Seminário URBFAVELAS 2014 São Bernardo do Campo - SP - Brasil RUMO A TRIAGEM: DILEMAS DO CONJUNTO HABITACIONAL BAIRRO CARIOCA NO ATUAL PROCESSO DE REASSENTAMENTO DE MORADORES DE FAVELAS DO RIO DE JANEIRO Rodrigo Lopes Cavalcanti Ribeiro (UFF) - [email protected] Sociólogo. Mestrando no Programa de Pós-graduação em Sociologia. PPGS-UFF Rumo a Triagem: dilemas do conjunto habitacional Bairro Carioca no atual processo de reassentamento de moradores de favelas do Rio de Janeiro Rodrigo Lopes Cavalcanti Ribeiro1 Resumo O Bairro Carioca, localizado num terreno de 120.000 m², na Zona Norte do Rio de Janeiro, vem se constituindo nos últimos dois anos como lugar central para o desenvolvimento do Plano Municipal de Integração de Assentamentos Precários Informais e do projeto “Morar Carioca”, realizado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e financiado pelo programa “Minha Casa, Minha Vida” do Governo Federal. Com 2.240 unidades habitacionais, distribuídas por 120 prédios e 11 blocos, recebe tanto novos proprietários que conseguiram financiar seus imóveis de forma espontânea, quanto moradores oriundos de novos processos de reassentamentos de localidades mais pobres de favelas da Zona Sul, do Centro e da Grande Tijuca. Tal política está diretamente relacionada aos megaeventos esportivos, resultando na aceleração das obras do PAC e à tendência da gentrificação carioca no grande eixo Zona Sul – Centro e Zona Portuária – Zona Oeste, configurando uma série de intervenções do poder público sobre favelas, como novo objeto de interesse imobiliário e turístico, reeditando com novas roupagens o fantasma da remoção e a constituição de novos conjuntos habitacionais de grandes dimensões que ora ressurgem na paisagem urbana do Rio de Janeiro. Palavras-Chave: Reassentamentos urbanos; Favelas cariocas; Bairro Carioca; Morar Carioca. Introdução O presente trabalho é fruto de uma pesquisa de Mestrado em andamento, realizada por Rodrigo Lopes Cavalcanti Ribeiro e orientada pelo Prof. Felipe Berocan Veiga no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense, cujo objetivo é estudar o novo conjunto habitacional Bairro Carioca, destinado sobretudo ao reassentamento de moradores localizados nas chamadas “áreas de risco” de várias favelas cariocas. Neste artigo, pretende-se articular teoricamente algumas questões sócio-históricas abordadas por pesquisadores urbanos na interface com os atuais e antigos projetos de intervenção em favelas cariocas, assim como apresentar questões do trabalho de campo. A partir de pesquisa de caráter etnográfico, o presente trabalho busca analisar os dilemas sociais e econômicos no contexto da atual política habitacional vigente no Rio de Janeiro, a partir da lógica da valorização imobiliária. 1 Mestrando no Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense – PPGSUFF. A partir de estudos sobre a favela, se começou a pensar sistematicamente a questão da habitação no Brasil. Apesar de essas primeiras análises datarem dos anos 1950, foi somente na década de 1960 que o assunto se firmou como objeto específico de reflexão. Nessa época não só a favela era tida como o próprio reduto habitacional da pobreza urbana como estava em voga nos meios acadêmicos e políticos a teoria da marginalidade social. Ligada ao surgimento e desenvolvimento de “bairros marginais” nas principais cidades latino-americanas, a marginalidade urbana apresentava-se, em sua versão inicial, enquanto uma problemática físico-ecológica. Era então sinônimo de “favela”, “mocambo”, “barriada”, “ranchos” etc. Num segundo momento, essa abordagem é superada: do habitat passa-se à maneira de viver e para uma situação de vida. Baixo nível de renda e educação, subemprego e desemprego, desorganização familiar, anomia, falta de participação social foram, entre muitos outros, traços associados a estes grupos. Tendo-se ampliado o leque de questões e enfoques, a associação entre marginalidade e precariedade habitacional soube, entretanto, subsistir, a ponto de sustentar uma ideologia que teve longa vigência na América Latina e no Brasil sob a forma de distintas políticas habitacionais: A marginalidade era compreendida como algo a ser erradicado materialmente, um sintoma que teria uma cura simples: remoção de favelas e construção financiada pelo governo de moradias adequadas de baixo custo. O que se verifica na atualidade é a redefinição da política urbanística municipal a partir do novo projeto Morar Carioca, com recursos do PAC (Urbanização de Assentamentos Precários) e do programa Minha Casa, Minha Vida, possui como lema “integrar todas as favelas do Rio à cidade formal”. Pretende promover um ordenamento no uso do solo urbano, a partir de três eixos principais: proteção ao meio ambiente (“ecoeficiência”), reassentamento e melhorias habitacionais. As velhas formas de habitação As mais variadas formas de moradias consideradas “irregulares” acompanham historicamente o tecido urbano do Rio de Janeiro ao lado das moradias formais, consolidando, desde o final do século XIX, uma concepção de cidade em que os mais pobres foram levados a subir os morros, constituindo assim as primeiras favelas. Segundo Lucien Parisse: ... mais que um simples abrigo, constitui um meio de se inserir na cidade, apesar de outras formas de habitação popular. Ela permite, melhor, ela favoriza a participação dos favelados nas atividades e nos modos de vida urbanos (Parisse apud Soares Gonçalves, 2013: 171) O significado da moradia na favela é um dos aspectos mais ressaltados na literatura. A partir das influências marcantes de William Mangin e do arquiteto Jonh Turner, muitos autores caracterizaram a favela como uma “solução” e não como um problema, salientando sua funcionalidade, envolvendo aspectos tais como: localização, não-pagamento de aluguel, economia de gastos com transporte, criatividade arquitetônica etc. Insiste-se inclusive em que, resultando de uma “ocupação ilegal”, a moradia na favela é, por força dessa própria condição, mais barata, de vez que dela se exclui o preço do terreno: compra-se, aluga-se ou vende-se apenas a benfeitoria. Várias favelas nasceram a partir da tolerância ou do incentivo do próprio Estado. A falta de moradia adequada e de políticas habitacionais adequadas para suprir a demanda dos diversos setores populares fazia (e ainda faz) entender que as favelas são lugares temporários, enquanto o Estado não consegue realizar ou realocar de forma digna esses contingentes populacionais. Nesse sentido, manter a “ilegalidade” e a precariedade é uma estratégia do Estado, mantendo para os moradores a posse temporária da área, mas não o direito de propriedade. Como observa Lucien Parisse, é esse não-reconhecimento oficial da ocupação do solo que transforma em realidade específica essas áreas em detrimento de outras na cidade. Rafael Soares Gonçalves, ao estudar o objeto jurídico da favela, constrói um apanhado histórico de determinadas leis e decretos que, ao invés de trazer o reconhecimento do solo, termina por reforçar a ilegalidade das áreas: Embora algumas leis tivessem reconhecido certos direitos sociais aos favelados, a legislação, de uma forma geral, reforçou o status ilegal imposto pelo Código de Obras de 1937, o que colocou a favela, segundo Camille Goirand, em uma espécie de ‘outro lugar urbano’ e justificou a indiferença dos poderes públicos para com o destino dessa categoria ‘ilegal’ da população, que, entretanto, era cada vez mais numerosa. É o que se mostra, por exemplo, o artigo 29 do Decreto-Lei Federal nº 8.938, de 26 de janeiro de 1946, que reafirmou a proibição de se construir novos barracos nas favelas e ordenou a demolição daqueles já existentes; ou então a Lei Municipal nº 660, de 19 de novembro de 1951, sobre a regularização das construções ilegais do Rio de Janeiro, que excluía, expressamente, as edificações situadas nas favelas existentes ou em formação. Em suma, essa lei, ao mesmo tempo que procurava regularizar alguns tipos de edificações ilegais existentes na cidade, confirmou nitidamente a rejeição absoluta de qualquer iniciativa que visasse o reconhecimento oficial das construções existentes nas favelas. (Soares Gonçalves, 2013: 171) A partir da década de 1960, com a criação do Banco Nacional de Habitação (BNH), se iniciou uma política habitacional no Rio de Janeiro com o objetivo de erradicação das favelas e de remoção de seus moradores para longínquos conjuntos habitacionais, dando início à ocupação de lugares como Cidade de Deus, Cidade Alta e Vila Kennedy. Uma vez deflagrado o golpe de 1964, a prioridade dada pela ditadura militar a à questão da habitação e seus interesses políticos fica expressa na carta de Sandra Cavalcanti, ex-secretária de Serviços Sociais do Governo Carlos, enviada ao primeiro presidente militar Castello Branco, sugerindo a criação do BNH: Achamos que a revolução vai necessitar agir vigorosamente junto às massas. Elas estão órfãs e magoadas, de modo que vamos ter de nos esforçar para devolver a elas uma certa alegria. Penso que a solução dos problemas de moradia, pelo menos nos grandes centros, atuará de forma amenizadora e balsâmica sobre as suas feridas cívicas. (apud Souza, 1974, p. 157). Para Licia do Prado Valladares, uma das primeiras pesquisadoras a estudar a questão habitacional no Brasil a partir dos contextos das remoções vigentes na década de 60 e 70: A criação do BNH está inserida num contexto de crise política e econômica com a qual se defrontava o “novo regime” instaurado com a “revolução” de 1964. A apreensão dessa crise e das medidas tomadas pelo Governo emergente na tentativa de superá-la é, via de regra, o ponto de partida dos trabalhos.”(Valladares, 1982: 38) Enquanto havia mudanças no campo político, no campo técnico/profissional também sopravam novos ventos. Os norte-americanos, através da USAID, haviam financiado a experiência das “vilas”. Logo em seguida, vários professores universitários dos EUA vieram avaliá-las e foram muito críticos aos planos vigentes para as favelas e de seus resultados. Já havia uma forte corrente negando as teorias da marginalidade com uma série de argumentos contrários à erradicação de favelas e favoráveis ao seu desenvolvimento urbanístico no próprio local que já ocupavam. Nesse período, a entrada da opinião pública foi fundamental, sensibilizada pelas favelas e pela sua posição ambígua no contexto urbano. Ainda havia um razoável grau de informação através da imprensa e o assunto suscitava bastante debate. No início de 1966 e 1967 grandes chuvas causaram catástrofes, com desabamento de morros e alagamento de áreas inundáveis. Revelou-se toda a fragilidade da cidade. Alguns de seus problemas, mantidos em discreto esquecimento, foram mostrados de forma escandalosa. Carlos Nelson Ferreira dos Santos, então importante urbanista que pensava as favelas, descreve: É nesse contexto político, profissional e de debate popular que pode ser explicada a ação de Negrão [de Lima, ex-governador do Estado da Guanabara] em relação às favelas. Depois de se comprometer a não mexer mais nelas, foi obrigado pelo governo federal a não fazer nada. Este chegou a criar um órgão chamado CHISAM, que, com o pretexto de coordenar ações a nível metropolitano (na época o aglomerado metropolitano do Rio se repartia entre dois Estados), de fato representava uma intervenção branca do BNH nas políticas habitacionais da Guanabara, tirando-lhe quaisquer pretensões à autonomia no setor. A ação da CHISAM foi notável, chegando em três anos a remover 28% da população favelada do Rio (Ferreira dos Santos, 1980:50) Na década de 1990, o governo local passou a lidar de outro modo com a questão, mais sensível à necessidade de promover debates e ações voltadas para a urbanização das favelas cariocas. Em 1994, a Prefeitura do Rio de Janeiro, juntamente com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), lançou o programa Favela Bairro. O programa foi dividido em três fases e, em sua primeira etapa, tinha como principal missão integrar e solucionar problemas nos serviços de abastecimento de água e esgotamento sanitário em favelas, assim como a contenção e a estabilização de encostas, a drenagem fluvial, a coleta de lixo, a circulação viária e a iluminação pública. Além disso, engajou arquitetos e urbanistas em projetos para a construção de áreas de convivência, como parques, praças e jardins, resultando também em trabalhos acadêmicos sobre o tema (FREIRE, 2005). Um novo conjunto habitacional para os removidos O Bairro Carioca, localizado em antigo terreno de 120.000 m² pertencente à Light Serviços de Eletricidade S/A2 em Triagem3, na Zona Norte do Rio de Janeiro, vem se constituindo, nos últimos dois anos, como lugar 2 A Cidade Light, como era chamada, foi inaugurada nesse mesmo local em 1930. Como a Light era a empresa que tinha a concessão dos principais serviços públicos – de transporte, de gás encanado, de telefonia e eletricidade –, ela resolveu concentrar em um único lugar toda a fabricação e conservação do material necessário para a manutenção desses serviços. 3 É um bairro não-oficial da cidade do Rio de Janeiro. A história conta que havia no local um prédio onde se fazia a “escolha”, isto é, a triagem, de presos no período do Estado Novo (1937) para enviar para os respectivos lugares. central para a execução do Plano Municipal de Integração de Assentamentos Precários Informais e dos objetivos do Programa Morar Carioca, realizado pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro e financiado pelo programa Minha Casa, Minha Vida do Governo Federal. Esse complexo habitacional está localizado a apenas 15 minutos em transporte público do centro da cidade, ao lado de uma estação de metrô e de um importante ramal ferroviário, além de possuir uma significativa oferta de linhas de ônibus. Possui 2.240 unidades habitacionais, espalhadas por 120 prédios e distribuídas por 11 blocos (foto 1). Em torno de 2 mil famílias já residem no local. A área do terreno possui drenagem e ruas asfaltadas entre os blocos, além de centros de convivência. De acordo com as informações oficiais4, a Prefeitura decidiu não padronizar a arquitetura dos prédios, para que cada bloco tivesse sua “identidade visual”, buscando quebrar a monotonia paisagística dos conjuntos habitacionais. Nesse novo bairro, a Prefeitura construiu uma escola municipal, uma Clínica da Família, uma praça com um centro de inclusão digital, um ginásio poliesportivo equipado, uma academia de ginástica, um espaço para a construção de um mercado popular, praças e áreas de lazer entre os blocos. Além disso, o Bairro Carioca dispõe de espaços para depósito de lixo, saneamento, rede de esgoto, água encanada, gás encanado, iluminação pública e rede wifi. À primeira vista, observa-se que houve uma mudança significativa no padrão de construção desse conjunto habitacional para os que historicamente foram construídos nas periferias da cidade e nos demais municípios da Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Como pontos notáveis da publicidade oficial estão em primeiro lugar a localização e a facilidade de acesso e, em seguida, a oferta de equipamentos públicos. 4 ver: http://www.rio.rj.gov.br/web/smh O Bairro Carioca vem recebendo tanto novos proprietários, que conseguiram financiar seus imóveis de forma espontânea5, quanto moradores oriundos de novos processos de reassentamentos de localidades mais pobres de favelas da Zona Sul (Santa Marta, Babilônia-Chapéu Mangueira, PavãoPavãozinho, Vidigal, Rocinha e Tabajaras), do Centro (São Carlos e Providência), da Grande Tijuca (Formiga, Borel, Salgueiro, Turano, Tanque, Andaraí e Morro dos Macacos), além dos Complexos do Alemão e do Lins na Zona Norte. Tal política de habitação está diretamente relacionada aos megaeventos esportivos e à tendência da gentrificação carioca no grande eixo Zona Sul – Centro e Zona Portuária – Zona Oeste (Barra da Tijuca e Jacarepaguá), configurando uma série de intervenções do poder público sobre favelas, como novo objeto de interesse imobiliário e turístico, reeditando com novas roupagens o fantasma da remoção e a constituição de novos conjuntos habitacionais de grandes dimensões que ressurgem na paisagem urbana do Rio de Janeiro. O novo continua velho: urbanização com remoção O que se verifica na atualidade é a redefinição da política urbanística municipal a partir do novo projeto Morar Carioca, diretamente conectado ao plano do legado urbano dos Jogos Olímpicos 2016, com objetivo de “urbanizar todas as favelas ‘urbanizáveis’ até 2020”, tal como estabelece o Planejamento estratégico Rio pós-2016 da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro6. Com recursos do programa Minha Casa, Minha Vida, totalizando cerca de 8 bilhões de reais, o Morar Carioca possui como lema “integrar todas as favelas do Rio à cidade formal”. Pretende promover um ordenamento no uso do solo urbano, a partir de três eixos principais: proteção ao meio ambiente (“ecoeficiência”), reassentamento e melhorias habitacionais. A partir de um convênio firmado com o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), o programa constituiu normas urbanísticas na esfera municipal para reger a ocupação do uso do solo, estabelecendo parâmetros sobre as características físicas de cada uma das áreas. No quadro dessas normas, promove-se a propaganda governamental, considerando os modos de “reverter o crescimento urbano e desordenado, criando formas de cidadania à população de baixa renda”, com intuito declarado de “promover a urbanização com inclusão social, envolvendo a participação da comunidade”. Dentre as diversas notáveis contradições existentes entre o programa Morar Carioca e o Plano Estratégico Rio Pós-2016, destaca-se que o primeiro estabelece que 97% da população vivendo em favelas ocupam áreas passíveis de urbanização, enquanto o segundo afirma que, até 2016, a Prefeitura pretende diminuir em 5% as áreas de favelas no Rio de Janeiro. Tal contradição demonstra a falta de lógica programática dentro do próprio poder público, utilizando diferentes parâmetros em seus projetos de maior visibilidade. 5 Programa Minha Casa, Minha Vida. Ver: http://www.rio.rj.gov.br/planoestrategico/ 6 A falta de parâmetros objetivos para definir quais áreas são removidas e por quais motivos, colocam milhares de famílias a margem no posicionamento do solo urbano carioca, determinando cada vez mais a ação da especulação imobiliária na cidade do Rio de Janeiro. Alguns órgãos públicos como o Núcleo de Terras da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro, assim como setores da sociedade civil e dos movimentos sociais com ações nas favelas e periferias da cidade, vêem denunciando a possível ligação do Estado e dos Governos (Municipal e Estadual), assim como outros setores do poder público, com interesses imobiliários, grandes eventos e a desapropriação de áreas para o planejamento urbano municipal. Abaixo podemos verificar o quadro das comunidades removidas ou ameaçadas de remoção nos diferente bairros e áreas estratégicas dentro da capital carioca, além das justificativas do poder público e o número de famílias afetadas, estabelecido pelo Dossiê do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas do Rio de Janeiro7, intitulado “Megaeventos e Violações dos Direitos Humanos no Rio de Janeiro” lançado em maio de 2013. 7 Ver: www.comitepopulario.wordpress.com/tag/dossie Os grandes investimentos em infraestrutura implementados pela atual Prefeitura carioca e seu programa maior de urbanização vem estimulando a especulação imobiliária em favelas da Zona Sul, inserindo a capital carioca no circuito global de cidades-commodities e favorecendo a gentrificação por toda parte. Em contrapartida, as ofertas de moradias populares oferecidas pelo Minha Casa Minha Vida se concentram em torno de 80% em áreas da Zona Oeste da cidade e que não receberão os grandes investimentos destinados a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Abaixo podemos observar uma tabulação feita pelo Observatório das Metrópoles com os dados extraídos da Caixa Econômica Federal em 2012. Essa forma de urbanização aliado dos interesses imobiliários não se verifica apenas na atualidade carioca, fato este comprovado historicamente desde a primeira experiência em Brás de Pina, analisada pelo arquiteto e urbanista Carlos Nelson Ferreira dos Santos e pela socióloga Licia Valladares: O caso de Brás de Pina chamou também a atenção dos estudiosos para a ‘falsa oposição entre remoção e urbanização de favelas’, uma vez que a urbanização pode implicar, ao longo do tempo, numa remoção branca, com os antigos moradores sendo substituídos por força das leis do mercado imobiliário. Chegou-se mesmo a sugerir que ‘a polarização remoção/urbanização, imposta pela intervenção do Estado, dificulta a análise (tanto política quanto acadêmica) da questão da habitação nas favelas. Isso porque políticas muito diferentes – como, por exemplo, a implementada com a criação dos parques proletários e a levada a cabo pela Cohab no Rio de Janeiro – terminam por ser entendidas como equivalentes. Por outro lado, as atuações da Codesco e do Promorar são também vistas como práticas de urbanização, sem que se atente para suas profundas diferenças. (Valladares, 1982: 36) O conceito de gentrification, utilizado pela socióloga inglesa Ruth Glass em 1964 a partir do enobrecimento do espaço urbano em bairros e distritos de Londres, se aplica perfeitamente à atual conjuntura do Rio de Janeiro. Tal como ocorreu em Londres, ao mesmo tempo em que o poder público investe na chamada “revitalização” das áreas centrais e de periferias industriais, o solo urbano vai ficando cada vez mais caro, levando à saída de setores populares dessas áreas e à imediata ocupação pela classe média. Desse modo, a partir de uma visão social e historicamente construída de que “morar bem” no Rio de Janeiro significa morar próximo da praia, a elite carioca migrou para a Zona Sul ao longo do século XX e logo encontrou favelas na região, o que não se configurava como “cenário ideal”, levando à atuação arbitrária do poder público com intuito de erradicar e levar a “civilidade” para as pessoas moradoras das favelas, amontoando-as em conjuntos habitacionais construídos em áreas periféricas na cidade do Rio de Janeiro. No entanto, o remanejamento em massa de pessoas sem o devido planejamento criou problemas para uma série de outros setores, como transporte, saúde e segurança, e tampouco resolveu a questão da habitação. Nesse sentido, o empreendimento “Bairro Carioca” situa-se como nova política habitacional em que o poder público tenta dar respostas aos problemas técnicos, historicamente criticados no Rio de Janeiro. Dentre eles, a localização distante dos conjuntos habitacionais; as dificuldades de acesso a transportes públicos para os moradores; a falta de equipamentos públicos básicos para a cidadania como escolas, hospitais, praças e outros; a falta de saneamento básico; e o excesso de padronização das edificações construídas. Processos de reassentamentos de moradores de áreas mais pobres de várias favelas cariocas, contudo, vem criando hierarquias espaciais no novo bairro e levando famílias ao endividamento e à inadimplência, diante da adesão compulsória ao Programa “Minha Casa, Minha Vida”. Reatualizando velhas questões Ao analisarmos as remoções e a urbanização das favelas, assim como os reassentamentos promovidos pelo poder público, estamos não apenas discutindo a questão habitacional, mas principalmente a situação das pessoas que necessitam da política pública, que geralmente são transformados pelo próprio Estado nos estigmatizados. Erving Goffman8 descreve o conceito de estigma a partir dos relacionamentos constituídos com “outras pessoas”, às quais, de forma subjetiva e inconsciente, construímos pré-noções sobre os outros. A atual etnografia em andamento com os moradores do Bairro Carioca, no mostra algumas características estabelecidas por Goffman em seu conceito de estigma. Ao conversarmos com o primeiro morador a chegar no Bairro Carioca, podemos observar determinadas semelhanças com outras experiências de moradores que foram removidos ao longo da história das remoções no Rio de Janeiro. O Sr. Wilson, como é conhecido, chegou no Bairro Carioca em agosto de 2012, após morar por 40 anos no morro do Salgueiro. Casado e pai de 11 filhos, se tornou um dos expoentes principais da nossa pesquisa de campo como uma personalidade pública vocacional, conforme o conceito de Jane Jacobs utilizado por Mello, Vogel e Santos no livro “Quando a Rua vira Casa”. A casa do Sr. Wilson no morro do Salgueiro foi condenada pela GEO-Rio9 por situar-se em “área de risco”. Depois de sair de sua residência, passou a receber o aluguel social10, até ser beneficiado por um apartamento no Bairro Carioca. Ao descrever sua experiência, o informante diz que, ao chegar no novo conjunto habitacional, pôde escolher o apartamento no Lote 1, apesar de que a Direcional Engenharia ainda estivesse fazendo obras por todo conjunto habitacional. O senhor nos mostra que ainda há 3 lotes para ser inaugurado e que ainda há “muita gente para chegar”. Ao perguntarmos se a vida melhorou, ele diz que sim, apesar de afirmar que a prefeitura poderia melhorar a infraestrutura e de compartilhar a visão de outros moradores sobre o “encarecimento” do custo de vida, pois na favela não tinha vários tributos legais que dentro do condomínio passaram a existir: “muita gente aqui reclama das contas, tenho uma vizinha que me fala – poxa, Wilson, lá na favela eu não precisava de pagar condomínio, água, luz, net. (...) É por isso que algumas pessoas que receberam a casa já ‘vendeu’ e voltou para a favela”. Nesse sentido, Lícia Valladares observa que a favela pode ser tanto o início como o fim de uma mesma trajetória. Analisando as remoções ocorridas, constatou que seu morador comum, mais cedo ou mais tarde: 8 Erving Goffman (1922-82) atribui o conceito de “estigma” na obra Stigma - Notes on the Management of Spoiled Identity, de 1963. 9 A Fundação Instituto de Geotécnica – Geo-Rio – é o órgão da Secretaria Municipal de Obras responsável pela contenção de encostas. 10 Benefício assistencial temporário, instituído no âmbito do Programa Estadual Morar Seguro, destinado a atender necessidades advindas da remoção de famílias domiciliadas em áreas de risco ou desabrigadas em razão de vulnerabilidade temporária e calamidade pública. ...levado pelas mais diversas contingências, tendia a deixar o conjunto habitacional, seja voluntárias, seja compulsoriamente. Voltava então para a favela, ou se instalava na periferia do Grande Rio, em pequenos lotes de áreas semi-urbanizadas. Fechava-se assim um círculo vicioso: da favela ao conjunto habitacional e de volta à favela” (Valladares, 1978, p.17) Quando perguntamos se os moradores estão se adaptando e convivendo bem no novo lugar, o Sr. Wilson responde: “acho que as pessoas ainda estão se adaptando, mas muita gente não tem educação, não sabe cuidar dos filhos, não sabe tratar do lixo, não aprende a conviver num ambiente como esse.”. O novo morador e pioneiro do Bairro Carioca internalizou, como observa Bourdieu11, um determinado valor distintivo, socialmente construído a partir da violência simbólica que sofrem os moradores e ex-moradores de favelas, como que imputando ao outro (e não a si mesmo)o “comportamento favelado”. Ao estudar os conjuntos habitacionais de Cidade Alta, o historiador Mario Sergio Brum identifica esses aspectos do estigma que persegue o favelado como uma identidade social deteriorada: A favela, desde sua origem, já possui estigmas a ela associados. Mais que isso, os estigmas são partes essenciais para a construção do conceito de favela, estando a ele associado de forma inexorável. Na sua própria essência, a favela é o estigma, pois aponta uma área urbana onde existem os sinais do que não deveria haver numa cidade que se queria moderna e/ ou civilizada. ( BRUM, 2012:40) Algumas outras questões devem ser levadas em consideração no processo de remoção e dos reassentamentos por parte do Estado, sobretudo do ponto de vista simbólico e da forma de atuação autoritária do poder público. As marcações que a Secretaria Municipal de Habitação da Cidade do Rio de Janeiro (SMH) estabelece nas casas em “áreas de risco” ou de interesse da Prefeitura são consideradas ofensivas e/ou desrespeitosas pela sua forma e descaso. Alguns moradores denominaram de “pichações oficiais”, pelo fato de ser feita com spray de tinta utilizada ilegalmente nas pichações nos meios urbanos, ou então comparam com “marcações feitas a ferro em gado”. 11 Processo de diferenciação social em que Pierre Bourdieu (1930-2002) desenvolve em A Distinção – Crítica Social do Julgamento (1979). Sendo assim, é possível verificar vários casos em que existe pouco ou nenhum diálogo do poder público com moradores que estão sofrendo diretamente os impactos do projeto urbanístico em curso na cidade do Rio de Janeiro. Como aponta o relatório do Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas: Para além das remoções, estão em curso transformações mais profundas na dinâmica urbana do rio de Janeiro, envolvendo, de um lado, novos processos de elitização e mercantilização da cidade, e de outro, novos padrões de relação entre o estado e os agentes econômicos e sociais, marcados pela negação das esferas públicas democráticas de tomada de decisões e por intervenções autoritárias, na perspectiva daquilo que tem sido chamado de cidade de exceção. Decretos, medidas provisórias, leis votadas ao largo do ordenamento jurídico e longe do olhar dos cidadãos, assim como um emaranhado de portarias e resoluções, constroem uma institucionalidade de exceção. Nesta imposição da norma a cada caso particular, violam-se abertamente os princípios da impessoalidade, universalidade e publicidade da lei e dos atos da administração pública. De fato, as intervenções em curso envolvem diversos processos nos quais os interesses privados têm sido beneficiados por isenções e favores, feitos em detrimento do interesse público, legitimados em nome das parcerias públicoprivadas. (p.30) Conclusões Preliminares A Cidade do rio de Janeiro está sendo palco de diversos projetos visando à preparação da cidade para a Copa do mundo de 2014 e para os Jogos olímpicos de 2016. Em grande medida, os projetos estão incluídos dentro do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), sobretudo no que diz respeito a mobilidade urbana e ao chamado urbanização de assentamentos precários. Em vista do legado dos grandes eventos houve um aceleramento de determinadas obras, o que serviu de justificativa para várias atuações (legais e ilegais) do poder público municipal em áreas de favelas. As mesmas não incluem apenas instalações esportivas e a reforma do estádio do maracanã, mas também infraestrutura no campo da mobilidade urbana (modernização e expansão do metrô, construção de corredores de ônibus, obras viárias de acesso à área urbana e reformas do Aeroporto internacional tom Jobim) e projetos de reestruturação urbana. Todas essas transformações promovem um grande deslocamento populacional por parte das remoções e reassentamentos de moradores em áreas de interesse do poder público, assim como por parte do aumento do custo de vida, o que acelera o processo de gentrificação em algumas áreas da cidade. No caso do rio de Janeiro, fica claro que o projeto de atração de investimentos tão propagandeado pelo poder público municipal e estadual com a realização da Copa do mundo de futebol de 2014 e dos Jogos olímpicos de 2016 tem como um componente importante o deslocamento dos pobres das áreas valorizadas, como o bairro da barra da tijuca e do recreio, ou que serão contempladas com investimentos públicos, como os bairros de Vargem grande, Jacarepaguá, Curicica, Centro e maracanã. Nestes bairros, áreas de expansão do capital imobiliário, a prefeitura municipal atua como uma máquina de remoção de casas populares. A maioria das remoções está, portanto, localizada em áreas de extrema valorização imobiliária. Os investimentos públicos realizados em transporte (brts) privilegiaram esses mesmos espaços, multiplicando as oportunidades de outros investimentos e de retorno financeiro na produção habitacional para classes média e alta e na produção de imóveis comerciais. Quanto às construções destinadas aos atletas e equipamentos esportivos – vila dos atletas no rio Centro e parque olímpico – após os jogos, serão transformadas em empreendimentos residenciais de luxo, comercializados pelas empreiteiras “parceiras” dos governos municipal e estadual. Já os conjuntos habitacionais produzidos pelo programa minha Casa minha Vida (destinado às famílias com rendimentos de até três salários mínimos) para atender à população removida, não estão localizados, em sua grande maioria, nas áreas beneficiadas com investimentos para a Copa e as olimpíadas, mas nas áreas periféricas da cidade, as quais possuem baixa cobertura dos serviços públicos e da infraestrutura urbana. Cabe destacar que, em alguns casos, a ausência ou precarização dos serviços públicos será provocada pelo recebimento de um contingente enorme de pessoas sem a correspondente ampliação dos serviços. Ao analisarmos a situação dos reassentados no novo conjunto habitacional Bairro Carioca em Triagem, podemos observar características já estudadas por outros pesquisadores na área habitacional e de planejamento urbano do Rio de Janeiro, que se repetem e reatualizam nessa nova localidade, desde aos novos problemas econômicos colocados pelo Estado de direito e deveres até aos estereótipos e estigmas socialmente produzidos. Por fim, devemos salientar que estamos numa jornada inicial de pesquisa e que o campo se consolidará de forma mais definitiva a partir do tempo, da experiência e dos novos olhares que vão surgir ao longo do percurso. Referências Bibliográficas BATALLER, Maria Alba Sargatal. El estudio de la gentrificación, in Revista Bibliográfica de Geografía y Ciencias Sociales - nº 228. Universidad de Barcelona, 2000. BOURDIEU, Pierre. A Distinção – crítica social do julgamento. São Paulo, Zouk, 2009. BRUM, Mario Sergio. 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