A Relação Pesquisador-Pesquisados: uma Contribuição da Área de Comportamento para a
Utilização do Método da Observação Participante nos Estudos Organizacionais
Autoria: Yára Lucia Mazziotti Bulgacov, Fabio Vizeu
Resumo
Conceituando comportamento como relação, este artigo discute a relação entre pesquisador e
pesquisados, no contexto da observação participante (OP), tendo como objetivo contribuir para
melhor entendimento desse método nos estudos organizacionais. Parte-se inicialmente de alguns
pressupostos: a) que a organização é um complexo fenômeno de natureza social-cultural / política
e econômica; e que b) pesquisa é um processo distintamente humano, onde pesquisadores junto
com os pesquisados constroem um conhecimento. Nesse sentido, advoga-se para os estudos
organizacionais uma ciência social reflexiva, não uma ‘ciência natureza’, cujo objeto de estudo é
outro. Para fundamentar essas afirmações elege-se algumas referências teóricas fundamentais,
dentre elas, o interacionismo simbólico. São desenvolvidos os conceitos de intencionalidade da
ação, intersubjetividade, positividade da emoção e atividade artística eticamente orientada como
promotora da partilha de emoção. Para demonstrar os aspectos teóricos tratados, relata-se uma
pesquisa onde a observação participante foi adotada. Como resultado, verificou-se que o método
da participação por meio da atividade artística se revelou um interessante mecanismo que permite
a expressão do sujeito em sua totalidade, seja sob o ponto de vista do partilhar da emoção, seja
sob o ponto de vista da construção das significações percebidas no processo da pesquisa.
Introdução
A Observação Participante – OP – é um método que vem sendo adotada na Administração
a cerca de três décadas1. Todavia, a sua adoção por parte de poucos pesquisadores tem provocado
um certo mal-estar dentro do meio acadêmico ortodoxo – onde a ‘ortodoxia’ se dá a partir da
orientação metodológica positivista e da tradição funcionalista de ciências sociais. Este
desconforto manifesta-se na forma de um comportamento cético quanto à validade das pesquisas
empreendidas a partir da Observação Participante, e muitas vezes é velado para dissimular o
desrespeito às afiliações científicas alheias. Talvez por este disfarçado ‘ceticismo’ da ortodoxia
acadêmica, a Observação Participante ainda se apresenta de forma tímida na área, não tendo
conquistado um espaço que lhe é devido, como fora sinalizado a dez anos atrás por Serva e Jaime
Jr (1995), que, ao apresentarem esta metodologia para a academia brasileira, salientaram já
naquele momento a necessidade por uma postura investigativa mais consistente por parte do
pesquisador em Administração, postura esta capaz de dar conta da complexidade do fenômeno
humano nas organizações (especialmente as produtivas), onde as questões da subjetividade se
fazem mais críticas para o entendimento da realidade.
De fato, a controvérsia acerca do uso da Observação Participante nas pesquisas em
Administração assume amplas proporções se observada a partir do embate epistemológico que a
reveste, o confronto paradigmático entre os pressupostos funcionalistas – advindos da ideologia
positivista – e os que fundamentam as sociologias de natureza fenomenológica e hermenêutica.
Na verdade, se tratando de uma disputa de bases políticas, o debate torna-se vazio, pois a
argumentação se expressa necessariamente a partir de um tom ideológico, como pode ser
observado na citação seguinte: “As resistências acadêmicas e disciplinares a pesquisa qualitativa
ilustram o caráter político neste tipo de discurso. (...). Estas resistências refletem uma consciência
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nada simples de que as tradições da pesquisa qualitativa conduzem o pesquisador à crítica do
projeto positivista” (Denzin e Lincoln, 1994, p. 4).
Assim, no meio acadêmico, a adoção desta metodologia é marcada de controvérsias e
questionamentos quanto aos critérios de cientificidade considerados pelo positivismo. Entretanto,
tais objeções às metodologias ideográficas como a Observação Participante desconsideram que a
forma que tais critérios são estabelecidos reflete antes uma ‘crença’ ontológica, uma visão da
natureza humana e de mundo que é refutável sob outros olhares epistemológicos, ou seja, são
apresentados a partir de argumentos que têm por base elementos internos da epistemologia que os
configura, abarcando, assim, uma espécie de incomensurabilidade sob o ponto de vista de
epistemologias concorrentes (Burrell e Morgan, 1979).
Neste sentido, o presente trabalho visa contribuir para o entendimento da Observação
Participante a partir da análise de sua relação com o interacionismo simbólico, uma importante
vertente da sociologia compreensiva e da psicologia social. Exploramos este método a partir da
noção de construção intersubjetiva da realidade, onde se destaca o conceito de intencionalidade
da ação. Nosso principal argumento é que, quando analisado o desenvolvimento da Observação
Participante na história recente das ciências sociais, destaca-se o fato da busca por um conceito
mais apropriado da natureza humana, que fosse capaz de dar conta da complexidade do sujeito
(revelada especialmente pelos avanços nas investigações da subjetividade) e de captar o humano
em sua integralidade. É nesta busca pelo sujeito em sua essência que a Observação Participante
revela dimensões não atingidas pelos métodos ortodoxos. Nesta linha de pensamento,
evidenciamos também a concepção de positividade epistemológica da emoção, possível graças à
ruptura com a leitura dicotômica feita pela ciência ortodoxa que antagoniza e sobrepõe a razão à
emoção. É através desta estrutura epistemológica que se considera a Observação Participante
como uma metodologia que, além de revelar facetas negligenciadas da interação humana, permite
um maior acesso à subjetividade e, conseqüentemente, a veracidade dos fenômenos sociais.
Para elucidar as considerações teóricas presentemente articuladas, apresentamos na última
parte do texto um caso onde foi adotada a Observação Participante. Este caso corresponde a um
estudo organizacional em um hospital psiquiátrico, e ilustra como em um contexto extremamente
desfavorável à inserção do pesquisador na comunidade investigada, o método da Observação
Participante foi facilitador. Neste estudo de caso, foi utilizada a arte, entendida como atividade
expressiva que, ao permitir a partilha de emoção, demonstrou sua eficácia no processo da
pesquisa.
Natureza e epistemologia da Observação Participante
A Observação Participante, embora possa ser definida como um método de verificação
empírica para estudos científicos, comumente associada à fase de coleta de dados (Gil,1999),
nem sempre se resume a esse nível. Por envolver a adoção de pressupostos que afetam todo o
processo de pesquisa – desde a formulação de problemas e hipóteses até a análise dos dados – a
Observação Participante é considerada por muitos autores como uma abordagem científica mais
ampla (Bruyn apud Haguette, 1999).
Basicamente, a Observação Participante pode ser definida como o processo de observação
de uma comunidade ou grupo social onde o pesquisador assume alguma atividade dentro do
grupo investigado, no intuito de compartilhar experiências com os sujeitos observados. De acordo
com Serva e Jaime Jr:
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A observação participante refere-se, portanto, a uma situação de pesquisa onde o observador e observados
encontram-se numa relação face a face, e onde o processo da coleta de dados se dá no próprio ambiente
natural de vida dos observados, que passam a ser vistos não mais como objetos de pesquisa, mas como
sujeitos que interagem em um dado projeto de estudos (Serva e Jaime Jr, 1995, p.69).
Existem autores que apresentam em seus manuais de pesquisa científica a diferenciação a
Observação Participante da não-participante (por exemplo, Lakatos e Marconi, 1991; Gil, 1999),
quase sempre, fazendo alusão a vantagens e desvantagens entre uma e outra, mas freqüentemente
desconsiderando quais pressupostos fundamentam tais preferências. Por este motivo, é muito
comum ser esta diferenciação simplista e superficial, justamente por que desconsidera o forte
embate epistemológico que envolve o atributo da ‘participação’. Na verdade, nitidamente se
percebe uma orientação positivista na visão de ciência pressuposta nos argumentos daqueles que
retratam as principais desvantagens da Observação Participante. Mais adiante, argumentamos que
tais representam uma visão de ciência e realidade que vêm ultimamente sendo questionada pelas
abordagens sociológicas antipositivistas, e por isso mesmo, envolvem antes a adoção de uma
postura epistemológica específica do que a livre escolha (maniqueísta) de uma técnica de coleta
dentre outras tantas2.
A Observação Participante surge como técnica de pesquisa empírica no contexto teórico
da Antropologia, nos chamados estudos de campo de culturas arcaicas, notoriamente, como
recurso metodológico para coleta de dados etnográficos. Certos autores (Serva e Jaime Jr, 1995;
Durhan, 1978) atribuem a sua gênese nos estudos de Malinowski (1984) sobre os trobiandeses,
uma comunidade tribal de ilhas periféricas à Nova Guiné. Ao empreender o trabalho de campo
nesta comunidade, Malinowski se dá conta da necessidade de uma nova abordagem, que fosse
capaz de vencer as dificuldades acerca da apreensão de aspectos mais profundos da realidade
humana e social, não percebidos pelas tradicionais abordagens estatísticas comuns nos
primórdios da sociologia. De acordo com Malinowski:
Em certos tipos de pesquisa científica – especialmente o que se costuma chamar de ‘levantamento de
dados’, ou survey – é possível apresentar, por assim dizer [sic] um excelente esqueleto da constituição
tribal, mas ao qual faltam carne e sangue. Aprendemos muito a respeito da estrutura social nativa mas não
conseguimos imaginar a realidade da vida humana, o fluxo regular dos acontecimentos cotidianos, as
ocasionais demonstrações de excitação em relação a uma festa, cerimônia ou fato peculiar. Ao desvendar as
regras e regularidades dos costumes nativos, e ao obter do conjunto de fatos e de asserções nativas uma
fórmula exata que os traduza, verificamos que esta própria precisão é estranha a vida real, a qual jamais
adere rigidamente nenhuma regra. (Malinowski, 1984, p. 27-29).
Interessante notar que a afiliação epistemológica da antropologia pretendida por
Malinowski era a funcionalista (Evans-Pritchard, 1980), uma corrente de ciências sociais
marcada pela visão positivista de realidade e de ciência. Todavia, mesmo tendo em conta a
ontologia realista do positivismo, Malinowski percebia a necessidade da compreensão dos
significados que sujeitos de culturas alheias davam a sua própria realidade, buscando através das
experiências vividas pelo pesquisador o recurso necessário para o desvelamento dessas
dimensões. Na verdade, a proceder desta maneira, este antropólogo funcionalista assumia a
postura ontológica nominalista, perspectiva esta comum à fenomenologia, a corrente filosóficosociológica que surgia no século vinte em contraposição a vertente positivista de ciência social.
Entendia, assim, que a utilização de elementos fenomenológicos oferecia ao antropólogo um
olhar ampliado, um olhar com maior riqueza da vida humana associada. É nessa perspectiva que
certos autores destacam o desenvolvimento da Observação Participante enquanto técnica de
pesquisa empírica a partir da abordagem de orientação fenomenológica denominada por
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‘Interacionismo Simbólico’, especialmente aquela vertente constituída a partir das idéias de um
grupo de pesquisadores da escola sociológica de Chicago (Haguette, 1999), perspectiva essa
explicitada a seguir.
O interacionismo simbólico é uma abordagem de psicologia social que nasce
principalmente a partir das idéias de George Mead. Seu pressuposto central diz respeito à
construção e reconstrução da realidade subjetiva e da realidade social, e da interdependência
entre estas duas esferas ontológicas (mundo interior e mundo social). Como elo central desta
dinâmica, o interacionismo simbólico se fundamenta no conceito de intenção, ou seja, o
comportamento humano reflete uma intenção do agente, que, por sua vez, deriva da significação
que o sujeito dá às coisas exteriores (objetos). A realidade objetiva é, assim, constituída a partir
daquilo que é significativo, e o valor ou significado dado às coisas depende da construção social
da personalidade, dada pelo processo de interação. É por isso que as trocas simbólicas (interação
de significados e compartilhamento de interpretações) constituem a base desta nova leitura
sociológica, onde se pressupõe que “a sociedade humana se funda, pois , na base do consenso, de
sentidos compartilhados sob a forma de compreensões e expectativas comuns” (Haguette, 1999,
p. 27).
Além desta nova concepção epistemológica da relação sociedade-indivíduo, a vertente do
interacionismo simbólico diferencia-se substancialmente da concepção sociológica da tradição
positivista no que tange a noção de realidade objetiva. No interacionismo simbólico, não se nega
uma realidade objetiva independente, apenas se apregoa um relativismo subjetivo na percepção
desta realidade pelo indivíduo. Assim, “a realidade existe somente à experiência humana e ela só
aparece sob a forma de como os seres humanos vêem este mundo, ou seja, são os aspectos
objetivos e subjetivos observáveis que compõem a realidade concreta” (Haguette, 1999, p. 58). É
neste ponto que o interacionismo simbólico se aproxima da fenomenologia, já que ambas
vertentes se fundamentam em uma noção de realidade objetiva derivada da subjetividade
humana. Esta concepção ontológica, por se contrapor diretamente ao realismo do positivismo,
pressupõe uma nova postura de pesquisa, postura esta com forte conotação humanista. Ao tratar
da contraposição da fenomenologia ao positivismo, Triviños assim considera:
A fenomenologia exalta a interpretação do mundo que surge intencionalmente à nossa consciência. Por isso,
na pesquisa, eleva o ator, com suas percepções dos fenômenos, sobre o observador positivista. Os
positivistas reificaram o conhecimento, transformaram-no num mundo objetivo, de ‘coisas’. A
fenomenologia, com sua ênfase no ator, na experiência pura do sujeito, realizou a desreificação do
conhecimento, mas no nível da consciência, de forma subjetva. (Triviños, 1987, p. 47)
Entretanto, o conteúdo ontológico subjetivista do interacionismo simbólico e da
fenomenologia foge do relativismo absoluto comum ao solipsismo, justamente para que estas
vertentes permaneçam com um status de ciência (Triviños, 1987). Este afastamento do idealismo
puro se dá especialmente através do conceito de intersubjetividade (termo cunhado na
fenomenologia), que, de forma muito simplificada, remete o processo de interação social que visa
o ajuste e compartilhamento das significações individuais. Este conceito, longe de se contrapor ao
princípio da objetividade, recupera a concretude da realidade subjetiva – esfera ontológica
negligenciada pela ciência social positivista (Demo, 1995), porém que se torna cada vez mais
relevante nos estudos sociais, especialmente após a descoberta do inconsciente pela psicanálise.
O compartilhar de subjetividades é um processo eminentemente social, e a própria relação com
nossa subjetividade é mediada por mecanismos de socialização, como a linguagem (pensamos em
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uma língua específica) e pela moral (sentimos culpa ou vergonha a partir da normatização de uma
cultura específica).
É neste último aspecto que se verifica a Observação Participante como “o método por
excelência dos estudos interacionistas”, justamente, por esta orientação sociológica considerar
que a captação da realidade social somente é possível na medida em que o pesquisador “assumir
o papel do outro e ver o mundo através dos olhos do pesquisados” (Haguette, 1999, p. 59). Neste
aspecto reside uma das objeções mais contundentes que a ortodoxia funcionalista faz a
Observação Participante, o comprometimento do critério da neutralidade. Todavia, sob o ponto
de vista epistemológico, este risco demonstra-se como uma questão de ‘incomensurabilidade
paradigmática’ (Burrell e Morgan, 1979). Na crítica funcionalista, considera-se que o
envolvimento do pesquisador com os sujeitos investigados compromete a validade dos dados;
todavia, sob o ponto de vista ontológico do interacionismo simbólico, este envolvimento na
construção do conhecimento é algo insuperável, dado a centralidade do processo de
intersubjetividade na construção da realidade; mais ainda, sob o ponto de vista interacionista, este
envolvimento é algo necessário. E o não reconhecimento desta premissa interacionista já vem
sendo apontado como uma insuficiência nos estudos em Administração, como afirma Chanlat:
A existência humana é por definição uma experiência, isto é, um reencontro entre o espírito e a realidade
exterior por meio dos sentidos. Mobilizando todos os aspectos de nosso ser, a experiência encontra-se no
cerne da condição humana. Tomada nesse sentido, ela engloba ao mesmo tempo o conhecimento que se tem
de uma atividade e o modo como a pessoa a vê. Em management, fala-se muito da primeira e pouco da
segunda. Essa ausência da experiência vivida está ligada ao lugar que ocupam os elementos prescritos,
formais e abstratos no discurso em gestão. (Chanlat, 2000, p. 70).
Em suma, a transposição epistemológica da sociologia ortodoxa para as vertentes
hermenêuticas reflete, antes de tudo, a busca por um refinamento na apreensão do sujeito em toda
a sua dimensão complexa. Este refinamento se dá fundamentalmente pelo entendimento da
observação, sobretudo no contexto de uma prática intersubjetiva, e não mais como uma prática
neutra do pesquisador em relação a seu ‘objeto’ de pesquisa. Naquela, intenção e significação se
tornam elementos chave na compreensão da realidade, justificando, assim, a competência da
Observação Participante enquanto técnica de verificação empírica. A seguir, tratamos de como a
‘observação’ é constituída a partir desta referência interacionista.
O significado da observação na epistemologia interacionista
Partindo da premissa que os fenômenos humanos tem significados culturalmente
construídos e não naturalmente dados, passaremos a esclarecer os significados associados á
observação no contexto de correntes epistemológicas interacionistas, em contraposição ao
significado reificado dado pelo positivismo.
Como a palavra ‘observação’ pode assumir significados tão diversos? Para responder a
essa questão, Vygotsky (1982) auxilia-nos na medida que diferencia entre significado e sentido
da palavra. Significado da palavra é o que encontramos no dicionário – representa uma zona mais
estável, o núcleo do significado dessa palavra, que de resto estará submetido a constantes
mudanças; já os significados que mudam de acordo com o contexto são os sentidos das palavras.
O sentido da palavra é mais amplo e mais dinâmico que seu significado. Uma palavra situada em
um contexto tem mais ou menos significado que a mesma palavra fora do contexto. Tem mais
significado porque se enriquece com o contexto; tem menos significado porque o contexto limita
e concreta seu significado abstrato. Esta contextualidade dos sentidos das palavras se reflete na
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flexibilidade ilimitada das relações entre sentidos e palavras – quando o mesmo significado pode
transmitir-se mediante palavras diferentes, e que a mesma palavra pode adquirir significados
opostos em função do contexto.
Sendo a ciência um empreendimento humano como qualquer outro, sofre do mesmo
modo constantes mudanças de significados. Bachelard (1996) pontua a legitimidade dessas
mudanças:
Toda cultura científica deve começar com uma catarse intelectual e afetiva. Resta então a tarefa mais difícil:
colocar a cultura científica em estado de mobilização permanente, substituir o saber fechado e estático por
um conhecimento aberto e dinâmico, dialetizar todas as variáveis experimentais, oferecer enfim à razão
razões para evoluir (Bachelard, 1996, p. 17).
O que se reafirma é que a observação humana no contexto de uma epistemologia
interacionista não é uma simples opção entre modalidades, participante e ‘não participante’. A
observação nesse contexto é sempre ‘participante’, não podendo nunca ser ‘neutra’. Observação
enquanto uma atividade onde o homem participa de maneira ativa, não alienada, através de sua
atenção, através de sua percepção. Desenvolveremos a seguir os significados que estaremos
associando á observação participante a partir de um olhar fenomenológico,um olhar que recupera
as dimensões humanas, as dimensões da subjetividade.
Bosi (1993) auxilia-nos a compreender o quão ativo é o processo da atenção implicado na
observação. Entende atenção como ato de exercer-se; ato consciente, de escolha, de implicar-se
em uma situação; contrária, por exemplo à atitude de “não quero saber”. Depois desse ato
consciente de implicar-se, a atenção, diz o autor, envolve perseverança, ou seja, deve enfrentar a
angustia da pressa e deter-se sobre o ‘objeto’ da atenção. Vencida a pressa, a atenção deve contar
igualmente com a virtude do despojamento. Assim, a atenção tudo sacrifica para ver e saber e
inaugura um método para o olhar, um olhar que se opõe ao desejo classificador, um olhar
desapegado, um olhar que não quer se apropriar, rotular, seccionar. O autor Parte do pressuposto
que, se o olho se detém na contemplação desinteressada do objeto, ele descobre seus múltiplos
perfis e, no final do processo, recupera sua unidade em um nível mais complexo de percepção,
uma percepção que admira as transformações, o ‘uno todo’. Finalmente, Bosi (1993) entende a
atenção sobretudo como um fazer, como um trabalho. Reflete um olhar que, portanto, age sobre a
realidade, um olhar atento que vive o trabalho da percepção e cujo desafio está no compreender,
compreender tanto as regularidades quanto os acidentes da matéria.
Podemos concluir que essa modalidade de observação é significativamente diferente
daquele no qual entramos em campo com categorias prontas de observação do fenômeno.
Estamos nos referindo a um processo de observação contextualizada, onde sujeitos concretos
interagem. Um processo onde sujeito-pesquisador, juntamente com um sujeito-pesquisado,
decidem por um trabalho comum consciente, não alienado e, de maneira nenhuma, neutro.
Uma outra dimensão humana que faz a mediação na observação é a percepção. Ostrower
(1995) ajuda-nos a explicitar o quanto o perceber não é uma representação passiva do mundo. A
autora chega a aproximar a percepção ao processo de criação artística, defendendo que na
percepção há escolhas, a partir inclusive de prioridade intuitivas. Essa seletividade nos leva a
estabelecer certas conexões (entre aspectos semelhantes ou contrastantes dos fenômenos) que
possam tornar-se significativos para nós, projetando em nossa mente uma espécie de modelos
mentais, em forma de padrões hipotéticos. Estes, então, nos servirão de referência durante o
próprio ato de percepção. Defende a autora que no processo perceptivo há muita interpretação,
inclusive há seleção a partir de condições físicas e psíquicas de cada pessoa. Essa interpretação
passa por expectativas, lembranças, enfim, todos os elementos da experiência vivida.Assim,
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Ostrower (1995) concebe a percepção como um processo altamente dinâmico e não como mero
registro mecânico de um estímulo. Dinâmico, afirma a autora, no sentido de forças em atividades,
ou seja, a imagem que se refere à idéia de que participamos ativamente da percepção em vez de
apenas estarmos passivamente presentes.
Esta dinâmica inerente ao processo de percepção revela o caráter imaginativo de nossos
simples atos. Ou seja, sem prestar atenção em nada particular, nossa mente continua
interpretando os acontecimentos em nossa volta. Muitas vezes partimos de dados incompletos, de
sugestões mais do que informações (já que, na prática, é impossível verificar minúcias); retemos
em nossa mente a visão de um contexto maior, de situações globais, que nos servem de
referência. Fazemos estimativas baseadas em certas ordenações e certos padrões de coerência que
notamos nos múltiplos dados, para poder entender o significado de algum detalhe específico.
Nestas ordenações entram a memória de experiências do passado como antecipação de possíveis
ações nossas. Portanto, no momento que estamos percebendo algo, já estamos generalizando e
imaginando, levantando hipóteses sobre ‘o que’ e ‘o porquê’, de que se trata e em que
circunstâncias ocorrem o que devemos fazer. Vale igualmente lembrar, que todo ato de percepção
abrange, no momento, uma projeção para o futuro. O processo não necessariamente torna-se
consciente, embora inclua racionalizações, integra racional e sensível. Evidentemente é possível
enganar-se. Estimativas que fazemos ao longo de nossa vida, se não são suficientemente boas,
são suficientes para nossas ações.
Exposta a perspectiva interacionista da percepção, podemos concluir que, ao invés de
percebemos de maneira ‘neutra’, percebemos a partir de todos esses nossos conteúdos. Quando
percebemos, re-construímos assim nossa humanidade. Neste sentido, em uma situação de
pesquisa, na medida em que nos aprofundamos na análise das ‘forças ativas’ implicadas tanto na
atenção como na percepção (que fazem a mediação do observar), é inadmissível a defesa de uma
neutralidade da observação. Entendemos, assim, que em uma pesquisa ‘participante’ deva haver
um encontro, deve haver um convite do pesquisador em relação aos sujeitos-pesquisados em se
compartilhar uma situação.
A apreensão da ‘humanidade’ do sujeito na Observação Participante: integrando razão e
emoção
Como visto acima, o momento de nossa percepção é o momento de realização de nossa
condição humana. Em todas as percepções fazemos interpretações e nossos pensamentos se
enlaçam com emoções, sentimentos de auto-afirmação e também intenções. Assim, é
significativo pensarmos em percepção como compreensão. O ‘referencial’ somos nós mesmos,
tentando esclarecer melhor o sentido de nosso ser e nos compreender. Daí o conhecimento de
nossa identidade levar necessariamente ao outro, o conhecimento do mundo. Organizamos as
circunstâncias das situações, as decompomos e recompomos em novos contextos e componentes,
em novos conjuntos e suas partes, cada vez com um sentido próprio.
Barthes (1984) é outro teórico que chama-nos atenção em relação a esta questão. Utilizase de uma belíssima metáfora para o ‘olhar’; para a compreensão da subjetividade do pesquisador
que adota uma ontologia nominalista e uma epistemologia antipositivista. Esse autor elege o
termo ‘câmara clara’ (ou câmara lúcida) e ‘câmara escura’, para avaliar o processo fotográfico.
Chama de ‘câmara clara’ o processo da fotografia que é mediado pela subjetividade humana e,
‘câmara escura’ o processo mecânico e reprodutivo da máquina fotográfica em relação ao registro
do mundo. Na ‘câmara clara’ leva-se em consideração a sensibilidade física e emocional do
interprete, do fotógrafo que imprime algo fundamental em cada foto. Apesar de simples, a
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analogia de Barthes (1984) com a atividade fotográfica revela a importância da emoção no
processo de percepção da realidade. Assim, no processo humano da observação destaca-se a
dimensão do sentimento, da emoção, fazendo frente à dicotomia cartesiana – razão e emoção.
Nesse sentido trazemos alguns teóricos que nos auxiliam na defesa dessa questão.
Reafirmando a observação sempre como ‘participante’, entendemos este processo como
uma atividade relativamente consciente, conjunta, que convida o outro a participar, que convida o
outro se implicar. Heller (1993) define o ‘implicar’ como um sentimento. Heller não dicotomiza
o homem, concebe o homem unificado e busca demonstrar que ele é um fato empírico:
Al mismo tiempo quiero establecer como hecho no menos empírico (...), que el campo de acción permitido
por la sociedad actual, y el pensamiento determinado por ella, producen y fijan sentimientos particuralistas,
perpetúan y reproducen la alienación de los sentimientos, el carácter irrestringible de ciertos afectos. El
hombre está unificado, pero la personalidad está escindida. (Heller, 1993, p. 11).
A regulação dos sentimentos permeia a sociedade e conseqüentemente varia com a
cultura. Na forma de ritos e costumes, que diferenciam as culturas, as formas de expressão dos
sentimentos são reguladas. Porém, vivemos em uma sociedade onde é dominante a alienação dos
sentimentos. No campo da gestão, a negação das significações afetivas é evidenciada, por
exemplo, pela polarização interior/exterior. Como afirma Lapierre: “A interioridade significa o
desconhecido, a negrura, o perigo. Até agora nosso conhecimento da gestão recaiu sobretudo no
pólo da exterioridade. É aí que a objetividade é possível, e aí que há mais luz” (Lapierre, 1993, p.
265). A partir da visão de Heller (1993), é preciso conceber-se a figura de um pesquisador
unificado, defendendo-o, inclusive, como um fato empírico. Esta perspectiva sobre o pesquisador
tenta romper com a padronização positivista do observar, onde a todo o custo o sentimento é um
‘obstáculo’ que deve ser afastado (como anunciava Bacon). Na verdade, a busca da emoção no
processo investigativo concilia-se mesmo com a busca pelo sujeito integral, em toda sua
complexidade, em toda sua ambigüidade, enfim, em toda sua humanidade. Como salienta
Camargo:
Emoção é expressão, movimento, explosão. É também alegria e tristeza, prazer e desprazer, amor e ódio,
atração e aversão, adoração, afeto, carinho; horror, terror, medo e pânico. É sentir o coração a bater, ter a
respiração suspensa, tremores, tensão. É contração, espasmo, inspiração, respiração, tudo isso e muito mais.
Ela irrompe bruscamente, nega a evolução humana, humaniza o homem. A emoção engloba tudo, é algo
muito complexo. É primeira forma de comunicação. Pode ser arte de falar em uma forma superior, a poesia,
ou linguagem primitiva. Individual e coletiva, sagrada e maldita. Expressão histórica de indivíduos, raças,
nações, classes. Revelação. É busca de proteção e destruição, hostilidade e hospitalidade, simpatia e
antipatia, esperança e desesperança, encanto e desencanto. Reintegração, orientação e explosão. A emoção
gera solidariedade e aproximação, mas também interrompe relações. ‘Passions de l’Âme’, resíduo da
existência animal. Reação do instinto ou do coração? É impulso egoísta ou altruísta? Loucura, ‘estar fora de
si’. Revela saúde mental, encontro consigo. Euforia, apatia, excitação e desejo, depressão e angústia.
Contraditória e conflitante, é a emoção. Expressão de algo vivido, ambivalente em sua manifestação.
(Camargo, 1997, p. 22)
Para Heller (1993, p. 15) “sentir significa estar implicado em algo”. Este algo não
necessariamente é algo concreto, mas pode ser um problema, uma idéia, uma situação, o outro,
enfim. A autora expressa que a implicação está diretamente ligada a significação que o objeto da
implicação tem para o sujeito. Podemos estar implicados no momento da Observação
Participante, pois isto significa algo para mim. O grau da implicação depende da nossa
familiaridade com o fenômeno ocorrido. A idéia de que a implicação acompanha nossas outras
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funções é equivocada, devemos lembrar que o ser unificado é o que Heller defende. Em suas
palavras:
La implicación no es un ‘fenómeno concomitante’. No es que haya acción, pensamiento, habla, búsqueda de
información, reacción, y que todo eso este ‘acompañado’ por una implicación en ello; mas bien se trata de
que la própria implicación es el factor constructivo inherente del actuar, pensar, etc., que la implicación está
incluida en todo eso, por vía de acción o de reacción. (Heller, 1993, p. 17)
Considerando que a implicação está ligada a significação que o fato tem para quem está
implicado, gostaríamos de focar aqui a interação sujeito-sujeito que define a relação entre
pesquisador e sujeito pesquisado. Neste sentido, através de atividades particularmente ligadas a
emotividade – como, por exemplo, as atividades artísticas – pesquisador e sujeito-pesquisado
compartilham, partilham um momento expressivo e significativo que cria condições melhores de
reflexão. Assim, tenta-se conscientemente superar a dicotomia razão versus emoção, ou seja, a
partilha de emoção facilita a reflexão conjunta, devidamente consentida.
Contudo, entendemos que, ao defendermos a positividade epistemológica da emoção na
prática da Observação Participante, não poderíamos deixar de considerar a dimensão ética
também envolvida nesta prática. Em outras palavras, em que medida teríamos garantia que essa
‘permissão’ da emoção no processo da pesquisa entre o pesquisador e os sujeitos pesquisados não
incidiria em uma certa manipulação por parte do pesquisador. Guareschi (2003) acredita que
nossa subjetividade, aquilo que nos constitui, é o mundo todo, são todos os outros (como é
demonstrado pelos interacionista através do conceito de self). Para ser ético, segundo o autor, é
necessário conviver num espaço onde todos têm voz, todos tem vez, onde existe partilha,
solidariedade. Existe colaboração, cooperação, relações igualitárias e fraternas; a participação se
dá em nível simétrico a partir da ação e diálogo comunicativo. Nessa perspectiva, nesse
paradigma científico que defendemos, garantir a ética implicaria, necessariamente, haver um
contrato explícito, uma partilha da situação a ser vivida.
Que outra condição seria necessária em nosso projeto de observação participante
houvesse partilha, houvesse encontro? Nesse sentido fazemos a proposta de inserir a arte –
entendida como uma atividade emotiva por excelência – no sentido de aumentar a probabilidade
de uma relação implicada entre o sujeito-pesquisador e o sujeito na pesquisa. Faremos a seguir,
uma breve reflexão sobre as características da atividade artística e sua utilização como estratégica
de pesquisa de campo.
A atividade artística pode ser entendida como uma forma de convivência que permite a
partilha, e, conseqüentemente, viabiliza a participação tal qual fora dimensionado em nossa breve
discussão teórica. Neste sentido, surge a seguinte indagação: a emoção desencadeada pela
atividade artística musical não seria algo a impedir a coleta do dado? Não seria algo
simplesmente manipulativo? Ao contrário, ao adotar a atividade artística na Observação
Participante e considerar o subseqüente processo emotivo permitido por esta atividade,
defendemos a positividade epistemológica da emoção, conforme assinalada por Sawaia (2002).
ao investigar sobre pensamento de Vygotsky e sua aproximação com a filosofia de Espinosa, esta
autora considera o valor epistemológico da emoção na obra do primeiro:
Vygostsky inspirado em Espinosa provoca uma revolução na Psicologia mudando a ontologia do fenômeno
afetivo. A emoção passa de fenômeno instintivo e negativo para fenômeno ético, propulsor ou inibidor da
autonomia. Os afetos são inerentes à condição humana e por conseqüência à ética, pois determinam a
passagem da heteronomia passional à autonomia corporal e intelectual, guardiã. Mas sua gênese é social,
pois mediados pelos significados (Sawaia, 2002, p. 18).
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Em nossa incursão por uma epistemologia alternativa ao paradigma de ciência dominante,
não podemos legitimar, como argumenta Sawaia, a falsa dicotomia maniqueísta entre razão
(mocinho) e emoção (vilão perturbador do conhecimento). Nossa prática de pesquisa ‘concilia’
razão com emoção, não incidindo no erro histórico entre sensorialistas e racionalistas na tentativa
de explicar ‘como se conhece’.
A seguir, apresentaremos um caso onde foi adotado como estratégia de participação a
prática musical, caso este referente ao trabalho de dissertação de mestrado de um dos autores do
presente texto. O caso corresponde ao estudo sobre um hospital psiquiátrico, situado em CuritibaPR, e ilustra um contexto extremamente desfavorável à inserção do pesquisador na comunidade
investigada. Após a vivência artístico-musical, situa-se o momento de reflexão sobre a atividade
de coleta de dados, que, através da razão e o devido consentimento entre os sujeitos da pesquisa –
consentimento este que corresponde ao conteúdo ético da relação entre pesquisador e sujeito
investigado – os dados eram levantados.
A pesquisa: o relato de um caso de Observação Participante
A grande dificuldade encontrada para se desenvolver um trabalho de Observação
Participante em um hospital psiquiátrico diz respeito a enorme restrição que se faz à
inserção neste tipo de organização. Primeiramente, por uma questão de ética profissional,
o atendimento psiquiátrico e psicológico tem um caráter sigiloso, dado no sentido de
preservar a integridade moral e psicológica dos envolvidos (pacientes e familiares). Por
ser o atendimento especializado nas áreas de saúde a essencial atividade de um hospital
psiquiátrico, surge o seguinte dilema: como se inserir no contexto vivido da comunidade
profissional do hospital como membro ativo (princípio básico da Observação
Participante) se a falta de formação em saúde do pesquisador da área de Administração
impossibilitava a presença nas principais atividades terapêuticas, restritas aos
profissionais habilitados?
Outro fator que restringia à inserção na comunidade hospitalar dizia respeito a um
acontecimento específico da história da instituição em questão. O hospital psiquiátrico em
que se processava a pesquisa estava passando por uma espécie de ‘crise’ em sua imagem
institucional, devido ao lançamento de um filme cinematográfico de grande audiência que
contava experiência de um ex-interno no referido hospital. Neste filme, são retratadas as
terríveis condições dos hospitais psiquiátricos na década de setenta. Apesar dos fatos
retratados corresponderem a um período no hospital que é anterior à época de lançamento
do filme, dada a enorme projeção na mídia televisiva desta produção cinematográfica,
ocorreu uma espécie de ‘caça as bruxas’ a instituição em questão. Todavia, todos os
procedimentos desumanos retratados pelo filme foram abandonados e substituídos por um
programa terapêutico humanizado desde 1984, tendo sido este programa elogiado por
diversos grupos e órgãos ligados ao movimento de reforma psiquiátrica. Apesar disto, a
imagem do hospital perante a comunidade local ficara abalada, e isto causou um
desconforto em toda a comunidade terapêutica da instituição. Um funcionário do hospital
nos relatou que freqüentemente apareciam jornalistas interessados em registrar “as
práticas de tortura” do hospital. Assim, dada toda esta problemática, a postura dos
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membros deste hospital em relação ao ‘olhar’ exterior era de desconfiança e de receio, o
que correspondia a uma grande dificuldade para a Observação Participante.
O caminho encontrado para a solução das dificuldades acima retratadas foi a
participação como membro dos programas de voluntariado oferecidos pelo hospital. Por
ser uma entidade filantrópica, existia uma grande demanda por trabalho voluntário, seja
por profissionais da saúde ou mesmo por pessoas da comunidade. Dada esta demanda, ao
longo dos anos, foram se institucionalizando frentes de específicas de trabalho voluntário
no hospital. Assim, nos integramos a estes programas de voluntariado, no intuito de achar
ali a saída para a inserção. Todavia, em tais programas, era necessário que o voluntário
definisse que atividades iria realizar com a comunidade hospitalar (era necessário, no
sentido que se evitassem problemas trabalhistas futuros, que se formalizasse o trabalho
voluntário e que se especificasse minuciosamente as atividades realizadas bem como os
horários destas). Neste momento, optamos por desenvolver atividades musicais, tendo em
vista uma significativa experiência profissional anterior neste ramo de atividade. Todavia,
fomos percebendo que esta escolha havia sido muito propícia, por permitir o
desdobramento da própria abordagem de Observação Participante em uma estratégia de
pesquisa que permitiu um maior acesso à emotividade, seja por parte do sujeitoobservado, seja por parte do sujeito-pesquisador.
As atividades exercidas nos programas de voluntariado consistiam de encontros
semanais (três vezes por semana) onde o voluntário se comprometia a realizar alguma
tarefa que contribuísse para a qualidade de vida dos pacientes do hospital. Estas
atividades eram supervisionadas uma vez por semana, em reuniões onde todo o grupo de
voluntários relatava suas experiências dentro do hospital, compartilhando com o grupo
especialmente suas impressões e emoções vivenciadas. Existiu uma espécie de período de
adaptação para os membros do voluntariado, que configurava um período inicial para o
conhecimento das atividades e rotinas do hospital, aprendizado dos procedimentos de
segurança e a inserção dentro da unidade a realizar o trabalho. As atividades exercidas
pelo grupo de voluntários eram das mais variadas – leitura de textos para os internos,
corte de cabelo, aulas de tai-chi-chuan, apresentações musicais, recreação com jogos de
salão e confecção de artesanato, entre outras. Interessante notar que em todas as
atividades havia um intenso envolvimento emocional, dada pela própria natureza das
atividades (a maioria relacionadas as artes, e outras que contribuíam significativamente
com a auto-estima dos pacientes, como no caso da atividade de ‘salão de beleza’).
A primeira impressão quando se entra em um hospital psiquiátrico está diretamente
relacionada com os preconceitos a cerca deste tipo de instituição e da própria figura do
louco. Mesmo que a imagem pejorativa a cerca da loucura seja amenizada pela
investigação teórica prévia necessária a prática científica, no momento que se ‘entra’ no
hospital, volta à tona os receios preconceituosos sobre ataques, horrores e possíveis
constrangimentos graves a serem sofridos lá dentro. Quando se faz a primeira visita as
dependências internas, este mito começa a se dissipar; todavia, o receio permanece como
um constante estado de alerta3, e, neste quadro, o reconhecimento do louco como ‘sujeito’
é dificultado. Assim, paradoxalmente, para o pesquisador receoso de ser agredido, a
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impressão inicial é que o doente mental é uma ameaça, um escolho para o seu trabalho de
observar, ao mesmo tempo que é o sujeito-observado.
As atividades musicais eram empreendidas no pátio da ala escolhida4 para o
trabalho voluntário, com cerca de 40 m2. Tocavam-se canções ao violão, e o repertório era
escolhido, na medida do possível, pelas pacientes. Algumas das músicas refletiam algum
momento especial vivido pelas pacientes, e muitas se emocionavam com as lembranças
trazidas pelas canções. Outras canções eram mais alegres, proporcionavam um estado de
euforia e bem estar na unidade que repercutia ao longo do dia. Conforme nos relatou uma
das auxiliar de enfermagem da unidade: “nos dias de violão, a unidade fica que é uma
beleza”. Era muito comum a confraternização pela dança e o acompanhamento com
palmas, onde participavam até mesmo as funcionárias da unidade.
À medida que as atividades musicais ocorriam, percebíamos uma evidente
mudança de nossa postura no hospital. Rapidamente, o receio da loucura deu lugar a um
sentimento de compaixão perante aquelas pessoas que lá estavam por um infortúnio
particular de suas vidas. Passávamos a olhar o sujeito-louco com outros olhos, e
buscávamos enxergar aspectos do cotidiano destes que antes passavam despercebidos ao
nosso olhar de pesquisador. Por exemplo, comumente tendíamos a associar as situações
de conflitos entre as pacientes ao estado patológico destas; com o passar do tempo e a
partir da manifestação da emotividade nos encontros musicais, fomos percebendo que os
conflitos entre pacientes e mesmo entre pacientes e funcionários se davam
freqüentemente por questões da vida cotidiana comum: as pacientes sentiam medos como
pessoas ‘normais’ sentem, sentiam desejo, sentiam alegria, saudade, etc., como qualquer
pessoa que não se encontra com alguma enfermidade sente. Muitos dos comportamentos
identificados como patológicos, encontravam uma explicação mais simples quando
observados a partir da construção interpessoal onde a dimensão da emoção não era vista
como negatividade. O sentido de certas falas tinha um significado para nós que somente
era compreendido a partir de um contexto complexo, e a emotividade surgia no sentido de
completar importantes lacunas neste ‘quebra-cabeça’. Isto também se dava em relação à
compreensão das diferentes posturas assumidas ao longo do período de observação pelos
sujeitos-investigados.
É importante salientar que, mesmo se tendo em conta que a abertura voluntária à
emotividade permite um melhor descortinamento do complexo contexto que envolvia a
subjetividade dos sujeitos-investigados, nem por isso o pesquisador estava livre de adotar
mecanismos preventivos aos problemas causados por esta abertura. Na verdade, como em
toda pesquisa social empírica, existem precauções a serem tomadas no sentido de
minimizar a obliteração no processo de percepção dos fenômenos, causada especialmente
pelo viés do pesquisador. Na Observação Participante, este problema é naturalmente
significativo, devido à própria natureza distintiva deste método (Haguette, 1999);
contudo, esta questão se intensifica quando se adota intencionalmente uma postura que
favorece aos processos da emotividade. Assim, ao mesmo tempo que as emoções são
consideradas uma categoria que expande as possibilidades de percepção dos processos
intersubjetivos, nestas também reside a constante ameaça de distorção das impressões e
significações. Mas é na própria categoria que obtivemos a saída para este paradoxo. Ao
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final de cada período de observação, no momento de registrar as impressões no caderno
de campo, também se registrava um quadro geral do estado emocional naquele dia, sob a
denominação “impressões sobre o pesquisador”. Se estávamos eufóricos, deprimidos,
alertas, tristes, distraídos, registrávamos em nosso caderno de campo, associando tais
impressões às anotações referentes aquele período específico. Estas impressões foram
importantes referências de ponderação dos dados na fase de análise de dados, mas
também serviram para nortear a própria interpretação dos fatos registrados.
Outro aspecto relevante na estratégia da música é que esta permitiu o rápido
estabelecimento da confiança entre o pesquisador e os sujeitos-investigados. Conforme já
mencionado, o estado de desconfiança do pesquisador causado pelo preconceito da
loucura rapidamente se dissipou a partir das atividades musicais. Todavia, a estratégia da
atividade musical também foi frutífera para minorar o receio da comunidade hospitalar
pelo olhar exterior que o pesquisador representava. A música era uma linguagem que
permitia abertura do interior mais recôndito das pessoas, torna-as menos dissimuladas,
estimulava a confraternização de uma forma mais espontânea. Através da música,
pudemos ver rostos carrancudos e desconfiados rapidamente transfigurarem-se em faces
alegres e coradas, espontaneamente sorridentes. A linguagem musical – entendida aqui
como linguagem das emoções – impetrava nas pessoas um estado de espontaneidade, uma
vontade de falar e confessar, tal qual se processa na embriaguez que dá coragem aos
retraídos. Pudemos perceber nitidamente que, mesmo tendo consciência do nosso papel
de pesquisador e do conseqüente olhar exterior e comprometido com a verdade dos fatos,
a nossa participação por meio da música contribuiu para que se formasse uma outra
imagem de nós mesmos: a imagem daquele que trazia a alegria, daquele que dava sua
parcela de contribuição para a vida sofrida das pacientes.
Conclusões
O caso da pesquisa no hospital psiquiátrico acima retratado é interessante para ilustrar de
que forma entendemos que a emotividade é uma categoria epistemológica relevante para a
construção do conhecimento científico. Neste ponto, o método da participação por meio da
atividade artística se revelou um interessante mecanismo que permite a expressão do sujeito em
sua totalidade, seja sob o ponto de vista do partilhar da emoção entre os sujeitos-investigados e o
pesquisador, seja sob o ponto de vista da construção das significações percebidas no processo de
observação.
A partir de nosso percurso teórico, tratamos do método de Observação Participante
evidenciando como este representa – sob o ponto de vista de uma epistemologia antipositivista –
um novo olhar sobre as dimensões humanas no campo dos estudos organizacionais. Nosso
intento ao recuperar premissas epistemológicas contrárias àquelas que sustentam a ortodoxia na
área foi o de salientar alternativas para o processo científico no campo. Esta necessidade se
justifica, em parte, pelas limitações da perspectiva sobre o ‘humano’ na tradição ortodoxa na
área, como salienta Chanlat:
Em numerosas publicações em management, as dimensões humanas e sociais são, como se diz atualmente,
incontornáveis, mas a realidade da prática oferece-nos outra imagem. A humanidade que se celebra é na
maioria das vezes uma humanidade amputada de algumas dessas dimensões fundamentais. No agente
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calculador racional, emissor e receptor de mensagens, móvel e gestor de sua vida que nos descrevem as
inúmeras publicações em management, faltam, com efeito, muitas coisas sem as quais não podemos
considerar-nos plenamente humanos. (Chanlat, 2000, p. 66)
Neste sentido, urge a recuperação da subjetividade na prática científica. No que tange a
metodologia da Observação Participante, a subjetividade é revelada a partir da dinâmica de
interação, onde significação e intenção representam duas importantes referências de análise.
Ainda, estas categorias são significativas na compreensão do próprio processo investigativo, já
que a Observação Participante também revela a humanidade do pesquisador. Cabe destacar nesta
postura metodológica a importância da transparência, da explicitação destas dimensões.
Por fim, apesar do presente trabalho buscar demonstrar que a Observação Participante é
um método que, pela sua natureza e particularidades, melhor se ajusta a uma epistemologia
subjetivista e antipositivista, não pretendemos com isso negar o espaço e a significância da
epistemologia ortodoxa em ciências sociais. Se assim agíssemos, estaríamos incorrendo no
mesmo erro que denunciamos na introdução do presente artigo, o de se negar a validade de certos
métodos e procedimentos exclusivamente por que estes não correspondem satisfatoriamente as
nossas convicções acadêmicas, convicções estas que são freqüentemente assumidas sem o devido
criticismo5. O que salientamos em nossa breve incursão reflexiva é a necessidade de se pensar
nas ciências sociais e nos seus respectivos métodos a partir de uma postura que corresponda o
mais próximo possível da complexidade do homem, em tentativas sempre constantes de não nos
submetermos a esquemas teóricos redutores. Entendemos que esta postura permite um
desenvolvimento sadio do campo científico, pois fomenta a reflexão sobre a própria estrutura do
pensamento científico.
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Notas
1. Serva e Jaime Jr (1995) mencionam como primeiros estudos de observação participante no
campo organizacional o realizado por Omar Aktouf em indústrias do Canadá e da Argélia e a
pesquisa que Serge Bouchard efetuou em uma empresa de transportes rodoviários nos Estados
Unidos, ambos efetuados na segunda metade da década de 70.
2. Sobre este aspecto, é importante frisar que não consideramos a Observação Participante uma
metodologia sem limitações e dificuldades. Na verdade, concordamos com Haguette (1999) sobre
os limites da OP e mesmo sobre a possível complementaridade entre métodos ideográficos e
nomotéticos. O que de fato queremos destacar em nosso trabalho é que a crítica ao caráter de
cientificidade desta metodologia é situada a partir de referências epistemológicas insustentáveis
sob o ponto de vista das principais vertentes teóricas que comumente se valem desta técnica.
3. Não queremos dizer com isso que não existe a necessidade de atenção para com a segurança e
a própria integridade física em um hospital psiquiátrico. Existem procedimentos específicos para
lidar com isso, e mesmo se considera o risco de agressão. Entretanto, o que demonstramos aqui é
o exagero nesta postura, exagero este causado pelo estigma da loucura na sociedade e que
compromete significativamente as impressões no momento da observação neste tipo de
organização.
4. Fora escolhida uma ala feminina com 52 internas.
5. Ramos (1989) já salientava este problema no âmbito dos estudos organizacionais.
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1 A Relação Pesquisador-Pesquisados: uma Contribuição