RUPTURA COM A RUPTURA: A ARTE DE PRODUZIR EFEITO SEM CAUSA E O
PROBLEMA DA REPRESENTAÇÃO 1
SIMIONI, Ronan2
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Trabalho de Pesquisa.
Mestrando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), Santa Maria,
RS, Brasil. Bolsista da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal do Ensino Superior (CAPES).
e-mail: [email protected]
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RESUMO
A presente reflexão apresenta-se como uma indagação a respeito da possibilidade, ou não,
da experiência estética materializada nas manifestações artísticas, no caso a literatura, ser
ainda capaz de representar, por meio de sua propriedade mimética, a problemática que
atravessa a atual fase de nossa experiência moderna. Para essa intenção, a narrativa A Arte
de Produzir Efeito sem Causa, de Lourenço Mutarelli, se apresenta como construção
discursiva significativa, considerando o peculiar arranjo linguístico-imagético materializado
no romance, bem como a conflitante relação da trama com os modelos clássicos de
representação da realidade.
Palavras-chave: Estética; Literatura; Representação.
1. INTRODUÇÃO
Lembrando o pensamento assumidamente dialético de Karel Kosik (1976), cujo ideal
pretende rever categoricamente a visão Kantiana de que apenas podemos perceber a
realidade em um nível fenomênico, sendo que seu caráter numênico, de natureza mais
profunda e circundante de todas as áreas de nossa existência encontra-se inacessível,
vemos o apontamento de dois caminhos possíveis rumo a uma compreensão total da
experiência humana: a filosofia e a arte. A questão que se coloca, e não sem certo ceticismo
principalmente em relação à esfera das manifestações artísticas, interroga até que ponto, no
atual estágio da condição de modernidade no qual nos encontramos, a experiência estética
manifestada pela arte ainda pode se apresentar como uma espécie de entre-lugar da
problemática diversa que transpassa nossas representações simbólicas, assumindo, assim,
um papel de elemento de mediação com o real.
Se entrássemos em acordo com Fredric Jameson, cujo olhar, certamente pertinente,
para a atual lógica econômica e sua influência nos modos de produção, principalmente os
culturais, aponta para uma espécie de apagamento dos elementos que ainda poderiam
operar uma quebra da normatização dos artefatos artísticos, que vitimados por um efeito de
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culturalização extremada, se veem “esvaziados”, provavelmente a resposta para tal questão
não se apresentaria de forma otimista. Embora distanciado temporalmente, mas ligado à
visão Jamesoniana pelo atestado laço de pessimismo, Walter Benjamin, em seu conhecido
ensaio A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica, apresenta um texto
referencial em relação a esses atuais desdobramentos . Nesse texto seminal, observamos
que as novas condições de produção que os mass media determinam na sociedade
modificam o seu modo de realização na época atual, sendo que o apagamento da “aura”
operado pela reprodutibilidade técnica faz desaparecer quase completamente o “valor
cultural” da obra em prol de seu “valor expositivo”, sendo esse movimento um indicador de
que o valor de uma obra limita-se quase que meramente ao seu valor de troca.
Embora não concordando incondicionalmente com Jameson, a crítica de Gianni
Váttimo (1996) também percorre as ideias de Benjamin em relação à reprodutibilidade
técnica, que, entre outros fatores, impulsionou o profético fim da arte anunciado por Hegel,
naquela que poderíamos nos arriscar a chamar de “sociedade da metafísica –
perversamente - realizada”, ou simplesmente sociedade industrial. Entretanto, na parte de
seu estudo onde são enfrentadas as condições de produção artística, Váttimo chama a
atenção para o fato de que a anunciada “morte da arte” vem sendo gradativamente adiada,
sendo que esta ainda se encontra em um estado de ocaso. Nesse sentido, não é gratuita a
tripartição entre três diferentes acepções do termo. A a primeira de caráter forte e utópico
portadora da visão de especificidade e separação com o resto da experiência, que a vê em
um sentido de resgate e reintegração. Em um sentido fraco ou real, provavelmente herdada
de Benjamin, morte da arte como reflexo da estetização geral, ou seja, como extensão dos
domínios dos Mass Media, um dos principais operadores daquilo que o filósofo italiano
aponta como “consenso esteticamente organizado”. A arte como kitsch seria o terceiro
caminho rumo à sua morte.
Se a leitura de Váttimo nos dá espaço para a percepção de que a arte, em suas mais
diversas formas de expressão, ainda se mostra como capaz de ir contra a “bastardização”
identificada Fredric Jameson, abre-se caminho para uma aproximação de um maior
entendimento em relação aos elementos que tangenciam a “pseudoconcreticidade” do
mundo fenomênico – termos que apanhamos de empréstimo de Karel Kosik. Nessa direção,
um olhar em retrospecto para diferentes momentos de tal esfera das práticas sociais, ou
seja, o estabelecimento de uma espécie de, embora problemática e sempre sujeita à
generalizações extremadas, breve periodização da história da arte apresenta-se como
necessária.
Embora aparentemente curto, pois o livro conta com pouco mais de cem páginas,
Antoine Compagnon (1999) fornece em Os Cinco Paradoxos da Modernidade, um apurado
olhar para os três principais momentos da arte em diferentes fases da modernidade, que
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curiosamente coincidem com algumas de suas crises, manifestadas tanto na pintura, nas
artes plásticas e na literatura. Os três ciclos, que na opinião do autor permeiam os cinco
momentos analisadas ao longo do texto, iniciam pela identificação da esfera artística em sua
fase de “ruptura com a tradição”, sentida principalmente ao longo do século dezenove, cuja
sucessão logo se transformaria na “tradição da ruptura”, que assistiu seu apogeu no alto
modernismo, e atualmente vê seu ainda conflituoso declínio no momento ao qual
testemunhamos a “ruptura com a ruptura”, marca inerente da pós-modernidade.
Uma das indagações centrais construídas em relação a tal momento, exposta por
Compagnon, vem ao encontro do questionamento de difícil resposta que indaga até onde
vai a instância pós-moderna correspondente a uma autêntica mudança de épistemè ou de
paradigma, ou seja, trata-se de uma ruptura com o modernismo ou uma continuidade com
este:
Na realidade, afirmar que nós nos situamos num momento posterior à
modernidade e conferir a esse fato uma significação de algum modo
decisiva pressupõem a aceitação daquilo que caracteriza mais
especificamente o ponto de vista da modernidade, ou seja, a ideia de
história e seus corrolários: as noções de progresso e superação
(COMPAGNON, 1999, p. 105).
Frente a esse quadro, a narrativa A Arte de Produzir Efeito Sem Causa, apresenta-se
ao horizonte de análise de modo tão problemático quanto o momento histórico de sua
produção. A explicitada lógica de estranhamento em referência ao texto de Lourenço
Mutarelli repousaria na comparação em relação a um conjunto de outras produções
ficcionais escritas, cujo estreito laço com situações empiricamente comprováveis,
apresentados sob o disfarce dos vários tipos de realismo que conhecemos, constituía um
elemento chave para a construção do que estava a ser representado. Compromisso esse,
que se não apagado de certa forma é violado na narrativa, principalmente a julgar pelos
acontecimentos que envolvem a existência do protagonista da trama, o personagem Júnior.
Visto inicialmente em uma aparente situação de fuga, quando deixa para trás
mulher, filho e trabalho, indo encontrar abrigo no pequeno apartamento do pai. Logo, a
rotina do personagem se divide em longas horas de sono no sofá da sala – a parte que lhe
cabe no mundo - que chegam a confundir nossa localização no tempo cujas ações
decorrem, e frequentes idas aos bares das redondezas. A grande reviravolta na trajetória
desse sujeito se dá, entretanto, no momento em que estranhas entregas, sem identificação
do local de origem, começam a chegar pelo correio, trazendo em seu conteúdo objetos sem
uma aparente conexão lógica uns com os outros. No resultado da frustrada tentativa de se
ordenar tais elementos, em busca de uma resposta talvez inalcançável para a decifração do
enigma apresentado, frustração que o leitor partilha com Júnior de uma maneira muito
inquietante, repousa o senso de indagação em relação ao que se está representando no
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âmbito da narrativa, bem como da possibilidade de vislumbrarmos um efeito de totalidade
apreendido pela leitura do romance.
O estado esquizofrênico do personagem principal, o experimento linguísticoimagético e a suspenção da ordenação lógica de parte dos acontecimentos se colocam
como pontos problemáticos entre os julgamentos demarcadores do novo ou da
reapropriação, da profundidade ou do esvaziamento. A polêmica também se instaura ao
pensarmos em qual sentido de morte da arte a renúncia com as formas consagradas pela
modernidade dos estudos literários, vistos na narrativa em questão, poderia representar:
rendição ou reação à estetização generalizada ou mero estranhamento vazio.
2. UM NOVO REALISMO?
Em sua interessante leitura acerca do panorama das manifestações literárias
brasileiras contemporâneas, Karl Erik Schollhammer dedica uma parte de seu estudo ao
estabelecimento de um novo estatuto daquilo que compreendemos ser uma representação
realista no âmbito da narrativa ficcional. O autor nota que, ao longo do século XX, essa
vertente da literatura apresentou-se sob diferentes formas, como o surrealismo, new realism
e realismo mágico, citando apenas alguns exemplos lembrados, mantenedores de uma base
comum caracterizada pela negação do realismo histórico do século precedente. De certa
maneira, o que se encontra entre alguns dos escritores brasileiros da mais recente
passagem de século, é novamente um ímpeto de retratar a realidade nacional, porém
recorrendo com certa constância a pontos de vista apreendidos a partir de visões marginais
ou periféricas. Chama atenção, ainda, que os chamados de “novos realistas” procuram
atingir seus objetivos por vias outras daquelas localizadas dentro dos limites da mímese e
da representação já emplacados em momentos anteriores:
Estamos falando de um tipo de realismo que conjuga as ambições de ser
„referencial‟, sem
necessariamente ser representativo, e ser,
simultaneamente, „engajado‟, sem necessariamente subscrever nenhum
programa político ou pretender transmitir de forma coercitiva conteúdos
ideológicos prévios (SCHOLLHAMMER, 2011, p.54).
Uma das principais causas determinantes desse desdobramento, no entendimento
de Schollhammer, e talvez o ponto que indicaria uma possível aproximação com a visão de
Gianni Váttimo, se situa na condição eminentemente midiática da cultura atual, fator de
propagação para aquilo que o filósofo italiano nomeia de estetização de baixo nível operado
pela cultura de massa generalizada. Referindo-se ao mercado editorial brasileiro, essa
mesma lógica expõe ao público uma quase que constante midiatização da vida real, que,
em se tratando do conjunto atual de publicações, justificaria o alto número de obras
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biográfico- históricas, relatos jornalísticos e memorialísticos que encenam uma espécie
diluição entre as fronteiras do público e do privado. Frente essa perspectiva, a questão de
como o escritor brasileiro deve falar da realidade do país, em meio a tantas outras formas de
representação que exaustivamente também o fazem, de modo diferente e que faça
sobressair a linguagem literária, se torna um problema eminente.
Completando o pensamento de Schollhammer em relação ao contexto de
superexposição da realidade, próprio da indústria cultural atual, vemos que em determinado
grupo de ficcionistas contemporâneos – pós década de setenta - ocorre um deslocamento
para a busca de efeitos sensíveis e afetivos em detrimento da questão representativa,
consagrada principalmente na escrita realista da década de trinta. Com isso, novas formas
de experiência estética materializam o movimento da arte e da literatura em direção a uma
postura de oposição ao esvaziamento formal operado pela demanda do realismo midiático,
possibilitando assim uma espécie de
[...]caminho para um outro tipo de realismo, cuja realidade não se apoia na
verossimilhança da descrição representativa, mas no efeito estético da
leitura, que visa envolver o leitor efetivamente na realidade da narrativa
(SCHOLLHAMMER, 2011,p. 59).
O envolvimento na realidade narrativa, em se tratando de A Arte de Produzir Efeito
sem Causa, é sentido logo nos movimentos iniciais, quando deparamo-nos com um discurso
fortemente delineado pela presentificação das ações, elemento que fornece uma sensação
de proximidade entre tempos reais e ficcionais. Somam-se a isso, as constantes descrições
dos cheiros e sons, bem como da sensação de torpor que envolve a existência do
protagonista, permeada por aroma de café, sabonete Phebo e mijo de cachorro, e ainda o
consumo de Aspirina, conhaque, cigarro e pão com ovo. Com frequentes alusões a cenários
típicos da paisagem urbana, como a lancheria, o metrô, e o pequeno apartamento do pai de
júnior - principal cenário das ações – juntamente com seguidas referências à marcas de
produtos conhecidos, materializa-se uma atmosfera marcadamente próxima ao cotidiano
das grandes cidades, vista, entretanto, a partir da perspectiva da vida privada.
A busca por um efeito estético novo, entretanto, passa necessariamente pela
estranha conjugação texto/imagens, fator que opera uma ainda mais profunda imersão no
pensamento de Júnior, que começa a se mostrar caótico, principalmente após o
personagem ser diagnosticado com neurocisticercose – ou simplesmente lombriga no
cérebro. O ponto alto de uma perda quase total de ordenação lógica em relação ao
pensamento desse sujeito é partilhado pelo leitor quase que diretamente, sem a mediação
de um narrador que descreve os fatos, no momento ao qual nos deparamos com as próprias
páginas com escritos de Júnior, na tentativa de desvendar o que as mensagens que
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chegavam ao apartamento do pai, vindas pelo correio poderiam dizer. Ação essa, aliás, que
provoca a mais significativa alteração no comportamento do personagem.
Antes da chegada dos “sedecs”, ou seja, logo após Júnior abandonar o trabalho e a
família, o que assistimos é basicamente um indivíduo eminentemente imerso em uma lógica
de mecanização da vida, rotina operada principalmente por sua atividade de trabalho – fato
que provavelmente justifica a constante rememoração dos itens e respectivos códigos de
produtos com que o personagem lidava no antigo emprego – que abruptamente é
interrompida pela traição de sua mulher. A nova fase existencial de Júnior, ou seja, sua vida
no sofá da sala, sofre grande reviravolta frente à impossibilidade quase inevitável de se
estabelecer sentido a aquilo que o conteúdo das mensagens continha. Nesse ponto, o
momento no qual ele já não consegue mais rememorar o nome e os números das
mercadorias com as quais trabalhava é representativo no sentido de uma suspensão, ao
menos em parte, da condição racional desse sujeito, efeito de desestabilização que alcança
todo a narrativa, se atentar para o fato de que as misteriosas entregas permanecerão até o
fim sem uma explicação que reconstrua a quebra das cadeias significantes operadas pela
estranha relação entre aquilo que elas traziam, o tecido vermelho, os CDs que não podem
ter seu conteúdo visto, e as reportagens sobre William Burroughs.
No recuo em relação a modelos que visavam à transmissão de uma experiência
enunciativa total, com forte compromisso com o real, e na quebra com o que seria uma
essencialidade filosófica, cara à ordenação literária, reside o distanciamento em relação aos
modos de representação cultuados pela baixa estetização já identificada na atual fase da
indústria cultural. O curioso é que Mutarelli flerta com tal modelo, pois começa seu romance
pela mostragem de um drama pessoal de um dado sujeito, imerso em um cotidiano muito
próximo dos leitores expostos à mesma lógica cultural, que acabam partilhando da aflita
fase existencial existência esquizofrênica de Júnior, de um modo mediado não somente pela
linguagem verbal, mas também das imagens que povoam o imaginário desse indivíduo
fictício.
3. RUPTURA COM A RUPTURA E MORTE DA ARTE
Se é verdade que as fronteiras do pós-moderno parecem sempre estar recuando no
tempo, a presença de contornos alusivos a uma nova – e deve-se destacar o “nova” estrutura do realismo identificada por Schollhammer, elemento que poderia nos remeter a
mais evidente característica do alto modernismo, a de constante ruptura, ao invés de borrar
ainda mais nosso entendimento sobre A arte de Produzir Efeito sem Causa , apresenta-se
como uma marca de um tempo ao qual o novo já não constitui mais o requisito
indispensável para a produção artística. Aquilo que não se pode perder de vista, é que o
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próprio modernismo também demarca uma referência temporal e, por isso, também sujeita à
reapropriação pós-moderna. Tal afirmação poderia até mesmo justificar a presença de
resquícios que lembram elementos da narrativa fantástica, também um movimento de pósvanguarda, bem como a busca pela retomada da condição de especificidade da arte, outra
forte tendência modernista no texto de Mutarelli. Observa-se, entretanto, e como
possibilidade, que agora essa necessidade não emerge como uma prática totalizante, como
identificaram os opositores do discurso modernista, mas sim como resposta ao eminente
esvaziamento que invade as esferas de produção cultural, entre elas a literatura, na
sociedade da metafísica realizada.
Se Gianni Váttimo está certo ao afirmar que o fenômeno artístico, ao menos aquele
ainda pretensamente autêntico assume uma postura que não reclama sua colocação dentro
de determinado âmbito de valores, mas sim de ultrapassamento desse âmbito,
problematizando-o e questionando seus limites, essa afirmativa nos revela que talvez o
principal critério de valor a ser atribuído a determinada manifestação artística seja como, por
meio de diferentes modalidades, ela consegue por em dúvida seus próprios limites. Nesse
ponto, a narrativa aqui enfrentada poderia ser marcada sob o signo de um movimento
contestatório, ou como nos sugere o próprio filósofo italiano:
Contra o Kitsch e a cultura de massa manipulada, contra a estetização em
nível baixo, fraco, da existência, refugiando-se com frequência em posições
programaticamente aporéticas, renegando todo e qualquer elemento de
fruibilidade e seu aspecto gastronômico(VÁTTIMO, 1996, p. 45).
Ainda advogando a favor de Váttimo, e aproximando o texto que aqui serviu de
objeto de análise aos elementos positivos em relação à morte da arte – ou, melhor dizendo,
seu ocaso – como possibilidade de resposta contrária ao esmagamento da lógica da
indústria cultural, talvez seja possível reabilitarmos a visão, um tanto utópica, de Karel Kosik.
Se mesmo por meio da quebra de uma linearidade narrativa e de uma considerável dose de
experimento em termos de linguagens sígnicas, A Arte de Produzir Efeito sem Causa pode
representar, mesmo por diferentes caminhos,uma resposta às condições de produção e
representação de dado momento, um tanto escamoteados pela superexposição do estético,
vê-se que a literatura e a arte como um todo ainda podem ser vistas como instâncias
mediadoras da realidade que ultrapassam as barreiras do pseudoconcreto. Sendo assim, os
partidários de Kosik ainda podem encontrar um pouco de suprimento de ar na atual, e
asfixiante, lógica cultural, mesmo que este esteja cada vez mais raro.
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REFERÊNCIAS
COMPAGNON, Antoine. Os Cinco Paradoxos da Modernidade. Belo Horizonte: Editora
UFMG, 1999.
JAMESON, Fredric. Pós-Modernismo. A lógica cultural do capitalismo tardio. São Paulo:
Ática, 1997.
KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1976.
MUTARELLI, Lourenço. A Arte De Produzir Efeito sem Causa. São Paulo: Companhia das
Letras, 2008.
SCHOLLHAMMER, Carl Erick. Ficção Brasileira Contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização
Brasileira, 2011.
VÁTTIMO, Gianni. O Fim da Modernidade; niilismo e hermenêutica na cultura
contemporânea. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
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