GAZETA DO POVO 13 Curitiba, sábado, 20 de março de 2010 Vida Pública DIÁRIOS secretos Editor responsável: Fernando Martins – [email protected] QUADRO DE FUNCIONÁRIOS Albari Rosa/ Gazeta do Povo Corredores quase vazios da Assembleia dão falsa impressão de que a Casa tem poucos servidores. Levantamento da Gazeta do Povo e da RPC TV revelam que o Legislativo, sobretudo na área administrativa, está inchado. Casa cheia de gente Departamentos administrativos da Assembleia – a presidência, a direção-geral e a primeira-secretaria – estão inchados Karlos Kohlbach, Katia Brembatti, James Alberti e Gabriel Tabatcheik ❚ Como é possível 125 funcionários trabalharem em um espaço de aproximadamente 200 metros quadrados? O cruzamento de informações publicadas em mais de 700 diários oficiais da Assembleia Legislativa do Paraná com a lista de servidores da Casa, divulgada no ano passado, permitiu estabelecer o local de trabalho de centenas de servidores do Legislativo. E o resultado desse levantamento, realizado pela Gazeta do Povo e pela RPC TV, indica que departamentos de direção da Assembleia – a presidência, a direção-geral e a primeira-secretaria – estão inchados de gente. Comandada pelo deputado Alexandre Curi (PMDB), a primeira-secretaria da Assembleia é o órgão com mais servidores. Tem pelo menos 125 funcionários à sua disposição, de acordo com o levantamento da reportagem. Em tese, esses servidores deveriam estar todos trabalhando na sala de cerca de 200 metros quadrados desse órgão dentro da sede da Assembleia, em Curitiba. O deputado estadual Nereu Moura (PMDB), ex-primeiro-secretário da Casa, diz que essa secretaria tem um trabalho essencialmente administrativo. Ou seja, não exerce atividade política que pudesse justificar a necessidade de haver funcionários trabalhando nas bases eleitorais no interior do estado – como ocorre com os servidores dos gabinetes parlamentares. Moura ocupou esse cargo no Legislativo até o fim de 2006. Ele garante que nunca chegou a ter 100 funcionários sobre a sua responsabilidade. A própria Assembleia, de certa forma, admite que o número de servidores lotados na primeira-secretaria é elevado. A Lei de Plano de Cargos da Casa, aprovada em dezembro do ano passado pelos deputados estaduais e que entrou em vigor ontem, prevê que a secretaria deve ter apenas 14 servidores. Atualmente, portanto, teria nove vezes mais do que o número que os próprios parlamentares entenderam ser necessário há apenas três meses. Presidência e direção-geral Pela nova legislação, o gabinete da presidência da Assembleia tem de ter no máximo 15 funcionários. Contudo, a estrutura disponí- 125 servidores A presidência da Assembleia, a direçãogeral e a primeira-secretaria foram procuradas pela reportagem. Mas os responsáveis não quiseram comentar o assunto. estão lotados na primeira-secretaria, nove vezes mais do que prevê a atual lei de cargos da Assembleia para esse órgão (14 funcionários). Lista incompleta 73 pessoas trabalham na presidência. O ideal seriam, no máximo, 15. 21 funcionários estão lotados na diretoria-geral. A lei prevê que 10 são suficientes. vel para o deputado Nelson Justus (DEM) exercer a presidência da Casa abriga 73 pessoas, segundo o levantamento da reportagem. O número é cinco vezes superior ao previsto. Outra estrutura que também estaria “com gordura” é a diretoria-geral, comandada até quinta-feira, por Abib Miguel, que pediu afastamento temporário do cargo. A lei estabelece que a diretoria deve ter no máximo 10 funcionários, mas está com, no mínimo, 21 – o dobro do ideal. A relação de funcionários da Assembleia Legislativa do Paraná, divulgada em 1.º de abril de 2009, não revelou o cargo, a função e o local de trabalho dos servidores da Casa. Apesar de incompleta, a relação permitiu que a reportagem montasse parcialmente o organograma funcional da Assembleia, cruzando dados com os mais de 700 diários oficiais da Casa, de 1998 a março de 2009, a que a reportagem teve acesso. Ainda assim, não foi possível identificar em qual setor trabalham 1.413 dos 2.457 funcionários que a Assembleia tem, de acordo com a lista de servidores divulgada no ano passado. Isso porque, desde 2006, não há nenhuma movimentação dessas pessoas nos diários oficiais da Casa. Mas, com base nos registros oficiais, a reportagem encontrou o local de trabalho de 1.044 servidores. Se essas pessoas foram realocadas para outro setor, a informação sobre a mudança não foi publicada nos diários – ao menos não nos documentos regulares, já que a Assembleia publica diários avulsos, sem numeração, que não estão disponíveis à consulta – portanto, sem possibilidade de controle social. “A tecnologia está aí, disponível, e poderia ser feita a atualização [da lista de servidores da Assembleia] até em tempo real.” Gil Castello Branco, diretor da ONG Contas Abertas. Até a Casa Branca divulga a lotação dos servidores ❚ Mesmo com a preocupação extremada com segurança, o governo dos Estados Unidos, diferentemente da Assembleia Legislativa do Paraná, divulga na internet o valor dos salários e o local de trabalho dos funcionários da Casa Branca, em Washington – até mesmo dos assessores diretos do presidente Barack Obama. Isso é uma prova de que é possível ser transpa- rente, aponta o coordenador da organização não governamental Contas Abertas, Gil Castello Branco. A Contas Abertas fiscaliza os gastos públicos no Brasil. Segundo ele, é mais do que justo que os contribuintes saibam onde estão sendo aplicados os recursos que são destinados para custear as atividades legislativas e a folha de pagamento da Assembleia. E isso inclui saber, por exemplo, quantos servidores trabalham em cada gabinete e em cada setor da Assembleia – algo que não está disponível para a população paranaense e que a reportagem da Gazeta do Povo e da RPC TV conseguiu fazer após um detalhado cruzamento de informações de 700 diários oficiais (veja reportagem acima). “A medida tomada pela direção [da Assembleia], de anunciar um recadastramento [dos servidores], é necessária neste momento. Mas não deixa de ser absurda. Qual seria o próximo passo? Colocar anúncio em jornal procurando os funcionários?”, questiona Castello Branco. Ele ainda diz ser insuficiente que a Assembleia divulgue a lista de funcionários apenas uma vez por ano. “A tecnologia está aí, disponível, e poderia ser feita a atualização [da lista de servidores] até em tempo real. Mas uma vez por semana já seria bom.” Mais absurda que a divulgação incompleta e apenas anual da relação de servidores, aponta o coordenador da Contas Abertas, é a presença de funcionários fantasmas e de “laranjas” no rol de servidores da Casa. “É um escárnio alardear transparência e fazer isso. Até parece que os envolvidos se sentiam inatingíveis e não havia receio de que fossem descobertos e punidos.” Castello Branco acredita que, da forma como foi divulgada a lista, a Assembleia apenas deu uma satisfação formal para a sociedade. “Mas a luz do sol é o melhor desinfetante. E, para mim, o antídoto para a corrupção é a transparência.” Já o coordenador do Centro de Apoio Operacional das Promotorias de Proteção ao Patrimônio Público de Curitiba, o procurador Arion Rolim Pereira, explica que a divulgação de informações mais precisas sobre a lista de funcionários é essencial. “Se for divulgado que dez pessoas trabalham em um setor e isso não for verdade, os dois que realmente trabalham lá vão poder apontar que a lista está errada, por exemplo.” Leia mais nas páginas 14 e 15.