Ministério da Educação Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná Departamento Acadêmico de Línguas Estrangeiras Modernas Curso de Especialização em Ensino de Línguas Estrangeiras Modernas Pedro Luiz Gonzalez Aguilera A Linguagem Escrita no Meio Virtual Blog Curitiba 2005 PEDRO LUIZ GONZALEZ AGUILERA “A LINGUAGEM ESCRITA NO AMBIENTE VIRTUAL BLOG ” CURITIBA (PR), 2005 PEDRO LUIZ GONZALEZ AGUILERA “A LINGUAGEM ESCRITA NO AMBIENTE VIRTUAL BLOG ” Monografia apresentada como requisito parcial à conclusão do Curso de Especialização em Ensino de Línguas Estrangeiras Modernas do Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná Orientadora: Profa. Dra. Maclovia Corrêa da Silva CURITIBA (PR), 2005 TERMO DE APROVAÇÃO PEDRO LUIZ GONZALEZ AGUILERA A LINGUAGEM ESCRITA NO AMBIENTE VIRTUAL BLOG Monografia aprovada como requisito parcial para obtenção do título de Especialista, pelo curso de Especialização em Ensino de Línguas Estrangeiras Modernas, do Centro Acadêmico de Línguas Estrangeiras Modernas – Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná, pela seguinte banca examinadora: Orientador: Profa. Doutora Malcovia Corrêa da Silva Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Profa. Mirian Sester Retorta, MSc. Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Profa. Eliane Regina Costa Oliveira, MSc. Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Coordenadora: Profa. Carla Barsotti, MSc. Centro Federal de Educação Tecnológica do Paraná. Curitiba 2005 RESUMO Este trabalho propõe apresentar aspectos relevantes da comunicação escrita, salientando as marcas da oralidade que transitam pelos textos. Esta pesquisa objetiva, além de situar e evidenciar a presença de fatores diversos pontuando aquilo que os lingüistas chamam de marcas da oralidade, trazer contribuições para pesquisadores que tenham interesse pelo tema da comunicação eletrônica. Dos vários novos gêneros de comunicação escrita existentes, escolhemos para estudo um dentre aqueles que transitam pela internet, os blogs. Alguns dos autores pesquisados afirmam que a linguagem escrita não se trata de mera transcrição da oralidade, mas uma das formas possíveis de representá-la. Para Bakhtin, não existe diferença entre essas duas formas de linguagem.Neste calor do debate, este estudo faz um sobrevôo pela modalidade escrita apresentada na mídia. Os blogs são textos trocados entre interlocutores que escrevem para pessoas desconhecidas, mas que se tornam conhecidas no momento em que simulam um diálogo interlocutores, e as marcas da oralidade atravessam a comunicação escrita. Palavras-chave: blogs, linguagem, situações de oralidade e de escrita, comunicação eletrônica, mídia eletrônica. iii ABSTRACT This work suggests to present considerable aspects of written communication, pointing out the prominences of form oral that are included in the texts. Our research aims, besides to situate and to evidence the presence of several factors showing something that linguists call “oral marks”, to bring contributions to researchers who are interested in electronics communications subject. From several new genders of written communication, we have chosen, in order to study, just one among those go along on Internet, the blogs. Some of inquired authors assert that the written language is not a common oral transcription, but one of the possible ways to represent it. According to Bakhtin, there is no difference between these two language forms. Regarding to this discuss, this study makes a quick explanation about written modality displayed in the media. Blogs are changed texts among interlocutors who write to unknown people, but they become known when they simulate interlocutors dialogue, and the oral marks cross written communication. Keywords: blogs, language, oral form and writtin form, eletronic communication, eletronic media. iv SUMÁRIO RESUMO....................................................................................................................... iii INTRODUÇÃO...............................................................................................................6 1 A oralidade da linguagem e seu sistema de representação..........................................8 1.1 As linguagens e suas estruturas sintáticas .................................................................8 1.2 Língua escrita e língua falada modos e situaçõe ...............................................11 2 Entre as fronteiras da fala informal e da escrita formal nas situações comunicativas ................................................................................................17 2.1 Formações discursivas e formações ideológicas .....................................................17 2.2 Aspectos da escrita e da fala em situações comunicativas......................................20 2.3 Os marcadores conversacionais...............................................................................24 3 A virtualização do texto.............................................................................................26 3.1 O Texto digital e o leitor em tela.............................................................................26 3.2 Mídia eletrônica: muitos interlocutores e muitos gêneros textuais .........................29 3.3 Os Blogs escolhidos para análise............................................................................32 4 Considerações finais ..................................................................................................45 5 Referências ................................................................................................................47 v INTRODUÇÃO Esta monografia buscou analisar as mudanças na linguagem escrita que acontecem em decorrência dos avanços tecnológicos na “máquina de escrever”. Neste contexto, cresceram as interferências das marcas da oralidade na comunicação escrita. A informalidade e a formalidade gramatical atuam juntas no processo de interação social via máquina computadorizada de escrever. A internet é uma ferramenta que dissemina informações pelo planeta. As pessoas podem escrever umas para as outras em velocidades não comparáveis aos veículos de deslocamento físico-espacial. Os gêneros textuais acontecem na medida em que grupos diferenciados resolvem discutir temas específicos com linguagens construídas a partir das experiências dos participantes. Os blogs, textos midiáticos analisados nesta monografia, são produzidos de forma escrita com complementos da oralidade. Esta afirmação faz parte da elaboração do problema de pesquisa que pode ser colocado da seguinte forma: até que ponto a modalidade escrita nos blogs está embutida de relevantes marcas da oralidade que permitem que a comunicação aconteça entre os enunciadores sem prejuízo da compreensão? OBJETIVOS: Mostrar que nos blogs a escrita ultrapassa a assertiva de que ela é um código de transcrição da fala. Analisar como ocorre a produção de textos, quando o locutor e o interlocutor interagem por meio da máquina, colocando em relevância os recursos lingüísticos discursivo, semântico e gramatical que são ativados; Verificar como os escritores de blogs usam os textos para criar sentidos nas situações de comunicação; Apontar marcas da normatividade presença de normas na manifestação textual dos blogs (cor, tamanho de letra, símbolos, elementos logográficos, icônicos, pictóricos). 6 Destacar a plasticidade entre a oralidade e a representação dela na escrita organizadas pelos marcadores conversacionais. METODOLOGIA: Pesquisa qualitativa. Este trabalho está dividido em três capítulos . No primeiro capítulo, “A oralidade da linguagem e seu sistema de representação”, apresentamos uma introdução traçando um paralelo entre esses dois sistemas de comunicação em que a escrita aparece inicialmente como um complemento da oralidade. No segundo capítulo “Entre as fronteiras da fala informal e da escrita formal nas situações comunicativas”, destacamos as formações discursivas e as formações ideológicas, e aspectos da escrita e da fala em situações comunicativas. No terceiro capítulo “A virtualização do texto”, abordamos uma fundamentação sobre o texto digital e o leitor em tela, e uma explanação sobre a mídia eletrônica, em que surgem muitos interlocutores e muitos gêneros textuais. Ainda nesse mesmo capítulo, apresentamos alguns blogs escolhidos para análise. Ao final, após os devidos comentários pertinentes aos textos dos blogs, apresentamos as considerações finais, um comentário sobre todo o trabalho desenvolvido. 7 CAPITULO I A ORALIDADE DA LINGUAGEM E SEU SISTEMA DE REPRESENTAÇÃO 1.1 As linguagens e suas estruturas sintáticas KATO (2001) fez um estudo em que revela que a linguagem escrita não pode ser definida como um conjunto de propriedades formais, invariantes e distintas da linguagem falada. Para a autora, as modalidades oral e escrita da linguagem apresentam uma isomorfia parcial, porque fazem a seleção a partir do mesmo sistema gramatical, e podem expressar as mesmas intenções. As diferenças entre a linguagem falada e a linguagem escrita, afirma, são determinadas pelas diferentes condições de produção, tais como: a dependência contextual, o grau de planejamento e a submissão consciente às regras prescritivas convencionalizadas para a escrita. O grau de planejamento determina o nível de formalidade, que pode ir do menos tenso (casual ou informal) até o mais tenso (formal, gramaticalizado). Assim, a escrita formal parece representar o mais alto grau de autonomia contextual que as línguas humanas podem atingir. Cada modalidade apresenta, contudo, variações internas, determinadas principalmente pelo gênero ou objetivo retórico. Dentre esses gêneros, o escolhido neste trabalho foi a escrita na internet, a linguagem utilizada nos blogs. Ainda em KATO (2001), afirmando que as diferenças formais atribuídas às modalidades escrita e falada têm a ver com as condições de produção e uso da linguagem, temos um resumo dessas condições: a) a escrita é menos dependente do contexto situacional; b) a escrita permite um planejamento verbal mais cuidadoso; c) a escrita é mais sujeita a convenções prescritivas d) a escrita é um produto permanente BRITTO (1997) diz que, entretanto, a distinção entre escrita e oralidade não se reduz à questão do modo de representação, pois nem tudo o que se fala se escreve, e 8 também por que a escrita, por sua natureza, pressupõe o afastamento espaço-temporal dos interlocutores (o que implica uma reorganização da forma do discurso). E completa, “principalmente por que à escrita, desde sua origem, foram atribuídas funções específicas e diferentes das que couberam à fala”. A escrita constituiu-se como um (ou vários) sistema(s) discursivo(s), funcionando como um complemento da oralidade e “cumprindo certas atribuições que se situam além das propriedades inerentes a esta (Osakabe, 1978:148), dentre as quais se destacam a função documental e legal, o registro e a veiculação de valores culturais e saberes científicos, e a organização dos espaços públicos” (BRITTO, 1997:84). BRITTO (1997) prossegue afirmando que não passa de um engano a idéia de que a escrita teria tido como função primeira a comunicação à distância, ou tratar-se de recurso mnemônico; ao contrário, ela surge como forma definitiva de registro em razão do desenvolvimento mercantil e da propriedade privada, bem como da sofisticação de procedimentos litúrgicos. “Dessa forma, a escrita não era de uso geral, sendo inclusive proibida para não iniciados, e é somente no Renascimento (e em um processo progressivo, que durou aproximadamente sete séculos) que se constitui o projeto de plena alfabetização como o que vivemos hoje”. Entretanto, o processo globalizante capitalista mantém parcela significativa de excluídos (não-letrados) espalhados pelo terceiro mundo afora. Também uma das conseqüências diretas do aparecimento dos sistemas de escrita (BRITTO 1997:85) foi o estabelecimento de novas estruturas sintáticas, frases mais longas, inversões de ordem, frases mais complexas e uma enorme ampliação do léxico. Um indivíduo letrado é considerado proficiente em uma determinada língua, conhecendo em torno de 5.000 palavras; afirma-se que um falante adulto escolarizado domina de 8.000 a 12.000 palavras; a língua portuguesa possui aproximadamente 500.000 palavras (Dicionário Aurélio Século XXI); enquanto isso, calcula-se que o inglês atual tenha algo em torno de 1.000.000 de palavras e pelo lado oposto, o Kamaiurá (cultura ágrafa)1 possui aproximadamente 20.000 palavras. 1 Que não está escrito; que não admite escrita. Língua ágrafa: língua oral, apenas falada. 9 ONG (1998) nos diz que o maior alerta para o contraste entre os modos orais e modos escritos de pensamento e expressão ocorreu não na lingüística, descritiva ou cultural, mas nos estudos literários, iniciados inquestionavelmente com o estudo de Milmann Parry sobre o texto da Ilíada e da Odisséia. Para ONG (1998), ver a linguagem como um fenômeno oral parece ser inevitável e óbvio. Os seres humanos comunicam-se de inúmeras maneiras, fazendo uso de todos os seus sentidos: tato, paladar, olfato, audição e especialmente visão. Onde quer que existam seres humanos, eles fazem uso de uma linguagem, e sempre uma linguagem que existe basicamente por ser falada e ouvida. Por mais rica que seja a linguagem gestual, as linguagens de sinais sofisticados constituem substitutos da fala e são dependentes de sistemas de discurso oral, até mesmo quando usadas por surdos de nascença. Prossegue ONG: “Na realidade, a linguagem é tão esmagadoramente oral que, de todas as milhares de línguas talvez dezenas de milhares faladas no curso da história humana, somente cerca de 106 estiveram submetidas à escrita num grau suficiente para produzir literatura e a maioria jamais foi escrita. Das cerca de 3 mil línguas faladas hoje existentes, apenas aproximadamente 78 têm literatura (Edmonson, 1971, pp.323,332). Não existem, por enquanto, meios de calcular quantas línguas desapareceram ou se transformaram em outras antes que a escrita surgisse. Ainda hoje, centenas de línguas ativas nunca são escritas: ninguém criou um modo eficaz de escrevê-las. A oralidade básica da linguagem é constante.” Para BRITTO (1997) a escrita se assemelha a uma espécie de simbolismo secundário que transfere a fala (instável e imediata) para o formato gráfico, estável e perene. Na escrita, nem todas as características da fala são mantidas. O autor afirma que os aspectos da prosódia, a inconstância na realização dos segmentos fonéticos, alguns fonemas suprassegmentais, etc. não são sistematicamente representados pela escrita, enquanto outros são acrescentados (por exemplo a divisão das palavras não 10 segue o mesmo padrão na fala e na escrita, a pontuação considera aspectos sintáticos e ideogramáticos). Diz ainda: “Não ocorre propriamente uma relação um-a-um, de modo que a cada traço do objeto representado (a fala) corresponda um símbolo determinado. Há mais de um modo de representar o mesmo fonema (o fonema /s/ tem dez representações na ortografia oficial do português) e um mesmo símbolo pode representar mais de um elemento (a letra “x” pode representar quatro fonemas diferentes em português, além de compor-se com outras para representar um único fonema). Por isso a escrita não é um código de transcrição da fala, mas sim um sistema de representação da oralidade”. 1.2 LÍNGUA ESCRITA E LÍNGUA FALADA MODOS E SITUAÇÕES A constituição da língua falada, (doravante LF), como um objeto cientifico se deu muito recentemente na Lingüística, embora há muito tempo se tenha reconhecido sua primazia sobre a língua escrita, (doravante LE). Para desenvolver observações sobre a LF, vamos admitir que qualquer língua natural se compõe de três módulos, interligados pelo léxico: o módulo discursivo, o módulo semântico e o módulo gramatical. O módulo discursivo é o que contém negociações intersubjetivas que se desencadeiam no momento da enunciação: a constituição do locutor e do interlocutor, a seleção e a elaboração de um tópico conversacional e as rotinas da conversação. Da conversação resultam os textos. O módulo semântico é definido pelos diferentes processos de criação de sentidos lexicais (denotação, conotação, sinonímia, antonímia, heteronímia e outros), dos significados componenciais (referenciação, predicação, dêixis, foricidade, e outros) e das significações interacionais (inferências, pressuposições, etc). 11 O módulo gramatical se ocupa das classes, das relações que podemos estabelecer entre elas, e das funções que as classes desempenham no enunciado. Esse módulo é formado pela Fonologia, Morfologia e Sintaxe. O fonema, o morfema, o sintagma e a sentença, como unidades de cada um desses sistemas, dispõem cada um de propriedades descritivas. O Léxico é concebido como um conjunto de itens armazenados em nossa memória. Cada item dispõe de propriedades semânticas e gramáticas que são igualmente adquiridas. Ao longo de nossa vida, alteramos nosso estoque vocabular, promovendo pequenas erosões em suas propriedades, ditadas por necessidades discursivas. Ao longo das gerações, alteramos as propriedades dos itens, provocando a mudança lingüística. O gênero textual, nomeado de blog, que está sendo estudado nesta monografia, faz também parte das mudanças que vêm ocorrendo na vida social do ser humano ao longo da história das civilizações, e, particularmente acompanhando a velocidade dos avanços tecnológicos dos três últimos séculos. Muito se tem escrito sobre os movimentos da sociedade e o comportamento da humanidade frente à natureza. O geógrafo Milton Santos, pesquisador científico, procura esclarecer para seus leitores, através da grande narrativa, facetas dos tempos que vivemos. SANTOS (1997) divide a história em três grandes tempos: a revolução neolítica, a revolução industrial e a revolução cibernética. E essas épocas se distinguem pelas formas de fazer, isto é, pelas técnicas. Os sistemas técnicos envolvem formas de produzir energia, bens e serviços, formas de relacionar os homens entre eles, formas de informação, formas de discurso e interlocução. No bojo da inovação tecnológica do século XX vem a revolução informática, e, com base na telemática e na teleinformática, o computador é a máquina-símbolo desse período histórico. Nas suas palavras, cada período histórico está caracterizado pelas técnicas desenvolvidas pela humanidade e pelas formas de apropriação dos territórios: “As características da sociedade e do espaço geográfico, em um dado momento de sua evolução, estão em relação com um determinado estado das técnicas. Desse modo, o conhecimento dos sistemas técnicos sucessivos é essencial para o 12 entendimento das diversas formas históricas da estruturação dos territórios, desde os albores da história até a época atual. Cada período é portador de um sentido, partilhado pelo espaço e pela sociedade, representativo da forma como a história realiza as promessas da técnica” (SANTOS, 1997, p.137). Dentre as promessas da técnica está, atualmente, a da comunicação virtual no sentido de aproximar os homens que falam e escrevem pensamentos, desejos e idéias, sem precisarem se deslocar no espaço. Os usuários de máquinas eletrônicas para escrever precisam produzir textos que concretizem uma situação de comunicação; a formalidade ou a informalidade das situações vai dosar as marcas da oralidade nos textos escritos. O lingüista CASTILHO (1998) entende o texto como o produto de uma interação, que pode ser do tipo face-a-face, como na língua falada, chamada pelo autor de LF, ou do tipo “interação com um interlocutor invisível”, naquilo em que ele chama de LE, língua escrita. De uma forma ou de outra, estaremos sempre, em nosso uso diário da língua, produzindo textos. E para produzir textos, mesmo sem saber, estamos ativando recursos lingüísticos adquiridos na infância, ou seja, a língua falada adquirida em nosso meio familiar e língua escrita adquirida na escola. E a utilização desse conhecimento (o discurso, a semântica e a gramática mediados pelo léxico) está sendo ativado a quase todo o momento, quando falamos ao telefone, quando conversamos com um vizinho, quando vamos à padaria, quando escrevemos uma carta ou quando nos comunicamos via internet (e-mail, messenger, chats, blogs, etc). Diz Milton do Nascimento, citado por CASTILHO (1998, p. 56), que a língua é uma atividade, uma forma de ação que se manifesta em toda sua plenitude no texto e que, para colocar a língua em ação, o falante/ouvinte opera sobre os módulos discursivo, semântico e gramatical, mediados pelo léxico. Para MARCUSCHI (2001), “falar ou escrever bem não é ser capaz de adequarse às regras da língua, mas é usar adequadamente a língua para produzir um efeito de sentido pretendido numa dada situação” (Marcuschi, 2001). E, ainda, diz esse autor, 13 em primeiro lugar, é preciso fazer distinção entre o sistema virtual (a língua) e sua realização concreta. Nos últimos anos intensificaram-se os estudos sobre a relação entre língua falada e língua escrita. Os resultados das investigações, ainda incipientes, vêm mostrando que a questão é complexa e variada. Marcuschi segue dizendo que as semelhanças entre a língua falada e a língua escrita são maiores do que as diferenças, tanto nos aspectos lingüísticos quanto nos aspectos sócio-comunicativos; tanto a fala como a escrita, em todas as suas formas de manifestação textual, são normatizadas não se pode dizer que a fala não segue normas por ter enunciados incompletos ou por apresentar muitas hesitações, repetições e marcadores não-lexicalizados. Tanto a fala como a escrita não se constituem numa única dimensão expressiva, mas são multissêmicas. Por exemplo, a fala serve-se da gestualidade, mímica, prosódia, etc; a escrita serve-se da cor, tamanho, forma das letras e dos símbolos, como também de elementos logográficos, icônicos e pictóricos, entre outros, para fins expressivos. Uma das características mais notáveis da escrita está na ordem ideológica da avaliação sociopolítica em sua relação com a fala, e na maneira como nos apropriamos dela para estabelecer, manter e reproduzir relações de poder, não devendo ser tomada como intrinsecamente “libertária” (MARCUSHI 2001, p.45, 46). Marcuschi chama de “retextualização” a passagem da oralidade para a escrita. A retextualização não é um processo mecânico, já que a passagem da fala para a escrita não se dá naturalmente no plano dos processos de textualização. Trata-se de um processo que envolve operações complexas que interferem tanto no código como no sentido e evidenciam uma série de aspectos nem sempre bem-compreendidos da relação oralidade-escrita. Fiorin (1997a) afirma que na medida em que as formações discursivas materializam as formações ideológicas, e estas estão correlacionadas às classes sociais, os agentes discursivos são as classes e as frações de classe. Explica o autor que, embora haja diferentes formações discursivas numa formação social, a formação discursiva dominante é a da classe dominante. O árbitro da discursivização não é o 14 indivíduo, mas são as classes sociais. O indivíduo não pensa e não fala o que quer, mas o que a realidade impõe que ele pense e fale. Isso pode parecer um contra-senso no sentido de que o homem é um “animal racional”, pode organizar seu discurso como quiser e exprimir o que quiser; entretanto, essa liberdade absoluta é contestada, sendo ele produto de relações sociais que o fazem agir, reagir, pensar e falar, na maioria das vezes, como os membros de seu grupo social. E as idéias que ele tem disponíveis para tematizar seu discurso são aquelas veiculadas na sociedade em que vive (FIORIN, 1997a, p.43). Mesmo para aqueles que têm um discurso mais crítico, não se pode excluí-los dessa afirmação, pois esse discurso nasce a partir dos conflitos e das contradições existentes na realidade social dos indivíduos. Assim, conclui Fiorin, na medida em que o homem é suporte de formações discursivas, não fala, mas é falado por um discurso. Um discurso sempre cita outro discurso. Um texto pode citar outro texto. Podemos admitir que para a construção de um texto e de uma sentença haja uma hierarquia entre as palavras, diz Castilho. Para esse autor, como palavras principais (ou categorias maiores) temos o Nome, o Pronome, o Verbo. Como palavras acessórias (categorias intermediárias) o adjetivo e o advérbio, e um terceiro grupo, de palavras gramaticais (categorias menores) a Preposição e a Conjunção. (CASTILHO, 1998, p.58). Para esse autor, estudos sobre a gramaticalização das palavras agregam outro argumento a favor da hierarquia mencionada acima, e é o que se comprovou nos processos de recategorização dos itens com a significativa mudança para “palavras principais > palavras acessórias > palavras gramaticais”. Castilho cita a teoria desenvolvida pelos lingüistas da Escola de Praga para explicar a estrutura informacional da sentença. É a teoria da Articulação Tema-Rema, em que a palavra Tema significaria o papel do tópico e Rema o papel do foco do texto. Para essa teoria, todo ato de comunicação bem sucedido consiste em duas realizações: destacar um objeto de predicação e predicar sobre esse objeto. (Ilari, apud CASTILHO 1998). Isso quer dizer que toda oração serve para realizar duas ações básicas e 15 irredutíveis que descrevemos na linguagem de todos os dias mediante os predicados de “falar de” e “dizer que”. O primeiro desses predicados capta o papel de tópico (tema) e o segundo o papel de foco (rema) (CASTILHO 1998). O Tema da sentença é um ponto de partida sintático, geralmente preenchido por uma expressão referencial, ou por um verbo apresentacional. O tema do texto é um ponto de partida discursivo, vale dizer, interacional, assumindo uma dimensão pragmática. O Rema da sentença é uma expressão predicativa, por meio da qual atribuímos propriedades ao Tema. O Rema do texto é o conjunto das sentenças tematicamente centradas. De acordo com essa postura, podemos afirmar que Tema e Rema teriam propriedades recursivas, suficientemente fortes para constituir expressões lingüísticas de vários níveis. Após ter discutido as questões da oralidade da linguagem e o seu sistema de representação como subsídios para o estudo dos blogs, passaremos, a seguir, para as discussões sobre a formalidade da escrita e a informalidade da fala. Nos blogs, esta dualidade tende a se mesclar podendo caracterizar textos com “enunciados relativamente plásticos ”, moldáveis, permitidos e viabilizados pela comunicação virtual. 16 CAPITULO II : ENTRE AS FRONTEIRAS DA FALA INFORMAL E DA ESCRITA FORMAL NAS SITUAÇÕES COMUNICATIVAS 2.1 Formações discursivas e formações ideológicas Para FIORIN (1997), a língua em si não é um fenômeno que tenha um caráter de classe, uma vez que ela existe nas formações sociais com classe e continuará existindo quando as classes forem abolidas. Entretanto, as classes usam a linguagem para transmitir suas representações ideológicas. Ela também não é propriamente um fenômeno de superestrutura2, mas é o veículo das representações ideológicas. No entanto, as formações discursivas, na medida em que constituem a materialização das formações ideológicas, são fenômenos de superestrutura. Por isso, a uma alteração das relações sociais de produção pode acabar por corresponder a uma mudança nas formações discursivas (KOCH, 1997 p.68 e FIORIN 1997, pág. 72). “É preciso entender as formações ideológicas e, portanto, as formações discursivas como mero reflexo das relações sociais”, diz FIORIN (1997), e que sendo o discurso um produto histórico e social, as transformações na estrutura social podem acarretar mudanças discursivas. Na verdade, não existem representações ideológicas senão aquelas materializadas na linguagem. Por isso, excetuadas as formações discursivas, a linguagem não faz parte da superestrutura, mas é o seu suporte, é o seu instrumento que permite que as representações ganhem materialidade. E quando um enunciador comunica alguma coisa, ele tem como objetivo agir no mundo. Ao exercer seu fazer informativo, produz um sentido com a finalidade de influir sobre os outros. Nesse sentido, para BAKHTIN (1997, p.144) o discurso citado é visto pelo falante como a enunciação de uma outra pessoa, completamente independente na origem, dotada de uma construção completa, e situada fora do contexto narrativo. Comunicar é também agir num sentido mais amplo. Quando um 2 O complexo das ideologias religiosas, filosóficas, jurídicas e políticas de determinada classe social, dominante numa sociedade (igreja, escola, polícia, governo) 17 enunciador reproduz em seu discurso elementos da formação discursiva dominante, de certa forma contribui para reforçar as estruturas de dominação. “A língua não é o reflexo das hesitações subjetivo-psicológicas, mas das relações sociais estáveis dos falantes. Conforme a língua, conforme a época ou os grupos sociais, conforme o contexto apresente tal ou qual o objetivo específico, vê-se dominar ora uma forma ora outra, ora uma variante ora outra. O que isso atesta é a relativa força ou fraqueza daquelas tendências na interorientação social de uma comunidade de falantes, das quais as próprias formas lingüísticas são cristalizações estabilizadas e antigas. (...) Toda a essência da apreensão apreciativa da enunciação de outrem, tudo o que pode ser ideologicamente significativo tem sua expressão no discurso interior. Aquele que apreende a enunciação de outrem não é um ser mudo, privado da palavra, mas ao contrário um ser cheio de palavras interiores” (BAKHTIN, 1997, p.147). FIORIN (1997) reforça a idéia de que as formações discursivas, constituídas por um conjunto de temas e de figuras, materializam as formações ideológicas; essas formações discursivas são fenômenos de superestrutura, embora a linguagem em geral e a língua em particular sejam apenas o instrumento de materialização das representações ideológicas. O uso de um determinado discurso é, de certa forma, uma ação no mundo. A linguagem é, ao mesmo tempo, autônoma em relação às formações sociais e determinada por fatores ideológicos. As formações ideológicas presentes numa dada formação social determinam formações discursivas; elas estabelecem um conjunto de temas e de figuras com que o indivíduo fala do mundo exterior e interior. Complementando suas idéias, o autor diz que o itinerário pelo discurso não se esgota no interior do próprio discurso, mas se projeta na história e é preciso levar em conta o intertexto para ler o texto. Assim, a análise do discurso deve desfazer a ilusão idealista de que o homem é senhor absoluto de seu discurso. Ele é antes servo da palavra, uma vez que temas, figuras, valores, juízos provêm das visões de mundo existentes na formação social (FIORIN, 1997, p.74). 18 Chomsky3 afirma que o papel da comunicação e da interação social se detém em uma função secundária da língua. Essa visão é fundamentada na teoria do inatismo, que contrasta com a teoria estruturalista em que a língua é considerada basicamente instrumento de comunicação. É o que diz Saussure, para quem a língua é um objeto social cujo objetivo primário é a comunicação, de natureza arbitrária e convencional (NOAM CHOMSKY apud KATO, 2001, p.115). BARTHES (1964) afirma que todas as escritas apresentam um caráter de fechamento que é estranho à linguagem falada. A escrita não é um instrumento de comunicação, não é um caminho aberto por onde passa uma só intenção de linguagem. É toda uma desordem que se escoa através da fala, e lhe dá esse movimento aniquilado que a mantém num estado de eterno adiamento. A escrita é, pelo contrário, uma linguagem endurecida que se sustenta com pouco e não tem a missão de confiar à sua própria duração uma seqüência móvel de aproximação, mas sim de impor, através da unidade e da sombra dos seus signos, a imagem de uma fala construída muito antes de ser inventada. E segue: “O que opõe a escrita à fala é que a primeira parece sempre simbólica, introvertida, ostensivamente voltada para o lado de uma vertente secreta de linguagem, enquanto a segunda não passa de uma duração de signos vazios, dos quais só o movimento é significativo. Toda a fala está nessa usura das palavras, nessa espuma levada sempre para mais longe, e só há fala quando a linguagem funciona claramente como uma voragem que se arrasta à ponta móvel das palavras; a escrita, pelo contrário, está sempre enraizada num além da linguagem, desenvolvendo-se como um germe e não como uma linha, manifesta uma essência e uma ameaça de um segredo, é uma contra-comunicação intimidada. Portanto, encontramos em qualquer escrita a ambigüidade de um objeto que é simultaneamente linguagem e coerção. Há no fundo da escrita uma circunstância estranha à linguagem, há como que o olhar de uma intenção que já não é a da linguagem” (Barthes, 1964, p. 20). 3 Noam Chomsky linguista norte-americano autor da Teoria do Inatismo, importante figura crítica dos modelos neoliberais; participante ativista dos Fóruns de Debates sobre as alternativas para os países em desenvolvimento 19 Sem dúvida, afirma BARTHES, cada regime político possui a sua escrita, cuja história está ainda por fazer, e essa escrita se revela na voz falante/escritor. Essa teoria vem reforçar a idéia do discurso pertencer à ideologia a que está subordinado o autor. POSSENTI (1993) descreve que as análises de Jakobson, Austin e Benveniste mostraram domínios em que é impossível dissociar da língua a atividade do falante, e assim a língua deixa de ser vista como instrumento externo de comunicação, de transmissão de informação, para ser vista como uma forma de atividade entre dois protagonistas. E mais adiante, prossegue POSSENTI (1993, 49) “(...) deve-se conceber a atividade do falante não como atividade de apropriação porque, a partir deste conceito, fica excluído o fato de que o locutor age também sobre a língua, já que põe em evidência apenas a ação entre e sobre os interlocutores através da língua”. BARTHES (1964, p.24-26) diz que a escrita, por ser uma forma comprometida da fala, contém simultaneamente, graças a uma ambigüidade preciosa, o ser e o parecer do poder, o que ele é e o que queria que o julgassem; portanto, afirma esse autor, “uma história das escritas políticas constituiria a melhor das fenomenologias sociais”. 2.2 Aspectos da escrita e da fala em situações comunicativas Tanto na modalidade escrita quanto na modalidade falada, a linguagem humana é essencialmente dialógica. A diferença é que na língua falada os usuários estão presentes, e esse fato interfere na construção do enunciado, que se ressente de maneira acentuada da interação que aí se desencadeia. Isso se mostra pelo fato de que, na língua escrita, é necessário explicitar as coordenadas espaço-temporais em que se movem as personagens, ao passo que na língua falada tais coordenadas já estão dadas pela própria situação de fala. 20 “Estas constatações banais apontam, entretanto, para processos dialógicos que geram conseqüências formais muito importantes, tais como a organização dos turnos e dos pares adjacentes, o sistema de reparação e correção, e a ampla utilização de diferentes classes gramaticais, denominadas coletivamente “marcadores conversacionais” (CASTILHO, 1998, p.16). Outra autora que nos ajuda nessa discussão é KOCH (1997), ao apontar as características da língua falada e língua escrita e suas diferenças. Para ela, as principais diferenças são: QUADRO 1 - Diferenças entre a fala e a escrita Fala Escrita 1. não planejada 1. planejada 2. fragmentária 2. não-fragmentária 3. incompleta 3. completa 4. pouco elaborada 4. elaborada 5. predominância de frases simples ou coordenadas. curtas 5. predominância de frases complexas, com subordinação abundante. 6. pouco uso de passivas, etc. 6. emprego freqüente de passivas etc Fonte: Koch, 1997. 21 A autora afirma que essas diferenças descritas no quadro acima nem sempre distinguem as duas modalidades, mesmo porque “existe uma escrita informal que se aproxima da fala e uma fala formal que se aproxima da escrita, dependendo do tipo de situação comunicativa”. Assim, o que se pode dizer é que a escrita formal e a fala informal se constituem os pólos opostos de um contínuo, ao longo do qual se situam os diversos tipos de interação verbal (KOCH, 1997 p.68). Aqui são destacadas algumas características próprias dessa interação face-aface: 1. por ser de natureza interacional, a comunicação face-a-face não é planejável de antemão; é localmente planejada, quer dizer, planejada ou replanejada a cada novo “lance” (cada retomada) do jogo; 2. o texto falado é construído e posto a nu a cada intervenção; 3. o texto falado apresenta uma sintaxe característica, sem deixar de ter, contudo, uma sintaxe geral da língua. Existem muitas características da linguagem falada que não serão abordadas na presente discussão porque fogem do escopo desta monografia. A nossa pretensão é retomar e aprofundar as idéias desenvolvidas por KOCH (1997). Para ela, ao contrário do que acontece com o texto escrito, em que o produtor tem maior tempo de planejamento, em que ele pode fazer um rascunho, escrever, re-escrever, revisar, o texto falado emerge no próprio momento da interação: ele é o seu próprio rascunho. Além disso, afirma a autora, em situações de interação face-a-face, o locutor não é o único responsável pela produção de seu discurso: trata-se, diz ela ao citar Marcuschi, de uma atividade de co-produção discursiva, visto que os interlocutores estão justamente empenhados na produção do texto: eles não só colaboram um com o outro, como co-negociam, co-argumentam, a tal ponto que não teria sentido analisar separadamente as produções individuais. Essa interação faz parte essencial de um mesmo discurso. Seriam como que partes inseparáveis (KOCK, 1997, p. 69). 22 Afirmamos que existe uma linguagem falada embutida em uma linguagem escrita e vice-versa. Esse paralelo entre a linguagem falada e a linguagem escrita, acreditamos ser importante no processo de comunicação. Ora, os escritos que podem ser capturados pela internet na maioria das vezes têm um número muito mais significativo de aspectos da linguagem falada que demandam investigações do que os que aqui chamamos de marcas ou aspectos da oralidade. Esta interação de linguagem faz parte das situações comunicativas dos blogs, gênero escolhido para estudo neste trabalho. Outra diferenciação existente entre as formas falada e escrita, é a que aparece em KATO (2001). Para essa autora, a linguagem oral é altamente dependente de contexto, enquanto que a escrita é descontextualizada. A coesão, na linguagem oral, é estabelecida através de recursos paralingüísticos e supra-segmentais, enquanto que, na linguagem escrita, ela é estabelecida através de meios lexicais de estruturas sintáticas complexas que usam conectivos explícitos (KATO, 2001, p.25). Podemos citar um exemplo pertinente à assertiva da autora encontrado no livro Português Popular Escrito, de Edith Pimentel Pinto, editado em 1996. Na sua obra, ela destaca que o emprego de acentos gráficos, nas cartas, que foi seu material de pesquisa, não obedece à norma, sequer as consagradas na ortografia da língua e nem mesmo as implícitas decorrentes de hábitos gráficos, ou, ainda, as que se explicariam por uma regulamentação individual coerente. Essa hipótese já havia sido aventada pela autora, de que a acentuação é pouco freqüente, podendo o mesmo vocábulo, no mesmo texto, ser ou não acentuado. A pesquisa dela foi feita em escritos de cartas em que ela verificou “não haver noção muito clara das funções do acento gráfico em português”. Ela diz que o fato de se acentuarem ou não vocábulos fundamentais para a boa interpretação do texto, e cita como exemplos, “é”, por “e” e “esta” por “está”, não parece interferir na transmissão da mensagem, que é emitida e recebida sem obscurecimento, o que favorece a dispensa de sua utilização, por esses usuários e nesses casos. Esses hábitos gráficos são freqüentes na escrita dos blogs. 23 2.3 Os marcadores conversacionais MARCUSCHI (1998) ao falar dos “marcadores conversacionais”, descreve sobre as diferenças entre a fala e a escrita, e destaca que na análise de conversação não se podem empregar as mesmas unidades sintáticas que são utilizadas na língua escrita. Para ele, “tudo indica que as unidades, na conversação, devem obedecer a princípios comunicativos para sua demarcação e não a princípios meramente sintáticos (...) isto sugere que os marcadores do texto conversacional são específicos e com funções tanto conversacionais como sintáticas” ( MARCUSCHI , 1998). MARCUSCHI (1998, 62) divide em classes os marcadores conversacionais: recursos verbais, recursos não-verbais e recursos supra-segmentais. Os recursos verbais que operam como marcadores formam uma classe de palavras ou expressões altamente estereotipadas, de grande ocorrência e recorrência. Essas pequenas expressões não contribuem propriamente com informações novas para o desenvolvimento do tópico, mas situam-no no contexto geral ou pessoal da conversação. Como exemplo desses marcadores orais, o autor cita alguns, como “mm”, “ahã”, “ué”. Podemos acrescentar outros: “né”, “assim”, “ham-ham”, “humhum” e outros tantos. Os recursos não-verbais, ou paralingüísticos, tais como o olhar, o riso, os meneios de cabeça, a gesticulação, têm um papel fundamental na interação face a face. Esses recursos estabelecem entre os interlocutores uma relação que mantém e regula o contato. MARCUSCHI (1998) destaca que, na comunicação através da fala, os dois recursos mais importantes são as pausas e o tom de voz. Essas pausas podem ser curtas (micropausas), médias ou longas e constituem, segundo o autor, um fator decisivo na organização do texto conversacional. É comum, nas conversações informais, as pausas propiciarem mudanças de turno. Nos monólogos, as pausas mais longas têm a função de auxiliar o falante no planejamento verbal ou na organização do pensamento. Esses tipos de marcadores orais foram citados para que possamos entender e traçar um paralelo com possíveis marcadores que são transferidos quando 24 transformado um discurso em linguagem escrita. Encerrando este capítulo com as reflexões sobre as interferências da linguagem oral na representação escrita, passaremos para a análise de um fenômeno da modernidade que é a materialização do virtual. Tudo aquilo que fazia parte do “mundo da ilusão” pode agora ser visto, ser explicitado, ser transformado em textos e imagens. Trabalhamos com a dialética do possível e do real. 25 CAPITULO III A VIRTUALIZAÇÃO DO TEXTO 3.1 O Texto digital e o leitor em tela Lévy (1999) situa muito bem o meio eletrônico frente aos outros meios de comunicação: “a sucessão da oralidade, da escrita e da informática como modos fundamentais de gestão social do conhecimento não se dá por simples substituição, mas antes por exemplificação e deslocamento de centros de gravidade”. Estamos tão embebidos na galáxia de Gutenberg, diz o autor, que não nos damos conta das diversas dificuldades que foram enfrentadas pelo homem na luta pela popularização da escrita. Durante séculos a escrita foi privilégio de poucos, a alfabetização era restrita a grupos eclesiásticos e a nobres. Seu nascimento deu-se num ambiente de violenta discriminação, e tornou-se privilégio de determinada casta; somente a alguns era permitido o seu acesso e exercício. Os poucos que dominavam a escrita controlavam os muitos que a ignoravam. A história comprova que nenhuma tecnologia veio para usurpar o espaço da outra. Todas convivem pacificamente, tendo cada uma seu público e sendo utilizadas em situações diversas, conforme a necessidade do indivíduo. Podemos observar que as tecnologias mais avançadas geralmente absorvem as conquistas das tecnologias anteriores, assim como aconteceu com o cinema cujo desenvolvimento estava respaldado na foto. O hipertexto eletrônico pode ser uma leitura muito familiar se nós o relacionarmos também com as notas de rodapé, as revistas e as enciclopédias. Essas últimas permitem um movimento sem seguir nenhuma seqüência específica. A diferença básica seria que no hipertexto uma nota pode ser maior que o texto original e dela você opta por voltar ao texto inicial ou perder-se nas “malhas das letras” eletrônicas. Além disso, a velocidade faz a diferença. Tudo acontece mais rapidamente e essa expansão da informação leva muitos a se preocuparem com essa “hiperinflação informativa”. 26 Para NEITZEL4, existe, pois, um movimento de virtualização em nosso meio social que não se opõe ao real, mas sobrevive ao lado deste, uma coexistensividade do real e do simulacro (miniaturizações, próteses, clones, hologramas...). Estamos contaminados pelo reino da simulação, da ilusão, mas isto não configura uma sociedade perdida, um corpo perdido, uma "desrealização geral" como sugere Baudrillard. Vivemos num labirinto, e constantemente estamos submetendo em xeque os conceitos fundamentais que enredam a natureza humana, pois passamos a trabalhar com valores flutuantes, tornando-se impossível assegurar uma compreensão real e única das coisas. Afirmar que o hipertexto não constitui novidade absoluta não significa a inexistência de uma certa hostilização do público com relação à tecnologia. O “elemento novo” da concepção das modernas tecnologias está para o século XX como o “elemento novo” da concepção de progresso e moderno estava para o público renascentista. LÉVY (1999) escreve que o texto, desde suas origens, é um objeto virtual, abstrato, independente de um suporte específico. Essa entidade virtual atualiza-se em múltiplas versões, traduções, edições, exemplares e cópias. Para esse autor, o aparecimento da escrita acelerou um processo de artificialização, de exteriorização e de virtualização da memória. Não se pode reduzir a escrita a um registro de fala; por ser virtualizante, a escrita dessincroniza e deslocaliza. A escrita fez surgir um dispositivo de comunicação no qual as mensagens estão quase sempre separadas no tempo e no espaço de sua fonte de emissão e, portanto, são recebidas fora do contexto. Do lado da redação, teve-se que imaginar sistemas de enunciados auto-suficientes, independentes do contexto, que favoreçam as mensagens que respondam a um critério de universalidade, científica ou religiosa. Afirma ainda LÉVY (1999) que, com o advento da escrita, e mais ainda com o alfabeto e a imprensa, os modos de conhecimentos teóricos e hermenêuticos passaram, portanto, a prevalecer sobre os narrativos e rituais das sociedades orais. E, diz o autor, a exigência de uma verdade 4 (extraído do artigo “Do texto ao hipertexto”, de autoria da professora Doutora Adair de Aguiar Neitzel, no site da UFSC (http://www.cce.ufsc.br/~neitzel/literatura/hipertexto.html - dia 25/03/2005 às 18h:32). 27 universal, objetiva e crítica, só pôde se impor numa ecologia cognitiva largamente estruturada pela escrita, ou, mais exatamente, pela escrita sobre suporte estático. Pois o texto contemporâneo, “Alimentando correspondências on line e conferências eletrônicas, correndo em redes, fluido, desterritorizado, mergulhado no meio oceânico do ciberespaço, esse texto dinâmico reconstitui, mas de outro modo e numa escala infinitamente superior, a co-presença da mensagem e de seu contexto vivo que caracteriza a comunicação oral. De novo, os critérios mudam. Reaproximam-se daqueles do diálogo ou da conversação: pertinência em função do momento, dos leitores e dos lugares virtuais; brevidade, graças à possibilidade de apontar imediatamente as referências; eficiência, pois prestar serviço ao leitor (e em particular ajudá-lo a navegar) é o melhor meio de ser reconhecido sob o dilúvio informacional” (LEVY,1999, p. 39). Esse novo texto digital tem, para esse autor, características técnicas que convém precisar, e cuja análise está ligada a uma dialética do possível e do real. O leitor de um livro, de um jornal, de um artigo impresso em papel está diante de um objeto físico sobre o qual uma certa versão de texto está integralmente manifesta. Tendo a posse desse material, pode o leitor fazer anotações nas margens, sublinhar, circular, recortar, fotocopiar, etc.; entretanto, o texto inicial lá permanece, realizado integralmente. Na leitura em tela (objeto principal deste trabalho de pesquisa) essa presença extensiva e preliminar à leitura desaparece. Segundo LÉVY (1999), o leitor em tela é mais ativo que o leitor em papel: ler em tela é, antes mesmo de interpretar, enviar um comando a um computador para que projete esta ou aquela produção parcial do texto sobre uma pequena superfície luminosa. Assim, a tela do computador é uma nova máquina de ler, o lugar onde uma reserva de informação possível vem se realizar por seleção, aqui e agora, para um leitor em particular. E, para o autor, toda leitura em computador é uma edição, uma montagem singular. LÉVY (1999) levanta uma questão baseado na afirmação de que, graças à digitalização, o texto e a leitura receberam um novo impulso, e ao mesmo tempo uma 28 profunda mutação, e que, com a multiplicação das telas não se estaria anunciando o fim do escrito, como dão a entender alguns “profetas da desgraça”. Ele mesmo responde: “essa idéia é muito provavelmente errônea. Certamente o texto digitalizado, fluído, reconfigurável à vontade, que se organiza de um modo não linear, que circula no interior de redes locais ou mundiais das quais cada participante é um autor e um editor potencial, esse texto diferencia-se do impresso clássico”(PIERRE, 1999, p.50). Assim, conclui, longe de aniquilar o texto, a virtualização parece fazer coincidir com sua essência subitamente desvelada. Como se a virtualização contemporânea realizasse o devir do texto. Enfim, como se saíssemos de uma certa pré-história e a aventura do texto começasse realmente. Seria como se tivéssemos acabado de inventar a escrita. 3.2 Mídia eletrônica: muitos interlocutores e muitos gêneros textuais A língua sofre mudanças; é dinâmica, não é estática. Ao longo do tempo ela tem sido modificada, tem se atualizado de maneira a ser melhor utilizada e compreendida pelo seus usuários, os falantes. Os meios utilizados como suporte para a escrita vêm sofrendo também mudanças, em razão das aceleradas descobertas e desenvolvimentos no campo da tecnologia. A mídia eletrônica idealizou um espaço para a escrita, esta agora feita de forma diversa daquela que estava atrelada ao uso do papel e da tinta. E é nesse movimento que pretendemos abordar nossa pesquisa sobre essa linguagem, essa forma de escrever. E, aquilo que se restringia a um pequeno número de interlocutores, passa agora, com a internet, para o domínio de um público ilimitado e desconhecido, possibilitando fazer estudos sobre as formas escritas que concretizam relacionamentos sociais virtuais. KOCH (1997) afirma que existem diferenças entre a linguagem escrita e a oralidade que marcam com distinção as duas modalidades, mesmo por quê, como já anteriormente afirmado por ela , existe uma escrita informal que se aproxima da fala e uma fala formal que se aproxima da escrita, dependendo do tipo de situação comunicativa. 29 MARCUSCHI (2004) afirma que existe hoje um conjunto de gêneros textuais emergentes do contexto da tecnologia digital em ambientes virtuais. Apesar de esses gêneros emergentes serem relativamente variados, a maioria deles tem similares em outros ambientes, tanto na oralidade como na escrita. Esses gêneros eletrônicos, tão versáteis, competem, em importância, entre as atividades comunicativas ao lado do papel e do som. Para MARCUSCHI (2004), a internet é uma espécie de protótipo de novas formas de comportamento comunicativo. Essa nova forma de comunicação, se bem aproveitada, afirma o autor, pode tornar-se um meio eficaz; porém, diz ele, ainda é cedo para concluirmos como isso se desenvolverá. Dentro desse sistema chamado de “e-comunicação” temos o e-mail, bate-papo virtual (chat), aula-chat, listas de discussão, blog (que foi o gênero escolhido para este estudo) e algumas outras expressões que representam formas diferenciadas de comunicação escrita. Esse autor ainda levanta questões: “Qual a originalidade desses gêneros em relação ao que existe? De onde vem o fascínio que exercem? Qual a função de um bate-papo pelo computador, por exemplo? O autor mesmo responde com uma outra pergunta: Passar o tempo, propiciar divertimento, lazer, veicular informação, permitir participação interativa, criar novas amizades? MARCUSCHI (2004) acredita que o sucesso das novas tecnologias digitais se deve, em parte, ao fato de reunir, num só meio, várias formas de expressão, ou seja, texto, som e imagem. Dentro desse contexto, surgem as comunidades virtuais (CV), uma espécie de agregado social que emerge da rede internetiana. São pessoas que têm ou que agem com interesses comuns em determinados momentos, formando uma rede de relações virtuais. E dentre essas comunidades virtuais, situam-se as comunidades blogueiras, usuários da internet que escrevem, e os seus usuários leitores. MARCUSCHI (2004) ainda define: weblog (blogs, diários virtuais) “são os diários pessoais na rede; uma escrita autobiográfica com observações diárias (ou não), agendas, anotações, em geral muito praticadas pelos adolescentes na forma de diários participativos. 30 A origem da expressão blog surgiu no final de 1997 e, segundo alguns autores, o termo foi assim chamado por Jorn Barger para descrever sites pessoais que fossem atualizados freqüentemente e contivessem comentários e links. Essa informação foi encontrada em “http://www.sobresites.com/blog” apud MARCUSCHI (2004). Esse termo surgiu a partir de duas palavras: web, rede de computadores, e log, uma espécie de diário de bordo dos navegadores que anotavam as posições do dia. Dessa junção web + log = weblog que simplificou-se para “blog”. SARTORI FILHO apud MARCUSCHI (2004) afirma tratar-se de um diário eletrônico que as pessoas criam na internet. Os blogs podem ser construídos e atualizados em qualquer computador, a todo momento. Esses blogs, em grande parte, funcionam como um diário pessoal, numa ordem cronológica com atividades diárias ou tempos regulares que estão disponíveis a qualquer usuário na rede. Podem ser diários sobre a pessoa, sua família, ou seus animais domésticos, seus gostos, suas atividades, seus “hobbies”, seus sentimentos, suas crenças e tudo o mais que for conversável. Entretanto, hoje pode-se dizer que os blogs evoluíram para outras funções além da dos diários pessoais. Como seus derivados, surgiram os “f.blogs” (fotoblogs) ou seja, os blogs de fotos e os k-blogs (k-logging, de knowledge logging ), os blogs mantidos por jornais e revistas ou grandes provedores para “gerenciamento do conhecimento”. Como já afirmado por MARCUSCHI, a linguagem dos blogs pessoais é informal na maioria dos casos, mas os k-blogs são mais formais, mais requintados e alguns deles apresentam pretensões literárias. Os blogs têm abertura para receber comentários, o que os torna interativos e participativos. MARCUSCHI (2004, p.66) afirma que a lingüística se encontra atualmente diante de um fenômeno que a obriga a rever alguns de seus postulados teóricos. Apesar de os novos meios eletrônicos não estarem atingindo a estrutura da língua, estão atingindo o aspecto nuclear do uso do texto. São novas formas de textualização que surgem e devem ser analisadas com cuidado. 31 3.3 Os Blogs escolhidos para análise Foram escolhidos para análise alguns blogs de jornalistas (Marcelo Tass e Paulo Markun) por acreditarmos que esse tipo de autor tem boa formação acadêmica e intimidade com a escrita. Aliado a esses fatores, têm eles a liberdade de circular pelo mundo literário, científico e acadêmico utilizando-se de linguagem informal, pois seus leitores são assíduos, e por isso sentem-se à vontade quando se comunicam através de seus textos, num clima de intimidade e compreensão daquilo que escrevem. Se alguns textos como os citados acima têm aspectos de informalidade e formalidade juntos, alguns indicativos de marcas da oralidade associados com a informação jornalística, por outro lado selecionamos alguns outros blogs produzidos por outro tipo de escritor, por trazer mais fortemente essas marcas de oralidade. Ambos os casos foram escolhidos para contribuir e desenvolver melhor as idéias do problema dessa pesquisa acadêmica. Antes de entrar propriamente na análise desses blogs, cabe-nos apresentar breves comentários referentes à origem desse termo. Matéria de jornal de Curitiba, Gazeta do Povo5, confirma a versão apresentada por MARCUSCHI para a origem desse estrangeirismo blog . No início, essa prática, que expõe sentimentos e emoções que permeiam as questões de intimidade entre pessoas e relacionamentos afetivos, estende-se para qualquer interlocutor, ou interlocutores que queiram interagir simultaneamente, ou não. A notícia aborda as facilidades que estão colaborando para que este evento social se perpetue. Antes, os interlocutores precisavam ter conhecimentos mais avançados de informática e de escrita. Entretanto, hoje, com os novos sistemas de publicação de textos, envios de mensagens, ilustres autores desconhecidos transformam-se em “celebridades” dentro de circuitos freqüentados por internautas. Segundo essa matéria de jornal, através dos escritos em blogs está surgindo uma nova geração de escritores. A Editora Barracuda, por exemplo, publicou um livro 5 Gazeta do Povo, Caderno G, página 4, de 31/10/2004 32 (Wunderblog.com) com 11 posts selecionados dentre inúmeros outros, cujos textos saíram da internet para a folha impressa. Esses textos, pois, tratam dos mais variados assuntos: cinema, literatura, televisão, política, religião e pseudointelectualidade e esbanjam qualidade literária, afirma o jornal. No jornal Folha de São Paulo6 também aparece matéria sobre essa mesma editora, cuja reportagem saiu posteriormente no jornal Gazeta do Povo já citado. E constam também alguns parágrafos “postados”, como esses: “ ‘Filosofia do Joquempô’: Albert Camus dizia ter aprendido nos campos de futebol tudo o que sabia. De fato, não é difícil imaginar um goleiro, com o sol do meio dia na cara, cair matando em cima de um centroavante árabe. Mais modestamente, digo a vocês que aprendi tudo o que sei com o joquempô: tesoura corta papel, pedra esmaga tesoura, papel embrulha pedra. Sempre achei muito zen essa história de a pedra nada poder contra o papel. O único problema é descobrir, com o tempo, que somos papéis diante das tesouras, tesouras sob as pedras e pedras embrulhadas por um monte de papéis. > (18/08/2003 00h08) Ruy Goiaba (*), jornalista, São Paulo; Blog: puragoiaba.wunderblogs.com”. Nesse blog o autor explora a arte de pensar (filosofia), emprestando palavras de um romancista francês (Camus), as habilidades de um esporte (futebol), faz jogo de palavras (pedra e papel); emprestar palavras (zen) e criar palavras (joquempô). O seu suposto leitor é um indivíduo que passou alguns anos pelos bancos escolares. Utilizase de algumas marcas da oralidade, da fala popular, linguagem comum no jargão futebolístico ( ...com o sol do meio dia na cara, cair matando em cima de um centroavante árabe). Criatividades à parte, o que alguns blogs têm em comum é a linguagem, que faz uma aproximação entre a escrita e a oralidade. Um humor sem pudor, dentre outros temas, poderíamos dizer, é do que trata alguns deles. Nesse tipo de escrita, o autor está procurando divertir-se, bem como também incluir seus interlocutores nas nuances de seu texto. É como se ele, o autor, estivesse numa roda de amigos batendo papo, 6 Folha de São Paulo, Caderno Folha Ilustrada págia E-1 do dia 03/07/2004 33 jogando conversa fora. No entanto, ele está filosofando, usando o mesmo raciocínio dos filósofos. Ora, esse é um dos muitos tipos de blogs que podemos encontrar na internet. Existem outros que tratam de literatura, de poesia, de meio ambiente, e do dia-a-dia, de futilidades, que foram selecionados para estudo. O blog de Paulo Markun7 faz a fusão entre a sua profissão e a arte de se comunicar rapidamente com muitos leitores: “sexta-feira, 19 de novembro de 2004 http://markun.weblogger.terra.com.br/ YAMANDÚ Gosto de música, mas não é freqüente me emocionar de verdade em apresentações musicais. Talvez seja resultado de tantos anos de profissão, que me deram a mania de ficar de fora, olhando, assistindo, observando. Mas ontem, na cerimônia de entrega do prêmio Profissionais de Tecnologia da Informação, em que era o mestre de cerimônias, a apresentação do violonista gaúcho Yamandú Costa foi um choque para mim. Já o conhecia de apresentações na TV e de gravações. Mas sua interpretação de alguns choros de Nazareth e de Adiós Noñino de Piazzola foi arrepiante. E ele ainda parece o gato do desenho animado de Alice no País das Maravilhas. Yamandú é um artista de tal porte que nos orgulha. enviado por Markun às 09:46:51 comentários 8“ Neste texto, Markun faz o comentário em que procura mostrar um comportamento diferente do comportamento da multidão (talvez seja resultado de tantos anos de profissão...). Ele, um homem da mídia, tão acostumado a presenciar grandes eventos, a dirigir grandiosas apresentações, se emociona ao presenciar o espetáculo de um violonista que, com sua maestria, rememora canções que sensibilizam o autor do blog. Naquele instante, faz um breve paralelo entre o virtual 7 Paulo Markun é jornalista. Foi apresentador por muitos anos do programa de entrevistas na Tv Cultura de São Paulo, Roda Viva. 8 Após o texto , posicionando-se o mouse sobre ‘comentários’ e dando-se um “click” com o botão esquerdo, pode-se ler comentários de outros leitores, assim como também incluir o seu comentário de leitor . 34 (tv, cerimônia) e o presencial. E se emociona. Faz no final uma referência a um conto de fadas, tal a grandeza e emoção que sentiu presenciando o evento. Mostra seu lado humano mais forte do que o seu lado homem-de-mídia-apresentador. Sua escrita segue uma norma da escrita seqüencial, numa lógica temporal; entretanto, mescla as chamadas marcas da oralidade ( [eu] gosto de música...); e no final, com o interlocutor aparecendo no plural (...de tal porte que nos orgulha) A seguir, os próximos textos extraídos do blog do jornalista Marcelo Tass: “Farra em Brasília Quer saber? Pra mim, tudo bem essa criançada se divertindo no Alvorada. Lugarzinho desanimado que já viu porres de Jânio, cara feia do Geisel, chatice do Itamar...Inadmissível é o governo se negar a dar qualquer declaração sobre a história. Isto sim é um grande vexame. É desanimador. Faz a gente se sentir súdito de uma verdadeira republiqueta de bananas. Qualquer chefe de estado do paiseco mais vagabundo tirava de letra: "Vai lá, pede desculpas pro Niemeyer e diz que vou puxar a orelha dos meninos que puseram isso na internet." Aqui, não. Vira assunto de primeira página de jornal. Comentário da semana. O que os adolescentes gastaram é dinheiro de pipoca perto dos números já revelados aí pela mídia. Vocês já se esqueceram. Então solta o replay”. Neste blog de Marcelo Tass9, percebemos bem mais marcas da oralidade e de um interlocutor ou interlocutores: (quer saber?;pra mim; lugarzinho desanimado...; porres de Jânio, cara feia de Geisel -referindo-se a dois ex-presidentes do Brasil - isto sim um grande vexame; faz a gente se sentir súdito de uma verdadeira republiqueta de bananas; ...chefe do paiseco mais vagabundo; vou puxar as orelhas...;o que os adolescentes gastaram é dinheiro de pipoca perto dos...; então solta o replay). Essas expressões utilizadas a granel são comumente utilizadas na linguagem oral, uma linguagem atual falada pelos jovens, uma linguagem falada no dia-a-dia. E 9 Marcelo Tass é jornalista, foi apresentador de programa de Tv na MTV e na Tv Cultura de S.Paulo. Um comunicador que transita entre os jovens; procura informar usando a linguagem mais próxima daquela utilizado pelos jovens. 35 Marcelo Tass sabe colocá-las de forma que o leitor pareça estar ouvindo-o, ou assistindo-o num de seus programas de televisão. A seguir, outro exemplo, com essas forte marcas, do mesmo autor: “É O BICHO, MANO. TÁ LIGADO? Esses tempos de Natal, Ano Novo, férias... são muito esquisitos. Parados demais, agitados demais. Não tem rotina. Grande quantidade de equipamentos eletrônicos ligados em todo canto. A tragédia do Tsunami trouxe uma lição. Perdida no meio do oceano de notícias, soube-se que no Yala National Park, Sri Lanka, bem no meio de uma das regiões mais afetadas pela mega onda, nenhum animal foi encontrado morto! Repito: num parque onde havia 19 Km de praias, habitadas por centenas de elefantes, leopardos, pássaros, coelhos... ninguém morreu! Verificou-se com espanto que antes da chegada do maremoto os animais, por alguma razão ainda não esclarecida, se deslocaram da praia e das áreas mais baixas, para a parte mais alta do parque. As águas chegaram a entrar 3 Km parque adentro. Mas ali não havia ninguém. Ou melhor, nenhum bicho foi pego de calças curtas. (...) Resumo: os bichos se salvaram porque estavam conectados. Nós, seres humanos, nos estrepamos porque estávamos também conectados, só que em outras ondas: rádio, TV, videogame, ou mesmo o sonzão do carro ou do botequim tocando no último um bate-estaca de ano novo. Nesses meus poucos dias de férias, persegui como um louco a tecla mute do controle remoto. Tentando diminuir pelo menos o volume do mundo ao meu redor. Valorizar o botão de desliga. Tá ligado? Tá na hora da gente ouvir menos barulho e mais os elefantes. http://marcelotas.blog.uol.com.br/ [14/01/2005 às 02:44] - comentários10” A oralidade é muito marcante nesses textos de Marcelo Tass. Ele consegue transmitir informação usando uma linguagem alternada entre a jornalística e, vezes outras, próxima da linguagem coloquial: “é o bicho, mano, ta ligado? Nessa frase, o autor se vale de um trocadilho ao informar sobre bichos (realmente) de uma região da 10 Comentários dos interlocutores, assim como no blog de Paulo Markun 36 Ásia que sobreviveram ao “tsunami” contrastando com a linguagem falada, uma gíria, uma expressão “é o bicho, mano. Tá ligado?”, a qual equivaleria a “é um absurdo, amigo, compreende?”. E em trechos seguintes, as palavras que são mais utilizadas em discursos orais (nenhum bicho foi pego de calças-curtas; resumo; nós, seres humanos, nos estrepamos; o sonzão do carro ou do botequim; ....um bate-estaca de ano novo. Numa quase que tradução, podemos dizer que o autor se refere, neste último trecho que estamos sintonizados em outras coisas, menos importantes, como o som muito alto de um carro, de uma discoteca e ouvindo não uma boa música, mas sim uma daquelas “dance-music”, música eletrônica cuja melodia não passa de uma única frase musical que se repete o tempo todo. Daí o paralelo com o som de um bate-estaca. Para encerrar o comentário de seu texto, outra marca da oralidade em: tá na hora da gente ouvir...(linguagem adequada para a fala, pois na escrita a norma padrão gramaticalmente exigiria “está na hora de a gente ouvir”, em que o sujeito da frase, a gente, não pode vir preposicionado). Encontramos em FIORIN (2002) a definição de que assim como a frase não é um amontoado de palavras, mas é uma cadeia construída segundo certas regras, o discurso não é um amontoado de frases. O discurso tem uma estrutura. Isso podemos perceber nos textos escritos tanto no blog do jornalista Paulo Markun quanto nos escritos por Marcelo Tass. Ambos os profissionais do jornalismo, experientes na arte de bem escrever conseguem transcrever para a nossa tela de computador um texto bem elaborado, como num jornal impresso. Nos escritos abaixo ocorrem “fenômenos lingüísticos” que tornam os textos bem diferenciados: “Td okay??? Bom, na minha opinião esse template está mt bom e já é hora da dona marina trocar! rrssr... EU naum vou pedir p/ as minhas amigas pq eu já pedi p/ elas fazerem o do meu blog e eu naum vou enchê-las... Bom, juliana, se vc conhece algm , pode pedir p/ fazer... e eu naum axu q o concurso está competitivo! já vi concursos com 100 participantes, e ngm ganhava lays! nem o primeiro lugar... e isso é um Club, não?!” 37 A primeira frase inicia-se com abreviatura da palavra tudo (td) mais o estrangeirismo inglês, ok, (cuja origem é “oll korrect, alteração de all correct) e significa sim, certamente. Depois, em “naum vou pedir” e “(...) naum vou enchê-las...” e depois em “naum axu q” e “ngm ganhava” por não vou enchê-las, não acho que, e ninguém ganhava, se repete um fenômeno que vem acontecendo nas escritas virtuais, dentre elas o blog, que é a grafia diferente da grafia formal, padronizada, em que não se utiliza o acento til (~), acredita-se, por suposta economia de tempo no ato de escrever. “Msm assim, vlw pela opinião... Bjs “ De novo, abreviatura (msm, por mesmo) e vlw, quase uma transcrição fonética da palavra valeu. Beijos, abreviado como bjs. “Ass.: Ursula :: Enviado por Pink Club - 10:35:56 :http://mininaspink.weblogger.terra.com.Br [em 25/01/2005 às 16:30” Este é o tipo de blog daqueles citados por MARCUSCHI e por outros autores, pertencentes ao que poderíamos chamar de primeira fase dos blogs. Não que eles não existam mais, mas que surgiram antes dos blogs de informação, dos literários, e de tantos outros mais bem elaborados e não fúteis (para alguns leitores) como esses. Nesse, conhecido popularmente (e pejorativamente) como blog de patricinhas a linguagem além de superar até mesmo as possíveis marcas da oralidade, utiliza-se de uma linguagem semelhante àquela utilizada nos chats , msn e outros gêneros pertencentes à internet. Predominam gírias, abreviaturas e grafia diferente da utilizada como padrão da língua portuguesa, como a troca da letra “x” no lugar de “s”, do “k” no lugar do “c”, a supressão do sinal “~” (já citado) como em “naum” em vez de não. Também é muito usual a forma “beijuss” com uma quase infinidade de “s” para dizer beijos. 38 Abaixo, seguem outros, tratando de futilidades, do cotidiano, etc. e com certa dose de humor, com alguma inovação de provérbio e outras frases prontas, frases até chulas: “segunda-feira, 29 de novembro de 2004 Ontem passei um dia com meus avós em Teresópolis. Cara, tava mesmo devendo uma visita pra eles. A minha mãe sempre me disse que pra gente é só uma tarde de conversa fiada, mas pra o pessoal da terceira idade, é um grande acontecimento. Eles passam dias preparando aquele prato especial que acham que a gente vai adorar”. Linguagem oral, do tipo que um jovem usa ao encontrar pessoa conhecida, pertencente a sua “tribo”. “Cara, tava mesmo devendo uma visita pra eles”. E a seguir, utilizando pronome de tratamento “a gente, próprio do discurso oral, em vez da forma padrão, nós; “aquela baguncinha de poder botar os pés...enquanto vê tv” “Arrumando a casa, pra quando a gente chegar tá tudo em ordem, mesmo que a gente prefira aquela baguncinha de poder botar os pés em cima da mesa de centro enquanto vê tv. É verdade, e não posso discordar da minha mãe nesse quisito, pois podem perguntar às minhas irmãs como ninguém entende melhor os velinhos do que a minha mãe”. Aqui continuamos a destacar marcas da oralidade, como nas palavras “tá”, por está; “quisito”, que ao ser pronunciada, pouca diferença ou nenhuma faria, porém na escrita padrão teríamos “quesito”. O mesmo se poderia dizer sobre “velinhos”, que na fala não se diferencia de velhinhos, forma correta da escrita. “Ela sente um atração por cabecinhas brancas inexplicável. E quer saber mais? a recíproca é absolutamente verdadeira. Onde quer que ela esteja, tem sempre uma velinha na vida dela. Suas melhores amigas têm mais de 70 anos. Todas. 39 Se ela estiver num restaurante, num banco, ou qualquer outro lugar, é pra ela que aquela velinha simpática que entrou vai perguntar:"onde é o banheiro, minha filha?” Novamente temos palavra escrita da forma como pode ser pronunciada: velinha, por velhinha, em desacordo com a norma de escrita. “E ela mais que prontamente vai não só respondê-la, mas como também vai levá-la até lá. É muito fofo ver essa atitude dela. Aliás a minha mãe não existe!!! Ô pessoa do bem!!!! ” Em “ô pessoa do bem”, uma exclamação, forte marca da oralidade também. “Tem sempre uma palavra de carinho e está SEMPRE ao nosso alcance.” Aqui, a palavra “sempre” é escrita em maiúscula com a finalidade de destacar, tal como numa fala, com uma entonação maior, como se fosse SEM-PRE ! “Dá sempre um jeitinho de ajudar a gente, e se oferece pra ajudar em tudo, mesmo em assuntos que ela não tem idéia do que seja. É até engraçado! Minha irmã Patrícia as vezes até briga (de brincadeira) com ela:"Ah é, mãe... você quer me ajudar a formatar o hd do computador? Me levar de carro pro recreio? ( a minha mãe não dirige mais-"o trânsito do Rio é muito louco!!!" - ela sempre diz). Ela não tem jeito, não. Quer ajudar em tudo mesmo. Não tem preguiça de nada...Enfim, é uma fada!!! Tudo que ela faz é maravilhoso. Seus kitutes, a feijoada é imbatível... o pudim já é famoso. Até o cachorro quente atraiu os familiares mais distantes.” “Me levar de carro pro recreio” é bem clássico da linguagem falada, iniciando frase por pronome e na contração de para mais o (pro); seus kitutes (uso do “k” pelo “qu” é uma forte marca desse tipo de escrita). Abaixo, além da figura de linguagem (hipérbole), novamente a grafia de velinha: 40 “Os concertos que ela faz naquelas roupas que eu e minha irmã Fernanda pedimos pra ela fazer, cortar nosso cabelo, passar henna no cabelo da Tia Selma,tudo o que ela faz é perfeito, porque é feito com muito amor. E as mil e uma caridades que ela faz com as mais de 584 velinhas que ela conhece? Leva uma no banco, a outra pra buscar o exame de osteoporose no laboratório, ajuda a outra amiga que está com problema com o neto, e assim segue... É muito lindo ver esse desprendimento, e essa boa vontade. É com a minha mãe que aprendi a respeitar e admirar os mais velhos. É com ela que aprendi que é preciso muito pouco pra agradar nossos avós, tios e família. É só dar atenção. É só passar duas horas tentando explicar como gravar um cd com fotos e passar na Tv. E mais duas horas ensinando a eles entrarem no seu blog na internet. "internet? blog? o que é isso? è só seu minha filha? Aparece o que vc escreve nos computadores do mundo todo? como é que é? www.o que mesmo?" Mas vale a pena, porque todas essas pessoas tem também muito o que te ensinar durante a vida, e a cada ano que passa, com o amadurecimento a gente percebe que a gente não sabe de nada. Quem sabe são eles mesmo. Mas sabem outras coisas que não temos tempo de aprender porque estamos dando um download naquele programa de computador ultra moderno”. Termos da linguagem midiática aparecem nesse trecho final. Palavras em inglês e abreviaturas são encontradas por aqui. É o caso de: “cd, tv, internet, blog, www e download”. Essas palavras (empréstimos lingüísticos e estrangeirismos) estão fazendo parte hoje em dia da linguagem internáutica e poderão se “nacionalizar”, se adaptar e vir a fazer parte do vocabulário da língua portuguesa. Quando isso ocorrer, essas palavras deverão ser “aportuguesadas”, ou seja, grafadas em conformidade com as normas de escrita para palavras da língua portuguesa. Para os leitores e usuários da internet e de outros veículos midiáticos, esses termos já são de uso bastante difundido e fazem parte do seu repertório vocabular. Abaixo, o encerramento do texto escrito, numa forma descontraída de se encerrar uma carta, ou mesmo um telefonema. Ou um bate-papo presencial. 41 “Amo minha mãe. Amo você também! Beijos, Ka. Até mais!!!” enviado por Karina às 15:06:37. comentários[15] http://warwar.weblogger.terra.com.br/index.htm%2022012005%20as%2018:50h” Abaixo, blog escrito por adolescentes “oiiiiiiiiiii! me convidaram para me cadrastrar no gazzag vcs sabem oq e isso ? se sabem comente please , pra que serve isso , isso e oq ,eu to confusa to meio lele da cuca e agora eu to escutando musica , nome da musica ( perdi meu amor ) canto ( blitz ) e maneira a musica eu fico por aqui. beijuxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx bjuxxx banana (9) Muitos! Isso aí vc tb!!! segunda-feira, 11 de abril de 2005 0:58:24 “ Nesse primeiro blog escrito por adolescentes, inicia-se com uma chamada bem característica dessa faixa etária. “oiiiiii”, abreviaturas como “vcs”, “oq” por vocês e o quê. Também aparece o uso de palavra do idioma inglês, como “please”e gazzag11. Também aparece a linguagem pictórica, muito comum nos bate-papos, nos “msn” da internet. “oiiii! tudo bem , ate quem fim acabou a minha prova (aleluia , aleluia ) eu acho que tirei 9,9 essa nota e boa ou ruim eu acho que e ruim uma nota boa mesmo e 10,00 essa nota sim e boa demais agora eu vou desligar , aparti de amanha eu vou colocar as letras das musicas que eu mais gosto beijuxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Bjuxxxbanana (9) Muitos! Isso aí vc tb!!! sábado, 9 de abril de 2005 12:18:45 “ 11 uma rede de amigos e conhecidos virtuais que se propõem a “manter contato com seus amigos, compartilhar álbum de fotos, publicar seu blog, enfim, participar de comunidades que compartilham seus interesses. Semelhante ao orkut 42 Nesse escrito, a oralidade é muito marcante. Depois do “oi, tudo bem”, “até quem fim” em vez de “até que enfim” e “aparti de amanha”, que logicamente seria “a partir de amanhã”, em que se escreve de forma separada. E, novamente, a palavra muito usada pelos adolescentes na internet, a saudação “beijus ou beijussss...”. Em alguns casos, em vez de “s”, colocam-se “x”. Na fala, não há qualquer diferença. Na escrita, porém, a coisa é diferente. “oiiiiii!tudo bem eu tava em prova porisso nao pude postar mais agora eu so tenho que faser uma outra provade portugues , eu tentei postar outro dia mais nao consequi so isso pq eu tenho outros blogs porisso eu tenho que sair desse tabom? beijuxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx Bjuxxx banana (9) Muitos! Isso aí vc tb!!! 09:32:23 ” Aqui, temos “tava; porisso; mais;pq”. Linguagem falada, “tava” por estava; “porisso”, na fala seria assim mesmo. Talvez devido à analogia com a palavra “portanto”, algumas pessoas possa assim escrever. “Mais” no lugar de “mas”, uma conjunção, escrita dessa forma devido à provável pronuncia da pessoa que escreve. E em “pq”, mais uma das novas abreviaturas (porque) nesse gênero. “ooi!!!!!! como ja tinha dito ontem foi o niver da minha mãe e como sepre tiramos muitas fotos .hehehe... entao eu vo deixar carregada pra dipois a kati por elas no blog !!! ontem foi mt engraçado pq minha prima tava com pe quebrado e ñ tinha como jogar bola dai ela teve q fik pra cima e pra baixo do meu cond. mancando ,depois de um tempo ela descidiu ser juiza .rsrsrs imagina uma juiza pra queimado ! quem jogou foi eu, dudu ,victor ,pamella ,bruno ,thelmar ,felipe ,leo ,arthur ,luisa e jujuzinha foi mt engraçado !hehehe... e logo depois q nois paramos de jogar bola eu fui rodar o cond de patins com a kati ,pamella e victor ... quando o povo foi todo embora eu fui andar de bicicleta com pamella ,priscilla(irmã da pamella )e o bruno . ficamos +ou- ate 11 da noite andando de bicicleta depois fomos jogar carta mas dai tava todo mundo morto e jogamo mt pouco ... era meia noite e pra resumir fui entrar pra casa ja mas o dia foi mt bom e daki a pouco a kati posta as fotos ...beijuxx ... Bjuxxx dona maroca (9) Muitos! Isso aí vc tb!!! sexta-feira, 8 de abril de 2005 15:09:53 ”. 43 Nesse blog, encontramos alguns detalhes a destacar. As interjeições (hehehe), algumas trocas de letra “c” por “k”, como em “fik” em vez de ficar. O “ñ” significando não. O “mt”, uma abreviatura de muito. De novo, a troca do “q” por “k”, como em daki, por daqui. Além de palavra em que se troca o “e” por “i”, “dipois”, erro de grafia, “descidiu” por decidiu e falta de “s” final, característica da oralidade, como em “jogamo”, em vez de jogamos. A marca conversacional “tabom”, no texto anterior, pela descontração a que se propõe, facilita a comunicação e dá leveza ao texto escrito. Trouxemos à baila, com esses últimos blogs, a importância do papel da escrita no processo de constituição do adolescente. Este, atualmente, na era das novas tecnologias digitais, tem encontrado nas salas de bate-papo da internet e nas trocas de e-mails, nas listas de discussão, possibilidades para atender seus interesses, construir sua identidade, fazendo desses espaços nos quais transitam através da escrita, um espaço fecundo de formação. Estamos descobrindo que a internet está possibilitando que os adolescentes escrevam mais. O suporte digital está permitindo novos tipos de leitura e escrita e pode-se até falar de uma leitura e escrita coletiva e até de uma autoria também coletiva. Enfim, uma grande descoberta da pesquisa foi perceber que na internet toda leitura é uma escrita e toda escrita é uma leitura. Vimos que os textos apresentam algumas características da escrita, como o emprego da língua inglesa na substituição de palavras do português, em “please” e “download”.. Aqui, outra diferença da escrita tradicional: a forma da linguagem em que a escrita não é manuscrita, mas teclada. Apresenta-se abreviada, telegráfica e econômica. 44 CONSIDERAÇÕES FINAIS Após um estudo sobre a linguagem, a fala e a escrita, com o embasamento teórico extraído de obras e artigos de diversos autores citados, e juntamente com o estudo de textos extraídos de alguns blogs, podemos fazer uma retrospectiva do que foi pesquisado. Tratar os textos midiáticos dentro e fora da academia e tentar compreender os processos da comunicação, da transcrição da língua falada para a língua escrita, não é tarefa das mais fáceis. A Lingüística é a ciência que procura nos mostrar e desvendar alguns mistérios da influência que sofre a escrita, em muitas palavras, devido a dificuldade de pronúncia, ou, em muitos casos, da regularidade que o falante espera da língua, fato esse que nem sempre ocorre. Para se confirmar isso, basta dar uma breve passada na temporalidade de alguns verbos e perceber a dificuldade encontrada por pessoas ainda não escolarizadas, sem escolaridade ou de escolaridade baixa. Isso sem entrar no mérito de que alguns verbos, pela sua irregularidade, são mesmo possíveis de se usar erroneamente, mesmo por pessoas escolarizadas. Como exemplo, podemos citar os verbos intermediar (1a. pessoa presente do indicativo:intermedeio e não intermedio), ver (1a. e 3a. pessoas presente subjuntivo: se você vir fulano e não se você ver), e falir, verbo defectivo que só possui a conjugação no presente do indicativo de duas pessoas (falimos, falis), além de inúmeros outros também da terceira conjugação12. O que induz o falante a erro, nesses casos, é a irregularidade da língua que torna diferente a conjugação desses verbos análogos: intermediar/negociar; ver/vender e assistir/falir. Outros exemplos encontramos em palavras com o som /z/ cuja grafia ora aparece com a letra s, (casa), ora com z (beleza) e ora com x (exame). Devido a essa dificuldade encontrada por muitos falantes para o uso da língua da forma convencional, chamada forma padrão, que é indiferente quando da forma usada na 12 parte extraída do livro Nossa Gramática Teoria e Prática, de Luiz Antonio Sacconi. S.Paulo, Atual, 1995:221 45 fala, e a fim de simplificar o seu uso, muitos usuários de blogs se utilizam de uma escrita com símbolos e caracteres que é, acreditamos, mais parecida com a fala. Percebemos, então, que as relações com a escrita estão mudando. Com o advento do computador, a criação da web e seus diversos meios de se comunicar dentro dela, surgiram os blogs. Esse espaço democrático (entenda-se, para os nãoexcluídos) permite que uma pessoa publique seu diário, suas idéias da forma que melhor entender. Isso dá uma certa liberdade de expressão para qualquer cidadão que tenha acesso a esse serviço. E esse serviço está disponível nas casas, nos estabelecimentos particulares (lan house) ou estabelecimentos públicos, como bibliotecas e Farol do Saber (em Curitiba). Alguns se aproveitam desse espaço para publicar idéias das mais diversas, como no caso dos jornalistas, poetas, literatos, músicos, etc. Por outro lado, uma outra grande parte ainda se utiliza para a publicação de coisas um pouco menos importantes, como textos que citamos nesta monografia, de que tratam de conversas do dia-a-dia, que nada têm a acrescentar para certos leitores e muito a outros. Se hoje em dia não nos utilizamos mais (ou muito pouco utilizamos) do meio tradicional de se praticar a escrita, que foi por muitos anos a escrita da carta a qual foi sendo substituída por outros meios, e após um período de abstenção por boa parte do público escritor, nos vemos agora diante desse fenômeno da escrita via internet que vem contribuir para a comunicação de outros leitores. Esse fenômeno, ainda pouco estudado, começa a mexer com os cientistas da linguagem, os lingüistas. A tendência da comunicação escrita ser substituída pela oralidade é marcante. A própria evolução da tecnologia aponta para a comunicação face a face via máquina. Provavelmente as pessoas estarão nas telas, frente a microfones, passando e recebendo mensagens. Como a lingüística trabalhará estes textos? Haverá transcrições? Os blogs anunciam a presença da oralidade na escrita, mas eles podem vir a ser essencialmente orais, se considerarmos os avanços tecnológicos que presenciamos todos os dias na nossa sociedade. 46 Referências: BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 1997 BAGNO Marcos. Preconceito Linguistico.O que é, como se faz. São Paulo: Loyola, 2000. BARTHES, Roland. O Grau Zero da Escrita. “ Le Degré Zero de L’ecriture”. Trad. de Maria Margarida Baralona. Lisboa: Edições 70, 1964. BRITTO, Luiz Percival Leme. A Sombra do Caos: ensino de língua e tradição gramatical. Campinas, SP: Mercado de Letras, 1997. CASTILHO, Ataliba Teixeira de. A língua falada no ensino de português. São Paulo: Contexto, 1998. FIORIN, José Luiz. Elementos da Analise do discurso. São Paulo: Contexto, 1997. FIORIN, José Luiz. Linguagem e Ideologia. 7a. ed., São Paulo, Atica, 2002. GNERRE, Maurizzio. Linguagem, escrita e poder. 4a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1988. ILARI, Rodolfo. A lingüística e o ensino da língua portuguesa. 4a. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1997. JAKOBSON, Roman. Lingüística e Comunicação . trad. Izidoro Blikstein e José Paulo Paes. 16a. ed. São Paulo: Cultrix,1999 KATO, Mary A. No Mundo da Escrita. Uma proposta sociolingüística. 7a. ed. São Paulo: Atica, 2001. KOCH, Ingedore Villaça. A inter-ação pela Linguagem. São Paulo: Contexto, 1997. LÉVY, Pierre. O que é virtual? Tradução Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 1999 MARCUSCHI, Luiz Antonio Da fala para a escrita. Atividades de retextualização . São Paulo: Cortez, 2001 MARCUSCHI, Luiz Antonio. Análise da Conversação. 4a.ed. São Paulo: Atica,1998 MARCUSCHI, Luiz Antonio (org) Hipertexto e Gêneros Digitais. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2004. MOREIRA, Antonio Flavio et al. Para quem pesquisamos: para quem escrevemos. 2a. ed. São Paulo: Cortez, 2003. NEITZEL, Adair de Aguiar.http://www.cce.ufsc.br/~neitzel/literatura/hipertexto.html em 19/01/2005 as 00.31 ONG, Walter. Oralidade e Cultura Escrita - a tecnologização da palavra. Tradução Abreu Dobranszky. Campinas: Papirus, 1998. PINTO, Edith Pimentel. O português popular escrito. São Paulo:Contexto, 1996 POSSENTI, Sirio. Discurso, estilo e subjetividade. São Paulo: Martins Fontes, 1993. 47 SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço. Técnica e Tempo. Razão e Emoção. 2a. ed. São Paulo: Hucitec, 1997 SEVERINO, Antonio Joaquim. Metodologia do trabalho científico. 21 ed. São Paulo: Cortez, 2000 www.weblogger.com.Br http://mininaspink.weblogger.terra.com.br/ 48