Estacas Escavadas com Trado Mecanizado, com Anéis ao Longo do Fuste Juliane Andréia Figueiredo Marques, D.Sc. Responsável Técnico da AGM Geotécnica Ltda, Profa da FACET-CESMAC/FEJAL Maceió, Brasil, [email protected] Ricardo Figueiredo Marques, M.Sc. Responsável Técnico da AGM Geotécnica Ltda, Maceió, Brasil, [email protected] Abel Galindo Marques, M.Sc. Profo. Adjunto, Universidade Federal de Alagoas – UFAL, Diretor da AGM Geotécnica Ltda, Maceió, Brasil, [email protected] RESUMO: As cargas admissíveis das estacas escavadas com trado são consideradas baixas quando comparadas com outros tipos de estacas. Por exemplo, geralmente uma estaca escavada com trado com diâmetro de 40 cm possui carga de trabalho em torno de 45 tf, enquanto que uma semelhante tipo Hélice Continua trabalha com 80 tf. Com o objetivo de se aumentar a capacidade de carga dessas estacas escavadas a seco através da sua resistência lateral, foi desenvolvida uma técnica de execução de pequenas saliências (denominadas “anéis”) ao longo do fuste. A técnica de execução dos anéis consiste em acoplar ao trado de perfuração um ponteiro metálico, com comprimento entre 10 e 12 cm, o qual desce “rasgando” o solo ao longo do fuste e, em profundidades pré-definidas, o operador da máquina rotaciona o trado fazendo com que o ponteiro abra um rasgo horizontal na parede da perfuração. Estes rasgos têm espessura em torno de 15 a 20 cm e profundidade igual à dimensão do ponteiro (cerca de 10 a 12 cm), os quais formam verdadeiros anéis ao longo do fuste. Deve-se ressaltar que todo o procedimento de execução dos anéis e limpeza do excedente de material solto não leva mais que 10 minutos, resultando na grande vantagem do processo, pois não compromete a produtividade dessas estacas. Em mais de 3 anos executando as estacas com anéis têm-se mais de 10 provas de carga estáticas realizadas em Maceió. Os resultados mostram aumentos da resistência de até 100%. São apresentados alguns resultados desses ensaios, inclusive de um campo experimental desenvolvido para fins de estudo, onde foram executados 7 provas de carga em estaca com e sem anéis, como também estacas com consolidação do material solto na ponta através do lançamento de argamassa fluida. PALAVRAS-CHAVE: estacas escavadas com anéis, provas de carga, capacidade de carga. 1 INTRODUÇÃO As estacas escavadas com trado mecanizado são bastante utilizadas em fundações de estruturas de pequeno, médio e grande porte no interior de São Paulo e estados do Centro-Oeste, como Goiás e Distrito Federal. São diversas as vantagens dessas estacas em relação a outros tipos de estacas: elas têm grande produtividade (em torno de 15 a 20 estacas por dia), o equipamento possui grande mobilidade pois a maioria é montado sobre caminhão, ausência de vibrações evitando a poluição sonora, requer número reduzido de mão de obra, baixo custo de equipe especializada e material, entre outras vantagens. Por outro lado, como bem destaca Souza Filho et al. (1998), estas estacas possuem baixa capacidade de carga quando comparadas a outras. Este fato advém do seu próprio processo executivo, que não permite ao projetista de fundações, normalmente, considerar a parcela de resistência de ponta da estaca, devido ao solo desagregado que permanece acumulado no fundo da perfuração. Por exemplo, para uma estaca com diâmetro de 400 mm, trabalha-se com carga admissível entre 30 e 45 toneladas apenas. Outra desvantagem é o fato delas só poderem ser executadas quando não há presença do lençol freático, pois são escavadas a seco, sem tubos de revestimento. Nos últimos anos, há uma crescente demanda de construções na parte alta da cidade de Maceió, englobando os bairros do Farol, Tabuleiro dos Martins, Barro Duro, Serraria, entre outros, impondo ao mercado da construção civil e da engenharia de fundações o desenvolvimento de novas tecnologias. Geologicamente, esta parte alta da cidade é constituída por sedimentos da Formação Barreiras, onde se têm os tabuleiros que estão numa altitude média de 40 m e são formados por areias, argilas e siltes, misturados entre si, com concreções ferruginosas, seixos e pedregulhos de tamanhos variados (Marques, 2006). A profundidade do lençol freático é em torno de 35 a 40 m. Até 2008, executavam-se tubulões a céu aberto para as fundações das poucas estruturas de médio a grande porte que eram edificadas nessa parte alta da cidade de Maceió. Com o advento da grande quantidade de construções nessa área, teve-se a necessidade de se trabalhar com tipos de fundações profundas de maior velocidade de execução e de menor custo. Neste contexto, assume grande importância o desenvolvimento de técnicas capazes de melhorar o desempenho das estacas escavadas com trado mecanizado, objetivando o aumento da capacidade de carga, a redução das deformações ou recalques e proporcionando maior economia nos projetos de fundações. Assim, este artigo tem por objetivo maior apresentar a técnica de se executar anéis ao longo fuste destas estacas a fim de se aumentar o atrito lateral e, consequentemente, sua capacidade de carga. São também apresentados os resultados dos primeiros ensaios de campo (provas de carga) os quais mostraram que a carga admissível das estacas com anéis pode atingir valores superiores ao dobro da carga admissível de uma estaca escavada convencional. Com isso, obtêm-se projetos de fundações mais econômicos e seguros. 2 PROCESSO EXECUTIVO DAS ESTACAS ESCAVADAS COM ANÉIS As estacas são executadas utilizando-se o tradicional trado helicoidal (Figura 1), com diâmetros que podem variar de 0,25 m a mais de 1,00 m, e profundidade até 20 m. Em geral, a perfuração é limitada pela presença do nível d´água. Figura 1. Perfuração da estaca com trado helicoidal tradicional. Após a perfuração da estaca até a profundidade prevista em projeto, passa-se a execução dos anéis: a) Após a perfuração, acopla-se ao trado (Figuras 1, 2 e 3) uma peça denominada por “ponteiro”, e sob pressão do equipamento hidráulico corta-se a parede do furo até a profundidade desejada (de 1,20 m a 2,00 m); sob movimento de rotação executa-se o primeiro anel. Esse anel, nada mais é que um rasgo transversal na parede do furo, com profundidade de 10 a 15 cm (a depender da compacidade ou consistência do solo) e largura média de 15 cm; b) Com a execução do primeiro anel, continua-se cortando a parede do furo até a profundidade do segundo anel (1,2 m a 2,0 m abaixo do primeiro anel). Executa-se esse anel, de forma semelhante ao primeiro, e repete-se o procedimento para execução dos demais anéis, que deve totalizar um mínimo de 4 anéis, a depender da profundidade da estaca. Concluída a execução dos anéis e a retirada do excesso de material solto no fundo da perfuração, aplica-se o concreto (e a armação) de forma tradicional. A estaca está concluída. razões inicialmente desconhecidas não foi formado. Com as medições in loco verificou-se que o diâmetro da “aba” do anel foi 12 cm (Figura 5). Assim, considerou-se o diâmetro do anel (Da) igual ao diâmetro do fuste (Df) mais 24 cm: D a = D f + 24cm (1) A fim de se ter um melhor entendimento do comportamento carga x recalque desse tipo de estaca, bem como analisar mais detalhadamente suas características geométricas e derimir dúvidas que surgiram com a primeira estaca extraída, foi projetado um campo experimental em Maceió-Al, o qual passa a ser exposto. Figura 2. Ponteiro acoplado ao trado helicoidal. Figura 4. Estaca extraída em julho de 2010. Figura 3. Detalhe do ponteiro. 3 PRIMEIRA EXTRAÇÃO ESTACA COM ANÉIS DE UMA Em julho de 2010 foi estraída a primeira estaca com anéis, para medição e análise da geometria real dos anéis, apresentada na Figura 4. A estaca tinha 6,0 m de comprimento, 0,40 m de diâmetro de fuste e armada em todo seu comprimento com 4φ12.5mm. Observou-se a formação de três anéis a profundidades de 0,5 m, 1,5 m, e 2,5 m, respectivamente. Um quarto anel foi projetado a uma profundidade em torno dos 4,0 m, mas por Figura 5. Detalhe da “aba” do anel. 4 CAMPO EXPERIMENTAL EM MACEIÓAL O campo experimental foi executado em um terreno situado no bairro do Tabuleiro dos Martins, em Maceió-Al. É uma região composta por sedimentos do Terciário da Formação Barreiras, não saturados, estando o lençol freático numa profundidade em torno dos 40 m. Na área de 18 m2 onde foram realizadas sete provas de carga estáticas à compressão (de acordo com a NBR-12131/96 –“Estacas Prova de Carga Estática”,), executaram-se três furos de sondagem que são apresentados de forma resumida na Figura 6. As sondagens seguiram os procedimentos da NBR-6484/80 – “Execução de Sondagem de Simples Reconhecimento de Solos”. É um subsolo basicamente argilo siltoso, com ocrrência de pouca areia, consistência variando de muito mole a média. As estacas ensaiadas tinham 0,40 m de diâmentro nominal e 5,5 m de comprimento, sendo o diâmetro externo dos anéis estimado em 0,64 m, espaçamento de 1,0 m entre eles e último anel ficando a 1,5 m da ponta da estaca. A armadura das estacas de compressão foi de 5φ12.5mm, comprimento de 2,5 m. As estacas de reação (ER-1; ER-2; ER-3; ER-4 e ER-5, ver Figura 7) foram projetadas com diâmetro de 0,50 m, comprimento 13 m, com armadura secundária de 6φ8.0mm e comprimento de 6,0 m mais um tirante monobarra 1φ50mm e comprimento 15 m. NSPT 0 10 20 30 40 50 0 1 Profundidade (m) 2 ARGILA siltosa, consistência muito mole a média. 3 4 Figura 7. Disposição das estacas ensaiadas, estacas à tração e furos de sondagem. 5 6 7 SP-03 8 SP-04 ARGILA siltosa, com pouca areia, consistência média. SP-05 9 Figura 6. Perfis de sondagem do campo experimental. A Tabela 1 apresenta a identificação das sete estacas ensaiadas e a Figura 7 mostra a disposição em planta dessas estacas, as estacas de reação à tração (ER) e os furos de sondagem. Tabela 1 – Nomenclatura das estacas ensaiadas. Estaca Descrição E1 Estaca lisa (sem anéis) E2 Estaca com anéis e isopor na ponta E3 Estaca com anéis E4 Estaca com anéis E5 Estaca com anéis e consolidação na ponta E6 Estaca com anéis e consolidação na ponta E7 Estaca com anéis e consolidação na ponta A estaca E1 sem anéis, foi adotada como de referência. A estaca E2, com anéis e isopor na ponta, teve por objetivo isolar a ponta da estaca e medir a contribuição apenas dos anéis. Com as estacas E3 e E4, apenas com anéis, pode-se verificar a influência da parcela de ponta em comparação com a estaca E2. Por fim, as estacas E5, E6 e E7 tinham anéis e foi feito um melhoramento no solo da ponta com argamassa fluida na proporção 1:4 (cimento:areia), o que foi denominado consolidação da ponta. 4.1 Apresentação e Análise dos Resultados das Provas de Carga Na Figura 8 têm-se as curvas carga x recalque das sete estacas ensaiadas. A Tabela 2 mostra os valores de carga (Qmáx) e recalque (rmáx) máximos, atingidos nas provas de carga. Também são apresentados os resultados da estimativa da carga de ruptura segundo Van der Veen (1953) (QVDV) e segundo o critério de ruptura convencional (Qconv), considerando a carga correspondente a um recalque de 10% do diâmetro do fuste. CARGA (kN) 0 100 200 300 400 500 600 700 800 apresentaram os maiores percentuais de ganho de carga evidenciando que esta técnica pode ser promissora na consideração da parcela de resistência de ponta desse tipo de estaca. Tabela 3 – Porcentagem do ganho de carga das estacas com anéis em relação à estaca de referência (E1). 0 5 10 R E C A L Q U E (m m ) 15 20 25 30 35 Estaca Qmáx (kN) ∆P% E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 350 540 540 560 800 600 720 54 54 60 129 71 106 40 45 50 55 60 E1 - Estaca lisa E3 - Estaca com anéis E5 - Estaca anéis + consolidação E7 - Estaca anéis + consolidação E2 - Estaca com anéis + isopor E4 - Estaca com anéis E6 - Estaca anéis + consolidação Figura 8. Curvas carga x recalque das estacas ensaiadas. Estaca E1 E2 E3 E4 E5 E6 E7 Tabela 2 – Resultados das provas de carga. Qmáx rmáx Qconv QVDV (kN) (mm) (kN) (kN) 350 540 540 560 800 600 720 26,64 49,09 40,57 46,65 43,38 49,20 47,00 350 545 548 581 804 609 724 520 540 530 790 580 700 Quando se compara a capacidade de carga da estaca com anel e sem anel, verifica-se o quanto os anéis são eficientes. No cálculo da porcentagem do ganho de carga, considerou-se a carga máxima de ensaio (Qmáx) subtraída da carga máxima de ensaio da estaca E1 (QE1), dividido pela carga máxima de ensaio da estaca E1 (QE1), ou seja: ∆ P% = Qmáx − QE1 x100 QE1 (2) A Tabela 3 mostra a porcentagem desses ganhos de carga. Observa-se uma variação de 54 a 129% no ganho de carga das estacas executadas com anéis. Destaca-se que as estacas com anéis e consolidação da ponta Verifica-se que as estacas E3 e E4, executadas apenas com anéis, apresentaram carga de ruptura de 550 kN, valor praticamente igual ao da estaca E2 (anéis + isopor na ponta) de 540 kN. Constata-se que nas estacas escavadas sem melhoramento de ponta, esta parcela deve ser desconsiderada no cálculo da capacidade de carga, devido ao material desagregado que permanece no fundo da perfuração. As estacas com anéis E2, E3 e E4 apresentaram um valor médio de tensão lateral unitária (fs) de 80 kPa, já na estaca sem anéis esse valor foi de 51 kPa. Os anéis executados ao longo do fuste proporcionam o aumento do atrito lateral da estaca. As estacas E5, E6 e E7 (com anéis e melhoramento da ponta) apresentaram ganhos entre 10 e 46% em relação às estacas com anéis apenas. Este resultado mostra que este processo confere excelente ganho de carga nas estacas, apesar da variabilidade entre os 3 resultados. 4.2 Extração da estaca E3 A Figura 9a apresenta uma vista geral da estaca E3 extraída e a Figura 9b mostra o detalhe dos anéis. As medidas in loco mostraram que o espaçamento entre anéis foi de 1,0 m. O diâmetro do fuste chegou a 47 cm entre o 2º e 3º anel e o diâmentro do anel foi 67 cm. Verificouse a não formação do 4º anel e sim um aumento do fuste na região. A possível explicação para este fato é que anéis próximo à ponta da estaca tendem a ser preenchidos pelo solo solto proveniente do trado na hora que este está em movimento de subida (ascensão) durante o processo de perfuração. Atualmente recomendase que os anéis distem pelo menos 2,0 m da ponta das estacas. e consolidação da ponta de estacas escavadas a seco, são necessárias mais provas de carga para que os resultados sejam melhor aferidos e possam ser utilizados de forma confiável nos projetos de fundações. AGRADECIMENTOS Os autores agradecem à Construtora Cerutti Engenharia e à Concreteira Redimix pelo apoio na execução do campo experimental em Maceió-Al. REFERÊNCIAS a) Estaca E3. b) Detalhe dos anéis. Figura 9. Extração da estaca E3. 5 CONCLUSÕES Neste trabalho, apresentou-se uma técnica simples e inovadora de se executar saliências, denominadas anéis, ao longo do fuste de estacas escavadas a seco. O interessante desta técnica é que a execução dos anéis e limpeza do excedente de material solto não leva mais que 10 minutos, resultando na grande vantagem do processo, pois não compromete a produtividade dessas estacas. As provas de carga mostraram que as estacas com anéis apresentaram um aumento da capacidade de carga de até 57% em comparação à estaca escavada tradiocional. Também foi apresentado um procedimento de melhoramento da ponta desse tipo de estaca, com argamassa fluida na proporção 1:4 (cimento:areia), o que foi denominado consolidação da ponta. Os ensaios de campo mostraram ganhos de carga de até 47% em relação às estacas apenas com anéis. Apesar da constatação do significativo ganho de capacidade de carga com a execução de anéis Associação Brasileira de Normas Técnicas (2010). NBR 6122: Projeto e Execução de Fundações. Rio de Janeiro. Associação Brasileira de Normas Técnicas (1996). NBR 12131: Estacas - Prova de Carga Estática. Rio de Janeiro. Associação Brasileira de Normas Técnicas (1980). NBR 6484: Execução de Sondagem de Simples Reconhecimento de Solos. Rio de Janeiro. Marques, R.F. (2006). Estudo da Capacidade de Carga de Estacas Escavadas com Bulbos, Executadas em Solos não Saturados da Formação Barreiras da Cidade de Maceió-Al. Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Geotecnia, Departamento de Engenharia Civil, Universidade de Federal de Pernambuco. Recife. 158p. Marques, J.A.F. (2004). Estudos de Estacas Escavadas de Pequeno Diâmetro, com Bulbos, Instrumentadas em Profundidade, em Terrenos Sedimentares. Tese de Doutorado – Escola Politécnica da Universidade de São Paulo-EPUSP, São Paulo. 319p. Souza Filho, J.; Fígaro, N.D.; Falconi, F.F. (1998) Estacas Escavadas sem Lama Bentonítica. In: Hachich et al. editores; Fundações Teoria e Prática, ed. PINI. Cap. 9. p. 336-344. Van Der Veen (1953). The Bearing Capacity of a Pile. In: 3 rd ICSMFE. vol. 2. p.84-90.