na linha 2, ela prossegue e inicia com uma questão: “porque já pensou?”, para que o entrevistador reflita sobre o grande feito que ela realizaria por ocasião da mudança do filho e inicia a descrição de tal realização com a frase “fazer a mudança de uma casa caber num cômodo menor que isso aqui”. Nesse ponto, ela prepara o entrevistador para aquilo que ela considera como um trabalho glorioso, pois o cômodo sobre o qual ela se refere é sala de aula que conversávamos, onde logicamente pressupôs que seria um absurdo acomodar toda uma casa, ali, com a frase “caber num cômodo menor que isso aqui”. O advérbio “menor” é enfatizado, pelo seu tom de voz, para demonstrar e enfatizar o quão difícil foi a tarefa que relatara. Logo após esse momento, ela demonstra, com um sorriso de satisfação e um “balançar” de cabeça, sua plena convicção de que isso é uma tarefa difícil. A locutora segue com a frase, “em 45 dias”, para enfatizar pela questão temporal de que foi uma tarefa de grande esforço ajudar na mudança do filho, pois tiveram que realizála em um montante de tempo que ele considera pouco, ao enfatizar, pelo tom de voz, a frase destacada. Ainda assim, na linha 6, ressalta a grandiosidade da mudança, principalmente, pelo uso da palavra “monte” para designar uma quantidade grande de móveis negociados no mudança. No entanto, complementa que o “resto” está tudo na casa dela, o que não é pouco, pois foi um serviço árduo, já que tiveram que acomodar uma casa em um só cômodo. Na linha 7, a frase, “então eu tenho que ficar”, no início, com o advérbio “então”, denota uma conclusão de todo o fato, de que ela é a responsável pela acomodação e, por conseguinte, pelo processo de mudança do filho, nora e netos. Finaliza o trecho 51 ressaltando o papel da musculação com a afirmação “fez bastante ajuda”, em que o advérbio “bastante” serve, nesse momento, para enfatizar o papel da musculação no evento relatado. Trecho 2 Assunto: Como pôde perceber alterações um sua funcionalidade (Trecho relatado logo após o trecho anterior) 01 Sabe... Tudo que eu ia fazer eu esperava as meninas chegar em casa pra me 02 ajudar...E, depois da musculação, meu filho, você tem, você tem...[nesse ponto a 03 locutora expressa com o rosto uma dificuldade de traduzir sua percepção, faz 04 uma breve pausa e continua] a capacidade de pegar, assim, umas três 05 cadeiras..de uma vez e botar no lugar... [nesse ponto a locutora sorri novamente 06 e, com as mãos simula os gestos de posicionar as cadeiras sobre as quais fala] 07 Tem gente que fala: “eu não sinto”... Não sei quem falou pra mim: “ah, eu já fiz 08 musculação e não sinto diferença”... Então você não fez... Você fez, mas você 09 não fez a coisa certa... As outras falam assim: “eu faço ginástica mais eu não me 10 sinto assim que nem você, você parece que tem 50 anos ou menos”... Ai, eu 11 falei, então você não faz uma ginástica direito... A locutora inicia o trecho com o verbo “sabe”, que é colocado de forma a preparar e chamar a atenção do entrevistador para um relato importante que viria logo após, pelo qual ela expressa que “tudo” que necessitava realizar dependia do auxílio da filhas. O pronome indefinido “tudo” demonstra a necessidade de ênfase na sua total dependência para a realização de suas atividades rotineiras. No entanto, essa situação não era aquela do momento presente, pois a colocação dos verbos “ia”, “esperava”, denota, claramente, que essa é uma rotina ultrapassada, porque, após o período em que participou do programa de treinamento resistido, essa situação de dependência não mais ocorria. Isto fica claro no momento em que ela inicia uma frase, na linha dois, com o advérbio “depois”, que leva a crer que, anteriormente à musculação sua dependência era importante, mas agora isso não mais ocorria. A locutora segue com a repetição da frase “você tem”, por duas vezes, e sua pequena pausa e expressão facial denotam a dificuldade de traduzir, em palavras, sua percepção de independência com relação às atividades de seu cotidiano atual: a mudança do filho. Mas continua, veementemente, após um breve momento de pausa, com ênfase no termo “capacidade” (tom de voz), 52 pelo qual demonstra que, antes da musculação, seria incapaz de realizar as ações posteriormente relatadas. Tais ações referiamse à capacidade de pegar três cadeiras de uma só vez e colocálas no lugar. A ênfase na expressão “de uma só vez” ajuda a destacar a diferença apontada no momento presente, com relação ao período anterior de sua vida, quando necessitava da ajuda de suas filhas para a realização de suas ações rotineiras. Além disso, o sorriso expresso mostra a satisfação dessa descoberta sobre sua capacidade funcional, com o adendo de gesticulações com os braços para representar e enfatizar sua capacidade de mover várias cadeiras em uma só ação. Na linha sete, ela exemplifica sua diferença ao comparála com outras pessoas e com a expressão “tem gente que”, demonstrando que não se inclui nesse grupo de pessoas que não percebem o efeito da musculação. Pois, para o locutor, a musculação faz diferença no diaadia, a não ser que não seja feito de forma que ela considera correta, como faziam as outras pessoas que ela utilizou como exemplo (linha 710). Além disso, ao utilizar a frase “Você fez, mas você não fez a coisa certa” a locutora procura chamar a atenção para o fato de que não é qualquer musculação que propicia sensações de melhora no cotidiano. Ademais, a entrevistada traz outro discurso de pessoas que dizem que fazem ginástica, mas não se sentem como ela, mais jovem, que aparenta menos idade que realmente tem. A locutora conclui que isso não acontece com elas (as pessoas que não fazem exercício corretamente), pois não realizam os exercícios de maneira adequada para provocar os resultados de melhora. Outro ponto importante é que o destaque desse exemplo, pela entrevistada, denota sua preocupação em não parecer velha, já que escolheu um discurso que enfatiza justamente essa sua posição pessoal. Trecho 3 Assunto: A diminuição da freqüência semanal (Trecho descrito após ser indagada sobre o assunto) 01 Ah... Mudou porque a gente tava esperando as duas vezes... E aí, no outro dia, 02 tinha que fazer, nós em casa, mas em casa sozinho... Sozinho é pior [...] Aí eu já 03 tinha minhas expectativas... Segunda e quinta, eu tinha meus compromissos... 04 Saio, faço minha ginástica, faço minhas coisas... Agora, só segunda... Aí 05 diminuiu a ginástica... Eu faço caminhada... Ai em casa, a gente faz alguma 06 coisa, mas já ajuda bastante... 53 Trecho 4 Assunto: A influência da diminuição da freqüência semanal no cotidiano (Trecho descrito após ser indagada sobre o assunto) 01 Não, porque eu procuro fazer, né. Não faz a mesma coisa, tudo, mas a gente 02 procura fazer sempre... [...] coisa quebrou aquele vaso, lógico que você vai 03 procurar outro pra botar no lugar, ali [...] Ah, não deixo de fazer. Nos relatos dos trechos três e quatro, a locutora inicia o trecho com a interjeição “ah” que, nesse contexto, aparece como um recurso para chamar a atenção para um assunto importante que ela necessitava relatar. O assunto ao qual se referia relacionavase a certo tipo de desapontamento que surgiu no grupo (pelo uso da expressão “a gente”) com a diminuição da freqüência semanal. É importante destacar que a locutora utiliza a expressão, “a gente”, para fortalecer seu sentimento de decepção, pois não fora somente ela que se sentia assim, mas indica que o grupo com o qual compartilhava as sessões de exercícios reagira do mesmo modo à diminuição das sessões semanais de exercícios. A entrevistada prossegue e ressalta, também em nome do grupo, utilizando o pronome “nós”, que, com a diminuição da freqüência semanal, eles tinham que procurar continuar a fazer os exercícios em casa. Essa situação não era a mais ideal, porque tinham que realizar as sessões sozinhos, uma situação que considerava pior, com relação à prática em grupo. O problema parece não ser o local, “em casa”, mas sim de realizar os exercícios sem companhia. A entrevistada segue ressaltando que, nos dois dias da semana, ela já tinha expectativas de realizar os exercícios e utiliza para isso o verbo no passado “tinha”, para denotar que não mais possuía tais expectativas, pois essa não era mais a situação atual. Deixa bem claro que assumia os dias de treino na musculação por “compromissos”, um termo que denota que é uma tarefa importante que não podia faltar (vale ressaltar que em outro momento da narrativa, a entrevistada orgulhavase de ser a única que compareceu a todas as sessões de treinamento). Outro ponto importante é que ela enfatiza o pronome possessivo: “meus” compromissos, “minha” ginástica, “minhas” coisas (linhas três e quatro), que denota uma preocupação consigo que materializavase na realização das atividades citadas, era uma momento só dela, que ela não ocupava com suas tarefas rotineiras, do cuidar. “Agora só segunda”, aqui ela chama a atenção para o momento presente, que difere substancialmente do passado, quando viria praticar os exercícios com pesos 54 nas segundas e quintas feiras, e enfatiza que seria pouco, com o advérbio “só”, que significa, “somente”, “apenas”. Explica, então, que diminuiu a ginástica e, por isso, a substitui pela caminhada, para fazer “alguma coisa”, que ocupasse o período vago nas quintas feiras. Ainda realça que não é somente ela que tenta realizar exercícios em casa, pois utiliza a expressão “a gente”, denotando que mais pessoas do grupo teriam tomado tal conduta, ou que, todos aqueles que têm um tempo livre e precisam fazer algum tipo de exercício o preenchem com atividades em casa, sempre realizam uma substituição. Ao finalizar, ela adverte com a frase: “mas já ajuda bastante”. A conjunção adversativa “mas” referese a “alguma coisa”, algum tipo de exercício que é realizado em casa, que ajuda, embora não seja igual aos exercícios realizados no programa de treinamento resistido oferecido, seria uma alternativa que não substitui completamente a atividade que era realizada na quinta feira. No entanto, esta atividade “ajuda bastante”, no sentido de ser melhor que não realizar nenhum tipo de exercício. No trecho quatro, ao ser questionada sobre alguma possível alteração no seu cotidiano com a diminuição da freqüência semanal, ela inicia com uma resposta negativa, indicando que não altera pois ela costuma substituir. Finaliza a primeira frase, com o termo “né”, que pode ser compreendido como “não é”, ou ainda, “como lhe disse anteriormente”, pois já havia relatado ao entrevistador que faz outras atividades que substituem aquela que foi subtraída e o adverte com o primeiro termo destacado. Volta a ressaltar que não tem o mesmo efeito, e que a caminhada (substituta) não realiza “tudo” o que atividade com pesos (substituída) pode proporcionar. Além disso, volta a utilizar o termo “a gente”, (final da linha um), para designar que não é ele que procura substituir, mas, sim, um grupo de pessoas que se assemelham a ele e, portanto, valorizam a prática da atividade física. Ademais, o emprego do termo “a gente” fortalece sua afirmação, pois não é somente ele que procede com a substituição da atividade, mas, sim, outras pessoas, que é uma atitude coletiva. Na linha dois e três, recorre a uma metáfora para fazer alusão de ser uma conduta lógica (utilizou o termo “lógico”), no sentido de que é claro que você tem que substituir algo que lhe é importante, que estabelece uma função, assim como o vaso funciona sempre que pode armazenar o que lhe é designado. Conclui o trecho, com veemência, dizendo que não deixa de fazer as atividades físicas. MOMENTO SEGUNDO: O CONTEXTO DE VIDA Trecho 5 55 Assunto: Sobre a disponibilidade de praticar atividade física (Trecho relatado após descrever suas dificuldades com a osteoporose) 01 Não, porque eu trabalhava de dia... O dia inteiro... Eu trabalhava numa loja e 02 ficava o dia todo trabalhando. E tinha os filhos pra cuidar... E eu tive três filhos, 03 amamentei nove... Então, além dos meus filhos eu amamentava os dos outros... 04 Então, eu não tinha como sair de casa... E tinha meu sogro, que faleceu com 93 05 anos... Eu tinha que cuidar dele, dar banho... No trecho cinco, ela inicia a justificativa de que nunca pôde praticar atividade física porque não tinha tempo disponível. Enfatiza a questão temporal como fator limitante, principalmente, nas frases das linhas um e dois: “o dia inteiro” e “ficava o dia todo trabalhando”. A partir daí, ela diz que não era apenas o trabalho na loja que ocupava o seu tempo, pois, além disso, ela tinha que cuidar dos filhos. A locutora enfatiza que além de cuidar dos filhos, ela cuidava dos filhos dos outros e utiliza a comparação quantitativa do número de filhos que pariu e amamentou, três, para fazer alusão que teve o triplo de trabalho, pois amamentou nove (linhas dois e três). Nesse ponto, é interessante destacar que esse exemplo usado pela locutora é marcante, pois é de conhecimento geral o dispêndio enorme de tempo utilizado no processo de amamentação, porque, além de seus filhos, ela amamentou outros seis. Além disso, finaliza essa primeira passagem que reflete seu papel de cuidadora, com o relato que teve que cuidar do sogro (linha quatro e cinco), e que teve que prover assistência a uma pessoa totalmente dependente, já que tinha que dar banho nele. Trecho 6 Assunto: Sobre suas relações com o exmarido (Trecho descrito após narrar sobre sua separação do marido, que posteriormente lhe causou um infarto) 01 Agora... Ficou doente [o marido], e as meninas [as filhas] trouxeram ele pra 02 dentro da minha casa, pra eu cuidar dele enquanto ele tava... Porque ele teve o 03 acidente, depois do acidente que ele teve a primeira cirurgia... Teve a segunda... 04 Ai eu falei... Essa não... Ia dar o remédio pra ele, “não vou tomar essa porcaria”. 05 [...] Se eu não for buscar pra ele, ele não toma, ele não vai pra farmácia, nem 06 buscar a insulina dele... Era pra tomar duas vezes por dia, ele falou que não 07 toma, toma uma só... Por causa da bebida né, se parasse de beber... Podia até 56 08 tomar uma vez, ou até ter parado com insulina... No trecho seis, relata outra situação que exigiu seus cuidados, mas que não lhe dava a satisfação que lhe propiciava aquela do recorte anterior. Relata em tom de obrigação, como se tivesse que atender uma solicitação das filhas em cuidar do ex marido, sem opção de recusar. Deixa claro seu sentimento de insatisfação ao exemplificar o comportamento que considerava impertinente de seu exmarido, através da reprodução de sua fala, ao oferecerlhe um remédio (linha 4): “não vou tomar essa porcaria”. Além disso, enfatiza o comportamento que considerava inadequado do marido, com a descrição de sua aversão à medicação que lhe era recomendada, já que era portador de diabetes. Ainda mais, finaliza o trecho ao reforçar o que falara em outros momentos da narrativa, em tom de repreensão: de que todo esse comportamento tinha como causa primeira (utiliza a expressão “por causa”) o uso excessivo de bebidas alcoólicas e relaciona essa conclusão com o problema do diabetes nas linhas sete e oito, usando a conjunção condicional “se”, indicando a condição necessária para que pudesse diminuir as doses de insulina. Trecho 7 Assunto: Sobre suas atividades no cotidiano e de cuidar (Trecho relatado após descrever suas diversas atribuições do cotidiano) 01 Minha casa é pequena, dois quartos, sala e cozinha...e banheiro, quintal é 02 grande...a frente também... Você foi em casa...você viu, eu já tinha aquelas 03 coisas, um monte de planta...eu cuido trinta e tantos vasos de planta.. eu cuido 04 do quintal.. Eu tenho um cachorrinho, tenho que lavar quintal... Tenho que fazer 05 isso... Tenho que fazer aquilo, ainda a N., aquela N. S. M. Você vê que ela 06 depende de tudo, ela é quase cega... Eu é que vou com ela na feira, vou com ela 07 no mercado, vou com ela no médico... Vou fazer compra, vou pra todo o lugar 08 com ela, que eu não gosto de deixála sozinha... É perigoso... [...] Eu que faço os 09 pagamentos, eu que preencho o cheque, eu que faço tudo pra ela... Ela fala que 10 se eu sair de lá, o dia em que eu não to lá, ela fica perdida... [faz uma pausa e 11 sorri] 57 Nesse trecho a locutora descreve sua moradia e logo clarifica para o entrevistador que, pelo número de dependências internas de sua casa, “dois quartos, sala e cozinha...e banheiro”, a casa é pequena (linha 1). No entanto, a entrevistada adverte que não é por isso que ela não tem trabalho doméstico, pois as áreas externas, o quintal, a frente da casa são grandes (linha 2). Nesse momento, remetese a expressão “você foi em casa”, para fazer com que o entrevistador, lembrese que pode testemunhar o que ela relatara (linha 2). Além disso, enfatiza o trabalho doméstico, relatando que possui dezenas de vasos de plantas e ressalva a quantidade pela expressão “trinta e tantos” e lembra, ainda, que tem um cachorro que faz com que ela tenha que lavar o quintal. Sobre essas atividades domésticas finaliza, com as expressões “Tenho que fazer isso... Tenho que fazer aquilo”, pelas quais faz alusão que tudo em sua casa depende de seu trabalho. A partir da linha cinco, a locutora ressalva outra tarefa importante que referese a cuidar de uma vizinha praticamente cega. Na seqüência de frases que ele discorre para exemplificar seu papel assistencial para a vizinha, ela relata utilizando de uma sucessão de frases que inicia com o verbo “vou” de sujeito oculto “eu” e repete esse recurso seis vezes no intuito de deixar claro que ele acompanha a vizinha a todos os locais necessários à manutenção de sua vida. Logo após, ela recorre ao mesmo recurso, mas inclui o sujeito “eu” e finaliza na terceira frase com ênfase (pelo tom de voz), no pronome indefinido “tudo”, para deixar claro que a vizinha é totalmente dependente de seus cuidados. Além disso, nessas últimas frases enfatiza que cuida do dinheiro da vizinha, fato que para ela aumenta sua responsabilidade de cuidador. Ainda mais, recorre a um relato da própria vizinha que diz que ficaria “perdida” sem ela e ]conclui o trecho com um sorriso de satisfação, de dever cumprido. Trecho 8 Assunto: sobre seu papel na mudança do filho para o exterior (Trecho relatado após concluir a descrição da separação do marido) 01 Ah, ele passou no vestibular de lá e foi fazer a quinta faculdade... Brincadeira! 02 [...] A mudança deles atrapalhou muito. Porque eu tinha pedreiro em casa... 03 Transferência das coisas, que era eu que ajudava ela a fazer, porque com a K. 04 [nora] trabalhando, eu tinha que ficar com as crianças... Ela correu para colocar 05 a papelada tudo em dia, porque ele e ela não eram casados... Tiveram que 06 casar correndo... Ela teve que ir lá pro sul pra resolver os problemas da 58 07 papelada dela, e eu tive que ficar com as crianças... E então foi uma correria... Nesse trecho, a locutora descreve seu papel no processo de mudança de residência do filho do Brasil para o exterior. Ela inicia com a interjeição “ah” que, nesse contexto, demonstra sua alegria e orgulho com relação ao filho ter passado no vestibular de uma universidade do exterior e, além disso, que esse curso já era o quinto de nível universitário que o filho ingressava. Então, finaliza com a expressão “Brincadeira”, no sentido de que: parece brincadeira, mas não é, ele vai cursar a quinta faculdade no exterior, mesmo! A entrevistada prossegue e realça que esse processo de mudança do filho a atrapalhou muito no seu diaadia. Um dos motivos que ressalva como ponto importante é que ela estava com a casa em reformas: “porque eu tinha pedreiro em casa”. Todavia ela use o advérbio “porque”, que denota, em principio, essa ser a principal causa, do transtorno relatado, mas as linhas seguintes do relato deixam claro que os motivos do transtorno vão muito além disso. Nesse sentido, nas linhas seguintes ela realça que teve que auxiliar a nora no processo de transferência. No que se refere aos tramites burocráticos para a mudança de país, pois a esposa de seu filho estava trabalhando e não tinha muito tempo disponível para isso. Assim, ela destaca que era ela que tinha que ajudar no processo de transferência. Ademais, a locutora enfatiza, nas linhas quatro, cinco e seis, que, além da documentação para a viagem, seu filho e nora tiveram que se casar legalmente, fato que complicou ainda mais a mudança de moradia. Além disso, o processo se intensificou mais porque a nora teve que viajar para o sul do país para poder dar andamento a documentação necessária à mudança. Dessa forma, ela ressalva que teve que cuidar das crianças e repete a frase “eu tive que ficar com as crianças”, duas vezes, para enfatizar sua responsabilidade no processo de mudança do filho, pois as atribuições burocráticas a esse tipo de processo tomaram muito tempo do casal e ele era a única possibilidade de ajuda. Síntese da entrevista do Sujeito A Essa participante percebeu alterações em sua funcionalidade, principalmente nas ações que desempenhou na mudança de seu filho, relatando que pôde carregar móveis sem a necessidade do auxilio de suas filhas (trecho um e dois). Sobre a alteração na freqüência semanal, ela relata no primeiro momento que foi ruim, pois 59 tinha expectativa de duas vezes semanais, mas que, depois, disse que substituíu o dia livre por caminhadas (trecho três). Ainda destaca no trecho quatro que não deixa de fazer atividade, sempre substitui. No contexto de vida relatado, notase o papel constante de cuidadora que essa participante exerceu durante toda sua vida. Relatou que além de cuidar de seus filhos, amamentou outros seis (trecho cinco). No entanto, esse papel nem sempre lhe é prazeroso, fato que deixa claro ao reprovar sua “obrigação” nos cuidados com o ex marido (trecho seis). Destaca ainda que, além de suas atribuições domésticas, que não são poucas, oferece assistência a uma vizinha quase cega (trecho sete). No último trecho (oito), descreve seu papel na mudança de seu filho para o exterior, fato que parece ter significado importante em sua vida e, também, em sua funcionalidade. O desempenho da força muscular Com relação ao seu desempenho no programa proposto, podese notar que ela experimentou, na primeira fase, aumento de seus níveis de força em todos os exercícios propostos, exceto no supino. No segundo período do programa, podese observar uma elevação no exercício de leg press, costas e supino. Já nos demais notase, a manutenção dos níveis obtidos na medida dois. Figura 1 Desempenho da força muscular do Sujeito A nos exercícios propostos kg 50 40 supino leg pr ess 30 cost as 20 ombro glut eos 10 0 1 2 3 1início do programa; 2final do período de duas vezes semanais; 3final do período de manutenção SUJEITO B Essa participante é do sexo feminino, com 65 anos de idade. É casada, mora com o marido e com a mãe. É mãe de dois filhos. Pratica caminhadas quatro vezes por semana e freqüenta aulas de “ginástica localizada” em dois dias semanais. Freqüenta também aulas de pintura. Exerce todas as atribuições domésticas além de 60 cuidar de seu marido e mãe, acometidos por enfermidades crônicas. Participou do Projeto Sênior de 2002 e freqüenta ativamente o Projeto de Transição. MOMENTO PRIMEIRO: A PERCEPÇÃO DA FUNCIONALIDADE Trecho 1: Assunto: o cotidiano de vida após o ingresso no Projeto Sênior (Trecho narrado após a descrição de um evento no qual sofrera uma queda e sobre a necessidade percebida em engajarse em programas de atividades físicas) 01 O diaadia foi melhorando... Quando a gente vai fazendo exercício, o negócio 02 vai melhorando... A gente vai ficando mais... Um pouco mais leve... Um pouco 03 mais... [pausa para reflexão] como fala?... Mais rápida... [nesse momento a 04 locutora faz uma pausa pra tentar lembrar o que melhora, eleva e deprime os 05 ombros] Pra esticar o braço lá no armário, “né”, pegar alguma coisa, como dizia 06 a M., “né”, [exibe um sorriso de satisfação], eu tinha tendinite não podia 07 movimentar o braço, esse aqui... [aponta o braço direito e demonstra o 08 movimento que não conseguia realizar], depois que eu comecei a fazer exercício 09 parou... Eu cheguei a fazer fisioterapia... Depois não fiz mais nada... A locutora inicia o trecho utilizando a expressão “foi melhorando”. O verbo no gerúndio parece indicar que foi um processo gradual, de pouco em pouco. Ainda na linha um, ela diz que a prática de exercícios proporciona melhoras, e utilizase do termo “a gente” que parece indicar que isso é um senso comum, que melhora para todo mundo mesmo, e que com ela não teria sido diferente. O uso do termo “negócio”, como sujeito da frase, aquilo que “vai melhorando”, denota certa imprecisão em definir o que de fato tenha melhorado. Nas linhas dois e três, a locutora inicia um pool de exemplos na tentativa de clarificar as melhoras funcionais das quais fala. Podese observar, nesses exemplos (linhas dois a quatro), que ela realiza diversas pausas na fala e não tem certeza de como descrever suas idéias, indagando o entrevistador com a frase “como fala?”, solicitando, assim, sua ajuda. Após a conclusão de que teria ficado mais veloz (“mais rápida”, linha três), ainda faz uma outra pausa, expressase com a face em sinal de dúvida e utiliza o movimento de elevação e depressão dos ombros, sucessivamente, para demonstrar que não sabe ao certo que de fato tenha melhorado. Na seqüência, conclui que estender o braço para alcançar algo no armário, pode ser um indicativo de melhora. No entanto, ainda não parece ter certeza dessa colocação, pois adverte o entrevistado, como se pedisse sua confirmação, com a 61 expressão “né”, que significa “não é”, “não é isso mesmo”, “não está certo”. Além disso, cita que a professora do programa (M.) dizia isso, então deve estar certo; conseguir alcançar o armário é uma melhora decorrente da prática de atividade física, e adverte o entrevistador novamente, pedindo sua confirmação com a expressão “né”. Em seguida, relata que apresentava tendinite no braço direito e o movimenta, exemplificando que pode movimentálo, e conclui que isso foi decorrente de ter ingressado no programa de educação física do Projeto Sênior. Ainda destaca que fez até fisioterapia, para demonstrar que o problema era grave, e que com a prática de exercícios isso melhorou. Finaliza ressaltando que, após a prática exercícios, não precisou fazer mais nada para o braço, que o exercício é suficiente para suprimir a tendinite. Trecho 2 Assunto: Sobre as possíveis diferenças no cotidiano após o período de treinamento resistido. (Esse trecho foi dito após ser solicitada a contar como foi sua experiência no período de exercícios resistidos) 01 Ah, no começo eu sentia, tava meio cansada... Chegava em casa cansada... 02 Com dor no braço, com as coisas... Porque tinha que ir lá de tarde ai já puxava 03 mais, de manhã aqui, de tarde lá... Aí já ficava... Ficava bem cansada, “né”, mas 04 vai passar... É, e foi assim, no dia que eu não ia pra lá... [...] Então, aí foi 05 melhorando... Já não me sentia tão cansada, “né”... Fui fazendo e não me sentia 06 tão cansada... Meu dia a dia melhorou muito... Só me estressou agora no final... 07 Com o problema lá em casa [...] a gente tem que... Eu acho que melhora “né”, 08 por que você tem um pouco mais de força, não se cansa à toa... Faz as coisas 09 mais adequadas, sei lá [...] Nas pernas, a gente sente mais força... “né”, no 10 braço também, “né”... Fui sentindo diferença... No braço, nas pernas... [...] braço 11 e perna? Com as pernas a gente anda, “né”... E com os braços carrega sacola... 12 Sacola... Vassoura... Ao ser questionada sobre as diferenças no cotidiano que a musculação poderia ter ou não ocasionado, a entrevistada inicia o trecho com a interjeição “ah”, com o sentido de que isso era um tema importante, que deveria ser relatado. Prossegue e diz que, no início do programa, sentiase um pouco cansada e enfatiza isso ao dizer que voltava pra casa cansada e, além de cansado, com dores nos braços. Nesse ponto, entendese que a mudança que o programa ocasionou em sua vida foi o adendo de uma tarefa que a levasse a um cansaço não presente anteriormente. 62 Nas linhas dois a quatro, ela explica o motivo de seu cansaço e conclui que era o excesso de atividade, pois participava do programa de exercícios resistidos pela manhã e, no período vespertino, realizava sessões de ginástica em grupo. Referese a essa atividade com o advérbio “lá”, pois anteriormente, em sua narrativa, havia comentado sobre. E realça, novamente, (linha três), que ficava muito cansada, com a utilização do advérbio “bem”. No entanto, ela frisa que isto deve ser circunstancial, com a frase “mas vai passar”. Volta a enfatizar que o problema de seu cansaço era o acúmulo das sessões de exercícios, finalizando com uma frase que parece concluir no sentido de que, quando não ia para a sessão de ginástica, o cansaço não era tão evidente, “no dia que eu não ia pra lá...”(linha quatro). A locutora conclui, na linha quatro, que o cansaço foi diminuindo, com a expressão “aí, foi melhorando”, mas que ainda se sentia cansada, mas não tanto, com o emprego do advérbio ”tão” precedendo o adjetivo cansada, e utilizase do recurso da repetição da expressão “tão cansada” (linhas cinco e seis) para enfatizar esse estado que diferia do primeiro momento relatado. Conclui, então, que seu cotidiano melhorou muito, já que o programa já não a deixava tão fadigada. Ainda realça que piorou no final do período do programa, referindose a um problema familiar que a fizera sair de sua rotina, como havia já comentado em sua narrativa e a cansara novamente. Retoma o relato sobre as influências de programas da exercícios no cotidiano e não se refere às suas melhoras específicas. Utilizase do termo “a gente” para denotar que isso deve acontecer mesmo com quem faz este tipo de atividade; ela acredita que melhora e isso se traduz pela frase “eu acho que melhora “né”, associando uma possível melhora da força à diminuição do cansaço, mas não tem certeza de tais proposições, pois finaliza, na linha nove, com o termo “sei lá”, que significa “não sei”, “não tenho certeza”, “acho que deve ser assim”. Ainda mais, utilizase do recurso “né”, como que se solicitasse ao entrevistador uma confirmação, no sentido de “não é?”, “isso não é assim mesmo?”. Na linha nove, ela continua a exemplificar o que seriam as melhoras decorrentes de um programa de exercícios de força com a frase “nas pernas a gente sente mais força “né”. Essa frase coloca como sujeito o termo ”a gente”, no sentido de que todos aqueles que fazem esse tipo de atividade melhoram a força nas pernas, assim como nos braços (linha nove). Ao final dessas colocações, utilizase do termo “né”, já explicado, solicitando a aprovação do entrevistador. Conclui, então, na linha dez, que foi sentido diferença, sim, nos membros citados, já que tinha participado de um programa de força. Na seqüência, ao ser indagada sobre como teriam sido essas melhoras nos membros ressaltados, responde que, nas pernas, o andar melhorou, pois essa é a sua função e, nos braços, o carregar de sacolas melhorou, pois esse é um atributo 63 importante para o membro citado. Devese destacar que se utiliza novamente do termo “a gente”, que denota que todo mundo, e não só ela, melhora o andar e o carregar se incrementar a força dos membros citados. Trecho 3 Assunto: Sobre a diminuição da freqüência semanal (Trecho relatado após descrever o período em que seu marido estava no hospital, mesmo momento em que houve a diminuição da freqüência semanal) 01 Não, no começo foi mais puxado porque a gente não tava acostumado com a 02 musculação... Aí duas vezes... A gente tava acostumando... Aí quando passou 03 pra uma. [...] ficou tranqüilo [...] Olha duas vezes tava bom né... Mas, pra mim, 04 era meio puxado por causa da casa, né, sair muito... Se eu não tivesse as 05 crianças, você sai tranqüila... Você vai sair sempre com aquela preocupação, de 06 dar café... Minha mãe é diabética... Tem horário certo, não pode passar do 07 horário... [...] Funcionou bem... Ao relatar sobre o período de diminuição da freqüência semanal, a locutora revela que não sentiu alteração na prática dos exercícios resistidos e ressalva que, no início, foi mais difícil, pois não estava acostumada. Nesse ponto, ela usa o termo “a gente” para explicitar que não somente ela percebia que não estava adaptada a essa modalidade de exercício, mas, sim, todo o grupo que participava das sessões de treinamento. Prossegue e diz que todos estavam (“a gente”) se acostumando com a freqüência semanal inicial (dois dias) e, quando isso ocorreu, iniciouse o período com uma vez semanal que, pare ela, ficou mais tranqüilo. Explica que diminuir a freqüência semanal, para ela foi bom, melhor que duas vezes, isso fica claro pela frase “mas, para mim, era meio puxado”, que contrapõe a frase anterior (“olha duas vezes tava bom, né”) e, ainda, porque finaliza o trecho com a frase “funcionou bem”, teve efeito. A primeira fase, para ela foi satisfatória, mas um pouco exaustiva (‘”meio puxado”), por razão do serviço caseiro. Complementa que essa foi a principal razão, pois utiliza a conjunção “se”, que estabelece a condição de que se não precisasse cuidar de sua mãe e do marido (referese a essas pessoas com o termo “crianças” para exemplificar o tipo de trabalho que eles representam), poderia sair de casa sem preocupação. Ainda chama a atenção para sua mãe que, além de ter 94 anos, possui diabetes, fato que acentua seu cuidado e dificulta suas saídas para participar do programa. E finaliza com o termo “funcionou bem”, já explicitado, e que 64 indica que, para ela, a redução da freqüência semanal a ajudou no equacionamento de seus compromissos familiares. MOMENTO SEGUNDO: O CONTEXTO DE VIDA Trecho 4: Assunto: Sua situação de vida antes de ingressar no Projeto Sênior (Trecho proferido pela solicitação de contar sua experiência no ingresso do Projeto Sênior) 01 Quando eu fui convidada,, aqui no Sênior para participar, eu tava meio 02 “paradona”... Eu tinha levado um tombo, “né”. Fui pegar um ônibus na Paes de 03 Barros, corri e caí... Então, eu falei: bom, eu já tô na idade de “manerar”, ir 04 devagar [enfatiza com a elevação do tom de voz] por causa da idade [enfatiza 05 novamente com o tom de voz], então, devagar, “né”... Não tinha nenhuma 06 atividade, tinha que ir devagar, “né”... Aí, quando eu fui convidada para participar 07 já tinha medo de pegar ônibus sozinha, fiquei meia traumatizada, “né”... Aí o 08 Matheus chamou, eu vim... Participamos... E eu fui voltando a ser o que eu era, 09 “né”... Aí, eu comecei o curso... E ai eu comecei a voltar outra vez... Me libertar 10 outra vez...sair sozinha... Pegar ônibus... Voltei... Mais agitada do que eu já era... Trecho 5: 01 Depois que eu caí, aí, eu fiquei com medo de subir no ônibus mesmo... mas 02 agora, depois do curso não..subo no ônibus numa boa, desço, sem ajuda de 03 ninguém, graças a Deus, por enquanto... E “vamo” em frente... [levanta as 04 sobrancelhas, arregala os olhos e continua a relatar] Sair e entrar dentro do 05 carro era mais difícil... agora, atrás ou na frente, entra bem e sai... [finaliza com 06 um sorriso e satisfação] A locutora inicia o trecho três ressaltando que, no momento que ingressou no Projeto Sênior, não praticava nenhum tipo de atividade física, estava “paradona”, parada, sem movimentarse. Explica que estava nessa situação por motivo de uma queda (“tombo”), ocasionada por uma corrida que objetivava o ingresso em um ônibus. Inicia a sua conclusão do evento com a frase “então eu falei”, que significa que refletiu sobre o ocorrido e, a partir dessa conversa consigo, conclui que o evento da queda ocorrera devido à sua idade e exalta o termo “idade” elevando o tom de voz. 65 Prossegue e diz que está em um período da vida que é necessário diminuir a intensidade da movimentação, que é preciso “manerar”, enfatiza essa redução ao repetir o advérbio “devagar”, duas vezes e, ao colocálo após a palavra “então”, que denota uma conclusão concretizando com o advérbio “devagar” (ressalta com a elevação do tom de voz). Ademais, finaliza com o termo “né”, já explicitado, solicitando a confirmação ao entrevistador de que sua conclusão estava coerente. Isto significa que ela deveria, a partir de então, diminuir a intensidade de sua movimentação, pois está velha. Retoma a fala, e reafirma que não praticava nenhum exercício físico (linha cinco: “não tinha nenhuma atividade”) e, por esse motivo, não tinha outra escolha (utiliza o verbo “tinha”, no sentido de ser algo obrigatório), a não ser movimentarse devagar. Segue a narrativa e relata que, ao ser convidada para participar do Projeto Sênior, já apresentava medo de pegar ônibus sozinha e acrescenta que isso decorre de um trauma, instaurado pelo evento da queda. Relata que, pelo convite de um amigo, veio participar do projeto e foi retornando à sua condição anterior ao evento da queda, recobrou sua realidade: “fui voltando a ser o que eu era”. Utiliza o verbo voltar no gerúndio (“voltando”), para indicar que não foi de uma vez, mas, sim, aos poucos, no decorrer da participação do programa. Nas próximas duas frases da linha nove, é interessante notar que ela utiliza o recurso da repetição da frase “eu comecei”, e denota a relação direta de fazer o Projeto Sênior e retornar a ser a pessoa que era antes da queda, que pode ganhar a liberdade, que pode sair sem assistência (“sair sozinha”). “Pegar ônibus” enfatiza, “voltei”, ressalta, com um sentimento de que superou o trauma e que ainda estava melhor, “mais agitada do que já era”. No trecho quatro, ela inicia com o advérbio “depois“ para deixar claro que foi somente após o evento da queda, que aflorou o medo de subir no ônibus. Enfatiza ainda, no inicio da frase, com o termo “aí”, que quer dizer “então”, que foi a queda que gerou o medo de subir no ônibus. Finaliza a frase com o advérbio “mesmo”, para ressaltar que era um medo importante, que não era qualquer medo, que era um medo real. No entanto, frisa novamente, iniciando a frase com a conjunção “mas”, que isso não corresponde mais no momento presente (“agora”), que se opõe à frase anterior, que, após o ingresso no curso (referese ao Projeto Sênior), não apresentava mais medo de subir no ônibus. Realça a situação presente com a frase “subo no ônibus numa boa”, já que utiliza o termo “numa boa”, que denota: “faço bem”, “realizo sem problemas”, “sem dificuldades”. Complementa que não somente sobe “numa boa”, no ônibus, mas, também, desce dele sem dificuldades e sem a ajuda de outras pessoas. No entanto, ela ressalva que isso acontece pelo menos até o momento presente, “por enquanto”. Conclui com a frase “e ‘vamo’ em frente”, para deixar claro que isso a possibilita de 66 seguir sua vida, que agora pode locomoverse sem o sentimento de medo que apresentara em outrora. Nesse momento, a locutora, eleva as sobrancelhas, arregala os olhos, para introduzir em tom de importância, a próxima informação. Antes do programa, ela tinha dificuldades para sair do carro e entrar nele, mas, no momento presente, seja em qualquer circunstância para utilizar automóvel, “atrás ou na frente entra bem e sai”, isso não mais ocorre, e finaliza com um sorriso de satisfação de vitória. Trecho 6: Assunto: A tendinite (Trecho descrito ao ser solicitada a esclarecer seu problema com a tendinite) 01 A tendinite me atrapalhava bastante... Não dava pra fazer um monte de coisas... 02 Porque doía aqui, assim né... Daí você vai pendurar uma roupa, o braço não 03 levanta... Vai pegar uma coisa, o braço não levanta... Vai pegar um peso, ele grita! 04 Então não dá pra você esquecer... né... Daquela dor, ela tá ali constante... 05 Perturbando... A locutora esclarece que a tendinite a atrapalhava muito no diaadia. Enfatiza esse incomodo com a frase “Não dava pra fazer um monte de coisas”, e utiliza o termo “monte”, que quer dizer grande quantidade, muito, para deixar evidente que a tendinite atrapalhava significativamente. Segue com a utilização da conjunção “porque” para elucidar os motivos de tanto incômodo: a presença de dores em uma região do braço ,e demonstra apontando para o referido segmento. Segue exemplificando com atividades do cotidiano que eram influenciadas pela impossibilidade de movimento do braço e usa o recurso da repetição da expressão “o braço não levanta” (duas vezes, linhas dois e três) para realçar o comprometimento que a tendinite ocasionava no braço. A doença a impedia de realizar suas atividades domésticas. Na frase, “Vai pegar um peso, ele grita!”, ela ainda retoma a questão, metaforicamente, de que o braço não apenas não levantava, mas, sim, doía (“grita”), assim como uma pessoa grita ao sentir uma forte dor. Ela conclui com o advérbio “então”, que, nesse caso, pode significar “portanto”, que não é possível esquecer a dor, ela era constante, aparecia, perturbava, em qualquer que fosse a ação do braço, levantar ou agarrar um peso. Trecho 7 (Caderno de campo) 25/10/2004 Assunto: A tendinite 67 01 Diminui o peso, estou sentindo minha tendinite... Nesse trecho relatado no caderno de campo, na segunda fase do programa, realça um pedido do Sujeito B para diminuir o peso, pois sentia dores no ombro, devido sua tendinite, ao realizar o exercício de supino. O tom imperativo com que inicia a frase (“diminui o peso”) denota sua preocupação em não deixar opções para o professor que auxiliava, ele tinha que diminuir a carga sem hesitações. Explica essa necessidade, em virtude das dores que sentiu decorrentes de sua tendinite na frase “estou sentindo minha tendinite...”. Trecho 8 Assunto: Suas atribuições domésticas (Trecho descrito a partir do questionamento sobre sua rotina diária) 01 O que eu faço...? Eu faço tudo [exibe um sorriso de satisfação, orgulho], eu lavo, 02 passo, cozinho, limpo casa, cuido das minhas crianças, que são duas... [ri um 03 pouco] É minha mãe de 94, meu marido com 78... E cuido deles faço tudo... 04 Saio, faço compras... Vou no banco pagar contas... Faço tudo... A locutora responde prontamente, sem hesitações, sobre suas atribuições domésticas. “Eu faço tudo”, explica, e exibe um sorriso de satisfação ao declarar sua responsabilidade. Além das atividades domésticas bem conhecidas (lavar, passar, cozinhar, limpar), enfatiza que tem que cuidar de suas crianças, referindose aos constantes cuidados com sua mãe e marido. Realça ainda a sua responsabilidade ao delatar a idade deles, demonstrando que isso é adicional às suas atribuições rotineiras. Ela retoma, utilizando o recurso da repetição da frase “faço tudo”, com o intuito de reforçar que ela é responsável por todo e qualquer trabalho em sua casa. Além disso, faz questão de frisar que não é apenas no ambiente doméstico que suas atribuições são solicitadas, mas também na resolução de problemas que extrapolam o trabalho caseiro, como fazer compras e ir ao banco, tarefas que elevam ainda mais seu nível de responsabilidade. Trecho 9 Assunto: sobre sua rotina (Trecho relatado para complementar a descrição de sua atual rotina) 68 01 Ultimamente é que eu fiquei um pouco mais agitada, não sei se é muita 02 responsabilidade, muita coisa. Então, eu acho que eu tenho que correr um 03 pouco mais, pra dar tempo de fazer tudo... Eu vinha aqui duas vezes por 04 semana... Quando começou né... Uma vez por semana, eu ia na aula de 05 pintura...quintaferia.. Então, eu tinha que correr pra dar tempo de fazer tudo... e 06 as minhas atividades também, “né”... No trecho oito, o locutor enfatiza que suas atividades rotineiras intensificaram se ultimamente, e atribui a isso sua falta de tempo e a necessidade de acelerar sua dinâmica diária. Ela inicia o trecho, enfatizando que ficou mais agitada, no sentido de nervosa, irritada. Remetese ao excesso de responsabilidade que contraiu recentemente com os cuidados que precisa manter após o infarto do seu marido, já relatado anteriormente na sua narrativa. Inicia, na linha dois, a conclusão desse fato e discorre dizendo que tem que “correr um pouco mais”, no sentido de que tem que fazer suas tarefas diárias mais rapidamente para poder cumprir todas as suas atribuições rotineiras. Ressalva que tinha assumido o compromisso de comparecer às sessões de treinamento duas vezes na semana, além do curso de pintura que ocupava também suas tardes de quinta. E conclui, novamente, com a repetição do termo “eu tinha que correr”, ou seja, acelerar a dinâmica diária, fazer todas suas atividades rapidamente. Notase, também, que a locutora referese a suas atividades domésticas e de assistência ao marido com o pronome indefinido “tudo”, pois suas atividades pessoais (“minhas atividades”), ele não inclui nesse “tudo”, pois para ela, essas atividades são de natureza distinta, prazerosas, como relata no decorrer de sua narrativa. Finaliza o trecho com o termo ”né” (não é), momento em que adverte o entrevistador, na seguinte direção: “não é mesmo, eu tenho que fazer também as minhas coisas, aquilo que eu gosto”. Síntese da entrevista do sujeito B O participante B relata que sentiu melhoras funcionais, mas não exibe certeza sobre tais melhoras tanto ao falar sobre a experiência do Projeto Sênior (trecho um), como ao falar do programa de exercícios de força realizado neste estudo (trecho dois). Seus relatos sobre sua funcionalidade são repletos de reflexões e tentativas de narrar o que seria a resposta certa, adequada. Sobre a redução da freqüência semanal, ela 69 discorre que foi importante, pois restou mais tempo para cuidar de suas “crianças”, sua mãe e marido (trecho três). Sobre seu contexto de vida relata, nos trechos quatro e cinco, que, antes de ingressar no Projeto Sênior, sofrera uma queda que a deixou com medo de realizar ações cotidianas, principalmente subir em ônibus. No entanto, destaca que, após a participação no programa, voltou a realizar suas atividades cotidianas sem medo. Ainda relata que sofre de tendinite no braço, e que isso também já a incomodou bastante (trecho seis). Além disso, em discurso registrado no caderno de campo, podese perceber que a tendinite ainda a incomoda (trecho sete). No trecho oito, descreve suas atribuições domésticas e destaca que é responsável por tudo, inclusive o cuidado com sua mãe de 94 anos e seu marido com 78. No último trecho (nove), destaca que sua rotina ficou mais “agitada”, mais atribulada, por ocasião da doença de seu marido, e, por isso, tem que ser mais veloz com os afazeres domésticos, para poder fazer suas coisas, ou seja, aquilo que lhe é pessoal. O desempenho da força muscular Com relação ao desempenho da força muscular (Figura 2), notase que apenas nos exercícios supino, costas e glúteos experimentaram uma elevação no primeiro período. No entanto, no exercício costas, houve uma redução da força para os valores iniciais. No supino houve uma redução, no segundo período, para os valores abaixo dos iniciais e, no exercício glúteos, essa participante experimentou uma manutenção da força adquirida no primeiro período. No exercício leg press, houve uma manutenção no primeiro período e uma diminuição no período seguinte. No exercício ombro, não houve evolução em nenhum período. Figura 2 Desempenho da força muscular do Sujeito B nos exercícios propostos kg 40 35 30 supino 25 leg pr ess 20 cost as 15 ombro 10 glut eos 5 0 1 2 3 1início do programa; 2final do período de duas vezes semanais; 3final do período de manutenção 70 SUJEITO C Participante do sexo feminino, com 79 anos. É Solteira, mora com uma irmã, um sobrinho e uma cunhada. Freqüenta ativamente a paróquia de sua região e pratica aulas de exercícios físicos oferecidas por um programa de televisão, três vezes por semana, durante trinta minutos. Participou do Projeto Sênior de 2002 e é freqüentadora assídua do Projeto de Transição. MOMENTO PRIMEIRO: A PERCEPÇÃO DA FUNCIONALIDADE Trecho 1 Assunto: sobre as diferenças percebidas no período do programa (Trecho descrito no momento em que narrava sua expectativa com a participação no programa de exercícios resistidos) 01 Olha, eu não sinto tanta dor na coluna... Que era de cabo a rabo a dor [indica 02 com as mãos: uma na coluna cervical e a outra na região sacral]. E eu não sinto 03 tanto... [enfatiza a última palavra com o tom de voz] Isso eu achei que melhorei 04 um pouco... Por causa da musculação. Mas o braço, esse não quer sarar não. 05 Porque o médico quer fazer mais um raio x do braço para ver o que que é. 06 Então, disse para a S. [professora do programa]... Pra ela também dói... Trecho 2 01 E, na coluna, eu tenho: cervical, dorso lombar... Escoliose dorso lombar... "[...] 02 É... A médica falou que é “bico de papagaio”... Analises dos trechos 1 e 2 A locutora destaca algumas percepções acerca daquilo que teve alteração com relação à sua capacidade funcional. Ela ressalta, na primeira frase, com o adendo do advérbio “tanta”, que as dores na coluna persistem, mas em intensidade menor do que antes do período de participação no programa. Relembra e prossegue com a frase “que era de cabo a rabo a dor”, com a intenção de explicitar para o entrevistador que a dor em sua coluna a afligia em toda a sua extensão, com a metáfora “de cabo a rabo”, que significa do início ao fim. Retoma e usa o recurso da repetição do advérbio “tanta”, para deixar claro que as dores diminuíram, mas não cessaram completamente. Na próxima frase, retoma o assunto da dor na coluna com o uso do pronome demonstrativo “isso”, e segue realçando que, de fato, sentiu alguma melhora, mediante a utilização do advérbio “pouco”, que, nesse contexto, significa que houve melhora, mas não totalmente. Na 71 frase seguinte (“Por causa da musculação”, linha quatro), conclui que foi a prática de exercícios resistidos a causa dessa melhora que relatara anteriormente, ao introduzir a frase com o termo “Por causa”, que indica: por esse motivo, por essa razão. Ainda na quarta linha, ela inicia a frase com a conjunção adversativa “mas” que indica contraposição à frase anterior. Ela tem a intenção de mostrar que o braço não apresentou melhora como ela relatou com relação à coluna, se opondo, assim, ao efeito percebido na coluna, mediante a participação no programa de exercícios resistidos. Além disso, é importante destacar que ela finaliza a frase, indicando que é o braço que não quer melhorar (“esse não quer sarar não”), como se o membro não correspondesse ao seu desejo; que não fosse parte dele, que ele fosse independente de seu corpo; que poderia determinar sua condição de funcionamento, curar ou continuar adoecendo. A locutora ressalta que o médico quer examinar e radiografar novamente o braço (“quer fazer mais um”), para tentar estabelecer um diagnóstico, e realça com essa colocação a gravidade do problema, que nem mesmo o médico conseguiu identificar. Destaca ainda mais sua dúvida e indignação com o braço que não melhora, ao relatar que pediu a confirmação para o professor que atuava no programa, e a locutora parece se confortar ao saber que esse tipo de dor não é sua exclusividade, mas que atinge, também, a professora (“para ela também dói”). No trecho dois, ele já havia ressaltado anteriormente, em sua narrativa, que sua coluna apresenta muitos problemas. Inicia o trecho com a frase “E na coluna eu tenho:”, faz uma pausa e prossegue, com a intenção de enumerar as diversas complicações que lhe afligem na coluna e conclui, com o apoio da fala da médica, que é “bico de papagaio”. Trecho 3: Assunto: sobre melhoras a partir do programa de treinamento resistido (Narrado após a descrição de suas expectativas com o programa) 01 Bastante, bastante... “Magina”, eu não tinha tantas condições de erguer o 02 braço... “Tô” erguendo o braço [abduz e aduz os ombros para demonstrar a 03 movimentação que relata], só que na força é que é o pior, ergo bem o braço 04 [realiza o mesmo movimento anterior]... Movimento, tudo... Faço força, assim, 05 pra ver se ele fica no lugar... [estende os ombros com os cotovelos flexionados 06 no plano horizontal e comprime o ombro direito com a mão esquerda, e 07 demonstra o movimento que declara e ri] Mas eu me sinto melhor... não bem, 72 08 bem [enfatiza a última palavra com o tom de voz].. não estou ainda, daqui... 09 Porque isso aqui é um outro caso a parte... [...] Isto aqui, disse que é 10 calcificação... Então, falei para a médica: “quer dizer que eu não posso tomar 11 mais cálcio?”... Não, não, tem que tomar [respondeu a médica]... Então quer 12 dizer é calcificação e como é que dói... Eu não entendo... [...] Um pouco. Nesse trecho, a locutora relata que notou diferenças no seu cotidiano, e que foram significativas, pois inicia a frase com a repetição do pronome indefinido “bastante”, com intenção de frisar que ela percebeu mesmo diferenças a partir da participação do programa. Inicia a próxima frase com a expressão “magina”, que significa “você pode imaginar”, para introduzir uma situação vivida ao entrevistador sobre sua impossibilidade de movimentar seu braço. Explica que não exibia muitas possibilidades de movimento com o braço, mas que exibia algumas, que fica claro a partir do emprego do advérbio “tantas” precedendo o substantivo “condições”, já que alguma movimentação ela podia realizar. Prossegue e demonstra como pode movimentar seus braços, e realizando tal exibição, abduzindo e aduzindo os ombros em sua máxima amplitude, para deixar bem explícito que sua capacidade de movimento é ampla. No entanto, ela explica que, apesar de poder movimentar o braço em grande amplitude, parece não apresentar um potencial suficiente para imprimir força. Contrapõe, logo em seguida, que pode levantar, sim, satisfatoriamente o braço, com o emprego do advérbio “bem” que precede o substantivo “braço” na frase “ergo bem o braço”. Enfatiza novamente que esse movimento é possível, através da sua demonstração e finaliza dizendo “movimento, tudo”; essa última afirmação objetiva destacar que seu movimento é total, que, com relação à ação de movimentar o braço, ela pode fazer tudo. Sua idéia é dizer ao entrevistador que o programa teve influências positivas, ao menos na movimentação do braço, mas que ainda o membro apresentava dificuldades, se o caso necessitasse utilizar sua força. A locutora relata que tenta solucionar os problemas de movimentação do braço direito comprimindoo com a mão esquerda. Utiliza o advérbio “assim” para chamar a atenção do entrevistador sobre o movimento que realiza na tentativa de sanar o problema que vive com o braço direito, com o intuito de pôlo no lugar certo, embora, fisicamente ela sabia, que o braço não está espacialmente fora de posição. Finaliza essa frase com uma breve risada, dando margem a compreender de que sabe que isto não faria nenhum efeito. Prossegue e enfatiza, iniciando a frase com a conjunção adversativa “mas”, para se contrapor ao relato anterior, no sentido de que, embora ainda sinta dores no braço, ela se sente melhor. 73 No entanto, ela complementa e esclarece que não está totalmente bem, com a repetição do termo “bem”, duas vezes, precedido do advérbio de negação “não”, na frase “não bem, bem”, e ainda enfatiza que não está perfeitamente bem, pronunciando o último “bem” em intensidade maior de voz. Explica que não está bem “ainda”, no sentido de que tem esperança de melhora, de que um dia o braço vai melhorar, e referese ao braço com a contração da preposição “de” com o advérbio aqui: “daqui”, que significa desse lugar, desse ponto do meu corpo. E explica que esse caso é um caso distinto, inusitado, é “um outro caso à parte”. Relata sua indignação com a aparente não solução do caso, com o momento em que indaga sua médica sobre o problema; não se satisfaz com a resposta e finaliza: “eu não entendo”. A última frase, “um pouco”, referese novamente a que o período de exercícios resistidos teve certa importância na melhora de seu braço, mas, como ressalva, não totalmente. Trecho 4 Assunto: Sobre a redução da freqüência semanal (Trecho dito como continuação dos relatos sobre a percepção das melhoras funcionais) 01 Eu acho que foi ruim... Ruim... Porque você fez hoje... Em casa a gente pode 02 fazer, mas falta os pesos... Então, tornouse mais longo e quando a gente 03 volta...parece que “força” mais... [...] tá forçando mais...você fica uma semana 04 sem fazer... Ainda mais quando é numa quintafeira... Quando, na segunda, não 05 tinha, “né”. Então ficava uma semana e mais uns dias... E ai eu sentia mais 06 fraqueza... Quando fazia aquele movimento... Custava mais um pouco... Se bem 07 que até caí... Teve dia que eu fazia só oito... Quer dizer que caí um pouco... 08 Porque, porque não fez... quer dizer que tem que ser todo o dia... Tem que 09 comer arroz feijão todo o dia... [...] é que quando a gente volta, já enfraqueceu 10 um pouco... Porque aí, você faz mais força... Mas se puder uma vez por 11 semana... É melhor uma vez por semana do que nenhuma, né? A locutora relata que não apreciou a redução da freqüência semanal proposta no programa. Exprime sua opinião ao utilizar o recurso da repetição do termo “ruim” em dois momentos na linha um. Com a utilização da conjunção “porque” (linha um), inicia a explicação dos motivos que a levaram a construir tal opinião sobre a redução da freqüência semanal com uma situação hipotética que reproduz a situação vivida no período do programa. “Porque você fez hoje”, exemplifica, e, se não puder realizar outro dia, podese tentar realizar em casa. Utilizase do termo “a gente” para denotar 74 que essa seria uma possibilidade de solução que todo o grupo, e não somente ela, poderia propor. No entanto, isso seria difícil, com a utilização da conjunção “mas”, que indica contraposição à idéia anterior; de que isso é pouco provável porque, em casa, faltariam os materiais adequados. Mediante a impossibilidade de realizar mais uma vez por semana em casa, o tempo de intervalo entre uma sessão e outra ficou mais longo, conclui. E essa situação faz com que se esforcem mais para realizar os exercícios com uma semana de intervalo entre as sessões, “força” mais, ou seja, exige mais dispêndio físico. E continua, “ta forçando mais”, ou seja, a força necessária tem que ser maior que ao fazer duas vezes por semana, pois ficara uma semana sem praticar. Na linha 4, a locutora relembra, ainda, que, às vezes, os intervalos entre as sessões foram maiores do que uma semana, e adverte o entrevistador ao usar a expressão “né”. Conclui, então, que o intervalo era maior ainda que uma semana, e sua sensação de fraqueza se acentuava ainda mais. Exemplifica, abduzindo os ombros com os cotovelos flexionados, um movimento que exercita prioritariamente o músculo deltóide, que sua força era menor e esse movimento era mais custoso, exigia mais de suas potencialidades. O movimento “custava mais um pouco”, ou seja, o custo desse movimento era um pouco maior de que no período em que podia praticar duas vezes na semana. Ainda ressalta que, além de sua percepção de maior esforço necessário aos exercícios, ela relembra que diminuía o número de repetições realizadas, “teve um dia que fiz só oito”, enfatiza com o uso do advérbio “só”, ou seja, que foi pouco, que realizar apenas oito repetições era um numero pequeno e que indicava que ela estava mais fraca. Conclui com a frase, “quer dizer”, ou seja, isso significa, essa situação prova que a redução da freqüência semanal fez com que meu rendimento nos exercícios piorasse, fazer menos repetições significa estar menos forte. Na linha nove, destaca, com a analogia de que “tem que comer arroz e feijão todo o dia”, que, para que surta efeito, os exercícios devem ser praticados mais vezes, assim como devemos comer diariamente para que a comida cumpra sua função. Chama a atenção novamente para o fato de que com um intervalo de uma semana, o retorno às atividades é acompanhado de uma diminuição da força. Essa diminuição, no entanto, não é total, pois utiliza o termo “um pouco”, na frase “já enfraqueceu um pouco...”. Complementa e explica que sua percepção de fraqueza, após uma semana de recesso, é concretizada no momento em que necessita aplicar mais força nos exercício que costuma realizar. No entanto, enfatiza que, mesmo que não seja 75 possível exercitarse duas vezes por semana, ainda que essa situação leve a uma diminuição de sua força, ainda é melhor que ficar inativo (linhas 10 e 11). MOMENTO SEGUNDO: O CONTEXTO DE VIDA Trecho 5 Assunto: A vivência com sua mãe doente (trecho narrado ao contar sobre como percebeu a necessidade de fazer atividade física e naquele momento a mãe se encontrava doente) 01 E a gente teve muito trabalho com ela [mãe]... Ela ficou cega e com 02 aterosclerose... Então foi um período duro... Foram cinco anos só... Mas foi 03 duro... (ela era diabética?) [pergunta o entrevistador] Não, não... Minha mãe, 04 não... Minha mãe, foi por emoção muito forte... Deu derrame no olho e 05 estrangulou o nervo ótico... [...] Aí, ficou... Era emocional... É uma doença que dá 06 aquele dor forte, forte...que nem esses remédios mais fortes acalma a dor... Trecho 6 Assunto: Sobre as condições de saúde de sua mãe (Relata ao falar sobre os cuidados médicos que sua mãe necessitava) 01 É porque minha mãe tava ruim, minha mãe ficou cega... Ficou aterosclerose, 02 tinha defeito na coluna... A coluna dela era bem tortinha... Por isso que eu acho 03 que a herança nossa, é dela... Nesse ponto, a locutora relata que teve muito trabalho com sua mãe. Utiliza o termo “a gente” para destacar que não foi somente ela, mas que sua irmã (pessoa que faz constantes alusões durante toda a narrativa) compartilhou esses momentos. O montante de trabalho que realizou com sua mãe, intensificado na frase pelo uso do advérbio “muito”, referese a uma constante assistência a sua mãe, por motivos de doenças. Ela explica e destaca que sua mãe ficou cega e com aterosclerose (uma doença do sistema cardiovascular) para destacar que, com o comprometimento de um de seus sentidos, o cuidado tinha que ser intenso, e finaliza iniciando a frase com o advérbio “então”, que indica conclusão, que, pelos fatos descritos, foi um período 76 árduo, penoso em sua vida, com a utilização do adjetivo “duro”. Ainda ressatva que, embora o tempo de cuidados com a mãe não tivesse sido muito longo, “só cinco anos”, ela prossegue, e destaca que foi um período curto mas difícil, e repete o adjetivo “duro”. Ao ser interrogada sobre as causas da cegueira de sua mãe, se teria sido por motivo da diabetes, ela responde, prontamente, que não, que o caso de sua mãe foi outro. Destaca que não foi decorrente de uma doença, mas, sim, de um estado emocional intenso, e explica as complicações decorrentes, de um “derrame” (rompimento de uma artéria) no olho, que “estrangulou” (matou, sufocou) o nervo ótico. Conclui, então, que sua mãe tornouse cega com a expressão “ai ficou” e ressalta que foi um problema emocional e não físico. Além disso, com a repetição do adjetivo “forte” (linha seis), ela reforça que a doença causava um sofrimento intenso e que não havia remédio poderoso o suficiente para inibir ou dirimir a dor de sua mãe. Em outro momento da narrativa (trecho cinco), a entrevistada retoma o caso da mãe e destaca (linha um) que ela estava “ruim”, referindose ao estado de doença, pelo qual configuravase uma grave situação. Complementa ao relembrar que a mãe tornouse cega e apresentava aterosclerose. Destaca que tinha também problemas na coluna com a frase “a coluna dela era bem tortinha”, e utilizase do advérbio “bem” para enfatizar a condição da coluna de sua mãe que, segundo a locutora, estava desalinhada, “tortinha”. Em seguida, conclui que a condição da coluna de sua mãe era a herança genética, que não foi herdada somente para ela, mas por outra pessoa, pelo uso do pronome “nossa”, que se presume seja sua irmã. Trecho 7 Assunto: A percepção da funcionalidade do outro (Trecho dito no momento em contava sua primeira participação em um programa de atividade física) 01 Porque você se entusiasma, porque você vê a turma em volta... [...] tem muita 02 gente como eu... eu também admirei muito uma senhora... que já tinha oitenta e 03 poucos anos... Ela se abaixava com a maior naturalidade... Eu falei, porque ela 04 faz... Porque que eu, que sou mais nova, não posso fazer? No trecho sete, a locutora relata que sente entusiasmo ao fazer atividade física pela percepção que tem das pessoas que compartilham a prática de exercícios com ela. Prossegue e enfatiza que existem muitas pessoas como ela, ou seja, muitas 77 pessoas que são velhas e que procuram realizar exercícios. Prossegue relatando que admirou muito uma senhora, uma mulher que se abaixava com facilidade, ou seja, exibia uma aptidão física boa, apesar de passar dos oitenta anos. Então, a locutora relata e exibe uma reflexão pessoal, mediante essa percepção de outrem, com a frase “eu falei”, eu pensei, refleti sobre essa situação. A entrevistada conclui com uma questão (“porque que eu que sou mais nova não posso fazer?”, linha quatro) já que outra pessoa mais velha do que ela pode fazer movimentos desse tipo (se abaixar com naturalidade), qual o motivo que a levaria a não realizálos. Trecho 8 ASSUNTO: A percepção da funcionalidade do outro (trecho descrito após relatar a percepção de melhora de suas atividades rotineiras) 01 Mas se eu sinto que eu estou envelhecendo e que estou fazendo coisas que 02 gente mais nova não faz já é uma grande coisa... É tudo, “né”... Porque eu estou 03 fazendo... E outras pessoas do meu tempo não conseguem fazer... Quer dizer 04 que eu to recebendo alguma coisa boa... O relato observado no trecho oito parece denotar que o seu referencial de aptidão é a idade. Esse indício já se apresentara brevemente no trecho sete e no, seguinte, ela destaca esse referencial explicitamente. A locutora estabelece uma comparação semelhante à do trecho anterior, mas de forma inversa; a faz ao estabelecer uma relação entre ela e a aptidão de outras pessoas, mas, dessa vez, com pessoas mais jovens. Ela relata que pode perceber que envelhece, mas realiza “coisas” (movimentos corpóreos), que pessoas até mais jovens não realizam; essa situação é uma vitória e conclui: “é uma grande coisa”. Ademais, com a frase “é tudo ‘né’”, ela reforça sua posição de que essa é uma conquista honrosa, da qual se orgulha, e pede a confirmação do entrevistador com a expressão “né”, que significa, “não é verdade?”, “você não concorda?”. E acrescenta, comparandose com pessoas de sua própria idade, que se está fazendo movimentos que muitos de seus contemporâneos não realizam e conclui com a frase: “quer dizer que eu to recebendo alguma coisa boa”. Essa frase final explicita a conclusão da locutora que, a partir da comparação com pessoas de diversas idades, ele pode concluir que tem sido beneficiada. Trecho 9 78 Assunto: A doença da cunhada que vive com ela (trecho relatado ao contar sobre sua vida familiar) 01 Ela caiu em depressão... Ficou ruim, ficou ruim deu tuberculose nela... Teve 02 tuberculose, hepatite, pneumonia... Tudo que teve direito ela teve... E eu acho 03 que atingiu um pouco a cabeça dela, porque ela acha que todo o mundo tem que 04 ajudar... Então, ela vem na minha casa, tem que pensar em almoço, em jantar, 05 tem que pensar em tudo... [...] só que minha cunhada tá assim, por que ela é 06 diabética e a pessoa diabética tem que fazer muito exercício... [...] “Terezinha se 07 mexe tem uma bengala aqui... Anda com a bengala”... “Tem um quintal grande 08 aqui...” “Ah, eu ando, eu ando” (resposta da cunhada)... “Que hora que você 09 andou”... “Ah, logo cedo” (resposta da cunhada). Mentira! Ela não quer saber, a 10 mente dela achou que ela... Sabe você tem que ter uma força de vontade... 11 Então eu passo muito nervoso por isso [...] A gente está emocionalmente muito 12 irritada, porque a gente vê tanta moleza em casa... Nesse ponto, a locutora descreve a situação em que vivia em sua casa, com o caso da sua cunhada que ficara doente, por motivo de seu filho ter perdido o emprego. Na primeira frase, “ela caiu em depressão”, o pronome “ela” referese à cunhada, que apresentava um quadro depressivo. Utilizase do recurso da repetição da frase “ficou ruim” em dois momentos, para enfatizar o quadro de gravidade em que se encontrava a esposa de seu irmão. Complementa a descrição da gravidade do caso com um pool de doenças conhecidas como graves (“tuberculose, hepatite, pneumonia”), para enfatizar ainda mais a severidade do caso em questão. Ademais, ela ressalva, na próxima frase, iniciando com o pronome indefinido “tudo”, que a cunhada teve todas as complicações a que teve direito. Além disso, ela conclui, com um diagnóstico pessoal, que todas essas situações patológicas resultaram em seqüelas mentais, pois é concludente ao dizer que tal situação de enfermidades “atingiu a cabeça dela”. Explica, a seguir, que essas doenças devem ter prejudicado a função mental da cunhada, pois esta entende agora que todos são obrigados a ajudála; obrigação tal que a locutor a condena. No inicio de outro relato sobre a cunhada (linha cinco), ela acrescenta mais uma doença no histórico da mulher de seu irmão: o diabetes. Enfatiza, ainda, que essa é uma doença que pode ser tratada se a pessoa introduzir em seu cotidiano alguma prática de exercícios físicos, atitude essa que sua cunhada não leva à ação, embora tenha condições para isso, como explica a seguir. A locutora enfatiza com frases de aconselhamento que sua cunhada recebia (não deixa claro de quem) sobre a 79 necessidade da prática de exercícios físicos, e realça, também, relatando frases de sua cunhada (linhas oito e nove), em que ela dizia que realizava exercícios (“eu ando, eu ando”). No entanto, a locutora é veemente e adverte que essas falas de sua cunhada são mentirosas ao ressaltar que isso é “mentira” (linha nove). Prossegue e conclui que sua cunhada não quer fazer exercícios físicos. Adverte que isso deve ser culpa de sua condição mental, pois com a frase “a mente dela achou que ela”, deduz que a falta de vontade para praticar exercícios deve ter uma origem mental. Força de vontade, determinação é uma condição que a locutora considera primordial nesse caso. Isso fica explícito ao iniciar a frase com o verbo “sabe”, advertindo o entrevistador para um conhecimento que ela acha adequado a essa situação e com a expressão “você tem que ter”, que significa que sem a tal “força de vontade” você não consegue sair de situações desse tipo. A entrevistada conclui com o advérbio “então”, que essa é uma situação que a deixa muito irritada, nervosa, que essa situação de “moleza” , como classifica, é responsável por um estado emocional danoso. Síntese do Sujeito C Esse sujeito relata, nos trechos um e dois, que percebeu que sua participação no programa de exercícios resistidos amenizou suas constantes dores na coluna, e destaca também que sofre de dores na região do braço, mas que não foram sanadas com o programa de exercícios. Por outro lado, no trecho três, destaca que, embora as dores no braço não tenham diminuído, o programa foi capaz de possibilitar uma melhor movimentação desse segmento. No trecho quatro, momento em que relata sobre a redução da freqüência semanal, argumenta que não foi bom porque com um intervalo de uma semana entre uma sessão e outra, ela sentiuse mais fraca. Destaca ainda que em sua opinião, esses exercícios deveriam ser feitos todos os dias. Com relação ao seu contexto de vida, os cuidados que ofereceu a sua mãe, que esteve muito doente e veio a falecer, deramlhe muito trabalho (trecho cinco). Além disso, destaca que seus problemas de coluna foram herdados de sua mãe (trecho seis). Nos trechos sete e oito, ela relata que percebe sua funcionalidade a partir da percepção do outro. No último trecho ele destaca a doença que sofre sua cunhada e a repreende, porque ela deveria se exercitar como faz a narradora, porque ela não se rende a essa moleza. Esse fato demonstra a valorização que essa participante atribui aos exercícios físicos. Parece que, em parte, praticaos para não ficar doente como sua cunhada, para não ficar “mole”. 80 O desempenho da força muscular Sobre seu desempenho nos exercícios propostos (Figura 3), podese realçar que esse sujeito experimentou aumento de força em todos os exercícios propostos, exceto para o exercício glúteos, no primeiro momento do programa. Na segunda fase, houve a manutenção de todos os valores obtidos no primeiro período, exceto para o exercício costas que apresentou uma redução no nível inicial. Figura 3 Desempenho da força muscular do sujeito C nos exercícios propostos kg 50 40 supino 30 leg pr ess cost as 20 ombr o 10 glut eos 0 1 2 3 1início do programa; 2final do período de duas vezes semanais; 3final do período de manutenção SUJEITO D Participante do sexo feminino, com 75 anos. Mora sozinha, é viúva e mãe de duas filhas. Freqüenta sessões de hidroginástica, caminhada e alongamento, três dias por semana, com duração de 45, 60 e 30 minutos, respectivamente. Participou do projeto Sênior no ano de 2003 e freqüenta o Projeto de Transição. MOMENTO PRIMEIRO: A PERCEPÇÃO DA FUNCIONALIDADE Trecho 1: Assunto: Sobre suas percepções acera do programa de exercícios resistidos (Trecho narrado ao falar sobre a participação no programa de exercícios resistidos) 01 Cada dia melhor... Nossa, essa musculação... Eu só perdi aquele dia por causa 02 da chuva... Foi só aquele dia que eu faltei... Ainda minha filha, “não te convido 03 mais para ir em lugar nenhum” .. Lá eu não quero faltar mesmo... 81 A locutora inicia o relato sobre sua percepção sobre a participação no programa de exercícios resistidos com a frase “cada dia melhor”, o pronome indefinido “cada” que significa uma unidade em um grupo, designa que todas as unidades “dias” representaram melhoras em sua vida a partir da participação no programa de exercícios com pesos. Complementa sua satisfação com a frase “nossa, essa musculação”; a interjeição “nossa”, nesse caso, significa um espanto sobre algo que a surpreendeu, no caso, a musculação. Continua o relato e ressalva que ela só não compareceu a uma única sessão por impedimento de um dia chuvoso, que foi somente aquele dia que faltou, enfatizando com o emprego do “só”, que significa: apenas, unicamente. Prossegue e exemplifica com uma advertência de sua filha sobre ele: “não te convido mais para ir em lugar nenhum”, referindosese a uma situação, a qual escolheu comparecer ao programa de exercícios de força, ao invés de conceder a um convite da filha. Finaliza o trecho com a resposta proferida à filha de que “lá” (na musculação), ela não quer faltar “mesmo” (advérbio que significa: realmente, verdadeiramente), de maneira alguma ela quer deixar de comparecer ao programa de exercícios com pesos. Trecho 2: Assunto: As percepções da capacidade funcional (Trecho relatado no momento em que contava sobre uma ocasião em que estava muito doente e sem disposição para realizar nada) 01 Mais disposta, mais disposição para fazer... Tanto que minha casa já esta 02 limpinha agora [sorri]... Tenho ela só pra limpar o chão, mesmo, pra mim... O 03 resto... [...] De fazer, de comer [realça com o tom de voz], de comer... Sempre a 04 gente sai animada... Com fome, ”né” ?. Aí eu falo: “agora, eu perdi calorias lá, 05 agora, eu vou me alimentar”, posso me alimentar... “Tô” sempre controlando o 06 peso, “né”... Tenho medo quando eu emagreço... engraçado, “né”... todo mundo 07 quer perder peso, “né”... e eu, quando começo a perder peso, fico apavorada... Ao iniciar o trecho a locutora enfatiza que está mais disposta, mas disponível, com mais disposição (que pode significar “determinação”) para “fazer”. O emprego do verbo “fazer” pressupõe as atividades do cotidiano, como exemplifica a seguir. O início da frase seguinte (“tanto que minha casa já esta limpinha agora”, linha um) com o 82 advérbio “tanto”, que pode significar “de tal maneira”, explica sua maior disposição, pois, no momento da entrevista (período matutino), sua casa já se encontrava limpa. O emprego do advérbio “já” ressalta que foi feito sem demora, antecipadamente, e sorri com satisfação ao exemplificar seu feito. Realça com a frase “Tenho ela só pra limpar o chão, mesmo, pra mim”, ao referirse que necessita da empregada (pronome “ela”) somente para limpar o chão, coloca o advérbio “mesmo” no sentido de que é só isso que a empregada precisa fazer por ela. Finaliza o assunto com a frase “o resto”, que significa que o resto do serviço doméstico ele pode contemplar sem ajuda, sozinho. No início da linha três, ela complementa que exibe mais disposição de fazer, referindose às atividades domésticas. Além disso, destaca outro ponto importante, devido às atividades na musculação, que se refere à vontade de comer, à fome gerada pela sessão de exercícios, e enfatiza a palavra “comer” elevando o tom de voz, repetindoa duas vezes (linha 3). Coloca ainda que “a gente”, um conjunto de pessoas no qual ela se inclui, em todas as ocasiões (utilizase o advérbio “sempre” que significa “em todo o tempo”) após as sessões de exercícios, deixavam o local animados, satisfeitos. Além disso, ela complementa que, além de animadas, as pessoas saem com fome e adverte o entrevistador com a questão “né?”, que significa, “não é?”, “você também não acha?”, “isso não é verdade?”. Acrescenta com uma reflexão pessoal, uma conversa consigo: “Aí, eu falo: “agora, eu perdi calorias lá, agora eu vou me alimentar”, posso me alimentar” (linha 4). Neste ponto, conclui que, já que gastou calorias na musculação (“lá”), pode comer, se alimentar, ela pode, tem esse direito. Continua e declara que é um hábito constante controlar o peso corporal com a frase “To” sempre controlando o peso “né”, e esse cuidado contínuo é destacado com o emprego do advérbio “sempre” (sem cessar, continuamente) e com o uso do verbo continuar no gerúndio, para expressar que essa é uma situação que está ocorrendo; finaliza essa frase com a expressão “né”, já explicitada, pedindo a confirmação do entrevistador de que isso realmente é algo correto. Na linha seis, ela explica a razão de sua preocupação com a alimentação, pois a situação de emagrecimento gera um sentimento de medo: “tenho medo quando eu emagreço”. Continua, a sua próxima frase é “engraçado, “né” ?”, que significa, nesse contexto, não algo divertido, jocoso, mas, sim, algo estranho, inusitado, e pede novamente a concordância do entrevistador com a expressão “né”, já comentada. Explica que acha que isso é “engraçado”, porque todas as outras pessoas, exceto ela, (utilizase da frase “todo mundo”, um grupo de pessoas no qual ela não está incluída) sentem medo a partir da situação inversa: ganhar peso corporal. E conclui ao falar 83 que, para ela a perda de peso deixaa assustada, espantada, como disse: “apavorada”. Trecho 3 Assunto: O efeito do programa sobre seu problema no joelho (trecho relatado no momento em que descreve suas melhoras na musculação) 01 Não via a hora de começar aquele que você me proibiu...[exemplifica o 02 exercício, com as mãos, e ri] Eu não via a hora de começar... [...] era o teste do 03 joelho [...] Esses inchaços eu sempre tive... Se eu levantar... Aqui, essa bolota 04 que eu tenho... Aqui, dá até para pegar... [a locutora aponta para o joelho, e ri] 05 Ela desce um pouco... Mas eu sempre, depois do exercício, me sentia bem, não 06 sentia nada... É... Acho que eu tinha tanta vontade de melhorar, que eu fazia 07 aquilo com tanto amor... (risos) A locutora diz com entusiasmo que estava ansiosa para pode realizar o exercício de leg press. No momento inicial do programa, não pôde realizálo, porque estava com dores no joelho, estava em crise, como se referiu a esses episódios no decorrer da narrativa. Utilizase da repetição da frase “não via a hora de começar”, para enfatizar sua ânsia em realizar tal exercício. Explica que esse exercício servialhe de parâmetro, para identificar a funcionalidade de seu joelho, era momento de pôlo a prova, de testálo, nas palavras da locutora: “era o teste do joelho”. Ela explica que aos inchaços no joelho são constantes, com a frase “eu sempre tive” (utiliza o advérbio “sempre”, que significa “sem cessar”, “continuamente”) e aponta para o joelho inchado para iluminar o problema que relata. Amplia sua descrição ao mostrar que o inchaço, que chama de “bolota”, movese na condição de se levantar (utilizase da conjunção “se”, “na condição de”), a “bolota”, ela desce um pouco. Sobre essas circunstâncias, o inchaço é tão evidente que é possível até segurálo com a mão; nesse momento a locutora aponta o joelho e ri da situação, para apontando para a gravidade do inchaço. Na linha cinco, revela uma percepção sobre os professores do programa: que eles tinham medo de que acontecesse algo com seu joelho, talvez uma justificativa pela proibição a que ela se refere no início da linha um. Na linha cinco, ela inicia a frase com a conjunção adversativa “mas”, para contraporse à idéia de incapacidade do joelho que relatara anteriormente. Ela relata com o advérbio “sempre” (em todo o 84 tempo; em qualquer ocasião), que todo momento que realizava o exercício de leg press, sentiase bem, não sentia dores. Isso vai de encontro à situação que relatara anteriormente, pois um joelho inchado não poderia exercitarse sem dor, mas com ela foi assim, contraditório. A locutora chega à conclusão de que a contradição que relatara anteriormente foi devido à sua vontade de melhorar, que não era pouca, mas, sim, muita, com a utilização do advérbio “tanta” precedendo vontade. Além disso, foi o amor que sentia ao fazer o exercício que pode impedir que o joelho doesse. Finaliza com risadas de satisfação, por aquilo que tinha vivenciado, pela surpresa que tinha presenciado ao poder exercitar suas pernas sem sentir dores no joelho. Trecho 4 Assunto: Sobre melhora no período de exercícios resistidos (trecho narrado no momento em que declara seus afazeres domésticos) 01 Muito, muito... A escada... Outro dia, eu até tentei subir de dois degrau... Aí, eu 02 falei: melhor eu não abusar. Vou de um, mesmo, rápido. Terça feira a menina 03 veio lá... Pra limpá o chão pra mim... Ela falou: “nossa como a senhora sobe 04 escada”... Acho que eu subi umas dez vezes, direto, subia, descia... [...] eu levei 05 o tempo todo, balde com água e pano limpo tudo pra ela... [...] tranqüilo, 06 tranqüilo. Não senti nada. A locutora relata que melhorou bastante no período em que freqüentou as sessões de treinamento resistido, iniciando o trecho quatro com a repetição do advérbio “muito”, seguidamente. Exemplifica essa melhora com a ação de subir e descer a escada da sua casa, uma atividade que realiza em sua rotina diária de trabalhos domésticos. Lembra que já tentou subir a escada com passos que poderiam transpor dois degraus em uma só vez, como deixa claro na frase da linha um: “até tentei subir de dois degrau”. Prossegue (final da linha 1) com o advérbio “aí”, que, nesse sentido é utilizado para dar continuidade ao caso que relatara (tem o sentido de “então”), segue e destaca uma reflexão, uma conversa consigo, e conclui que não deveria abusar de seu joelho, embora tivesse impressão de que poderia subir a escada de “dois degrau”. Mas ressalta que isso não a impediria de subir a escada mais rapidamente, pois poderia subir de degrau em degrau com passos mais acelerados do que de costume. Ainda destaca um fato que ajuda a exemplificar sua melhoria na habilidade de subir escadas: a percepção de sua empregada sobre si. A locutora destaca 85 reproduzindo a fala da moça que lha ajuda: “nossa como a senhora sobe escada”. O emprego da interjeição “nossa”, no início da frase, significa um espanto, uma admiração da empregada ao presenciar a habilidade do locutor. A entrevistada reforça que realizou subidas e descidas da escada, com a frase “umas dez vezes, direto”; utilizase do advérbio “direto” que, nesse contexto, significa sem parar, sem desvios, recurso pelo qual ela demonstra a intensidade do fato relatado. Ela acrescenta que repetiu essa ação de subir e descer todo o tempo em que ajudou a empregada no serviço de limpeza casa (“eu levei o tempo todo”, linha 05). Ela realça, ainda, que não foi apenas subir e descer escadas rapidamente, por um período de tempo constante, mas que também carregava baldes e panos para auxiliar a empregada na limpeza. Ademais, os baldes que carregara não estavam vazios, mas, sim, com água, o que reforça a intensidade do trabalho realizado. Finaliza com a ressalva de que fez tudo isso com tranqüilidade e reforça essa afirmação repetindo o adjetivo “tranqüilo”, por duas vezes (linha cinco), e que, não sentiu dores (“Não senti nada”). Trecho 5 (Caderno de campo) 30/08/2004 01 Estou andando melhor... Estou conseguindo subir no ônibus... Faço tudo com 02 muito cuidado em casa, eu moro sozinha, não posso depender dos outros... Esse trecho, transcrito das anotações do caderno de campo, foi proferido pelo Sujeito D no primeiro mês de treinamento. Ele relata que está andando melhor e complementa que consegue subir no ônibus. Explica, ainda, que é muito cuidadoso com seus movimentos, pois não pode depender de ninguém, mora sozinho. Trecho 6 Assunto: Sobre a redução da freqüência semanal no programa de treinamento resistido (Relatado após a descrição de sua habilidade de subir escadas) 86 01 Eu gostaria... Eu gostei mais de duas vezes por semana. Gostei mais, eu acho 02 que funciona mais. Perdi um pouquinho, até que não foi muito, “né”... Mais nos 03 movimentos da cadeira, né [exemplifica o movimento com os braços], Um 04 pouquinho, um pouquinho. Porque você fazia na segunda... na quinta feira, você 05 tinha mais... Mais disposição... Não disposição, mais força mesmo...”né”. Mais 06 força. Sobre a redução da freqüência semanal de exercícios, a locutora inicia dizendo que não gostou, que apreciou mais o período em que freqüentou o programa, às segundas e quintasfeiras. Isso fica claro nas três primeiras frases da linha um. Ainda complementa que gostou mais porque funciona mais, porque surte mais efeito. Explica o porquê dessa observação, pois sentiu que perdeu um pouco de força (utiliza a expressão “um pouquinho”, no diminutivo, para enfatizar que não foi muito), principalmente no exercício que denominava de “cadeira”, um exercício para o músculo deltóide, que ela exemplifica movimentado os braços. Utiliza o recurso da repetição do termo “um pouquinho” (além, de continuar a usálo no diminutivo) para enfatizar que não foi muita força que perdeu. Explica que isso aconteceu justamente por ocasião da redução da freqüência semanal, porque se fizesse na segunda e depois na quinta, ela tinha mais força mesmo. Enfatiza essa explicação com a repetição da expressão “mais força” (linhas cinco e seis). Trecho 7 Assunto: A redução da freqüência semanal em seu cotidiano (trecho proferido ao ser indagada sobre o referido assunto) 01 Não. Não senti, não. Fazia a mesma coisa, tudo... Em casa não tem nada muito 02 pesado... Tem movimentos... Mas de pesado, não tem nada que eu faço de 03 pesado... [...] Foi, foi suficiente. Tava melhor com duas vezes, aqui... Como você 04 falou, mas, em casa, tá igual. Foi igual. Ao relatar sobre algum possível efeito da redução da freqüência semanal no seu cotidiano, a entrevistada é enfática e inicia com o advérbio “não”, segue com a frase “não senti não”, para confirmar que, o seu cotidiano, a redução da freqüência semanal não o alterou. Explica que não houve alteração, porque no serviço doméstico 87 não há nada demasiadamente intenso, pesado. Ainda ressalva que realiza “movimentos” (linha 2) e reforça que esses movimentos não exigem de sua força demasiadamente, com a frase “não tem nada que eu faço de pesado”. Além disso, utiliza o pronome indefinido “nada”, que quer dizer, “coisa alguma”, que nenhuma coisa em casa exige aplicação de muita força. E conclui que uma vez por semana foi suficiente (linha três). Realça ainda que duas vezes por semana foi uma freqüência melhor para a realização dos exercícios na musculação, que fica claro com o emprego do advérbio “aqui”, que significa “neste lugar”, na musculação. Prossegue com a frase “mas, em casa “ta” igual”, que, com o emprego da conjunção adversativa “mas”, indica contraposição à frase anterior. A locutora se contrapõe para explicar que duas vezes por semana é suficiente para a realização dos exercícios da musculação, mas os afazeres de casa são prejudicados pela redução da freqüência semanal. Finaliza com a frase “foi igual”, que denota que a rotina da casa se manteve similar, nos dois períodos do programa, com duas vezes e uma vez semanais. MOMENTO SEGUNDO: O CONTEXTO DE VIDA Trecho 8 Assunto: Sobre seu medo de emagrecer (Trecho relatado ao ser solicitada a explicar o porque da sensação de emagrecimento é dolorosa) 01 Quando eu perco peso, eu fico pensando... É o espelho que eu tive na frente, 02 “né”... Meu marido... Então... Sabe quando a pessoa esta doente, com câncer... 03 Com coisa assim... Vai definhando... ”né”... Eu nunca assim... Eu sempre fico 04 deitada pela sala quando eu fico doente... Mas, graças a Deus, eu nunca perco o 05 apetite... Nesse ponto, a locutora explica porque que teme o emagrecimento. Ela relata que, no momento em que percebe que está em processo de emagrecimento, esse momento suscita lembranças de seu marido. Ela relata, metaforicamente, que o marido é o espelho em que ela se enxerga ao emagrecer, ao perder peso ela se vê como seu marido doente. Prossegue e explica que, quando a pessoa está com câncer, assim como esteve seu marido, a pessoa vai enfraquecendo, e utilizase do termo “definhando”, 88 muito utilizado para pessoas com doenças graves. Além disso, com o emprego da frase “com coisa assim” (linha três), ela quer dizer que não apenas com o câncer se observa tal definhamento, mas também com doenças similares. Na linha três, utiliza se da expressão “né” com o intuito de solicitar a confirmação do entrevistador sobre aquilo que relata sobre as pessoas com câncer. Ela prossegue com a frase “eu nunca assim”, ou seja, que nunca fica dessa forma, e segue dizendo que, apesar de sempre deitarse quando está doente, não deixa de comer, nunca perde o apetite. Trecho 9 Assunto: O sofrimento ao ver o marido doente (Momento em que relata a mudança de residência por ocasião do marido doente) 01 Ele ficou doente 18 anos, “né” [...] 18 anos., às vezes eu falo “será que piorei”. 02 Mas sei lá, para tirar da cama, eu apoiava em minha perna, segurava, não subia 03 escada, ele ficava numa cama embaixo da escada... Então, deu muito trabalho... 04 (ele teve o quê?) três derrames cerebrais, três, dezenove espasmos, (ele tinha 05 problema de pressão?) Pressão, diabetes, tanto que emagreceu muito, porque 06 entrou no regime de diabetes, tudo a gente controlava o alimento, comia o que 07 podia, mas os derrames foram terríveis. Ficou paralisado. [...] No final era um 08 bebê. Porque, além do derrame ele teve câncer de próstata [...]. Aí, com o 09 câncer, foi tendo metástase, todos os ossos, foi terrível... [...] é que depois do 10 câncer ele tinha muitas dores, aí ele queria eu perto. [...] Quando ele teve o 11 câncer, ele tinha muitas dores, pegou os ossos, teve metástase, foi operado 12 duas vezes da próstata. [...] Depois foi piorando, cadeira de rodas... Sempre 13 piorando. A locutora, nesse trecho, narra como foi o caso de seu marido e enfatiza, logo no início de que ele esteve doente por dezoito anos. Retoma o assunto e relembra o período em que o marido, ficara adoentado. Inicia e descreve que teve que utilizar muito de sua força com o seu marido com a frase (linha 1) “Fiz muita força também com ele”. Reflete sobre essa situação e levanta a hipótese que se foi essa situação que a fez piorar. No entanto, parece que percebe a dificuldade de se atribuir seus problemas a essa causa e utilizase da expressão “sei lá”, no sentido de que não sabe se é isso mesmo, não tem certeza de que o trabalho com seu marido agravou seus problemas físicos, já discorridos na narrativa. Na linha dois, ela explica porque tinha que se esforçar para cuidar do marido e exemplifica algumas das ações que realizava 89 constantemente com ele, como tirálo da cama. Além disso, ressalva de que ele não era capaz de subir escadas, denotando a gravidade do caso. Conclui com essas passagens (utilizase do advérbio “então”) que o marido doente gerou muito trabalho para ela, pois necessitava de total assistência. Explica que essa situação de dependência foi causada por três acidentes vascularcerebral e enfatiza com a repetição do numeral “três”. Além disso, para demonstrar ainda mais a gravidade do caso, ela utilizase da quantificação novamente e relata que o marido teve dezoito espasmos. Destaca ainda, ao ser indagada pelo entrevistador, que o tinha exibia problemas com pressão arterial e diabetes, e que emagreceu muito decorrente da dieta realizada para controlar o diabetes. No entanto, com a frase “mas os derrames foram terríveis”, ela ressalva que o que foi de fato grave foram os acidentes vasculares cerebrais (“derrames”). E destaca que o marido ficou “paralisado”, imóvel, sem a possibilidade de se locomover o que justifica, então, a afirmação de que ele deu muito trabalho (linha três). Na linha sete, ela faz uma colocação de que seu marido, no período terminal de sua doença, “era um bebê”, uma metáfora que significa que o seu marido estava em uma situação de dependência similar àquele em que se encontram os bebes. E explica na próxima frase, iniciando com a conjunção explicativa “porque”, que, além do problema que atingiu seu cérebro, ele apresentou outra doença, o câncer; por isso, então que sua dependência foi total, como a de um bebê. Relata que com o aparecimento do câncer, ocorreu a metástase, ou seja, a doença se espalhou por outros pontos do corpo, além da região da próstata. E que essa disseminação atingiu os ossos, e não apenas alguns, pois enfatiza com o pronome indefinido “todos” de que nenhum osso foi poupado do processo de metástase. E conclui, na linha nove, que essa situação foi péssima com a frase “foi terrível”, que faz alusão ao terror, ao pânico. Além disso, enfatiza que com o câncer ele teve muitas dores, e repete o termo “muitas dores”, nas linhas 10 e 11, para enfatizar a presença constante de sensações dolorosas. Lembra, ainda (linha 11), que ele também foi operado duas vezes da próstata, fato que complementa os fatores listados que agravaram o caso do marido. E conclui que a piora do estado de doença do marido foi continua, utilizandose do advérbio “sempre”, que significa “sem cessar”, que seu estado de doença piorou constantemente até a morte, como lembrou, todo o tempo em sua narrativa. Trecho 10 Assunto: O problema no joelho 90 (trecho relatado no momento em que contava suas expectativas sobre o programa de exercícios resistidos) 01 Eu queria fazer pra ver se eu melhorava... Não tinha mais confiança... 02 Realmente, eu não tava com confiança em mim... Porque eu tinha estado muito 03 mal e, aí, como não pode andar, você não faz praticamente nada... E é sempre 04 aquele medo, sabe Fabiano... De não voltar... E isso dá uma impressão, será 05 que eu vou conseguir movimentar... Porque quando tá com dor, inflamado, você 06 não pode se animar... Você vai se virar, dói... O meu sofá, a mola de baixo... e é 07 aquelas molas inteiras...até o tapeceiro falou, Nossa Senhora! Essas molas aqui 08 são as melhores que têm... Uma arrebentou... De tanto que eu ficava mais no 09 sofá... Minha filha abria a porta, e dizia: “tá tudo normal, tá deitada” É que eu 10 deixei de comer, até, sabe... Dessa vez, eu passei muito mal, mesmo, emagreci 11 quatro quilos deitada lá... A entrevistada inicia esse trecho com a afirmação que queria fazer o programa de exercícios resistidos para saber se ela podia melhorar de seus problemas com o joelho, como já havia comentado anteriormente, na narrativa. Relata que não exibia mais confiança em si, devido aos problemas na referida articulação. Enfatiza, ainda, essa desconfiança sobre sua capacidade de movimento, ao iniciar a frase “Realmente eu não tava com confiança em mim” (linha dois), com o advérbio “realmente”, que significa, nesse caso, sem dúvida, verdadeiramente. Assim, fica claro que a locutora tinha plena certeza de que não podia mais confiar em suas habilidades físicas, pois seu joelho estava constantemente em crise de dor. Introduz a próxima frase com a conjunção “porque”, que denota que pretende explicar os fatos narrados nas frases anteriores. Ela explica que essa falta de confiança em si decorre de um período em que esteve muito mal, em crise. Na frase “e aí, como não pode andar, você não faz praticamente nada”, conclui que o andar é primordial para as atividades que queria fazer e, impedida de andar, ela não podia realizar muita coisa; utilizase do termo praticamente, que significa quase nenhum e para dizer que, na maioria das situações, ela podia realizar poucos afazeres, que suas possibilidades de movimento se aproximaram do zero, do nada. Na linha três, ela ainda enfatiza que sente um medo constante de não conseguir se recuperar de uma crise, sentimento que fica claro na frase “E é sempre aquele medo, sabe Fabiano... De não voltar...”. Essa situação de medo leva a um sentimento de incerteza com relação à sua recuperação, fato que fica bem explícito com a questão que diz formular sempre que está nessa situação: “será que eu vou 91 conseguir movimentar”; ou seja, será que, depois de todas essas dores, conseguirei retomar a possibilidade de me locomover. Utilizase da conjunção “porque”, na próxima frase para iniciar a explicação de como ocorrem as crises de dores no joelho. Ela explica que, em período de crises, não pode ter o direito de se animar, ou seja, de se entusiasmar em realizar alguma coisa. Isso decorre, explica, qualquer movimento que realiza, sente dores, como na frase (linha 6): “você vai se virar, dói”. Isso quer dizer que, até um simples movimento de mudar de lado em um sofá (como exemplificará adiante), provoca dor. É importante destacar que ela constrói as duas frases sobre esse assunto (linhas cinco e seis: “você não pode se animar... Você vai se virar, dói...”) utilizando como sujeito da frase o pronome de tratamento “você”, com o objetivo de demonstrar que qualquer um, eu ou você teríamos o mesmo problema com as crises no joelho. A locutora exemplifica que sua impossibilidade era tamanha com relação a movimentação que, de tanto ficar apenas deitada em seu sofá, as molas da estrutura do sofá arrebentaram devido a seu constante uso. Exemplifica ainda, com uma fala da filha (linha nove), no momento em esta adentrava em sua casa “’tá tudo normal, tá deitada’”; ou seja, para sua filha era normal que sua mãe estivesse deitada, pois era essa a situação mais freqüente, devido às constantes crises no joelho. A entrevistada realça ainda que, nesse momento de uma grave crise de dor no joelho, quase totalmente impedida de movimentarse, ela deixou de se alimentar. Com a frase “eu passei muito mal, mesmo”, realça, com o uso do advérbio “muito”, que seu estado era excessivamente ruim, e finaliza que, ao se manter deitada por causa do problema do joelho, emagreceu quatro quilos. Trecho 11 Assunto: sobre o problema com o joelho 01 Até que está desinchando, mas quando eu fico sentada tá desinchado, quando 02 eu levanto, parece que desce... Mas é ruim por causa da inflamação, aí ele quer 03 fazer pulsão, aí, eu sofri muito com a tal da pulsão... Mas, não é com a seringa, 04 igual tirar água do joelho, é um caninho de plástico, assim grosso que nem um 05 dedo, toma anestesia tudo, mas depois, meu Deus do céu, esse ano foi terrível, 06 os três meses, final de julho, agosto, foi muito... 92 A locutora inicia com o advérbio “até”, que significa, “ainda”, no sentido da frase "até que está desinchando”, que quer dizer, no momento, parece que está diminuindo o inchaço. Mas explica que essa situação ocorre quando está sentado, pois ao levantarse, ela diz, “parece que desce”, que o inchaço movese para baixo. Prossegue e diz que ruim mesmo é o processo inflamatório. Explica que o processo inflamatório exige procedimentos, tais como a pulsão, e acrescenta que sofreu muito ao ser submetida a esse procedimentos. Realça ainda que a pulsão não é realizada com uma simples seringa. Síntese da entrevista do sujeito D Esse sujeito destaca que a cada dia pode sentir melhoras em sua funcionalidade, que procurou faltar o mínimo possível para não perder nenhum dia de treino (trecho um). No trecho dois, ele descreve com mais detalhes sua melhora funcional e relata que tem mais disposição para realizar seus afazeres domésticos, além de sentirse com mais disposição para comer, pois relata que tem medo de emagrecer (trecho dois). Destaca também que não sentia dores no seu joelho após a realização do exercício de leg press (trecho três). Ademais, ressalva novamente que o programa de exercícios resistidos possibilitou que pudesse subir escadas, ininterruptamente, nos dias em que limpa sua casa, sem sentir dores (trecho quatro). No trecho cinco, extraído do caderno de campo, relata que se sente mais capaz de andar e subir no ônibus, referindose, provavelmente à melhora nas dores do joelho. É importante notar que, nesse período, esse sujeito não tinha realizado nenhum exercício para a região muscular que movimenta o joelho. Sobre a redução da freqüência semanal, ele destaca que preferiu o período com duas vezes por semana, porque, no período de manutenção, sentiase mais fraco, com menos disposição (trecho seis), mas que não percebeu nenhuma alteração em seu cotidiano (trecho sete). Com relação ao seu contexto de vida, realça, no trecho oito, que sente medo de emagrecer porque viu seu marido literalmente definhar, mediante a instauração de um câncer. Emagrecer é enxergar, em si, seu marido na fase final de sua vida. No trecho nove, ele descreve com mais detalhes o sofrimento de seu marido, que além de câncer teve outras complicações. O problema, o joelho, é destacado nos trechos dez e onze novamente. Explica que com o joelho inflamado não é possível que ele se movimente, fato que a faz ficar em constante repouso, sem vontade de comer e, por conseguinte, sofre um processo de emagrecimento. No último trecho, enfatiza a 93 gravidade de seus problemas com o joelho, que sofreu demais por causa das constantes “pulsões” que tinha que realizar para amenizar o processo inflamatório. O desempenho da força muscular Com relação ao desempenho de sua força muscular (Figura 4), notase que ela experimentou um aumento em todos os exercícios, na primeira fase do programa. Na fase de manutenção, houve uma constância nos resultados obtidos na primeira fase. Para o exercício de leg press podese observar que só o praticou na segunda fase do programa, devido à impossibilidade gerada por uma inflamação no joelho. Por isso este exercício só foi introduzido, na segunda fase, com uma intensidade de 20 repetições máximas, menor, portanto, que a proposta no programa. Figura 4 Desempenho da força muscular do Sujeito D nos exercícios propostos kg 30 supino 25 leg pr ess 20 cost as 15 ombr o 10 glut eos 5 0 1 2 3 1inicio do programa; 2final do período de duas vezes semanais; 3final do período de manutenção SUJEITO E Participante do sexo feminino, com 63 anos. Casada, mãe de dois filhos, avó de dois netos e mora com o marido que é dentista. Não pratica nenhum tipo de atividade física e sua atividade rotineira principal é cuidar dos netos e da casa. Participou do Projeto Sênior no ano de 2003 e freqüenta o Projeto de Transição. MOMENTO PRIMEIRO: A PERCEPÇÃO DA FUNCIONALIDADE Trecho 1 Assunto: Sobre as melhoras na capacidade funcional depois do programa de exercícios resistidos 94 (O relato surge pela indagação do entrevistador) 01 Ah, sim mais disposta, “né”, para tudo, e a gente vai se animando, antes, eu não 02 subia nem na escada, eu tenho a minha escadinha, deixei no armário, eu pedia 03 tudo para os meus filhos, [...] agora não, eu pego a escada e subo, eu não tenho 04 medo, não sei, parece que a gente fica mais disposta, tenho força, ajudo o meu 05 marido carregar as coisas, “né”, “mas você não pegava peso!”, ele fala. Quanto 06 mais a gente vai fazendo, melhora, que eu acho que vai ficando atrofiado, né, se 07 não exercita, eu não pegava muito peso, agora ajudei ele carregar o material, 08 porque minha casa, já faz uns três meses, tá mexendo e não acaba a casa, 09 então, para pegar material, eu ajudo ele. A locutora inicia com a interjeição “ah” que, nesse contexto, indica alegria e introduz que sentiu melhoras, que a resposta à questão é “sim”, positivo. Continua e indica que está mais disposta, com maior disposição, e emprega a expressão “né” que significa, “não é”, “não é assim”. Finaliza a frase com o pronome “tudo”, que significa, nesse contexto, sem exceção, em todas as coisas. Acrescenta que “a gente vai se animando”. O termo “a gente” indica um grupo de pessoas, no qual se inclui, que vão se entusiasmando com a prática de exercícios. Exemplifica que, em período anterior ao programa, ela não subia escadas na frase “antes, eu não subia nem na escada”. O emprego do advérbio “antes” denota claramente que isso ocorreu antes da participação do programa. Ademais o uso do pronome “nem”, que significa “sequer”, leva à compreensão de que, pelos menos ela, deveria subir em escadas, mas que sequer ela poderia realizar essa ação antes do programa de exercícios. Prossegue com esse exemplo e diz que possui uma escada (“eu tenho a minha escadinha”), mas que não a usava, que a deixava guardada no armário (“deixei no armário”), porque, justamente, nem isso ela podia fazer. Ressalta que dependia dos filhos para realizar ações que necessitavam do uso da escada, pela frase: “pedia tudo para os meus filhos”. Fica claro que essa dependência é passada, pelo emprego do verbo pedir no tempo pretérito, e que era total, pelo uso do pronome “tudo” precedendo o objeto “para meus filhos”. Além disso, o emprego do pronome “tudo” denota a necessidade da locutora em enfatizar sua condição de dependência dos filhos, não apenas em algumas ações que ela dependia de seus filhos, mas todas. Na linha três, ela relata o momento presente. Isso fica claro com o emprego do advérbio “agora” na frase “agora não”. Ademais, o emprego do advérbio “não” refere se à negação da situação referida anteriormente. Segue o discurso e diz que, no momento, utiliza a escada, sobe nela e que não tem medo (“eu pego a escada e subo, 95 eu não tenho medo”). Em seguida, fala: “não sei, parece que a gente fica mais disposta”, o emprego da frase “não sei”, seguido do termo “parece”, indica que a locutora não tem certeza do que fala, que não sabe ao certo o porque de sua maior disposição. Conclui e acha que esta mais disposta que tem mais força. Complementa a afirmação de que tem mais força ao contar o fato de que ajuda o marido a carregar coisas, e finaliza esse relato com uma fala do marido: “mas você não pegava peso”, que indica que ela não realizava a ação de carregar pesos em momento anterior. Ademais, isso denota que percebeu, também, sua melhora através da observação de seu marido sobre ela. A locutora prossegue na linha cinco e explica que “Quanto mais a gente vai fazendo, melhora”. Conclui, em seguida, que, se não exercitar os músculos, pode ocorrer uma atrofia. Exemplifica essa reflexão com o relato de que antes do programa não carregava muito peso e que agora ajuda o marido a carregar materiais, “ajudei ele”, o pronome “ele” referese ao marido. Finaliza com a explicação de que isso ocorre porque “está mexendo na casa”, reformando sua residência, e conclui utilizando o advérbio “então”, na frase “então para pegar material eu ajudo ele”, em que ela explica que ajuda o marido a pegar o material da reforma. Essa ação de ajudar o marido é possível, então, porque agora ela tem força, já que antes ela não carregava pesos, como disse seu marido. Trecho 2: Assunto: Sobre carregar os materiais da reforma e sentirse mais forte (Trecho discorrido logo após o anterior, mediante aprofundamento do relato solicitado pelo entrevistador) 01 É, eu pego e não sinto, porque, antigamente, eu não conseguia pegar peso, 02 agora não... [...] mesmo os balde, com essa economia de água, eu tenho uns 03 baldão grande, daí a gente pega a água da roupa, no quintal, né, que é casa, 04 então, para jogar no chão, para lavar o chão, e aí, eu não conseguia, agora eu 05 pego dois, eu procuro pegar dois iguais. A locutora confirma que se sente mais forte ao utilizar o verbo “é”, e reforça que carrega os materiais, com a frase “eu pego”. Complementa que não sente essas ações, com a frase “e não sinto”, que parece referirse a dores no corpo ou a um esforço exaustivo, os quais apontou em outros momentos da narrativa. E explica que, no passado, não exibia a capacidade de carregar pesos, com a frase “porque antigamente eu não conseguia pegar peso”, e realça, com o emprego do advérbio “agora”, na frase “agora não”, que, no presente, isso não mais ocorre. 96 Na linha dois, ela oferece outro exemplo sobre sua capacidade de força. Fala que pode pegar baldes em sua casa, os quais usa para lavar o quintal. Enfatiza que os baldes são grandes (“eu tenho uns “baldão” grande”) e que são para lavar o chão. Prossegue e explica que não conseguia pegálos (“e, aí, eu não conseguia”), ou seja, que no passado, não podia pegar tais baldes volumosos. Mas, no momento presente, ela fala que “agora eu pego dois”, que ele consegue segurálos e, além de conseguir carregálos, ainda procura pegar dois baldes de igual volume. Trecho 3: Assunto: Sobre como foi que percebeu que conseguia pegar, agora, dois baldes (trecho que complementa o anterior, mediante solicitação de mais detalhes pelo entrevistador) 01 Ah, porque eu fui sentindo, não machucava, eu ficava com dor, “né”, porque 02 antigamente eu fazia, tinha dor: “– Ah, eu não posso carregar peso! Me dói o 03 rim” [ nesse momento, a locutora desencosta da cadeira, aponta a região do rim 04 com a mão e, com o rosto, exibe uma expressão de dor] e não é, né, é falta de 05 fazer... Eu fui e não sinto nada! ... Porque aquilo vai atacar os rins, “né”. É fui 06 fazendo, fui pegando as coisas, eu até carrego o meu neto, mas sempre com 07 postura, porque ele é magrinho, ele é alto [...] então ele tem uns 12kg, mas eu 08 pego ele, assim, eu não sinto. [...] eu carrego ele, mas não sinto dor nenhuma, 09 ele anda bastante, quando eu desço assim com ele para brincar, ele anda 10 bastante, mas eu carrego também, “né”. [...] Eu fico com ele para lá e para cá, e 11 a gente nota que, nossa, se eu segurasse peso, eu sentia dores, doía as costas, 12 o rim, agora não, eu não sinto nada, graças a Deus! A locutora inicia esse trecho, sobre como percebeu que estava mais forte, com a interjeição “ah”, que introduz o próximo relato com veemência, com alegria, espanto. Ela explica que percebeu suas melhoras no cotidiano, porque foi sentindo que podia realizar ações rotineiras sem dor. Ela aponta, na linha um, que sentiu que realizar as ações cotidianas, que envolviam dor, não a machucava. Ela prossegue e lembra que, no momento passado, ao realizar tais ações, ela sentia dores, com a frase, nas linhas um e dois: “eu ficava com dor, “né”, porque, antigamente, eu fazia e tinha dor”. Assim, se no momento anterior ele pegava peso e sentia dores e agora isso não mais ocorre, algo deve ter mudado e isso deve advir do aumento de sua força. Na linha dois, ele recorre a uma reflexão pessoal que, era decorrente das constantes dores ao levantar pesos “– Ah, eu não posso carregar peso! Me dói o rim”, 97 para exemplificar que já tinha percebido que não podia carregar pesos, que isso lhe causava dores na região dos rins. Além disso, nesse momento a locutora enfatiza o seu relato afastandose do encosto da cadeira onde sentava e aponta o rim com a mão para deixar claro onde doía e, pela expressão de sua face, entendese que era uma situação dolorosa, penosa. Na linha quatro, com a frase, “e não é, né, é falta de fazer...”, a locutora conclui que seu problema (as dores), não era devido, exatamente à realização de tarefas pesadas no cotidiano, mas, sim, à falta de exercícios. A entrevistada inicia a linha cinco com o período, “Eu fui e não sinto nada!”. A frase “eu fui” referese à ação relatada anteriormente, de pegar os baldes de água. Sobre isso, complementa com a frase “e não sinto nada”, para exemplificar que não sente dores ao carregar os baldes de água, porque essa ação iria provocar algum efeito na região renal. Essa conclusão tornase claro com a frase, “Porque aquilo vai atacar os rins, “né”, pois se inicia com a conjunção “porque”, que designa causa. Além disso, o pronome demonstrativo “aquilo”, referindose à ação de carregar os baldes, é empregado para resgatar o momento em que ela percebera que não sentia mais dores. A locutora acrescenta outra percepção de sua força incrementada com o caso de carregar seus netos. Ela disse que consegue carregar seu neto com a frase, “eu até carrego o meu neto”. O emprego do advérbio “até”, nesse contexto, significa “ainda”, “também”, que leva à compreensão da frase no sentido de que, também com o neto, assim como com os baldes, sua capacidade de carregar está melhor. A locutora ressalva, ainda, que não é de qualquer forma que ela carrega seu neto, que procura manter sua postura. Na linha sete, ela complementa seu relato com a descrição física de seu neto, para demonstrar que, apesar de ele ser “magrinho”, ele apresenta massa corporal de doze quilos. Prossegue e fala: “mas eu pego ele”, que quer dizer que mesmo com doze quilos, ela pega seu neto no colo e, ainda assim, não sente mais dores. Continua, na linha oito, a enfatizar que carrega seu neto e, com a frase “mas não sinto dor nenhuma”, indica uma contraposição em que mesmo esforçandose, ela não sente mais sensações dolorosas. Essa contraposição, identificada pela emprego da conjunção “mas” no início da frase citada, denota que, antes, havia uma relação direta entre pegar o neto e sentir dores e que, no momento presente, isso não mais ocorre. Complementa que, no cuidado com o neto, a criança anda, se movimenta, mas que ela tem também que carregálo, que isso ele necessita fazer, que é rotineiro no cuidado com a criança. Finaliza o trecho realçando que cuida de seu neto e pode notar, nesse cuidado, que, no momento passado (“se eu segurasse peso eu sentia dores”, linha 11), ela 98 sentia dores ao carregálo. O emprego da conjunção “se”, no início da frase, indica que segurar o neto era uma condição para que ela sentisse dores nos rins e nas costas. No entanto, o uso do verbo sentir no pretérito (“sentia”) denota que isso não mais ocorre. Isso fica mais evidente ainda na frase “agora não” (linha 11), pois com o emprego do advérbio “agora”, que significa “presentemente”, “neste instante”, realça que essa condição de dores é passado. Ademais, no momento presente, ela não sente nenhum tipo de dor (“eu não sinto nada”, linha 12) ao realizar a ação destacada (carregar o neto), que fica claro pelo emprego do pronome indefinido “nada”, que significa “nenhuma coisa”, “coisa alguma”. Trecho 4 (Caderno de campo) 10/09/2005 Assunto: Como tem se sentido com a participação no programa 01 Estou me sentindo mais disposta, mais animada... Para mim, não tem doído 02 nada... Só o joelho... Pois, essa semana, caminhei do São Cristóvão até aqui, e 03 acho que foi isso que afetou meu joelho. Nesse trecho, anotado no caderno de campo, na primeira fase do programa, essa participante relata, na primeira linha, que se sente com mais disposição e animação. A repetição do advérbio “mais” denota a preocupação de realçar que sua disposição e animação já existiam, mas se elevaram mediante a participação no programa. Ainda na linha um, destaca que não sente dores. O início da frase “para mim, não tem doído nada” denota que se refere ao resto do grupo que, nessa fase inicial, sentia muitas dores musculares. Na linha dois, destaca que sente apenas dores no joelho, mas que elas não são devidas ao programa, mas, sim, a uma caminhada que realizou e conclui que “foi isso que afetou meu joelho”. Trecho 5: Assunto: A redução da freqüência semanal do programa de exercícios (trecho proferido por ocasião de uma questão dirigida pelo entrevistador, logo após o trecho anteriormente destacado) 99 01 Ah, eu senti falta porque, em casa, a gente quase não faz... Aqui, “né”, a gente 02 faz mais... A gente sente, “né”, mas o ritmo continua o mesmo, porque você vai 03 fazendo... (mas você achou que ficou mais difícil quando passou fazer uma vez 04 por semana?) Não, porque acostumei, acho que já no ritmo, então, “tá” igual 05 assim “né”, (mas você preferia fazer as duas vezes?) Não senti, com a força, 06 “tá” igual. Continuo do mesmo jeito, procuro ficar sempre com postura e carrego 07 os baldes... Sobre a redução da freqüência semanal, a locutora relata que sentiu a diminuição de um dia, porque em casa é difícil fazer exercícios. A frase que leva a esse entendimento é a primeira da linha um: “Ah, eu senti falta porque, em casa a gente quase não faz”. O emprego do termo “a gente”, na fase destacada, denota a preocupação da locutora de demonstrar que não é apenas ela que não realiza exercícios em casa, mas, sim, um grupo no qual se inclui. Ainda na linha um, com a frase “aqui, ‘né’”, ela referese ao programa de exercícios resistidos, do qual havia participado na universidade, em contraponto à situação da impossibilidade de realizar exercícios em casa. Nesse sentido, procura enfatizar que a situação é distinta daquela de realizar exercícios em casa. Isso ocorre porque, no programa na universidade, como ela disse, “a gente faz mais”, é possível a realização mais freqüente de exercícios. Na linha dois, relata que sente a diminuição, mas a força não muda (“o ritmo”), porque há uma continuidade (“porque você vai fazendo”). Realça que não sentiu dificuldades quando a freqüência semanal diminuiu, pois ela manteve o ritmo. Ela disse: “já acostumei” (linha quatro), para demonstrar que já tinha se adaptado. E conclui com a frase “então “ta” igual assim, “né”, que quer dizer, de maneira conclusiva (utilizase do advérbio "então”), que a força está igual porque ela já estava adaptada, acostumada, ao programa. Na linha cinco, ela enfatiza, novamente, que a força não mudou. Isso fica claro na frase “Não senti, com a força, “tá” igual”, que inicia com a expressão negativa “não senti” e finaliza “com a força, “tá” igual”, ou seja, que não observou diferenças em sua força no período em que houve a redução da freqüência semanal. Na linha seis, ela relata que estão o mesmo jeito os seus afazeres cotidianos. Isso fica claro ao retomar o exemplo de carregar os baldes; que continua com a capacidade de carregálos; que a redução das atividades de exercícios resistidos não ocasionou piora nesse aspecto. 100 MOMENTO SEGUNDO: O CONTEXTO DE VIDA Trecho 6 Assunto: Sobre a morte de sua mãe e o seu relacionamento com ela (Trecho relatado no momento em que contava sobre sua participação no projeto sênior) 01 Fazem cinco anos que faleceu minha mãe, e eu sou a caçula de 8 irmãos. Eu 02 era muito apegada a ela, eu era a caçula, e ela era muito comigo, assim... Ela 03 ficava sempre em casa... Tanto que, quando ela faleceu, ela tava morando 04 comigo. Eu era muito apegada à minha mãe, então, quando ela morreu, eu não 05 tinha vontade de fazer nada. Eu ficava quietinha num canto, foi muito difícil para 06 mim, “né”. Nesse trecho a locutora revela que passou por momentos difíceis com o falecimento de sua mãe. Ela inicia o trecho de que sua mãe faleceu havia cinco anos. Complementa dizendo que tem mais irmãos, e é a mais nova deles. No final da linha um, ela realça que era muito ligada à sua mãe, com a frase “Eu era muito apegada a ela”, que era uma sentimento intenso, pois utiliza o advérbio “muito”, que significa em demasia, em abundância. Logo após, com a frase “eu era a caçula”, parece justificar o motivo de seu apego com sua mãe, que isso ocorria porque ela era a filha mais nova. Na linha dois, prossegue com a frase “e ela era muito comigo, assim”, que significa que sua mãe também exibia um apego da mesma natureza por ela, que era um sentimento recíproco. Acrescenta ainda que dividiam o mesmo espaço freqüentemente, pois sua mãe estava sempre em sua casa: “Ela ficava sempre em casa” (na casa da locutora), que quer dizer que mãe e filha estavam sempre juntas. Ela enfatiza essa proximidade, com a observação de que, no momento de sua morte, sua mãe estava morando em sua casa, relato observado na frase “Tanto que, quando ela faleceu, ela “tava” morando comigo”. Repete na linha quatro, que era muito apegada à sua mãe, para realçar novamente seu sentimento da necessidade da proximidade com sua mãe e conclui que, com o falecimento dela, não exibia vontade, disposição de fazer coisa alguma. Finaliza dizendo que foi um período muito penoso para ela, com a frase “foi muito difícil para mim “né”. 101 Trecho 7 Assunto: Sobre outros momentos de tristeza em sua vida: outras mortes (Trecho relatado no momento em que relatava sobre a morte de sua mãe) 01 É, eu tava passando por uma fase muito difícil, “né”, com a morte da minha mãe, 02 depois, faleceu minha sogra também. Minha sogra caiu, quebrou o fêmur. Aí, eu 03 fiquei cuidando dela, que minha cunhada estava no hospital, com o meu 04 cunhado, que também faleceu, foi um período de muitas mortes, doença. [...] 05 meu cunhado faleceu em abril, e minha sogra, em junho. Morreu minha mãe, 06 depois meus dois cunhados, o marido da minha irmã, o marido da irmã do L. e a 07 minha sogra. A locutora realça que estava passando por um momento difícil em sua vida, porque, além do falecimento de sua mãe, sua sogra também morrera. Enfatiza na linha dois, que sua sogra sofreu uma queda e que quebrou o fêmur, para demonstrar que o caso de sua sogra foi grave e que por isso necessitou de cuidados. Esses constantes cuidados foram realizados pela locutora, o que fica claro na frase “Aí, eu fiquei cuidando dela”. O advérbio “aí”, na frase destacada, tem o mesmo significado de então, que denota que a conclusão da queda de sua sogra foi a necessidade de cuidados constantes realizados pela entrevistada. Ela justifica que teve que cuidar de sua sogra (linha três e quatro), pois sua cunhada não poderia assumir tal responsabilidade, já que estava cuidando de outra pessoa (o cunhado da locutora) que também viria a falecer. Ela conclui, a partir desses relatos, que, nesse período de sua vida, ocorreram muitas mortes, doenças, e isso retoma sua observação da linha um, que foi um momento difícil de sua vida. Na linha seis, resume o montante de falecimentos que ocorreram em um período próximo da morte de sua mãe. Fica claro que além de sua mãe, faleceram dois cunhados e sua sogra. Síntese da entrevista do Sujeito E O Sujeito E relata, no trecho um, que se sente mais disposto para tudo, e exemplifica que agora pode utilizar uma escada portátil para alcançar objetos altos, sem o auxílio dos filhos. Além disso, destaca que ajuda o marido a carregar objetos, e ressalva que o surpreendeu ao propiciar tal auxílio. No trecho dois complementa essa ultima colocação e realça que consegue carregar baldes grandes de água. No trecho 102 três, explica que percebeu que podia carregar esses baldes, porque não sentia mais dores na região dos rins, além de poder carregar seus netos sem dores. Em discurso anotado no caderno de campo (trecho quatro), podese registrar que o Sujeito E sentiase mais animado e com mais disposição mediante a participação no programa e que não sentia dores. Sobre a redução da freqüência semanal, relata que sentiu falta porque não podia fazer em casa, mas relata que não ficou mais difícil para realizar o programa no período de uma vez semanal. Sobre seu contexto de vida, relata que sofreu muito com a morte de sua mãe, que era muito apegado a ela e que, quando sua mãe faleceu, esta residia em sua casa (trecho seis). Além disso, destaca que não foi apenas a morte de sua mãe que lhe causou sofrimento, em curto espaço de tempo faleceram também sua sogra, e dois cunhados (trecho sete). O desempenho da força muscular Com relação ao comportamento de sua força muscular (Figura 5), notase que nos três exercícios que o Sujeito E realizou, pôde experimentar uma elevação da força no primeiro período. No período de manutenção, a força, para o exercício de supino, diminuiu e, para os outros dois, observouse uma elevação. Esse sujeito não pôde realizar os exercícios para os membros inferiores (leg press e glúteos), por apresentar impedimento na articulação do joelho. Figura 5 Desempenho da força muscular do Sujeito E nos exercícios propostos kg 35 30 supino 25 leg pr ess 20 cost as 15 ombr o 10 glut eos 5 0 1 2 3 1início do programa; 2final do período de duas vezes semanais; 3final do período de manutenção SUJEITO F 103 Participante do sexo feminino, com 65 anos. Está no segundo casamento, é mãe de dois filhos, que são frutos do primeiro casamento, cujo marido faleceu. Sofreu com a morte de um dos filhos por infarto. Pratica hidroginástica e caminhada, três vezes por semana. Participou do Projeto Sênior em 2002 e participa do Projeto de Transição. Trecho 1 Assunto: Sobre sua capacidade de força (Relato presenciado no momento em que revelava suas idéias sobre os exercícios resistidos) 01 Que antes de eu fazer... que eu tenho neta pequena...quando eu carregava 02 minhas netas no colo, no dia seguinte eu estava atrofiada...doía a coluna... doía 03 essa parte aqui, como é que chama?...[indica o glúteo] ...Porque é uma coisa 04 que eu não estava acostumada...carregar peso...né...carrego uma sacolinha ali 05 quando você vai fazer uma compra...mas eu não venho carregada com 06 peso...agora, quando eu carregava minha neta...aí.. e quando as duas queriam 07 ficar no meu colo... são gêmeas... aí no dia seguinte...e aí no dia seguinte, tava 08 assim... e agora não...porque eu tenho condicionamento para segurar o peso. A locutora inicia o trecho sobre as melhoras que percebeu em seu cotidiano, a partir da participação no programa de exercícios resistidos. Ela inicia com a frase “que antes de eu fazer” e introduz, assim, o entrevistador em uma situação que ocorreu antes da participação no programa. Explica que tem uma neta pequena e, na frase seguinte, revela que não é apenas uma, pois na frase “quando eu carregava minhas netas”, o objeto direto “minhas netas” denota que não é apenas uma, como relatara. Na linha dois, ela diz que quando carregava as netas no colo, sentiase atrofiada no dia seguinte. Explica que esse “atrofiamento” era percebido no dia seguinte, pela presenças de dores, como relata pelas frases “doía a coluna” e “doía essa parte aqui, como é que chama?”; nessa última frase, ela não se lembra do nome do local onde também sentia dores e indica o glúteo para que o entrevistador pudesse compreender. Prossegue, na linha três, com a frase iniciada com a conjunção explicativa “porque”, para explicitar que era uma situação (“uma coisa”) que era habituada. Ela continua e explica que não carregava pesos habitualmente. Após essa explicação, ela utilizase da expressão “né”, que significa “não é assim”, “não é verdade”. Ainda complementa que carrega um pouco de peso, “carrego uma sacolinha 104 ali quando você vai fazer uma compra” e, na próxima frase, “mas eu não venho carregada com peso”, o emprego da conjunção adversativa “mas” indica uma contraposição à frase anterior, que carrega peso, mas não muito. Ela retoma o caso de carregar suas netas e acrescenta que, às vezes, não era apenas uma que tinha que carregar no colo, mas as duas, ao mesmo tempo; explica que isso ocorria porque elas são gêmeas (linha sete). A locutora retoma que, por esse motivo, ela ficava do jeito que relatara anteriormente e enfatiza com a repetição da frase “no dia seguinte” (linha 7), que isso era percebido no dia seguinte, e conclui que “tava assim”, que ficava da maneira que relatara no início. Finaliza e conclui que, no momento presente, não apresenta mais esses problemas (“e, agora, não”) e explica que, agora, exibe aptidão para carregar o peso (“porque eu tenho condicionamento para segurar o peso”). Trecho 2 Assunto: As melhoras percebidas no joelho (Relato utilizado para complementar o trecho anterior) 01 E o próprio joelho... Que eu tenho artrose, como trabalha com essa parte aqui, 02 [aponta com a mão a coxa]...eu acho que deu uma resistência maior... nessa 03 parte da minha perna, e o joelho não ficou tão sobrecarregado...que eu sentia 04 que eu tinha fraqueza nessa área... sabe quando você sente que tua perna é 05 fraca...né..[...] É ... eu sentia que logo começava doer essa parte [aponta o 06 joelho com a mão] e agora não...meu joelho melhorou, porque eu acho que dei 07 mais força nessa parte da perna... A locutora relata que sentiu melhoras também na região do joelho. Explica que possui artrose nessa articulação, e que o trabalho na região da coxa levoua a hipotetizar que ganhou mais resistência nessa região; indicaa com a mão e retoma no final da frase, “nessa parte da minha perna”. Conclui que seu joelho não ficou com excesso de carga na frase “o joelho não ficou tão sobrecarregado”. Complementa que tinha sensações de fraqueza na região do joelho e pede a confirmação do entrevistador sobre sua afirmação com a frase “sabe quando você sente que tua perna é fraca... Né..”, utlizase da expressão “né”, que significa “não é”, não é “isso mesmo”. Segue e realça que sentia que, em pouco tempo, começava a sentir dores na região em questão, e a aponta o joelho com a mão. Na frase seguinte, “e agora não”, 105 introduz que, no momento presente, o joelho dela melhorou. Ela explica a causa da melhora do joelho com a frase “porque eu acho que dei mais força nessa parte da perna”. Trecho 3: Assunto: A melhora na coluna 01 Mesmo na parte da coluna, você sente que tem mais firmeza...voce vai levantar 02 de um sofá... levantar de uma cadeira...antes eu tinha que me apoiar... agora eu 03 levanto com facilidade...uma série de coisas... Nesse trecho, a entrevistada enfatiza que, na coluna, percebeu melhoras. Ela sente que exibe mais estabilidade, na coluna, com a frase “na parte da coluna você sente que tem mais firmeza”. Exemplifica suas melhoras, como o levantar de um sofá, ou de uma cadeira (enfatiza repetindo o verbo “levantar”). Ela também explica que em momento anterior (utilizase do advérbio “antes” e do verbo “ter” no passado), necessitava de um apoio para realizar tais ações. Mas, no momento presente, que fica claro pelo emprego do advérbio “agora” (nesse momento), ela realiza tais ações com facilidade. Acrescenta ainda que existem outras melhoras com a frase “uma série de coisas”. MOMENTO SEGUNDO: O CONTEXTO DE VIDA Trecho 4 Assunto: O infarto que sofrera antes de engajarse em programas de atividade física (trecho relatado no momento em que é indagada sobre algum evento que tivesse ocorrido em sua vida que a levasse a parar de praticar exercícios) 106 01 Eu tive infarto, né...[...] eu tive antes de começar...então, tudo me levou a 02 procurar melhorar meu estilo de vida... Você sabe que, depois de que teve o 03 infarto, não pode ficar parada mesmo...[...] foi em casa, não tive dor 04 nenhuma...não... não tive dor no braço, não tive nada...tive uma dor perto dos 05 rins, assim...e eu achei que eu tinha abusado.. Aquela época eu estava parada... 06 Não fazia... Uma vida ociosa...falei acho que eu fiz um movimento que afetou a 07 coluna... eu não sentia nada disso, eu tinha dor só nas costas [...] e fiquei na UTI 08 já. Fiquei, fiquei 15 dias... Depois mudei de hospital, fui pro hospital do meu 09 convênio... mas fui de ambulância ... Não foi uma coisa simples... Aí, quando eu 10 voltei fui pro cardiologista... fazer um acompanhamento... Ele falou: “você 11 precisa melhorar seu estilo de vida” [...] “você tem que caminhar”... aí eu 12 comecei a caminhar... e do caminhar que eu fui procurando outras coisas...aí eu 13 fui procurar uma vida melhor pra mim...e sempre você faz depois que acontece... Nesse trecho, a locutora relata sobre um infarto que teve antes de iniciar suas atividades no projeto sênior. Ela sintetiza, na primeira linha, que teve um infarto, que isso aconteceu antes dela procurar a prática de atividade física. Ela inicia uma frase, na linha um, com o advérbio “então”, para demonstrar o desdobramento que causou em sua vida o evento do infarto. Ela relata que, por esse motivo, procurou mudar seu estilo de vida (“então tudo me levou a procurar melhorar meu estilo de vida”). Na linha dois, prossegue com a frase “você sabe, que, depois de que teve o infarto, não pode ficar parada mesmo”. Inicia essa frase com a expressão “você sabe”, que pede a confirmação do entrevistador para a colocação que faz em seguida, de que, para quem apresenta um infarto, não é possível que se mantenha parado. No final da linha dois, descreve como foi o dia em que teve o infarto. A locutora relata que não sentiu dores, nem no braço, nenhuma, a partir da frase “não tive dor nenhuma... não... não tive dor no braço, não tive nada...”. Enfatiza a ausência de dores com a repetição da expressão negativa “não tive”, em três momentos, nas linhas dois e três. No entanto, ela lembra que teve uma dor na região dos rins. Explica que achava que isso era devido a um excesso de movimento que poderia ter realizado e que teria afetado a região da coluna. E reforça que a única região de seu corpo que apresentou dores foi a região das costas. Declara que ficou internada na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) e finaliza essa afirmação “e fiquei na UTI já” com o advérbio “já”, que indica logo, diretamente, sem demora. Continua a relatar sobre seu período na UTI e enfatiza, com a repetição do verbo “fiquei”, o momento que esteve em tratamento na UTI, finalizando 107 com a colocação de quantos dias esteve em tal situação. Realça que, após esse período (utiliza o advérbio “depois”), ela teve que mudar de hospital. A locutora acrescenta que mudou para um hospital que pertencia a seu convênio (seguro saúde), mas frisa que foi de ambulância. Conclui esse trecho dizendo que, pelos motivos relatados, não foi uma situação simples (“não foi uma coisa simples”). O desfecho desse evento do infarto, declara a locutora, foi o inicio de um estilo de vida ativo. Ressalta que, ao voltar do hospital, procurou um cardiologista e que a aconselhou “você precisa melhorar seu estilo de vida”,“você tem que caminhar”. O entrevistada disse que seguiu as recomendações do médico, iniciou a caminhada, e esta foi uma atividade que a impulsionou a procurar outras atividades, às quais se refere empregando o termo “coisas” (linha nove). Conclui que com essas atitudes ela procurou uma vida melhor para ela. Trecho 5 Assunto: As causas que ela atribui à ocorrência de seu infarto (O trecho foi descrito para justificar o seu infarto, já que ela não apresentava na época fatores de risco) 01 Eu tinha perdido um filho e eu fiquei... Mas não foi logo em seguida... Eu fui 02 tentando me controlar daquele problema todo... Da tristeza e para não passar 03 pros outros... Tudo aquilo, eu fui me controlando, controlando... Fui segurando, 04 segurando... E foi, acho, depois de... É, acho, que foi junho... Um ano e dois 05 meses que eu tive o infarto... Depois que meu filho faleceu... Mas foi duro [...] 06 porque eu não tinha nada que me levasse a ter um infarto, eu não sou gorda... 07 Não fumo, não bebo, não tenho colesterol alto... Não tinha nada... Quando eu 08 tive o infarto, eu estava com tudo alto... Tudo emocionalmente que eu fui 09 carregando... A entrevistada relata, nesse trecho, que o motivo que a levou a um infarto foi a morte de um dos filhos. Fica claro que perdeu um dos filhos, pela utilização do pronome “um” na primeira frase da linha um. E complementa com a frase, “e eu fiquei”, que introduz aquilo que ela ralataria a seguir, sobre o sofrimento por causa da morte filho. A locutora relata que não infartou logo após a morte do filho, que tentou manter sob controle o caso desse falecimento. Utilizase do pronome “todo” para denotar que 108 tentava controlar o problema em sua totalidade. Além disso, enfatiza que tinha que controlar sua tristeza, frase que acrescenta depois de uma pausa: “da tristeza”. Prossegue relatando sobre o controle que teve que exercer sobre si, para poder suportar a situação da morte de seu filho. Enfatiza essa situação de controle repetindo os verbos “controlando” e “segurando”, por duas vezes cada, nas linhas dois e três. Utilizase dessas colocações no gerúndio para indicar que essa situação de controle mantevese durante algum tempo após o falecimento de seu filho. Ela conclui que esse controle continuou durante um ano e dois meses após o falecimento de seu filho, e que culminou em seu infarto. E acrescenta que “foi duro”, utilizandose do adjetivo “duro”, referindose ao período de sua vida que relatava. Ela ainda explica que não apresentava nenhum fator de risco que a colocasse como propensa a ter um infarto e exemplifica listando alguns fatores, na frase: “eu não sou gorda... não fumo, não bebo, não tenho colesterol alto”. E conclui que não tinha nada que pudesse ser um potencial de risco para um infarto, com a frase: “não tinha nada”. Mas ressalva que no momento do infarto, apresentara todos esses indicadores alterados com a frase “quando eu tive o infarto eu estava com tudo alto”, enfatizando com o pronome “tudo” que todos os fatores de risco listados estavam “altos”. Utilizase do adjetivo “alto” para indicar anormalidade. E conclui que isso ocorreu porque estava emocionalmente “carregada”, exaurida. Trecho 6: Assunto: A causa da morte de seu filho e de seu marido 01 De infarto [...] Teve infarto. [...] Meu marido morreu...trabalhando com 38 anos...e 02 o meu filho, com 38 anos pescando [...]meu marido faleceu ele tinha 10 03 anos...(Ah e você criou todos os seus filhos sozinha...?) Sozinha...é... É barra... 04 é barra... Nesse trecho, a locutora revela as causas das mortes de seu marido e de seu filho. Ela relata que ambos faleceram de infarto. E que pai e filho morreram com a mesmo idade: 38 anos. Seu filho falecera pescando e seu marido trabalhando. Ainda coloca que seu marido faleceu quando esse mesmo filho tinha apenas dez anos. Acrescenta, ainda, que teve que criar seus filhos sozinha e que isso foi uma tarefa difícil que fica claro pela frase “É barra! é barra!”, repetindo os termos “barra”, que significa, nesse contexto, “dificuldade”. Síntese do Sujeito F 109 Esse sujeito relata que após a participação no programa de exercícios resistidos pôde carregar suas netas com facilidade, sem sentir as costumeiras dores nas costas (trecho um). No trecho dois, ressalta que sentiu melhoras em seu joelho, que não mais fraqueza nessa região. Volta a realçar que sente mais facilidade na região da coluna, quando precisa levantar pesos (trecho três). Sobre seu contexto de vida, declara que sofreu um infarto e que, como sintoma, sentiu apenas dores na coluna, não sentiu os sintomas costumeiros desse tipo de ocorrência como dores nos braços (trecho quatro). Atribui as causas de seu infarto ao stress que sofreu pela morte de seu filho, explica que teve que segurar toda a emoção para não passar a tristeza que sentia para seus netos (trecho cinco). No trecho seis, explica que seu filho tinha falecido de infarto, assim como seu primeiro marido, ambos com 38 anos de idade. O desempenho da força muscular Na primeira fase do programa, o Sujeito F obteve aumento em seus níveis de força em todos os exercícios propostos, exceto no leg press, que manteve no nível inicial. No segundo período, os níveis de força se mantiveram em todos os exercícios, exceto no supino, que aumentou. Esse sujeito não realizou o exercício de glúteos, por apresentar dores nos joelhos em sua execução. Esses dados estão descritos abaixo na figura seis. Figura 6 Desempenho da força muscular do sujeito F nos exercícios propostos kg 45 40 35 supino 30 leg press 25 c ost as 20 ombro 15 glut eos 10 5 0 1 2 3 1início do programa; 2final do período de duas vezes semanais; 3final do período de manutenção SUJEITO G 110 Participante do sexo masculino, com 63 anos. É casado e pai de três filhas, mora com a esposa e duas filhas. É representante comercial de uma empresa de pequeno porte, e também auxilia uma das filhas na produção de eventos. Não pratica nenhum tipo de atividade física regular. Participou do Projeto Sênior em 2002 e freqüenta assiduamente o Projeto de Transição. MOMENTO PRIMEIRO: A PERCEPÇÃO DA FUNCIONALIDADE Trecho 1 Assunto: A influência do programa de exercícios resistidos em sua aptidão física (Trecho relatado a partir de questionamento sobre a influência do programa em seu cotidiano) 01 Influenciou... Mais resistência, eu paro... Por exemplo, antes eu não podia ficar... 02 parado no ônibus, se brecava você caia, agora já tenho mais equilíbrio, me 03 seguro bem, tenho resistência pra [...] eu sinto que eu tenho capacidade de 04 pegar peso, apesar que eu fui operado da hérnia, “né”, o médico não quer que 05 carrega peso... Eu sinto que eu tenho disposição, se eu pegar, eu 06 levo...Entendeu? Eu gosto de pegar. O locutor descreve, nesse trecho, quais foram suas percepções sobre as alterações decorrentes da participação no programa de exercícios resistidos. Na linha um, ele é enfático em dizer que o programa influiu em sua vida, com a frase “Influenciou”. Ele indica um exemplo dessa influência ao apontar que sente “mais resistência”, que resiste mais à demanda física. O locutor detalha mais sua capacidade de resistência ao contar sobre a capacidade que agora exibe ao utilizar o ônibus. Fica claro que isso ocorre no momento presente, pois na frase “antes eu não podia ficar... parado no ônibus”, o advérbio “antes” e o verbo “poder” no pretérito (“podia”, linha um) indicam que isso era uma situação passada, que, no passado, ele exibia uma incapacidade de se segurar no ônibus e que, agora, isso não mais ocorre. Na frase, “se brecava você caía”, o uso da conjunção “se”, que indica condição, denota que a ação de frear o ônibus era a causa de suas quedas, porque não exibia força suficiente para segurarse. Na linha dois, o emprego do advérbio ”agora”, que indica “no momento presente”, aponta que a situação atual difere da passada, pois ele não mais cai no ônibus no momento de uma freada. Isso decorre de um equilíbrio aumentado, como 111 disse na frase “mais equilíbrio” (linha dois), na qual o advérbio “mais” indica que o equilíbrio está aumentado, mas não quer dizer que não existia, ele apenas era menor no passado. O locutor complementa que se segura de forma satisfatória no ônibus agora, com a frase “me seguro bem”. Isto fica claro pelo emprego do termo “bem”, que demonstra que ele não apenas se segura, mas que faz isso com competência, faz isso de forma satisfatória. O locutor conclui que pode sentir que tem capacidade de levantar pesos, com a frase da linha três (“eu sinto que eu tenho capacidade de pegar peso”). Mas, na frase, “apesar que eu fui operado da hérnia, “né”, ele demonstra uma contradição com o emprego do termo “apesar”. Nesse sentido, o locutor sente que pode pegar pesos, mas a situação de uma cirurgia de hérnia deveria impedilo. No entanto, a cirurgia não impede que ele sinta que pode carregar pesos, ação tal que o médico proibiu (“o médico não quer que carrega peso”). Na linha seis, o locutor ressalta sua idéia, que se contrapõe a visão do médico. O entrevistado diz que ele sentese capaz de levantar pesos, que, se ele pegar algo, consegue carregálo. Na última frase da linha seis, com a frase “Entendeu?”, ele indaga o entrevistador se houve compreensão sobre aquilo que ele disse, se ao entrevistador pode entender que ele sente que está forte, que é capaz de levantar pesos, mesmo que o médico diga o contrário. Trecho 2: Assunto: A percepção da melhora da força (Trecho proferido por um questionamento do entrevistador para que o locutor detalhe mais o relato anterior) 01 De levantar peso não, mas quando eu preciso pegar alguma coisa eu sei que eu 02 tenho mais força...Mas, pegar peso é levantar um netinho, pegar um saco de 03 alguma coisa é...É, pegar alguma coisa do carro...Mas coisas assim [...] abaixo 04 de vinte quilos...E normalmente eu vou bem... Agora...Antes eu não tinha tanta 05 disponibilidade...Não tinha tanta força... Não tinha... Eu achava que eu não tinha 06 confiança, eu não tinha tanto. No trecho dois, o locutor enfatiza que dentre suas atividades caseiras não estão incluídas ações que exijam o levantamento de cargas. No entanto, na frase “mas quando eu preciso pegar alguma coisa, eu sei que eu tenho mais força”, ele indica que tem o conhecimento de sua capacidade de força. O início da frase com a conjunção “mas”, reflete uma contraposição à frase anterior. Embora ele não precise utilizar muito 112 a sua força no cotidiano, sabe que a possui, que pode satisfazer uma necessidade momentânea de carregar um peso. Na linha dois, o locutor exemplifica quais seriam atividades que envolvem a necessidade de imprimir um potencial de força. Indica que levantar uma criança, como um neto, por exemplo, ou segurar um saco com algo, pegar alguma coisa no carro, são atividades que exigem força. Na linha três, ele indica com a frase “abaixo de vinte quilos”, sua limitação de força, que ele pode pegar objetos, desde que pesem menos de vinte quilos. Com a frase “E, normalmente, eu vou bem”, ele conclui que na maioria das vezes (utiliza o termo “normalmente”, que significa “em geral”, “na maior parte das ocasiões”), essas atividades que exigem de sua força ele as realiza sem problemas, bem. No entanto, ele enfatiza que isso ocorre no presente, o que fica claro ao utilizar o advérbio “agora” (linha quatro), que significa no momento presente, atual. Isso é realçado, também, na frase “antes eu não tinha tanta disponibilidade”, na qual a utilização do advérbio “antes” indica que o levantamento de pesos no cotidiano não era possível em momento anterior à participação no programa, que ele não era disponível para tal, que exibia disponibilidade. O locutor explica que isso decorre de uma ausência de força (“Não tinha tanta força... Não tinha”, linha cinco). Além disso, ele atribuiu sua incapacidade de pegar pesos a uma falta de confiança em si, ele não confiava totalmente em sua capacidade (“Eu achava que eu não tinha confiança, eu não tinha tanto”). O advérbio “tanto” no final da frase indica que ele confiava em si, mas não totalmente. Ademais, o recurso da repetição do termo “eu não tinha” por cinco vezes, nas linhas quatro a seis, é o recurso utilizado pelo locutor para enfatizar sua incapacidade de força que exibia no passado, já que o verbo “ter” é utilizado na pretérito. Trecho 3: Assunto: A redução da freqüência semanal (Trecho relatado por um questionamento do entrevistador) 01 Não... Não ficou mais difícil... O começo acaba ficando mais difícil somente, só o 02 impacto de começar... No trecho três, o locutor relata que não se tornou mais difícil a prática de exercícios resistidos mediante a redução da freqüência semanal. Isso fica claro pelo emprego do termo “não”, por duas vezes na linha um. O locutor explica que fica mais difícil apenas no início da sessão. Isto fica claro ao utilizar os advérbios “somente” e “só” na frase, “o começo acaba ficando mais difícil somente, só o impacto de 113 começar”. Isto significa que a dificuldade no período de redução da freqüência semanal era apenas no começo da sessão de exercícios, que, no restante, não havia dificuldade. MOMENTO SEGUNDO: O CONTEXTO DE VIDA Trecho 4: Assunto: A situação de vida antes de incluir em sua rotina a pratica de atividades físicas. (Trecho dito por ocasião do relato de sua situação antes de entrar no projeto sênior) 01 “Tava” sentindo muita fraqueza, não tinha ânimo, parece que eu estava 02 desmoronando, “tava” sentindo que meus músculos bem flácidos, porque eu não 03 tinha nenhuma resistência. Hoje já sinto que eu tenho, tenho mais força, mais 04 resistência, hoje eu já sinto melhor. O locutor, neste trecho, destaca como se sentia antes de praticar exercícios físicos. Ele deixa claro que estava se sentindo fraco na frase, “Tava” sentindo muita fraqueza”, que não era apenas uma fraqueza qualquer, mas, sim, intensa; relata com o emprego do advérbio “muita” precedendo o termo “fraqueza”. Complementa com a afirmação de que não tinha ânimo, e exemplifica essa ausência de ânimo com a metáfora de que estava desmoronando, que estava acabando, assim como um prédio deixa de sêlo ao desmancharse, ao desmoronar. Na linha dois, o locutor declara suas sensações sobre seu corpo, na frase, “tava” sentindo que meus músculos, bem flácidos”, que significa que percebia sua musculatura sem tônus, sem rigidez. Ele explica sua flacidez muscular pela ausência de resistência que percebia em si, como delata pela frase “porque eu não tinha nenhuma resistência”. Isso fica claro pela utilização da conjunção explicativa “porque”, no início da frase, indicando a explicação da frase anterior. Ele explica, pela frase “Hoje já sinto que eu tenho, tenho mais força, mais resistência, hoje eu já sinto melhor” (linha três), que sua situação atual difere da passada, já que utiliza a repetição do advérbio “hoje” duas vezes, para enfatizar que isso ocorre no momento presente. Além disso, ele utilizase também da repetição do pronome indefinido “mais”, duas vezes, precedendo os termos “força” e “resistência”, para enfatizar o incremento desses caracteres. Isto significa que ele exibia essas capacidades no momento passado, mas, agora, com a participação no programa, elas 114 aumentaram. O locutor conclui que no presente (“hoje”), ele se sente melhor, por decorrência dos fatores anteriormente listados. Trecho 5: Assunto: A situação de vida antes de incluir em sua rotina a pratica de atividades físicas 01 Ah, eu estava sedentário, bastante acomodado, desanimado... Porque também... 02 Porque eu... Estava vindo dessas crises... Crise econômica, política, financeira, 03 social, crises, “né” (não estava numa situação boa) É então... Não tava muito 04 bacana, [...] ai começa a desanimar, entrar em depressão, entrar em sabe... 06 Pensar que esta tudo ruim... Então é isso que a gente pensa... Eu reanimei... 07 Reanimei bastante. Até me [...] sentir, o corpo fortalece a amizade, fortalece o 08 ambiente, a convivência, melhora a qualidade de vida...Da pra melhorar 09 bastante... Nesse trecho, o locutor explica as razões pelas quais se sentia sem ânimo antes de participar de programas de atividades físicas. Ele indica que não praticava atividade física (“estava sedentário”) e que estava acomodado, sem ânimo. No final da linha um, ele inicia duas frases com a conjunção explicativa “porque” para explicar sua situação de desânimo, acomodamento. O motivo de sua situação, relatada no início do trecho, é a incidência de diversas crises, as quais são listadas nas linhas dois e três (“Crise econômica, política, financeira, social, crises, ‘né’”). Após listar a gama de crises que enfrentara, ele finaliza a frase com a expressão “né?”, que significa “não é?”, “não é isso mesmo?” e, dessa maneira, indaga ao entrevistador pedindolhe uma confirmação do que falara. A partir de uma colocação do entrevistador (linha três) sobre sua situação de vida, ele declara, pela frase “É então... Não tava muito bacana”, que sua vida não estava boa. Pelo emprego do advérbio “muito” antes de “bacana”, entendese que o locutor disse que existia momentos bacanas na vida, mas não muitos. Prossegue e conclui que, em virtude do que relatara, das crises, iniciouse uma situação de desânimo, um processo depressivo, que fica claro pela frase “aí, começa a desanimar, entrar em depressão, entrar em sabe...”. Exemplifica sua situação também com a frase “Pensar que está tudo ruim”, que significa que o locutor enxergava que sua situação de vida estava totalmente ruim, em todos os aspectos; pensamento que fica claro pelo emprego do pronome indefinido “tudo” precedendo o adjetivo “ruim”. E conclui, ainda, com a frase, “Então é isso que a 115 gente pensa”, que é assim que pensam as pessoas que exibem o estado de desânimo ou depressão que relatara. Isso se clarifica pelo uso do termo “a gente”, que significa um grupo de pessoas, no qual o locutor se inclui. Ao relatar com as frases “Eu reanimei... Reanimei bastante”, ele referese aos efeitos que sentiu ao ingressar em programas de atividades físicas. A repetição do verbo “reanimar”, duas vezes, é um recurso utilizado pelo locutor para enfatizar o recobrar de seu ânimo, e o advérbio “bastante” demonstra que não foi pouca reanimação, mais, sim, uma reanimação intensa. Na linha sete, o locutor conclui que o corpo tem o poder de fortalecer diversos aspectos, como a amizade, o ambiente e a convivência, e, por fim, a qualidade de vida. Além disso, com a frase, “dá para melhorar bastante”, ele enfatiza que, a participação em programas de atividades física, existe a possibilidade de melhoras expressivas pelo emprego do advérbio “bastante”. Síntese da entrevista do Sujeito G Esse sujeito relata, no trecho um, que percebeu melhoras em seu cotidiano no que se refere à possibilidade de se equilibrar no ônibus. No entanto, mostra certa dificuldade em identificar suas percepções; diz que sabe que pode pegar peso, então, conclui que melhorou. No trecho dois, as incertezas sobre quais foram as melhoras, que acredita ter obtido se acentuam. Exemplifica varias ações que dependem de força muscular e volta a falar que sabe que tem mais força, mas sua dificuldade em expressar suas percepções denota que, de fato, não experimentou essa capacidade no cotidiano. Sobre a redução semanal, não acredita que isso tenha deixado o treino mais difícil. Em seu contexto de vida, relata que, antes de incluir a prática de atividades físicas em sua rotina, sentiase cansado, sem resistência alguma, e que hoje já se sente melhor (trecho quatro). No último trecho, destaca que sentiase fraco, desanimado, porque vinha de muitas crises (política, econômica, social) e que a prática de exercícios o auxiliou a livrarse desse desânimo que o fez entrar em depressão. O desempenho da força muscular Os resultados da força muscular do Sujeito G estão descritos na Figura sete. Na primeira fase do programa, ele obteve aumento em seus níveis de força, em todos os exercícios propostos, exceto para o exercício de cadeira extensora (denominado como “extensora”, no gráfico), que manteve no nível inicial. Não realizou o exercício de leg 116 press por sentir incômodo na região medial da coxa, devido a uma cirurgia de hérnia, que tinha realizado há alguns meses. Assim substituímos pela cadeira extensora. No segundo período, os níveis de força se mantiveram para todos os exercícios, exceto para a extensora que aumentou. Esses dados estão descritos na figura sete. Figura 7 Desempenho da força muscular do Sujeito G nos exercícios propostos kg 60 50 supino 40 ext ensor a 30 cost as 20 ombr o glut eos 10 0 1 2 3 1início do programa; 2final do período de duas vezes semanais; 3final do período de manutenção SUJEITO H Participante do sexo feminino, com 73 anos. É solteira, mora com uma irmã, uma cunhada e um sobrinho. Participa de atividades da comunidade de sua igreja e pratica sessões de exercícios transmitidas por um programa de televisão. Participou do Projeto Sênior em 2002 e participa ativamente do Projeto de Transição. MOMENTO PRIMEIRO: A PERCEPÇÃO DA FUNCIONALIDADE Trecho 1 Assunto: As influências do programa em sua rotina 01 Bom, principalmente, no dia seguinte, me doía o braço, “né”, me doía a perna 02 “né”, e isso daí... Mas depois, depois foi tudo bem, é só no primeiro e segundo 03 dia, “né”, já o resto da semana... Quando a gente volta outra vez, aí começa a 04 perna a doer outra vez. Outra coisa também, sabe... Que, às vezes, eu... ia cair 06 alguma coisa, deixava cair, mas faço força pra agarrar [Sorri e aproxima as mãos 07 na altura do rosto rapidamente]. 117 Ao relatar suas percepções sobre a influência do programa de treinamento resistido, a locutora aponta primeiramente a ocorrência de dores no corpo. Na frase, “principalmente no dia seguinte”, o emprego do advérbio “principalmente” indica que o que ela relatará, logo em seguida, é o principal, o mais importante com relação à participação no programa de exercícios resistidos. Ela declara que, no dia seguinte, era o dia em sentia mais a influência do programa em sua vida. Isso ocorria por ocasião da presença de dores no corpo como relata: “me doía o braço, né, me doía a perna, né”. A repetição do verbo “doer”, no pretérito imperfeito, duas vezes, é utilizada para enfatizar as sensações dolorosas que ela apresentava no dia seguinte às sessões de exercícios. Ademais, a utilização do verbo no pretérito imperfeito parece indicar que isso ocorria, mas que não ocorre mais no momento. No entanto, na linha três, a locutora explica em que momento não ocorriam mais as dores, com a frase “Mas depois, depois foi tudo bem, é só no primeiro e segundo dia, “né”, já o resto da semana...”. Ela explica que, depois do dia em que ficava dolorido, por motivo da prática de exercícios resistidos do dia anterior, apenas no primeiro e no segundo dia ela sentia as dores (“só no primeiro e segundo dia”, linha dois). Isso fica claro a partir do emprego do advérbio só, que significa “somente”, “apenas”, “unicamente”. Complementa que, apesar de sentir dores nos dias citados, isso não ocorria no decorrer da semana (“já o resto da semana”). Na linha quatro, ela reforça que, ao voltar para as sessões de exercícios sentia novamente dores nas pernas (“Quando a gente volta outra vez, aí começa a perna a doer outra vez”). Isso significa que as dores eram decorrentes de cada sessão de exercícios e que, nos dias da semana após o último dia de sensações dolorosas, não eram sentidas mais tais dores. No entanto, o retorno semanal às práticas ocasionava as dores. Na linha quatro, a locutora chama a atenção do entrevistador com a frase “Outra coisa também, sabe”. Nesse momento, pelo emprego da expressão “outra coisa”, que pode significar “mais um” e do advérbio “também” (“da mesma forma”, “igualmente”), a entrevistada alerta o entrevistador para outro fato que ela percebeu como influência do programa de treinamento resistido. Esse fato ao qual ela se refere versa sobre sua habilidade em agarrar com força objetos que venham a cair. Isso fica claro na frase “Que, às vezes eu... ia cair alguma coisa, deixava cair, mas faço força pra agarrar”. Ela indica que, no passado, quando caía algum objeto, não interferia, deixavao cair. Isso está bem indicado pelo emprego dos verbos “ia” e “deixava”, no pretérito, 118 para deixar claro que isso é uma situação passada. A contraposição ao presente fica ainda mais evidente na última frase (linha seis), “mas faço força pra agarrar”. A conjunção adversativa “mas”, no início da frase, mostra que, no momento presente, ela pode utilizarse de sua força para agarrar um objeto que, porventura, caia. Nesse ponto, ela demonstra com os braços como agiria em uma situação desse tipo, para enfatizar sua habilidade melhorada e exibe um sorriso de satisfação. Trecho 2 Assunto: A redução da freqüência semanal no programa de exercícios resistidos (Trecho relatado a partir de uma indagação realizada à locutora sobre o assunto em destaque) 01 Agora, uma vez, uma vez já é difícil porque você fica aquela semana inteirinha 02 “né”, sem fazer nada, faz no dia aí dói outra vez. A locutora inicia com a conjunção “agora”, que significa, nesse contexto, “todavia”, “porém”, para relatar que, com apenas um dia na semana para praticar exercícios resistidos (referese a esse dia com a frase “uma vez”, linha um) a sessão fica mais difícil. Na frase, “porque você fica aquela semana inteirinha, “né”, ela inicia com a conjunção explicativa “porque”, para indicar a dificuldade em fazer, uma vez por semana, a sessão de exercícios. O motivo da dificuldade em realizar uma vez por semana, explica a locutora, está no tempo de descanso entre as sessões, motivo que fica claro na frase destacada anteriormente (linha um). Na frase, “sem fazer nada” (linha dois), ela indica o que ocorrera no tempo de descanso entre as sessões de exercícios, que era um período ocioso, sem atividade física. Ela conclui o trecho com a frase, “faz no dia, aí dói outra vez”, que quer dizer que ao retomar os exercícios, após uma semana de pausa, as dores retornavam também. MOMENTO SEGUNDO: O CONTEXTO DE VIDA Trecho 3 Assunto: A fratura no punho decorrente de uma queda (Trecho dito no momento em que narrava seu ingresso no Projeto Sênior) 119 01 Eu caí, fraturei, aqui, o pulso [indica o punho direito] [...]. Eu fiquei muito tempo e 02 já começava a trabalhar com a mão esquerda... porque com a direita não dava 03 [...] Caí e quebrei, sabe quando vai cair e segura pra não bater a cabeça? [...] O 04 ortopedista me falou assim, ah, “porque ficou um pouco defeituoso”, não era 06 tanto, só que esse eu viro bem e, esse aqui, eu tenho que fazer mais força 07 [indica o punho direito novamente]. Nesse trecho, a locutora discorre sobre uma queda que sofreu e, como conseqüência disso, restoulhe uma fratura no punho direito. Ela inicia com a frase, “Eu caí, fraturei, aqui, o pulso”, que indica que a fratura no “pulso”, como popularmente se denomina a região do punho, foi decorrente de uma queda. Ainda na linha um, ela prossegue com a frase, “Eu fiquei muito tempo e”. Ela ressalta, nesse ponto, que não foi uma fratura simples, de fácil e rápida recuperação. Com a utilização do advérbio “muito” (“com abundância”, “com excesso”), que na frase destacada, precede o substantivo “tempo”, ela realça que foi um tempo longo de recuperação; e, com a frase “já começava a trabalhar com a mão esquerda”, ela reforça ainda mais a gravidade de sua fratura, pois “já” necessitava trabalhar somente com a mão esquerda, já que o punho direito estava impossibilitado de movimento. Isso fica claro na frase, “porque com a direita não dava”. O emprego da conjunção explicativa “porque” leva à explicação do fato anterior, que tinha que trabalhar somente com uma das mãos (esquerda), porque uma delas estava lesada. Assim sendo, sua capacidade de movimentação através dos braços reduziase à metade. Na linha três, ela retoma a questão de que isso ocorreu por ocasião de uma queda, com a frase “Caí e quebrei”, que não houve outro motivo, que foi somente cair para fraturar o punho. Ademais, a locutora explica que isso ocorreu porque, no momento da queda, ela tentara proteger sua cabeça com a mão, com a frase “sabe quando vai cair e segura pra não bater a cabeça?”. O comentário de seu médico sobre a condição de seu punho é enfatizado pela locutora e ajuda a demonstrar ainda mais o problema. Ela comenta que o médico lhe disse: “porque ficou um pouco defeituoso”, ou seja, que a referida articulação encontrase com defeito, defeituosa. Mas a locutora adverte com a frase “não era tanto”, que não compartilhava da mesma opinião de seu médico, acreditava que seu punho apresentava problemas, mas não da magnitude que seu médico apontou, não estava tão defeituoso. 120 Ela indica que o “defeito” que pôde observar é na comparação da possibilidade de movimento entre os braços. Na frase “só que esse eu viro bem e esse aqui eu tenho que fazer mais força”, o primeiro pronome demonstrativo “esse” referese ao antebraço esquerdo, que está bem, sem problemas, e pode “virarse” (realizar o movimento de supinação). Já o segundo pronome demonstrativo “esse” referese ao antebraço com o punho fraturado, e ele ressalva que com esse necessita imprimir mais força para supinálo do que em seu membro contralateral. Trecho 4 Assunto: As diversas quedas (Relata o trecho, a seguir, após declarar sua necessidade em fazer exercícios) 01 Esse ano que passou eu não levei nenhum tombo, que passou não, que nós 02 estamos passando. Olha uma vez eu caí quebrei aqui [aponta o punho direito], 03 outra vez eu caí dentro de casa, deu uma lesão no cotovelo. [...] Foi tantas 04 vezes. Uma vez eu tava indo pra minha irmã com as minhas sobrinhas e ia levar 06 no dentista, não sei sabe, essas tiras de plástico, que o pessoal amarra pra fazer 07 embalagem? [...] Não sei como, eu ia andando com as meninas e tava “vamo” 08 direitinho, de repente “tum”, eu me vi no chão, aquele era como se fosse um fio, 09 mas era plástico “né”, eu senti, sabe aqueles filmes que o mocinho pega joga um 10 laço e puxa o índio? [...] É, mas uma coisa incrível, então você vê eu levei tanto 11 tombo. Nesse trecho, a locutora relata sobre suas diversas experiências com quedas. Ela inicia com a ressalva de que, no ano corrente, não caíra nenhuma vez (“Esse ano que passou, eu não levei nenhum tombo”). Deixa bem claro com as frases “que passou, não, que nós estamos passando”, que ele fala do ano corrente, utilizase dessas frases para enfatizar que isso ocorria em outros anos, mas, no atual (no momento da entrevista), não. Na linha dois, ela exemplifica as quedas que teve e relembra a queda que ocasionou a fratura no punho com a frase “Olha, uma vez, eu caí, quebrei aqui”, o advérbio “aqui” referese ao punho direito, o qual, nesse momento, ela aponta com a mão. Acrescenta outro evento ao da lesão no punho e relata que caíra dentro de sua casa e, por isso, fraturou, o cotovelo, “outra vez, eu caí dentro de casa, deu uma lesão no cotovelo”. A utilização da expressão “outra vez” indica que isso não ocorreu por ocasião da mesma queda em que fraturou o punho, que isso foi em outro momento, que ela teve que passar por uma situação similar outra vez. Finaliza com a frase 121 “foram tantas vezes”, que significa que, em inúmeros momentos, ela deparouse com momentos de quedas e não só com aqueles exemplificados. Na linha dois, ela relata um outro exemplo sobre uma de suas diversas quedas. Nas linhas quatro a dez, ela descreve um momento em que ia à casa de sua irmã, acompanhada de suas sobrinhas, e que caiu porque seu pé enroscou em tiras de plástico no chão e não pôde evitar tal queda. Ela relata com a frase “de repente “tum”, eu me vi no chão”, que foi algo repentino, que não pôde reagir, que fora ao chão sem reação. ElA revela como se sentiu nesse momento, se sentiu laçada, capturada, assim como exemplifica, “sabe aqueles filmes que o mocinho pega joga um laço e puxa o índio?”. Ou seja, sentiuse presa, indefesa, ameaçada de captura, numa simples caminhada de rotina, não pôde reagir a uma tira plástica que enroscara em sua perna. Na linha onze, ela finaliza e conclui que acha essas situações incríveis “mas uma coisa incrível”, no sentido de que suas inúmeras quedas são inacreditáveis, difíceis de acreditar. Na última frase, ela chama a atenção do entrevistador com a frase “então você vê, eu levei tanto tombo”, porque ela considera esses eventos como algo importante em sua vida, pois não foram alguns, mas, sim, muitas quedas, já que utiliza o advérbio “tanto”, que quer dizer “muitas vezes”, “em grande quantidade”. Síntese da entrevista do sujeito H Essa participante relata as diferenças em seu cotidiano, porque o programa lhe causou muitas dores, principalmente nos dois dias após as sessões. Também disse que se percebe mais rápida em agarrar objetos que caem, pode aplicar mais força neles e segurálos (trecho um). Com relação à diminuição da freqüência semanal, ela relata que ficou mais difícil, pois se acentuaram as dores novamente (trecho 2). Sobre seu contexto de vida, relata que sofreu muitas quedas e que em uma delas fraturou o punho, que ficou ligeiramente defeituoso (trecho três). No trecho quatro, realça novamente as diversas quedas sofridas em sua vida e acrescenta uma lesão no cotovelo, aquela do punho, relatada no trecho anterior. O desempenho da força muscular A Figura 8, abaixo apresenta o comportamento da força muscular do Sujeito H. Para os exercícios de leg press, supino podese observar um aumento da sua força no primeiro período do programa. Já, para os exercícios, costas, ombro e glúteos não foi 122 possível obter uma elevação de seus valores. Para o período de manutenção, todos os exercícios mantiveram os níveis obtidos na segunda medida. Figura 8 Desempenho da força muscular do Sujeito H nos exercícios propostos kg 50 40 supino leg pr ess 30 cost as 20 ombr o glut eos 10 0 1 2 3 1início do programa; 2final do período de duas vezes semanais; 3final do período de manutenção 5. DISCUSSÃO 123 As declarações de funcionalidade, reportadas no capítulo anterior, levamnos à compreensão da capacidade funcional a partir de uma organização de caracteres objetivos que se conectam por linhas de força subjetivas ao contexto vivido de cada participante. Mediante as descrições de atividades que, em princípio, parecem ser relatos pontuais, objetivos, nus, despidos de toda e qualquer subjetividade, podese desvelarse toda uma história de vida e significações, trazidas nas entrelinhas dos discursos analisados. A busca das conexões entre as habilidades reportadas como melhoradas, decorrentes do programa de exercícios, com o legado histórico de cada participante através de sua narrativa, é o ponto de partida para compreendermos a capacidade funcional percebida. Na busca das relações que trarão o desvelar da capacidade funcional, tomemos, como início de análise, as descrições das habilidades que, para cada participante, compõem sua capacidade funcional, sem esquecer, também, a relação dialética entre o conteúdo (as habilidades) e a forma (as relações), que fazem existir o fenômeno da percepção da capacidade funcional para cada participante para além do saber positivo, e que, adiante, olharemos mais de perto. Os relatos observados parecem corroborar com aquilo que se concebe como capacidade funcional: a possibilidade de realização das atividades cotidianas (LITVOC e BRITO, 2004; OKUMA, 1997; SANCHEZ, 2000; SPIRDUSO, 1995). O Sujeito A, por exemplo, relatou com veemência, no trecho um, que, depois do período em que participou do programa de exercícios de força, pôde carregar móveis, sem a necessidade de auxilio de suas filhas. Isso significa que ele sente mais facilidade para realizar as AIVD, aquelas de maior complexidade, como descrito por Okuma (1997). Já, para o Sujeito D, podese observar que, segundo a classificação apresentada por Okuma (1997), ele relatou melhoras em uma de suas ABVD, no que se refere à locomoção, pois relatou que se sente mais apto a subir as escadas de sua residência (trecho quatro). Além disso, relata que pode realizar com mais facilidade as atividades necessárias à limpeza de sua casa (trecho dois), as quais podem ser incluídas com AIVD, segundo Sanchez (2000). As AIVD também foram relatadas pelos sujeitos E e F, com relação à potencialidade de carregar baldes de água e segurar os netos no colo, respectivamente. Um ponto importante, que deve ser destacado, relacionase àquilo que Andreotti e Okuma (1999) apontam sobre a adequação da avaliação funcional com o status funcional 10 do idoso. Em estudo apresentado por Andreotti e Okuma (1999), as autoras concluíram que, para idosos de nível quatro, ou seja, aqueles que não 124 apresentam déficits funcionais e são fisicamente ativos, um programa de treinamento físico não alterará sua capacidade de realização das atividades do cotidiano. No entanto, todos os sujeitos, descritos no parágrafo anterior, relataram incrementos em atividades relacionadas à capacidade funcional. Dessa forma, parece que estar no nível funcional quatro não significa que a capacidade funcional do idoso esteja bem, pelo menos com relação aquilo que ele percebe dela. É evidente que a proposição de Spirduso (1995) centrase na maioria, e discrepâncias também podem ser observadas, como em qualquer outra normatização científica. No entanto, se todos os idosos deste estudo fazem parte do grupo de exceção, ou, estatisticamente, seriam os outliers, devese refletir se isso não tem ocorrido em outros programas direcionados a essa população, e se não são justamente essas “exceções” que mais procuram os programas de atividade física. Olhandose por um outro foco, entretanto, podemos pensar que os idosos deste estudo são do nível quatro e suas alterações funcionais só foram detectadas porque eles tiveram a oportunidade de relatálas. Isso posto, podemos inferir que não é apenas a classificação funcional que está equivocada, mas, sim, a forma de acesso às alterações funcionais pelas quais são constituídas essas classificações. Ainda, pode se argumentar que esses idosos estão entre os níveis três e quatro e, como a separação desses níveis é tênue, já que são classificações gerais, isso já bastaria para elucidar essas discrepâncias. A análise do caso do Sujeito D, entretanto, parece enfraquecer essa hipótese, de que há um meio termo entre níveis próximos. Pelo menos com relação às ABVD, era esperado, mesmo, que os idosos apresentassem níveis satisfatórios, pelo nível de status funcional em que se enquadram. No entanto, o Sujeito D relata que pode subir as escadas de sua casa, uma atividade típica de locomoção, e, portanto, incluída nas ABVD. Isso significa que esse participante, embora seja fisicamente ativo, ainda apresenta dificuldades para uma ABVD e não se enquadra em nenhum dos níveis funcionais propostos por Spirduso (1995). Dito de outro modo, pelo nível de atividade física, ele deveria ser classificado como nível quatro, mas, pela dificuldade funcional relatada, deveria ser encaixada no nível dois. Assim, fica difícil sustentar o argumento que ele transita entre os níveis dois e quatro, já que, pela classificação de Spirduso (1995), eles parecem ser tão distintos. Essas colocações demonstram que encaixar o idoso em níveis gerais nem sempre é possível, e uma avaliação individualizada de seu potencial fazse condição primordial nesse caso. 10 A classificação de status funcional, proposta por Spirduso (1995), referese a cinco níveis de possibilidades de ações cotidianas com independência física, bem como a capacidade de realizar atividades físicas até o nível competitivo. 125 Essas reflexões parecem gerar implicações sobre os resultados do trabalho de LimaCosta, Barreto e Giatti (2003). Os achados desse estudo mostraram que apenas 2% da população idosa apresenta impossibilidade de realização de algumas ABVD selecionadas, como alimentarse, tomar banho ou ir ao banheiro; 4,4% com relação a abaixarse, ajoelharse ou curvarse; e 6,2 apresentavam dificuldades para caminhar mais de um quilômetro. Podemos inferir, então, que são poucos os idosos que relatam dificuldades em ABVD, mas, também, devemos ter em mente que, se no estudo de LimaCosta, Barreto e Giatti (2003) os idosos tivessem sido entrevistados, outras limitações funcionais poderiam ter surgido, além dessas citadas acima, que compuseram o instrumento de avaliação. Com as reflexões postas acima, podemos perceber que as relações entre as dificuldades funcionais relatadas nem sempre condizem com as classificações funcionais disponíveis. Por outro lado, percebese, pelo relato dos participantes deste estudo que eles experimentaram melhoras funcionais, concomitantemente a um incremento de força muscular. Dessa maneira, os relatos descritos parecem se aproximar das constatações de Kell, Bell e Quinney (2001) e Hageman e Thomas (2002) em que há uma relação importante entre o aumento da força muscular e incrementos funcionais, com relação direta entre a força aumentada de certo segmento e atividades cotidianas que o utilizam. Em outras palavras, otimizar a força de braços, pode melhorar atividades rotineiras em que se utiliza esse membro e, assim, para outros segmentos, como já apresentados por Kell, Bell e Quinney (2001), por exemplo, sobre as correlações entre força de extensão de joelho com a potência de subir degraus. Nesse sentido, as atividades rotineiras, percebidas pelos idosos como incrementadas ou facilitadas, relacionamse com o aumento de força observado para cada um. Por outro lado, no caso do Sujeito D, é importante destacar que ele não realizou o exercício de leg press no primeiro momento do programa, por apresentar uma lesão nos joelhos, e, quando o realizou, o fez com intensidade muito baixa (mais de 20 repetições máximas), o que deve ter proporcionado muito pouco ou, até, nenhum ganho em força nessa região 11 . No entanto, mesmo não tendo possibilidade de elevar significativamente seus níveis de força dos membros inferiores, ele relata que pode subir escadas com mais facilidade, uma habilidade que exige prioritariamente a função desses membros. Mediante essas constatações, podese notar a complexidade da capacidade funcional, pois a causalidade exposta por Kell, Bell e Quinney (2001), entre a elevação de força de extensão de joelho com a 11 Exercícios de força realizados com intensidade acima de 20 repetições máximas propiciam, pouco ou nenhum ganho em força (FLECK e KRAEMER, 1999). 126 velocidade e potência de subir degraus parece não se sustentar; e, além disso, elevar a força de um segmento corporal, nesse caso, parece não ser condição suficiente, ou nem mesmo necessária, para que a participante pudesse perceber sua melhora em subir escadas. Sua percepção de melhora parece estar associada a uma situação mais geral e que discutiremos mais adiante. Outro ponto importante reside na relação amplamente utilizada pela literatura exposta sobre a velocidade de movimento e melhoras funcionais. Pelos relatos dos idosos deste trabalho, não se sabe exatamente se essas ações relatadas podem ser realizadas mais rapidamente, pois a velocidade de execução dessas habilidades é o parâmetro primeiro que sustenta as correlações apresentadas por Kell, Bell e Quinney (2001). No trabalho de Hageman e Thomas (2002) sobre um programa de exercícios de força muscular, os idosos não melhoram no teste de velocidade de caminhada cotidiana, em que não se solicita a velocidade máxima. No entanto, no teste de velocidade máxima da caminhada, em que eram submetidos a caminhar o mais rápido possível, foram observadas melhoras significativas. Isso significa que, se os idosos precisarem caminhar mais rápido, eles detêm um potencial correspondente. Assim, realizar uma ação cotidiana mais veloz, depende daquilo que o idoso necessita ou quer realizar, relacionase com aquilo que a percepção lhe sugere. Pelos discursos dos idosos analisados no presente trabalho, entretanto, não se observou relatos de incrementos funcionais com relação ao aumento da velocidade das ações cotidianas, mas isso não significa que eles não possam realizar ações velozes. Podese inferir, nesse sentido, que fazer mais rápido não exibe um sentido significativo para esses idosos e talvez seja por isso que eles não relataram sobre esse ponto, mas isso não indica que ações velozes não foram melhoradas. Além disso, implica em dizer que sentido há em avaliar a velocidade da execução de movimentos rápidos, já que estes parecem não fazer parte do cotidiano desses idosos. Essas reflexões recaem sobre o trabalho de Hruda, Hicks e McCartney (2003), cuja preocupação foi, também, a velocidade de movimento. Os autores propuseram um estudo sobre o efeito do treinamento da potência muscular sobre o desempenho em testes funcionais, já que, segundo eles, as ações cotidianas requerem execuções velozes. O estudo demonstrou correlação significativa entre a velocidade de execução dos testes e a força muscular. No entanto, vale ressaltar, novamente, até que ponto enfatizar a velocidade de movimento é importante para os idosos. Isso significa que, no trabalho de Hruda, Hicks e McCartney (2003), a execução foi veloz porque, talvez, os idosos foram solicitados para isso, mas isso não quer dizer que eles precisam ou percebam essa necessidade no seu cotidiano. Dessa forma, pela característica do trabalho de Hruda, Hicks e McCartney (2003), fica claro que o foco estava sobre as 127 relações entre a potência muscular e algumas habilidades que, segundo os autores, compõem a capacidade funcional, e eles não tinham nenhuma intenção em definir se isso é ou não importante para o idoso. No entanto, devemos ter em mente que isso não é suficiente para determinar se um tipo de programa vai propiciar um incremento funcional que seja percebido pelo idoso participante, pois a velocidade parece não ser tão significativa, segundo os relatos dos idosos. Nesse sentido, pelos discursos analisados neste trabalho, podese observar que a percepção de melhora não residiu em realizar ações funcionais mais rápidas, não porque sejam incapazes, mas porque, talvez, não enxerguem tal necessidade ou sua condição de vida atual não exija as tais habilidades velozes. Isso vai ao encontro do trabalho de Fone e LundgrenLindquist (2003) ao relatar que idosos com a presença de doenças e com baixos níveis de capacidade funcional, não se consideram com a saúde deteriorada, e engajamse em atividades em que a demanda é suportável. Nessa direção, presumese que, para os idosos do presente trabalho, executar ações mais velozes não é mais importante em suas vidas, assim como, para os idosos do trabalho de Fone e LundgrenLindquist (2003), altos níveis de capacidade funcional e ausência de doenças (ambos avaliados por questionários) não são fatores cruciais para suas vidas. Além disso, é importante refletir se os itens de capacidade funcional e saúde dos instrumentos aplicados exibem algum significado para os idosos e dessa forma, não se sabe exatamente se sua saúde de fato é satisfatória e se sua capacidade funcional é baixa aos seus olhos, como observamos com os participantes deste estudo. Isso se fortalece ao observarmos a diversidade de relatos sobre melhoras funcionais observadas na narrativa proposta deste trabalho, dando margem a inferir que a capacidade funcional é única a cada indivíduo e que a condensação em instrumentos fechados pode não propiciar o entendimento de sua complexidade. Todavia, a percepção de melhora funcional, ou, pelos menos, das habilidades que a compõem, é manifesto na fala dos participantes, principalmente pela percepção de conforto ao realizar as atividades rotineiras. Tal comodidade foi evidenciada, principalmente, pela supressão ou diminuição de sensações dolorosas nas ações rotineiras. Esse fato é realçado pelo Sujeito C ao dizer que o programa de exercícios amenizou suas dores na coluna, e declara também que as dores no braço não melhoraram (trecho um), o que ressalta que seu referencial de melhora é a ocorrência de dores. Para o Sujeito E, também a ausência das dores foi um indicativo que sua capacidade de exercer força melhorou, discorrendo sobre o assunto com notável alegria e satisfação (trecho três). 128 Isso dá margem a inferir que o aumento da força muscular pode ter amenizado as dores relatadas, assim como o trabalho de Suomi e Colier (2003) demonstrou que a prática de atividades físicas reduz a presença de dores em idosos com artrite e eleva a capacidade funcional. Os autores alertam, entretanto, que o programa de exercícios oferecido continha atividades educacionais que objetivavam o conhecimento da artrite e como lidar com ela, fato que pode ter contribuído, também, para a diminuição das dores. Isso significa que as melhoras físicas parecem não ser a única condição para a amenização das dores. A situação proposta pela participação no programa pode ter gerado um novo modo de lidar com as dores no cotidiano, assim como a participação no programa de treinamento resistido deste trabalho pode ter sido um fator que influíu na dor e na capacidade funcional dos participantes, mesmo que não tivessem sido observados incrementos de força significativos. Dito de outro modo, não há consistência em atribuir que a diminuição das dores ou a melhora da capacidade funcional, somente à um aspecto pontual, mas, talvez, à relação em que toda uma situação vivida no programa tenha modificado a vida dos participantes a ponto de se perceberem potencialmente capazes, para além da dor. O caso do Sujeito H também se relaciona com a dor, mas em um sentido que difere dos Sujeitos C e E. Para o Sujeito H, as dores eram ocasionadas pela participação no programa, o que ocorria nos primeiros dois dias após cada sessão de exercícios, e isso revela que seu “parâmetro” de capacidade centrase também na dor. Todavia, essa dor era ocasionada pelo programa e, não, aliviada por ele, como ocorreu nos sujeitos C e E. Dessa forma, a presença, ou ausência, de dores parece balizar a percepção da funcionalidade para esses sujeitos, todavia essa diferença apontada é crucial para a interpretação do significado dessas sensações de dor. Pela narrativa dos participantes, pudemos observar que a dor relatada exibe certo significado, e que não é qualquer “dor” suprimida ou acrescentada (como ocorreu no Sujeito H) que resultará numa funcionalidade alterada. Nesse sentido, ao tomar por base as narrativas aqui apresentadas, o fenômeno “dor” não pode generalizarse como uma opção de significado único em um instrumento de avaliação. A “dor” parece surgir de contextos de vida diferentes e sua generalização parece não convir. Por ora, concentrarnosemos na existência, ou não, de dor e suas relações com essa funcionalidade ainda objetiva, mais adiante entenderemos o significado dessas sensações dolorosas. A partir dessas reflexões sobre a dor, retomase, a questão da velocidade das ações funcionais. Facilitar ou melhorar uma ação cotidiana parece não se ancorar apenas na possibilidade de execuções velozes, mas também na percepção da facilidade de ação, que pode evidenciarse num conforto de movimento, antes não 129 percebido. Nesse sentido, a observação de Weiss et al (2000) parece fazer sentido ao alertar que a velocidade de execução não contempla a totalidade da melhora funcional e que aspectos qualitativos do padrão da habilidade motora devem ser incluídos nas avaliações funcionais em idosos. No entanto, a abordagem qualitativa deve ir além da verificação do padrão motor da tarefa, como proposto por Weiss et al (2000) e Hageman e Thomas (2002), pois a percepção do idoso sobre sua funcionalidade pode ampliar a compreensão da capacidade funcional do idoso. Nessa direção, realizar uma tarefa cotidiana, mais ou menos veloz, parece não ser o indicativo mais importante de alterações funcionais, mas o referencial primeiro de melhora é poder realizálas de forma confortável, sem dores. Assim, presumese que, mesmo se os Sujeitos C e H tivessem incrementado sua velocidade de execução em suas ações rotineiras e suas dores tivessem persistido, não haveria melhora concreta da capacidade funcional. Por outro lado, podese inferir, também, que a diminuição da dor poderia possibilitar ações com mais velocidade, fato que leva a crer que a dor continuaria a ser um referencial importante da percepção da capacidade funcional para esses sujeitos. No entanto, se essas pessoas tiverem suas sensações dolorosa diminuídas e, neste caso, com maiores possibilidades de executar suas ações rotineiras mais rápidas, até que ponto tal velocidade incrementada seria necessária, ou, até mesmo, desejada? Ademais, para essas pessoas, apenas diminuir a sensação de dor já não seria suficiente para que elas percebessem melhoras na sua capacidade funcional? Nesse ponto, retomase a colocação de Weiss et al (2000) sobre as limitações dos testes motores. Os autores sustentam que a quantificação pode não detectar modificações ou melhoras e propõem, assim, análises sobre a qualidade do movimento realizado. Talvez a limitação, entretanto, não esteja no teste em si, ou em seu procedimento de coleta, mas, sim, no idoso que o realiza. Muito embora os idosos possam realizar as provas motoras de maneira mais veloz, como demonstrado por Alexander et al (2001) e Brandon et al (2000), talvez não faça sentido realizálas mais rápido e sim completálas sem dor, desconforto, medo ou sem a ajuda de outrem. Assim sendo, a limitação parece não ser do teste motor em si, mas, sim, das interpretações e inferências realizadas pelos pesquisadores. Os testes se propõem a mensurar o desempenho das habilidades, mas não se tem como considerar as percepções e os anseios que os “testados” exibem com relação às provas físicas. Talvez possam realizar mais rápido essa ou aquela ação cotidiana, mas é necessário refletir se eles querem ou precisam dessa velocidade. Dessa forma, não é ao teste que deve ser atribuído a “culpa” de uma não detecção da capacidade funcional, pois ele não tem esse intuito; ele mede o desempenho de uma 130 habilidade que pode compor um todo articulado que dinamiza a capacidade funcional, mas ele não pode “medir” a capacidade funcional se a considerarmos como um fenômeno complexo. Mediante os dados apresentados podese entender a capacidade funcional como um fenômeno complexo e, como tal, exibe uma rede de interações que impossibilita relações lineares, como a muito preconizada que a correlação entre realizar uma habilidade de forma veloz resulte diretamente em uma funcionalidade incrementada. Ainda assim, é fato que se os idosos experimentaram aumento de sua força e, concomitantemente, perceberam melhoras em sua capacidade funcional, mesmo que essa melhora tenha sido percebida pela redução de uma sensação dolorosa ou por um desempenho mais satisfatório em uma atividade cotidiana. Em outras palavras, ainda é possível notar, nesse primeiro olhar, uma relação importante entre a força muscular ou pelo menos a participação no programa e a capacidade funcional do idoso, e isso dá margem a inferir que a manutenção de seu potencial de força resulte em uma constância nas percepções relatadas. No entanto, a variação proposta no programa, com a redução da freqüência semanal, trouxe dados importantes sobre a relação entre força e capacidade funcional. O comportamento da força do grupo, em geral, mantevese no período da freqüência semanal, fato que vai ao encontro daquilo que foi reportado por Trappe, Williamson e Godard (2002) com idosos. A vantagem de reduzir a freqüência semanal, apontada por Trappe, Williamson e Godard (2002), centrase na diminuição do tempo despendido e na diminuição do custo com as sessões de exercícios: fatores bem conhecidos como determinantes da adesão à prática de atividade física. Isto parece ir ao encontro daquilo que relata o Sujeito B, com relação ao período em que o programa ofereceu um dia por semana de prática. Esse sujeito prefere exercitarse um dia por semana, porque a demanda de tempo para os cuidados com seu cônjuge e sua mãe é grande. Isso significa que a percepção de funcionalidade para o Sujeito B está na sua disponibilidade em cuidar de seus familiares e não na força que necessita para realizar suas atividades cotidianas. A diminuição do tempo de prática semanal, de fato, para esse sujeito, parece ser vantajosa, corroborando, de certa forma, com a vantagem levantada por Trappe, Williamson e Godard (2002). No entanto, devese ressaltar que esse sujeito não experimentou a manutenção de sua força no programa (vide Figura 2), e os autores citados apontam a redução da freqüência semanal como vantajosa, na condição de manutenção dos níveis de força. No entanto, se diminuir o tempo semanal de prática foi interessante para o Sujeito B, não o foi para os Sujeitos C e D. Esses sujeitos, embora tenham 131 experimentado a manutenção de seus níveis de força, sentiramse mais fracos para a realização dos exercícios do programa, o que pode ser exemplificado pelas falas do trecho quatro do Sujeito C e do trecho seis do sujeito D. Tendo em vista, então, a preocupação sobre a adesão ao exercício levantada por Trappe, Williamson e Godard (2002), podese afirmar com Velardi (2003), que um dos fatores de baixa adesão ao exercício é a percepção da incapacidade que os idosos sentem frente à atividade física, que sempre lhes parece demasiadamente cansativa e dolorosa. Dessa forma, se diminuir o tempo despendido pode aumentar a adesão ao exercício, propor aos idosos atividades que lhes pareçam muito penosas pode acentuar, por outra via, a desistência da prática. Ademais, vale ressaltar aqui que para o Sujeito D, existe um significado imanente desse desejo de manterse ativo por duas vezes por semana; isso lhe traz percepções e, por conseguinte, recordações que a fazem retomar uma história vivida que permeia a percepção de si e do mundo. Da mesma maneira, para os outros participantes, existe um sentido por traz de uma sensação de dor ou de fraqueza, há uma situação expressa nesses relatos que um estudo mais detalhado dessas percepções pode desvelar. Concentrarnosemos, ainda, nos constituintes aparentemente pontuais da capacidade funcional e mais adiante, retomaremos aos significados dessas percepções. No entanto, se o foco é a capacidade funcional e se temos em mente que esse conceito referese à realização das atividades cotidianas básicas ou instrumentais, podemos dizer que essa sensação de fraqueza não importa, já que ocorreu só no programa. Por outro lado, se a participação no programa for significativa para o idoso, ele pode considerar o programa como uma de suas atividades rotineiras e que podem passar para o conjunto de atividades da capacidade funcional. Essa reflexão vai ao encontro daquilo que, segundo Cotton (1998 apud Matsudo, 2000), propõe o American Geriatrics Society: além das atividades básicas da vida diária (ABVD) e as atividades instrumentais da vida diária (AIVD) devem ser incluídas as atividades avançadas da vida diária no conjunto das atividades da vida diária, que se referem a funções específicas para cada individuo, no tocante a poder viver sozinho. Esse grupo de atividades avançadas inclui as funções ocupacionais, recreacionais de prestação de serviços comunitários. Assim, se a participação no programa pode ser incluída no grupo das atividades da vida diária, sentirse fraco na participação no programa, é sentirse funcionalmente incapaz. Além disso, sentirse mais fraco para a realização dos exercícios de força pode implicar em sentirse menos capaz para a realização de suas atividades rotineiras mais básicas. Ainda temos o caso do caso do Sujeito H que, relatou que o programa, em sua fase inicial, causoulhe dores. Dessa forma, ao reduzir a freqüência semanal 132 esperavase, que as dores também diminuíssem, pois o estresse sobre seu corpo seria menor. No entanto, não foi isso que percebeu esse sujeito. Para ele, o período de manutenção foi desagradável, difícil, pois além de sentirse mais fraco, retornavam as dores devido a um longo período de pausa entre as sessões. Todavia, devese ressaltar que esse participante experimentou aumento de força, bem como sua manutenção no programa proposto (Figura 8). Dito de outro modo, para ele, parece não ser importante se consegue levantar a mesma magnitude de carga, mas que se sinta capaz de suportar confortavelmente essa demanda. Dessa forma, a manutenção da força não é suficiente para que o idoso continue a sentirse com a mesma funcionalidade que conseguira perceber no momento anterior. Nos casos relatados, ou é a sensação de fraqueza que surge (Sujeitos C e D) ou é a sensação dolorosa que se eleva (sujeito H). Além disso, não é possível estabelecer se a força adquirida no período inicial (dois dias semanais) foi responsável pelos relatos de melhoras funcionais já descritos, já que sua constância no período de manutenção não foi suficiente para que os idosos continuassem a relatar incrementos na capacidade funcional. Assim, inferese que a situação proposta pelo programa, no inicio, motivou a expressão da capacidade funcional a partir de vivências particulares, mas isso não se deve apenas à força desenvolvida e outros fatores podem ter contribuído para essa funcionalidade incrementada. A percepção de outrem, a revelação da percepção de outrem sobre si, uma situação vivenciada, um fato ocorrido, a força aumentada, a percepção de si, uma situação expressa. Cada um desses caracteres pode ter contribuído para a percepção da capacidade funcional ou a interação de todos eles. O ambiente criado para a realização do programa de treinamento resistido pode ter motivado a percepção da capacidade funcional e não apenas a elevação da força muscular em si, tanto no primeiro como no segundo momento do programa. Com relação aos relatos dos Sujeitos B e G, podemos levantar algumas considerações acerca das tradicionais avaliações da capacidade funcional realizadas por instrumentos fechados. Como já citado, Meuleman et al (2000) observou que, com um instrumento de autoavaliação, não foi capaz de detectar alterações funcionais, mediante um aumento de força de 226%. Isso pode decorrer das características do instrumento que não oferecem opções suficientes entre questões e alternativas de respostas, que revelariam alguma alteração funcional. Essa argumentação proposta por Stessman et al. (2003) concretizase no momento em que os autores propõem um item “mais sensível” no instrumento Katz, já explicitada no primeiro bloco. Nesse ponto, podemos analisar os casos dos sujeitos B e G. Fica claro em sua narrativa que eles tentam “encaixar” aquilo que é atribuído como verdadeiro no que se 133 relaciona idealmente à capacidade funcional, ou seja, o desempenho em ações domésticas tidas como universais, com a situação em viveu a partir da participação no programa. Dito de outra maneira, eles tentam responder aquilo que deveriam ter percebido, já que participaram de um programa de exercícios de força e, como se veicula incessantemente, é de conhecimento comum que esse tipo de atividade incrementa funcionalidade dos idosos. Isso ficou denunciado a partir das diversas pausas para reflexão e solicitação ao entrevistador para que confirme suas idéias, no sentido de que os participantes B e G precisavam identificar o que, de fato, seria a resposta adequada, o que normalmente ocorre com quem participa de programas de treinamento resistido. Dessa forma, oferecer mais opções de respostas nos instrumentos de auto avaliação da capacidade funcional, como apontou Litvoc e Brito (2004), seria possibilitar que o idoso se adequasse com aquilo que seria freqüente e coerente no plano ideal para idosos que participam de programas de exercícios resistidos. Nesse sentido, o idoso teria que adequar suas vivências funcionais àquilo que é proposto no instrumento que lhe é solicitado o preenchimento, mas não tem espaço para expressar suas percepções mais diversas. A diversidade de questões e respostas possíveis possibilitaria ao respondente o enquadramento de diversas situações, que não seriam necessariamente aquelas que vivenciam ou vivenciaram. Os discursos dos Sujeitos B e G vão na mesma direção, eles sabem o que deveriam ter percebido com relação à participação no programa de exercícios e suas repostas teriam vindo com mais precisão se eles tivessem consigo um rol de possíveis, pelos quais poderiam direcionar “corretamente” suas respostas; situação que um instrumento fechado oferece com abundância. Assim, possibilitar ao idoso mais e mais opções de questões e repostas sobre sua funcionalidade é encaixálo em um quadro de generalidade que pode sufocar suas significações mais profundas sobre sua funcionalidade. Isso significa que o andar, o subir, o carregar, arrancados dos fios que os conectam à vida dos idosos, dissipamse na generalidade e surgem como solução para aqueles que não vivenciaram essas ações e todas as outras, tidas como gerais, no momento em que são solicitados para falar sobre sua funcionalidade. Isso significa que as ações cotidianas, concebidas como gerais, só serão significativas se se mantiverem conectadas no contexto de vida da pessoa. Assim, para os Sujeitos B e G, as ações funcionais, freqüentemente incrementadas via treinamento com pesos, só tem um sentido ideal, o da consciência intelectual, mas não exibe sentido existencial; não é sobre aquilo que vivenciam, que discursam, mas sobre aquilo que teriam que ter vivenciado, já que todos aqueles que participam de programas dessa natureza devem experimentar tais mudanças “padrões”, e com eles não seria diferente, pois fazem 134 parte do mesmo grupo. Além disso, já que é algo tão geral, que acontece com todos, a idéia centrase também no fato de quem não sente isso, está fora do padrão, então, se as melhoras não foram vivenciadas, o escape é presumir que elas aconteceram, para não se incluir num grupo de “anormais” ou “diferentes”. Por isso, é que é freqüente nas respostas dos Sujeitos B e G, a colocação dos sujeitos das frases com o termo “ a gente”, ou seja , um grupo de pessoas como eles, todos eles, “a gente”, sente isso mesmo, por isso eu também devo ter sentido, devo ter melhorado é o que deve ser certo. Essa concepção analítica desses sujeitos será explicitada com mais detalhes adiante no estudo de suas percepções. As colocações de Litvoc e Brito (2004) sobre as características técnicas dos instrumentos para a aferição da capacidade funcional vão na direção de que aqueles que oferecem maiores possibilidade de questões e respostas, bem como níveis classificatórios diversos, abrangem de forma mais geral a capacidade funcional. Se mantivermos o pensamento nessa direção, somos levados a crer que agregar e diversificar as opções de ações funcionais levarnosá a uma maior precisão sobre a capacidade funcional do idoso. Nesse ato de agregar mais opções sobre a capacidade funcional, exibese uma ênfase nos constituintes da capacidade funcional, mas exime se, ainda mais, as relações que esses podem estabelecer com o contexto de vida e entre si. Retornaríamos, assim, ao problema anterior, no qual o andar, o caminhar ou o carregar exibem sentidos únicos para aquele que vivencia, e tal significado continuaria sufocado e a generalidade se assentaria novamente. Assim sendo, parece que definir a melhor forma de compreensão da capacidade funcional pela quantidade de habilidades físicas que podem ser verificadas em um instrumento fechado é, justamente, obter conhecimento apenas sobre tais habilidades que, isoladas do pano de fundo vivido do qual se destacam, não contemplam a complexidade imanente da capacidade funcional do idoso. Nos discursos descritos, as melhoras funcionais relatadas, como a possibilidade de carregar móveis (Sujeito A), a aptidão percebida pelo Sujeito D para subir escadas, ou a facilidade em carregar as netas (Sujeito F), conectamse por fios de significação a situações vividas que fazem com que essas ações sejam percebidas como melhorias funcionais significativas. Da mesma maneira, a diminuição de sensações dolorosas, como relatado pelos Sujeitos C, E e H, são referenciais de melhora porque estão ligados a uma história de vida e, por conseguinte, de significação, que fazem exacerbar a dor como um indicativo da capacidade funcional percebida. 135 Na visão de MerleauPonty (1999), 12 a percepção sempre traz consigo um rasto de historicidade e sempre supõe certo passado do sujeito da percepção. Nunca é alheia ao contexto em que se estabelece, nem tampouco é uma operação intelectual que eximiria a operação do corpo como nosso instrumento perceptivo e, por conseguinte, de conhecimento do mundo e de si. Dada a percepção de um objeto, por exemplo, só o conhecemos a partir das relações que este faz com o contexto: sobre a luminária com a qual iniciei o estudo da percepção acima descrito, só tenho o conhecimento dela a partir das relações que ela estabelece com a mesa na qual está posta, pelo fundo opaco que se destaca e pela iluminação aos meus escritos que ela traz. Para o filósofo, todo percebido está relacionado a um campo perceptivo, isso significa que o percebido por si só, não é possível, mas só o é, pelas relações que estabelece com o contexto. E a luminária que descrevia só existe para mim porque ela emana certo significado, que eu retomo a partir de minha operação corporal. Assim, é a partir da percepção “de um só golpe” da luminária em todo o seu contexto é que podemos discernir caracteres pontuais, descrevêla. Na mesma direção, os idosos só puderam descrever suas habilidades incrementadas da capacidade funcional porque a destacaram do contexto de vida e a relataram. Com efeito, não a perceberam isoladamente, mas ao contrário, por estarem ligadas ao seu contexto de vida é que puderam ser percebidas e, por conseguinte, significadas em sua existência e, por fim, expressas pela fala. A percepção arrasta consigo um legado de significações que se expressam através do engajamento do corpo no mundo; um saber que antecede qualquer operação intelectual tida como superior e a pressupõe em todos seus atos. A percepção do mundo, do espaço, das outras pessoas, das coisas revela a percepção de si e se expressa através de nosso poderio corporal, arrastando consigo sua historicidade. A funcionalidade percebida pelos participantes deste estudo se deu, então, pelo contato deles com sua espacialidade, nas relações com o outro e, por conseguinte, com o mundo. Dessa forma, cada ação relatada não está isolada de um contexto de vida, de um mundo que suscitou nos participantes uma operação corporal, e esses a corresponderam com a expressão de sua motricidade, permeada de um mundo de significado. Assim, uma exploração do espaço cotidiano, um relato de outrem sobre si, a rememoração de uma situação vivida expuseram, através de um de nossos poderios expressivos, a fala, significações por traz de habilidades funcionais aparentemente cristalinas. Nessa direção, entendese, aqui, que a capacidade 12 Todas as citações de MerleauPonty nesse bloco, referemse à Fenomenologia da Percepção (MERLEAUPONTY, 1999). 136 funcional percebida é sempre habitada por um sentido; nunca é um contato mudo; sempre fala ao sujeito da percepção através de um rol de significações latentes. A retomada de um contexto vivido é característica do ato perceptivo e é a base para compreendermos os significados dessas percepções. Para MerleauPonty (1999, p.88), a “luz de uma vela muda de aspecto para uma criança quando, depois de uma queimadura, ela deixa de atrair sua mão e tornase literalmente repulsiva”, ou seja, as relações que temos com o percebido transcendem aquilo que dele temos em geral. Assim, a percepção de algo faz com que o passado tornese presente pela operação primeira do corpo; pode trazer à tona significações remotas que de sofrimento exibem seu significado. A percepção de uma situação de emagrecimento, como relatado pelo Sujeito D, faz com que ele exiba uma repulsa a essa situação, que lhe traz lembranças de um processo doloroso, a doença que fez seu marido definhar sob seus olhos. Assim como a percepção da luz de uma vela motiva repulsa em uma criança mediante sofrimento de uma queimadura, a percepção de emagrecimento motiva um sofrer remoto que se torna presente pela metamorfose do corpo. Dessa forma, manterse com suas capacidades funcionais em plena atividade, sentirse com o joelho em pleno funcionamento, subir escadas diversas vezes, é perceberse funcionalmente capaz, o que redunda em sentirse disposta para comer, e por isso, não definhar, como aconteceu com seu falecido cônjuge. Freqüentar o programa, duas vezes na semana, também, mostrase como um motivador para sua fome e, assim, sentese menos propenso a emagrecer e não definhar como seu marido. Levase a inferir que se o programa não lhe tivesse propiciado melhoras na direção de perceberse mais capaz de realizar atividades que lhe mostravam que não ficaria acamado, não teria percebido melhorias funcionais. E essa ligação com o passado é que faz com que essas atividades sejam significativas no que diz respeito à sua capacidade funcional. Nesse sentido, manterse funcionalmente bem é perceber se e, por conseguinte, perceber o mundo, não como repulsivo, mas, sim, atraente, possível, explorável, sem receios. É dominar o espaço, é existir. Essa retomada de um passado iluminase, também, com a compreensão do aparecimento do membro fantasma em amputados. MerleauPonty explica que o surgimento do membro fantasma pode depender da história pessoal do amputado, de suas recordações, de suas emoções, ou de suas vontades. O aparecimento de um fantasma materializa uma situação na qual o corpo se dirige à ações habituais e, na falta de um membro “real”, o fantasma o substitui e mantém o corpo ligado às suas ações habituais. A percepção faz com que o corpo materialize situações passadas, mas não é uma simples recordação que faz o membro fantasma surgir, mas, sim, a emoção que ele traz sobre aquele antigo presente que não se quer tornar passado. 137 Ter um membro fantasma é fazer possível a atitude existencial de corresponder ao percebido que suscita todo o momento um braço mutilado. A recusa à amputação é uma situação existencial que circunda o amputado e o corpo, ao materializar um membro, mesmo que fantasma, consuma, de fato, essa recusa. Dessa forma, para o Sujeito D, sentirse fraco, propenso ao definhamento, é a maneira particular que seu corpo exprime uma situação passada e a materializa no presente. Perceberse funcionalmente capaz, para esse sujeito, é perceberse ativo no mundo, longe de um processo de emagrecimento, com o poder de distanciarse de um passado sofrido que o aproxima da morte e que, no entanto, é revivido a todo o momento pela operação do corpo. Estar em pleno funcionamento corporal é ter vontade de comer e ter fome, podese assim dizer, para esse participante, é ter vida. Ainda podemos dizer que a percepção do emagrecimento é a forma de expressão do Sujeito D sobre uma situação que viveu, e que emoções passadas tornamse presentes por esse poderio corporal, já que para MerleauPonty, o corpo pode expressar uma dada situação. Vejamos o caso do Sujeito A, e entenderemos como sua funcionalidade é percebida através do exercício de expressão competente ao corpo próprio. Na análise do Sujeito A, encontrase por traz de seus relatos sobre sua indispensável participação na mudança dos filhos, o papel de cuidador, que exerceu ao longo de sua vida, e ainda o faz, na maioria das ocasiões, com satisfação. Nos trechos quatro, seis e sete, é notável a satisfação com que ele descreve suas atribuições constantes no papel de cuidar. De maneira geral, é evidente que esse Sujeito assume um papel de cuidador e suas melhoras funcionais estão ligadas a essa sua função, assim como o membro fantasma está ligado a “funções” habitualmente exercidas por esse membro, como explicado acima, segundo MerleauPonty. Levantar móveis com facilidade só foram ações significativas, passíveis de serem relatadas como percebidas, porque se inseriam no contexto da mudança de seu filho. O desempenho, nessas ações, significou a expressão de seu poder sobre uma situação que lhe exigia de suas competências como cuidador. É evidente que ele exibia um profundo grau de satisfação em ser o ponto de apoio primeiro para seu filho e família; há uma significação existencial no ato de carregar os tais móveis. Essa situação, vivida pelo Sujeito A, suscita uma operação existencial para si, a assistência, o cuidado, as relações com outrem que o fazem de fato Ser. O ambiente propiciado pela mudança de seu filho, possibilita um campo significativo que o Sujeito A percebe, e, por conseguinte, percebe a si, através desse poder oferecido pelo corpo de retomar uma situação percebida, dado o fundo emocional no qual a situação se desdobra. Assim, a expressão de cuidador, que transparece em um relato de uma 138 funcionalidade melhorada do Sujeito A, é a retomada e a expressão de uma situação na qual a participante vive e, por isso, é significativa para si. Esse carregar de móveis é relatado como melhora funcional porque retoma uma função primordial de sua vida, o apoio a outrem, nesse caso seu próprio filho. Presumese, então, que, se esse sujeito tivesse realizado a mesma ação motora, mas que não fosse relacionada à sua atribuição de cuidar, esse movimento não teria sido percebido como melhor no sentido funcional. A capacidade funcional, ademais, não pode mais ser tratada, nesse momento, como simples habilidade física, mas, sim, como uma ação motriz que, por isso mesmo, já é investida de um sentido. A expressão de uma situação também está presente no ato de carregar os netos no colo, como podemos observar os relatos do Sujeito F. A percepção da facilidade em segurar os netos em seu colo, expressa pelo corpo próprio na região da coluna (trechos um e três), é conectada por relações emocionais ao sofrimento que viveu ao experimentar um enfarto, um ano após a morte, também por infarto, de um de seus filhos. Foi à coluna que esse sujeito atribuiu os primeiros sintomas do enfarto (trecho quatro), e é por essa via que o corpo manifestou essa situação vivida. Esse caso vai ao encontro do caso das “mãos imprestáveis” de Madeleine, o caso relatado por Sacks (2003), descrito acima. Foi através das mãos que o corpo pôde expressar a situação da assistência ininterrupta na qual sempre viveu, assim como através da fala o corpo da afônica, relatada por MerleauPonty, pôde expressar uma situação de interrupção da coexistência. Sentir dores na coluna e carregar os netos são ações que exibem o significado da morte de um filho e expressamse pela possibilidade do ato materno do abraço, do carinho, do amor, da emoção. Perceberse apto a cuidar de seus netos é perceberse longe de uma situação de sofrimento, de morte, e, é, de fato, funcionar bem, coexistir. A partir dessa possibilidade de expressão poderemos compreender também que a capacidade funcional pode ser vista no domínio do espaço pelo corpo. O corpo, na visão de MerleauPonty, é um espaço eminentemente expressivo, e esse poderio expressivo é literalmente nosso poder sobre o espaço. MerleauPonty destaca que percebemos o espaço e, por assim dizer, o habitamos a partir do momento em que uma dada percepção solicita um movimento, e conseguirmos corresponder a essa solicitação, que possamos colocarnos em situação. Para o Sujeito F, sua funcionalidade é literalmente sentirse com um poder tal sobre seu espaço que ela pode corresponder à situação percebida, no caso, a solicitação de carinho de seus netos. Dito de outro modo, esse sujeito de fato pode usufruir de seu espaço de avó, quando ele corresponde à percepção da situação que lhe é apresentada. 139 E essa relação com o espaço (e com o tempo), como disse MerleauPonty (1999), é uma relação fundamental da existência. É, então, na possibilidade de exercer essa dimensão fundamental de sua existência que o Sujeito F percebe sua funcionalidade, sua potência de existir. De acordo com MerleauPonty, isso ocorre porque a percepção é intencional, porque ela retoma um significado que o percebido lhe apresenta e o percebido lhe propõe certa forma de existência, no caso do Sujeito F, a existência de avó. Abraçar sua neta é possível porque a percepção propicia, através do poderio “préobjetivo” do corpo próprio, a correspondência do amor percebido em sua neta. Segundo a colocação de MerleauPonty sobre a percepção do outro, podemos dizer que o Sujeito F percebe o gesto de carinho de sua neta, na medida em que há uma reciprocidade entre suas intenções, como se nossas intenções maternas habitassem um o corpo do outro. Ou seja, como explica MerleauPonty, o corpo é um sistema integrado se organiza com vistas a retomar uma percepção, sem que seja necessário um pensamento intelectual interposto, que decidiria o que fazer dado um rol de possíveis. Assim como correspondo a um aceno de um amigo, por um saber latente que faz do corpo nosso instrumento perceptivo. No entanto, ainda poderia se dizer que no caso dos sujeitos A e D, essas condutas, o cuidado materno, estão instituídas naturalmente e é por ocasião do instinto que essas mães estabelecem as condutas relatadas, e isso nada tem de relação com uma situação significativa. MerleauPonty explica que condutas passionais, como abraçar no amor, ou gritar no medo, são criadas pelo mundo humano e mesmo aqueles que nos parecem os mais instintivos são, na verdade, instituições. Dessa forma, olhandose para a significação existencial das percepções relatadas, ser avó (Sujeito F) ou cuidadora (Sujeito A) ou simplesmente afastarse da morte (Sujeito D), descobrimos que eles têm um significado com relações fundamentais da existência, ou seja, nossas relações com o passado e com o futuro, com o eu e com o outro. Assim, podemos dizer que a capacidade funcional percebida pode ser uma forma de expressão da condição humana, de suas relações com o mundo. No caso da afônica, que falávamos há pouco, pudemos perceber que o significado de seu distúrbio da fala traz uma situação vivida que coíbe a coexistência, expressando, por assim dizer, uma relação existencial. Restanos saber, então, por essa mesma via existencial, que significado a dor relatada pelos participantes C, E e H exibe em suas vidas; o que a supressão de uma sensação dolorosa significa com relação à sua funcionalidade. No caso do sujeito C, a supressão de dores na coluna foi um de seus relatos sobre melhoras funcionais (trecho um). Isso se conecta à situação que viveu com sua 140 mãe, que lhe deu muito trabalho por ocasião do surgimento de diversas doenças (trechos quatro e cinco). A supressão da dor representa o distanciamento de uma situação que fora vivenciada com sofrimento, e se expressa através da região da coluna, pois sua mãe também apresentava desvios na coluna e a participante atribui que herdou esses problemas (trecho cinco). Assim, a existência da dor é a materialização de uma situação vivida, do convívio íntimo que estabelecia com o sofrimento de sua mãe, de um vínculo afetivo e emocional que vivenciava. Em outros termos, melhorar sua capacidade funcional é livrála da dor que representa o sofrimento de sua mãe e o seu próprio ao cuidar dela; a dor aqui tem um significado afetivo que nos impede de a analisarmos apenas pela via fisiológica. O relato de melhora de dor com melhora funcional, então, estabelece um vínculo afetivo, não passar pela dor de sua mãe é o que retoma a percepção de sua funcionalidade. A percepção, explica MerleauPonty, estabelece vínculos afetivos. O filósofo relata o caso de um paciente de cegueira psíquica que consegue reconhecer a picada de um mosquito em sua pele, mas não reconhece o toque do médico no mesmo ponto de seu corpo. Fisiologicamente, os dois estímulos são muito próximos para uma distinção biológica, mas o entendimento desse caso é possível se o valor afetivo dessas duas estimulações for levado em conta. Assim, não é qualquer dor suprimida que levará o Sujeito C perceberse funcionalmente eficaz, mas, sim, a dor de sua coluna é que efetivamente estabelece um valor afetivo: talvez o mais ovacionado, o amor materno. Na mesma direção, podemos levar nossas reflexões sobre o Sujeito E. Esse participante relata, no primeiro momento, que se percebeu mais capaz de carregar baldes volumosos e, também, seus netos. Ele explica que se percebeu mais capaz a partir do momento em que pode exercer tais ações sem que ficasse com dor, sem que se machucasse, sem que suas costas ficassem doloridas. Essas sensações dolorosas exibem uma conexão com um sofrimento vivido, a morte de sua mãe; aliás, não só dela, mas também de dois de seus cunhados e sua sogra. Há um sentido afetivo na supressão dessas dores com relação à sua funcionalidade: o distanciamento da morte do outro, a interrupção da coexistência. Da mesma forma, há um afeto, uma emoção que faz surgir um membro fantasma, como descrito por MerleauPonty, mas, aqui, em um sentido inverso: o membro fantasma é bem vindo, ao passo que a dor não é bem quista, pois representa algo que o sujeito quer manter a distância. No entanto, manter a distância, esquecer, é admitir, como explica MerleauPonty, que temos essa recordação como pertencente a uma região da minha vida que recuso e que pertence a um setor distante de minha vida porque ela significa algo para mim. Dessa forma, presente ou ausente, essas dores são significativas a um passado histórico. O esquecimento, segundo MerleauPonty, é um ato; eu conservo essa recordação à 141 distância, da mesma maneira que desvio daquilo que não quero esbarrar; eu só o faço porque sei que ele está ali. Assim, sentirse funcionalmente capaz é poder manter à distância a dor dos falecimentos das pessoas que amava, é distanciarse da situação vivida que a dor traz à tona. Cair. Essa é a situação que o Sujeito H quer esquecer, assim como aqueles que discutimos acima querem manterse à distância. Cair representoulhe muitas dores e é essa a situação que a presença de dores faz o participante reviver. Perceberse funcionalmente bem é perceberse sem dores no braço e na perna (trecho um), o que a fazem retomar diversas quedas sofridas ao longo da vida. Até esse ponto, podemos identificar o que as habilidades destacadas por cada participante como influenciadas pelo programa de exercícios resistidos. Podemos observar que existe um significado existencial no aparentemente cristalino carregar, andar ou subir. Ademais, podemos observar como essas percepções revelam sua autenticidade através da operação do corpo como nosso meio de expressão e, por conseguinte, de significação. Em cada ato perceptivo discutido acima pôdese estabelecer uma relação existencial, para além do conhecimento fisiológico de cada habilidade funcional destacada de seu contexto. No entanto, resta entender porque ainda não nos atemos à discussão dos Sujeitos B e G. Será que a percepção sobre sua funcionalidade mediante a participação no programa não foi autêntica? MerleauPonty descreve que o ato do entendimento, da análise intelectual, do juízo, não é a gênese da percepção. Isso fica claro ao olharmos o caso dos Sujeitos B e G. Notase com clareza um verdadeiro ato de interpretação para a definição de suas melhoras funcionais, claramente definidas em tese. No relato do participante B, no primeiro momento, tentase a acreditar que programa resultou em melhoras de força de pernas e braços para andar e carregar sacolas, respectivamente. No entanto, a análise de seu discurso pode demonstrar que, ao relatar tais possíveis melhoras, há uma clara tentativa de alçar à consciência aquilo que é certo, aquilo que ela deveria responder sobre melhoras funcionais. O locutor exemplifica o que seriam tais melhoras, mas esses exemplos esvaemse na generalidade, principalmente ao utilizar o termo “a gente” diversas vezes, como explicitado em sua análise. Realiza várias pausas para reflexão e pede constantemente a confirmação do entrevistador sobre a veracidade de seus relatos. Essa participante exemplifica o que, em tese, se concebe por melhoras na capacidade funcional; não se remete à experiência vivida, mas, sim, à idéia que constitui a capacidade funcional. MerleauPonty explica que o pensamento intelectualista leva o percebido para o plano das idéias e busca constantemente 142 condições para que o percebido seja possível e sem isso ele não existiria e, assim, não revela o funcionamento próprio da percepção. Mas, na análise de seu desempenho no programa proposto, podese notar que o Sujeito B não apresentou incrementos de força significativos. Esse fato parece elidir a questão e faznos retornar ao ponto de que ele não relata claras melhoras funcionais, porque, de fato, tais incrementos não foram obtidos, já que sua força muscular não aumentou e, em alguns exercícios, até diminuiu. E assim, a correlação entre força e capacidade funcional parece fortalecerse. Na análise do caso do Sujeito G, entretanto, notamos uma situação semelhante com relação ao seu discurso, mas inversa com relação ao comportamento de sua força muscular. Ele relata (trecho dois), como o faz a participante B, diversos exemplos do que seriam os resultados da melhora funcional a partir do aumento da força, mas, ao recolocálos em sua experiência de vida, não fica claro se ele experimentou essas diferenças em seu cotidiano. Ele conclui que, já que ele participou de um programa de exercícios resistidos, ele deveria apresentar essas mudanças funcionais, ele sabe (no domínio intelectual, portanto), justamente por essa associação comum forçacapacidade funcional, que, se ele precisar, ele deve possuir mais força. No entanto, nesse caso, não podemos atribuir essa dificuldade de expor suas melhoras funcionais à sua resposta muscular ao programa de exercícios resistidos, pois ele apresentou melhoras significativas de força em todos os exercícios que realizou. Tentar formar a percepção da capacidade funcional através daquilo que temos dela em idéia, é a tentativa marcante nos discursos dos sujeitos B e G, é a forma intelectualista de perceber que não opera com consistência e se esvai em tentativas frustradas de alçar à consciência o que é certo. Não é questão de dizer que esses sujeitos nada perceberam, o que seria cair de novo na teoria intelectualista de que há um percebido correto que deve ser identificado. O que pode ter ocorrido é que, no momento de relatar suas percepções sobre sua capacidade funcional, os sujeitos, ao se depararem com a não melhora percebida, tentam buscar aquilo que eles deveriam relatar como correto e, nesse impasse, preferem a descrição do que, em tese, seria verdadeiro, para que não sejam incluídos no grupo de “anormais”. Assim sendo, para os Sujeitos B e G, ficou evidente, em seu discurso, a dificuldade de enxergar melhoras em seu cotidiano, mediante a participação no programa de exercícios; e que ambos trouxeram uma capacidade funcional em idéia, mas não em existência. Em um primeiro momento, poderíamos atribuir isso a um desempenho insatisfatório no programa, fato que ocorreu com a participante B, mas que não aconteceu com o participante G e, por isso, parece que a elevação da força 143 muscular não é condição primeira para a percepção de um nível funcional incrementado. Ao discutirmos, acima, as relações entre os relatos sobre a capacidade funcional, nos deparamos com a situação do Sujeito D que, embora não tenha realizado exercícios para os membros inferiores e quando os realizou foram muito pouco intensos, descreve melhorias funcionais com relação à capacidade de subir escadas. Isso levanos a crer que sua percepção está equivocada. No entanto, o estudo em que MerleauPonty descreve sobre a figura de Zollner podenos levar a um início de entendimento sobre esse caso. No estudo da ilusão de Zollner (Figura 9), se cobrirmos os traços pequenos, que estão distribuídos sobre as linhas maiores, poderemos ver essas que essas últimas são paralelas. Ao introduzir linhas auxiliares, as linhas, que antes se davam à percepção, como paralelas, deixam de ser. Na figura de Zollner, as linhas principais, ao receberem linhas auxiliares, livraramse do antigo sentido para adquirir outro; as linhas auxiliares fazem da figura jorrar uma significação nova que não pode mais ser destituída. Da mesma maneira, a situação oferecida pelo programa, trouxe um novo sentido à vida do Sujeito D. O corpo aprendeu uma nova significação ao ser exigido nas situações do programa e fez com que a percepção de subir a escada, que antes lhe tornava repulsiva, porque poderia lesionarlhe o joelho e, provavelmente, o período de convalescença o levaria a um temido emagrecimento, tornarase atraente por uma nova configuração que o corpo adquiriu ao participar da situação do programa; da mesma maneira que a figura abaixo tem uma nova configuração e, por isso, um novo sentido ao introduzir linhas auxiliares. E podemos notar que, para isso, não foi condição primordial o incremento de força dessa região. Dessa forma, parece que o sentido global da situação é o fator motivante da percepção da capacidade funcional desse sujeito, para que ele possa se sentir capaz de subir as escadas. Figura 9 – Figura de Zollner 144 Isso pode ocorrer porque, como dissemos mais acima, o corpo é um sistema integrado, e seu esquema corporal corresponde a uma percepção a partir da organização de seus constituintes, tendo em vista uma tarefa a realizar. Dessa forma, podemos inferir que para o ato de subir escadas, o corpo não precisa necessariamente de uma força correspondente de membros inferiores, mas, sim, que sua situação global possa corresponder a essa situação. No caso do Sujeito D, a significação nova que o programa trouxe para sua vida, referese à possibilidade de manterse ativa e, como ele ressalvou, não emagrecer. Visto de outro modo, poderíamos ainda destacar que a impossibilidade de subir escadas foi a forma do corpo de exprimir um situação de medo que permeava esse sujeito. E banida essa situação, então, pela participação no programa, ele pôde retomar essa atividade cotidiana, sem receios, sem medo. Ainda podese inferir que o problema vivido com o joelho é o efeito de uma situação de pavor que rondava esse sujeito, fato que levanos a repensar a noção causal deste caso: os problemas do joelho não são a causa de uma situação de impossibilidade de subir escadas, mas, sim, tal impossibilidade, um mundo de situações vividas que se expressaram por um joelho deteriorado. Diante de todas essas significações apresentadas, podemos observar que para cada participante o sentido de sua capacidade funcional arrasta consigo um mundo próprio. Dessa forma, cada relato funcional descrito não está apenas conectado mas mergulhado num emaranhado de significações no qual a causalidade linear não tem espaço para se assentar. Quando vimos, acima, que cada participante relata uma habilidade funcional distinta, a possibilidade de carregar um neto, de sentirse faminto, de operacionalizar a mudança do filho, enfim, todas aquelas já descritas, não podemos agora, depois da análise dessas percepções, colocálas na categoria da aleatoriedade. Assim, se dissemos aqui que a percepção da capacidade funcional é significativa, porque os gestos que a compõem também o são. Isso posto retomo aqui um caso descrito por MerleauPonty que parece elidir essa questão. MerleauPonty relata um caso de um doente com cegueira psíquica, que não consegue localizar um ponto no corpo se o médico o toca com uma régua, mas o localiza se um inseto o picar. O mesmo doente não consegue imitar um movimento de seu oficio se não o faz concretamente, todavia, o realiza sem problemas em seu ambiente de trabalho. Isso significa que cada situação exibe um valor afetivo, e só poderemos reconhecer isso, se não reduzirmos o corpo a condição de objeto; aquele que pode ser explicado pela causalidade linear. O movimento concreto no trabalho e seu correlativo virtual, sua imitação, acionam os mesmos segmentos corporais em intensidades muito próximas, e o que difere o sucesso de sua operação 145 é o valor afetivo que um e outro exibem para o doente. No caso do doente, ele só consegue levar à cabo movimentos que exibem um valor afetivo e prático para si. A lição que podemos tirar dessa análise de MerleauPonty centrase na idéia de que por mais similares que os movimentos corpóreos possam ser, em sentido mecânico, eles exibem significados distintos. Levantar um neto só pode ser relatado como um melhora funcional, porque exibia em si mesmo um vínculo afetivo que o fez destacarse de um rol de movimentos não expressamente significativos como este. Realizar o mesmo movimento, que não objetiva levantar um neto, por exemplo, poderia não ter sido relatado como melhora funcional, pois não exibiria a mesma significação anterior. É nesse sentido que justamente essa ou aquela habilidade funcional é relatada, essa ou aquela dor que é referida, porque esses caracteres só foram percebidos porque tinham certo sentido. E devemos entender esse sentido, em todas as acepções que ele pode ter (o sentido de um rio ou de um texto), porque a partir dele podemos compreender em que se assenta cada percepção relatada, ele é a direção para compreendermos uma vida inteira de significações. Poderemos entender isso melhor pela explicação de MerleauPonty, pois para o filósofo a vida perceptiva estende um arco intencional que projeta em torno de nós nossa vivência temporal, nosso meio humano, nossa situação moral, física ou ideológica, ou ainda, faz com que estejamos situados sobre todos esses aspectos. É esse arco intencional que faz significar cada uma das percepções aqui relatadas. Essa gama de situações, que seguem cada ato perceptivo, levanos a compreender a complexidade da percepção, nesse caso, da percepção da capacidade funcional. Pudemos observar que as relações lineares almejadas pelo saber positivo esvaemse no olhar do sujeito perceptivo que abarca uma experiência vivida muito antes de qualquer ciência. Vimos não mais ser possível, ao olhar para a percepção da capacidade funcional, atribuir sua melhora (ou piora) apenas ao incremento da força muscular, pois observamos sujeitos que exibiram melhora de força sem incrementos funcionais percebidos tanto quanto pudemos verificar a situação inversa. Esses casos levamnos a pensar em um outro nível de análise, pois a clássica causalidade positiva, aos olhares do sujeito perceptivo, caíram por terra. Podese compreender, então, que toda a situação de vida desses participantes tomou novo sentido ao entrelaçarse com a proposta do programa de exercícios resistidos. Dessa forma, entendese que essa relação dinamizou percepções acerca de sua funcionalidade, mas não se pode identificar a quem compete a causa ou o efeito dessas percepções. Isso posto, podemos ver que, ao estudar a capacidade funcional percebida, estamos lidando com um mundo distinto, que está além daquele preconizado pela 146 ciência positiva, que pensa a capacidade funcional a priori e por subtração. O idoso do status funcional um é aquele do nível cinco, menos os outros subjacentes, ou ainda, o idoso funcionalmente capaz é aquele que é velho, mais todas as habilidades que um jovem pode exibir. Mas, ao olharmos o idoso como uma existência distinta, sem operações que o levem à mera soma das partes, entendemos a razão da impossibilidade de se enquadrar os idosos deste trabalho com as classificações funcionais disponíveis; há uma existência única que impede a generalização e o determinismo dos níveis classificatórios. Isso se relaciona com o que foi dito acima sobre o mundo do cego: ele tem seu espaço, seu mundo, que não é compreensível apenas pela diferença daquele que enxerga. Enveredar no mundo desses idosos levounos a refletir sobre sua recolocação no mundo percebido. Tratálos como um causalidade inerte, passível de subsunção ao mecanicismo da ciência clássica é, de fato, ignorálos como sujeitos no mundo. Os estudos, apresentados aqui, versam apenas sobre aquilo que se pensa ser importante para a vida de quem envelhece, dando margem a inferir que o sujeito perceptivo nada tem a contribuir e ele passa a ser um mero coadjuvante. No entanto, tendo como horizonte as percepções aqui relatadas verificamos que o olhar daquele que percebe fez a reviravolta nos conceitos estanques e classificações aprioristicas. Perceberse funcionalmente capaz é perceber o mundo e, por conseguinte, como diria Merleau Ponty (1999), é perceber a si mesmo, já que não estamos alheios ao mundo, dado nosso poder sobre ele, expresso pelas articulações mundanas da percepção. 147 6. CONCLUSÃO A instauração de um programa de exercícios resistidos pôde nos levar à compreensão do problema da percepção da capacidade funcional de idosos. Partimos de idéias já bem postas do mundo objetivo e encontramos, entre elas, fissuras que nos levam a compreender o fenômeno da capacidade funcional percebida pela subjetividade inerente à condição humana, ao olhar para a percepção de dentro para fora. Podemos observar que a funcionalidade que o idoso relata referese à possibilidade dele interagir com o mundo em que vive, tendo em vista não apenas o mundo que nos dá a natureza, mas também aquele que nos fornece as interações humanas. Dessa forma, ao entender a capacidade funcional como o poder de interação do idoso com o mundo vivido, vimos que esse poder extrapola as funções meramente tidas como “físicas”, e, além disso, verificamos que por trás de um “físico” há um mundo de significados. A interação com o mundo acontece na medida em que podemos atribuir significado a essas interações, a partir do sentido que guia nossas ações. Diante das proposições clássicas de capacidade funcional, podemos, já de inicio verificar que tais concepções versam apenas sobre as habilidades físicas que a compõem, sem contemplar suas significações mais subterrâneas. No entanto, incrementar diversas habilidades, prover a somatória de execuções motoras, parece não refletir a capacidade funcional, pois é um fenômeno complexo que não está apenas relacionado ao desempenho de habilidades motoras, mas, sim, à interação delas com o contexto, numa dinâmica nãolinear. Assim, medir a capacidade de levantar mais rápido da cadeira relacionase à capacidade funcional, na medida em que é uma habilidade que pode expressar um mundo de significações. No entanto, se mantivermos o foco apenas nessas habilidades isoladas do contexto, não compreenderemos o fenômeno, mas, sim, somente um de seus aspectos pontuais, um de seus produtos. Esse é um ponto de fundamental importância. A habilidade funcional que lemos nas ações de um idoso é o produto daquilo que ele percebe como significativo para si: a ação de acolher um neto só ocorreu porque a percepção ofereceu um solo significativo para que o movimento se destacasse. Há uma situação que se expressa nesse movimento. A inserção em um contexto, que extrapola a dimensão considerada “física”, dá um início de solução para entendermos porque, pela percepção dos idosos, a causalidade entre a força muscular e a capacidade funcional não se confirmou. Já que a 148 capacidade funcional, dada pela percepção, retoma uma gama de sentidos latentes, o aumento da força muscular incrementa as habilidades que a compõem, mas se essas habilidades serão, ou não, significativas, apenas o contexto de vida irá dizer. Assim, podemos concluir que a capacidade funcional será significativa para o idoso que participa de um programa de exercícios de força se esse programa dinamizar uma situação de vida que faça com que seus sentidos mais profundos aflorem nessa nova interação com o mundo. A capacidade funcional, o “funcionar bem” do idoso, não é um caractere isolado do contexto; é permeado de um mundo de significações que arrasta consigo todo um rastro histórico; que extravasa de uma ou outra atividade do cotidiano bem sucedida; e pode expressar uma situação vivida e a condição humana. As vias de entendimento da capacidade funcional, oferecidas pelas condutas clássicas de avaliação, parecem não contemplar toda essa gama de relações, pois aspiram a objetivar o subjetivo, a quantificar o qualitativo, e a percepção da capacidade funcional pode esvairse nos determinismos e reducionismos, há muito preconizados por este tipo de procedimento. Reduzir, então, a capacidade funcional a termos constituintes é despila de sua essência, das relações que seus constituintes estabelecem entre si e o contexto, da organização que escancara seu significado, no momento em que uma simples descrição pontual é apenas possível se tais relações já foram desveladas. Dessa forma, elucidaremos a percepção do idoso sobre sua capacidade funcional se retornarmos ao conhecimento da percepção para além da fragmentação abstrata, que resulte cegos termos constituintes. Ademais, justamente por estarem conectadas a um contexto histórico é que as ações funcionais apareceram no discurso dos idosos. É nesse sentido que verificamos que a capacidade funcional é aquilo que o idoso percebe com relação à sua potência de exploração do seu mundo; é a correspondência percebida entre aquilo que o percebido lhe sugere e o desdobramento de suas intenções motoras. Dito de outro modo, a funcionalidade do idoso requer que ele perceba seu poder corporal em ações que exibam um sentido singular, ações que não se esvaiam na generalidade, dado o usufruto da percepção. 149 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALEXANDER, N.B. et al. Taskspecific resistance training to improve the ability of activities of daily livingimpaired older adults to rise from a bed and from a chair. 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O objetivo da pesquisa é verificar o comportamento da força muscular de idosos submetidos a treinamento resistido e seu impacto sobre a capacidade funcional; 2. Durante o estudo, serão realizados sessões de treinamento resistido duas vezes por semana, às segundas e quintasfeiras, com sessões de 60 minutos cada, das 7:30 às 8:30 horas, nos primeiros 2 meses; nos 2 meses subseqüentes, as aulas serão realizadas apenas às quintas feiras, com o mesmo horário e a mesma duração; 3. Poderão ocorrer eventos de dores musculares, principalmente nas primeiras semanas do estudo; 4. Serão realizadas avaliações físicas e psicológicas periódicas a fim de avaliar minhas condições de saúde, físicas e afetivas, no decorrer do programa; 5. Devo seguir todas as recomendações previamente estabelecidas pelos responsáveis por esse programa; 6. Só poderei participar desse programa se os resultados dos meus exames clínicos e físicos, trazidos por mim, confirmarem minha aptidão para tal; 7. A inexistência de alterações nos exames clínico e eletrocardiográfico não implica necessariamente na inexistência de problemas de saúde; 8. Os responsáveis por esse programa organizaramno de tal forma que o seu planejamento e o seu desenvolvimento levem em consideração os cuidados necessários para promover a minha integridade e o meu desenvolvimento físico; 9. Independentemente dos itens 6, 7 e 8, estou consciente de que, se intercorrências com minha integridade física acontecerem no período em que se realiza o programa, os 155 responsáveis por ele, bem como a Universidade São Judas, ficam isentos de quaisquer responsabilidades; 10. Obtive todas as informações necessárias para poder decidir conscientemente sobre a minha participação na referida pesquisa; 11. Estou livre para interromper, a qualquer momento, minha participação na pesquisa, a não ser que essa interrupção seja contraindicada por motivo médico; 12. Meus dados pessoais serão mantidos em sigilo, e os resultados gerais obtidos através da pesquisa serão utilizados apenas para alcançar os objetivos do trabalho, expostos acima, incluída sua publicação na literatura especializada; 13. Poderei contatar o Comitê de Ética em Pesquisa de Universidade São Judas Tadeu para apresentar recursos ou reclamações em relação à pesquisa ou ensaio clínico através do telefone 60991665 – Prof. Leoni; 14. Poderei entrar em contado com o responsável pelo estudo, Prof.____________, sempre que julgar necessário pelo telefone___________; 15. Este Termo de Consentimento é feito em duas vias, uma das quais permanecerá em meu poder e a outra com o pesquisador responsável; São Paulo, ____ de ________________ de ___________. ____________________________________________________ Nome e assinatura do voluntário ___________________________________________ Nome e assinatura do pesquisador responsável pelo estudo 156 ANEXO 2 PARECER DO COMITÊ DE ÉTICA E PESQUISA UNIVERSIDADE SÃO JUDAS TADEU 157