XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. ANÁLISE DO SISTEMA DE CONTROLE INTERNO DE HOSPITAIS MINEIROS Antonio Artur de Souza (UFMG) [email protected] Gustavo Ananias Cunha (FPL) [email protected] Ewerton Alex Avelar (UFMG) [email protected] Resumo Os hospitais no Brasil enfrentam dificuldades financeiras que não são oriundas somente da falta de recursos. Hospitais públicos e privados apresentam uma gestão financeira defasada em termos de estratégias e do uso de ferramentas gerrenciais. Esses hospitais enfrentam crescentes demandas e precisam suprir as necessidades de ampliação e modernização de suas operações. Em particular, os hospitais públicos e filantrópicos, que dependem de verbas públicas, passam por problemas graves para atender a todos os pacientes. Para que sejam bem administrados, esses hospitais precisam contar com sistemas de informações (SIs) integrados, controles internos (CIs) adequados e bons serviços de auditoria interna. De acordo com pesquisas já realizadas, esses hospitais ainda não contam com SI que forneçam informações úteis e confiáveis. Várias razões têm sido apresentadas na literatura para justificar este problema. Uma delas é a falta de CIs bem definidos. Os objetivos da pesquisa descrita neste artigo foram (i) analisar a situação do sistema de controle interno em hospitais e (ii) discutir como os problemas e limitações desses controles afetam a gestão dos hospitais. A pesquisa foi baseada em 15 estudos de casos em hospitais localizados em Minas Gerais. Conclui-se que os hospitais vêm investindo em novos SI, mas têm negligenciado o aperfeiçoamento do sistema de CI. Não há preocupação da auditoria interna com as informações necessárias para sustentar o processo gerencial. Abstract Both private and public hospitals in Brazil have faced several financial difficulties not only because of shortage of funding, but most importantly because of old-fashioned strategies and outdated management tools. Nowadays, Brazilian hospitals are expected to meet increasing demands and are thus supposed to expand their structure and modernize their operations. In particular, public and philanthropic hospitals are dependent on public funds and have serious problems to cater for the needs of most population. To improve management, hospitals should implement integrated information systems (IS), adequate internal controls (IC), and good internal audit services. Previous studies show that these hospitals do not have an information system that provides them with XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. useful and reliable information. Several reasons for this have been reported, one being the lack of well-defined ICs. This paper reports on fifteen case studies on hospitals located in Minas Gerais, a state in Brazil, aiming to (i) analyze the performance of their internal controls and (ii) discuss how the problems and limitations of such controls affect hospital management. Palavras-chaves: controle interno, sistemas de informações, controle gerencial, 2 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. 1. Introdução Os hospitais brasileiros encontram normalmente dificuldades financeiras que não são oriundas somente da falta de recursos. Diante de um cenário econômico indefinido, mercado competitivo e avanço tecnológico, os hospitais necessitam de meios que viabilizem o crescimento do setor acompanhando as necessidades dos pacientes, governo e clientes. A gestão dos hospitais precisa ser aprimorada para que possam fazer frente a estes desafios. Para tanto, é fundamental que contem com sistemas de informações (SIs) integrados, controles internos (CIs) adequados e uma auditoria capaz de revisar os procedimentos internos e os SIs. Os hospitais, assim como as empresas em geral, precisam utilizar SIs como ferramentas de apoio à gestão. Assim como qualquer outra organização, os hospitais necessitam de procedimentos e métodos de operação e de gestão que resguardem seu patrimônio, verificam a exatidão e a fidedignidade de seus dados contábeis, promovem a eficiência operacional e encorajam a adesão à política traçada pela alta administração (DAUBER ET AL, 2006). CIs compreendem os procedimentos, métodos ou rotinas cujos objetivos são proteger os ativos, produzir os dados contábeis confiáveis e ajudar os gestores na condução ordenada das atividades organizacionais (RITTENBERG; SCHWIEGER, 2005). Para tanto, é fundamental que sejam traçados procedimentos de CIs bem definidos para que o sistema funcione em sua plenitude. Neste artigo são apresentados os resultados de uma pesquisa realizada em hospitais com o objetivo de analisar a adequação dos CIs para o sucesso dos SIs. Partiu-se das evidencias na literatura de que os sistemas de informações hospitalares (SIHs) apresentam limitações e ocasionam dificuldades para os gestores. O foco da pesquisa foi em verificar se os procedimentos de controle interno (PCIs) atendem adequadamente aos requisitos dos SIs que precisam ser cumpridos para que as informações geradas satisfaçam às necessidades de informações dos gerentes. Os objetivos específicos da pesquisa foram: (i) descrever o PCI em uso nos hospitais, (ii) identificar e descrever os PCIs operacionalizados pelos SIs; e (iii) discutir os problemas e limitações na gestão financeira desses hospitais que decorrem das falhas e omissões (inexistências) dos CIs. A realização desta pesquisa se justifica pelo alto custo dos SIs para os hospitais. Aproveitar este investimento de forma eficiente requer implementação e utilização coerentes com os requisitos e especificações dos sistemas. Os CIs se mostram componentes-chave para o sucesso dos SI, pois deles deriva a qualidade das informações geradas. Deficiências nos CIs também acarretam a necessidade de retrabalho, muito representado pelo uso de sistemas paralelos e complementares na forma de planilhas eletrônicas. Este artigo se divide em 5 seções (contando com esta Introdução). Na seção 2, realiza-se uma revisão da literatura sobre os conceitos necessários para a compreensão deste trabalho. Em seguida, na seção 3, descreve-se a metodologia utilizada para o desenvolvimento da pesquisa. Posteriormente, descrevem-se e discutem-se os resultados (seção 4). Por fim, na seção 5, as considerações finais da pesquisa são apresentadas. 3 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. 2. Revisão da literatura 2.1. Controles internos (CIs) Os CIs representam um conjunto de procedimentos adotado pelas organizações com o objetivo de proteger seu patrimônio, fornecendo registros contábeis confiáveis, adequadamente subsidiando o processo decisório e, conseqüentemente, reduzindo os riscos presentes na execução das atividades organizacionais (IFAC, 2006). Segundo Boynton et al. (2002), os CIs são processos operados no intuito de fornecer uma razoável segurança no que diz respeito à consecução dos objetivos, sobretudo em termos de: (i) confiabilidade das informações financeiras; (ii) obediência às leis e regulamentos aplicáveis; e (iii) eficácia e eficiência de operações. Esses processos e procedimentos formam o chamado sistema de controle interno (SCI). Especificamente nas organizações hospitalares, os CIs são geridos por um órgão de assessoramento direto da direção geral e compreendem as funções de acompanhamento das tarefas executadas por todos os setores operacionais e administrativos (FONTINELE JÚNIOR, 2002). Pinto (2004) classifica os CIs entre: (i) normas e procedimentos, segregação de funções, atribuição de responsabilidade, transparência e adequada delegação de funções; (ii) captação de dados corretos e confiáveis, adequadas análises e registros em tempos adequados e adequada análise do custo-benefício; e (iii) informações gerenciais conforme as necessidades dos usuários. O SCI está diretamente relacionado com as funções planejamento, organização, direção e controle e deve possibilitar a avaliação dos resultados da gestão. O CI em hospitais, de acordo com Turlea et al. (2009), não se configura apenas como um simples conjunto de instrumentos de controle. Ele atua como uma ferramenta essencial para a permanência dessas organizações no mercado, possibilitando o fornecimento de serviços com eficácia. Os hospitais necessitam aprimorar os CIs e a integração das informações entre suas diversas áreas funcionais para aprimorar a qualidade das informações disponíveis não apenas para os gerentes, mas também para as instituições de saúde. 2.2. Sistemas de informações e sistemas de informações em hospitais Laudon e Laudon (2010) definem SI sobre a perspectiva de negócios, como responsável por adicionar valor nas atividades de aquisição, transformação e distribuição de informações para que os gerentes possam melhorar o processo decisório, desempenho organizacional e consequentemente incrementar a rentabilidade empresarial. O´Brien e Marakas (2008) definem SI como “combinação de pessoas, hardware, software, redes de comunicações, recursos de dados, plolíticas e procedimentos de armazenagem, recuperação, transformação e dissiminação de informações na organização”. Segundo Champlain (2003), o planejamento e o controle das operações de qualquer empresa dependem do conhecimento que os gestores têm das atividades e operações, o que requer SIs eficazes. Um SCI é, por sua vez, indispensável para o sucesso do SI e deve compreender a obtenção de informações e os processos daí decorrentes de registro, armazenagem, processamento e análise dessas informações, bem como o seu uso na modificação e no aperfeiçoamento da operação e gestão (FIGHT, 2002). 4 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Segundo Carvalho et al. (2008), os hospitais desenvolvem atividades diversas e complexas que atuam com extremos humanistas e administrativos em que o gestor necessita tomar decisões de operacionalização dos processos e de atendimento aos pacientes. O autor destaca que a falta de padronização dos sistemas e procedimentos dificulta o compartilhamento das informações. Góes (2007) corrobora que os SIHs devem existir nos níveis operacionais visando desburocratizar os procedimentos, humanizar o atendimento, proporcionar segurança aos profissionais e pacientes, presteza nos processos internos, além do aumento no faturamento. No nível gerencial através de indicadores e relatórios gerenciais e no nível estratégico, gerando informações capazes de auxiliar a tomada de decisão. Bittencourt et al. (2006) discorrem que há no Brasil um SIH do Sistema Único de Saúde (SUS) que abrange todo o território nacional. O referido sistema se inicia a partir das autorizações de internação hospitalar seja em hospitais públicos ou privados que possuem convênio com o SUS. A partir deste sistema são realizados os pagamentos das internações, além do fornecimento de diagnóstico e outros dados demográficos e geográficos que possibilitam diversos conhecimentos em saúde. Em consonância, Moreira (2010) enfatiza que os pagamentos realizados por estes sistemas são complexos e que existe a necessidade de melhorias nas coletas de dados, relacionados com a necessidade de padronização dos dados, além de utilizar sistemas integrados e aperfeiçoar a utilização dos recursos tecnológicos visando o aumento da qualidade dos SI. 2.3. Procedimentos de controle interno (PCI) integrados aos sistemas de informações (SIs) Conforme Pinto (2004), o PCI pode ser definido como o conjunto de normas e procedimentos próprios da empresa, isto é, os manuais de operação e a cultura da organização que permitem o alcance da eficiência operacional. Para que se possam construir SCI eficazes, os dados que os alimentam devem ser os mais reais e dinâmicos possíveis, pois, assim como o ambiente, a própria entidade, seus objetivos e atividades mudam constantemente (IFAC, 2001). Conforme enfatiza Neves (2004), um PCI bem desenvolvido pode incluir o controle orçamentário, relatórios operacionais periódicos, análises estatísticas, programas de treinamento do pessoal e auditoria interna. Esse mesmo autor acrescenta que esse sistema pode inclusive abranger atividades em outros campos, como, por exemplo, estudo de tempos e movimentos e controles de qualidade. O sistema deve ser sempre avaliado para que tenha eficácia, eficiência, qualidade, economicidade e produtividade. Os procedimentos de controle podem ser classificados em dois tipos básicos: de prevenção ou de detecção (ISACA, 2010). Dentre os procedimentos relacionados à prevenção são citados aqueles relacionados às alçadas, às autorizações e à segregação de funções. Por sua vez, os procedimentos de detecção são aqueles relacionados à conciliação e à avaliação de desempenho. Há ainda os procedimentos que são ao mesmo tempo de prevenção e detecção como salvaguarda física e sistemas informatizados. O correto funcionamento de SI depende de PCI não apenas em relação às regras do negócio e às normas que regem as transações, dependem também de PCI relacionados com segurança na coleta dos dados, no processamento e no acesso às informações (CHAMPLAIN, 2003). Desta forma, verifica-se que os procedimentos de CIs integrados aos SIs são muito valiosos para o controle das operações diárias e para a eficácia da gestão. A definição de normas e procedimentos 5 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. utilizando alçadas, limites de atividades e valores para funcionários, a necessidade de assinatura de superiores para determinadas transações constituem importantes meios para assegurar os objetivos empresariais. Um SI bem elaborado e adequadamente utilizado permite que a empresa controle estes pontos de relevância e diminua as chances de erros e fraudes por parte dos usuários, constituindo um importante elemento na implantação de um efetivo controle interno. Ressalta-se que o PCI deve ser revisado constantemente, ainda que não sejam detectadas fraquezas como forma de assegurar a confiabilidade e melhoria contínua nos procedimentos internos. 3. Metodologia A pesquisa descrita neste trabalho foi de natureza exploratória e qualitativa, baseada em estudos de casos realizados em 15 hospitais: 5 públicos, 6 privados filantrópicos e 4 privados, localizados em Minas Gerais. A coleta de dados se deu por meio de entrevistas não estruturadas com funcionários, gestores e consultores de hospitais, de observação não participante realizada durante visitas aos hospitais pelos pesquisadores e da análise de dados contábeis e de relatórios gerenciais disponibilizados pelos hospitais. A pesquisa exploratória descritiva qualitativa promove melhor interpretação, visão e contextualização de problemas observados na realidade social (MALHOTRA, 2001). No que tange aos estudos de casos, Yin (2005) destaca que esses podem ser entendidos como uma forma de fazer pesquisa empírica, investigando e analisando fenômenos atuais dentro do seu contexto de vida real. Os estudos de casos e a coleta de dados qualitativos possibilitaram o entendimento e a comparação das situações dos CI, auditoria interna e decorrentes limitações na gestão financeira dos hospitais pesquisados. Os dados coletados por meio das entrevistas foram analisados qualitativamente com base na análise de conteúdo. A análise de conteúdo envolve as iniciativas de explicitação, sistematização e expressão do conteúdo de mensagens (BARDIN, 2002). Essa análise visa efetuar deduções lógicas e justificadas sobre da origem das referidas mensagens – o emissor, seu contexto e os efeitos que se pretende causar por meio delas. Como categorias de análises foram propostas: existência dos CIs, características dos CIs, relação entre CIs e SIs, e limitações e benefícios dos CIs. 4. Apresentação e discussão dos resultados 4.1. Estrutura e funcionamento dos SIs nos hospitais Os SI em hospitais se caracterizam como ferramentas essencialmente operacionais, ou seja, ainda se mostram incipientes em termos de ferramentas de suporte gerencial. Ainda não parecem ser usados eficazmente como ferramenta para a gestão estratégica. Acredita-se que tal fato depende significativamente do interesse dos gestores. Os SIs atendem em geral os processos e as atividades mais básicas, ou seja, realizam e armazenam as rotinas necessárias do negócio, mesmo assim em geral apresentam limitações. Nos hospitais públicos há sistemas que são integrados com a prefeitura e com o estado, principalmente em termos de compras, orçamento, contabilidade 6 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. e folha de pagamentos. Nestes casos, os SIs são acessados via Internet. No caso de dois dos hospitais públicos estudados, que são municipais, boa parte dos SIs é centralizada no órgão de gestão da prefeitura ou do estado. Os hospitais públicos da rede municipal são submetidos a um estrito sistema de controle contábil e financeiro. Os hospitais, assim como demais organizações municipais (órgãos da administração direta e indireta), precisam fazer uso de diversos SIs do município. Cumprir com o nível de detalhamento e com os prazos dos sistemas do tribunal de contas requer que os hospitais apresentem um SCI bem estruturado. Nem todos os dados requisitados pelos sistemas do tribunal são gerados automaticamente pelos SIs dos hospitais municipais estudados, o que exige que cerca de 30% dos dados sejam digitados manualmente com o apoio de planilhas. No caso dos hospitais públicos estudados, três são estaduais e universitários. Nesses hospitais, os SIs são integrados às respectivas universidades, pois não são entidades separadas das respectivas universidades. Os controles centralizados existentes nos hospitais municipais são equivalentes nestes universitários, mas no caso a centralização é feita pelas universidades. O terceiro hospital estadual estudado é gerido por uma organização não governamental. Nesse caso, os SIs são específicos do hospital e a prestação de contas se dá por meio de relatórios gerados a partir dos sistemas contábeis. A prestação de contas detalhada torna a gestão deste hospital bastante transparente. Tanto os hospitais filantrópicos como os hospitais com fins lucrativos podem escolher quais sistemas usar para fins de controle contábil, financeiro e orçamentário. Cada um destes hospitais precisa escolher os sistemas em conformidade com suas características operacionais e financeiras. No caso dos hospitais filantrópicos, a limitação de recursos financeiros é citada como razão principal para as deficiências dos SIs. A restrição de recursos por sua vez implica em limitação de pessoal qualificado em relação à seleção e ao uso dos sistemas. Os médicos dominam a cúpula administrativa dessas organizações e desenvolvem um estilo amador de gestão. Em pelo menos um dos hospitais com fins lucrativos estudados não há restrições financeiras, mas há graves problemas com os SIs. Esse hospital enfrenta dificuldades na gestão de informações operacionais básicas e principalmente de informações para suporte gerencial. Como exemplo de problemas nas informações operacionais pode-se citar o controle das receitas e do consumo de recursos no desenvolvimento das atividades operacionais básicas, como cirurgias e exames. O foco dos hospitais privados, tanto filantrópicos como com fins lucrativos, são os planos de saúde. O sistema usado para a gestão administrativa de seis dos hospitais privados estudados é fornecido por grandes fornecedores brasileiros de sistemas de gestão. Apesar de serem sistemas bem reconhecidos, apresentam uma série de limitações em termos de integração. Observaram-se problemas na utilização desses sistemas para diversas atividades de controle Um dos hospitais com fins lucrativos estudado é controlado por um operador de planos de saúde e observou-se que não existe acompanhamento da gestão do hospital em termos de lucratividade, apenas em termos de atendimento dos usuários dos planos. O hospital serve preferencialmente para o atendimento de clientes de baixa renda, inclusos em planos de baixa rentabilidade. Assim, o foco do operador é manter hospitais próprios para resguardar uma participação no mercado. A falta de investimentos deste hospital em controles gerenciais reforça esta constatação. 7 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. 4.2. Sistema de controle interno (SCI) e papel dos SIs como instrumento de controle Nos hospitais estudados, muitos dos CIs considerados básicos em outros setores precisam ser desenvolvidos em planilhas eletrônicas, o que requer pouco ou nenhum investimento. Isso decorre de erros cometidos na implantação dos SIs. A criação e a manutenção de controles em planilhas eletrônicas podem ser entendidas como desafios informacionais para os hospitais, pois são mais passíveis de erros. Nos três tipos de hospitais estudados foi possível observar o uso generalizado de planilhas, tanto como instrumento de controle como de geração de informações para suporte gerencial. Além do alto risco de erros, as planilhas apresentam ainda limitação ao acesso. Em geral apenas quem desenvolve a planilha consegue compreender sua estrutura. Há uma exigência do SUS que força todos os hospitais a terem controle estrito sobre os atendimentos/serviços prestados aos pacientes, o que contribui para que os hospitais desenvolvam controles internos, inclusive na forma de planilhas. Trata-se do envio mensal de dados para o Sistema DataSus (http://www2.datasus.gov.br/DATASUS/index.php), mantido pelo Ministério da Saúde. Aos poucos, esse sistema tem aumentado a exigência por dados operacionais. Para conseguir ter todos os dados necessários, os hospitais precisam ter controle da obtenção e do registro dos dados, tanto em termos de tempestividade como também de completude e precisão. Não alimentar o DataSus corretamente pode implicar em redução das receitas. Essa exigência se mostra um avanço na direção de se ter transparência na gestão de hospitais. 4.3. Procedimentos de controle internos (PCIs) em uso nos hospitais Os PCIs devem ocorrer em consonância aos objetivos estratégicos do hospital. É comum encontrar em hospitais objetivos relacionados à eficiência de resultados, apesar de ainda apresentarem custos fixos muito elevados. Alguns dos hospitais estudados convivem com receitas insuficientes para cobrir todos os custos, o que demonstra falhas inclusive nos controles internos. Diante de tantos desafios, é importante a adoção de PCIs orientados a conseguir eficiência operacional e financeira. Os PCI devem num primeiro momento orientar os hospitais a não incorrerem em resultados negativos. Em um segundo momento, devem levar as organizações a aumentar sua participação no mercado e obter resultado positivo. Isto pode até parecer um procedimento paradoxal em alguns hospitais, nos quais os acionistas são os próprios médicos, que fazem retiradas por meio da remuneração pelos serviços que prestam e parecem não se importar que o hospital seja deficitário. Quanto ao atendimento a pacientes particulares, no caso de hospitais filantrópicos, o procedimento de controle observado corresponde ao mesmo procedimento verificado para o faturamento SUS. Para resguardar informações relevantes demandadas pela legislação vigente, os hospitais apresentam a escrituração contábil das despesas com concessão de gratuidades a usuários dos serviços reconhecidamente carentes, segregadas das demais despesas. Assim, em todas as operações relevantes observadas verificam-se procedimentos de controle que procuram atender as necessidades de informações dos usuários, que se apresentam funcionais e disponibilizam informações úteis e no prazo esperado. Assim, o Quadro 1 apresenta resumidamente os procedimentos de controle observados. 8 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Operações Relevantes Descrição dos CIs Atendimento SUS Números seqüenciais de contas médicas, e informação resguardada em banco de dados (Software) Reconhecimento de Despesas Financeiras Utilização de Fluxo de Caixa (Cash Flow) e Orçamento Constituição de Passivo Tributário Lançamento em software com formulário e campos específicos, e validação com cadastro de prestadores Atendimento a pacientes particulares Números seqüenciais de contas médicas, e informação resguardada em banco de dados (Software) Cumprimento das disposições expressas na legislação que trata das Entidades Filantrópicas Escrituração contábil em rubricas especificas das gratuidades concedidas Fonte: Elaborado pelos autores Quadro 1 - Descrição dos Procedimentos de CIs O atendimento a pacientes particulares, da mesma forma como incorre com o faturamento SUS, observa-se que não existe controle de contas a receber que confronte o montante total faturado por paciente, com a importância efetivamente quitada e evidenciada em extrato de conta corrente do hospital. Como se trata de uma informação muito importante, os hospitais deveriam já contar com PCI específicos que buscassem garantir conhecer no tempo certo o valor a receber por paciente e por financiador (SUS ou operadores de planos). O Quadro 2 apresenta resumidamente os riscos e as limitações observados no contexto administrativo e operacional dos hospitais filantrópicos. 9 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. Operações Relevantes Riscos/Limitações Atendimento SUS Ausência de controle de contas a receber com confronto de provisão e liquidação do faturamento Reconhecimento de Despesas Financeiras Não se apresentam riscos nesta operação relevante nos controles observados Constituição de Passivo Tributário Ausência de controle de retenção de impostos conforme todas as disposições da legislação vigente Atendimento a pacientes particulares Ausência de controle de contas a receber com confronto de provisão e liquidação do faturamento Cumprimento das disposições expressas na legislação que trata das Entidades Filantrópicas Ausência de acompanhamento em relatório extra-contábil acerca as gratuidades concedidas Fonte: Elaborado pelos autores Quadro 2 - Riscos/Limitações dos Procedimentos de CIs Quanto ao ambiente informacional, fica evidenciado que existe uma grande dificuldade quanto à relação da integração de informações entre a operadora, seus hospitais, hospitais terceiros, consultórios e agentes reguladores. É um ponto importante a se considerar, pois tal integração requer PCI muito bem definidos. Há pacientes que vem de longe para serem atendidos em um hospital, então cobrar pelos seus serviços não é uma tarefa simples. Requer transferências de recursos entre operadores de planos de saúde. Há muita improvisação e soluções localizadas, desenvolvidas por interesse dos próprios funcionários usuários dos sistemas, sempre com base em planilhas porque os SIs são incompletos e/ou inadequados para tal tarefa. O uso do MS-Excel é praticamente indiscriminado e não conta com plano formal de segurança dos dados. 5. Considerações finais Conforme observado nos hospitais, a necessidade de informações de gestores e de usuários externos é uma demanda sempre crescente que exige atenção de todos envolvidos. Existem inúmeras formas e tentativas de manter controle das operações relevantes nos hospitais, dentre elas pode-se destacar que a cultura organizacional é um fator determinante na eficiência, eficácia e sucesso dos PCI. A implantação e acompanhamento dos PCI ainda se mostra um grande desafio para os gestores, que nem sempre são qualificados para funções gerenciais e administrativas. Enfrentam ainda resisitência de parte de seus funcionários da área de saúde, que não desenvolveu ainda uma cultura focada na eficiência dos processos e na qualidade dos serviços prestados. Desta forma, os PCI necessitam estar fundamentados na real necessidade de informação dos gestores, com objetividade, funcionalidade, e sem impedimento ao cumprimento das expectativas que a sociedade tem em relação aos hospitais. Paralelamente à necessidade de informações dos gestores, existe também a necessidade de prestação de informações a órgãos regularoes e fiscalizadores. Portanto, os CIs em hospitais 10 XXXII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUCAO Desenvolvimento Sustentável e Responsabilidade Social: As Contribuições da Engenharia de Produção Bento Gonçalves, RS, Brasil, 15 a 18 de outubro de 2012. necessitam compreender toda a operação, ou seja, desde a primeira etapa até a conclusão e, posteriormente, manter em arquivo/banco de dados seguro as informações. Portanto, os PCIs precisam ser projetados em conformidade com a realidade dos hospitais, que vem recebendo cada vez mais cobranças por parte do SUS e dos operadores de planos de saúde. Observou-se que os hospitais estudados contam com controles muito limitados, que ocasionam inclusive perda de caixa. Os hospitais estudados se mostram carentes de informações gerenciais, pois ainda não conseguem dispor adequadamente nem das informações operacionais. Observou-se, ainda, que as exigências de informações por parte do SUS e dos operadores de planos de saúde tem desempenhado um papel muito importante para o aperfeiçoamento dos CIs nos hospitaisl. O Quadro 3 apresenta algumas proposta de aperfeiçoamento dos PCI para as principais operações dos hospitais. São propostas que visam o aprimoramento do ambiente de controle e da qualidade das informações. Operações Relevantes Propostas Atendimento SUS Implementar controle de contas a receber com confronto de provisão e liquidação do faturamento Reconhecimento de Despesas Financeiras Não há sugestões Constituição de Passivo Tributário Implementar controle de retenção de impostos conforme todas as disposições da legislação vigente Atendimento a pacientes particulares Implementar controle de contas a receber com confronto de provisão e liquidação do faturamento Cumprimento das disposições expressas na legislação que trata das Entidades Filantrópicas Implementar de acompanhamento em relatório extra-contábil acerca as gratuidades concedidas Fonte: Elaborado pelos autores Quadro 3 - Proposta de Procedimentos de CIs Referências BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2002. BITTENCOURT, S.A.; CAMACHO, L.A.B.; LEAL, M.C. O Sistema de Informação Hospitalar e sua aplicação na saúde coletiva. Cadernos de Saúde Pública, Rio de Janeiro, 22(1): 19-30, 2006. BOYNTON, W. C.; JOHNSON, R. 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