Análise preliminar sobre a produção textual de
alunos de Ensino Médio com foco nos relatórios de
laboratório de Química
Vitor Calvanese1* (IC), Raphaela Meneguini1 (IC)
José Antonio Maruyama1,2 (PG), Luiz Antonio Andrade de Oliveira1 (PQ)
Olga Maria Mascarenhas de Faria Oliveira1 (PQ)
Camila Silveira da Silva (PQ)
1-Uneps – Câmpus de Araraquara – Instituto de Química – Centro de Ciências de Araraquara/2-UFSCar – Programa de Pósgraduação em Química. [email protected]
Palavras-Chave: Relatório de Laboratório, PIBID.
Resumo: O presente trabalho analisa a produção textual de estudantes do 3º ano de Ensino Médio de
uma escola pública estadual em que atuam licenciandos em Química bolsistas do PIBID. O objeto de
análise foram os relatórios de laboratório de Química produzidos pelos estudantes após a realização
de uma atividade experimental mediada pelos licenciandos. Foram analisados os itens exigidos no
relatório: i) capa; ii) introdução; iii) objetivo; iv) conceitos envolvidos; v) procedimento experimental;
vi) resultados e discussão; vii) conclusão; e viii) referências. Observamos que os alunos possuem dificuldade em elaborar um relatório de laboratório de Química, e essa se acentua nos tópicos que exigem
deles uma postura argumentativa, onde eles precisam construir ou embasar sua opinião articulando
os componentes práticos e teóricos.
INTRODUÇÃO
No âmbito das aulas de Química, a atividade
experimental realizada em laboratório é uma das
atividades didáticas de grande relevância para o
processo de ensino e aprendizagem. Um dos modos
de se avaliar a prática realizada pelos alunos no
laboratório é o relatório que eles produzem sobre
os experimentos, onde devem expressar textualmente a sua compreensão sobre os fenômenos
observados seguindo as características que são próprias de uma produção textual como essa. Alguns
trabalhos na literatura retratam a dificuldade de
estudantes para comunicarem as suas ideias e
seus conhecimentos em relatórios de laboratório de
ensino (OLIVEIRA et al., 2010) e isso nos chama
atenção para um dos aspectos essenciais que é a
comunicação científica pela escrita. Pela escrita
podemos analisar como os estudantes articulam os
componentes práticos executados em laboratório
durante um experimento e os componentes teóricos, conhecimentos estudados que fundamentam os
fenômenos observados e ajudam na interpretação
e discussão dos resultados experimentais. O modo
como os estudantes expõem essas ideias em suas
produções textuais revelam aspectos importantes
ao professor, pois “ao argumentar por meio da
produção de textos científicos o estudante está
transferindo todo o resultado de seu processo
cognitivo em relação a sua mais elaborada com-
preensão desta atividade” (Souza; Arroio, 2007). E
segundo Oliveira e Carvalho (2005, p. 348), “o papel
da escrita tem se destacado como um mecanismo
cognitivo singular de organizar e refinar ideias sobre um tema específico”. Nesse sentido, o presente
trabalho analisa a produção textual de alunos do
3º ano do Ensino Médio focando os relatórios de
laboratório produzidos a partir de uma prática
sobre Eletrólise e Pilhas realizada em uma escola
pública estadual onde atuam bolsistas do PIBID
(Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à
Docência).
METODOLOGIA
A análise dos relatórios pautou-se em um Guia
elaborado pelos licenciandos em Química que foi
entregue aos estudantes do 3º ano do Ensino Médio
para nortear a redação do relatório que deveria ser
produzido e entregue após a prática realizada no
laboratório de Química da escola. O Guia indicava
as partes obrigatórias do relatório e o que deveria
constar em cada tópico do relatório. Toda a análise
feita dos relatórios produzidos pelos alunos do 3º
ano do Ensino Médio teve como base os itens que
estão contidos no guia para elaboração de relatório que contempla os seguintes tópicos: 1) capa;
2) conceitos enfocados; 3) introdução; 4) objetivo;
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5) procedimento experimental; 6) resultados e
discussões; 7) conclusão; e 8) referências. A análise foi realizada turma por turma e também de
modo geral, contemplando os relatórios de todos
os estudantes. Foram produzidos e analisados
nesse trabalho 25 relatórios, um número pequeno
e que corresponde a 40% do total de relatórios que
poderia ser produzido de acordo com o número de
alunos das duas turmas de 3º ano que realizaram
a prática no laboratório. A primeira análise buscou
identificar se os tópicos contidos no Guia estavam
presentes nos relatórios dos alunos. A seguir, foram
analisados os conteúdos de cada tópico.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os dados obtidos a partir da análise de cada item
do relatório dos estudantes serão apresentados
a seguir, separados pelos tópicos explorados no
estudo.
a) Tópico Capa
A análise feita sobre esse tópico foi baseada nas
informações que a capa tinha que conter segundo o Guia, sendo elas: nome da escola, título do
experimento, nome do autor, nome do professor,
data, sala, período e número da chamada. Segundo esses itens foi possível notar dois tipos de
relatórios: i) completo: quando a capa continha
todas as informações propostas pelo Guia; e ii)
incompleto: quando a capa não continha todos os
itens propostos pelo Guia. Esse tópico foi o menos
problemático, sendo que dos 25 relatórios todos
continham a capa e em apenas cinco relatórios a
capa tinha alguma informação faltando, sendo elas:
título do experimento; nome da escola; disciplina;
data; sala e período.
b) Tópico Conceitos enfocados
Nesse tópico do relatório os estudantes deveriam
contemplar os conceitos enfocados nos experimentos realizados. Foram encontradas cinco categorias
diferentes de relatórios onde é possível observar
que a maioria dos alunos não entendeu muito
bem o que exigia esse item. Apenas 8% dos alunos
conseguiram fazer esse tópico corretamente, indicando os conceitos de Eletroquímica, Eletrólise,
Pilha, Redução, Oxidação. Em outros casos, 36%
colocou o título dos experimentos nesse tópico:
“Estudando o processo de eletrólise e Construindo
uma pilha”. Outros alunos (28%) colocaram nesse
tópico informações que deveriam estar em outros
itens do relatório como: parte do procedimento,
objetivo do experimento e os materiais utilizados,
por exemplo: “Experimentos feitos com cobre líquido, palha de aço, placas, solução de sulfato, e
energia elétrica”. Ainda tivemos 16% dos alunos
que colocou conceitos errados nesse tópico, como
por exemplo, “Separação dos elementos químicos”,
“Processo físico”, “Químico, físico”. E 12% não contemplou esse tópico no relatório.
c) Tópico Introdução
O presente tópico foi um dos que os alunos apresentaram textos melhor estruturados, com 72% dos
alunos conseguindo fazer corretamente essa parte.
No entanto, esse é um dos tópicos em que os alunos mais copiaram integralmente as informações
de alguma fonte, geralmente da internet. Ainda
nesse tópico tivemos 12% dos estudantes que fez
a introdução incompleta, geralmente esboçando a
parte teórica que envolvia apenas um dos experimentos, ou de ambos, mas com muitos conceitos
ausentes. Outros alunos (16%) confundiram esse
tópico, colocando nele informações como o objetivo
ou parte dos resultados.
d) Tópico Objetivo
No tópico Objetivo foi possível notar que uma parcela expressiva de alunos (40%) não compreendeu
o que exigia o tópico. Alguns simplesmente descreveram novamente os conceitos, outros apontaram
alguns resultados ou restringiram o objetivo ao
funcionamento do experimento, como se o objetivo
fosse o experimento ou uma parte dele funcionar.
Em relação a isso segue uma citação comum de
alguns alunos: “Construir uma pilha para fazer
o relógio funcionar”. Os alunos que fizeram essa
parte corretamente, deixando claro os objetivos da
prática experimental, correspondem a 28%. Outros
alunos (24%) fizeram parcialmente esse tópico e
8% dos alunos não o fizerem.
e) Tópico Parte Experimental
Esse tópico foi analisado considerando duas partes
essenciais e que foram analisadas separadamente:
a) materiais utilizados e b) procedimentos. Em relação aos materiais utilizados, 76% dos alunos fez
esse tópico corretamente, que consistia basicamente em listar todos os materiais utilizados, que eram
fornecidos no roteiro experimental. Alguns alunos
(8%) se esqueceram de listar certos materiais e
outros 8% não colocou os materiais utilizados no relatório. Outra parcela de alunos (8%) se equivocou
e indicou os materiais nos objetivos do relatório.
Já em relação aos procedimentos, tivemos 64% dos
alunos que o fizeram adequadamente, utilizando
o roteiro experimental com as devidas adequações
no tempo verbal. Uma parcela significativa (32%
dos alunos), copiou integralmente a folha do roteiro
dos experimentos; e um aluno não apresentou esse
tópico em seu relatório.
f) Tópico Resultados e Discussões
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Esse tópico foi analisado considerando as duas
partes essenciais que o compõem: a) resultados; e
b) discussões. Sobre os resultados, 68% dos alunos
colocou os resultados corretamente no relatório,
isso pode ser uma evidência de que eles ficaram
bem curiosos e atentos às mudanças ocorridas
durante o experimento, tais como, oxidação da
palha de aço, deposição do cobre metálico, dentre
outros. Ainda nesse tópico tivemos 20% de alunos
que apresentou a parte dos resultados incompleta
e outros 12% que colocou os resultados na parte
do relatório que correspondia aos procedimentos
experimentais. Sobre as discussões, se por um lado
é possível notar que os alunos têm uma curiosidade muito grande nas transformações químicas
ocorridas nos experimentos, por outro, fica claro,
nos números que apresentaremos aqui, que eles
têm muita dificuldade em discutir e entender
quimicamente o funcionamento dos experimentos,
pelas dificuldades apresentadas em discutir os
resultados. Apenas 3 alunos conseguiram discutir
razoavelmente os resultados obtidos, outros 52%
discutiu parcialmente os experimentos ou em alguns casos discutiram apenas um deles; 16% dos
alunos apenas apresentou mais resultados sem
discuti-los. E os 20% restante não fez esse tópico
do relatório.
g) Tópico Conclusão
Esse tópico se apresentou como uma dos mais problemáticos nos relatórios dos estudantes. Apenas
um aluno conseguiu fazer uma conclusão satisfatória dos experimentos; 44% deles fez uma conclusão
parcial geralmente contemplando apenas parte
de algum dos experimentos realizados; e outros
44% dos alunos fez uma conclusão completamente
equivocada, citando meramente os resultados dos
experimentos sem indicações conclusivas, outros
dando opiniões pessoais inconsistentes para conclusão. Houve ainda alguns que cometeram erros
conceituais como: “Quando entrado em contato com
a solução de CuSO4 começa a se oxidar, pois há
aço metálico nela”. É possível notar que os alunos
apresentam muita dificuldade em lidar e trabalhar
com os resultados obtidos, essa dificuldade tem
indícios no tópico discussão e fica evidente no tópico conclusão. Dois alunos (8%) não fizeram esse
tópico.
h) Tópico Referências
Nesse tópico observamos que a grande maioria,
80% dos alunos, buscou exclusivamente referências
de sites da internet. Analisando os sites que mais
apareceram tivemos: Wikipédia (10 relatórios),
Brasil Escola (5 relatórios) e Alunos Online (5
relatórios). Ao consultar esses sites e fazendo uma
análise do conteúdo, encontramos que os textos
são os mesmos que muitos estudantes utilizaram
para compor a introdução do relatório. A facilidade
em usar a ferramenta “copiar” e “colar” torna os
sites as referências preferidas dos alunos. Tivemos
ainda dois alunos que colocaram como referência
apenas os roteiros das aulas práticas; e um aluno
que colocou como referência um livro que ele nomeou como: “Livro de vestibular (Desconhecido)”,
o que tornou impossível saber exatamente a fonte.
Ainda tivemos dois alunos que não entenderam
bem o termo “Referências”, e o interpretaram como
sendo um referencial de como se proceder na prática em laboratório, quase uma dica: “O ideal de
se fazer algum desses experimentos só com alguém
que já tem experiência e utilizando os trabalhos
necessários”.
Notamos que a maioria dos relatórios não contém
todas as partes propostas pelo Guia para elaboração de relatório. Os tópicos não são privilegiados
da mesma maneira, com apenas quatro dos oito
itens analisados estando presentes em todos os
relatórios, sendo eles: Capa, Introdução, Resultados e Referências. O item “Discussão” foi o menos
contemplado, estando ausente em 20% dos relatórios. É notável que os alunos se sentem mais
a vontade nas aulas práticas, talvez por saírem
do ambiente tradicional da sala de aula, e que os
experimentos feitos nas aulas práticas despertam
a curiosidade de entender como ocorrem determinadas transformações no decorrer do experimento.
Essa curiosidade e essa atenção especial que eles
têm nas aulas práticas encontra subsídio no tópico
“Resultados” dos relatórios, onde a grande maioria
dos alunos soube descrever muito bem as transformações (mesmo que macroscópicas) que ocorreram
durante o experimento. No entanto, embora eles
sejam atentos aos resultados, pouquíssimos alunos
conseguem discutir de fato, quimicamente os resultados observados. Segundo Machado (2010, p.
168), “a atividade experimental é impossível sem
uma interpretação”, e notamos a dificuldade dos
alunos em interpretar e comunicar os fenômenos
observados. A dificuldade argumentativa se mostra
presente também em outros dois tópicos, “Objetivo” e “Conclusão”, e nesse último fica evidente a
dificuldade dos alunos em organizar e formular um
argumento próprio baseado na aula experimental.
CONCLUSÃO
Os alunos possuem dificuldade em elaborar um relatório de laboratório de Química e essa se acentua
nos tópicos que exigem deles uma postura argumentativa, onde precisam construir ou embasar
sua opinião articulando os componentes práticos
e teóricos. Essa defasagem na argumentação dos
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estudantes por meio do texto escrito também foi
encontrada em outros trabalhos da literatura
(SOUZA & ARROIO, 2007) revelando a necessidade de realização de trabalhos em sala de aula que
busquem minimizar esse problema.
Levando em conta que os alunos tinham acesso
a um material para consultar, o Guia, se torna
evidente que muitos deles têm a interpretação do
texto como um obstáculo, já que em vários relatórios e nos mais diversos tópicos houve equívocos e
confusão. Ainda que os estudantes participantes do
estudo já estejam na série final do Ensino Médio é
necessário trabalhar bastante a questão de interpretação de texto e da argumentação, tanto pelos
professores da disciplina quanto pelos licenciandos
que estão atuando nas escolas. É fundamental que
os alunos leiam e escrevam mais nas aulas de Ciências/Química e que esse seja um campo de ação
e investigação cada vez mais explorado no Ensino
de Ciências (SOUZA & ALMEIDA, 2005).
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
MACHADO, A. H. Aula de Química: discurso e
conhecimento. 2. ed., Ijuí: Ed. Unijuí, 2004.
OLIVEIRA, C. M. A. de; CARVALHO, A. M. P.
de,. Escrevendo em aulas de ciências. Ciência &
Educação, v. 11, n. 3, p. 347-366, 2005.
OLIVEIRA, J. R. S.; BATISTA, A. A.; QUEIROZ,
S. L. Escrita científica de alunos de graduação
em Química: análise de relatórios de laboratório.
Química Nova, v. 33, n. 9, p. 1980-1986, 2010.
SOUZA, S. C.; ALMEIDA, M. J. P. M. de,. Escrita
no Ensino de Ciências: autores do Ensino Fundamental. Ciência & Educação, v. 11, n. 3, p.
367-382, 2005.
SOUZA, D. D. D; ARROIO, A. Produção de textos de comunicação em ciências nas aulas de
química em uma escola de ensino médio. In:
ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM
EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS. 6., 2007. Florianópolis. Anais... Belo Horizonte: ABRAPEC, 2007.
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