Por conseguinte, no total, podemos distinguir vários tipos de países: 1. Aqueles em que os direitos teóricos a uma cobertura de saúde das pessoas em situação irregular dizem respeito à quase totalidade dos indivíduos inquiridos mas em que, na prática, apenas uma ínfima minoria de pessoas inquiridas beneficia deles: a Bélgica e a França; 2. Aqueles em que os direitos teóricos a uma cobertura de saúde das pessoas em situação irregular dizem respeito à quase totalidade dos indivíduos inquiridos e onde, na prática, uma proporção considerável beneficia deles (mas a grosso modo nunca mais de metade dos beneficiários teóricos): a Itália e a Espanha, assim como Portugal (mas os efectivos inquiridos são demasiado baixos para se poder estimar verdadeiramente a prática do direito); 3. O Reino Unido onde as pessoas em situação irregular só têm acesso às consultas de medicina geral mas onde os outros cuidados de saúde (incluindo os exames complementares e os tratamentos) não são geralmente cobertos. 4. A Grécia, por fim, é o país onde os direitos teóricos são mais restritivos e também menos acessíveis na prática (nenhum dos raros beneficiários teóricos inquiridos teve acesso a eles, na prática). 36 4. Estado de saúde 1. Motivos e recurso aos cuidados de saúde na última procura de cuidados de saúde Entre as pessoas inquiridas, 38 % não estão abrangidas por esta questão porque declararam não se ter sentido doentes (37 %) ou não responderam (1 %). Quando se sentiram doentes, três quartos das pessoas consultaram um médico ou um dentista (76,0 %) enquanto 19,5 % não consultaram ninguém. Os outros tipos de recurso aos cuidados de saúde são irrelevantes (mesmo que o recursos à medicina tradicional possa ter sido subdeclarado, como acontece em todos os inquéritos cujo tema principal é o recurso à medicina moderna). Tabela 16.Tipos de recursos durante a última procura de cuidados de saúde. %* (n=517) Não consultou ninguém 19.5 Consultou um médico ou um dentista 76.0 Consultou um enfermeiro 1.2 Recorreu à medicina tradicional 0.4 Consultou um vizinho, amigo, familiar 3.9 Telefonou a um médico do seu país 0.8 Consultou um médico do seu país 1.0 * várias respostas possíveis « Sou obrigada a telefonar a uma amiga médica na Ucrânia. » Extracto de uma conversa recolhida por MDM Bélgica: Quando não me sinto bem, sou obrigada a telefonar a uma amiga médica na Ucrânia. Explico-lhe as minhas queixas e ela aconselha-me (por telefone) um medicamento que eu vou comprar à farmácia… sem comparticipação.» A distribuição do último problema de saúde48 referido por aparelho mostra a preponderância de 5 grandes tipos : > o digestivo (20,1 % dos problemas referidos e 12,0 % das pessoas), > o osteoarticular (13,7 % e 8,1 % respectivamente) > o respiratório (10,0 % e 6,0 % respectivamente) > a ginecologia (8,8 % e 5,3 % respectivamente) > enquanto a categoria « geral e não especificado » (que reúne um conjunto heterogéneo de sintomas e de doenças específicas49) diz respeito a 15,3 % dos problemas referidos e a 9,1 % das pessoas. 48. Os médicos utilizaram a Classificação Internacional de Cuidados Primários (ICPC) para codificar os problemas de saúde 49. Com efeito, esta categoria agrupa todas as doenças e sintomas que não podem ser classificados por aparelho ou família de órgãos de acordo com a lógica geral da ICPC. Por exemplo: - sintomas gerais (febre, dor), - características gerais (os factores de risco em particular), - doenças infecciosas (tuberculose, sarampo, varicela, etc., quando estas não são classificáveis nas doenças de fígado - hepatite viral - ou do sistema imunitário infecção pelo VIH - por exemplo), - cancros, quando o cancro primitivo não está diagnosticado, - mas também os politraumatismos, os efeitos secundários sistémicos dos medicamentos, as alergias não pulmonares e não cutâneas, etc. 37 Tabela 17. Último problema de saúde referido, por aparelho. 38 Proporção entre o conjunto dos problemas referidos (n=503) % Frequência na população do inquérito (n=835) % Digestivo 20.1 12.0 Geral e não especificado 15.3 9.1 Osteoarticular 13.7 8.1 Respiratório 10.0 6.0 Ginecológico 8.8 5.3 Neurológico 6.8 4.1 Psicológico 6.0 3.6 Cardiovascular 4.4 2.6 Dermatológico 3.6 2.2 Metabólico, endócrino, nutricional 3.0 1.8 Oftalmológico 2.8 1.7 Gravidez, parto e planeamento familiar 2.0 1.2 Urinário 1.8 1.1 Ouvidos 1.0 0.6 Sistema genital masculino 1.0 0.6 Sangue, sistema hematopoiético e imunológico 0.6 0.4 Mais detalhadamente, 27 diagnósticos representam metade dos últimos problemas de saúde declarados.A sua frequência figura na tabela seguinte. Tabela 18. Distribuição dos últimos 27 problemas de saúde mais referidos. n* % da população do inquérito (n=835) Infecção pelo vírus HIV50 33 7.1 Dor abdominal 25 5.4 Dor de cabeça 24 5.2 Gripe 13 2.8 Asma 12 2.6 Dor geral 12 2.6 S/Q** dentes ou gengivas 12 2.6 S/Q das costas 10 2.2 Dor genital na mulher 9 1.9 Reacção de stress agudo 8 1.7 Febre 8 1.7 Hipertensão não complicada 7 1.5 Diabetes do tipo II 7 1.5 Uso Abusivo de Drogas 6 1.3 Tumor benigno genital mulher 6 1.3 S/Q dos rins 5 1.1 S/Q do joelho 5 1.1 Síndrome dorso-lombar sem irradiação 5 1.1 Dor menstrual 4 0.9 Disúria ou micção dolorosa 4 0.9 Epilepsia 4 0.9 Hepatite viral 4 0.9 Litíase urinária 4 0.9 Tosse 4 0.9 Perturbação da função gástrica 4 0.9 Outra úlcera péptica 4 0.9 Angina aguda 4 0.9 243 52.5 Total * codificações brutas da ICPC, sem reagrupamento ** S/Q: sintomas ou queixas 50. Esta forte prevalência explica-se, em parte, pelo facto de as pessoas encontradas terem a certeza que a sua infecção se deve ao VIH diagnosticado anteriormente, tanto mais que dois sítios do inquérito eram locais específicos para o seguimento das pessoas atingidas pelo VIH (na Bélgica) – consultar o parágrafo IV. 5. Infecção pelo VIH. 39 No total, 70,8 % das pessoas afectadas por um problema de saúde tomaram medicamentos prescritos por um médico, 13,2 % recorreram à automedicação e 15,9 % não se trataram. Não se verifica uma correlação estatística entre a forma de se tratar e o facto de ter recebido uma recusa de cuidados de saúde. Quando tomaram medicamentos, 85,5 % das pessoas obtiveram-nos no país do inquérito, uma ínfima minoria (2,9 %) no seu país de origem e mais raras ainda são aquelas que os obtiveram num terceiro país (1 %). 2. Percepção da saúde e problemas de saúde actuais De uma forma geral, os (raros) inquéritos disponíveis mostram que o estado de saúde dos migrantes se diferencia do das populações do país de acolhimento, mas as explicações não são unívocas. Por um lado, as suas condições de vida (habitação, trabalho, isolamento social, etc.) expõem-nos efectivamente a riscos sanitários mais importantes. No mundo do trabalho, em particular, a maioria dos migrantes sem documentos aceitam (por necessidade económica, por medo de chamar a atenção ou ainda por medo de perder o trabalho ou de ser expulsos) empregos em que estão expostos a muitos riscos de doenças ou de acidentes profissionais, provocados em particular por agentes tóxicos, longas horas de trabalho, dificuldades de comunicação ou por um enquadramento e medidas de protecção limitadas – tanto mais que eles conhecem pouco, e mesmo raramente, os seus direitos51. Por outro lado, existe ao mesmo tempo uma « selecção » pela migração, no sentido em que são mais voluntárias as pessoas com boa saúde que deixam o seu país de origem.52 No conjunto da população inquirida, 21 % dos inquiridos consideram o seu estado de saúde mau ou muito mau. Como se verifica habitualmente em todos os inquéritos sobre a auto-percepção do estado de saúde, esta percepção é ligeiramente pior nas mulheres do que nos homens. Figura 13. Percepção do estado de saúde por sexo (em %). 51. Organisation Mondiale de la Santé. Migrations Internationales, santé et droits humains. Genève, OMS, 2005.Carballo M, Siem H. Migration, Migration Policy, and AIDS. In: Haour-Knipe M, Rector R, eds. Crossing Borders: Migration, Ethnicity and AIDS. Bristol,Taylor & Francis, 1996. 52. Khlat M, Darmon N. Is there a Mediterranean migrants mortality paradox in Europe? Int J Epidemiol 2003; 32: 1115-8. Uitenbroek DG, Verhoeff AP. Life expectancy and mortality differences between migrant groups living in Amsterdam,The Netherlands. Soc Sci Med 2002; 54: 1379–88. Razum O, Zeeb H, Akgun HS,Yilmaz S. Low overall mortality of Turkish residents in Germany persists and extends into a second generation: merely a healthy migrant effect? Trop Med Int Health 1998; 3: 297–303. Powles J.The best of both worlds: attempting to explain the persisting low mortality of Greek migrants to Australia. In: Caldwell J, Findley S, Caldwell P, Santow G (eds).What we Know about Health Transition: the Cultural, Social and Behavioural Determinants of Health. Canberra: Health Transition Centre, 1990, pp. 584–94. 40 A percepção do estado de saúde piora naturalmente com a idade. No entanto nos mais jovens (com menos de 25 anos), 15 % das pessoas inquiridas declararam um estado de saúde mau ou muito mau e essa proporção atinge 69 % nas pessoas com mais de 60 anos. Figura 14. Percepção do estado de saúde por grupo de idade (em %). No conjunto, os indivíduos inquiridos declararam, em média, 1,2 problemas de saúde por pessoa. Os três principais domínios referidos são os problemas digestivos, de saúde mental e osteoarticulares – mas também, para as mulheres, os problemas ginecológicos (referidos por 16 % delas). A importância dos problemas de saúde mental é frequentemente relatada a propósito dos requerentes de asilo, das pessoas refugiadas ou dos migrantes sem documentos a quem foi indeferido o direito de asilo. De facto, essas pessoas sofreram muitas vezes choques e traumatismos consideráveis, a perda da sua família ou de pessoas próximas, actos de tortura ou de violências físicas e morais…53 « Prenderam-no pelos dois braços à parede e deram-lhe pontapés, socos e pancadas com uma barra de ferro. » MDM Itália testemunha, relativamente a um jovem, originário da República Democrática do Congo: A. nasceu na República Democrática do Congo em 1975. Frequentou uma escola profissional de mecânica, mais tarde começou a trabalhar nas embarcações do porto fluvial de Kinshasa. O seu trabalho consistia em carregar e descarregar mercadorias nos barcos. Viveu com uma mulher com a qual teve dois rapazes. Os seus problemas começaram em Setembro de 2002, quando foi preso. Bem antes da sua prisão, o seu barco tinha sido desviado por transportar armas e combatentes para o norte do país onde havia guerra. Um dia, durante a viagem de Kinshasa para a Província do Equador, o barco foi atacado e tomado pelos rebeldes.Todos os que estavam no barco fugiram para a floresta. A. tentou salvar-se escondendo-se na selva. Mais tarde, regressou a Kinshasa com os outros fugitivos, deixando assim a zona de guerra. Dois meses após a sua chegada a Kinshasa, foi preso, tal como todos os outros que trabalhavam no barco. Foi julgado e condenado a dez anos de prisão. Foi libertado em Novembro de 2003 por intermédio de um amigo do seu pai. Durante o encarceramento, A. foi torturado. Prenderam-no pelos dois braços à parede e deram-lhe pontapés, socos e pancadas com uma barra de ferro. Foi encarcerado num compartimento sem janela com muitos outros prisioneiros, onde não havia ar nem luz.Via prisioneiros sair do compartimento para .../... não mais voltarem. 53. Kirmayer LJ. Le dilemme du réfugié. Evol Psychiatr 2002; 67 : 743-63. 41 À sua saída da prisão, ficou escondido durante dois dias em casa de um amigo, o tempo suficiente para preparar os seus documentos, e esse amigo meteu-o num avião para Itália. Chegou ao aeroporto de Milão Malpensa no dia seguinte. Pediu asilo político em Dezembro de 2003. Durante dois meses viveu na rua. Foi após este período que foi enviado para um centro de acolhimento. Perdeu também o contacto com a mulher e os filhos. « Contou-nos que não sabia ao certo a sua idade, mas que pensava ter 24 anos. Não sabia quando ou como tinha chegado a Portugal. » MDM Portugal testemunha, relativamente a um jovem, de origem guineense: Ele apresentou-se em mau estado. O seu discurso era desconexo. Contou-nos que não sabia ao certo a sua idade, mas que pensava ter 24 anos. Não sabia quando ou como tinha chegado a Portugal mas dormiu sempre no mesmo sítio, perto do Ministério da Marinha, ao lado do Terreiro do Paço.Toda a gente lá o conhece.A única altura em que não esteve nesse lugar foi quando teve « ataques » e esteve no hospital Júlio de Matos na unidade de psiquiatria, onde ainda hoje regressa frequentemente. Para comer, recorre às camionetas [distribuição de refeições], das quais sabe os locais e os horários para toda a semana. Quando quer consultar um médico, vai à unidade móvel de Médicos do Mundo ou ao hospital Santa Maria. Contou-nos também que não se lembra de ter tido título de residência e também que « não precisava de ter ». « Esteve fechada num grande compartimento com outras mulheres, (…) foram espancadas, torturadas e abusadas. » MDM Itália testemunha, acerca de uma jovem com 32 anos, originária da República Democrática do Congo: N. nasceu em Gemena (República Democrática do Congo) em 1974. Casada, tem dois filhos. O primeiro nasceu em 2002 na República Centro-Africana durante a sua fuga, quando partiu do Congo. O segundo nasceu em Milão, em 2005. Durante o ano de 2002, viviam em Gemena, território retomado pelos rebeldes. Nessa altura, ela estava grávida. Foi feita prisioneira como o seu marido e violada. Esteve fechada num grande compartimento com outras mulheres, separadas dos homens. No compartimento estavam 200 pessoas. Foram espancadas, torturadas e abusadas. Duas semanas após a sua prisão, 70 prisioneiros fugiram, entre os quais N. e o marido. Caminharam durante dias em direcção à fronteira Centro-africana que ficava a cerca de 100 km de Gemena. Chegados a Bangui, permaneceram lá vários meses. Foi lá que N. teve o seu primeiro filho. O parto não foi fácil pois acabou por ser uma cesariana. No fim do parto, o bebé teve graves sequelas. Dois meses mais tarde, voltaram à estrada para Mombaça (Quénia) de camião. De lá, partiram para a Turquia, onde ficaram durante um ano. Depois, embarcaram num barco para Itália. A travessia não foi fácil. Permaneceram no mar sem água nem comida. Foram descobertos e salvos pela marinha militar italiana que os levou para LAMPEDUSA. N. sofreu muito enquanto estiveram no mar, mas a criança ainda mais. À sua chegada a Itália, a criança teve convulsões. Foram levados ao hospital de Palermo. Depois, pediram asilo político em Julho de 2004. Dois meses após a sua chegada a Itália, foram transportados para Milão para um centro de acolhimento onde ficaram todos juntos. N. ficou traumatizada por toda esta aventura e está a seguir uma psicoterapia. Só fala com o marido e com os filhos e recusa qualquer outro contacto. Para além disso, as condições de vida em situação « irregular » no país de migração (medo da prisão ou da denúncia, vulnerabilidade social e económica, estigmatização, discriminações e mesmo explorações diversas, dificuldades de se projectar no futuro, dificuldades de adaptação linguística e cultural, perda das redes sociais, etc.) podem ainda fragilizar o estado de saúde psicológico das pessoas. 42 « Ela desenvolveu manifestações depressivas cada vez mais invasivas, engravidou e o seu afastamento tornou-se cada vez mais intenso. » MDM França testemunha acerca de uma jovem mãe de família, de origem albanesa: Recebi este casal misto no CASO [Centre d’Accueil de Soins et d’Orientation de MDM]. Ela albanesa, ele macedónio, com a sua última filha na altura com 3 anos, quinze dias depois da chegada deles a França. A filha mais velha, com 6 anos, tinha ficado com outras crianças do lar de acolhimento. A mais nova estava agarrada à mãe e recusava o mínimo afastamento.Tinham fugido da Macedónia após 5 anos que descreveram como um inferno: ameaças de morte repetidas, violação do seu domicílio de dia e de noite por homens encapuzados que apontaram uma arma à cabeça do Senhor A na presença dos seus filhos, gritando ameaças e insultos, pedindo-lhe dinheiro. A Senhora A quase não podia sair à rua sem ser insultada, empurrada… Quando estava perto de dar à luz, não foi admitida no hospital devido à sua origem, pois tinham de entregar um « bakchich » que eles não tinham.A sua filha nasceu nas escadas do hospital. Por várias vezes, a polícia conduziu-a às suas instalações para supostos interrogatórios e durante um deles ela foi violada. Esta mulher, bem como a sua família, conheceu desde a sua juventude violências repetidas, tendo o seu pai, professor primário, um envolvimento político no Kosovo. Ela casou e foi para a Macedónia, enquanto toda a sua família fugiu para França, onde obteve asilo político. Perante o inferno que viviam na Macedónia, eles decidiram também fugir para França. Partiram pelas montanhas com as duas filhas e durante esta fuga passaram fome e frio e viram várias pessoas morrer de cansaço. Alojados, no início, num lar provisório, conseguiram um quarto num « hotel » insalubre com bolor nas paredes e, não podendo cozinhar, deslocavam-se aos locais de distribuição de comida. Madame A desenvolveu manifestações depressivas cada vez mais invasivas, engravidou e o seu afastamento tornou-se cada vez mais intenso. Passam dois anos e meio, durante os quais obtiveram uma resposta negativa ao seu pedido de asilo político e ao recurso. Eles tinham entregue um pedido de asilo territorial que lhe seria recusado cerca de 6 meses depois. Durante este período, tinham conseguido dois quartos num lar. Após a última recusa tiveram de deixar o lar, têm agora um bebé de 3 meses, foram apoiados por uma associação que lhes arranjou uma habitação decente. A depressão da Senhora A agravou-se, ela foi hospitalizada de urgência na psiquiatria onde ficou 3 meses. Tinha perdido toda a esperança e sido invadida pela violência. Foi feito um pedido de título de residência por razões médicas: após cerca de 8 meses, ela obteve uma resposta positiva por um ano. O marido, ainda sem documentos, obteve ajuda jurisdicional e esperou mais de 6 meses para ser recebido por um advogado. A Senhora A retomou, pouco a pouco, o gosto pela vida, arranjou algumas horas nas limpezas, o que conta muito para ela apesar de ser secretária. Ela voltou abatida do encontro com o advogado que apenas lhe deu uma esperança para terem documentos: se ela puder justificar um trabalho a tempo inteiro o que, como é lógico, no estado de saúde actual da Senhora A, é impossível. Novamente, a esperança frágil vacila. 43 Tabela 19. Problemas de saúde referidos por aparelho. Proporção entre o conjunto dos problemas referidos (n=998) % Frequência na população do inquérito (n=835) % Digestivo 12.3 14.4 Psicológico 11.3 13.1 Osteoarticular 11.0 12.8 Geral e não especificado 10.1 11.7 Respiratório 7.6 8.9 Ginecológico 7.2 8.4* Oftalmológico 6.5 7.5 Cardiovascular 6.3 7.3 Neurológico 6.2 7.2 Dermatológico 5.2 6.1 Sangue, sistema hematopoiético e imunológico 4.8 5.6 Gravidez, parto 3.3 3.8** Metabólico, endócrino, nutricional 3.2 3.7 Sistema urinário 2.2 2.5 Ouvidos 1.5 1.8 Sistema genital masculino 1.3 1.6*** *15,9 % das mulheres **8,4 % das mulheres ***3,3 % dos homens Figura 15. Problemas de saúde referidos por aparelho (frequência em % da população inquirida). 44 Segundo o agrupamento da ICPC, metade dos problemas de saúde referidos são sintomas e queixas (logo, sem diagnóstico final). As infecções (todas as causas misturadas), os cancros e os traumatismos representam – todos juntos – perto de 20 % dos problemas referidos (especificamos que este agrupamento, proposto pela ICPC, compreende doenças muito diversas e, em particular, de gravidades muito diferentes). Figura 16. Problemas de saúde referidos por tipo (frequência em % da população inquirida). Cruzando os dois indicadores anteriores (tipo de problema e sistema em questão, no sentido da ICPC), verificamos que os « diagnósticos não finalizados » (registados e codificados como sintomas) estão particular e frequentemente relacionados com as esferas digestiva, músculo-esquelética, neurológica e psiquiátrica; ou seja, aquelas que, ao mesmo tempo, têm uma expressão sintomatológica rica (nomeadamente dores) e para as quais apenas uma prestação de cuidados seguida – e não apenas pontual – permite conduzir a um diagnóstico. No que diz respeito às patologias imunitárias e hematológicas, trata-se essencialmente da infecção pelo VIH54. 54. Pode parecer estranho que a taxa de infecção pelo VIH seja tão importante nos diagnósticos, sem se ter podido realizar exames complementares. Isso explica-se de duas formas complementares: - as pessoas encontradas têm a certeza que a sua infecção se deve ao VIH diagnosticado anteriormente, - dois sítios do inquérito eram locais específicos para o seguimento das pessoas atingidas pelo VIH. Sobre este tipo de pesquisa de observação, a verdadeira prevalência do VIH permanece evidentemente desconhecida (ver o capítulo IV-5. Infecção pelo VIH). 45 Figura 17. Problemas de saúde referidos por tipo e sistema (frequência em % da população inquirida). Mais detalhadamente, 27 problemas de saúde fazem parte de uma pequena metade (45,7 %) do conjunto dos problemas referidos55. Encontramos entre eles uma frequência elevada de dores abdominais, osteoarticulares e ginecológicas, de sintomas ansio-depressivos, de sintomas infecciosos (tosse, febre) mas também de infecções graves (VIH, hepatite viral). 55. Um terço (32,8 %) dos problemas referidos são puramente declarativos da parte da pessoa inquirida. 46 Tabela 20. Problemas de saúde referidos. Proporção entre o conjunto dos problemas referidos (n=998) % Frequência na população do inquérito (n=835) % Problemas dorso lombares* 4.4 5.3 Depressão* 4.3 5.2 Infecção pelo VIH 3.7 4.4 Dor de cabeça 3.1 3.7 Óculos 2.7 3.2 Dores epigástricas e perturbações gástricas* 2.8 3.3 Dor e outros S/Q genitais e menstruais* mulher 2.5 2.9 Hipertensão não complicada 1.8 2.2 Ansiedade 1.7 2.0 Stress agudo 1.7 2.0 Asma 1.6 1.9 Dor geral 1.6 1.9 Perturbações do sono 1.6 1.9 Fadiga 1.4 1.7 S/Q** dentes ou gengivas 1.4 1.7 Dores e cãibras abdominais 1.3 1.6 Febre 1.2 1.4 Hepatite viral 1.1 1.3 S/Q olho (sem ser óculos) 0.9 1.1 Diabetes do tipo II 0.9 1.1 Esterilidade 0.8 1.0 Tosse 0.8 1.0 Sinusite 0.7 0.8 Uso abusivo de droga 0.7 0.8 * após agrupamento de todas as codificações compatíveis na ICPC ** S/Q: Sintomas e queixas Mais de dois terços destes problemas de saúde (69,9 %) foram declarados como sendo crónicos e, ao mesmo tempo, apenas um terço deles (30,1 %) é objecto de um tratamento em curso. Relativamente aos indivíduos, 47,1 % deles declararam ter pelo menos 1 problema de saúde crónico. Entre eles, apenas metade (50,4 %) tem um tratamento em curso para todas as suas doenças crónicas, enquanto 49,6 % tem pelo menos uma doença crónica não tratada, sem diferença significativa segundo o sexo, a idade e a duração da estadia no país sem autorização. O facto de ter uma cobertura de saúde aumenta a hipótese de ter um tratamento para o conjunto das suas doenças crónicas (RR = 1,71, IC 95 % = [1.28–2.29]). No entanto, isso não garante uma cobertura para todos os cuidados de saúde, uma vez que apenas 65,8 % das pessoas que têm cobertura de saúde vêm todas as suas doenças crónicas tratadas (contra 38,5 % das pessoas sem cobertura de saúde, p<0.001). 47 Para perto de metade das pessoas em questão que declararam pele menos um problema de saúde (46,7 %), um ou outro destes problemas sofreu um atraso no recurso aos cuidados de saúde. A comparação das perturbações mais frequentes entre aqueles que declararam – ou não – um atraso nos cuidados de saúde não apresenta uma diferença considerável: por outras palavras, as pessoas que sofrem de perturbações graves ou constituídas (nomeadamente depressão, infecção pelo HIV, diabetes, hepatite viral, HTA) não têm menos atraso nos cuidados de saúde do que aqueles que relataram perturbações mais benignas ou sintomas não etiquetados (fadiga, febre, dores articulares, etc.). Globalmente, a gravidade das perturbações não é, assim, acompanhada de um melhor recurso aos cuidados de saúde – o que é particularmente inquietante, dadas as consequências que os atrasos nos cuidados de saúde podem ter no caso de patologias graves. « Durante a consulta, fez-me várias perguntas mas não me fez qualquer exame médico, nem sequer examinou o alto que eu sentia no peito. » Testemunho de MDM Países Baixos, recolhido junto de M., 43 anos, originária do Gana: « Há um mês consultei um médico generalista porque sentia um alto no peito e estava preocupada. Este médico só aceitava ajudar-me se eu pagasse adiantado. Durante a consulta, fez-me várias perguntas mas não me fez qualquer exame médico, nem sequer examinou o alto que eu sentia no peito. Eu era enfermeira no Gana e sei como tratar os problemas médicos. Foi por isso que achei muito estranho que o médico não me tivesse examinado correctamente e isso enfureceu-me. No fim da consulta, o médico deu-me uma receita para medicamentos. Eu não fui à farmácia. Não acredito que esta receita me possa ajudar, uma vez que o tratamento não foi prescrito com base num bom exame médico. Não confio nesse médico, a forma como ele me tratou deixa-me triste. Decidi não voltar a esse médico e procurar outro. » O facto de ter obtido a cobertura de saúde não está significativamente relacionado com um atraso menor no recurso aos cuidados de saúde (para os problemas de saúde no dia do inquérito).Verifica-se, contudo, uma ligeira diferença: 53 % dos beneficiários desta cobertura apresentam um atraso nos cuidados de saúde, contra 45,1 % daqueles que não a têm (p=0,2). Se este resultado pode parecer, à primeira vista, surpreendente, ele põem em evidência que o facto de obter um cartão de acesso aos cuidados de saúde gratuitos não garante por si só o fim dos obstáculos ao acesso aos cuidados de saúde. Alguns médicos ficam reticentes em tratar as pessoas em situação irregular56. Mais amplamente, o facto de as pessoas que têm uma cobertura de saúde virem às consultas aos centros de Médicos do Mundo ou de outras associações realça, por si só, que este direito é uma condição necessária mas insuficiente para uma verdadeira igualdade no acesso aos cuidados de saúde para todas as pessoas vulneráveis que residem nos países europeus. 56. Consultar o capítulo V.2. As recusas de cuidados por parte dos profissionais de saúde. 48 3. Comportamentos Adictivos No conjunto da população inquirida, 10,0 % dos indivíduos têm um problema de abuso ou de dependência do álcool (IC 95 % = [7.8-12.6]57), sem correlação com a idade.Trata-se mais frequentemente de homens 15,2 % versus 3,0 % das mulheres (RR = 4,9, IC 95 % = [2.5–9.4], p<10-6). Esta prevalência é significativamente diferente consoante os países, com variações importantes (p<10-6) : eé mais fraca em Espanha e superior em Itália. A título de comparação, recordamos que o consumo « problemático » de álcool afecta, por exemplo em França, 13,8 % da população masculina e 5,0 % da população feminina58. Tabela 21. Prevalência do alcoolismo masculino por país. % Intervalo de Confiança (IC) 95 % Itália 32.1 31.0 - 64.2 Bélgica 12.8 6.3 - 22.3 França 9.6 3.9 - 18.8 Grécia 8.7 2.4 - 20.8 Espanha 7.8 3.6 - 14.3 Conjunto 15.2 11.7 - 19.3 Para além disso, 21,6 % da população inquirida apresenta um abuso ou uma dependência do tabaco (IC 95 % = [18.6–24.8]).Verifica-se uma tendência para uma descida com a idade mas esta não é significativa.Também aqui ocorre mais frequentemente nos homens, mas com variações mais fracas do que relativamente ao álcool: respectivamente 30,2 % dos homens e 12,2 % das mulheres (RR = 2,5, IC 95 % = [1.8–3.4]). Este consumo masculino é particularmente considerável na Bélgica; é também significativo em França e na Grécia mas não noutros países, em particular na Espanha. A título de comparação, segundo os dados da OCDE de 2002 ou 2003: na Grécia, 35,0 % da população total fuma diariamente, 28,6 % em França, 28,1 % em Espanha, 27,0 % na Bélgica, 26,0 % no Reino Unido, 24,2 % em Itália e 20,5 % em Portugal59. Tabela 22.Tabagismo masculino por país: estimativas do risco relativo homens /mulheres. Risco Relativo (RR) H/M Intervalo de Confiança (IC) 95 % Bélgica 11.4 3.5 - 36.9 França 2.1 1.1 - 4.6 Grécia 2.7 1.3 - 6.5 Itália 0.8 0.3 - 2.0* Espanha 1.5 0.9 - 2.5* * não significativo (o que significa que o risco de fumar não é significativamente diferente para os homens e as mulheres de um ponto de vista estatístico). Nota de leitura: na Grécia, os homens têm 2,7 vezes mais riscos de fumar do que as mulheres, com um intervalo de confiança (IC) a 95 % compreendido entre 1,3 e 6,5. O álcool-tabagismo, ou seja, a utilização abusiva ou a dependência ao mesmo tempo do álcool e do tabaco é menos frequente : 3,4 % (IC 95 % = [2.2–4.8]).Afecta também 3 vezes mais os homens do que as mulheres (p=0,01). A insuficiência dos efectivos impede qualquer comparação por país após ajustamento por sexo. Relativamente à utilização de drogas, a sua prevalência estima-se em 5,2 % (IC 95 % = [3.7–7.0]) ocorrendo também mais frequentemente nos homens (8,5 %) do que nas mulheres (1,5 %): RR = 5.7, IC 95 % = [2.3–14.5], p<10-4 ; mas também mais frequentemente nos mais jovens: respectivamente 9,2 % nas pessoas com menos de 25 anos, 4,2 % dos 26 aos 60 anos e nenhum caso observado nas pessoas com mais de 60 anos. 57. IC = Intervalo de Confiança ; RR = Risco Relativo 58. Estimativa pelo teste Delta: Guilbert P, Gautier A, eds. Baromètre santé 2005, premiers résultats. Paris, INPES, 2006, 170 p. 59. Fonte: Ecosanté OCDE 2005. 49 A prevalência observada de utilização de drogas é significativamente mais elevada entre os inquéritos em Itália e significativamente mais fraca na Bélgica (incluindo após ajuste por idade) – o que está relacionado, certamente, com os recrutamentos específicos dos diferentes centros inquiridos. Uma co-dependência do álcool e das drogas foi observada em 19 casos (2,3 % da amostra total) e 3,4 vezes mais nos homens (p=0,04). Tabela 23. Utilização de drogas por país. % Intervalo de Confiança (IC) 95 % Itália 18.8 10.9 - 29.0 França 5.0 2.0 - 10.0 Espanha 4.2 1.8 - 8.1 Grécia 2.4 0.3 - 8.4 Bélgica 1.0 0.1 - 3.5 Conjunto 5.2 3.7 - 7.1 Por fim, relativamente à utilização abusiva ou dependência de medicamentos, a prevalência observada é ainda mais fraca: está compreendida entre 2,2 % e 3,3 % (consoante tomemos em conta, ou não, os dados em falta; tendo sido estes entendidos como respostas negativas).A insuficiência dos efectivos torna pouco pertinente a comparação por sexo ou país. Uma co-dependência do álcool e dos medicamentos só foi assinalada em 6 casos (0,7 % da amostra total). 4. Acesso à despistagem e aos tratamentos ligados à infecção pelo VIH Em todos os países estudados, o teste de despistagem do VIH é teoricamente possível e gratuito para qualquer pessoa que o deseje. Contudo, na amostra estudada, 54,2 % das pessoas interrogadas ignoram que podem beneficiar gratuitamente de uma despistagem do VIH. Esta proporção é significativamente diferente consoante o país. > É, significativamente, a pior na Grécia. Podemos ver neste resultado um efeito da negação de direitos que afecta largamente os estrangeiros em situação irregular neste país: a regra geral é eles não terem quase nenhum direito aos cuidados de saúde, sendo as raras excepções a esta regra (neste caso, a do acesso à despistagem do VIH) – natural mas infelizmente – mal conhecidas. > É a mais favorável em França. É neste país que os inquiridos estão mais bem informados da possibilidade de fazer a despistagem gratuita (mesmo que estejam globalmente mal informados sobre a possibilidade de obter uma cobertura de cuidados de saúde): 59,0 % conhecem esta possibilidade, e até 68,8 % em Paris (onde foram realizadas várias grandes campanhas de afixação de cartazes e de informação sobre a despistagem). Tabela 24. Frequência da ignorância da despistagem gratuita do VIH por país. 50 % Intervalo de Confiança (IC) 95 % Grécia 83.7 74.2 - 90.8 Reino Unido 66.7 29.9 - 92.5 Portugal 64.7 38.3 - 85.8 Itália 63.0 54.2 - 71.1 Bélgica 50.3 42.8 - 57.8 Espanha 47.2 40.1 - 54.4 França 41.0 32.9 - 49.5 Conjunto 54.2 50.6 - 57.8 « Todos os anos, no meu aniversário, eu oferecia a mim própria uma despistagem, é normal, com o meu marido… » MDM França testemunha acerca de uma jovem, de origem senegalesa: F. empurrou a porta do gabinete acompanhada pela voluntária. Enquanto ela se instala e tira a capa, eu começo a explicar-lhe os objectivos do inquérito e a agradecer a sua contribuição. Ela manda-me então parar com um gesto « é a primeira vez que eu vou falar. Isso não o perturba? ». Eu pousei a caneta e empurrei o questionário. F. começou a falar da sua vida lá em baixo [no Senegal], com uma voz que alternava entre a animação e o desânimo.Animada quando evocava uma vida de artista comediante, animada quando falava dos seus filhos, de uma vida bela e fácil… Depois desanimada no momento de evocar a excisão, o dom da sua filha mais velha para a salvar dessa tortura, o « desaparecimento » organizado das mais pequenas e as violências de um marido inconstante e que não aceitava a profissão da sua esposa. « Comediante? Prostituta sim! » Aos insultos verbais juntou-se depois a violência física: um corpo arrastado sobre o arame farpado e as ameaças: « Se voltares a actuar, rebento-te um olho ». F. resumiu a sua vida como se respira, e talvez também para respirar. Voltando ao problema de saúde que a trouxe cá, uma hepatite C duplicada por uma sífilis, falo com ela acerca da despistagem do VIH. Ela sabe o que é, mesmo não sabendo que em França se pode fazer gratuitamente. Lá em baixo, era o seu presente de aniversário: « todos os anos, no meu aniversário, eu oferecia a mim própria uma despistagem, é normal, com o meu marido… » A vida em França? F. concluiu o nosso encontro com estas palavras: « Aqui ajudam-nos mas é preciso alargar a estrada para que os sem documentos se possam tratar sem medo. É preciso forjar o respeito e não o medo. Nós escondemonos como se fossemos animais. » Mais frequentes ainda são as pessoas que ignoram onde se podem dirigir para fazer o teste de despistagem do VIH: 62,3 % das pessoas inquiridas estão nesta situação. Esta taxa é significativamente mais elevada no Reino Unido60, na Grécia e em Itália e significativamente mais baixa em Espanha. Ela situa-se, em França, na média geral. Tabela 25. Frequência da ignorância dos locais de despistagem do VIH por país. % Intervalo de Confiança (IC) 95 % Reino Unido 88.9 51.8 - 99.7 Grécia 86.4 75.0 - 94.0 Itália 74.5 65.1 - 82.5 França 66.7 58.0 - 74.5 Portugal 61.5 31.6 - 86.1 Bélgica 60.3 52.8 - 67.6 Espanha 46.2 39.1 - 53.4 Conjunto 62.3 50.6 - 57.8 A situação é semelhante no que diz respeito aos tratamentos: 63,1 % das pessoas ignoram que existem tratamentos gratuitos disponíveis contra o VIH. Esta taxa é significativamente superior na Grécia (nenhuma das pessoas inquiridas sabia disso) e, também aqui, significativamente mais baixa em Espanha. No Reino Unido, a questão não foi colocada porque, neste país, os seropositivos em situação irregular não podem beneficiar de tratamentos gratuitos. 60. Onde, por falta de tratamentos gratuitos (cf. infra), não existe qualquer campanha de informação sobre a despistagem do VIH dirigida às pessoas em situação irregular. 51 Tabela 26. Frequência da ignorância de tratamentos gratuitos contra o VIH por país. % Reino Unido Intervalo de Confiança (IC) 95 % * Grécia 100.0 93.4 - 100.0 Portugal 73.3 44.9 - 92.2 Itália 68.2 58.5 - 76.9 França 67.9 59.3 - 75.7 Bélgica 59.8 52.1 - 67.1 Espanha 49.2 42.1 - 56.4 Conjunto 63.1 50.6 - 57.8 * não existem tratamentos gratuitos no Reino Unido Estas taxas são particularmente elevadas tendo em conta que, em contrapartida, perto de metade das pessoas inquiridas já quiseram fazer uma despistagem do VIH (49.8 %) : não se trata, por isso, de um desinteresse global sobre a questão, muito pelo contrário. Existem diferenças significativas consoante o país. Em Espanha, a maioria dos inquiridos (81,4 %) já quiseram fazer um teste de despistagem do VIH-sida; em França, pouco mais de metade (54,2 %) está nesta situação. Em contrapartida, esta vontade só foi manifestada por 40,2 % dos inquiridos na Bélgica, 32,6 % na Itália, 29,4 % em Portugal, 28,6 % no Reino Unido e 19,2 % na Grécia. Figura 18. Proporção de indivíduos que já quiseram fazer uma despistagem do VIH por país.. Para explicar estas diferenças entre países, podemos avançar vários argumentos sem que eles possam ser distinguidos neste inquérito61: > A percepção do risco de estar infectado pode ser diferente (particularmente em função dos grupos migratórios maioritários); > As políticas de informação (e os conhecimentos dos dispositivos) também têm um impacto na procura da despistagem62; > Por fim, as diferenças constatadas reflectem também, em parte, o tipo de actividade dos centros que participaram no inquérito (na Bélgica, por exemplo, o desejo de uma despistagem é evidentemente mais frequente entre as pessoas inquiridas nas associações parceiras que prestam cuidados a pessoas que vivem com o VIH: 64 ,4 % contra 40,2 % para o conjunto das pessoas inquiridas na Bélgica). No conjunto da população inquirida, essa vontade manifestou-se mais significativamente nos homens (53,4 %) do que nas mulheres (45,4 %, p=0.03) e diminui com a idade (apenas 23,5 % nas pessoas com mais de 60 anos, por exemplo, mas as diferenças não são significativas). 61. Clarke K, Broring G, eds. HIV/AIDS Care and support for migrant and ethnic minority communities in Europe.Woerden:AIDS & Mobility, 2000. 62. Matic S, Lazarus JV, Donoghoe MC, eds. HIV/AIDS in Europe: moving from death sentence to chronic disease management. Geneva,WHO, 2006, 298 p. 52 No entanto, as diferenças por género e por país não são significativas por razões ligadas à insuficiência dos efectivos (a figura anterior mostra a largura dos intervalos de confiança). Figura 19. Prevalência da vontade de fazer a despistagem do VIH por país e por sexo. Em contrapartida, o facto de ter tido vontade de fazer a despistagem do VIH é significativamente diferente conforme o continente de origem das pessoas (p<10-6). Os Africanos são os que mais desejaram beneficiar dessa despistagem (65.1 % das pessoas, significativamente mais do que a média do conjunto da amostra) e os Asiáticos os que menos o desejaram fazer; as pessoas oriundas dos países do Magreb, os Orientais mas também os Europeus estão numa situação intermédia mas, em todos os casos, apenas uma minoria entre elas declarou já ter tido a vontade de fazer uma despistagem do VIH. Figure 20. Prevalência da vontade de fazer a despistagem do VIH por continente de origem. Nota de leitura: a figura dá para cada país a proporção observada na amostra (barra larga) e o seu intervalo de confiança a 95 % (traços pretos). Assim, 40,4 % das pessoas originárias do Magreb desejaram fazer a despistagem e o intervalo de confiança estatístico desta percentagem está compreendido entre 31,3 % e 50,0 %. 53 A grande maioria das pessoas que já desejou fazer a despistagem para o VIH conseguiram fazer o teste (85,4 %) mas, inversamente, 14,6 % não puderam beneficiar dele63. Não se verificou praticamente nenhum obstáculo no inquérito ao conhecimento do resultado: entre as pessoas que fizeram a despistagem, 99,7 % ficaram a saber o resultado (apenas 1 pessoa declarou ignorar o resultado). As razões pelas quais a outra metade da população nunca quis fazer a despistagem dizem principalmente respeito ao sentimento de não necessitar dela ou de não estar interessado. A questão dos obstáculos aos tratamentos (ignorância de que são gratuitos ou percepção de que são pagos) foi referida em perto de 10 % dos casos. Por outro lado, parece que a confiança na confidencialidade dos resultados é maioritária – pelo menos não constitui um obstáculo à despistagem (esse receio só foi referido por 8 pessoas). Outras situações são, felizmente, excepcionais (menos de 1 % da população inquirida) mas foram, contudo, observadas no inquérito: teste sem o conhecimento da pessoa (referida 5 vezes por pessoas testadas sem o seu conhecimento, logo de forma involuntária), ignorância que existem tratamentos (9 vezes) nunca ouviu falar da sida (8 vezes). Tabela 27. Razões pelas quais nunca se desejou fazer uma despistagem do VIH. % (n=385) Não sentiu necessidade de o fazer 64.4 Medo dos resultados 11.4 Não sabe que o tratamento é gratuito 5.5 Sabe que o tratamento é pago 4.2 Não está interessado 2.9 Não sabe que existe tratamento 2.3 Medo da falta de confidencialidade 2.1 Nunca ouviu falar da sida 2.1 Foi testado sem o seu conhecimento 1.3 Não sabe onde ir 1.3 Muito caro 1.0 Nunca teve ocasião 0.5 Recusa de resposta 0.5 Não sabe que a despistagem é gratuita 0.5 5. Infecção pelo VIH No conjunto da amostra, verifica-se uma prevalência extremamente elevada da infecção pelo VIH: 5,7 % (IC 95 % = [4.3–7.5]), sem diferença significativa entre homens e as mulheres. Esta prevalência é – muito evidentemente – aquela que as pessoas inquiridas conhecem (e referiram). É sem dúvida inferior à realidade: as pessoas que ignoram a sua seropositividade ou que preferem não a comunicar não são consideradas como seropositivas (não se trata de um inquérito de prevalência no sentido « epidemiológico » do termo). Esta forte prevalência tem também a ver com a forma como a amostra foi constituída – em particular devido ao facto de o inquérito na Bélgica ter tido lugar em associações orientadas para os estrangeiros que vivem com o VIH-sida.Assim, entre as 48 pessoas seropositivas da amostra, 30 são seguidas (e foram inquiridas) nestas associações belgas. No resto da amostra, a seroprevalência do VIH é duas vezes menor (2,3 %) mas continua particularmente elevada. Para dar um ponto de comparação, a incidência anual de novas infecções pelo VIH é da ordem de 68 casos por milhão de habitantes na União Europeia64; isto é, uma prevalência grosseiramente da ordem de 1 % na população geral. 63. Sem diferença significativa entre homens e mulheres. 64. EuroHIV. HIV/AIDS Surveillance in Europe. Mid-year report 2005. Saint-Maurice: Institut de veille sanitaire, 2006, n°72. 54 Verifica-se uma associação significativa (p<10-6) com o continente de origem das pessoas: as pessoas originárias da África Subsaariana têm uma prevalência particularmente elevada (14,2 %) enquanto que não se observou nenhum caso nas pessoas originárias do Próximo e Médio Oriente. Note-se, contudo, que efectivos fracos dão intervalos de confiança particularmente largos para a Ásia e, a uma menor escala, também para o Próximo e Médio Oriente. Os países de origem dos casos de infecção pelo VIH observados são, na África Subsaariana: Camarões (9 casos), Ruanda (7 casos), República Democrática do Congo (5 casos), Burundi, a Costa do Marfim, Gana (2 casos cada), Burkina Faso, Cabo Verde, Guiné, Guiné Bissau, Níger, Nigéria, Senegal e Togo (1 caso cada). Na América, trata-se apenas do Equador, Peru e Salvador (1 caso cada); na Ásia, Cazaquistão (1 caso); na Europa (fora da UE) Roménia e Sérvia (1 caso cada). Figura 21. Prevalência da infecção pelo VIH por continente de origem. As pessoas infectadas pelo VIH beneficiam mais frequentemente de uma cobertura de saúde do que as outras (93,8 % versus 76,0 %, p<0.01)65 e a quase totalidade (93,8 % também) consultou um médico para a sua doença. A mais de 9 pacientes seropositivos em 10 foi proposto um tratamento (90,9 %). Entre eles, 42,5 % seguiram efectivamente esse tratamento, mas perto de metade das pessoas atingidas não responderam à questão: se apenas tivermos em conta as que responderam, mais de 80 % seguiram efectivamente o tratamento (mas os efectivos tornam-se fracos, na ordem de vinte indivíduos na população total do inquérito…). A questão sobre a adesão aos tratamentos ARV comporta menos não respondentes (14,6 %) e interpreta-se, por isso, mais facilmente: pelo menos dois terços das pessoas infectadas pelo VIH (64,6 %) – e até 75,6 % se não tivermos em conta os não respondentes – fazem um tratamento ARV66. As razões evocadas pelas pessoas que não fizeram esse tratamento são as dificuldades de observância e uma recusa por parte do inquirido de se submeter a tratamento (esta questão só não foi respondido por 4 pessoas…). 65. No inquérito, apenas 1 pessoa infectada pelo VIH não conseguiu beneficiar de uma cobertura de saúde e não tinha consultado um médico para essa doença. 66. O questionário não permite relacionar este número com o denominador preciso das pessoas infectadas pelo VIH e que apresentam uma indicação médica de submissão aos ARV. 55 « Eu não podia tocar numa chávena ou em outra coisa, porque ela estava apavorada devido à minha infecção pelo VIH. » MDM Reino Unido testemunha acerca de uma mulher, com 48 anos, originária do Uganda, infectada pelo VIH: A. chegou ao Reino Unido em 2003. Foi diagnosticada VIH positiva no seu país de origem. Perdeu todos os irmãos e irmãs devido à Sida. Ficou por isso sozinha a tomar conta dos seus filhos e dos filhos dos irmãos e irmãs. « Comecei a tomar antiretrovirais (nevirapina) no meu país, mas eles funcionam melhor aqui.Acho que aqueles que tomava no meu país eram provavelmente falsos. Às vezes, gastava todo o meu dinheiro nos medicamentos e ficava sem dinheiro para comprar comida. Por vezes, tinha de pedir emprestado 90 000 shillings ugandeses (30 libras) por mês. Muito poucas pessoas no meu país podem comprar os medicamentos, que só são de graças para as mulheres grávidas. Eu estava deprimida, já não tinha interesse por nada. Quando não conseguia arranjar dinheiro para os medicamentos, os meus amigos diziam-me para me prostituir ou fazer tráfico de drogas. Não vim para o Reino Unido para beneficiar das ajudas sociais. Só queria começar uma nova vida, ter uma vida decente e melhor. Uma amiga ajudou-me a vir para o Reino Unido. Fiquei em casa dela no Reino Unido mas ela começou a tornar-se hostil porque pensava que eu ia morrer a qualquer momento. Eu não podia tocar numa chávena ou em outra coisa, porque ela estava aterrorizada devido à minha infecção pelo HIV. Eu não podia cozinhar naquela casa. Ela dizia-me: « Se tu morres aqui, que é que eu faço? ». Ela pensava que eu a ia infectar. Eu esperava que ela me compreendesse e me consolasse mas ela não o fazia. Ela apresentou-me a um homem que queria ter relações sexuais comigo em troca de um emprego. » A. veio ver-nos por intermédio de uma associação local de ajuda às mulheres, depois de o hospital se ter recusado a tratá-la porque ela não estava inscrita num médico generalista. A equipa encontrou um consultório médico onde ela podia ir, mas ela hesitava em ir lá sozinha porque tinha pavor de ser denunciada ou expulsa. Um membro da equipa acompanhou-a ao consultório para a ajudar a registar-se. Infelizmente, o acolhimento por parte da responsável pelo consultório não foi bom.A. começou a entrar em pânico devido à hostilidade da responsável e ao medo de ser denunciada. Ela pensava que a pessoa tinha registado os seus dados para a denunciar. A voluntária da nossa equipa explica: « Eu tentei tranquilizá-la sobre o facto de a pessoa em questão não ter registado as informações sobre ela, dizendo-lhe que iríamos tentar encontrar outro médico. A. estava sempre aborrecida e preocupada mas eu consegui tranquilizá-la o suficiente para ela querer ir a outros médicos. » Conseguimos finalmente encontrar outro consultório onde ela se pudesse sentir à vontade. Acompanhámola novamente. O processo de registo decorreu sem dificuldades e A. parecia feliz com isso. Após vários meses, decidimos contactá-la para confirmar se ela tinha consultado o médico, porque era vital para ela. Descobrimos que ela não tinha ido ao médico após o processo inicial de registo. Propusemos-lhe então acompanhá-la uma última vez a uma consulta no consultório médico. Ela aceitou e o encontro com o médico teve lugar. O acompanhamento ao consultório correu bem. Esperamos agora que, após este primeiro contacto com o médico, ela fique mais confiante para voltar lá sozinha. » 56 5. Obstáculos ao acesso e à continuidade dos cuidados de saúde 1. Os obstáculos referidos pelos pacientes Uma questão explorava – com respostas múltiplas – os obstáculos encontrados no acesso à continuidade dos cuidados de saúde. No total, foram referidos 751 motivos. Os mais frequentes estão relacionados, principalmente, com o desconhecimento dos direitos o desconhecimento dos locais onde se dirigir para ter acesso a esses cuidados, o custo dos tratamentos, as dificuldades administrativas, o medo de uma denúncia e da discriminação, e as barreiras linguísticas e culturais. Figura 22. Frequências dos principais obstáculos no acesso aos cuidados de saúde (em % dos obstáculos referidos) Contra vontade, o médico aceitou receber J. para uma única consulta, mas não quis fornecer um intérprete. MDM Reino Unido testemunha acerca de um jovem com 27 anos, de nacionalidade iraquiana: J. foi vítima dos bombardeamentos químicos de Hallabjah, no Iraque, quando tinha apenas 8 ou 9 anos. « Devido a esses ataques químicos, ainda tenho problemas de saúde que necessitam de tratamento contínuo. » Em 2003 fugiu do Iraque após o início da guerra com o Reino Unido e os Estados Unidos pois temia pela sua vida devido às acções do seu primo na região. « Antes da guerra, o meu primo tinha ajudado o velho regime iraquiano e tinha matado Curdos na região. Assim que os grupos iraquiano e curdo começaram a comandar a província, achei que a minha vida estava em perigo devido às relações da nossa família.Toda a minha família foi morta e eu fugi para a Síria antes que os exércitos americano e inglês capturassem Bagdad. .../... 57 Um dos membros da minha família pagou a alguém para me ajudar a deixar o Iraque, mas eu não sabia onde iria acabar.Viajei na parte de trás de um camião e fui deixado mesmo na periferia de Londres. Eu não sabia onde estava e onde podia ir para pedir asilo.A polícia encontrou-me, com outros, e aconselhou-me a ir ao gabinete dos assuntos interiores em Croydon para pedir asilo. Pedi asilo. Enquanto o meu pedido esteve em avaliação, fiquei alojado no sul de Londres onde tinha um pequeno quarto e comida diariamente, acesso a um médico regularmente e recebia a ajuda psicológica de uma organização. Depois, em 2005, o meu pedido de asilo foi recusado e fiquei sem ajuda para a habitação e os cuidados de saúde. A recusa do meu pedido de asilo deixou-me sem recurso. Felizmente, alguns amigos deixaram-me ficar em casa deles mas mudar constantemente de casa teve mais impacto na minha saúde. Quando estava em casa de amigos na região de Walthamstow, precisava de ajuda para problemas oftalmológicos que tinha desenvolvido depois do ataque químico no Iraque. Preferia viver no Reino Unido porque aí me sentia mais em segurança mas acho que estava melhor de saúde no Iraque, onde a minha família podia facilmente pagar-me cuidados médicos. O impacto psicológico dos ataques químicos e o desaparecimento dos membros da minha família mostrou que eu precisava tanto de apoio psicológico como de medicamentos para seguir o meu tratamento. Uma associação de apoio psicológico pôs-me em contacto com o « Project: London » onde vim explicar a minha difícil situação. » A recepcionista de um médico generalista disse-lhe que o seu registo era temporário e que agora ele tinha de encontrar outro médico. Contudo, J. precisava de uma consulta urgente para obter uma visita ao hospital para os seus problemas oftalmológicos. Um membro da equipa falou com a recepcionista e com o próprio médico para lhes explicar a urgência da situação. Contra vontade, o médico aceitou receber J. para uma única consulta, mas não quis fornecer um intérprete. A equipa de « Project: London » acompanhou J. ao encontro com o médico. Depois encontrámos outro médico que aceitou registar J. na sua lista e que ofereceu um serviço de interpretação. J. ficou muito feliz com o serviço fornecido e com a proximidade com o local onde vive. Depois de ter vindo ao « Project : London », J. foi orientado para um hospital especializado em oftalmologia. Teve início uma pesquisa relativamente aos seus problemas oftalmológicos, ao mesmo tempo que o seu médico lhe dispensa um tratamento regular. Ele continua, para além disso, a receber tratamento para os seus problemas psicológicos. » « Expliquei-lhes que não tinha seguro e que não podia pagar a factura. » Extracto de uma conversa recolhida por MDM Países Baixos, junto de um jovem com de 21 anos, originária das Filipinas: Com a ajuda dos meus amigos, encontrei uma enfermeira-parteira, quando estava grávida, para me ajudar a cuidar de mim e para me seguir regularmente.Tive de lhe pagar em adiantado todas as consultas. Eu podia pagar porque nessa altura tinha um trabalho estável. Estava satisfeita com os cuidados recebidos, fizera-me muito bem. Eu queria ter o meu filho em casa e já tinha arranjado tudo com a enfermeira-parteira. Os custos para o parto em casa estavam incluídos no dinheiro que eu já lhe tinha pago. Devido a complicações durante o parto, tive de ir para o hospital. Na realidade, eu não queria ir para lá, porque sabia que as despesas seriam mais elevadas e que a factura final seria demasiado cara. Mas naquela altura, não havia outra solução: tive de ir para o hospital. Assim que pude, deixei o hospital. A admissão e os cuidados fornecidos custaram no total 3000 euros. Eu não tinha cobertura de saúde e não podia pagar 3000 euros imediatamente.Voltei ao hospital, onde discuti a minha situação com a administração financeira. Expliquei-lhes que não tinha seguro e que não podia pagar a factura. O hospital ajudou-me. Estabeleceram um acordo de pagamento de 200 euros por mês. Mesmo continuando a ser uma quantia elevada para mim, fiquei satisfeita pela forma como trataram o meu problema. O mais importante agora é que o meu bebé e eu estejamos de boa saúde. Se o meu bebé ou eu ficarmos doentes, posso resolver as coisas com o meu namorado. Ela está numa situação regular e tem o seu próprio médico. Se alguma coisa acontecer ao meu bebé ou a mim, penso que poderei ir ao médico dele. Devo, aliás, ir lá em breve porque o meu bebé necessita de ajuda, ele está doente neste momento.Tem um género de borbulhas. Mas o meu namorado não está cá neste momento e eu não quero ir ao médico sozinha.Vou esperar que ele volte para irmos juntos. Quando podemos pagar os nossos cuidados de saúde e os tratamentos, as coisas arranjam-se sempre e o pessoal médico pode ajudar-nos melhor. O facto de não ter documentos deixa assim de ser um obstáculo. » 58 A antiguidade de residência no país de acolhimento está relacionada com o tipo de obstáculos referidos.As barreiras culturais, o custo das consultas e dos tratamentos e também o medo das discriminações foram referidos por pessoas que, em média, residem no país há 3,5 anos ou mais, enquanto o medo de uma denúncia, os problemas administrativos, o desconhecimento dos direitos e os problemas de habitação estão associados a durações médias de residência um pouco mais curtas (mais de 1 a mais de 2 anos, apesar de tudo!). Por outras palavras, os principais obstáculos no acesso aos cuidados de saúde evoluem com o passar dos anos sem autorização de estadia no país de acolhimento. Nos primeiros tempos, esses obstáculos reflectem sobretudo questões de habitação, de inadaptação aos horários de trabalho dos médicos, de cobertura de cuidados de saúde, de medo de ser denunciado às autoridades ou ainda de desconhecimento quanto aos locais onde as pessoas se podem ir tratar.As diferenças culturais não são referidas como obstáculos nos primeiros meses da emigração… É apenas após alguns anos passados no país de acolhimento (talvez porque os outros obstáculos foram pouco a pouco resolvidos), que a barreira cultural é vivida como um obstáculo no acesso aos cuidados de saúde. Realçamos que os obstáculos financeiros (custo dos tratamentos e das consultas) perduram ao longo dos anos passados no país de acolhimento. Figura 23. Antiguidade de estadia no país de acolhimento por tipo de obstáculos no acesso aos cuidados de saúde (mediana e interquartil em meses). Nota de leitura: a figura dá, para cada motivo, a antiguidade mediana e o interquartil da duração de estadia no país de acolhimento dos indivíduos que referiram cada obstáculo. Por exemplo, as pessoas que referiram um problema de habitação como obstáculo ao acesso aos cuidados de saúde residem há 12 meses em mediana (e 50 % entre elas residem entre 3 e 21 meses) no país de acolhimento. Barreiras culturais, medo da discriminação, falta de confiança nos médicos (referida apenas por 1 pessoa) e custo demasiado elevado das consultas parecem ser obstáculos que perduram ao longo de estadias longas (mais de 40 meses em mediana). 59 Se o atraso no recurso aos cuidados de saúde para um dos problemas não está, como vimos, significativamente relacionado com o facto de se ter ou não uma cobertura de saúde, ele aparece ligado a dois destes obstáculos. De facto, as pessoas que sofreram um atraso no acesso aos cuidados de saúde mencionam mais frequentemente do que as outras, entre os obstáculos encontrados no acesso e continuidade dos cuidados, uma recusa de cuidados por parte dos profissionais de saúde (7,4 % vs 1,1 %, p<0.001); e uma inadaptação dos horários dos serviços de saúde (6,1 % vs 2,2 %, p=0.02). Há pacientes que exprimem também o medo de serem denunciados ou presos pela polícia e que preferem não ir a um médico ou ao hospital. « Adiei a consulta porque estava apavorado com a polícia e não queria acabar no hospital. » Extracto de uma conversa recolhida por MDM Países Baixos, junto de uma jovem com 21 anos: Houve uma altura em que tive de ir ao hospital.Tinha hemorragias internas. Acho que esperei demasiado tempo, com as dores que tinha, para consultar um médico. Por fim, acabou por se tornar demasiado urgente e tive de ir directamente ao hospital.Adiei a consulta porque estava apavorada com a polícia e porque não queria acabar no hospital. Uma noite, por volta das 22h00, eu estava muito doente e tive hemorragias internas. Eu tinha muito medo de ir ao hospital porque não sabia exactamente o que fazer e o que se iria passar comigo, ou se o hospital iria chamar a polícia.Toda a gente em casa estava assustada. Por fim, fui ao hospital por volta do meio-dia do dia seguinte, de táxi, não de ambulância, porque isso era impossível, era demasiado caro. Lá, o médico disse-me que se eu tivesse esperado mais 3 minutos, provavelmente não teria sobrevivido. Mas o que é que eu podia fazer? À parte de adiar! Mas o médico explicou-me que, para a próxima, eu não precisava de ter medo porque no hospital eles não têm ligação com a polícia, não se ocupam com problemas de registo ou outras coisas e não chamam a polícia. Muitas pessoas não sabem disto e, por consequência, não sabem onde podem ir e onde não podem. Durante a minha estadia no hospital, fui muito bem tratada. Mas agora, estou preocupada com uma enorme factura. Consegui entender-me com o hospital relativamente aos pagamentos. Hoje estou bem, mas muito inquieta com o montante da factura dos cuidados médicos. » 2. As recusas dos cuidados por parte dos profissionais de saúde Na altura do último problema de saúde, 11,1 % das pessoas em questão receberam uma recusa de cuidados por parte dos profissionais de saúde (todas as situações de cobertura de cuidados de saúde juntas)67.A taxa de recusa observada no inquérito é significativamente diferente consoante o país (p<10-6): é superior a esta taxa média na Bélgica e mais baixa em Espanha. Tabela 28.Taxa de recusa de cuidados por parte dos profissionais de saúde por país. % Intervalo de Confiança (IC) 95 % Bélgica 15.0 9.5 - 22.0 França 10.6 5.2 - 18.7 Grécia 10.3 3.9 - 21.2 Itália 7.5 3.1 - 14.9 Espanha 6.4 1.3 - 17.5 Conjunto 11.1 8.3 - 14.3 No total, foram declarados no inquérito 44 problemas de saúde que se saldaram por uma recusa de cuidados.Verifica-se que alguns destes motivos dizem respeito a urgências (nomeadamente, fracturas e queimaduras, mas também gravidez ou distúrbios de personalidade), doenças graves (diabetes tipo II, hepatite viral) ou infecciosas (sinusite, pneumonia). 67. Sem diferença significativa entre os homens e as mulheres e conforme a idade. 60 Tabela 29. Últimos problemas de saúde que se saldaram por uma recusa de cuidados. n Sintomas osteoarticulares 7 Sintomas ginecológicos 5 Dores difusas 3 Fracturas 3 Ansiedade 2 Diabetes tipo II 2 Diagnóstico ou seguimento de gravidez 2 Gripe 2 Hipertensão arterial 2 Alcoolismo crónico 1 Asma 1 Outros sintomas 1 Queimadura 1 Dor abdominal 1 Fadiga 1 Gastroenterite infecciosa 1 Hemorróidas 1 Hepatite viral 1 Dores de cabeça 1 Pneumonia 1 Sinusite aguda 1 Sintomas cardiovasculares 1 Distúrbios da personalidade 1 Tumor benigno 1 utilização de drogas 1 O facto de ter recebido uma recusa de cuidados de saúde aquando do seu último problema de saúde é certamente duas vezes menos frequente quando as pessoas têm um direito efectivo e reconhecido a uma cobertura de saúde (6,2 %) do que quando elas não têm uma cobertura de saúde efectiva (13,0 %, p=0,04). Mas não é, em todos os casos, insignificante. Como explicar que pessoas que obtiveram uma cobertura de saúde sejam confrontadas com recusas de cuidados por parte dos profissionais de saúde? Isto pode remeter-nos para vários factores – que aliás não se excluem uns aos outros. Antes de mais, não se pode ignorar que, para uma pequena parte delas, as pessoas receberam, de facto, essa recusa de cuidados antes de obter a cobertura de saúde (se essa obtenção for muito recente na altura do inquérito68). Por outro lado, é possível que muitas entre elas não saibam a que tipos de estruturas de cuidados têm acesso (uma vez que esta cobertura de saúde só dá acesso a uma parte das estruturas) e se tenham dirigido ao « local errado »; ou que a cobertura de saúde não cubra os cuidados pedidos (como, por exemplo, na Bélgica, em que a Aide Médicale Urgente não cobre os cuidados psiquiátricos, ou na Grã-Bretanha onde os estrangeiros sem documentos só têm acesso gratuito aos cuidados de saúde nos médicos generalistas, mas não no hospital que assegura os exames complementares e os cuidados especializados). 68. A antiguidade da recusa dos cuidados e a sua cronologia relativamente à obtenção dos direitos não foram perguntadas no inquérito. 61 Por fim, esta elevada taxa de pessoas confrontadas com recusas reflecte também as reticências de alguns profissionais. Em França por exemplo, alguns médicos recusam (de forma directa ou dissimulada) consultar beneficiários da AME (Aide Médicale Etat), em grande parte porque este sistema não está informatizado (o que pode assim dificultar as diligências), mas também porque ele é ainda desconhecido pelos profissionais de saúde. É isto que mostra um inquérito levado a cabo pelos Médicos do Mundo França no início de 2006 junto de 725 médicos generalistas : 37 % entre eles recusam receber os beneficiários da Aide Médicale Etat69. Ainda em França, um inquérito recente conduzido por um organismo público com a metodologia do « testing » estima que 41 % dos especialistas liberais de um departamento de Ile-de-France recusam tratar os pacientes beneficiários de uma cobertura de saúde específica para os mais desfavorecidos70, nomeadamente 39 % dos dentistas, 41 % dos pediatras, 44 % dos ginecologistas e 50 % dos psiquiatras liberais, contra « apenas » 4,5 % dos generalistas71. Nestas condições, o acesso aos cuidados de saúde em medicina liberal dos beneficiários da AME – ainda mais precários – é sem dúvida ainda mais discriminatório. Da mesma forma, um certo número de profissionais, nos diferentes países inquiridos, parece não estar suficientemente informado quanto aos direitos reconhecidos aos estrangeiros em situação irregular e quanto aos procedimentos que existem para lhes assegurar um acesso aos cuidados de saúde… De uma forma geral a literatura científica (médica ou de saúde pública) sobre as discriminações de cuidados de saúde junto dos migrantes é admiravelmente rara na Europa : uma pesquisa na base de publicações Medline® sobre este tema só encontrou 3 artigos desde… 1992 ! (dos quais apenas um tinha dados estatísticos)72. O que mostra a importância de dados como os recolhidos e relatados aqui sobre essa questão. « Esta situação de rejeição incomoda-me muito. » Exemplo de recusa de entrega de medicamentos, MDM Países Baixos testemunha: K. veio do Ghana para os Países Baixos em 1999. A minha diabetes foi diagnosticada há 10 anos no Gana. Na minha história familiar, muitas pessoas têm diabetes, por isso não fiquei surpreendido quando o médico me deu o diagnóstico. Eu dependo do tratamento e tenho de fazer controlos regulares… Apesar de estar muito satisfeito com o acesso aos cuidados de saúde nos Países Baixos relativamente aos profissionais de saúde, tive no entanto uma experiência negativa para obter o meu tratamento: fui rejeitado na farmácia. Não recebi o meu tratamento. O farmacêutico disse-me que eu não tinha os documentos [residência legal] e que, por isso, não me podia dar o meu tratamento. Mandou-me embora. Quando voltei à farmácia com a receita, a senhora atrás do balcão pediu-me directamente os documentos de identidade. Eu disse-lhe que não tinha autorização de estadia. Ela procurou o meu nome no computador: quando viu que não me encontrava no sistema informático, disse que não me podia ajudar. Mandaram-me embora, apesar da receita. Fiquei muito irritado com esta situação. Eu tinha a receita do médico. Não acho que isto seja normal. Fiquei simultaneamente zangado, frustrado e triste com este incidente. Quando me mandaram embora, sai da farmácia e não insisti mais para obter o tratamento. Perguntava a mim próprio o que havia de fazer. Na verdade, o melhor é voltar ao centro de cuidados de saúde Kruispost 73 o mais rápido possível e perguntar o que fazer ao médico. Esta situação de rejeição incomoda-me muito. » 69.Ver o inquérito da Missão França de Médicos do Mundo sobre este ponto: « Eu não atendo esses pacientes »,Testing sur les refus de soins des médecins généralistes pour les bénéficiaires de la Couverture Maladie Universelle ou de l’Aide Médicale Etat dans 10 villes de France. Paris, Médecins du Monde, novembre 2006, 43 p. 70.Trata-se da Couverture Maladie Universelle 71. DIES.Analyse des attitudes de médecins et de dentistes à l’égard des patients bénéficiant de la Couverture Maladie Universelle complémentaire: une étude par testing dans 6 villes du Val-de-Marne. Paris, Fonds CMU, mai 2006, 80 p. 72. Peretti-Watel P, Spire B, Lert F, Obadia Y; Equipe de l'enquête VESPA. Seropositive people infected through intravenous drug use: a persistent vulnerability. Rev Prat 2005; 55: 2093-100. (em francês) Eshiett MU, Parry EH. Migrants and health: a cultural dilemma. Clin Med 2003; 3: 229-31. Corretger JM, Fortuny C, Botet F,Valls O. Marginality, ethnic groups and health. An Esp Pediatr 1992; 36: 115-7. (em espanhol) 73. cuidados e serviços por pessoas em situação marginal. 62 Conclusão Este primeiro relatório do Observatório Europeu do acesso aos cuidados de saúde de Médicos do Mundo permitiu assim, apesar das dificuldades metodológicas ligadas à diversidade das situações encontradas e dos tipos de programas levados a cabo pelas equipas de terreno, provar que era possível reunir todos em conceitos partilhados, fornecer uma visão partilhada do estado da saúde e das dificuldades de acesso aos cuidados de saúde dos mais vulneráveis dos migrantes, os sem documentos. Constatámos, no decorrer deste primeiro inquérito, a insuficiência de dados no que diz respeito à situação das crianças. Quer se trate de exclusão, pobreza ou doença, as crianças são as mais vulneráveis.As legislações dos diferentes países europeus são, geral e felizmente, favoráveis ao acesso aos cuidados de saúde dos menores, independentemente do estatuto administrativo dos seus pais. E contudo, as crianças que as equipas de MDM encontram no terreno não têm, frequentemente, acesso efectivo a esses cuidados.A sua cobertura vacinal não é satisfatória. É por isso que teremos, sem dúvida, de efectuar um inquérito específico junto das crianças, em 2007, para que as instituições da União Europeia tenham em consideração a saúde das mesmas. Agora devemos poder utilizar os resultados deste primeiro inquérito para melhorar as políticas de saúde pública na Europa, para que elas abandonem definitivamente as discriminações ligadas ao estatuto administrativo das pessoas residentes no seu território. Devemos convencer tanto os políticos como os concidadãos europeus da importância do acesso aos cuidados de saúde das pessoas que vivem na precariedade como barómetro das nossas democracias. A rede europeia de Médicos do Mundo prossegue o seu objectivo e as suas acções a favor do acesso efectivo aos cuidados de saúde dos migrantes e para a protecção das pessoas gravemente doentes contra a expulsão na União Europeia, constituindo, desde 2006, uma rede de ONG europeias: a rede « Averroès ». A rede « Averroès » pretende conduzir uma campanha de defesa da melhoria da saúde dos requerentes de asilo e das pessoas em situação irregular na União Europeia, favorecendo a criação e a instituição de normas jurídicas comunitárias vinculativas não discriminatórias nos Estados-Membros, nos próximos cinco anos. O direito à saúde é um direito fundamental que os Estados europeus estão empenhados em defender, através de vários textos internacionais. Cada Estado é responsável por promover a saúde de todas as pessoas que vivem no seu território, por reduzir as desigualdades sociais de saúde e defender a igualdade de acesso aos cuidados de saúde. Assim, em conformidade com os compromissos assumidos em várias cartas internacionais dos direitos, o Conselho da Europa recomendou aos Estados-Membros74 : « (…) - a adopção de uma política coerente e global que : - assegure e favoreça a saúde das pessoas que vivem em circunstâncias precárias; - proteja a dignidade humana e impeça a exclusão social e a discriminação; - assegure ambientes favoráveis à integração social das pessoas que vivem em situações marginais ou precárias; - o reforço e a aplicação das respectivas legislações afim de assegurarem a protecção dos direitos do homem, a solidariedade social e a equidade - (…) - a instituição de sistemas de saúde gerais e eficazes para responderem a tempo e de maneira adequada às necessidades em matéria de saúde, a fim de garantirem a equidade, de assegurarem a igualdade de acesso aos serviços de saúde, tendo em conta as necessidades em matéria de saúde e os recursos disponíveis, e de poderem identificar, avaliar e tratar as perturbações de saúde das pessoas que vivem em situação marginal. » Para quando a concretização destas recomendações formuladas pela alta instituição que é o Conselho da Europa? Voltar a colocar a saúde como objectivo prioritário da UE, é voltar a colocar a questão do conjunto dos direitos fundamentais que funcionam também como determinantes da saúde das populações. Diminuir as desigualdades sociais e territoriais de saúde é melhorar o futuro de todos. 74. Recomendações do Comité de Ministros do Conselho da Europa (Rec(2001)12) aos Estados-Membros sobre a adaptação dos serviços de cuidados de saúde à procura de cuidados e serviços por pessoas em situação marginal. 63 Carta para a saúde de todas as pessoas estrangeiras residentes na Europa Considerando que seria indigno fazer parte de um continente que não tenha por princípio de base a protecção da saúde de todos os habitantes, Médicos do Mundo, no fim deste primeiro relatório europeu, pede que o parlamento europeu, a comissão europeia e o conselho da União Europeia acordem normas vinculativas que obriguem cada país membro a assegurar, concretamente, o acesso aos cuidados de saúde das pessoas vulneráveis e, em particular, dos migrantes, independentemente do seu estatuto. Para propor primeiros avanços nesta área, as 11 representações de Médicos do Mundo na Europa, a partir da experiência de terreno de cada uma delas, > propõem uma carta para a saúde de todas as pessoas estrangeiras residentes na Europa, > pedem que esta carta seja integralmente aplicada na próxima estratégia no domínio da saúde da União Europeia. Médicos do Mundo Internacional Considerando o artigo 25 da Declaração Universal dos Direitos do Homem que reconhece que « Toda a pessoa tem direito a um nível de vida suficiente para assegurar a sua saúde principalmente quanto à alimentação, ao vestuário, ao alojamento, a assistência médica… »; Considerando que a Convenção Europeia dos Direitos do Homem se refere explicitamente à Declaração Universal dos Direitos do Homem; Com base na sua experiência médica no terreno junto das populações mais vulneráveis na União Europeia e fora da Europa; Incitamos o conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia a tomar medidas adequadas para assegurar a garantia colectiva de um direito de acesso efectivo aos cuidados de saúde e à prevenção para todos os residentes* europeus. Constatando através das nossas acções que os migrantes, em particular os « Sem Documentos » e os requerentes de asilo têm um estado de saúde e um acesso aos cuidados de saúde inferiores à população geral, Pedimos ao conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia que reconheçam um direito de acesso efectivo aos cuidados de saúde e à prevenção** aplicável a todos os residentes estrangeiros presentes no seu território. Pedimos ao conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia que recusem qualquer discriminação no acesso aos cuidados de saúde e à prevenção baseada no carácter regular ou irregular da estadia destes residentes estrangeiros. Como consequência: > Pedimos ao conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia que assegurem um acesso aos cuidados de saúde e à prevenção ao conjunto dos residentes estrangeiros, independentemente do carácter regular ou irregular da sua estadia nas mesmas condições – a nível de recursos idênticos – que o proposto aos nacionais. > Pedimos ao conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia que assegurem a gratuitidade do acompanhamento médico e dos cuidados médicos da gravidez, do parto e do seguimento do parto, bem como dos cuidados médicos prestados aos menores e para todos os residentes estrangeiros cujo rendimento seja inferior ao limiar da pobreza***. 64 > Pedimos ao conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia que instituam um verdadeiro acolhimento sanitário dos requerentes de asilo, tendo em conta a especificidade dos efeitos da violência de que eles possam ter sido vítimas no seu país de origem. > Pedimos ao conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia que concedam a todas as pessoas estrangeiras que sofrem de uma doença grave, um título de residência autónomo ou qualquer outra autorização que lhes confira um direito de estadia e o acesso efectivo aos cuidados de saúde, a menos que esteja provado que elas podem ter um acesso efectivo aos tratamentos e cuidados médicos apropriados no seu país de origem. > Pedimos ao conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia que assegurem um acesso aos cuidados de saúde gratuitos ao conjunto das pessoas estrangeiras retidas, mantidas nos centros de retenção ou nas zonas de espera, presentes no seu território. > Pedimos ao conjunto dos Estados signatários da Convenção Europeia que reconheçam um direito de visita permanente de uma ou várias associações independentes do Estado – particularmente as médicas e dos Direitos do homem – em todos os centros fechados presentes no seu território e que recebam estrangeiros (zona de espera, centro de retenção). * É residente de um país qualquer pessoa que deseje fazer desse país a sua residência habitual. Na prática, isso exclui as pessoas que estão nesse país por razões turísticas. ** O acesso aos cuidados de saúde compreende a consulta médica, os tratamentos eventualmente prescritos e os exames complementares eventualmente prescritos. *** O limiar de pobreza é igual a 60 % do rendimento mediano de uma população. 65 Recomendações metodológicas Deparámo-nos com vários limites no decorrer da exploração deste inquérito, limites que mereceriam ser corrigidos na continuação dos estudos previstos pelo Observatório europeu de Médicos do Mundo. Estas recomendações em termos de metodologia de inquérito em saúde pública podem ser agrupadas da seguinte forma: O(s) denominador(es) A questão do denominador (ou seja, da população de referência) é, evidentemente, sempre crucial se se pretende responder seriamente às duas questões seguintes: a que populações se referem as frequências observadas? A que extrapolações podemos aspirar razoavelmente a partir dos respondentes? Por esta razão, cada centro participante deveria ter uma contabilidade exaustiva das pessoas « elegíveis » (estrangeiros em situação irregular) recebidas e uma contabilidade não menos exaustiva dos respondentes, dos não respondentes e dos motivos de não resposta (recusa, ausência de tradutores, cuidados urgentes, perdidos de vista, etc.) A representatividade Não falamos aqui da representatividade dos respondentes relativamente ao conjunto dos estrangeiros em situação irregular da cidade ou do país do inquérito. Esta é, evidentemente, muito difícil (ou mesmo impossível) de estimar, nomeadamente por falta de estatísticas fiáveis sobre esta população, mas também porque os utentes de centros de cuidados de saúde gratuitos se distinguem, evidentemente dos outros – por definição e por « essência » - pelo simples facto de estarem doentes ou de terem desejado e depois conseguido entrar num centro de cuidados de saúde A representatividade a que nos referimos aqui visa o ser representativo do conjunto dos utentes em situação irregular que frequentam cada centro. Quer escolhamos a exaustividade (todas as pessoas elegíveis são inquiridas) ou a amostra (um em duas, um dia em dois, etc.), o processo deve ser sistemático e não se deve autorizar qualquer possibilidade de escolha por parte dos investigadores da pessoa a inquirir (um utente regular, uma pessoa simpática, uma história interessante). Da mesma forma, nenhuma pessoa deve ser descartada por iniciativa do investigador (mesmo por bons motivos como: barreira linguística, perturbações mentais ou comportamentais, utente novo em urgência, etc.). Em resumo, a estratégia de inclusão – exaustiva ou por amostra – deve ser absolutamente sistemática e todos os afastamentos devem ser contados e relatados. O protocolo de inquérito aplicado previa os critérios de inclusão e de exclusão no inquérito. De uma forma geral, convirá no futuro aumentar o número de centros que participam no Observatório para, por um lado, aumentar o tamanho da amostra final (permitindo assim aumentar a potência estatística) e, por outro, assegurar uma maior diversidade das populações acolhidas. Naturalmente, seria também desejável que um número maior de países europeus participasse neste Observatório. As situações sociais A descrição das situações sociais das pessoas é, evidentemente, um objectivo importante deste Observatório. Podem ser feitas três ordens de recomendações para melhorar a descrição das situações vividas pelas pessoas: 1. rever e precisar certas características A questão sobre a habitação, nomeadamente, deveria beneficiar de definições mais conformes com os (raros) padrões europeus propostos por outros grupos de reflexão (nomeadamente a Federação europeia das associações nacionais dos que trabalham com os sem abrigo75). Da mesma forma, alguns itens das European Social Surveys podem ser retidos na qualidade de normas europeias mesmo que – justamente – este trabalho de normalização não esteja acabado76. 66 As questões sobre o emprego merecem também que se assegure uma melhor comparabilidade entre os países do Observatório, dando destaque à formação dos investigadores para tentar diminuir o viés de informação ligado ao risco de sub declaração do trabalho clandestino em certos países. Por outro lado, a questão dos rendimentos – se se decidir mantê-la nos inquéritos (o que é fortemente recomendado) – deve ser completamente reformulada e ser objecto de uma formação específica dos investigadores nos centros e nos países onde esta questão não faça parte do seu questionário de rotina. Parece-nos indispensável – apesar da delicadeza e/ou da dificuldade desse interrogatório – medir os rendimentos totais por unidade de consumo do lar da pessoa. Para isso é necessário perguntar a composição do lar (número de adultos e número de crianças) e a soma dos rendimentos do lar, todas as fontes juntas.77 2. completar algumas dimensões Apesar de não se tratar de recolher categorias socioprofissionais (pouco estandardizadas a nível europeu e pouco discriminatórias nesta população), seria interessante poder recolher, por um lado, o nível de educação das pessoas (inquéritos recentes salientaram o progresso manifesto dos níveis de estudos nos imigrantes, incluindo os que estão em situação irregular e esta questão é fácil de colocar) e, por outro, o sector de actividade. Este último (especialmente no que diz respeito aos sectores que recorrem habitualmente à mão-de-obra não declarada e/ou sem documentos: construção – obras públicas, agricultura, serviços personalizados, restauração – hotelaria – turismo, etc.) permitiria ilustrar o «jogo duplo» das políticas de imigração em muitos países europeus. Para além disso, deveria acrescentar-se outra questão relativamente ao domínio da língua do país de acolhimento (a nível oral e escrito).Também se poderia recolher o estatuto « expulsável ou não » mas isso necessita de uma formação dos investigadores sobre a legislação do país de inquérito e isso talvez não seja exequível por enquanto. Por fim, é evidente que seria interessante perguntar acerca das trajectórias e condições de migração, mas isso talvez remeta para um inquérito mais específico e não para um questionário sistemático. Sem entrar em detalhes das condições e modalidades de « viagem » (sem dúvida melhor estudados de forma qualitativa por relatos de vida do que por inquéritos estatísticos), seria interessante perguntar itens como a migração por cuidados ou motivos de saúde ou ainda a pesquisa sistemática de violências sofrida no país de origem ou aquando da migração. 3. perguntar directamente a percepção das pessoas Duas dimensões (pelo menos !) da situação social das pessoas mereceriam inquirir directamente a percepção das pessoas (inquirindo o conjunto das pessoas, sem questão filtro): por um lado, o sentimento de isolamento social, que se recolhe facilmente através de uma única questão de escolha múltipla (por exemplo: « de uma forma geral, diria que se sente muito só, bastante só, bastante acompanhada ou muito acompanhada? »78); por outro lado, o constrangimento de ter tido de se separar dos filhos – que poderia perguntar-se directamente através da questão: « foi obrigado(a) a separar-se de algum dos seus filhos para imigrar devido à sua situação? ». As doenças A codificação CISP é um método interessante de recolha estandardizada e razoavelmente completa dos motivos e diagnósticos médicos.As suas duas grandes vantagens são o facto de ser multilingue e reconhecida pela literatura científica e de saúde pública. O seu principal inconveniente é que não existem – actualmente e no nosso conhecimento – ferramentas automatizadas de análise dos dados em rotina. Estas análises – difíceis e demoradas – são do domínio da pesquisa e/ou da programação ad hoc. A qualificação das doenças (efectuada no inquérito distinguindo o seu carácter « agudo » ou « crónico ») é por isso absolutamente necessária. Ela mereceria, sem dúvida, ser estendida por um critério de gravidade para completar a informação recolhida pela codificação CISP. Existem diferentes critérios, do mais empírico (na opinião do médico voluntário, por exemplo) a escalas mais estandardizadas de rapid assessment, como as utilizadas nos serviços de urgência ou ainda aquelas que estimam bastante rapidamente o risco vital ou a incapacidade funcional. 75. http://www.feantsa.org/code/fr/pg.asp?Page=546. 76. http://ess.nsd.uib.no/index.jsp?year=2003&country=&module=documentation. 77. Pela nossa experiência, tendo em consideração os fracos recursos e a frequência das situações de isolamento (adulto que vive sozinho com 0 a X crianças), esta estimativa não é impossível!. 78. Cf. inquérito SIRS (Inserm, 2005) e AME (Drees, 2007). 67 Os modos de vida Parece-nos difícil continuar sem nos interessarmos pelos comportamentos ligados à saúde como o álcool ou o tabaco. No entanto, alguns comportamentos de fraca prevalência (nomeadamente o abuso de medicamentos) não merecem ser questionados, a menos que se pense poder alargar muito significativamente o número de pessoas inquiridas (frequências inferiores a 5 % são globalmente pouco propícias à análise estatística em populações com menos de 1000 pessoas…). Em contrapartida, seria interessante estudar outros modos de vida, ou – pelo menos – propor e discutir com o comité de pilotagem, nomeadamente certos hábitos alimentares (salientamos, sem contudo o estimar realmente, a pobreza dos regimes alimentares das pessoas em situação precária) ou ainda a contracepção ou a utilização do preservativo… Cuidados prestados Existem alguns focos escolhidos pelo Comité de pilotagem do Observatório que não nos parece pertinente continuar a registar sistematicamente (nomeadamente o acesso aos medicamentos e as fontes de abastecimento em medicamentos), uma vez conhecidos os resultados deste primeiro inquérito. Por outro lado, seria sem dúvida interessante considerar outros elementos dos cuidados de saúde das pessoas em futuros inquéritos: nomeadamente a necessidade e o recurso a exames complementares, ou ainda o recurso a cuidados de prevenção (despistagem dos cancros femininos, por exemplo). Poderíamos assim distinguir as necessidades de recurso – e as dificuldades de acesso – aos cuidados de saúde primários e aos cuidados de saúde de especialidade. Salientamos, neste último ponto, que é necessário um trabalho preliminar de definição para que todos os países acordem nesta distinção – (nomeadamente no que diz respeito aos cuidados de saúde pediátricos, ginecológicos, dentários e de saúde mental). Os inquéritos a populações específicas Para acabar, um dos ensinamentos metodológicos deste inquérito remete para a dificuldade – dado o dispositivo utilizado – de reunir efectivos suficientes para inquirir especificamente as crianças e as grávidas (e, numa menor escala, as pessoas infectadas pelo VIH). A menos que haja um aumento radical dos efectivos incluídos sistematicamente neste tipo de inquérito « generalista » (multiplicando os centros participantes em cada país), a frequência esperada de grávidas e crianças torna bastante ilusória a possibilidade de explorar os dados recolhidos junto destas populações. Estes dois públicos – mulheres grávidas e crianças – necessitam de dispositivos de inquérito particulares: > para as grávidas: ou uma recolha de rotina mas que deve continuar durante mais tempo (com análises que agrupem mais anos), com as dificuldades que comporta uma recolha prolongada de dados; ou um inquérito realizado nas maternidade que acolhem, por exemplo, mulheres estrangeiras em situação irregular; > para as crianças: o dispositivo também deve ser completamente revisto. O inquérito actual inclui, com efeito, um número muito pequeno de menores. A partir desta constatação, ou se incluem no dispositivo do Observatório centros que ofereçam consultas pediátricas às crianças estrangeiras em situação irregular ou os pais recebidos (por si próprios) nestes centros devem ser inquiridos acerca dos seus filhos (o que não foi feito neste inquérito, apesar de estar previsto). 68 Questionário País: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Cidade: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Programa: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Nome do(s) investigador(s): _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 1. N° de questionário: _ _ / _ _ / _ _ / _ _ _ 2. Data de realização: _ _ / _ _ / _ _ _ _ dd/mm/aaaa Dados gerais 3. Data de nascimento: _ _ / _ _ / _ _ _ _ 4. Sexo: 1 M 2 dd/mm/aaaa ou Idade _ _ anos F Situação administrativa 5. Qual a sua nacionalidade? _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 6. Pertence a um grupo étnico? (questão facultativa) 1 sim 2 não Se sim, qual? _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 7. Quando deixou o seu país de origem? _ _ / _ _ _ _ mm/aaaa ou número de meses: _ _ _ meses ou número de anos: _ _ _ anos 8. Qual a data da sua última chegada a (país do inquérito)? _ _ / _ _ / _ _ _ _ dd/mm/aaaa 9. Há quanto tempo está sem autorização de estadia em (país do inquérito) (em meses)? _ _ _ _ meses 10. Recebeu alguma ordem para deixar o território? 1 sim 2 não Acesso à cobertura de saúde Para o investigador: Os critérios específicos para determinar se a pessoa pode beneficiar gratuitamente de cuidados de saúde devem estar numa folha em anexo – não serão tratados 11.Tendo em conta a situação administrativa, a pessoa poderia beneficiar gratuitamente de cuidados de saúde? 1 sim 2 não As questões 12, 13 e 14 só serão colocadas se a pessoa puder beneficiar gratuitamente dos cuidados de saúde 12. Sabe que a sua situação lhe permite beneficiar gratuitamente de cuidados de saúde numa estrutura de saúde de direito comum ou no sistema nacional de saúde? (a determinar a formulação consoante o país) 1 sim 2 não 13. Fez as diligências para aceder à cobertura de saúde? 1 sim 2 não 14. Se sim, possui actualmente o documento (cartão de saúde, certificado, …) necessário para beneficiar gratuitamente dos cuidados de saúde? 1 sim 2 não Acesso à prevenção, aos cuidados de saúde e aos tratamentos 15.A última vez que se sentiu doente em (país do inquérito), quem consultou? 1 2 3 não se sentiu doente não consultou ninguém consultou um médico / dentista 4 5 6 consultou um enfermeiro recorreu à medicina tradicional consultou um vizinho, amigo, família 7 outro : _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 4 5 6 numa associação / ONG em casa da pessoa em sua casa 7 outra : _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ 16. Onde se consultou ? 1 2 3 no hospital num consultório médico privado num centro de saúde 17. Qual era o seu problema de saúde ?_ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ código CISP _ _ _ 18. Recebeu uma recusa de cuidados por parte dos profissionais de saúde na altura do seu último problema de saúde? 1 sim 2 não 19. Como foi tratado? 1 com medicamentos prescritos ou dados por um médico 2 por automedicação 3 não tomou medicamentos / não foi tratado 69 20. Se tomou medicamentos, onde os obteve? 1 em (país do inquérito) 2 no seu país de origem 3 num terceiro país Acesso à despistagem e aos tratamentos ligados à infecção VIH / Sida Quando a despistagem é gratuita: 21. Sabe que pode beneficiar gratuitamente de uma despistagem para a infecção pelo VIH / sida? 1 sim 2 não Quando a despistagem não é gratuita: 21’. Sabe que pode aceder a uma despistagem para a infecção pelo VIH / sida pagando X euros? 1 sim 2 não 22. Sabe onde é possível fazer estes testes? 1 sim Onde __________ (sem tratamento) 2 não Quando o tratamento é gratuito: 23. Sabe que uma pessoa na sua situação administrativa e afectada pela infecção pelo VIH / sida pode beneficiar gratuitamente de um tratamento? 1 sim 2 não 24. Já quis fazer um teste de despistagem para a infecção pelo VIH / sida? 1 sim 2 não 25. Se não, porquê? várias respostas possíveis 1 2 3 4 medo da não confidencialidade dos resultados teste demasiado caro sabe que não tem acesso gratuito aos tratamentos não sabe que existe um tratamento 26. Se sim, conseguiu fazer um teste? 1 sim 2 5 6 7 8 não sabe se pode ter acesso gratuito aos tratamentos medo dos resultados não sente necessidade disso outra razão: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ não 27. Se conseguiu fazer este teste de despistagem, conhece o resultado desse teste? 1 sim 2 não Problemas de saúde / Acesso aos cuidados de saúde e aos tratamentos 28. Como é o seu estado de saúde em geral? Diria que ele é … 1 2 3 muito bom bom médio 4 5 6 mau muito mau não sabe 29. 30.31. Quais são os problemas de saúde e/ou doenças que o/a afectam hoje? São agudos ou crónicos? Estão a ser tratados? 29. Problema(s): CISP 30. Patologia: ______________ ______________ ______________ ______________ ___ ___ ___ ___ 1 1 1 1 aguda aguda aguda aguda 31.Tratamento em curso: 2 2 2 2 crónica crónica crónica crónica 1 1 1 1 sim sim sim sim 2 2 2 2 não não não não Assinalar apenas se as informações das questões 29, 30 e 31 foram obtidas a partir do declarativo do paciente (não do médico nem do enfermeiro na altura da recolha dos dados): 1 declarativo do paciente 32.Atraso no recurso aos cuidados de saúde para um dos problemas de saúde (avaliação do médico ou do enfermeiro): 1 sim 2 não 33.Tem um problema de abuso ou dependência de (Codificação CISP): Álcool Tabaco 1 1 sim = P15 sim = P 17 2 2 não não Medicamentos Outras drogas 1 1 sim = P18 sim = P19 35. Já consultou um médico (consulta especializada)? 1 sim 2 não 36. Foi-lhe proposto um tratamento? 1 sim 2 não 37. Se sim, fez esse tratamento? 1 sim 2 não 38. Faz tratamentos ARV? 1 sim 2 não (mas prescritos) 34. Se o paciente for VIH positivo: 1 2 2 não não código CISP B90 3 não (mas não prescritos) 39. Se não fez os tratamentos ARV prescritos, porquê? 1 2 3 tratamento demasiado caro medo dos efeitos secundários medo da estigmatização 4 5 6 dificuldades de observância recusa da terapia outro: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Obstáculos ao acesso e à continuidade dos cuidados de saúde 40. De forma geral, quais são os principais obstáculos que encontra no acesso e na continuidade dos cuidados de saúde? Várias respostas possíveis 11 medo de uma denúncia 6 não sabe onde ir 1 consulta demasiado cara 2 tratamento demasiado caro 7 barreira da língua 12 sem obstáculos 13 outra razão expressa : _ _ _ _ _ _ _ _ _ 3 horários dos serviços de saúde não adaptados 8 barreira cultural 4 dificuldades administrativas 9 recusa de cuidados de saúde por parte dos profissionais de saúde _________ 10 medo da discriminação 5 desconhecimento dos direitos 70 Questões especificas sobre a vacinação dos menores Questões para os menores consultados 41. O menor está vacinado e com as seguintes vacinas em dia? Cada país deve colocar aqui a lista dos tipos de vacinas consoante o país sem mudar o n° da questão mas adicionando: 41 a: tétano etc. …e responder para cada vacina. 1 2 sim (com um documento, um boletim de saúde que o comprove) sim à priori (a pessoa tem a certeza, mas não tem um documento que o comprove) 3 4 não (certeza de que não está) não sabe Questões 42, 43, 44, 45 e 46 a colocar a todas as pessoas que tenham filhos Quando as vacinas são gratuitas: 42. Sabe que o seu / os seus filho (s) pode(m) beneficiar gratuitamente da vacinação? 1 sim 2 não Quando as vacinas não são gratuitas: 42’. Sabe que o seu / os seus filho(s) pode(m) ser vacinados pagando X euros? 43. Sabe onde é possível levar essas vacinas? 1 1 sim 2 sim Onde _ _ _ _ _ _ _(sem tratamento) 44. Já quis vacinar o seu/os seus filho(s) em (país do inquérito)? 45. Se sim, conseguiu fazê-lo? 1 sim 2 não 1 2 não sim 2 não não 46. Se não conseguiu fazê-lo, porquê? 1 2 3 4 5 vacinas demasiado caras horários dos serviços de saúde não adaptados não sabe onde ir barreira da língua barreira cultural 6 7 8 9 medo de uma denúncia recusa as vacinas criança(s) não escolarizada(s) : não sentem necessidade outra razão expressa : _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ Questões específicas para as mulheres grávidas 47. Está grávida há quantos meses? 1 _ _ _ meses 48. Está a ser seguida em (país do inquérito) na gravidez? 1 sim 2 não 1 sim 2 não 2 não sabe 49. Se sim, já foi a quantas consultas? _ _ _ 50. Foram gratuitas (conforme o país do inquérito)? 51. Se não está a ser seguida (nenhuma consulta de acompanhamento e no mínimo três meses de gravidez), quais as razões para isso? Várias respostas possíveis 1 2 3 4 5 dificuldades financeiras dificuldades administrativas desconhecimento dos direitos não sabe onde ir barreira da língua 6 7 8 9 10 barreira cultural recusa de cuidados de saùde pelos dos profissionais de saùde medo de uma denúncia medo da discriminação horários não adaptados 11 não tem direito a acompanhamento gratuito da gravidez 12 não sabia que estava grávida 13 sem obstáculos 14 outra razão expressa: _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _ _____________________________ 52. Beneficiou de uma despistagem para a infecção pelo VIH / sida durante a gravidez? 1 sim 2 não Situação social 53.Vive: 1 só 2 em casal 54.Tem filhos? 1 sim Se sim, quantos? _ _ 3 em família, com amigos 2 não 55. Se sim, quantos vivem actualmente consigo? _ _ 56.A sua habitação é: 1 fixa (domicílio pessoal, partilhado, ou hospedagem fixa por amigos, família…) 2 precária (casa de familiares, amigos, habitação ilegalmente ocupada (com água – electricidade), caravana, lar…) 3 sem habitação (rua, abrigos, habitação ilegalmente ocupada sem água nem electricidade, alojamento de emergência…) 57. Quantas pessoas compõem o seu lar? _ _ 58. Dessas pessoas, quantas são crianças? _ _ 59. Exerce uma actividade para ganhar a vida? 1 sim 2 não 60. Mais ou menos de quanto dinheiro é que o seu lar dispõe para viver por mês, em euros? Cerca de _ _ _ _ € por mês Tem alguma coisa a acrescentar? ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ ___________________________________________________________________________ 71 «É preciso forjar o respeito e não o medo» F., paciente de MDM França, Lyon, Fevereiro de 2006 72 CONCEPÇAO GRAFICA E REALIZAÇAO Frédéric Blancot [email protected] IMPRESSAO Imprimerie COMELLI Av des deux lacs - ZA Courtabœuf 91000 Villejust TRADUÇAO Multilingues 21 CREDITO FOTOGRAFIA © Agence Meura © Valérie Dupont © Matias Costa © Martin Mazurkiewicz © Andrew Aitchison © MDM Espagne Cobertura Carta para a saúde de todas as pessoas estrangeiras residentes na Europa Introdução Obstáculos ao acesso e à continuidade dos cuidados de saúde Estado de saúde Acesso a uma cobertura de saúde Situação social Editorial Recomendações metodológicas © Yannis Giannakopoulos Apresentação do inquérito Características demográficas © Fabrice Demoulin Resumo do inquérito Conclusão 73 ISBN 2-9522405-7-4 - DEPOSITO LEGAL : junho 2007