A Relação Pesquisador-Pesquisados: uma Contribuição da Área de Comportamento para a Utilização do Método da Observação Participante nos Estudos Organizacionais Autoria: Yára Lucia Mazziotti Bulgacov, Fabio Vizeu Resumo Conceituando comportamento como relação, este artigo discute a relação entre pesquisador e pesquisados, no contexto da observação participante (OP), tendo como objetivo contribuir para melhor entendimento desse método nos estudos organizacionais. Parte-se inicialmente de alguns pressupostos: a) que a organização é um complexo fenômeno de natureza social-cultural / política e econômica; e que b) pesquisa é um processo distintamente humano, onde pesquisadores junto com os pesquisados constroem um conhecimento. Nesse sentido, advoga-se para os estudos organizacionais uma ciência social reflexiva, não uma ‘ciência natureza’, cujo objeto de estudo é outro. Para fundamentar essas afirmações elege-se algumas referências teóricas fundamentais, dentre elas, o interacionismo simbólico. São desenvolvidos os conceitos de intencionalidade da ação, intersubjetividade, positividade da emoção e atividade artística eticamente orientada como promotora da partilha de emoção. Para demonstrar os aspectos teóricos tratados, relata-se uma pesquisa onde a observação participante foi adotada. Como resultado, verificou-se que o método da participação por meio da atividade artística se revelou um interessante mecanismo que permite a expressão do sujeito em sua totalidade, seja sob o ponto de vista do partilhar da emoção, seja sob o ponto de vista da construção das significações percebidas no processo da pesquisa. Introdução A Observação Participante – OP – é um método que vem sendo adotada na Administração a cerca de três décadas1. Todavia, a sua adoção por parte de poucos pesquisadores tem provocado um certo mal-estar dentro do meio acadêmico ortodoxo – onde a ‘ortodoxia’ se dá a partir da orientação metodológica positivista e da tradição funcionalista de ciências sociais. Este desconforto manifesta-se na forma de um comportamento cético quanto à validade das pesquisas empreendidas a partir da Observação Participante, e muitas vezes é velado para dissimular o desrespeito às afiliações científicas alheias. Talvez por este disfarçado ‘ceticismo’ da ortodoxia acadêmica, a Observação Participante ainda se apresenta de forma tímida na área, não tendo conquistado um espaço que lhe é devido, como fora sinalizado a dez anos atrás por Serva e Jaime Jr (1995), que, ao apresentarem esta metodologia para a academia brasileira, salientaram já naquele momento a necessidade por uma postura investigativa mais consistente por parte do pesquisador em Administração, postura esta capaz de dar conta da complexidade do fenômeno humano nas organizações (especialmente as produtivas), onde as questões da subjetividade se fazem mais críticas para o entendimento da realidade. De fato, a controvérsia acerca do uso da Observação Participante nas pesquisas em Administração assume amplas proporções se observada a partir do embate epistemológico que a reveste, o confronto paradigmático entre os pressupostos funcionalistas – advindos da ideologia positivista – e os que fundamentam as sociologias de natureza fenomenológica e hermenêutica. Na verdade, se tratando de uma disputa de bases políticas, o debate torna-se vazio, pois a argumentação se expressa necessariamente a partir de um tom ideológico, como pode ser observado na citação seguinte: “As resistências acadêmicas e disciplinares a pesquisa qualitativa ilustram o caráter político neste tipo de discurso. (...). Estas resistências refletem uma consciência 1 nada simples de que as tradições da pesquisa qualitativa conduzem o pesquisador à crítica do projeto positivista” (Denzin e Lincoln, 1994, p. 4). Assim, no meio acadêmico, a adoção desta metodologia é marcada de controvérsias e questionamentos quanto aos critérios de cientificidade considerados pelo positivismo. Entretanto, tais objeções às metodologias ideográficas como a Observação Participante desconsideram que a forma que tais critérios são estabelecidos reflete antes uma ‘crença’ ontológica, uma visão da natureza humana e de mundo que é refutável sob outros olhares epistemológicos, ou seja, são apresentados a partir de argumentos que têm por base elementos internos da epistemologia que os configura, abarcando, assim, uma espécie de incomensurabilidade sob o ponto de vista de epistemologias concorrentes (Burrell e Morgan, 1979). Neste sentido, o presente trabalho visa contribuir para o entendimento da Observação Participante a partir da análise de sua relação com o interacionismo simbólico, uma importante vertente da sociologia compreensiva e da psicologia social. Exploramos este método a partir da noção de construção intersubjetiva da realidade, onde se destaca o conceito de intencionalidade da ação. Nosso principal argumento é que, quando analisado o desenvolvimento da Observação Participante na história recente das ciências sociais, destaca-se o fato da busca por um conceito mais apropriado da natureza humana, que fosse capaz de dar conta da complexidade do sujeito (revelada especialmente pelos avanços nas investigações da subjetividade) e de captar o humano em sua integralidade. É nesta busca pelo sujeito em sua essência que a Observação Participante revela dimensões não atingidas pelos métodos ortodoxos. Nesta linha de pensamento, evidenciamos também a concepção de positividade epistemológica da emoção, possível graças à ruptura com a leitura dicotômica feita pela ciência ortodoxa que antagoniza e sobrepõe a razão à emoção. É através desta estrutura epistemológica que se considera a Observação Participante como uma metodologia que, além de revelar facetas negligenciadas da interação humana, permite um maior acesso à subjetividade e, conseqüentemente, a veracidade dos fenômenos sociais. Para elucidar as considerações teóricas presentemente articuladas, apresentamos na última parte do texto um caso onde foi adotada a Observação Participante. Este caso corresponde a um estudo organizacional em um hospital psiquiátrico, e ilustra como em um contexto extremamente desfavorável à inserção do pesquisador na comunidade investigada, o método da Observação Participante foi facilitador. Neste estudo de caso, foi utilizada a arte, entendida como atividade expressiva que, ao permitir a partilha de emoção, demonstrou sua eficácia no processo da pesquisa. Natureza e epistemologia da Observação Participante A Observação Participante, embora possa ser definida como um método de verificação empírica para estudos científicos, comumente associada à fase de coleta de dados (Gil,1999), nem sempre se resume a esse nível. Por envolver a adoção de pressupostos que afetam todo o processo de pesquisa – desde a formulação de problemas e hipóteses até a análise dos dados – a Observação Participante é considerada por muitos autores como uma abordagem científica mais ampla (Bruyn apud Haguette, 1999). Basicamente, a Observação Participante pode ser definida como o processo de observação de uma comunidade ou grupo social onde o pesquisador assume alguma atividade dentro do grupo investigado, no intuito de compartilhar experiências com os sujeitos observados. De acordo com Serva e Jaime Jr: 2 A observação participante refere-se, portanto, a uma situação de pesquisa onde o observador e observados encontram-se numa relação face a face, e onde o processo da coleta de dados se dá no próprio ambiente natural de vida dos observados, que passam a ser vistos não mais como objetos de pesquisa, mas como sujeitos que interagem em um dado projeto de estudos (Serva e Jaime Jr, 1995, p.69). Existem autores que apresentam em seus manuais de pesquisa científica a diferenciação a Observação Participante da não-participante (por exemplo, Lakatos e Marconi, 1991; Gil, 1999), quase sempre, fazendo alusão a vantagens e desvantagens entre uma e outra, mas freqüentemente desconsiderando quais pressupostos fundamentam tais preferências. Por este motivo, é muito comum ser esta diferenciação simplista e superficial, justamente por que desconsidera o forte embate epistemológico que envolve o atributo da ‘participação’. Na verdade, nitidamente se percebe uma orientação positivista na visão de ciência pressuposta nos argumentos daqueles que retratam as principais desvantagens da Observação Participante. Mais adiante, argumentamos que tais representam uma visão de ciência e realidade que vêm ultimamente sendo questionada pelas abordagens sociológicas antipositivistas, e por isso mesmo, envolvem antes a adoção de uma postura epistemológica específica do que a livre escolha (maniqueísta) de uma técnica de coleta dentre outras tantas2. A Observação Participante surge como técnica de pesquisa empírica no contexto teórico da Antropologia, nos chamados estudos de campo de culturas arcaicas, notoriamente, como recurso metodológico para coleta de dados etnográficos. Certos autores (Serva e Jaime Jr, 1995; Durhan, 1978) atribuem a sua gênese nos estudos de Malinowski (1984) sobre os trobiandeses, uma comunidade tribal de ilhas periféricas à Nova Guiné. Ao empreender o trabalho de campo nesta comunidade, Malinowski se dá conta da necessidade de uma nova abordagem, que fosse capaz de vencer as dificuldades acerca da apreensão de aspectos mais profundos da realidade humana e social, não percebidos pelas tradicionais abordagens estatísticas comuns nos primórdios da sociologia. De acordo com Malinowski: Em certos tipos de pesquisa científica – especialmente o que se costuma chamar de ‘levantamento de dados’, ou survey – é possível apresentar, por assim dizer [sic] um excelente esqueleto da constituição tribal, mas ao qual faltam carne e sangue. Aprendemos muito a respeito da estrutura social nativa mas não conseguimos imaginar a realidade da vida humana, o fluxo regular dos acontecimentos cotidianos, as ocasionais demonstrações de excitação em relação a uma festa, cerimônia ou fato peculiar. Ao desvendar as regras e regularidades dos costumes nativos, e ao obter do conjunto de fatos e de asserções nativas uma fórmula exata que os traduza, verificamos que esta própria precisão é estranha a vida real, a qual jamais adere rigidamente nenhuma regra. (Malinowski, 1984, p. 27-29). Interessante notar que a afiliação epistemológica da antropologia pretendida por Malinowski era a funcionalista (Evans-Pritchard, 1980), uma corrente de ciências sociais marcada pela visão positivista de realidade e de ciência. Todavia, mesmo tendo em conta a ontologia realista do positivismo, Malinowski percebia a necessidade da compreensão dos significados que sujeitos de culturas alheias davam a sua própria realidade, buscando através das experiências vividas pelo pesquisador o recurso necessário para o desvelamento dessas dimensões. Na verdade, a proceder desta maneira, este antropólogo funcionalista assumia a postura ontológica nominalista, perspectiva esta comum à fenomenologia, a corrente filosóficosociológica que surgia no século vinte em contraposição a vertente positivista de ciência social. Entendia, assim, que a utilização de elementos fenomenológicos oferecia ao antropólogo um olhar ampliado, um olhar com maior riqueza da vida humana associada. É nessa perspectiva que certos autores destacam o desenvolvimento da Observação Participante enquanto técnica de pesquisa empírica a partir da abordagem de orientação fenomenológica denominada por 3 ‘Interacionismo Simbólico’, especialmente aquela vertente constituída a partir das idéias de um grupo de pesquisadores da escola sociológica de Chicago (Haguette, 1999), perspectiva essa explicitada a seguir. O interacionismo simbólico é uma abordagem de psicologia social que nasce principalmente a partir das idéias de George Mead. Seu pressuposto central diz respeito à construção e reconstrução da realidade subjetiva e da realidade social, e da interdependência entre estas duas esferas ontológicas (mundo interior e mundo social). Como elo central desta dinâmica, o interacionismo simbólico se fundamenta no conceito de intenção, ou seja, o comportamento humano reflete uma intenção do agente, que, por sua vez, deriva da significação que o sujeito dá às coisas exteriores (objetos). A realidade objetiva é, assim, constituída a partir daquilo que é significativo, e o valor ou significado dado às coisas depende da construção social da personalidade, dada pelo processo de interação. É por isso que as trocas simbólicas (interação de significados e compartilhamento de interpretações) constituem a base desta nova leitura sociológica, onde se pressupõe que “a sociedade humana se funda, pois , na base do consenso, de sentidos compartilhados sob a forma de compreensões e expectativas comuns” (Haguette, 1999, p. 27). Além desta nova concepção epistemológica da relação sociedade-indivíduo, a vertente do interacionismo simbólico diferencia-se substancialmente da concepção sociológica da tradição positivista no que tange a noção de realidade objetiva. No interacionismo simbólico, não se nega uma realidade objetiva independente, apenas se apregoa um relativismo subjetivo na percepção desta realidade pelo indivíduo. Assim, “a realidade existe somente à experiência humana e ela só aparece sob a forma de como os seres humanos vêem este mundo, ou seja, são os aspectos objetivos e subjetivos observáveis que compõem a realidade concreta” (Haguette, 1999, p. 58). É neste ponto que o interacionismo simbólico se aproxima da fenomenologia, já que ambas vertentes se fundamentam em uma noção de realidade objetiva derivada da subjetividade humana. Esta concepção ontológica, por se contrapor diretamente ao realismo do positivismo, pressupõe uma nova postura de pesquisa, postura esta com forte conotação humanista. Ao tratar da contraposição da fenomenologia ao positivismo, Triviños assim considera: A fenomenologia exalta a interpretação do mundo que surge intencionalmente à nossa consciência. Por isso, na pesquisa, eleva o ator, com suas percepções dos fenômenos, sobre o observador positivista. Os positivistas reificaram o conhecimento, transformaram-no num mundo objetivo, de ‘coisas’. A fenomenologia, com sua ênfase no ator, na experiência pura do sujeito, realizou a desreificação do conhecimento, mas no nível da consciência, de forma subjetva. (Triviños, 1987, p. 47) Entretanto, o conteúdo ontológico subjetivista do interacionismo simbólico e da fenomenologia foge do relativismo absoluto comum ao solipsismo, justamente para que estas vertentes permaneçam com um status de ciência (Triviños, 1987). Este afastamento do idealismo puro se dá especialmente através do conceito de intersubjetividade (termo cunhado na fenomenologia), que, de forma muito simplificada, remete o processo de interação social que visa o ajuste e compartilhamento das significações individuais. Este conceito, longe de se contrapor ao princípio da objetividade, recupera a concretude da realidade subjetiva – esfera ontológica negligenciada pela ciência social positivista (Demo, 1995), porém que se torna cada vez mais relevante nos estudos sociais, especialmente após a descoberta do inconsciente pela psicanálise. O compartilhar de subjetividades é um processo eminentemente social, e a própria relação com nossa subjetividade é mediada por mecanismos de socialização, como a linguagem (pensamos em 4 uma língua específica) e pela moral (sentimos culpa ou vergonha a partir da normatização de uma cultura específica). É neste último aspecto que se verifica a Observação Participante como “o método por excelência dos estudos interacionistas”, justamente, por esta orientação sociológica considerar que a captação da realidade social somente é possível na medida em que o pesquisador “assumir o papel do outro e ver o mundo através dos olhos do pesquisados” (Haguette, 1999, p. 59). Neste aspecto reside uma das objeções mais contundentes que a ortodoxia funcionalista faz a Observação Participante, o comprometimento do critério da neutralidade. Todavia, sob o ponto de vista epistemológico, este risco demonstra-se como uma questão de ‘incomensurabilidade paradigmática’ (Burrell e Morgan, 1979). Na crítica funcionalista, considera-se que o envolvimento do pesquisador com os sujeitos investigados compromete a validade dos dados; todavia, sob o ponto de vista ontológico do interacionismo simbólico, este envolvimento na construção do conhecimento é algo insuperável, dado a centralidade do processo de intersubjetividade na construção da realidade; mais ainda, sob o ponto de vista interacionista, este envolvimento é algo necessário. E o não reconhecimento desta premissa interacionista já vem sendo apontado como uma insuficiência nos estudos em Administração, como afirma Chanlat: A existência humana é por definição uma experiência, isto é, um reencontro entre o espírito e a realidade exterior por meio dos sentidos. Mobilizando todos os aspectos de nosso ser, a experiência encontra-se no cerne da condição humana. Tomada nesse sentido, ela engloba ao mesmo tempo o conhecimento que se tem de uma atividade e o modo como a pessoa a vê. Em management, fala-se muito da primeira e pouco da segunda. Essa ausência da experiência vivida está ligada ao lugar que ocupam os elementos prescritos, formais e abstratos no discurso em gestão. (Chanlat, 2000, p. 70). Em suma, a transposição epistemológica da sociologia ortodoxa para as vertentes hermenêuticas reflete, antes de tudo, a busca por um refinamento na apreensão do sujeito em toda a sua dimensão complexa. Este refinamento se dá fundamentalmente pelo entendimento da observação, sobretudo no contexto de uma prática intersubjetiva, e não mais como uma prática neutra do pesquisador em relação a seu ‘objeto’ de pesquisa. Naquela, intenção e significação se tornam elementos chave na compreensão da realidade, justificando, assim, a competência da Observação Participante enquanto técnica de verificação empírica. A seguir, tratamos de como a ‘observação’ é constituída a partir desta referência interacionista. O significado da observação na epistemologia interacionista Partindo da premissa que os fenômenos humanos tem significados culturalmente construídos e não naturalmente dados, passaremos a esclarecer os significados associados á observação no contexto de correntes epistemológicas interacionistas, em contraposição ao significado reificado dado pelo positivismo. Como a palavra ‘observação’ pode assumir significados tão diversos? Para responder a essa questão, Vygotsky (1982) auxilia-nos na medida que diferencia entre significado e sentido da palavra. Significado da palavra é o que encontramos no dicionário – representa uma zona mais estável, o núcleo do significado dessa palavra, que de resto estará submetido a constantes mudanças; já os significados que mudam de acordo com o contexto são os sentidos das palavras. O sentido da palavra é mais amplo e mais dinâmico que seu significado. Uma palavra situada em um contexto tem mais ou menos significado que a mesma palavra fora do contexto. Tem mais significado porque se enriquece com o contexto; tem menos significado porque o contexto limita e concreta seu significado abstrato. Esta contextualidade dos sentidos das palavras se reflete na 5 flexibilidade ilimitada das relações entre sentidos e palavras – quando o mesmo significado pode transmitir-se mediante palavras diferentes, e que a mesma palavra pode adquirir significados opostos em função do contexto. Sendo a ciência um empreendimento humano como qualquer outro, sofre do mesmo modo constantes mudanças de significados. Bachelard (1996) pontua a legitimidade dessas mudanças: Toda cultura científica deve começar com uma catarse intelectual e afetiva. Resta então a tarefa mais difícil: colocar a cultura científica em estado de mobilização permanente, substituir o saber fechado e estático por um conhecimento aberto e dinâmico, dialetizar todas as variáveis experimentais, oferecer enfim à razão razões para evoluir (Bachelard, 1996, p. 17). O que se reafirma é que a observação humana no contexto de uma epistemologia interacionista não é uma simples opção entre modalidades, participante e ‘não participante’. A observação nesse contexto é sempre ‘participante’, não podendo nunca ser ‘neutra’. Observação enquanto uma atividade onde o homem participa de maneira ativa, não alienada, através de sua atenção, através de sua percepção. Desenvolveremos a seguir os significados que estaremos associando á observação participante a partir de um olhar fenomenológico,um olhar que recupera as dimensões humanas, as dimensões da subjetividade. Bosi (1993) auxilia-nos a compreender o quão ativo é o processo da atenção implicado na observação. Entende atenção como ato de exercer-se; ato consciente, de escolha, de implicar-se em uma situação; contrária, por exemplo à atitude de “não quero saber”. Depois desse ato consciente de implicar-se, a atenção, diz o autor, envolve perseverança, ou seja, deve enfrentar a angustia da pressa e deter-se sobre o ‘objeto’ da atenção. Vencida a pressa, a atenção deve contar igualmente com a virtude do despojamento. Assim, a atenção tudo sacrifica para ver e saber e inaugura um método para o olhar, um olhar que se opõe ao desejo classificador, um olhar desapegado, um olhar que não quer se apropriar, rotular, seccionar. O autor Parte do pressuposto que, se o olho se detém na contemplação desinteressada do objeto, ele descobre seus múltiplos perfis e, no final do processo, recupera sua unidade em um nível mais complexo de percepção, uma percepção que admira as transformações, o ‘uno todo’. Finalmente, Bosi (1993) entende a atenção sobretudo como um fazer, como um trabalho. Reflete um olhar que, portanto, age sobre a realidade, um olhar atento que vive o trabalho da percepção e cujo desafio está no compreender, compreender tanto as regularidades quanto os acidentes da matéria. Podemos concluir que essa modalidade de observação é significativamente diferente daquele no qual entramos em campo com categorias prontas de observação do fenômeno. Estamos nos referindo a um processo de observação contextualizada, onde sujeitos concretos interagem. Um processo onde sujeito-pesquisador, juntamente com um sujeito-pesquisado, decidem por um trabalho comum consciente, não alienado e, de maneira nenhuma, neutro. Uma outra dimensão humana que faz a mediação na observação é a percepção. Ostrower (1995) ajuda-nos a explicitar o quanto o perceber não é uma representação passiva do mundo. A autora chega a aproximar a percepção ao processo de criação artística, defendendo que na percepção há escolhas, a partir inclusive de prioridade intuitivas. Essa seletividade nos leva a estabelecer certas conexões (entre aspectos semelhantes ou contrastantes dos fenômenos) que possam tornar-se significativos para nós, projetando em nossa mente uma espécie de modelos mentais, em forma de padrões hipotéticos. Estes, então, nos servirão de referência durante o próprio ato de percepção. Defende a autora que no processo perceptivo há muita interpretação, inclusive há seleção a partir de condições físicas e psíquicas de cada pessoa. Essa interpretação passa por expectativas, lembranças, enfim, todos os elementos da experiência vivida.Assim, 6 Ostrower (1995) concebe a percepção como um processo altamente dinâmico e não como mero registro mecânico de um estímulo. Dinâmico, afirma a autora, no sentido de forças em atividades, ou seja, a imagem que se refere à idéia de que participamos ativamente da percepção em vez de apenas estarmos passivamente presentes. Esta dinâmica inerente ao processo de percepção revela o caráter imaginativo de nossos simples atos. Ou seja, sem prestar atenção em nada particular, nossa mente continua interpretando os acontecimentos em nossa volta. Muitas vezes partimos de dados incompletos, de sugestões mais do que informações (já que, na prática, é impossível verificar minúcias); retemos em nossa mente a visão de um contexto maior, de situações globais, que nos servem de referência. Fazemos estimativas baseadas em certas ordenações e certos padrões de coerência que notamos nos múltiplos dados, para poder entender o significado de algum detalhe específico. Nestas ordenações entram a memória de experiências do passado como antecipação de possíveis ações nossas. Portanto, no momento que estamos percebendo algo, já estamos generalizando e imaginando, levantando hipóteses sobre ‘o que’ e ‘o porquê’, de que se trata e em que circunstâncias ocorrem o que devemos fazer. Vale igualmente lembrar, que todo ato de percepção abrange, no momento, uma projeção para o futuro. O processo não necessariamente torna-se consciente, embora inclua racionalizações, integra racional e sensível. Evidentemente é possível enganar-se. Estimativas que fazemos ao longo de nossa vida, se não são suficientemente boas, são suficientes para nossas ações. Exposta a perspectiva interacionista da percepção, podemos concluir que, ao invés de percebemos de maneira ‘neutra’, percebemos a partir de todos esses nossos conteúdos. Quando percebemos, re-construímos assim nossa humanidade. Neste sentido, em uma situação de pesquisa, na medida em que nos aprofundamos na análise das ‘forças ativas’ implicadas tanto na atenção como na percepção (que fazem a mediação do observar), é inadmissível a defesa de uma neutralidade da observação. Entendemos, assim, que em uma pesquisa ‘participante’ deva haver um encontro, deve haver um convite do pesquisador em relação aos sujeitos-pesquisados em se compartilhar uma situação. A apreensão da ‘humanidade’ do sujeito na Observação Participante: integrando razão e emoção Como visto acima, o momento de nossa percepção é o momento de realização de nossa condição humana. Em todas as percepções fazemos interpretações e nossos pensamentos se enlaçam com emoções, sentimentos de auto-afirmação e também intenções. Assim, é significativo pensarmos em percepção como compreensão. O ‘referencial’ somos nós mesmos, tentando esclarecer melhor o sentido de nosso ser e nos compreender. Daí o conhecimento de nossa identidade levar necessariamente ao outro, o conhecimento do mundo. Organizamos as circunstâncias das situações, as decompomos e recompomos em novos contextos e componentes, em novos conjuntos e suas partes, cada vez com um sentido próprio. Barthes (1984) é outro teórico que chama-nos atenção em relação a esta questão. Utilizase de uma belíssima metáfora para o ‘olhar’; para a compreensão da subjetividade do pesquisador que adota uma ontologia nominalista e uma epistemologia antipositivista. Esse autor elege o termo ‘câmara clara’ (ou câmara lúcida) e ‘câmara escura’, para avaliar o processo fotográfico. Chama de ‘câmara clara’ o processo da fotografia que é mediado pela subjetividade humana e, ‘câmara escura’ o processo mecânico e reprodutivo da máquina fotográfica em relação ao registro do mundo. Na ‘câmara clara’ leva-se em consideração a sensibilidade física e emocional do interprete, do fotógrafo que imprime algo fundamental em cada foto. Apesar de simples, a 7 analogia de Barthes (1984) com a atividade fotográfica revela a importância da emoção no processo de percepção da realidade. Assim, no processo humano da observação destaca-se a dimensão do sentimento, da emoção, fazendo frente à dicotomia cartesiana – razão e emoção. Nesse sentido trazemos alguns teóricos que nos auxiliam na defesa dessa questão. Reafirmando a observação sempre como ‘participante’, entendemos este processo como uma atividade relativamente consciente, conjunta, que convida o outro a participar, que convida o outro se implicar. Heller (1993) define o ‘implicar’ como um sentimento. Heller não dicotomiza o homem, concebe o homem unificado e busca demonstrar que ele é um fato empírico: Al mismo tiempo quiero establecer como hecho no menos empírico (...), que el campo de acción permitido por la sociedad actual, y el pensamiento determinado por ella, producen y fijan sentimientos particuralistas, perpetúan y reproducen la alienación de los sentimientos, el carácter irrestringible de ciertos afectos. El hombre está unificado, pero la personalidad está escindida. (Heller, 1993, p. 11). A regulação dos sentimentos permeia a sociedade e conseqüentemente varia com a cultura. Na forma de ritos e costumes, que diferenciam as culturas, as formas de expressão dos sentimentos são reguladas. Porém, vivemos em uma sociedade onde é dominante a alienação dos sentimentos. No campo da gestão, a negação das significações afetivas é evidenciada, por exemplo, pela polarização interior/exterior. Como afirma Lapierre: “A interioridade significa o desconhecido, a negrura, o perigo. Até agora nosso conhecimento da gestão recaiu sobretudo no pólo da exterioridade. É aí que a objetividade é possível, e aí que há mais luz” (Lapierre, 1993, p. 265). A partir da visão de Heller (1993), é preciso conceber-se a figura de um pesquisador unificado, defendendo-o, inclusive, como um fato empírico. Esta perspectiva sobre o pesquisador tenta romper com a padronização positivista do observar, onde a todo o custo o sentimento é um ‘obstáculo’ que deve ser afastado (como anunciava Bacon). Na verdade, a busca da emoção no processo investigativo concilia-se mesmo com a busca pelo sujeito integral, em toda sua complexidade, em toda sua ambigüidade, enfim, em toda sua humanidade. Como salienta Camargo: Emoção é expressão, movimento, explosão. É também alegria e tristeza, prazer e desprazer, amor e ódio, atração e aversão, adoração, afeto, carinho; horror, terror, medo e pânico. É sentir o coração a bater, ter a respiração suspensa, tremores, tensão. É contração, espasmo, inspiração, respiração, tudo isso e muito mais. Ela irrompe bruscamente, nega a evolução humana, humaniza o homem. A emoção engloba tudo, é algo muito complexo. É primeira forma de comunicação. Pode ser arte de falar em uma forma superior, a poesia, ou linguagem primitiva. Individual e coletiva, sagrada e maldita. Expressão histórica de indivíduos, raças, nações, classes. Revelação. É busca de proteção e destruição, hostilidade e hospitalidade, simpatia e antipatia, esperança e desesperança, encanto e desencanto. Reintegração, orientação e explosão. A emoção gera solidariedade e aproximação, mas também interrompe relações. ‘Passions de l’Âme’, resíduo da existência animal. Reação do instinto ou do coração? É impulso egoísta ou altruísta? Loucura, ‘estar fora de si’. Revela saúde mental, encontro consigo. Euforia, apatia, excitação e desejo, depressão e angústia. Contraditória e conflitante, é a emoção. Expressão de algo vivido, ambivalente em sua manifestação. (Camargo, 1997, p. 22) Para Heller (1993, p. 15) “sentir significa estar implicado em algo”. Este algo não necessariamente é algo concreto, mas pode ser um problema, uma idéia, uma situação, o outro, enfim. A autora expressa que a implicação está diretamente ligada a significação que o objeto da implicação tem para o sujeito. Podemos estar implicados no momento da Observação Participante, pois isto significa algo para mim. O grau da implicação depende da nossa familiaridade com o fenômeno ocorrido. A idéia de que a implicação acompanha nossas outras 8 funções é equivocada, devemos lembrar que o ser unificado é o que Heller defende. Em suas palavras: La implicación no es un ‘fenómeno concomitante’. No es que haya acción, pensamiento, habla, búsqueda de información, reacción, y que todo eso este ‘acompañado’ por una implicación en ello; mas bien se trata de que la própria implicación es el factor constructivo inherente del actuar, pensar, etc., que la implicación está incluida en todo eso, por vía de acción o de reacción. (Heller, 1993, p. 17) Considerando que a implicação está ligada a significação que o fato tem para quem está implicado, gostaríamos de focar aqui a interação sujeito-sujeito que define a relação entre pesquisador e sujeito pesquisado. Neste sentido, através de atividades particularmente ligadas a emotividade – como, por exemplo, as atividades artísticas – pesquisador e sujeito-pesquisado compartilham, partilham um momento expressivo e significativo que cria condições melhores de reflexão. Assim, tenta-se conscientemente superar a dicotomia razão versus emoção, ou seja, a partilha de emoção facilita a reflexão conjunta, devidamente consentida. Contudo, entendemos que, ao defendermos a positividade epistemológica da emoção na prática da Observação Participante, não poderíamos deixar de considerar a dimensão ética também envolvida nesta prática. Em outras palavras, em que medida teríamos garantia que essa ‘permissão’ da emoção no processo da pesquisa entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados não incidiria em uma certa manipulação por parte do pesquisador. Guareschi (2003) acredita que nossa subjetividade, aquilo que nos constitui, é o mundo todo, são todos os outros (como é demonstrado pelos interacionista através do conceito de self). Para ser ético, segundo o autor, é necessário conviver num espaço onde todos têm voz, todos tem vez, onde existe partilha, solidariedade. Existe colaboração, cooperação, relações igualitárias e fraternas; a participação se dá em nível simétrico a partir da ação e diálogo comunicativo. Nessa perspectiva, nesse paradigma científico que defendemos, garantir a ética implicaria, necessariamente, haver um contrato explícito, uma partilha da situação a ser vivida. Que outra condição seria necessária em nosso projeto de observação participante houvesse partilha, houvesse encontro? Nesse sentido fazemos a proposta de inserir a arte – entendida como uma atividade emotiva por excelência – no sentido de aumentar a probabilidade de uma relação implicada entre o sujeito-pesquisador e o sujeito na pesquisa. Faremos a seguir, uma breve reflexão sobre as características da atividade artística e sua utilização como estratégica de pesquisa de campo. A atividade artística pode ser entendida como uma forma de convivência que permite a partilha, e, conseqüentemente, viabiliza a participação tal qual fora dimensionado em nossa breve discussão teórica. Neste sentido, surge a seguinte indagação: a emoção desencadeada pela atividade artística musical não seria algo a impedir a coleta do dado? Não seria algo simplesmente manipulativo? Ao contrário, ao adotar a atividade artística na Observação Participante e considerar o subseqüente processo emotivo permitido por esta atividade, defendemos a positividade epistemológica da emoção, conforme assinalada por Sawaia (2002). ao investigar sobre pensamento de Vygotsky e sua aproximação com a filosofia de Espinosa, esta autora considera o valor epistemológico da emoção na obra do primeiro: Vygostsky inspirado em Espinosa provoca uma revolução na Psicologia mudando a ontologia do fenômeno afetivo. A emoção passa de fenômeno instintivo e negativo para fenômeno ético, propulsor ou inibidor da autonomia. Os afetos são inerentes à condição humana e por conseqüência à ética, pois determinam a passagem da heteronomia passional à autonomia corporal e intelectual, guardiã. Mas sua gênese é social, pois mediados pelos significados (Sawaia, 2002, p. 18). 9 Em nossa incursão por uma epistemologia alternativa ao paradigma de ciência dominante, não podemos legitimar, como argumenta Sawaia, a falsa dicotomia maniqueísta entre razão (mocinho) e emoção (vilão perturbador do conhecimento). Nossa prática de pesquisa ‘concilia’ razão com emoção, não incidindo no erro histórico entre sensorialistas e racionalistas na tentativa de explicar ‘como se conhece’. A seguir, apresentaremos um caso onde foi adotado como estratégia de participação a prática musical, caso este referente ao trabalho de dissertação de mestrado de um dos autores do presente texto. O caso corresponde ao estudo sobre um hospital psiquiátrico, situado em CuritibaPR, e ilustra um contexto extremamente desfavorável à inserção do pesquisador na comunidade investigada. Após a vivência artístico-musical, situa-se o momento de reflexão sobre a atividade de coleta de dados, que, através da razão e o devido consentimento entre os sujeitos da pesquisa – consentimento este que corresponde ao conteúdo ético da relação entre pesquisador e sujeito investigado – os dados eram levantados. A pesquisa: o relato de um caso de Observação Participante A grande dificuldade encontrada para se desenvolver um trabalho de Observação Participante em um hospital psiquiátrico diz respeito a enorme restrição que se faz à inserção neste tipo de organização. Primeiramente, por uma questão de ética profissional, o atendimento psiquiátrico e psicológico tem um caráter sigiloso, dado no sentido de preservar a integridade moral e psicológica dos envolvidos (pacientes e familiares). Por ser o atendimento especializado nas áreas de saúde a essencial atividade de um hospital psiquiátrico, surge o seguinte dilema: como se inserir no contexto vivido da comunidade profissional do hospital como membro ativo (princípio básico da Observação Participante) se a falta de formação em saúde do pesquisador da área de Administração impossibilitava a presença nas principais atividades terapêuticas, restritas aos profissionais habilitados? Outro fator que restringia à inserção na comunidade hospitalar dizia respeito a um acontecimento específico da história da instituição em questão. O hospital psiquiátrico em que se processava a pesquisa estava passando por uma espécie de ‘crise’ em sua imagem institucional, devido ao lançamento de um filme cinematográfico de grande audiência que contava experiência de um ex-interno no referido hospital. Neste filme, são retratadas as terríveis condições dos hospitais psiquiátricos na década de setenta. Apesar dos fatos retratados corresponderem a um período no hospital que é anterior à época de lançamento do filme, dada a enorme projeção na mídia televisiva desta produção cinematográfica, ocorreu uma espécie de ‘caça as bruxas’ a instituição em questão. Todavia, todos os procedimentos desumanos retratados pelo filme foram abandonados e substituídos por um programa terapêutico humanizado desde 1984, tendo sido este programa elogiado por diversos grupos e órgãos ligados ao movimento de reforma psiquiátrica. Apesar disto, a imagem do hospital perante a comunidade local ficara abalada, e isto causou um desconforto em toda a comunidade terapêutica da instituição. Um funcionário do hospital nos relatou que freqüentemente apareciam jornalistas interessados em registrar “as práticas de tortura” do hospital. Assim, dada toda esta problemática, a postura dos 10 membros deste hospital em relação ao ‘olhar’ exterior era de desconfiança e de receio, o que correspondia a uma grande dificuldade para a Observação Participante. O caminho encontrado para a solução das dificuldades acima retratadas foi a participação como membro dos programas de voluntariado oferecidos pelo hospital. Por ser uma entidade filantrópica, existia uma grande demanda por trabalho voluntário, seja por profissionais da saúde ou mesmo por pessoas da comunidade. Dada esta demanda, ao longo dos anos, foram se institucionalizando frentes de específicas de trabalho voluntário no hospital. Assim, nos integramos a estes programas de voluntariado, no intuito de achar ali a saída para a inserção. Todavia, em tais programas, era necessário que o voluntário definisse que atividades iria realizar com a comunidade hospitalar (era necessário, no sentido que se evitassem problemas trabalhistas futuros, que se formalizasse o trabalho voluntário e que se especificasse minuciosamente as atividades realizadas bem como os horários destas). Neste momento, optamos por desenvolver atividades musicais, tendo em vista uma significativa experiência profissional anterior neste ramo de atividade. Todavia, fomos percebendo que esta escolha havia sido muito propícia, por permitir o desdobramento da própria abordagem de Observação Participante em uma estratégia de pesquisa que permitiu um maior acesso à emotividade, seja por parte do sujeitoobservado, seja por parte do sujeito-pesquisador. As atividades exercidas nos programas de voluntariado consistiam de encontros semanais (três vezes por semana) onde o voluntário se comprometia a realizar alguma tarefa que contribuísse para a qualidade de vida dos pacientes do hospital. Estas atividades eram supervisionadas uma vez por semana, em reuniões onde todo o grupo de voluntários relatava suas experiências dentro do hospital, compartilhando com o grupo especialmente suas impressões e emoções vivenciadas. Existiu uma espécie de período de adaptação para os membros do voluntariado, que configurava um período inicial para o conhecimento das atividades e rotinas do hospital, aprendizado dos procedimentos de segurança e a inserção dentro da unidade a realizar o trabalho. As atividades exercidas pelo grupo de voluntários eram das mais variadas – leitura de textos para os internos, corte de cabelo, aulas de tai-chi-chuan, apresentações musicais, recreação com jogos de salão e confecção de artesanato, entre outras. Interessante notar que em todas as atividades havia um intenso envolvimento emocional, dada pela própria natureza das atividades (a maioria relacionadas as artes, e outras que contribuíam significativamente com a auto-estima dos pacientes, como no caso da atividade de ‘salão de beleza’). A primeira impressão quando se entra em um hospital psiquiátrico está diretamente relacionada com os preconceitos a cerca deste tipo de instituição e da própria figura do louco. Mesmo que a imagem pejorativa a cerca da loucura seja amenizada pela investigação teórica prévia necessária a prática científica, no momento que se ‘entra’ no hospital, volta à tona os receios preconceituosos sobre ataques, horrores e possíveis constrangimentos graves a serem sofridos lá dentro. Quando se faz a primeira visita as dependências internas, este mito começa a se dissipar; todavia, o receio permanece como um constante estado de alerta3, e, neste quadro, o reconhecimento do louco como ‘sujeito’ é dificultado. Assim, paradoxalmente, para o pesquisador receoso de ser agredido, a 11 impressão inicial é que o doente mental é uma ameaça, um escolho para o seu trabalho de observar, ao mesmo tempo que é o sujeito-observado. As atividades musicais eram empreendidas no pátio da ala escolhida4 para o trabalho voluntário, com cerca de 40 m2. Tocavam-se canções ao violão, e o repertório era escolhido, na medida do possível, pelas pacientes. Algumas das músicas refletiam algum momento especial vivido pelas pacientes, e muitas se emocionavam com as lembranças trazidas pelas canções. Outras canções eram mais alegres, proporcionavam um estado de euforia e bem estar na unidade que repercutia ao longo do dia. Conforme nos relatou uma das auxiliar de enfermagem da unidade: “nos dias de violão, a unidade fica que é uma beleza”. Era muito comum a confraternização pela dança e o acompanhamento com palmas, onde participavam até mesmo as funcionárias da unidade. À medida que as atividades musicais ocorriam, percebíamos uma evidente mudança de nossa postura no hospital. Rapidamente, o receio da loucura deu lugar a um sentimento de compaixão perante aquelas pessoas que lá estavam por um infortúnio particular de suas vidas. Passávamos a olhar o sujeito-louco com outros olhos, e buscávamos enxergar aspectos do cotidiano destes que antes passavam despercebidos ao nosso olhar de pesquisador. Por exemplo, comumente tendíamos a associar as situações de conflitos entre as pacientes ao estado patológico destas; com o passar do tempo e a partir da manifestação da emotividade nos encontros musicais, fomos percebendo que os conflitos entre pacientes e mesmo entre pacientes e funcionários se davam freqüentemente por questões da vida cotidiana comum: as pacientes sentiam medos como pessoas ‘normais’ sentem, sentiam desejo, sentiam alegria, saudade, etc., como qualquer pessoa que não se encontra com alguma enfermidade sente. Muitos dos comportamentos identificados como patológicos, encontravam uma explicação mais simples quando observados a partir da construção interpessoal onde a dimensão da emoção não era vista como negatividade. O sentido de certas falas tinha um significado para nós que somente era compreendido a partir de um contexto complexo, e a emotividade surgia no sentido de completar importantes lacunas neste ‘quebra-cabeça’. Isto também se dava em relação à compreensão das diferentes posturas assumidas ao longo do período de observação pelos sujeitos-investigados. É importante salientar que, mesmo se tendo em conta que a abertura voluntária à emotividade permite um melhor descortinamento do complexo contexto que envolvia a subjetividade dos sujeitos-investigados, nem por isso o pesquisador estava livre de adotar mecanismos preventivos aos problemas causados por esta abertura. Na verdade, como em toda pesquisa social empírica, existem precauções a serem tomadas no sentido de minimizar a obliteração no processo de percepção dos fenômenos, causada especialmente pelo viés do pesquisador. Na Observação Participante, este problema é naturalmente significativo, devido à própria natureza distintiva deste método (Haguette, 1999); contudo, esta questão se intensifica quando se adota intencionalmente uma postura que favorece aos processos da emotividade. Assim, ao mesmo tempo que as emoções são consideradas uma categoria que expande as possibilidades de percepção dos processos intersubjetivos, nestas também reside a constante ameaça de distorção das impressões e significações. Mas é na própria categoria que obtivemos a saída para este paradoxo. Ao 12 final de cada período de observação, no momento de registrar as impressões no caderno de campo, também se registrava um quadro geral do estado emocional naquele dia, sob a denominação “impressões sobre o pesquisador”. Se estávamos eufóricos, deprimidos, alertas, tristes, distraídos, registrávamos em nosso caderno de campo, associando tais impressões às anotações referentes aquele período específico. Estas impressões foram importantes referências de ponderação dos dados na fase de análise de dados, mas também serviram para nortear a própria interpretação dos fatos registrados. Outro aspecto relevante na estratégia da música é que esta permitiu o rápido estabelecimento da confiança entre o pesquisador e os sujeitos-investigados. Conforme já mencionado, o estado de desconfiança do pesquisador causado pelo preconceito da loucura rapidamente se dissipou a partir das atividades musicais. Todavia, a estratégia da atividade musical também foi frutífera para minorar o receio da comunidade hospitalar pelo olhar exterior que o pesquisador representava. A música era uma linguagem que permitia abertura do interior mais recôndito das pessoas, torna-as menos dissimuladas, estimulava a confraternização de uma forma mais espontânea. Através da música, pudemos ver rostos carrancudos e desconfiados rapidamente transfigurarem-se em faces alegres e coradas, espontaneamente sorridentes. A linguagem musical – entendida aqui como linguagem das emoções – impetrava nas pessoas um estado de espontaneidade, uma vontade de falar e confessar, tal qual se processa na embriaguez que dá coragem aos retraídos. Pudemos perceber nitidamente que, mesmo tendo consciência do nosso papel de pesquisador e do conseqüente olhar exterior e comprometido com a verdade dos fatos, a nossa participação por meio da música contribuiu para que se formasse uma outra imagem de nós mesmos: a imagem daquele que trazia a alegria, daquele que dava sua parcela de contribuição para a vida sofrida das pacientes. Conclusões O caso da pesquisa no hospital psiquiátrico acima retratado é interessante para ilustrar de que forma entendemos que a emotividade é uma categoria epistemológica relevante para a construção do conhecimento científico. Neste ponto, o método da participação por meio da atividade artística se revelou um interessante mecanismo que permite a expressão do sujeito em sua totalidade, seja sob o ponto de vista do partilhar da emoção entre os sujeitos-investigados e o pesquisador, seja sob o ponto de vista da construção das significações percebidas no processo de observação. A partir de nosso percurso teórico, tratamos do método de Observação Participante evidenciando como este representa – sob o ponto de vista de uma epistemologia antipositivista – um novo olhar sobre as dimensões humanas no campo dos estudos organizacionais. Nosso intento ao recuperar premissas epistemológicas contrárias àquelas que sustentam a ortodoxia na área foi o de salientar alternativas para o processo científico no campo. Esta necessidade se justifica, em parte, pelas limitações da perspectiva sobre o ‘humano’ na tradição ortodoxa na área, como salienta Chanlat: Em numerosas publicações em management, as dimensões humanas e sociais são, como se diz atualmente, incontornáveis, mas a realidade da prática oferece-nos outra imagem. A humanidade que se celebra é na maioria das vezes uma humanidade amputada de algumas dessas dimensões fundamentais. No agente 13 calculador racional, emissor e receptor de mensagens, móvel e gestor de sua vida que nos descrevem as inúmeras publicações em management, faltam, com efeito, muitas coisas sem as quais não podemos considerar-nos plenamente humanos. (Chanlat, 2000, p. 66) Neste sentido, urge a recuperação da subjetividade na prática científica. No que tange a metodologia da Observação Participante, a subjetividade é revelada a partir da dinâmica de interação, onde significação e intenção representam duas importantes referências de análise. Ainda, estas categorias são significativas na compreensão do próprio processo investigativo, já que a Observação Participante também revela a humanidade do pesquisador. Cabe destacar nesta postura metodológica a importância da transparência, da explicitação destas dimensões. Por fim, apesar do presente trabalho buscar demonstrar que a Observação Participante é um método que, pela sua natureza e particularidades, melhor se ajusta a uma epistemologia subjetivista e antipositivista, não pretendemos com isso negar o espaço e a significância da epistemologia ortodoxa em ciências sociais. Se assim agíssemos, estaríamos incorrendo no mesmo erro que denunciamos na introdução do presente artigo, o de se negar a validade de certos métodos e procedimentos exclusivamente por que estes não correspondem satisfatoriamente as nossas convicções acadêmicas, convicções estas que são freqüentemente assumidas sem o devido criticismo5. O que salientamos em nossa breve incursão reflexiva é a necessidade de se pensar nas ciências sociais e nos seus respectivos métodos a partir de uma postura que corresponda o mais próximo possível da complexidade do homem, em tentativas sempre constantes de não nos submetermos a esquemas teóricos redutores. Entendemos que esta postura permite um desenvolvimento sadio do campo científico, pois fomenta a reflexão sobre a própria estrutura do pensamento científico. Referências Bibliográficas BACHELARD, G. A Formação do Espírito Científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996. BARTHES, Roland. A Câmara Clara: nota sobre a fotografia. Rio de Janeiro:Nova Fronteira,1994. BURRELL, G.; MORGAN, G. Sociological paradigms and organisational analysis: elements of the sociology of corporate life. London: Heinemann Educational Books, 1979. CAMARGO, D. As emoções no processo de aprendizagem. São Paulo, 1997. Tese (Doutorado em Psicologia Social). Departamento de Psicologia Social, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1997. CHANLAT, J. F. Ciências sociais e management: reconciliando o econômico e o social. São Paulo: Atlas, 2000. DEMO, P. Metodologia científica em ciências sociais. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 1995. DENZIN, N.; LINCOLN, Y. (ed.). Handbook of Qualitative Research. USA/UK: Sage, 1994. 14 DURHAN, E. A reconstituição da realidade. São Paulo: Ática, 1978. EVANS PRITCHARD, E. Antropologia social. Lisboa: Edições 70, 1980. GIL, A. C. Métodos e técnicas de pesquisa social. 5. ed. São Paulo: Atlas, 1999. GUARESCHI, P. Ética e Paradigmas. In: PLONER, K. S. (Org) Ética e paradigmas na psicologia social. Porto Alegre: ABRAPSOSUL, 2003, p. 17-33. HAGUETTE, T. M. F. Metodologias qualitativas na sociologia. 6. ed. Petrópolis, Vozes, 1999. HELLER, Agnes. Teoria de los Sentimientos. México: Distribuiciones Fontamara, S.A. 3ªEd., 1993. LAKATOS, E. M.; MARCONI, M. de A. Fundamentos de metodologia científica. 3. ed. rev. e ampl. São Paulo: Atlas, 1991. LAPIERRE, L. Interioridade, gestão e organização: da realidade psíquica como fundamento da gestão. In: CHANLAT, J. F. (org.) O indivíduo na organização: dimensões esquecidas. v. 2. São Paulo: Atlas, 1993, p. 253-268. MALINOWSKI, B. Argonautas do pacífico ocidental. 3. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1984. OSTROWER, Fayga. Acasos e criação artística. Rio de Janeiro: Ed Campus, 1999, p25. RAMOS, A. G. A nova ciência das organizações: uma reconceituação da riqueza das nações. 2. ed. Rio de Janeiro: FGV, 1989. SAWAIA, B. B. A emoção como locus de produção do conhecimento: Uma reflexão inspirada em Vygotsky e no seu diálogo com Espinosa. São Paulo: Pontifícia Universidade Católica. Disponível em <http://www.fae.unicamp.br/br2000/trabs/1060.doc> Acesso em 1º de maio de 2002. SERVA, M. e JAIME JR, P. Observação participante e pesquisa em administração: uma postura antropológica. Revista de Administração de Empresas, São Paulo: FGV, v. 35, n. 1, p. 64-79, mai./jun., 1995. TRIVIÑOS, A. N. S. Introdução à pesquisa em ciências sociais: a pesquisa qualitativa em educação. São Paulo: Atlas, 1987. VYGOTSKI, L. S. Obras Escogidas II: Problemas de Psicología General. v. 94 de la Colección Aprendizaje. Dirigida por Amélia Alvares e Pablo del Rio. Spain, Madri: Visor S/D Editorial Pedagógica Moscou, 1982. 15 Notas 1. Serva e Jaime Jr (1995) mencionam como primeiros estudos de observação participante no campo organizacional o realizado por Omar Aktouf em indústrias do Canadá e da Argélia e a pesquisa que Serge Bouchard efetuou em uma empresa de transportes rodoviários nos Estados Unidos, ambos efetuados na segunda metade da década de 70. 2. Sobre este aspecto, é importante frisar que não consideramos a Observação Participante uma metodologia sem limitações e dificuldades. Na verdade, concordamos com Haguette (1999) sobre os limites da OP e mesmo sobre a possível complementaridade entre métodos ideográficos e nomotéticos. O que de fato queremos destacar em nosso trabalho é que a crítica ao caráter de cientificidade desta metodologia é situada a partir de referências epistemológicas insustentáveis sob o ponto de vista das principais vertentes teóricas que comumente se valem desta técnica. 3. Não queremos dizer com isso que não existe a necessidade de atenção para com a segurança e a própria integridade física em um hospital psiquiátrico. Existem procedimentos específicos para lidar com isso, e mesmo se considera o risco de agressão. Entretanto, o que demonstramos aqui é o exagero nesta postura, exagero este causado pelo estigma da loucura na sociedade e que compromete significativamente as impressões no momento da observação neste tipo de organização. 4. Fora escolhida uma ala feminina com 52 internas. 5. Ramos (1989) já salientava este problema no âmbito dos estudos organizacionais. 16