ARTIGOS
ano VI, n. 1, maio/ 2 0 06
Latin-American Journal of Fundamental Psychopathology on Line, VI, 1, 1-20
O corpo vivido na esquizofrenia
no Brasil e no Chile
Virginia Moreira
Georges Daniel Janja Bloc Boris
Este artigo discute resultados parciais de uma pesquisa
transcultural sobre a experiência de corpo vivido na esquizofrenia,
cujo objetivo foi identificar se há diferenças relacionadas às culturas
do Brasil e do Chile no que se refere ao significado do corpo na
experiência esquizofrênica. Foram realizadas entrevistas com uma
amostra de 50 pacientes de ambos os sexos diagnosticados como
psicóticos esquizofrênico-paranóides em hospitais psiquiátricos (20 no
Brasil e 30 no Chile), de acordo com o critério clínico e o DSM-IV. O
método fenomenológico crítico foi utilizado para compreender o
significado da descrição do corpo vivido. Os resultados mostram que
o significado do corpo vivido na experiência esquizofrênica é diferente
no Brasil e no Chile. Para os brasileiros, o significado da experiência
de corpo encontra-se na interseção da espiritualidade com a ordem
psicopatológica, enquanto que, para os chilenos, este significado
pertence apenas ao domínio da psicopatologia, o que se articula com
aspectos socioculturais de cada país.
Palavras-chave: Esquizofrenia, fenomenologia, corpo, cultura,
sofrimento psíquico
* Este artigo apresenta resultados parciais da pesquisa Psicopatologia de la vida Chilena
y Brasileña: la fenomenología clínica de la psicose en Chile y en Brasil, projeto DICYT
n. 039793MC, na Universidad de Santiago de Chile. Os resultados finais desta pesquisa
podem ser encontrados em Moreira, V. & Coelho, N. (2003). The phenomenology of
the schizophrenic experience: a cross-cultural study in Brazil and in Chile. Terapia
Psicológica (Chile). Agradecemos a Nelson Coelho Junior, da Universidade de São Paulo,
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Introdução
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Há uma forma de psicopatologia caracterizada pela cultura brasileira
distinta da construída pela cultura chilena? Produzem-se distintas formas
de psicopatologia em diferentes contextos culturais, no caso,
especificamente, do Brasil e do Chile? Estarão as formas de psicotização
brasileira e chilena relacionadas com seus diferentes e supostamente
preferenciais modos culturais? Qual o significado do corpo vivido nas
culturas brasileira e chilena? É diferente a fenomenologia clínica da
esquizofrenia paranóide no que diz respeito ao significado da experiência
de corpo no Brasil e no Chile? Estas foram algumas das questões
levantadas por uma pesquisa que teve como objetivo identificar, através
da fenomenologia das categorias clínicas de corpo, de tempo e de espaço,
as relações entre as culturas brasileira e chilena, respectivamente, com
seus modos preferenciais de psicotização. Buscou-se verificar,
inicialmente, quais eram as categorias fenomenológicas emergentes no
conteúdo de entrevistas com pacientes esquizofrênico-paranóides no Brasil
e no Chile. Em seguida, se descreveu e analisou como se manifestam as
experiências de corpo, de tempo e de espaço nestes pacientes. Finalmente,
se discutiram as possíveis relações entre as culturas brasileira e chilena e
o significado da experiência esquizofrênica (Moreira & Coelho, 2003).
co-pesquisador deste estudo no Brasil, pela parceria no projeto e na coordenação da
parte de campo desta pesquisa, realizada em São Paulo. A Maria Lucrecia Rovaletti,
da Universidad de Buenos Aires, e a Otto Dorr, da Universidad de Chile, por suas
valiosas contribuições como colaboradores neste projeto. Agradecemos, ainda e muito
especialmente, a Paula Riveros e a Gabriela Bucarey, alunas-bolsistas DICYT na
Universidad de Santiago de Chile, a Maria Manuela A. Moreno, do Instituto de
Psicologia da Universidade de São Paulo, aluna-bolsista PIBIC-CNPq, a Renata Melo,
aluna-bolsista PROBIC-CNPq, e a Carolina Trinta, aluna-bolsista na Universidade de
Fortaleza. Finalmente, agradecemos a Byron Good, da Harvard Medical School, por
seus valiosos comentários sobre a apresentação dos resultados finais desta pesquisa.
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Este artigo, como parte de uma série de estudos transculturais semelhantes
em psicopatologia na América Latina (Moreira, 2003b; Moreira & Coelho, 2003;
Moreira, 2004b) que buscam compreender a experiência psicopatológica vivida
em diferentes culturas no sentido de apontar para o valor clinico de tais
comparações, aborda apenas os resultados referentes à vivência de corpo,
buscando responder as seguintes questões: qual o significado do corpo vivido na
esquizofrenia nas culturas brasileira e chilena? É diferente a fenomenologia clínica
da esquizofrenia paranóide no que diz respeito ao significado da experiência de
corpo no Brasil e no Chile? A categoria clínica de corpo foi escolhida como parte
desta pesquisa a partir de nossa experiência clínica no Brasil e no Chile, bem
como de um estudo teórico-exploratório anterior sobre a subjetividade do chileno
e do brasileiro (Moreira, 1999). Este artigo assinala que os brasileiros sentem-se
mais livres em relação a seus movimentos corporais do que os chilenos, que são
mais formais e rígidos, não expondo seu corpo tão livremente quanto os
brasileiros. O mesmo estudo observa também que os brasileiros percebem seu
país como grandioso, acreditando que “Deus é brasileiro” e que, desta forma,
todos os problemas se solucionarão. Os chilenos, ao contrário, percebem que o
Chile é um pequeno país esquecido “do outro lado da Cordilheira dos Andes”, “nos
confins do mundo”, sendo conhecidos e se percebendo como um povo
pessimista. A partir da observação destas possíveis diferenças da subjetividade de
ambos os povos e, tendo em vista um dos pressupostos básicos desta pesquisa
– que a psicopatologia se constitui na relação homem-mundo – esta investigação
se desenvolveu em torno da questão da mundaneidade, eixo central da
fenomenologia de Merleau-Ponty (Moreira, 2001a). Já que o adoecimento está
atrelado à relação do homem com o mundo, podemos afirmar que a psicopatologia
é uma expressão do homem mundano, isto é, se constrói a partir de uma relação
de mútua constituição entre homem e cultura, entre indivíduo e sociedade, na
interseção da singularidade com a universalidade. Investigar a psicopatologia é,
portanto, compreender uma forma de expressão do homem mundano. A hipótese
de nossa pesquisa era que os significados das formas de psicotização são distintos
nas culturas brasileira e chilena no que se refere à fenomenologia clínica da
experiência de corpo. Ou seja, a descrição do corpo vivido mostraria diferenças
relacionadas a significados culturais em ambos os países (Moreira & Coelho,
2003). A cultura não é entendida aqui como sinônima de mundo, mas como um
constituinte dele, tanto quanto os componentes endógenos e situacionais de uma
determinada psicopatologia (Moreira, 2002; 2003b; 2004a).
Esta pesquisa buscou, então, compreender alguns aspectos da dimensão
cultural da experiência esquizofrênico-paranóide sem perder de vista, no entanto,
sua mútua constituição com múltiplas outras dimensões, isto é, os “múltiplos
contornos” que caracterizam sua mundaneidade (Merleau-Ponty, 1960; Moreira,
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2001a). Ou seja: ao buscarmos compreender o significado do corpo vivido na
experiência esquizofrênico-paranóide, adotamos uma compreensão mundana desta
experiência, não no sentido da busca de uma essência, mas da compreensão do
significado desta experiência no mundo. Neste sentido é que a fenomenologia de
Merleau-Ponty foi aqui utilizada como ferramenta crítica, em que a descrição e
a redução fenomenológicas são artifícios para revelar o mundo. A experiência
vivida na esquizofrenia paranóide foi entendida, neste estudo, como uma
experiência mundana, com seus múltiplos contornos (Moreira, 2004a). Esta
compreensão se insere na perspectiva de uma psicopatologia crítica (Moreira,
2005), que transcende o modelo etiológico onde a origem e responsabilidade da
doença mental é atribuída a um indivíduo e de um ponto de vista interno. Entende
a psicopatologia como mutuamente constituída em seus múltiplos contornos –
não apenas biológicos e psicológicos como também históricos, sociais, políticos,
antropológicos – portanto, culturalmente produzidos a partir de processos
ideológicos. Uma Psicopatologia Crítica não tem a ambição de ser um enfoque ou,
menos ainda, uma disciplina. Trata-se de uma compreensão des-ideologizadora
das manifestações psicopatológicas onde, a partir da compreensão do complexo
arcabouço ideológico que sustenta a psicopatologia hoje, se construam caminhos
para uma prática clínica que vá além, perpassada pela utopia de uma psicologia
realmente comprometida com o humano (Moreira & Sloan, 2002, orelhas).
Pesquisas transculturais sobre esquizofrenia
Estudiosos transculturais apontam as limitações das formulações teóricas de
psicopatologia que não incorporaram os fatores culturais e sublinham que as
categorias nosológicas de psicopatologia podem ser relevantes em uma cultura,
assim como podem ser totalmente inválidas em outras (Kleinman, 1980, 1988;
Tatossian, 1984, 1997a, 1997b; Kleinman & Good, 1985; Good, 1993; Desjarlais,
Eisenberg & Kleinman, 1995; Draguns, 1995; Schumaker, 1996; Matsumoto,
1997; Moreira & Aramburú, 1999; Marsella & Yamada, 2000; Moreira, 2000,
2001b, 2001c, 2002, 2003b; Helman, 2001; Shepper-Hughes, 2001; Sam &
Moreira, 2002; Moreira & Coelho, 2003; Moreira & Freire, 2003, entre outros).
Segundo Devereux (1977), um dos pioneiros no estudo da esquizofrenia em seus
aspectos culturais, esta enfermidade está basicamente vinculada a processos de
aculturação, crescentes nas sociedades ocidentais, nas quais as mudanças sociais
e culturais, cada vez mais rápidas e intensas, são patogênicas. Tatossian (1997a;
1997b) retoma o posicionamento de Devereux e da etnopsiquiatria, inserindo-o no
âmbito da psicopatologia fenomenológica e propondo que a cultura é uma
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dimensão intrínseca à fenomenologia da esquizofrenia e dos mais distintos quadros
psicopatológicos (Moreira, 2001b). A pesquisa etnográfica de Sheper-Hughes
(2001) na Irlanda é uma das maiores contribuições empíricas ao estudo das
relações entre esquizofrenia e cultura, mostrando que o desenvolvimento e a
sustentação do comportamento esquizofrênico estão relacionados a determinados
aspectos da cultura irlandesa. No entanto, ainda que se encontrem etnografias que
discutem amplamente a experiência psicótica em sua relação com a subjetividade
e a cultura (Kleinman, 1988; Desjarlais, Eisenberg & Kleinman 1995; Das, 1997;
Good, Subandi & Good, 2001; Mueggler, 2001; Klima, 2002, entre outros), são
extremamente escassos os estudos qualitativos transculturais sobre a
esquizofrenia.
No âmbito dos estudos epidemiológicos, em 1960, a World Health
Organization – WHO (Organização Mundial de Saúde – OMS) iniciou um estudo
experimental chamado de “Projeto-Piloto Internacional em Esquizofrenia”
(International Pilot Study of Schizophrenia – IPSS ) que se constituía de uma
pesquisa de comparação transcultural com 1.200 pacientes, em 9 países
diferentes, em um período de cinco anos, usando rigorosas metodologias de
comparação. A maior contribuição do IPSS foi levantar dados de que, nos países
em desenvolvimento, os portadores de esquizofrenia tendem a ter um resultado
menos severo do que em países desenvolvidos. Ou seja: pacientes pobres e de
países menos desenvolvidos se recuperaram mais rapidamente e em proporção
mais alta do que seus pares de nações de mais alto nível de desenvolvimento
econômico (Draguns, 1995; Warner & Girolamo, 1995). Dando continuidade ao
estudo anterior, a OMS criou o projeto “Determinantes de Resultado do Estudo
de Distúrbio Mental Grave” (Determinants of Outcome of Severe Mental Disorder
Study – DOSMeD). O DOSMeD foi realizado em 12 centros de 10 países, os quais
representavam amostras de países desenvolvidos e de países em desenvolvimento.
Entre os países desenvolvidos, a pesquisa foi realizada em Aaron (Dinamarca),
Dublin (Irlanda), Honolulu e Rochester ( EUA), Moscou (Rússia, antiga URSS ),
Nagasaki (Japão), Nottingham ( RU ) e Praga (República Checa, antiga
Checoslováquia). Representando os países em desenvolvimento, a pesquisa foi
realizada em Agra e Chandigarh (Índia), Cali (Colômbia) e Ibadan (Nigéria). Estes
estudos transculturais mostraram que há diferenças claras no processo e no
resultado da esquizofrenia. Além de mostrar que, em média, pacientes de países
em desenvolvimento têm um processo e um resultado melhores do que pacientes
dos centros de países desenvolvidos, os resultados indicaram que a recuperação
da esquizofrenia pode ser mais favorável devido a um ambiente caracterizado pela
onomia agrária, de pouca mobilização vertical, com famílias extensas, serviços
psiquiátricos que incluem a ativa participação da família e a ausência, na unidade,
do estereótipo da doença mental (Varma, 2000).
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Os estudos da OMS são geralmente citados apenas para apontar a
universalidade da esquizofrenia, ainda que tenham sido encontradas também
algumas diferenças transculturais, como as relacionadas à sintomatologia (Moreira
& Coelho, 2003). Marsella & Yamada (2000) lembram que os estudos da OMS
reportaram similaridades em sintomas nucleares, mas mostraram, também,
variações consideráveis em relação aos sintomas secundários, o curso e a
recuperação da doença e a padronização da enfermidade. Descrevem uma pesquisa,
realizada no Havaí, que identificou poderosos determinantes etnoculturais na
esquizofrenia, explicitando que “bastante à parte de fatores biológicos, tais como
prejuízos genéticos e neurológicos, fatores culturais têm um potencial raro de
configurar a etiologia, expressão, curso e efeitos das desordens esquizofrênicas”
(p. 20). Matsumoto (1997) ilustra as diferenças culturais na manifestação da
esquizofrenia, apontando que pacientes norte-americanos apresentam menos
“insights” e alucinações auditivas do que pacientes nigerianos ou dinamarqueses,
que, por sua vez, são mais propensos à catatonia. Descreve um estudo
epidemiológico que mostra que os internamentos devidos à esquizofrenia são mais
freqüentes na Irlanda em comparação com a Inglaterra, o que está relacionado às
características culturais de ambivalência e de individualismo da Irlanda. Furhanm
& Murao (2000) descrevem um estudo transcultural realizado no Japão e na
Inglaterra, que mostrou dramáticas diferenças em relação às crenças culturais a
respeito da esquizofrenia. Por um lado, os japoneses mostraram menos respeito
aos direitos dos esquizofrênicos do que os ingleses, enfatizando sua anormalidade
e seu perigo. Por outro lado, os japoneses atribuem, mais fortemente do que os
ingleses, os fatores causais da esquizofrenia a forças externas, provenientes
especialmente da família e do ambiente. Os japoneses percebem os fatores
externos (socioculturais) como mais importantes na prevalência da esquizofrenia
do que fatores internos (biológicos); por conseguinte, o tratamento da doença
deve ser, ali, mais fundamentado em um ambiente de suporte do que no indivíduo
esquizofrênico em si mesmo. Esta pesquisa ilustra a mentalidade individualista
ocidental, para a qual o indivíduo é quem deve ser tratado, em contraposição a
uma mentalidade oriental, de cunho mais coletivista. Uma outra pesquisa, realizada
na Suécia por Bengtsson-Tops & Hansson (2001) com 120 pacientes
esquizofrênicos, mostrou que a rede social é mais importante para a recuperação
de pacientes esquizofrênicos do que os fatores sociodemográficos, clínicos ou de
qualidade de vida subjetiva, o que nos leva, mais uma vez, a pensar na
subjetividade individualista ocidental como geradora de patologias (Moreira &
Coelho, 2003). Um estudo realizado na Inglaterra com minorias negras de
imigrantes caribenhos mostra uma estreita relação entre o alto índice de
esquizofrenia neste grupo populacional e os fatores socioculturais, especialmente
aqueles vinculados a situações que envolvem relações de poder na sociedade,
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sobressaindo, entre eles, a experiência de desemprego (Hutchinson & Hickling,
1999). Resultados similares no que se refere a situações de opressão social como
geradoras de patologias mentais em geral são mencionados por Cohen (2002) no
relatório anual de um projeto de desenvolvimento de serviços primários de
atendimento à saúde mental na Colômbia, na Índia, no Sudão e nas Filipinas,
realizado para a OMS. Na implementação destes programas, foi possível observar
que várias eram as implicações socioeconômicas e culturais no desenvolvimento
das diversas desordens mentais contempladas pelas equipes de profissionais dos
setores de cuidados primários, mostrando, ainda, que os fatores de risco para a
doença mental são os mesmos, tanto em países desenvolvidos, quanto em países
não desenvolvidos; ou seja, foram identificados como principais fatores de risco
a pobreza, as situações estressantes de vida e o gênero (pois a mulher fica mais
doente mentalmente por conta de sua maior vivência de situações de opressão
social). Doubt (2000) realizou uma análise da esquizofrenia como um fenômeno
social, sem, no entanto, excluir sua compreensão biológica e neurológica. Ademais
de reforçar os resultados de pesquisas que constatam a determinação sociocultural
da esquizofrenia, seus estudos de autobiografias de pacientes esquizofrênicos
mostram que eles têm consciência de sua doença, vivida como uma invasão do
“self”, o que torna difícil a experiência de “si mesmo” como um todo, mas, ainda
assim, mantendo-se, no doente, um sentido de autoconsciência e de reflexão.
Ainda que a revisão da literatura relativa à psicopatologia e à cultura na América
Latina indique a inexistência de estudos transculturais nesta linha, no Brasil, o
PROESQ (Programa de Esquizofrenia do Departamento de Psiquiatria da
Universidade Federal de São Paulo) realizou, em 1997, um estudo etnográfico com
familiares de pacientes esquizofrênicos, buscando entender a articulação cultural
da experiência da doença na dimensão da convivência familiar cotidiana (Villares,
2000).
Jablensky (1999) questiona se, nos vários estudos epidemiológicos
transculturais já realizados, a esquizofrenia foi suficientemente delimitada em
termos populacionais, refletindo sobre alguns resultados desafiadores e ainda
inexplicados, tais como a sazonalidade da doença, o fator de risco urbano, o
excesso de ocorrência da psicopatologia entre imigrantes, a melhor evolução e a
possível menor incidência em países menos desenvolvidos e as correlações
negativas com o câncer e a artrite reumatóide. Eaton (1999) também questiona
a universalidade da esquizofrenia, já que, embora os resultados de pesquisas que
fundamentam esta noção pareçam ser robustos, os métodos utilizados podem
estar errados. Warner & Girolamo (1995), em uma publicação da OMS, reúnem
significativa informação sobre o conhecimento atual acerca da epidemiologia da
esquizofrenia, iniciando um exame da relevância diagnóstica no que diz respeito
às metodologias utilizadas. Na verdade, como bem lembram Kleinman (1980;
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1988), Good (1993), Lee (1996) e Cohen (1999; 2002), entre outros, todas as
pesquisas em psicopatologia transcultural devem levar em conta os problemas
relativos à validade diagnóstica, limitação que, tampouco, pode ser esquecida no
presente estudo.
O corpo como categoria fenomenológica na esquizofrenia
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Em todas as dimensões da experiência esquizofrênica, o corpo vivido ou a
experiência corporal vivida é fundamental, tendo sido este o foco de estudo de
vários estudiosos da psicopatologia fenomenológica (Minkowski, 1966; 1995; Von
Gebsattel, 1966; Van Den Berg, 1981; Tatossian, 1977b; 1997a; Maldiney, 1991;
Parada, 1994; Dörr, 1995; 1998; Jaspers, 1996; May, Angel & Ellenberger, 1997;
Kimura, 1998; Rovalletti, 1998, entre outros).
O corpo vivido foi definido, nesta pesquisa, como o fenômeno original de
abertura ao mundo, prévio à abstração (é pré-reflexivo). O corpo como linguagem,
ou seja, como expressão de si mesmo e como comunicação com o mundo, é
objeto de sentido, constituindo-se na interseção de significados. A experiência do
corpo no mundo está condicionada pela biografia, pelas representações históricoculturais e pelo espaço ou pelo meio-ambiente em que ele habita (Rovaletti, 1997).
O corpo é o lugar dos encontros objetivos e subjetivos essencialmente vinculados
ao mundo, não sendo um objeto a mais entre o resto dos objetos, mas um sujeito
que transcende a si mesmo, rumo ao mundo, e em torno do qual os objetos que
fazem parte dele se organizam segundo sua significação. O corpo vivido é
fenômeno ontológico e ontogenicamente originário, pré-reflexivo, subjetividade
encarnada, e sua primeira qualidade é sua essencial referência ao mundo, isto é,
tem um lugar no mundo e nele interage. (Dörr, 1998). Vale acrescentar que
pacientes esquizofrênicos, em sua inclinação ao isolamento e ao descuido pessoal,
vivenciam experiências corporais infinitas de caráter vazio e individualizado nos
momentos de surto psicótico, quando ficam “sem contornos”, já que habitar é uma
função da corporeidade, um modo de prolongamento do corpo no espaço
(Moreira, 2002; Moreira & Coelho, 2003).
Procedimentos metodológicos
Como critérios de inclusão foram estabelecidas as seguintes “variáveis
descritivas” (Moreira, 2004a): 1) Nacionalidade: a amostra brasileira foi composta
por pacientes que nasceram e que viviam no Brasil, enquanto a amostra chilena
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foi formada por pacientes nascidos e que viviam no Chile; 2) sexo: cada amostra
foi formada por 50% de sujeitos do sexo feminino e 50% do sexo masculino; 3)
Idade: ambas as amostras foram compostas por pacientes adultos, entre 25 e 55
anos; 4) Nível educacional: todos os pacientes pesquisados tinham terminado o
nível básico de ensino; 5) Número de internações e tempo de cada internação:
número de internações variável, mas em períodos não superiores a um ano (ou
seja, não foram considerados os pacientes crônicos).
Foram entrevistados dois grupos de pacientes diagnosticados como
esquizofrênico-paranóides internados em hospitais públicos, sendo 20 em São
Paulo e 30 em Santiago, compondo uma amostra total de 50 pacientes. O
diagnóstico foi efetuado por um dos psiquiatras ou dos psicólogos participantes
da equipe do projeto de pesquisa a partir dos critérios sintomáticos do DSM-IV e
de critérios clínicos. Não foram utilizados os diagnósticos das fichas hospitalares
dos pacientes, pois são marcados freqüentemente por uma necessidade prévia de
rotular os pacientes. Foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, de cerca de
30 minutos de duração (Polkinghorne, 1989; Creswell, 1998; Moreira, 2004a),
seguidas de transcrição e de uma análise fenomenológica. O roteiro das entrevistas
foi elaborado a partir de três entrevistas-piloto realizadas e discutidas com a equipe
da pesquisa (constituída por três psicólogos clínicos e 3 psiquiatras, todos com
formação numa abordagem fenomenológica). A descrição do corpo vivido foi um
dos pontos básicos abordados nas entrevistas, buscando o significado da sua
experiência na esquizofrenia paranóide. Buscamos a descrição exaustiva de forma
a aprofundar o tema o máximo possível. As entrevistas foram audio-gravadas,
sendo realizadas por dois ajudantes de pesquisa deste projeto (um estudante de
psicologia e um de psiquiatria) em Santiago, e por uma estudante de mestrado em
psicologia em São Paulo. As entrevistas foram semi-estruturadas, abertas o
máximo possível, buscando, à semelhança de uma conversa, a descrição da
experiência vivida do corpo entre esquizofrênicos paranóides. Os entrevistadores
trataram de facilitar a expressão dos sujeitos no que diz respeito à sua experiência
de corpo vivido (Moreira & Coelho, 2003).
O método desta pesquisa foi, portanto, descritivo. Utilizamos a fenomenologia
de Merleau-Ponty (1945; 1960; 1970) para realizar uma análise antropológica de
cunho crítico numa pesquisa em psicopatologia (Moreira, 2004a; Moreira, no
prelo). Ou seja: utilizamos o método fenomenológico de Merleau-Ponty como uma
ferramenta crítica para compreender o significado da experiência vivida de corpo
na esquizofrenia paranóide, considerando-a mutuamente constituída com o
mundo, em seus múltiplos contornos (Moreira, 2002). A análise dos dados foi
inspirada nos modelos de Giorgi, Fiescher & Von Eckartsberg (1971), de Giorgi
(1985; 1997) e de Creswel (1998) e adaptada por Moreira (2001a; 2004a),
adotando os seguintes passos:
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1. Transcrição literal das entrevistas para obtenção do texto nativo, expressando
exatamente as falas dos sujeitos colaboradores e dos entrevistadores, bem
como seus silêncios ou quaisquer sons que ocorressem nas gravações;
2. Divisão do texto nativo em movimentos de acordo com o “tom” da entrevista.
Os movimentos consistiram em trechos das entrevistas que tinham um mesmo
“tom”, mudando quando os entrevistados ou os entrevistadores mudavam de
tema, faziam silêncio, mudavam o tom de voz, ou interrompiam suas falas de
alguma forma;
3. Análise descritiva do sentido que emerge de cada um dos movimentos,
buscando uma articulação dos sentidos emergentes. Tratamos de sistematizar
os sentidos emergentes nos diversos momentos de cada entrevista, buscando
identificar e compreender os múltiplos significados da experiência do corpo
vivido na esquizofrenia paranóide;
4. Saída dos parênteses, o que significou, neste momento da análise
fenomenológica, que seu foco se referia à hipótese original da pesquisa de
maneira que os pesquisadores assumissem sua mundaneidade, dialogando com
os resultados da pesquisa e com as publicações de outros pesquisadores do
mesmo campo de pesquisa e se posicionando frente a eles (Moreira, 2002; no
prelo).
Resultados e discussão
Como temas emergentes das falas dos pacientes, tanto do Chile quanto do
Brasil, foram encontrados os seguintes resultados:
1. A experiência esquizofrênica é vivida como uma experiência de opressão e de
falta de poder;
2. A descrição da experiência feita dos pacientes se refere, em grande parte, ao
fato de eles se sentirem presos nos hospitais psiquiátricos;
3. Sua descrição constantemente se refere ao fato de que estão tomando
medicamentos fortes;
4. Os pacientes se sentem solitários e sofrem devido ao estigma da doença
mental;
As alucinações de perseguição dos pacientes são comumente relacionadas à
sua cultura histórica e política.
Desta forma, estes cinco temas emergentes principais confirmam os
resultados dos estudos críticos em psicopatologia, os quais, baseados numa
perspectiva fenomenológica merleau-pontyana de múltiplos contornos, enfatizam
os significados ideológicos da psicopatologia no mundo contemporâneo,
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relacionados às culturas individualistas, ao poder biomédico e às estruturas sociais
estigmatizantes, dando lugar a um processo intenso de despotencialização (Moreira
& Sloan, 2002; Moreira & Coelho, 2003; Moreira, 2003b, Moreira, 2005).
Não foram encontradas diferenças significativas relativas à descrição das
experiências de tempo e de espaço, o que reforça resultados de pesquisas
discutidos anteriormente que apontam para a universalidade da esquizofrenia. Tanto
no Chile quanto no Brasil, os pacientes esquizofrênicos paranóides se referiram
prioritariamente ao espaço hospitalar, não sendo possível uma organização dos
resultados relativos ao significado do tempo vivido, tema que pouco aparece em
ambas as amostras. Estes resultados são discutidos detalhadamente em Moreira
& Coelho (2003).
A hipótese desta pesquisa – de que a experiência vivida na esquizofrenia
paranóide é diferente no Chile e no Brasil – foi confirmada apenas com relação à
categoria de corpo. No Chile, o significado da experiência corporal vivida é
atribuído somente à doença mental, ou seja, as alterações sofridas são
compreendidas como parte da doença e dos efeitos da medicação, tal como se
pode verificar nas seguintes falas, nas quais pacientes chilenos se referem a suas
experiências corporais como articuladas à doença e aos efeitos dos remédios:
Mi cuerpo se pone rígido y siento como que me llegan las vibraciones, como
que me traspasan...
Mi cuerpo! No me doy ni cuenta como es... Estoy totalmente frígida...
Frígida, no tengo ningún deseo... No sé. ¿Eso era lo que tenía que pensar?
Pero lo dije... Pero eso es producto de las pastillas...
Ahora, por efecto de los otros medicamentos, yo no puedo modular muy
bien, no puedo modular muy bien... Y, antes, con el Radotril, no: era como todo
más armonioso, como dice el “reclame” de fármacos con receta médica.
No Brasil, é freqüente que a vivência de alterações na corporeidade vivida, como
ocorre nos surtos esquizofrênicos, seja atribuída à incorporação de espíritos
relacionadas à umbanda e ao espiritismo, tal como podemos ilustrar através das
seguintes falas:
Minha vó é mãe de santo... Eu freqüento desde pequeno. Eu nasci nisso (...)
aí, as pessoas encarnam os espíritos das crianças mortas... Se você vê... ficam
tomadas mesmo. É que, para a medicina, isso é uma coisa impossível: os médicos
não acreditam nisso.
Parece que tem um espírito maligno em mim, maligno, que fala pra eu cortar
fora a cabeça do cara.
Aí, eu comecei a ver vulto. Comecei a encarnar com isso. Eu olhei onde meu
amigo morreu (...) Eu creio nisso: em espiritualidade.
Mas encontramos, nas falas dos pacientes brasileiros, também, uma
descrição do corpo vivido como associado à doença e aos efeitos dos remédios:
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Sei lá! É muito remédio: eu tô dopado de remédio; minha cabeça tá boa por
causa do remédio; se não fosse o remédio, eu tava doido.
Por que eu vim pra cá? Porque eu parei de tomar o remédio, o remédio
para... Disse que eu tinha que tomar o remédio certinho. Daí, eu peguei e parei
e acabei vindo para cá. Parei porque achei que o remédio não ia... porque eu
pretendo me casar, né!? O remédio me enfraquecia fisicamente, entendeu? A parte
física do homem. Daí, eu falei: “vamos parar”, né?
O que encontramos mais freqüentemente na maioria das entrevistas
realizadas no Brasil é que os dois significados – o espiritual e o psicopatológico
– se entrelaçam, se sobrepõem, se misturam, se constituem mutuamente. Ou seja:
um mesmo informante se referia aos espíritos como os responsáveis por sua
experiência de corpo vivido doente e, mais adiante, na mesma entrevista, aludia
aos efeitos dos remédios e ao fato de ser esquizofrênico. As seguintes falas
ilustram bem a interseção de ambos os significados:
Então, minha mãe me internou aqui porque ela pensa que sou psicótico. Na
cabeça dela, eu sou psicótico, mas não sou psicótico: sou um cidadão normal, só
que, às vezes, aparece um trauma, não sei, coisa que não sai da cabeça, que nem
agora; agora, eu tô vendo (um espírito). Os remédios ajudam a melhorar.
Pois não é? Pensam que isso tudo é de doença, mas a gente sabe que vem
de outro canto... tanto que cura também no terreiro...
Percebemos, na primeira fala, que, ainda que o informante não se entenda
como um doente, mas como alguém que vê espíritos, ele reconhece que a
medicação o ajuda a sentir-se melhor. A fala do segundo informante afirma que
a doença também é curada no terreiro, isto é, podemos entender que é curada
tanto no hospital quanto no terreiro. Não podemos esquecer, mais uma vez, que
todos os informantes estavam internados em hospital psiquiátrico, o que, por si
mesmo, já indica que seu corpo vivido está categorizado como doente e,
conseqüentemente, inserido em uma compreensão no âmbito psicopatológico. De
fato, mesmo quando negavam o significado do corpo vivido como doente e o
atribuíam a fenômenos espirituais, estes pacientes ainda eram e se percebiam
como pacientes, alguns deles bastante conscientes do peso e do estigma de sua
experiência, tal como foi explicitamente verbalizado por este informante:
Esta história de dizer que sou psicótico acabou com a minha vida...
Esta pesquisa demonstrou que, no Chile, os pacientes esquizofrênicos
entendem as suas sofridas alterações corporais apenas como decorrentes da doença
ou dos efeitos colaterais da medicação ingerida, enquanto que, no Brasil, os
pacientes atribuem as suas alterações corporais tanto à incorporação de espíritos
ou a fenômenos de ordem religiosa, quanto à doença e ao tratamento
medicamentoso. Ou seja: para os pacientes esquizofrênico-paranóides brasileiros
entrevistados, o significado do seu corpo vivido se insere na interseção da
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espiritualidade com a psicopatologia, enquanto que, para os chilenos, este
significado se refere apenas à ordem médica.
É importante não esquecer que a amostra investigada em um estudo
qualitativo desta ordem não se propõe a ser representativa e que seus resultados
não podem ser generalizados. Além disto, outras variáveis, tais como o
internamento, a medicação e a condução das entrevistas, além das variáveis
culturais (nacionalidades brasileira e chilena), tal como mencionadas
anteriormente, podem ter interferido como limitantes desta pesquisa. De fato, é
importante assinalar, inclusive, que a própria abordagem cultural utilizada neste
estudo restringiu-se basicamente à nacionalidade, não se propondo a realizar um
estudo etnográfico que investigasse mais profundamente aspectos culturais
constitutivos da experiência esquizofrênica. O treinamento da equipe em uma
pesquisa transcultural qualitativa é, na verdade, uma das grandes limitações deste
tipo de pesquisa devido à dificuldade de homogeneizar a condução das entrevistas
em diferentes lugares, o que limita muito os resultados alcançados. Não se pode
deixar de mencionar ainda que foram estudadas duas amostras na cidade de
Santiago, no Chile e na cidade de São Paulo, no Brasil, o que por si só não
representa necessariamente os dois paises.
O fato de este estudo ter sido desenvolvido com pacientes sob o efeito de
medicações, além dos outros limites mencionados foi, aparentemente a maior
limitação na descrição do corpo vivido. No entanto, sem esquecer os vários
limites apontados neste primeiro estudo, que faz parte de uma linha de pesquisa
em psicopatologia transcultural mais ampla, ora em andamento (Moreira, 2003b,
2004), os resultados vêm a confirmar a já bastante ampla literatura sociológica
e antropológica que estuda a espiritualidade como característica marcante e
fundamental da cultura brasileira. Para Roberto da Matta (1987, 1991) o mundo
real é uma esfera que deve ser evitada o mais possível no universo social
brasileiro, que tem como suporte três eixos: o lar, a rua e o sobrenatural, onde
se lida com santos, deuses e espíritos. Nos resultados desta pesquisa,
encontramos o eixo do sobrenatural, onde estaríamos lidando com santos, deuses
e espíritos que já teriam passado pelo nosso mundo e que criariam dúvidas sobre
a realidade exata da sociedade na qual vivemos.
Krippner (1989) sintetiza a questão da cura através da mediunidade no Brasil,
por meio da incorporação de espíritos de divindades de origem africana – os
orixás – cuja denominação varia regionalmente no Brasil.
Praticantes religiosos africanos ganharam acesso ao sobrenatural de três
maneiras: fazendo oferendas aos orixás; “divinizando” ou predizendo o futuro
com a ajuda de um orixá; e incorporando um orixá ou um ancestral, que alerta a
comunidade sobre possíveis calamidades, doenças diagnosticadas e curas
prescritas. O médium ou pessoa a qual o espírito falou ou se moveu, desempenha
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essa tarefa voluntariamente, proclamando não lembrar da experiência logo que
esta termina. O “transe” ou estado alterado de consciência necessário para as
incorporações (a encenação voluntária de entrega da mente e corpo do médium
para a entidade desencarnada) é ocasionada pela dança, canto e batida de tambor.
A medicina preventiva consiste no uso de encantos e rituais, assim como a
vivência com as pressões sociais dessas culturas. (p. 187-8)
14
É a esta incorporação de espírito que se referem os pacientes esquizofrênicos
brasileiros estudados nesta pesquisa no que tange à atribuição do significado de
sua sintomatologia corporal na vivência da esquizofrenia. Esta pesquisa reforça,
então, a idéia do intercruzamento de pensamentos e credos funcionando
harmoniosamente no âmbito da doença mental no Brasil. Como observa Krippner
(1989): “Grupos espíritas são uma força social importante (...) As seitas
proporcionam uma ajuda importante para a medicina e psicoterapia, especialmente
para aqueles indivíduos que não podem pagar um praticante particular ou ir para
uma clínica” (p. 202). Mas esta pesquisa aponta, principalmente, para o desafio
que este fato representa para os estudiosos da psicopatologia bem como para os
profissionais de saúde mental no Brasil (Moreira & Coelho, 2003). No sentido de
se alcançar uma apreensão mais clara das articulações culturais vinculadas à
experiência vivida na esquizofrenia e na psicopatologia como um todo, sugere-se
a realização de estudos longitudinais, com um numero maior de entrevistas, e a
utilização do método etnográfico, que inclua observações participativas, cuja
analise cultural de conteúdo possibilite um cruzamento com os resultados das
análises fenomenológicas realizadas das entrevistas.
Do ponto de vista da pesquisa fenomenológica, a experiência é o lugar do
conhecimento e o objetivo da pesquisa será sempre o de compreender o
significado da experiência vivida pelo sujeito. No que se refere ao corpo vivido,
esta pesquisa mostra a ambigüidade do significado desta experiência em pacientes
diagnosticados como esquizofrênicos no Brasil. O fato deste significado se
encontrar na interseção do âmbito espiritual com o psicopatológico mostra a
necessidade de uma abordagem bastante crítica e de futuras pesquisas em
psicopatologia cultural e transcultural que, sem perder de vista os significados
biológicos, busquem incluir explicitamente significados culturais; que além dos
tradicionais significados médicos e/ou psicológicos contribuam para uma
compreensão do fenômeno psicopatológico em seus múltiplos significados e
contornos, visando um conhecimento mais amplo que possibilite contribuir para
a qualidade da clinica psicológica e psiquiátrica.
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Resumos
Este articulo discute los resultados parciales de una investigación transcultural
sobre la experiencia de cuerpo vivida en la esquizofrenia, cuyo objectivo ha sido de
identificar si hay diferencias relacionadas a las culturas de Brasil y de Chile en lo que
se refiere al significado de cuerpo en la experiencia esquizofrenica. Han sido realizadas
entrevistas con una muestra de 50 pacientes de ambos los sexos, diagnosticados como
sicóticos esquizofrénico-paranoides en hospitales psiquiátricos (20 en Brasil y 30 en
Chile), según el criterio clínico y el DSM-IV. El método fenomenológico crítico ha sido
utilizado para comprender el significado de la descripción de cuerpo vivido. Los
resultados muestran que el significado de cuerpo vivido en la experiencia
esquizofrenica es diferente en Brasil y en Chile. Para los brasileños, el significado de
la experiencia de cuerpo se encuentra en la intersección de la espiritualidad con la
orden psicopatológica, mientras que para los chilenos, este significado pertenece
solamente al dominio de la sicopatología, lo que se articula con aspectos
socioculturales de cada país.
Palabras claves: Esquizofrenia, fenomenologia, cuerpo, cultura, sufrimiento síquico
Cet article discute des résultats partiels d’une recherche transculturel sur
l’expérience du corps vécu dans la schizophrénie, dont l’objectif était identifier s’il y
a des différences entre les cultures du Brésil e du Chili, concernant à la signification
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de l’expérience schizophrénique. Les investigateurs ont entreviewé 50 patients des deux
sexes, diagnostiqués comme psychotiques schizophrénique-paranoides, internés dans
des hôpitaux psychiatriques (20 au Brésil et 30 au Chili), d’accord le critérium clinique
et le DSM-IV. Une méthode phénomenologique critique a été utilisé pour comprendre
la signification de la description du corps vécu. Les résultats ont démonstré que la
signification du corps vécu dans l’expérience schizophrénique est differente au Brésil
et au Chili. Pour les Brésiliens, la signification de l’expérience du corps est dans l’
intersection entre la spiritualité et l’ordre psychiatrique, pendant que, pour les
Chiliens, cette signification appartient seulement au domaine de la psychopathologie,
ce que a une liaison avec des aspects socio-culturels de chaque pays.
Mots clés: Schizophrénie, phénomenologie, corps, culture, souffrance psychique
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This article discusses part of the results of a cross-cultural study on the lived
experience of the body and its meaning in the schizophrenic experience, which aimed
to identify whether there are significant differences in the meaning of this experience
related to the different cultures of Brazil and Chile. Interviews were made with a sample
of 50 adult patients of both sexes diagnosed as psychotic schizophrenic-paranoids in
public psychiatric hospitals (20 in Brazil and 30 in Chile), according to clinical
criteria and the DSM-IV. A critical phenomenological method was used to understand
the meaning of the experience of the described lived body. The results showed that the
meaning of the lived body in the schizophrenic experience is different to patients
interviewed in Brazil and in Chile. To Brazilians ones, the meaning of the lived
experience of the body is found in the intersection of spirituality with the
psychopathological order, while, to Chileans ones, this meaning belongs only to the
domain of psychopathology, which it is related to social-cultural aspects of each
country.
Key words: Schizophrenia, phenomenology, body, culture, psychic suffering
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