Capitalo VI
A Terra e a Grei
Dissemos no primeiro capitulo deste estudo que a sociedade de Goa apresenta
aspectos interessantes. Qual quer estudioso de cienci as sociais acha-se face a um corpo
social com dois sectores distintos urn do outro em virtude das suas religioes principais, a hindu e a crista. Cada sector é caracterizado por tacos sociais tipicos.
Ate os inicios do seculo XVIII, so os tres concelhos das Ilhas, Bardez e Salsete
estavam sob o dominio portugues e constituiam o que a ainda hoje conhecido como
Velhas Conquistas. E a partir da ultima decada do seculo XVIII que, corn a anexacao
das Novas Conquistas, Goa adquiriu as presentes feicoes geo-politicas.
No que diz respeito a distribuicao da populacao por estas areas, nas Velhas
Conquistas, os cristaos constituem a maioria enquanto nas Novas Conquistas predominam os hindus.
As cronicas dos historiadores e dos inissionarios, ou os estudos feitos mais
recentemente por investigadores sociais trouxeram a luz, de uma maneira geral, os
problemas de ordem social, religiosa, politica, pedagOgica, administrativa que afectavam a sociedade. Porem, o mundo intim° ou a vivencia social, espiritual e psicologica — as crencas, os valores sociais e morais, as aspirac5es, as esperancas, as
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arignstias — destes dois sectores da sociedade goesa foi raras vezes object() de qualquer estudo.
Compreende-se. A etnograafia ou a antropologia cultural desenvolveu-se como
uma ciencia social so a partir dos fins do seculo XIX. Neste campo,o Dr.Braganca
Pereira con: a sua
I;;dia Portu-gi.ic3a fc,z um tiabalho uc piunciro.
del e, acham-se pequenas notas e artigos sobre o assunto, espalhados em livros, revistas
e jornais tais como The Voyage of John Huygen Van Linschoten to the East Indies
(vol.1, pag.222-231), 0 Oriente Conquistado pelo Pe.Francisco Souza, Gabinete
Literario das Fontainhas por Filipe Neri Xavier (1), os jornais Ultramar e A India
Portuguesa. 0 artigo "Crencas Populares" de J. C.Barreto Miranda no seu famoso livro
Quadrics Historicos de Goa é um estudo de grande interesse.
Nestas circunstancias, é nas obras da literatura criativa, principalmente, que se nos
oferece o ensejo de lancar tuna vista sobre esse mundo intimo da sociedade goesa.
A sociedade cri sta goesa ach a-se retratada, em al guns dos seus tacos caracteri sti cos,
na novela Jacob e Dulce de Gip, pseudonimo de Francisco Joao da Costa, em varios
contos principalmente de tais autores como Silva Coelho(2), Vimala Devi (3), Alberto
de Menezes Rodrigues (4). Facetas da sociedade hindu estao pintadas no romance
Bodki de Agostinho Fernandes (5) e contos de Laxmanrao Sardessai, Epitacio Pais e
outros.
Jacob e Duke
Na intencao declarada pelo autor na nota prefacial, o opirsculo "nao é um
romance", mas apenas "uma narracao singela e despretenciosa, escrita ao correr da
pena" corn o fim de "descrever aqueles dos nossos usos e costumes ridiculos"(6).
1
2
3
4
Xavier, F.N., Gabinete Literario das Fontainhas, torno I, pag.196-197 .
Silva Coelho, Contos, publicados no BIMB, N°124-127
Devi,Viinala, A/miciin, Lisboa 2, 1963
Rodrigues, Alberto de Menezes, Hor Campestre, Bastora, 1968
5
Fernandes, Agostinho, Bodki, Lisboa, sem data, ed.do autor
Gip, pseucloninto de Francisco Joao de Costa, Jacob e 'Mee, (Cenas da Vida Indiana), 3°ed.,
1974, pag.XV
6
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De facto, ninguem chamaria hoje Jacob e Dulce urn romance mas apenas uma
novela. A urdidura é muito simples, dir-se-ia mesmo que a novela nab tern urn entrecho no sentido classico, isto é, uma historia que se desenrola passo a passo, revelando
os conflitos intimos das personagens, ate chegar a urn climax ou epilogo dramatico. E
antes uma "sucessao de cenas do modo de viver indiano-portugues, a girarem em torno de = casamento" (7).
Numa vila chamada Breda, na familia Dantas, o Pe.Ant6nio que é considerado
maioral, trata de arranjar uma noiva ao seu sobrinho Jacob que, passado o exame do
estado, se graduou "doutor". Ele é um advogado de pequeno merecimento intelectual.
0 Padre pensa em Dulce Pereira, uma menina trigueira e feia que tern apenas urn
conhecimento rudimentar da lingua portuguesa, do canto e do piano. Mas, no fundo do
coracdo, o padre ambiciona mas e o dote de grande valor que os pais de Dulce, mau
grado seu, teriam de dar pars, de toda a forma, arrumar o casamento da filha que é um
encargo.
Afinal o casamento realiza-se mas nao sem desentendimentos, recriminacOes e
quase insultos. Houve urn baile na casa dos Dantas. A sal a foi adornada com urn retrato do padre que exibia todos os seus titulos: "nasci do em 1820, gaoncar do 1° vangor,
natural de Breda, teOlogo eximio".
Enquanto decorria o baile — era ja alta hora da noite — realizou-se a cerim6ni a
da entrega da noiva a sua sogra e ao do padre. Os di as que seguiram foram de celebraeao
do evento corn jantares de etiqueta e de soirees entremeados de cantos de mandOs.
Dulce aclimatava-sea sua nova casa nao sem conflitos com as pessoas das suas novas
relayeres.
Uns meses mais tarde, o padre Dantas adoeceu. Foram chamados, primeiro, o
Dr.Azevedo, "medico velho, divorciado com os livros e jornais medicos", e, em
seguida, outros tres que em vez de discutir os simomas da molestia, "estavam
porfiadamente apurando qual deles era o mais sabio". Enquanto urn vomitava
academicamente citaceies abundantes de livros e casos descobertos nas suas pequenas
Taunay, Visconde de, "Urn Romance Goense", em
- 218 -
e Duke, 1964, pag.XXV11
clinicas, o outro relatava a histori a, etimologia, a aplicacao de banhos na antiguidade.
A molesti a do padre Antonio agravou-se e, afi nal, passados uns dias, o padre expirou.
Houve gritos, choradeira e convulsoes, o que evidentemente era tudo uma faro.
Urn necrolOgio de frases feitas foi publicado no jornal local. No seu testamento o padre
Artopio D9ntas constiti!ia Jacci, seu .1, crdeir,) universal mar legava c usufrutc irrna
de Jacob. Dulce deu a luz um menino.
A sociedade retratada em Jacob e Duke
N uma nota biografico-critica sobre Gip, em A Era Nova (8) apps a morte deste em
Junho de 1900, A.G. (as iniciais correspondem a Amancio Gracias) diz que Jacob e
Dulce e "a hi storia social do nosso meio". E-o corn muito acerto. A sociedade goesa
dos seculos XIX e XX foi caracteristicamente burguesa e feudal. A novela de Gip
esboca, em tacos de deliciosa leveza, facetas do dia-a-dia de um grupo social, -nomeadamente, da camada superior da sociedade, representado aqui por urn certo
niimero de familias cristas indo-portuguesas de Margao do seculo XIX, pertencentes
casta bramane.
A narracao ou as vinhetas de Gip expoem a luz da ribalta varios tipos que
integravam a sua sociedade. Assim aparecem batcaras e manducares, sacerdotes,
solteironas, medicos, advogados, europeus de Portugal ao servico da administracao,
descendentes.
A intencao do autor foi, evidentemente, expor, como urn critico, as convencoes
soci ais, as i di ossi ncrasi as e os pontos fracos desse grupo social, "descrever aquel es dos
nossos usos e costumes que reputo ridiculos" (9), "para desterrar dos habitos e costumes da familia indiana as ridiculas excrecenci as que as envoi vem coino uma ganga
amorfa" (10). E fe-lo corn grata e humor, bem compenetrado do que antes dele, fizera
o mestre Horacio, seguindo a di visa da comedi a castigat ridendo mores que o arlequim
8
8a
A Era Nova, 23 de Junho de 1900, citado na 3° ed.de Jacob e Dulce, pag.167-169
9
Gip, na nota prefacial "Ao Leitor", pag.XV.
Ismael Gracias, "Palavras Prefaciais", pag.XX.
10
Note-se que existe em Margao um bairro populoso chamado Borda. E aqui que vivem as
familias fidalgas de Marg5o. 0 leitor que conhece este bairro e as referencias topograficas
da novela sabe bem que Breda a uma ligeira modificack de Borda.
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Dominico mandara pintar no pano da boca de seu teatro.
As familias a que nos referimos constituiam uma elite social. As pessoas das castas
inferiores olhavam para elas como paradigmas e modelos de excelencia social. A sua
linguagem no trato do di a-a-di a era polida e delicada. Vivi am de profissoes liberais que,
em reara, sao consideradnc qupPriorec as maritn.c e tecrfs-- temp^.
As suas maneiras ocidentais de se vestirem, de arranjarem a casa, de se alimentareni
eram reputadas superiores as orientais, locais. Seus teres e haveres em termos de joias,
dinheiro e propriedades; os titulos, tais como o de gaoncar, jonoeiro, confrade das
associacoes religiosas da igreja da aldeia; oficial-maior; o facto de que tinham debaixo
de si manducares: tudo isto era simbolo da sua abastanca e do seu poderio e influencia
sociais, ao mesmo tempo indicando tradic5es luzidias e uma ancestralidade gloriosa.
Jacob, protagonista da narrativa, é um gaoncar da comunidade agricola de Breda.
Pertence a uma familia "nobre e principal", no seio da qual "g,rel aram c,onegos, viganos
thissionarios, e um dos seus antepassados, ilustre pelo saber, estava para ser nomeado
professor do Real Seminario de Rachol e urn outro, Ouvidor do Crime na comarca da
sua naturalidade".
As famil i as em Goa eram (e sao-no ainda hoje) muito ciosas dos seus pergaminhos.
Se nao os houver reais, isto e, documentados, eles exi stem ao menos outorgados pela
tradicao oral que cada qual cria. Assim, falando dos titulos que tornavam a sua familia
notavel, o Padre Antonio Dantas diz: "o que tudo consta de documentos"; e logo depois
Gip acrescenta: "mas ninguem ate aqui viu os tais documentos".
Para encobrir as suas faltas e limitacoes, essas famil i as apoiavarn-se, como e muito
human°. nas aparencias de serem abastadas, nobres, polidas, inteligentes. A impostura
é o quc caracterizava, em parte, essas farnil i as. Havi a tantas vezes urn hi ato entre o que
estas famili as de facto vali am e o que a gente da aldei a ou da vil a pensava que el as eram.
Ern Jacob que tinha uma inteligenci a reconhecidamente curta, o mestre, na
esperanca de ganhar atencoes da familia, "lobrigou dentro do crane() anguloso do
pcqueno, inteligencia genial". Quando o protagonista esteve justo para se casar, "ele
engrossou a voz, carregou o sembl ante ...deixou crescer pera, vesti a-se corn primoroso bom-tom, e fatos luxuosos de cores claras — fibre dos noivos...trocou o viddi
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(cigarro feito de folha de bananeira) pelo cigarro entregou-se a orgia de ter opiniiies
sobre a politica partidaria e seus efeitos" (11).
0 piano era urn instrumento destinado nao tanto para uma formacao artistico-musi cal mas para promover o fachadismo social de que a menina sabe tocar piano.
"Elm c o mestre de soifegio e cie piano e a discipuia parece haver urn contrato tacit° de
enganar o mundo. Um tern de ganhar a vida, outra o casamento, por isso mutuamente
se elogi am -, diz Gip.
Uma outra limitacao que caracterizava essa sociedade era a imitacao sem criterio
do que fosse estrangeiro ou europeu. Para Jacob "o europeu que deparasse na rua era
a personifi cacao da moda embora o seu fato ti vesse si do talhado, no seculo passado, em
Banana (12).
Esta atitude mental de Jacob e dos outros jovens de Breda levava os provincianos
como eles a alimentar urn complex° de inferioridade ern relacao aos senhores e
senhoras da capital, Panjim, que estavam sempre em contacto corn os europeus.
No baile do casamento aparece Lilia, uma menina da capital que " falava do
governador, do secretario de todos os chefes europeus de reparti cOes corn tal familiari dade
que I evava os que a escutavam a supor que todos eles eram visitas do seu pai - contava
anedotas dos juizes da relacao e outros altos funcionarios corn tal arte que fazia
convencer as pobres provincianas admiradas e boquiabertas que todas essay
anedotas se filth= dado corn ela.
As meninas da capital olhavam para as outras corn ar de compaixao. As pobres
provi neianas imitavam os seus movimentos prestigiosos como a Old ma expressao da
moda da capital.
I twalmente, Jacob nao era ulna excepcao a regra de que "na cidade preclara de
Breda_ os haveres de urn individuo oscilam segundo o seu estado"(pag.8). Jacob
II
Jacob e
12
/hie/ern,
pag. 54.
pag. 7 .
- 221 -
"graduado doutor", regressou de Pangim "com o rolo de diploma de advogado,
...diploma coin que advogou so no foro da sua consci enci a".
A familia Dantas falava urn portugues mas com construcoes gramaticais e
vocabulos emprestados do concanim que era a sua lingua materna. Falsidades sociais
?parPc- ",,,. tambem r_q familia Pereira a que e: fence Dulcc. A fa--' 1 :21, diz Gip, c.,•oiitava
corn o valimento da Senhora, nao Canto por verdadeira devocao, mas porque "lhe dava
vencidos pleitos, conseguidas nomeacoes para empregos publicos em prejuizos de
outros concorrentes,e el evado o preco do coco que a familia vendia e abaixado o preco
do bate que comprava".
Duke nao era bonita. Contudo, "os que desejavam bem, capitulavam-na de
elegante e esbelta, pelo menos com os estranhos". "Aprendiz de piano, Dulce ainda
alp& um longo tirocinio, sabia mas era apenas martelar este instrumento, como fazi am
todas a meninas incasaveis ainda esperancosas. Na India, o piano ainda quando nao tem
cordas, nem tecl ado, é ainda prestavel: honra a familia com a sua presenca respeitavel,
(la aos seus membros creditos de musicos, e eleva-os na estimacao das visitas". Tarnhem o mestre de piano é tudo menos mestre.
- 10 padre AMOnio Dantas é uma figura tipica da sociedade de Goa, do seculo XIX.
Nesses tempos era uma honra (ainda hojeo 6) ter urn padre n a familia. H avi a sacerdotes,
autenticos ministros do Senhor. Mas havia-os outros que, por falta de qualidades de
horn en s vivendo as alturas da sua vocacao, ficavam em suas respecti vas casas. Versados
nos assuntos da adminstrac5o da casa e perfeitos hoarsens de negocio, entregavam-se,
forcados pel as circunstancias em que viviam, "a abstinenci a literaria, canonica e
ci entifi ca - .
0 medico e ulna outra personagem que povoa o mundo descri to por Gip. A I 'scol a
Medi co-CirUrgica de Goa, fundada em 1842 — a e scol a mai s antiga de toda a Asia —
era a instituic50 onde se formavam Os esculapios de Goa. Os que tivessem capacidade
financeira, i am para Portugal a fim de repetir o curso na faculdade. Corn poucas
facilidades para actualizarem os seus conhecimentos, os medicos particularmente Os
que exam considerados especialistas e di stintos, andavam a maneira do Pe. Dantas.
"di vorciados com os livros e jornais medicos desde anos" (pag. 144). Dai, quando
chamados para conferencias em caso de uma enfermidade grave, estes esculapios
di stintos entre2.avarn-se a lueubracoes acade.micas, fazendo al arde dos seus
111
conhecimentos livrescos. Por isso, os medicos em conferencia nunca chegavam a
acordo algum.
Em Jacob e Dulce, o Dr.Azevedo, o medico da casa, acreditava que "a fe cura a
major parte das molesfias". Quando os incomodos do Pe.Dantas se agravaram, foram
chamados os dc,-utores Sanches, Castdo e C utiiiii1o. viiia cena traBico-uoinica iem
lugar. De um lado, o padre anda doente; os medicos, num outro quarto "estavam
porfiadamente apuran do qual deles era o mai s sabio"; e o padre altercan do no seu quarto
pedindo bakhlio (conserva de cainarao com especiarias).
Em Breda, como sucede em todas as sociedades anquilosadas pelo fachadismo
social e pelas inibicOes consequentes, o amor era um senfimento que era virtude
reprimir ou conservar sob restrici5es sociais. Dar-lhe expressao espontanea era um
comportamento socialmente inaceitavel.
0 seguinte episodio ilustra a inocencia, antes, a ingenuidade quase infantil num
namoro entre primos, Cantalicio e Florinda:
—Encontrei no caminho urn blifala, dizia Cantalicio.
Gargalhada sufocada de Florinda.
—Ele fez beum!
Troviles de riso da pequena.
--Cantalicio, tome canja, murmurava D.Especiosa.
—Oremos canjiculi tui, recitava Cantalicio.
Novo riso de Florinda, sem perceber e sem saber porque.
Cantalicio animado:
—Toca-bocum non est?
--Florinda ha-se, ria-se, sem treguas, sifocada. E D.Especiosa nriose
fartava de adverti-la, seria e em voz baixa e arras tada:
-
bastal... Florinda basta! has ta,
Para tins olhos experimentados, estes sdo sinais que troem um amor
incipiente, no fiindo; incipiente, mas tenaz.
Numa terra onde havia poucos divertimentos, os casamentos e as festal da al dei a
eram eventos de importancia. Quando se realizou o ajuste de casamento de Jacob e
Dulce, "quase toda a Breda se interessava pelo enlace".
- 223 -
0 casamento a olhado como uma maneira de criar urn novo relacionamento
entre as familias `principais' da vila. Mas os noivos portam-se corn urn pudor singular.
"Dulce nao podia ver qual quer parente de Jacob, por mais remoto que fosse, sem corar
de pudor; Jacob desviava-se di scretamente da noiva e seus rel aci on ado s fetnininos para
evitar saudacao e comentarios". Urn paternalismo e proteccioni sato dos membros
Inais velhos da familias noivos. Leta
Ludo
d ctiuo das nortnas do pudor
indiano. E o pudor oriental que a assimilacao da cultura portuguesa ocidental nao
conseguiu superar.
Na galeria das personagens que integram o quadro social da vila de Breda, nao ha
senao referencias fugidias aos humildes. Compreende-se. Jacob e Dulce é um retrato
da vida da camada superior. Mas quern é que conferiu a essa camada urn grau de
superioridade? Foi, corn di sse Amancio Graci as, "a fal az imaginacao popular, de spertada por sentimentos de classe e casta" que the deu "imerecido vulto" (13).
Na nossa novela, os pequenos e os humildes vivem em funcao do conforto e do
bem-estar das familias dos Dantas e dos Pereiras. Estes sendo batcaras tern Para o seu
servido alguns manducares. E por ocasiao dos eventos sociais da familia a que eles
pertencem — baptizados, funerais, sacramentos — que os manducares aparecem na
cena, prestando servi cos humildes.
Apos as prendas de Jacob e Dulce duas manducares al egam o direito a transportar
o primeiro presente da noivapara a casa do noi vo e receber as al vi ssaras. "Uma fora ai a,
e a outra ama de leite de Dulce". A aia fez crescer a bai Dulce, tendo servido na casa
dos Pereiras por sete anos sem salario.
Os manducarees de Sal sete, na sua maiori a pertencentes a classe curumbim, eram
con si derados quase membros da familia e tratados por el a corn afeicao. Mas, de facto,
os manducares eram nada mai s do que criados de servir. E tantas vezes os donos da casa
tratavam-nos corn injustice, nab lhes pagando o sal ari o devi do. Destarte a sua condi cao
era semelhante a dos vassalos na Europa Medieval.
13
"Nota a Lapis de Gip - , por A.G.em A Era Nova de 1 de Marco de 1899, citada no Adendo
de Jacob e Dulce, 3° ed., pag.I 63.
- 224 -
Os manducares aceitavam-na nab so sem nenhuma contestacao, mas em muitos
casos, corn certo orgulho e satisfacio. Estar em casa do batcard, eventualmente, jantar
nessa mesma casa era motivo de honra. Na nossa novela, no di a do falecimento do Padre
Dantas, "num canto ouviu-se urn suspiro prolongado e cantado. Fora dado por uma
manducar inconsolavel, que desta maneira anunciava a todos que contassern consigo
Fira j aii tar- .
De uma maneira geral, os outros membros da classe inferior da sociedade, da
classe sudra eram gente pobre e privada ainda do necessario para a sua alimentacao. Os
membros desta classe prestavam-se apenas para ser um deddo ou deddi (acompanhante-criado do noivo ou da noiva), como descreve o autor a pagina 1 30, ou para prestar
os servicos de mocadtio (pag.49), uma especie de criado-fiscal-administrador dos
trabalhos de cultura e colheita dos coqueirais e arrozais do senhorio, ou simplesmente
urn criado de servir.
Jacob e Dulce a uma "pintura viva animada e fi el" (14), nab apenas das
personagens, mas das maneiras sociais de se vestir e de se mover de um I ugar para outro,
da elite de Goa em finais do seculo XIX. Embora ja sob a infl uenci a da cultura
portuguesa, as famil i as di gamos fi dal gas e abastadas de Goa conservavain, na i nti mi dade do I ar, muito dos seus habitos locais indianos. Se para as festas e funcoes solenes,
o cavalheiro se vestia de calcas e casaco corn gravata e a senhora tinha o vestido, "o
Indio", diz Gip, "usa del es por convencao sem nenhuma necessidade; e secretamente
os odeia".
A. Lopes Mendes descrevendo, em A India Portuguesa (1 5), a maneira de se
vestir dos batcards de Goa, diz que el es en vergavam "uma cabai a, arregacada deixando
ver parte do langotim. Pes em chinelos, ao pescoco, pedra verde". Os membros das
familias abastadas de Breda aparecem. segundo a descricao de Gip, em lugares
publicos, vestidos "corn todos os requintes de moda e de luxo"; porem, pode alguem
it encontra-los em sua casa, de langotim (urn !env) corn que os homens se cingem na
regi ao pubica).
0 veiculo de locomocao era a machil a. um conjunto de dual cadeiras de espaldar
14
Tammy, Visconde de, /ac.cii., pag.27.
15
Lopes Mendes, A., ..1 India Portuguesa, vol. I, pag. 188
alto, voltadas uma a outra, com os espaldares ligados por uma trave longa, que os
transportadores carregavam a cabeca.
Jacob e
u set, valor
Jacob e Dulce permanecera como uma contribuicao importante de Francisco Joao
da Costa, sob a forma literaria de uma novela, para a hi storia social de Goa. Quern qui ser
estudar a evolucao da sociedade (referimo-nos a camada superior do sector cristao) de
Goa, ndo podera prescindir da sua leitura, poi s "encontrara la farto pecidio" (16).
Gip criou uma pequena urdidura, para descrever, como ele proprio diz, "os
costumes ridiculos que dominam na sociedade indo-portuguesa" do seu tempo. Para
esse efeito, criou " alguns tipos com vicios e costumes mais em evidencia, tipos que
se encontram em toda a Goa e em todas a castas" (17).
As cenas descritas fazemlembrar Julio Diniz emAs Pupilas do Senhor.
Reitor. El as
tem grata e humor, tao cheias de realismo que um sorrisozinho paira espontaneamente nos labios de quem as le. Ha uma que outra a Camilo Castelo Branco nos momentos de brejeirice.
Jacob e Dulce é — ja o di ssemos mais de uma vez — uma satira, um grito de
protesto "contra essa atonia social que prende todos os movimentos da vida a
acanliadissimo convencionalismo, ao jugo aniquilador e ferrenho do que os Ingleses
chamam o cant, a vassal agem covarde e mesureira, nas menores circunstanci as e coisas
da existencia, ao dizer, ao reparo, a critica e maledicencia dos outros, a submissao
incondicional, servil, ao que seja moda ou tal se pretenda ser e se pratique na metropole e em Portugal" (18).
Quando o jornal Ultramardavatodasas seman as os quadros de Gip, uns aplaudiam
o autor e outros censuravarn-no. Aplaudiam os que compreendendo as intencOes do
16
17
18
A.G., "Gip" em A Era Nova, de 23/6/1900.
Gip, "Ao Leitor", pag.XV.
Tammy, Visconde de, /0c.cii., pag.XXXIX
-226-
autor, estavam interessados em ver a sua sociedade reformada. Censuravam os que
"movidos por urn chauvinismo sem significacao ponderavel" tratavam Gip como "o
zombador feroz que nab poupa coisa alguma, um excentrico que pretende demolir tudo,
sacudindo os velhos preconceitos, desacatando as antigas formulas e estilos" (19).
Rnquanto
Ornins que escrfwel! "Palavras Prefaciais" A plimeira
1896, reconhecia que o trabalho era "talvez um pouco exagerado e imperfeito, mas no
fundo verdadeiro, o qual sera sempre lido corn o interesse que excita a pintura da
realidade," o Visconde de Taunay, num artigo critico publicado na Revista Brasileira
de 1 de Junho de 1897, dizia que, no desfilar daquelas cenas todas, " ha cepticismo
demasiado, fel e fermento acumulados a irromperem corn impeto juvenalesco... [e]
parti-pris de pessimismo e agrura".
A censura porem é injusta Todo o satirista proptie-se retratar e expor os defeitos
e os vicios de que enferma a sociedade em que ele vive, e assim contribuir para o
aperfeicoamento e reforma dessa mesma sociedade. Neste processo, ele cone o risco
de ser acusado de ter cinicamente exagerado os defeitos e os vicios. Mas tal exagero
longe de ser uma falta é apenas urn meio, dir-se-ia mesmo, uma tecnica literaria de
atingir a meta.
Tal como o fotografo que, querendo chamar a atencao do public° para uma obra
de arte, da nao apenas uma vista geral, mas uma vista dos detalhes, para melhor se poder
aprecia-1 a, o satirista exagera, amplia, al arga os vicios e os abuskies da sua sociedade.
Neste sentido, o exagero é um merit° e nAo uma falta. Ele é como o cirurgiao que corn
a lanceta abre a idcera para a curar. 0 processo é doloroso mas curativo.
Gip troca a valer "a ferocidade aristocratica, a prosapia de casta, os privilegios de
rata, tao poderosos e acabrunhadores em toda a India Portuguesa"(20).
Um outro merit° de Gip é o seu poder de observacao dos homens e das coisas,
como di sse Ismael Gracias, ou "a penetracao de olhar muito perspicuo", na expressao
feliz do Visconde de Taunay.
19
20
Gracias, Ismael, "Palavras Prefaciais", pag.XX.
Taunay, Visconde de, loc.cit., pag.XXXII.
- 227 -
S6 assim se compreende como Gip tenha reproduzido frases do portugues coin
construcoes concanim. Algumas das personagens da novela pensam em concanim e
exprimem-se em portugues. Uma pormenorizada descricab
' das licoes de piano dadas
pelos mestres, as conferencias e as entrevistas, rupturas e reatamentos das relacoes,
esforcos e lutas num sentido e noutro entre os negociadores do casamento, os
man.Srismos nos fr,stos, palvras, atitndes e reacceies das diversas personagens aos
procedimentos e idiossincrasias daqueles coin quern se encontram: sdo estes os detalhes que fazem de Jacob e Dulce um precioso documento da histeria social de Goa,
relativa ao seculo XIX, uma quase fotografia da camada superior da sociedade crista
de Goa. Gip tem dominio perfeito do idioma luso. Embora the ocorram alguns pequenos deslises gramaticais, ele escreve com elegancia de estilo e de uma maneira
empolgante, com descricaes cheias de realismo e dialogos vividos. A sua linguagem é
tersa e conci sa. Para pano de amostratranscrevemos o seguinte retrato do jovem Jacob,
o protagonista, a pag.7:
Aos 22 anos Jacob encetara o estudo de direito. Era urn mancebo guapo,
urn pouco trapalhao, acanhado diante das senhoras, meticuloso na questdo
do vestucirio.
Pouco the importava a limpeza do seu corpo, queria as calcas a moda
ern vigor na cidade.
Afligia-se quando o casaco tido tivesse o mimero de botoes que marcayarn os janotas conceituados e autorizados.
De sobrecasaca ninguem seria capaz de faze-lo caminhar apressado.
Ia pausado, imitando ojuiz de direito ou o administrador do concelho, e, como
eles, esperava que o saudassem primeiro, e todos os que o cumprimentavam,
retribuia galhardamente corn urn sorriso de protecctio.
Ern Breda era havido como rapaz de bons costumes, inofensivo,
morigerado e temente a Deus.
Pontual na igreja aos domingos e dias da guarda, fazia timbre em ouvir Missa, instalado ern lugares conspicuos, donde pudesse ser visto pelas
meninas solteiras. Nos dias de festa era infalivel, de casaca, a Missa de tres
padres e acompanhava a procissa-o".
Quando quer exprimir uma ideia corn uma certa conotacao, Francisco Joao da
Costa revela-se como um escritor que nao hesita em cunhar termos ou aportuguesar
- 228 -
vocabulos estrangeiros em funcao das ideias. E a maleabilidade do seu estilo. Assim diz
ele que Jacob sultanava, isto 6, procedia como um suldo, ou que Cantalicio resolveu
exibir-se necrologicamente no Pregoeiro, isto e, exibir o seu talento de escritor no
necrologio escrito no jomal local. Palavras como chaperonadas (pag.34), europeanizou-se (pag.95), chinfrinada (pag.94) sao uns poucos exemplos da liberdade que Gip
ce permitiu
corn graca, qt'_ do pou,c6s escritores dos seus o teriam fejt°.
Bodki de Agostinho Fernandes (*)
0 mundo retratado na literatura indo-portuguesa e na sua major parte, o da
,
sociedade crista de Goa. Compreende-se. Os escritores criativos indo-portugueses s'ao,
na sua maioria, cristabs. Ao exprimir as suas emocaes eles revelam-se como orientais
que assimilaram a cultura crisd ocidental; quando os seus escritos falam da sociedade
em que vivem, eles revelam aquela sociedade em que a civilizacAo ocidental se fundiu
com a civilizacAo milenaria da India.
Foi a partir das finais do seculo XIX que temos tais escritores hindus, como
Siurama Bolvonta Rau, Suria Rau, Ananta Rau Sardessai, Laxmanrao Sardessai,
Rajarama Sinai Quelecar, Megaxam Deshprabhu, R. V. Pandit.
Em Goa, houve sitios — foram as Novas Conquistas — em que a civilizacAo
portuguesa "logrou apenas cobrir de uma tenue camada de vemiz ocidental o que havia
de genuinamente regional" (21).
Alguns contos e pecas de teatro radiofonico de Ananta Rau Sardessai ou de
Laxmanrao Sardessai, abrem-nos alguns pedacos deste mundo. Porem, nenhuma obra
no-lo descreve corn tanta vividez como Bodki de Agostinho Fernandes (22). 0 autor
ou, antes a principal personagem que, apos obter o diploma da sua formatura como
medico-cirurgiao pela Escola Medico-Cirargica de Goa se ve compelido por forcas de
circunstancias a exercer a clinica numa regiao onde, dir-se-ia, a civilizacAo europeia
quase que nab conseguiu penetrar. E a regido de Canacona, nas Novas Conquistas.
Vide a entrevista concedida por Agostinho Fernandes ao P. Eufemiano Miranda, no
Apendice, Documento no fim deste capitulo
21
Gomes, Oscar, na introducao a Bodki, na capa-guarda do livro.
22
Fernandes, Agostinho, Bodki, Lisboa, 1962, edicab do autor, 336 pag.
- 229 -
a) 0 entredio
Recem-formado em medicina, o Dr. Fernando vai fixar a sua residencia em
Maxem, um sitio isolado sem nenhum passatempo, sem qualquer pessoa instruida corn
quem se pudesse conversar, e trabalhar como medico no meio de gente inculta e muito
ligada a mitos e supersticoes.
Dentro de uns dias, o medico teve larga aceitacao. A sua clinica comecou a
aumentar pois que aquela gente simples depositava inteira confianca na pessoa do
medico e nos seus conhecimentos cientificos. Por vezes, para impressionar os seus
clientes o medico recorria amanobras desnecessarias, tais como o use de forceps ainda
em casos de partos normais.
Havia em Maxem uma bodki, vulva velha, muito temida e por isso mesmo muito
maldita, considerada por todos como uma bruxa, criatura de mau agoiro porquanto
escrava do demonio. Havia tambera um gaddi, um feiticeiro, um profeta esoteric° em
contacto com os deuses a quem a gente recorria para conselho, em momentos de aflicao.
Por algum tempo o medico é considerado superior ao poder malefic° da velha.
No meio dessa populacao, o doutor Fernando depara um dia, um rapaz instruido,
chamado Dinvas, estudante universitario de Puna, que viera passar as ferias em casa.
Desde o primeiro momento, o doutor Fernando e Dinvas ligam-se por uma amizade que
permanecera inseparavel ate ao fim.
Dinvas apaixona-se por Kamala, a bel a filha da bodki. Porem, o pai do rapaz opOese ao namoro deste porque o gaddi disse que o eventual casamento so traria desgraca.
Dinvas e o simbolo de um homem da aldeia, que, com a sua instrucao superior, se
opeie a todo o tipo de supersticao e atraso social. Entretanto, Kamala levada pela mae,
jura que o seu cora& nab se prenderapor qualquer homem. Assim renuncia a idei a do
casamento, a fim de que a dinastia de bodkis desapareca da sua familia. Ao aperceberse de que o seu sonho de se casar com Kamala nunca podera vir a realizar-se, Dinvas
enforca-se.
- 230 -
Em seguida o medico adoece gravemente em consequencia de urn ataque de
malaria aguda. Apos recuperar-se da sua molestia o doutor Fernando volta a Maxem
e entre os seus doentes acha-se um sique, chamado Govinda Singh. Ele é um pintor e
a sua grande predileccab sao os nfis. Tendo-se apaixonado por Kamala, comecou a
pintar a figura nua da sua namorada. Tambem el e, a maneira de Dinvis nao acredita nas
superstiOes da gente de Maxem, rem no poder da bodki, rem memo nos oraculos do
gaddi.
Entretanto, corriam pela aldeia diversas verso- es sobre como o espirito de Dinvas
perturbava os habitantes de Maxem, aparecendo sob formas variadas .
Houve urna epidemia de variola em Maxem. A variola, que é supersticiosamente
considerada como urna deusa, matou muita gente e entre ela, o feiticeiro da aldeia. Os
que criam no poder da bodki tornavam-na responsavel por essa morte e, nab podendo conter a sua ira, incendiaram a cabana da -pobre velha que morreu carbonizada.
0 desfecho destas relacoes esti para chegar: Kamala, tendo convivido com o pintor
Singh, fica gravida. Pouco depois, Singh morre envenenado pela mordedura duma
cobra capelo.
A filha da bodki debate-se num drama intimo: ela que jurara a mae que nunca se
casaria, esta a espera duma crianca. Se esta for uma menina, Kamala ira continuar a
dinastia de bodkis. Neste transe, vem pedir ao medico que aborte a crianca. 0 medico
confessa que a deontologia medica o proibe de cometer um acto de violencia contra a
vida.
Kamala nao tem outra alternativa senao suicidar-se, 1 ancando-se mun a pi ra que ela
propria prepara, a maneira do sati, praticado pelas viuvas hindus.
Enfim, o medico que por toda a sua vida se batera contra as supersticaes, cai ele
proprio vitima delas, pois os habitantes de Maxem dizem agora que apos visitar o
consultorio do doutor Fernando, Kamala passara ao medico todos os seus poderes
maleficos, fazendo-o seu herdeiro, seu sucessor.
Como consequencia desta estiipida crenca, finda o sucesso da clinica do doutor
Fernando a quem nao resta outra coisa senao fazer as mal as e regressar para sua casa.
- 231 -
No dia em que deixava Maxem, o doutor Fernando recebe uma carta do seu pai a dizer
que o noivo da sua (do medico) irma Lena morrera carbonizado num desastre de
automovel. Lena estava gravida. Lena era agora uma bodki.
b) A sodedade retratada em Bodid
Maxem é tuna aldeia do concelho de Canacona, ao sul de Goa. Mas Maxem é o tipo
de qualquer aldeia das Novas Conquistas. A maior parte da gente é hindu e pobre.
Todavia, existe um pequeno nucleic* de catolicos que na lida quotidiana corn os hindus
absorveram muitas das maneiras de ser, de pensar e de sentir destes itItimos. Este nitcleo de catolicos "rezava aos domingos na pequena capela e ouvia as prelecciies do
padre que ate ai se deslocava nesse dia, mas nem por isso deixava de ser supersticiosa
como os restantes... "(23).
Tendo recebido poucos ou quase nenhuns beneficios da instrucao portuguesa na
decada de cinquenta, em que decorre a accao do romance, Maxem "parecia uma terra
de irracionais"(pag.68). Porem, "a gente era forte no comercio e no trabaiho". Uns
viviam do contrabando de artigos importados do estrangeiro, para a Uniao Indiana,
enriquecendo-se a olhos vistos. Outros eram cordoeiros. A estas ocupaci3es pode-se
ainda acrescentar outras tradicionais que ainda hoje existem em Goa, tais como a de
lavradores de palmeira, cultivadores de arroz e batata, padeiros, lavandeiros, ferreiros,
sapateiros, embora o autor nab as mencione.
Todos eles, hindus ou cristaos, qualquer que fosse a sua profissab, tinham uma
coisa em comum: "o seu fanatismo pelas supersficoes, o seu medo, palido mas sempre
presente, por algo desconhecido"(pag.64). E o estadio da evolucao da cultura que esta
ainda muito longe da fase cientifica ou positivi sta, se seguirmos a anali se da hi storia da
evolucao social do homem proposta por Augusto Comte.
Agostinho Fernandes da uma descricao colorida dos elementos que constituem a
aldeia, antes, integram o ambiente cultural dentro do qual decorre a vida dos seus
habitantes. E o templo — a devalaia — que domina o cenario. "A maior parte da
populacao....finha a sua devalaia onde se juntava de quando em quando seguindo um
calendario baseado nas fases da lua"... (pag.22). "Era ve-los na devalaia a prostra-
23
lb idem pag.22.
- 232 -
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rem-se no chao, adorando um boi de rocha negra todo coberto de colares de flores, ou
entao uma cobra de metal amarelo, ou ainda imagens, meio humanas meio exoticas,
com muitos bravos e muitas cabecas"(pag.69).
"Tinham outros lugares sagrados alem da devalaia. Um rochedo alto de forma
bizarra, ulna ;!-,/ore de gralha secular, muitr, Alta e frondosa, uma grande casa de
formiga branca com cristas rendilhadas que pareciam tones onde iam depor flores,
sacrifi car animais e acender lamparinas de oleo em certos dias da semana, nomeadamente as quartas e domingos"(pag.69).
0 mercado ou o bazar onde se reline a feira semanal é um outro elemento que
integra o ambiente cultural da aldeia. "A gente comprimia-se. Gente variada. Gente ate
dos confins da aldeia, tudo la se juntava numa algazana tremenda" (pag.57).
Era um dia de folga esse o da feira. 0 medico decretara a si pr6prio urn feriado e
os doentes, tambem por iniciativa prOpria nao apareciam nesse dia.
"A feira era compl eta. Nab devia faltar nada. Ali vendia-se de tudo, desde peixe
seco e salgado ate frutas muito maduras e tentadoras." A feira era urn verdadeiro
espectaculo humano: "lentos de cores berrantes, saris vermelhos, amarelos, verdes,
cholhos de riscas vivas, grossos colar
- es de contas ao pescoco, pesaaos nothi nas nari-
nas e nas orelhas, chandaio prateados e doirados nos pulsos e tornozelos, era tudo
uma policromia indescritivel...(pag.57). 0 efeito visual deste espectaculo aumentava
com a ginastica e os nUmeros de ilusionismo dos garopeiros, e, enfim, o maior enleio
para os olhos, a luta entre a doninha e a cobra capelo (pag.60-62).
0 medico, a personagem que descreve a al dei a e a sua maneira de se dar com a gente
de Maxem e o tipo do cristao que tendo recebi do uma instrucao ocidental e aprendi do
as maneiras portuguesas de ser, de sentir e pensar nao conhece sena° superficialmente
a sociedade hindu e a sua cultura. Se as conhece pela rama, a sua experiencia vivida na
aldeia vai dar-lhe a oportunidade de as conhecer mais a fundo. Redescobrindo este
mundo, o medico quer torna-lo conheci do de um pirbli co que esta familiarizado apenas
superficialmente com o ethos da India milenaria.
Dai, Bodki nao apenas descreve o quotidiano dos hindus de Maxem sob a
influencia das suas supersticoes, mas fornece ao leitor informacoes da historia e da
- 233 -
mitologia da India no tocante a tais praticas como o sati, bodki, bem como os principios que governam o comportamento social dessa gente.
Assim, o principio ou a conviccao que governou as sociedades antigas
o Velho
Testamento é um testemunho de como a sociedade judaica estava impregnada desta
conviccA0 Tzeq. 1 8, 1 -1 n)
que os filhos pagan!. pelos pecadf..-.s dos pair. Na
esta conviccdo é conatural a doutrina do karma:
- Kami, minha filha, o que se passa contigo? Estas doente?
Kamala ndo respondeu. Comecou a solucar apenas.
- Entito, Kami?...
Kamala tentou responder; mas new conseguiu.
- Minha pobre pequena...Fruto dos meus pecados. Mais valera que eu
morresse antes de nascer, antes que os meus olhos pecadores vissem a luz do
dia... (pag. 85).
As personagens do Bodki vivem sob o signo da fatalidade. E urn destino tracado
pelos deuses. E a vontade dos deuses, manifestada aos homens atraves dos contos
mitologi cos. A forca moral dessa vontade divina sobre os fieis hindus vem do facto de
que ela esta implantada na consciencia col ectiva. Os contos sao transmitidos de boca
em boca, como parte da formacao dos hindus.
Esta faceta da sociedade hindu de Goa esta muito bem retratada por Agostinho
Fernandes. Para tornar conhecida dos seus leitores a supersticAo de bodki, o autor cria
uma situacao dramatica em que a bodki-mae inicia a filha Kamala nas suas tradicoes
religiosas, narrando-lhe o conto da rainha Taramati, que nao obstante muito amada do
seu esposo apaixonou-se por um jovem subdito, Vassan, e tornou-se escrava dos seus
desejos e vontade a ponto de um dia matar o seu esposo. No di a da cremacao do cadaver
do rei Taramati deveri a, seguindo a tradicao sagrada do sati lancar-se na pira. Porem,
a rainha, para surpresa de todos, foi achada nos bravos do subdito Vassan. 0 povo
escandalizado perante tao grande sacrilegio, arrastou-a impiedosamente para a lancar
na pira onde carbonizava o seu senhor. Porem, era tarde. A cabeca do cadaver ja estal ara.
0 sacrificio da Taramati nao teria agora nenhum valor perante os deuses. A desgraca
cairi a inexoravelmente sobre o povo. 0 pavor do castigo somou-se com a forca da ira.
Esqueceram-se de que ela era rainha. Atiraram-lhe toda a especie de insultos.
Chamaram-lhe cadela. Cuspiram-lhe na cara. Rasgaram-lhe as vestes e por fim
arrancaram-lhe furiosamente o cabelo. U m a das ai as, comovida e condoi da, deu-the um
- 234 -
--
lencol branco para cobrir a nudez... Assim nasceu a primeira bodki. (pag.94-95).
A bodki de Maxem tinha tido sua mae bodki e uma aye, bokdi tambem. Havia,
portanto, uma dinastia de bodkis. Ao contar a hi stOri a da sua familia, a mae acrescenta
logo: "E uma especie de fatalidade que atingiu a nossa familia, em varias geracoes
consecutivas. Ves cora° isso e terrivelr(p4g.97).
0 imperativo da sociedade é que "a dinastia de bodkis tem de desaparecer na nossa
familia, o que quer dizer quedepois de ti nao haveramais ninguem"(pag.99). Para tanto,
Kamala tem de prometer a mae que nao consentird que o seu coracao se prenda por
qualquer homem e, desta forma, renunciara a ideia do casamento e sofrera tudo em
silencio, rogando aDeus que a ajude a arrastar a cruz dos erros da sua mae(pag.99-100).
Alguns deuses do pantea° indiano — a deusa Agni (ou ade fogo) — a deusa do
Porbot (pag.149), Krishna (pag.159) — presidem aos destinos dessa populaca. ..o.E
principalmente nos momentos de allicalo que a religiosidade dos hindus de Maxem
opera com promessas, votos e ofertas aos deuses.
Todavia, os catolicos de Maxem e mesmo a familia do doutor Fernando nao sao
mui to di ferentes ou mai s esclareci dos, na manifestacdo da sua fe crista que parece estar
em funcalo dos favores que ela pode prestar nos momentos de aflick e transe. E nesses
momentos que eles repoem toda a sua confianca, indiferentemente em S.Francisco
Xavier ou Nossa Senhora da Piedade, pedindo favores, em troca de vel as de cera, oleo
de coco, missas e vestidinhos a todos as imagens de deuses e deusas (pag.149).
A morte e um assunto que incita horror, curiosidade e fascinacao em todas as
culturas. Porem, na culturaindiana el a e algo nao apenas tragic.° mas inauspicioso, algo
de que nem se deve falar, nunca urn assunto de facecia. No ethos indiano, a morte
aceite com uma resignacao filosofi ca. Assim, o pai de Dinvas, o jovem que se suicidou
ao compreender que nunca poderia realizar o seu sonho de se casar corn Kamala,
expressa nas seguintes palavras a sua conformacao com os desejos dos deuses:
"Ai nda nao me esqueci como o senhor doutor trabalhou para evi tar a morte do meu
filho. Porem, nao havia remedio. 0 destino estava tracado. Nao é em vao que se vai
contra os desejos da deusa Agni Sinto imenso a sua perda, ainda a sinto, porem,
confornio-me com a vontade dos deuses. Eles la sabem o que fazem e porque fazem.
- 235 -
A nos so nos resta pensar que tudo o que sucedeu tinha de suceder"(pag.160).
A ligacao sentimental que cada qual sente a sua casa aparece mais forte na India,
nas alturas em que uma pessoa esti para morrer. Na sociedade de Maxem a tradicao
hindu esta profundamente marcada por este traco do coracAo humano. Assim, quando
o medico suspeitando que
urn certn
doente, um vplhn
iT.Qtf,j9 a
sofrer molest
grave, aconselha-o a que seja baixado ao hospital, o doente responde:
—Hospital?
Ndo, eu ndo you ao hospital. Na-o. A morrrer que morra em minha
•
casa.
—Nilo, nab. Eu nil° you para o hospital. Sei que ai matam, de piroposito, a
gente, para poderem estudar nos seus cadciveres...(pag.174).
Entre os hindus o pai, "o chefe da familia, merece o maxim° respei to e obedi en ci a".
Porem a instrucao, como é bem sabido, a sempre urn factor de mudancas sociais. Urn
hindu que tenha saido da sua aldeia para fazer estudos superiores nas grandes cidades,
regressa as mais das vezes, corn um certo cosmopolitismo nos seus modos de pensar e
agir. Uma ocidentalizacao nas suas maneiras sociais, muitas vezes, traz na esteira urn
cepticismo das suas crencas religiosas.
No romance, Dinvas é o tipo de urn hindu de uma aldeia de Goa que, tendo andado
por um college (faculdade) de Puna, prepara-se mesmo a desafiar o seu pai que se opeie
ao seu casamento corn Kamala, a filha de bodki. 0 pai opoe-se a este casamento porque
ve nel e uma ameaca grave ao bem-estar da sua familia. Segundo as supersticoes que el es
seguem é grave manter qualquer forma de relacao corn a velha bruxa.
A sociedade hi ndu, que Agostinho Fernandes esboca, é a que ainda hoje pal pita nas
areas rurais de Goa, evidentemente, ja corn urn certo progresso social em relacao a
decada de cinquenta. 0 que Agostinho fez, foi, ao que parece, tentar projecta-1 a na
Europa onde pouco se conhece a India que vive nas suas al dei as.
c) Bodki: uma apreciacao
Da leitura do romance Bodki, parece que se pode concluir que a intencao de
Agostinho Fernandes foi escrever, levado por urn impulso estetico, uma quase autobi ografi a — note-se que a urn romance ern primeira pessoa — dando a impressao das
suas experiencias como um medico catOli co numa aldeia de Goa, ern contacto di ari o
- 236 -
com tuna populacao na sua maioria hindu que vive das suas crencas, supersticOes, tuna
religiosidade inspirada em mitos e contos primevos. Para tanto, criou um enredo em que
teceu essas supersticoes e crencas bem como a sua maneira pratica de agir, munido
como estava da ciencia medica aprendida nos bancos da Escola Medico-Cirnrgica de
Goa.
Aqui e acola Agostinho Fernandes deixa ver certas facetas da sociedade hindu de
Goa na decada de cinquenta. Quase autobi ografi a, o romance oferece-lhe oportuni dades
de expressar o seus principios ou conviccoes no campo da arte, da filosofia prafica da
vida e mostrar como a ciencia medica e a sua pessoa de homem, que absorveu os
costumes e maneiras ocidentais, operam numa terra, onde, dir-se-ia a civilizacao
europeianao conseguiu penetrar e o povo se comporta de um modo primitivo e absurdo.
0 medico ve-se obrigado a empreender umaluta contra as crencas e as supersticaes.
A ciencia medica esti em Maxem nao so para curar as molesti as do corpo, mas tambem
para educar a populacao e operar uma mudanca social.
Durante os seculos dapresenca portuguesa em Goa, as comunidades hindu e crista
viveram culturalmente alheaclas uma da outra. Foi principalmente ap6s a integracao de
Goa na Uniao Indiana que os cristaos comecaram a ter contacto com a vida cultural
dessa sociedade.
Agostinho Fernandes resolveu abrir para os cristaos bem como a um publi co mai s
largo algumas caracteristicas desse mundo cultural que fascina a imaginacao dum
ocidental ou dum ocidentalizado.
A idei a de Agostinho Fernandes com respeito a funcao do romance é expressa nas
pal avras que ele pae na boca do medico em conversa com Di nvas:
—Sabe, Dinvas, quando a gente
le um romance mentalmente, forma logo uma
imagem daquilo que le e procura situa-la em qualquer lugar que a nossa
imaginacclo cria automaticamente
fantastico como os romances, sendo uma ficcao contam a realidade que
sempre existe, perdida em qualquer parte(pag.79).
Os canones da estetica de Agostinho sao desse real ismo que retrata a realidade tal
- 237 -
como ela é, coin pouca ou nenhuma elaboracao da parte do artista. Dal, Bodki
documenta quase fotograficamente a terra e a grei de Maxem. 0 autor nao penetra a
alma desse povo. Atraves do romance, conhecemos mas nao muito o mundo das alegrias e das tristezas, dos dramas e das aspiracoes, das interrogacibes e das diwidas do
espirito desse povo. A razao é que " Agostinho é urn escrittor nato que viveu e escreyeti espontaneamente longc do influencias e de literatos'"(2-1).
Ao seu impulso estetico, ao que parece, o autor do romance alia urn impulso
reformador.
Se o "terra do romance [é] a luta contra a ignorancia, a moral [é que] so elevando o nivel cultural do povo é possivel veneer nessa luta"(25). Por todo o romance
respira-se a finalidade que o autor se proptie.
A ignorancia, segundo Agostinho Fernandes, vem das supersticoes e crencas.
Porem, o fundamento deste comportamento é a dinamica inconsciente e motivacional (26) do credo da religiao hindu que o autor chama "tirano, cruel, desumano"
porquanto exigia que a pessoa humana fosse sacrificada as tradiceies, nomeadamente,
que Kamala renunciasse a ideia do casamento, para enfim, acabar coin a dinasti a de
bodkis .
Bodki nao é um romance sem imperfeicoes. Certas improbabilidades das situaceies
tracadas aparecem aqui e acola. Mencionaremos umas poucas. No mercado de Maxem
aparece urn vendedor de quadros que é tambern um pintor coin urn certo merecimento.
E Govinda Singh. A parte a circunstanci a de que antes da integracao de Goa na Uniao
Indiana os siques nem mesmo eram conhecidos em Goa, a presenca de um pintor a
vender seus quadros num mercado das Novas Conquistas nab parece conformr-se coin
a realidade. Quantos compradores teria el e nessas regioes onde a maior parte da gente
dada a trabalhos manuais nao sentiri a a necessidade de adquirir um a tal "mercadori a"?
Para os fins da sua tese, Agostinho precisava de algumas personagens, simbolos
da el evacao social pel a educacao e cul tura, que afinal cairiam vitimas da accao nefasta
24
Devi-Seabra, A Literalura Indo-Porluguesa. pag.21 1.
25
lbidem, pag.211.
26
Lynn, White, Frontiers of Knowledge in the Study of Alan, Harper & Brother, 1956,
pag.302-315.
- 238 -
da bodki. Antes de mais, o doutor Fernando esta em Maxem como alguem que devia
fazer uma grande obra, prestando servicos medicos a esta populacao. Dinvas esta la
como um filho da aldeia que tiverainstruclo superior em Puna. 0 autor precisava ainda
de uma outra personagem, alguem que pairasse acima do mundo cultural de Maxem,
porquanto uma realizacao quase platonica da perfeicao cultural. Dal, o Govinda Singh.
Mac a maneira Como foi introduzidz r.^ ezed,,‘, na'o parece muito natural
Ha ainda outras improbabilidades: Quando o ilusionista oferece-se a vender aos
espectadores talismas contra as variadas fontes de males ou ameacas a vida humana,
alguem dentre os espectadores pergunta:
—Ndo tem nada contra a bodki?
e o ilusionista tira do seu saco uma caixa corn amuletos e comeca a vende-los.
A bodkiera um tabu para aquel agente. Como podi a alguem quebrar tao impunemente
esse respeito quase reverencial pedindo, em torn de troca, urn talisma contra a bodki?
Mai s adi ante, Kamal a, num momento de grande aflicao aparece a chorar lancandose nos bracos do medico. Noutro lugar, Kamala aparece a tomar banho nua no rio da
aldeia, enquanto Singh a espreita. Ambas as ci rcunstanci as parecem mui to improvavei s.
A sociedade hindu de Goa foi sempre muito recatada. Nenhuma menina ou senhora
hindu tomaria a liberdade de se lancar a chorar nos bracos de urn homem, em public°,
e esse, um cristao, a nao ser que as relaciies entre os dois fossem de grandissima
intimidade. Seria quase impossivel que uma mulher hindu fosse ao rio tomar banho
completamente em pelo.
Uma outra limitacao do romance é que as descricOes sac), por vezes exageradas e
cansativas. A acrescentar a i sto o autor cai em longos soliloquios sobre aquilo que el e
sente, ao recordar-se das licOes da medi cina face aos probl emas prati cos da vi da. Assim,
por exemplo, Agostinho Fernandes fal a do papel do inconsciente quando enfrenta um
caso daquilo que popularmente se identifica corn uma possessao diabolica; di scorre
sobre as vantagens e desvantagens da especializacao; ainda entrega-se a discursos
quase fil °sof' cos sobre a final idade que tem a ci enci a medica de lutar contra a doenca.
Por vezes, o leitor fica a perguntar a si proprio se Agostinho Fernandes nao teri a
querido servir-se do romance como uma plataforma para projectar as suas teon as e
crencas. Assim, Govinda Singh é urn pintor com ulna paixao pelos nus. Pela boca de
- 239 -
Singh, Agostinho esboca com muita grata a sua teoria do corpo human, ao servico da
arte, e o papel das concomitantes sensacoes eroticas que ele desperta.:
Embrulhara-se desajeitadamente no sari. Olhou-me desconfiada. Eu,
que tambem estava nu, pois o meu trabalho assim o exigia, enrolei uma toalha
as virilhas
-
pouco digno estar a espreitar uma muiher a tomar banho. isso é
indecente.
-- 0 que é belo e para se ver e admirar respondi-lhe nunca deixando
de sorrir.
Alias, o doutor deve saber que toda a mulher sente urn infinito prazer em
mostrar-se nua. Nisto aproximam-se dos animals. Mas ndo stio apenas as
mulheres. Os homens. 0 prOprio doutor quantas vezes nao se quedou estatico,
frente do espelho, a admirar a sua prOpria nudez mascula, contraindo os
mitsculos, enchendo de ar os pulmaes ou ens aiando um novo sorriso, urn novo
aceno, urn novo piscar de olhos ? Talvez por urn atavismo ou por outra coisa
qualquer que tenha vindo de geractio ern geracao desde os tempos mais remotos
ern que os nossos antepassados nao conheciamo pudor, nos ainda conservamos
um pouco de ideias narcisistas. As mulheres, entao muito mais.
Bodki é um romance em primeirapessoa, uma autobiografia em que "as situacOes
dramaticas e empolgantes se encadeiam numa sequencialogica e natural, situacoes em
que os sentimetnos coli dem, as conscienci as se remordem, os amores se sublimam, as
vingancas se executam e as personagens vivem e se debatem, amam e sofrem"(27).
Este romance permanecera como um documento etnografico. Talvez se diga que
nab tem a forca de uma obra de ficcao da escola neo-realista. Entretanto, Bodki é um
quadro dos pequenos e humildes de Goa que vivem num mundo caracteri sticamente seu
e que a civilizacao nao consegue esquadrinhar inteiramente nem mesmo modificar
porque o seu amago escapa a esfera das forcas racionais.
27
Gomes, Oscar, /oc.cit.
- 240 -
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Conclusao
A tarefa essencial da literatura é expor as bases da emocao human a. A experienci a
é o que constitui o material basico da literatura.
Evidentemente, nenhum escritor pode versar um assunto, a nao ser que este esteja
profundamente arraigado na sua psique, no centro das suas emocOes e dentro do seu
poder narrativo.
Se este principio se aplica a qual quer escritor, el e vale muito mai s em relacao
aquele que é criativo.
A experienci a do escritor e uma experiencialimitada. E a vida mesma e a visao da
vida de um grupo particular dentro de uma cultura. (1)
Posto este principio, as conclusOes a que chegamos no epilog° do nosso estudo
ficam resumidas assim:
I) A Literatura Indo-Portuguesa no contexto da historia social de Goa
Do panorama, em geral, da vida social em Goa nos seculos XIX e XX, exposto no
primeiro capitulo, ressalta a vista o facto de que a presenca portuguesa de 451 anos em
Goa agiu como um catalisador, no processo da form acao da cultura e da vida social de
Goa. (2).
1
Encyclopaedia of the Social Sciences,editor in chief Edwin R. A. Seligman, The Macmillan
Co., MCMLI X, New York, vol. IX, art. "Literature - , pag 525
2
"A certain atmosphere, undefinable yet distinct, gives character to some places and sets
them apart from others. In India, Goa is one such place.
What makes Goa different is its ethos which evolved as a result of being under Portuguese
rule for more than four and a half centuries. The Portuguese have left their impress on the
attitudes and the life-styles of the people of Goa and given the place a definite identity of
its own".(Doshi, Saryn, "Introduction" em lieu,. ('ithu•d Pat/e•ns. MARC Publications)
-241 -
Usamos o termo cultura, no sentido mais lato, para si gnifi car a consci enci a intima
vivencial dum povo, enformada por objectos materiais, valores, ideias, simbolos,
crencas, sentimentos em conformidade corn a qual se orienta o comportamento desse
mesmo povo e que é transmitida de uma geracao a outra. (3)
Vida social é o conjunto de varias formas de relacionamento social, desde os
encontros sociais ate os maneirismos sociais, desde as formas artisticas de entretenimento como a masica, o canto, a danca ate as regras intimas que pautam o born gosto
e o requinte de se apresentar, ou de se arranjar, por exemplo, os interiores da prOpria
casa.
E born recordar que tanto a cultura como a vida social sao processor dinamicos.
Estao sempre em fluxo.
Quern, superando quaisquer paroxismos em relacao a presenca portuguesa em
Goa, se de a tarefa de examinar desapaixonadamente as varias facetas da cultura
caracteristica dente estado, achara ern mais de uma del as, tracos da cultura portuguesa,
por vexes quica intangiveis e imponderaveis, mas nao menos reais. (4)
3
Cfr. Traditional Cultures in South Asia, published by Orient Longmans, sob o patrocinio
da UNESCO, cit. por Nilakanta Shastri, "The Future for Traditional Cultures" em UNESCO
Chronicle, May 1959.
4
Khalap, Ramakant. Discurso do dia da inaugurac5o da torre de TV em Panjim aos 23 de
Junho de 1990. Eis o texto da reportagern: " Mr. Khalap said: "The prolongued Portuguese
rule in Goa has left behind an impression on our culture which has made it more graceful — .("
O Sr Khalap disse:'0 regime portugues de longa durac5o deixou, no seu esteio, uma
impress5o sobre a nossa cultura que a tornou mais graciosa'") em 0 Herald() de 24 de Junho
de 1990.
O Sr. Ramakant Khalap era ao tempo Vice-Ministro-Chefe de Goa e Presi dente do
Maharashtrawadi Gornantak Party (MGP). Desde a sua fundacao, logo apos a integracao de
Goa na Uni5o Indiana o MGP bateu-se pela absorcao politica de Goa no estado vizi nho de
Maharashtra e pela declarac5o da lingua marata como lingua oficial de Goa.
"Goan culture adopted some fine modes of Western living and grafted on its ethos and
esthetics the good sense and good taste peculiar to Latin culture brought by the Portuguese.
The motivating spirit of Goan Culture has always been the quest and contemplation of the
Beautiful and because of it every activity of the Goan in form and expression, has attained
harmony and grace. This basic urge of his life has led him to rise beyond himself and, when
fallen, has saved him from perdition. Our long association with the Portuguese, undoubtedly
no.96,
gave it a finer edge". (Bakibab Borkar, "The Goan Personality" em BI MB, 1971,
pag.47 e segs.)
- 242 -
Apos a conquista de Goa em 1510, a sociedade local desses tempos -- na sua
maiori a hindu mas tambem muculmana reagiu de diferentes maneiras face a uma
cultura europeia e crista que se acabava de implantar no solo de Goa.
Urn sector dessa sociedarl-
deixado
tenazment; per
margem, pelos portadores e detentores da nova cultura. Outro sector acedeu, pouco a
pouco, no decorrer dos tempos, as solicitacoes da nova cultura. Aceitando a nova
religiao crista, catolica corn todas as formas-expressoes tipicamente portuguesas
de a viver -- este sector assimilou muitos dos elementos luso-europeus, cristaos, para
criar corn eles uma sintese cultural.
Uma parte do sector que, no inicio da colonizacao, se opusera, deixou infiltrar,
mais tarde, a partir dos anos em que raiou urn clima de desanuviamento ( tolerancia e
liberdade outorgadas pela Carta Constitucional de 1826 e pela RepUblica) no seu
modus vivendi, elementos culturais de periferia. Estes imprimiram na sua conscienci a
alguns tracos diferentes dos de urn indiano de urn estado vizinho, cujas fontes vivenci ai s se al imentaram somente da sua cultura ancestral.
Finalmente houve uma porcao de habitantes que vivendo no interior das Novas
Conquistas nao sofreu quase nenhuma influenci a da presenca porrtuguesa.
E no contexto desta hi stori a social de Goa que se situa ali teratura indo-portuguesa,
como uma contribuicao de grande inerecimento do espirito criativo de um sector da
populacao goesa.
Nela acha-se uma coordenada da cultura luso-tropical tal qual teve lugar em Goa.
Compete aos sociologos analisar a profundeza e a extensabdo processo da acultur.ocAo
que teve lugar no nosso solo.
Cronologicamenete, foi nos seculos XIX e XX que aparcceu urrialiteratura goesa
de expressao portuguesa.
No principio, foram os escritores da comunidade cris6que deram inicio a uma
verdadeira expressao li terari a indo-portuguesa. SO pelos finsb seculo XIX, urn s e ctor
- 243 -
da comunidade hindu comewu a dar o seu contributo para o enriquecimento dessa
mesma expressao literaria.
No seu relacionamento social, Os governantes portugueses seguiram a politica de
se aliarem sempre as classes mais altas.
Durante os primeiros dois seculos e meio, apps a conquista de Goa, a Igreja era
a forca cultural mais poderosa e os sacerdotes catoli cos e outros homens da Igreja, seus
instrwnentos principais. Dai, neste periodo foram eles os principais detentores da
cultura portuguesa.
A partir dos meados do seculo XVIII a cultura portuguesa comeca a difundir-se
entre nao-eclesiasficos, homens do Estado e de profissoes liberais, tais como medicos,
advogados, professores, proprietarios abastados.
0 concanim foi, de certo, a lingua materna de todos eles. Todavia, ao mesmo
tempo, o portugues foi como que uma segunda lingua do berg°, ouvida da boca dos pai s
que a usavam como veiculo de comunicacao social e administrativa, e, mais tarde,
aprendida com perfeicao nos bancos dos estabelecimentos de instrucab primaria,
secundaria e superior do tempo, e no coloquio administrativo em funcao das suns
Profissoes e cargos publicos.
So assim se entende a correccao e elegancia dos prosadores e poetas aqui
estudados, bem como dos outros escritores, na major a, historiografos e jornalistas
como Filipe Nery Xavier (1804-1875), Miguel Vicente de Abreu (1827-1883), Antonio
Anastasio Bruto da Costa (1828-1911),Jose Inacio de Loyola (1834 - 1902)Jacinto
Caetano Barret() Miranda (1842-1879), Jose Antonio Ismael Gracias ( 1857-1919 ),
Luis de Menezes Braganca (1878 - 1938) Rajaraina Pundolica Sinai Quelecar
(1894-) Meghasham Deshprabhu(1902- ) para ci tar apenas alguns dos mais notaveis e
tantos outros do seculo XX que, tendo vivido somente em Goa, escreveram num
portugues cortes, castico e fluente.
A poesia é o trasbordar, a efervescencia espontanea de uma emocab poderosa,
di sse o poeta ingl 'es W. Wordsworth.. 0 facto de que foi com a imprensa periodica que
apareceram as primicias das producOes de literatura criativa e um testemunho de que
foi a partir dos meados do seculo XIX que o portuaues tornou-se a lingua da vivencia,
- 244 -
um veiculo facil e espontaneo de expressdo do mundo das emocoes e dos movimentos
intimos da alma do goes aculturado. A imprensa periodica foi uma exigencia, uma
necessidade dessa vivencia.
2) 0 escritor indo portugues: a sua personalidade
-
0 concanim foi a lingua que deixou o goes psicologica e socialmente preso a cepa
ancestral da India-Mae.
Uma vez dominado o idioma luso, aprendi do, em al guns casos, como uma segunda
lingua do seu berco, em outros, como uma lingua estrangeira, o seu espirito criativo "em
que as solicitacaes do oriente e do ocidente se fundiram numa sintese maravilhosa", (5)
lancou-se na tarefa de exprimir os movimentos intimos do seu ser.
E quais os movimentos mais consentfineos com o seu ser, do que aqueles que dizem respeito a sua identidade ?
Dal, ap6s escrever sobre a religiao, o escritor indo-portugues pos-se procura das
suas raizes histOrico-sociais. As primicias de uma expressao autenticamente indoportuguesa foram no dominio da historiografia. Estes escritos representam as primeiras manifestacoes do grito telnrico que o escritor indo-portugues sentiu na raiz do
seu ser.
Num periodo ulterior, o goes que teve urn dominio perfei to da lingua lusa sentiu-se impelido a realizar-se esteticarnente e, ai, comecou a dar-sea criacao literaria.
Nesta altura, el e é um homem que vive sob a consciencia de uma rots -a e de um
desejo de totalidade. (6) Expliquemo-nos.
Foi merit° do escritor frances Alberto Beguin o ter apontado, no seu livro Lame
5
Ferreira, Manuel, "A Cultura de Goa e a literatura de expressao portuguesa' em Esludas.
iltramarinos, Rev. trimestral do Inst. Sup. de Estudos Ultramarinos, 1959. No. 3, pag 151
6
Saraiva, Maria Manuela, art. "Romantismo: Rotura e Totalidade" em E.s:/e/ica do 1?e)rna n I ism o
em Portugal, Centro de Estudos do sec. X IX do Gremio Literario, Lisboa, 1974, pag. 79 e
seg.
- 245 -
Romantique et le reve, como caracteristica fundamental do Romantismo, uma
aspira-cab de ordem metafisica: o desejo de fusao do homem corn a natureza,
desejo que exprime a nostalgia de uma unidade primordial perdida. E, o que ele
chama, o desejo da totalidade.
Todavia, esta
v a de unia
de rota, Fui iVruiiii
Buber que nos abriu a pi sta de rotura. N a hi stori a da cultura ocidental, este filo sof°
distingue duas especies de epocas: epocas de seguranca e epocas de inseguranca
cosntica.
Nas primeiras, representadas por tai s pen sadores como Ari stotel es, Sao Tomas
de Aquino, Hegel o saber tende a organizar-se em sistema e o homem tende a
pensar-se como objecto.
Nas segundas, o homem tende a interrogar-se como sujeito e a desenvolver um
tipo de reflexao problematica em torno de si mesmo. SAo as epocas dos
"existencialistas", como Santo Agostinho, Pascal, Kierkegaard.
Embora Buber nao faca qualquer referencia ao fenomeno romantico, a sua
teori a pode, no entanto, apli car-se ao Romantismo que deve ser considerado "como
a epoca em que aparece o problema antropologico, i. é, a atitude do homem que,
de uma maneira dolorosa e dramatica, se volta para si mesmo, no desejo de saber
quern e e de se dizer, na sua originalidade."
Cremos que esta problematica subjacente a analise do fenomeno romantico
pode ser aplicada ao nosso caso.
0 escritor indo-portugues é urn homem sob o signo duma rotura. Etnicamente indiano ele é uma pessoa que em virtude, de um lado, da cultura crista e
ocidental que assimilou, e, do outro, dum fortissimo subconsciente do substrato
upartixadico-vedantico, hindu que o domina, se volta para si mesmo, de uma
maneira dolorosa e dramatica, a maneira dos romanticos, no desejo de saber quem
é, no desejo de se definir.
Esta reflexao, este espirito de inquiricao psi cologi ca, é escusado dizer, nao e
- 246 -
um processo consciente. Ela traduziu-se pelo lirismo, umas vezes, sob a forma de
expansao sentimental, outras vezes pelo culto da natureza e pel a exaltacao da sua terra;
outras ainda, pela nostalgia duma consci enci a pouco satisfeita corn o seu ocidentalismo
que gerou um gosto subtil das ressurreicoes emotivas do passado da India-Mae.
Negte prnCeSSO, o eccritnr inch-pnrtUgUeS, Falun rq iriscirnac pyr.T-r.c.-APS
como um indiano autenfico, telarico, de expressao portuguesa. Um deslumbrado de luz
da arte literaria portuguesa, el e fundamenta a sua originalidade na forca inspiracional
indiana
3) A Literatura Indo Portuguesa na Perspectiva da Estitica Literaria
-
"0 poeta", disse R. W. Emerson, "é um coracao em unissono com os seus tempos
e a sua terra.". (7)
Isto que o filosofo americano disse de um vate, poder-se-ia aplicar a qualquer
artista no campo de letras, de musica ou das artes plasticas, ou mesmo, a qualquer
pessoa autenticamente criativa.
No nosso caso, os escritores indo-portugueses que acabamos de estudar, eram
pessoas que tinham em si, em maior ou menor grau, "o dom da imaginacao e da
emotividade, e essa hipersensibilidade que cid aos sentidos a faculdade de regi star as
mai s subtis manifestacoes da beleza que se apresentam na natureza". (8)
Para eles, como para Keats (9), um objecto belo era um jitbilo perene. Em unissono com os seus tempos e a sua terra, viviam unicamente do ideal da arte. Eram uns
deslumbrados de 1 uz.
Os criticos, quer literarios, musicais quer das artes plasticas, tem a tendenci a para
7
8
9
"A poet is ... a heart in unison with his time and country". Emerson, R. W., "Shakespeare'.
or the Poet" em English Critical Essays, Oxford Univ. Press, 1959, pag. 45S
por Paulino Dias, Nova
Correia Afonso, Francisco, "Preficio" do livro No Pais de
Goa, 1935, pag. XIV
"A thing of beauty is a joy forever", Keats, John, "Endymion", em The 0,11ard Book
English l'erse of the Romantic Period, 1798-1837, chosen by H. S. Milford, Oxford Press,
pag. 631
- 247 -
dispor o artista e a sua obra em categorias — banoco, rococo, romantismo,
parnasianismo, realismo, neo-realismo, simbolismo. Cada escola tem as suas
caracteristicas que, evidentemente, se identificam corn urn certo ninnero de obras e
escritores que as produziram, ern dados periodos e situacoes, levados por impulsos
psico-sociais e espirituais, por pressupostos ideologicos, por preocupacoes morals e
religingas ion é o que ce pncga (-fun a arte neirientai.
Porem, tratando-se da arte vincadamente oriental e da simbiose do oriental corn o
ocidental, exige-se maior circunspeccao.
Contrastando a dinamica da Estetica ocidental com a oriental, o critico Germain
Bazin perspectiva toda a obra de Arte do Ocidente como "concebida em funcao de um
espectador". Ela "oferece-se ao olhar e dirige-se ao pensamento". (10)
Para o artista oriental, a arte é "uma manifestacao da existencia cosmica, urn
simbolo das forcas universais. Nao é produto de um pensamento que tenta reduzir a si
um determinado aspecto da natureza, é inspirada. Reflexo do logo eterno das
aparencias na imaginacao do artista, tende para o infinito". 0 artista indiano esta
imbui do da "concepcao de uma ordem cosmica na qual o ser humano deve reintegrar-se para cumprir o seu destino".(11)
A estetica indiana, na opinido do mesmo critico, é "essencialmente naturalista",
dado que o hindu vive da "intuicao do divino". Donde, a sua preocupacab constante
é que, "sobre esta terra em que tudo e deus, o hoinen para se sal var, deve reencontrar
em si mesmo a magnetizacao divina". "0 espectaculo da criacao incessante, sem o repouso das estacoes que a natureza tropical oferece, inspirou ao hindu uma fe profunda na vida".(12)
"0 homem do Ocidente ignora o naturalismo: so se sente a vontade no realismo,
atitude analitica que, ao arrancar ao mundo urn dos sous aspectos, fixa-os numa forma
de que a vida se retirou".
Porem, "atraves de toda a arte hindu circula o fluxo da vida, indivisivel e una,
I0
Bazin, Germain, Ilishiria c/a Ark!, Da Pre-Instal-la aaN nossos dios, trad. de Fernando
Pernes, 2a. ed., pag. 349.
I I.
lhidem, pag. 349.
12
lhidem, pag. 350.
- 248 -
inteiramente encarnada, na sua forca potencial, na menor das suas obras".(1 3)
Uma amostra concreta e excel ente do reali smo do Ocidente é a experi enci a reali sta
dos Gregos que foi "realizada sobre o terra do corpo viril, cujas arestas nifidas e pianos delimitados se prestam perfeitamente ao seu instinto de medida e definicao".
Em contraste a esta maneira de realizacao helenica, a "estetica hindu a feminina.
0 corpo da mulher sugere mai s a came do que o volume, as transicoes indefinidas dos
seus modelados convem ao sentimento dos hindus, para quern nada é nifido no mundo.
Exagerando os atributos da mulher, os artistas da India acentuaram aquilo que nela da
a vida e a conserva".(14)
Basin fez estas observacoes com respeito as artes plasficas. Olhando mais de perto
o campo da Estefica literaria Indiana depara-se-nos que "a atitude indiana para corn a
literatura esta basicamente reflectida na Critica sanscrita"(1 5)
,
"Existem dois pontos de partida na critica sanscrita: o primeiro é a arte da
composicao poetica", tratada pelos expoentes das teorias de Alankara e Riti. A arte da
composicao poetica é o labor do poeta; é a sua mestria ou pericia. Dois elementos
basicos entram na sua constituicao, nomeadamente, a concepcao (dharshana,
significando tambem visa° e intuicao) e a execucao (varnana ou expressao) (16)
A visao poetica é, em outras palavras, a faculdade criativa do poeta: o poeta é
aquele que faz ou cria; el e nao desfruta nem sofre uma situacao emocional, mas apenas
recria-a, reconstroi-a. Todas as escolas ou teorias literarias tern reconhecido que o genio do poeta ou a sua faculdade criafiva esta a base de toda a actividade poetica.
0 segundo ponto de partida é a experi enci a poetica. Esta, segundo a teori a de Rasa,
é essencialmente deleitavel ou, algo que traz jubilo. E o deleite de uma emocao
universalizada, libertada de toda a sorte de associacOes pessoais, ou, — dizem outros
13.
Ibidem, pag. 350.
14.
/bideni, pag. 351.
15.
Nagendra, "Literary Criticism in India" em Literary Criticism in India, edit. by Dr.
Nagendra, Sarita Prakashan, Meerut, 1976, pag. i-xxxvi.
16.
Ibidem, pag. i
- 249 -
teoricos — é um deleite da fantasia.
Dado que as belas artes resultam do instinto imitativo do horn em , a poesia deriva
de um estado de trance e como tal, é uma maneira de realizacao propria ern que as
faculdades criativas da alma est:10 ern exercicio.
Dai, queixa-se muitas vezes de que "a poeti ca sanscrita tern alheado a literatura da
vida e a tern reduzido a urn objecto de entretenimento particular" (17)
Estas con si dernbes ajudar-nos-Ao, sem duvi da, a vislumbrar os principios basi co s
duma Estetica a luz da qual se deveria apreciar a natureza e as condicoes da criacao
artistica da literatura indo-portuguesa.
0 criti co portugues Luis Forjaz Trigueiros disse, corn muito acerto, que "poetas do
[antigo] Ultramar tern de ser apreciados a luz do seu meio, e nao apenas do seu meio:
da sua origem, da sua cor, de tudo quanto os explica e define".(18)
Se o escritor indo-portugues é, como acima se disse, um indiano de expressaci
portuguesa, assinalado por uma consciencia de rotura e, simultaneamente, por um
desejo de totalidade, a suacriacao literari a é, evidentemente, uma obraconcebida e dada
A luz na agonia e extase duma nostalgia.
0 romance 0 Signo da Ira de Orlando da Costa foi, na intencao do proprio autor,
inspirado pela escola neo-realista (19). Os Brandmanes foi classificado pelos criti cos e por nos tambem como uma obra integrada no Romantismo.
A parte estas duas obras, as criacOes da literaturaindo-portuguesa, aqui estudadas,
'fair) estAo categorizadas em qualquer corrente literaria.
17.
lbidem,
18
Trigueiros, L. F., "Poesia" em Escudos Illtramarinos, 1959, No. 3, pag. 283
19
Vide "Entrevista dada por Orlando da Costa ao Pe. Eufemiano Miranda'', No. 6: "0 neo-realismo oferecia naturalmenete a via para que o trabalho de criacao se fizesse nos termos
em que se fez em toda a sua plenitude e liberdade artistica"
pag,. v
- 250 -
Muito naturalmente, as perguntas que aqui se poem sao estas: em que escola se
filiam elas? Dada que elas nasceram durante a epoca romantica tardia, em que o
Parnasianismo e o Realismo apareceram em Portugal, pertenceriam elas a qualquer
destas escolas? Quadram-se elas no Romantismo de tendencias estilizantes e
Respondendo a esta altima pergunta, diriamos que sim. As caracteristicas do
Romantismo, se nao todas juntas, acham-se, ao menos algumas, presentes nas obras
estudadas.
"A poesia [indo-portuguesa] esta toda el a embebida das linhas historicas indianas
de lendas, de mitologia oriental corn acentos aqui e ali da vida bucolica local". (20).
Uma aragem de mi steno e segredo sopra por todas el as. Os Deuses de Benares é
urn exemplo disto.
Adeodato Barreto, na colectanea de poemas publicada postumamente sob o titulo
0 Livro da Vida, "en sai a uma poesia telitrica mergulhada no hamus da terra natal" (21).
0 lirismo de Mariano Gracias, dotado de uma qualidade mistica, em Metempsicose, tern
uma virtude singular; é quase inexprimivel. Vatsala esta todo cheio de passagens
prenhes de uma linguagem musical, de forma que se prestari a para uma opereta de urn
acto.
Todavia, Romantismo aqui, nao o tomamos apenas como urn movimento que
marcou intensamente o estilo de uma epoca determinada. Romantismo é mai s do que
isso. "Ele representa um estado de alma corn initmeras modalidades que nao depende
ou esta preso a uma epoca mas vagueia ao sabor dos homems inspirando-os quando
eles apelam para o seu balsam° lenitivo quando querem defender-se contra as agruras
da real i dade".
20
21
Ferreira, Manuel, op. cit., pag. 151.
Ibident, pag. 151.
- 251 -
" Como tal, o Romantismo tem o valor de uma virtude, onde nao ha principio nem
fim. Virtude que anda sempre acompanhada de cortejo dos seus principais turbantes —
o sonho e a poesia, os misterios da noite luarenta, os amores e a saudade, a solidao e
a melancolia". (22)
_ 0 cortejo nne w-xmlipanhou os nncenc pnet?s foi a India,
flahitsAria, runs
a indi a milenaria romantica, povoada por maharajas, rixis, pariase homens e mulheres
que adoram o Suria sacrificam a Agni, purificam-se no Ganges, acreditam no poder
,
magic° de talisman e guiam-se por presagios e augUrios; todos eles vivendo sob a
influencia das doutrinas do karma e samscara, essa India cuja paisagem natural é
integrada por gigantescas cordilheiras, imensas florestas, lindas fibres entre as quais o
mistico lotus e pela plumagem iridescente dos pavoes.
Ruy Sant' Elmo, que parece ter justamente captado as idiossincrasias da alma
oriental, diz, referindo-se ao estro de Adeodato Barreto que "toda a sua poesia se
ressente [de uma] estranha melancolia".
Ausente do torrao natal, o poeta "jamais deixou de ter presente a paisagem do
Oriente, que tern 'um nao sei que' de nostalgic°, que nos enfeitica, encanta e esmaga
e em que o poeta viu
resumir
a tristeza indefinida
da raca.(23)
Numa outra passagem, Ruy Sant'Elmo traca o perfil da interioridade oriental nos
seguintes termos: "0 oriental compraz-se no misterio. 0 seu Mundo vive mergulhado
numa atmosfera de sobrenatural; é regido por forcas ocultas. 0 terror que the infunde
o misterio das potencias invisiveis da Natureza, em que firmemente cre, faz com que
julgue depender da propiciacao dessas inumeras forcas ocultas todos os sucessos
da vida". (24)
22
Lino, Raul, "0 Romantismo e a ' Casa Portuguesa'", em Estetica do Romantismo em
Portugal, Centro de Estudos do seculo XIX, do Gremio Literario, 1974, pag. 205.
23.
Ruy Sant'Elmo, "Introduck" a Adaptack livre da Obra (mortal de Kalidassa, Tip. Central,
Nova Goa, 1941, pag. 19
lbidem, pag. 20.
24.
- 252
0 oriental que percebe a verdade pela intuicio e inspiracio, vive a sua
poesia, musica e arte impregnadas de filosofia, cultualismo, espontaneidade, exuberancia emocional e sentimento. Para o ocidental que é racional e pratico, tudo isso nao
passa de uma "magia temperada de metafisica, ou um animismo transformado em
filosofia" (25).
Nesta ordem de ideias urn escritor goes afirmou: " E de notar que os artistas
europeus buscam de preferencia efeitos surpreendentes de estefica, um puro fluxo e
refluxo de beleza, sequiosos como sao de luz, core ritmo. Neles, em regra, o sentimento
do belo e a elevacdo filosofica nao vao juntos. Ou hd-de ser arte ou hd-de ser filosofia.
Pelo contrario, as obras de Arte Indiana, desde a classica a popular, reflecte a
harmoniosainterpretacao de que emociona o sentimento, e el eva o pensamento. Nab sao
de Arte pela Arte; mas por um sentido efico e filosofico da Vida, em que ao lado
rumorejante do prazer, transparece a ideia do sacrificio" (25a)
Esta opfica ajuda-nos a compreender nao so o romantismo dos indo-portugueses,
mas tambem o seu eventual parnasianismo ou simbolismo.
Houve influencias parnasianas ou simbolistas?
Somos inclinados a considerar o soneto Viassa de Paulino Dias como inspirado
pelos ca.nones dessa escola. 0 soneto tern uma delicadeza e perfeicao de forma que faz
dele uma criacao literaria que toca as raias daquela mesma sublimidade que marca a
figura excelsa do epico indiano.
Revendo criticamente o soneto O Bailadeira da India ó filha da desgraca de
,
Floriano Barreto, S. Mora() Correia (26) exprime o seu encanto por encontrar nele
"todas as caracteristicas que impunha a Escola Parnasiana: a seleccao de um
vocabulario especial que, pela fonefica e pelo significado, impressionasse profunda-
25a
pag. 2
Furtado, Antonio, "Sera de Adaptacio ou Criacao o Poema Vatsala" em BIMB, no. 85, pag.
164
26.
Morao Correia,
25
lbidem,
S.,Qual sera o destine da Lingua Portuguesa
- 253 -
11(1
India ?,
pag. 51.
mente os Orgaos dos sentidos"
"Na verdade", continua o mesmo critico, "é bent grato a Escola Parnasiana o
emprego de termos como: ondular,Osculo, viracao murnuirio, ciciar, fremitos , s ubtil ,
,
languidamente, esbelta, escultural, donairosas, lirial, sem faltarem as fieis onomatoneias fru-fru, whin-tchinn, nue eYprimem o rPlhnr possivel, respecfn,arnent,-,
suave ruido provocado pelo movimento dos vestidos de seda que as senhoras indianas
usam, o tradicional sari, e o som metalico produzido por uma especie de colares de
guisos que as mulheres indus usam nos tornozelos".
No estudo sobre A Deusa de Bronze de Paulino Dias, dissemos de passagem que
nos parecia que a corrente simbolista representada por Paul Verlaine, Mallartne e outros
tinha influenciado o criador deste poema.
Nao faltou quem di ssesse que a poesia indo-portuguesa, por vezes, tern ressaibos
nefelibaticos (27); ou que se ressente nela urn catheter regional ou folclorico.
Nefelibatico, regional ou folclorico, como quer que se the chame. 0 ambito da
aplicaeao destes termos fica sempre dentro da optica da estetica dos ocidentais.
0 modo de sentir e pensar de urn povo como o indiano e, dentre del e, o indo-portugues, é urn factor de monta, embora a primeira vista imponderavel, que o critico
devera tomar em conta, ao apreciar qual quer criacao literari a i n do-portuguesa. Seguindo
unicamente os canones da estetica literaria ocidental seria dificil filiar uma obra da
nossa literatura numa determinada escola.
No Proernio ao seu 0 Livro da Vida, Adeodato Barreto refere-se aos seus proprios versos como sendo nao "uma obra de arte m as ... urn desabafo de alma". "A poesi a
é a manifestaeao mais elevada do dinamismo espiritual: tem, portanto, como o espirito, uma natureza essencialmente viva. A sua exuberancia nao se compadece com a
uniformidade do ritmo que caracteriza o tipo de composicao poetica tradicional".
Poesia e para ele, a "exuberancia interior destes estados de alma: o arranco, a vibra,
ea°, a vida, ou, entao, a tortura lenta, a agonia profunda, a dor que esmaga, a raiva
concentrada, que enlouquece....".
27.
Devi-Seabra, op. cit., pag. 222
Ferreira, Manuel, loc. cit.:"Em Goa, os que tentam a literatura, ... continuant a pairar long
da realidade em que se moven, tornados quase sempre por uma mentalidade presa a canonei
e tendencias ultrapassadas".
- 254 -
Donde, ele confessa que, "sobranceiro as Escolas — na'o por orguiho mas por
simples incultura o Autor, ao escrever estes versos, fe-lo menos para os outros
do que para si".
A vish-o da noesia e do rnet,
artirsiliada,
por.
'rernintico' do
seculo XX, é, pelos modos, reflexo do drama de cada artista literario indo-portugues.
A Luz destes principios que procuramos esbocar a largos tacos , compreenderemos que a nossa literatura é portuguesa de expressab e indiana, em virtude da estese
dos escritores, principalmente, dos poetas, bem como em razab dos temas e motivos
que entretecem as suas criacoes literarias. Intrinsecamente Indiana e espiritualmente lusiada, com as suas fortes qualidades , e ate! -- com alguns dos seus defeitos diriamos, servindo - nos duma expressab de Luis Forjaz Trigueiros, num outro contexto (28).
Para ilustrar o nosso ponto de vista gostariamos de recordar que nos seculos XV
e XVI, o gotico florido foi enriquecido por um conjunto de elementos de ornato em
que se sente a influencia directa da gesta maritima portuguesa, em particular, do
descobrimento da India.
Esta ornamentacao inspira-se na poesia plastica nab so da flora e da fauna do
Oriente, mas do pre:Trio aparelho dos navios — vergas, cabos, ancoras, boias que
aportaram nas costas do Atlantic° sul e singraram pelas ondas do indico.
Foi a aquisicao de tais temas e motivos maritimos, fora da ordem da escola gotica
'pura', que fizeram o estilo manuelino, estilo portugues.
0 Manuelino ocupa um lugar insubstituivel na hi storia da Arte.
A apreciacab da Literatura Indo-Portuguesa ainda resta por fazer . Compete aos
teoricos evolver urn capitulo especial na Estetica literaria para avaliar a justa as
criaceies indo-portuguesas. A Literatura Indo-Portuguesa tem jus a um lugar di stinto na
Tradicdo Literaria Portuguesa.
(28)
Trigueiros, Luis Forjaz, "op.cit, pag 289 e seg.
- 255 -
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