A coleção Português Linguagens e os gêneros discursivos nas
propostas de produção textual
Marly de Fátima Monitor de Oliveira
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - Unesp – Araraquara
e-mail: [email protected]
Profa. Dra. Renata Coelho Marchezan
Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” - Unesp – Araraquara
e-mail: [email protected]
Comunicação oral
Pesquisa finalizada
Introdução
Segundo os PCNs é dever da escola ampliar os conhecimentos adquiridos e
fazer com que, durante os anos do ensino fundamental, “cada aluno se torne capaz
de interpretar diferentes textos que circulam socialmente, de assumir a palavra e,
como cidadão, de produzir textos eficazes nas mais variadas situações.” (BRASIL,
1998, p.19).
Por se basear nos PCNs para compor o material, os autores de livros
didáticos, então, sugerem, em seus manuais, o trabalho com os diversos gêneros
discursivos que circulam socialmente. No entanto, o que se percebe nos livros
didáticos estudados é uma vasta variedade de gêneros que muitas vezes são
apresentados e explorados de maneira superficial, ou ainda, se afastando do
conceito bakhtiniano de gênero, o que não constitui problema para a esfera da
autoria em relação à ressignificação, mas propicia uma reflexão sobre em como
constituem os manuais didáticos.
O excesso, a reprodução e a sistematização consolidam uma visão
esquemática dos gêneros, cujo resultado é o enfado dos alunos devido à recorrência
de determinados gêneros e de propostas de produção que fornecem dicas
estruturais a serem seguidas no momento da escrita pelo aluno. Talvez a questão
mais importante nesta discussão seja a metodologia usada para os estudos do
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gênero, que se formata limites do gênero livro didático, ao contrário da concepção
de Bakhtin que tem origem na vivência real dos gêneros.
Não se pode deixar de considerar que o gênero discursivo reflete o processo
social envolvido na situação comunicativa nas mais variadas esferas de atividades.
No ensino e na aprendizagem de Língua Portuguesa, os gêneros são considerados
como vias de acesso ao letramento, e, para torná-los mais acessíveis, os livros
didáticos procuram compor suas coleções com os gêneros que estão presentes em
nossa vida cotidiana. Porém, na escola, o gênero se afasta da vida real, torna-se um
simulacro. Os estudos do gênero em Bakhtin já contém uma metodologia, e essa
parte é pouco explorada. Os autores dos livros didáticos deveriam sugerir propostas
viáveis a situações reais.
Como tudo que inquieta merece uma resposta, este trabalho busca refletir
acerca dos gêneros propostos na coleção didática destinada ao Ensino Fundamental
II, denominada coleção Português Linguagens (2010), de autoria de Willian Roberto
Cereja e Thereza Cochar Magalhães. A coleção é composta por quatro livros, sendo
um para cada ano.
Esta pesquisa tem como pressuposto uma preocupação pedagógica quanto
ao modo como os autores dos livros didáticos em estudo têm considerado a
indicação da necessidade de ensinar os gêneros do discurso e a relação com o
conceito de gênero do discurso, pensado pelo Círculo de Bakhtin (2010a, 2010b,
2010c, 2010d, 2010e).
Metodologia
A análise proposta se constitui como uma pesquisa quantitativa, qualitativa de
caráter interpretativo. A investigação é composta por etapas de descrição, análise e
interpretação, que partem do livro didático, ele próprio também considerado como
um gênero do discurso.
Desta forma, buscou-se evidenciar como os gêneros do discurso são
metodologicamente tratados e trabalhados nos livros didáticos selecionados,
analisar as atividades de produção textual sugeridas pelos livros didáticos objeto de
estudo; demonstrar quais gêneros aparecem nas atividades, principalmente, de
produção textual; fazer um levantamento de quais gêneros são revisitados e
propostos, em anos diferentes, para a produção textual; analisar como se dá a
transposição dos conceitos de gênero do Manual do professor para as atividades de
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produção textual; e, destacar as contribuições que uma abordagem dialógica dos
textos poderia trazer às atividades do professor.
Resultados e discussão
Analisando os livros que compõem a coleção e as propostas de produção de
texto, é possível afirmar que os autores buscaram, sempre que viável, trazer
propostas veiculadas com a realidade concreta. Durante as reflexões via
questionamento, os alunos tiveram contato com algumas características dos
gêneros em estudo. No entanto, não há propostas que visem à construção da
ideologia no texto.
Outro ponto a ser destacado é no que se refere ao conceito de gênero, ora
chamado de discursivo, ora de textual, ora de texto, ora de tipo de texto, ora de
gênero argumentativo, por exemplo. Não há uma definição clara por parte dos
autores do livro didático a respeito do conceito adotado. Também, outro destaque, é
sobre o não diálogo entre os textos de gêneros diferentes. Da maneira como o livro
didático foi idealizado, os textos estão separados por gêneros, há pouco diálogo
entre gêneros diferentes que abordam o mesmo tema, por exemplo. Vale ressaltar,
ainda, que os sujeitos-autores do material didático, da maneira como propuseram as
propostas de produção de texto se colocaram muito mais preocupados com a
estabilidade do gênero do que com a relatividade. Desta forma, é possível afirmar
que embora o material traga uma seleta variedade de gêneros ao longo da coleção,
ainda o gênero é visto como ferramenta de assimilação de estrutura e reprodução da
mesma.
O material didático em estudo, também, revela uma concepção de ensino
ainda centrada no professor, na assimilação e reprodução de textos. Obviamente,
como já dito anteriormente, o livro didático é apenas uma manual, uma ferramenta
que o professor a utiliza da maneira que julgar mais interessante.
Considerações finais
Durante a realização desta pesquisa, pode se observar que em muitas
atividades de produção de texto, foco deste estudo, a preocupação dos autores
estava centrada, ainda, na sistematização, e em alguns casos na exaustiva
repetição de produção de um mesmo gênero.
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Foi possível perceber a preocupação de sistematizar e trazer para o leitor
presumido aspectos estruturais do gênero em estudo, para que no momento da
produção o aluno tenha condições de produzir o texto estruturalmente parecido com
o modelo apresentado. Por exemplo, se na atividade de leitura é apresentado um
conto maravilhoso, na atividade de produção o aluno deverá escrever um conto
maravilhoso. Assim posto, fica perceptível que os autores se colocam mais
centrados na estabilidade do gênero do que em sua relatividade.
É importante salientar que os PCNs destacam a importância social do gênero,
ou seja, o gênero em sua existência. No entanto, tanto o material didático Português
Linguagens sugere atividades de produção que, ainda, não conseguem ultrapassar
os limites da escola. O texto escolar é feito, de acordo com as propostas dos
materiais analisados, para nascerem e morrerem na escola.
Se para Bakhtin, o gênero ganha vida na dinamicidade da existência, por que
as coleções sugerem produções que partem de um simulacro da realidade? Será
que na esfera escolar os textos somente têm a função de assimilação e reprodução?
Estas são algumas de muitas outras inquietações suscitadas durante a feitura desta
dissertação. Perguntas a serem respondidas posteriormente.
Obviamente que esta pesquisa, é um ponto de partida para se (re)pensar as
práticas em sala de aula e meu compromisso em formar alunos capazes de ler,
interpretar e produzir textos.
Palavras-chave: gênero do discurso; Círculo de Bakhtin; proposta de produção
textual.
Referências
BAKHTIN, M. Estética da criação verbal. São Paulo: Martins Fontes, 2010a.
BAKHTIN, M. Peculiaridades do gênero, do enredo e da composição das obras de
Dostoiévski. In: Problemas da Poética de Dostoiévski. Rio de Janeiro: Forense
Universitária, 2010b.
BAKHTIN, M. Questões de Literatura e de Estética (A Teoria do Romance). 6. ed.
São Paulo: 2010c.
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BAKHTIN, M. Para uma filosofia do ato responsável. Trad. Valdemir Miotello, Carlos
Alberto Faraco. São Carlos: Pedro & João Editores, 2010d.
BAKHTIN, M. M. (VOLOCHINOV) (1929). Marxismo e filosofia da linguagem. São
Paulo: Hucitec, 2010e.
BRASIL. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros curriculares nacionais:
terceiro e quarto ciclos do ensino fundamental: língua portuguesa / Secretaria de
Educação Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998.
CEREJA, Willian R., MAGALHAES, Thereza C. Português: Linguagens, 6º ano ao 9º
ano. São Paulo: Atual, 2010. 6 ed. reform.
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