POLÍTICAS PÚBLICAS DE TURISMO VISANDO A INCLUSÃO SOCIAL Ivan Bursztyn TESE SUBMETIDA AO CORPO DOCENTE DA COORDENAÇÃO DOS PROGRAMAS DE PÓS-GRADUAÇÃO DE ENGENHARIA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO COMO PARTE DOS REQUISITOS NECESSÁRIOS PARA A OBTENÇÃO DO GRAU DE MESTRE EM CIÊNCIAS EM ENGENHARIA DE PRODUÇÃO. Aprovada por: ___________________________________________ Prof. Roberto dos Santos Bartholo Jr., D.Sc. ___________________________________________ Prof. Marcos Pereira Estellita Lins, D.Sc. ___________________________________________ Prof. Davis Gruber Sansolo, D.Sc. RIO DE JANEIRO, RJ – BRASIL FEVEREIRO DE 2005 BURSZTYN, IVAN Políticas públicas de turismo visando a inclusão social [Rio de Janeiro] 2005 VII, 110 p. 29,7 cm (COPPE/UFRJ, M.Sc., Engenharia de Produção, 2005) Tese – Universidade Federal do Rio de Janeiro, COPPE 1. Política Pública 2. Desenvolvimento 3. Turismo Sustentável 4. Planejamento I. COPPE/UFRJ II. Título ( série ) ii Dedico está dissertação a memória de minha querida avó Alice, de minha tia Sime e do amigo René iii AGRADECIMENTOS Algumas pessoas que marcaram essa caminhada devem ser lembradas nesse momento. Assim, agradeço... Aos meus mestres e amigos Roberto Bartholo e Maurício Delamaro pela acolhida e pela confiança em meu trabalho. Ao meu pai, Luiz, pelas palavras de incentivo que ainda ecoam em minha cabeça “e aí, terminou?”, mas acima de tudo pelo exemplo homem, pai, filho, irmão, profissional, professor e aluno, um dia eu chego lá !!! À minha mãe, Estrella, cujo exemplo de superação e dedicação, pessoal e profissional, tento seguir. Aos meus irmãos, Kiko e Victor, pois, mesmo um pouco distantes, sei que torcem por mim. À Dani que acompanhou de perto todas as dores desse parto e com suas palavras de carinho e seu companheirismo me deu força para seguir em frente. Te amo. À toda trupe do LTDS que nesses mais de cinco anos de convívio fizeram de meu local de trabalho uma segunda casa. Abraço a todos com carinho. Aproveito para agradecer aos que já passaram por lá e hoje seguem seus caminhos, em especial, ao Adilson, companheiro de pastel aos sábados e de muitas prosas, e à Luca, por sua generosidade e amizade. Aos amigos da “galera do marfu” pelos momentos de descontração proporcionados por nossos encontros semanais. Muito obrigado... iv Resumo da Tese apresentada à COPPE/UFRJ como parte dos requisitos necessários para a obtenção do grau de Mestre em Ciências (M.Sc.) POLÍTICAS PÚBLICAS DE TURISMO VISANDO A INCLUSÃO SOCIAL. Ivan Bursztyn Fevereiro/2005 Orientador: Roberto dos Santos Bartholo Jr. Programa: Engenharia de Produção O turismo é visto hoje como a atividade econômica que mais cresce no mundo. Seu potencial gerador de trabalho e renda, a quantidade de recursos trazidos pelos viajantes para um determinado destino e o número cada vez maior de pessoas que viajam são indicadores que demonstram a pujança do setor. O Brasil, com toda sua riqueza natural e cultural, oferece grandes possibilidades, via o turismo, de promover os desenvolvimentos local e regional, capazes de amenizar as desigualdades sociais do país. No entanto, para a realização desse potencial é imperativo que sejam estabelecidas novas formas de planejamento e gestão, no âmbito das políticas públicas, para que a atividade cumpra tal papel. Nos últimos anos, o desenvolvimento do turismo no Brasil pouco tem contribuído para a inclusão das comunidades locais, o que causa grandes impactos de ordem sócioambiental, muitas vezes irreversíveis, além da perda considerável da identidade cultural. Assumindo-se que a inclusão social não se dá espontaneamente, propõe-se, nessa dissertação, que o conceito de turismo de base comunitária seja um elemento norteador para a regulamentação do setor. v Abstract of Thesis presented to COPPE/UFRJ as a partial fulfillment of the requirements for the degree of Master of Science (M.Sc.) TOURISM PUBLIC POLICY IN SUPPPORT OF SOCIAL INCLUSION Ivan Bursztyn February/2005 Advisor: Roberto dos Santos Bartholo Jr. Department: Production Engineering Tourism is considered the fastest growing economic activity nowadays. Its potential for job and income generating, the amount of money spent by travelers in tourist destinations and the increasing number of people that travel yearly: these are indicators of the tourist industry vigor. Brazilian rich natural and cultural heritages create great possibilities to the implementation of tourist activities aimed at promoting local and regional development and at helping to lessen social inequalities in the country. However, in order to realize that potential new planning and managing forms need to be established in the public policies domain. During the last years, tourism development in Brazil has little contributed for social inclusion of the destination local communities. It usually leads to high environmental and social impacts, frequently irreversible, as well as to significant damages to local cultural identities. This work tries to show that in order to achieve social inclusion through the implementation tourist activities the idea of community-based tourism must be a key element to the industry regulation design. vi SUMÁRIO APRESENTAÇÃO ...................................................................................................1 CAPÍTULO I. Viajantes e diversionários: Uma abordagem conceitual do turismo.........................................7 I.1. Introdução ............................................................................................................7 I.2. O desenvolvimento do turismo ao longo dos tempos ..........................................8 I.3. Por um turismo com mais viagens .....................................................................21 I.4. Considerações finais...........................................................................................26 CAPÍTULO II. Política e planejamento turístico................................................30 II.1. Introdução .........................................................................................................30 II.2. O imperativo sustentável do turismo ................................................................31 II.3. Política e planejamento .....................................................................................34 II.4. Planejamento em turismo..................................................................................35 II.5. Um breve histórico do planejamento turístico ..................................................36 II.6. Métodos de planejamento turístico ...................................................................39 II.7. Uma abordagem sustentável ao planejamento turístico....................................47 CAPÍTULO III. Quem são os beneficiados com o incremento do turismo?.....53 III.1. Introdução........................................................................................................53 III.2. Política pública de turismo no Brasil: o Prodetur-NE e os megaprojetos turísticos .....................................................54 III.3. Desenvolvimento para quê? ............................................................................61 III.4. O turismo de base comunitária ........................................................................65 III.5. Não é utopia, é realidade... .............................................................................70 III.6. Considerações finais ........................................................................................84 CONCLUSÃO. Por um Programa Nacional de Turismo de Base Comunitária ..............................................86 1. Introdução.............................................................................................................86 2. Algumas considerações sobre o Plano Nacional de Turismo 2003-2007 ............89 3. Uma proposta de Programa Nacional de Turismo de Base Comunitária .............92 4. Não é o rabo que abana o cachorro... é o cachorro que abana o rabo...................99 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...............................................................105 vii Apresentação O presente trabalho é resultado de cinco anos de envolvimento com o Laboratório de Tecnologia e Desenvolvimento Social da COPPE/UFRJ. Durante esse período, tivemos a oportunidade de participar de alguns projetos de pesquisa e extensão que nos abriram um novo horizonte de atuação profissional. Dentre esses projetos, destacamos o Instituto Virtual de Turismo do Estado do Rio de Janeiro (IVT-RJ), que nos iniciou nos assuntos concernentes ao debate sobre formas sustentáveis de desenvolvimento turístico. O IVT-RJ é um projeto financiado pela FAPERJ (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro) e tem como objetivo fomentar, articular e divulgar experiências exitosas no campo do turismo como promotor de desenvolvimento social. Para isso, o Instituto formou e mantém uma rede de pesquisadores que, através do website (www.ivt-rj.net), debatem e obtêm informações sobre os assuntos correlatos. Por ser um projeto cujo financiamento provém de um órgão estadual de fomento à pesquisa, o IVT-RJ também se dedica ao estudo de políticas públicas para o setor, entendendo que estas devem estar associadas a uma política mais ampla de desenvolvimento, não se restringindo à regulamentação do chamado trade turístico. Uma de nossas atribuições no Instituto é a de co-editar o Caderno Virtual de Turismo, uma revista científica dedicada ao estudo do turismo e de temas afins, com periodicidade trimestral e que hoje está em seu 14º número. Essa função nos deu a oportunidade de ter contato com a mais variada produção acadêmica acerca do tema e contribuiu decisivamente para a realização dessa dissertação. Paralelamente ao trabalho no IVT-RJ, cumprimos créditos no mestrado do Programa de Engenharia de Produção da COPPE/UFRJ. Durante quase dois anos, participamos de disciplinas que abordavam alguns temas mais teóricos, como a ética, a responsabilidade, a sustentabilidade, e outras que se dedicavam a uma abordagem mais prática da gestão, do 1 estudo das políticas públicas sociais e dos modelos de desenvolvimento. Enfim, temas que permeiam o conteúdo aqui abordado. A opção pelo estudo das políticas públicas voltadas para o turismo com foco na inclusão social se deu quando, em junho de 2002, tivemos a oportunidade de ver, na prática, os antagonismos entre o discurso oficial e a realidade no litoral cearense. Durante nossa estada de uma semana no litoral leste do Ceará, visitamos algumas experiências de projetos turísticos incluindo um resort na Praia das Fontes. Nessa ocasião, entrevistamos moradores que nos relataram uma situação crítica, marcada pela forte exclusão social. Após consultarmos uma extensa literatura sobre o tema, constatamos que esse não era um caso isolado. O discurso oficial é marcado pelas inúmeras oportunidades sociais geradas pelo incremento do setor turístico. Segundo dados oficiais, o turismo vem se destacando como uma das atividades econômicas que mais cresce na atualidade. A Organização Mundial do Turismo (OMT) estima que em 2006 o turismo terá uma produção mundial de 7,1 quatrilhões de dólares, gerando cerca de 385 milhões de empregos (OMT, 2001). Estima-se, ainda, que o número de turistas cresça, nas próximas duas décadas, 4,3 % ao ano, e a receita gerada por eles, cerca de 6,7 % ao ano (www.embratur.gov.br Apud Kinker, 2002). A importância do turismo na economia brasileira também vem merecendo destaque. Em 2003, recebemos cerca de 4 milhões de turistas estrangeiros e, nesse mesmo ano, aproximadamente 27 milhões de brasileiros viajaram pelo Brasil. As receitas diretas com o turismo internacional foram de cerca de US$ 3,3 bilhões. É nesse contexto de estatísticas tão promissoras que vem se formando os argumentos das principais ações governamentais direcionadas ao desenvolvimento do turismo no Brasil. Tendo como base o potencial gerador de trabalho e renda em escala local e sintonizada com o discurso da sustentabilidade, a “indústria do turismo” vem reivindicando políticas públicas específicas para o setor. Linhas especiais de crédito, incentivos fiscais e investimentos pesados na implantação de complexos hoteleiros são apenas alguns dos 2 caminhos que levam boa parte dos recursos públicos para os empresários do trade turístico, na perspectiva do incremento dos ganhos sociais supostamente promovidos pelo turismo. No entanto, as estatísticas e o discurso oficial mascaram os danos ambientais e socioculturais na escala local provenientes do mau planejamento desta atividade. Entre os impactos negativos mais evidentes estão a degradação ambiental e paisagística, a geração de subempregos e empregos sazonais e o abandono de postos tradicionais de trabalho. O aumento não planejado no fluxo de visitantes das localidades turísticas na alta temporada, além de trazer divisas, pode ser acompanhado pela contaminação dos rios, das praias e pela produção de montanhas de lixo. Exemplos mal sucedidos não faltam para ilustrar essa situação. Como veremos nos capítulos que seguem, na última década, o governo brasileiro investiu pesado em obras de infra-estrutura – estradas, água, luz, saneamento, telefone, dentre outros – e em financiamentos de empreendimentos que, em sua maioria, não deram o resultado esperado. Rotulados de projetos ecoturísticos, muitos desses empreendimentos se apropriam dos recursos naturais de localidades pouco turistificadas, promovendo alterações profundas na comunidade onde se instalam. Com a súbita valorização de suas terras, muitos nativos se vêem pressionados economicamente a se desfazerem de suas casas, gerando um grande problema social para a região. Esse processo pode gerar uma forte exclusão social identificada com o incremento da atividade turística. Os empreendimentos implantados, baseados no modelo “all inclusive”, não dependem de uma relação entre visitantes e comunidade receptora e, ainda, podem causar verdadeiros desastres ambientais. Desvirtuando o próprio conceito de turismo ecológico, os megaempreendimentos ecoturísticos tentam massificar uma atividade que tem como seus pilares de sustentação a “base ecológica, social e holística, sendo exeqüível se houver respeito ao meio ambiente, eliminação ou redução da pobreza, implantação de programas educacionais eficientes, resgate e fortalecimento da cultura local, criação de postos de trabalho e valorização do trabalho já existente” (SEABRA, 2001:34). 3 Em 2002, elegemos o primeiro presidente vindo das camadas populares e, mesmo que cautelosamente, mostrava-se interessado em promover avanços significativos nas políticas sociais. No entanto, a crescente importância dos aspectos econômicos na condução das políticas nacionais vem exigindo que outros setores tenham mais criatividade para, com menos recursos, conseguirem atender às demandas sociais existentes. Em janeiro de 2003, no primeiro dia do novo governo, assistimos à criação do Ministério do Turismo e à promessa de que o setor ganharia atenção especial por parte das autoridades públicas para seu desenvolvimento. Entretanto, devido ao seu caráter multifacetado, capaz de mobilizar dezenas de setores produtivos, o turismo vem se confirmando como um tema difícil de ser tratado por apenas um órgão da administração pública. A influência de outras políticas públicas, como a de transportes, fiscais, de saúde, trabalho, educação dentre outras, evidencia a necessidade de se tratar o turismo de forma transversal.1 Em abril do mesmo ano, foi lançado o Plano Nacional de Turismo 2003-2007. Com metas ambiciosas, o PNT apresenta, sem o devido detalhamento, uma série de macroprogramas que visam potencializar os benefícios gerados pelo turismo. Na mensagem introdutória ao plano, feita pelo Presidente da República, percebemos um tom de panacéia, associando aos resultados positivos do turismo a solução de problemas crônicos de nossa sociedade, como as desigualdades regionais e sociais. É fato que o turismo pode trazer grandes benefícios para o Brasil. Todavia, esses benefícios não ocorrem de forma espontânea; em diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, o turismo segue a mesma lógica da produção industrial capitalista e, portanto, também pode produzir pobreza, exclusão social e degradação ambiental, dentre outros males (SANSOLO 2003b). O cerne da questão diz respeito ao modelo de desenvolvimento que se pretende estimular e isso envolve todos os setores da administração pública, das políticas econômicas às sociais, configurando uma verdadeira política de desenvolvimento. 1 Alguns exemplos onde a administração pública do turismo é feita de forma transversal podem ser encontrados em vários países do mundo nos quais o setor tem grande importância no PIB (SANSOLO e CRUZ, 2003). 4 Procuramos, nessa dissertação, debater os possíveis rumos a serem tomados pelas políticas de desenvolvimento turístico no Brasil. Caso haja realmente o interesse político de promover a inclusão social através do fortalecimento do setor turístico, alguns questionamentos devem ser levados em consideração. A discussão sobre “quem são os verdadeiros beneficiados com o incremento do setor” é nosso elemento norteador. Nesse sentido, estruturamos este trabalho em três capítulos e uma síntese conclusiva, que serão apresentados a seguir. No primeiro capítulo dessa dissertação buscamos entender como se deu a evolução do turismo na história, qual seu estado atual e quais as tendências de desenvolvimento do setor. Utilizando como referência a classificação apresentada pelo pesquisador mexicano Sergio Molina, em seu livro “O pós-turismo”, foi possível traçar os caminhos percorridos pelo setor turístico no último século, bem como entender as mudanças que estão em curso. Para tal, procuramos fazer alguns paralelos entre o desenvolvimento do turismo e o contexto mundial no qual ele ocorria, destacando as principais influências e o código conceitual da época. Ainda com o suporte teórico oferecido por Molina e com as contribuições do professor inglês John Urry foi possível apontar algumas tendências que indicam uma atividade turística em que a relação entre visitantes e visitados se dará de forma mais efetiva e autêntica. Essa mudança no perfil da demanda turística encontra eco na antropologia filosófica de Martin Buber, que – através de sua ontologia relacional – contribui para o entendimento da importância da relação entre visitantes e visitados num possível processo de inclusão social a partir do turismo. No segundo capítulo, procuramos destacar a importância do planejamento turístico estratégico e integrado, enraizado na comunidade local, como um potencializador dos benefícios gerados pela atividade. Nesse sentido, as discussões com relação ao planejamento do turismo passam pela compreensão da necessidade de se pensar o desenvolvimento sob a ótica da sustentabilidade. Algumas implicações decorrentes dessa relação são apontadas nesse capítulo. 5 Buscando referências teóricas entre autores como Hall, Hughes, Getz dentre outros, fazemos um pequeno histórico do planejamento turístico, passando por alguns métodos muito utilizados a partir da segunda metade do século XX. Ao final do capítulo, procuramos traçar, em linhas gerais, uma abordagem sustentável de planejamento turístico, articulando políticas públicas e desenvolvimento local. No terceiro capítulo, discutimos e refletimos sobre os dois capítulos anteriores no intuito de realizar uma análise do desenvolvimento turístico que vem sendo implementado no Brasil nos últimos anos. Com o suporte de autores como Giovanni Seabra e Rita de Cássia Cruz, procuramos apresentar a principal política de turismo em curso no Nordeste brasileiro, o Prodetur-NE, e alguns de seus impactos nas comunidades no raio de influência dos projetos. Tendo como referencial o conceito de “desenvolvimento como liberdade” de Amartya Sen, questionamos os resultados e as principais ações do Prodetur-NE e, em seguida, propomos como alternativa ao modelo vigente uma política de incentivo ao turismo de base comunitária. Esse conceito é apresentado mais detalhadamente com o apoio teórico de Sansolo, Irving e Hatton, que nos ajudam a compreender os alicerces dessa proposta de gestão, planejamento, fomento, agenciamento e implementação do turismo. Com um caráter ilustrativo, apresentamos ainda dois casos de sucesso reconhecidos internacionalmente: o projeto de ecoturismo comunitário da Prainha do Canto Verde, no Ceará, e o programa de ecoturismo integrado ao manejo de várzea, em Silves, no Amazonas. Para finalizar, apresentamos uma conclusão fazendo um apanhado geral dos assuntos abordados nessa dissertação e apontando alguns possíveis caminhos a serem seguidos. 6 Capitulo I Viajantes e Diversionários: uma abordagem conceitual do desenvolvimento do turismo 1. Introdução Muito se tem falado nos dias de hoje sobre o potencial da atividade turística em promover o desenvolvimento econômico das regiões onde se instala. As estatísticas promissoras inspiram governos de todo mundo a investirem em ações voltadas para o incremento do setor. Contudo, experiências nos quatro cantos do mundo colocam em cheque a crença de que a “indústria do turismo”, ou a “indústria limpa”, como também é comumente conhecida, seja necessariamente benéfica na geração de emprego e renda e na preservação do meio ambiente natural e cultural. No mundo globalizado contemporâneo, onde o desemprego é estrutural e o crescimento da pobreza e das injustiças sociais é visível, o setor de serviços (dentre eles, o turismo) pode apresentar alternativas para o desenvolvimento socioeconômico de muitas sociedades (SANSOLO e CRUZ, 2003). O turismo não é uma panacéia para as distorções que o modo de produção capitalista industrial apresentou ao longo dos tempos, mas se planejado e integrado com as demais políticas sociais e econômicas pode oferecer caminhos interessantes para o desenvolvimento local. Como veremos mais adiante, o perfil dos turistas está em transição. Já não é possível defini-los como uma massa de demandas homogêneas. E, é nessa diversificação da demanda que podemos vislumbrar uma possível mudança nas relações entre visitantes e visitados, elemento crucial se quisermos pensar a atividade turística contribuindo para o processo de inclusão social. 7 2. O desenvolvimento do turismo ao longo dos tempos Para um melhor entendimento do fenômeno turístico contemporâneo, faz-se necessário uma breve investigação quanto às suas origens. Existe uma grande diferença entre as viagens turísticas e outros tipos de deslocamentos realizados pelo homem no decorrer de sua história. Segundo a Organização Mundial do Turismo (OMT, 2001: p.3), “o turismo compreende as atividades realizadas pelas pessoas durante suas viagens e estadas em lugares diferentes do seu entorno habitual, por um período consecutivo inferior a um ano, por lazer, negócios ou outros”. Entretanto, podemos identificar já na Grécia Antiga a gênese do fenômeno, quando levas de pessoas se deslocavam para assistir aos jogos olímpicos e outros festivais públicos e religiosos. Durante o auge do Império Romano, a Pax Romana possibilitou um grande fluxo de viajantes através das estradas de boa qualidade implantadas por todo o Império. Mesmo durante o período de decadência do Império Romano e as invasões bárbaras, os peregrinos cruzavam o interior da Europa rumo a centros religiosos, como Roma, Jerusalém e Meca. O primeiro roteiro turístico registrado foi elaborado pelo francês Aymeric Picaud e indicava como chegar a Santiago de Compostela, tendo a França como ponto de partida. Durante a Idade Média, houve uma redução acentuada nos deslocamentos de pessoas na Europa em virtude, principalmente, da fragmentação do território em feudos. Com o advento das cruzadas e o renascimento do comércio entre a Europa e o Oriente ressurgiu a curiosidade em conhecer terras longínquas (SEABRA, 2001:13). Essa curiosidade aliada a fortes interesses comerciais fez com que, anos mais tarde, algumas nações européia se lançassem ao mar rumo às riquezas do novo mundo. As viagens desses desbravadores, no entanto, não podem ser classificadas como turísticas, em virtude de seu caráter mercantil, colonizador e bélico. Sergio Molina, pesquisador mexicano contemporâneo, classifica as etapas de desenvolvimento da atividade turística da seguinte forma: o pré-turismo, o turismo industrial (este subdividido em primitivo, maduro e pós-industrial) e o pós-turismo. Nessa 8 classificação, o autor prefere não vincular as etapas de desenvolvimento do turismo a períodos temporais definidos, pois entende que essa categorização se faz tendo como base conceitos e práticas que podem ocorrer simultaneamente (MOLINA, 2003). 2.1. O pré-turismo O pré-turismo tem como seu expoente máximo o Grand Tour, prática originada na Europa que se tornou muito comum entre os filhos de famílias abastadas durante os séculos XVII e XVIII. Esses jovens terminavam seus estudos com uma viagem ao redor da Europa, onde entravam em contato com a cultura e as tradições, a história, a política e as artes dos países vizinhos. Segundo Barreto: “Quando o conceito de turismo surge, na Inglaterra, no século XVII, não está referido a uma prática de lazer, mas à necessidade de conhecer outras culturas, de conhecer outros modos de vida, de experimentar o contato com outros lugares, de observar obras de arte que não tinham similar fora da Itália, por exemplo, de manter um contato existencial com a região mediterrânea que tinha sido o berço da civilização greco-romana.” (BARRETO, 1998: p. 134) Do ponto de vista organizacional, vale destacar que não existia uma estrutura muito complexa de suporte. O jovem viajante era acompanhado de alguns servos e de um tutor de alta confiança da família, responsável também pela logística e pela parte financeira da empreitada. 2.2. O turismo industrial A Revolução Industrial representa o fato mais importante para a compreensão do fenômeno turístico em sua versão moderna2. Foi através dos avanços tecnológicos da nova sociedade industrial que, pela primeira vez, os deslocamentos humanos ganham uma característica de 2 O turismo industrial também é chamado por alguns autores (BARRETO, 1998; SEABRA, 2001; URRY, 2001; entre outros) de turismo moderno. 9 turismo. Com a ampliação da malha ferroviária, fundamental para as viagens domésticas e intracontinentais, e a construção dos grandes navios a vapor capazes de atravessar oceanos, a indústria dos transportes muda de escala e passa a ser acessível a um maior número de pessoas. Mas as novas tecnologias também mudaram a paisagem dos grandes centros urbanos da época. As cidades industriais, com seus cenários acinzentados, já não apresentavam a qualidade de vida de outrora. Como alternativa a esse novo modelo de sociedade, as pessoas passaram a valorizar os ambientes naturais, como as regiões montanhosas e litorâneas, para seus momentos de descanso. Saturadas de viver em uma sociedade crescentemente fundamentada no consumo de produtos pasteurizados, as pessoas encontraram no turismo a forma ideal de fuga do cotidiano. As viagens, incentivadas pela evasão do trabalho rotineiro e repetitivo, constituiam a forma mais rápida e prática do trabalhador se recuperar do stress causado pelo meio urbano (KRIPPENDORF, 1989). Nesse contexto, surgem os primeiros hotéis urbanos e há um grande desenvolvimento dos balneários costeiros no mar Mediterrâneo. O que antes era uma atividade educativa, circunscrita a uma classe social mais abastada, passa a ganhar um caráter recreativo e de lazer para a classe trabalhadora. Nessa primeira fase de ampliação dos fluxos turísticos, o chamado turismo industrial primitivo (MOLINA, 2003), surgem as primeiras empresas encarregadas de organizar e operar as viagens. Contando com uma estrutura organizacional elementar, as primeiras agências de viagens ainda não ofertavam uma gama de serviços diversificada. Há uma certa polêmica quanto à fundação da primeira agência de viagens. Em 1863, Stangen fundou em Breslau, Alemanha, o que muitos pesquisadores acreditam ser a primeira empresa voltada para a realização de viagens. Por outro lado, também se afirma que foi o italiano Galignani quem criou, em Paris, o que seria a primeira agência de viagens. Em todo caso, relatos históricos dão conta de que a agência Stangen organizou e 10 operou a primeira volta ao mundo com finalidade e caráter turístico em 1878. (MOLINA, 2003) Ainda na segunda metade do século XIX, aparece na história do turismo um pioneiro que se tornaria mundialmente conhecido e cuja agência opera até os dias de hoje: Thomas Cook, que foi o primeiro a organizar uma viagem com uma série de serviços incluídos, a partir de um único preço pago pelos clientes. O turismo nasceu e se desenvolveu tendo como principal suporte o modo capitalista de produção. Por ser uma atividade do setor de serviços e por não ser considerado artigo de primeira necessidade, o turismo sofreu – e ainda sofre – com as crises ao longo da história. Guerras e revoluções, instabilidades sociopolíticas, desastres naturais ou provocados, crises econômicas, epidemias e outros tipos de conflitos abalam seriamente o fluxo turístico (TRIGO, 2002). Na primeira metade do século XX, conhecemos um período de grande adensamento desses conflitos. A 1ª Guerra Mundial, a Revolução Russa, a profunda crise econômica instaurada no mundo após a quebra da bolsa de Nova Iorque, a ascensão do nazi-fascismo na Europa, culminando na 2ª Grande Guerra, foram fatos importantíssimos na estagnação, diminuição e, em alguns momentos críticos, interrupção do fluxo turístico mundial. O fim da 2ª Guerra Mundial inaugura um momento único na história. As nações capitalistas européias reconstruíram seus territórios e, com o apoio financeiro norte-americano, se reergueram economicamente. Nas décadas que se seguiram, houve um crescimento industrial espantoso, e o nível de consumo mundial manteve a economia em franca ascensão. Com o quadro sociopolítico e econômico mais estável, o ambiente era propício também para o ressurgimento do turismo. O período do pós-guerra inaugura, então, o que Molina chama de turismo industrial maduro, ou seja, a fase de afirmação do turismo como um verdadeiro movimento de massas. A indústria da aviação comercial se desenvolveu e, rapidamente, superou os 11 cruzeiros marítimos na preferência do turista, principalmente devido à redução do tempo de viagem proporcionada pela alta velocidade das aeronaves. Com isso, as agências e operadoras de viagens, bem como as companhias aéreas, se multiplicaram e descobriram os novos paraísos tropicais latino-americanos e asiáticos. As conquistas sociais, como o direito a férias, ao 13º salário, a limitação do tempo de trabalho e a aposentadoria, além do aumento da renda salarial, também contribuíram decisivamente para o incremento do setor. As chamadas leis trabalhistas tornaram possível, a uma parcela crescente da população, o uso do tempo livre em viagens de turismo. A classe trabalhadora foi fundamental para caracterizar a atividade turística como um fenômeno social de massa, uma vez que dinamizou o fluxo turístico doméstico e internacional. O quadro a seguir foi apresentado por Molina (2003) com base em dados da OMT. Nele é possível ter idéia do “impressionante crescimento ininterrupto a partir da década de 1950, passando de 25 milhões de turistas internacionais até mais de 600 milhões na década de 1990”. Tabela 1 - Chegada de turistas mundialmente Ano Chegada Variação (Milhares) (%) 1950 25.282 – 1960 69.320 174,2 1970 165.787 139,2 1980 287.787 73,6 1990 458.357 59,6 2000 699.000 52,5 Fonte: Organização Mundial de Turismo Apud MOLINA 2003 A grande locomotiva da expansão do turismo nas primeiras décadas do pós-guerra foram os produtos relacionados ao binômio sol e praia. Com base na integração do eixo operador- 12 avião-hotel-praia, milhões de pessoas buscavam anualmente fugir do frio durante os rigorosos invernos no hemisfério Norte em balneários localizados mais ao sul. Entre as décadas de 50 e 90, as chegadas internacionais cresceram cerca de 2.300 %. O turismo interno também apresentou um incremento relevante, chegando a registrar mais de 5 bilhões de pessoas viajando a cada ano dentro de seu território na década de 90. A idéia de progresso vinculada à noção de crescimento econômico se expressa no turismo em indicadores como volume de investimentos, receita e geração de empregos, dando um caráter industrial a atividade. A ilusão de que a “indústria do turismo” poderia substituir a indústria de transformação em importância estratégica na geração de empregos e de receitas para o Produto Nacional, sem causar impactos similares, deu à atividade o rótulo de “indústria limpa”. No entanto, com o passar dos anos, tal afirmação tem se mostrado falaciosa: o turismo vem gerando impactos no meio natural onde é realizado, na cultura de comunidades e povos, na distribuição social de seus ganhos, na organização econômica da localidade ou região. Seus efeitos podem ser positivos ou negativos, graves ou inócuos, dependendo do seu planejamento e das políticas públicas, quando existem. (BARTHOLO, 2005) Ao converter-se em um fenômeno de deslocamentos massivos, o turismo passa a apresentar impactos (positivos e negativos) que antes não eram perceptíveis. As conseqüências sociais, culturais, políticas, ambientais e econômicas começam a deflagrar relações conflitivas. Segundo Barreto: “O turismo, que em séculos anteriores servira para educar o viajante, na década de 70 vai servir para um divertimento descompromissado, onde não importa se o que é oferecido é autêntico ou não, (MacCANNEL 1973) onde há abuso na utilização dos recursos naturais e culturais, até o desrespeito para com os membros das populações visitadas” (BARRETO, 1998: p. 135) 13 Nessa fase de desenvolvimento, em que o turismo se consolida como indústria, sua estrutura organizacional reflete o código conceitual e operacional da época.3 A racionalidade moderna se expressa na civilização industrial por meio de seis princípios básicos: uniformização, especialização, sincronização, concentração, maximização e centralização. A seguir, enunciaremos cada princípio, apresentando seus reflexos na “indústria do turismo”. (MOLINA, 2003) A uniformização tem como ícone a celebre frase de Henry Ford: “People can have the Model T in any colour – so long as it's black”4. Baseada na lógica industrial movida pela produção em série, caso típico da indústria automotiva, a indústria do turismo homogeneizou seus produtos e serviços, elaborando projetos sem diferenças substanciais. As empresas transnacionais de hotelaria, por exemplo, estandardizam os processos de produção, os sistemas e os procedimentos administrativos em todas as suas unidades, independente de sua localização. Sem comprometimento com as características ambientais e culturais locais, tais empreendimentos seguem os mesmos padrões em Las Vegas, no Rio de Janeiro ou em Hong Kong. A padronização despersonaliza os próprios produtores e prestadores de serviços, passando, assim, a simples agentes responsáveis pela reprodução das idéias das matrizes ou, no caso de empresas independentes, seguindo e copiando as tendências dos núcleos influentes do modelo dominante. Por outro lado, os turistas também sofrem os reflexos da homogeneização, configurando uma demanda com preferências semelhantes, mesmo quando provenientes de grupos culturais diferentes5. A especialização está diretamente relacionada à concepção tayloriana da divisão do trabalho. Segundo a administração científica de Taylor, a produtividade aumenta quando melhoram a eficiência dos tempos e os movimentos do processo de produção industrial. Segundo Taylor: 3 Alvin Toffler afirma que toda civilização tem um selo ou código oculto que sustenta e condiciona sua evolução (Apud Molina 2003). 4 Citado no site http://www.quotationspage.com 5 Alguns autores se referem a esse perfil de turista utilizando conceitos como turista médio, manada cega e hordas douradas. 14 “simplificando as tarefas, atribuindo a cada cargo tarefas simples e repetitivas que exigem pouca experiência do executor e escassos conhecimentos prévios, reduz-se o período de aprendizagem, facilitando a substituição de um indivíduo por outro, permitindo melhorias nos métodos e incentivos de trabalho e, decididamente, aumentando a produtividade.” (Apud MOLINA, 2003) No turismo, o trabalho rotineiro e limitado empobrece a relação entre o prestador de serviço e o turista. Numa agência de viagens, por exemplo, o vendedor oferece ao cliente um conjunto de serviços sem que tenha participado na elaboração do pacote; posteriormente, não estará em contato com o turista para saber seu grau de satisfação, pois a rígida divisão do trabalho e a especialização o impedem. A repetição de sua tarefa gera um estado de ânimo tal que despersonaliza sua relação com o cliente. De uma perspectiva macro, a especialização pode ser notada na função turística atribuída aos países latino-americanos que restringiram o aproveitamento de seu potencial turístico ao turismo de sol e praia. A sincronização diz respeito à necessidade de relacionamento e comunicação entre trabalhadores e unidades econômicas de produção distintas, com o objetivo de obter um determinado produto. Nesse sentido, é fruto do modelo de divisão do trabalho. A sincronização no contexto da “indústria turística” tem sua expressão, por exemplo, na formatação de um pacote – composto pela hospedagem, o translado e a alimentação – em que um dos elementos que o compõem não é prestado de forma adequada e eficiente. Dessa forma, ficam anulados os esforços dos outros elementos em passar uma boa imagem do destino. A concentração refere-se ao agrupamento de atividades em um determinado espaço geográfico que normalmente é utilizado de forma intensiva. Com o objetivo de reduzir custos operacionais e de investimento, os empreendimentos são incentivados a se instalarem em uma mesma região, aumentando sua densidade demográfica. Como reflexo 15 dessa política, temos, na maioria dos casos, conseqüências ambientais desastrosas, além de um stress social. Nessas condições, os pólos turísticos deixam de cumprir seu papel de descanso e diversão e passam a apresentar os mesmos problemas das grandes cidades industriais. O princípio da maximização pode ser compreendido de duas maneiras. A primeira se refere à variável econômica. A “indústria turística” inserida na lógica do capital “detecta necessidades ou as cria para empacotá-las, etiquetá-las e vendê-las de forma tal que se garanta a maximização do lucro dos investidores” (MOLINA, 2003). A segunda compreende a maximização no sentido de tornar o adjetivo “grande” sinônimo de “bom”. Assim, um hotel com 1000 quartos é de melhor qualidade que um de 100, embora ambos sejam da mesma categoria. Essa relação entre bom e grande favorece os grandes consórcios transnacionais, uma vez que só estes possuem tamanha capacidade de investimento. A centralização das decisões é fruto de organizações do tipo linear. Tem suas origens vinculadas à organização dos antigos exércitos e na organização eclesiástica da Era Medieval. Nelas, uns mandam e decidem, enquanto os demais obedecem. Alguns pensam, e o restante atua, faz, opera. Com relação ao turismo, as decisões geralmente recaem sobre determinados grupos minoritários que, sem o devido envolvimento dos outros atores interessados na questão, desenvolvem políticas afinadas com seus próprios interesses. As decisões tomadas centralizadamente potencializam os conflitos (ideológicos, políticos, sociais e econômicos) inerentes ao processo de crescimento. A descentralização das decisões viabiliza a criação de estruturas de comunicação mais complexas, dando responsabilidades e direitos a todos aqueles que são afetados pelo desenvolvimento do turismo. Assim como a centralização representa um processo fechado, cuja relação da “indústria do turismo” com o meio no qual está inserida é extremamente instável, uma estrutura descentralizada estabelece um processo aberto, de diálogo, que ativa as capacidades e habilidades da comunidade receptora. 16 A organização do setor nas empresas e na esfera pública reflete o caráter piramidal e burocrático, característico da lógica do mercado de massas. Os governos nacionais direcionam suas ações inspirados na concepção e implementação industrial, ditando leis de fomento e regulamentação e criando organismos públicos responsáveis por estabelecer políticas nacionais de desenvolvimento para o setor. Com essa visão, a indústria turística “contribuiu para a colonização de diversos territórios e sociedades, ampliando significativamente as fronteiras do planeta” (MOLINA, 2003: p. 25), fazendo parte da gênese do processo de globalização que apresentaria seu auge nas décadas de 80 e 90. Sob a influência dos movimentos ecologistas surgidos na década de 70 e em consonância com as transformações sociais promovidas na década de 80, a atividade turística inaugurou uma fase de transição que culminará no que alguns autores (MOLINA, 2003; URRY, 2001; BARRETO, 1998; entre outros) chamam de “pós-turismo” ou, simplesmente, o turismo na pós-modernidade. Essa transição apresenta um modelo pós-industrial que traz em si um paradigma “que despreza os valores, as metodologias e as técnicas chamadas ‘tradicionais’, que foram os suportes da expansão do modelo industrial maduro” (MOLINA, 2003, p. 26). O pósindustrialismo abarca novas configurações que visam garantir espaço às empresas prestadoras de serviço em um mercado cada vez mais competitivo. O niilismo dos valores antes incontestáveis passa pela diferenciação e a desmassificação dos mercados, propondo uma estrutura mais flexível que viabilize uma personificação dos produtos/serviços. A questão ambiental se fortalece, e o mundo começa a discutir estratégias para atingir um desenvolvimento sustentável. As novas influências do mundo pós-industrial têm reflexos decisivos na práxis turística, demandando um reposicionamento estratégico para o setor. O novo paradigma, estruturado a partir dos movimentos sociais e culturais, tem nas tecnologias da informação e 17 comunicação elemento crucial na redefinição do comportamento da demanda, do desempenho empresarial, da função do poder público e do papel das comunidades locais. 2.3. O Pós-Turismo Acompanhando as transformações sociais e culturais contemporâneas, a atividade turística também vive um momento de redefinição de seus valores. O advento da pós-modernidade traz consigo a crítica a muitos dos valores que pautaram o desenvolvimento na Era Industrial. Com o processo de globalização, iniciou-se um novo ciclo de transformações em nossa sociedade. Segundo Bartholo “são transformações de natureza não só tecnológica, mas também organizacional, econômica, política, social e cultural”, repercutindo “em várias esferas da ação humana” (BARTHOLO et al, 2001b: p. 10). A ampliação do comércio e da circulação de bens e serviços, resultante de pressões políticas internacionais pela liberalização e enfraquecimento dos Estados Nacionais, vem derrubando fronteiras e expondo valores culturais antes circunscritos à escala local. As conseqüências dessas pressões podem ser sintetizadas em duas grandes interpretações: a primeira enfatiza a idéia de homogeneização cultural, centrada na difusão da cultura hegemônica, e a segunda destaca um contrafluxo de influências de outras culturas locais e regionais, ocasionando uma fragmentação das identidades culturais. Outra característica do momento atual diz respeito à instalação de sistemas mais personalizados, tanto de produção como de consumo. Em ambos, busca-se repelir os rigores e a uniformidade. No turismo, torna-se necessário encontrar nos destinos a busca por uma identidade (ou várias identidades simultâneas) que vá ao encontro das expectativas da demanda. Nesse sentido, é essencial desenvolver instrumentos de análise da demanda adequados à nova realidade, com o intuito de detectar novos agrupamentos, segmentos e nichos de consumidores. 18 Segundo Urry, é característica de nosso tempo “a recusa das pessoas em aceitar serem tratadas como parte de uma massa indiferenciada” (URRY, 2001: p. 123). Molina complementa, afirmando que “o turista passa de uma atitude passiva, de aceitar o que lhe vendem e de praticar o que lhe sugerem, a decidir por si próprio e a selecionar atividades de seu interesse. Surge, assim, o turismo ativo” (MOLINA, 2004: p. 27). Seguindo essa tendência, Barrett (1989a Apud URRY, 2001: p.133) apresenta um movimento capitaneado por um dos principais jornais britânicos, cujo público-alvo é a classe média prestadora de serviços, o Independent. A “Campanha pelas férias de verdade” resultou em um guia, o Independent Guide to Real Holidays Abroad. The Complete Directory for the Independent Traveller, com características peculiares, em que privilegiava-se a divulgação de destinos que possibilitavam a prática das “férias de verdade”. Barrett afirma que a dificuldade em se desfrutar “férias de verdade” se deve ao “aumento cada vez maior do pacote de férias”, impondo “às viagens, os mesmos problemas que a produção em massa causou à cerveja, ao pão, ao sorvete e a muitas outras coisas” (1989a: p. 1 Apud URRY, 2001: p. 133). Nesse sentido, cabe frisar que, segundo o autor, o olhar turístico coletivo “dificilmente poderia ser descrito como ‘férias de verdade’” (1989a: p. 2 Apud URRY, 2001: p. 133). As férias verdadeiras precisam ter duas características principais: em primeiro lugar, o destino escolhido deve estar fora dos grandes circuitos do turismo de massa, e em segundo lugar, o turista autêntico privilegiará as pequenas agências e operadoras para chegar aos lugares escolhidos. O guia lamenta que entre os britânicos cerca de três quartos dos pacotes de férias vendidos ao exterior sejam negociados por cinco grandes empresas do ramo. Como alternativa ao modelo hegemônico, favorece o desenvolvimento das companhias de menor porte, especializadas em determinados segmentos do “mercado do viajante”. Essas agências de viagens são qualificadas pelo guia como “delicatessen”, ou seja, agências especializadas preocupadas em satisfazer uma clientela independente e exigente (BARRETT, 1989). 19 As grandes empresas do trade turístico não tardaram em reconhecer a importância dessa orientação para as férias. Empresas como a Thomas Cook começaram a trabalhar produtos com um viés mais personalizado, utilizando slogans como: “não se trata de uma excursão para o turista, mas de uma descoberta para o viajante” (Thomas Cook Escorted Journeys Apud URRY, 2001: p. 134). “Aqui, devem-se notar inúmeras ênfases: mais na viagem do que no turismo, na escolha individual, em se evitar os pacotes turísticos, na necessidade de ser um viajante instruído, em uma operação global que possibilita cuidados e atenção individual – sem dúvida um tipo de experiência pós-moderna.” (URRY, 2001: p.134) Como apresentamos, a pós-modernidade trouxe consigo transformações culturais e sociais em grande escala, que vêm influenciando decisivamente os gostos e anseios da demanda turística. Com efeito, os destinos tiveram que passar por processos de reestruturação para se adaptarem a uma nova demanda cada vez mais exigente, que busca a convivência e a troca de experiências e tem necessidades e motivações diferentes. Com a flexibilização da demanda, vem-se exigindo dos destinos sistemas produtivos igualmente flexíveis. Novas formas de trabalho e novos esquemas associativos entre os atores vinculados a diferentes empresas e organizações vêm surgindo para dar conta desse fenômeno. A desmassificação possibilitou o surgimento de diferentes segmentos e nichos de mercado “abrindo espaço ao turismo de interesses especiais, aos segmentos especializados e às empresas especializadas em atender e desenvolver esses segmentos” (MOLINA, 2004: p. 28). Os novos modelos flexíveis pós-fordistas privilegiam o surgimento de novas formas associativas e a gestão integrada, negando valores tradicionais que calcaram o desenvolvimento na Era Industrial. Nesse contexto, são construídas cadeias de valor capazes de gerar e aproveitar sinergias visando uma melhor competitividade no mercado, 20 em um marco de sustentabilidade que assegura a todos – e não para apenas alguns – o desenvolvimento de negócios a longo prazo (MOLINA 2004). O desenvolvimento de destinos com uma estrutura mais complexa implica uma forte colaboração intra-setorial, delineando articulações econômicas através de redes de empresas. Entretanto, não pode se restringir apenas ao setor do turismo. A melhoria da infra-estrutura de acesso, por exemplo, requer a colaboração entre diferentes setores. Molina nos apresenta uma experiência que ilustra a colaboração intra-setorial: “cabe ressaltar a experiência desenvolvida em diversos destinos na Argentina, especialmente aqueles mais distantes dos grandes centros de consumo, onde são praticados novos mecanismos. Por exemplo, a venda de pacotes com tudo incluído envolve diversos prestadores de serviços, não um único hotel, como acontece no México. Dessa forma, o pacote funciona com um hotel base, no qual os clientes são instalados, mas as atividades de entretenimento e as refeições podem acontecer em qualquer restaurante do destino, ou em qualquer clube esportivo, noturno ou centro de diversão. É oferecida ao cliente um relação dos estabelecimentos locais – de diversos proprietários – que ficam à disposição dos turistas que adquirem o pacote. O turista que, nesse caso, não é um pé de chinelo, recebe maior valor agregado por um preço característico de tudo incluído.” (MOLINA, 2004: p. 29) 3. Por um turismo com mais viagens Como citado anteriormente, estamos passando por um processo de transformação em nossa sociedade e os rumos a serem seguidos ainda não estão completamente traçados. Repensar os paradigmas que sustentam nossa sociedade globalizada capitalista é tarefa primordial na agenda para um desenvolvimento sustentável. A globalização contemporânea se caracteriza pela crescente concentração de renda e exclusão social, vinculadas à subordinação dos Estados Nacionais a interesses meramente 21 econômicos. As mazelas e desigualdades geradas por esse sistema são justificadas como pré-condições de um ajuste que traria ao planeta “uma nova era de paz e um novo padrão de relações sociais, bem-estar e prosperidade” (BARTHOLO, 2002). A saturação do modelo de desenvolvimento baseado no sistema de capital é uma realidade negada somente por aqueles poucos que se beneficiam dos altos lucros gerados pelas grandes corporações. Mesmo sendo um modelo que interessa a poucos, podemos encontrar em meio a classe política inúmeras explicações para a manutenção do status quo. Um dos slogans mais utilizados pelo discurso político para justificar suas ações e decisões é aquele que defende a irreversibilidade do sistema de capital: “não há alternativa”. Ora, é muito mais fácil resignar-se à irreversibilidade do sistema de capital que imaginar formas criativas de enfrentá-lo. Esse processo vem encontrando focos de resistência, gerando uma polaridade éticopolítica-ideológica: de um lado, temos os que defendem o livre mercado, o Estado mínimo e a “globalização capitalista” comandada pelas grandes corporações multinacionais. De outro, em contraposição, vemos ganhar força, em todo mundo, grupos preocupados com os “excluídos” gerados por esse sistema selvagem, grupos que defendem uma “globalização solidária”, promotora de justiça social. Nesse contexto, buscamos compreender como a atividade turística pode contribuir de forma consistente na promoção do desenvolvimento social – nas esferas local e regional. O turismo de massa, apesar de movimentar grandes quantidades de recursos, não obteve resultados satisfatórios nesse sentido. Pelo contrário, os impactos causados pelo incremento da atividade turística em muitos destinos mundo afora foram decisivos no agravamento das questões sociais e ambientais. No entanto, acreditamos que as novas configurações apresentadas no que chamamos anteriormente de pós-turismo, se norteadas pelo discurso do desenvolvimento sustentável, podem trazer alternativas interessantes para pensarmos o turismo como fator de promoção da inclusão social. Um elemento fundamental nessa equação é a relação estabelecida entre 22 visitantes e visitados. Se durante o desenvolvimento do turismo industrial dava-se ênfase ao caráter recreativo, contemplativo e de diversão descompromissada com a realidade, vimos surgir com o paradigma do pós-turismo um retorno a alguns conceitos que estavam presentes na gênese do fenômeno, ainda no pré-turismo. No pós-turismo, há uma tendência a encarar as viagens como uma oportunidade de vivenciar uma cultura distante, fora do seu cotidiano. Os avanços das novas tecnologias da informação ampliaram radicalmente os horizontes culturais, aguçando a curiosidade por um contato mais efetivo com as artes, a história, a culinária, o idioma e outras tantas manifestações peculiares a cada lugar. Segundo Barretto (1998), alguns estudos nas áreas da Antropologia e da Sociologia, na Europa, apontam uma mudança no perfil dos turistas, “percebendo um crescente número de pessoas que procuram enriquecer sua bagagem educativa em cada viagem”. A autora se reporta a um estudo realizado em 1995, na Inglaterra, onde cerca de 70% dos turistas viajavam de forma independente e procuravam em suas viagens conhecer aspectos histórico-culturais da região visitada (BARRETTO 1998, p.132). Essas pessoas fazem parte, segundo a pesquisa, de estratos da sociedade com níveis superiores de escolaridade. Os chamados “intelectuais”, independente de sua renda, apresentam gostos mais refinados e um capital cultural que lhes permite desfrutar de outros atrativos diversos dos procurados pelos “turistas diversionários”. Essa dicotomia no perfil dos turistas nos remete a classificação realizada por Cohen (1972) há três décadas. O autor aponta para dois perfis distintos: os peregrinos modernos e os buscadores de prazer. Os primeiros têm como principais características a busca por modos de vida alternativos, pela autenticidade da experiência vivida, e o contato com as culturais visitadas. Em contraposição, os buscadores de prazer querem apenas fugir de seu cotidiano, utilizando lugares que ofereçam equipamentos recreativos e a possibilidade do relaxamento físico e mental. Espelhados nessa classificação e de acordo com a pesquisa apresentada por Barretto, podemos associar, no contexto europeu, o turismo realizado pelos buscadores de prazer à classe trabalhadora que, devido a sua própria inserção social, vê no turismo uma válvula de 23 escape dos intensos trabalhos da vida cotidiana. Por outro lado, podemos associar aos trabalhadores independentes e aos profissionais liberais prestadores de serviços a procura por propostas de turismo que incorporem experiências autênticas e uma maior aproximação cultural com a comunidade visitada, típica dos peregrinos modernos. Não é apenas o âmbito das relações culturais que diferencia esses dois tipos de turistas. Também a forma de apreensão da natureza é diversa nos dois casos. Enquanto os buscadores de prazer exercem suas atividades junto à natureza com caráter contemplativo – no intuito de se descontrair, descansar e tomar sol, por exemplo – os peregrinos modernos têm uma atitude menos passiva, aproveitando uma maior integração com os elementos naturais através de atividades, como o ecoturismo, o trekking, as escaladas, dentre outras (BARRETTO, 1998: p. 134). Barretto destaca ainda que segundo a Sociologia européia contemporânea “este tipo de ‘turista’ não que ser confundido com o estereótipo de turista ‘diversionário’ e quer chamar a si próprio de ‘viajante’, para diferenciar-se” (BARRETTO, 1998: p. 134). A dicotomia apresentada na relação entre visitantes e visitados nos remete a antropologia filosófica de Martin Buber, que em seus estudos propõe que o homem é um ser relacional, cuja relação dialógica com o mundo se inscreve numa ontologia relacional. Dessa forma, Buber diferencia duas atitudes fundamentais do homem diante do mundo, expressas através das palavras-fundantes: EU-TU e EU-ISSO. Ao proferir o par EU-ISSO, o homem considera o ente que tem diante de si como algo a ser utilizado, algo passível de ser apropriado como objeto de “sua” experiência, uma experiência que acontece “nele” e não entre ele e o mundo. No mundo do ISSO, não há a salvaguarda da alteridade do outro e, por isso, torna-se impossível estabelecer um diálogo autêntico, um encontro. Por outro lado, ao fundar uma relação do tipo EU-TU, o homem realiza a inteireza do seu ser como pessoa, estando genuinamente disponível para a vida dialogal. 24 A “relação ontológica EU-TU” e a “experiência objetivante EU-ISSO” são dois modos de existência da vida humana e, como tal, se alternam em estado ora manifesto, ora de latência. Como explica Bartholo: “a relação com o TU não se sustenta por mais tempo que a brevidade do encontro. É assim que cada TU termina por retornar a ‘coisidade’, transformando-se em um ISSO. E é também assim que aquilo que antes se definia como um ISSO pode tornarse um TU no ‘face-a-face’ com a pessoa confrontada pelo EU. Inexistem determinismos técnicos para essa alternância dos modos relacionais EU-TU e EUISSO. É parte da determinação ontológica da liberdade na condição humana, em que os modos relacionais fundamentais são ‘processos que se entrelaçam confusamente numa profunda dualidade’ (BUBER, 1977: p. 20)” (BARTHOLO, 2005). O TU se revela no “face-a-face”. Não existem obstáculos entre o EU e seu TU; a relação entre eles é direta. O encontro genuíno não é planejado, simplesmente acontece. O TU se antecipa em oferta, vem ao encontro do EU e lhe dirige a palavra. Mas, para que o diálogo ocorra, “cabe ao EU a decisão de ir ao seu encontro”, aceitá-lo, acolhendo-o em sua irredutível e inefável alteridade, e responder-lhe TU (BUBER, 1977). A relação com o TU é, por assim dizer, uma “aventura desconhecida, sem as garantias das definições, das classificações, das tipologias” (BARTHOLO, 2002: p.137). A presença do ISSO para o EU não se dá na alteridade. “Quando me relaciono com um ISSO, tenho sempre diante de mim algo que sei, que sei que é isso, e que posso querer saber mais por meio de meus atos de conhecimento. Quando me relaciono com um TU, tenho sempre diante de mim uma pessoa que não sei em sua total inteireza quem é, nem nunca saberei, se não ouvir o que sua presença me diz de si, me deixa saber” (BARTHOLO, 2002: p.137) É importante deixar claro que a possibilidade de dois modos relacionais não implica que haja um, necessariamente, bom e outro ruim. Na concepção antropológico-filosófica de 25 Buber esta polaridade é intrínseca à condição humana. O mundo do ISSO é fundamental para a vida humana. Ele é responsável por suprir algumas de nossas necessidades sociais vitais através de “uma variada gama de atividades técnicas, econômicas, institucionais, jurídicas, etc” (BARTHOLO, 2001: p.79). Desse modo, a relação EU-ISSO não deve ser encarada como um mal a ser evitado, mas Buber já alertava para o risco que a sociedade moderna corre ao encerrar-se nesse tipo de relação. Segundo o autor, o homem que vive somente no âmbito das relações EU-ISSO se desumaniza: “... sem ele tu não podes subsistir, tu te conservas graças à sua segurança, mas se te reabsorves nele, serás sepultado no nada” (BUBER, 1977: p. 36). Assim como na antropologia filosófica de Buber o mundo do ISSO é fundamental para a manutenção da vida humana, no turismo o caráter recreativo, de diversão, também tem a sua importância. Não estamos propondo que o “turista diversionário” seja extinto. O que pretendemos é explicitar a necessidade de um olhar mais responsável para as relações entre visitantes e visitados. O turista imbuído de um olhar mais comprometido com a realidade – a qual está visitando – se torna um consumidor mais responsável e um importante ator na promoção do desenvolvimento social da região em questão. No entanto, para atrair esse público, o destino deve contar com uma estrutura de gestão pública voltada para esse fim. Cabe ao poder público criar condições para a participação efetiva da comunidade receptora na tomada de decisões e a ampla discussão política acerca dos rumos do desenvolvimento do setor. 4. Considerações finais Argumentar sobre maior participação do poder público nos dias de hoje pode parecer anacrônico. No mundo da economia globalizada, comandado pelo sistema da livre circulação do capital, é esperado que os Estados Nacionais interfiram o menos possível na estruturação dos mercados. Dessa forma, a livre concorrência e a lei da oferta e da procura 26 seriam os grandes responsáveis pelo estabelecimento das relações entre o capital e o trabalho. Assim ocorre com praticamente todas as indústrias. Em nossa aldeia global, as indústrias procuram se estabelecer nos países que oferecem as melhores condições – isenções fiscais, leis trabalhistas mais flexíveis, baixos salários, pouca fiscalização quanto à degradação ambiental, etc. – e, em troca, oferecem os tão sonhados empregos proporcionados pelo empreendimento. Todavia, quando essas condições já não são tão favoráveis, o capital industrial se vê livre para procurar outro “porto seguro”, deixando milhares de desempregados para trás. Um bom exemplo é o da indústria automotiva: a grande maioria das montadoras já não tem mais uma planta única em seu país de origem. É mais econômico produzir as auto-peças e montar os automóveis em diversos países – mais perto dos insumos necessários no processo de fabricação e onde a mão-de-obra é mais barata – e, em seguida, exportar o produto final para o resto do mundo. Com pouco poder de barganha, os Estados Nacionais acabam por conceder grandes incentivos para o estabelecimento dessas indústrias. O capital, livre das amarras do trabalho, navega solto pelos sete mares, deixando um rastro de pobreza e degradação ambiental que vem clamando por atenção. O desenraizamento territorial vem se confirmando como uma forte característica das indústrias do século XXI. Se pensarmos na “indústria do turismo”, tendo como referência a concepção industrial madura, apresentada por Molina (2003), veremos que ela estará sujeita a mesma fluidez das demais indústrias de consumo. Um resort instalado na região nordeste do Brasil, por exemplo, não apresenta diferenças substanciais em seus serviços se comparado a um empreendimento similar situado no litoral mexicano, sul-africano ou até mesmo tailandês. Por outro lado, se compreendermos a “indústria do turismo”, utilizando o referencial do pós-turismo, podemos estabelecer um forte vínculo desta com o território onde é realizada. Nessa concepção, o turismo se desenvolve em determinada região pelas suas qualidades únicas, sendo o diferencial uma das ferramentas mais importantes no marketing dos lugares turísticos. Essa característica, então, vai na contramão da tendência de desterritorialização 27 das indústrias, uma vez que o local volta a ter uma importância determinante no processo. Enquanto as demais indústrias podem escolher as melhores condições econômicas para se instalarem, o turismo, como experiência autêntica, depende de regiões específicas nas quais ainda é possível encontrar condições para se desenvolver. Essa característica, contudo, não garante que o tipo de exploração turística instaurada em determinadas regiões seja necessariamente boa para a comunidade, gerando emprego e renda e preservando o ambiente físico e social. Muitos estudos demonstram o caráter híbrido da atividade turismo que, por um lado, tem um enorme potencial de impulsionar o desenvolvimento de uma região e, por outro, pode promover grande degradação ambiental aliada ao agravamento das injustiças sociais. Para que a atividade turística possa efetivar todo seu potencial de inclusão social é necessário que sejam tomadas certas providências no sentido de proteger a região e quem a habita de um mau uso por parte do mercado, que sempre visará o maior lucro possível em detrimento das questões sociais e ambientais. Como já afirmamos, pode parecer anacrônico incumbir ao poder público a regula(menta)ção da atividade, mas este é o único ator capaz de administrar os conflitos e as tensões sociais provenientes do processo de turistificação. Nesse sentido, ainda é possível pensar em modelos de desenvolvimento, orquestrados pelo Estado, que atentem para maiores benefícios socioambientais. Trata-se, portanto, de uma decisão política, uma vez que se apresenta de novo uma interdependência entre o capital e o trabalho local. As políticas públicas de turismo devem se valer não apenas de argumentos econômicos para direcionar suas ações, mas também os de ordem social, cultural e ambiental. Ao mercantilizarmos tais aspectos, somos coniventes com o aumento das desigualdades sociais promovidas pela exclusão de boa parte das populações realmente interessadas nos empregos gerados pelos grandes empreendimentos hoteleiros. Por se tratar de uma decisão política, o Estado deve estar à frente desse processo, salvaguardando o interesse público. Os programas governamentais precisam contemplar as 28 necessidades locais, dando condições para que as comunidades estabelecidas no raio do projeto façam parte do processo, sob o risco de serem socialmente excluídas ou, no limite, destruídas. Cabe ao poder público o reconhecimento de núcleos de resistência étnicoculturais, a fim de reforçar a valorização da cultura nativa. As comunidades locais não podem ficar à margem do processo de desenvolvimento da atividade turística. Pelo contrário, devem se constituir como sujeitos e não como objetos. Os novos paradigmas apresentados nesse capítulo oferecem importantes subsídios para a formulação de políticas públicas, bem como elementos que podem contribuir no planejamento estratégico voltado para o turismo. Quando compreendemos a atividade turística para além de um negócio, notamos as inúmeras possibilidades que ela nos oferece – em termos de intercâmbio entre as pessoas, troca cultural, busca por uma melhoria na qualidade de vida –, visando à promoção da inclusão social. 29 Capítulo II Política e planejamento turístico 1. Introdução O turismo é visto hoje como a atividade econômica que mais cresce no mundo. O potencial gerador de emprego e renda, a quantidade de recursos trazidos pelos viajantes para um determinado destino e o número cada vez maior de pessoas que viajam são apenas alguns indicadores que demonstram a força do setor. No entanto, o que vem chamando mais a atenção da comunidade acadêmica e dos formuladores de políticas públicas dedicados à estruturação do setor é o enorme impacto exercido pelo turista na vida das pessoas e nos locais em que elas vivem. As questões advindas do incremento da “indústria do turismo” estão intimamente ligadas ao debate sobre formas sustentáveis de desenvolvimento. Pode-se pensar que em um mundo repleto de problemas de ordem ambiental, social e cultural, massacrado constantemente por crises econômicas avassaladoras, o turismo não seja um problema merecedor de atenção. Porém, sabemos que devido à amplitude do setor, o turismo contribui e, ao mesmo tempo, apresenta respostas a alguns desses problemas. Apesar dos esforços realizados por acadêmicos e empresários do setor, ainda proliferam no mundo casos em que o turismo chegou com seu potencial transformador alterando a realidade local e causando significativos impactos negativos. Concomitantemente, começam a surgir iniciativas que apontam caminhos sustentáveis para o desenvolvimento da atividade. Nesse cenário cheio de controvérsias e resultados paradoxais, urge refletir sobre quais os rumos que o desenvolvimento da atividade turística deve seguir para cumprir todo seu 30 potencial benigno, minimizando seus impactos negativos. Nesse sentido, alguns teóricos, baseados em experiências isoladas, apontam o planejamento turístico estratégico e integrado enraizado na comunidade local como um possível redentor da atividade. 2. O imperativo sustentável do turismo A herança intelectual do conceito de sustentabilidade remonta ao início do século XIX. No entanto, foi apenas no século XX e no mundo globalizado estabelecido no final do milênio que a preocupação com a forma de utilização e conservação dos recursos naturais passaram a fazer parte dos debates sobre desenvolvimento e crescimento econômico. Com isso, os inter-relacionamentos entre meio ambiente, sociedade e economia ficaram cada vez mais evidentes, exigindo novas teorias que dessem conta das novas questões. O Relatório da Comissão Mundial de Meio Ambiente e Desenvolvimento (WCED) – também conhecido como Relatório de Brundtland – definiu desenvolvimento sustentável como “aquele que atende as necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem às próprias necessidades” (WCED, 1987) e apontou para cinco princípios básicos a serem seguidos: (a) o conceito de planejamento holístico e a criação de estratégias; (b) a importância de preservar processos ecológicos essenciais; (c) a necessidade de proteger o patrimônio humano e a biodiversidade; (d) a necessidade de buscar um tipo de desenvolvimento que permita a produtividade ser sustentada no longo prazo para as gerações futuras (o conceito de equidade intergeracional); (e) a meta de atingir um equilíbrio de justiça e oportunidades entre nações. Os conceitos de sustentabilidade e desenvolvimento sustentável estão presentes nas discussões do meio acadêmico e não devem ser encaradas apenas como idéias abstratas, mas como conceitos que afetam o cotidiano de todos no planeta. A sustentabilidade vem se firmando cada vez mais como um problema ético-político que requer novas formas de apreensão da natureza e o verdadeiro propósito do desenvolvimento e crescimento econômico, aliados a uma redefinição dos papéis dos indivíduos, do governo e do setor privado na busca por futuros sustentáveis. 31 Vimos crescer nas últimas décadas, nas sociedades ocidentais, um forte movimento de liberalização dos mercados, pregando uma economia monetarista e a negação de um interesse público. Tal movimento, vai de encontro ao conceito de desenvolvimento sustentável, uma vez que ao enfatizar aspectos puramente econômicos do desenvolvimento não dá conta de dimensões essenciais da vida humana, tais como o bem-estar do ambiente físico e social. Ao basearmos o conceito de desenvolvimento em uma visão economicista, perdemos de horizonte quaisquer conseqüências de ordem ambiental e social. Dados econômicos isolados não oferecem uma estimativa da utilização produtiva dos recursos – por exemplo, se são renováveis. Uma abordagem unicamente econômica não registra os custos ambiental e social associados à produção econômica. Dessa forma, como disse Oscar Wilde, poderemos acabar sabendo “o preço de tudo e o valor de nada”.6 Uma visão ampliada de desenvolvimento nos remete a dois conceitos-chave, a saber, a conservação do “capital ambiental” e a idéia de “capital social”, que ao serem incorporados na equação do crescimento econômico trariam uma resposta às necessidades socioambientais. Todavia, sabemos das dificuldades em se levar em conta tais aspectos em meio a um sistema político-econômico que privilegia a manutenção e, principalmente, o aumento dos níveis de crescimento econômico. Fazem-nos acreditar que não é possível realizar grandes alterações de curso em virtude da incapacidade de viabilizá-las no “mundo real”. Nesse sentido, somos convidados a nos resignar com a situação atual sem nos importar com os destrutivos antagonismos necessários ao funcionamento ideal dos “mecanismos de mercado”. No mundo real sem alternativas ao modelo vigente, só nos resta assistir ao aumento das instabilidades sociais características de um modelo cuja estrutura já dá sinais evidentes de esgotamento. As únicas mudanças permitidas nesse modelo são de ordem paliativa e dão conta apenas de 6 http://www.quotationspage.com – nossa tradução. 32 certos efeitos negativos, mas sem qualquer tipo de intervenção na sua base causal, ou seja, “o sistema dado de controle metabólico”. (MÉSZÁROS, 2002: p. 39) A tentativa de separar efeitos e causas nos remete a outra falácia dos dias de hoje: atribuir o status de regra a uma exceção. É assim que podemos desvincular a miséria e o subdesenvolvimento crônico “da dominação e da exploração neocolonial da esmagadora maioria da humanidade por um punhado de países capitalistas desenvolvidos”. Desse modo, prega-se a emulação do desenvolvimento dos países “capitalistas avançados” sem levar em conta nem as vantagens do passado imperialista, nem os imensos lucros obtidos com a manutenção do terceiro mundo na condição de dependência estrutural (MÉSZÁROS, 2002: p. 39). Outro fator relevante que inviabiliza a universalização do modelo atual de desenvolvimento diz respeito à utilização predatória dos recursos naturais do nosso planeta. O desenvolvimento dos países de “capitalismo avançado” se deu a um elevado custo ambiental que, se universalizado, provocaria um colapso e todo o sistema desmoronaria instantaneamente. Para ilustrar essa questão, basta imaginarmos o que aconteceria se toda a população mundial tivesse o mesmo padrão de consumo de recursos energéticos da população americana. Esta, cerca de 5% da população mundial, é responsável por 25% do consumo dos recursos energéticos disponíveis. E, como questiona Mészáros, “o que aconteceria se os outros 95 % adotassem o mesmo padrão de consumo e tentassem retirar dezenove vezes 25% dos restantes 75%?” Fica clara a necessidade de se pensar um novo sistema sociometabólico, desenraizado de diretrizes meramente econômicas e com uma visão de longo prazo. Nesse sentido, a sustentabilidade se caracteriza como uma meta política, porém com características peculiares, uma vez que não trata de um objeto específico ou de fácil compreensão e quantificação. Diante desse quadro, podemos dizer que alguns dos principais problemas a serem superados em nosso tempo dizem respeito às questões políticas e de planejamento. Com 33 isso, também, cabe analisar como o planejamento turístico pode contribuir para formas mais sustentáveis de desenvolvimento. 3. Política e planejamento Os termos planejamento e política estão intimamente ligados. Compreendemos por planejamento um conjunto de decisões a serem colocadas em prática no futuro. Portanto, planejar é apenas uma etapa de um processo global que envolve “planejamento-decisãoação”. Como um processo global, o planejamento deve se ocupar de um conjunto de decisões interdependentes ou sistematicamente relacionadas e não com decisões individuais. Enraizado no conceito de sustentabilidade, podemos dizer que a característica mais importante do planejamento é aquela que visa garantir a equidade intergeracional, ou seja, o fato de estar voltado para o futuro. No âmbito governamental, Cullingsworth (1997: p. 5) conceitua planejamento como o “processo intencional em que se definem metas e se elaboram políticas para implementálas”. A análise das políticas nos permite compreender e explicar o conteúdo das decisões e como elas foram tomadas. Em se tratando da política oficial, é possível extrair, por exemplo, a confluência de valores que regem a ordem governamental. A elaboração de políticas públicas reflete, portanto, todo um ambiente político, caracterizando valores e ideologias, distribuição do poder, estruturas institucionais e processos de tomadas de decisão. Segundo Dye (1992: p. 2), política pública “é tudo o que o governo decide fazer ou não”. Essa definição explicita que as políticas são escolhas deliberadas de cursos de ação, adotadas pelos que estão no poder, entre alternativas, e refletem as decisões e não-decisões, ações e inações do governo. Falar em políticas voltadas para o interesse público e planejamento governamental dedicado a setores comandados predominantemente pela iniciativa privada, como é o caso do turismo, pode parecer anacrônico devido às tendências atuais de menor intervenção do 34 governo no cotidiano da sociedade. Tais tendências são sintomáticas do modelo neoliberal e estão cada vez mais difundidas no mundo ocidental. Todavia, segundo Haughton e Hunter (1994: p. 263), as imperfeições do mercado oferecem inúmeros motivos para a intervenção econômica do Estado, incluindo: (a) melhorar a competitividade econômica; (b) retificar direitos de propriedade; (c) possibilitar que tomadores de decisão do Estado considerem externalidades; (d) oferecer benefícios públicos amplamente disponíveis; (e) reduzir riscos e incertezas; (f) apoiar projetos com elevados custos de capital e envolver novas tecnologias; e (g) educar e oferecer informações. 4. Planejamento em turismo O planejamento turístico e a intervenção do governo no desenvolvimento do setor se mostram necessários no momento em que surgem inúmeros casos onde a atividade turística foi responsável por grandes impactos indesejáveis, principalmente na escala local. A rápida expansão do setor, que hoje se caracteriza como uma atividade de massas, aliada à cultura capitalista de consumo de produtos turísticos, fez com que o setor público se ocupasse apenas em dar respostas a problemas surgidos em decorrência do impacto do turismo em determinados destinos. Tal (falta de) estratégia é a antítese do que entendemos por planejamento turístico, uma vez que se apresenta como uma reação a um impacto já ocorrido. Embora não seja a resposta para todos os males gerados pela atividade turística, o planejamento, quando voltado para os processos, pode minimizar os impactos negativos e maximizar retornos econômicos nos destinos, beneficiando assim, as comunidades locais (Hall, 2001). Todavia, alguns aspectos precisam ser levados em conta quando tratamos de planejamento turístico. Para que este represente efetivamente as ambições da comunidade de um dado destino, é necessário que esta esteja envolvida de forma ativa em todas as etapas do planejamento. Outra consideração diz respeito ao caráter pluralista do planejamento, uma vez que deve abarcar dimensões sociais, econômicas e físicas. 35 Como uma área de pesquisa mais abrangente, o planejamento turístico, influenciado pelas tradições do planejamento urbano e regional, tem concentrado esforços no que se refere ao planejamento dos destinos e não no planejamento comercial do turismo individual. Com o ganho de importância das questões ligadas ao ecoturismo e à sustentabilidade, o planejamento turístico vem sofrendo grande influência do planejamento ambiental e, conseqüentemente, vem agregando valor ao componente das articulações políticas. Desse modo, o planejamento turístico passa a ser visto não mais como um exercício de planejamento de uso do solo, embora esse seja de extrema importância para as regiões de destino, mas como um complexo relacionamento de atividades que vão do âmbito local ao global. Outra importante função que o planejamento público em turismo vem assumindo recentemente não está ligada apenas aos impactos negativos do setor. Com a dinâmica do mercado turístico e o crescimento da concorrência entre os destinos, a preocupação em como manter a atratividade dos produtos também vem sendo trabalhada no âmbito do planejamento turístico. Assim, é possível melhorar vários aspectos das atrações, instalações e infra-estrutura de modo a aumentar a captação de visitantes ou pelo menos ampliar o ciclo de vida do produto. 5. Um breve histórico do planejamento turístico Dos anos que sucederam a Segunda Grande Guerra até os dias de hoje, os métodos de planejamento turístico não se mantiveram constantes. Podemos identificar que, seguindo a análise de Hall (2001) sobre dados da OECD (Organization for Economics Co-operation and Development), os países desenvolvidos passaram por quatro fases distintas quanto à atuação de suas políticas no setor turístico. A primeira corresponde aos dez anos seguintes ao término da II Guerra Mundial (1945-1955). Nesse período, os governos estavam empenhados em promover o rearranjo institucional necessário no pós-guerra, privilegiando a desagregação e a racionalização da política, da alfândega, da moeda e de regulamentações que haviam sido adotadas logo após a guerra. 36 Num segundo momento, entre 1955 e 1970, os governos passaram a se envolver mais com questões ligadas ao marketing turístico, a fim de aumentar o potencial de ganhos do setor. Em seguida, entre 1970 e 1985, os governos se dedicaram ao fornecimento de infraestrutura turística e no uso do turismo como instrumento de desenvolvimento regional. A partir de 1985, com a mudança na ideologia política vigente em boa parte dos países ocidentais, houve reflexos nas políticas públicas do setor turístico. Embora o principal foco das ações continuasse sendo o turismo como instrumento de desenvolvimento regional, a mudança no ambiente político fez com que o envolvimento dos governos fosse menor no fornecimento de infra-estrutura turística, aumentando, assim, a ênfase no desenvolvimento de parcerias público-privadas. Outra característica desse período é o aumento das pressões pela auto-regulamentação do setor. O ponto positivo fica por conta da inserção das questões ambientais nas discussões sobre o desenvolvimento da atividade. Interessados no grande potencial de desenvolvimento econômico e regional da atividade turística, muitos governos passaram a adotar medidas de planejamento turístico. No entanto, o resultado desse planejamento não necessariamente atende aos desejos da comunidade anfitriã. Uma das principais características nesses casos é um processo “de cima para baixo”, que trata a comunidade como objeto, tirando-lhes o controle sobre seus destinos. O papel do Estado perante o organismo social tem estado presente em discussão nas sociedades ocidentais nas últimas décadas. Sob influência do ideário neoliberal, muitos governos passaram a adotar um postura empresarial em relação ao turismo, a fim de aumentar a contribuição financeira do setor à receita do Estado. Com isso, os investimentos em divulgação e marketing dos destinos, bem como o desenvolvimento de parcerias com o setor privado em atrações e instalações turísticas, aumentaram consideravelmente nos últimos anos. Alguns intelectuais defendiam uma postura ainda mais radical. Como observou Hughes ao criticar o apoio dado pelo governo britânico as empresas de turismo, 37 “Government support may mean that tourism enterprises are stimulated and continue in existence because of the support and not particularly because of costumers demand. The payment of grants to firms may imply and artificial propping-up of firms, which in turn created subsidized jobs. Such subsidization is often popularly considered to be an undesireble featuring of a free enterprise economy. The fact that much of manufactory industry in the UK is also so supported because ought not to detract from the basic issue. Many firms may be supported because of their employment or balance of payments effects but at the risk of maintaining inefficient firms in existence and thus misusing the nation´s resources. Even where the efficiency of firms is not in question it is doubtful if it is wise to artificially promote firms which would not otherwise come into existence, solely on employment or balance of payment grounds. The advocates of a free enterprise economy would look to costumers freedom of choise and not to governments to promote firms; the costumer ought to be sovereing in decisions relating to the allocation of the nation´s resources” (HUGHES, 1984, 13-14) Os rumos tomados pelas políticas públicas de turismo, em muitos países, vêm contrariando as indicações da União Internacional de Organizações de Viagens (IUOTO), precursora da Organização Mundial de Turismo (OMT), que em 1974 já destacava a importância do setor, afirmando que para fomentá-lo e desenvolvê-lo “numa escala proporcional à sua importância nacional e mobilizar todos os recursos para esse fim, seria necessário centralizar os poderes responsáveis pela elaboração de políticas nas mãos do Estado para que ele pudesse tomar todas as medidas apropriadas, a fim de criar uma estrutura adequada para a divulgação e o desenvolvimento do turismo pelos vários setores envolvidos” (IUOTO, 1974: p. 71 in HALL, 2001) A justificativa que enfatiza o tamanho ou a importância econômica do setor não encontra eco nos dias de hoje. A participação do Estado no setor turístico, bem como em outros 38 setores da arena política pública (educação, saúde, bem-estar, dentre outros) deve basear-se na incapacidade do mercado em suprir todas as necessidades sociais. Cabe aos governos, por meio de suas políticas públicas, oferecer alternativas corretivas ao mercado. As imperfeições do mercado aparecem de diversas formas. Para ilustrar a questão basta escolhermos um dos muitos casos em que a “indústria do turismo” foi responsável pela degradação ambiental da localidade. Era de se esperar que uma indústria que tem na qualidade ambiental uma de suas principais matérias-prima fosse se preocupar em mantê-la. Entretanto, em um setor onde diversos empreendimentos, concorrentes entre si, utilizam um mesmo recurso natural, corre-se o risco de haver uma má conservação do ambiente. Isso acontece porque muitas empresas consideram o recurso “livre”, ou seja, suas atividades individuais não prejudicam a qualidade do todo. Porém, basta que algumas empresas tenham essa atitude para que em pouco tempo nenhuma possa mais desfrutar do atrativo. O setor privado raramente está interessado nas questões ligadas ás necessidades sociais e ambientais de longo prazo. A busca pelo aumento de receita e lucros de curto prazo pode causar impactos negativos não só para a economia local como para o bem-estar de toda a comunidade. Nesse caso, o governo local é chamado a interferir de forma a corrigir o problema. Casos como o supracitado poderiam ser menos freqüentes se houvesse uma real compreensão dos vários impactos provenientes do turismo. As dificuldades em entender a dinâmica da atividade turística têm como pano de fundo a falta de interesse em pesquisa na área. O planejamento turístico, quando compreendido como um processo dinâmico, necessita de ferramentas como as análises e o monitoramento de políticas públicas para manter o equilíbrio rumo aos objetivos e metas traçados. No entanto, os governos se mostram mais preocupados com a divulgação e os retornos no curto prazo do que com o investimento estratégico e a sustentabilidade. 39 6. Métodos de planejamento turístico Embora o planejamento turístico seja geralmente reconhecido como algo necessário, as formas e os métodos mais eficientes de planejamento continuam sendo contestados. Além disso, o planejamento ocorre em diferentes níveis e segundo vários procedimentos. Mesmo com tantas incertezas, é possível traçar características inerentes ao processo de planejamento turístico. Como veremos a seguir, as motivações econômicas são uma constante nos diferentes procedimentos de planejamento. Entretanto, reconhecemos um movimento contemporâneo de valorização dos aspectos sociais e ambientais do desenvolvimento turístico e de formas mais sustentáveis de turismo em geral. Getz (1987) identificou quatro procedimentos presentes em experiências de planejamento turístico: (a) fomento, (b) uma abordagem econômica voltada para a indústria, (c) uma abordagem físico-espacial, cada vez mais voltada para o planejamento ambiental, e (d) uma abordagem voltada para a comunidade, com ênfase no papel desempenhado pelo anfitrião na atividade turística. Tais procedimentos, segundo o autor, podem ser executados em conjunto, mas não são necessariamente seqüenciais. Apresentaremos uma breve descrição de cada um desses procedimentos que, mais adiante, servirão de base para um debate sobre o desenvolvimento de um modelo sustentável de planejamento turístico. 6.1. Fomento A tradição do fomento tem sido utilizada no planejamento turístico desde que se iniciou a indústria do turismo de massas. Alguns especialistas contestam a categorização do fomento como forma de planejamento, pois esta parte do princípio de que a atividade turística é inerentemente boa e promove vantagens automáticas para o anfitrião. Com isso, os potenciais impactos negativos de ordem econômica, social e ambiental são desconsiderados, sendo mascarados por um desenvolvimento parcial da atividade que a curto prazo beneficia apenas alguns empreendedores envolvidos diretamente no processo. 40 Os recursos culturais e naturais da comunidade são incorporados ao planejamento como potencialidades a serem exploradas. Com o desenvolvimento da atividade, começam a surgir as primeiras marcas negativas no cenário físico e econômico, podendo, quando percebidas tardiamente, tornarem-se irreversíveis. As origens da tradição do fomento nos remetem à concepção do turismo industrial. No início, a atividade turística organizada não representava um grande perigo para as novas áreas ainda inexploradas, onde a abundância de recursos naturais impressionava. Em áreas pouco exploradas dos Estados Unidos, onde foram criados os primeiros parques nacionais, por exemplo, os efeitos do turismo eram insignificantes (HALL, 2001). Mesmo com o incremento da atividade, a percepção do turismo como um setor inerentemente benigno e inofensivo perdurou durante anos e apenas recentemente vem sendo contestada. Uma característica marcante do fomento é a não-participação dos residentes nas tomadas de decisão que envolvem o planejamento turístico. Eles são convidados a serem agradáveis com os visitantes e, quando não o fazem, são taxados de antipatriotas, pois não estão colaborando com o progresso da região (HALL, 2001: p. 43). Segundo Getz (1987: p. 10): “O fomento ainda é praticado, e sempre será, por dois grupos de pessoas: políticos que filosófica ou pragmaticamente acreditam que o crescimento econômico sempre deve ser incentivado, e por aqueles que terão ganhos financeiros com o turismo. Eles continuarão a divulgá-lo até que constatem que os recursos a serem explorados se acabaram, que os custos reais ou de oportunidade são extremamente elevados, ou que a oposição política ao crescimento não pode mais ser combatida. Nesse ponto, os verdadeiros prejuízos geralmente já se instalaram.” Dessa forma, podemos concluir que a tradição do fomento pode ser mais bem descrita como uma forma de não planejamento. 41 6.2. A tradição econômica: o turismo como indústria A “indústria do turismo” , como o setor é chamado segundo a tradição econômica, é uma ferramenta muito utilizada por governos para atingir metas de reestruturação e crescimento econômico, geração de empregos e desenvolvimento regional. Embora seja de conhecimento geral que o turismo não é uma resposta para todos os males econômicos, este modelo destaca o potencial econômico da atividade principalmente como indústria de exportação, aquela que contribui de forma positiva no equilíbrio nacional e regional em aspectos como relações de troca, balança de pagamentos e níveis de câmbio exterior. Ao orientar o planejamento enfatizando aspectos econômicos, o governo procura utilizar o turismo como elemento-chave na promoção do crescimento e desenvolvimento de áreas específicas, por meio da geração de emprego e de renda. Dentro desta abordagem, os aspectos que definem a atividade como indústria são valorizados, a fim de que se possa medir sua contribuição e produção econômica e avaliar o desempenho do governo na condução do processo. Uma característica relevante nesse processo é a utilização de estudos de análise de mercado para que se possa definir campanhas de marketing e divulgação, fundamentais na captação do tipo de visitante que trará mais benefícios econômicos para a região. Por meio de estudos como o de segmentação de mercado e de adequação do produto aos mercados, é possível conhecer melhor os recursos turísticos específicos da região e a melhor forma de explorá-los. Nessa abordagem, as metas econômicas ganham maior importância em relação aos eventuais problemas sociais e ecológicos. A questão de quem se beneficia e quem perde com o desenvolvimento do turismo dificilmente vem à tona. 6.3. A abordagem do uso do solo – físico-espacial A abordagem físico-espacial tem suas origens vinculadas ao planejamento do uso do solo e foi muito influenciada por grupos conservacionistas defensores do uso racional dos recursos naturais. Um dos métodos mais antigos de proteção ambiental, o planejamento do 42 uso do solo é muito utilizado como uma forma de planejamento turístico público por estar relacionado diretamente com o planejamento regional e de destinos. Na esfera do turismo, o planejamento físico e espacial apresenta um componente ecológico responsável por balizar a atividade em padrões aceitáveis, buscando minimizar os impactos decorrentes da atividade no ambiente físico. Sendo assim, se preocupa com questões vinculadas à capacidade de saturação física e social, pontos de saturação ambiental, índices aceitáveis/desejáveis de mudança, entre outros. Muitos parques nacionais vêm incluindo em seus planos de manejo estudos sobre zoneamento com o objetivo de organizar a circulação de visitantes, concentrando ou dispersando os turistas, a fim de salvaguardar áreas sensíveis. Um caso ilustrativo dessa questão é a revisão do plano de manejo do Parque Nacional do Iguaçu, realizada em 2000 pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis). Nessa ocasião, os técnicos contratados pela instituição realizaram um zoneamento da área do parque identificando sete zonas distintas, a saber: • Zona Primitiva - aquela onde ocorreu pequena ou mínima intervenção humana e que ainda contém espécies da flora e da fauna ou fenômenos naturais de grande valor científico. Possui as características de zona de transição entre a Zona Intangível e a Zona de Uso Extensivo. • Zona Intangível - aquela onde a primitividade da natureza permanece intacta, não se tolerando quaisquer alterações humanas, representando o mais alto grau de preservação. Funciona como matriz de repovoamento de outras zonas, onde já são permitidas atividades humanas regulamentadas. • Zona de Recuperação - aquela que contém áreas consideravelmente alteradas pelo homem. Trata-se de zona provisória que, uma vez restaurada, será incorporada novamente a uma das zonas permanentes. As espécies exóticas introduzidas devem ser removidas, e a restauração deve ser natural ou naturalmente agilizada. 43 • Zona de Uso Extensivo - aquela constituída em sua maior parte por áreas naturais, podendo apresentar alguma alteração humana. Caracteriza-se como uma zona de transição entre a Zona Primitiva e a Zona de Uso Intensivo. • Zona de Uso Especial - aquela que contém as áreas necessárias à administração, à manutenção e aos serviços do Parque, abrangendo habitações, oficinas e outros. Tais áreas são escolhidas e controladas de forma a não conflitarem com seu caráter natural e devem localizar-se, sempre que possível, na periferia do Parque Nacional. • Zona Histórico-Cultural - aquela onde são encontradas manifestações históricas e culturais ou arqueológicas, que serão preservadas, estudadas, restauradas e interpretadas para o público, servindo à pesquisa, à educação e ao uso científico. • Zona de Uso Intensivo - aquela constituída por áreas naturais ou por alterações antrópicas. O ambiente é mantido o mais próximo possível do natural, devendo conter: centro de visitantes, museus e outras facilidades e serviços. Devemos notar que, nesse caso, a zona de uso intensivo recebe aproximadamente 1 milhão de turistas por ano e representa cerca de 3 % da área total do parque. Fica clara a opção feita pelos planejadores em sacrificar a região das cataratas (principal atrativo do parque), mantendo o restante do parque como área restrita. Na tradição espacial, leva-se em conta a tendência dos destinos evoluírem e declinarem em relação ao mercado – abordagem econômica – e aos recursos de uma região – a abordagem física. Dessa forma, busca superar tais instabilidades por meio de planos de desenvolvimento de turismo que definem as capacidades/limitações dos recursos naturais da região em relação à implantação de uma estrutura turística. Embora o planejamento físico-espacial seja muito eficaz na proteção do ambiente físico, ele apresenta uma visão distorcida, pois não considera os aspectos socioculturais dos destinos. Com a evolução da abordagem do uso do solo/espacial, já é possível identificar uma preocupação com a integração das questões socioambientais. De fato, buscando responder aos princípios do desenvolvimento sustentável, o planejamento do uso do solo tem 44 procurado agregar à sua abordagem ecológica elementos de cunho social e cultural. A esta nova configuração de planejamento, concebida através de uma abordagem holística de ambiente, que tenta entender não só o ambiente físico ou social, mas sim os relacionamentos humanos-ambientais, dá-se o nome de planejamento ambiental. Ao trabalhar com uma abordagem mais ampla, o planejamento ambiental está sujeito a enfrentar sérios obstáculos no decorrer de seu processo. Os conflitos podem variar desde a própria definição do que é sustentável até discussões sobre as diversas soluções técnicas em gerenciamento e compensação de impactos. Isso apenas corrobora a dimensão política que a sustentabilidade assume no processo de planejamento. Como Evans afirma: “para que o planejamento ambiental com vistas à sustentabilidade [...] seja pelo menos um pouco eficiente, os processos políticos de controvérsia e debate públicos, tanto formais quanto informais, precisarão desempenhar um papel muito mais representativo do que tem feito até agora”. (EVANS, 1997: p. 8) 6.4. O planejamento turístico voltado para a comunidade Até o início dos anos 80, pouco tinha se estudado sobre os impactos sociais e ambientais decorrentes do desenvolvimento da atividade turística. Com o crescimento do setor, reconheceu-se gradativamente os efeitos indesejáveis provenientes do turismo, sendo esses associados inicialmente às nações menos desenvolvidas. Entretanto, com o passar dos anos, países desenvolvidos da Europa e da América do Norte apresentaram inúmeros problemas característicos do incremento do setor. Mesmo de difícil quantificação, os impactos sociais do turismo talvez sejam o principal aspecto do desenvolvimento da atividade. Um estudo mais aprofundado, abordando tais impactos, é visto hoje não apenas como uma necessidade ética de envolvimento da comunidade nos processos de decisão, mas como um componente vital em todo o crescimento e desenvolvimento turístico. 45 Os relacionamentos envolvendo a população residente e os visitantes são de extrema importância para o desenvolvimento turístico, uma vez que afetam diretamente no processo de tomada de decisão do turista quando convidado a escolher seu destino. Quando residentes de comunidades turísticas sentem que o turismo está destruindo de alguma forma seu ambiente físico ou social, as relações visitante-visitado se desgastam, prejudicando a imagem do destino. Como forma de minimizar os impactos decorrentes do turismo, algumas estratégias alternativas estão se desenvolvendo destacando, principalmente, o contexto social e físico em que esse turismo ocorre. McIntosh e Goeldner (1986 Apud HALL, 2001) ressaltaram a necessidade de um maior envolvimento comunitário no planejamento turístico com as seguintes metas: 1) proporcionar uma estrutura para elevar o padrão de vida dos residentes locais por meio dos benefícios econômicos gerados pelo turismo; 2) desenvolver uma infraestrutura e oferecer instalações recreativas para residentes e visitantes; 3) assegurar que os tipos de avanços ocorridos nos centros de visitantes e resorts sejam adequados aos objetivos dessas áreas; 4) criar um programa de desenvolvimento consistente com a filosofia cultural, social e econômica do governo e das pessoas que vivem na região visitada; e 5) otimizar a satisfação do visitante. Outras propostas de uma abordagem comunitária para o desenvolvimento turístico vêm sendo elaboradas no sentido de defender o controle local sobre o processo de desenvolvimento. O pano de fundo conceitual desse tipo de abordagem da ênfase à satisfação das necessidades locais e, em decorrência desta, a satisfação das necessidades do turista. Dessa forma, o ponto central do exercício do planejamento turístico são os residentes e não os turistas. Segundo Hall (2001: p. 55), “uma abordagem comunitária no planejamento turístico é, portanto, uma forma de planejamento ‘às avessas’, que enfatiza o desenvolvimento na comunidade e não da comunidade”. Do ponto de vista conceitual, o planejamento comunitário de destinos turísticos já esta razoavelmente desenvolvido. A maior dificuldade é encontrada na implementação e operacionalização de tais conceitos, devido à natureza política do processo de 46 planejamento. O planejamento comunitário implica um grau de comprometimento com o interesse público e participação no processo de tomada de decisão. Esses fatores são determinantes e que boa parte das comunidades ainda não estão preparadas para enfrentálos. Por outro lado, muitos integrantes do governo vêem na participação comunitária uma perda de poder e controle no processo de planejamento. De fato, o que se vê em experiências ao redor do mundo são processos de validação em que as principais decisões norteadoras já foram tomadas pelos representantes do governo, e a comunidade não tem a oportunidade de dizer não. Como observamos, o planejamento turístico é um processo dinâmico que reflete as exigências de grupos de interesse diversos, valores da comunidade e da sociedade e o contexto socioeconômico-ambiental em que ocorre. A abordagem comunitária pode ser vista como um ponto de partida de um planejamento turístico de longo prazo, preocupado em salvaguardar o controle do índice de mudanças por parte da comunidade e garantir ao visitante uma experiência única no destino. 7. Uma abordagem sustentável ao planejamento turístico Quando a atividade turística ganhou status de indústria, logo após a Segunda Guerra Mundial, não havia evidências de que suas atividades poderiam trazer prejuízos de ordem ambiental e social. O número de turistas era muito inferior aos atuais e foi apenas com avanços tecnológicos no setor da aviação comercial, a partir dos anos 1970, com a chegada dos aviões Jumbo, que discussões envolvendo aspectos da sustentabilidade, tais como, limitações ambientais e sociais do desenvolvimento, ganharam algum destaque. Com isso, explica-se a tardia incorporação dos princípios do desenvolvimento sustentável ao desenvolvimento turístico. O turismo vem tentando cumprir os principais objetivos do desenvolvimento sustentável – por exemplo, minimizar o esgotamento de recursos, a degradação ambiental e as instabilidades sociais – no entanto, algumas contradições entre o turismo e o desenvolvimento sustentável podem tornar muito difícil a operacionalização completa do 47 conceito. Como Pearce, Barbier e Markandya (1989 Apud Hall, 2001: p. 58) observaram “a sustentabilidade implica um prazo infinito, enquanto a tomada de decisões práticas exige a adoção de prazos finitos”. Ainda que alguns fatores compliquem o cumprimento de algumas metas do planejamento de desenvolvimento sustentável, eles não podem ser vistos como elementos que impeçam sua realização. Em vez disso, devem enfatizar a necessidade de um acompanhamento contínuo das atividades de planejamento. A complexidade dos arranjos institucionais do setor turístico, bem como os interrelacionamentos entre seus componentes representam uma das principais dificuldades na elaboração de um dos pré-requisitos do desenvolvimento sustentável, o planejamento estratégico. A falta de sincronia entre as ações políticas e a prática, aliada à atenção inadequada e a fatores que determinam a sustentabilidade social, econômica e ambiental podem conduzir a conseqüências indesejáveis e imprevistas e, muitas vezes, irreversíveis. O planejamento comunitário é a base para o desenvolvimento da atividade turística sustentável, mas é necessário que sejam incorporados aspectos coordenativos, interativos, integrativos e estratégicos para que se possa falar em uma abordagem sustentável de planejamento turístico. O meio mais eficaz de se desenvolver formas sustentáveis de turismo é convencer os governos e o trade turístico a adotarem princípios do desenvolvimento sustentável aos planejamentos e às operações. Dutton e Hall (1989 Apud HALL, 2001: p. 59) destacaram cinco mecanismos pelos quais é possível atingir uma abordagem sustentável de planejamento turístico: • Sistemas de controle cooperativos e integrados. Muitas vezes, em processos de planejamento público, o que se vê são reuniões públicas formais, normalmente ao final do processo, para validar decisões previamente tomadas. Um estilo interativo assume que os melhores resultados são obtidos através de processos participativos e abertos. Uma abordagem integrativa é útil para explicitar os benefícios e os custos do desenvolvimento turístico e promover a melhoria no relacionamento entre as partes interessadas. É necessário 48 também que haja incentivos a benefícios mútuos, pois “a cooperação por si só não cria um comprometimento em relação ao desenvolvimento sustentável”. (Hall 2001, 60) • Desenvolvimento de mecanismos de coordenação do setor. Os governos precisam atentar para a necessidade de se estimular a criação de parcerias e relacionamentos efetivos entre grupos formais e informais no setor. Essas parcerias têm caráter político e podem contribuir significativamente rumo ao desenvolvimento sustentável. Com a criação, por exemplo, de códigos de conduta ou códigos ambientais é possível minimizar impactos em ambientes naturais ameaçados. Entretanto, deve-se assegurar que tais iniciativas não caiam no erro de definir o “menor denominador comum”, tanto no desenvolvimento como na implementação das regras. • Aumento da consciência do consumidor. Em muitos casos, pode ser difícil para os consumidores diferenciarem operações de turismo sustentáveis e não sustentáveis. Sendo assim, para se beneficiarem de experiências de melhor qualidade e diminuírem os impactos nas comunidades hospedeiras, é necessário uma tomada de consciência por parte do turista quanto aos produtos e serviços por ele consumido. Embora seja possível uma mudança no comportamento do turista, o cerne da questão está na elaboração de formas mais sustentáveis para os produtos e serviços turísticos oferecidos ao consumidor. Para ilustrar a capacidade dos mercados em adaptar-se aos princípios do desenvolvimento sustentável, basta citar o exemplo da mudança ocorrida no turismo de aventura, que passou de serviços destrutivos para experimentais, por exemplo, da caça para os safáris fotográficos. • Aumento da consciência do produtor. Tem-se dado maior atenção aos aspectos que dizem respeito ao aumento de consciência dos consumidores e pouco se tem falado na tomada de consciência dos fornecedores de produtos turísticos. Os produtores precisam se adequar à nova 49 realidade, que exige uma postura identificada com os princípios do desenvolvimento sustentável. Para tal, é necessário a adoção de regulamentações, como códigos de conduta, preocupadas em balizar as diretrizes de funcionamento do setor. Muitas vezes, a adesão compulsória não tem o efeito desejado, sendo necessário, em alguns casos, o apoio das regulamentações governamentais para que se tenha um efeito global sobre as práticas de desenvolvimento. • Planejamento turístico estratégico para substituir abordagens convencionais. O planejamento turístico estratégico se caracteriza como um processo único de planejamento e implementação e contínuo no tempo. Da mesma forma, deve ser integrante de um plano mais amplo de planejamento da cidade em sua totalidade. O planejamento turístico estratégico voltado para destinos é mais fácil de se implementar quando conta com o envolvimento da comunidade hospedeira no processo de tomada de decisão. Para que esse envolvimento se concretize, é necessário que os órgãos responsáveis pelo processo de planejamento solicitem e considerem ativamente as demandas da comunidade. Oficinas abertas à comunidade e processos consultivos podem ser extremamente úteis na identificação de problemas decorrentes do desenvolvimento turístico, incluindo: ! Valores primários – o que residentes e visitantes valorizam na área? ! Aspirações – que papel os residentes querem que o turismo desempenhe no desenvolvimento econômico e social da região? ! Receios – quais são as preocupações dos residentes quanto ao impacto do turismo sobre a comunidade? ! Possibilidades – quais são as principais características da área que os residentes desejam partilhar com os visitantes? ! Falhas – que fatores depreciam o local, tornando-o menos agradável de visitar? Para conhecer e compreender o complexo sistema que envolve os elementos do planejamento turístico, é necessário a utilização de indicadores ou conjunto de indicadores. Estes ajudam a determinar em que ponto o processo se encontra, para 50 onde vai e quanto falta para atingir as metas estabelecidas. Entretanto, a utilização de indicadores requer um conhecimento estruturado da realidade onde será utilizado, pois trabalha integrando sistemas econômicos, ambientais, sociais e políticos. Segundo Hall (2001), os principais tipos de indicadores utilizados pelo planejamento turístico são: a) os indicadores econômicos, ambientais e sociais, responsáveis por medir as mudanças na economia, no meio ambiente e na sociedade; b) os indicadores de sustentabilidade, que medem a distância entre a mudança e o estado sustentável do ambiente; e c) indicadores de desenvolvimento sustentável, em que o progresso com relação aos objetivos de desenvolvimento sustentável são medidos num contexto mais amplo. Por motivos políticos, tem havido uma tendência por utilizar indicadores que demonstrem mudanças mais visíveis. Porém, questões importantes, como os impactos sociais e culturais provenientes do turismo, acabam ficando em segundo plano, uma vez que necessitam de uma análise mais apurada e seus resultados só podem ser conhecidos a longo prazo. Os cinco mecanismos descritos por Dutton e Hall (1989) para atingir a sustentabilidade do desenvolvimento turístico devem ser vistos como estratégias gerais para o planejamento de destinos. A implementação dessas estratégias vai depender muito do contexto de cada situação. Em estudos mais atuais, Lew e Hall (1998) apontaram algumas questões que os planejadores devem ter em mente para fazer funcionar os princípios da sustentabilidade. Para os autores, o turismo sustentável representa uma orientação de valor que se dedica a minimizar os impactos do turismo, ou seja, não deve ser guiado única e exclusivamente por questões ligadas à economia de mercado. Dessa forma, muitos dos caminhos apontados pelo turismo sustentável não são os mais adequados do ponto de vista econômico, mas representam uma opção política em que o maior benefício será o desenvolvimento social da região. 51 Outra consideração importante é o fato de se destacar que não existe nenhuma receita “passo a passo” para a implementação de projetos de desenvolvimento de turismo sustentável. Cada situação exige medidas específicas de escala e contexto. No entanto, é possível apontar algumas semelhanças que a atividade empírica já revelou. Num contexto de reestruturação econômica global, as questões do turismo sustentável são essencialmente diferentes em países de economia desenvolvida e países em desenvolvimento. Na escala local, as experiências nos mostram que em projetos em que o envolvimento comunitário se deu de forma mais efetiva houve uma melhora significativa com relação à preservação do patrimônio, tanto natural como cultural. Para finalizar, o desenvolvimento do turismo sustentável exige paciência, dedicação e comprometimento de longo prazo. 52 Capítulo III Quem são os beneficiados com o incremento do turismo? 1. Introdução A Organização Mundial do Turismo (OMT) vem apontando o setor turístico como a segunda atividade econômica do mundo mais importante em termos de geração de divisas e empregos, ficando atrás apenas da indústria do petróleo e seus derivados. Estima-se que, em 2006, o turismo terá uma produção mundial de 7,1 quatrilhões de dólares, gerando cerca de 385 milhões de postos de trabalho. Se confirmadas as estimativas, serão arrecadados aproximadamente 1,3 quatrilhões de dólares em impostos, o que representa um claro benefício na economia em geral (OMT, 2001). A “indústria turística” é conhecida pela sua grande complexidade, pois não se relaciona somente com os elementos que a compõe, mas com os mais variados setores da economia que são indiretamente afetados com seu desenvolvimento. Essa relação se expressa no chamado efeito multiplicador: “O efeito multiplicador da renda é produto da interdependência existente entre os diversos setores econômicos; de maneira que o aumento na demanda dos bens ou serviços produzidos por um setor gera, por sua vez, o acréscimo na demanda de bens e serviços procedentes de outros setores, que são necessários para a produção dos anteriores” (OMT, 2001: p. 10) O discurso vigente de franco crescimento do turismo em todo o mundo e suas imbricações econômicas vêm pautando as políticas de desenvolvimento do setor. No entanto, as estatísticas mascaram uma realidade cujos impactos socioculturais e ambientais muitas vezes são irreversíveis. 53 Como veremos a seguir, a opção brasileira de favorecimento aos grandes complexos hoteleiros não vem gerando os benefícios esperados na escala local. Com isso, urge repensar nossas políticas públicas voltadas para o turismo de forma a tornar a atividade verdadeiramente indutora do desenvolvimento e da inclusão social. 2. Política pública de turismo no Brasil: o Prodetur-NE e os megaprojetos turísticos Até a criação da Empresa Brasileira de Turismo (EMBRATUR), em 1966, pouco se tinha experimentado em termos de planejamento da atividade turística. Nesse sentido, podemos identificar apenas a elaboração de algumas leis desconexas e restritas a aspectos parciais da atividade, como a regulamentação de agências de viagem e de turismo. O primeiro diploma legal que aborda algum aspecto da atividade turística no Brasil é o Decreto-lei 406, de 4 de maio de 1938, cujo artigo 59º dispõe sobre a venda de passagens aéreas, marítimas e terrestres. “A venda de passagens para viagens aéreas, marítimas e terrestres só poderá ser efetuada pelas respectivas companhias, armadoras, agentes, consignatários e pelas agências autorizadas pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, na forma da lei” (FERRAZ, 1992 Apud CRUZ, 2001: p. 43) Juntamente com a criação da EMBRATUR, o Decreto-lei 55/66 define, pela primeira vez, uma série de dispositivos legais que permitem identificar a gênese de uma Política Nacional de Turismo. Mesmo assim, inicialmente, o papel da EMBRATUR restringiu-se à consolidação do mercado interno e à captação da demanda externa por meio de campanhas publicitárias. Somente na década de 90, a empresa, já sob o rótulo de instituto, passou a ser peça fundamental na elaboração de políticas públicas para o setor. Durante a década de 70, o Brasil vivenciou o chamado “milagre econômico”, que promoveu grandes transformações na sociedade. Os investimentos em infra-estrutura, 54 aliados à campanhas agressivas de marketing, incentivaram, principalmente, a classe média a adquirir uma cultura de consumo de produtos turísticos. Nesse momento, o principal alvo dessa classe média na fuga da rotina cotidiana era os arredores dos grandes centros. Com o passar dos anos e sem o planejamento necessário, algumas dessas áreas apresentaram sinais de forte deterioração, impulsionando essa massa consumidora de lazer para outras regiões ainda inexploradas. Esse movimento, inicialmente identificado nas regiões Sul e Sudeste, a partir da década de 80, se espalha pelo litoral nordestino, facilitado pelas novas rodovias e pelas aerovias, quando o avião se torna um meio de transporte acessível à classe média. Com a crise econômica no início dos anos 80, a atividade turística passa a ser encarada pela classe política como “uma alternativa econômica capaz de soerguer as economias deprimidas dos estados nordestinos e de dinamizar a economia da Amazônia, com a ‘onda’ do turismo ecológico” (RODRIGUES, 2001: p. 149). O Nordeste passa a ser vendido como Novo Caribe, Novo Mediterrâneo, Nova Flórida, atraindo capital estrangeiro para o setor sob a forma de investimentos em hotéis e resorts nos moldes dos grandes centros turísticos internacionais. Outro fato que marcou a década de 80 foi o início de uma articulação entre turismo e a questão ambiental. Respondendo a esse movimento, a EMBRATUR lançou, em 1987, um programa de desenvolvimento do ecoturismo pressionada por alguns movimentos ecológicos que se preparavam para a ECO-92, mas que não se desenvolveu de imediato. É nesse cenário e já sob influência dos ideais neoliberais que a Política Nacional de Turismo começa a se reestruturar. No início dos anos 90, devido à profunda crise instaurada no país, órgãos internacionais como FMI, BID e Bird apontaram a atividade turística como possível redentora para a crise econômica. Durante o governo Collor, a EMBRATUR ganha o título de Instituto Brasileiro de Turismo e assume a Política Nacional de Turismo (PNT), agregando os seguintes objetivos: 55 • Democratizar o acesso ao turismo nacional; • Reduzir as disparidades econômicas regionais mediante a oferta de emprego e melhor distribuição da renda; • Aumentar os fluxos turísticos, a taxa de permanência e o gasto médio do turista estrangeiro no país. Incorporando esses objetivos à PNT, a EMBRATUR fortaleceu a idéia do potencial da atividade turística como fator de desenvolvimento regional. Outra mudança importante ocorrida nesse momento se refere à descentralização na gestão do setor. A EMBRATUR passa a ter um papel fundamental na formulação de políticas públicas, deixando a execução para os governos estaduais e municipais, em parceria com a iniciativa privada. Como desdobramento da nova PNT, a EMBRATUR lançou, em julho de 1992, o Plano Nacional de Turismo (Plantur), buscando promover o desenvolvimento regional com a formação de pólos de turismo integrado. Esses pólos seriam implantados, inicialmente, fora do eixo Sul e Sudeste, visando equalizar a distribuição geográfica das infra-estruturas, uma das principais metas do plano. No entanto, as questões ligadas à infra-estrutura não eram as únicas preocupações do governo. O Plantur também previa ações no sentido de promover uma verdadeira democratização da atividade, com o fortalecimento e incentivo ao turismo interno e, conseqüentemente, um aumento no número de postos de trabalho gerados pelo setor. Como em outros momentos de nossa história, a classe política elaborou um plano consistente, mas que pouco saiu do papel. A única ação concreta implementada foi o Programa de Ação para o Desenvolvimento do Turismo no Nordeste Brasileiro, o ProdeturNE. Reunidos na SUDENE, os governos estaduais do nordeste elaboraram este programa que, com o apoio do governo federal, obteve aporte financeiro do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). A primeira etapa do Prodetur-NE movimentou cerca de US$ 800 56 milhões, sendo US$ 400 milhões financiados pelo Banco do Nordeste, com repasse do BID, e os outros US$ 400 milhões originários da contrapartida nacional.7 Cumprindo uma das principais metas do programa, os investimentos provenientes do Prodetur-NE foram destinados à implementação de projetos de intra-estrutura básica – como construção e reforma de rodovias, fornecimento de energia elétrica, abastecimento de água e saneamento – e projetos de infra-estrutura voltados para a sustentação do turismo – como reforma e ampliação de aeroportos e rodoviárias. Com isso, o Prodetur pode ser entendido como uma “política de turismo que ‘faz às vezes’ de uma política urbana, pois se restringe à criação de infra-estrutura urbana em localidades consideradas, pelos respectivos estados envolvidos, relevantes para o desenvolvimento do turismo regional.” (CRUZ, 2001: p. 11) “os outros objetivos do Prodetur somente podem ser alcançados se articulada essa política de turismo com outras políticas para a atividade (como a política de megaprojetos, por exemplo), pois nenhuma das obras e nenhum dos serviços previstos pelo programa podem assegurar a conquista de tais metas.” (CRUZ, 2001: p. 111) Como forma de atingir as metas estabelecidas pelo Prodetur-NE (política pública da esfera de poder federal), alguns governos estaduais da região passaram a adotar uma política de megaprojetos turísticos. Ancorados no discurso da promoção do desenvolvimento regional pelo turismo e associando a vocação turística da região com o binômio sol-mar, as ações do Prodetur-NE, em última análise, prepararam o terreno para o investimento de grandes grupos transnacionais interessados em desenvolver pólos turísticos seguindo o modelo mexicano. 7 A planilha detalhada dos investimentos está disponível em CRUZ 2001. 57 Como estava previsto no programa, o governo federal disponibilizou recursos, no BNDES, para a iniciativa privada que quisesse investir no setor, tornando-se um grande parceiro na implementação dos empreendimentos. No entanto, a maior parte dos recursos foram entregues a grandes grupos internacionais, como Accord, Marriot, Holliday Inn, Caesar, entre outros. Com o argumento da melhora da competitividade internacional, houve um favorecimento aos grandes grupos hoteleiros em detrimento das empresas familiares. A política de incentivo a megaprojetos hoteleiros tem caráter ambíguo. Ao mesmo tempo em que promove a modernização dos espaços a serem apropriados pela atividade turística, com a implantação de uma infra-estrutura complementar, gera uma divisão territorial entre o que vai ser explorado pelo turismo, geralmente localizado nas faixas litorâneas, e as áreas reservadas às comunidades locais, cada vez mais reclusas no interior. A relação entre esses territórios vai depender do modelo de uso turístico adotado por cada empreendimento. Os projetos de hotelaria, que vêm se desenvolvendo nos últimos anos no nordeste brasileiro, têm se caracterizado pela pouca dependência de seus espaços circunvizinhos. Baseados nos modelos de resort e village, esses empreendimentos são planejados para serem auto-sustentáveis, obedecendo a um rígido modelo de gestão, internacionalmente padronizado (CRUZ, 2001). É interessante ressaltar que projetos dessa natureza não criam grandes vínculos com o local de sua implantação, uma vez que estão mais preocupados em transpor para aquela realidade todos os desejos do turista, fazendo com que ele “se sinta em casa”, ignorando o que de diferente aquela região pode oferecer. Os problemas sociais provenientes desse tipo de empreendimento também merecem nossa atenção. O impacto na vida cotidiana das comunidades do entorno ainda estão sendo estudados, porém já é possível perceber alguns equívocos, cujas conseqüências são irreversíveis. A súbita valorização de territórios, antes esquecidos pelo mercado imobiliário, está provocando um verdadeiro desastre sociocultural nessas regiões. Sem nenhum trabalho prévio de sensibilização, conscientização e capacitação – e pressionados pela especulação imobiliária –, muitos membros de comunidades tradicionais venderam 58 suas terras a preços irrisórios e passaram a viver de subempregos vinculados ao turismo e às residências-secundárias. A questão fundiária vem se configurando como um dos principais problemas provenientes da política de megaprojetos e dela derivam outras inúmeras disfunções sociais. Como destaca Seabra (2001), durante a implementação do Centro Turístico Guadalupe8 (situado na zona litorânea ao sul de Pernambuco), não houve qualquer interesse em corrigir os desequilíbrios sociais locais. Segundo o autor, a concentração da terra tem influência direta em índices como a elevada taxa de mortalidade infantil e a baixa expectativa de vida. Nos municípios do entorno do CT Guadalupe, temos “apenas 9 % dos estabelecimentos rurais ocupando 60 % das terras, enquanto 76 % dos estabelecimentos ocupam 9 % da área produtiva” (SEABRA, 2001: p. 44). O não-aproveitamento da mão-de-obra local nesses empreendimentos também ganha importância nesse cenário. Como empregar nativos acostumados com o modo de vida tradicional em complexos hoteleiros de padrão internacional? Trata-se de pessoas que até há pouco tempo viviam da pesca artesanal e da lavoura e se vêem obrigadas a responder por uma qualidade de serviços padronizada de alto nível. Sem uma capacitação prévia, pescadores e lavradores são lançados em um mercado altamente competitivo e, na maioria dos casos, têm sua auto-estima abalada com o fracasso na obtenção de emprego. Os problemas de ordem ambiental também ganham importância no rol de impactos negativos. A ocupação do litoral brasileiro vem se dando de maneira acelerada e desordenada nos últimos 30 anos. Dos 50 % do litoral antes intocado pelo homem, hoje temos apenas 10 % que resistem à ocupação, devido aos obstáculos naturais que dificultam o acesso. E são exatamente essas áreas de reduto dos ecossistemas costeiros os alvos da política de megaempreendimentos (SEABRA, 2001). 8 A implantação do Centro Turístico de Guadalupe foi a única ação efetiva do projeto Costa Dourada que previa a urbanização de aproximadamente 120 Km de costa entre os município de Cabo (PE) e Paripueura (AL). O CTG abrange 15,5 Km de costa cobrindo uma área de 8,803 ha, entre os municípios de Sirinhaém (PE) e Rio Formoso (PE). 59 Aproveitando o exemplo do CT Guadalupe, Seabra relata que após “poucos meses de obras, a destruição do quadro natural foi avassaladora: destruíram-se as paisagens naturais com a pavimentação de estradas, desmontes de morros, aterragem de mangues e construções de pontes”. O que estamos vendo na última década em termos de políticas de desenvolvimento turístico, principalmente na região nordeste, é uma verdadeira aliança com as empresas do ramo da construção civil que, com o apoio do poder público, asseguram “a reprodução de elites dominantes”, deixando as populações das pequenas comunidades à margem de todo o benefício gerado pelo turismo. Segundo Damiani (1997: p. 48), “este é o sentido avassalador do turismo como negócio, que renova a possibilidade de enriquecimento e apropriação privada de espaços, antes secundários às tramas da capitalização”. Com a proposta de desenvolvimento do Prodetur-NE, tem-se, como pano de fundo, a modernização/ urbanização de territórios que antes não eram explorados pela “indústria do turismo”. No entanto, ao privilegiar o grande capital privado, principalmente internacional, vem dificultando o desenvolvimento local, uma vez que a maior parte dos lucros provenientes do turismo não circula pela comunidade. No caso dos empreendimentos comandados pelo capital internacional, essa situação fica ainda mais clara. Nas Ilhas Maurício, por exemplo, cerca de “90 % das divisas estrangeiras obtidas com o turismo foram repatriadas para companhias baseadas em outros países” (URRY, 2001: p. 93). Será que os benefícios da modernização promovida pelo Prodetur-NE realmente chegaram às comunidades situadas no entorno dos projetos? O incremento do turismo contribuiu para melhorar a qualidade de vida dessas comunidades? Infelizmente, os estudos que estão sendo realizados no raio de influência dos projetos implementados pelo Prodetur-NE apontam para uma resposta negativa (CRUZ, 2001; SEABRA, 2001; CORIOLANO (org.), 1998; CORIOLANO (org.), 2003; CORIOLANO & LIMA (org.), 2003; BENEVIDES, 1998; entre outros). 60 A urgência em se pensar novas alternativas para o desenvolvimento do turismo está dada. É necessário enraizar as políticas de desenvolvimento turístico em diretrizes que promovam não apenas a sustentabilidade econômica dos empreendimentos, mas acima de tudo que favoreçam o desenvolvimento social da região. Caso contrário, para que servirá a modernização dos espaços, a enorme quantidade de recursos públicos gastos e o incremento do fluxo turístico se apenas alguns poucos se beneficiam? 3. Desenvolvimento para quê? Desenvolvimento é um conceito moderno associado à idéia de fazer as nações menos favorecidas buscarem a superação de sua pobreza. Ao se falar em desenvolvimento, atribuise ao termo um significado positivo que conduz a algo melhor e, na maioria das vezes, vinculado a um tempo futuro, o mundo que se quer e não o mundo em que se vive. O que presenciamos no último século, principalmente no pós-guerra, foi a vinculação do conceito de desenvolvimento com o processo de produção de riquezas que leva ao crescimento econômico das nações. Assim, o modelo de desenvolvimento hegemônico se caracteriza, principalmente, por ser socialmente injusto e ambientalmente perdulário. Por outro lado, vêm ganhando força em todo mundo teorias que qualificam o desenvolvimento não apenas como um processo econômico, mas como um processo amplo voltado para a satisfação das necessidades básicas dos indivíduos. “Uma revisão leal do que ocorre tanto em nosso país quanto em outras partes do mundo nos levaria a ver com outros olhos o tema do desenvolvimento a toda a brida e custe o que custar. Esqueçamo-nos por um momento dos crimes e das burrices que foram cometidos em nome do desenvolvimento (...) e vejamos o que acontece nos Estados Unidos e na Europa Ocidental: a destruição do equilíbrio ecológico, a poluição dos espíritos e dos pulmões, as aglomerações e os miasmas nos subúrbios infernais, os estragos psíquicos na adolescência, o abandono dos velhos, a erosão da sensibilidade, a corrupção da imaginação, o aviltamento de Eros, a acumulação do lixo, a explosão do ódio... Diante desta visão, como não retroceder e procurar outro 61 modelo de desenvolvimento? Trata-se de uma tarefa urgente e que requer igualmente ciência e imaginação, honestidade e sensibilidade; uma tarefa sem precedentes, porque todos os modelos de desenvolvimento que conhecemos (...) levam ao desastre. Nas circunstâncias atuais, a corrida para o desenvolvimento é pura pressa de se condenar...” (PAZ, 1992: p.210) Amartya Sen, economista indiano, ganhador do Prêmio Nobel em 1998, apresenta em seu livro “Desenvolvimento como Liberdade” argumentos que procuram qualificar o desenvolvimento como um processo de expansão das liberdades individuais. O enfoque nas liberdades humanas vai de encontro ao modelo hegemônico de desenvolvimento que identifica, por exemplo, o Produto Nacional Bruto, o aumento das rendas pessoais, o nível de industrialização, entre outros, como principais indicadores de uma sociedade desenvolvida. Não se trata de negar a importância de tais indicadores como meio de expansão das liberdades dos membros da sociedade, mas é necessário levar em conta outros determinantes, como disposições sociais e econômicas (por exemplo, os serviços de educação e saúde) e os direitos civis (por exemplo, a liberdade de participação na vida política). Compreender o desenvolvimento no contexto da expansão das liberdades conduz nosso foco de atenção nos fins que o tornam importante, em vez de nos restringirmos a alguns meios que desempenham um papel relevante no processo. Vivemos em uma era de grande progresso técnico-científico. O mundo nos últimos dois séculos apresentou mudanças que seriam difíceis de se imaginar. Os avanços tecnológicos nos deram conforto, encurtaram distâncias, aumentaram a expectativa de vida, geraram riqueza etc. Fora da esfera estritamente econômica, mudanças significativas foram observadas no campo da política. O regime democrático se estabeleceu como modelo preeminente de organização política do mundo ocidental. Os direitos humanos e a liberdade política fazem parte hoje do discurso hegemônico. Mais recentemente, vemos nações cada vez mais interligadas nos campos do comércio, das comunicações e dos ideais – a chamada “aldeia global”. 62 Entretanto, esse mesmo mundo da opulência e do progresso convive com o mundo da miséria e da pobreza, da peste e da fome, da violação das liberdades políticas e da violência repressiva. O novo mundo tão capaz de produzir riqueza não conseguiu satisfazer suas necessidades mais elementares, forçando a convivência entre os velhos e os novos problemas. Dar conta desses males parece ser a questão central do processo de desenvolvimento. Existe uma relação entre opulência e realizações, entre nossa riqueza econômica e nossa possibilidade de viver como gostaríamos. Porém, essa relação não deve ser analisada isoladamente, pois pode ser demais influenciada por outras circunstâncias. O questionamento “o que podemos fazer com mais riqueza?” deixa claro em sua resposta que a riqueza não é desejável por si mesma, mas por permitir que possamos levar o tipo de vida que valorizamos. Nas palavras de Aristóteles: “a riqueza evidentemente não é o bem que estamos buscando, sendo ela meramente útil e em proveito de alguma outra coisa”. A utilidade da riqueza está nas inúmeras possibilidades que ela nos permite ter; nas liberdades substantivas que ela nos ajuda a obter. Nossas vidas também são influenciadas por outros fatores, não exclusivamente econômicos, e mesmo o impacto da riqueza em nossas vidas varia conforme outras influências. Tão importante quanto reconhecer o papel fundamental da riqueza na determinação de nossas condições e qualidade de vida é entender a natureza restrita e dependente dessa relação. A análise minuciosa dos fins e dos meios do desenvolvimento é essencial para uma compreensão mais ampla e plena do processo. É necessário enraizar o desenvolvimento em diretrizes que promovam sobretudo a melhoria da qualidade de vida, ou seja, o aumento das liberdades que desfrutamos. Como destaca Sen: “expandir as liberdades que temos razão para valorizar não só torna nossa vida mais rica e mais desimpedida, mas também permite que sejamos seres sociais mais completos, pondo em prática nossas volições, interagindo com o mundo em que vivemos e influenciando esse mundo” (SEN, 2002: p. 29) 63 Mesmo tendo em vista as inter-relações entre as diversas formas de liberdades, algumas delas não necessitam de justificativas indiretas com base em seus efeitos sobre as outras. As liberdades políticas ou direitos civis, por si só, configuram um aspecto essencial da vida humana. Quando tais privações ocorrem, é negado ao individuo a liberdade de conduzir sua vida e a oportunidade de participar de decisões cruciais concernentes a assuntos públicos. Essa deficiência, mesmo não acarretando nenhum grande desastre econômico, por exemplo, restringe a vida social e política e deve ser considerada um mal a ser superado. Na tomada do conceito de liberdade como eixo principal do desenvolvimento, envolvemos tanto os processos que permitem as liberdades de ações e decisões como as oportunidades reais dos indivíduos, dadas as circunstâncias pessoais e sociais. Dessa forma, buscamos uma análise ampla, não nos restringindo a aspectos meramente conjunturais em detrimento de um exame mais apurado de suas causas, ou ao contrário, realizando uma análise estrutural profunda sem conseqüências imediatas. Segundo Sen, “ambos os processos e oportunidades têm sua própria importância na abordagem do desenvolvimento como liberdade” (SEN, 2002: p. 32). A liberdade dos indivíduos é elemento básico dessa forma de entender o desenvolvimento. Nesse sentido, as atenções voltam-se para o incremento das capacidades das pessoas de levar o tipo de vida que elas valorizam. Cabe a sociedade, por meio de suas políticas públicas, eliminar as barreiras que impedem seus membros de gozarem de condições mínimas para garantirem uma boa qualidade de vida. Para tal, é necessário considerar a liberdade individual um compromisso social. O êxito de uma sociedade deve ser avaliado levando-se em conta as liberdades substantivas que seus membros desfrutam. Resgatar a condição de agente dos indivíduos, hoje restrita e limitada pelas oportunidades sociais, políticas e econômicas, é um desafio do qual não podemos nos eximir. O desenvolvimento consiste, em última análise, na superação das privações de liberdades que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas. Muitas vezes, a ausência das liberdades substantivas tem origem na pobreza econômica, que rouba das pessoas a liberdade de saciar 64 sua fome e, conseqüentemente, ter uma boa nutrição; que as priva de remédios para não morrerem de doenças há muito tempo curáveis; que lhes nega o direito a uma moradia digna com água tratada e saneamento básico. Em outros casos, a falta de liberdade é expressa pela carência de serviços públicos, tais como educação e segurança. Ou ainda, a violação da liberdade de participar da vida política, social e econômica imposta, muitas vezes, por regimes autoritários ou falsamente democráticos. Dessa forma, pensar a atividade turística como promotora do desenvolvimento na região onde se estabelece é conceber modelos que busquem a superação das limitações impostas à grande parte da população para o pleno exercício das liberdades substantivas. Fica clara a necessidade de se pensar uma política de turismo complementar a uma política de desenvolvimento mais ampla, cujo foco deve se dar na inclusão social com a afirmação da identidade cultural e da cidadania. Como vimos anteriormente, a principal política pública de turismo, implementada no Brasil nos últimos anos, não vem apresentando resultados satisfatórios nesse campo. Apesar do discurso muitas vezes contemplar a participação e a promoção do desenvolvimento social da região, assistimos a um comprometimento com o grande capital nacional e internacional em detrimento das questões vinculadas ao bem-estar da comunidade receptora. 4. O turismo de base comunitária O turismo comunitário, ou de base comunitária, apresenta como cerne da questão o debate sobre quem são os verdadeiros beneficiados com o incremento do turismo. Como já foi apresentado, o setor do turismo tem sido qualificado como de grande importância na geração de oportunidades de trabalho na escala local e regional, além de contribuir na preservação dos patrimônios natural e cultural. No entanto, os impactos positivos do turismo não acontecem de forma espontânea. As políticas públicas precisam ser orientadas para esse fim, sob o risco do setor se auto-regular, visando, apenas, as melhores oportunidades de mercado. 65 Muitos estudos, no Brasil e no mundo, já demonstraram que o turismo, quando desenvolvido seguindo o modelo de grandes complexos hoteleiros, não oferece benefícios substanciais para a comunidade do entorno. Como Hatton destaca: “The influence of this type of resort on the community is minimal. In effect, there are tourists, but no tourism industry”9. Por outro lado, vemos crescer em todo mundo experiências que tentam aproximar as comunidades locais dos benefícios gerados pela atividade turística. O grande mote dessas experiências é construir um modelo mais justo e eqüitativo de turismo, que leve em conta as mais diversas dimensões da sustentabilidade, como a social, a cultural, a ambiental e a econômica, e coloque a população local no centro do planejamento, da implementação e do monitoramento da atividade, permitindo a geração de trabalho e renda para a comunidade. “A concepção de desenvolvimento sustentável implica um novo paradigma do pensar as sociedades humanas segundo uma nova ética de democratização de oportunidades e justiça social, percepção das diferenças como elemento norteador de planejamento, compreensão da dinâmica de códigos e valores culturais e compromisso global com a conservação dos recursos naturais” (IRVING, 2002: p. 35) O turismo de base comunitária pode ser definido como uma modalidade do turismo sustentável cujo foco principal está no bem-estar e na geração de benefícios para a comunidade receptora. Segundo a ONG World Wild Found (WWF-International), o turismo de base comunitária é: “a form of ecotourism where the local community has substantial control over, and involvement in, its development and management, and a major proportion of the benefits remain with in the community” (WWF-International 2001: 2)10 9 Michael Hatton. “The character of community-based tourism” disponível em http://www.communitytourism.org/ (acessado em 15/11/2004) 10 http://www.panda.org/downloads/policy/guidelinesen.pdf 66 Nessa perspectiva, é desejável que a atividade turística seja, em sua maior parte, desenvolvida e operada pela população local, garantindo a sustentabilidade econômica e fazendo com que os recursos provenientes do turismo revertam em benefícios diretos para a comunidade. A melhor distribuição da renda é conseqüência direta desse processo que pode se dar com a formação de cooperativas, associações, joint ventures, empreendimentos comunitários, além do estabelecimento dos micro, pequenos e médios empresários locais, que com seus empreendimentos geram muitos postos de trabalho.11 Como parte integrante de uma estratégia de desenvolvimento mais ampla, esse modo “alternativo” de gestão do turismo pode contribuir de forma decisiva na preservação de ambientes naturais. Quando se cria uma Unidade de Conservação (UC)12 de uso restrito, por exemplo, os impactos socioeconômicos nas comunidades do entorno podem levar a uma não-aceitação imediata. Isso ocorre porque, na maioria das vezes, essas comunidades retiram seu sustento a partir da exploração dos recursos fornecidos por essa região. Quando não há um envolvimento da comunidade no processo de discussão e implementação das UC´s, inúmeros conflitos são gerados, inviabilizando a efetiva preservação do meio natural. Por outro lado, quando a comunidade vê na UC uma forma de ganhar seu sustento, por exemplo, com a exploração da atividade turística, ela se torna uma importante parceira na proteção do ambiente natural. (WWF-International, 2001) Existe uma forte ligação entre o turismo e o meio natural preservado. Como Hatton destaca: “(...) the influx of tourists has in many cases actually increased environmental protection and conservation. Local communities have come to recognize that, should the environment suffer, so will the revenues from tourists. Although there is 11 Hatton. op. cit. A Lei nº. 9.985/2000, que institui o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza, estabelece a seguinte definição para unidade de conservação: “Espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção”. 12 67 natural friction between tourists and the environment, there are benefits to be reaped for the natural environment through planned, community-based tourism”13 O turismo de base comunitária respeita as heranças culturais e as tradições do local e, dessa forma, pode servir de veículo para revigorá-las e, até mesmo, resgatá-las. Está no centro dessa proposta o estabelecimento de uma relação interativa, entre visitantes e visitados, permeada pelo princípio da responsabilidade. Nessa experiência relacional, os anfitriões não adotam uma postura submissa frente aos anseios e expectativas dos turistas e estes, tampouco, se apresentam como consumistas, arrogantes e vorazes. A afirmação da diversidade cultural e o reconhecimento da alteridade são os alicerces de uma responsabilidade mútua (ROCHA, 2003). Entre os muitos desafios e obstáculos a serem superados na construção dessa alternativa de desenvolvimento para o turismo, a participação da comunidade local é apontada como elemento crucial para o êxito dos projetos (BENI, 2004; CORIONALO, 2003; IRVING, 2002; SANSOLO 2003a; entre outros). A participação social no processo decisório é prérequisito para a sustentabilidade de projetos que tenham como objetivo um desenvolvimento mais justo e equilibrado da sociedade. O conceito de desenvolvimento sustentável apresenta, entre tantas características, o rompimento com a noção de desenvolvimento vinculado somente ao crescimento econômico, além de contestar afirmações que apontam um único caminho a ser seguido por todas as sociedades rumo ao desenvolvimento. Assim, o caminho da sustentabilidade é pautado pela diversidade de padrões e modos de desenvolvimento, dependendo do contexto cultural, político e ecológico de cada agrupamento humano. Segundo Irving: “Ainda que em pequena escala, experiências bem-sucedidas de participação e envolvimento comunitário na tomada de decisões e no enquadramento de problemas 13 Hatton. op. cit. 68 comuns prioritários podem ter um papel singular na mudança de mentalidade dos atores envolvidos, no sentido de co-responsabilidade e exercício de cidadania, elementos essenciais ao desenvolvimento efetivo das sociedades humanas rumo ao terceiro milênio” (IRVING 2002: 37) Uma peça fundamental do processo participativo é a educação. Segundo Meyer (1991 Apud IRVING, 2002: p. 37), educação é “um processo de aprendizagem de conhecimento e exercício de cidadania que capacita o indivíduo para uma visão crítica da realidade e uma atuação consciente no espaço social”. Não estamos nos referindo apenas a educação formal, o que se aprende na escola, mas a um conjunto de elementos que formam a consciência crítica de cada um. Nesse sentido, a promoção da educação ambiental pode contribuir na formação de cidadãos mais conscientes, valorizando seus conhecimentos tradicionais14 e dando voz a camadas sociais menos favorecidas. Através de atividades lúdicas e prazerosas é possível envolver crianças, jovens e adultos, com os mais variados níveis de escolaridade, acerca de temas comuns. Mas para isso é necessário criatividade e, acima de tudo, decisão para adaptar algumas metodologias participativas já existentes (por exemplo, ZOPP e METAPLAN) à realidade de cada comunidade. A perspectiva ambiental consiste num modo de ver o mundo em que se evidenciam as inter-relações e a interdependência dos diversos elementos na constituição e manutenção da vida. Em termos de educação, essa perspectiva contribui para evidenciar a necessidade de um trabalho vinculado aos princípios da dignidade do ser humano, da participação, da coresponsabilidade, da solidariedade e da equidade.15 14 “o etnoconhecimento já é reconhecido inclusive pela ciência como legítimo, pois, embora muitas vezes seja baseado em crenças e mitos, a experiência e o conhecimento acumulado de gerações após gerações por populações autóctones, sobre plantas medicinais, comportamento animal, microclima, tem sido ponto de partida para pesquisas científicas, inclusive voltadas à produção industrial” (SANSOLO e CRUZ, 2003) 15 BURSZTYN, D´OLIVEIRA e LIMA. Benchmarking sobre o Plano de Manejo do Parque Nacional do Iguaçu. Disponível em http://www.ivt-rj.net/caderno/anteriores/6/benchmark/escolaparque.htm, acessado em 07/12/2004 69 Assim como Sen (2002), Faudez (1993 Apud IRVING, 2002: p. 38) vincula o desenvolvimento à satisfação das necessidades básicas da população “..., enfatizando mais a lógica das necessidades do que a lógica da produção e do consumo...”. Nessa perspectiva, a participação é elemento-chave, pois auxilia na determinação das necessidades essenciais da comunidade, na busca de soluções e na transformação da realidade. A participação é a expressão da cidadania e somente por meio dela é possível que haja co-responsabilidade na tomada de decisão. Com efeito, é um processo de envolvimento ativo da população na reivindicação de seus direitos, garantindo o controle das autoridades públicas por parte do povo. A participação, além de um direito do cidadão, também pode ser vista como um mecanismo de otimização da eficiência das políticas públicas. Esse é um argumento valioso na defesa de um processo participativo. Em uma realidade nacional impregnada de clientelismo, descontinuísmo e pouco comprometimento de grande parte dos políticos com os compromissos assumidos com a população, assegurar o processo participativo é o instrumento mais eficaz rumo à sustentabilidade, garantindo a “continuidade do processo e os impactos indiretos dele decorrentes, e nem sempre mensuráveis” (IRVING, 2002: p. 40). 5. Não é utopia, é realidade... Projetos de turismo de base comunitária vêm sendo desenvolvidos com êxito nos quatro cantos do mundo. Com o apoio de ONG’s, como Tourism Concern16, Associação Italiana para o Turismo Responsável (AITR)17, Tourism Watch18, WWF19, entre outras, comunidades situadas em países pobres da África e da Ásia, em países em desenvolvimento das Américas do Sul e Central e, também, da Ásia, além de comunidades em países desenvolvidos do Hemisfério Norte e da Oceania, vêm optando por essa alternativa de organização e gestão da atividade turística. 16 http://www.tourismconcern.org.uk http://www.aitr.org 18 http://www.tourism-watch.de/ 19 http://www.panda.org 17 70 No Brasil, esse movimento ainda é insipiente, contando apenas com algumas experiências isoladas. Dois casos nacionais figuram nos guias internacionais especializados em promover tais projetos: o primeiro é o projeto de ecoturismo comunitário desenvolvido na Prainha do Canto Verde, no litoral cearense, que tivemos oportunidade de visitar durante o mês de junho de 2002. Os realizadores dessa experiência ganharam diversos prêmios internacionais, dentre eles o prêmio TO DO!, de 1999, concedido pela ONG alemã Studienkries für Tourism und Entwicklung20 a projetos de turismo socialmente responsável. O segundo esta sendo desenvolvido junto a comunidades ribeirinhas no município de Silves, na Amazônia, e conta com o apoio técnico e financeiro do WWF-Brasil. A seguir, apresentaremos, em linhas gerais, ambos os projetos, destacando aspectos relevantes quanto à mobilização/participação comunitária, aos benefícios sociais e econômicos gerados para a população local e à preservação do meio ambiente. 5.1. Ecoturismo comunitário sustentável na Prainha do Canto Verde, CE21 A terra é nossa e não abrimos mão dela !!! O índice de mortalidade infantil é zero. As crianças estão na escola e o analfabetismo é quase inexistente. Os adultos fazem curso de educação ambiental, aprendem a ler e escrever. A Prainha do Canto Verde – distrito de Beberibe – é assim: uma comunidade de 1.100 moradores que sobrevive basicamente da pesca e do dinheiro que os turistas deixam nas barracas e pousadas – todas de propriedade dos moradores. 20 Grupo de Estudos em Turismo e Desenvolvimento (http//www.studienkreis.org ). Os projetos são julgados segundo critérios como: participação da população local no planejamento, desenvolvimento e a execução do projeto; fortalecimento das estruturas sociais e culturais da vida comunitária e dos costumes e tradições; fortalecimento da percepção dos nativos/moradores no que se refere aos impactos positivos e negativos do desenvolvimento do turismo; participação dos moradores nos benefícios econômicos, sociais e culturais; condições favoráveis de disseminação de um turismo socialmente responsável na região. 21 Este tópico está baseado no estudo “Benchmarking da Prainha do Canto Verde”, publicado por ROCHA, DELAMARO, DELAMARO e BURSZTYN, no Caderno Virtual de Turismo, 5ª Edição, disponível em http://www.ivt-rj.net/caderno/anteriores/5 acessado em 20/12/2004. 71 A frase acima está estampada nas camisas vendidas aos turistas que visitam essa pequena vila de pescadores no litoral cearense. Situada a 120 Km a leste de Fortaleza, a realidade da Prainha do Canto Verde contrasta com a maioria das experiências de projetos de desenvolvimento turístico implementados no Ceará, onde o aumento do fluxo turístico foi responsável por sufocar os modos de vida tradicionais de inúmeras comunidades. Nas próximas linhas, procuramos apresentar, sucintamente, um pouco da história dessa comunidade, que construiu sua identidade por meio da luta pela posse da terra e com sua organização vem desenvolvendo uma série de projetos, no intuito de melhorar a condição de vida da população. Mapa 1: Litoral leste do Estado do Ceará, Brasil. No fim da década de 1970, começou uma grande expansão imobiliária em todo o litoral do nordeste brasileiro. Impulsionados pelas novas rodovias e a conseqüente valorização das terras litorâneas, empresários da região começaram uma grande corrida para comprar terrenos, gerando um processo de especulação imobiliária. Nessa ocasião, o grileiro Antônio Sales Magalhães, um dos maiores especialistas em "aquisição" de terras no litoral 72 cearense, conseguiu regularizar, com uma ação de usucapião na Comarca de Beberibe, uma área de quase 750 hectares, incluindo a faixa de areia. No entanto, a região em questão era habitada, desde 1860, por famílias de pescadores tradicionais. Embora a área usucapiada faça parte de um terreno da União (terra da marinha) e, dessa forma, a referida ação seria, obrigatoriamente, de competência da Justiça Federal, o juiz da Comarca de Beberibe não hesitou em dar ganho de causa ao grileiro, gerando muita inquietação entre a comunidade. Com a documentação regularizada, Antônio Sales vendeu as terras para a imobiliária de Henrique Jorge. Os moradores foram buscar apoio no Centro de Defesa dos Direitos Humanos (CDPDH), fundado pelo Cardeal Dom Aloísio Lorscheider, na Arquidiocese de Fortaleza, que assumiu a defesa da comunidade. Como parte do trabalho de fortalecimento da comunidade, foi organizado pela Arquidiocese o XIII Seminário Rural na localidade, dando uma nova dimensão política às reivindicações. Alguns anos depois, foi criada a Associação dos Moradores da Prainha do Canto Verde, também com o apoio do CDPDH. Com o passar dos anos, a comunidade foi se fortalecendo, e os grileiros e especuladores foram vendo seus projetos de loteamento e ocupação da área ficarem parados na burocracia do judiciário. O reconhecimento da Delegacia do Patrimônio da União (DPU) do direito de um pescador construir a sua casa de alvenaria a 60 metros da praia, declarando que considerava esta área presumivelmente como terra da União, deu mais ânimo e esperança à comunidade, porque refutava o direito que a imobiliária Henrique Jorge S.A. declarava ter sobre a área em litígio. Paralelamente ao problema fundiário, a comunidade da Prainha do Canto Verde vem enfrentando uma forte crise na pesca da lagosta. Nos últimos dez anos, essa atividade rendeu ao Estado do Ceará cerca de US$ 386 milhões. A captura desse crustáceo já ocupou o primeiro lugar no ranking das exportações cearenses, mas, devido principalmente à pesca predatória, a produção está em queda – caiu 32% no período de 1991/1999. Do total de 2.235 embarcações pescando lagosta no Ceará, 1.357 ainda são movidas pelos ventos e 73 respondem por cerca de 83% dos empregos gerados pelo setor pesqueiro. Uma simples jangada tem capacidade de gerar 5 empregos diretos. A realidade denunciada por esses pescadores nada tem a ver com a imagem romântica do jangadeiro que retira dos mares o sustento de sua família. Alguns de seus elementos são listados a seguir: uma lida árdua, que provoca em pescadores ainda jovens doenças como câncer de pele, problemas de coluna, hipertensão e glaucoma; grande parte dos pescadores não tem vínculos empregatícios formais, sua remuneração é feita com a divisão do que foi pescado em cada viagem, reservada a parte do proprietário da embarcação; os atravessadores pagam valores baixos pelo pescado e enganam os pescadores no peso, no tamanho e na matemática, aproveitando-se da pouca escolaridade da maioria; o confronto entre a pesca artesanal, feita por meio de jangadas, e a pesca praticada em barcos motorizados, com mergulhadores que utilizam compressor e rede22; a falta de fiscalização; o desrespeito ao defeso; a pesca de lagosta abaixo do tamanho e peso permitidos; políticas governamentais estadual e federal para o setor que não dão atenção à pesca artesanal e estão mais atentas à indústria pesqueira exportadora. Para protestar contra essa situação que coloca em risco as tradições e a própria existência da comunidade, um grupo de quatro pescadores embarcou, em 1994, em uma aventura rumo ao Rio de Janeiro. A jornada levou 74 dias e ganhou o nome de S.O.S. Sobrevivência, em referência ao protesto de 1941 em que um grupo de pescadores, liderados por "Jacaré", percorreu as 1.480 milhas entre Fortaleza e o Rio de Janeiro para entregar, ao então presidente Getúlio Vargas, uma carta em que denunciavam a miséria dos povos do mar no litoral cearense. Ao longo do trajeto, a tripulação parou em 20 portos, reunindo-se com pescadores e divulgando sua causa: “era preciso fazer alguma coisa, porque se não, as comunidades do litoral iam acabar”. Foi criado o Instituto Terramar23, uma organização não-governamental 22 A pesca de mergulho com compressor é proibida por portaria do Ibama. Embora seja a forma menos seletiva e mais destrutiva de se pescar lagosta, é a mais econômica, o que motiva a proibição ser burlada. 23 Sua missão é promover, organizar e incentivar o desenvolvimento integrado (social, econômico, tecnológico, ambiental, político e cultural) junto às populações costeiras cearenses, procurando a melhoria da 74 fundada por engenheiros de pesca, acadêmicos do Labomar (Instituto de Ciências do Mar da Universidade Federal do Ceará) e voluntários da campanha “S.O.S. Sobrevivência”. Uma das principais ações implementadas pelo Instituto Terramar foi o Curso de Formação de Lideranças do Litoral Cearense que tinha como objetivo constituir nas comunidades um movimento social e político autônomo e atuante na perspectiva do desenvolvimento sustentável. Entre 1999, ano de sua criação, até 2001 o curso capacitou 90 pessoas de 26 localidades espelhadas pelo litoral. É nesse cenário de luta pela sobrevivência que se desenhou o projeto de ecoturismo comunitário sustentável da Prainha do Canto Verde. Contando com o apoio da Fundação Amigos da Prainha do Canto Verde, formada por algumas empresas e ONG´s nacionais e estrangeiras, a comunidade começou a discutir uma proposta de desenvolvimento turístico enraizada na valorização da identidade cultural local. A Associação de Moradores constituiu o Grupo de Turismo que ficaria responsável pelo desenvolvimento do setor na comunidade. A primeira iniciativa do grupo foi pesquisar como se dava o turismo em algumas comunidades vizinhas. Praia das Fontes, Canoa Quebrada e Parajuru foram as praias visitadas. Lá se perguntou aos moradores nativos como eles viam os aspectos negativos e positivos do turismo - se tinha contribuído ou não para elevar o nível de renda e oportunidades de ocupação e emprego, se tinha contribuído ou não positivamente para a inclusão social, como tinha afetado a questão da criminalidade e das drogas. Parajuru é um caso típico de turismo de veraneio e de segunda residência, com pico de visitantes nos finais de semana e feriados. Canoa Quebrada é um dos principais destinos turísticos tanto a nível nacional como internacional. Lá podem ser observados, exemplarmente, os efeitos do turismo de massa e da exclusão econômica e social dos sua qualidade de vida e o fortalecimento de sua autonomia. As ações desenvolvidas, atualmente, pelo Instituto Terramar estão vinculadas aos seus 5 programas: Desenvolvimento Institucional/Organizacional; Educação, Cultura e Cidadania; Gênero, Saúde e Cidadania; Desenvolvimento e Tecnologia; Políticas Públicas e Organização. 75 nativos que venderam gradativamente suas terras e hoje estrangeiros e forasteiros são donos da maioria das pousadas e barracas, enquanto os nativos lhes servem de caseiros e garçons. Praia das Fontes era um bom caso para se observar as conseqüências das políticas governamentais de desenvolvimento do turismo, preocupadas em atrair grandes empreendimentos turísticos, sob a forma de investimentos externos que se traduzem em aporte de divisas. Foi fundamental para a comunidade da Prainha do Canto Verde, primeiramente, ter a oportunidade de dizer que “este turismo nós não queremos!”; um turismo que transformaria seu território num local de exploração turística (casas de veraneio, hotéis, resorts, parques aquáticos etc) em função da especulação imobiliária, que os expulsaria; um turismo depreciativo das comunidades (subemprego, insegurança, prostituição, drogas) e que acabaria degenerando sua identidade. Para, depois disso, expressar propositivamente a definição de qual “o turismo que queremos”. O ecoturismo comunitário da Prainha do Canto Verde insere-se numa proposta de desenvolvimento integrado e sustentável, abrangendo as diversas dimensões da vida comunitária e da organização das atividades ligadas à pesca, educação, saúde, meio ambiente e à questão fundiária. A atividade turística tem função subsidiária e complementar na economia da comunidade. E tem importante papel na conservação de seu ambiente cultural e natural. A pesca e a terra são os elementos ‘identitários’ de base da comunidade. O projeto de turismo caracteriza-se por ser desenvolvido pela comunidade, organizado, administrado e operado em base cooperativa pelos próprios moradores, e tem como atributo diferencial o declarado propósito de ser hoje (e permanecer sendo no futuro) de pequena escala. Sua gestão assenta-se no princípio da auto-regulação comunitária. Assim, o grupo de turismo da Associação de Moradores formou um conselho e uma cooperativa que seriam responsáveis pelas ações de fomento, regulação, agenciamento, gestão e planejamento do turismo na comunidade. As pessoas que trabalham com o turismo são cadastradas na COOPECANTUR (Cooperativa de Turismo e Artesanato) e devem pagar uma taxa anual que varia conforme a atividade exercida. Parte dos recursos gerados 76 pela cooperativa, entre 15 % e 20 %, alimentam o Fundo Social e Educacional, que tem o objetivo de beneficiar os demais moradores que não estão diretamente relacionados com a atividade turística. A utilização dos recursos do fundo é definida em assembléia pelo conselho e pode financiar cursos de capacitação para as crianças da escola24, além de banheiros, reformas de moradias, assistência para casos de acidentes etc. Os beneficiados devem, em contrapartida, prestar serviços comunitários. Outro importante instrumento da COOPECANTUR é o Fundo Rotativo para Pequenos Empréstimos. Com o objetivo de ampliar a capacidade inicial de hospedagem e montar uma estrutura adequada para a prestação de serviços turísticos, este fundo conta com um capital de R$ 6.000,00, inicialmente composto por doações da Fundação Amigos da Prainha do Canto Verde, e concede empréstimos de até R$ 800,00. Os projetos são analisados pela diretoria quanto a sua viabilidade econômica e os empreendedores recebem capacitação visando a adequação na utilização dos recursos. De 1998 até Julho de 2001 foram concedidos 10 empréstimos para aquisição de freezer, fábrica de picolé, reparo de bugre, reformas e construções nas casas comunitárias, pousadas, quartos de hospedagem domiciliar etc. Não há inadimplência. O Fundo é recomposto com os pagamentos e fica disponível para novos projetos. A COPPECANTUR também administra dois empreendimentos comunitários de propriedade da Associação de Moradores: uma pousada com três quartos e uma casa. A cooperativa ainda oferece cursos de capacitação e aperfeiçoamento profissional para seus afiliados. A experiência na Prainha do Canto Verde vem chamando a atenção de outras comunidades litorâneas que enfrentam o mesmo desafio. Com o apoio institucional do Instituto Terramar algumas comunidades já começam a se mobilizar para discutirem uma proposta de desenvolvimento do turismo de base comunitária. As lideranças da Prainha já fizeram 24 Na oficina de brinquedos (Brinquedoteca), as crianças aprendem a fazer brinquedos com materiais da região. 77 workshops na vila de Tatajuba, no município de Camocim, e na praia de Ponta Grossa, no município de Icapuí, onde o projeto já está em fase de implementação. A gestão auto-regulativa é um atributo crítico, que exige a constituição de um espaço de negociação adequado e lideranças capazes de mobilizar os moradores instigando sua participação, para que as decisões tomadas no âmbito do Conselho de Turismo e da Associação dos Moradores tenham legitimidade enquanto decisões comunitárias. Este é um processo dinâmico no qual a comunidade é chamada a confirmar reiteradamente os rumos tomados no sentido do “turismo que queremos”. 5.2. Programa de ecoturismo integrado ao manejo de várzea em Silves, AM25 Outra experiência internacionalmente conhecida está situada no coração da floresta amazônica. A 300 km de Manaus, em direção a foz do Rio Amazonas, localiza-se o município de Silves, cuja sede está assentada na Ilha de Silves, banhada pelo lago Canaçay. Esse lago é formado por cinco rios contribuintes da bacia do amazônas, a saber, o Rio Urubu, o Rio Itabani, o Rio Sanabani, o Igarapé Açu, e o Igarapé Ponta Grossa, formando uma região de várzea belíssima e com uma biodiversidade impressionante. O município de Silves é um dos mais antigos da Amazônia, sendo originário de uma missão indígena fundada em 1663. As mais de 30 comunidades ribeirinhas dependem basicamente da agricultura e da pesca para sua subsistência que está ameaçada pela expansão da pecuária nos campos de várzea e pela retirada excessiva dos peixes nos lagos fluviais. São nesses diques naturais formados na época das vazantes onde há a maior concentração de peixes como o tambaqui, o tucunaré e o pirarucu, todos de alto valor comercial nos mercados pesqueiros de Manaus e Belém. 25 Muitas das informações contidas nesse tópico foram obtidas na palestra proferida pelo professor Davis Sansolo, consultor do WWF-Brasil no programa desenvolvido em Silves, durante a disciplina “Turismo e Sustentabilidade” sob coordenação dos professores Roberto Bartholo e Marta Irving do mestrado do Programa de Engenharia de Produção da COPPE/UFRJ. 78 Mapa 2: Município de Silves, AM O aumento da pesca industrial no decorrer da década de 1980 fez com que o estoque pesqueiro baixasse a níveis críticos causando um forte impacto sócio-econômico na região. Enquanto os barcos vindos, principalmente de Belém, arrastavam toneladas de peixes para serem vendidos nas duas capitais vizinhas, os recursos para o sustento das comunidades ribeirinhas da região se tornavam escassos. Os conflitos relativos à utilização dos recursos das várzeas não são exclusivos das comunidades de Silves. Em toda a Amazônia, pescadores comerciais das grandes cidades invadem sistemas de lagos e utilizam técnicas inadequadas para obterem uma maior quantidade de peixes. A peculiaridade com relação a Silves está na resposta das comunidades a essa ameaça. Quando a ameaça de fome se tornou real, as comunidades locais se organizaram, com o apoio da Igreja Católica26, e fundaram uma organização não-governamental chamada 26 A Igreja Católica foi fundamental no trabalho de organização comunitária. As CEBES (Comunidades Eclesiais de Bases) durante o final da década de 1960 e início da década de 1970 trabalharam a formação de lideranças locais. 79 ASPAC, Associação de Silves pela Preservação Ambiental e Cultural. Como nos conta Sansolo “em uma manobra política muito bem organizada, a ASPAC, durante o período de eleições municipais, conseguiu junto a Câmara de Vereadores que se proibisse a pesca comercial e se criasse um manejo da pesca artesanal por meio de proteção dos lagos.” (SANSOLO 2003: 45) A lei municipal, redigida pelas próprias comunidades ribeirinhas de acordo com seus conhecimentos e experiências quanto à reprodução dos peixes, baseou-se no planejamento e uso (zoneamento) dos lagos do município estabelecendo as seguintes categorias27: Lagos de Procriação - Lagos santuários com proteção total, para permitir, sem interferências, a reprodução natural dos peixes e o repovoamento; Lagos de Manutenção - Lagos onde é permitida somente a pesca artesanal de subsistência para garantir a alimentação e a renda comunitária; e Lagos de Exploração Pesqueira - O restante dos corpos d`água regionais (rios, igarapés e lagos), onde a pesca comercial é permitida, respeitando algumas restrições regulamentadas por leis federais, estaduais e municipais. No sentido de garantir o cumprimento da lei e a real conservação dos recursos disponíveis nos lagos, a ASPAC e o WWF estabeleceram uma parceria para desenvolver um trabalho de conscientização das comunidades locais para a importância da preservação daqueles ecossistemas. O programa de educação ambiental comunitária, chamado de Caravana Mergulhão, envolveu diretamente 8 comunidades de pescadores da região e, de forma participativa, estimulou o debate a cerca das normas da legislação para a conservação da pesca. 27 Como descrito na apresentação do projeto disponível no site do WWF-Brasil no endereço: http://www.wwf.org.br/projetos/projeto.asp?lista=tema&item=8&item=53 , acessado em 20/12/2004 80 Em um ano e meio, a Caravana Mergulhão capacitou pessoas dentro das comunidades para realizarem entrevistas com os moradores abordando o tema da preservação. Essas entrevistas eram veiculadas num programa de rádio comunitário em Silves e, assim, repercutia o debate nas demais localidades. O rádio a pilha é o principal meio de comunicação da região e os resultados obtidos são expressos na efetiva conscientização da população em aderir a uma lei inovadora28. Entretanto, o aumento das restrições no uso dos recursos da região além de favorecer a preservação ambiental também causou impactos no cotidiano dessas comunidades. A proibição da pesca em determinados períodos do ano e a diminuição das áreas destinadas à atividade levantou o debate sobre alternativas para a geração de trabalho e renda na região. Assim, a ASPAC e o WWF-Brasil firmaram outra parceria, mas agora para viabilizar o desenvolvimento do ecoturismo. Com o apoio financeiro do governo austríaco conseguiram construir uma pousada comunitária. A Pousada Aldeia dos Ventos tem um caráter comunitário pois além de envolver a comunidade na prestação de serviços de hospedagem, também incentiva a opção por atividades de lazer desenvolvidas pela população local. “A diferença entre o nosso hotel e outros dessa mesma modalidade é a participação intensa das comunidades ribeirinhas. Nossos turistas conhecem como vive o ribeirinho, como ele pesca, planta, faz a farinha, faz o peixe para comer e fazem os passeios dentro da floresta e da cidade também, deixando divisas no comércio”. (Almeida Grana in TAMAIO & CARREIRA 2000) Após um momento de descontinuidade no financiamento dos projetos desenvolvidos pela ASPAC e o WWF, onde a comunidade se viu completamente dependente dos recursos externos, houve uma retomada dos trabalhos, mas agora enfatizando a necessidade de se capacitar as comunidades para se tornarem autônomas e menos vulneráveis. Dessa forma, a Caravana Mergulhão se tornou o principal instrumento na promoção do debate a cerca de cinco temas indicados pelas comunidades como prioritários: turismo, lixo, água, pesca e 28 O SNUC (Sistema Nacional de Unidades de Conservação) não estabelece nenhuma UC específica voltada para a proteção de lagos. 81 agricultura e pecuária. As questões foram levantadas em oficinas e, de forma participativa, foram definidas metas de curto, médio e longo prazo. Essas reuniões também serviram de suporte para o detalhamento de ações rumo a tão almejada sustentabilidade. A mudança na relação entre o WWF-Brasil e a ASPAC tem como principal vetor o estabelecimento de uma “verdadeira” parceria para o desenvolvimento de um projeto participativo. A coordenação do projeto entendeu que para que houvesse uma participação efetiva da comunidade, e não apenas o interesse nos recursos externos, era necessário que esta desse alguma contrapartida. Como visto anteriormente, a co-reponsabilidade é a sustentação de um processo particip(ativo). Só para ilustrar a questão pegamos um exemplo banal: enquanto o projeto financia os mantimentos da pousada, a comunidade oferece a mão-de-obra. O tema turismo foi intensamente discutido por representar uma nova alternativa de trabalho e renda para muitas pessoas na região. Com os novos recursos, obtidos através do WWFUK junto ao banco HSBC, a Pousada Aldeia dos Ventos passou por uma reforma estrutural visando uma melhor adequação aos padrões de qualidade e conta hoje com um edifício principal com restaurante, área de serviços, loja de artesanato e mirante, e dois blocos em alvenaria com 6 apartamentos cada, com banheiro privativo, ar condicionado, janelas teladas e varanda. A administração e a gerência passaram para uma cooperativa de prestadores de serviços, a CoopTur, formada basicamente por pessoas da comunidade que através de um sistema de rodízio se beneficiam das atividades da pousada. As atividades de lazer oferecidas aos turistas também foram elencadas e roteirizadas pelas próprias comunidades a partir de oficinas que procuraram mapear o que cada comunidade gostaria que fosse divulgado como atrativo natural e cultural de sua região. Dessa forma, já foram elaborados mais de 10 roteiros turísticos que vão desde visitas e pernoites nos lagos, observação da avifauna e visitas aos igapós, até atividades de cunho cultural como as visitas as comunidades onde é possível ter contato direto com as tradições e os costumes caboclos. Um passeio em especial chama a atenção por articular cultura e preservação ambiental. Em contraposição a pesca esportiva (muito praticada na região), os turistas são 82 convidados a embarcarem em pequenas canoas a remo para praticarem a pesca artesanal. No final do dia, os peixes capturados são assados em uma fogueira junto com a comunidade, enquanto histórias e lendas da Amazônia são contadas pelos ribeirinhos. A questão da pesca também é um foco de atenção do programa desenvolvido em Silves. A principal atividade econômica da região ainda é a pesca uma vez que o turismo ainda sofre com a sazonalidade. Mesmo com a Lei municipal de proteção dos lagos e o trabalho de conscientização das comunidades ribeirinhas, a manutenção dos estoques pesqueiros inspira cuidados. O programa vem apoiando iniciativas como o Pró-várzea do IBAMA que visa estabelecer acordos de pesca definindo as espécies que podem ou não ser pescadas, quando e como. Outra atividade que tem o apoio da ASPAC e do WWF é a permacultura. Ainda insipiente na região, a permacultura é uma atividade agrícola que tem como objetivo o manejo dos recursos naturais, visando a implantação de sistemas produtivos sustentáveis, alternativos aos modelos de produção convencional (de corte e queima), com a utilização de novas técnicas de cultivo e produção, buscando uma melhoria na qualidade de vida das comunidades através de uma alimentação saudável e sustentável. Uma das maiores dificuldades em se ampliar esse tipo de cultivo está na falta de financiamento. Programas governamentais, como o PRONAF (Programa Nacional de Agricultura Familiar), não financiam projetos eco-compatíveis. As discussões promovidas pelo programa também contemplam dois temas importantes que embora distintos guardam uma forte relação. O lixo dessa região apresenta uma característica peculiar e perigosa. Por não ter uma ampla rede de energia elétrica, as comunidades de Silves utilizam lanternas e rádios a pilha. Enquanto o lixo orgânico vai para compostagem e é reutilizado na permacultura, a enorme quantidade de pilhas consumida pode gerar um verdadeiro desastre ambiental. Nesse sentido, a parceria ASPACWWF também vem desenvolvendo um trabalho de coleta desse material para que seja enviado posteriormente para as grandes empresas do ramo sediadas em Manaus. 83 O trabalho de coleta das pilhas nas comunidades se articula com o problema da água uma vez que o risco de contaminação provocada pelo vazamento de substancias tóxicas é latente. Por mais contraditório que possa parecer, boa parte das comunidades ribeirinhas do estado do Amazonas sofrem com problemas de contaminação das águas. A falta de um sistema adequado de coleta de esgoto faz com que nos períodos em que os rios estão mais baixos haja elevados índices de doenças provocadas pelas águas contaminadas, como a hepatite e a diarréia. A experiência em Silves vem se desenvolvendo com sucesso e, hoje, serve de paradigma para outras comunidades tradicionais da Amazônia que pretendem explorar o enorme potencial turístico da região. Essa modalidade de turismo tem um caráter diferenciado, pois além de propor uma fonte de renda alternativa também promove o aprofundamento das relações políticas internas dessas comunidades. 6. Considerações finais A idéia de mega-empreendimentos hoteleiros seguindo o modelo “all inclusive”, completamente isolados e sem nenhum vínculo com o território onde se estabelece, assim como, projetos perfeitamente integrados de turismo comunitário, com todo o lucro proveniente da atividade turística sendo destinado a comunidade, representam situações extremas que dificilmente serão encontradas. Contudo, é importante que iniciativas de base comunitária sejam estimuladas uma vez que ainda representam uma parcela muito pequena dos projetos de desenvolvimento turístico. Os projetos de turismo de base comunitária se desenvolvem de diversas formas e com diferentes estruturas e objetivos, refletindo ambientes, contextos e valores culturais peculiares a cada região. Não se pretende afirmar que tais projetos não sofram influências externas e que não haja divergências internas. Com efeito, cabe destacar a importância dessas comunidades, reunidas ou não em associações, auxiliadas ou não por organizações 84 não-governamentais, firmarem parcerias ou acordos com a administração pública local, com outros níveis de governo e com o setor privado.29 Os impactos negativos da atividade turística convencional sobre os recursos naturais, ecossistemas e populações locais tornam urgente a reflexão sobre o caráter do turismo global, questionando o mito do turismo como gerador de emprego e renda e denunciando as políticas centradas na atração de investimentos que não levam em consideração a participação das comunidades locais. É necessário pensar em políticas públicas que abarquem iniciativas cujo foco esteja na inclusão social das populações e no resgate da cidadania. 29 Hatton. op. cit. 85 Conclusão Por um Programa Nacional de Turismo de Base Comunitária 1. Introdução Não resta dúvidas quanto ao enorme potencial turístico de nosso país. As belezas paisagísticas aliadas à diversidade biológica e cultural fazem do Brasil um dos destinos potencialmente de maior interesse, tanto internacionalmente como para o turismo doméstico. Nossas praias, florestas, montanhas, rios, festivais, culinária diferenciada, parques nacionais, patrimônio histórico, inúmeras manifestações culturais, além da tradicional hospitalidade brasileira, colocam o país em situação privilegiada para alcançar uma maior importância no cenário turístico mundial. Entretanto, não é apenas de vocação que se consolida um destino turístico. Este é “fruto de um conjunto de condições decorrentes de relações entre cultura, mercado e políticas públicas que venham proporcionar o desenvolvimento da atividade” (SANSOLO e CRUZ, 2003: p. 4). A crença de que já possuímos as condições necessárias para um melhor desempenho do setor é falaciosa, uma vez que ainda estamos construindo um processo de formulação de políticas de desenvolvimento do turismo. Para que os benefícios sociais e econômicos do turismo se concretizem, urge estabelecer instrumentos públicos que busquem conciliar o incentivo a um turismo mais responsável com ações de ordenamento e uso equilibrados dos espaços turísticos. A princípio, tais ações devem ser de co-responsabilidade do conjunto de agentes públicos e privados que estão ligados à atividade turística. Porém, “cabe ao setor público a prerrogativa de ditar políticas orientadoras para o planejamento e gestão do turismo em todos os níveis de governo, assim como para o setor privado” (SALVATI, 2004: p.21). 86 Em um regime democrático, cabe ao Estado, por meio dos representantes eleitos pela maioria da população, a busca por modelos de desenvolvimento que tragam benefícios à coletividade. Dessa forma, em se tratando do desenvolvimento turístico, é necessária a formulação de uma política nacional norteadora que garanta a salvaguarda do interesse público. Sem o devido envolvimento do setor público e sem a orientação da política nacional, o turismo se desenvolve, permitindo que iniciativas e interesses individuais se sobressaiam, desencadeando, conseqüentemente, desequilíbrios sociais, econômicos e ambientais nas localidades (CRUZ, 2001). Compreendemos que a inserção governamental nos aspectos concernentes ao pleno desenvolvimento do turismo, embora essencial, não é uma tarefa das mais simples. O lugar do turismo na administração pública vem sendo discutido e ainda não existe um modelo exemplar a ser seguido. Sabe-se que o turismo necessita de arranjos políticos e ações interdisciplinares, requerendo a intervenção dos mais variados setores da esfera pública. As inúmeras interfaces com as pastas do meio ambiente, educação, saúde, cultura, infraestrutura, cidades, transportes, planejamento, fazenda, entre outros, evidenciam que caso não haja clareza na definição dos papéis dos diferentes setores públicos, dificilmente haverá eficiência na promoção de um turismo sustentável (SALVATI, 2004). A recente criação do Ministério do Turismo (MTur) – uma antiga reivindicação do setor –, em janeiro de 2003, não garante por si só o estabelecimento de uma visão interdisciplinar para o desenvolvimento do setor. A importância política do MTur está na declarada influência que o turismo exercerá no desenvolvimento do país. As palavras do Presidente da República na mensagem introdutória ao Plano Nacional de Turismo deixam esta intenção ainda mais clara: “A concretização deste compromisso [criação do MTur] coloca o setor como uma das grandes prioridades do governo, estando integrado à macro estratégia do país e cumprindo papel fundamental no desenvolvimento econômico e na redução das desigualdades sociais” (BRASIL, 2003: p.6) 87 Em outros países, a questão do turismo é tratada transversalmente em diferentes políticas setoriais. Na Alemanha, por exemplo, não existe um órgão específico para a administração do setor na escala federal e tão pouco na estadual. As políticas setoriais de transportes, saúde, educação, infra-estrutura, meio ambiente, entre outras, consideram o turismo uma atividade de extrema relevância para o desenvolvimento do país e, por isso, realizam ações específicas para o setor. A opção por uma Divisão de Política de Turismo, subordinada ao Ministério da Economia e do Trabalho ao invés de uma pasta específica para o Turismo, não reflete um desinteresse pelo setor responsável por cerca de 8% do PIB nacional e 3 milhões de empregos diretos e indiretos (SANSOLO e CRUZ, 2003). Com ou sem um ministério exclusivo para o setor, um dos principais instrumentos da administração pública para tratar o turismo de forma transversal é uma Política Nacional de Turismo. Como parte integrante do processo de planejamento governamental, é na política pública que se reflete o posicionamento do governo – não apenas de um ministério – sobre determinado tema/área/setor. Dessa forma, serve de elemento norteador das demais ações referentes ao tema nas outras esferas de governo. Um dos produtos do processo de planejamento vinculado a uma política pública é o plano. Quando compreendemos a política pública como tudo aquilo que o governo decide fazer ou não relativo a um setor, o plano é o documento que indica como a política será conduzida (HALL, 2001). Uma das conseqüências mais claras da falta de uma política pública com status de lei para o turismo é o descontinuísmo. Como destaca Salvati, “A ausência de uma Política Nacional de Turismo definida em lei e que seja de fato orientadora e formuladora de diretrizes universais para investimentos, financiamentos e regulamentos em níveis regionais e locais, e para integrar as ações de todos os órgãos federais em uma visão comum, é fator de descontrole e descompasso nas ações entre os agentes públicos e privados promotores do turismo” (SALVATI, 2004: p.26) 88 No Brasil, infelizmente, ainda não vivenciamos um processo completo de planejamento público do turismo. Pela ausência de uma visão de longo prazo, vem surgindo vultosos investimentos no financiamento de infra-estrutura e na implantação de complexos hoteleiros de bandeiras internacionais, deixando de lado as questões ligadas ao bem-estar das comunidades, os interesses dos micros, pequenos e médios empresários e a preservação dos recursos naturais e culturais. A última tentativa de se propor uma Política Nacional de Turismo data de 1996. Porém, a conjuntura política da época não permitiu que a proposta se transformasse em lei e, por conseguinte, não foi absorvida de forma plena pelos ministérios interessados, devido à falta de recursos. Em 1999, o turismo foi incluído no PPA (Plano Plurianual do Governo Federal), mas continuou sem o status de uma Política Nacional e sem o vigor de uma Lei Federal. A política proposta previa a elaboração de um Plano Nacional de Turismo que nunca foi feito. 2. Algumas considerações sobre o Plano Nacional de Turismo 2003-2007 Poucos meses após a criação do Ministério do Turismo, o governo lançou o Plano Nacional de Turismo 2003-2007 (PNT). Ainda sem ter uma política clara definida em lei e, portanto, sujeito à descontinuidade administrativa por parte dos futuros gestores, o novo plano vem se apresentando como um dos instrumentos mais importantes na condução das ações governamentais ligadas ao turismo. Em consultas públicas com representantes de diversas entidades, instituições e empresas públicas e privadas do setor, foi feito um diagnóstico das deficiências que impedem o desenvolvimento do setor. De um modo geral, o diagnóstico aponta as seguintes carências:30 30 • ausência de um processo de avaliação dos resultados das políticas e planos; • insuficiência de dados, informações e pesquisas; (BRASIL, 2003: p. 17-18) 89 • qualificação profissional inadequada; • inexistência de um processo de estruturação da cadeia produtiva; • regulamentação inadequada; • superposição de leis nas variadas esferas públicas; • oferta de crédito insuficiente e inadequada; • deficiência de infra-estrutura básica; • baixa qualidade e pouca diversidade de produtos turísticos; • deficiência na promoção e comercialização do produto turístico brasileiro. A partir desse diagnóstico, foram elaborados os princípios orientadores para o desenvolvimento do turismo no Brasil. Em meio a um discurso já conhecido do potencial turístico brasileiro, da necessidade de se contemplar os mais variados aspectos da atividade, de seguir os pressupostos básicos da ética e da sustentabilidade, encontramos o desejo de se elaborar “um novo modelo para o turismo que contemple e harmonize a força e o crescimento do mercado com a distribuição da riqueza (...) um novo padrão de desenvolvimento, no qual todas as regiões possam crescer de forma integrada”31 (BRASIL, 2003: p. 19). Não restam dúvidas quanto às inovações realizadas no sistema de gestão do turismo no âmbito da administração pública federal. Pela primeira vez, foram estabelecidos instrumentos de direcionamento (PNT) e estrutura encarregada pela execução (Secretaria de Políticas Públicas), de fomento e infra-estrutura (Secretaria de Programas de Desenvolvimento) e de promoção e estudos turísticos (EMBRATUR), além de instâncias consultivas (Conselho Nacional de Turismo e Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Turismo), formando um núcleo estratégico na esfera federal responsável por elaborar Programas, Projetos e Ações voltados para o setor e atuando como articulador na construção de parcerias entre os diversos atores interessados no desenvolvimento do turismo. 31 grifo nosso. 90 Todavia, é pelo enfoque claramente economicista do PNT que se percebe o caráter restrito do novo modelo ou novo padrão de desenvolvimento almejado por este plano. Ora, os objetivos gerais de “desenvolver o produto turístico brasileiro” e “estimular e facilitar o consumo do produto turístico brasileiro” privilegiam a abordagem do turismo como negócio, deixando de lado todas as inúmeras imbricações sociais, culturais e ambientais. Por meio das cinco metas32 ambiciosas expostas no PNT é que foi orientada a criação de sete macroprogramas que visam superar as carências, problemas e obstáculos que impedem o crescimento do turismo no Brasil. Com os macroprogramas de Gestão e Relações Internacionais (programas de Acompanhamento do Conselho Nacional de Turismo, Avaliação e Monitoramento do Plano e Relações Internacionais), Fomento (programas de Atração de Investimentos e Financiamento para o Turismo), Infra-estrutura (programas de Desenvolvimento Regional e Acessibilidade Aérea, Terrestre, Marítima e Fluvial), Estruturação e Diversificação da Oferta Turística (programas de Roteiros Integrados e Segmentação), Qualidade do Produto Turístico (programas de Normatização da Atividade Turística e Qualificação Profissional), Promoção e Apoio à Comercialização (programas de Promoção Nacional e Internacional do Turismo Brasileiro, Reposicionamento da Imagem do Brasil e Apoio à Comercialização) e Informações Turísticas (programas de Base de Dados, Pesquisa e Demanda, Avaliação de Impacto do Turismo e Avaliação de Oportunidades de Investimento), o governo espera realizar os benefícios sociais e econômicos que a atividade turística potencialmente oferece. Apesar da estrutura complexa e das inovações administrativas, o PNT, efetivamente, não apresenta nenhum novo modelo ou novo padrão de desenvolvimento. O que vemos aqui é o velho discurso do turismo tratado com um fim, capaz de produzir em si os efeitos desejados pela sociedade, e não como um meio de melhorar as condições de vida de muitos brasileiros. 32 A saber, criar condições para gerar 1,2 milhões de novos empregos, aumentar para 9 milhões o número de turistas estrangeiros no Brasil, gerar 8 bilhões de dólares em divisas, aumentar para 65 milhões a chegada de passageiros nos vôos domésticos e ampliar a oferta turística brasileira (desenvolvendo no mínimo três produtos de qualidade em cada Estado da Federação e Distrito Federal). (BRASIL, 2003: p. 23) 91 3. Uma proposta de Programa Nacional de Turismo de Base Comunitária O modelo de desenvolvimento turístico que vem se implementando no Brasil, na última década, já deixou clara suas limitações. A grande quantidade de conflitos socioambientais, gerados no raio de influência dos complexos turísticos implantados com o apoio governamental, tornam urgente a necessidade de se pensar um modelo de desenvolvimento turístico mais justo, focado no desenvolvimento social das comunidades receptoras. Enquanto os aspectos econômicos, de caráter imediatistas, forem mais importantes que o próprio bem-estar das comunidades, dificilmente essa equação terá um resultado diferente. Se hoje os impactos negativos provenientes do turismo de massa já clamam por atenção, imaginem o cenário daqui a 20 anos, quando as projeções feitas pela OMT dão conta de um aumento de mais 100 % no fluxo de turistas pelo mundo. As questões ligadas a esse tema não são foco de debate apenas no Brasil. Em países do Caribe, onde o modelo de desenvolvimento turístico adotado nas últimas décadas se baseia em grandes complexos hoteleiros com todos os serviços incluídos (all inclusive resorts), o debate sobre quem são os verdadeiros beneficiários da “indústria do turismo” ganha uma importante dimensão. Em recente pesquisa publicada pela ONG Tourism Concern, a República Dominicana, um dos maiores destinos turísticos da região, com mais de 50 mil quartos disponíveis em seus hotéis, apresentou entre 1996 e 2000 o maior crescimento econômico das Américas, impulsionado pelo incremento do fluxo turístico. No entanto, cerca de 90 % de sua população vive abaixo da linha de pobreza. Do dinheiro gasto pelos turistas para aproveitarem suas férias nesse paraíso tropical 89 % retornaram ao país de origem, pois representam gastos com operadores, transporte aéreo, seguros de viagens, agências e comissões, etc. Dos 11 % restantes, apenas 3 % ficam no hotel. Qual será a parcela destinada aos funcionários do hotel, por exemplo?33 A saturação desse modelo abre uma lacuna importante quando pensamos o planejamento público do turismo. Experiências desenvolvidas no Brasil e no mundo apontam caminhos mais sustentáveis para o setor. Como já apresentado nesse trabalho, os projetos 33 http://www.responsibletravel.com/copy/copy101765.htm 92 desenvolvidos tendo como princípio norteador o turismo de base comunitária apresentam resultados mais satisfatórios, no que se refere às questões sociais, culturais e ambientais. Dessa forma, pensar em um programa nacional de fomento a essa modalidade de turismo pode ser uma alternativa interessante para o desenvolvimento do setor no Brasil. Por ser um país de dimensões continentais, o Brasil apresenta uma diversidade cultural e natural que dificilmente será encontrada em outros lugares do mundo. A implantação de complexos hoteleiros internacionais ignora o que de diferente podemos oferecer, homogeneizando nossa diversidade e concentrando o fluxo de turistas em alguns destinos já consagrados. Por outro lado, um Programa Nacional de Turismo de Base Comunitária (PNTBC) estimularia nossa diversidade, desvelando uma riqueza cultural e natural que surpreenderia muitos brasileiros e despertaria a curiosidade dos estrangeiros. Essa proposta está em consonância com as principais diretrizes apresentadas no Plano Nacional de Turismo 2003-2007 e contribuiria de forma decisiva no cumprimento das ambiciosas metas divulgadas nesse documento. Os principais vetores do PNT, a saber, a diminuição das desigualdades regionais e sociais, o equilíbrio da balança de pagamentos, a geração de empregos e ocupação e a geração e distribuição de renda, estariam contemplados no PNTBC. A seguir apresentaremos em linhas gerais o escopo desse programa. 3.1. Objetivos Gerais • Promover o desenvolvimento integrado e sustentável de localidades com potencial turístico; • Beneficiar diretamente as comunidades locais através do aumento do fluxo de visitantes. 93 3.2. Objetivos Específicos • Diversificar a oferta turística com a consolidação da modalidade “Turismo de Base Comunitária”; • Prover infra-estrutura básica e específica para o turismo; • Criar uma base de informações; • Qualificar o mercado de trabalho; • Fomentar o empreendedorismo; • Incentivar a criação de cooperativas e associações; • Estabelecer espaços coletivos de debates; • Divulgação e comercialização. 3.3. Diretrizes O PNTBC estaria estruturado de modo a concretizar, no médio prazo, uma verdadeira transformação na oferta turística brasileira, vinculando o setor à promoção do desenvolvimento social no nível local, orientando as ações para: • Valorização da diversidade cultural e dos modos de vida tradicionais; • Envolvimento comunitário aliado à promoção da cidadania; • Articulação e parcerias entre os diversos atores sociais, entre eles as diferentes instâncias governamentais, sociedade civil organizada, instituições de ensino, empresários e trabalhadores, comunidades e turistas. 3.4. Estratégias O PNTBC seria constituído por duas esferas de gestão: uma responsável pela coordenação geral do programa e outra responsável pelas ações locais. Dessa forma, cada destino onde o programa atuará terá um núcleo gestor local independente, diretamente, conectado à coordenação geral, como mostra o gráfico abaixo: 94 Gráfico 1. Organograma funcional Gestão Institucional Coordenada Gestão local do destino 1 Gestão local do destino 2 Gestão local do destino 3 ... 3.4.1. Gestão Institucional Coordenada A gestão coordenada facilita o estabelecimento de parcerias institucionais entre as diversas instâncias de governo, a iniciativa privada e a sociedade civil, promovendo a transversalização das ações voltadas para o setor. Para efetivar tais ações, o PNTBC conta com uma estrutura de gestão nacional, apoiada em um sistema de informação (indispensável para a ação descentralizada). O sucesso do Programa também está vinculado a mudanças nas relações de mercado e à adoção de novas formas de comercialização do produto turístico brasileiro. 3.4.2. Gestão Local A atividade turística acontece na escala local e é nela que as ações de organização e gestão do território devem estar apoiadas. O planejamento participativo demanda espaços públicos abertos para o debate com o conjunto de atores sociais e econômicos interessados na promoção do turismo, levando em conta as particularidades de cada região. A articulação e a formação de parcerias com ONG´s e instituições acadêmicas contribui para uma melhor compreensão da dinâmica local e são essenciais para o sucesso do Programa. 3.5. Ações Operacionais Para cada esfera de gestão do PNTBC serão oferecidos um conjunto de subprogramas que visam viabilizar os objetivos propostos. Para a Gestão Institucional Coordenada, todos os subprogramas oferecidos serão fundamentais para o funcionamento do Programa, no 95 entanto, a Gestão Local terá a opção de escolher os subprogramas que melhor atendem às necessidades de cada localidade. A seguir serão apresentados os objetivos de cada subprograma. 3.5.1. Gestão Institucional Coordenada 3.5.1.1. Subprograma de Gestão e Articulação Interinstitucional • Coordenação geral das ações do PNTBC; • Articulação com os demais programas em desenvolvimento no Ministério do Turismo; • Articulação com os demais setores do governo e da sociedade em geral. 3.5.1.2. Subprograma de Fomento ao Turismo de Base Comunitária • Divulgar o PNTBC nos municípios e comunidades com potencial turístico; • Atração de novos destinos; • Captação de investimentos nas agências internacionais. 3.5.1.3. Subprograma de Intercâmbio de Experiências • Criação de um Fórum de Discussões permanente; • Trabalhar com redes cooperativas; • Criar base informacional. 3.5.1.4. Subprograma de Divulgação e Marketing • Divulgação institucional da modalidade “Turismo de Base Comunitária”; • Divulgação dos destinos; • Fazer pesquisa de demanda. 96 3.5.1.5. Subprograma de Monitoramento e Avaliação • Criação de indicadores de impacto do PNTBC; 3.5.2. Gestão Local 3.5.2.1. Subprograma de Gestão e Articulação Interinstitucional • Estabelecimento dos arranjos políticos locais; • Identificação dos Atores Sociais; • Articulação com os demais setores de governo e da sociedade visando a viabilização dos demais subprogramas; 3.5.2.2. Subprograma de Infra-estrutura Básica • Levantamento das carências em termos de saneamento, água, lixo, postos de saúde, escolas, dentre outros; • Articulação junto aos órgãos responsáveis para suprir tais carências; 3.5.2.3. Subprograma de Infra-estrutura e Logística para o Turismo • Mapeamento e levantamento de carências da infra-estrutura voltada para o turismo já existente; • Mapeamento e levantamento de carências da logística (sistema de transportes, sistema de agenciamento e controle de ocupação, dentre outros). 3.5.2.4. Subprograma de Inventário Participativo dos Atrativos Turísticos • Debate junto à comunidade receptora para a definição dos atrativos naturais, históricos e culturais; • Definição de roteiros. 97 3.5.2.5. Subprograma de Fortalecimento Institucional • Trabalhar na criação de cooperativas e associações e no fortalecimento das já existentes; • Estabelecer fóruns de debates e conselhos locais e/ou outros canais de integração; • Ordenamento dos arranjos produtivos locais; • Estabelecer acordos e códigos de conduta. 3.5.2.6. Subprograma de Capacitação e Qualificação Profissional • Identificar de forma participativa as necessidades locais quanto à capacitação; • Investir na formação de lideranças locais; • Estabelecer parcerias com instituições acadêmicas e/ou serviços sociais autônomos, como SESC, SENAC e SEBRAE; • Incentivar o empreendedorismo solidário; • De um modo geral, instrumentalizar a comunidade para uma efetiva participação no processo. 3.5.2.7. Subprograma de Financiamento Comunitário e Microcrédito • Viabilizar pequenos empréstimos para as pessoas que queiram investir na criação ou ampliação de micros, pequenos e médios empreendimentos voltados para o turismo com a criação de um Fundo Rotativo; • Incentivar a criação de empreendimentos comunitários; 3.5.2.8. Subprograma de Comunicação e Educação Ambiental • Divulgar as ações e o andamento do programa na comunidade; • Promover atividades de educação ambiental integradas às escolas de ensino médio e fundamental, tratando o tema de forma transversal; 98 • Capacitação dos professores; • Promover atividades de educação ambiental voltadas para os turistas. 3.5.2.9. Subprograma de Ordenamento Territorial • Prestar assessoria jurídica nas questões fundiárias (problemas relativos a posse da terra, criação de Unidades de Conservação, conflitos entre Unidades de Conservação, dentre outros) 3.5.2.10. Subprograma de Monitoramento e Avaliação de Impacto do Turismo • Indicar uma metodologia para definição de padrões aceitáveis de impacto e monitoramento da capacidade de suporte para atividades decorrentes do turismo; • Propiciar o estabelecimento de instrumentos de gestão da visitação, monitoramento dos impactos ambientais e adoção de ações corretivas implementados pela comunidade local; • Fazer registros da visitação e organizar levantamentos sobre o perfil e as percepções dos visitantes. 4. Não é o rabo que abana o cachorro... é o cachorro que abana o rabo No decorrer desse trabalho, vimos as enormes possibilidades que a atividade turística oferece para dinamizar a economia de um modo geral, mas, principalmente, a economia na escala local onde, efetivamente, o turismo acontece. No entanto, vimos também que não necessariamente isso se reverte em melhoria nas condições de vida das comunidades receptoras que, dependendo do modelo de desenvolvimento turístico adotado, podem ficar às margens dos benefícios gerados pela atividade. É uma falácia corrente nos dias de hoje achar que o incentivo ao aumento dos fluxos turísticos pode substituir uma política de desenvolvimento, dando conta, espontaneamente, de solucionar distorções sociais e regionais construídas por séculos de descaso das 99 autoridades públicas. Os problemas estruturais de nossa sociedade demandam atenção especial e exigem a adoção de novos paradigmas para balizarem nosso desenvolvimento. Dificilmente encontraremos uma única atividade econômica redentora que promoverá as transformações necessárias em nossa sociedade. Tais transformações acontecerão, somente, quando o conjunto das atividades forem pensadas, planejadas e executadas tendo como elemento norteador a melhora na qualidade de vida da população, caracterizando uma verdadeira política de desenvolvimento e não, apenas, de crescimento econômico. Compreender o desenvolvimento como expansão das liberdades (SEN, 2002) implica fazer com que as atenções se voltem, primordialmente, para o incremento das capacidades das pessoas de levar o tipo de vida que elas valorizam, enfatizando-lhes a condição de agentes políticos num processo de superação das privações de liberdades que limitam escolhas e oportunidades pessoais e comunitárias. Essa perspectiva é convergente com a proposição de Zaoual (2003: 58) de um desenvolvimento situado, cuja racionalidade é “uma construção social transformável que se ajusta continuamente aos dados do lugar, da situação, em sua dinâmica”. Segundo o autor, a apreensão dos eventos do mundo na perspectiva do homo situs permite romper com o monopólio heterônomo do sentido que o universalismo do homo oeconomicus pretende impor. Pois é por meio de sua capacidade de se situar que lhe é possível definir “os verdadeiros problemas e soluções em um real esforço de inovação local” (ZAOUAL, 2003: 75). E, assim, afirmar as capacidades endógenas de juízo crítico como suporte de desenvolvimento situado e criativo, pois o homo situs tem no seu enraizamento numa localidade determinada uma condição de possibilidade para o exercício de sua liberdade e criatividade. Liberdade e criatividade que precisam ser afirmadas em contraposição à ditadura dos saberes desenraizados, pois: “A competência postulada dos especialistas e dos tomadores de decisão perpetua a incompetência dos atores do sítio onde, em outros termos, a incompetência eventual dos primeiros é substituída pela competência potencial dos segundos. Assim, estabelece-se o círculo vicioso da pobreza. O pobre não se torna cidadão, mas um 100 cliente atomizado das instituições do social, as quais se profissionalizam sem poder resolver em profundidade os problemas econômicos e sociais legitimando sua existência.” (ZAOUAL, 2003: 77) Se pensarmos as políticas de turismo nesse contexto de desenvolvimento veremos que elas podem contribuir, e muito, na pavimentação dessa estrada. Isso implica conceber uma política de turismo integrada a uma política de desenvolvimento mais ampla cujo foco deve estar na inclusão social por meio da afirmação da identidade cultural e da cidadania como suporte da ampliação do exercício efetivo de liberdades substantivas. Uma política que busque a superação das privações de liberdades que limitam as escolhas e as oportunidades das pessoas e comunidades que tem seus modos de vida situacionalmente afetados pelo incremento dos fluxos turísticos. Hoje, o principal vetor da turistificação dos lugares é o mercado globalizado, onde as estratégias de marketing fazem das imagens de lugares signos capazes de atrair um número crescente de consumidores de pacotes turísticos. A produção da experiência turística segue os padrões do modo de produção industrial em seu empenho por maximizar a programação e o controle e minimizar riscos e perdas. Dilui-se, assim, a surpreendente e imprevisível vivência de encontros com alteridades em proveito da afirmação do consumismo de pseudo-eventos desprovidos de espontaneidade (BOORSTIN, 1996). Nesse processo, boa parte das práticas turísticas se torna busca do fotogênico e o turista um consumidor de cenas, emoções e prazeres projetados pelo marketing (URRY, 2002). Como aponta Santos (1982), a globalização hegemônica não une e sim unifica, impondo a disseminação massificada de padrões de consumo homogeneizados. O turismo massificado reproduz em diversos destinos o estresse de que os turistas buscam escapar durante as férias: viagens para lugares cada vez mais superlotados onde todos cumprem cronogramas pré-fixados para consumir os mesmos eventos indicados nos folhetos publicitários. Nas pequenas comunidades, esta unificação acontece, ainda, não apenas nos moldes de gestão padronizados, mas, também, no modo de vida e no patrimônio relacional das populações receptoras. 101 Essa verdade não é contradita, mas sim confirmada, pela presença de movimentos de resistência, empenhados por afirmar a valorização da diversidade cultural e salvaguardar as especificidades singulares de diversos sítios de pertencimento, de povos, comunidades e culturas regionais. A apropriação turistificada do espaço não é um movimento que se dê no vácuo e isento de atritos. Alguns desses atritos expressam resistências situadas de comunidades cujos sítios de pertencimento são fortemente impactados por práticas turísticas por elas percebidas como predatórias de seus patrimônios relacionais. O turismo de base comunitária busca se contrapor ao turismo massificado, requerendo menor densidade de infra-estrutura e serviços e buscando valorizar uma vinculação situada nos ambientes naturais e na cultura de cada lugar. Não se trata, apenas, de percorrer rotas exóticas, diferenciadas daquelas do turismo de massa. Trata-se de um outro modo de visita e hospitalidade, diferenciado em relação ao turismo massificado, ainda que porventura se dirija a um mesmo destino. Essa modalidade de turismo converge com a proposta de Zaoual (1998) de um desenvolvimento situado, que enfatiza a dimensão simbólica dos padrões relacionais e afirma a pluralidade. Dar sentido à coordenação e à atuação dos atores da sociedade civil requer afirmar seus vínculos com espaços vividos, onde a racionalidade se constrói in situ, tendo por horizonte a constituição de novos saberes e formas de ação que considerem as contingências qualitativas de cada meio. Os sítios simbólicos de pertencimento são, para Zaoual (2003: 30), expressão de um processo de construção de identidade comunitária e de comunicação do homem com o seu meio, além de serem o lugar onde as crenças práticas se ajustam às circunstâncias locais e contrariam a lógica exclusiva do mercado excludente globalizado. O turismo de base comunitária, enraizado num processo situado de desenvolvimento, é uma modalidade do turismo sustentável cujo foco principal é o bem-estar e a geração de benefícios para a comunidade receptora. Nesse processo, a melhoria na distribuição da renda é uma conseqüência direta da ampliação de horizontes para o exercício das liberdades 102 substantivas apontadas por Sen (2002). Os cursos de ação compatíveis com o desenvolvimento situado são situacionais; o protagonismo das comunidades locais pode se efetivar sob uma grande variedade de formas de livres associações – por cooperativas, associações, joint ventures, empreendimentos comunitários ou micros, pequenos e médios empresários locais. O decisivo não são as formas e meios, mas os fins: a ampliação das liberdades substantivas das comunidades situacionalmente afetadas como agentes e beneficiários da implementação das práticas turísticas. Ao enfatizarmos a importância e valor das experiências de turismo de base comunitária passíveis de serem implementadas numa imensa variedade de formas - nos filiamos a uma perspectiva possibilista e não determinista e prescritiva dos caminhos do desenvolvimento situado e do turismo em particular. Tais empreendimentos não possuem uma configuração fixa. Eles corporificam situacionalmente estruturas e objetivos, contextos e valores culturais situados. Tampouco pretendemos afirmar serem tais empreendimentos isentos de influências externas, divergências internas e conflitos de interesse. O que destacamos é o significado de tais empreendimentos comunitários para a democracia e a qualidade de vida, quer as comunidades estejam ou não reunidas em cooperativas, micro-empresas, sindicatos ou outras formas de livre associação, e quer existam ou não redes solidárias com organizações não-governamentais internacionais ou apenas nacionais. As parcerias acordos e pactos negociados para a implementação de tais projetos tanto junto à administração pública local como a outros níveis de governo e também junto ao setor privado - são elementos constitutivos da democracia participativa e do desenvolvimento situado e sustentável. Como destaca Latouche (1991), os bens relacionais são de importância nevrálgica para as políticas de desenvolvimento de países e regiões da periferia, devendo ser evitado o progresso predatório das redes relacionais comunitárias. As estratégias de desenvolvimento devem ser comunitariamente enraizadas, o que implica reconhecer o protagonismo da economia civil na prestação de diversos serviços intensivos em informação. E isso inclui uma ampla gama de serviços turísticos e de hospitalidade. 103 A sustentabilidade pode ser entendida, desde essa perspectiva, como vinculada a modos qualificados e socialmente construídos - de inter-relação, tanto dos seres humanos com a natureza como dos seres humanos entre si. E o desenvolvimento situado e sustentável requer enraizar políticas de turismo em diretrizes que, como destaca Sachs (2004), promovam não apenas a sustentabilidade econômico-financeira dos empreendimentos. De que servirá o incremento dos fluxos turísticos se apenas alguns poucos - e tantas vezes os mesmos - atores disso se beneficiarem? Essa forma de compreensão do processo de desenvolvimento é um imenso guarda-chuva sob o qual se inserem inúmeros caminhos a serem seguidos. O turismo de base comunitária é um deles. No entanto, o desenvolvimento situado e sustentável, com foco na ampliação das liberdades substantivas, necessita de ações que extrapolam as oportunidades geradas pelo turismo de base comunitária configurando, assim, um movimento mais amplo que deve abarcar os mais variados setores da sociedade. 104 Referências Bibliográficas BARRETO, M., O Gran-tour revisitado in CORIOLANO, L. N. M. T. (org), Turismo com ética, Fortaleza: FUNECE, 2ª edição, 1998. BARRETT, F., The independent guide to real holidays abroad, Londres, The Independent, 1989. BARTHOLO, R. et al (orgs), Globalização, identidade brasileira e a questão social, Brasília: SESI-DN, 2001b. 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