OS HUMORISTAS BRASILEIROS DESCOBREM QUE E DIFICII FAZER RIR NA DEMOCRACIA
Brasil
ua Ique r
risada a lucro
Passada a fase de cornbate a ditadura, o s
humoristas perseguem agora
formas mais descontraidas de fazer ri r
je?", pergunta Luis Fernando Verissimples piada, mas a verdade . Tant o
por Gerson Sintoni *
A paz voltou, enfim, aos quarteis .
Os generais ja podem usar seus raybans ou exibir seus caninos num candido sorriso, que nenhum espirito d e
porco vai desenhar caveiras sobre a s
lentes ou esticar os dentes, vampirescamente, colocando gotas de sangue
para dramatizar a cena . Dez anos depois da extincao da Censura e n o
quarto ano da Nova Republica, o
Pais a outro . Os generais ja nao babarn de Odio quando abrem o jornal .
Eles ja nao sac) mais o prato principa l
de chargistas e cartunistas . E os humoristas brasileiros - quem diria! tern saudades de seus generais .
Pode parecer exagero ou uma
64
que esse quadro foi pintado a IMPRENSA justamente pelos proprio s
interessados . Corn a abertura politica, o Brasil ja nao se divide simplesmente entre mocinhos e bandidos ,
como no tempo da ditadura . Para
complicar, falar mal do governo virou urn comportamento tao banal e
corriqueiro que ja nao da ibope a
chargista nenhum . Por isso mesmo, o
humor foi obrigado a, mudar, e o s
anos 80 colocaram os artistas do traco diante da delicadissima ques t do
- de
provar se ainda sac) capazes de faze r
o minimo que se espera deles - provocar risos .
Essa situacao se reflete no pensamento de urn dos mais festejados humoristas nacionais . "Quem a exatamente o vilao da nossa histOria, ho-
simo, 52 anos, 22 de profissao, don o
de urn espago cativo na revista Veja e
colunista diario do jornal Zero Hora ,
de Porto Alegre . Verissimo nao tern a
resposta . Mas nao duvida que o ar
mais democratico que o Pais respira
colocou novos desafios ao trabalh o
dos humoristas . "A chamada abertura criou problemas . Benditos problemas, claro, comparados corn os qu e
havia antes, quando a dtivida nao era
se a piada ia ser usada por esse o u
aquele lado, mas se ia dar cadeia o u
nao " , diz .
Fase de entressafra - Decididamen te, o humor engajado esta em baixa .
0 Pasquim, que foi urn dos seus pilares na decada de 70, nao a mais o
mesmo . Seu eterno dono, Sergio JaIMPRENSA - DEZEMBRO 1988
guaribe, o Jaguar, se diz feliz depois
que o vendeu ao jornalista e empresario Joao Carlos Rabello (ver materi a
a pag . 68). E livre de alugueis, contas
e pagamentos, atravessa urn momento "btimo, cheio de criatividade" .
Outro pai do Pasquim, Ziraldo Alves
Pinto, 56 anos, 40 de prancheta, classifica a atual fase de "entressafra", e
lembra que "naquela epoca a situacao politica era mais nitida . Os humoristas refletiam mais os sentimentos da populacao . Hoje tudo est a
muito estilhacado" .
0 prbprio Ziraldo afastou-se d o
trap politico e, alem de entrevistador da TV Educativa, trabalha hoj e
mais na linha infantil, atraves de livros, ou entao na Revistinha do Ziraldo, publicada pela Editora Abril,
que entre outras coisas traz uma curiosa coluna - Segredinhos -, assinada
pelo personagem " Menino Maluquinho", corn conselhos do tipo com o
tirar meleca do nariz ou cheirar pum .
Se o Pasquim foi o grande sucess o
nos anos 70, a novidade no humo r
hoje e, sem dtivida, o jornal Planeta
Diario, e tudo o que derivou dele, Como a revista Casseta Popular e o T V
Pirata . 0 humor da turma tern o efeito de uma metralhadora giratOria ,
que atinge tudo e todos ao mesm o
tempo - da politica aos costumes - e
nao deixa pedra sobre pedra . E urn
humor anarquico, feroz, debochado ,
muitas vezes descendo ao escatolbgico, mas, sobretudo, engracado . Tan to que Chico Caruso, uma das penas
douradas da charge brasileira, esta
I'v1PRENSA - DEZEMBRO 1988
mos de politica partidaria, mas a
maioria das manchetes do Planeta
tern a ver com politica" .
"Humor a favor" - E evidente qu e
o Planeta Diario nao tern vinculo estrito corn a noticia, coisa que jornai s
e revistas tern . Mas os seus idealizadores puseram em pratica uma espe -
entre seus admiradores . Chico, 3 8
anos, 20 de profissao, sauda com entusiasmo o aparecimento do Planeta .
"Eles vieram para recuperar o humo r
no seu estado puro", afirma .
Hubert de Carvalho Aranha, 29
anos, 11 de profissao, urn dos integrantes do micleo do Planeta, atribu i
o sucesso a vontade do prOprio publi co de experimentar urn novo tipo d e
humor . "0 estilo do Planeta sempr e
existiu", diz ele . "Transformamos o
que faziamos num negOcio, se m
aquela visao pos-hippie under ground, que predominou muito tempo . E emplacamos", revela, num a
postura que provocaria urticaria no s
anos 70 . Seu companheiro de estripu lias, Reinaldo Batista Figueiredo, 3 7
anos, 14 de profissao, tambem rebat e
as insinuacbes de que o humor da tur ma a despolitizado : "Nos nao trata -
NINGUEM
ALAA VOl DI
SAO PAULO.
jornal da tarde
E ISSO AI
cie de principio editorial que aind a
nAo foi totalmente assimilado pelos
chargistas da grande imprensa : d e
que tudo e todos sao atacaveis, e nA o
apenas a politica e as figuras do governo . "Faltam criticas a esquerda" ,
reclama o diretor de redacAo do 0
Estado de S . Paulo, Augusto Nunes ,
39 anos, 19 de profissAo .
Neste ponto, pelo menos, ha concordancia entre Augusto e seu concorrente direto, o diretor de redacA o
da Folha de S . Paulo, Otavio Fria s
Filho . "A tarefa de combate ao regime pelo humor desapareceu . Os chargistas hoje tern a liberdade de tratar
todos os personagens politicos de for ma critica", diz Otavio, 31 anos, 1 2
de profissAo . Normalmente contido ,
Otavio deixa escapar um elogio a
Spacca, que divide corn Glauco o es pap da charge politica da pagina 2
da Folha . Spacca foi revelado ha tre s
anos num concurso de humor que o
prbprio jornal promoveu . "Ele a representante de urn tipo de humo r
que se volta contra todos", afirma .
A nova safra de humoristas, qu e
fazia os primeiros desenhos no caderno de escola, na decada de 70, nd o
encara mais seu trabalho como um a
missao . Ve a situagAo de maneir a
mais distante, menos engajada . " A
questAo da charge a tecnica . )r bate r
os olhos num assunto e extrair um a
piada dali", diz JoAo Carlos Spacca ,
23 anos, tits de profissAo . 0 matogrossense Victor Henrique Woitschach, o "Ique", 25 anos, 10 de profissAo, chargista do Jornal do Brasil ,
afirma que na prancheta nAo a de esquerda, centro ou direita . "Sou chargista", sentencia . Para ele, a epoc a
das cobrangas e de patrulha ideolbgica a coisa do passado . "Antes nAo
podia elogiar . Hoje eu faco um elogio . Mas nAo deixo de estar criticando alguma coisa . Nesse sentido, nAo
tenho medo de fazer humor a favor" ,
ressalta .
Ato de reflexsio - Para a geracAo
T.6 ZEM. ME RW. IS ISSNOE.ASS
DFSa1216pibS OS CMS-MS DO
NOSSO GR.T MTh. DO ZRGC.O MdS
ME ObR.ECEM MUITO bo
b
ibPd OS LIOSOS LiITORFS Md S
c~.mcos . . .
surgida em meio ao sucesso do Pasquim, a passagem da trincheira par a
urn humor mais descontraido nAo foi
automatica . Trouxe traumas . Como
no caso de Edgar Vasques, 38 anos ,
17 de profissAo, que chegou a entra r
em crise . "Em certo momento fiquei
desesperado, achando que nAo tinh a
mais lugar para o humor que eu sabia
fazer", revela . "A tira 'Rango ' ,
que eu criei para servir como canal d e
denmcia politica, foi obrigada a mudar, como eu mesmo mudei ." 0
exemplo mais acabado do reposicionamento do seu trabalho pode ser
visto mensalmente na revista Playboy, onde Vasques, em parceria corn
Verissimo, publica as histbrias d o
"Analista de Bag", num elegant e
traco em aquarela .
Se alguem quiser deixar de mau
humor Arnaldo Angeli Filho a sb comecar a cobrar urn posicionament o
&ow.
W
kwd. ow quo .mwMonow
M. 4rorltM4w • .bbPl
.
/ra
o
.n
e .n lptp. . N
qr
uMdswwoSo
M
swt
.
bal
.polo P.I a
.
mM'! mr„y.b
.e
Mw .a . av .ti .
MbLI . .1
tARA MIM Esll-r CO sem .
Dt~OG QLIE t•Zo eon cat ip
GIJPONIO GSRLOS I•wraula.ES .
t M O Mc.LQF . NEM O co w&
WINO . IJtM . D . M4NQ-LI . NEM
O ••NA KIOLO . . .
%%auntie d . Fa►JfMi
66
1MPRENSA - DEZEMBRO 1988
miram o poder : o seu caster oficialesco . "Qualquer declaragAo de ministro virava charge . E o cidadAo co mum, que sofre na carne os efeitos
das decisOes politicas, nAo era retratado", diz Angeli, que resolveu entrar em sintonia corn o pliblico for a
das charges . Hoje seu trabalho se desenvolve pelas tiras e pela revista de
quadrinhos Chiclete corn Banana ,
atraves de personagens como Mei a
Oito, Nanico, Bob Cuspe, entre outros .
gue
va : m tos
as
mais politico do seu trabalho . Agora ,
se quiser sair no tapa, a justificar a
dificuldade dos humoristas fazerem
rir a concorrencia das trapalhadas
politicas . "Isso 6 coisa de imbecil" ,
vocifera . "0 humor E urn ato de reflexgo inteligente . Dizer isso 6 cornparar os humoristas a esses embromadores que estao al", diz . Angeli ,
32 anos, passou sete dos seus 18 de
tract' fazendo as charges political d a
Folha e, desde 81, recusa-se a desenhar politicos . DecisAo tomada no
dia em que viu uma foto do entAo ministro do Planejamento Delfim Netto cercada de charges emoldurada s
em seu escritbrio . "Foi ai que pensei :
por que a vitima vai emoldurar su a
sentenca de morte? A charge tern qu e
ser sempre critica . Mas algo nAo vai
bem quando o criticado abraca a critica", conta .
Na constatacAo de Angeli esta
embutido um outro problema qu e
impregnou a imprensa e, em especial ,
a charge, desde que os militares assu-
IMPRENSA - DEZEMBRO 1988
Sindrome da charge - Trajet6ri a
semelhante seguiu Laerte Coutinho ,
37 anos, 15 de profissAo, 10 deles como chargista do jornal de economia e
negbcios Gazeta Mercantil. Hoj e
Laerte tern sua tira "0 Condominio "
distribuida por 13 jornais e particip a
de varias revistas em quadrinhos .
Laerte vai mais fundo na critica a
charge, dizendo que ela perdeu mesmo sua import8ncia politica, porque
se prende as manchetes da edicAo do
dia . "Essa 6 a sindrome da charg e
hoje", revela . "0 espaco da charge
deixou de ser uma coluna de opiniA o
do artista . Os humoristas sabem fazer uma piada sobre corrupcAo, mas
nao tern opiniAo formada sobre a
Constituinte . "
Laerte acha que a raiz desse problema tern diversas explicacaes . At e
arrisca uma autocritica . "Eu tambem
aceitei censura de editor . Tambem
aceitei desqualificar meu trabalho ,
ate que pulei fora", diz ele, reacendendo uma velha discussAo entre o s
chargistas e os donos de jornal : afinal, a quern pertence o espaco d a
charge : ao autor ou ao dono do jornal?
A verdade 6 que poucos humoristas conseguem fazer do espaco da
charge um territbrio de livre expressgo do que pensam . Mill&r Fernandes, no Jornal do Brasil, e na revista
IstoE/Senhor, 6 uma das raras excecaes (veja entrevista a pag. 52). Reginaldo Azevedo Fortuna, 57 anos ,
desde os 16 desenhando, fundador d o
Pasquim, criador dos personagen s
"Madame e Seu Bicho Muito Lou co", a outro que nAo admite interferencia no seu trabalho . Desde 1984 ,
ele estn afastado da grande imprensa .
Depois de sua ultima colaboracA o
regular na pagina 2 da Folha, Fortuna iniciou uma peregrinacAo por todas as grandes redacaes do Pais, oferecendo o seu trabalho . E nAo foi
aceito ern nenhuma delas . "A imprensa transformou-se num produto
exclusivamente industrial", constata .
"Antes, as publicagOes eram importantes pelos nomes de que dispunham . Hoje, os jornalistas se sente m
importantes porque trabalham e m
tais ou tais publicacses . "
Trombada de edigao - A situacAo
de Fortuna, que tern uma microempresa que do assessoria grafica par a
publicacOes empresariais, a um caso
extremo . Mas sempre existiram trombadas entre os humoristas e a linha
editorial das publicacaes . Paulo Caruso, 38 anos, 20 de profissgo, po r
exemplo, saiu da Folha, em 1986, depois de ver recusadas diversas de sua s
charges . A que determinou sua said a
NINGUEM
CALA A VOl DI
Sao PAULO.
mostrava o entao candidato ao governo de Sao Paulo Orestes Querci a
abrindo o paleto e exibindo por baix o
da roupa a indumentaria do Super Homem - o que o jornal considero u
propaganda eleitoral . "Eu sai porqu e
o chargista a como o jornalista . S e
nAo publica, nAo existe . E tambe m
porque a Folha quer urn chargista
que faca o que eles querem . Isso e u
nAo faro", diz Paulo Caruso, hoje n a
IstoE/Senhor.
Mas ha exemplos em sentido contrario . Urn dos ultimos trabalhos regulares de Henfil na imprensa foi o
cartum dario que ele fazia para o
jornal 0 Globo . A tematica de Henfi l
tinha um dificil convivio corn a linh a
editorial do jornal de Roberto Marinho . Ainda assim, esta associacao Globo-Henfil - nAo deixa de ser um
exemplo concreto do tipo de espac o
que os humoristas da geracao do Pasquim conseguiram ocupar . Afinal, 0
Globo e a turma do Pasquim so estiveram juntos na banca do jornaleiro ,
ao longo da historia recente do Pais .
Apesar de todos os problemas, a
charge foi uma das formas de humo r
que mais cresceu na imprensa . Hoje ,
qualquer jornal medio mantem pel o
menos urn chargista fixo . 0 Estadao,
por exemplo, desde que Augusto Nunes assumiu seu comando, institucio nalizou o espaco da charge acima d a
coluna Canal 3, na pagina 3, ond e
publicam em esquema de revezamen to Wilde Weber, Verissimo e Caldas .
A Folha da Tarde, do Grupo Folhas ,
mantem uma equipe de quatro chargistas fixos - Nicolielo, Otavio, Novaes e Franco . A Folha da Tarde,
alias, e o exemplo mais bem acabado
68
da publicadao que apostou no humo r
e deu certo .
"Toninho Malvadeza" - Capitaneada pelos jornalistas Adilson Laranjeira e Carlos Brickmann, o jorna l
mantem um torn debochado e irreverente permeando seu noticiario . 0
prOprio Brickmann, 44 anos, 26 d e
profissao, editor-chefe da FT, se
exercita diariamente na primeira pagina, na coluna Dia a Dia, distribuin do torpedos para todos os lados . "E u
nAo busco o humor nos meus textos .
0 que eu quero mostrar e o outro la do da noticia, que as vezes a engracado", avisa . 0 fato a que Brickman n
nAo desconhece que o humor a uma
poderosa arma para mandar a lona
mesmo a figura da mais ilibada repu tacAo . Tanto a verdade que o jornal
substituiu os editoriais classicos pela s
farpas venenosas de "Toninho Malvadeza", urn personagem criado pel a
redaedo, odiado por politicos, e qu e
aparece comentando as principais no ticias do dia .
0 dito popular reza que ningue m
consegue rir de barriga vazia . E o
mesmo vale para os humoristas que
viram, para sua satisfacAo, o aumen to do espaco corresponder a uma ele vacao nos prepos . Nao a nada de mui to significativo . Mas hoje ja a possivel sobreviver so desenhando . 0 que
nAo excluiu uma boa dose de sacrificio . A ponto de um medico trocar o
bisturi pela pena - como fez Luis Oswaldo Carneiro Rodrigues, 39 anos ,
15 de trap:), conhecido como Lor, que
alem das charges de 0 Dia, do Rio de
Janeiro, e do Diario Popular, em Sao
Paulo, publica as tiras "ProgramacAo Normal" e "Nau sem Rumo " .
A nAo ser os nomes do primeiro ti me, como MillOr, os irmaos Caruso ,
que recebem numa faixa salarial d e
editores e que podem sobreviver d e
um sO emprego se quiserem, a grand e
massa dos humoristas ganha o equivalente ao salario de um redator, o u
seja, algo entre 300 e 400 mil cruzados (valores de novembro) . Nao existe tabela de precos ou piso salarial pa ra os artistas do trap) . E para mante r
a conta bancaria no azul ate o fina l
do mes, os humoristas vao em busc a
dos frilas, "que e o mercado norma l
do trap)", segundo Laerte .
Miguel Paiva, 38 anos, 21 de profissAo, alem das tiras de "Ed Mort " ,
em parceria corn Verissimo, que sa o
publicadas no Jornal do Brasil e n o
Estad4o, do cartum "Radical Chic " ,
tambem no JB, e "Meu Diario " , na
revista Capricho, ainda encontr a
tempo para atender a uma extens a
carteira de frilas, que inclui publicacOes de empresa como as da Goodyear e jornais de bairro .
Se esse contorcionismo a essencial
para manter a conta bancaria em ordem, pode tambem descaracterizar o
trabalho de urn iniciante, ja que uma
fonte de dinheiro cobicada pelos artistas do traco e a publicidade . E a ex plicacAo a simples . Enquanto uma
ilustracao avulsa para jornal dificilmente passa das 13 OTNs - o teto d e
referencia que se utiliza hoje no mer -
Solucao
domestica
Ele a dono de um traco inconfundivel e chega a publicar ate quatr o
charges sobre politica e economi a
diariamente na Folha da Tarde . Mas
Antonio Carlos Nicolielo, 40 anos ,
20 de profissao, nAo a conhecido sO
em Sao Paulo . Desde agosto do ano
passado, gracas a urn acordo cor n
uma distribuidora americana, seu s
cartuns sao distribuidos para o mundo todo . Seus desenhos estao nas paginas de jornais como International
Herald Tribune, The Washington
Post e The New York Times .
Nicolielo nAo para . Depois d e
partir para o mercado internacional ,
ele quer conquistar o interior do Brasil . Primeiro, atraves da pagina d e
humor que a distribuida para mais d e
20 publicacOes pela Caninha 51 ,
aquela do slogan "Uma boa ideia" .
Depois, atraves de uma distribuidor a
que ele mesmo criou ha seis meses e
que esta espalhando seu traco po r
IMPRENSA - DEZEMBRO 1988
ma agencia de publicidade e chega a
colaborar com 12 jornais por mess .
cado editorial -, o mesmo trabalh o
vale quatro ou cinco vezes mais na
propaganda . Alguns humoristas at e
atribuem ao seu trabalho na grand e
imprensa a funcao de chamariz par a
urn negbcio mais rentavel . "0 jornal
e legal como vitrine e e uma abertur a
para extravasar a criatividade", di z
Octavio Novaes de Oliveira, 34 anos ,
16 de profissao, chargista da Folha da
Tarde, que trabalha durante o dia nu -
Nicolielo : estoque de charge s
jornais das cidades de Bauru e Campinas, no interior de Sao Paulo, e para o Diario do Povo, de Curitiba . " A
ideia, com o tempo, a distribuir o trabalho de outros artistas tambem" ,
anima-se .
IMPRENSA - DEZEMBRO 198 8
Cords bamba - Se no eixo Rio Sao Paulo, a realidade de mercado e
essa, como andarao as outras pracas ?
Em Minas Gerais, urn estado corn tra dicao em revelar nomes para o humo r
nacional - Henfil, Ziraldo, Caulus ,
Borjalo -, a situacao comega a melhorar corn o surgimento de novos veicu los . Outra coisa que esta mudando ,
segundo Oldak Esteves, 59 anos, 4 2
de profissao, o mais antigo chargist a
local em atividade, a uma caracteristi ca da imprensa mineira - sempre mui to prbxima ao governo estadual -, qu e
comeca agora a fazer oposicao sistematica ao governador Newton Cardoso . Antes disso, Oldak amargo u
urn calvario de tres s decadas tentand o
imaginar charges que nao prejudicassem as boas relacbes dos jornais Estado de Minas e Diario de Minas, no s
quais publica seu trabalho, com o governo . " Fazer charges sempre foi como dangar na corda bamba", observa ele .
Se as relacOes corn o poder sa o
sempre delicadas, o que dizer d e
quem faz do centro politico do Pais o
prato dario do seu trago? Henriqu e
Goulart Gonzaga Junior, o Gougon, 42 anos, 20 de tract), faz questao de dizer que e o "unico chargist a
do Pais que anda de terno e gravata " .
Desenho, pelo menos, nao vai faltar . Nicolielo conta que tern no se u
estoque perto de 1 .200 cartuns ineditos . E essa produtividade toda ter n
uma explicacao . "Eu respiro desenh o
24 horas por dia", justifica . Nao qu e
ele fique o tempo todo desenhando .
Nicolielo acorda ouvindo as noticia s
no radio . Depois, devora os principais jornais do dia . E quando chega a
redacao da Folha da Tarde, perto das
sete da noite, ele ja tern na cabeg a
qual o assunto das suas charges . 0
desenho sai rapido, em 20 ou 30 minutos . "0 artista tern que ter a curiosidade do jornalista . Minha ansiedade por noticia a grande, porque ela e
minha municao " , ensina .
Nicolielo concorda corn os colegas quando dizem que o humor politico atravessa uma fase dificil . Ma s
ele ve nessa situacdo uma boa oportunidade para os artistas aprimorare m
seu trabalho, utilizando mais a inteligencia e menos o achincalhe . "E muito mais facil fazer humor contra .
Mas hoje o humor pede mais analis e
dos chargistas . )r justamente ai qu e
poderemos crescer ."
Para fazer suas tiras politicas diaria s
no Jornal de Brasilia e a charge da pa gina 2, ele circula todas as tardes pelo
Congresso e nos gabinetes politicos, a
procura de informacao e inspiracao .
Do alto desse privilegiado posto d e
observacao, ele acha "lamentavel "
que a grande imprensa nao avalie a
importancia de colocar urn chargist a
politico em Brasilia . "0 chargista l a
ern Sao Paulo, ou no Rio, as vezes
nao tern a dimensao do que a importante, trabalha corn informacao d e
segunda mar) . "
Mesmo assim, apesar de estare m
longe de uma remuneracao satisfatbria e perplexos diante da amplidao d e
assuntos que os anos 80 trouxeram ,
os humoristas continuam mantendo a
tradicao do riso na imprensa . Para ficar corn a imagem de urn cartum clas sico, ha luz no fim do tunel, como su gere Verissimo . "Acho que voltamos
aquela ideia de irreverencia, da importancia de estar sempre repetind o
que nada a sagrado, que o rei est a
sempre nu . " E o povo continua rind o
dele .
X
Participaram desta reportagem : Ernesto Rodrigues
(Rio de Janeiro), Conceicao Freitas (Brasilia), Andre
Pereira (Porto Alegre), Valdir Vasconcelos (Bel o
Horvonte) ,
NINGUE M
CALAA VOl D I
SAO PAULO.
Download

os humoristas brasileiros descobrem que e