COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA: DA INFORMAÇÃO À FORMAÇÃO Juliene Maria Neves Da Silva (1) Universidade Federal De Mato Grosso Especialização em Coordenação Pedagógica RESUMO Coordenar práticas pedagógicas além de se fazer presente nas situações cotidianas da escola, engloba estar atualizado com as políticas e orientações educacionais buscando colocá-las em prática na instituição de trabalho em consonância com a realidade da comunidade de inserção da escola e com o apoio do corpo docente devidamente orientado. As expectativas contempladas por diversos estudiosos citados no decorrer deste estudo, a excelência no desempenho do coordenador pedagógico é responsável pela autonomia pedagógica da escola por existir nesta a necessidade de um profissional que possa intervir e orientar na organização dos projetos como prioridade. O presente estudo traz em seu desfecho a rotina do coordenador pedagógico, seus anseios, desafios e a carência de formação continuada deste diante da política educacional. Teve por finalidade compreender a função do coordenador pedagógico e aprimorar os conhecimentos sobre suas atribuições em consonância às políticas educacionais. O ponto de partida foi a necessidade de formação sobre a postura e os procedimentos adotados na rotina de ações do coordenador e o contexto real de suas atribuições, tendo em vista as dificuldades enfrentadas pelos profissionais das escolas públicas. A metodologia utilizada contemplou pesquisa e leitura de artigos e periódicos online, via plataforma do curso, consulta em obras de autores relacionados, dados da instituição onde se realizou a pesquisa, reflexões sobre a educação pública, gestão financeira e pedagógica, políticas educacionais, avaliação, organização curricular, diversidade educacional, organização do projeto político pedagógico, práticas e espaços de comunicação na escola, aprendizagem na realidade escolar e o trabalho pedagógico. Palavras-chave: Coordenador pedagógico, educação, políticas públicas educacionais. ABSTRACT Coordinate teaching practices besides being present in everyday school situations, encompasses be updated with the educational policies and guidelines seeking to put them into practice in the institution of work in line with the reality of community inclusion school and with the support of the body properly oriented teaching. Expectations contemplated by various scholars cited throughout this study, excellence in performance pedagogical coordinator is responsible for pedagogical autonomy exist in this school by the need for a professional who can intervene and guide the organization of projects as a priority. This study brings in its outcome the routine pedagogical coordinator, their aspirations, challenges and the lack of continuing education on this educational policy. Aimed to understand the role of pedagogical coordinator and our knowledge of their duties in line with educational policies. The starting point was the need for training on posture and the procedures adopted in the routine actions of the coordinator and the real context of their duties, in view of the difficulties faced by professionals in the public schools. The methodology included research and reading articles and journals online, via travel platform query related works of authors, data from the institution where the research took place, reflections on public education, financial and educational management, educational policies, evaluating, curriculum organization, educational diversity, organization of political pedagogical project, practices and spaces of communication in school, learning in school reality and pedagogical work. Keywords: Pedagogical Coordinator, education, public education politics. 1. INTRODUÇÃO Conforme as expectativas contempladas por diversos estudiosos citados no decorrer deste estudo, a excelência no desempenho do coordenador pedagógico é responsável pela autonomia pedagógica da escola por existir nesta a necessidade de um profissional que possa intervir e orientar na organização dos projetos como prioridade. Segundo Veiga (1998, p. 16-19) a autonomia pedagógica é baseada no projeto pedagógico da escola pela liberdade de propor modalidades de ensino e pesquisa ligadas à identidade, à função social, à clientela, à organização curricular, à avaliação, aos resultados. Nessa concepção o corpo docente em conjunto com os demais profissionais da educação devem ser os principais atores do desenvolvimento do Projeto Político Pedagógico (PPP) cuja finalidade é guiar as ações pedagógicas da instituição conforme o perfil da comunidade atendida. Para orientar e organizar em conjunto com a equipe as ações propostas no PPP as instituições de ensino público do Estado de Mato Grosso contam com o trabalho do coordenador Pedagógico, cujo profissional deve ser um professor eleito a cada biênio (dois anos) que tenha capacidades específicas entre as quais estão a capacidade de analisar, argumentar, criticar e propor métodos alternativos ao trabalho desenvolvido pela instituição conforme a política educacional vigente. O presente estudo traz em seu desfecho a rotina do coordenador pedagógico, seus anseios, desafios e a carência de formação continuada deste diante da política educacional e foi desenvolvido conforme o cotidiano de uma escola pública estadual situada na Região Sul na periferia da cidade de Várzea Grande-MT. Teve por finalidade compreender melhor a função do coordenador pedagógico a aprimorar os conhecimentos sobre suas atribuições em consonância às políticas educacionais. Partiu da necessidade de informações sobre a rotina de ações do coordenador e o contexto real de suas atribuições, tendo em vista as dificuldades enfrentadas pelos profissionais das escolas públicas de MT. A metodologia utilizada contemplou pesquisa e leitura de artigos e periódicos online, via plataforma do curso, leituras de livros de diversos autores relacionados, consulta de dados da instituição onde se realizou a pesquisa e reflexões sobre a educação pública, gestão financeira e pedagógica, políticas educacionais, avaliação, organização curricular, diversidade educacional, organização do projeto político pedagógico, práticas e espaços de comunicação na escola, aprendizagem na realidade escolar e o trabalho pedagógico. 2. DESENVOLVIMENTO 2.1 O CONTEXTO ESCOLAR A Unidade Escolar pesquisada para a realização deste trabalho tem aproximadamente dez anos de existência na cidade de Várzea Grande, estado de Mato Grosso. Iniciou suas atividades como salas anexas de outra escola da região. Em 2004 foi autorizada como instituição escolar apta a ofertar a modalidade regular do Ensino Médio e atendia somente o período noturno. Em 2010 passou a ofertar o Ensino Fundamental-3º Ciclo de Formação Humana e a Educação de Jovens e Adultos, sendo a primeira modalidade no período vespertino e a segunda no período noturno. A partir do ano de 2012, continuou com as modalidades anteriores e acumulou Ensino Fundamental - 2º Ciclo de Formação Humana para alunos egressos na 3ª fase devido ao redimensionamento de alunos atendidos no sistema municipal de ensino passando a funcionar em três turnos. Inicialmente a Escola atendia cerca de aproximadamente trezentos alunos com corpo docente de 15 professores na etapa inicial, 1 apoio administrativo educacional-segurança, 1 apoio administrativo educacional-nutrição, 1 apoio administrativo educacional-manutenção e 1 técnico administrativo educacional, 1 coordenador e o diretor. Atualmente contabilizam-se mil alunos, 35 professores regentes, 3 coordenadores, 4 técnicos administrativo educacional, 8 apoio administrativo educacionalmanutenção, 2 apoio administrativo educacional-segurança, 3 apoio administrativo educacional-vigia, 1 técnico administrativo educacional-laboratório, 1 técnico administrativo educacional-biblioteca e 5 apoio administrativo educacional-nutrição além de secretário e diretor. Quanto ao Projeto Político Pedagógico uma realidade cuja construção partiu de um processo coletivo do planejar para a instituição e para a comunidade escolar como um todo e foi realizado com muita dificuldade, por um lado professores atarefados com o planejamento e a execução de suas aulas com pouco tempo para se dedicar a mais uma atividade e pais que não se consideram como partes do processo e por isso não se comprometem a comparecer às reuniões para as discussões coletivas. Diante desta situação quem fica com a maior sobrecarga nesta tarefa são o diretor, os coordenadores, o secretário, enfim a equipe gestora e o Conselho Escolar. Mesmo com toda essa problemática ainda temos algumas famílias e membros da comunidade que assumem suas responsabilidades, mas seria bem melhor se a comunidade envolvesse e tivesse mais compromisso com as propostas da instituição de ensino. Para efetivar o envolvimento de todos na construção do PPP cabe aqui pensar algumas estratégias para que isso aconteça, tais como: formação de grupos de trabalho, utilização das mídias na divulgação dos encontros, esclarecer legalmente às famílias sobre seus direitos trabalhistas quando se trata de dar assistência ao processo educacional de seus filhos, fazer rodízio de participantes nas reuniões, promover encontros em horário e data alternativos. A escola pesquisada busca contemplar em consonância com o seu Projeto Político Pedagógico toda a comunidade escolar com atividades que envolvam cultura, arte e opinião. Anualmente são realizadas as comemorações cívicas dos pais, consciência negra, amostra cultural e folclórica, jogos escolares e formatura dos estudantes que concluem o Ensino Fundamental e o Ensino Médio. Nas comemorações cívicas em alusão as datas comemorativas, os alunos são incentivados a refletir sobre a realidade que envolve cada data, realizando pesquisas, estudos, seminários, mesas redondas por turma de modo que todos são envolvidos no processo. Para a amostra cultural e folclórica são formados grupos de trabalho por série/ano/fase onde cada um destes, contribui na confecção dos trabalhos manuais, na gastronomia, na dança e em outras apresentações regionais. Nesta festividade os alunos também são orientados a buscar parcerias para as apresentações culturais fato que auxilia no aprendizado da mobilização e valorização dos aspectos e manifestações culturais e artísticos da comunidade em geral. Os jogos escolares dão aos discentes momentos de lazer e diversão e ao mesmo tempo contribuem para que os mesmos exercitem sua convivência com o grupo desenvolvendo melhor suas habilidades de relacionamento interpessoal, este último de extrema importância para o pleno exercício da cidadania. As festividades de formatura são uma maneira de celebrar em conjunto a todos os formandos e suas famílias a conquista de todos os envolvidos no processo educacional. As avaliações do rendimento escolar nos remetem a uma reflexão profunda das intervenções que devemos fazer para melhorar os índices da instituição, porém não é a única responsável pelas taxas demonstradas. A instituição necessita urgente de mais investimentos na sua infraestrutura, pois há diversos problemas como falta de acessibilidade e espaços educativos mais organizados e seguros. As condições de trabalho dos docentes e técnicos se esbarravam em princípio na falta de equipamentos tecnológicos em boas condições de uso e na quantidade destes. O trabalho coletivo é algo que precisa ser melhorado para que as decisões sejam tomadas com mais democracia e menos desgaste entre as partes, pois os resultados apresentados pela escola, o desempenho escolar, é de responsabilidade geral dos membros da escola. Dentro do ambiente escolar muito se questiona a gestão democrática, a responsabilidade pelo exercício da gestão democrática não pode ser direcionada apenas à equipe gestora, uma vez que sem o comprometimento de todos os atores envolvidos não há como se desencadear o processo de construção coletiva e democrática. A garantia do acesso, permanência e qualidade do ensino, exercício da cidadania são de incumbência de todos os envolvidos no processo educacional por esse motivo todos tem o direito e mais ainda o dever de participar das construções coletivas. 2.2 A INTERVENÇÃO PEDAGÓGICA Ser coordenador pedagógico é um exercício de aprendizado constante. Como todas as profissões têm sua especificidade, ser professor é algo que envolve o exercitar o lado pacífico diariamente, concomitante aos lados inovador, exigente, perspicaz, prévio, enfim. Quando o professor opta por coordenar as atividades de ensino aprendizagem em uma unidade escolar se dá muito mais valor a importância do conviver na coletividade. Para desenvolver um bom trabalho de coordenação pedagógica torna-se necessária a formação de uma boa equipe na qual haja a facilidade de distribuir os afazeres diários que não são poucos. O trabalho do coordenador pode nortear o desenvolvimento de toda a prática pedagógica no cotidiano escolar. A ele são atribuídas funções de orientar, coordenar, propor alternativas de trabalho para melhorar o ensino e a aprendizagem, mediar conflitos, dialogar com as famílias, realizar atividades administrativas, entre outras. Com esta gama de trabalho a coordenação pedagógica perpassa algumas vezes pela falta de identidade. Em um espaço de trabalho onde há restrição na quantidade de funcionários ao número de alunos, o trabalho não é tarefa fácil. Porém ao refletir sobre a função no cotidiano escolar percebe-se a fundamental importância do coordenador nas atividades formativas para que assim seja possível levar mais reflexão sobre a prática pedagógica e a necessidade da formação continuada para melhor exercer a prática almejada. Nesta atividade laboral diária, somos cercados o tempo todo pela busca incessante de informações pedagógicas pelos professores, prestação de informações acadêmicas dos alunos aos pais, a participação nos cursos de formação para melhor compreensão e sistematização das políticas e programas educacionais, encaminhamentos relativos a problemas de relacionamento com a classe ou com o professor e o inverso, organização do Projeto Político Pedagógico Escolar, reuniões pedagógicas e administrativas, preparação de material de expediente quando a escola não possui atendimento de um técnico em multimeios didáticos, entre outras atividades. Refletindo sobre essa extensa lista de atividades que compõe a rotina do coordenador pedagógico percebe-se que este é um elo essencial entre todos os atores envolvidos no processo educativo e faz a diferença na equipe quando realiza o seu trabalho com responsabilidade, interesse em melhorar o ensino e as condições de oferta do mesmo no campo pedagógico, porém para que tais mudanças atinjam êxito, o diálogo com a equipe de trabalho e com a comunidade escolar é extremamente importante. O planejamento diário e a distribuição das tarefas entre coordenadores, técnicos e professores, o diálogo constante com os pais, responsáveis e os docentes é algo que facilita o trabalho pedagógico, assim como o apoio da direção da unidade no direcionamento prévio das ações tomadas. Na maioria das formações continuadas dadas nos assuntos educacionais concebe-se a função do coordenador pedagógico como um formador de professores inserido na escola. Realmente é algo que deveria ocupar a maior parte do tempo deste profissional e com isso teríamos excelência em formação pedagógica, porém é uma situação muito distante da nossa realidade institucional. Como os problemas com a indisciplina são constantes, esta situação dificulta o trabalho do coordenador sem respaldo da legislação atual. Pouco se consegue fazer na questão disciplinar com o aluno que infringe as regras e normas estabelecidas para se ter um mínimo possível de organização na escola já que o Regimento Escolar deve ser pautado pela legislação na qual as brechas para atos infracionais são muitas. Na maioria das vezes precisamos tomar decisões mais enérgicas e para a manutenção da ordem no ambiente escolar e somos barrados por normativas, portarias, resoluções e leis em geral com condutas pré-estabelecidas. Diante desta ditadura de leis o coordenador pedagógico se vê acuado, com poucas opções seguras e legais para realmente executar o seu trabalho, já que havendo qualquer brecha legal contra a atitude tomada pela gestão pedagógica, todos os gestores da unidade poderão ser penalizados. A coordenação pedagógica é vista como multiplicadora das atividades formativas para a equipe docente. Cabe a ela buscar participar das atividades de formação e organizar os encontros semanais ou quinzenais para refletir e debater dobre o contexto de cada atividade de formação com a finalidade de qualificar o ensino dado pela instituição por meio dos professores. A dificuldade para realizar os encontros se esbarra nos horários de trabalho dos professores, há casos que o professor trabalha apenas alguns dias da semana, em apenas um turno, ou tem aulas em diversas escolas não havendo a possibilidade de reunir todos em um mesmo encontro. Nesse cenário, [...] as escolas chegam a ter vários horários diferentes para atender ao objetivo de reunir seus professores, que dificilmente partilham momentos realmente coletivos em que prevaleça a reflexão, a formação, a busca de alternativas para os problemas cotidianos e, até mesmo, o desenvolvimento de projetos gestados pela própria escola (FERNANDES, 2013 p. 12) Segundo Moreira (2003, p. 35), “para os sociólogos das disciplinas escolares, a história do currículo tem por meta explicar por que certo conhecimento é ensinado nas escolas em determinado momento e local e por que ele é conservado, excluído ou alterado”. Os traços de currículo oculto estão presentes no sistema de ensino público, uma vez que a educação é gratuita e para todos. Esta forma de oferta dá aos educadores a possibilidade de trabalhar com diferentes realidades e cada uma delas exige do educador uma retomada constante de valores necessários ao convívio em sociedade. Não se trata de imprimir nos discentes regras morais, mas sim de dar a eles condicionantes para que consigam ter aproveitamento do processo de ensino e aprendizagem em meio a uma realidade de carência, pobreza e violência. A avaliação deve ser o acompanhamento da evolução do aluno durante o processo da busca do conhecimento, deve servir para educar não para julgar e classificar, mas para reconhecer no aluno as suas capacidades de aprendizagem dando-lha condições para que o mesmo aprenda. São apresentadas diversas formas avaliativas tendo como parâmetro essencial e avaliação diagnóstica, formativa e somativa que buscam avaliar toda a prática educativa. Dessa maneira a utilização dos registros diários do desenvolvimento individual e coletivo em caderno específico, as fichas avaliativas e conceitos que substituem as notas, realizam autoavaliação constante, envolvem a comunidade e as práticas locais com a escola e usam as atividades de campo dentro da comunidade como avaliação, criam ambientes de aprendizagem por meio de projetos, salas ambientes de aprendizagem para envolver os alunos, consideram a realidade social dos alunos e criam novas situações de aprendizagem para contemplar o individualismo do aluno. Neste processo de avaliação há a possibilidade de recuperação contínua do aluno com atividades específicas e acompanhamento individual, reunir e buscar melhorar o sistema avaliativo discutindo com os alunos e os pais e os alunos o que deu certo e o que poderia ser melhorado e com isto utilizar mecanismos avaliativos mais concretos com contextos da realidade dos alunos e não especificamente de uma lista de conteúdos da cultura livresca. 2.3 REALIDADE ESCOLAR E TRABALHO PEDAGÓGICO Para Fernandes e Freitas (2008, p.18) em seu olhar sobre a escola e o papel do coordenador: [...] Se a escola é o lugar da construção da autonomia e da cidadania, a avaliação dos processos sejam eles das aprendizagens, da dinâmica escolar ou da própria instituição, não deve ficar sob a responsabilidade apenas de um ou de outro profissional, é uma responsabilidade tanto da coletividade, como de cada um, em particular. Ainda sobre as responsabilidades e habilidades, Gomes (2008, p.30) diz que “conviver com a diferença é construir relações que se pautem no respeito, na igualdade social, na igualdade de oportunidades e no exercício de uma prática e postura democráticas”. Rangel (2008) também conceitua a coordenação, quando diz que “coordenação implica criar e estimular oportunidade de organização comum e de integração do trabalho em todas as suas etapas”. Para Placco (2008) “no papel do coordenador pedagógico como formador de professores ressalta-se a possibilidade de, por meio do trabalho formativo do coordenador, auxiliar o professor a tomar consciência das dimensões envolvidas na sua prática”. Refletir com os demais professores e compartilhar erros e acertos, negociar significados e confrontar pontos de vista surge como algo estimulador para uma prática pedagógica comprometida. (RAUSCH e SCHLINDWEIN, 2001, p. 121). Já dizia Saviani (2008, p.7): A compreensão de que a natureza humana não é dada ao homem, mas é por ele produzida, leva ao entendimento do trabalho educativo como o ato de produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Moreira e Candau (2008, p. 2) “defendem que são indispensáveis conhecimentos escolares que facilitem ao aluno uma compreensão da realidade em que está inserido, que possibilitem uma ação consciente no mundo e que promovam a ampliação de seu universo cultural”. Conforme Isambert-Jamati (1990, p. 41), a “escola é ao mesmo tempo o reflexo da sociedade e o meio de consolidar sua ordem é fácil, porém é bem mais árduo ir além das correspondências aproximativas e colocar em dia as mediações”. Torres, Alcântara e Irala (2004 p. 129) salientam que, apesar de suas diferenças teóricas e práticas, os termos cooperação e colaboração derivam de dois postulados principais: rejeição ao autoritarismo e promoção da socialização, não pela aprendizagem, mas na aprendizagem. O trabalho colaborativo possibilita, além disso, o resgate de valores como o compartilhamento e a solidariedade que se foram perdendo ao longo do caminho trilhado por nossa sociedade, extremamente competitiva e individualista (DAMIANI, 2008, p. 225). É no espaço concreto de cada escola, em torno de problemas pedagógicos ou educativos reais, que se desenvolve a verdadeira formação. Universidades e especialistas externos são importantes no plano teórico e metodológico. Mas todo esse conhecimento só terá eficácia se o professor conseguir inseri1-lo em sua dinâmica pessoal e articulá-lo com seu processo de desenvolvimento (NÓVOA, 2001, p. 25). Ao estudar as interações interpessoais percebemos que “simplesmente colocar indivíduos em grupo e dizer então para trabalharem juntos, não promove, por si só, o sucesso no alcance dos objetivos” (RAPOSO e MACIEL, 2005, p.315). Se a escola é constituída por um grupo de estudantes, outro grupo de professores e outro de funcionários administrativos que trabalham juntos são necessários que ambos estejam ligados a um objetivo em comum que é a garantia de ensino e aprendizagem de qualidade e ao mesmo tempo, que todos tenham satisfação em ensinar e aprender. Conforme Pimenta (1993 p. 79) a escola deve possibilitar que os alunos adquiram os conhecimentos da ciência e da tecnologia, desenvolvam as habilidades para operá-los, revêlos, transformá-los e redirecioná-los em sociedade e as atitudes sociais - cooperação, solidariedade, ética. Dessa forma, [...] os saberes escolares podem ser divididos em saberes de tipo alfabético, que repousam sobre uma tradição acadêmica; os saberes que privilegiam o individualismo intelectual; os saberes abstratos, que obedecem a uma lógica de estruturação independente da experiência subjetiva dos indivíduos; os saberes que se distanciaram da vida e da experiência cotidiana (YOUNG, 1973). Na visão do autor Barroso (1996, p. 186), a autonomia construída: [...] corresponde ao jogo de dependências e de interdependências que os membros de uma organização estabelecem entre si e com o meio envolvente e que permitem estruturar a sua ação organizada em função de objetivos coletivos próprios [...]. Neste sentido, a autonomia da escola resulta, sempre, da confluência de várias lógicas e interesses (políticos, gestionários, profissionais e pedagógicos) que é preciso saber articular, através de uma abordagem que podemos designar de caleidoscópica. A autonomia da escola não é a autonomia dos professores, ou a autonomia dos pais, ou a autonomia dos gestores. A autonomia, neste caso, é o resultado do equilíbrio de forças numa determinada escola, entre diferentes detentores de influência (externa e interna), das quais se destacam: o governo e os seus representantes, os professores, os alunos, os pais e outros membros da sociedade local. 3. CONCLUSÃO Ao refletir sobre as metodologias do trabalho na coordenação antes desta formação de especialização percebo que planejamento diário é algo que não difere da sala de aula já o aspecto de lidar e submeter-se a orientar professores com anos de docência no ensino público, que já assumiram função de coordenadores muitos destes extremamente críticos ao sistema e resistentes à política estadual de ensino, faltas constantes de professores, a violência, o tráfico e uso de entorpecentes, as diversidades de caráter e conduta, o racismo, o bullyng que acabam interferindo na rotina educacional dos alunos e instigam o coordenador a mediar as situações de conflito oriundas dos problemas ora citados. Conforme Guerreiro (2011, p 01) o coordenador é hoje o elo a unir projeto pedagógico da escola, conteúdo programático e as pessoas envolvidas no projeto: professores, gestores, pais e alunos. Cabe ao coordenador promover a escola como local de encontro e convívio pacífico com as diversidades de formação e, além disso, demonstrar que as diversas formações ali existentes devem estar a serviço da informação do cidadão comum para que este possa conseguir concretizar seus planejamentos com conhecimento técnico e científico e ciente de seus direitos e deveres no convívio em sociedade. É importante para os coordenadores compreender que a construção de conhecimento junto aos professores não acontece porque o coordenador ensina o professor como ensinar, e sim porque existe o intercâmbio entre eles (GUERREIRO, 2011 p. 01) O coordenador não deve interferir na metodologia do professor quando este está atingindo êxito em suas aulas. Já se observada a dificuldade do profissional e comprovada mediante reclamação coletiva ou por alto índice de indisciplina nas aulas, cabe a intervenção do coordenador inicialmente em um diálogo onde a capacidade do profissional não seja posta à prova e sim as dificuldades encontradas para o sucesso da aula sejam uma fonte de pesquisa para a inserção de novas metodologias de ensino. Estas novas metodologias não devem ser impostas e sim sugestões dadas ao professor cabendo a este acatar ou buscar outras que possam contribuir para alavancar o progresso do ensino e aprendizagem da classe. Como cita Guerreiro (2014) não é recomendável padronizar métodos e técnicas didáticas para serem usados entre coordenadores e professores, assim como é difícil crer que alunos aprendem e atribuem significado aos conteúdos da mesma forma. Sobre a disposição do coordenador cabe mencionar, [...] O mesmo precisa, também, conhecer os fundamentos e as teorias do processo de ensinar e aprender, relacionar princípios, teorias e normas legais a situações reais, identificar os impactos de diretrizes e medidas educacionais, objetivando a melhoria do padrão de qualidade do ensino e aprendizagem, comunicar-se com clareza com diferentes interlocutores e em diferentes situações, socializar informações e conhecimentos, conduzir democraticamente suas práticas, identificar criticamente a interferência das estruturas institucionais no cotidiano escolar, promover o desenvolvimento da autonomia da escola e o envolvimento da comunidade escolar, buscar e produzir conhecimentos relativas à formação permanente de pessoal, compreender e valorizar o trabalho coletivo no exercício profissional, além de ter disponibilidade de trabalhar em grupo, reconhecendo e respeitando as diferenças pessoais e as contribuições dos participantes (BEZERRA, 2007 p. 20-21). Segundo Rosa (2004, p. 142-144) o coordenador pedagógico deve zelar pela formação continuada dos professores na escola, promovendo a atualização, reflexão do currículo e das práticas pedagógicas dos professores frente às mudanças do sistema educacional. As atribuições do Coordenador Pedagógico ficam bastante expressas a seguir, [...] o coordenador deve desenvolver para a efetivação da formação docente em serviço, tais como: deve prestar assistência pedagógica didática aos professores, coordenar grupos de estudo, supervisionar e dinamizar o projeto pedagógico, trazer propostas inovadoras para utilização de novos recursos tecnológicos e midiáticos (LIBÂNEO, 2004, p.229). Conforme Oliveira (2014 p.08) as interações diárias com o grupo de professores e a gestão da formação docente exercida pelo coordenador pedagógico proporciona que este conheça bem seus pares, observando seus comportamentos, necessidades e limitações. Todo coordenador deve ter a capacidade de se submeter à crítica por meio de uma reflexão de seu desenvolvimento, e mediante a equipe docente para compreender em quais circunstâncias o grupo necessita de mais apoio e até mesmo de alterações em seu desempenho. Estas ações são importantes para que o coordenador possa estreitar os relacionamentos profissionais e com isso conseguir a união dos pares entre eles e consigo mesmo. Sobre a visão de supervisor concebida no sistema capitalista, não se deve agir apenas como fiscal da atividade pedagógica, atitudes de superioridade e que inferiorize a docência não são bem vistas pelo grupo e despertam indignação e revolta. Afinal o coordenador é antes de tudo um professor que por sua capacidade de organização e dinâmica de equipe deve ser capaz de liderar os demais não pela imposição autoritária, mas por relacionar-se com a equipe de forma ativa e responsável. A busca por informações sobre as alterações da política educacional pelo gestor pedagógico deve ser incessante, isto porque as dúvidas apresentadas pela equipe docente sempre surgem em momentos inoportunos e devemos estar aptos a esclarecê-las. O professor que exerce a função de coordenação não pode ser alheio à estrutura e funcionamento de sua instituição que é submissa à legislação específica. Outro aspecto importante a ser levado em questão é liberdade que o coordenador pedagógico deve ter para a realização dos projetos. Se a gestão dos recursos financeiros que devem ser aplicados em material pedagógico pudesse ser gerida pela coordenação, as facilidades de realização dos projetos seriam melhores. Por mais que o Projeto Político Pedagógico contemple estas ações, ainda somos submetidos à morosidade para a aquisição dos materiais necessários, pois os recursos se concentram nas mãos do gestor escolar e este possui inúmeras outras atribuições que consomem o seu tempo deixando o pedagógico muitas vezes em segundo plano, algo que deveria ser de extrema importância em uma unidade escolar. O Curso de Especialização em Coordenação Pedagógica direciona o profissional sobre sua forma de atuação, permitindo com que se tenha mais clareza nos trabalhos pedagógicos realizados junto ao corpo docente e com isso o trabalho por equipe e áreas afins flui com maior facilidade. Coordenar o trabalho pedagógico é estar junto aos docentes orientando, colaborando, avaliando as ações, incentivando novas metodologias. 4. REFERÊNCIAS BARROSO, J. O estudo da autonomia da escola: da autonomia decretada à autonomia construída. In: O estudo da escola. (org.). Portugal: Porto Editora, 1996. CHARLOT, B. 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