2 – O PLANO PILOTO DA BAIXADA DE JACAREPAGUÁ O Plano piloto para a Baixada de Jacarepaguá, da autoria do arquiteto Lúcio Costa, nasceu da necessidade de disciplinar a expansão urbana do Rio de Janeiro, na área conhecida popularmente como Barra da Tijuca, desde a barra da lagoa do mesmo nome até as terras do Recreio dos Bandeirantes - uma das últimas fronteiras de expansão da cidade, que em curtíssimo espaço de tempo transfigurou-se de uma terra quase virgem e desabitada em um espaço urbano dinâmico, relativamente denso e muito movimentado. Isto ocorreu em menos de três décadas. Até o fim da década de 60, a área se conservava em seu estado natural, bloqueada pelos maciços da Tijuca e da Pedra Branca (ver anexo 1) que a isolavam do restante da cidade, o que permitiu preservar essa reserva excepcional para futuras expansões urbanas. A abertura do elevado do Joá, nos anos de 1970, rompe a primeira barreira da Zona Sul em direção à Barra. Já a auto-estrada Lagoa-Barra, que começou a ser construída na segunda metade dos anos de 1960, facilitou o acesso, Auto-Estrada Lagoa-Barra graças a um sistema conjugado de túneis e viadutos, trazendo à tona a importância da região, expondo a necessidade de estabelecer determinados critérios de urbanização capazes de motivar e orientar o seu desenvolvimento ordenado. Convidado pelo Prefeito Francisco Negrão de Lima, em 1956, para executar o plano, o professor, conforme o chamavam os técnicos da Prefeitura com os quais veio a trabalhar no detalhamento do plano e, posteriormente na Superintendência de Desenvolvimento da Barra, mostrou-se reticente, mas acabou por aceitar, seduzido pela beleza e força da região. Lucio Costa viu ali a possibilidade de elaborar um plano que harmonizasse a natureza e o homem e que representasse um novo urbanismo, completamente diferente do que se iniciara no período do Império, se consolidara na cidade principalmente desde os primeiros anos da República e que resultara na fragmentação do território urbano, segundo o próprio urbanista, em duas porções desequilibradas: ao sul concentrada e densa e ao norte espraiada e difusa, uma estrutura invertebrada. A Barra seria, pois a chance da cidade se reunificar através de três eixos longitudinais paralelos e um transversal perpendicular a eles, que os articularia. Do encontro entre o último, hoje avenida Ayrton Senna, e o do meio, a avenida das Américas, resultaria um novo pólo. Este, por sua vez, conformaria o futuro centro metropolitano do Rio de Janeiro, em substituição ao centro antigo. O Plano, finalmente, seria a chance de salvar a região da ocupação desordenada e predatória que já vinha acontecendo e que levaria, fatalmente, à degradação do meio ambiente selvagem e agreste e ao caos. Portanto, mesmo atento à beleza e importância do sítio natural, Lucio Costa antevia que, caso não fosse realizado um projeto cuidadoso de ocupação, a baixada da Barra e Jacarepaguá estaria fadada a mais impiedosa e inexorável destruição: “A reserva biológica aspirava a preservação de toda essa área como parque nacional. E, de fato, o que atraía irresistivelmente ali e ainda agora, até certo ponto, atrai é o ar lavado e agreste; o tamanho – as praias e dunas parecem não ter fim; e aquela sensação inusitada de se estar num mundo intocado, primevo.” 8 2.1 – O Arquiteto Lucio Costa, internacionalmente conhecido como o arquiteto que projetou Brasília, nasceu em Toulon, na França, em 27 de fevereiro de 1902, filho de brasileiros, e faleceu no Rio, em 1998, cidade na qual viveu e trabalhou a maior parte de sua vida, com algumas incursões na Europa, onde estudou e morou durante um período entre a infância e a adolescência. Formado pela Escola Nacional de Belas-Artes, em 1923, da qual foi diretor entre 1930 e 1931. Era membro honorário do Royal Institute of British Architects e doutor honoris causa pela Harvard University, entre outras instituições estrangeiras. Lucio Costa A contribuição de Lucio Costa e sua importância para a arquitetura e o urbanismo no Brasil podem ser constatadas pelos inúmeros projetos que criou e executou, pela não tão vasta, mas consistente obra escrita que deixou e por sua presença no centro de inúmeras discussões, muitas vezes acaloradas, sobre urbanismo e arquitetura que extrapolaram até mesmo as fronteiras do país. 8 Lucio Costa – Registro de Uma Vivência, Lucio Costa, Empresa das Artes/UnB, 1995, pág. 348. Lucio, como ainda se referem carinhosamente a ele os amigos, participou desde a criação, em 1937, do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Até sua morte, permaneceu ali como uma das vozes mais consideradas, se não a mais influente, nas formulações e nas idéias sobre os caminhos da proteção da identidade cultural do país, notadamente sobre os destinos do patrimônio arquitetônico brasileiro. Conhecido como homem culto, elegante, afável e discreto, Lucio Costa foi e é considerado um dos mentores seminais da arquitetura e do urbanismo moderno brasileiro, movimento ao qual se integrou a partir de 1931, após um brevíssimo período seduzido pelo estilo neocolonial. Os principais destaques de sua obra e que o tornaram uma quase lenda foram a participação no projeto do edifício-sede do Ministério da Educação e Saúde, tombado como patrimônio nacional e considerado umas das obras-primas da arquitetura mundial; o projeto do Plano-Piloto de Brasília, em 1956, cidade classificada como Patrimônio da Humanidade pela UNESCO; e o Plano-Piloto da Baixada de Jacarepaguá e Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, em 1969. 2.2 – O Plano Habitar, trabalhar, divertir-se e circular. Era isto que Costa trataria de dispor e organizar sobre o território primevo e selvagem, como ele próprio se referia, a ser ocupado. O problema, portanto, ultrapassava os limites em que foi posto, pois o que importava não era tão somente dar solução urbanística adequada a um programa de caráter recreativo, residencial e turístico, como talvez se imaginasse. O que estava concomitante e verdadeiramente em jogo é a própria estruturação urbana definitiva da Cidade-Estado. Assim o primeiro impulso instintivo, haveria de ser sempre o de se impedir que se fizesse lá o que for. Mas, por outro lado, parecia evidente que um espaço de tais proporções e tão acessível não poderia continuar imune, teria mesmo de ser mais cedo ou mais tarde, urbanizado. No essencial propunha uma rede de vias hierarquizadas e estruturadas das duas principais vias existentes, embora ainda rudimentares, as atuais: ■ Avenida das Américas – a leste continuando a auto-estrada Lagoa/Barra, ligando a região à zona sul da cidade e, a oeste alcançando a região de Santa Cruz e Campo Grande, podendo chegar a própria Rio-Santos (BR 101). Trecho da Avenida das Américas ■ Avenida Ayrton Senna (antiga Via 11) – estabelece a ligação entre a Barra e a zona norte da cidade, através do bairro de Jacarepaguá. Funcionando como auto-estradas, esses eixos, em linha reta, não teriam cruzamentos semaforizados e nem passagens de nível para pedestres, que no futuro cruzariam as vias através de passagens subterrâneas. Via 11 – 1970 Sistema Viário Quanto à faixa litorânea – Avenida Litorânea, entre a praia e a lagoa ou o Canal de Marapendi, deveria ser conservado no estado, salvo, alguma construção de caráter muito especial para a conveniência do público freqüentador da região. Esta não deveria se transformar em avenida de mão dupla, com canteiro central e retorno; deveria pelo contrário, ser mantida rústica para integrar-se no ambiente agreste que importava preservar. Outro ponto de grande importância seria proibir – em toda área urbanizada – posteamento para redes aéreas. Todas as instalações deveriam ser subterrâneas como em qualquer cidade que se preze. Avenida Litorânea, atual Avenida Lucio Costa – como podemos ver tornou-se avenida de mão dupla, diferente do que foi proposto pelo plano. Um monotrilho ligaria edifícios, localizados nos gabaritos centrais, com a Cidade Universitária e o Galeão, através da rua Cândido Benício e do eixo Madureira-Penha. Deveria ser preservado espaço para implantação do transporte pré-metroviário (ver anexo 2) que ligaria a área a várias estações do sistema ferroviário. Pretendia o plano também que a região fosse urbanizada tanto para transporte individual, pelo uso cada vez maior de veículos automotores particulares, como para o transporte de massa que necessariamente deveria ser implantado em futuro próximo. Para reforçar a malha viária básica, além do metrô e do monotrilho, foram previstas dentro da região mais de duas ligações principais: a Via 5, também na direção lesteoeste e a Via 9, na direção nordeste-sudeste. Como suportes secundários de circulação, propiciando acesso à orla marítima, a Avenida Sernambetiba e a Via 2, margeando a Lagoa de Marapendi. (ver anexo 3) A abertura do tráfego em 1970, da auto-estrada Lagoa-Barra, via integrante do anel rodoviário da cidade, transpôs o obstáculo físico que vinha protelando a ocupação intensa da Baixada de Jacarepaguá. Situando-se então a 15 minutos da Lagoa Rodrigo de Freitas e cortada longitudinalmente pela Avenida das Américas, que estabelece a ligação entre o porto do Rio de Janeiro e o porto de Santos. Edificações Os usos e as atividades propostas seriam implantados nas 46 subzonas de usos criados pelo plano. Ali se localizariam os espaços para moradia, lazer e trabalho, com lugares reservados especificamente para esportes, administração, serviços, comércio e, ainda para os setores a serem preservados: a reserva de Marapendi, as pedras de Itaúna e da Panela e o bosque da Barra. Além disto o plano era recheado de recomendações quanto à natureza e à necessidade de deixá-la, mesmo nas áreas a serem urbanizadas, o mais agreste possível, preservando-as como jardins de areia, dunas e vegetação de restinga entre as edificações (ver anexo 4). As moradias, em geral, se concentrariam em grupos de prédios altos, distribuídos de maneira sinuosa ao longo da Avenida das Américas, e constituindo núcleos de ocupação residencial distantes um quilômetro um dos outros. A altura dessas edificações poderia chegar até entre 25 e 30 pavimentos (torres). Outras concentrações de prédios de apartamentos, estes com cerca de oito a dez pavimentos, seriam implantadas a cada quilômetro nos cruzamentos da atual Via Parque e da Avenida das Américas. Outra característica da urbanização proposta seria a abundância de áreas verdes contínuas, já que os problemas de uso e ocupação do solo são considerados em estreita correlação com a preservação sempre que possível “in natura”, das partes mais expressivas do território atingido. Medidas especiais vinham sendo tomadas para conservar os elementos mais importantes do relevo como os monumentos naturais que marcam a paisagem ambiente. “Esses conjuntos de torres, muito afastados, além de favorecer os moradores com o desafogo e a vista, teriam o dom de balizar e dar ritmo espacial à paisagem, compensando ainda, por outro lado, o uso rarefeito do chão mantido agreste.” 9 Junto ao núcleo de torres se espalhariam as lojas comerciais em edificações térreas e agrupamentos espaçados destinados a mansões ou casas menores. A faixa litorânea deveria ficar livre de edificações, salvo as que fossem para atender a conveniência do público freqüentador das praias. Um único conjunto de prédios altos seria admitido nesta faixa e se localizaria nas duas laterais do entroncamento da avenida do litoral com a Via 11, atual Ayrton 9 Lucio Costa – Registro de Uma Vivência, Lucio Costa, Empresa das Artes/UnB, 1995, pág. 349. Senna. Na faixa mais estreita, compreendida entre a Avenida das Américas e a Lagoa da Tijuca, seria apenas permitida a construção de casas ou clubes em grandes áreas. As casas, porém, poderiam ter áreas e pátios murados, mas não poderiam ter muros nas divisas nem nos alinhamentos, apenas cerca viva com aramado, portões e eventual pavilhão de caseiro, pois, assim o verde estaria sempre prevalecendo. Prédios altos próximo à Avenida Litorânea – pouco espaço entre as edificações. O Futuro Centro Metropolitano O Centro Metropolitano seria um local reservado, essencialmente como local de trabalho, novamente os gabaritos seriam elevados, podendo as torres localizadas nos quarteirões centrais alcançar até 200 metros de altura, quatro a mais do que a Pedra da Panela, que serviu de referência. Além deste centro, haveria mais dois subcentros, um junto ao loteamento existente do Jardim Oceânico e o outro contíguo ao canal de Sernambetiba, no Recreio dos Bandeirantes. Lazer e Entretenimentos O Plano, como não poderia deixar de ser, repercutiu sobre toda a estrutura da cidade, sobretudo no setor de lazer. Além do Centro Internacional de Feiras e Exposições – Rio Centro e do Autódromo Nelson Piquet, haveria um Centro Cívico que até hoje não saiu do papel. Este Centro estaria localizado na planície marcada pela presença da Pedra da Panela e seria batizado de Paço da Panela. A Pedra deveria ser preservada em seu estado agreste natural, fazendo contraste à elegância arquitetônica do Centro Cívico. Ao fundo a Pedra da Panela Quanto aos cinemas e outras comodidades estariam igualmente localizadas de acordo com a conveniência dos interessados e usuários na vizinhança desses núcleos. Deveriam ser reservados também espaços para a localização futura de um novo estádio, de novos campos de golfe e para a instalação dos clubes esportivos. 2.3 – Por que o Plano Fracassou? O fato do plano regular o aproveitamento dos terrenos, os gabaritos das edificações e o coeficiente de ocupação, limitava muito a ação de empresários e de imobiliárias. Várias propostas do plano foram alvo de inúmeras críticas e polêmicas. Na época, a mídia documentou uma série de discussões, que envolveram a Prefeitura, grupos empresariais, entidades de moradores, a Câmara Municipal e o próprio Lúcio Costa. O resultado foi a modificação introduzida por um decreto, de 27 de abril de 1981, que alterava gabaritos, criava novas condições de parcelamento e autorizava a construção de hotéisresidência ao longo a orla marítima. Logo, o urbanista Lucio Costa decide se afastar dos destinos da ocupação da Barra da Tijuca. Comparando esse plano com o de Brasília, de autoria do mesmo Lucio Costa, e com um intervalo de pouco mais de 15 anos entre eles. Tanto aqui, quanto lá, o ponto de partida foi a articulação de dois eixos ortogonais em torno dos quais evoluiriam todas as propostas e o processo de ocupação. As diferenças essenciais entre os planos diziam respeito à geografia, que no Rio impunha restrições pela presença do mar, das lagoas e das montanhas e em Brasília obrigava a montagem de uma verdadeira cidade com todas as suas atividades. Enquanto em Brasília as decisões estavam inteiramente a cargo do governo, na Barra o processo teria uma grande participação do setor privado. Essas situações provocaram uma enorme diferença ao se comparar os resultados de cada plano. Apesar das idéias de Lucio Costa serem contrariadas, traços de um urbanismo moderno estão presentes em cada canto da região. As formas de ocupação do bairro manifestam claramente as idéias do mestre. A grande diferença é que a Barra é o resultado de um processo social que interagem, ao lado do Estado, as forças do mercado e os grupos sociais. Aos poucos a Barra foi adquirindo identidade própria. Brasília foi declarada Patrimônio da Humanidade pela UNESCO sendo condenada, portanto, a permanecer sempre igual. A Barra, ao contrário, é um espaço mutante e dinâmico. Enquanto Brasília permaneceu conservadoramente “moderna”, a Barra se tornou pós-moderna. Veremos a seguir como este plano influenciou no modo de vida dos moradores, ocasionando o crescimento dos condomínios fechados. 2.4 – A Polêmica dos Condomínios Fechados Parte desta seção foi retirada de uma dissertação de mestrado em Arquitetura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. A autora, Ana Cristina Gomes dos Santos, conseguiu expor com muita clareza como e porquê surgiram os condomínios fechados, além de demonstrar o que os moradores pensam sobre o assunto. Utilizei também uma série de reportagens de jornais que venho colecionando sobre a região, que exemplificam várias colocações da autora. É o que veremos a seguir. 2.4.1 - Pós-Modernidade e espaço residencial: os condomínios fechados O espaço urbano tem sido marcado por um fenômeno tipicamente pósmoderno: os condomínios fechados. Surgidos nos anos 70, os condomínios fechados identificam, de maneira inequívoca, a Barra da Tijuca por lhe emprestarem uma feição singular. Reunindo habitantes de variadíssima procedência, de imediato ficou claro que não havia consenso sobre o que se entendia por bem-viver. As cercas, a vigilância ostensiva, a banalidade e os conflitos característicos da vida social centralizada pelos clubes, saunas e piscinas, logo deixariam claro que o espaço ao redor da moradia, menos que um atrativo, se constituía numa ameaça – cabia garantir que as áreas comuns eram exclusivas dos moradores. A inclusão de escolas, comércio e serviços diversos dentro dos limites destes condomínios, ao menos no seu período inicial, passariam a ser vistos como um arquipélago cujas unidades mantêm pouco contato, salvo pelas áreas de assimilação representadas pelos macro-mercados e pelos shoppings. A princípio, é legítimo estabelecer uma relação direta entre a formação dos condomínios fechados e o Plano Lúcio Costa, embora eles não constassem, de fato, no plano. Se tomarmos como premissa o fato de que os núcleos residenciais eram compostos por agrupamentos de casas e de torres afastados 1 km entre si, intermediados por nada, ou como se queira, por “áreas livres” ou “espaços verdes”, podemos especular que esse distanciamento tenha favorecido, posteriormente, o cercamento dessas casas e desses edifícios, coisa que seria mais difícil de acontecer se o tecido urbano fosse concebido nos padrões tradicionais e densamente construído. Aliás, a própria concepção do plano, ao prever “um sistema térreo autônomo de lojas e de toda a sorte de utilidades (...) com pátios, pracinhas e área de recreio para as crianças” articulado aos edifícios dos núcleos, tinha por objetivo “propiciar a confluência ao invés da dispersão” (Costa, 1969). O que Lúcio Costa não podia prever era que essa “confluência” fosse resultar em um cercamento dos núcleos, isolando-os dos espaços livres que, originalmente, destinavam-se à sua integração, pois havia até mesmo uma recomendação para que não houvesse muros divisórios. 1 km 1 km 1 km 1 km Fonte: Dissertação de Mestrado em Arquitetura, UFRJ, Ana Cristina Gomes dos Santos, p.125. Podemos também alegar que a separação factual entre os espaços livres e os núcleos (em função do cercamento destes) deveu-se à não utilização desses espaços pelas pessoas. As pessoas não usam os espaços livres e verdes apenas porque eles existem ou porque assim os urbanistas esperam que elas façam. A falta de razões concretas para o uso desses espaços pode ter colaborado para o seu isolamento. Por outro lado, podemos alegar que os condomínios fechados surgiram em função do próprio zoneamento e uso do solo previstos no plano. A opção pelo espaço aberto, com construções de gabarito alto e isoladas, implicava em uma baixíssima taxa de ocupação do solo. O fato dos núcleos terem sido edificados em grandes lotes resultou em uma valorização do solo e em uma “seleção prévia”, uma demanda específica para as classes média e alta, que buscavam novos espaços residenciais. Obviamente, foi essa população de classe média e alta que acabou por incentivar a proliferação dos condomínios fechados, pois podiam pagar por eles. Os condomínios funcionam como um refúgio, um lugar preservado para as classes média e alta, e reúnem conforto, lazer e segurança – itens indispensáveis para assegurar a “alta qualidade de vida”, “a sensação de férias permanente” e “o paraíso urbano” que os moradores dizem lá encontrar. Dos antigos núcleos imaginados por Lucio Costa, com algumas lojas e parquinhos para a criançada se distrair, sobrou muito pouco. Os condomínios agora competem entre si na oferta de uma infra-estrutura cada vez mais diversificada e com maior grau de sofisticação: salão de beleza, academia de ginástica, sauna seca e a vapor, massagem, coffeshops, restaurantes, minimercados, salas de TV e vídeo, salas de jogos, salas para recreação infantil, salões de festa, lavanderia, lojas de conveniência, salão de convenções, uisqueria, clínica médica, clube, piscinas (olímpica, semi-olímpica, aquecida), ginásio e quadras poliesportivas. O luxuosíssimo Barra Golden Green tem até uma campo de golfe. Condomínio Barra Sul, um dos mais antigos da Barra da Tijuca. No Oceanfront Resort, atualmente em construção na Avenida Lúcio Costa, os onze edifícios previstos pelo projeto desfrutarão também de um elaborado tratamento paisagístico: fontes, cascatas, lagos, pequenas pontes, jardins e um mini-horto, onde os moradores poderão deixar as suas plantas para serem tratadas ou durante o período em que estiverem viajando! Mas a sofisticação passa também pela incorporação dos avanços tecnológicos aos condomínios. A IBM vai implantar no Oceanfront Resort um sistema que está sendo chamado de “Intranet”, de modo que quando um morador quiser reservar uma quadra de tênis, consultar o cardápio do restaurante, fazer compras de supermercado online, mandar arrumar o apartamento, basta acessar a rede interna. Além disso, serão oferecidos: uma central telefônica com serviço de recados, três home-offices por prédio, uma central de pagers para uso interno dos moradores e acesso à Internet pelo condomínio, sem que o morador precise ocupar a sua linha telefônica particular. A casa dos Jetsons vai se tornar realidade. O que impressiona no fenômeno dos condomínios não são tanto as regalias e facilidades oferecidas a quem as deseja e pode pagar por elas, mas a idéia de exclusividade que os transformam em espaços à parte da cidade. Na maioria dos casos, a infra-estrutura oferecida é quase que totalmente de uso exclusivo dos moradores, conferindo-lhes um prestígio social e econômico e fomentando o sonho de consumo daqueles que não podem desfrutar desses privilégios. A propaganda de lançamento do Oceanfront Resort confirma essa situação: “E o melhor: apenas os moradores e seus convidados poderão freqüentar o Ocean Club & Spa. E, como posteriormente não haverá venda de cotas do clube, o Ocean Club & Spa será o clube mais fechado do Rio”. Condomínio Crystal Lake, as margens da Lagoa de Marapendi. 2.4.2 - Segurança e Segregação: o lado de dentro e o lado de fora A natureza participante a que apelavam os anúncios dos jornais torna-se mero pano de fundo de uma opereta cujos personagens são prisioneiros dos playgrounds e das “áreas de lazer”. O aumento da violência nas duas últimas décadas, se corresponde estatisticamente a um crescimento da população carcerária, materialmente, no quadro da vida urbana, identifica-se com a presença das grades e dos muros fechando a vista e o acesso aos espaços de habitação. Com eles, e com cães e vigias, as recentes construções isoladas dos novos loteamentos da região protegem-se de ameaças suspeitas. A defesa do luxo fez nascer um arsenal de sistemas de segurança e uma vigilância permanente. Hoje, todos os novos condomínios fechados da Barra incorporam os altos esquemas de segurança como parte importante para a estratégia de venda. Os folhetos de propaganda dos lançamentos reforçam a idéia de morar com conforto e segurança: guaritas com controle eletrônico, circuito interno de TV, central PABX com discagem direta, etc. O sistema de segurança informatizado que será implementado pela IBM no Oceanfront Resort quer oferecer um “controle total” e uma “tripla” segurança: três zonas de controle entre o lado de fora do condomínio e o acesso aos apartamentos, com câmeras de vídeo cobrindo toda a área. Além disso, cada morador terá um cartão magnético personalizado, que destravará o portão principal e permitirá o acesso às garagens e aos apartamentos. Em matéria publicada pelo jornal O Globo, parte Rio, do dia 14/04/02, nos mostra que este isolamento, provocado pelo medo da violência, cria a marginalização de grupos sociais dentro da cidade. Prédios e condomínios se tornam castelos medievais, como conclui a recente pesquisa financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Estudantes de arquitetura da Universidade Federal Fluminense constataram que, em alguns bairros da cidade, a “medievalização” da arquitetura demonstra a preocupação de incluir a segurança como item principal dos mais novos projetos arquitetônicos no estado. Tratase da arquitetura da Violência ou do Medo, como está sendo chamado o trabalho organizado pela professora Sônia Ferraz, da UFF. Mansões e condomínios de alto luxo construídos, nos bairros mais nobres da cidade, com torres com pequenas fendas para vigias (como se fossem seteiras de castelos), altos muros de pedras, portais duplos e até fossos com ponte, como no condomínio Summer Dream, na Avenida Sernambetiba, na Barra da Tijuca. É a linguagem medieval de proteção. O estudo conclui que a insegurança desenha um novo padrão funcional e formal de arquitetura e comprova que o medo gera lucro: uma boa fatia do mercado imobiliário, da indústria de equipamentos e materiais de segurança cresce na mesma medida em que a violência. Segundo a pesquisa, na medida em que as pessoas buscam proteção também estão se auto-excluindo e esta exclusão pode provocar a marginalização de grupos sociais que vivem em condomínios fechados. A professora Sônia Ferraz explica que tanta proteção altera de maneira significativa as relações pessoais. A obsessão por segurança, em conseqüência do medo, tornou-se uma questão arquitetônica, ou seja, estar do lado de dentro tornou-se um símbolo de status, de se estar protegido, escorado, enquanto que estar do lado de fora evoca exposição, isolamento e vulnerabilidade. O problema é que, à medida em que os condomínios fechados vão se multiplicando, a cidade vai se dividindo sistematicamente em um dentro e um fora. Na Barra, é cada vez mais difícil para qualquer cidadão (e simplesmente impossível para os mais pobres) entrar nos condomínios fechados sem o convite ou a autorização de um morador. Em tese, as ruas internas dos grandes condomínios são públicas; existem escolas municipais lá dentro e, portanto, as ruas não poderiam ser “fechadas”. Mas a maior parte das pessoas não têm conhecimento disso. Os moradores e os grandes empreendedores conseguem a liberação, junto ao poder público, para cercar os condomínios. Há quatro anos, o então diretor da Amabarra (Associação de Moradores da Barra da Tijuca) denunciava o fato dos condomínios estarem privatizando ruas ilegalmente, “graças à conivência explícita das autoridades”. Para ele, o mercado de segurança privada na Barra já era à época, o mais promissor do país, pois, como o objetivo era “vender a Barra como uma ilha de segurança”, as empresas disputavam acirradamente os milhões que as pessoas aceitavam pagar para ter a ilusão de sentirem-se protegidas. E ele ainda acusava a entrega da segurança nas mãos de empresas particulares que “não poderiam estar atuando em via pública; nem mesmo estas vias públicas poderiam estar fechadas com cancelas. A atual situação é totalmente ilegal”. Como exemplo, a mesma pesquisa realizada por estudantes de arquitetura da UFF citada acima, constata que na Barra, um conjunto de prédios entre a Rua Gastão Senges e as avenidas Celso Kelly e Assis Chateubriand foi cercado por grades que invadiram a calçada, obrigando o pedestre a andar na rua. As ruas dos condomínios Barramares e Nova Ipanema são públicas, mas foram cercadas, segundo o vice-presidente da Ademi, o construtor Ivan Wrobel. Ele ficou impressionado com a pesquisa e admitiu a “medievalização” da arquitetura no Rio. Francisco Albenza, vice-presidente da Atlântica Residencial, também concorda com os pesquisadores. Mas ressalta que a preocupação com a segurança existe em todas as grandes cidades. A segurança predial é um processo, e não apenas uma atitude de colocar meios eletrônicos. A professora Sônia Ferraz afirma que este processo não tem fim: de um lado existe alguém criando meios de defesa e do outro existe quem pense em como burlar os esquemas de proteção. Vamos assistindo, assim, a uma segregação ostensiva dos espaços promovida pelas elites e com a conivência das autoridades, que vão se apropriando de pedaços da cidade e impedindo o livre acesso de “estranhos”. Quer dizer, então, que a perda da liberdade é o preço da segurança? Qual a noção de liberdade se há restrição de acesso a ruas com portões que só se abrem com o controle remoto dos moradores e de seguranças particulares, que controlam e fazem julgamentos sobre quem pode ou não desfrutar daquele espaço? O fenômeno vai se repetindo em outras áreas da cidade. Na Joatinga, em 1995, os moradores resolveram gradear e colocar cabines na entrada de duas ruas que serviam como acesso principal à praia, alegando que queriam apenas se proteger da violência e não “privatizar” a praia. A idéia de fechar as ruas vai se tornando algo natural, e as pessoas já não se questionam mais sobre as questões básicas a respeito de uma urbanidade democrática, onde o livre acesso ao espaço urbano deveria ser um direito de todos, sem constrangimentos. Para uma moradora da Joatinga, as grades “não são uma barreira proibitiva ou agressiva, apenas um controle. As pessoas de bem não se importam de dizer onde vão”. Entretanto, os sistemas de segurança podem até nem ser tão eficazes assim para os assaltantes, homicidas ou seqüestradores profissionais, mas funcionam brilhantemente na intimidação de transeuntes “indesejáveis” ou de pedestres que estejam apenas querendo passear. De fato, a Barra como o reduto das elites prevaleceu, e o que presenciamos hoje é um enorme contingente de cidadãos de baixa renda que trabalham na Barra, mas não têm como morar lá; um exército de operários, empregadas domésticas, porteiros, serventes, etc; excluídos daquele espaço. Aliás, em alguns momentos, a exclusão é ostensiva mesmo. A Acibarra, poderosa associação comercial e industrial da Barra formada por grandes empresários, ajudou a prefeitura, em meados desta década, a retirar alguns invasores das margens da Lagoa do Saco, alegando, de forma justa, estar colaborando para a preservação ambiental. E ainda construiu casas para que eles fossem morar dignamente...em Jacarepaguá. A remoção de favelas tem sido uma constante desde os anos 80. A Favela de Marapendi, que se localizava no início da Avenida das Américas, surgiu nos anos 70 como alojamento temporário para os operários da construção civil e se transformou em moradia permanente para uma população que, não havia sido prevista no plano-piloto. Sumiu. Uma outra aglomeração, que se localizava no início da Rua Rodolfo de Amoedo, no final do Jardim Oceânico, deu lugar, há poucos anos, a uma pracinha muito civilizada. Atualmente, foi publicada uma reportagem no jornal O Globo do dia 04/04/02, caderno Barra – nº 1192, demonstrando que os moradores de rua são um problema crescente na região, segundo o presidente da Associação de Moradores do Tijucamar e Jardim Oceânico, Ábdon Elias. Ele afirma que nos últimos meses, tem visto pelo menos três pontos de moradores de rua se formarem. Na praia, próximo ao Pepê, na Olegário Maciel e na Érico Veríssimo. Isso sem contar os que ficam sob o viaduto da Barra. Um levantamento feito por técnicos da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social, no ano passado, concluiu que a Barra é o oitavo bairro com maior concentração de população de rua. A Associação continua cobrando dos órgãos responsáveis, para que os mendigos não sejam simplesmente recolhidos, mas sim para que haja o encaminhamento para abrigos ou que sejam construídos alojamentos no bairro. Esses moradores acreditam que as oportunidades e chances na Barra são maiores. Alberto Soares Pinto, de 31 anos, mora nas ruas há sete anos. Até bem pouco tempo, ele mendigava nas ruas do Leblon. Há menos de um mês, mudou-se para a Praça Souza Araújo, na Barra da Tijuca. Vivendo de esmolas, ele explica que está com tuberculose e que não consegue vaga em nenhum hospital. Mora na praça porque todos se ajudam e todos formam uma família. A segregação ostensiva dos espaços e a neurotização da Barra com a segurança ficaram explícitas em 1995, quando dois fatos desencadearam uma incrível e surreal polêmica. O primeiro deles foi o assassinato do filho do dono de um grande hipermercado da Barra, ocorrido em umas das vias do bairro, e o outro foi o seqüestro de um empresário dentro do condomínio Novo Leblon – apesar de ser totalmente fechado e possuir quatro guaritas, com sistema intercomunicante, que controlam não só a entrada de veículos como também a entrada de pedestres. Estes dois fatos levaram os empresários da Acibarra, com o apoio de uma boa parte dos moradores, a propor a instalação de portões nas cinco principais vias de acesso ao bairro. Os portões seriam erguidos na boca do Túnel do Joá, Avenida Ayrton Senna, Estrada dos Bandeirantes, Avenida das Américas e Estrada do Itanhangá, e teriam cabines informatizadas que acionariam os carros da polícia no caso de tentativa de fuga dos criminosos. Segundo os proponentes, estes portões seriam fechados apenas em casos de assaltos ou seqüestros – principal preocupação devido à concentração da população de maior poder aquisitivo da cidade. Exatamente pela alta concentração de renda, as elites da Barra exigiram das autoridades um tratamento especial, porque, até então, acreditavam-se seguras em seus condomínios. A proposta causou uma enorme polêmica, foi matéria de várias reportagens nos principais jornais da cidade, os moradores ficaram divididos e a Acibarra, para amenizar o caráter “segregacionista” da idéia, propôs que fossem instalados não portões com grades, mas simples portais com cabines, que funcionariam mais como “um efeito psicológico”, pois “o assaltante ou o seqüestrador vai pensar duas vezes antes de cometer crimes na Barra”. (In, JB, 21/03/95). Embora o pedido tenha sido negado pela prefeitura, o episódio reforça a idéia da cidade fragmentada em um dentro e um fora. Assim como na Idade Média – como vimos acima a matéria sobre “medievalização” – se faziam fossos, pontes elevadiças, muravam-se cidades para evitar o perigo que vinha de fora, agora, os cidadãos se protegem atrás das grades, muros altos, ruas fechadas a estranhos e até pensam em fechar o próprio bairro. No caso da Barra, a associação das elites com o policiamento público é assumida sem meio-termo, diferentemente do que acontece em outras partes da cidade. No início dos anos 90, foi criada a Barralerta, uma entidade formada por moradores e empresários, destinada a encontrar soluções para o problema da violência na Barra. A Barralerta atua em parceria com a segurança pública, fornecendo, por exemplo, combustível para os veículos da polícia, consertando os danificados, ajudando a financiar a compra de novos ou de equipamentos e até doando carros. A Acibarra, assim como a Barralerta, também tem a participação efetiva na área de segurança e, atualmente, reivindica a criação de mais uma delegacia e de um batalhão da PM exclusivo para a Barra. A associação se compromete a ajudar o poder público a construir as instalações e a aparelhar o batalhão e, na época do episódio dos portões, fez questão de deixar bem claro que a construção deles seria de sua responsabilidade. Perguntado sobre o que pensava da proposta de instalação dos portões na Barra, Lúcio Costa rapidamente identificou o problema: “É um exagero desnecessário. É só para marcar a vaidade de moradores de determinados logradouros. Eles querem se isolar da plebe” (In O Globo, 06/04/95). Logo, o problema não é a parceria entre a iniciativa privada e o poder público, mas sim os interesses que permeiam essas ajudas tão magnânimas. Certamente, a Barralerta não ajuda o 18o. Batalhão da PM para que ele coloque o seu efetivo nas ruas de Jacarepaguá, mas sim para que ele coloque nas ruas da Barra. Os carros não são doados para que se faça patrulhamento em áreas carentes, como a Cidade de Deus ou a Favela Rio das Pedras, mas para que se façam rondas na Barra. Em tese, todos têm direito a segurança pública, já que isso ainda é atribuição do Estado. Mas ao que parece, as formas de segregação espacial estão fazendo com que aqueles do lado de dentro tenham mais direitos a ela do que aqueles que estão do lado de fora. 2.4.3 – A Geração Condomínio Hoje, há na Barra cerca de 160 condomínios fechados, habitados por mais de cem mil pessoas. Atrás das grades, longe das mazelas da vida nas grandes cidades, crescem crianças e adolescentes que formam a chamada geração condomínio. Em meio às casas e edifícios de alto padrão, a nova geração apresenta determinadas características diretamente relacionadas à vivência dessa nova forma de urbanidade. Uma delas é a falta de contato com o mundo real. Sem noções elementares de vida, a nova geração vive nessas bolhas sócioeconômicas, num mundo cor de rosa, isolada da realidade complexa das grandes metrópoles. Como têm praticamente tudo dentro dos condomínios, inclusive excelentes escolas, crianças e jovens crescem confinados nessas mini-cidades, em um mundo à parte, perdendo quase que totalmente o contato com o restante da cidade. A falta de referência geográfica é uma característica comum. Algumas crianças, quando querem dizer que foram a uma outra parte da cidade, fora da Barra da Tijuca, dizem que foram “ao Rio”, como se a Barra fosse um lugar em separado. Muitos não têm a menor idéia dos bairros que compõem a cidade ou o que vem a ser Zona Norte ou Sul. Os subúrbios, no seu imaginário, são descritos apenas como lugar “feios, sujos, de gente pobre”. Uma jovem, que passou a infância e a adolescência dentro de um condomínio, disse “adorar a segurança que existe na Barra e que falta nos outros bairros do Rio, mas o fato de morar dentro de um condomínio fechado me fez passar muito tempo sem saber andar pelas ruas da cidade” (In JB, 19/06/94). Acostumados a viver entre seus iguais, numa realidade fabricada, esses jovens crescem alimentando a exacerbação das diferenças entre o lado de dentro e o lado de fora., com pouquíssimo contato com a realidade das metrópoles. Como disse um adolescente, morador co Condomínio Alphaville: “Eu acho que morar fora de condomínio fechado é muito ruim, porque você tem de viver trancado em casa. Lá fora tem ladrão, assassino, muito movimento e pessoas pobres” (In Veja, 21/06/95). Sintomaticamente, a primeira reunião intercondominial de síndicos da Barra, realizada em 1995, enxergou a necessidade da contratação de psicólogos e assistentes sociais para acompanharem o desenvolvimento dessas crianças e adolescentes que crescem soltos, porém confinados nesses feudos pós-modernos. Protegidos da violência externa, alguns grupos impõem regras hostis de convivência a praticam atos violentos dentro dos próprios condomínios, como a depredação de dependências e de automóveis, uso de drogas, pichações, roubo de toca-fitas e brigas entre tribos rivais, preocupando pais e moradores que temem que eles se transformem em gangues violentas como as que existem em Brasília. A formação de uma geração despreparada para viver fora das grades é uma das conseqüências desta nova urbanidade. Alguns pais até que se esforçam para fazer com que seus filhos não fiquem completamente alienados, levando-os, por exemplo, para passear de metrô ou de carro pelas ruas da cidade (sempre de vidros fechados, é claro, como se estivessem no Simba Safari). Mas o problema não parece de fácil solução, porque as complexidades da vida urbana tradicional e o contato com as diferenças não fazem realmente parte do cotidiano desses jovens, transformando-se apenas em exporádicas experiências exóticas. Alguns pais e até mesmo alguns adolescentes têm consciência deste isolamento, mas se perguntados se trocariam a vida dos condomínios por outra fora deles a resposta é quase unânime: não. 2.4.4 – Tudo sem se afastar do bairro De acordo com a matéria publicada pelo Jornal O Globo, caderno Barra, 16/09/99, muitos moradores, principalmente os jovens, só saem da Barra da Tijuca quando é inevitável. O que veremos a seguir exemplifica a seção acima. Aos fins de semana, é grande o número de motoristas que percorre o Alto da Boa Vista, a Linha Amarela, a Grajaú-Jacarepaguá e o Túnel Zuzu Angel para se divertir na Barra. Parte dos moradores da Barra não gosta de sair do bairro para nada. O ideal é fazer tudo perto de casa: ir à praia, às compras, ao lazer, ao trabalho. Para muitos, sair da Barra virou sacrifício. A dona de casa Mercedes Martins, que trocou a Tijuca pelo bairro há sete anos, vê com desânimo as visitas a parentes que moram fora da região. Com a mudança ela transferiu tudo para o bairro: o colégio das filhas ao programa de fim de semana. Quando visita parentes na Tijuca, por exemplo, sente-se mal com a confusão, ficando louca para voltar. Para o jornalista José Antônio Gollo, a explicação do isolamento está no trânsito. Os engarrafamentos acabam com a animação de quem pensa em passear fora do bairro. Entre os jovens o lema também é aproveitar o lazer na Barra. Essa preferência acaba deixando muitos desinformados sobre outros pontos da cidade, como o Centro. Observando fotos da Igreja da Candelária, da Cinelândia, do Teatro Municipal, do Paço Imperial, do CCBB, da Casa França-Brasil e da Central do Brasil, dez moradores de condomínios da Barra, com idade entre 12 e 22 anos, quebraram a cabeça para identificá-los e deixaram muitos itens sem resposta. Wellington Guimarães, de 22 anos, por exemplo, identificou a Candelária, o Municipal e a Central do Brasil e diz que esteve no Centro durante uma excursão de colégio e com a mãe. Juliana Flores, de 13 anos, ao lado da amiga Andréia Rocha, também teve dúvidas quanto a Central do Brasil, confundindo com uma estação de metrô. Dos dez entrevistados, dois acertaram o Teatro Municipal; três, a Candelária; um, o Paço Imperial; dois, a Casa França-Brasil; um, o CCBB; e três, a Central do Brasil.