PROPAGANDAS DE PRODUTOS PARA EMAGRECER: A DITADURA DO CORPO FEMININO NO SÉCULO XXI Soraia Aparecida Roques Pereira1 Rosemere de Almeida Aguero2 UEMS Resumo: Trata-se neste artigo da imagem da mulher no século XXI, a partir da análise de duas propagandas de produtos para emagrecimento retiradas das revistas Claudia e TV Brasil. Objetiva-se investigar, por meio da Análise do Discurso de linha Francesa, como a mídia impressa propõe a imagem feminina nessas propagandas e de que maneira faz uso da materialidade linguística para persuadir o público consumidor e atraí-lo para a compra de tais produtos. Enfocam-se as marcas discursivas expressas por essas propagandas e como elas evidenciam as relações de poder existentes na sociedade, repassadas ideologicamente. Entre as estratégias identificadas está o ato de aguçar o desejo intenso pelo mito da beleza eterna e acessível, conseguidas por meio de fórmulas milagrosas veiculadas por essa publicidade. Palavras-chave: Mídia, Propaganda, Corpo, Mulher Introdução Na sociedade contemporânea a mídia assume a importante tarefa de propor representações, cumprindo a função social de integrar os sujeitos. Agindo como mediadora entre os sujeitos e a sociedade, oferece aos indivíduos construções da realidade que permitem que modelem suas identidades, tomando por base formas simbólicas de representações (GREGOLIN, 2007, p. 16). Essa tarefa é garantida por uma sucessão de modelos culturais propostos, colocados em ininterrupta circulação pelo aparelho midiático, que sugerem constantes movimentos interpretativos, por parte dos sujeitos, assim como o deslocamento dos sentidos. São representações que regulamentam saberes, determinando modos de ser e agir relacionados a diversos aspectos da vida dos sujeitos, tais como o uso do corpo e da saúde, difundidas por uma rede discursiva cuidadosamente articulada. Como exemplo dessa rede tem-se as propagandas, amplamente divulgadas pela mídia brasileira, que propõem estereótipos tanto do corpo quanto do lugar social a ser ocupado por homens e mulheres na sociedade contemporânea. O discurso do corpo saudável, modelado, enxuto e mínimo, 1 Soraia Aparecida Roques Pereira – Graduada em Letras pela UEMS – Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Unidade de Jardim. 2 Rosemere de Almeida Aguero – Docente do Curso de Letras da UEMS - Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Unidade de Jardim e Mestre em Estudos Linguísticos pela UFMS – Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. amplamente divulgado, acaba por instaurar diretrizes e propostas identitárias oferecidas como um objetivo a ser alcançado. Neste ensaio lançamo-nos à investigação dessa temática, buscando compreender como a mídia propõe modelos de representações e cria subjetivações por meio de efeitos de sentidos materializados em duas propagandas, divulgadas pelas revistas Claudia e TV Brasil. Nessas propagandas são divulgados os produtos Elancyl e Magrins que fazem circular agenciamentos discursivos, instaurando subjetivações. Inicialmente serão explicitados alguns conceitos teóricos essenciais ao desenvolvimento desta tarefa, porque em AD não há análise sem a mediação teórica e histórica. Do ponto de vista histórico, abordaremos o sujeito feminino como membro de determinada forma de sociedade, mostrando que no decorrer dos séculos a mulher sofreu a opressão da sociedade, presa à educação rígida e restrita aos afazeres domésticos, sem direito de opinar sobre seu destino. Apesar de toda evolução, a mulher do século XXI vive em constante conflito com seu corpo e sua imagem, buscando atingir um modelo idealizado e imposto pela sociedade, como padrão a alcançar. Esse modelo é usado pela publicidade para instigar o mercado consumidor de certos produtos de beleza, fazendo circular uma série de imagens que generalizam modelos aos quais a mulher se submete, acreditando que todo sacrifício é válido. A obsessão em ser magra é fruto da sociedade que valoriza o corpo magro e longilíneo, associado normalmente à imagem da saúde e ao bem-estar físico, que modela os sujeitos a partir de representações que impõem como deve ser ou não os seus corpos. Chegar a esse modelo, entretanto, pode significar o comprometimento da saúde, pela ingestão sucessiva de produtos recomendados ao emagrecimento. A imposição da sociedade, ou melhor, da mídia representada pela publicidade, que a todo o momento bombardeia o mercado consumidor com produtos de beleza e remédios milagrosos, prometendo com discurso persuasivo que resolverão os problemas físicos e, por extensão, emocionais, faz que as mulheres os consumam cada vez mais, sem ter a certeza se irão ou não beneficiá-las na busca do padrão ideal de beleza apregoado pela sociedade atual. As materialidades linguísticas, presentes nos anúncios publicitários de produtos para emagrecimento, revelam as formas de percepção da posição do sujeito feminino na sociedade contemporânea. A partir dessa reflexão e da análise das propagandas das revistas já citadas, pretende-se evidenciar, por meio de algumas regularidades discursivas, de que forma o sujeito feminino é construído pela Linguagem da publicidade e percebido pela sociedade contemporânea. O Corpo como Representação A ditadura da beleza corporal não é exclusividade do século XXI, pois o corpo sempre foi instrumento de culto nos diversos momentos da história, embora em cada período os processos disciplinadores tenham sido diferentes. Segundo Foucault (1987, p.117), é assim que nasce a arte do corpo humano, que busca aperfeiçoar as habilidades do físico e formar relações que o torne mais obediente e útil. Cria-se todo um trabalho baseado no comportamento, nos gestos corporais que determinam até o nível social de uma pessoa e, quando se trata de mulheres, tais gestos eram muito mais discriminatórios. Certas atitudes corporais, como determinados gestos com as mãos, ou passos de danças, eram proibidos para as mulheres, Foucault (1987) trabalha a arte do corpo baseada na disciplina, muito frequente em colégios e quartéis do século XVIII e que pode ser representada por três símbolos: a cerca que prendia; o princípio da clausura, segundo o qual cada indivíduo tem seu lugar e cada lugar, seu indivíduo e as localizações funcionais, que adentravam as instituições disciplinares como os hospitais, lugares que “se definem para satisfazer não só a necessidade de vigiar, de romper as comunicações perigosas, mas também de criar um espaço útil” (FOUCAULT, idem, p.123). A definição de disciplina envolve, de acordo com Foucault (Idem), um gesto e uma atitude global do corpo. Um corpo disciplinado é o fundamento de um gesto eficiente. Assim, é a disciplina que estabelece a relação entre o corpo e o objeto manipulado, e o poder que emana dessa relação forma uma constituição complexa: corpo – arma, corpo – instrumento, corpo – máquina. A disciplina faz com que a utilização do tempo pelo corpo seja sempre crescente. A utilização disciplinada do corpo pode-se comparar à educação dos clérigos que buscavam a perfeição. Os exercícios eram cada vez mais rigorosos e todo esforço era recompensado com o resultado final. Essa analogia é facilmente identificada nos tempos atuais em que se cultua, em exagero, a estética corporal, a ponto de, muitas vezes, dela depender a aceitação em determinado grupo social. A partir do século XVII, a disciplina deixa de ser apenas a arte de repartir corpos ou extrair e acumular tempo, e passa a compor forças para um resultado eficiente. O corpo torna-se, então, o elemento que pode-se articular e mover como uma máquina, com o poder de construir ou revolucionar as formas de se relacionar em sociedade. Corpo, Mídia e Representação O estudo relacionado à noção “corpo” vem se desenvolvendo muito, de acordo com Garcia (2005, p. 01), e isso produz mudanças no comportamento da sociedade. Inicialmente o autor elege a noção de corpo como um dispositivo contemporâneo, marca da sociedade moderna. Tema em evidência, a noção de corpo é largamente difundida pelos meios de comunicação da sociedade e essa noção, segundo Garcia (idem. p. 02), relaciona-se à complexidade que vai além da materialidade física e anatômica, portanto deve-se pensar no corpo como “um conjunto (inter) textual sob as formas divergentes que assumem as práticas midiáticas” (idem). Desde a história primitiva, a idéia do belo sempre esteve associada a um corpo forte, jovem e saudável, mas com relação ao intelecto. Friedrich Kant (apud Garcia 2005) faz relação entre o belo e o sublime, porém essas duas categorias críticas da estética estão ultrapassadas, já que nessa era informatizada a noção de corpo vai além da estética filosófica e explora a produção de mensagens pela mídia publicitária. Conforme Garcia (2005, p. 03), “Ao pontuar o corpo como reinvestimento desses efeitos, as estratégias discursivas – utilizadas na publicidade – (re) criam a imagem corporal, acoplada à experiência, ao imaginário e à subjetividade”. Para explicar a noção de corpo, o autor utiliza as idéias de vários estudiosos, entre eles Marshall Mc Luhan, que analisa os meios de comunicação cujo objeto de comunicação é o corpo. Em outras palavras, o corpo adquiriu a capacidade de transpor a barreira físico-biológica e prolongou sua atuação para o nível sociocultural, orgânico e simbiôntico. Michel Foucault (apud GARCIA, 2005, p. 5), considerando a noção de corpo, volta-se mais para a desconstrução da política de desejo e identidade: Foucault resgata a ordem disciplinar do sistema dominante, entre público e privado, para demonstrar a castração do seu jeito, em que o corpo pulsa afeto, erótico, desejo, gênero, sexo e sexualidade como forma de controle sociocultural e de poder de Estado. Já para a teórica feminista Butler (apud GARCIA, 2005, p. 6), a noção de corpo deve ser ampliada para além do visual. A materialidade deve ser pensada com a noção de poder que emana dele. O estudioso David Le Breton, de acordo com Garcia (idem, p. 6), trabalha com a exaustão do corpo diante da busca incansável pela imagem perfeita. Para isso o ser humano é capaz de toda forma de dilaceração, tudo na busca de corrigir as falhas do corpo. Garcia (2005, p. 8) afirma que a natureza da experiência humana está ligada à matéria do corpo, aos seus sentidos, sendo assim o corpo apresenta-se como uma categoria discursiva que suporta tanto imagem quanto som. Estudiosos brasileiros também veem na noção do corpo uma fonte inesgotável de pesquisas. Bernadette Lyra (apud. GARCIA, 2005, p. 9) estuda a (des) construção do corpo no cinema e na literatura. Para entender melhor a duplicidade da noção “corpo”, Jurandir Freire Costa (apud Garcia 2005, p. 10) explica as duas definições: A primeira noção faz parte da definição biológica dos organismos humanos. O corpo do sujeito é entendido como um elemento da classe das espécies animais [...] Na segunda noção, o corpo significa “imagem” ou “representação” do corpo, conforme a psicanálise. Percebe-se, assim, que o corpo apresenta uma natureza dupla, biológica e cultural. Garcia (idem) pesquisa a segunda, ou seja, a imagem, representação, a subjetividade do corpo, que deve ser considerado mais que função orgânica, pois se reafirma por uma política de desejo e é composto por uma complexidade de ações físicas e psicológicas. A imagem do corpo, de acordo com Garcia (idem, p. 12), é responsável por grande número de estudos sobre as minorias no país e, com a união do corpo à imagem, surge a complexidade da linguagem, determinando o modo de produção de sentidos, como o corpo se relaciona com suas atividades internas (orgânicas) e externas (contextuais). As manifestações do corpo são variadas e Garcia (idem, p.13) aponta a necessidade de (des) construir o conceito de corpo, ou seja, realizar uma “transcorporalidade”, que são os estados performativos, nos quais o corpo ressalta seus lados poético, estético, plástico, deixando em evidência o visual. Na publicidade, conforme Garcia (Idem), o objetivo da transcorporalidade é orientar o fluxo da imagem corporal e configurar o que temos a dizer sobre a imagem corporal, pois é a partir dela que percebemos os objetos, o mundo, e nos identificamos. As noções de corpo, imagem, transcorporalidade são importantes na medida em que se realizará uma análise de anúncio publicitário, pois para ler e ver a mensagem publicitária com fluência é essencial o uso do corpo e seus dispositivos persuasivos. A figura do corpo, segundo Garcia, na publicidade, deve ser lida e vista a partir de repetições que se alteram a cada leitura, em que é possível perceber novas nuanças de uma configuração corporal: “A identidade corporal, [...] realiza-se na constância daquilo que se expõe no alto do visível, como materialidade substancial que se relaciona com o intuito para além do visível” (GARCIA, Idem, p. 15) Para se produzir análise de anúncio publicitário é preciso levar em consideração a categoria discursiva presente na publicidade, refletindo sobre as (inter) subjetividades resultantes da produção de efeitos de sentido. Nesse momento são importantes todos os efeitos sensoriais (visão, audição, tato, olfato e paladar). A publicidade usa de mecanismos, ferramentas que seduzem o corpo. Portanto, Garcia diz que “a imagem corporal funciona como suporte figurativo do sistema orgânico”, articulando-se em circunstâncias de troca (GARCIA, Idem, p; 16) Vivemos uma época em que a própria cultura é digital, ao que Garcia (idem, p. 17) afirma ser a matéria do corpo e seus atos cognitivos a configuração dos sentidos humanos, com auxílio das novas tecnologias que enfatizam a competência orgânica do corpo. A publicidade manipula o corpo, de maneira estratégica, para aumentar o consumo de determinado produto, usando a imagem e sua representação transversal para incentivar a venda. O tema corpo, cada vez mais se une ao universo de consumo, dinamizando os interesses do mercado, apesar de Garcia (idem) afirmar que não se deve pensar na noção do corpo como algo fechado, mas sim como instrumento estratégico da enunciação contemporânea. Muitas vezes a mídia usa o corpo de forma grotesca, produzindo “derramamentos de sentidos como pronunciamento da diferença”. Portanto, o corpo, segundo o autor, não pode se dimensionar a partir de um gênero, pois abarca pluralidade de ação que potencializa sua identidade social e configura sua oposição binária no masculino e feminino. O corpo contemporâneo possui diversas passagens, principalmente na publicidade, onde há a possibilidade de realizar inúmeras combinações entre matéria e substância. São essas passagens, como afirma Garcia (idem, p. 21), que promovem e negociam as representações do corpo na publicidade, possibilitando a união dos deslocamentos e das provocações. O autor comenta que o corpo, a imagem e a cultura estão interligados na mídia, com ajuda das tecnologias avançadas que exploram a sensibilidade do físico para convencer o consumidor e garantir os lucros do mercado capitalista. O corpo é o foco principal para instaurar a nova identidade cultural, dessa forma a sociedade passou a se interessar exageradamente pelo consumo de tudo que prepara e impede o corpo de se deteriorar. A lista é enorme, desde plásticas, silicones, produtos para emagrecer até tratamentos estéticos para pele e cabelo, tudo em busca do corpo perfeito, como explica Garcia: Essa preparação do corpo refaz a lógica do corpo “perfeito” em uma perspectiva enraizada na ordem do artifício cuja lógica promove o deslocamento da imagem corporal. A ciência – particularmente a engenharia genética, a nanotecnologia e a biotecnologia – tentam avançar em seus esforços técnicos para promover o desenvolvimento de questões complexas como a clonagem, a célula-tronco e o reconhecimento do DNA. (GARCIA, 2005, p. 24). As discussões sobre o que seria o corpo ideal para a sociedade contemporânea têm se ampliado. Em busca do corpo “saudável”, pessoas lotam academias, exercitam os músculos, tudo em nome da “pseudo geração saúde”. Os dois principais tipos de tratamento para alcançar o corpo perfeito são a medicina e a ginástica, e quem lucra com isso é o mercado distribuído entre a mídia, a indústria de beleza e a de moda. Garcia (idem, p. 26) afirma que o culto do corpo, na verdade, é o cultivo da vivacidade da carne. Não há preocupação com a morte, por isso, com o culto ao corpo, pretende-se prolongar a linha do tempo, na intenção de destruir a ideia da morte. Repensando o culto ao corpo, é preciso sociabilizar as relações a partir do corpo que emerge como um mecanismo linguístico ao qual se agregam valores socioculturais, conforme afirma Garcia (2005, p. 27): As relações afetivas do corpo consigo mesmo e com os outros inscrevem e produzem os caminhos da imagem corporal. O suporte – corpo – equaciona-se pela aparência que se veicula como efeito comunicacional: brincos, tatuagens, piercings, vestuário são implementos dessa discursividade estratégica. Aparência que não penetra a imagem do corpo, pois cadencia na superfície. Segundo Garcia (idem, p. 28), a transgressão e (sub) versão sustentam os fatores circunstanciais do corpo. Enquanto o discurso transgressivo vai além do limite permitido, a subversão (re) apropria-se dentro do discurso sistêmico que operacionaliza a imagem do corpo como um fio que conduz a subversão. Ambos legitimam o conceito de transcorporalidade, situando o corpo em um espaço de mídia fronteiriço. O corpo, nas palavras do estudioso, é o primeiro meio de comunicação do homem em seu processo de (des)construção cultural que transita entre o interno/externo, estabelecendo uma comunicação compreensiva. No campo da comunicação, a mensagem do corpo transmite a corporalidade da imagem presencial, inteligível, atuando como objeto concreto na cena, personificado. O uso do corpo como veículo de comunicação divide-se entre a natureza (natural) e cultura (artificial) na tentativa de localizar o corpo ideal instaurado pela mídia. Portanto o que a mídia deseja, segundo Garcia (idem, p. 32), é a massificação do corpo no que diz respeito à comunicação, ou seja, um corpo transformado pela plasticidade, porém comum a todos. O objeto-corporal, na visão de Garcia (idem, p.34), é um órgão que armazena informações, produzindo significados para a experiência humana. Num anúncio publicitário, por exemplo, tem-se a impressão de que a superficialidade extrema do corpo é acentuada, isso acontece porque a relação que diferencia exterior de interior ocorre na tensão entre corpo (matéria) e mente (espírito). Garcia comenta que os símbolos e emblemas seduzem o consumidor pela sua aparência superficial “Enquanto o público está interessado nos efeitos sedutores do produto e do contexto que ambientalizam o anúncio, incluindo aí a imagem do corpo, as resultantes de vendas aumentam significativamente” (GARCIA, Idem, p. 44). Os anúncios publicitários são tratados tecnicamente, com cautela, sem agressividade, e é esse ar de mistério que envolve o produto e seduz o consumidor que se sentirá satisfeito e feliz quando adquiri-lo. Isso é pensado estrategicamente: A preocupação de garantir agradabilidade e satisfação organizase como meta para cumprir os objetivos e a venda e, ao mesmo tempo, assegurar a construção de um espaço comercialprofissional capaz de ampliar e consolidar a imagem do produto/marca no mercado, sobretudo ao relacionar os valores de atenção, manutenção e corpo como conservação da vida. (GARCIA, 2005, p. 44) Corpo e imagem são interligados, agregam valor um ao outro e são usados na sociedade de consumo, sem ocorrer um aprofundamento na informação, para dar mais velocidade ao consumo. Um produto que é sucesso num dia, no outro já se tornou ultrapassado, pois as inovações em nossa sociedade são diárias. Dessa forma a mídia procura ser dinâmica e investe em argumentos superficiais, porém capazes de tocar o consumidor. Portanto a ordem é simplificar para garantir lucros. A publicidade divulga a jovialidade, uma felicidade que todo consumidor quer ter, mas nem sempre é possível, por isso a indústria cultural investe na exposição pública do corpo, evidenciada nos anúncios publicitários. Sempre que o consumidor se vê diante de um corpo exposto pela publicidade acredita estar frente ao modelo perfeito de beleza, enquanto que, na verdade, essa imagem não passa de efeitos visuais, aliados à maquiagem, vestuário e iluminação. A publicidade tem o poder de, através do corpo, levar o consumidor a pensar de acordo com seus objetivos que é lucrar com o consumo exagerado. Assim, o corpo pode ser lido como reconfiguração de enunciados que fortalecem os discursos publicitários através de uma provocação capaz de seduzir o público, a persuadir para alcançar determinado objetivo, como diz Garcia (2005, p. 46): Persuadir não seria diretamente enganar nem convencer ou induzir; mais que isso, implica tratar estrategicamente as formas de condução da informação publicitária. Persuadir é elaborar com requinte as camadas necessárias do discurso estratégico, é avaliar a situação e levar o público a um grau de crença, satisfatório para a compra e a confirmação pública dessa ação [...]. O corpo está profundamente ligado às artimanhas da publicidade, e isso se torna claro quando o anúncio de determinado produto ou marca leva o consumidor a adquiri-lo a qualquer preço. O público ouve, presencia e toma a decisão do que vai consumir. Dessa forma, a mensagem publicitária utiliza o corpo com uma força que ajuda a legitimar a contextualização do produto ou da marca, um atrativo que se mostra insinuante, forçando o corpo a obedecer. Para colocar maior intensidade de informações nos anúncios publicitários, é preciso revigorar a escritura intertextual entre corpo, produto e marca. De acordo com o autor, a relação entre corpo e produto incentiva a contaminação visual, interrelacionando as relações objetivas entre o público e o consumo. Os discursos da mídia tratam o corpo de forma distanciada da imagem e recepção do público e são responsáveis pela criação da auto-estima ou da baixa-estima. Sendo assim, a ordem das aparências, de acordo com Garcia (idem, p.45), investe em enunciados que dominam a imagem corporal projetando-se como algo a mais na cena de exibição. Garcia ao comentar a relação do consumidor com o discurso publicitário na televisão, afirma que “A sofisticação do discurso televisivo publicitário aciona as malhas ‘enfeitadas / enfeitiçadas’ da sedução e da persuasão, que, juntas, absorvem o desejo do ‘outro’” (GARCIA, Idem, p. 51). Para se refletir sobre o corpo como um instrumento comunicacional é necessário ampliar a experiência do observador e analisar criticamente os modelos anunciados. Assim, segundo o autor, para explorar o corpo como objeto de consumo deve-se estabelecer determinadas estratégias discursivas, ditadas pela ordem do consumo, por isso o diálogo e essencial para a realização de um bom trabalho. O corpo, como categoria de discurso, é utilizado na linguagem estética de maneira sensual e erótica. Convida o espectador a observá-lo e incentiva o consumidor a adquirir determinados produtos que o tornem parecido com o corpo anunciado. O corpo surge, então, como síntese subversiva dos discursos publicitários que redefinem a experiência do observador com uma atitude crítica intersubjetiva. A intersubjetividade é marcada pela materialidade do corpo e também ao intelecto do homem para traduzir os dados subjetivos dos enunciados e [...] apresenta a diferença aguda na concomitância de objetividade e de subjetividade cujo pêndulo debruça-se sobre essa última parte. Isso porque ela contém a disposição de maior flexibilidade consensual. Diríamos que o corpo necessita dessa condição adaptativa entre inscrições objetivas e subjetivas. (GARCIA, 2005, p. 53) Não é tarefa simples nomear as expressões da imagem corporal no âmbito da intersubjetividade, como uma transcorporalidade, pois esta tarefa, segundo o autor, exige um vínculo entre arte, publicidade e imagem, passíveis de estudos em vários instrumentos audiovisuais (cinema, T.V, vídeo) aliados ao desenho, pintura, fotografia. Isso demonstra a influência que o corpo e sua representação exercem em nossas vidas, sendo que, muitas vezes, somos levados a consumir imagens que nunca serão verdadeiras em nossa realidade. Por isso os estudos sobre mídia e a representação corporal, em nossa sociedade contemporânea, são importantes porque auxiliam os sujeitos a adquirir consciência crítica diante dessa realidade. A AD, A Publicidade e a Ditadura do Corpo Na sociedade do século XXI a luta da mulher é contra a obesidade. Este é um tema contemporâneo comum em nosso século, materializado em textos diversos que circulam por toda a sociedade, interpelando o leitor por meio de imagens e textos verbais e propondo modelos e representações. Estamos o tempo todo submetidos a esses discursos, interpretando-os, construindo sentidos e formas simbólicas de representação da nossa realidade. Daí a importância de se estudar esses discursos para compreender o papel que exercem na produção das identidades sociais. A Análise do Discurso (AD), ao eleger como objeto de estudos os efeitos discursivos articulados por sujeitos que usam a linguagem, como materialidade, e estão inseridos na história, constitui-se em importante ferramenta para a compreensão desses discursos construídos pela publicidade (GREGOLIN, 2007, p. 13). O discurso é o que torna possível ao homem transformar sua realidade, pois trabalha com a língua no mundo, levando em consideração a produção de sentidos enquanto parte da vida de cada cidadão; logo, para se analisar o discurso de determinado membro da sociedade é preciso levar em consideração a linguagem em seu exterior (ORLANDI, 2001, p. 16). Os sentidos não se encontram apenas nas palavras dos textos, mas em sua relação com o exterior e nas condições em que eles são produzidos (intenção do sujeito, momento histórico, dentre outros). Ora, em nosso século a mulher obesa, dependendo do meio em que está inserida, é discriminada pela sociedade vivendo em um permanente estado de tensão, comum aos sujeitos contemporâneos acostumados a se debaterem entre as insistentes propostas do corpo mínimo e a oportunidade de manifestarem identidades singulares. Assim é que, diante de uma imagem, como a exibida pela Revista Claudia, de Dezembro, 2000, n. 471 (Propaganda 1) somos levados a refletir, bombardeados por propostas discursivas do corpo saudável. Claudia, como o próprio nome anuncia, é revista dedicada exclusivamente ao público feminino. Os temas tratados em suas publicações referem-se, de alguma forma, ao universo feminino, tais como moda, beleza, culinária e ginástica, com o objetivo declarado de auxiliar a mulher a levar uma vida melhor, mais saudável e feliz. A propaganda escolhida para a análise promete solucionar um problema que atinge o corpo da maioria das mulheres: a celulite. Todavia o texto não faz referência clara ao problema, pelo contrário, usa o eufemismo aspecto de laranja. Nota-se a preocupação com a sensibilidade dos sujeitos femininos, no momento de construir o discurso. O fabricante preocupa-se em não atingir a autoestima do público-alvo, pois naturalmente a mulher que se interessar pelo produto oferecido está acima do peso e possui celulite, então não se sente bonita, consequentemente, é infeliz e não precisa que a propaganda a lembre disso. Como dissemos a propaganda da Revista Claudia oferece um produto “mágico”, capaz de melhorar a vida das mulheres, e utiliza-se, em seu discurso, de imagens e texto visando a persuasão do público. A frase, em letras maiores e da mesma cor do líquido do produto, já prende a atenção do leitor, pois promete a redução de medidas em curto espaço de tempo (14 dias). Logo abaixo, em letras um pouco menores, em preto e negrito, há apenas o nome do produto: Elancyl- Extreme Minceur. Pelas informações no rótulo, descobre-se que o produto é importado, produzido pelo laboratório Galénic, em Paris, e distribuído pela Pierre Fabre do Brasil, apenas por telefone. O fato de o produto ser importado convence mais ainda, pois há crença muito forte entre toda a sociedade de que tudo que é importado é melhor que o nacional, e isso nem sempre é verdade. Porém o autor da propaganda, explorando essa crença, enfatiza em letras grandes, ao pé da página, a origem do produto, garantindo, assim, credibilidade maior ao que está vendendo. Voltando ao topo da página, vemos o slogan que promete a transformação do corpo: em 14 dias, 14 doses do produto levarão a mulher a alcançar a tão desejada pele macia, lisa, sem o aspecto “casca de laranja” e, além de tudo, auxiliará na redução de medidas! A propaganda trabalha opções de vocábulos, na tentativa de persuadir. Buscase as frases certas, no momento certo. Inicialmente a informação era mais generalizada: Perca medidas em 14 dias. O verbo “perder”, comumente usado em sentido negativo, pois normalmente a perda de algo é sempre ruim, aqui é responsável pelo sucesso da propaganda, pois é a escolha dessa palavra, em especial, que tornará a propaganda positiva. Logo em seguida, a frase é completada por outra que instiga a leitora a responder positivamente ao desafio de perder medidas e, ao mesmo tempo, traz um sentido de ordem, expresso na escolha do imperativo verbal, apesar de não usar nenhuma pontuação visível. Quando o discurso diz Você pode atinge diretamente a autoestima da mulher, com duas afirmações em ordem crescente: 1ª - Você pode comprar Elancyl e 2º- Você pode perder medidas e acabar com a celulite. Por isso a ausência da pontuação, pois a frase pode ser completada por meio da dedução feminina. Se invertêssemos a ordem das frases, certamente construiríamos o seguinte sentido: ”Você pode perder medidas e acabar com a celulite se você comprar Elancyl. Caso não compre, o sonho não se realiza.” A condição para a mulher transformar seu corpo está logo abaixo do desafio você pode, explícita no nome do produto e nas vantagens que ele proporciona. As frases são organizadas numa sequência crescente, do menor benefício para o maior, de modo a ampliar as qualidades do produto. Buscando, ainda, explicar melhor toda a potencialidade do produto oferecido, o discurso se divide em dois itens contendo outras informações técnicas para as mulheres interessadas. No primeiro item, a linguagem é clara, objetiva, as palavras são usadas de forma sintética. A colocação do sintagma adjetival forte, antes da proposição concentração de cafeína, reforça o que foi dito anteriormente em relação à eliminação das gorduras, ou seja, o discurso é claramente usado como forma de persuasão. No segundo item, a linguagem se mantém objetiva, mas o texto é maior e se utiliza de palavras que trazem o sentido de perda e instigam a leitora a aceitar o desafio proposto, como: resolução, impede, evita. São sintagmas fortes que ficam na mente da leitora e conferem positividade ao discurso. A inserção de nomes científicos tais como cafeína, sais derivados e anti glicação reforçam a credibilidade do produto, pois constroem a ideia de cientificidade e da existência de expertises que confirmam e assinam a sua fabricação. A proposição casca de laranja é usada em dois momentos: para se referir às celulites e, com a repetição, reforçar o sentido da eficácia do produto no combate ao grande inimigo das mulheres. Para finalizar, o texto apresenta os resultados do uso do produto e, em letras maiores, reafirma o prazo estabelecido para a mulher adquirir pele mais lisa, firme e elástica. Traz, ainda, em destaque a frase: A silhueta fica mais elegante. Ao optar pelo advérbio de intensidade, o discurso articula sutil elogio às mulheres, afirmando a sua elegância num jogo de sentidos que agenciam sua autoestima. Então o que o produto faz é ressaltar essa natural elegância. Não há, em nenhum momento, o uso da palavra beleza. A interpretação é apenas subjetiva, através do conceito reforçado em cada uma das vantagens do produto e por meio da imagem colocada em tamanho regular que mostra a metade da parte de trás de um corpo feminino magro, esbelto, com pele lisa e perfeita. Na sociedade contemporânea a beleza se tornou um bem a ser conquistado, um modelo a ser atingido com esforço e disciplina por mulheres que não nasceram de acordo com a estética eleita. Tais mulheres sofrem mais para se encaixar nos modelos de beleza impostos pela sociedade, por meio dos discursos agenciados nas propagandas. Esse sofrimento atinge vasto campo, desde a tortura corporal dos exercícios em doses exageradas, à fome que muitas mulheres passam para emagrecer, até à vida financeira, pois a cada dia lança-se no mercado novo produto que promete resolver os diversos tipos de problemas que atingem as mulheres, com um custo financeiro nem sempre baixo. Buscando atingir um corpo esteticamente bonito, sedutor, reforçado pela mídia de consumo, muitas mulheres sofrem grandes traumas, em nome de um conceito estabelecido pela própria sociedade. Em busca da transformação, da imagem perfeita, vale à pena gastar quantia considerável para ficar bonita, sem esforço. Uma vez que o principal objetivo da propaganda é atrair a atenção do consumidor sua divulgação em uma revista feminina é estratégica, pois aumenta as chances de vendas do produto divulgado. A imagem de uma “nádega” feminina, local do corpo mais suscetível ao desenvolvimento de celulite, remete também ao grande desejo das mulheres de seduzir. A sedução física está intimamente ligada à sexualidade. Para isso uma nádega semelhante a da imagem é considerada fundamental pelo imaginário de grande parte das mulheres. Propaganda 1 Propaganda 2 Claudia, n. 471.Ed.Abril.,SP. 2000 TV Brasil. Nº 348, Ed. Escala. 2006 Soihet (apud CARDOSO & VAINFAS, 1997, p. 292) afirma que a sexualidade feminina sempre foi alvo de preconceitos, e isso só começou a sofrer mudanças a partir de 1970. Desse momento em diante, o corpo da mulher passou a ser explorado em pesquisas médicas, na literatura e na própria propaganda. A inserção de foto na propaganda é fundamental para o sucesso do discurso, pois demonstra, através do visual, o que a mulher poderá se tornar, se comprar o produto. Assim, a articulação entre enunciados e textos não-verbais funciona como um dispositivo que orienta modos de ser e agir dos sujeitos, modelando suas identidades. Dessa maneira, vê-se como a propaganda exerce poder controlador nos consumidores e dita regras, reiterando a positividade do corpo enxuto, teoricamente saudável e estabelecendo diretrizes de como os sujeitos devem se relacionar com seu próprio corpo e saúde. A propaganda 2 foi recortada de um comercial da Revista TV Brasil, nº 348, de outubro de 2006. Trata-se de revista voltada, também, para o público feminino. A propaganda veiculada explora a mesma temática, oferecendo produto para emagrecer denominado Magrins. O fabricante promete emagrecimento milagroso, em pouco tempo. No decorrer da análise, entrecruzaremos pontos comuns com a propaganda anterior, no intuito de verificar a semelhança ou a refração dos discursos. O anúncio de Magrins também é materializado com a articulação simultânea de textos verbais e nãoverbais, construindo sentidos. O enunciado de abertura da propaganda, em caixa alta e em negrito, constituise no depoimento de uma cliente que usou Magrins e enuncia: Hoje eu uso as roupas da minha filha de 15 anos. Essa afirmação é feita em tom de conquista, de vitória. O uso do depoimento, nessa propaganda, caracteriza o que Charaudeau (2006, p. 224) denomina de testemunho. O testemunho é uma estratégia de enunciação que confirma a existência de uma realidade: Eu uso. Tem como característica, levar o enunciador a expressar uma realidade, sem análise ou julgamento prévio. Isso garante ao testemunho efeitos de pureza e autenticidade discursiva. Ou seja, é algo confirmado, fato verdadeiro, que não dá margem a erros ou dúvidas. O tempo verbal, no presente, assinala um efeito discursivo de concomitância em relação ao acontecimento. Essa escolha verbal assinala, também, um efeito de repetição, dando idéia de “hábito” e “freqüência” à ação realizada. A opção pelo discurso direto proporciona um efeito de autenticidade, fazendo que este adquira o estatuto da objetividade, da seriedade e da espontaneidade. Usando, portanto, essa estratégia discursiva, a propaganda aproxima o consumidor, fazendo que este se sinta parte da cena enunciativa e manifeste adesão ao que está sendo sugerido. Acrescenta-se o fato de o testemunho ser enunciado, na entrevista, por suposta consumidora do produto, personagem anônima, que se identifica, na aparência, com grande parte das mulheres brasileiras. O anonimato, nesse sentido, confere-lhe notoriedade, pois ela passa a ser vista como representante de toda uma categoria, constituindo-se, a partir daí, como um arquétipo social, símbolo de um biotipo social comum. Logo abaixo da afirmação, o discurso muda de locutor, a construção do enunciado muda de 1ª para 3ª pessoa. Agora é outra voz que enuncia. Nota-se pelo uso do pronome em 3ª pessoa: Ela emagreceu 55 quilos com Magrins! Essa opção discursiva é utilizada quando se pretende conseguir um efeito de objetividade à cena enunciativa. Esse efeito é denominado embreagem, por Maingueneau (2005, p. 108). Ao lado dessas afirmações iniciais encontramos o logotipo Clube Magrins, à direita no topo da página, a qual esta dividida da seguinte maneira: à esquerda se localizam os textos e à direita as fotos das duas mulheres, “transformadas” após o uso do produto. À esquerda, abaixo da manchete inicial há um texto relativamente longo narrando a história da primeira cliente: Otilia Vieira. O texto inicia-se com o verbo no imperativo faça, que marca fortemente o sentido de apelo aos leitores, (comprar Magrins) e prossegue com outro verbo comece, com o mesmo efeito de sentidos. O apelo aponta em direção de uma mudança de vida, muito mais saudável. Repete-se, aqui, o discurso do corpo saudável, presente na propaganda 1, também vinculado ao mínimo e à idéia de saúde e beleza. Novamente presenciamos aqui um efeito de sentido construído por meio do discurso persuasivo através do uso dos dois advérbios de intensidade, lado a lado, enfatizando que Magrins ajuda a mulher a ser mais saudável, não no sentido comum de saúde, mas muito mais saudável, intensificando essa qualidade. No segundo período do texto, insere-se a proposição mágica para a mulher: sem sacrifício. Ao prometer um emagrecimento sem sacrifícios, o discurso conquista a credibilidade de muitas mulheres, que acreditam que podem tomar uma pílula e ser “transformadas”. Em seguida, através do discurso indireto, sabemos que o processo é até bem simples. O texto, então, passa a explicitar os passos necessários para que o produto faça efeito. O primeiro passo resume-se em seguir as dicas da cartilha da saúde da Shop Express. O texto não dá maiores informações sobre essa cartilha. Ela é citada novamente apenas no final da página como um dos brindes para quem ligar e encomendar o Magrins. O segundo passo é tomar duas cápsulas antes das principais refeições, ação encantadora para quem não gosta de exercícios físicos ou qualquer outro tipo de esforço. Em seguida, o discurso descreve a situação anterior de Otilia: pesava espantosos 110 quilos. Ao usar o sintagma adjetival espantosos a proposição associa a obesidade à idéia de espanto. Ser gordo, portanto, não é natural, é “espantoso”, na sociedade contemporânea, cuja idéia de bem-estar social está associada ao controle do corpo, do governo de si, da suposta possibilidade que ser gordo ou ter um corpo enxuto é uma questão de escolha e de autocontrole dos sujeitos. E a opção se materializa na propaganda, que oferece as vantagens do corpo modelado e mínimo. Logo a compra do produto torna-se cada vez mais necessária. A frase seguinte confirma a felicidade que o produto pode proporcionar: hoje esta com apenas 55 quilos. O uso do sintagma adverbial apenas, constitui-se em estratégia discursiva que reforça a idéia do corpo mínimo, acoplando valores e vantagens. Na proposição Ela voltou a usar aquelas roupas que estavam escondidas no armário, infere que, no passado, ela havia sido magra e, no decorrer da vida, engordou e agora voltou a ser magra, novamente. A proposição se completa na frase que segue: mas não no seu e sim no de sua filha de quinze anos! Essa é uma proposição decisiva, principalmente para os sujeitos mais resistentes a outras formas de perda de peso, tais como exercícios físicos, regimes alimentares, dentre outros. A próxima proposição, Esse é um caso real e incrível de uma pessoa que tomou a decisão certa, tomou Magrins, enfatiza a decisão certa, excluindo qualquer outra escolha que não seja a de comprar Magrins. E por fim, o claro apelo à compra do produto, elogiando as clientes que fazem parte do Clube Magrins, o Clube do Sucesso. Ou seja, para se ter sucesso na vida é necessário ser magra. Constrói-se, assim, um paradigma, com base na regulamentação e disciplinamento dos sujeitos. O reconhecimento, o sucesso profissional e pessoal vincula-se à adequação dos sujeitos aos modelos propostos. O texto é construído, assim, por uma sucessão de agenciamentos discursivos que impõe um padrão, um modelo a ser seguido. A inserção das duas fotos ao lado do texto: uma mostrando a mulher antes do produto, com roupas grandes, cabelo mal cuidado, com baixa auto-estima, desmotivada e com uma expressão triste, e outra, revelando uma mulher, mais jovem, magra, com cabelos longos e mais claros, usando roupas curtas e com uma expressão de felicidade, interpelam igualmente as leitoras, propondo formas de identificação por meio dos modelos impostos. Logo abaixo dessas fotos, encontra-se outra proposição, em letras relativamente grandes: Mais um caso de sucesso real do Clube Magrins. Por meio do uso do advérbio mais acompanhado dos sintagmas sucesso e real, reforça-se o sentido de que existem muitas mulheres que já usaram o produto e tiveram suas vidas transformadas. Assim, cria-se um efeito de autenticidade ao discurso, garantindo que todos os fatos apresentados na propaganda são verdadeiros. Isso é apenas um marketing comercial, pois as consumidoras sabem que nem sempre o discurso diz exatamente o que aparenta, com diz Orlandi (2001, p. 26), que para se analisar um discurso é preciso compreender como determinado objeto simbólico produz sentidos e como é investido de significância pelos sujeitos. E é essa relação entre sujeito e sentidos que produz novas interpretações numa leitura. O texto do segundo caso é um depoimento pequeno ao lado das fotos quemostram o antes e o depois do Magrins. O depoimento da mulher começa assim: “Eu sempre evitei me olhar no espelho”. Novamente o advérbio indica a situação da mulher, revelando que a gordura sempre fizera parte de sua vida, até conhecer Magrins. Diferente do caso de Otilia, Inês especifica o tempo em que emagreceu: apenas 3 meses. Um tempo surpreendentemente pequeno para uma perda de 20 quilos, ou seja, como o Elancyl, Magrins promete uma mudança drástica na aparência das mulheres em um curto período de tempo. No lado esquerdo da página, dentro de um círculo, há cinco razões para se adquirir Magrins, diferente de Elancyl que enumerou apenas dois itens. A primeira razão não é muito promissora, pois, devido ao uso do verbo “poder”, o discurso torna-se um pouco inconsistente: “Você pode emagrecer até 8 quilos já nos primeiros 20 dias”. Ao dizer isso, o locutor não está prometendo a perda de todos esses quilos nesse período de tempo, apenas afirma que é uma possibilidade. Dentro dessa possibilidade está o fato de que algumas mulheres perderão um quilo em 20dias, enquanto outras perderão 8, dependendo do organismo e do estilo de vida de cada uma. A segunda razão é para tranqüilizar as clientes em relação às contra indicações do produto, que não existem, pois é 100% natural. Quando se fala em produtos naturais há uma tendência em se pensar na eficácia e na não toxidade, mas nem sempre isso é verdade, pois algumas ervas podem fazer mal a algumas pessoas O terceiro item reforça a veracidade dos benefícios do produto ao afirmar: ”É o único emagrecedor que traz casos reais”. Ao dizer “único”, o discurso exclui os outros emagrecedores, descartando-os por não comprovarem a eficácia, com casos reais de emagrecimento. O quarto item é mais uma garantia da credibilidade do produto, que está a quatorze anos no mercado. Logo, pelo tempo de existência no mercado, subentende-se que o produto seja realmente bom. Mas é preciso levar - se em conta que todos esses itens são afirmações anônimas. Não há nenhum especialista ou entidade que assine, confirmando o que se diz. Semelhante à propaganda do Elancyl, há apenas o telefone e nome da distribuidora, mas não um selo do Inmetro ou do Ministério da Saúde. E, por fim, o último item traz a informação da quantidade de cápsulas que vem em cada frasco. Ao lado do círculo maior, em letras minúsculas, há a informação de que Magrins já ganhou dois prêmios Quality. Mas não especifica que prêmio é esse, quando ocorreu e quais os critérios avaliados. A informação aparece solta e, ao contrário do que parece, não é muito confiável. Na parte de baixo da página, à esquerda encontramos a foto do produto e bem legível a composição do mesmo, em nomes científicos tal qual Elancyl, pois impressiona o leitor e comprova a cientificidade do produto. E, ao lado direito, a promoção para quem ligar, mas antes, a última frase para convencer totalmente a leitora: ”Prepara-se para receber elogios!”. Se a leitora efetuou a leitura linearmente, foi sendo convencida, ao poucos, através dos testemunhos, das fotos, das vantagens oferecidas pelo produto. Com essa última frase, o discurso encerra sua proposta de convencimento, manipulando o desejo da leitora de ser magra e elogiada. Sant´Anna (2006, p. 1) afirma nesse sentido, que: ”A beleza é um passaporte para o entendimento de quanto os sentimentos humanos mudaram no curso do tempo”. A nossa sociedade, do século XXI preza pela magreza e os sujeitos obesos sofrem com o preconceito. A propaganda termina com os telefones para aquisição do produto e novamente a frase com um advérbio: ”Ligue agora”. Mesmo que a mulher não adquira o produto, ao terminar a leitura provavelmente ligará para obter maiores informações, e, grande parte comprará Magrins, em busca da satisfação prometida. Melo e Sanematsu.(2006, p. 1) criticam a exploração publicitária do corpo da mulher, pois geralmente o corpo feminino, como vimos nas duas propagandas analisadas, funcionam como uma fonte atrativa para a venda dos produtos. Em ambas as propagandas aparecem fotos sugestivas, que funcionam como um objeto solução e reforçam a ordem de consumo, levando as mulheres a adquirirem o produto. As propagandas modernas, muitas vezes, representam um ideal de mulher perfeita, que não condiz com a realidade. Geralmente apresentam mulheres magras, jovens, glamorosas, ou seja, é uma representação irreal, pois, como na primeira propaganda, dificilmente uma consumidora ficará com o corpo parecido ao da foto. Já na segunda propaganda as mulheres são mais reais. Isso produz uma identificação com a leitora. Melo e Sanematsu enfatizam a situação que a mulher vive em relação ao corpo beleza - mídia: Padrão estético disseminado pela mídia em geral, e pela publicidade em especial, oferece um modelo de beleza feminina de difícil acesso, assim, se, por um lado, as mulheres dizem não se reconhecerem na imagem dominante da exposição publicitária, por outro elas cobram de si mesmas – e são cobradas - continuamente para atingir esse modelo ideal de beleza ( MELO E SANEMATSU, 2006, p.2). Vê-se, então que a mulher moderna vive uma situação paradoxal, pois ao mesmo tempo que luta para ser reconhecida por sua capacidade intelectual, sofre a pressão da mídia para estar de acordo com os modelos pré-estabelecidos, do contrário, corre o risco de não ser aceita na sociedade como uma mulher de “sucesso”, que inclui seu aspecto físico, sua aparência. Portanto, por mais que a mulher tenha conquistado, ao longo dos séculos, muitas vitórias para adquirir a liberdade, em pleno século XXI continua oprimida, agora pela ditadura da beleza corporal. Reflexão que Ficam O presente artigo procurou mostrar de que forma a sociedade contemporânea percebe o sujeito feminino, bem como a influência da mídia, representada pelas revistas Claudia e TV Brasil na produção das identidades desses mesmos sujeitos. As análises mostraram que a publicidade, de forma oportunista, utiliza-se da busca pela perfeição da estética feminina como meio para ampliar seu mercado consumidor de produtos de beleza. Segundo Garcia (2005, p.44), “na sociedade da imagem do consumo, a publicidade elimina qualquer expectativa de aprofundamento na informação para dar mais velocidade ao consumo, como um capital de giro que vende idéias, conceitos”. Para isso são criadas propagandas com enunciados que, aparentemente, contêm, na superfície lingüística, apenas um chamado para a venda de determinados produtos, porém quando observados mais atentamente revelam uma formação discursiva originária de uma sociedade, onde a imagem corporal é fundamental. E esta por sua vez identifica-se a uma formação ideológica, na qual o sujeito é assujeitado ao padrão estético dominante. Após as análises percebeu-se que a mídia faz uso de certos artifícios persuasivos, para atrair o público consumidor feminino, manipulando o desejo intenso da mulher em atingir o ideário de beleza socialmente legitimado. Logo, a publicidade produz exatamente discursos que elas querem ver e ouvir, oferecendo fórmulas milagrosas. Dessa forma os meios publicitários produzem um arsenal de estratégias discursivas, oferecendo seus produtos por meio de frases em letras maiúsculas, imagens comparativas de uma mulher gorda ao lado de uma magra e depoimentos, visando chamar a atenção das consumidoras e ratificar a eficácia dos produtos. Para além do assujeitamento, essas propagandas repassam toda uma ideologia expressa no meio social, controlando e docilizando os sujeitos femininos de forma imperceptível, o que revelam sinais das novas relações de poder existentes na sociedade. Referência Bibliográficas CARDOSO, Ciro Flamarion & VAINFAS, Ronaldo,(orgs). História e Sexualidade. In.: Domínios da História: Ensaios de Teoria e Metodologia 3ª ed. RJ. Campus, 1997. CHARAUDEAU, Patrick. Discurso das mídias. Trad. Ângela S. M. Corrêa. São Paulo: Contexto, 2006. FOUCAULT, Michael. Vigiar e Punir: Nascimento da prisão. 29ª.ed., Petrópolis: Vozes, 1987. FOCAULT. Michael. Historia da Sexualidade In.: A Vontade de Saber. Tradução de Maria Theresa da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. Rio de janeiro: Ed. Geral, 1997. GARCIA. Wilton. Corpo, Mídia e Representação. São Paulo: Pioneira Thompson Learning, 2005. GREGOLIN, Maria do Rosário Valencise. Análise do discurso e mídia: a (re)produção de identidades. In.: Comunicação, Mídia e Consumo. Vol. 4n. p. 11 - 25, São Paulo, nov., 2007. MAINGUENEAU, Dominique. Análise de textos de comunicação. Trad. Cecília P. de Souza e Silva e Décio Rocha. 4. ed. São Paulo: Cortez, 2005. ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de discurso: Princípios e Procedimentos. 3ª ed. Ed.Pontes. Campinas – São Paulo.2001. MELO, Jacira e SANEMATSU. Fragmentos da mulher na publicidade: um corpo sem cabeça e sem alma. Disponível em http:/www.patriciagalvão.org.br. Acesso em 17/08/2006. Revista Claudia, Nº. 471. São Paulo: Abril. Dezembro de 2000. Revista TV Brasil. Nº. 348. São Paulo: Escala. Outubro de 2006 SANT’ANNA, Denise Bernuzzi: O que é fundamental. www.kalunga.com.br/revista_marco_04 asp. Acesso em 17/08/2006. Disponível em