COLEÇÃO PESQUISA PROEJA NO RS Organização Geral: Naira Lisboa Franzoi Maria Clara Bueno Fischer Mauro Augusto Burkert Del Pino Álvaro Moreira Hypolito Carla Odete Balestro Silva Simone Valdete dos Santos Ana Cláudia Ferreira Godinho Maria Clarice Rodrigues de Oliveira Janaina Marques Silva Rita de Cássia Dias Costa Naira Lisboa Franzoi Maria Clara Bueno Fischer (Organizadoras) Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Pelotas Editora da Universidade Federal de Pelotas 2012 Obra publicada pela Universidade Federal de Pelotas Reitor: Prof. Dr. Antonio Cesar Gonçalves Borges Vice-Reitor: Prof. Dr. Manoel Luiz Brenner de Moraes Pró-Reitor de Extensão e Cultura: Prof. Dr. Gilberto de Lima Garcias Pró-Reitora de Graduação: Prof.Cláudio Manoel da Cunha Duarte Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação: Prof. Dr. Manoel de Souza Maia Pró-Reitor Administrativo: Prof.Dr.Luiz Ernani Gonçalves Ávila Pró-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento: Rogério Daltro Knuth Pró-Reitor de Recursos Humanos: Admin. Roberta Trierweiler Pró-Reitor de Infra-Estrutura: Renato Brasil Kourrowski Pró-Reitora de Assistência Estudantil: Assistente Social Carmen de Fátima de Mattos do Nascimento CONSELHO EDITORIAL Profa. Dra. Carla Rodrigues Profa. Dra. Cristina Maria Rosa Profa. Dra. Flavia Fontana Fernandes Profa. Dra. Francisca Ferreira Michelon Profa. Dra. Luciane Prado Kantorski Profa. Dra. Vera Lucia Bobrowsky Prof. Dr. Carlos Eduardo Wa Prof. Dr. José Estevan Gaya Prof. Dr. Luiz Alberto Brettas Prof. Dr. Vitor Hugo Borba M Prof. Dr. Volmar Geraldo da Prof. Dr. William Silva Barro Diretor da Editora e Gráfica Universitária: Carlos Gilberto Costa da Silva Gerência Operacional: João Henrique Bordin Capa: Nativu Design Editoração: Flávia Garcia Guidotti Impresso no Brasil ISBN: 978-85-7192-828-2 Tiragem: 500 exemplares EDITORA E GRÁFICA UNIVERSITÁRIA R Lobo da Costa, 447 – Pelotas, RS – CEP 96010-150 Fone/fax: (53) 3227 8411 e-mail: grá[email protected] Dados Internacionais de Catalogação na Publicação: Bibliotecária Daiane Schramm – CRB-10/1881 C976 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA. / Organizado por Ana Cláudia Ferreira Godinho [...et al]. – Pelotas: Ed. da UFPEL, 2012. 358 p.; gráf.; tabs. (Coleção Pesquisa PROEJA no Rio Grande do Sul, v.1) ISBN 978-85-7192-828-2 1. Educação. 2. Currículo. 3. Saberes do trabalho. 4. PROEJA. 5. Educação profissional. CDD 370 SUMÁRIO PREFÁCIO DIREITO À EDUCAÇÃO E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO PROEJA – VOLUME I Domingos Leite Lima Filho ....................................................................................................................7 PARTE I – CURRÍCULO.....................................................................................................................17 APRESENTAÇÃO: PROPOSTAS DE CURRÍCULO PARA O PROEJA Álvaro Moreira Hypolito .......................................................................................................................19 CURRÍCULO INTEGRADO NO PROEJA Andressa Aita Ivo; Valdinei Marcolla; Álvaro Moreira Hypolito...........................................................25 OS DESAFIOS DO CURRÍCULO INTEGRADO NO PROEJA Lilian Carla Molon; Lílian Escandiel Crizel ..........................................................................................49 O PAPEL DA EXPERIMENTAÇÃO NO ENSINO VOLTADO PARA ALUNOS DE PROEJA Silvana Tabarelli Kaminski; Karla Marques da Rocha ........................................................................65 CURRÍCULO INTEGRADO NO PROEJA: CAMINHOS INÉDITOS PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS!? Rita de Cássia Dias Costa; Bernhard Sydow; Simone Valdete dos Santos.......................................77 O CURRÍCULO INTEGRADO DO PROEJA E SEUS DIFERENTES REFLEXOS PARA GESTORES, PROFESSORES E ALUNOS Josiane Machado Godinho; Simone Valdete dos Santos...................................................................97 ANÁLISE DO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROEJA FIC NO CAMPUS SANTO AUGUSTO DO IF FARROUPILHA Marieli da Silva Marques; Cristina Bandeira Townsend ...................................................................115 6 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA PROBLEMATIZAÇÕES E POSSIBILIDADES ACERCA DO CURRÍCULO INTEGRADO PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Janaina Marques Silva ......................................................................................................................133 EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM UM GALPÃO DE RECICLAGEM: DINÂMICAS DO COTIDIANO Bianka Biazuz Vicente.......................................................................................................................151 PARTE II – SABERES DO TRABALHO ..........................................................................................167 APRESENTAÇÃO: SABERES DO TRABALHO Ana Cláudia Ferreira Godinho; Maria Clarice Rodrigues de Oliveira ...............................................169 TRABALHADORES EM SALA DE AULA: O QUE A ESCOLA CONHECE SOBRE OS SABERES EXPERIENCIAIS DE ALUNOS DO PROEJA? Naira Lisboa Franzoi; Ana Claudia Ferreira Godinho; Maria Clarice Rodrigues Oliveira; Maria Clara Bueno Fischer................................................................................................................177 SABERES, TRAJETÓRIAS E PERSPECTIVAS PROFISSIONAIS DE ALUNOS: O PROEJA NO ENCONTRO DE PROJETOS DE ESCOLA E DE TRABALHADORES Maria Clara Bueno Fischer; Naira Lisboa Franzoi ............................................................................199 SABERES-EXPERIÊNCIA DE TRABALHO DOS ALUNOS DO PROEJA Anália Martins ....................................................................................................................................225 PROEJA: ESPAÇO DE REFLEXÃO SOBRE A CONSTRUÇÃO DO DESENVOLVIMENTO LOCAL NA ESCOLA Damiana de Matos Costa França; Naira Lisboa Franzoi..................................................................245 CRUZANDO AS FRONTEIRAS DOS SABERES: DO TRABALHO NA FUMICULTURA, DA FORMAÇÃO PROFISSIONAL E DO DESENVOLVIMENTO LOCAL Maria Clarice Rodrigues de Oliveira..................................................................................................265 MEMÓRIAS, TRAJETÓRIAS E LEGADOS DOS ESTUDANTES-TRABALHADORES NO ESPAÇO ESCOLAR Fernanda Zorzi; Juraciara Paganella Peixoto; Naira Lisboa Franzoi ...............................................285 A ARTE DE COSTURAR: UM OLHAR SOBRE AS EXPERIÊNCIAS DE VIDA, UM CAMINHO PARA ELEVAÇÃO DO CONHECIMENTO EM CURSOS DE FORMAÇÃO DE ADULTOS Diovana de Lima; Fabiana Alves Gass; Fátima F. R. de Oliveira ....................................................303 ENTRE HISTÓRIAS, SABERES E FAZERES – RELAÇÕES DE MULHERES TRABALHADORAS DOMÉSTICAS COM O SABER Liana Pereira Machado Canto...........................................................................................................311 TRAJETÓRIAS E USOS DE SI DE MULHERES NA CIRCULAÇÃO DE SABERES E VALORES EM CURSO DE PROEJA Ana Cláudia Ferreira Godinho...........................................................................................................331 AUTORES .........................................................................................................................................351 PREFÁCIO – DIREITO À EDUCAÇÃO E PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO NO PROEJA – VOLUME I Domingos Leite Lima Filho1 É! A gente quer viver pleno direito A gente quer viver todo respeito A gente quer viver uma nação A gente quer é ser um cidadão Gonzaguinha A não garantia de condições plenas para a realização do direito à educação das crianças e adolescentes oriundas das camadas populares e da classe trabalhadora brasileira, ao longo da história nacional, tem sido a causa geradora de um enorme contingente populacional de milhões de brasileiros jovens e adultos trabalhadores que, em não concluindo sua escolarização básica, são submetidos a um processo de exclusão social ainda mais severamente agravado pelo ingrediente do déficit educacional que carregam consigo em razão do modelo social excludente. Este fato social constitui parte do processo de negação da cidadania e da pertença a uma nação, da negação do pleno direito e do respeito à pessoa humana. E são as vozes desses excluídos que podemos 1 Universidade Tecnológica Federal do Paraná. 8 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA identificar na canção É, do poeta e compositor Gonzaguinha, colocada na epígrafe deste texto. Quais são, efetivamente, os obstáculos sociais – conjunturais e estruturais – que se antepõem à realização do pleno direito à educação e à cidadania a grande parte da população brasileira? Quais são os elementos políticos, econômicos e culturais que ensejam a sua continuidade negativa e quais são as potencialidades, e ao mesmo tempo os limites, das políticas educacionais para agir em contrário a tais determinações? É buscando contribuir para identificar os elementos condicionantes e determinantes desse processo histórico de exclusão educacional e social, para delimitar os seus contornos e melhor conhecer as lacunas, omissões, intenções manifestas ou implícitas, negações e afirmações constituintes e constituídas pelas políticas educacionais passadas e vigentes, visando perspectivar as possibilidades de seu enfrentamento e superação, que se encaminham os textos dos dois volumes da coleção "Estudos sobre o Proeja", intitulados: Volume I - "Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA" e Volume II - "Formação docente, acesso e permanência na educação profissional: estudos sobre o PROEJA", ora trazidos a público pelos autores, pesquisadores e componentes do Grupo de Pesquisa CAPES/PROEJA do Rio Grande do Sul. Nesse sentido, o presente livro, o volume I, "Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA", apresenta reflexões e resultados de trabalhos investigativos realizados no âmbito do Projeto de Pesquisa "Experiências de Educação Profissional e Tecnológica Integrada à Educação de Jovens e Adultos no Estado do Rio Grande do Sul", no período de 2007 a 2011. O referido projeto, de natureza interinstitucional, conta com a participação de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade Federal de Pelotas (UFPEL), Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e dos três institutos federais de educação, ciência e tecnologia do Estado do Rio Grande do Sul, a saber, Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSUL) e Instituto Federal Farroupilha (IFFarroupilha). Prefácio – Direito à educação e produção do conhecimento no PROEJA – Volume I 9 O referido projeto de pesquisa está situado no âmbito do Programa de Apoio ao Ensino e à Pesquisa Científica e Tecnológica em Educação Profissional Integrada à Educação de Jovens e Adultos e conta com financiamento da Fundação Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e da Secretaria de Educação Tecnológica do Ministério da Educação (MEC/SETEC), tendo por objetivo contribuir na consolidação de um campo de estudos teórico-metodológicos interdisciplinar nascido da confluência entre Educação Profissional (EP) e Educação de Jovens e Adultos (EJA), subsidiando assim a formulação de políticas públicas na área. A produção aqui apresentada, em grande parte, porém não se limitando a isto, tem como objeto a investigação das ações desenvolvidas no âmbito do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). Com efeito, o projeto de pesquisa localiza-se nas ações de indução desenvolvidas pela CAPES e MEC/SETEC com vistas à constituição e fortalecimento de redes de cooperação acadêmica voltadas à formação de pesquisadores, à produção de conhecimento e ao exame das políticas educacionais relacionadas à temática. A não conclusão da educação básica por um imenso contingente da população é, sem dúvida, uma das marcas mais significativas da exclusão social no país e a não concretização do direito educacional a jovens e adultos que não concluíram suas etapas de escolarização na idade considerada "própria". Este segue sendo um dos problemas centrais não resolvidos pela política educacional brasileira. Nesse sentido, o Documento Base do PROEJA já destacava que o programa tem o objetivo de contribuir para a superação do quadro de 68 milhões de Jovens e Adultos trabalhadores brasileiros com mais de 15 anos que não concluíram o Ensino Fundamental, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), enfatizando que, destes, apenas 6 milhões, o que corresponde a 8,8%, estão matriculados na Educação de Jovens e Adultos.2 Tão graves, ou ainda mais graves, quanto os BRASIL. Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA. 2 10 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA dados apresentados para a educação fundamental, são os indicadores relativos ao ensino médio. De acordo com dados do censo populacional3, em 2009 o Brasil possuía 135 milhões de pessoas com 18 anos ou mais de idade, dos quais 101,2 milhões não haviam concluído o Ensino Médio. A realidade é que "todos esses números enfatizam mais uma vez que não se trata, na realidade brasileira, de considerar a demanda por educação de jovens e adultos como residual".4 Os dados estatísticos nos possibilitam um importante conhecimento geral da realidade. No entanto, quando se trata de conceber e efetivar políticas públicas, em especial as que tenham por objetivo interferir nessa realidade, transformando-a no sentido da reversão de quadros de exclusão social e educacional, como é o caso demandado por políticas de elevação da escolaridade e da formação profissional de jovens e adultos trabalhadores, é fundamental o conhecimento aprofundado das condições concretas enfrentadas no processo educacional, o que implica conhecer e considerar, na concepção e execução da política pública, as condições concretas vivenciadas pelas escolas e pelos sujeitos educadores e educandos. No caso específico da EJA e do PROEJA é fundamental considerar que os alunos potenciais e reais são, em sua grande maioria, jovens e adultos trabalhadores, oriundos das classes populares, os quais têm e tiveram, desde muito cedo, que enfrentar as duras condições de garantir a sobrevivência pelo trabalho, ou na busca incerta dele. Condições estas que os levaram e os levam às necessidades de compartilhar cotidianamente a realização de atividades do trabalho e atividades educacionais e, muitas vezes, à imperiosa decisão de abandonar uma delas, ou, em decorrência destas mesmas determinações, a ser excluídos da escola, do trabalho Educação Profissional Técnica de Nível Médio/Ensino Médio. Documento Base. Brasília: MEC/SETEC, 2007. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (PNAD) – 2003 e 2009. Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/trabalhoerendimento/ pnad2009/brasil_defaultzip_brasil.shtm>. Acesso em: 20/06/2011. 3 MACHADO, M. M. Quando a obrigatoriedade afirma e nega o direito à educação. Revista Retratos da Escola, Brasília, v. 4, n. 7, p. 245-258, jul./dez. 2010. 4 Prefácio – Direito à educação e produção do conhecimento no PROEJA – Volume I 11 ou de ambos, tornando-se assim sujeitos de trajetórias sociais – profissionais e educacionais – interrompidas, frágeis, quebradas. Nesse sentido, é necessário considerar a centralidade das condições de existência dos sujeitos da EJA e do PROEJA no marco de relações sociais contraditórias que deles exigem tempos individuais e sociais diferenciados, saúde e condições materiais e intelectuais para cumprir cotidianamente as demandas da escola, do trabalho e do lar. Tal conhecimento concreto demanda a realização de pesquisas específicas, com foco nos sujeitos e nas instituições escolares, com vistas à identificação dos obstáculos à plena realização do processo epistemológico (ao exercício do processo ensino-aprendizagem) e do processo social e político (a garantia dos direitos à cidadania, à educação e ao trabalho) bem como permitam o delinear dos limites, possibilidades e condições necessárias ao seu enfrentamento e superação. Vale reiterar que tal quadro, embora apresente características conjunturais relevantes, tem natureza estrutural e é condicionante de processos de exclusão de longo prazo, concernentes ao modelo social dominante do capitalismo e às características próprias assumidas pelo Estado brasileiro em sua integração a este sistema. No entanto, na medida em que tal quadro de dominância não se dá sem contradições e sem processos de resistência, a concepção e implementação de políticas públicas é sempre um campo de disputas, de correlação de forças, em que distintos projetos societários se enfrentam, na direção da elucidação ou, do contrário, do mascaramento das condições de dominação e exclusão; na perspectiva de seu enfrentamento com vistas à superação ou, do contrário, na perspectiva de sua reiteração, recrudescimento ou de tópicas mudanças pontuais que mantêm inalteradas a essência das condições pretéritas. Nesse sentido, quando se anuncia a intenção de atendimento de demandas sociais de elevação de escolaridade e de formação profissional de jovens e adultos trabalhadores por meio de programas educacionais específicos, como é o caso do PROEJA, assume destacada relevância a realização de pesquisas que contribuam para elucidar a potencialidade de alcance destas iniciativas frente à realidade. Trata-se, portanto, de investigar o percurso que vai do enunciado ao realizado, da representação 12 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA discursiva do real à estruturação do real concreto. Dentre as inúmeras questões que permeiam a temática e o objeto específico, uma das que assumem relevância de primeira ordem é a que trata de verificar se, efetivamente, o PROEJA caminhará no sentido de sair de sua formulação inicial de programa de governo para converter-se em política pública. Sendo assim, assumirá características de integralidade, universalidade, qualidade e perenidade, ou reiterará as características de programas anteriores, marcados pela pontualidade, precariedade, fragmentação e caráter compensatório? Estenderá sua oferta quantitativa e qualitativa de forma adequada à demanda social da imensa população de jovens e adultos do país, ou, do contrário, limitar-se-á ao atendimento de poucos extratos, reiterando a exclusão para a grande maioria?5 De certa forma, o leitor perceberá que estas questões centrais se fazem presentes, como pano de fundo, nos textos que compõem esta coletânea. Produzidos a partir de recortes distintos, de lócus diferenciados e por pesquisadores de distintas instituições e diferenciados percursos formativos de graduação e pós-graduação, no entanto, agrupados em torno de um projeto de pesquisa comum, os textos, vistos na dinâmica de sua singularidade em relação com a composição de um mosaico temático, proporcionam a possibilidade de aprofundar as questões centrais acima enunciadas a partir de seu desdobramento em temáticas e questões mais específicas materializadas nas situações de investigação concreta realizadas pelos componentes do grupo de pesquisa. As formas de contratação e as condições para o exercício profissional, a formação inicial e continuada e os saberes necessários à prática docente dos professores que atuam no PROEJA foram temáticas trabalhadas com destaque pelo grupo de pesquisa e constituem objeto principal de grande parte dos textos. Estas são, efetivamente, questões cruciais da realização do PROEJA, por várias razões: há, de fato, uma lacuna histórica na formação de professores para a educação básica, em especial, o ensino médio e a educação profissional; sabe-se que grande parte dos docentes que atuam nas LIMA FILHO, D. L. PROEJA em construção: enfrentando desafios políticos e pedagógicos. Educação e Realidade, Porto Alegre, v. 35, n. 1, p. 109- 127, jan-abril, 2010. 5 Prefácio – Direito à educação e produção do conhecimento no PROEJA – Volume I 13 instituições de educação profissional, em particular aqueles que atuam nas chamadas disciplinas de "formação específica" tiveram sua formação inicial de graduação no campo do bacharelado e, ao longo do percurso profissional, ao ingressarem na profissão docente, complementaram sua formação pedagógica, mediante processos de formação continuada emergenciais, que acabavam por produzir não somente uma formação precária, mas também a precarização das condições de trabalho do profissional docente (por submeter-se a tais cursos emergenciais em finais de semana ou em um terceiro turno de trabalho diário), sendo este o corolário de uma prática profissional desqualificada e desqualificante. Ademais, a expansão da educação profissional, especialmente no âmbito das redes estaduais de educação, tem ensejado formas heterodoxas de contratação do profissional docente, tais como contratos temporários, a tempo parcial, contratos por disciplinas ou projetos específicos ou por instituições terceiras, públicas ou privadas. Portanto, considerações especiais devem ser observadas, tanto para os processos de contratação dos profissionais que atuam no PROEJA, quanto à formação inicial e continuada a eles proporcionada, sob o risco de reiteradamente encaminhar-se "o professor substituto, mais barato e vulnerável, para o segmento da população também mais vulnerável".6 Algumas questões permeiam esta temática, tais como: a seleção de professores para atuar nos cursos do PROEJA; a participação dos professores das instituições da rede federal nos espaços de formação; as modalidades e diversos espaços de formação continuada de docentes do PROEJA, dentre os quais os cursos de especialização e as reuniões pedagógicas; a prática docente e seu espaço de realização como objeto de investigação; a construção da identidade docente dos professores da educação profissional integrada à educação básica na modalidade de educação de jovens e adultos; o espaço da formação continuada na trajetória dos docentes de formação técnica que atuam nos cursos do PROEJA. SHIROMA, E; LIMA FILHO, D. L. Trabalho docente na educação profissional e tecnológica e no PROEJA. Educação & Sociedade, Campinas, v. 32, n. 116, p. 725743, jul.-set. 2011. 6 14 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Questões como estas, constituem o objeto dos textos deste volume, que está dividido em duas partes, a Parte I – Currículo, e a parte II – Saberes do Trabalho. Na primeira parte estão os estudos do Grupo de Trabalho sobre currículo, que desenvolveu uma série de pesquisas que originaram os textos aqui publicados. Na segunda parte, os estudos sobre saberes do trabalho trazem uma importante discussão fruto do grupo de pesquisa de mesmo nome, coletivo que vem produzindo importantes pesquisas temáticas. A oferta da EJA e do PROEJA constitui o atendimento de uma demanda social, mas ao mesmo tempo é uma possibilidade que se constrói nas contradições sociais da realidade: o público da EJA e do PROEJA não é somente um demandante da política pública que, imediatamente realizada a oferta, acede a ela sem outras considerações. Inúmeras pesquisas têm demonstrado que é preciso conquistar e reconquistar cotidianamente estes sujeitos sociais que carregam consigo o histórico de trajetórias educacionais interrompidas e assimiladas como culpa individual, sendo na realidade questões sociais, constituindo-se elementos de baixaestima. No entanto, não se trata somente de questões de natureza psicológica, é necessário ir às mediações e prover condições materiais e valorativas para que os jovens e adultos trabalhadores que não tiveram sua escolarização e formação profissional concluída na idade considerada "própria" se enfrentem positivamente com as questões "vale a pena tentar mais uma vez?", "será que serei novamente excluído?". Esta não é uma decisão que cabe somente ao potencial aluno da EJA e do PROEJA, nem somente cabe ao professor a tarefa de buscar equacioná-la. E a instituição escola, e a política pública, o que têm a dizer sobre isso? Nesse sentido, atentando para as mediações e necessidades dos alunos, tornam-se questionáveis os tempos rígidos e predefinidos da escola, pois "diante dessa instabilidade dos tempos do viver, de trabalhos informais e tempos de escola, não teríamos que redefinir os tempos de escola, os tempos da EJA, e torná-los o mais flexíveis possível".7 Dados, análises, questionamentos e reflexões relacionadas a estes argumentos estão em vários textos. ARROYO, M. G. Imagens quebradas: trajetória e tempos de alunos e mestres. Petrópolis: Vozes, 2009, p. 187. 7 Prefácio – Direito à educação e produção do conhecimento no PROEJA – Volume I 15 A relação entre os conhecimentos escolares os saberes da vida cotidiana e do trabalho constitui outra relação fundamental quando se trata da educação de adultos, pois há que considerar que o afastamento relativo destes sujeitos dos processos educacionais escolares, ou ainda, a intermitência de sua freqüência / afastamento relativa a estes, ainda que caracterize a não formalização dos conhecimentos escolares, posto que a escola é a instituição e lócus social por excelência da aprendizagem, não pode levar à compreensão equivocada de que estes sujeitos não aprenderam pela experiência de vida e trabalho em outros espaços sociais, também educacionais. A EJA e o PROEJA, antes que a negação dos saberes tácitos e da experiência ou a submissão destes aos conhecimentos formais, deve trabalhar na busca de concepções teóricos e metodológicos que ponham estes saberes e conhecimentos em relação. Nesse sentido, as práticas desenvolvidas nos cursos de PROEJA foram palco de investigação privilegiada e constituem a temática principal de vários textos aqui publicados. Detalhes e reflexões sobre os processos de implantação dos cursos do PROEJA nas instituições educacionais, da gestão dos diversos cursos e de sua relação com os processos de desenvolvimento local e regional constituíram igualmente temas relevantes para a pesquisa e foram abordados em diversos textos. Constata-se, por fim, que as experiências e reflexões aqui apresentadas, frutos dos trabalhos de investigação do projeto de pesquisa interinstitucional "Experiências de Educação Profissional e Tecnológica Integrada à Educação de Jovens e Adultos no Estado do Rio Grande do Sul", de natureza multidisciplinar e de perspectiva interdisciplinar de atuação, ensejaram a abordagem aprofundada e sob múltiplas facetas da potencialidade da concepção da integração da educação profissional com a educação básica, na modalidade da educação de jovens e adultos, e dos limites e possibilidades de sua materialização na construção dos cursos do PROEJA e nos processos formativos vivenciados por seus professores e gestores. O conteúdo trazido a público pelos textos desta publicação vêm, nessa perspectiva, somar-se aos esforços de avanços teóricometodológicos e conceituais da área, constituindo contribuição relevante para o seu fortalecimento. . PARTE I CURRÍCULO . APRESENTAÇÃO: PROPOSTAS DE CURRÍCULO PARA O PROEJA A primeira parte deste volume versa sobre o campo do currículo, tema que surgiu como área de estudo importante e muito significativa nas investigações que se desenvolveram no âmbito do projeto de pesquisa "Experiências de Educação Profissional e Tecnológica Integrada à Educação de Jovens e Adultos no Estado do Rio Grande do Sul", no contexto do convênio PROEJA CAPES-SETEC, a partir do qual inúmeras dissertações e teses foram produzidas. Muitos dos resultados dessas investigações são socializados sob a forma de capítulos que discutem concepções curriculares, experiências de ensino e estratégias de construção curricular em instituições que se integraram ao PROEJA. O campo do currículo tem-se constituído como área destacada nas discussões educacionais, na medida em que condensa aspectos das inúmeras disputas sociais, políticas, econômicas e culturais em torno de qual deve ser o conhecimento escolar, qual sua utilidade e como deve ser socializado nas escolas. Enfim, tratase de disputas sobre formas de controle e de poder (APPLE, 2000). Há muito que a teoria curricular vem questionando o modelo técnico-racional de organização do conhecimento escolar (SILVA, 1999). Desde que começa a se construir uma teoria crítica em educação o tecnicismo em suar diversas vertentes tem sido posto em exame e duramente questionado nos seus pressupostos e proposições. Mesmo que o campo curricular tenha sido ocupado, 20 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA dominado e hegemonizado por concepções conservadores na maior parte do século XX, já em meados dos anos 60, muitos dos seus aportes e alicerces já estavam sendo questionados (KLIEBARD, 2011a; 2001b). Convivendo e digladiando com tal concepção hegemônica nas primeiras formulações da teoria curricular, uma outra concepção de educação foi construída fortalecendo uma outra tradição baseada na democracia, com a valorização da cultura e da vida social dos estudantes (HYPOLITO, 2012). John Dewey é a grande expressão dessa tradição e influenciou o pensamento educacional no mundo ocidental. No lastro do seu pensamento podemos encontrar os escolanovistas, Anísio Teixeira, Lourenço Filho, dentre outros, e mais recentemente Paulo Freire, que teve papel decisivo no pensamento educacional brasileiro e mundial a partir da segunda metade do século XX. Herbert Kliebard (2001a; 2011b) teve papel determinante na crítica ao tecnicismo, principalmente em sua versão mais refinada – obra de Ralph Tyler, que muito influenciou as formação de educadores brasileiros a partir dos anos 60. A partir das críticas de Kliebard, no campo do currículo nos EUA, e das influências das teorias da reprodução, especialmente na Europa, foram se consolidando análises que compuseram o que se denomina teoria crítica em educação, com autores como Apple, Gyroux, McLaren, que tiveram forte influência no pensamento educacional brasileiro, na crítica ao tecnicismo e na assertiva do caráter político da educação e do currículo. Apple, por exemplo, teve influência tanto da Escola de Frankfurt como do pensamento de Gramsci, o que lhe permitiu vislumbrar a forte influência da esfera cultural na dinâmica política e cultural, distanciando-se de um determinismo econômico e advogando uma autonomia relativa o campo educacional e a cultura em relação ao Estado e à economia. Esses autores, evidentemente, foram muito influenciados por Paulo Freire. Freire já havia apontado o caráter político da educação e a necessidade de outra epistemologia e outra concepção teóricometodológica para a construção de uma outra pedagogia, a serviço dos oprimidos e concebida como relação dialógica, oposta a uma educação bancária e comprometida com uma educação para a liberdade (FREIRE, 1987; 2007). Freire também sofreu influência Apresentação: Propostas de currículo para o PROEJA 21 de Dewey e Gramsci, dentre outras fontes importantes, e trouxe para sua pedagogia, a partir dessas e outras influências, uma preocupação cultural e inovadora para o conhecimento e para os métodos de ensinar. A proposta pedagógica freiriana carrega uma influência significativa do escolanovismo e dos princípios deweyanos, assim como absorve toda a tradição de uma pedagogia, desde Decroly e Kilpatrick, baseada em métodos globais e de projetos. O que ele acrescenta de forma inovadora é o caráter político e cultural do conhecimento, com profundo questionamento das formas tradicionais de currículo. Busca, nesse sentido, um posicionamento muito situado nos processos sociais e demonstra que as classes populares aprender melhor e forma crítica se o processo de ensino for construído a partir de sua cultura e contexto social e político. Para dar conseqüência a esses pressupostos Freire partiu para um questionamento das estruturas disciplinares de organização do conhecimento escolar, defendendo a idéia de que a aprendizagem dá-se de forma global, e não fragmentada, e de forma coletiva. Freire influenciou inúmeras experiências educativas em movimentos sociais, sindicais e políticos mundo a fora, no campo da educação popular, educação de jovens e adultos, e educação profissional, especialmente na perspectiva socialista. É nesse caminho e tradição política que o PROEJA, desde seus documentos originais, apresentou a proposta de um currículo integrado, que promova uma educação técnica e profissional que rompa com a estrutura disciplinar e repense uma educação direcionada aos grupos de jovens e adultos das classes trabalhadoras, concebida a partir de uma perspectiva politécnica que não separa formação geral da formação profissional, nem método de conteúdo. O currículo integrado (BEANE, 2003) é uma possibilidade de uma nova educação, sem um desenho curricular fechado, sem disciplinas isoladas, que busca uma apreensão global do conhecimento e do contexto cultural e social. Para melhor entender como essa proposta de currículo integrado foi concebida no PROEJA, recepcionada nas escolas e construída no cotidiano, com todos os problemas e dificuldades enfrentados, é que os estudos desta parte do volume foram desenvolvidos. Todos os oito capítulos referem-se, direta ou 22 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA indiretamente, a projetos ou experiências curriculares. Cinco deles tratam diretamente do tema do currículo integrado, dois tratam de aspectos mais voltados a aspectos metodológicos de ensino ou a processos cotidianos de construção de uma proposta de educação profissionalizante, e um trata da implantação de um programa PROEJA em um dos institutos participantes. Sabe-se que o rompimento com as formas tradicionais de ensinar e conceber o currículo é uma tarefa difícil e complexa, que envolve a cultura escolar, a estrutura curricular disciplinar, historicamente construída, os atores docentes e discentes, que foram formados, muitas vezes de forma tradicional, a estrutura administrativa das escolas e muitos outros que podem influenciar o campo curricular. Ademais, há objetivos políticos e econômicos mais amplos que têm direcionado a educação para o atendimento de interesses do mercado. Tudo isso vem impondo, por um lado, dificuldades para a implementação de uma proposta curricular integrada e, por outro, permitindo reflexões, questionamentos e formulações práticas de como se pode ir avançando em novas concepções de ensino e de organização curricular. As análises que compõem esta parte do volume pretendem exatamente contribuir para essas discussões curriculares, para o próprio programa PROEJA e para o desenvolvimento da educação profissional. Álvaro Moreira Hypolito Referências APPLE, Michael W. Política Cultural e Educação. São Paulo: Cortez, 2000. ARROYO, Miguel G. Currículo, território em disputa. Petrópolis: Vozes, 2011. Apresentação: Propostas de currículo para o PROEJA 23 BEANE, James A. Integração Curricular: a essência de uma escola democrática. Currículo sem Fronteiras, v. 3, n. 2, pp. 91-110, Jul/Dez, 2003. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed., Rio de Janeiro : Paz e Terra, 1987. ______. Educação como prática da liberdade. 30. ed., Rio de. Janeiro : Paz e Terra, 2007. HYPOLITO, Álvaro M. Políticas Educativas, Currículo e Didática. In: LIBÂNEO, J. C. e ALVES, N. Temas de Pedagogia – diálogos entre didática e currículo. São Paulo : Cortez, 2012. KLIEBARD, Herbert. Burocracia e teoria de currículo. Currículo sem Fronteiras, v. 11, n. 2, pp. 5-22, Jul/Dez, 2011a. ______. Os princípios de Tyler. Currículo sem Fronteiras, v. 11, n. 2, pp. 23-35, Jul/Dez, 2011b. SILVA, Tomaz Tadeu da. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 1999. . CURRÍCULO INTEGRADO NO PROEJA Andressa Aita Ivo1 Valdinei Marcolla2 Álvaro Moreira Hypolito3 Introdução Este capítulo apresenta a análise das propostas pedagógicas em três escolas técnicas da Região Sul do Rio Grande do Sul, com ênfase nas grades curriculares de quatro cursos do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA), tendo como objetivos compreender o processo de integração das disciplinas, perceber como esses projetos apresentam a integração curricular e de que maneira o currículo integrado tem ou não se efetivado na prática pedagógica. Foram investigados o Curso Técnico de Nível Médio em Vestuário, o Curso Técnico de Nível Médio em Agroindústria do CAVG, o Curso Técnico Integrado de Nível Médio em Manutenção e Suporte em Informática do IFSul e o Curso Técnico de Nível Médio de Refrigeração e Ar Condicionado. 1 Universidade Federal de Pelotas. 2 Universidade Federal de Pelotas. 3 Universidade Federal de Pelotas. 26 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Este trabalho analisa dados coletados na pesquisa intitulada Experiências de educação profissional e tecnológica integrada à educação de jovens e adultos no Estado do Rio Grande do Sul (FRANZOI et al., 2007), projeto do convênio CAPES/PROEJA, que integram ainda outras pesquisas realizadas por acadêmicos de cursos de pós-graduação. Este projeto tem por objetivo contribuir para a consolidação de um campo de estudos teórico-metodológico e interdisciplinar, nascido da confluência da Educação Profissional com a EJA, além de subsidiar a formulação de políticas públicas para a área de Educação Profissional na modalidade EJA. Em sua fase inicial, o projeto interdisciplinar de pesquisa procurou articular as instituições federais com os cursos do PROEJA e fazer um mapeamento das experiências de EJA implantadas no RS. A partir dos dados levantados, foi possível quantificar e caracterizar alunos, docentes e funcionários, além de tomar contato com aspectos específicos acerca da criação dos cursos, sua repercussão na instituição, no corpo docente e na comunidade em geral, acolhida da proposta do curso, etc. Além disso, os dados também permitiram verificar informações relacionadas ao processo pedagógico, que engloba o currículo, as características da proposta curricular, a integração entre a área profissionalizante e a área de formação geral do ensino médio, e a infraestrutura disponibilizada para os cursos do PROEJA. Além dos dados da pesquisa CAPES/PROEJA, este capítulo analisa também dados oriundos de duas outras pesquisas de mestrado e doutorado4, que fazem parte deste mesmo projeto. A coleta dos dados ocorreu por meio de questionários e entrevistas semi-estruturadas realizadas com os coordenadores, professores, Em razão do espaço limitado do capítulo a discussão é apresentada de forma mais sintética, contudo para aqueles que tenham interesse pelo assunto, destacamos a dissertação intitulada "Ensino profissional e educação básica: estudo de caso da implantação de um Curso Técnico na Modalidade de Jovens e Adultos (PROEJA)" de autoria de IVO, A. A. Aliado a este trabalho, ainda fazemos referência ao artigo de FRANZOI, N. L. et al. "Escola, Saberes e Trabalho: a pesquisa do PROEJA no Rio Grande do Sul", publicado na Revista Educação e Realidade (v. 35, p. 167-186, 2010) e o artigo de autoria de MARCOLA, V. e IVO, A. A., apresentado e publicado no VIII Encontro de Pesquisa em Educação da Região Sul, intitulado "Análise de uma experiência de implantação de cursos PROEJA na Rede Federal". 4 Currículo integrado no PROEJA 27 supervisores pedagógicos e pedagogos das referidas Instituições e Cursos, além de análises documentais. Em junho de 2005, o Governo Federal, por meio do Decreto nº 5.478, instituiu no âmbito das instituições federais de educação tecnológica (centros de educação tecnológica, escolas técnicas, escolas agrotécnicas e escolas técnicas vinculadas às universidades federais) o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA, no qual especificou, ainda, o número de vagas e a carga horária destinada aos seus cursos. Logo após a criação e instituição do programa, estudiosos e pesquisadores envolvidos com a temática proposta pelo Decreto passam a fazer reflexões e discussões acerca desta nova modalidade de ensino. Houve reações das instituições, de docentes e de pesquisadores da área quanto a certos aspectos dessa legislação. Com o intuito de responder a essas inquietudes e reações, o Governo Federal promulgou o Decreto nº 5.840, de 13 de julho de 2006, em substituição ao Decreto nº 5.478/2005, trazendo várias modificações ao programa. Com base nas orientações previstas no Decreto nº 5.840, em 2006 foi aprovado o Documento Base, com vistas a refletir sobre a problemática da Educação Básica Brasileira, em especial questões referentes à EJA, além de servir como instrumento norteador para a construção do projeto político-pedagógico dos cursos PROEJA. Dentre as discussões e reflexões propostas pelo Documento Base, cabe ressaltar a proposta de formação integral do educando, a partir de um discurso que pretende afastar-se da lógica neoliberal. Assim, o programa visa uma formação integral para possibilitar ao aluno a compreensão da realidade social, política, econômica, cultural e do mundo do trabalho, distanciando-se de uma formação voltada a atender apenas às necessidades do mercado, por intermédio de uma qualificação para o mercado. Quanto à organização curricular, o Documento Base, destaca que a organização não está dada a priori, é uma construção contínua, processual e coletiva que envolve todos os sujeitos que participam do programa, como pode ser identificado na seguinte passagem: 28 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA [...] a EJA abre possibilidades de superação de modelos curriculares tradicionais, disciplinares e rígidos, possibilitando a desconstrução e construção de modelos curriculares e metodológicos, observando as necessidades de contextualização frente à realidade do educando, promovem a ressignificação de seu cotidiano. Essa concepção permite a valorização dos saberes oriundos de outros processos, construídos e adquiridos fora dos espaços educacionais formais. (BRASIL, 2007, p. 48) Por fim, o PROEJA é uma política inédita no Brasil, com diversas inovações oriundas de reflexões e discussões até então realizadas acerca da EJA, além de princípios e concepções para esta modalidade de ensino, considerando, a todo o momento, os desafios constantes a serem superados para a implantação do PROEJA nas diferentes instituições de ensino. Currículo Integrado Nos últimos anos o debate acerca do currículo para EJA vem ganhando espaço, em especial com a implantação do PROEJA. Este trouxe consigo desafios políticos e pedagógicos, entre eles o de construir um Currículo Integrado considerando as especificidades do público da EJA. O PROEJA propõe a integração entre formação geral e formação profissional na modalidade EJA e assume, como uma das formas de articulação entre a Educação Profissional Técnica de nível médio e a Educação Básica, a forma integrada. Prevê uma matrícula única, em que o curso deve possuir um currículo único e articulado, no sentido de contemplar a formação geral e formação profissional unificadas. Para Ciavatta (2005, p. 85), a ideia de formação integrada sugere superar o ser humano segmentado historicamente pela divisão social do trabalho, entre a ação de executar e a de pensar, planejar, ou ainda, a superação entre trabalho manual e trabalho intelectual. De acordo com a autora, o que se busca como formação humana Currículo integrado no PROEJA 29 [...] é garantir ao adolescente, ao jovem e ao adulto trabalhador o direito a uma formação completa para a leitura do mundo e para a atuação como cidadão pertencente a um país, integrado dignamente à sua sociedade política. Formação que nesse sentido, supõe a compreensão das relações sociais subjacentes a todos os fenômenos. (CIAVATTA, 2005, p. 85) Conforme Santomé (1998), a opção pedagógica pelo currículo integrado é defendida, principalmente, com a conjunção de três grupos de argumentos: i) argumentos epistemológicos e metodológicos relacionados com a estrutura substantiva e sintática da ciência; ii) argumentos com base em razões psicológicas; e iii) argumentos sociológicos. Os argumentos epistemológicos e metodológicos, relacionados à estrutura substantiva e sintática da ciência, sustentam que o ensino de uma ciência integrada serve para que alunos e alunas analisem os problemas, não só da perspectiva de uma única e concreta disciplina, mas também do ponto de vista de outras áreas do conhecimento. Os argumentos psicológicos podem ser agrupados em três subgrupos: argumentos sobre a idiossincrasia da psicologia infantil, razões derivadas do papel da experiência na aprendizagem e considerações sobre a importância dos processos de aprendizagem. Já os argumentos sociológicos para um currículo integrado são muito abundantes, contudo a partir das perspectivas sociológicas, como afirma o autor, [...] a integração é defendida como uma forma de educação que propicia visões da realidade nas quais as pessoas aparecem como sujeitos da história, como as peças-chave para entender o mundo; consequentemente, como uma boa estratégia para estimular o compromisso de alunos e alunas com sua realidade e para obrigar-se a uma participação mais ativa, responsável, crítica e eficiente na mesma. (SANTOMÉ, 1998, p. 118) Assim, conforme Santomé (1998), quando se buscam soluções alternativas que visam a uma maior integração curricular, geralmente estas coincidem na urgência de buscar modos de estabelecer relações entre campos, formas e processos de conhecimento que até agora eram mantidos incomunicáveis. Contudo, qualquer modalidade de estruturação de um marco 30 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA curricular escolhido nunca deveria determinar rígidas decisões pedagógicas sobre metodologias para seu desenvolvimento, embora possam sugerir orientações importantes. Nesta perspectiva o Documento Base, ao propor o currículo integrado pretende: [...] uma integração epistemológica, de conteúdo, de metodologias e de práticas educativas. Refere-se a uma integração teoria-prática, entre o saber e o saber-fazer. Em relação ao currículo, pode ser traduzido em termos de integração entre uma formação humana mais geral, uma formação para o ensino médio e para a formação profissional. (BRASIL, 2007, p. 41) [grifos do autor] O currículo integrado nesta perspectiva é entendido como uma possibilidade de inovar pedagogicamente no ensino médio, em resposta aos diferentes sujeitos sociais para os quais se destina, por intermédio de uma concepção que considera como núcleo o mundo do trabalho e que leva em conta os mais diversos saberes produzidos nos diferentes espaços sociais. A integração curricular significa a criação das condições necessárias para possibilitar a motivação pela aprendizagem, por meio de uma maior liberdade para selecionar temas de estudo e pesquisa mais familiares, assuntos ou problemas mais interessantes para os estudantes. Os alunos e as alunas podem perceber que as atividades diárias da sala de aula, usos de metodologias científicas, estruturas conceituais, realização de determinadas experiências, podem servir para solucionar seus problemas na vida. Consequentemente, o conhecimento escolar deixa de ser algo unicamente válido para as situações construídas nas salas de aula, como ocorre nos modelos curriculares mais tradicionais e disciplinares. Currículo integrado no PROEJA 31 As Experiências do PROEJA As Experiências no CAVG O Conjunto Agrotécnico Visconde da Graça (CAVG)5, entre os anos de 2007 e 2010 ofereceu dois cursos na modalidade PROEJA. São eles: o Curso Técnico de Nível Médio em Vestuário e o Curso Técnico de Nível Médio em Agroindústria. O curso de Vestuário teve uma entrada oferecida em 2007 dispondo de 30 vagas. O processo de seleção dos candidatos ocorreu mediante sorteio e, em virtude de falhas na divulgação da seleção, houve apenas 24 candidatos inscritos, os quais foram todos considerados selecionados. Destes, 16 alunos concluíram o curso no final do ano de 2009. Em 2008, a escola ofereceu o curso de Agroindústria e no seu projeto inicial o ingresso também deveria ter sido por sorteio, mas, em virtude da pequena procura, os 31 alunos que se inscreveram foram matriculados na primeira turma do curso. No início de ano letivo de 2010, a turma ingressou no terceiro ano, com vinte e três alunos matriculados. Segundo a coordenação pedagógica da instituição, devido a questões ligadas ao público alvo e à falta de carga horária dos professores, os cursos foram estruturados de modo a que houvesse apenas uma entrada e não há previsão de novos ingressos. O Técnico de Nível Médio em Vestuário: Modelagem e Confecção, implementado em 2007, devido ao Catálogo Nacional de Cursos Técnicos elaborado pelo Ministério de Educação, teve seu nome alterado para Curso Técnico em Vestuário. De acordo com a coordenadora pedagógica da escola, foi decisivo o papel dos professores na oferta deste curso na modalidade PROEJA, já que os mesmos demonstraram interesse na implantação do curso. Conforme o projeto pedagógico, o objetivo do curso era atender às demandas de formação da comunidade profissional local No período da pesquisa a escola estava vinculada à Universidade Federal de Pelotas, mas em virtude da criação dos institutos federais no país e da realocação das escolas de educação profissional, o CAVG passou, em 2010, a ser um campus do Instituto Federal Sul-rio-grandense – IFSul. 5 32 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA e regional, além de considerar o potencial da indústria do vestuário e de artefatos de tecidos na economia da região. A matriz curricular foi distribuída em três anos, com uma carga horária total de 2.800 horas, divididas em 2.400 horas destinadas às disciplinas gerais e técnicas e mais 400 horas de estágio curricular. A parte referente às disciplinas do ensino médio correspondia a 1.600 horas, diluídas em três áreas: Linguagens e Códigos (544hs), Ciências Humanas (352hs) e Ciências da Natureza e Matemática (704hs). A parte da educação profissional somava 800 horas, divididas em quatro disciplinas e distribuídas ao longo dos três anos do curso: no primeiro ano – Introdução ao Estudo de Confecção (192hs); no segundo ano – Estudo de Materiais (96hs); Introdução à Prática de Modelagem e Confecção (128hs); e, no terceiro ano – Prática de Modelagem e Confecção (384hs). Segundo a coordenadora do Curso e professores que participaram da elaboração do projeto, a grade curricular técnica do curso de Vestuário, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA), foi pensada levando em consideração a pouca experiência que os envolvidos possuíam com alunos jovens e adultos. Nesse sentido, de acordo com depoimento da coordenadora, pode-se perceber que a ideia norteadora da grade curricular foi pensar disciplinas com uma nomenclatura abrangente e com grande carga horária, tendo em vista que, dessa forma, os professores poderiam pensar os conteúdos mais pautados nas experiências e saberes trazidos pelos estudantes, que, até o momento da elaboração do projeto do curso, eram desconhecidos. Este aspecto pode ser percebido no depoimento da coordenadora do curso: [...] quando a gente começou a fazer ninguém sabia quem seriam as pessoas, a gente perguntava, quem será que vai se inscrever, que tipo de pessoa, ninguém conhecia nada de PROEJA e nem quais seriam as pessoas, com que expectativa, então a gente tinha que ter uma maneira de poder, no meio do caminho, mudar, sem precisar... Para uma das professoras envolvidas na construção do projeto, essa forma de pensar a parte técnica da grade curricular permitiu aos professores adaptarem os conteúdos às necessidades Currículo integrado no PROEJA 33 dos alunos, sem que isso exigisse uma reestruturação curricular. No entender dos professores, a proposta pautou-se em disciplinas flexíveis e diluídas ao longo do curso, que permitiam ponderar não apenas os conhecimentos considerados necessários para a formação do profissional da área do vestuário, mas também, os saberes teóricos e práticos e as curiosidades que os alunos levavam para o dia-a-dia de sala de aula. Apesar da proposta curricular do curso de Vestuário estar focada na ideia de disciplinas mais flexíveis e em uma articulação entre a área de ensino profissionalizante e de ensino médio, na prática, o que se percebeu a partir de alguns depoimentos, é que esse modelo de disciplinas técnicas constituiu-se em uma alternativa sem objeto específico de estudo, que o tornou, em alguns casos, algo vago e muito amplo. Além disso, foi possível constatar que a flexibilidade não gerou grandes avanços com relação à articulação entre a área de ensino técnico e de ensino médio, tendo em vista que, no decorrer das entrevistas, percebemos apenas um trabalho de articulação entre as disciplinas de Língua Portuguesa e Estudos de Materiais. Essa pouca articulação pode ser identificada no depoimento da professora de Língua Portuguesa e coordenador geral do PROEJA na Instituição: [...] eles acabaram fazendo um trabalho assim [articulado], porque eu tinha que ver contos com eles e crônicas, aí a gente trabalhou contos, todos os contos do século XX. Aí eles fizeram um trabalho, confeccionaram roupas, de um estilo básico, [...], com base nos personagens trabalhados. Aí, na época desse trabalho, eles pediram ajuda para alguns professores de vestuário, eu também... [...] sinceramente, eu acho sim que podia haver sim uma integração maior, e essa seria a nossa proposta inicial, fazer tudo muito integrado e tudo muito voltado para o cotidiano do aluno e pra formação profissional. Assim ó, tinha que se voltar para o mundo deles mesmo, é que eu acho que é uma coisa muito importante assim pro PROEJA. Eu acho que podia acontecer mais. O Curso Técnico de Nível Médio em Agroindústria – na modalidade PROEJA, chamava-se inicialmente Curso Técnico em Agroindústria Familiar – na modalidade PROEJA. Porém, devido às mudanças estabelecidas pelo Catálogo Nacional teve que alterar seu 34 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA nome e enfoque de formação. Sua implantação foi resultado de diversas discussões entre professores da área e coordenadores pedagógicos que, no decorrer desse processo de constituição do curso e de seu currículo, levaram em consideração os cursos existentes, as necessidades e a realidade da comunidade escolar para tentar conseguir consolidar a integração entre o ensino médio, o ensino técnico e a modalidade de EJA. A matriz curricular do curso foi composta por disciplinas gerais e técnicas, distribuída em três anos, com carga horária de 800 horas por ano e 200 dias letivos. Além destas, mais 400 horas de estágio curricular, o que perfez uma carga horária total de 2.800 horas. A parte referente às disciplinas do Ensino Médio (ou Formação Geral) correspondeu a 1.216 horas, distribuídas nas áreas de Linguagens e Códigos (384hs), Ciências Humanas (384hs) e Ciências da Natureza e Matemática (448hs). A parte da Educação Profissional totalizou 1.184 horas, divididas em dezesseis disciplinas, das quais cinco eram de formação geral, mas com características distintas por serem aplicadas à área profissional (exemplos: Física Aplicada, Biologia Aplicada, etc.). Outras onze disciplinas ficaram diretamente voltadas à formação e atuação do profissional. Em função de apresentar uma estrutura curricular mais rígida e fragmentada, o curso de Agroindústria foi diretamente afetado pela mudança na nomenclatura, tendo em vista que o foco de formação do curso deixou de ser a agroindústria familiar e assumiu um caráter de produção em larga escala, em perspectiva industrial. Logo, as disciplinas de formação profissional que tinham como objetivo a produção em pequena escala passaram a ter que considerar o contexto de produção industrial e, com isso, necessitaram reorganizar seus programas e conteúdos. O desdobramento deste câmbio no foco do curso pode ser percebido em alguns apontamentos feitos pela professora das disciplinas de Industrialização I (parte de tecnologia do leite e derivados) e Industrialização II (parte de carne e derivados), pois para ela é distinta a quantidade de conhecimentos exigidos para um profissional que vai atuar em uma pequena propriedade ou em uma indústria de médio a grande porte. No que se refere à articulação entre as disciplinas de ensino profissionalizante e de ensino geral, no decorrer das entrevistas e Currículo integrado no PROEJA 35 conversas com professores e coordenação do curso, não identificamos uma aproximação direta entre as áreas. O que se percebeu em alguns depoimentos de professores do curso é que a articulação entre as disciplinas ocorreu em virtude da proximidade dos conteúdos ou da própria ligação que há entre as disciplinas. Contudo, são trabalhos isolados, em que o professor com base em seus conhecimentos desenvolve os conteúdos de outras disciplinas. Essa prática pode ser percebida no depoimento do professor de Química Geral e Aplicada: [...] a minha aula é uma aula integrada. Eu falo em química, eu falo em física, eu falo em biologia, eles falam das outras matérias comigo, às vezes nós estamos falando sobre português, agora mesmo estávamos falando sobre assuntos de português, [...] que tudo serve pro cara que tá aprendendo. Tu não aprendes português só na aula de português e tu não aprendes química só na aula de química. Tu aprendes onde estiveres conversando aquele assunto tu tá aprendendo. Ao fazermos aproximações entre os depoimentos dos professores, as matrizes curriculares de ambos os cursos e a proposta pedagógica apresentada no Documento Base para o PROEJA, identificamos alguns distanciamentos entre os mesmos. Sendo assim, constata-se que a construção do PPP no contexto da prática passa por um processo de interpretação e reinterpretação da proposta do PROEJA, e, como destaca Ball (2006), produzirá efeitos e consequências que podem representar mudanças e transformações significativas na política original, como se percebe a partir dos relatos dos professores. Nesta perspectiva, observa-se que a implantação e implementação do PROEJA no CAVG, em muitos momentos, afasta-se de concepções e princípios da política original. Bowe e Ball (1992) propuseram um ciclo contínuo constituído por três contextos principais: o contexto de influência, o contexto da produção de texto e o contexto da prática. Em 1994, Ball expandiu o ciclo de políticas acrescentando outros dois contextos ao referencial original: o contexto dos resultados (efeitos) e o contexto da estratégia política. Esses contextos estão interrelacionados, sem uma dimensão temporal ou sequencial e não se trata de etapas lineares. Para Ball (2006), "o ciclo de políticas não 36 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA tem a intenção de ser uma descrição das políticas, é uma maneira de pensar as políticas e saber como elas são 'feitas', usando alguns conceitos que são diferentes dos tradicionais". Pensamos que essa abordagem pode nos ajudar a melhor compreender o que ocorre nas escolas, em termos práticos, daquilo que foi pensado alhures e com pouca interlocução com as escolas e os docentes. A Experiência no Campus Pelotas (IFSul) No intuito de dar resposta às exigências do Decreto Lei n° 5.840/06, em 2006, o então Centro Federal de Educação Tecnológica de Pelotas/RS (CEFET) – hoje Campus Pelotas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Sul-riograndense (IFSul) – criou o Curso Técnico de Nível Médio em Montagem e Manutenção de Computadores – forma integrada – modalidade EJA, posteriormente denominado Curso Técnico de Nível Médio em Manutenção e Suporte em Informática – modalidade Proeja. O curso, desde a sua origem, carrega as vivências e discussões acompanhadas pelo grupo de professores que, em 1998, pensou e organizou um curso de Ensino Médio para Adulto (EMA) no CEFET. Esta experiência, aliada a discussões entre professores da área de ensino geral e da área técnica, teve como resultado um projeto próprio, pensado e traçado pela sua comunidade escolar, para conseguir concretizar a tão desejada integração entre o ensino médio e o técnico na EJA (DOROW et al., 2007). Desde sua criação, em 2006, até sua última oferta, em 2010, foram oferecidas 20 vagas anuais, para uma turma no período noturno. O projeto do curso foi pensado e concretizado de maneira que as disciplinas de formação geral e técnica fossem oferecidas/desenvolvidas de forma concomitante ao longo do curso, e não em módulos distintos que se acumulam no andamento da formação (DOROW et al., 2007). No entender da coordenação, este aspecto é extremamente relevante para efetivar a integração entre as matérias de cultura geral e as técnicas. Além disso, ao conceber uma grade curricular em que as disciplinas são Currículo integrado no PROEJA 37 entrelaçadas, o projeto do curso propunha a discussão de uma outra forma de conceber os cursos integrados, pois rompia com os modelos curriculares em andamento na instituição, os quais costumavam dividir os cursos, distribuindo as matérias de cultura geral no início do curso e as técnicas, no final. No projeto do curso, esta integração curricular entre os saberes da educação geral e da educação profissional está apontada como aspecto que pode garantir a incorporação da dimensão intelectual ao trabalho produtivo e possibilitar a formação de trabalhadores capazes de atuar como dirigentes e cidadãos, "capazes de interagir na sociedade de forma crítica, além de entender e ter conhecimentos técnico-científicos para atuar no processo produtivo" (CENTRO, 2007). Segundo a supervisora atual do curso, a ideia foi aproveitar o grupo já consolidado e suas experiências com educação de jovens e adultos (EJA), no EMA, aliado à proposta de construção de um projeto de curso integrado. Neste sentido, ela afirma que: [...] a gente quis fazer [um projeto/curso] na contramão do que sempre se fez, [...] porque sempre se pega as disciplinas e a carga horária das disciplinas e a partir daí se fazia a proposta. Então nós começamos ao contrário, partindo das características gerais do ensino médio e do técnico. Primeiro do perfil do [aluno] egresso; depois, nós pegamos as características gerais do ensino médio e do técnico. E, a partir dali, olhando para esse perfil, para as características desse curso, nós fizemos as competências gerais do curso, depois um recorte do conhecimento e depois é que as disciplinas começaram a aparecer. Aí, sim, a gente começou a integrar. Com esses pressupostos o projeto do curso traça o perfil do aluno egresso: "um cidadão responsável, empreendedor, investigador e crítico, apto a desempenhar sua profissão no que concerne ao suporte e à manutenção de tecnologias da informação, incluindo hardware e software, por meio de uma formação ética, técnica, criativa e humanística" (CENTRO, 2008a, p. 149). No entender da coordenadora do curso, alicerçados nesse perfil de aluno egresso e na concepção de um currículo integrado, os 38 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA professores elaboram competências articuladas, o que permitiria o diálogo entre as disciplinas de formação regular e da área técnica. No entender da coordenação, essa integração transparece na matriz curricular do curso Manutenção e Suporte em Informática, a qual, com uma carga horária total de 2.657 horas, divididas em 2.417 horas com disciplinas técnicas e gerais e mais 240 horas de estágio curricular, procura um diálogo permanente entre ensino médio e técnico. Ao fixar o olhar na matriz, é possível identificar que são três anos com aproximadamente 806 horas anuais. Destas, as matérias regulares somam 1515 horas, divididas nas áreas de Linguagens e Códigos (419hs), Ciências Humanas (451hs) e Ciências da Natureza e Matemática (645hs). As disciplinas técnicas têm 902 horas, oferecidas a cada ano com a seguinte carga horária: 258 horas no primeiro ano; 419 horas no segundo ano; e 225 horas no terceiro ano. Para a coordenadora, apesar de todas as experiências integradas desenvolvidas e acumuladas com o Ensino Médio para Adultos a tão esperada efetivação do curso integrado PROEJA não se concretizou na prática, tendo em vista a dificuldade de diálogo da cultura geral com a técnica. Ela salienta ainda que no EMA a articulação acontecia entre os professores do ensino médio e que no PROEJA isso precisaria extrapolar e envolver também os professores do profissionalizante. Ela enfatiza que "na cultura geral, a gente propõe um tema gerador... um projeto... 'oh, nós vamos fazer um projeto'. Agora, no segundo ano, eles têm o projeto jornal., todos aderem com maior facilidade, mas no ensino técnico é... uma coisa dolorosa!". Segundo a coordenadora, a coisa dolorosa resulta de uma cultura presente na escola que tende a consolidar o endeusamento do ensino técnico em detrimento do de cultura geral. Isto acaba gerando uma distinção entre as áreas e provoca a separação e fomenta a supremacia da área técnica sobre a cultura geral. Este endeusamento do ensino técnico faz parte da cultura escolar da instituição e está impregnado em toda a vida escolar, que transita no todo da instituição, considerando alunos, professores, normas e teorias. Segundo Viñao Frago (2006), a cultura escolar é um "conjunto de aspectos institucionalizados", que abrange práticas e condutas, modos de vida, hábitos e ritos cotidianos do fazer escolar, Currículo integrado no PROEJA 39 objetos materiais (função, uso, distribuição no espaço, materialidade física, simbólica, introdução, transformação, transposição ou superação, etc.) e modos de pensar. É também um conjunto de significados e de ideias compartilhadas. Por envolver toda a vida escolar, a cultura escolar mobiliza os corpos e mentes dos sujeitos, configurando as ações e fazeres organizacionais da escola e os modelos e práticas de ensinar e aprender, em uma relação de tempo e espaço. Nesse sentido, a hegemonia da área técnica sobre a cultura geral nas escolas técnicas perpetua-se por gerações, de tal modo que os seus traços tornaram-se parte das regras e regulamentos da instituição e passaram a normatizar as práticas e as ações escolares. Embora a coordenadora destaque o papel integrador dos projetos de ensino desenvolvidos com as turmas do PROEJA e faça referência à relação estabelecida entre as disciplinas da cultura geral, o que se percebe nos depoimentos dos docentes é que essa aproximação ainda é um tanto fragilizada. Isso se deve à falta de tempo para construir projetos coletivos ou até mesmo para dialogar sobre os conteúdos trabalhados com as turmas. Acerca disso, salienta um dos professores entrevistados: Eu não sei o que o professor de Matemática está trabalhando, nos não estamos integrando... Eu não estou... (apesar de estaremos lado a lado nas reuniões...)6. Não existe este momento de discutir o que a Química está trabalhando, por exemplo. Até agora eu não tive esse momento. Talvez eles [grupo de professores] tenham feito isso e já esteja organizado, mas, eu não! Estou solta no conteúdo. Eu cheguei e peguei toda a [disciplina] do ensino médio. Esses são os conteúdos para trabalhar no [curso]... Quando eu olhei eu ri! E eu que sou conteudista, disse 'não! não vou fazer nada disso, porque eu não tenho condições de trabalhar tudo isso que esta aqui [em tão pouco tempo]7'. O grupo de professores do Proeja tem encontros semanais para discutir o andamento das turmas e os encaminhamentos pedagógicos e administrativos. 6 Alguns cortes foram feitos no depoimento no intuito de manter o anonimato solicitado pelo entrevistado. 7 40 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA O distanciamento entre as áreas, na visão dos professores da área técnica, está diretamente ligado à falta de conhecimento dos professores da cultura geral sobre os conteúdos trabalhados nas disciplinas de formação profissional. Este aspecto também é ressaltado pelo professor de Física que, ao analisar a integração curricular, ressalta a falta de conhecimento dos conteúdos estudados pelos alunos nas disciplinas técnicas. No entender deste professor, a integração deve ser considerada no diálogo entre as áreas e em projetos que levem em conta as especificidades de cada campo de conhecimento. Segundo ele, para se estabelecer uma integração curricular "[...] tínhamos que saber o que eles [alunos] vão estudar", para que fosse possível estabelecer uma conexão entre os saberes ensinados nas disciplinas. Para o professor, as áreas precisariam ter tempo para discutir as aproximações entre os conteúdos e, a partir disso, poder visualizar o papel de cada disciplina na formação do aluno. Neste sentido, afirma o professor: Eu nunca abri máquinas. Eu sou teórico, eu sou professor de Física e conheço os componentes, mas não é a minha prática instalar [máquinas]. Mas a [Física, pode ensinar] porque eles [alunos] precisam manusear aquelas peças com cuidado, porque eles não podem pegar com a mão as peças do computador. No entender de um dos professores da área técnica, que trabalha com a disciplina de hardware, o distanciamento entre a formação geral e profissional no Proeja ficou ressaltado no momento em que os professores das disciplinas técnicas perceberam as dificuldades que os alunos, jovens e adultos, tinham para lidar com as tecnologias e suas linguagens. Ao se depararem com alunos, que temiam a máquina, os professores da parte profissional não obtiveram respaldo na formação geral para articular o trabalho com estas ferramentas tão desconhecidas para os estudantes. Para o professor, a responsabilidade precisava ser dividida e não apenas recair sobre os professores da área técnica, visto que um trabalho integrado significa "integrar tudo", desde os aspectos mais cotidianos até as atividades mais complexas de sala de aula. Com relação a este assunto, o professor destaca: Currículo integrado no PROEJA 41 [...] em um trabalho integrado... Integro tudo. Não posso fazer uma disciplina de gestão onde o meu trabalho é em uma empresa de balas. A empresa tem que ser de informática, o 'cara' [aluno] tem que começar a fazer aquele trabalho com a informática. [Também] não posso fazer um trabalho como se a pessoa fizesse trabalho 'a mão'. Se eu dou aula de Word, o 'cara' tem que fazer trabalhos no Word. Claro, eles ficam com medo, agora se todas as disciplinas se unirem. Se todo mundo trabalhar no computador, eles vão pegando a prática e perdendo o medo. Para o professor da área de Química, a soma muitos fatores fez com que o curso integrado na modalidade EJA assumisse características de um curso concomitante8, tendo em vista que a proposta integração entre as áreas no projeto pedagógico do curso não conseguir se efetivar nas práticas pedagógicas. O professor ressalta que "temos um Curso integrado que na prática tem um formato concomitante... são dois cursos ao mesmo tempo... Ensino Médio e Técnico na área de Informática... mas isto, não é um privilégio apenas do Proeja". O que se percebe no depoimento do professor é um distanciamento entre o que se concebe teoricamente como currículo integrado e as práticas estabelecidas no cotidiano escolar, as quais não conseguem aproximar o ensino médio e a educação profissional. Novamente o argumento de Ball (1994, 2006), antes mencionado, ajuda-nos a perceber que as políticas, principalmente aquelas que pretendem mexer no cotidiano escolar, têm que levar em conta as dinâmicas do A forma concomitante possibilita a complementaridade entre o curso técnico e o ensino médio, permitindo aos estudantes cursarem de forma simultânea o ensino médio e a educação profissional técnica de nível médio, podendo matricularem-se em ambos os cursos na mesma instituição de ensino ou em instituições distintas. Para ingressar nos cursos concomitantes os alunos devem ter concluído o ensino médio ou estar cursando, no mínimo, a segunda série/ano deste nível de ensino, para efeito de matrícula no respectivo curso técnico. Esta modalidade de oferta de ensino é dividida em concomitante interno, em que ambos os cursos são ofertados no mesmo estabelecimento de ensino, ou concomitante externo, no qual o ensino médio é cursado em escolas regulares (estaduais, municipais e/ou particulares) e a educação profissional em escolas técnicas. A carga horária mínima desses cursos é estabelecida a partir do Catálogo Nacional de Cursos Técnicos, ficando entre 800 horas e 1200 horas, dependendo da especificidade da área técnica, mais carga horária de estágio profissional. (BRASIL, 2011). 8 42 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA cotidiano escolar e construir as mudanças pretendidas tendo como pressuposto uma interlocução com os sujeitos que fazem a cultura escolar na prática. A experiência no Campus Rio Grande (IFRS) No final do ano de 2006, o Colégio Técnico Industrial Professor Mário Alquati (CTI) – atual Campus Rio Grande do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul9 –, em resposta ao Decreto Lei n° 5.840/06, criou o curso Técnico de Nível Médio de Refrigeração e Ar Condicionado Integrado ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. O curso teve seu primeiro ingresso no primeiro semestre de 2007, oferecendo 30 vagas por semestre. O ingresso ocorreu por meio de um processo de seleção centrado no público de EJA, portanto, diferenciado da entrada regular na escola. Ainda assim, a coordenação do Curso enfatiza que normalmente a procura acaba sendo menor que o número de vagas disponibilizadas. No projeto pedagógico do curso, é ressaltada a importância de que seja proporcionada uma formação integral ao público de jovens e adultos permitindo o seu "acesso e/ou permanência no mercado de trabalho a partir de uma sólida qualificação que alie aspectos profissionais e humanísticos, teoria e prática contextualizadas". Aliado a isso, o curso procura garantir aos alunos jovens e adultos uma educação profissional integrada ao ensino médio considerando suas diferenças e tempos em uma "perspectiva de construção do conhecimento e reflexão-ação sobre a prática pedagógica". Oferecendo um espaço de formação continuada "capaz de articular as diferentes experiências de vida com os saberes escolares, tomando a interdisciplinaridade e os contextos sociais como ponto de partida" (COLÉGIO, 2006). A proposta curricular do curso estrutura-se a partir da premissa de uma educação profissional para o mundo do trabalho e para a cidadania, aliada, de um lado, à compreensão da construção Até 2009, o CTI estava vinculado à Fundação Universidade Federal do Rio Grande. 9 Currículo integrado no PROEJA 43 social do conhecimento, em que se articulam teoria e prática e, de outro, a um processo formativo que busca uma apropriação da realidade dos alunos que possa estabelecer uma troca de conhecimentos e de experiências entre professores e alunos numa perspectiva interdisciplinar. Logo, trata-se de uma proposta curricular pautada na dialogicidade e interdisciplinaridade, em que se estabelecem "[...] vínculos mais estreitos entre teoria e prática, cultura geral e cultura técnica", de modo que seja possível articular "[...] possibilidades de trabalho, como projetos [e/ou] temas geradores" (COLÉGIO, 2006). Em uma análise da matriz curricular do curso, identificamos três blocos de disciplinas. O primeiro comporta as matérias de formação geral, que predominam entre o primeiro e o quinto semestre, e corresponde a 1.200 horas, divididas nas áreas de Linguagens e Códigos – 360h, Ciências Humanas – 240h e Ciências da Natureza e Matemática – 600h. No segundo, inserem-se as disciplinas consideradas do ensino médio/profissional básico, também oferecidas nos cinco primeiros semestres, que totalizam 300 horas (Saúde e Segurança no Trabalho, 30h; Gestão, 30h; Microinformática, 60h; Introdução à Refrigeração, 30h; e outras atividades de formação, 150h). No último bloco, estão as matérias de formação profissional, que correspondem a 900 horas divididas em três módulos de 300 horas (Módulo Refrigeração Comercial; Módulo Ar Condicionado; e Módulo Refrigeração Industrial), oferecidos entre o sexto e o oitavo semestre. Apesar de ser considerado um curso integrado e de apresentar, em partes do seu projeto, uma clara concepção de articulação entre as disciplinas, na prática essa integração ou interdisciplinaridade acaba por não se efetivar. No entender da coordenação do curso e dos responsáveis pela parte pedagógica da escola, isso se deve, principalmente, à forma como a matriz curricular foi pensada. Para elas, não é possível caracterizar o curso como integrado, tendo em vista a dissociação entre as disciplinas consideradas de formação geral e as profissionalizantes. Segundo a coordenadora, o curso é fruto de uma "adaptação [...] com a especificidade que era PROEJA...". Logo, o que se concebeu 44 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA [...] foi uma mistura... entre o ensino médio e o subsequente10. Então nós temos na verdade o ensino médio até o terceiro módulo... podemos dizer que tem disciplinas só do médio mesmo [e] a partir do quarto módulo eles já têm a disciplina de gestão; e no módulo cinco eles têm duas disciplinas já com os alunos do subsequente... Apesar de o projeto estar alicerçado nos pressupostos teóricos que sustentam o Documento Base do PROEJA (BRASIL, 2007), há no decorrer da elaboração da proposta curricular uma contextualização do que é compreendido no texto oficial como curso/currículo integrado. Bernstein (1996) define este movimento como um processo de recontextualização do discurso pedagógico. Na teorização bernsteiniana existem "[...] três contextos básicos e correlacionados nos sistemas educacionais, o primário de produção do discurso, o secundário de reprodução discursiva e o [terceiro] de recontextualização do discurso, focalizando os contextos do discurso, da prática e da organização educacional" (HYPOLITO et al, 2008, p. 28). Essa perspectiva é apropriada e desenvolvida por Ball (1994; 2006) na teoria dos ciclos, em que ele apresenta os contextos, como uma extensão do que Bernstein (1996) denomina níveis recontextualizadores. Identificamos a contradição ressaltada pela coordenadora do curso, quando confrontamos a proposta teórica do projeto do curso, construída na "perspectiva integrada ou de totalidade a fim de superar a segmentação e desarticulação dos conteúdos" das áreas de cultura geral e técnica, com a parte do documento referente à certificação dos alunos. No item referente à certificação, verificamos que o curso (ou os cursos) acontece(m) em dois momentos distintos. Num primeiro momento, ao aluno é oferecido o ensino médio, que lhe é garantido após o quinto semestre com a 10 A forma subsequente de ensino técnico assume características de curso pósmédio ou pós-ensino médio, respectivamente com carga horária mínima entre 800 horas e 1.200 horas, dependendo da especificidade da área técnica, mais a carga horária de estágio profissional. As horas-aula são normalmente oferecidas no período de dois a quatro semestres e são voltadas, especificamente, para a formação profissionalizante dos alunos que já concluíram o Ensino Médio e que pretendem fazer uma formação profissionalizante (BRASIL, 2011). Currículo integrado no PROEJA 45 "certificação de conclusão do Ensino Médio". O segundo momento passa a ser optativo, e os alunos decidem seguir sua formação, uma habilitação profissional na área de refrigeração e ar condicionado. Para a coordenação, apesar da aparente separação entre áreas, o atual formato do curso permite aos alunos irem se adaptando à sua realidade e da Escola, sem que haja um impacto logo de início com a parte técnica. Segundo a professora, provavelmente a integração não funcionaria se as disciplinas técnicas fossem oferecidas no primeiro semestre, visto que os alunos "entram sem noção alguma... inclusive de escola... de laboratórios... de qualquer coisa. Eles entram virgens... na metade do primeiro modulo é que eles começam a se encontrar...". Considerações Finais A partir dos estudos realizados sobre a implantação dos Cursos Técnicos na modalidade PROEJA em três escolas técnicas da região Sul do Rio Grande do Sul é possível tecer algumas considerações acerca de elementos que compõem o atual cenário. Como é amplamente aceito, o currículo é o espaço central em que se definem as ações pedagógicas, é a arena em que se travam lutas por diferentes concepções e paradigmas, em que certas vozes são ouvidas e outras não, é a arena educativa privilegiada de busca por hegemonia. Nesse sentido, o currículo desempenha um papel fundamental no programa PROEJA e as suas concepções e princípios básicos encaminham e propõem um modelo de currículo integrado. Este estudo permite-nos identificar diferentes concepções quanto ao conceito de currículo integrado, de acordo com cada instituição investigada. Nesse sentido, a proposta de currículo integrado estruturou-se diferentemente nas distintas instituições, embora todas tenham como referência a proposta de currículo integrado baseada nos princípios do Documento Base. Essa diversidade era esperada e desejada. No caso dos cursos de Agroindústria e de Vestuário, o modelo curricular não propiciou a integração das áreas de ensino técnico e de ensino geral. As experiências de trabalhos 46 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA interdisciplinares foram isoladas e a falta de comunicação entre os professores inviabilizou a proposta de um currículo integrado. No curso Manutenção e Suporte em Informática, a proposta de currículo integrado baseou-se no modelo curricular do curso, no qual as disciplinas gerais e técnicas deveriam ocorrer concomitantemente. Contudo, quando posto em prática, o currículo não avançou como era esperado e, portanto, pode-se admitir que não existe uma articulação prática entre a formação técnica e a formação geral. Por fim, no curso de Refrigeração e Ar Condicionado, observa-se que este é considerado um curso integrado, que apresenta em seu projeto uma proposta clara de articulação entre as disciplinas. Apesar disso, na prática, essa integração ou interdisciplinaridade não se efetiva. No modelo disciplinar do curso, observa-se uma separação evidente entre as disciplinas técnicas e as disciplinas gerais. A partir desta análise fica evidente o distanciamento entre as propostas curriculares dos Cursos e as concepções e princípios norteadores do Documento Base. Tal fenômeno reforça a concepção de que, no contexto da prática, as políticas são interpretadas, recontextualizadas e assumem novas características, pois os profissionais que atuam no contexto da prática não enfrentam os textos políticos como meros receptores, mas sim como sujeitos que possuem experiências, valores e perspectivas diversas (BERNSTEIN, 1996; BALL, 1994). O PROEJA é uma política ainda muito recente no Brasil, que apresenta em seu texto uma nova proposta pedagógica e é um grande desafio para todas as instituições de ensino que venham a implantar tal política. Entendemos que é crucial que os elaboradores deste programa auscultem o que acontece no cotidiano escolar. Referências BALL, S. J. Education reform: a critical and post-structural approach. Buckingham: Open University Press, 1994. Currículo integrado no PROEJA 47 BALL, S. J. Sociologia das Políticas Educacionais e Pesquisa CríticoSocial: uma revisão pessoal das políticas educacionais e da pesquisa em política educacional. Currículo sem Fronteiras, V. 6, n. 2, p. 10-32, Jul/Dez. 2006. BOWE, R. and BALL, S. J., with GOLD, A. Reforming Education and Changing Schools: case studies in policy sociology. London: Routledge, 1992. BERNSTEIN, B. A Estruturação do Discurso Pedagógico: Classe, Códigos e Controle. Petrópolis: Vozes, 1996. BRASIL. Congresso Nacional. Decreto nº 5.478, de 24 de junho de 2005. ______. Ministério da Educação/Secretaria de Educação Tecnológica e Profissional. Programa nacional de integração da educação profissional com a educação básica na modalidade de educação de jovens e adultos – Documento Base, Brasília, 2007. ______. Ministério da Educação. Catálogo Nacional de Cursos Técnicos. 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Sistemas educativos, culturas escolares y reformas: continuidades y câmbios. 2. ed. Madrid: Morata, 2006. OS DESAFIOS DO CURRÍCULO INTEGRADO NO PROEJA Lilian Carla Molon1 Lílian Escandiel Crizel2 Introdução A EJA foi instituída no Brasil com a reformulação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional 5.692 de 1971, a LDBEN 9.394/96, trazendo um novo olhar para a EJA, que se torna modalidade da educação básica nas etapas do ensino fundamental e médio. Segundo o Parecer CEB/CNE 11/2000, a [...] Educação de Jovens e Adultos (EJA) representa uma dívida social não reparada para com os que não tiveram acesso a e nem domínio da escrita e leitura como bens sociais, na escola ou fora dela [...] Ser privado desse acesso é, de fato, a perda de um instrumento imprescindível para uma presença significativa na convivência social contemporânea. (PARECER CEB/CNE 11/2000, p. 5) Após anos de dívida social com o público da EJA, com o intuito de resgatar a identidade e o direito à escolarização para estes sujeitos, surge, em âmbito nacional através do Decreto 5.840 de 13 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. 50 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA de julho de 2006, o Programa de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA), o qual foi implantado neste mesmo ano na Rede Federal de Educação Profissional. As Instituições Federais de Educação Profissional assumem a responsabilidade de oferecer uma educação técnica profissional de qualidade a esses educandos que por muitos anos foram excluídos. Dessa forma, esse Programa que oferece a EJA integrada à Educação Profissional irá cumprir sua função reparadora, equalizadora e qualificadora junto aos excluídos da escola, que por tantos motivos não concluíram sua escolaridade. De acordo com o Decreto 5.840/06, o currículo do PROEJA poderá ser ofertado nos cursos de educação profissional articulado ao ensino médio nas formas integrada ou concomitante. No entanto, as instituições têm se concentrado na formação com o modelo integrado, seguindo as orientações do Documento Base (2007). O currículo integrado, segundo o Documento Base é uma possibilidade de inovar pedagogicamente na concepção de ensino médio, em resposta aos diferentes sujeitos sociais para os quais se destina, por meio de uma concepção que considera o mundo do trabalho e que leva em conta os mais diversos saberes produzidos em diferentes espaços sociais. Abandona-se a perspectiva estreita de formação para o mercado de trabalho, para assumir a formação integral dos sujeitos, como forma de compreender e se compreender no mundo (BRASIL, 2007, p. 43) [grifos do autor]. Trabalhar com uma pedagogia libertadora e problematizadora, no PROEJA, é uma alternativa de mudança ao currículo tradicional, que representa a "educação bancária". Nessa concepção de educação o conhecimento é transferido do professor, que exerce o papel ativo, para o aluno, o qual está limitado a uma recepção passiva, como num ato de depósito bancário (FREIRE, 2006). A pedagogia problematizadora de Freire (2006) considera os indivíduos em sua historicidade: como seres inacabados, portadores de saberes, vivências, conhecimentos, crenças e valores baseados em Os desafios do currículo integrado no PROEJA 51 suas experiências de vida, as quais serão responsáveis pelo desenvolvimento de suas capacidades e competências, de forma a contribuir para a transformação da realidade. A proposta de uma metodologia que valoriza a interação entre os atores envolvidos no processo educativo, que aproxima alunos e professores através do diálogo, rompe com as práticas pedagógicas que até então se limitavam em transferir o conhecimento pronto e acabado. Portanto, trata-se de uma construção dialética e dialógica entre educandos, educadores e o mundo do trabalho (FREIRE, 2006). Além de se ser um desafio político, o PROEJA torna-se um desafio pedagógico para todos os sujeitos envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem. O movimento de escuta aos gestores e educadores torna-se imprescindível no sentido de possibilitar o entendimento dos textos e contextos da construção dessa modalidade de ensino. Segundo Moura, o PROEJA: É um projeto possível de sociedade mais igualitária e fundamenta-se [...] na formação que combine, na sua prática e nos seus fundamentos científico-tecnológicos e históricosociais, trabalho, ciência e cultura (MOURA, 2006, p. 3). Para esse autor, a educação integrada precisa ser proporcionada de forma pública, gratuita e com qualidade, tanto aos jovens que estão na faixa etária "regular" como aos que não tiveram oportunidade de acesso e permanência na escola (MOURA, 2006). O caminho metodológico percorrido nesta pesquisa consistiu-se na busca de elementos teóricos referentes à educação de jovens e adultos, ensino integrado e busca dos documentos referentes à construção do currículo do curso Técnico em Comércio na modalidade PROEJA, Campus Bento Gonçalves. Através da aplicação de um questionário com duas educadoras que já foram coordenadoras do curso, também se buscou dimensionar os princípios e estratégias pedagógicas adotadas para a construção do currículo integrado, bem como verificar se as propostas do Plano do curso estão atendendo as necessidades dos estudantes. 52 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Portanto, a intenção é promover a reflexão sobre a construção do currículo integrado, uma vez que os dados obtidos são muito relevantes e podem contribuir para as mudanças necessárias na prática escolar do PROEJA, Campus Bento Gonçalves. A escolha pela aplicação de questionários deu-se por tratar-se de um dos métodos mais eficientes e amplamente usados em pesquisas na área da educação. Segundo Günther (apud SOARES, 2010), um questionário pode ser definido como um conjunto de perguntas sobre um determinado tópico, que não está interessado em verificar a habilidade do sujeito respondente, mas de permitir a emissão de sua opinião, seus interesses, aspectos da personalidade e informação biográfica (GÜNTHER, 2003, p. 2 apud SOARES, 2010). Já a pesquisa dos documentos referentes ao currículo do curso é fundamental e "necessariamente parte integrante de qualquer pesquisa" (MELLO, 2005, p. 68). Currículo e currículo integrado: alguns apontamentos Segundo Tomaz Tadeu da Silva, as teorias de currículo são questões de identidade, e o autor afirma que: Se quisermos recorrer à etimologia da palavra "currículo", que vem do latim curriculum, "pista de corrida", podemos dizer que no curso dessa "corrida" que é o currículo acabamos por nos tornar o que somos. [...] um currículo busca precisamente modificar as pessoas que vão "seguir" aquele currículo (SILVA, 2000, p. 15). Sacristán (2000) também afirma que: Os currículos são a expressão do equilíbrio de interesses e forças que gravitam sobre o sistema educativo num dado momento [...]. O currículo, em seu conteúdo e nas formas através das quais se nos apresenta e se apresenta aos professores e aos alunos, é uma opção historicamente Os desafios do currículo integrado no PROEJA 53 configurada, que se sedimentou dentro de uma determinada trama cultural, política, social e escolar; está carregado, portanto, de valores e pressupostos que é preciso decifrar. [...] O currículo reflete o conflito entre interesses dentro de uma sociedade e os valores dominantes que regem os processos educativos (SACRISTÁN, 2000, p. 17). Fica claro que o currículo é uma disputa de poder, e a seleção de conteúdos, que é realizada apenas por alguns, tem a intenção de reproduzir a cultura hegemônica e favorecer os que estão no poder, pois "selecionar é uma operação de poder. Privilegiar um tipo de conhecimento é uma operação de poder" (SILVA, 2000). Com a intenção de praticar a contra-hegemonia, surge neste contexto Paulo Freire, que não realizou estudos específicos sobre teorias do currículo, mas seu pensamento contribuiu para teorizações sobre o mesmo, mostrando a necessidade de se trabalhar com uma pedagogia libertadora e problematizadora, fazendo uma crítica ao currículo tradicional que se traduz em uma "educação bancária". Nessa concepção de educação o conhecimento, como afirmado anteriormente, é transferido do professor, que exerce o papel ativo, para o aluno, que está limitado a uma recepção passiva, como num ato de depósito bancário (FREIRE, 2006). Segundo Freire, "saber ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção" (2009). Nessa fala, podemos notar claramente que o autor é contra a "educação bancária" que deposita os conteúdos nos alunos (FREIRE, 2009). Nesta trajetória também se forjou uma concepção denominada crítico-reflexiva, que entende a construção do conhecimento a partir da problematização da realidade, da articulação entre teoria e prática conforme referencia o Plano de Curso do PROEJA no IFRS – Campus Bento Gonçalves. Esse espaço privilegiado de ação pedagógica entende seus sujeitos como parte de um todo, sem esquecer suas dimensões sociais, políticas, culturais e, acima de tudo, diversas, motivo pelo qual as concepções acima referendadas não têm espaço nem razão de existir. O espaço destinado ao PROEJA não é de silêncio, mas de movimento progressista e promissor, comprometido com o processo de 54 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA humanização, em que ação e reflexão estão dialeticamente constituídas. Freire salienta: [...] ação e reflexão, de tal forma solidárias, em uma interação tão radical que, sacrificada, ainda que por parte, uma delas se ressente, imediatamente, a outra. Não há palavra verdadeira que não seja práxis. Daí para dizer a palavra verdadeira seja transformar o mundo (1993, p. 77) É importante salientar que a proposição curricular do PROEJA, conforme Santos in Moll (2010, p. 123) não deve ser [...] um currículo de EJA, tampouco um currículo de Educação Profissional, mas um currículo voltado para pessoas que trabalham, ou que querem trabalhar, e não há possibilidade de acesso e permanência na escola regular. (SANTOS, 2008, p. 13) A proposta do PROEJA, ao mencionar a palavra integração, refere à articulação da educação profissional com o ensino médio e educação de jovens e adultos. Por isso, não se deve enfatizar uma ou outra especificidade. Pelo contrário, busca-se o "diálogo" entre as partes que formam uma totalidade. Lembrando que a origem recente desta ideia entre a formação geral e a educação profissional no Brasil está relacionada com a busca da superação do tradicional dualismo entre sociedade e educação, nas lutas pela democracia e em defesa da escola pública nos anos 1980, conforme referenciaram Ciavatta, Ramos e Frigoto (2005). Entendemos que estas contribuições trazem referenciais de um tempo novo, onde o processo educativo não acontece dissociado da construção da cidade, da cultura, das identidades, do trabalho, dos tempos e espaços de socialização. Conforme aponta Arroyo (1999, p. 144), esses espaços concebem uma totalidade que não pode ser ignorada quando se trata da constituição educativa. Discutir questões relativas ao currículo significa entender a educação na sua totalidade, enquanto possibilidade de qualificação dos homens e das mulheres os quais buscam, coletivamente, exercer seus papéis de estudante diante da sociedade que culturalmente os excluiu. Os desafios do currículo integrado no PROEJA 55 No entanto, muito se questiona o que significa realmente "integrar" no âmbito da educação. Ciavatta (2005) nos auxilia a compreender este conceito, dizendo: O que é integrar? É tornar íntegro, tornar inteiro, o quê? A palavra toma o sentido normal em alguns usos correntes. Mas não é disto que se trata aqui. Remetemos o termo ao seu sentido de completude, de compreensão das partes no seu todo ou da unidade no diverso, de tratar a educação como uma totalidade social, isto é, nas múltiplas mediações históricas que se concretizam os processos educativos. No caso da formação integrada ou do ensino médio integrado ao ensino técnico, queremos que a educação geral se torne parte inseparável da educação profissional em todos os campos onde se dá a preparação para o trabalho: seja nos processos produtivos, sejam nos processos educativos como formação inicial, como o ensino técnico, tecnológico ou superior. Significa que buscamos enfocar o trabalho como princípio educativo, no sentido de superar a dicotomia trabalho manual/trabalho intelectual, de incorporar a dimensão intelectual ao trabalho produtivo, de formar trabalhadores capazes de atuar como dirigentes e cidadãos. (CIAVATTA, 2005, p. 84) A não superação da fragmentação do currículo e das práticas pedagógicas, que ainda aprisionam a educação escolar, anula as possibilidades da promoção da ressignificação destes espaços enquanto constituintes da identidade social, cultural e histórica. O processo de desenvolvimento do currículo integrado é o desafio dos sistemas de educação atuais, o que implica no esforço da formação plena dos educandos, possibilitando construções autônomas e intelectualmente diferenciadas dos processos educacionais tradicionais. Dessa forma, busca-se estimular e viabilizar a intervenção na realidade conforme a necessidade dos sujeitos que interagem, operam e cooperam dentro desse contexto. Nesse sentido, pesquisar sobre questões relativas ao currículo, seu processo de construção e proposta metodológica é muito importante para se verificar se de fato a integração está ocorrendo e se a proposta está atendendo às necessidades dos educandos. Sabe-se que o principal propósito da educação integral é promover a igualdade, a liberdade e a identidade na busca do saber 56 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA daqueles que por algum motivo não tiveram acesso ao sistema escolar. Dessa forma, o PROEJA coloca-se entre o debate do velho e do novo, onde somente "[...] a práxis é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo" (FREIRE, 2005, p. 42). Metodologia do tema gerador via rede temática: uma prática cheia de desafios A metodologia proposta para a construção do currículo do PROEJA do IFRS-BG dá-se por meio dos conceitos de rede temática e tema gerador baseados na concepção freireana. Segundo Freire (2005), Investigar o tema gerador é investigar, repitamos, o pensar dos homens referido à realidade, é investigar seu atuar sobre a realidade, que é sua práxis (FREIRE, 2005, p. 114). Para que a proposta de construção do currículo se dê através de um tema gerador, o diálogo torna-se fundamental, pois somente mediatizados pelo diálogo é que os homens podem transformar o mundo. Além disso, Freire (2005) salienta que numa educação problematizadora, o ato dialógico inicia antes de uma situação pedagógica, quando o educador-educando se questiona em torno do que vai dialogar com os educandos-educadores. Freire (2005) aponta duas formas de agir do educador frente a estes questionamentos: Para o "educador bancário", na sua antidialogicidade, a pergunta, obviamente, não é o propósito do conteúdo do diálogo, que para ele não existe, mas a respeito do programa sobre o qual dissertará a seus alunos. E a esta pergunta responderá ele mesmo, organizando seu programa. Para o educador-educando, dialógico, problematizador, o conteúdo programático da educação não é uma doação ou imposição - um conjunto de informes a ser depositado nos educandos, mas a revolução organizada, sistematizada e acrescentada ao povo, daqueles elementos que este lhe entregou de forma desestruturada (FREIRE, 2005, p. 96-97). Os desafios do currículo integrado no PROEJA 57 No contexto do PROEJA, espera-se que os educadores estejam agindo da segunda forma, pois o currículo do PROEJA agrega um caráter desafiador, sendo que não deve apenas corresponder à mera aquisição de conhecimentos e, tampouco, uma abordagem resumida dos conteúdos. Ou seja, deve haver um equilíbrio entre os desejos do educador e dos educandos. Durante o processo de pesquisa, optou-se pela aplicação do questionário com as educadoras que já coordenaram o curso, de forma a se obter uma visão a partir dos desafios que as mesmas tiveram que enfrentar para construir o currículo integrado, bem como manter os educadores comprometidos junto à proposta do PROEJA. Segundo a coordenadora A: "[...] demos início à construção da rede temática, recolhendo falas dos alunos e conhecendo sua realidade de vida. A partir das análises das falas, construiu-se a rede temática e o detalhamento com os professores. Foram realizadas reuniões semanais com os professores para montar a rede temática e o detalhamento. Feita essa parte, as reuniões começaram a ser com os professores de cada turma separadamente. Analisava-se a rede temática e ensaiava-se a interdisciplinaridade entre os conteúdos. Cada professor colocava para o grupo o conteúdo que estava trabalhando e tentava-se organizar um projeto aliando várias disciplinas." Segundo os relatos da coordenadora A, as falas dos educandos trazem os elementos para a construção da rede temática. São seus anseios, medos, limitações, esperanças que os ligam a essa rede de possibilidades de construções e reconstruções. As falas exteriorizam muito mais que as relações que se estabelecem entre elas, e dessas com os componentes curriculares. A escolha dos temas geradores e o seu detalhamento no planejamento do conteúdo programático, sob a perspectiva de educação libertadora, precisa estar alicerçada, desde sua origem, em uma metodologia coerente com seus propósitos. Segundo Freire, este desafio implica: [...] uma metodologia que não pode contradizer a dialogicidade da educação libertadora. Daí que seja igualmente dialógica. Daí que conscientizadora também, proporcione, ao mesmo tempo, 58 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA a apreensão dos "temas geradores" e a tomada de consciência dos indivíduos em torno dos mesmos. (1993, p. 87) Concordamos com Mello (2005, p. 50), quando este diz que "isso significa a construção do currículo também e principalmente a partir da sala de aula, valorizando a linguagem-pensamento dos estudantes". Esta questão suscita a reflexão da práxis no ambiente escolar: a tomada de consciência por parte do educador com relação ao processo de construção do conhecimento, não exclusivamente na formação de conceitos prontos, mas também na experimentação destas possibilidades, as quais diferenciam esta modalidade de ensino das demais. A proposta de construção da educação a várias mãos abre a possibilidades de reflexão, diálogo permanente e adequação à realidade que se constitui na proposição do currículo flexível, real e tangível. As coordenadoras, quando questionadas acerca da importância dos encontros de formação, disseram: Coordenadora A: "Certamente os encontros de formação são o lugar por excelência para a proposta da interdisciplinaridade. No entanto, em algumas reuniões, ao invés de tratar do currículo, resolvem-se questões burocráticas, ou disciplinares das turmas." Coordenadora B: "Sem dúvidas, é importantíssimo. O planejamento ocorre muitas vezes fora de reuniões, onde um professor repassa ao outro o que foi trabalhando para que se continue o processo de construção do conhecimento." Mas para a primeira, nem sempre é possível trabalhar na proposta do currículo integrado devido a outras atividades inerentes aos educadores no curso. Já a segunda tem uma perspectiva distante do que é a proposta do planejamento coletivo, sendo que repassar os conteúdos trabalhados ao outro professor, sem efetivamente realizar uma discussão em grupo, não significa que se está trabalhando de forma integrada. A experiência do ensino integrado através da integração curricular exige que os educadores dialoguem e trabalhem coletiva e cooperativamente, de forma democrática, dialógica e dialética. Os desafios do currículo integrado no PROEJA 59 Além disso, as coordenadoras possuem posições semelhantes frente ao comprometimento dos educadores, fundamental para a excelência da proposta de temas geradores: Coordenadora A: "A maioria dos professores se mostram comprometidos e demonstram interesse em participar das reuniões e da construção do currículo integrado." Coordenadora B: "Devido às grandes mudanças de professores que atuam no PROEJA, percebo até uma falta de comprometimento, pois muitos dizem aos alunos que não trabalham mais com eles, optando por turmas das licenciaturas. Os comprometidos são os que permanecem e fazem questão disso." A abordagem interdisciplinar representa um salto qualitativo na organização do currículo, pois este passa a ser organizado não em função das disciplinas, como costuma ser feito, mas de núcleos que ultrapassam os limites das disciplinas, centrados em temas, problemas, tópicos, instituições, períodos históricos, espaços geográficos, grupos humanos, idéias e projetos. No entanto, ainda é um desafio, pois exige comprometimento, dedicação e disponibilidade dos educadores para ouvir, sentir e estabelecer conexões entre os saberes dos educandos e os saberes acadêmicos. Dessa forma, a formação dos jovens e adultos será integral, objetivando a inserção no mundo do trabalho de forma comprometida e crítica, resgatando a auto-estima, e contribuindo para que o egresso construa sua autonomia, além da capacitação profissional, de modo a constituir uma nova relação entre homem e trabalho. Assim, pretende-se garantir a satisfação pessoal e profissional dos educandos do PROEJA no Campus Bento Gonçalves. Nesse sentido, de acordo com a perspectiva das coordenadoras, o curso está correspondendo às expectativas dos educandos, sendo importante salientar que se percebe nas turmas um grande entusiasmo em relação às possibilidades que o curso trará para a vida dos educandos. Isso já é, por si só, um dos fatores mais estimulantes, tanto para os estudantes quanto para os educadores, que apostam no PROEJA como o início de uma nova caminhada juntos. No entanto, ambas as coordenadoras salientam que o Campus Bento Gonçalves deve investir em outros cursos para a 60 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA formação de jovens e adultos da região, o que pode ser comprovado na fala da coordenadora A: "Há um grande número de pessoas que necessitam de formação profissional na região. No entanto, acredito que, futuramente, um curso voltado à área de turismo e prestação de serviços tenha uma maior abrangência na região". Algumas considerações A proposição desta pesquisa cumpriu com seu papel, sistematizando as vozes de suas educadoras no que diz respeito à proposta do currículo integrado dentro da metodologia do tema gerador via rede temática, entendendo que o processo de seu desenvolvimento é desafiador para os sistemas educacionais vigentes. A pesquisa trouxe questões relativas ao currículo, sua proposta metodológica e sua construção no Curso Técnico em Comércio do Campus Bento Gonçalves, salientando que o PROEJA coloca-se entre o debate do velho e do novo. Sistematizando as reflexões trazidas ao longo do texto, é fundamental que os educadores tenham consciência da importância de uma metodologia que articule a integração dos conteúdos a partir da problematização da realidade, da articulação entre a teoria e a pratica, da interdisciplinaridade e da participação ativa do educando nos processos de ensino e de aprendizagem. Embora as coordenadoras do curso entendam que a metodologia do PROEJA deva atender aos princípios diferenciados propostos pelo programa, constata-se que este caminho metodológico ainda está um pouco distante da sua efetivação enquanto práxis. A proposta de integração curricular sugere movimento, processo, construção. Busca identificar e reconhecer a existência de práticas e conceitos associados ao contexto cultural produzidos no cotidiano, considerando as questões relativas ao mundo do trabalho, com o intuito de transformar as tensões que se constituem no decorrer do processo em possibilidades de ressignificação dos saberes do trabalho e do estudante-trabalhador. Os desafios do currículo integrado no PROEJA 61 Referências ALVES, Rubem. Conversa com quem gosta de ensinar. São Paulo: Ars Poética, 1995. ARROYO, Miguel G. Ofício de mestre: imagens e autoimagens. Petrópolis: Vozes, 2000. BRASIL. MINISTERIO DA EDUCACAO, SECRETARIA DE EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA. Programa de integração da educação profissional com a educação básica modalidade de educação de jovens e adultos – PROEJA. Brasília: 2007. BRASIL. Decreto nº5. 478, de 24 de junho de 2005. Institui, no âmbito das instituições federais de educação tecnológica, o Programa de Integração da Educação Profissional ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA. BRASIL. Decreto nº5. 840, de 13 de junho de 2006. Institui, no âmbito federal, o Programa de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA, e dá outras providências. BRASIL. Lei n° 9394 – 20 de dezembro de 1996. Propõem as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Diário Oficial, Brasília, 1996. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Programa de Integração da Educação Profissional Técnica de Nível Médio ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. PROEJA. Documento Base. 2007. BRASIL. Parecer CNE/CEB 11/2000: Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação de Jovens e Adultos. 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O Governo, ciente da necessidade de dar melhores condições de vida aos trabalhadores que, na sua faixa etária regular, não concluíram os estudos, está buscando através do Programa PROEJA profissionalizar essas pessoas, dando a elas uma formação 1 Universidade Federal de Santa Maria. 2 Universidade Federal de Santa Maria. 66 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA técnica e cidadã. A LDB 9394/96 no título V capítulo II seção V, refere-se especificamente à educação de jovens e adultos. Sabe-se que os alunos de turmas de Proeja são em geral estudantes adultos, que por razões financeiras ou familiares não puderam concluir seus estudos na chamada "época regular" porque necessitavam colaborar no sustento da família. Assim, nas turmas há muitos adultos que há muito tempo estão afastados dos bancos escolares e em conseqüência disso a dificuldade de aprendizado é maior. Os estudiosos da área defendem um formato especial no processo de ensino-aprendizagem e também no que se refere à avaliação. Uma avaliação progressiva, contínua e diferente se faz necessária para esses alunos. O autor Axt no artigo intitulado "O papel da experimentação no ensino de Ciências" propõe que haja maior integração da experimentação ao ensino. Palavras do autor: Utilizar experimentos como ponto de partida para desenvolver a compreensão de conceitos ou encaixá-los no momento propício, para que os alunos percebam sua relação com as idéias discutidas em aula, são funções da experimentação que devem ser exploradas. [...] Um curso que faça amplo emprego de experimentação, que se fundamente nela, que permita que ela comande o andamento do ensino, que leve o aluno a refletir e o professor a descobrir as dúvidas com que seus alunos se defrontam é um modelo o qual propomos para ser testado. O referido autor afirma ainda que "A experimentação também pode contribuir para aquisição de conhecimento e para o desenvolvimento mental dos alunos". Penso que estas colocações podem ser estendidas a outros cursos além do ensino de Ciências. Acredito que a experimentação é um processo importante para aproximar o aluno do conhecimento científico de maneira mais prazerosa. Considerando as características específicas dos alunos de PROEJA, talvez as atividades de experimentação sejam formas mais eficazes de trabalhar os conhecimentos científicos. Os autores Arruda e Laburú (1998, p. 53) discutem no decorrer do artigo intitulado "Considerações sobre a função do O papel da experimentação no ensino voltado para alunos de PROEJA 67 experimento no ensino de Ciências", a função e a importância da experimentação na ciência. Eles revelam três respostas para tal indagação: - a de cunho epistemológico que presume que a experimentação serve para comprovar a teoria, - a de cunho cognitivo que supõe que as atividades experimentais podem facilitar a compreensão do conteúdo, - e a de cunho motivacional que acredita que aulas práticas ajudam a despertar a curiosidade e o interesse pelo estudo. Transpondo estas idéias para o ensino de jovens e adultos, é possível que a utilização de atividades experimentais motive os alunos à continuidade dos estudos, inclusive evitando a evasão escolar nesta modalidade de ensino. As turmas de PROEJA FIC, pela sua especificidade, exigem formas de avaliação diferentes das tradicionais aplicadas, pois constituem-se de um grupo de jovens e adultos que na sua maioria estão afastados da escola há muitos anos. Nesse sentido faz-se necessário pensar em processos de avaliação que incluam aspectos quantitativos e qualitativos, pois o grupo em geral é formado por trabalhadores-estudantes. Levando-se em consideração tais preocupações levantou-se como problema desta pesquisa a seguinte questão norteadora: O desenvolvimento de atividades experimentais pode colaborar para um aprendizado mais significativo para os estudantes de PROEJA FIC? Assim o objetivo geral deste trabalho é: - Analisar se o aprendizado torna-se mais significativo a partir de experiências em grupo. Os objetivos específicos são: – Verificar se os alunos sentemse mais motivados quando trabalham em grupo, – Identificar se os alunos entendem melhor os conteúdos quando os utilizam em atividades experimentais, – Avaliar as relações interpessoais construídas no momento da realização dos trabalhos. Esta pesquisa busca demonstrar o papel das práticas de experimentação no ensino voltadas aos alunos de PROEJA FIC, e identificar se facilita o aprendizado tornando-o mais significativo e prazeroso. Desta forma, os resultados podem indicar aos educadores que trabalham com estes grupos se esta estratégia de 68 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA ensino é eficaz para facilitar a aprendizagem e a construção de conhecimento. Referencial teórico O atual mundo do trabalho está sendo regido pela economia capitalista, onde a lei da oferta e da demanda regula o mercado, inclusive a conquista de vagas de trabalho. Na conquista dessas vagas, um fator bastante considerado é a qualificação ou não do indivíduo frente ao perfil (exigências) do cargo. Sabe-se que a evolução tecnológica exige funcionários qualificados em substituição aos treinados. Segundo Baracho et al. (2006), a sociedade tem que estar atenta ao desenvolvimento científico e tecnológico do trabalho, para que a escola oriente as ações educacionais de forma a cumprir sua função social ao formar pessoas que tenham domínio dos fundamentos científicos e tecnológicos necessários ao exercício profissional. Porém, salientam os autores que: [...] apenas isso não é suficiente, pois é fundamental que a educação escolar também contribua para a formação de cidadãos capazes de compreender o sentido do que produzem com o seu próprio trabalho de forma reflexiva, autônoma, crítica, criativa e comprometida com a indução de novas demandas orientadas à melhoria da qualidade de vida das populações locais e regionais, sem perder de vista o contexto global. No sentido de viabilizar uma formação mais ampla do cidadão e coerente com o mundo do trabalho, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) Lei nº 9394/96 destaca no Art. 1º,§2º, do Título I, que "a educação escolar deverá vincular-se ao mundo do trabalho e à prática social". Mais adiante, no capítulo II seção I, do Ensino Fundamental, o Art. 22, afirma que: uma das finalidades do ensino fundamental é desenvolver o educando assegurando-lhe a formação indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhes meios para progredir no trabalho e nos estudos. O papel da experimentação no ensino voltado para alunos de PROEJA 69 Na LDB 9394/96, no capítulo III trata especificamente da educação profissional e tecnológica, o art. 39 afirma que: "A educação profissional e tecnológica, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia". Neste mesmo art. 39, §2º, prevê-se que a educação profissional e tecnológica abrangerá os seguintes cursos: I – de formação inicial e continuada ou qualificação profissional; II – de educação profissional técnica de nível médio; III – de educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação. É necessário considerar que nem todos os estudantes tiveram possibilidade de estudar na época dita "regular". Assim, têm-se hoje jovens e adultos à margem da sociedade, pois necessitam trabalhar para prover o sustento e o estudo ficou incompleto. Para oportunizar a esses jovens e adultos uma segunda chance, o Governo criou uma seção específica na LDB para tratar este assunto. Tal preocupação com a educação de jovens e adultos se justifica porque eles fazem parte de uma parcela da população que não concluiu os estudos no tempo regular, e necessitam de formação profissional para trabalhar. Os poucos anos de escola acarretam dificuldades na busca de qualificação profissional. A intenção com os cursos de educação básica integrados com a formação profissional vai além da profissionalização, busca desenvolver um cidadão com domínio da formação geral e um cidadão consciente de seu papel social. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB 9394/96), o Decreto 5154/2004 e o Decreto 5840/2006 entre outros, têm regulamentado a educação nacional. Especialmente este último, o Decreto 5840 de 13 de julho de 2006, institui o Programa Nacional de Integração da Educação Básica na modalidade de educação de jovens e adultos. Hoje o ensino técnico passou a ser valorizado novamente, com a possibilidade de vincular-se ao ensino fundamental, médio, superior e ao trabalhador jovem ou adulto, conforme consta na Lei 70 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA de Diretrizes e Bases da Educação - LDB nº 9394/96 – Capítulo III no art. 39, parágrafo único, da Educação Profissional. A LDB no título V (dos níveis e das modalidades de educação e ensino) no capítulo II seção V, refere-se à educação de jovens e adultos. O art. 37 afirma que: "a educação de jovens e adultos será destinada àqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no ensino fundamental e médio na idade própria". Ainda no art. 37, §2º caracteriza o poder público como o responsável por viabilizar e estimular o acesso e a permanência do trabalhador na escola, mediante ações integradas e complementares entre si. Deve-se considerar que este aluno é um trabalhador, e como tal além da educação básica ele necessita de qualificação. O mesmo art. 37, agora no §3º, diz que a educação de jovens e adultos deverá articular-se, preferencialmente, com a educação profissional. No ano de 2006 o Decreto nº 5840 institui no âmbito federal o Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA. O objetivo maior é de oportunizar a qualificação técnica profissional e uma formação mais ampla também para aqueles que não tiveram oportunidade de fazê-lo durante a idade regular de estudo. O art. 2º do Decreto 5840, diz que as instituições federais de educação profissional deverão implantar cursos e programas regulares do PROEJA até o ano de 2007. O Instituto Federal Farroupilha, através do Campus de Júlio de Castilhos tem se engajado nesta proposta de educação de nível médio e tecnológico e também na criação de turmas do Programa PROEJA em nível básico, médio e de especialização. Respeitando as diretrizes estabelecidas, foram criadas turmas de PROEJA Formação Inicial e Continuada (PROEJA FIC) no ano de 2009, no Campus Júlio de Castilhos, na área de Atendente e Recepcionista de Empreendimentos Comerciais, onde cada turma possui em média 25 alunos, no período noturno. É necessário utilizar metodologias diferentes das tradicionais para este público que faz parte das turmas de Proeja FIC, por estar há muito tempo longe da escola e seu processo de aprendizado se O papel da experimentação no ensino voltado para alunos de PROEJA 71 dar de forma diferente dos alunos que freqüentariam a mesma série em idade regular. Nesse sentido buscou-se estudar sobre o papel da experimentação como forma alternativa de metodologia para essas turmas. Gonçalves e Marques (2006, p. 227), defendem a idéia de que "problematizar o conhecimento explicitado pelo aluno contribui para sua aprendizagem, pois sabemos que se aprende a partir daquilo que se sabe." Os citados autores afirmam também que "a função socializadora do trabalho em equipe pode auxiliar na melhoria das habilidades sociais". Em função das razões acima os autores entendem o trabalho em equipe como conteúdo de aprendizagem, pois promove a interação entre os sujeitos, o exercício do diálogo, a autonomiacoletiva, a co-responsabilidade e o respeito à opinião do outro. Estudar o papel da experimentação significa pensar na relação entre teoria e prática, e considerar que ambas são indissociáveis. De acordo com Candau e Lelis (1983) apud Pimenta (2006, p. 67) "a teoria e a prática devem ser vistas como unidade. Unidade que não é identidade, mas relação simultânea e recíproca de autonomia e dependência". Vasquez (1968, p. 241) afirma que teoria e prática são componentes indissociáveis da "práxis". Considera ele que a práxis é a atividade humana, que pode ser teórica e prática e para estabelecer a unidade entre ambas, sugere diferentes formas de práxis (a produtiva, a política e a criadora). O autor firma que a prática não fala por si mesma e que exige uma relação com a teoria, logo a prática não existe sem um mínimo de ingredientes teóricos. Ele considera a educação uma prática social. Para Marx (1986) apud Pimenta, "práxis é a atitude humana de transformação da natureza e da sociedade. Não basta conhecer e interpretar o mundo, é preciso transformá-lo (práxis)". Candau e Lelis (1983) afirmam que "o fazer pedagógico, o que ensinar e como ensinar, deve ser articulado ao para quem e para que, expressando a unidade entre os conteúdos teóricos e instrumentais do currículo". Segundo a concepção dialética de Maria de Lourdes Fávero (1992, p. 65) "a teoria e a prática são o núcleo articulador da 72 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA formação do profissional. [...] A prática (a análise teórica da prática) é o ponto de partida e de chegada." Freire (2000, p. 24) salienta a necessidade de se fazer uma reflexão crítica constante sobre a prática realizada pelo educador juntamente com seus educandos. Destaca que a ética se torna uma exigência da relação teoria-prática. Freire afirma que: "ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção. [...] Quem ensina, aprende ao ensinar e quem aprende, ensina ao aprender" (p. 24 e 25). Metodologia de pesquisa Este trabalho, classificado como uma pesquisa qualitativa utilizou-se da metodologia da Pesquisa ação. Segundo Thiollent (2004, p. 14) [...]: a pesquisa – ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e no qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo. Esta pesquisa foi desenvolvida em etapas, sendo a primeira a realização de uma oficina de produção de papel reciclado com os alunos das duas turmas do curso de Atendente e Recepcionista de Empreendimentos Comerciais do Programa PROEJA FIC. A finalidade da oficina foi estimular os alunos a criarem idéias de produtos a partir de materiais simples e baratos, podendo ou não utilizar as folhas de papel reciclado produzidas. Após a oficina, cada turma foi divida em pequenos grupos e cada grupo desenvolveu um produto inovador utilizando o conhecimento prévio obtido na disciplina de Atendimento ao cliente. Os grupos foram observados durante a oficina, e durante as aulas. Na etapa final cada aluno respondeu a um questionário a fim de avaliar o processo de aprendizado no grupo durante as atividades experimentais. Os resultados obtidos estão descritos na seção seguinte. O papel da experimentação no ensino voltado para alunos de PROEJA 73 Resultados obtidos A partir da análise do instrumento de coleta de dados obtiveram-se os seguintes resultados: Questão 01: Identificar se o aprendizado torna-se mais significativo a partir de experiências em grupo. Ao analisar as respostas dos alunos pode-se perceber que a experiência de desenvolver um produto inovador em grupo foi significativa e prazerosa para os estudantes. Eles relataram que se sentiram felizes por desenvolver a experiência, desafiados e realizados por criar coisas novas e estimular a criatividade, sentiramse úteis e capazes de desenvolver novas habilidades, desenvolveram confiança em si, sentiram-se comprometidos com os demais integrantes do grupo e isso os aproximou estreitando as afinidades, e apontaram que foi uma experiência enriquecedora porque cada um ensinava e aprendia com o colega. Pela escrita dos alunos é possível concluir que o papel da experimentação no ensino através do aprendizado em grupo trouxe bons resultados aos estudantes, pois facilitou o entendimento do conteúdo e promoveu o desenvolvimento de habilidades de comunicação, integração, negociação, colaboração, entre outras, que são necessárias à vida e ao trabalho, lembrando especialmente que os alunos são adultos - trabalhadores. Questão 02: Verificar se os alunos sentem-se mais motivados quando trabalham em grupo. Os depoimentos indicam que os alunos gostaram de desenvolver a atividade em grupo porque tiveram oportunidade de trocar experiências, exercitar o planejamento do produto a partir de discussões, ensinar uns aos outros, participar das etapas de fabricação do produto, sentiram-se importantes e valorizados na medida em que colaboraram para a confecção do produto. Essa experiência de criar um produto inovador em grupo gerou interesse nos alunos de continuar fabricando os produtos para geração de renda. Considerando os aspectos positivos gerados pelo trabalho em cada grupo, é notória a satisfação dos alunos ao trabalharem juntos, principalmente porque um estimula e apóia o outro. 74 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Questão 03: Identificar se os alunos entendem melhor os conteúdos quando os utilizam em atividades experimentais. Os relatos dos alunos indicam que eles entenderam o conteúdo e obtiveram a fixação do mesmo quando aplicaram os conhecimentos das aulas expositivas em suas atividades experimentais de ensino que se traduziram na criação de um produto inovador. Os alunos consideraram fundamental entender sobre o comportamento do consumidor, sobre necessidades de clientes, sobre conceitos relacionados a produtos e serviços, sobre definição de preços, sobre formas de distribuição dos bens, pois estes conhecimentos orientaram a escolha do produto a ser desenvolvido e de todos os demais aspectos relacionados ao produto como preço, forma de divulgação e local de venda. A seguir descrevo o relato de alguns alunos: Aluno 01: "Eu entendi que o cliente tem necessidades e que eu tenho que criar um produto que vai satisfazer o desejo dele, um produto que ele possa pagar e que agrade". Aluno 02: "Os conhecimentos das aulas permitiram que a gente fizesse o trabalho porque precisamos escolher um produto para ser fabricado que tivesse comprador, que fosse interessante e útil, a um preço acessível e tivemos que definir onde venderíamos". Questão 04: Avaliar as relações interpessoais construídas no momento da realização dos trabalhos. Todos os alunos relataram que a experiência foi gratificante porque houve comprometimento de cada um durante a realização do trabalho. Segundo eles, a experiência serviu para aproximá-los, para melhorar o relacionamento entre os membros do grupo, também o fato de trocarem conhecimentos colaborou para que eles se sentissem mais confiantes e motivados. Essa troca de experiências no grupo contribuiu para o aprendizado individual e para o desenvolvimento de atitudes positivas, inclusive encorajandoos a sentirem-se mais preparados para a vida profissional. O papel da experimentação no ensino voltado para alunos de PROEJA 75 Considerações finais A metodologia da pesquisa-ação foi escolhida por permitir o envolvimento dos participantes e do pesquisador na situação problema analisada. O fato de o pesquisador poder interagir com o grupo pesquisado possibilitou perceber o quanto os alunos sentiram-se satisfeitos e motivados por desenvolverem trabalhos em grupo; observou-se também que os alunos compreenderam que os conhecimentos partilhados em sala de aula foram importantes para desenvolver o projeto do produto e são aplicáveis na vida e no trabalho. Além disso, houve o envolvimento dos grupos desde o projeto dos produtos até sua criação, oportunizando aos mesmos sentirem-se realizados, orgulhosos e confiantes em suas habilidades. Nesse contexto de maior confiança, os alunos organizaram duas amostras de seus produtos. Uma das amostras foi realizada na própria escola onde o curso de Atendente é desenvolvido em parceria com o Campus, e a outra foi externa à escola e direcionada para as demais turmas do programa PROEJA FIC de outros cursos coordenadas pelo Campus de Júlio de Castilhos. Acredito que a motivação demonstrada pelos alunos e seu engajamento nesse processo de construção do ensino demonstra o valor que cada aluno depositou nessa experiência. Os resultados obtidos dessa experimentação vão além do aspecto científico, incluem questões de motivação e autoestima. Conclui-se que o papel da experimentação para estas turmas de fato é significativo, trazendo excelentes resultados no aprendizado, estreitando e aprimorando as relações sociais e gerando autoestima aos alunos-trabalhadores. Referências AXT, Rolando. O papel da experimentação no ensino de ciências. In: MOREIRA, Marco Antônio; AXT, Rolando. Tópicos em Ensino de Ciências. Porto Alegre: Sagra, s/d 76 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA ______. O papel da experimentação no ensino de Ciências. Disponível em: <http://www.quimicapa.hpg.ig.com.br/Doc/o_ papel_da_ experimentacao.doc> Acesso em: set. 2010. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 23 dez. 1996. ______. Decreto nº 5154, de 23 de julho de 2004 ______. Decreto nº 5840 de 13 de julho de 2006 CANDAU, Vera M.; LELIS, Isabel. A relação teórico-prática na formação do educador. Tecnologia Educacional. RJ, 12-18, novdez, 1983. FÁVERO, M. L. Faculdade Nacional de Filosofia: depoimentos. Rio de Janeiro: Proedes. UFRJ, 1992 FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000 GONÇALVES, Fábio Peres; MARQUES, Carlos Alberto. Contribuições pedagógicas e epistemológicas em textos de experimentação no ensino de química. V 11(2) p. 219-238, 2006 MARX & ENGELS. A Ideologia Alemã, Teses sobre Feuerbach, 5. ed. São Paulo: Hucitec, 1986. NARDI, R. Questões atuais no ensino de ciências. São Paulo: Escritura Editora, 1998 PIMENTA, Selma Garrido. O estágio na formação de professores: unidade tória e prática? 7. ed. SP:Cortez, 2006 THIOLLENT, Michel. Metodologia da Pesquisa – Ação. 13. ed. São Paulo: Cortez, 2004. VASQUEZ, Adolfo Sanchez. Filosofia da práxis. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1968. CURRÍCULO INTEGRADO NO PROEJA: CAMINHOS INÉDITOS PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS!? Rita de Cássia Dias Costa1 Bernhard Sydow2 Simone Valdete dos Santos3 Introdução Quais movimentos o PROEJA está realizando por meio do seu Currículo e quais movimentos podemos prever para os próximos tempos no Rio Grande do Sul? Nessa perspectiva, para iniciar um diálogo sobre currículo do PROEJA apresentamos uma pergunta basilar: O que é Currículo Integrado? Currículo é uma variante da palavra curriculum. A etimologia apresenta vários significados: corrida, curso, carreira ou caminho. A palavra começou a ser usada no sentido acadêmico nas Universidades da Escócia em 1630. Muito além do planejamento de conteúdos e objetivos, a ideia de currículo abrange tudo o que o curso de uma escola apresenta e realiza para que a educação prossiga. Currículo, corrida, carreira e caminho envolvem 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense. 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. 3 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 78 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA necessariamente as noções de tempo, espaço, direção, vida, saberes, conhecimentos e o esforço de um movimento que tenha sentido para quem caminha. O termo absoluto tudo pode ser perigoso para seu oposto imediato nada, Moreira (2008, p. 24) alerta para a abertura indiscriminada do conceito: "É claro que a escola não pode ficar fechada nos seus muros, mas ampliar a palavra para significar todo e qualquer espaço em que ocorra a educação acaba com a especificidade que caracteriza a escola". Os estudos atuais de currículo destacam as atividades de aprendizagem em sua integralidade. O que não está necessariamente escrito, muitas vezes está somente dito, ocorre nos gestos, nos ritos contidos no cotidiano escolar. Elaborações sobre o currículo oculto, em ação, envolvem desde a forma de entrada dos alunos na escola (em filas, agrupados), os laboratórios, as saídas de campo, a visão de mundo dos profissionais da Educação que promovem alunos mais ou menos preconceituosos, machistas, solidários; o nível de envolvimento com a comunidade onde a escola está localizada. E o que é Currículo Integrado? Integrar é incluir, fazer parte, participar. Esta é a perspectiva principal do Currículo Integrado: abrir e criar caminhos em que tudo e todos, cada um e cada coisa façam parte e tenham sentido. A proposta curricular do PROEJA veio com uma beleza ética muito cativante. Expressa em seu Documento Base, ela ofereceu aos campi um aprofundamento da visão do ser humano em sua complexidade. As ações desencadeadas a partir desta visão humana e inclusiva do estudante do PROEJA causaram alguns tensionamentos por um lado e alguma desordem, por outro. Como vamos continuar esta caminhada? Por quê? Para quê? Excelentes resultados do Currículo Integrado já começam a aparecer, como podemos escutar no depoimento dos profissionais já formados bem como dos gestores e dos professores que nele atuam. O Currículo Integrado implica a preparação do campus para que a Educação Básica e a Educação Profissional possa se realizar de forma integrada e formar um todo coerente com sentido. Mas o Currículo Integrado significa muito mais: a inclusão do que cada um dos participantes da caminhada sabe. O jovem sabe. Sabe, por Currículo integrado no PROEJA: caminhos inéditos para a educação de jovens e adultos!? 79 exemplo, que tem que fazer alguma coisa diferente para que o mundo mude para melhor. Sabe, por exemplo, que palavras não bastam para expressar a luta que trava no cotidiano. Então, o jovem faz uma cena, uma arte, canta, dança, pinta, se expressa. O adulto sabe. Sabe, por exemplo, contar acontecimentos que não aparecem nos livros, nem nos jornais e revistas, muito menos na TV. O adulto conhece receitas e técnicas que pode passar para seus companheiros de caminhada. O estudante adulto, muitas vezes, ocupa o lugar de mestre. Jovens e adultos conhecem muito bem a angústia que a vida do dia-a-dia traz para cada um e sabem que a cura desta angústia está no cuidado, na solidariedade, na criação de um novo mundo mais justo, confortável, alegre e emocionante. Estes e outros saberes de cada jovem e adulto estão incluídos no currículo integrado do PROEJA. Se a Educação de Jovens e Adultos - EJA não incluir os saberes dos estudantes em seu currículo, este não será integrado. Currículo integrado significa mais ainda: integrar o mundo da vida no processo da Educação. Como afirma Maria Nilde Mascellani, não se trata de levar o banco para a escola, mas ir com os estudantes até o banco para ver como ele funciona realmente, lá onde ele é. Depois, sim, é interessante criar um banco dentro da escola posto a funcionar pelos estudantes. Ou, como enfatizava um professor da nova rede de Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia - IFs: educar com os pés no chão e a mão na massa. Pegar um motor e abrir a máquina com os estudantes para ver como ele é. Assim como podemos integrar o banco e o motor no currículo, também podemos incluir o planejamento urbano, a habitação, o saneamento, o turismo, a distribuição de capital e de renda, o desenvolvimento sócio-econômico-cultural da comunidade. Tudo é integrado ao currículo e a escola se torna corresponsável e empreendedora de movimentos concretos pela promoção da justiça e do conforto em sua comunidade. Além disso, construir o Currículo Integrado significa respeitar o professor, reconhecê-lo como autoridade em seu fazer pedagógico, como profissional da Educação, capaz de estabelecer pontes entre a tradição e a inovação, capaz de permitir mudanças, tanto no estudante quanto em si próprio, como veremos adiante. Também significa dispor de tempo para planejar em conjunto, criar projetos em conjunto, montar negócios, fábricas, vendas, organizar 80 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA excursões e planilhas de estudo e de intercâmbio, mostras técnicas e artísticas, exposições literárias e de pintura, visitas a feiras e museus, debates sobre filmes e feitura de filmes, visita ao teatro e encenação de dramas, comédias e tragédias. Tudo isso pressupõe a oferta de um ambiente receptivo, um olhar sincero e acolhedor desde a entrada da escola até o laboratório de informática, no serviço de reserva do auditório ou na secretaria acadêmica; uma palavra de incentivo ou um ouvido sensível e compreensivo. Às vezes, o currículo integrado significa literalmente ter pernas: caminhar até a morada do estudante, sentir como é o bairro onde ele mora, o relacionamento com a família, a relação conjugal, de pais, filhos e parentes. Todos eles interferem no currículo e é bom e gostoso convidá-los para celebrar a passagem de mais um ano escolar, ou simplesmente festejar o dia de São João. Currículo integrado é alegria de viver. Todo currículo tem uma teoria que o sustenta, visível ou invisível. Quando for invisível, é necessário detectar a teoria, o pensamento pedagógico que se esconde por trás de uma maneira de organizar, por exemplo, uma forma de avaliação, e explicitar seu conteúdo para compreender seu sentido. É preciso questionar: para onde vai levar esta ação? Estou classificando um estudante, taxando um professor? Ou estou permitindo que nele desperte o desejo de avançar mais ainda?! As teorias não surgem do nada e traços da genealogia daquelas que fundamentam o currículo integrado do PROEJA podem ser encontrados em várias fontes: nas ideias dos códigos "coleção", "mosaico" e "integração" (SACRISTÁN, 2000; BERNSTEIN, 1980); no pensamento do equilíbrio dinâmico dos opostos complementares do Yin e do Yang com origem no Tao – O caminho; nos "eixos temáticos" da teoria social crítica (GIROUX, 1983; 1986; 1987); na complexidade progressiva em espiral do construtivismo (BRUNER, 1960); na interdisciplinaridade (PIAGET, 1971; MORIN, 2000; 2003); na proposta da História como fio condutor (BOURDIEU, 1985); na pedagogia da libertação e do tema gerador (FREIRE, 1987); na ideia da Sociologia como coordenadora de estudos do meio (MASCELLANI, 2010); na Escola Parque (TEIXEIRA, 1959); na Escola Waldorf (STEINER, 1985); na pedagogia de projetos (DEWEY, 2001; KILPATRICK, Currículo integrado no PROEJA: caminhos inéditos para a educação de jovens e adultos!? 81 1918; 1925; HERNÁNDEZ, 1998); no trabalho como princípio gerador da cultura e da educação (PISTRAK, 1981; MAKARENKO, 1956; MARX, 1991; PESTALOZZI, 1781). Estas e outras propostas ainda vêm acrescidas das teorias pós-críticas de identidade, alteridade, subjetividade, discurso, poder, gênero, etnia, sexualidade, multiculturalismo e movimento pelo sentido. Há nas escolas os defensores das teorias curriculares com proposta de inclusão e há também os defensores da tradição positivista ou das teorias tecnicistas, tayloristas meritocráticas que enxergam o currículo sob a perspectiva exclusiva da produtividade e da satisfação do mercado. O debate entre estes ramos, às vezes, causa tensões e até rupturas no corpo constituído pelos professores e nas turmas constituídas pelos estudantes. Sim, há estudantes jovens e adultos que vem com a cabeça feita e afirmam que "o professor não sabe dar aula" porque coloca os estudantes como principais atores de seu processo educativo. Neste debate tenso entre as teorias, cada uma representa uma idealização. Fato é que "o ser não é feito de idealização ou de coisas ditas, como acreditava a velha lógica, mas de conjuntos ligados em que a significação aparece apenas como tendência" (MERLEAUPONTY, 2000, p. 96). As palavras deste filósofo nos servem de advertência para não nos perdermos em idealismos irrealizáveis, em teses abstratas. Importante é saber em que direção queremos nos mover, mesmo que nem tudo, bem pouco ou quase nada esteja de acordo com os nosso ideais. É na presença destas correntes que veremos de maneira pontual o que já afirmou Santos (2008, p. 3): a implantação do PROEJA causou uma saudável desordem nos CEFETs e nas Escolas Técnicas Federais, onde, num processo de fagocitose, as culturas tradicionais das escolas foram absorvendo a nova filosofia representada pelo PROEJA. Nessa perspectiva, o monitoramento desta política, tendo como uma das ações os grupos de pesquisa CAPES/PROEJA, tem proporcionado reflexões sobre as práticas curriculares as quais envolvem jovens e adultos trabalhadores. 82 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA O trabalho do grupo de pesquisa Ao longo de seus cinco anos de existência, o PROEJA foi constantemente acompanhado, analisado e pesquisado. Os estudos, pesquisas e artigos publicados sobre a política abordam desde a temática da implantação até o acompanhamento da atuação profissional dos egressos. No Rio Grande do Sul, a produção do grupo de pesquisa CAPES-PROEJA vem dedicando sua atenção aos diversos aspectos do programa, constituindo assim diferentes grupos de trabalho (GT). A fim de qualificar ações e estudos foi realizada uma pesquisa nas instituições parceiras e que ofertam cursos técnicos dentro das diretrizes do PROEJA. Tal pesquisa abordava aspectos relevantes para o trabalho dos GT, a saber: Currículo Integrado, Formação de Professores, Saberes da Escola, do trabalho e dos Trabalhadores, Acesso e Permanência. Foram entrevistados agentes (professores, coordenadores, técnicos) de onze instituições sendo uma vinculada a Universidade e dez vinculadas aos três Institutos Federais no Estado do Rio Grande do Sul. Metodologicamente o trabalho foi desenvolvido por meio de entrevistas individuais semi- estruturadas para a fase qualitativa e coleta de dados para a fase quantitativa. O GT Currículo dividiu sua atenção para os seguintes aspectos: processo de constituição do currículo e caracterização da proposta curricular. Este artigo tem por objetivo apresentar e refletir sobre tais aspectos a partir das respostas dadas nas diferentes instituições de ensino profissional da rede federal no estado. O processo de constituição do currículo O Decreto 5154/04 retomou o currículo integrado para a educação profissional. Com isso, as instituições de ensino que ofertam esta modalidade viram-se frente ao desafio de construírem projeto de curso que possibilitasse essa integração, e obviamente os cursos ofertados a partir do programa PROEJA não poderiam fugir desta linha. A construção de um projeto de curso que privilegie um currículo integrado certamente implica a discussão sobre esse currículo e sobre as práticas pedagógicas que o cercam. Tal debate Currículo integrado no PROEJA: caminhos inéditos para a educação de jovens e adultos!? 83 envolve todos os agentes do processo, neste caso, docentes e gestores. A tarefa de construir cursos com currículos integrados vai além da inclusão das disciplinas da educação básica nos desenhos curriculares. Para dar conta da construção de um currículo integrado é necessário que os docentes e equipe pedagógica revisitem conceitos como: relação do/com o saber, trabalho, mundo do trabalho, experiência, tecnologia, articulação entre sociedade, trabalho e educação, experiências pedagógicas, entre outros. Esta tarefa é orientada pelos gestores e pela equipe pedagógica. Segundo Machado (2007, p. 63) "será sempre uma construção dinâmica, concretizada nas relações pedagógicas, cujo sucesso depende da participação e da capacidade de auto-avaliação destas práticas pelos sujeitos que as tecem". Nas entrevistas realizadas com as instituições que ofertam o programa, indagou-se sobre a metodologia adotada, o processo de construção dos currículos envolvidos e o tempo investido para tanto. Pelas respostas dos entrevistados podemos perceber que algumas instituições realizaram o trabalho coletivamente e isso foi significativo no projeto do curso, embora ainda apareça uma separação de áreas - resquício característico do momento curricular vivido antes de do Decreto nº 5154/04. Quando a gente começou a conceber um curso PROEJA para nosso campus a gente discutiu, instituiu uma comissão e discutiu, foi a campo e pesquisou prá ver qual seria a demanda de curso[...] aí partimos para elaboração do perfil do egresso e de seis grandes competências gerais que iriam nortear o currículo do nosso curso, a partir do perfil do egresso. A partir das seis competências gerais que iriam nortear a formação do aluno, os professores, tanto da formação geral, quanto da área técnica, começaram a vislumbrar que conteúdos ou disciplinas seriam necessárias. Tomamos o cuidado, também, para não separar o currículo da formação geral, do currículo da formação profissional. Nós procuramos envolver de igual forma os professores. A princípio quem começou a construir o projeto foram os professores da formação geral e alguns coordenadores de cursos da instituição da área técnica, de cursos da área técnica, depois nós tivemos... Nós começamos a fazer convites para as reuniões. Convites bem direcionados para alguns 84 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA colegas para que eles também viessem participar e discutir conosco uma composição de currículo e fizemos também muita pesquisa em outras instituições. Muitos colegas buscaram informações em outros cursos afins [...], tanto pessoalmente quanto em pesquisa pela internet pra que a gente pudesse contemplar uma formação sólida pro aluno (Campus A). Se o currículo é o percurso realizado pelo estudante, só existe um currículo, não há como separar a formação geral da formação profissional. Atualmente, o campus A tem relevantes iniciativas de integração curricular, como: Projeto Casa; Projeto Miniempresa S.A/E; Semana Temática, com várias palestras incluindo títulos como "A Ética", "Economia Solidária", "Empreendedorismo", "Previdência Social", "Análise de Risco", "Design na Empresa"; PROEJA - apenas qualificação profissional?. Também há, no campus, apresentações musicais de vários gêneros e estilos, apresentação de dança, depoimentos de ex-alunos, feira de trocas, feira artesanal e a Mostra Literária. Começou a discussão no grande grupo, [...] quando optamos pelo curso em eletromecânica, então aí ficou uma equipe pedagógica junto com uma equipe técnica, grupos menores para trabalhar as disciplinas, então a política toda diferenciada de avaliação, de trabalho de pedagógico juntamente com as disciplinas técnicas, então este grupo menor com pessoas do pedagógico, da área elétrica e da área mecânica juntos formularam um plano de curso que depois foi para a discussão com o grande grupo mais uma vez. Geralmente a gente inicia a idéia com o grande grupo, mas trabalhar mesmo com grupos menores, aí se mostra o produto ao grande grupo e fica aberto a sugestões, porque no grupo muito grande muitas vezes se perde o norte. (Campus B) Na verdade o início foi com a coordenação. Depois, então, nós, professores, elaboramos as ementas, os planos de ensino, os conteúdos que iriam ser desenvolvidos. Mas isso a coordenação orientou de modo que a gente elaborasse um programa que tivesse uma ligação direta com o curso. (Campus C) Bom, a partir daquelas oficinas que foram feitas antes da implantação do PROEJA, foi feita uma discussão sobre metodologias de ensino que poderiam ser utilizadas e se optou Currículo integrado no PROEJA: caminhos inéditos para a educação de jovens e adultos!? 85 pela rede temática. Então foi feito todo um estudo, uma organização e a partir daí se efetivou em 2006 com a primeira turma. A gente faz a coleta das falas dos alunos nos primeiros momentos da aula, os professores coletam as falas dos alunos e, em cima dessas falas, a gente vai organizando então o currículo. É engraçado e interessante. Muito legal é que cada professor cria a sua estratégia de coleta dessas falas, a gente não engessou isso e esse ano aconteceu uma coisa bacana. [...] Então, cada professor cria sua estratégia, colhe as falas e aí a gente coloca nos momentos de socialização constrói a rede temática, depois a gente volta para sala de aula para os alunos confirmarem se é aquilo mesmo ou se a gente entendeu errado e a partir daí começa a fazer todo planejamento das aulas, o planejamento coletivo e sistematizado. (Campus D) Os relatos sobre o processo de construção dos cursos acima mostrados nos levam à reflexão sobre aprender, saber e relações com o saber. Charlot (2000, p. 55) afirma que Nascer é ingressar em um mundo no qual estar-se-á submetido a obrigação de aprender. Ninguém pode escapar dessa obrigação, pois o sujeito só pode "tornar-se" apropriando-se do mundo [...] adquirir saber permite assegurar-se um certo domínio do mundo no qual se vive, comunicar-se com outros seres e partilhar o mundo com eles, viver certas experiências e, assim, tornar-se maior, mais seguro de si, mais independente. Neste momento, o docente passa por um processo de novas aprendizagens, aprender a trocar com o outro, a perceber que "sua disciplina" está relacionada com as outras, complementado-as e sendo complementada, enfim, a recomposição do todo que foi separado por razões didáticas e ideológicas. Precisa, na relação com o outro, aprender a relacionar os conteúdos, aprender a trabalhar coletivamente e a romper com fragmentação dos conteúdos. Para que essas novas aprendizagens ocorram faz-se necessário, segundo Charlot (2000), que o docente encontre sentido nas mudanças a fim de mobilizar-se para tal. Ter sentido é ter significado, o sentido é produzido pelo estabelecimento de relações com o mundo ou com os outros. O sentido leva-nos ao desejo, e este à mobilização. Mobilizar equivale a colocar recursos em 86 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA movimento, engajar-se em uma atividade, fazer uso de si como recurso para atingir uma meta, um desejo. Para o campus G foram elementos de componentes de motivação para criar um curso: "[...] os referenciais teóricos, a educação de jovens e adultos, a educação profissional, o contexto regional sociocultural, contexto educacional, os arranjos produtivos regionais e a vocação da escola, infraestrutura física e de recursos humanos filosofia de trabalho da unidade". Embora este seja um processo interno no docente compreender como ele se dá no ser humano - é importante para aqueles cuja responsabilidade é de fomentar as mudanças. O grande desafio do currículo integrado é ultrapassar a construção coletiva de um projeto de curso perpetuando essa integração nas ações cotidianas da sala de aula e da escola. Neste aspecto, as entrevistas demonstraram que há ainda um longo caminho a percorrer. Embora já existam práticas integradoras em alguns cursos, elas ainda se restringem a pequenos grupos e a atividades pontuais. Vejamos as falas: Os professores, por exemplo, de História, Sociologia e Matemática eles vão os três para sala de aula e eles fizeram um trabalho bem interessante a partir do tangram. As contribuições do professor de Sociologia, de História e de Matemática fizeram toda a construção humana e a construção mais algébrica. Eles trabalharam a álgebra a partir da geometria e foi muito bacana. E os alunos aprenderam um montão. E então, a partir de projetos os professores conseguem integrar as áreas. (Campus D) [...] a gente montou o plano de ensino como um plano integrado, porém a questão do integrado, para ser operacionalizado na prática, é um entrave. É uma dificuldade nossa, porque os professores, de modo geral, sempre trabalharam de maneira individualizada por disciplina e agora, que nós estamos tentando colocar o ensino integrado, então nós temos que trabalhar com os colegas, por meio de reuniões de palestras de trabalhos integrados [...] Então, o que tem sido feito, foi assim, dois, três professores trabalharem num grupinho com um tema. Escolhem um tema e trabalham com o tema em sala de aula. E então, a partir daí, a gente observa alguns exemplos. Não foram todos que trabalharam assim, a Currículo integrado no PROEJA: caminhos inéditos para a educação de jovens e adultos!? 87 gente está acompanhando, caminhando no sentido de melhorar esta prática que a gente acredita que tem que melhorar bastante para atender o que é um ensino integrado. (Campus C) [...] tem alguns professores de algumas áreas que eles têm uma grande facilidade de fazer a integração, lá na física com a eletricidade, mas tem algumas disciplinas, que eu conversava, por exemplo, com a professora de biologia, e ela me dizia que tem muita dificuldade de integrar a biologia com a eletromecânica. Tem algumas coisas que ela consegue, mas tem muitas coisas que ela não consegue ver como fazer esta integração. Então, depende muito, digamos, da boa vontade do professor, da coordenação também, de conseguir fazer com que se possa integrar. Então, nas reuniões pedagógicas, eu diria que ela está acontecendo, mas, na sua plenitude, é bastante complexo (Campus B). Essa integração ocorre mais através dos projetos de trabalho. Tivemos uma experiência, no ano passado, com um projeto que era um estudo sobre embalagens, produtos de consumo. E a gente conseguiu integrar a língua portuguesa, língua inglesa, química, biologia o designer, a questão da reciclagem e especificamente – não aprofundamos muito – na área de alguma disciplina de administração, mas já foi um ensaio para uma possibilidade maior de integração. (Campus A) A proposta é que houvessem reuniões quinzenais e que a cada semestre houvesse um plano de trabalho dos professores para trabalhar projetos e então na própria organização do PPP a gente já tentou para que algumas coisas já ficassem certas pra tentar garantir uma qualidade no curso. Nessa proposta, a gente acredita que fiquem até os próprios conteúdos conforme o eixo de cada semestre. (Campus E) Os professores da área técnica nesse ano estão começando a experiência da simulação da criação da empresa, inclusive com produção de materiais. Nesse momento, eles estão fazendo uma integração com o pessoal da área da química, e o pessoal da administração que dá aula pra eles em uma disciplina de gestão. E eles estão fazendo um trabalho onde estão produzindo um sabão, inclusive eles vão ter participação numa exposição na outra semana. (Campus F) 88 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Nas citações acima percebemos que a dificuldade da integração muitas vezes se dá devido à disciplinarização do currículo e consequentemente a individualização das disciplinas. Chegamos então a outro aspecto significativo na efetivação do currículo integrado: a estruturação curricular. Mais precisamente, trata-se do seu reflexo na prática pedagógica. Segundo Sacristán (2000, p. 76): O formato curricular é substancial na configuração do currículo, derivando-se dele importantes repercussões na prática. Como se organizam os diferentes elementos que compõem o mesmo não é mera qualidade sem transcendência ou formal, mas passa a ser parte integrante da mensagem transmitida, projetando-se na prática. Quando investigados sobre a estrutura curricular as instituições assim se pronunciaram: [A proposta curricular e a grade curricular para o PROEJA é:] Praticamente a mesma [do curso regular]. Nós tivemos um problema com o nosso curso aqui, porque quando se criou o curso técnico de eletromecânica do PROEJA, ele não era em eletromecânica, era em instalação e manutenção industrial. Era um curso, digamos, um pouquinho lateral ao eletromecânica, paralelo ao eletromecânica. Ele era mais voltado à instalação e mecânica industrial, [...] a sugestão inicial foi esta: de se criar um curso em instalação e manutenção industrial, que é um curso com o norte um pouquinho desviado do eletromecânica, [...] Então depois de um ano todo feito, aí nós optamos em diversas discussões. O nosso curso tem que atender ao catálogo. E o curso mais próximo era o de eletromecânica. E então, nós tivemos que fazer uma reformulação no plano de curso para transformar realmente em eletromecânica. [...] Nós decidimos trabalhar disciplina por disciplina e ver o que estava faltando[...] troca de disciplinas, aumento de carga horária de umas, diminuição de outras, criação de novas disciplinas. Então, a partir do segundo ano, se tentou, digamos, corrigir o rumo deste curso para se tornar de eletromecânica, [...] já está aprovado na reitoria com o nome de Curso Técnico em Eletromecânica modalidade PROEJA. Exatamente igual ao outro curso ele não é. Digamos assim, disciplina, mesma carga horária é praticamente impossível, até mesmo devido às Currículo integrado no PROEJA: caminhos inéditos para a educação de jovens e adultos!? 89 condições de oferta, um é semestral, outro é anual, um tem que cumprir 18 semanas, o outro, 40 semanas. Então, se tentou fazer o mais próximo possível. Eu posso dizer que, ao finalizar os dois cursos, o aluno subsequente e o aluno do PROEJA, eles vão ter conhecimentos praticamente idênticos, muda muito pouca coisa. Posso dizer que é desprezível a diferença, mais [visível é] a diferença de carga horária. (Campus B) Nós temos três etapas, as três etapas correspondem a três anos, mas cada etapa é dividida em semestres, então em cada etapa ou seja, em cada semestre os alunos tem um certo número de disciplinas e essas disciplinas foram montadas, estruturadas no semestre de modo que tivéssemos disciplinas do ensino médio e do técnico, então ficou bastante mesclado as disciplinas, porque na verdade a gente montou o plano de ensino como um plano integrado. (Campus C) Bem, existe o currículo, aquele ideal que a gente sonhava, que a gente achava que ia conseguir estruturar um currículo por áreas temáticas e depois houve o currículo real que foi o possível, que foi estruturado em forma de disciplinas, um currículo de um curso anual um pouco fragmentado. (Campus A) É por disciplinas. [...] O currículo teve alterações da primeira turma prá cá. A gente já precisou fazer adaptações. Então, na verdade, a gente tem três currículos andando, até porque, na turma que entrou em 2006, a oferta foi da seguinte forma: nos dois primeiros anos, eles fariam a parte geral do ensino médio e no último o profissionalizante. [...] Mas a gente tem visto que o trabalho se tornou muito melhor a partir do momento em que a gente optou pelo ensino integrado, porque eles têm disciplina da parte profissionalizante desde o primeiro semestre. E isso ajuda a fazer um trabalho e a ser um eixo articulador de todas as disciplinas e o aluno se vê motivado também, porque a maioria deles vem em busca dessa profissionalização voltada para questão do mundo do trabalho. (Campus D) Os relatos apresentados apontam uma estruturação por disciplinas nos cursos. Mesmo quando houve modificações, elas giram em torno de perfil do curso, nome dos cursos, divisão das disciplinas e cargas horárias, e não no desenho curricular. 90 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Para Sacristán (2000), um currículo organizado por justaposição de componentes tem implicações significativas no fazer pedagógico. Neste modelo de currículo, os conteúdos são claramente delimitados e com limites nítidos em relação aos outros. É necessário que os professores empenhem mais esforços para se comunicarem, uma vez que a "barreira" das disciplinas fortalece a existência de uma rígida identidade profissional em torno do componente curricular, além de dar ao docente todo o poder sobre o conteúdo a ser trabalhado. Conforme Sacristán (2000, p. 78-79), [...] Pode se notar como tal especialização repercute numa desprofissionalização no sentido de que um domínio de campos curriculares cada vez mais especializados leva em si a perda de competências profissionais, como é o caso da capacidade de inter-relacionar conhecimentos diversos para que tenham um sentido coerente para o aluno que o recebe. Sacristán aponta um currículo mosaico como uma alternativa para ultrapassar estes obstáculos. Segundo ele, esta forma de organização curricular em que os elementos estão relacionados entre si possibilita a ligação dos conteúdos na prática e o ensino mais interdisciplinar, uma vez que exige menos esforços para integração por parte dos docentes. Embora os campi tenham mantido a divisão por disciplinas como base da estrutura curricular dos cursos, as entrevistas nos mostraram que há uma preocupação com o trabalho integrado e com o reconhecimento dos saberes dos alunos. Percebemos que, em alguns campi, a integração disciplinar ocorre por meio da ação pedagógica de docentes de algumas disciplinas ou pela necessidade profissional. [...] tem disciplina de desenho que se integra com sociologia quando fazem uma abordagem dos estudos culturais, focalizando a história do desenho com possibilidade de relação com o que os estudantes trazem da sua vivência em desenho na sua comunidade. Em língua portuguesa, há um projeto em andamento da construção de um glossário a partir da terminologia que se encontra em periódicos e livros, mas Currículo integrado no PROEJA: caminhos inéditos para a educação de jovens e adultos!? 91 também que se encontram na linguagem oral (dialetos). (Campus G) [...] nós temos novamente um professor de história que sempre monta um projeto com várias disciplinas e integra português, geografia, integram várias outras disciplinas. É um projeto muito interessante. No ano passado, os alunos ficaram encantados. Eles aproveitam e já levam os alunos dos cursos técnicos também e assim os alunos do PROEJA participam de todas as atividades da escola. Tudo que os nossos alunos formandos fazem, todos os tipos de viagens que os nossos alunos fazem, eles fazem também. O PROEJA vai inteirinho porque aí a gente leva eles como PROEJA mesmo né? Mas viagens técnicas, tudo, tudo eles participam. (Campus H) [...] levando em consideração a realidade deles e, por exemplo, o português: tentar trabalhar temas que tivessem a ver com o curso técnico deles [...] Quando a gente trabalhou contos, eles fizeram roupas para os personagens. Então, assim, essa parte que se trabalha os elementos da narrativa, dos personagens e tudo mais, então tentar esse personagem que tem essa personalidade, fisicamente a gente consegue perceber como ele é, que roupa usaria esse personagem, de acordo com a época em que ele estava vivendo e tudo mais. Então, usar em trabalhos o que eles vêm aprendendo da área técnica. A parte do curso de indústria – posso falar da minha disciplina também, só que ela não aconteceu tanto – a [disciplina] de vestuário aconteceu mais. Mas, assim, procurar textos, textos que tem um pouco a ver, um tanto a ver com o curso deles, pra ti poder discutir e até conversas em aulas. A gente tem uma relação muito boa, então sempre me preocupa: "gente o que vocês tão vendo?". No ano passado, teve panificação. Então: "o que vocês estão vendo?". Para ver se a gente consegue ir fazendo essa associação de temas, porque a parte de português é muito isso, e o tipo de texto que tu trabalha com eles é muito isso: tem o texto dissertativo, por exemplo, mas assim, textos oficiais, como fazer carta de apresentação. Então, tem que ir tentando voltar pra área deles e do que vão precisar depois. (Campus I) Muitas vezes, as atividades extraordinárias, fora da sala de aula, favorecem a ação interdisciplinar de maneira privilegiada: 92 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA [...] estabelecer relação com outro campus e estudantes e departamento de planejamento e obras da instituição, prédios históricos de Pelotas. Visitar Parque histórico e uma exposição de artes com foco no desenho com objetivo de mostrar não só o desenho técnico, mas a abrangência maior do desenho. Visitamos a Feira do Livro, a Bienal do Mercosul, as Mostras Técnicas da região. Quando retornamos das saídas de campo, os alunos contextualizam os conhecimentos adquiridos em sala de aula. (Campus G) A experiência profissional do estudante e seus saberes técnicos anteriores ao curso favorecem muito a aprendizagem quando integradas de maneira hábil: "[...] um aluno que trabalha com modelagem e metais, relaciona os exercícios de desenho geométrico que faz em sala de aula com os seus moldes que fazia a mão livre" (Campus G). De certa forma o contrário do desejo é o medo. É preciso reverter o medo em desejo, integrando e valorizando os saberes empíricos dos estudantes. Eles têm muitos saberes empíricos e um pouco de medo do saber científico porque a gente nota que eles tem certas lembranças não muito agradáveis, alguns motivos que os levaram a deixar a escola na época normal. Então, a gente tem tentado recuperar inclusive essa auto-afirmação deles durante as aulas, os professores procuram utilizar bastante os saberes deles principalmente professores que hoje trabalham com eles, os do ensino médio. Os professores do profissional, eles fazem isso com os alunos deles. (Campus H) Porque eu sempre digo pra eles [que] eu não venho dar aula pra eles, a gente troca figurinhas, por que eles têm uma experiência de vida muito grande. Isso a gente adapta aos conteúdos que a gente vai trabalhando. (Campus K) Não podemos afirmar que um novo desenho curricular seria a resposta para os problemas que a integração curricular vem encontrando quando posta em prática. Contudo, a análise e o estudo aprofundado do atual modelo fazem-se necessários na busca da superação das dificuldades, mesmo que, em alguns casos, criar um Currículo integrado no PROEJA: caminhos inéditos para a educação de jovens e adultos!? 93 Currículo Integrado implique ir na contramão da cultura escolar anterior. [...] a gente quis fazer na contramão do que sempre se fez, essa discussão da construção dos cursos porque sempre se pega as disciplina e a carga horária das disciplinas e a partir daí se fazia a proposta. Então, nós começamos ao contrário, partindo das características gerais do médio e do técnico, primeiro do perfil do egresso, depois do perfil do egresso. Nós pegamos as características gerais do ensino médio e do técnico e, a partir dali, olhando pra esse perfil, pras características desse curso, nós fizemos as competências gerais do curso, depois um recorte do conhecimento e depois é que as disciplinas começaram a aparecer. E aí, sim, a gente começou a integrar. (Campus J) Considerações Finais A pesquisa do Grupo de Trabalho sobre Currículo do PROEJA tem a função de divulgar propostas e direções curriculares bem sucedidas. Isto não significa apresentar somente fatos que coincidam com um ideal proposto, mas, antes, registrar o movimento lento e seguro que está havendo nos campi das instituições da rede federal de educação profissional e tecnológica em direção ao Currículo Integrado enquanto construção coletiva. Cada um de nós é estudante, professor e gestor que, por meio da ação e da reflexão coletiva, constrói uma nova práxis curricular, ou seja, cria, abre e trilha novos caminhos para a educação profissional integrada à EJA. Neste movimento de acolhimento do jovem e do adulto trabalhador nos cursos PROEJA adquirimos e trocamos saberes para a construção de um mundo mais justo. Para que a história do Currículo Integrado do PROEJA seja exemplo de solidariedade e espírito inclusivo, é indispensável diminuir distâncias, é vital manter contato, trocar ideias, criar significados, abrir corações e mentes, alimentar desejos, manter os pés no chão para poder saltar juntos na correnteza, experimentando o currículo integrado, como afirmou um dos sujeitos da pesquisa: fazer na contramão do que sempre se fez. 94 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Referências BERNSTEIN, B. On the classification and framing of educational knowledge. In: YOUNG, M. 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Tentando compreender esse aluno de EJA que procura a educação profissionalizante, que vê nesta educação um futuro e melhores oportunidades, penso que algo está explícito: trabalho, serviço, emprego, ocupação, isto é o que procuram. E, com o PROEJA, a oportunidade de ocupar uma vaga nos bancos dos Institutos Federais, que com anos de experiência; com professores competentes; com espaços e verbas suficientes para que essa 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 98 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA proposta dê certo, abre suas portas mesmo que por um decreto, tornando o futuro profissional mais possível. Este estudo analisa o caso do Instituto Federal de Educação Profissional e Tecnológica Rio Grande do Sul/ Campus Bento Gonçalves - uma instituição pública e gratuita localizada em uma área central do município de Bento Gonçalves, o qual recebe alunos das mais diversas regiões do estado e do país - que, com quase 50 anos de experiência em educação profissionalizante abriu suas portas para a Educação de Jovens e Adultos, apostando no currículo integrado, o qual é prioritariamente apresentado no Documento Base do PROEJA. Como essa Instituição implantou, acolhe e gerencia tal política. Conhecer sua proposta de currículo integrado e reconhecer essa proposta nas aulas da turma de PROEJA, nas falas desses alunos e nos depoimentos de docentes e gestores que pensam e executam esse currículo integrado. E também as possibilidades de integração entre a Educação Profissional e a Educação de Jovens e Adultos encontradas pela instituição, como os envolvidos: gestores, professores, estudantes, compreendem e sustentam tal proposta curricular. Anteriormente às mudanças de ordem estrutural e organizacional acontecidas com a lei 11892/08, outra lei movimentou o ritmo de trabalho dessas instituições: o decreto 5840/2006. A partir desse decreto todas as instituições de educação profissional deveriam implantar cursos e programas regulares de PROEJA até o ano de 2007. Esta articulação entre a Educação de Jovens e Adultos e a formação para o trabalho pode ser oferecida de maneira integrada, concomitante ou subsequente. A livre escolha do currículo a ser adotado pela instituição demonstra a flexibilidade dessa proposta de ensino que permite a adaptação do curso à realidade das comunidades escolares. De acordo com o documento base do PROEJA (2006) o que se pretende é uma integração epistemológica, de conteúdos, de metodologias e de práticas educativas. Refere-se a uma integração teoria-prática, entre o saber e o saber-fazer. Podemos traduzir essa integração da Educação Profissional Técnica com o Ensino Médio, na construção de um currículo que contemple uma formação O currículo integrado do PROEJA e seus diferentes reflexos para gestores, professores e alunos 99 integral, na qual as diversas áreas do conhecimento, inclusive os conhecimentos dos estudantes, tenham a mesma importância. Do meu objetivo principal neste estudo, a construção dos currículos do PROEJA, surgiu o interesse em fazer um estudo de caso no Instituto Federal Rio Grande do Sul/ Campus Bento Gonçalves, pela sua proposta de currículo integrado apresentada pela instituição e também pela transparência que demonstraram no Evento Diálogos Proeja em novembro de 2008 em Bento Gonçalves. Neste evento se reuniram para discutir não só gestores e professores envolvidos no PROEJA, mas também os próprios alunos. Dentre os alunos do Curso Técnico em Comércio/PROEJA que estavam neste evento, estavam presentes também os alunos da primeira turma do PROEJA, a turma de 2007. E, a partir dos depoimentos feitos por eles nos seminários temáticos, optei por realizar a minha pesquisa nesta turma, por ser a primeira e estar há mais tempo na Instituição. Para isso, apliquei questionários nos alunos e professores dessa turma, na intenção de reconhecer o processo de organização do currículo e os sujeitos envolvidos na sua elaboração: professores, gestores e alunos, e também como esse currículo vem sendo executado. Entrevistei gestores envolvidos na implantação do PROEJA na Instituição; participei de uma reunião pedagógica de planejamento das aulas com todos os professores e coordenação pedagógica do PROEJA e participei também de algumas aulas da turma para observação do currículo integrado na prática. Com o objetivo promover a expansão e a melhoria da qualidade do ensino em todos os níveis da instituição, o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI/ 2005-2009) do Campus Bento Gonçalves (2009) colocou como meta a abertura do Curso Técnico em Comércio no ano de 2006. Em 2007, criado então o Curso Técnico em Comércio, sua oferta foi de 35 vagas disputadas por 59 candidatos, o que resultou num total de 1,7 candidatos por vaga. O curso Técnico em Comércio foi pensado, de acordo com seus gestores, de forma que possibilitasse aos futuros docentes um contato direto com a área de atuação profissional. É possível visualizar o comprometimento da instituição quando opta por desenhar e apostar em um currículo integrado, além de vincular Educação Profissional, Ensino Médio e Educação 100 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA de Jovens e Adultos há uma necessidade de intervenções pedagógicas que dêem conta de tornar esse vínculo efetivamente ativo e não somente disciplinas sobrepostas ou superficialmente interligadas. Lucília Machado (2006) ao tratar da interligação das disciplinas, afirma que essas podem ser exploradas por diversos recursos, tais como: desenho da grade curricular contemplando aproximações temporais, fusões de conteúdo, realização de estudos e pesquisas compartilhadas, promoção conjunta de seminários e eventos, implementação de métodos de ensino por projetos e dos temas geradores, dentre outros. Concepções de Currículo e Currículo Integrado Acredito que, para que o currículo escolar possa contemplar a realidade dos educandos, é recomendável estabelecer relações entre ele, os conteúdos e as disciplinas. Assim, a organização curricular tratada de forma integrada passa a fazer parte da vida do estudante, superando os limites das disciplinas escolares e possibilitando uma maior compreensão para os alunos. Para que a Educação de Jovens a Adultos possa ser transformadora e seus educadores concretizem uma prática pedagógica que tenha significado é importante que os saberes dos educandos sejam valorizados e aproveitados, de forma que o estudante se sinta parte da relação ensino/aprendizagem. Para isso, se faz necessário um processo inter e transdisciplinar de aprendizagem, no qual os conhecimentos 'da escola' possam dialogar com os conhecimentos de 'fora da escola'. Essa inter e transdisciplinaridade acontece na sala de aula, não somente relacionando superficialmente uns conteúdos com os outros, ou relacionando esses conteúdos com a realidade de seus educandos, mas efetivamente quando o professor possibilita espaços em seu planejamento para o aluno. Sobre essa relação Freire explica que: A formação dos professores e das professoras devia insistir na constituição deste saber necessário e que me faz certo desta coisa óbvia, que é a importância inegável que tem sobre nós o O currículo integrado do PROEJA e seus diferentes reflexos para gestores, professores e alunos 101 contorno ecológico, social e econômico em que vivemos. E ao saber teórico desta influência teríamos que juntar o saber teórico-prático da realidade concreta em que os professores trabalham, Já sei, não há dúvida, que as condições materiais em que e sob que vivem os educandos lhes condicionam a compreensão do próprio mundo, sua capacidade de aprender, de responder aos desafios. Preciso, agora, saber ou abrir-me à realidade desses alunos com quem partilho a minha atividade pedagógica (FREIRE, 2001 p. 155). Pensar um planejamento para jovens e adultos trabalhadores é dar espaço para que esses sujeitos reflitam sobre suas realidades, respeitando o conhecimento que o educando traz para a escola. Reconhecendo a sala de aula como um local privilegiado para que os educandos entrem em contato com diversos tipos de informações e que, através delas, possam fazer uma leitura crítica do mundo, conhecendo pontos de vista, que muitas vezes divergem dos seus. A oportunidade de repensar e reconstruir seus aprendizados e suas concepções é necessária para que os estudantes aproximem seus conhecimentos de senso comum dos conhecimentos científicos, abandonando a concepção bancária de educação. Freire nos mostra em sua obra a possibilidade de uma prática pedagógica que desafie o aluno a refletir, tornando-se um sujeito crítico e autônomo, protagonista de sua vida. Para isso é preciso desmistificar a escola como local onde apenas aprendemos a fazer para adquirirmos capacidades e alcançarmos um resultado, pressupondo um conhecimento unicamente instrumental. Precisamos compreendê-la na sua totalidade como um ambiente que contribui para a vida e para o protagonismo de seus educandos em cada espaço social em que eles pertençam. É importante considerar que a escola valorize os saberes do aluno, e que seja oportunizado a ele demonstrar suas potencialidades, diversificando as situações de aprendizagens. Dessa forma, as práticas de ensino/aprendizagem precisam ter clareza de seus objetivos e de seus princípios em relação aos procedimentos e as formas de intervenção nesse processo. Provocar a criticidade dos alunos fazendo-os sair de seu estado de ouvinte, favorecendo a inclusão desses educandos na sociedade. 102 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA O diálogo entre os educadores no seu planejamento de aulas é essencial, sejam estas de formação geral, sejam estas de formação profissional, pois os sujeitos jovens e adultos de classes populares, que procuram o PROEJA, precisam e esperam a profissionalização, logo é recomendável que à formação geral esteja de fato integrada a formação profissional. Lucília Machado ao se referir ao currículo integrado atenta não só para as mudanças de ordem estrutural do currículo nas instituições, mas também para as mudanças nas práticas em sala de aula: Necessariamente, a construção do currículo integrado exige uma mudança de postura pedagógica; do modo de agir não só dos professores, mas também dos alunos. Significa uma ruptura com o modelo cultural que hierarquiza os conhecimentos e confere menor valor e até conotação negativa àqueles de ordem técnica, associados de forma preconceituosa ao trabalho manual (MACHADO, 2006. p. 44). Considerando a autonomia das escolas frente à escolha de seus currículos - integrado, subseqüente ou concomitante - por motivos peculiares das instituições, espera-se, mesmo nos currículos subseqüentes e concomitantes, práticas pedagógicas integradoras que tornem os conteúdos relevantes para os alunos. O ato de refletirmos, para quem e para quê estamos planejando a prática possibilita pensarmos num currículo contextualizado, explorando estratégias que desafiem todos os envolvidos no processo de ensino/aprendizagem. Refletir um currículo para o PROEJA com características adequadas às necessidades e disponibilidades dos alunos, garantindo-se, aos que forem trabalhadores, as condições de acesso e permanência na escola. Para as especificidades encontradas na EJA é recomendável que a equipe de professores e professoras, ao pensar o currículo do PROEJA, considere os saberes e conteúdos que estão do lado de fora das paredes da sala de aula. Reconhecer no aluno um trabalhador e no trabalhador um aluno, considerando as mais variadas idades e suas distintas histórias de vida é fundamental para a realização de uma prática significativa em sala de aula. O currículo integrado do PROEJA e seus diferentes reflexos para gestores, professores e alunos 103 O currículo integrado procura abordar a importância do conhecimento escolar e o modo com que as instituições escolares intervêm nos processos educacionais, na tentativa de atenuar o distanciamento entre a realidade e os conteúdos escolares. Essa intervenção possibilita uma maior reflexão sobre as práticas em sala de aula, sobre como os conteúdos relacionam-se com os demais e com outras disciplinas. Para Barracho et al. (2006) as disciplinas devem estar articuladas por um eixo integrador que corresponda à área profissional na qual está situado cada curso e também contribui para a integração o fato de que os alunos estão imersos em um ambiente de formação profissional. Assim sendo, precisamente por seu caráter coletivo, o processo de construção de currículo deve ser visto como algo inacabado e, portanto, que demanda continuidade de discussão, avaliação e replanejamento, à medida que vai sendo implementado. Na educação de jovens e adultos seus educadores precisam concretizar uma prática pedagógica verdadeiramente voltada para a formação integral. Para isso se faz necessário um processo integrado de ensino-aprendizagem no qual os conhecimentos escolares possam manter um diálogo permanente com os conhecimentos da vida do aluno. Neste sentido, voltando a estudar os alunos têm a oportunidade de ter contato com diversos tipos de conhecimentos para que, através deles, possam fazer uma leitura crítica do mundo, conhecendo pontos de vista que muitas vezes divergem dos seus, podendo levá-los a repensar seus aprendizados e concepções. Na educação profissionalizante esse currículo integrado se dá na sala de aula, não somente relacionando superficialmente uns conteúdos com os outros, ou através da justaposição de disciplinas de formação geral e formação específica, mas sim centrando em temas, problemas, tópicos, instituições, períodos históricos, espaços geográficos, grupos humanos, ideias (SANTOMÉ, 1998). Possibilitar espaços em seu planejamento para a educação profissional, a qual vá além da preparação para o mercado de trabalho, pois como esclarece Ciavatta: Mas a educação de jovens e adultos não pode ser reduzida às necessidades estritas do mercado de trabalho, ela não pode ser alheia às suas necessidades de sobrevivência e às exigências da 104 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA produção econômica, como campo de onde os sujeitos sociais retiram os meios de vida. Em conseqüência, os dados locais, a identificação das oportunidades ocupacionais não é um dado desprezível, pelo contrário, é parte do processo educativo (CIAVATTA, 2005, p. 98). Contudo, planejar um currículo para adultos trabalhadores é acima de tudo dar espaço para que esses sujeitos realmente existam, respeitando o conhecimento que trazem para a escola. Este é um dos grandes desafios do educador, desconstruir conceitos, quebrar os muros que separam os saberes escolares dos saberes da vida dos educandos, tornar a prática pedagógica intencional fazendo com que, através das diversas experiências escolares e extra-escolares, os alunos possam compreender-se e compreender a realidade que os cercam. Currículo em Prática A escolha pelo currículo integrado feita pelo Campus Bento Gonçalves vai ao encontro dos fundamentos político-pedagógicos do currículo, explicitados no Documento Base do PROEJA- Ensino Médio, que afirma: É necessário, também, estabelecer a relação entre educação profissional, ensino médio e EJA, traçando os fios que entrelaçam a perspectiva de pensar, de forma integrada, um projeto educativo, para além de segmentações e superposições que tão pouco revelam das possibilidades de ver mais complexamente a realidade e, por esse ponto de vista, pensar também a intervenção pedagógica (BRASIL, 2006, p. 41). Segundo Marli Eliza Dalmazo Afonso de André (2005), a sensibilidade é uma característica necessária ao pesquisador que escolhe realizar um estudo de caso. O pesquisador também deve recorrer às suas intuições e percepções para explorar os dados obtidos. De acordo com esse fundamento, utilizei para compreender meu objeto de estudo não somente os dados coletados nos questionários, entrevistas e observações de aulas, mas também O currículo integrado do PROEJA e seus diferentes reflexos para gestores, professores e alunos 105 minhas impressões acerca dos envolvidos na pesquisa, as relações entre professores, gestores e alunos da instituição, suas atitudes, conversas e reações. Parto então das ideias gerais da Instituição estudada para interpretar o currículo que ela procura promover no curso Técnico em Comércio. Pretendo caracterizar o currículo em ação sob três óticas diferentes, a ótica dos gestores, a ótica dos professores e a ótica dos alunos. Penso que as três são totalmente interligadas e que uma depende da outra para fazer sentido, porém a posição que esses três olhares ocupam nesse currículo não são as mesmas, e logo merecem atenções diferentes e também análises diferenciadas. Demonstro, a partir dos resultados do estudo de caso, uma pequena amostra das respostas dos professores, gestores e alunos do Curso Técnico em Comércio/PROEJA, como o grupo de docentes está direcionando suas aulas com a proposta de um currículo integrado e qual a impressão dos alunos sobre essas aulas. Sob a ótica dos gestores: A partir das entrevistas com os gestores da instituição foi que percebi a necessidade de analisar os resultados da pesquisa sob os olhares dos três segmentos, pois anteriormente a isto os considerava como parte dos docentes. Acabei por compreender então o impasse que estariam enfrentando para concretizar o currículo integrado que haviam proposto. Esse impasse é atribuído grande parte pela falta de interesse dos professores em participar das formações, como na seguinte resposta: A formação não é considerada como uma coisa para o bem na rede federal, por uma questão cultural, por acharem que já estão formados, já estão prontos. E essa inflexibilidade em relação à formação continuada faz com que as reuniões se tornem não um espaço para trocas, mas também um espaço de resistência ao novo. Ao afirmar que as reuniões para alguns fazem diferença, mas não como deveria fazer, a gestora explicou-me que nem todos os professores da instituição pensam dessa forma, conforme este depoimento: Os professores são bem envolvidos e uma preocupação constante, nem sempre se consegue uma interdisciplinaridade completa, mas os professores 106 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA estão sempre buscando, brigando, e a gente sabe que esta briga entre eles são na verdade angústias porque eles têm a intenção de acertar e muitas vezes não conseguem. Assim, pude compreender a divisão existente entre o grupo de professores e também o desabafo de outra gestora quando disse que para que o currículo da Instituição fosse efetivamente integrado toda a equipe tem de querer a mesma coisa, inclusive os gestores. Ao questioná-los sobre as dificuldades relacionadas às turmas de PROEJA a serem superadas pela Instituição, o processo seletivo esteve entre as apresentadas: Eu vejo como dificuldade, sinceramente o processo seletivo, não que seja dificuldade porque casualmente a gente consegue colocar todas as pessoas, mas vejo como um ponto de interrogação, até que ponto ele tá sendo feito da forma correta... o nosso processo seletivo até então é por sorteio mas é uma coisa que muitas vezes não contempla as pessoas que mais aproveitariam, contempla algum aluno que às vezes parou no Ensino Médio simplesmente porque não estava com vontade de estudar e veio fazer o PROEJA porque diziam que era bom. E eu não penso que seja exatamente pra esses alunos porque tem tantos alunos, tanta gente que pode ficar fora desse processo. Esse exercício, de pensar o processo seletivo e se perguntar para quem foram pensadas e para quem estão sendo oportunizadas essas vagas é o que, muitas vezes, pode transformar não só o processo de entrada dos alunos, mas as próprias práticas em sala de aula, por reconhecerem que existem diferenças e que essas diferenças têm de ser respeitadas. Sob a ótica dos professores: Os dados que trago logo abaixo foram produzidos através de um questionário aplicado no primeiro semestre deste ano, com catorze professores do Curso Técnico em Comércio. Desses catorze, nove responderam o questionário e me entregaram-no para a análise. Utilizo também para expor minhas ideias a respeito deste O currículo integrado do PROEJA e seus diferentes reflexos para gestores, professores e alunos 107 currículo, sob a ótica dos professores, minhas impressões e escritas em diário de campo acerca de algumas observações em aula, e também a observação de uma reunião pedagógica cujo assunto tratado era a avaliação nas turmas de PROEJA. Ao observar a reunião pedagógica, na qual estavam presentes esses professores, e analisar as suas respostas dos questionários, percebi o quanto eles estavam divididos em relação à proposta curricular do curso. As discussões, as dúvidas e os anseios, que pude notar naquela tarde, se traduziram nas respostas dadas nos questionários. Como na seguinte resposta: Nosso currículo ainda necessita muito estudo e reuniões para se tornar de fato integrado. Há ainda muito trabalho individual entre os professores apesar das reuniões semanais. E ficou também visível a necessidade da continuidade dos encontros semanais, o que facilita o contato com os colegas para troca de experiências e integração entre as disciplinas, que é essencial para o currículo que propõe a Instituição: Participamos semanalmente de reuniões onde fica fácil articular atividade em que se possa aproveitar e intercalar com diversas disciplinas, e também: No momento estamos analisando os currículos, tentando dar interdisciplinaridade às aulas. Nesta reunião cuja temática, como disse anteriormente, era avaliação, tive a oportunidade de presenciar as várias concepções de avaliação que surgiam do grupo e através disso pude perceber o quanto esses professores se dividiam por conta delas, o que se iguala às respostas do questionário aplicado: As avaliações ficam a critério de cada professor. Procuramos considerar o desenvolvimento individual e a participação na coletividade. Contrariando a outra resposta que diz: Através de um grupo de critérios que são avaliados pelos professores em conjunto. A decisão é de todo o grupo de professores. Uma ressalta a autonomia dos professores por avaliar da forma que quiser e a outra a participação do coletivo de professores. E o que mais demonstrou que ainda não estava claro para alguns professores que a proposta era uma maneira diferenciada de avaliação para o PROEJA, foi a resposta deste professor: Primeiro, os sujeitos do programa são diferentes dos das outras turmas? 108 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Durante a observação de uma aula da turma de PROEJA pude compreender o empenho da professora em relacionar a temática da aula com a vida dos estudantes que ali estavam, através de conversas e perguntas que, além de darem sentido ao que estava sendo estudado, faziam com que os alunos compreendessem melhor as questões abordadas por ela e participassem mais da aula. Assim como ela, outros professores parecem também importarem-se com a metodologia utilizada para o PROEJA, como afirmaram através das seguintes respostas: Sempre faço minha programação a partir dos educandos e com eles. E: [...] procuro sempre trabalhar na perspectiva do currículo aberto e o PROEJA possibilita bastante o exercício de um currículo a partir dos saberes trazidos pelos estudantes. E ainda, lembrando a importância da formação continuada: Acredito que minhas aulas estão sendo bem aproveitadas pelos alunos, mas há um longo caminho a percorrer, minhas dúvidas a respeito da melhor metodologia ainda são muitas, espero melhorar cada vez mais com a formação continuada, com a troca de experiências dos colegas. Em contrapartida, no grupo dos professores que reconhecem a diferença, e que ela é necessária - porém não possuem interesse de mudar, ou apenas melhorar sua metodologia: É um desafio, mas não reflete aquilo que planejei para minha carreira. Ao questioná-los sobre o processo de seleção dos alunos para ingressarem nas turmas de PROEJA, obtive a seguinte resposta de um dos professores: [...] não atingimos a todos os alunos que necessitariam desse curso por falta de divulgação. E não selecionam de forma correta. Acredito que poderíamos aplicar um questionário aos candidatos, vendo quais são as reais condições em que vivem. E se complementa com a outra resposta, desta vez questionada sobre a bolsa-auxílio: Já para a bolsa auxíliopermanência foi feito um processo de entrevistas que trouxe "n" elementos para conhecer os alunos de fato! Essas respostas nos dão elementos para refletirmos até que ponto a instituição está atingindo realmente o público a que se pretende o PROEJA. Se de fato conseguiram trazer para um Instituto Federal a população pobre e precariamente escolarizada da EJA. O currículo integrado do PROEJA e seus diferentes reflexos para gestores, professores e alunos 109 Sob a ótica dos alunos: Para ter elementos de análise da parte dos alunos para este estudo de caso, apliquei um questionário em vinte e três alunos do curso Técnico em Comércio/PROEJA e, durante as observações de algumas aulas consegui conversar com alguns deles. As respostas que trago para análise foram escolhidas por mim por serem as que mais conseguem expressar as respostas dos demais colegas e também as impressões com as quais fiquei após nossos encontros. A busca por emprego, profissão, trabalho, fator que pode melhorar as condições de vida desses alunos, está presente nas suas respostas: A vontade de aprender coisas novas e poder ganhar mais conhecimento para mudar de profissão ou conseguir encontrar um trabalho com mais facilidade. Assim como o anseio de tornarem-se pessoas reconhecidas pela experiência e sabedoria que carregam: [...] a maneira do trabalho do PROEJA é um trabalho mais voltado para o trabalho em grupo, e os professores fazem com que os alunos tragam experiências de vida do seu dia-a-dia para debater em sala de aula. As relações professor/alunos foram expressas muito positivamente pelos alunos, como na seguinte resposta: [...] hoje me sinto um ser humano especial, que posso manter uma conversação sadia e inteligente, sei me expressar, adquirir confiança e conhecimento. Enfim, amo este curso e meus professores. Em relação aos aspectos metodológicos, citaram algumas aulas onde tiveram oportunidade de se expressar: A aula que mais gostei foi a de Filosofia, pois os alunos tiveram que eu se expressar em grupo e contar seus defeitos e qualidades. E também outras nas quais enxergaram o trabalho que pretendem exercer fora da sala de aula, nos próprios conteúdos: As contas de matemática financeira, como atender os clientes e pessoas. E ainda: Eu não tenho nada a reclamar das aulas, porque eu gosto de todas e todas são importantes. Ao questioná-los sobre o futuro, todos foram muito otimistas: [...] vai mudar muito minha vida depois que eu terminar esse curso. Vou fazer uma faculdade. E demonstraram que a oportunidade de voltar a estudar também tem contribuído para seu desenvolvimento, tanto intelectual quanto social: [...] porque através dele tive uma visão mais ampla com relação ao comércio e a própria vida familiar. E: [...] esse aprendizado ninguém vai tirar de nós. 110 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Quanto à opção que fizeram pelo curso alguns afirmaram que: Não foi exatamente pelo curso, mas sim pela instituição. O que evidencia a importância de estar estudando em um Instituto Federal renomado como é o caso do Campus Bento Gonçalves. E também pela proposta integrada de ensino oferecida pela instituição: Por ser gratuita e por ter excelentes professores e as disciplinas serem voltadas com relação ao trabalho e ao nosso dia a dia. E nessas respostas o modo como são avaliados: demonstra toda a capacidade de aproveitamento que tivemos no decorrer de todo o semestre. Analisando o processo de ingresso desses alunos, pela ótica dos próprios alunos, verifiquei que a maioria acha muito positivo este ser por sorteio, como foi o ingresso deles: [...] é uma nova maneira de dar oportunidades para as pessoas que não conseguiram concluir seus estudos por não ter tempo ou horários às vezes pelo motivo de parar de estudar para trabalhar. E relacionam diretamente com as provas de seleção que são feitas em cursos de outras modalidades: Eu gosto desse tipo de seleção dos alunos porque devido ao aluno ficar muito tempo afastado das aulas ele terá dificuldades para prestar uma prova, em relação aos mais jovens que param a pouco tempo de estudar. Porém, um aluno mencionou a preocupação com processo seletivo: [...] minha opinião deveriam fazer uma prova ou entrevista para ver o interesse que o estudante tem para com o curso, porque hoje temos colegas que só incomodam e atrapalham em sala de aula e estão tirando a vaga de outras pessoas que estão precisando. Sugerindo maior rigorosidade neste processo e trazendo para discussão quem realmente está precisando dessas vagas. Sobre este aspecto, todos os alunos me pareceram muito satisfeitos pela oportunidade que estavam tendo de continuar seus estudos. Como então podemos classificar quem precisa ou não desta oportunidade? Ou a pergunta certa seria: Quem precisa mais desta oportunidade? Visto que a empregabilidade pode ficar em segundo plano quando buscam o retorno às aulas, como na seguinte resposta: A maioria dos integrantes da minha família são professores, dentistas enfim formados, a minha filha cursa universidade e eu estava me sentindo analfabeta. O currículo integrado do PROEJA e seus diferentes reflexos para gestores, professores e alunos 111 Considerações O PROEJA, que surgiu como imposição do governo, como mais uma política para a Educação de Jovens e Adultos de caráter compensatório toma forma e significado quando da sua prática nas instituições. Significados que podem ser interpretados como bons ou ruins, mas são eles que movimentam a trajetória de muitos jovens e adultos desde sua implantação. Juntamente com a promessa de melhores condições de empregabilidade, salário justo, carteira assinada, a Educação Profissional vem acompanhada da preocupação com a formação integral dos sujeitos envolvidos nesta política, com a formação não somente para o mercado de trabalho como também para a vida desses jovens adultos. O compromisso, já existente, com a Educação Profissional nos Institutos Federais tornou-se ainda maior frente ao desafio de receber a Educação de Jovens e Adultos. E, remodelar a grade curricular da Educação Profissional para a Educação de Jovens e Adultos tornou-se mais que junções de disciplinas ou práticas avaliativas diferenciadas. Embora esses estudantes, de origem humilde e que na maioria das vezes também concluíram o Ensino Fundamental na EJA, que viram no curso profissionalizante a oportunidade de ingressar ou permanecer no mercado de trabalho, tenham tantas capacidades quanto qualquer aluno de outro curso técnico oferecido pelas instituições, o currículo dessas modalidades de ensino têm de ser diferentes. Diferentes no sentido de que um aluno nunca é igual ao outro e que não podemos negar as diferenças de oportunidades vividas por cada um deles. Então, como ter um padrão de currículo, práticas, atividades e avaliações quando sabemos e enxergamos essas diferenças no dia a dia? As condições de acesso e permanência parecem implicar diretamente no número de evasões nas instituições. A decisão de voltar a estudar depois de já estar trabalhando, depois de já ter saído da casa dos pais, depois de passar a ter que ajudar os pais nas despesas da casa, depois de ter sua própria família, requer, além da resistência, condições para que isso aconteça. Vejo essas condições para a permanência do aluno nas instituições como parte essencial 112 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA do currículo no sentido de compreender que o aluno não é só aluno, é também pai, mãe, trabalhador ou chefe de família. Quando iniciei a pesquisa - através das revisões bibliográficas, textos, leis- supus o PROEJA como uma porta de entrada para pessoas que procuram a Educação Profissional e que vêem nela melhores condições de inserção no mundo do trabalho. Porém, em minhas visitas à Instituição estudada observei que não era somente isso que movia esses estudantes. Por trás da volta ao trabalho está também a satisfação de sentirem-se úteis e ativos novamente, protagonistas de suas próprias histórias. Percebi que este currículo integrado, desenhado para o Curso Técnico em Comércio, quando posto em prática, reflete sobre a comunidade escolar de três diferentes formas. Para os gestores, a aposta no currículo integrado reflete na insistência para que a proposta se concretize e na preocupação de que os docentes não dêem continuidade nessa integração. Já para os professores percebi uma grande divisão de opiniões que atribuí, devido aos questionários, às suas formações – áreas técnicas e licenciaturasque, reconhecendo as diferenças de se trabalhar com um currículo integrado de Educação Profissional com a Educação de Jovens e Adultos, ainda assim, demonstram em alguns casos um descontentamento de participar das formações ocorridas na Instituição. Para os alunos, este resgate da valorização de si torna a volta para os estudos importantes não somente para a vida profissional, como também para a vida pessoal. Observei em nossas conversas que muitos deles, principalmente as mulheres, se orgulham de si por estarem novamente na escola. A oportunidade da volta aos estudos com pessoas em idades diferentes, trajetórias de vida diferentes, mas que possuem os mesmos interesses tornam o ambiente mais rico de aprendizagens e trocas. Referências ANDRÉ, Marli Eliza Dalmazo Afonso de. Estudo de caso em Pesquisa e Avaliação Educacional. Brasília: Líber Livro Editora, 2005. O currículo integrado do PROEJA e seus diferentes reflexos para gestores, professores e alunos 113 BARRACHO, Maria das Graças et al. Algumas reflexões e proposições acerca do Ensino Médio integrado à Educação Profissional Técnica de Nível Médio. In: Ministério da Educação. Ensino Médio Integrado à Educação Profissional: Integrar para quê? Brasília: Secretaria de Educação Básica, 2006. BRASIL, Decreto nº 5.840, de 13 de junho de 2006. Institui, no âmbito federal, o Programa de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA, e dá outras providências. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Programa de Integração da Educação Profissional Técnica de Nível Médio ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. PROEJA. Documento Base. 2006. CIAVATTA, Maria. A formação integrada: a escola e o trabalho como lugares de memória e de identidade. In: Ensino Médio Integrado – Concepção e Contradições. São Paulo: Cortez, 2005. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia – Saberes necessários a prática educativa. 17. ed. São Paulo: Paz e Terra. 2001. GODINHO, Josiane Machado. O Currículo Integrado do PROEJA sob o prisma da aplicação prática: diferentes reflexos para gestores, professores e alunos. Porto Alegre: UFRGS 2010. Orientadora Simone Valdete dos Santos. Trabalho de Conclusão de Curso. MACHADO, Lucília. Ensino Médio e Ensino Técnico com Currículos Integrados: propostas de ação didática para uma relação não fantasiosa. In: Ministério da Educação. Ensino Médio Integrado à Educação Profissional: Integrar para quê? Brasília: Secretaria de Educação Básica, 2006. PROJETO DE PESQUISA CAPES / PROEJA: Experiências de educação profissional e tecnológica integrada à educação de 114 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA jovens e adultos no Estado do Rio Grande do Sul, pesquisadora líder – Dra. Naira Franzoi, em conformidade ao edital - Programa de Apoio ao Ensino e à Pesquisa Científica e Tecnológica em Educação Profissional integrada à Educação de Jovens e AdultosPROEJA CAPES/SETEC – 2006 – 2011. SANTOMÉ, Jurjo Torres. Globalização e Interdisciplinariedade - O Currículo Integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998. SILVA, Caetana Juracy Rezende (Org.). Institutos Federais Leis 11.892, de 29/12/2008 - Comentários e Reflexões. Brasília: IFRN, 2009. ANÁLISE DO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROEJA FIC NO CAMPUS SANTO AUGUSTO DO IF FARROUPILHA Marieli da Silva Marques1 Cristina Bandeira Townsend2 Introdução Atualmente, o debate relativo à dimensão educativa do trabalho vem ganhando espaço e adquire especial relevância no âmbito de programas que pretendem incluir alunos considerados à margem do sistema educacional, como é o caso do PROEJA. Este foi instituído como programa educacional brasileiro pelo Decreto n°5.840, de 13 de julho de 20063. A proposta do PROEJA supõe inserir no sistema de ensino um modelo que possa romper com a histórica dualidade entre educação geral e formação profissional. Para isso, faz uma proposta de integração, a partir do trabalho como princípio educativo, o que demanda a retomada de discussões sobre a sua dimensão ontológica. Outro fator a considerar é a questão da inclusão/exclusão social, uma vez que este é o princípio fundante da 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. Vale ressaltar que este Decreto deriva de uma ampliação do Decreto 5.478 de 24 de junho de 2005, que criou o Programa, mas, no entanto, limitava sua extensão ao âmbito das instituições federais de educação tecnológica e ao nível médio. 3 116 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA política em análise. O fenômeno da exclusão aparece não apenas para aqueles segmentos sociais que já estiveram incluídos em algum momento, mas envolve aqueles que jamais passaram pela condição de inclusão. Com essas considerações iniciais, parte-se do pressuposto de que a eficiência e efetividade social do PROEJA passa pelos critérios estabelecidos pelas instituições de ensino no processo de implantação do programa, critérios estes que poderão favorecer o êxito ou fracasso da política e consequentemente dos sujeitos envolvidos neste processo. Por exemplo, quais critérios estabelecidos para a oferta dos cursos, sua localização e demandas sociais. Além do atendimento às especificidades, como o tempo (do aluno e da escola), as condições de aprendizagem, condições estruturais das escolas, a formação continuada de professores, processo de avaliação, material pedagógico. A pesquisa realizada teve por objetivo analisar as possíveis condições de efetividade a partir das especificidades do público-alvo do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica, na modalidade de Educação de Jovens e Adultos, na formação inicial e continuada com ensino fundamental – PROEJA FIC no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha – Campus Santo Augusto. Para esse fim, tomou como referencial a análise do processo de elaboração do projeto do PROEJA FIC no referido campus e buscou-se compreender em que medida efetivou-se a intenção anunciada de beneficiar pessoas com necessidades educacionais especiais, jovens e adultos em situação de vulnerabilidade social, jovens e adultos moradores de comunidades que desenvolvem a agricultura familiar. O que se buscou descobrir é se a forma como o projeto foi pensado permite a socialização dos saberes e experiências; se é um facilitador na construção coletiva do conhecimento permitindo a participação de todos os atores envolvidos (respeitada cada esfera de ação). A pesquisa realizada caracterizou-se como do tipo qualitativa e optou, em seus procedimentos técnicos, pela utilização da análise documental do Projeto PROEJA FIC – Campus Santo Augusto enviado à Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC). Utilizou, como instrumento de coleta de dados: questionário dirigido ao responsável geral pelo projeto no campus, Análise do processo de construção do projeto PROEJA FIC no Campus Santo Augusto do IF... 117 ao responsável pela atividade de formação continuada dos profissionais envolvidos, ao responsável pela atividade de produção de material pedagógico, responsável pela atividade de monitoramento; estudo e pesquisa; e estudo de caso do IFF Campus Santo Augusto. Em síntese, este artigo é o resultado de uma análise inicial sobre os caminhos que foram pensados, discutidos e traçados para que tal programa, que pretende enfrentar a exclusão social e educacional se efetive no Instituto Federal Farroupilha- Campus Santo Augusto. O artigo estrutura-se em quatro seções. A primeira ocupa-se em descrever brevemente o Campus Santo Augusto, caracterizandoo em relação a sua localização, região de abrangência e atuação. A segunda seção aborda de modo sucinto, a educação de jovens e adultos (EJA) integrada à educação profissional (EP), seus desafios políticos e pedagógicos. A terceira seção apresenta o PROEJA FIC, seus objetivos e pressupostos. A discussão da elaboração e a efetividade social do projeto do PROEJA FIC no Campus Santo Augusto está exposta na seção quatro. Encerra-se com algumas considerações. O Campus Santo Augusto Conforme o que está colocado no Projeto de Desenvolvimento Institucional -PDI em relação à caracterização da região onde está situado o Campus Santo Augusto: [...] Mesorregião do Noroeste Rio-Grandense - é formada pela união de duzentos e dezesseis (216) municípios, agrupados em treze (13) microrregiões. Dentre as cidades mais populosas destacam-se: Passo Fundo, Erechim, Ijuí e Santo Ângelo. A abrangência do IF Farroupilha dar-se-á, em atuação direta, nas microregiões de Cerro Largo, Cruz Alta, Ijuí, Santa Rosa, Santo Ângelo e Três Passos. A economia regional da Fronteira Noroeste é baseada na agricultura familiar, com participação de setores tradicionais como o de máquinas e implementos agrícolas, produção leiteira 118 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA e setor agroindustrial em geral. A região caracteriza-se por apresentar uma parte significativa da produção agropecuária do estado, em particular, nas atividades de produção de grãos, leite, aves e de culturas forrageiras. (PDI, 2009, p. 14) Ainda em outro trecho do documento: A agricultura caracteriza-se pelas culturas anuais, especialmente soja, trigo e milho. A pecuária constitui-se basicamente na criação de gado de corte e leiteiro. A agropecuária, nos últimos anos, tem alcançado crescimento importante na produção de leite, ovos, mel, cera e lã. (PDI, 2009, p. 16) A região de abrangência definida para o campus é composta de trinta e sete municípios. Chamada Região Celeiro, situa-se no Vale do Rio Turvo e integra a Região Noroeste Colonial do Rio Grande do Sul (21 municípios). EJA & EP – uma questão de inclusão O tema da inclusão social fundamenta-se nos princípios éticos e nas prescrições constitucionais: direito à vida, à dignidade da pessoa humana e à justiça social, com compromissos cívicos e patrióticos. Neste sentido, a ênfase está posta no pressuposto de que seria impossível conceber um futuro para a população, sem integrar os 53 milhões de brasileiros excluídos da cidadania. "A escolaridade média do brasileiro, de pouco mais de quatro anos, é um indicador da dramática situação de desigualdade e injustiça existente no Brasil" (FOLHA, 2002). Assim, é preciso medidas audaciosas como políticas sociais integradas, estratégicas, formuladas e implementadas por meio de ações intersetoriais, em parcerias com os diversos segmentos, entidades e movimentos sociais. Nessa perspectiva, surge a proposição de programas que possam superar os modelos excludentes e que com tal política haja a possibilidade de acesso e permanência dos jovens e adultos no sistema escolar brasileiro, uma nova política educacional que inclua os jovens trabalhadores. É, então, na relação entre conhecimento científico e conhecimento técnico que se faz necessário estudar a possibilidade de realização Análise do processo de construção do projeto PROEJA FIC no Campus Santo Augusto do IF... 119 destas políticas de inclusão, emprego, renda e qualificação, que prometem ter continuidade e, portanto, efetividade social. A EJA tem por finalidade a promoção de condições para que o indivíduo jovem ou adulto consiga retomar seu potencial, desenvolver suas habilidades, confirmar competências adquiridas na educação extra-escolar e possibilitar um nível profissional, no mínimo, de qualificação. Desenvolveu-se, em consequência disso, um conceito de educação ao longo da vida, que se inicia com a alfabetização, mas que não se encerra nela, que deverá inserir a população no pleno exercício da cidadania, melhorar sua qualidade de vida e ampliar suas oportunidades no mundo do trabalho. A educação profissional abrange a educação tecnológica e a formação profissional. Com isso, propicia aos jovens e adultos dominarem diferentes áreas de conhecimento e práticas requeridas pelas atividades produtivas, bem como potencializar uma leitura crítica da realidade econômica, política e das relações de trabalho, participando ativamente da vida em sociedade. A educação profissional, entendida como um projeto educativo global e emancipador, tem como objetivo contribuir para a formação de trabalhadores competentes e comprometidos com a transformação da sociedade. Dessa forma, uma das finalidades mais significativas dos cursos no âmbito dessa política pública educacional, deve ser a capacidade de proporcionar educação básica sólida, em conexão com a formação profissional, ou seja, a formação integral do educando. Ao mesmo tempo em que proporciona aos seus estudantes uma formação de cidadãosprofissionais capazes de compreender a realidade social, econômica, política e cultural, a fim de inserir-se e atuar de maneira ética e competente, visando à transformação da sociedade em função dos interesses sociais e coletivos. Nos dias atuais, o trabalho tornou-se uma conexão de vida pessoal com a social, buscando sempre se manter no mercado de trabalho. A educação está atrelada ao capital, reflexo do poder capitalista, e a essência do ser humano tornou-se mecânica, onde tudo gira em torno do capital. Até sua sobrevivência é gerenciada a partir de probabilidades lucrativas. É preciso pensar numa constante evolução dos sistemas de educação, principalmente quanto à formação do indivíduo. Com as 120 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA constantes mudanças no mundo do trabalho e a evolução da tecnologia, faz-se necessária a atualização de conhecimentos e desenvolvimento de novas habilidades humanas. Com isso, tornouse indispensável aos jovens e adultos o retorno à escola, principalmente, para os que pouco a frequentaram. A preocupação com a qualidade da educação, em todas as esferas – política, pedagógica, financeira, entre outras – devem fazer parte dos constantes debates que envolvem a educação, em especial a EJA e – por que não incluir? – a EP. A EJA integrada a EP, porém, pode contribuir com o seu educando trabalhador, a fim de que ele obtenha a educação num sentido amplo, quando coloca como seu principal objetivo, não a entrega de um certificado, mas sim a manutenção desse sujeito no mercado de trabalho e a compreensão do mundo em sua totalidade, que possibilite viver em harmonia com os outros e consigo mesmo. O desafio está posto na tentativa de desenvolver estratégias que possibilitem aliar significativamente o conhecimento técnico com o conhecimento científico tendo como eixo o trabalho. O PROEJA foi instituído pelo Decreto 5.478 de 2005, posteriormente reformulado pelo Decreto 5.840 de 2006, passando a abranger os seguintes cursos e programas de educação profissional: a) formação inicial e continuada, cuja oferta pode ser articulada com a elevação de escolaridade em nível de Ensino Fundamental; b) educação profissional técnica de nível médio, que poderá ocorrer de forma integrada ou concomitante à elevação de escolaridade. Deste modo, amplia-se a oferta da qualificação profissional aos jovens e adultos, juntamente com a formação geral no Ensino Fundamental. Agregar a elevação de escolaridade à qualificação profissional apresenta-se como uma oportunidade aos jovens e adultos da EJA – muitas vezes, a única – de acesso aos conhecimentos reconhecidos como escolares, porém apresentados numa lógica de inclusão social, que propicia repensar o trabalho como um direito de exercício pleno de cidadania, a integração escolarização-mundo do trabalho, na mediação entre o conhecimento, o ser humano e o trabalho. Análise do processo de construção do projeto PROEJA FIC no Campus Santo Augusto do IF... 121 PROEJA FIC Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada IPEA, de 2007, mostram que dos 9,13 milhões de trabalhadores que procuraram emprego, apenas 1,6 milhão tinham experiência e qualificação profissional. Constata-se assim uma demanda potencial de 7,4 milhões de trabalhadores sem formação profissional. Os dados do Sistema de Informação Penitenciária INFOPEN do Ministério da Justiça também demonstram que já passa de 420 mil o número de pessoas privadas de liberdade no Brasil. Dessas, somente 18% têm acesso a atividades educacionais e 70% não concluíram o ensino fundamental. Por meio do PROEJA FIC, o MEC incentivou a parceria entre os institutos federais de educação e os municípios para que os cursos possam ser oferecidos. Para viabilizar o funcionamento do programa, o ministério deverá liberar R$ 65 mil para cada turma de até 30 alunos. O recurso deverá ser aplicado na aquisição de materiais de uso permanente, em laboratórios, em diárias e passagens e para remunerar os formadores que capacitarão os docentes que atuarão no programa. A formação será oferecida, no mínimo, em 1400 horas-aulas, sendo 1200 referentes ao ensino fundamental e 200 alusivas à qualificação profissional. Durante o curso de formação, os docentes deverão, ainda, definir e elaborar o material didático a ser utilizado com os alunos. A produção desse material também será custeada pelo MEC. O monitoramento pedagógico e da formação continuada dos professores é de responsabilidade dos institutos federais. Economicamente, o programa reivindica a importância de sanar os déficits educacionais dos jovens e adultos pouco escolarizados, mas o rol das exigências tecnológicas, científicas, culturais e sociais, na atualidade, é mais alto e carece que se cuide com maior atenção e empenho das condições e dos meios que favoreçam resultados e possibilitem uma oferta educacional de maior qualidade. Por se tratar de uma política nova, com princípios norteadores para todo o país existe uma perspectiva grande para esta implantação. Tal perspectiva envolve o desejo pela oferta de 122 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA educação com qualidade, de forma pública e gratuita, atendendo a jovens e adultos do sistema educacional. O programa, ação do governo federal, consiste em uma parceria entre os Institutos Federais do país e os municípios mais próximos aos campi que integram cada uma destas instituições. O objetivo é suprir a grande demanda de pessoas fora da faixa etária e que não possuem qualificação profissional, dando oportunidade de mobilidade social. No ano de 2009 inicia-se o processo de implantação do PROEJA FIC nos campi do Instituto de Educação Ciência e Tecnologia Farroupilha. No Instituto Federal Farroupilha - RS, os 11 municípios beneficiados pelo programa são: Manoel Viana, Jari, Jaguari, Cacequi, São Pedro do Sul, Cachoeira do Sul, Tupanciretã, Coronel Bicaco, Santo Cristo, Três Passos, Tenente Portela. Além dos municípios que têm um campus do instituto, serão contemplados: Santa Rosa, Júlio de Castilhos, Santo Augusto, São Borja, Alegrete e São Vicente do Sul. Ao todo são 18 municípios beneficiados. Cada um dos 11 municípios próximos ao IF Farroupilha será responsável pela formação do ensino fundamental, e o instituto, pela formação profissional, oferecendo 11 cursos de qualificação: agroindústria, piscicultura, informática, panificação, construção civil, assistente e operações administrativas, atendente e recepcionista de empreendimentos comerciais, implantação e manutenção de parques e jardins, produção de alimentos em base agroecológica, informação e comunicação e gestão agropecuária. Assim, para apresentar os objetivos, diretrizes e princípios deste novo programa, realizou-se um evento: [...] no dia 22 de outubro a Aula Inaugural do Projeto PROEJA – FIC, às 14 horas, no auditório da Reitoria, na Rua Esmeralda, 430, Bairro Camobi, em Santa Maria – RS. Com a presença do Reitor, professor Carlos Alberto Pinto da Rosa, e sob a organização da equipe do Núcleo de Pós-Graduação, Capacitação e Acompanhamento Docente da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação do IFFarroupilha, a convidada Vânia Noble, Técnica em Assuntos Educacionais do Ministério da Educação (MEC), ministra a Aula Inaugural aos presentes. Além dos cerca de 120 professores da rede municipal de ensino que são participantes dessa formação e gestores, o Análise do processo de construção do projeto PROEJA FIC no Campus Santo Augusto do IF... 123 evento reune ainda Prefeitos e Secretários de Educação dos municípios beneficiados pelo Projeto, Pró-Reitores e Diretores Gerais do Instituto e também os representantes do projeto nos campi de Alegrete, Júlio de Castilhos, Santa Rosa, Santo Augusto e São Vicente do Sul. (IFFarroupilha, s/d., s.p.) Assim como os demais campi do Instituto Federal Farroupilha, o campus Santo Augusto aceitou o desafio de apresentar propostas para implantação de cursos no âmbito do PROEJA FIC. A partir do interesse demonstrado por alguns professores e de acordo com as condições e capacidade (organizacional, pessoal, técnica e de infra-estrutura) existentes no campus, a equipe responsável pela elaboração da proposta de implantação do PROEJA FIC no Campus Santo Augusto optou por ofertar o curso de Gestão Agropecuária. Esta escolha foi feita em função da necessidade apresentada pelos municípios envolvidos na elaboração do projeto. O Campus Santo Augusto firmou parceria para implantação do PROEJA FIC com os municípios de Coronel Bicaco, Santo Cristo, Tenente Portela e Três Passos. O PROEJA FIC no campus Santo Augusto: um processo em construção Na perspectiva de implantação de curso na modalidade PROEJA FIC, conhecer o público para o qual esta educação é direcionada é imprescindível. Ao pensar em propiciar, numa instituição de educação profissional e tecnológica, um curso de EJA a jovens e adultos que precisam da retomada e continuidade dos seus estudos aliada a uma formação profissional que aumente as suas possibilidades de acesso ao mercado de trabalho ou de nele melhorar a sua condição, deve-se considerar a heterogeneidade desse público, quais seus interesses, suas identidades, suas preocupações, necessidades, expectativas em relação à escola, suas habilidades, enfim, suas vivências. É de suma importância para a construção de uma proposta pedagógica que se considere suas especificidades. É fundamental perceber quem é esse sujeito para que os conteúdos a serem trabalhados façam sentido, tenham 124 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA significado, sejam elementos concretos na sua formação, instrumentalizando-o para uma intervenção significativa na sua realidade. Conforme está expresso no projeto, o que se pretende com o PROEJA FIC no IF Farroupilha é a formação humana integrada à formação profissional a fim de que os sujeitos compreendam o mundo e nele possam atuar no sentido de construir uma sociedade justa. Torna-se de total importância que sejam universalizados não somente o acesso, mas também a permanência e a conclusão do ensino fundamental. No entanto, é indispensável ressaltar que isto por si só não é suficiente, pois é necessário que esta permanência ocorra com qualidade. Além do projeto enviado à SETEC, analisaram-se as respostas dos membros da equipe responsável4 pelo projeto. O questionário contou com 22 questões semi-estruturadas cuja intenção foi verificar o grau de compreensão, de entendimento acerca do PROEJA, a fim de que as condições para que o projeto tenha efetividade social sejam pensadas, buscadas e planejadas5. Seis membros da equipe responderam ao questionário. Todos esses são docentes com experiência em diferentes modalidades de ensino, inclusive EJA e PROEJA e 50% dos membros são da região e sua atuação profissional anterior faz com que conheçam bem a realidade local e do público alvo do projeto. Na construção do projeto, os secretários de educação dos municípios parceiros foram consultados sobre a realidade e as demandas de seus municípios. Estes secretários por sua vez, consultaram os prováveis futuros estudantes do PROEJA FIC sobre seu interesse no curso proposto. Um dos secretários de educação é sociólogo e faz pesquisa na área de EJA. Nesse processo de elaboração, os secretários de educação dos municípios participaram de alguns momentos, em algumas reuniões. A equipe é constituída de profissionais da educação de áreas diversas: dois são da Pedagogia, um licenciado em Física, um licenciado em Matemática, um licenciado em História e um Engenheiro Agrônomo com mestrado em Educação. 4 O projeto encontra-se em fase de execução, com a formação continuada dos gestores, técnicos e docentes que atuarão no PROEJA FIC. 5 Análise do processo de construção do projeto PROEJA FIC no Campus Santo Augusto do IF... 125 O desenvolvimento do PROEJA FIC desenha, então, uma grande oportunidade para sua exploração como espaço aberto à pesquisa, à experimentação pedagógica, à produção de materiais didáticos e à formação especializada de profissionais da educação. Elementos de ciência, cultura, tecnologia e do mundo do trabalho formam a base de referência para a construção de currículos inovadores e estrategicamente orientados à aprendizagem significativa, ao desenvolvimento integrado e sustentável, às necessidades, aspirações e expectativas dos alunos e à transformação da realidade em que vivem. Para tanto, é preciso que as alternativas didáticas de integração sejam planejadas, acompanhadas e avaliadas; que os esforços visando à integração sejam contínuos e participativos e que as experiências sejam sistematizadas, registradas, avaliadas para assim garantir a efetividade social do programa. Convém destacar também outra questão relevante que é a mudança conceitual que houve na forma de entender a EJA, há o desafio de inovar na EP mediante essa combinação curricular. Essa associação introduz novos elementos nessa mudança paradigmática e requer a criação de alternativas curriculares e pedagógicas e de situações de ensino-aprendizagem que levem em conta as necessidades de profissionalização dos jovens adultos pouco escolarizados, para além da sua escolarização básica. A qualidade da concepção e da efetividade no desenvolvimento de um projeto pedagógico assim orientado requer uma mudança no entendimento de todos os que se propõem a levá-lo a termo e, ainda, a capacidade da equipe executora de lidar com situações heterogêneas, complexas e inovadoras e com universos sócio-cognitivos diferentes e que, às vezes, se opõem contraditoriamente. É, por outro lado, uma oportunidade ímpar para uma instituição educacional colocar-se como referência e em posição de vanguarda, respondendo a um leque variado de expectativas e interesses. O desafio maior com relação ao desenho e à organização curriculares encontra-se na concretização efetiva da composição sintética dos campos educacionais envolvidos, de maneira que sejam incorporados os avanços que cada um alcança, para que, numa perspectiva de superação, surja algo inteiramente novo em relação às experiências que nele deságuam. Essa construção requer que cada profissional saia do isolamento de sua experiência específica, seja de 126 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA educação profissional técnica, formação inicial e continuada, de ensino fundamental ou médio, de EJA, para introduzir-se num processo de um novo aprendizado, que implica, em primeiro lugar, a conscientização da necessidade de harmonizar conteúdos e que pede inserções de novos conteúdos em suas práticas e coordenação temporal de suas ações didáticas, considerando as demandas de compartilhamento e de cooperação. Algumas Considerações Na tentativa de sanar a dívida social com as camadas populares da sociedade, surge o PROEJA FIC. Novas perspectivas foram abertas a esta modalidade de ensino, consolidando-as no marco da universalização da educação básica, de ampliação das oportunidades de qualificação e de perspectivas de continuidade de estudos a um público portador de escolaridade interrompida, fato que limita as chances de melhor inserção na vida social e no mundo do trabalho. Um segundo aspecto a ser considerado é o fato de ser um campo de conhecimento específico. A ênfase está pautada nas reais necessidades dos sujeitos, nas estratégias e na organização do trabalho pedagógico. Isto significa que este programa necessitará assegurar que estes sujeitos tenham condições de continuar estudando. Esta tarefa, dentre outras, implica um desafio do ponto de vista epistemológico, qual seja, o da composição de novos arranjos disciplinares e metodológicos para que se possa garantir a materialidade da proposta curricular integrada cujo alicerce é o trabalho como princípio educativo, que articula a unidade de conhecimentos gerais e conhecimentos específicos. A integração entre conhecimentos científicos e tecnológicos refere-se à integração não como uma justaposição de disciplinas, mas enquanto tentativa de realmente haver uma articulação entre saber científico e saber técnico capaz de romper a dualidade. Por essa via, é possível entender que o eixo articulador do programa será o trabalho, entendendo-o enquanto produção da vida humana, proposições já afirmadas nos direitos constitucionais. Assim conhecer e compreender quem são os sujeitos (público) do Análise do processo de construção do projeto PROEJA FIC no Campus Santo Augusto do IF... 127 referido curso aumenta as suas possibilidades de êxito e a dimensão do trabalho social que ele poderá cumprir. Conceitualmente, o dicionário da Língua Portuguesa explica que efetividade significa a qualidade do que é efetivo, do que se manifesta por um efeito real, o que realmente existe, ou está em efeito, permanente. A efetividade social de algo também é compreendida como a capacidade de ser eficaz (objetivos) e eficiente (usar bem os recursos) ao mesmo tempo. A eficácia pode ser classificada em três dimensões: objetiva, funcional, administrativa e contábil. A primeira verifica se as metas atingidas são iguais, superiores ou inferiores às metas propostas. Já a segunda investiga se os modelos analíticos são construídos para aferir "se os meios e a metodologia de implantação do programa estão sendo empregados de acordo com as estratégias previamente definidas". Na terceira e quarta, a intenção está posta na moralidade executória para identificar práticas prejudiciais ao desempenho adequado (funcional) do programa. Em face destas diferentes conceituações, o presente estudo assume a efetividade social de uma política como sendo um processo em movimento, o que implica na análise das condições de sua efetivação, isto é, da garantia ou não de um dado programa ou política atender ao que se propõe e transformar as condições sociais da população-alvo. No entanto, entende-se que não e possível estudar a efetividade real no processo de implantação desse programa, uma vez que é difícil capturar a efetividade social do PROEJA FIC. O que se pode observar nas discussões que seguem nessa argumentação, são as possíveis condições para a efetividade social do PROEJA FIC no Campus Santo Augusto, com base no cenário traçado no processo de elaboração do projeto. Considerou-se um desafio metodológico e pedagógico investigar um programa que pretende firmar-se como política pública e alcançar perenidade. Constatou-se que a EP e a EJA são áreas de intersecção de políticas. Esta integração é um diferencial na formação profissionalizante porque favorece uma formação mais completa, na medida em que propõe uma união orgânica entre a formação geral e específica. Para contemplar a eficácia política e as possíveis condições para a efetividade social do PROEJA FIC do e no processo de sua 128 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA implantação, é necessário entender que a avaliação política consiste em atribuir valor às políticas, às suas consequências, ao aparato institucional em que elas se dão e aos próprios atos que pretendem modificar o seu conteúdo. A eficiência e efetividade estão articuladas às condições de tempo, acesso e aprendizagem dos jovens e adultos. Nos limites do processo desta pesquisa que analisou apenas a construção do projeto PROEJA FIC do Campus Santo Augusto, constatou-se em vários momentos no estudo realizado, nos documentos consultados, no projeto elaborado e nas respostas dos entrevistados a preocupação com a integração, inclusão social, respeito às especificidades da EJA e articulação entre a EJA e a EP. Entretanto, não há explicitação e operacionalização desta articulação na proposição do curso nem o aprofundamento da conceituação de cada aspecto e de suas inter-relações para a formação dos alunos. Por isso, compreende-se que existe espaço para mais investigações sobre o assunto. Por fim, sinaliza-se para outras dificuldades identificadas na implantação do PROEJA. Elas estão para além das análises feitas, e esta pesquisa deu conta de nomear apenas algumas, tais como a formação continuada dos professores, o aprofundamento conceitual e prático no campo do currículo integrado; a relação entre demandas de profissionalização e oferta de cursos. Estes elementos poderão constituir certamente objeto de outras pesquisas. Referências BRASIL. Decreto nº 5.154. Regulamenta o § 2º do art. 36 e os arts. 39 a 41 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília, DF: 23 de julho de 2004. ______. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CEB nº 16/99. Dispõe sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional de Nível Técnico. Brasília, DF: 05 de outubro de 1999. Análise do processo de construção do projeto PROEJA FIC no Campus Santo Augusto do IF... 129 ______. Constituição Federal da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro 1988. ______. Congresso Nacional. Lei Federal nº 9.394. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. 20 de dezembro de 1996. ______. Conselho Nacional de Educação. Parecer CNE/CEB nº. 11/2001 e Resolução CNE/CEB nº. 11/2000. Diretrizes curriculares para a Educação de Jovens e Adultos. Brasília: MEC, maio 2000. ______. Congresso Nacional. Decreto nº 5.478. 24 de junho 2005. ______. Congresso Nacional. Decreto n° 5.840. 13 de julho 2006. ______. Ministério da Educação. Documento Base – programa de integração da Educação Profissional técnica de nível médio ao Ensino Médio na modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA. Brasília: SETEC, 2007. ______. 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PROBLEMATIZAÇÕES E POSSIBILIDADES ACERCA DO CURRÍCULO INTEGRADO PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Janaina Marques Silva1 Introdução As transformações no campo educacional brasileiro nas últimas duas décadas, articuladas a partir da aprovação da Constituição de 1988 e da LDB em 1996, provocaram profundas alterações no funcionamento dos sistemas de ensino e na qualidade do seu atendimento. Também neste mesmo período, presenciou-se a afirmação da proposta neoliberal, onde as orientações formuladas por agências internacionais como o FMI, Banco Mundial, UNESCO e CEPAL intervieram e revestiram profundamente com as racionalizações econômicas os pressupostos mais clássicos do pensamento mais conservador os diversos campos de atuação do Estado, principalmente o educacional (LEAL, 2011). Na concepção destes organismos, percebe-se um discurso orientado na busca da reforma do ensino, colocando-a como meio para alcançar o desenvolvimento econômico, a transformação social e a inclusão dos indivíduos; em contraponto, esses mesmos organismos internacionais estabeleceram um leque de medidas orientadas para que os sistemas educacionais também estivessem 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense. 134 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA adequados aos propósitos de saneamento das finanças públicas, de racionalização dos investimentos e aos padrões de qualidade do mercado. É neste cenário de contradições e confusões que ocorreram e ainda continuam ocorrendo as discussões que permeiam o processo de implementação da LDB através dos decretos, normativas e pareceres, provocando reações antagônicas e confusões, principalmente no campo conceitual, nas bases do sistema educacional, isto é, no âmbito das unidades básicas organizacionais de ensino: a escola. Exemplifica-se o dito acima, quando se percebe que o termo "inclusão", inserido no debate internacional sobre educação especial após a Conferência Mundial sobre Necessidades Educacionais Especiais: Acesso e Qualidade, em Salamanca (Espanha), em 1994, tem sido substituído pelo termo "integração" nos documentos do MEC/SEESP (SANTOS, 2002). Porém, estas dificuldades não tornaram menos apaixonantes e importantes as discussões sobre o processo de inclusão, visto que possibilita outra maneira de refletir sobre a inserção de alunos cujas necessidades não se limitam às especiais como definidas, mas num espectro mais amplo de necessidades sociais. Ainda mais, quando se abre o leque de discussões sobre estes conceitos, tão importantes para a definição das políticas públicas, se levanta a questão a qual se questiona se no próprio conceito de necessidades especiais há espaço para a inclusão de parte das necessidades sociais dos indivíduos. Entende-se que este questionamento deve ser o ponto de partida para elaboração de propostas para a inclusão na educação de diversos movimentos sociais organizados coletivamente, tais como os dos catadores de lixo, pescadores, comunidades indígenas e quilombolas, mulheres vítimas de violência doméstica e associadas ao tráfico de drogas, entre outros. É neste intuito que as discussões sobre as políticas de inclusão tem sido realizadas no Campus Sapucaia do Sul do Instituto Federal Sul-Rio-Grandense quando o assunto é o processo de acesso ao Curso Técnico em Administração na modalidade PROEJA. Como orientação do próprio MEC, estabeleceu-se no primeiro processo seletivo ocorrente no IFSul – Campus Sapucaia Problematizações e possibilidades acerca do currículo integrado para a educação de jovens e adultos 135 do Sul o procedimento de inscrição e sorteio como parte principal do processo de acesso ao curso. Entretanto, os elevados níveis de evasão nos estágios iniciais, somados ao acesso de indivíduos analfabetos, ainda que possuíssem o ensino fundamental completo, foram relevantes para um reposicionamento dos educadores envolvidos com o curso. Se por um lado o processo de acesso via vestibular foi avaliado como excludente para o público-alvo desta modalidade de ensino, por outro, o estabelecido por sorteio, além dos problemas de evasão e analfabetismo envolvidos, gerou um divisor social entre o grupo de discentes advindo via vestibular e aquele via sorteio, conflitando o ambiente compartilhado por ambos. Os discentes oriundos do processo de sorteio questionavam a legitimidade de seu próprio acesso ao curso na instituição. Assim, após discussão sobre o modelo vigente, optou-se por um processo gradual, orientado e interpretativo por parte dos postulantes ao curso, estabelecendo um vínculo entre o mundo organizacional do Campus e o mundo de cada um dos indivíduos que o contatavam. Por outro lado, durante as reuniões pedagógicas verificou-se que a forma como os docentes representavam os alunos da modalidade PROEJA não se alterava durante a trajetória discente e também não se modificava quando novas turmas ingressavam. Além disso, docentes que nunca tinham atuado nesta modalidade de ensino assumiam, em seu discurso de resistência à atuação na mesma, um posicionamento idêntico às representações definidas pelos que já atuavam. Contribuindo para discussão, Ventura (2009, p. 232), traz dados de uma pesquisa elaborada a partir das falas dos profissionais da educação que atuam em escolas situadas em favelas. O autor vislumbra a necessidade e a importância da formação continuada e a forma como esta é realizada, pois, somente conhecer a historicidade, gênese dos sujeitos que irão atuar, não parece ser suficiente para sensibilizar os profissionais a repensar formas, conteúdos e propostas pedagógicas. A pesquisadora mostra que, às vezes justamente por conhecer os sujeitos, alguns comungam de um pessimismo advindo de um senso comum que apregoa que há constrangimentos sistêmicos 136 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA demasiadamente fortes para que a atuação da escola possa obter qualquer sucesso. Da mesma forma, os pesquisadores identificaram que os docentes envolvidos com a educação de discentes favelados, segundo a pesquisa de Ventura (2009), possuem um pessimismo interiorizado pelo fato destes serem oriundos de um contexto social de vulnerabilidade, chamado neste artigo de "necessidades sociais especiais". Identificou-se semelhante comportamento junto aos docentes que atuam na modalidade PROEJA no Campus Sapucaia do Sul, do IFSul. Tal pessimismo, transposto para as ações destes profissionais, segundo Ventura (2009) pode suscitar em vez de estímulo à mudança, um voto ao fracasso. Este trabalho tem o objetivo de registrar, informar e interpretar os encaminhamentos provenientes das discussões pedagógicas do Curso Técnico em Administração na modalidade PROEJA do IFSul-Campus Sapucaia do Sul/RS, abreviado neste artigo como CTA/PROEJA/IFSUL, bem como as alterações propostas e implementadas sobre o processo de acesso dos discentes. Por fim serão apresentados os resultados preliminares de um estudo sobre quem são os trabalhadores jovens e adultos que, após tomarem decisão de investir na sua formação profissional, identificaram no Curso Técnico em Administração - PROEJA do Campus Sapucaia um caminho possível. Metodologia Na primeira parte, utilizou-se uma representação sistêmica do processo de desenvolvimento do CTA/PROEJA/IFSUL como ferramenta para análise situacional relacionada aos seus primeiros semestres de funcionamento. Resultados e Discussões A Figura 1 abaixo apresenta a representação sistêmica do processo inicial definido para o CTA/PROEJA/IFSUL. Problematizações e possibilidades acerca do currículo integrado para a educação de jovens e adultos 137 Figura 1 – Representação sistêmica do processo de criação e funcionamento inicial do CTA/PROEJA/IFSUL Entende-se que esta representação é consequência do processo histórico de criação do curso. A implementação de cursos nesta modalidade de ensino nos Institutos Federais foi uma determinação do MEC como parte do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). Inicialmente, a orientação foi a de que o processo seletivo deveria ocorrer através de sorteio público. Com a negativa por parte da maioria dos docentes do Campus Sapucaia em aderir ao edital PROEJA, cujos recursos financeiros e formação continuada de docentes estavam definidos, não houve preparação e nem discussão prévia para a implementação do CTA/PROEJA/IFSUL. Portanto, a determinação do MEC para a implementação com data definida, implicou um processo de formação inicial baseado na cultura de implantação dos cursos técnicos da modalidade integrada, mas não voltada para jovens e adultos. Assim, o CTA/PROEJA/IFSUL foi implementado sem uma formação prévia de professores e gestores, nem mesmo discussões que aprofundassem o conhecimento acerca desta modalidade de ensino e, devido à forma de decisão, com elevada resistência entre estes docentes despreparados, deixando lacunas que levaram a vários conflitos. 138 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Na urgência de buscar respostas e encaminhamentos ao pequeno grupo de professores atuantes e gestores que assumiram a importância desta modalidade de ensino, iniciaram-se as discussões que partiram da gênese do programa e da forma como foi implementado no Campus. Foram realizadas de forma qualitativa as avaliações iniciais das percepções docentes e discentes sobre a própria realidade. Uma das primeiras constatações foi o perceptível equívoco na constituição do curso. Há uma dicotomia entre as necessidades do público-alvo, para o qual o PROEJA foi pensado e a concepção destes cursos que são criados a partir de um estudo prévio composto apenas por itens como: demanda local de mercado versus "empregabilidade" - tal qual ocorre nas outras modalidades de ensino técnico. Entende-se que cursos elaborados sem um estudo prévio que contemple também a compreensão sobre o público para qual se destina, correm o risco de serem apenas reprodutores de uma lógica excludente, limitando o acesso, a integração e a inclusão de determinados segmentos da sociedade à escola. Ainda, muitas das propostas são criadas sem o envolvimento de todos os profissionais que atuarão no curso, fato que o limita. E o que deveria ser uma construção sistêmica acaba resultando num processo "engessado", que estimula uma espécie de "anomalia pedagógica", comprometendo elementos da percepção humana como identidade e comprometimento. O não envolvimento e o descomprometimento humano acarreta, na maioria das vezes, na elevada resistência docente quanto aos objetivos, condição esta manifestada pela não compreensão dos educadores e gestores de como devem ser pensadas, discutidas e elaboradas propostas curriculares que contemplem as especificidades destes segmentos da Educação de Jovens e Adultos, consequentemente, com reflexos sobre as grades curriculares, tornando-as inócuas e distantes da realidade discente. Percebeu-se que o processo seletivo ocorreu antes mesmo de serem elaborados os planos de ensino, e como na maioria dos cursos que ocorrem no IFSul, sem que os planos de aula estivessem prontos, analisados e orientados para as diretrizes da modalidade PROEJA. Não se conhecia o perfil dos sujeitos que iriam ingressar, Problematizações e possibilidades acerca do currículo integrado para a educação de jovens e adultos 139 nem tão pouco sua relação com o perfil construído para o CTA/PROEJA/IFSUL. Foram incipientes as discussões de articulação entre disciplinas e as propostas pedagógicas que contemplassem as especificidades do PROEJA. Assim, os resultados esperados eram incertos, vulneráveis e angustiantes, tanto para docentes como para discentes. É neste campo de discussões que as reuniões pedagógicas do Curso Técnico em Administração na modalidade PROEJA do Campus Sapucaia do Sul tiveram suas ações direcionadas. Sobre as dificuldades identificadas por docentes e discentes ao longo de suas práxis, tanto no campo da permanência e êxito discente ou na forma de ingresso e no campo curricular, debruçouse um pequeno e comprometido grupo de docentes, grupo este que assumiu a tarefa de reposicionar o CTA/PROEJA/IFSUL quanto às orientações pedagógicas vigentes no País. Em busca de um referencial teórico, este grupo estabeleceu sua inserção no Grupo Capes/Proeja, cuja a pesquisa é fomentada por edital do MEC e cujo objetivo inicial foi o de dar respaldo aos processos de implantação da modalidade de ensino de jovens e adultos dentro do PROEJA. Goodson (1999, p. 56) estabelece a importância da ênfase nas percepções subjetivas, em sociologia, como caminho para gerar "respostas fundamentais na área curricular", ampliando o caráter "prático" em reação à "teoria incompetente", aqui entendida como o estreitamento da realidade sociológica, tanto do discente como dos docentes e administrativos e sua conformação na práxis do processo ensino-aprendizagem no contexto da construção curricular. Assim, o CTA/PROEJA/IFSUL foi estudado de forma a estabelecer novas alternativas a partir dos conflitos iniciais identificados, cobrindo aspectos como a elaboração de um o processo seletivo que de fato fosse socialmente includente, contemplando a proposta do Programa, apresentada no Documento Base MEC/SETEC, até estratégias pedagógicas incluindo a revisão do plano de curso, plano de ensino, plano de aula, enfim, do currículo. O resultado deste trabalho pode ser visto, sinteticamente, na Figura 2, a qual apresenta as mudanças gerais numa concepção 140 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA sistêmica dos processos envolvendo o CTA/PROEJA/IFSUL, resultado das análises e estudos acima descritos. Construção do curso é um processo sistêmico e dinâmico Figura 2 – Representação sistêmica do processo de vigente do CTA/PROEJA/IFSUL, 2011. Esta proposta surge a partir da análise não só de mercado, mas, também, de público-alvo. Como primeira ação, reformulou-se o processo seletivo que passa a ter cinco etapas, conforme Quadro 02 abaixo. O questionário sócio-econômico, nesta etapa da reformulação do curso, passa a se chamar "diagnóstico de realidade" cumprindo uma função estratégica na dinâmica de monitoramento. Através dos dados coletados pelos candidatos ao CTA/PROEJA/IFSUL, têm-se um instrumento para o acompanhamento do perfil do público-alvo e atualização/reformulação, sempre que se fizer necessário para qualquer componente do curso de maneira a atender os sujeitos a que se destina, e não exclusivamente ao mercado. Após esta etapa, os planos de ensino e os planos de aula passaram a ser considerados elementos do processo dinâmico de construção coletiva do CTA/PROEJA/IFSUL, onde são Problematizações e possibilidades acerca do currículo integrado para a educação de jovens e adultos 141 consideradas tanto as especificidades dos sujeitos, como a proposta de sua formação, neste caso, uma formação que contempla a diretriz fundamental: autogestão, com um discente capaz de "descobrir-se, revelar-se e manifestar-se com criticidade". Quadro 1 – Descrição das etapas e ações do atual processo seletivo do CTA/PROEJA/IFSUL/2011 ETAPAS AÇÕES PRIMEIRA ETAPA - Divulgação: site, rádios, jornais, ponto de ônibus, metro. - Divulgação/sensibilização nas escolas com EJA fundamental realizada pela coordenação e/ou equipe pedagógica. SEGUNDA ETAPA - Inscrição na instituição: entrega do edital contendo datas e os documentos necessários para complementar a inscrição. - Preenchimento de um "questionário de diagnóstico". - Entrega de uma lista contendo os documentos necessários para complementar a inscrição. TERCEIRA ETAPA - Efetivação da inscrição: entrega de todos os documentos. QUARTA ETAPA - Palestra ministrada pela coordenação do curso e acompanhada por dois integrantes da comissão responsável pelo processo seletivo. Nesta palestra são abordados aspectos referentes à formação profissional ofertada, tipo de modalidade, matriz curricular, valores humanos e perfil de aluno que caracterizam o curso. QUINTA ETAPA - Após a palestra os candidatos redigem uma carta de intenção, a qual possui um enunciado que tem a intenção de induzir o sujeito a escrever sobre a sua trajetória escolar e pessoal. Implementou-se a metodologia de projetos integradores, onde as disciplinas se articulam e trabalham focadas em uma mesma temática. O tema é apresentado pelos alunos e as articulações mediadas pelos docentes. Também, sempre há nas reuniões pedagógicas um profissional do setor pedagógico contribuído nos diálogos e direcionamentos. A estrutura do Campus, biblioteca, setor de registros acadêmicos e outros, também vem sendo trabalhada no sentido de receber e acolher os alunos. As ações são direcionadas ao encontro da perspectiva da gestão do cuidado, onde são envolvidos 142 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA todos os sujeitos (setores): da portaria, telefonistas, servidores terceirizados, passando pelos administrativos, professores, diretor geral e reitor. Cada um tem seu papel na interface de relacionamento, uma obrigação ética e institucional a cumprir nesta modalidade de ensino. Avaliando a matriz curricular, também foi verificada a necessidade de legitimação de uma temporalidade onde os alunos pudessem desenvolver as suas atividades no período de aula, pois trata-se, na maioria, de alunos trabalhadores. Então foi inserida uma disciplina que contempla esta flexibilidade. Os alunos passaram a utilizá-la para estudo em grupo, elaboração de trabalhos, aulas de reforço, pesquisa na biblioteca ou laboratório de informática. Também foi instituída como componente curricular a Semana Temática do CTA/PROEJA/IFSUL. Entende-se a Semana Temática como um processo de desarticulação do espaço escolar enquanto um espaço de conservação de atitudes rígidas, que de acordo com Bordieu (1998), configuram um "sistema de valores ligados aos domínios de símbolos, linguagens e categorias que se estruturam a partir de disposição inscritas no sujeito, proveniente de sua posição de classe". O desenvolvimento da Semana Temática, muito mais do que conteúdo relacionado com os componentes curriculares, tem a intenção de abrir os indivíduos provenientes de espaços segregados e de classes desprivilegiadas para a sua própria intervenção nos valores da cultura escolar, a qual se apresentava totalmente distante dos seus (SALAMONE, p. 246). Este evento aberto ao público externo ocorre todos os anos, no segundo semestre letivo. Nesta Semana, são abordados temas referentes à área profissional em palestras, oficinas, mostra interativa de paineis expondo os trabalhos desenvolvidos pelos alunos nos projetos integradores, com exposição oral destes projetos no auditório para toda a comunidade. É privilegiado um espaço na Semana para relatos de trajetórias dos egressos do curso. Percebeuse nesta ação que a vivência na Semana Temática proporciona aos alunos a melhora da autoestima, trabalho em equipe, autonomia e identidade, elementos fundamentais para permanência do discente. Por outro lado, o envolvimento dos docentes nestas atividades, juntamente com a percepção das mudanças evidenciadas Problematizações e possibilidades acerca do currículo integrado para a educação de jovens e adultos 143 na vida dos discentes, reduziu substancialmente a resistência à modalidade, aumentando interesse dos professores e profissionais da educação em participar da construção coletiva do CTA/PROEJA/IFSUL. A nova metodologia de trabalho, sistêmica e participativa, onde todos estão inseridos no processo, constroem e interagem, propiciou uma reformulação nas representações que os professores atuantes no curso faziam dos alunos. O diagnóstico atualizado a cada processo seletivo e o relato dos egressos na semana temática influencia perceptivelmente na atuação docente e dos profissionais envolvidos com o CTA/PROEJA/IFSUL. Marcadamente, as reuniões pedagógicas passaram a ter um caráter mais propositivo e de ampliação da participação coletiva. As ações que foram discutidas e implementadas propiciaram uma compreensão mais holística por parte dos docentes com relação ao público alvo e os objetivos do programa. Na terceira parte deste trabalho, apresenta-se um estudo, em caráter preliminar, sobre quem são os trabalhadores jovens e adultos que, após tomarem decisão de investir na sua formação profissional, identificaram no CTA/PROEJA/IFSUL um caminho possível, na formação continuada. Abaixo é apresentada a análise dos dados biográficos e da escolaridade dos postulantes ao CTA/PROEJA/IFSUL. Soma-se às informações obtidas o fato de que há idade mínima (18 anos) e não máxima para se candidatar ao PROEJA. Inicialmente, optou-se pelo estudo do espectro de idades que virão a constituir cada turma de egressos, pois se compreende que, geralmente, faixas etárias diferenciadas podem geram comportamentos individuais e em grupos também diferenciados, cujos conflitos inerentes podem ser trabalhados de forma a proporcionar resultados positivos quanto ao processo de ensinoaprendizagem dos envolvidos: docentes, discentes e profissionais da educação e administração do Campus Sapucaia do Sul. Dessa forma, utilizaram-se os parâmetros de idade, sexo e estado civil para identificar prováveis grupos com características diferenciadas. O gráfico 1 abaixo apresenta a curva de faixa etária dos candidatos postulantes a ingressar no CTA/PROEJA/IFSUL. Identifica-se dois grupos distintos: um com faixa etária cuja média é 144 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA de 25 anos e desvio padrão de 4 anos, denominado Grupo 1; o outro possui média de 41 anos e variabilidade maior, avaliada pelo desvio padrão em 7 anos, denominado Grupo 2. O Grupo 2 representa em torno de 25% do total de candidatos, entendendo-o como um grupo mais heterogêneo quanto à idade do que o Grupo 1. Com base nesta informação, procurou-se analisar o restante dos aspectos como um único grupo, denominado de Total e como grupos separados, de forma a estabelecer relações sobre as diferenças entre o grupo Total, Grupo 1 e Grupo 2. 60 55 50 Total, n = 127 Média = 29 anos Desvio Padrão = 9 anos Idade (anos) 45 40 35 Grupo 2, n= 32 Média = 41 anos Desvio Padrão = 7 anos 30 25 20 Grupo 1, n = 95 Média = 25 anos Desvio Padrão = 4 anos 15 10 0 20 40 60 80 100 120 140 Candidatos - Total Gráfico 1 - Idade dos candidatos organizados em ordem crescente. Pela análise do gráfico 2, verifica-se que 71% do total de candidatos são mulheres e que este percentual se eleva quando se compara o Grupo 2 como Grupo 1, atingindo próximo de 90% entre os candidatos do primeiro grupo. Problematizações e possibilidades acerca do currículo integrado para a educação de jovens e adultos Grupo 2 n=32 100 Total n=127 80 % dos Concorrentes 145 87 Grupo 1 n=95 65 71 60 40 35 29 20 13 0 M F M F M F Sexo Gráfico 2 - Distribuição dos percentuais Masculino e Feminino para os Grupos Total, 1 e 2. Quando comparados estes dois grupos quanto ao Estado Civil (Gráfico 3), verifica-se a presença de um maior número de solteiros no Grupo 1 e de um maior número de casados no Grupo 2. 100 90 Grupo 1 n=95 Total n=127 80 Grupo 2 n=32 % Candidatos 70 60 50 60 56 52 44 40 39 40 30 Sol = Solteira(o) C = Casada(o) S/D = Separada(o)/Divorciada(o) V = Viúva(o) 20 10 0 3 4 1 Sol C S/D V Sol 1 C S/D V Sol C S/D V Estado Civil Gráfico 3 - Distribuição dos percentuais do Estado Civil para os Grupos Total, 1 e 2. 146 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA O Gráfico 4 apresenta os dados sobre a autocaracterização sobre o componente etnia, apresentado pelos postulantes do CTA/PROEJA/IFSUL. Identifica-se que, aproximadamente dois terços dos candidatos se reconhecem como brancos, sendo que no terço restante ocorrem minorias de afrodescendentes, pardos, amarelos e indígenas. 100 Grupo 1 n =95 Total n = 127 90 Grupo 2 n = 32 % dos Concorrentes 80 72 67 70 66 Am = Amarela Af = Afrodescendente B = Branca I = Indígena P = Parda 60 50 40 30 20 15 14 18 14 10 0 2 Am Af B 2 I 1 P Am Af B I 13 3 1 P Am Af B 9 3 I P Raça Gráfico 4 - Distribuição dos percentuais por etnia para o Total, Grupos 1 e 2. Sessenta por cento do Total de alunos postulantes ao CTA/PROEJA/IFSUL possuem o ensino fundamental completo, 19% com médio incompleto e 21% com o médio completo, sendo que o médio completo no Grupo 2 é praticamente o dobro do que no Grupo 1 (Gráfico 5). Problematizações e possibilidades acerca do currículo integrado para a educação de jovens e adultos 147 80 Total n=127 70 60 60 % dos Candidatos 63 Grupo 1 n=95 Grupo 2 n=32 50 50 40 34 FC = Fundamental Completo MI = Médio Incompleto MC = Médio Completo 30 20 19 21 MI MC 20 17 16 10 0 FC FC MI MC FC MI MC Escolaridade Gráfico 5 - Distribuição dos percentuais de escolaridade para os Grupos Total, 1 e 2. A análise do gráfico sobre Origem Escolar (Gráfico 6) indica que mais de dois terços dos inscritos ao CTA/PROEJA/IFS tem como origem a Escola Pública e desses, em torno de mais da metade são egressos da antiga modalidade Supletivo e da atual EJA. 100 90 80 Total n=127 Grupo 1 n=95 78 76 Grupo 2 n=32 TEPúbl = Total em Escola Pública MPEPúbl = Maior Parte em Escola Pública TEPart = Total em Escola Particular MPEPart = Maior Parte em Escola Particular Sup/EJA = Supletivo/Ensino de Jovens e Adultos 84 % Candidatos 70 60 50 45 42 40 34 30 20 10 0 18 17 3 2 13 3 3 3 A EJ pl/ rt Su EPa P M art l P b TE Pú PE l M b Pú TE A EJ pl/ rt Su EPa P M art l P b TE EPú P l M b Pú TE A EJ pl/ rt Su EPa P M art l P b TE EPú P l M úb P TE Origem Escolar Gráfico 6 - Distribuição dos percentuais de Origem Escolar para os Grupos Total, 1 e 2. Conclusões Ao longo deste artigo, procurou-se estabelecer um caminho metodológico desenvolvido durante a gênese do 148 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA CTA/PROEJA/IFSUL. Partido do ponto crucial de que a compreensão de escola é aquela que possa situar o aluno melhor nesse mundo, este estudo estabelece um ponto de partida para que a mesma seja um espaço de crítica, tal qual definido por Moreira (2007, p. 54), através de um currículo que absorva as impressões compartilhadas entre os docentes, profissionais da pedagogia e discentes, e que alcance um melhor aproveitamento sobre os dados da realidade social de indivíduos postulantes não somente a um curso tradicional, mas a um curso conjugado com a política pública do PROEJA e com o olhar a partir da percepção discente. Referências BORDIEU. P. Escritos de Educação. (1998). In: BURGOS, M. B. e PAIVA, A. R. (Orgs.) A Escola e a Favela. Ed. PUC Rio. Rio de janeiro. Pp. 244. 2009. GOODSON, I. F., Currículo – Teoria e Prática. Tradução de Brunetta, A. Ed. Vozes. Petrópolis. Pp. 56. 1999. LEAL, L., Educação Profissional e ensino médio integrado no Brasil: um balanço das conquistas e reivindicações. Revista Poli – Saúde, Educação, Trabalho. v. 15. Jan./fev. Pp. 2-11. 2011. MOREIRA. A. F. B., A Escola poderia avançar um pouco no sentido de melhorar a dor de tanta gente. In COSTA, M. V. (Org.), A escola tem futuro? Ed. Lamparina, pp. 54. 2007. SALAMONE, R., entre o universal e o particular: o desafio da práxis pedagógica em escolas de meios populares. In: BURGOS, M. B. e PAIVA, A. R. (Orgs.) A Escola e a Favela. Ed. PUC Rio. Rio de janeiro. Pp. 246. 2009. SANTOS, M. P., Educação Inclusiva: redefinindo a educação especial. Ponto de Vista: revista de educação e processos inclusivos. Universidade Federal de Santa Catarina. Centro de Ciências da Educação. Florianópolis. V. 3/4, p. 103-118. 2002. Problematizações e possibilidades acerca do currículo integrado para a educação de jovens e adultos 149 VENTURA, J. Constrangimentos ao sonho: sobre as perspectivas de futuro de crianças e adolescentes moradores de favelas In: BURGOS, M. B. e PAIVA, A. R. (Orgs.) A Escola e a Favela. Ed. PUC Rio. Rio de janeiro. Pp. 232. 2009. . EDUCAÇÃO PROFISSIONAL EM UM GALPÃO DE RECICLAGEM: DINÂMICAS DO COTIDIANO Bianka Biazuz Vicente1 Convergências teóricas de uma pesquisa plural Os apontamentos expostos nesse artigo dizem respeito à pesquisa realizada na Associação de Reciclagem Ecológica Rubem Berta que se situa na cidade de Porto Alegre. Com quase vinte anos de existência, é conveniada com o DMLU - Departamento Municipal de Limpeza Urbana -,e é fonte de renda para mais de trinta pessoas grifando-se que a maioria das (os) associadas (os) são mulheres, uma vez que, historicamente, esta associação caracterizouse por proporcionar trabalho para essas chefes de família. O desenvolvimento da pesquisa foi profundamente marcado pelas contribuições substanciais do professor pesquisador Dr. Nilton Bueno Fischer (PPGEDU/UFRGS), que realizou extensa pesquisa e vivência por quase vinte anos na Associação. As obras resultantes das inserções desse professor assim como as de alguns de seus orientandos, que também elegeram a associação como 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 152 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA objeto de pesquisa2 proporcionaram um entendimento mais abrangente sobre diferentes aspectos e movimentos dessa instituição tais como: historicidade, organização política, ações educativas, dentre outros. Para este artigo, as relações de trabalho e educação construídas e apontadas por Fischer (2006) orientam a estruturação de referenciais que possibilitam pensar um currículo que vincule educação básica e profissional, que é o objetivo central dessa pesquisa. [...] a respeito das condições de trabalho suas e de todo o grupo da Associação Ecológica de Reciclagem Rubem Berta, nós estamos visualizando na condição de educadores e de pesquisadores o quanto precisamos aprender como se dão as diferenciadas formas de estar com (entre eles), tanto no território do mundo do trabalho (galpão: local da produção; pátio; prédio da escola; capela e local da merenda) como no território da rua, nos trajetos entre o esse local e o das suas casas, queremos encontrar e estudar as ações coletivas presentes nesses espaços nos quais ocorrem processos de se reconhecerem e se sentirem seres de pertença para agirem juntos (p. 136). Esse recorte permite que percebamos os entrelaçamentos do entorno social da associação que acaba por se transformar em um todo social. Esse caminho estabelece, indubitavelmente, conexões estreitas com a Educação de Jovens e Adultos partindo das perspectivas da Educação Popular. Assim, podemos dizer que a socialização do indivíduo passa pela Educação Não-Formal e Informal criando relações sociais no seu meio, ou seja, nos seus espaços não-formais, e constroem, através de um processo interativo, o conhecimento de sua vida (GOHN, 2006): Vide os artigos O diabólico e o simbólico no cotidiano de um galpão de reciclagem: notas de um educador/pesquisador; Notas sobre Educação Popular a partir da Pesquisa com recicladoras e recicladores. GT ANPED por Lousada (2008); Cotidiano de um galpão de reciclagem: notas de pesquisa por Lousada (Educação e Realidade 34. n. 3, 2009); Fotoetnografia e a pesquisa com recicladores por Lousada e Carginin (2009). 2 Educação profissional em um galpão de reciclagem: dinâmicas do cotidiano 153 A educação informal socializa os indivíduos, desenvolve hábitos, atitudes, comportamentos, modos de pensar e de se expressar no uso da linguagem, segundo valores e crenças de grupos que se freqüenta ou que pertence por herança, desde o nascimento. Trata-se do processo de socialização dos indivíduos. A educação não-formal capacita os indivíduos a se tornarem cidadãos do mundo, no mundo. Sua finalidade é abrir janelas de conhecimento sobre o mundo que circunda os indivíduos e suas relações sociais. Seus objetivos não são dados a priori, eles se constroem no processo interativo, gerando um processo educativo (p. 29). Portanto, pensar um currículo que possa dar sustentação teórica e prática a ponto de ser um agente transformador das realidades calamitantes desses sujeitos, passa por um esforço de tornar a teoria em prática. Quando Gohn refere-se à educação informal, ela sinaliza elementos fundamentais para o desenvolvimento da ação prática que se pretende. A relevância de se considerar os hábitos instituídos através da convivência aprimora a sensibilidade do olhar e sugere algo mais do que a simples sistematização de demandas técnicas e educativas. É neste contexto que encontramos no Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adulto, o PROEJA, possibilidades de trazer ao setor de triagem e reciclagem de materiais estruturas que permitam melhores condições de trabalho. O PROEJA, em seu Documento Base (2009), demonstra sua vocação enquanto programa que tem a pretensão e comprometimento com grupos sociais historicamente preteridos, pois A educação dos trabalhadores, seja no processo de escolarização, seja na formação profissional inicial e continuada, historicamente, vem sendo realizada de forma desarticulada (p. 23). Por esta razão neste documento está exposto o desafio de superar o caráter compensatório e assistencialista destinado à Educação Profissional, assim como à Educação de Jovens e Adultos na qual não há a possibilidade do desenvolvimento amplo do ser humano: [...] essa política precisa contribuir para romper com a lógica que submete a educação ao mercado, porque essa lógica subtrai os direitos da cidadania transformando-os em serviços 154 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA prestados, aos quais só tem acesso quem pode pagar, enquanto os contingentes populacionais que dependem mais diretamente da ação do estado ficam excluídos do acesso à educação. (BRASIL, 2009, p. 25) No âmbito das atribuições e competências do trabalho das (os) triadoras (es) e recicladoras (es) de materiais recicláveis, é possível observar a marginalização que se institui tanto nos olhares e corpos dessas (es) trabalhadoras (es), quanto na visão que a sociedade tem desses sujeitos que fazem do rejeito do consumo uma tentativa de se manterem vivas. Nessa direção, a estruturação de um currículo requer um aprofundamento teórico que implica perceber o trabalho da Associação como um serviço essencial para a sociedade. A (des) vinculação que vem ocorrendo entre os seres humanos e a natureza propõe um esforço de (re) significação desse trabalho que é fundamental para a manutenção da vida no planeta. A direção metodológica que se adotou para tornar possível pensar um currículo com as especificidades desse campo de atuação foi de cunho antropológico, com suporte assentado nos procedimentos etnográficos apontados por Bronislaw Malinowski (1990) que define o convívio assíduo do pesquisador com o grupo estudado como o único meio legítimo de proceder cientificamente em uma pesquisa etnográfica. A estratégia desenvolvida pela pesquisadora foi a de trabalhar juntamente com o grupo, selecionando os materiais da mesma forma que as demais, tornando o diálogo e a interação um instrumento concreto de investigação. Uma vez por semana a pesquisadora trabalhava junto ao grupo no cesto, lugar onde é depositado em um primeiro momento o material coletado nas ruas da cidade pelo DMLU e no pátio, onde se acumulam resíduos que caem do caminhão. Foi deste modo que a proximidade tornou real esta pesquisa, pois vivenciar concretamente a Associação e Reciclagem ecológica Rubem Berta com seus cheiros, cores, sorrisos e lágrimas, confere outra lógica e outro olhar sobre o que vem a ser trabalho, educação e lixo. Educação profissional em um galpão de reciclagem: dinâmicas do cotidiano 155 O movimento cotidiano Pontualmente às 8 horas da manhã a Associação de Reciclagem Ecológica Rubem Berta abre suas portas. O ambiente, para alguém que o vislumbra pela primeira vez, apresenta-se, na sua simplicidade, como um lugar insalubre: lixo misturado com pessoas e animais. Entretanto, tal exposição é extremamente superficial. Explicar esse lugar relacionando-o com as vidas que por ali passam é uma tarefa que exige um esforço para além de maniqueísmos. O posicionamento que toma um observador está implicado com toda a bagagem social que o mesmo leva dentro si. Da mesma forma, os observados estão totalmente envolvidos por suas realidades, nas quais o trabalho ganha espaço substancial. É interessante perceber que em última análise o trabalho envolve as vidas dessas trabalhadoras, repercutindo na totalidade de seus dias. A maioria das pessoas que trabalham na Associação mora ou já morou nas imediações da mesma. O deslocamento para o local de trabalho se dá caminhando e a distância percorrida soma poucas quadras. Muitas chegam acompanhadas de colegas vizinhas, que também são parentes ou aparentadas. As relações ultrapassam o trabalho e são anteriores às suas ocupações na associação. Neste sentido, é importante pontuar que sem exceção, todas e todos os trabalhadores fazem parte do mesmo círculo social, todos se conhecem e por essa razão é que trabalham neste lugar e não ao contrário, ou seja, ninguém acaba por se conhecer em conseqüência da admissão para atuar na triagem de materiais. Essas explanações se fazem necessárias pois para entender o cotidiano vivido é imprescindível compreender que quando a associação abre suas portas e recebe suas trabalhadoras e trabalhadores, ela está acolhendo vidas que se cruzam e trazem consigo uma continuidade da convivência do dia anterior. Deste modo, praticamente inexiste uma diferença entre o pessoal e o profissional. Dizer que tais fatos são irrelevantes seria um completo equívoco, pois o conhecimento substancial da vida do outro traz implicações diretas ao cotidiano na associação. É no cesto, como é chamado o local onde é depositado o material para a triagem, que podemos observar que o trabalho é desempenhado de forma mecânica. Todavia, é nesse espaço / 156 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA tempo o lugar de colocar os colegas a par dos acontecimentos mais recentes, que nem sempre dizem respeito aos interlocutores. Também é um local de descontração, piadas e desentendimentos. Esse comportamento permite tornar o ambiente mais agradável, assim como faz com que o trabalho seja mais leve e o tempo passe mais rápido. Da mesma forma, é no cesto que ocorre a aprendizagem do trabalho desenvolvido na associação. Essa é uma questão importante que se pode observar. A interação, em última análise, se faz educacional, apesar de não se encontrar ligada a uma instituição formal, mas ocorre em uma situação informal, pois a educação se faz presente no contato entre os atores sociais, nas necessidades que vão se impondo à medida que entra um novo associado que nada sabe sobre o trabalho que ali se desempenha, ou quando se dialoga repassando e recebendo saberes oriundos das experiências individuais e coletivas. Aqui se grifa que é grande o fluxo de associados que se vinculam e se desvinculam da Associação e que, muitas vezes, acabam retornando. Assim os conhecimentos técnicos, no movimento presente no cotidiano, imbuem reais significações acerca do que podemos intitular como educação. Esse olhar sobre o fazer, que acaba por estabelecer relações com a educação, traz à tona o que o "roceiro" Antônio Cícero de Sousa, autor do prefácio do livro A questão Política da Educação Popular organizado por Brandão (1980), demonstra ter se dado conta ao observar o tipo de educação informal que acontecia na roça: Agora, nisso tudo tem uma educação dentro, não tem? Pode não ter um estudo. Um tipo dum estudo pode ser que não tenha. Mas se ele não sabia e ficou sabendo é porque no acontecido tinha uma lição escondida. Não é uma escola; não tem um professor assim na frente, com o nome "professor" (BRANDÃO, 1980, p. 9). Os processos de aprendizagem desenvolvidos na Associação, que tiveram como mentor o professor Nilton Bueno Fischer, ofereceram bases para que esses saberes pudessem ser compartilhados com cada nova ou novo integrante. O referido professor ocupou um papel central na construção de valores solidários e cooperativos, configurando-se em uma das principais Educação profissional em um galpão de reciclagem: dinâmicas do cotidiano 157 fontes de conhecimentos técnico-científicos para estes sujeitos. Porém o professor faleceu e desde então a Associação tem seguido seu caminho conservando seus ensinamentos. É importante pontuar que com o falecimento do professor Nilton houve um estancamento de muitas ações educativas que se desenvolviam com vistas à melhoria das condições de vida e trabalho das (os) Associadas (os). Frise-se que não se observam técnicas sofisticadas para desempenhar o serviço de separar os materiais. As trabalhadoras (es) utilizam o conhecimento que adquiriram sobre os materiais que são comercializados. Distinguem a diferença entre os materiais rentáveis do rejeito a partir de cores e sons que estes emitem ao serem manipulados. O critério para a seleção é a lucratividade que advém da venda. Sem terem um conhecimento técnico apropriado para separar do rejeito materiais que também poderiam ser comercializados, incrementando a renda da Associação, muito material é descartado. A partilha, como é chamada a divisão dos lucros obtidos pela a Associação, ocorre no final de cada mês, porém os ganhos das (os) associadas (os) não dão conta de seus sustentos até o final desse período. É neste contexto que ocorre uma espécie de seleção individual: as (os) trabalhadoras (es) separam materiais à parte do montante da Associação e os comercializam de forma particular quando encontram compradores3. Na maior parte das vezes /essas vendas individuais são feitas dentro da associação, de modo que não é um fato que está oculto do grande grupo. Nos últimos meses, entretanto, tais procedimentos têm causado mal estar, pois como os ganhos da Associação estão em declínio, esses ganhos individuais acabam por trazer disparidades, competição e desconfianças. As redes de comercialização que se organizam envolvem atravessadores que acabam por ficar com um lucro bem maior do que o obtido pela Associação. Neste sentido, pode-se dizer que há uma valorização dos materiais ao saírem da Associação. O problema é que o desconhecimento do próprio destino dado aos materiais Lousada (Educação e Realidade 34. n. 3, 2009) observou e descreveu esses movimentos individuais, os quais o autor pesquisador nomeou de "garimpo". 3 158 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA vendidos, assim como a baixa escolarização que impede o grupo de supervisionar diretamente seus lucros e perdas, assim como a falta de conhecimento e habilidade para negociar com novos compradores impedem a comercialização direta com o mercado que consome sua produção. Outro problema grave que se percebe é o pouco cuidado com a saúde. O grupo trabalha sem equipamentos de proteção: a maioria não utiliza luvas, somente usa quem quer e quando há luvas para serem utilizadas. Tampouco há roupas e botas adequadas para preservarem-se da contaminação que é iminente, visto que a sociedade em geral, seja por desconhecimento ou por simplesmente não importar-se com o destino que é dado para seu lixo, envia para a coleta seletiva resíduos altamente infectantes como papeis higiênicos, seringas, fraldas descartáveis, restos de carne, dentre outros. Essas trabalhadoras (es) também estão expostas ao próprio galpão, como é chamado pelo grupo o prédio que abriga a Associação, que é um lugar úmido, com problemas de saneamento e com riscos de acidentes elétricos em função da falta de manutenção do prédio que conta com infiltrações inclusive no sistema elétrico. Porém, o Galpão é um lugar querido que concede orgulho para suas associadas (os), pois reflete suas conquistas. Onde em outro tempo só havia uma casa de madeira, hoje há um grande prédio de alvenaria alto e forte. Tal prédio abriga a Associação, possibilitando assembleias de trabalho e reuniões festivas como chás de bebê e de panela, aniversários, festas de final de ano e outros eventos. Existem espaços como a cozinha, que é bastante precária mas possibilita um espaço de convivência e trocas tanto de palavras como de alimentos, pátio com árvores. Recentemente foi inaugurada uma área coberta ao lado de um jardim batizada de Espaço de Convivência Nilton Bueno Fischer, a qual foi organizada pela família do professor. Nos intervalos para os lanches da manhã e da tarde tais lugares são ocupados por grupos que se reúnem por afinidades. Esses momentos explicitam o cotidiano da Associação, neles se pode observar a interação real que há entre o grupo. Não raro há a presença de crianças, filhos, netos e sobrinhos das (os) associadas (os), que vão ao encontro de seus parentes como se estivessem no prolongamento de suas casas. As crianças brincam juntas e se Educação profissional em um galpão de reciclagem: dinâmicas do cotidiano 159 conhecem desde os seus nascimentos. Em outra ponta, os adultos demonstram preocupação não somente com suas crias, mas prolongam cuidados às outras crianças. Inclusive os grupos que não são tão próximos oferecem cuidados aos pequenos sem distinção. Ao lado da Associação situa-se a Creche Marista Renascer mantida pelo Centro Social Marista (CESMAR) que possibilita às mulheres da Associação deixarem seus filhos em um lugar seguro e bem estruturado. A creche tem seus horários em consonância com os horários da Associação, permitindo que as mães das crianças possam trabalhar com a comodidade de estarem a poucos metros do lugar onde estão seus filhos. Muitas vezes a creche é lembrada como um fator crucial para a manutenção das mulheres no trabalho da Associação. Os movimentos do quotidiano fazem com que cada dia seja diferente na Associação. No mês de Fevereiro de 2011 houve um incêndio que agravou a situação da Associação. Todavia, apesar das preocupações e transtornos que arrasaram o galpão, o grupo permaneceu unido e trabalhando, tendo que se reorganizar para uma nova configuração da estrutura de trabalho. É nesse contexto que podemos perceber a associação como uma grande família, como seus ajustes e desajustes, mas que pulsam no compasso da luta coletiva que é travada dia após dia. A espera da formação profissional aliada ao ensino básico Durante o período de um ano foi realizado o acompanhamento semanal na Associação de Reciclagem Ecológica Rubem Berta que possibilitou a descrição sucinta, aqui apresentada, do cotidiano dessa instituição. Tal acompanhamento permitiu também que fossem identificadas algumas fragilidades que colocam a mesma em situação de riscos de ingerência e prejuízos físicos. Neste sentido, se faz interessante apresentar alguns dados iniciais que demonstram um quadro geral sobre as (os) associadas (os). 160 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Tabela 1 - Distribuição dos associados por sexo Associadas (os) Quantidade Mulheres 30 Homens 04 Total 34 Fonte: Dados da autora, 2011 Com bases nos dados da tabela 1, podemos verificar o número expressivo de mulheres trabalhadoras. O grande número de mulheres que compõem a Associação provoca uma maior instabilidade no dia a dia, pois é grande o número de faltas, diariamente, em função da família: gravidez, filhos doentes e problemas de saúde relacionados com o sexo feminino. Muitas vezes acabam vítimas de violência no lar. O próprio ambiente insalubre do galpão ocasiona muitos problemas de saúde tais como gripes, pneumonias, doenças dermatológicas (infecções nas mãos, pés, cabeça) e verminoses. Assim se explica a importância de maiores conhecimentos acerca de saúde básica, saneamento e os riscos aos quais os que atuam em tal profissão estão expostos, assim como a ampliação dos conhecimentos sobre cidadania que englobam toda a sociedade, possibilitando que o grupo reconheça seu trabalho e reivindique seus direitos e assim tome as atividades da Associação como um ato político de transformação que beneficia não só estas trabalhadoras (es) como a sociedade em geral. Tabela 2 - Distribuição dos associados por faixa etária NÚMERO DE ASSOCIADOS FAIXA ESTÁRIA 14 18 – 30 8 31 – 40 12 41 – 60 TOTAL: 34 Fonte: Dados da autora, 2011 A tabela 2 expressa a presença de adultos no galpão, sendo 22 pessoas na faixa dos 18 aos 40 anos, idade reconhecida pela produtividade. Educação profissional em um galpão de reciclagem: dinâmicas do cotidiano 161 Tabela 3 - Distribuição dos associados por escolaridade NÚMERO DE ASSOCIADOS ESCOLARIDADE 20 1º - 4º Ano do Ensino Fundamental 06 5º - 8º Ano do ensino Fundamenta 08 Sem Escolarização TOTAL: 34 Fonte: Dados da autora, 2011 Na tabela 3 podemos identificar com facilidade a carência educacional que acomete a maior parcela das (os) associadas (os). Como a grande maioria das (os) associadas (os) possui uma escolarização de cerca de apenas quatro anos, torna-se legítimo pensar uma capacitação profissional vinculada ao ensino fundamental. Segundo registros feitos durante a pesquisa, nenhum associado se sentia habilitado a gerenciar as contas da Associação nem estavam informados sobre a movimentação financeira da mesma. Isso porque segundo as respostas dadas ao serem indagadas (os) em entrevista informal, as (os) associadas (os) não possuem conhecimentos sobre contabilidade e informática, os quais se configuram em ferramentas indispensáveis à efetuação de tal trabalho. A maneira que a associação tem lidado com tal privação é buscar a ajuda de terceiros; solução que já lhes custou transtornos como desfalques que ocasionaram problemas bancários com o DMLU e mesmo a diminuição dos valores da partilha para que fossem sanadas as dívidas. Tabela 4 - Distribuição dos associados por tempo de trabalho NÚMERO DE ASSOCIADOS TEMPO DE TRABALHO NO GALPÃO 11 2 MESES - 2 ANOS 15 3 ANOS – 10 ANOS 08 11 – 17 ANOS TOTAL: 34 Fonte: Dados da autora, 2011 A tabela 4 demonstra um fluxo considerável de associadas (os) no trabalho da Associação. É interessante frisar que as (os) oito associadas (os) que constam nas tabelas 3 e 4 nas categorias de sem escolarização e tempo de trabalho de onze a dezessete anos, tratam dos mesmo atores sociais. Por essa razão, podemos pensar que a 162 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA falta de escolarização torna o trabalho nesse ramo uma atividade perene. Entretanto, como a Associação não oferece nenhum tipo se seguridade social ou trabalhista para seus trabalhadores, estas pessoas encontram-se à mercê da sorte e da solidariedade das outras pessoas, visto que não contribuem com a previdência social, assim como não possuem nenhum fundo de amparo para doenças. Deste contexto podemos retirar a seguinte fórmula: Mulher + pobre + analfabeta= Recicladora. Considerações finais A compreensão e legitimidade do trabalho desenvolvido é uma conquista que paira no horizonte dessas (es) trabalhadoras (es). Assim, se almeja para o público motivador desta pesquisa um curso específico PROEJA. Para tanto, esse estudo ofereceu a possibilidade de observar algumas especificidades do campo de trabalho de uma associação que tem como matéria-prima materiais que são descartados e encaminhados para a coleta seletiva de lixo. Sendo perspectiva desta investigação a constituição de um currículo de Educação Profissional, no texto publicado pela revista Educação & Realidade (2009) Fischer nos dá pistas de como compreender a Associação e de que caminhos seguir com uma proposta educativa e profissionalizante: O inesperado para a tradição do campo da educação popular está situado na superação daquilo que poderia ser simplesmente um movimento de ampliação das chamadas variáveis que foram sendo incorporadas ao longo dos últimos quarenta anos, pois os, assim classificados, oprimidos não são reconhecidos [...] O inusitado está em que os saberes múltiplos postos em situação dialógica não precisam anunciar um único ponto de chegada [...] A dinâmica das trocas entre todos é que fortalece o todo, pois vai possibilitando intercâmbios múltiplos entre os diversos sujeitos, coletivos e individuais. O excludente ou fica trocado pelo inclusivo e. (FISCHER, 2009, p. 34). É a partir da concepção de uma educação plural, onde, como nos diz o autor acima citado, os saberes múltiplos postos em situação não Educação profissional em um galpão de reciclagem: dinâmicas do cotidiano 163 precisam anunciar um único ponto de chegada, que retiramos algumas considerações curriculares pertinentes. Como princípio norteador se estabelece pensar ações que possibilitem legitimidade ao trabalho desenvolvido na Associação, assim como ampliar os conhecimentos técnicos e propedêuticos das (os) associadas (os). Neste sentido, em função das observações acima expostas que apontam algumas fragilidades que acabam por comprometer os ganhos da associação, a saúde das (os) trabalhadoras (es) e a dignidade dessas pessoas, explicitamos aqui a urgência de uma ação alfabetizadora. Um currículo de Educação Profissional deve ter a alfabetização como uma ação concomitante a outros campos de saber como processos administrativos, contabilidade, computação, reconhecimento de materiais que podem ser separados e vendidos, conhecimentos oriundos da área da saúde como zoonoses e cuidados pessoais necessários para o campo de trabalho. Também é pertinente abarcar temas que possam dar conta da contextualização social do seguimento de trabalho em que se inserem os afazeres da Associação e se relacionam com o trabalho desenvolvido, mas que não, necessariamente, estão inscritos de forma nítida no fazer diário do trabalho. Igualmente propomos a inserção das questões ambientais no âmbito curricular de um curso PROEJA, por ser um meio de legitimar o trabalho desses indivíduos em função da crescente preocupação mundial com as questões ambientais, nas quais o lixo produzido se apresenta como um dos principais problemas e que neste sentido a seleção de materiais para a reciclagem se revela como uma potencial solução. A educação ambiental representa uma possibilidade de ampliação das visões de mundo destas (es) trabalhadoras (es) à medida que estas (es) percebam o quanto essa atividade é integrada na amplitude social, muito embora este tipo de reflexão não seja recorrente em função da rejeição que estigmatiza indivíduos pobres, com baixa escolarização e que tiram seu sustento do que para a maioria das pessoas é somente lixo. É preciso que se entendam as experiências sobre gestão de resíduos como espaços de construção coletiva dos conhecimentos disponibilizados pela cultura de uma sociedade. São projetos de educação, no seu sentido mais amplo. Podem, 164 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA pelo agir coletivo, passar da lógica da desconfiança tão presente nos dias de hoje para ações cujo caráter seja propositivo (ALBUQUERQUE, 2008, p. 28). A preocupação com o meio ambiente que recentemente tem tomado corpo em nossa sociedade situa a Educação Ambiental em lugar privilegiado dentro de uma perspectiva de educação crítica, inclusiva, libertadora e humanizadora, como nos comunica Paulo Freire (1979) uma educação que "libertasse pela conscientização. Não aquela educação que domestica e acomoda" (p. 66). As questões ambientais permeiam os sentidos da nossa existência na medida em que nos enxergamos como parte integrante do meio e em comunhão com a natureza da qual somos parte, é interessante que essas noções sejam percebidas na Associação. Segundo Isabel Cristina de Moura Carvalho, a educação ambiental é parte do movimento ecológico, de forma que as preocupações da sociedade com a atual situação do meio ambiente em que vivemos se inscrevem em vários âmbitos, inclusive no da educação: Surge da preocupação da sociedade com o futuro da vida e com a qualidade da existência das presentes e futuras gerações. Neste sentido, podemos dizer que a Educação Ambiental é a herdeira direta do debate ecológico e está entre as alternativas que visam construir novas maneiras de os grupos sociais se relacionarem com o meio ambiente. (CARVALHO, 2008, p. 51) Mais uma vez temos indícios de que a Educação Ambiental propõe amplitude e densidade dentro da construção de um conhecimento que não se restringe ao simples tecnicismo, mas que reorganiza toda uma forma de perceber o trabalho. Por fim fica o registro da fala de uma associada que de alguma forma sintetiza sentimentos comuns a todas essas trabalhadoras: O nosso trabalho é muito importante para todas as pessoas, as pessoas não querem nem saber, acham a gente fedorenta e não se preocupam em separar o lixo direito. Mas a gente que é sem estudo e muito humildes sabemos muito bem a importância para a natureza e para todo mundo. Até parece que essas Educação profissional em um galpão de reciclagem: dinâmicas do cotidiano 165 arrumadinhas é que não tem estudo... O que a gente tá esperando é que as pessoas reconheçam o nosso trabalho. Meu filho voltava chorando todo dia da escola até pouco tempo, agora ele não volta mais, mas quando ele chorava e eu perguntava por que, ele falava que os colegas xingavam ele, falando que eu sou lixeira. Eu falava assim: A mãe tem um trabalho honesto, não falta comida para vocês, não tô roubando e vocês devem ter orgulho de mim e pode falar pra esses guris. Referências ALBUQUERQUE, Paulo P, STRAUCH, Manuel de, (orgs.) Resíduos: como lida com os recursos naturais. São Leopoldo: Oikos, 2008. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A questão da política da educação popular. São Paulo: Brasiliense. 1980. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Secretaria de Educação Técnica de Nível Médio ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. PROEJA. Documento Base Ensino Fundamental. 2009. CARVALHO, Isabel C. M. Educação Ambiental: a formação do sujeito ecológico. São Paulo: Cortez, 2004. FISCHER, Nilton Bueno. Trabalho e autonomia. Construção do possível entre os trabalhadores, homens e mulheres, recicladores da Associação Ecológica Rubem Berta de Porto Alegre (RS). Educação Unisinos, v. 10, n. 2, p. 130-138, 2006. Disponível em: <http://www.unisinos.br/publicacoes_cientificas/ images/stories/pdfs_educacao/vol10n2/art06_fischer.pdf>. Acesso em: 25 out. 2010. FISCHER, Nilton Bueno. Perplexidades, Desafios e Propostas na Educação Ambiental a partir de Trajetórias de um Pesquisador. Revista Educação & Realidade (UFRGS), Porto Alegre, Educação Ambiental v. 34, n. 3, set./dez. 2009. 166 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA FREIRE, Paulo; Tradução de Moacir Gadotti. Educação e mudança. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1979. GOHN, Maria da Glória. Educação não-formal, participação da sociedade civil e estruturas colegiadas nas escolas. Ensaio: aval. pol. públ. Educ., Rio de Janeiro, v. 14, n. 50, p. 2738, jan./mar. 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ensaio/v14n50/ 30405.pdf>. Acesso em: 01 mar. 2011. SATO, Michele; CARVALHO, Isabel. C. M. (Orgs.). Educação Ambiental: pesquisa e desafios. Porto alegre: Artmed, 2005. LOUSADA, Vinícius Lima. Notas sobre Educação Popular a partir da pesquisa com recicladores. In: 32ª Reunião Anual da ANPED (Associação Nacional de Pós-Graduação em Educação), 2009, Caxambu -MG. Anais da 32ª Reunião Anual da ANPED, 2009. LOUSADA, Vinícius Lima. O diabólico e o simbólico no cotidiano de um galpão de reciclagem: notas de um educador /pesquisador. In: II Seminário Diálogos com Paulo Freire: Educação Popular, Formação Profissional e Movimentos Sociais, 2008, Pelotas. Anais do II Seminário Diálogos com Paulo Freire. Pelotas: SEIVA PUBLICACOES, 2008. v. I. LOUSADA, Vinícius Lima; CARGNIN, T. D. M. Fotoetnografia e a pesquisa com recicladores. In: VIII Seminário de Pesquisa Qualitativa fazendo metodologia, 2009, Pelotas. Anais do VIII Seminário de Pesquisa Qualitativa fazendo metodologia. `Pelotas-RS: Faculdade de Educação - UFPEL, 2009. SANTOS, Simone Valdete. Projeto de pesquisa Do inédito ao aleatório: o currículo integrado do PROEJA. Disponível em: <http://www1.ufrgs.br/pesquisa/forms/form_dadosProjetoPesquis a.php?Cod=13592&NrSeqBolsa=&CodProjeto=>. PARTE II SABERES DO TRABALHO . APRESENTAÇÃO: SABERES DO TRABALHO A segunda parte deste volume representa o esforço coletivo das integrantes do Grupo de Trabalho (GT) Escola, Saberes do Trabalho e dos Trabalhadores, o qual faz parte do projeto de pesquisa "Experiências de Educação Profissional e Tecnológica Integrada à Educação de Jovens e Adultos no Estado do Rio Grande do Sul". A intenção dos textos reunidos neste livro é sistematizar e divulgar os resultados das investigações realizadas no âmbito do convênio PROEJA CAPES-SETEC. Os capítulos apresentam produções individuais ou coletivas do GT, cujo trabalho, ao longo dos quatro anos de duração do projeto (2008-2011), teve como objetivo visibilizar, analisar, compreender e legitimar saberes construídos com os trabalhadores a partir de suas vivências. Nesse período, as integrantes do GT desenvolveram cinco dissertações de mestrado – três concluídas e duas em andamento – e três teses de doutorado – uma concluída e duas em andamento. O primeiro capítulo apresenta o texto "Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos de escola e de trabalhadores", que aborda os conceitos orientadores do GT Escola, Saberes do Trabalho e dos Trabalhadores. Aprofunda os aspectos comuns entre as pesquisas, no que concerne aos pressupostos e ao quadro teórico, a partir da centralidade do trabalho e dos saberes que esta experiência produz 170 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA para a implantação de políticas que visem à integração da educação profissional com elevação da escolaridade de jovens e adultos.. Para tanto, Naira Lisboa Franzoi e Maria Clara Bueno Fischer revisam a produção teórica sobre os conceitos de saberes, trabalho, experiência e formação em autores como Charlot (2000), Malglaive (1995), Schwartz (2010; 2002), Schwartz e Durrive (2007), Freire (2002), Josso (2002) e outros. O capítulo seguinte apresenta a análise do material produzido a partir da pesquisa realizada junto aos coordenadores e professores do PROEJA – denominados educadores – de onze campi dos IFs no estado do RS: Sapucaia do Sul, Charqueadas, Alegrete, Julio de Castilhos, Santo Augusto, São Vicente, Rio Grande, IFSul Campus Pelotas, Bento Gonçalves, CTISM e CAVG. Nesse estudo exploratório, foi utilizado um instrumento qualitativo com as seguintes questões: o que a escola sabe sobre a experiência de trabalho dos alunos? Como a escola e/ou professores têm capturado os saberes do trabalho (ou vivências profissionais) dos alunos? Como tem interagido com esses saberes na prática pedagógica? Os resultados da análise contextualizam a problemática vivenciada na relação entre os saberes produzidos pelos trabalhadores e os produzidos no âmbito dos conceitos e as relações deste aluno trabalhador nos espaços institucionais de formação profissional. Os capítulos seguintes apresentam produções individuais ou em dupla, que sintetizam os resultados de estudos realizados na Especialização em PROEJA (UFRGS), nos cursos de mestrado e doutorado em educação e na iniciação científica das universidades integrantes do projeto: Universidade Federal do Rio Grande do Sul UFRGS, Universidade Federal de Pelotas - UFPEL e Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Esses estudos têm como campo empírico os cursos de PROEJA implantados em IFs do Rio Grande do Sul. No texto "Proeja: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na Escola", Damiana França elabora uma síntese dos achados de seu estudo de especialização em PROEJA, agregando à reflexão algumas leituras realizadas no mestrado em educação em curso. A autora estuda o PROEJA a partir de uma análise documental, com foco no Documento-Base Apresentação: Saberes do trabalho 171 PROEJA Médio e o Plano do Curso Técnico em Contabilidade Integrado ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos e no Plano de Curso PROEJA Técnico em Contabilidade do Projeto Piloto do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Bento Gonçalves. Sua pesquisa problematiza a abordagem destes documentos no que concerne ao desenvolvimento local, à polaridade entre ciência e tecnologia e à formulação de políticas públicas relacionadas à realidade e aos problemas da comunidade local. No texto produzido por Fernanda Zorzi e Juraciara Peixoto "Memórias, trajetórias e legados dos estudantes-trabalhadores no espaço escolar", as autoras buscam refletir sobre a relação entre os saberes que os trabalhadores constroem no contexto do trabalho, suas experiências e necessidades e os saberes elaborados no espaço escolar a partir de duas experiências dos estudantes-trabalhadores: uma do Curso de Formação Inicial e Continuada - PROEJA FIC, e a outra experiência com os estudantes-trabalhadores do Curso Técnico em Comércio - PROEJA ofertados pelo Campus Bento Gonçalves do IFRS. "As experiências do/no trabalho da/na escola: um estudo com participantes do PROEJA", texto produzido por Fernanda Lampert, apresenta os resultados de sua pesquisa de mestrado em educação concluída recentemente. Nesse estudo, a autora resgata, no contexto atual das transformações do mundo do trabalho, o lugar da educação profissional na formação de pessoas adultas com trajetórias de estudo interrompidas. Desse modo, situa o problema das marcas formadoras dos estudantes indicadas após a reflexão de suas experiências vividas no mundo do trabalho e no contexto escolar, procurando fazer aproximações com o conceito de experiência formadora (Josso, 2004) além de tratar da relação dos sujeitos com os saberes escolares e os saberes adquiridos no contexto do trabalho (Charlot, 2000). A autora Anália Martins em seu texto "Saberes-Experiência de Trabalho dos Alunos do PROEJA" socializa parte dos resultados do estudo desenvolvido em sua pesquisa de mestrado. Essa produção da autora tem por objetivo dar a conhecer as experiências coletivas de trabalho dos alunos-trabalhadores do PROEJA, buscando compreender a relação do saberes-experiência e 172 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA a prática pedagógica a partir de algumas experiências de trabalho que compõem o setor de serviços, particularmente aqueles relacionados aos cuidados e limpezas dos espaços, sejam domésticos ou empresariais. No texto "Trajetórias e Usos de Si de Mulheres na Circulação de Saberes e Valores em Curso de PROEJA", Ana Cláudia Godinho problematiza aspectos do estudo de natureza etnográfica que está sendo realizado em um curso de PROEJA, com o objetivo de analisar os usos de si (Schwartz e Durrive, 2007) de alunas do referido programa. No capítulo seguinte, no texto "A arte de costurar: um olhar sobre as experiências de vida, um caminho para elevação do conhecimento em cursos de formação de adultos", as autoras Fátima Franciele Oliveira, Fabiana Gass e Diovana Lima, discutem os achados de pesquisa sobre saberes da experiência de trabalho de cinco costureiras, analisados à luz do conceito de experiência formadora e a perspectiva de pesquisa-formação de Marie-Christine Josso. As reflexões tecidas no texto permitem conhecer alguns aspectos dos saberes não escolares de cinco costureiras e sua visão sobre o mundo do trabalho e a escola. Além disso, o estudo possibilita a problematização dos distanciamentos e aproximações entre, de um lado, os saberes do trabalho – adquiridos, (re)criados e mobilizados de modo singular por cada trabalhadora entrevistada – e, de outro, os saberes escolares e as potencialidades do PROEJA na formação de pessoas jovens e adultas, como é o caso das costureiras que colaboraram com o estudo. As pesquisas e os estudos realizados no GT Escola, saberes do trabalho e dos trabalhadores, contemplaram também outras experiências que vinculam elevação da escolaridade e a formação profissional de jovens e adultos. Nesse caso, os pesquisadores realizaram seus estudos em outros campos empíricos, como instituições que não fazem parte da rede federal de ensino. Tais estudos problematizaram a relação entre a escola e o mundo do trabalho na perspectiva da produção e circulação de saberes escolares e não escolares na formação do trabalhador. As produções desses estudos podem ser encontradas em dois textos, respectivamente o de Liana Canto e o de Maria Clarice Oliveira. Apresentação: Saberes do trabalho 173 O texto intitulado "Entre Histórias, Saberes e Fazeres relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber", de Liana Canto, sintetiza a sua Dissertação de mestrado, a qual teve como campo empírico uma instituição de ensino público no município de Gravataí-RS, em Educação de Jovens e Adultos (EJA). A pesquisa abordou o tema das relações entre os saberes desenvolvidos na escola e os construídos nas experiências de trabalho, tendo como problema central identificar as relações das alunas mulheres trabalhadoras domésticas com o saber escolar e com o saber de suas experiências de trabalho. A autora contribui para reflexões sobre o PROEJA no sentido de demonstrar a relevância de se considerar as vivências dos alunos jovens e adultos e de seus saberes construídos fora da escola na construção do currículo escolar e para o desenvolvimento de metodologias que contemplem os saberes destas pessoas. No texto "Cruzando as fronteiras dos saberes: no trabalho, na fumicultura, na escola e no desenvolvimento local", Maria Clarice Oliveira busca aprofundar questões relacionadas ao trabalho, à educação, à produção de saberes no/do trabalho e aos saberes escolares. O estudo analisa um projeto de pesquisa realizado por dois alunos da escola, trabalhadores da fumicultura, cujo foco era criar uma alternativa de renda que substituísse o plantio de fumo na agricultura familiar. A pesquisa de mestrado realizada na Escola Estadual Técnica de Agricultura, em Viamão-RS, embora não ofereça cursos de PROEJA oficialmente reconhecidos, aproxima-se do público do PROEJA pelo perfil de seus alunos e a estrutura de seus cursos médio e técnico. Esse estudo pretende contribuir para as discussões no PROEJA acerca de questões relacionadas às práticas pedagógicas, à produção de saberes escolares e de experiência e às possibilidades da formação profissional contribuir com o desenvolvimento local. O que se identifica como fio condutor da produção dos estudos deste volume é, sobretudo, o olhar sobre a confluência dos campos EJA, EP (Educação Profissional) e Trabalho e Educação na perspectiva da relação entre os saberes da experiência, especialmente de trabalho e os saberes escolares. Sob esta ótica, todos os artigos convergem na abordagem dos saberes da experiência, cuja relação a Escola necessita ser repensada. 174 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Algumas aproximações entre as pesquisas são: 1) a presença de pressupostos teóricos e metodológicos comuns; 2) atentam para os atores sociais das práticas educativas desenvolvidas no âmbito do PROEJA em interação com a escola e as políticas públicas, e não como meros receptores e/ou aplicadores do programa; 3) relacionado ao aspecto anterior, a construção e/ou apropriação de estratégias e instrumentos investigativos, como os diferentes usos de fotografias, experimentados em pesquisas concluídas (Barros, 2010) e em andamento (França, 2011). Tais tentativas visam a produzir caminhos metodológicos que atendam às especificidades do contexto de pesquisa e dos atores e/ou visibilizem as trajetórias e histórias de vida (abordagens biográficas), explicitando/narrando as interpretações, apropriações e usos singulares que cada pessoa produz sobre a experiência (escolar ou não escolar). Nesse processo, inscrevem-se relações de saber (Charlot, 2000) fundadas na interação do sujeito com o saber e dos sujeitos entre si. A implantação do PROEJA é uma espécie de processo laboratorial, um campo de experimentação para a consolidação do direito à educação. O foco é a visibilização desses processos para que, com o tempo, as práticas consolidem os fundamentos da proposta, o que distingue a discussão já incorporada na EJA – com destaque à contribuição de Freire – em relação aos saberes do trabalho. Todos estes estudos buscam viabilizar a reflexão e a construção de práticas que articulem saberes escolares e experienciais. As pesquisas empíricas oferecem elementos para a compreensão de lógicas de aprendizagem, produção e circulação de saberes distintas da forma escolar. Com isso, tais estudos contribuem para fazer avançar a articulação de saberes em práticas educativas voltadas à construção do Currículo Integrado. Conhecer as experiências dos alunos contribui para a superação de um modelo de formação de adultos hegemônico desde a consolidação da Escola como instituição responsável pela socialização das pessoas. Se esse processo acarretou, conforme Canário (2005, p. 66), "uma desvalorização das anteriores formas de socialização e de aprendizagem", além da deslegitimação de alguns grupos sociais quanto a suas competências, segundo o mesmo autor, o caminho inverso – de uma revalorização dos saberes e formas de socialização Apresentação: Saberes do trabalho 175 e aprendizagem não escolares – vêm sendo buscado por pesquisadores e educadores envolvidos com a educação de jovens e adultos. Os estudos realizados até o momento evidenciam a pertinência de avançar na reflexão sobre os saberes não escolares, contemplando outros grupos que participam do PROEJA (idosos, jovens, trabalhadores de outras áreas além das já estudadas), e outras iniciativas, tanto de EJA integrada à EP e outras experiências de articulação entre a escola e o mundo do trabalho. Para tanto, a manutenção do diálogo universidade-escola e a realização de novos estudos de caso fazem-se necessários. Ana Cláudia Ferreira Godinho Maria Clarice Rodrigues de Oliveira . TRABALHADORES EM SALA DE AULA: O QUE A ESCOLA CONHECE SOBRE OS SABERES EXPERIENCIAIS DE ALUNOS DO PROEJA? Naira Lisboa Franzoi1 Ana Claudia Ferreira Godinho2 Maria Clarice Rodrigues Oliveira3 Maria Clara Bueno Fischer4 Apresentação As reflexões tecidas neste texto são o resultado da análise do GT Escola, Saberes do Trabalho e dos Trabalhadores sobre o material qualitativo coletado no âmbito do projeto de pesquisa "Experiências de Educação Profissional e Tecnológica Integrada à Educação de Jovens e Adultos no Estado do Rio Grande do Sul". Trata-se de um estudo qualitativo, de caráter exploratório, que contou com a colaboração de doze docentes e coordenadores do PROEJA, de nove campi dos três Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado, além de duas escolas técnicas 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2 Universidade do Vale do Rio dos Sinos. 3 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 4 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 178 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA ligadas a universidades. Esses profissionais aceitaram participar de entrevistas individuais semi-estruturadas, cujo roteiro constituiu-se nas seguintes questões: - Que tipo de instrumento é utilizado pela escola para colher informações dos alunos no processo seletivo (carta de apresentação ou justificativa do aluno para entrar no curso, texto de apresentação elaborado pelo aluno, questionário de diagnóstico da realidade sócio-econômicos dos alunos, outros)? - O que a escola sabe sobre a experiência de trabalho dos alunos? - Como a escola e/ou professores tem captado os saberes do trabalho dos alunos? Como tem interagido com esses saberes na prática pedagógica? Essas questões resultaram do esforço coletivo dos integrantes do grupo de trabalho, reunidos em duas ocasiões no ano de 2009 para a elaboração do roteiro das entrevistas. Buscou-se contemplar o tema geral do GT – as interfaces entre a escola e o mundo do trabalho na perspectiva da produção de saberes pelos trabalhadores – e realizar um mapeamento das iniciativas e práticas pedagógicas em PROEJA no que concerne aos saberes do trabalho e sua interlocução com os saberes escolares. A partir dessas perguntas, os bolsistas e demais estudantes de mestrado e doutorado vinculados ao projeto de pesquisa realizaram entrevistas semi-estruturadas com educadores envolvidos na implantação dos cursos de PROEJA no Rio Grande do Sul. Em seguida, a transcrição das entrevistas permitiu realizar a análise de conteúdo, tendo a priori as seguintes categorias analíticas: trabalho, saberes e experiência. Além destas, outras categorias emergiram da análise dos dados: formação profissional, técnica, relação teoriaprática e relação professor-aluno. Este texto busca sistematizar os resultados do mapeamento realizado ao longo de quatro anos de pesquisa. Com isso, foi necessário selecionar alguns aspectos em detrimento de outros também relevantes à investigação e ao debate sobre a implantação dos cursos de PROEJA no Estado. A escolha de uma parte apenas dos temas mencionados pelos educadores foi guiada pela questão orientadora deste texto: quais interlocuções a escola estabelece com os saberes do trabalho dos estudantes nas práticas pedagógicas dos cursos de PROEJA? Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 179 Saberes dos trabalhadores – breve retomada dos conceitos utilizados Para Cavaco (2009, p. 221) "[...] a experiência, à semelhança da vida, vive-se, sem que ocorra, quotidianamente, um processo de análise e reflexão consciente do vivido." Sendo assim, as experiências são vividas em diversas situações, inclusive na atividade de trabalho. Quando abordamos as experiências, nem sempre nos referimos a um processo de reflexão sobre o vivido. Vivemos uma infinidade de experiências que podem assumir dois sentidos – um para orientações futuras e outro para ações passadas: De modo geral, é possível dizer que a experiência assume dois sentidos, um de orientação para o futuro, outro para ações passadas. No primeiro sentido, a experiência é uma tentativa, um ensaio, pôr em prova, cujo resultado se pode esperar, mas tem sempre algo de imprevisível. No segundo sentido, a prova tem lugar, e o sujeito obtém experiência nessa questão, tornando-se um perito, alguém que adquiriu conhecimento num determinado domínio. Na primeira concepção, a experiência é entendida como uma "confrontação com qualquer coisa nova para a pessoa, como ruptura no curso habitual das coisas" (ROELENS, 1989, p. 67). No segundo sentido, a experiência é compreendida como algo "já constituído, estabilizado, imobilizado, estruturado como quadro de pensamento e de ação [...] ter experiência é ser capaz de uma prática ou de um comportamento estruturado, uma situação conhecida" (ROELENS, 1989, p. 67-68). Ou seja, a experiência incorpora uma dimensão de processo, no primeiro sentido, e uma dimensão de resultado, expressa no segundo sentido (CAVACO, 2009, p. 222). Na experiência está presente esta "dupla dimensão": a do futuro, que diz respeito à prospecção da trajetória de vida, de trabalho ou de estudos; e a do passado, isto é, de um balanço sobre as vivências e os saberes adquiridos. Desse modo, a experiência interfere sobre os saberes produzidos anteriormente, pois fomenta a ressignificação dos mesmos. Ao mesmo tempo, pode modificar e 180 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA contribuir para a construção de projetos individuais ou coletivos, alterando a trajetória futura. Nessa perspectiva, a proposta político-pedagógica do PROEJA, manifesta no Documento-Base do referido programa, concebe a experiência do trabalhador como um lugar de produção de saberes com características distintas dos adquiridos na escola, mas tão relevantes para a atividade de trabalho quanto a educação formal. Sendo assim, o programa visa a promover o encontro entre os saberes escolares e experienciais dos alunos trabalhadores através da construção de um currículo que integra não somente o ensino médio e a educação profissional, mas também contempla os saberes dos trabalhadores acerca do mundo do trabalho. Ao chegar às escolas, essa proposta é apropriada por diferentes grupos de educadores, em contextos geográficos, culturais e sócio-econômicos específicos. A aceitação do PROEJA também variou conforme as instituições de ensino. Esses aspectos originaram diferentes estratégias de aproximação aos saberes dos trabalhadores assim como entendimentos distintos sobre a relação escola-mundo do trabalho, desenvolvida pela educação profissional. O levantamento apresentado no subcapítulo a seguir busca aprofundar algumas questões que confluem para os referidos resultados. Levantamento de dados obtidos nas entrevistas individuais Campi que Instrumento Nomes dos campi utilizam IFF – Campus Julio de Castilhos Ficha cadastral 2 IFSul – Campus Charqueadas IFF - Campus São Vicente Entrevista 2 IFF - Campus Santo Augusto Questionário sócio-econômico, 1 IFSul – Campus Sapucaia do Sul palestra e redação IFRS – Rio Grande Não obtém informações no 3 IFRS – Bento Gonçalves processo seletivo. CAVG Prova e entrevista 1 IFF - Alegrete A entrevista não contemplou a IFSul – Pelotas 2 questão. CTISM Total 5 instrumentos 11 campi Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 181 Dentre os campi, três buscam informações sobre os/as estudantes após a realização do processo seletivo: IFRS Bento Gonçalves, mediante aplicação de questionário socioeconômico e outros instrumentos (a entrevistada não especifica quais são eles); IFF – Santo Augusto (não há menção do instrumento criado ou utilizado); CTISM (levantamento elaborado pela orientadora educacional mediante aplicação de fichas com histórico, histórico de vida e entrevistas); O que os campi descrevem sobre as entrevistas que realizam no processo seletivo? Uma pessoa define, sucintamente, o foco da entrevista realizada com os/as alunos/as: pra que a gente pudesse saber um pouco mais sobre esse aluno, pra gente saber de onde ele vem, o que ele faz (IFF – Campus Santo Augusto). O relato da representante do CTISM aponta para a mesma direção do objetivo do levantamento realizado com os alunos após seu ingresso no curso. O questionamento sobre as experiências de trabalho dos/as alunos/as do PROEJA permitiu identificar algumas iniciativas construídas pelas escolas para conhecer o perfil geral do público, sem se deter especificamente na experiência de trabalho, mas também em outras características como as condições sócioeconômicas e os aspectos culturais. Seja no processo seletivo, seja após o ingresso dos/as estudantes, identificar as especificidades dos alunos do PROEJA é uma preocupação presente entre os educadores entrevistados. Diante disso, cada instituição vem construindo seus caminhos. Em alguns casos, a preocupação motivou a criação de instrumentos de coleta de informações, majoritariamente através de questionário; em outros casos, essa busca ocorreu de maneira mais informal através do contato cotidiano dos professores e coordenador do curso com os/as discentes. Essas questões buscam fomentar a reflexão no âmbito das instituições que oferecem cursos de PROEJA, a necessidade de repensar a elevação da escolaridade e a formação profissional dos trabalhadores para além da "[...] dimensão reducionista de trabalho como emprego e seu vínculo linear com os processos educativos escolares, e a compreensão do trabalho na sua relação necessária com a produção da vida" (FRIGOTTO, 2002, p. 8). Desse modo, é 182 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA importante destacar o que afirma Kuenzer (1989, p. 183). sobre a relação dos saberes escolar e os saberes do trabalho em que: [...] o saber não existe de forma autônoma, pronto e acabado, mas é síntese das relações sociais que os homens estabelecem na sua prática produtiva em determinado momento histórico. Assim, o trabalho compreendido como todas as formas de atividade humana pelas quais o homem apreende, compreende e transforma as circunstâncias ao mesmo tempo em que se transforma é a categoria que constitui no fundamento de elaboração do conhecimento. O trabalho, portanto, é tido como categoria central do PROEJA. Este pode ser considerado um campo educacional em construção, que articula a Educação de Jovens e Adultos (EJA) com a Educação Profissional (EP). Sendo assim, o programa propõe-se a contemplar o trabalho enquanto relação social, sem negar sua dimensão ontológica. Nesse sentido, o trabalho é compreendido dialeticamente como lugar de alienação do saber do trabalhador e exploração de sua força de trabalho, mas também como lugar de produção de um saber subjetivo, a partir do qual o trabalhador transforma o trabalho e, com isso, reapropria-se dele. Sendo assim, o capital pode comprar a força de trabalho, porém os saberes construídos pelo trabalhador fazem parte da sua subjetividade, e segundo Franzoi (2009, p. 194): O saber do trabalhador, contudo, está apenas potencialmente à disposição do capitalista: quando o capitalista compra a força de trabalho, durante determinando tempo, compra também o saber que vai se desenvolver durante esse período sob as barbas do Capital, e que possibilita a transformação desta força de trabalho em trabalho. Não compra, porém, a subjetividade do trabalhador e, como este saber não pode ser absorvido apenas pela observação, pois tem que ser repassado pelo trabalhador, este é um espaço - também potencial – de resistência e negociação do trabalhador. Portanto, o saber construído na atividade de trabalho envolve a subjetividade dos sujeitos. Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 183 No entanto, é preciso resgatar, em meio a idéia de "separação entre execução concepção, o homem como apêndice da máquina", um trabalhador que luta contra sua objetivação, que, ao invés de ser um passivo diante da máquina que condensa um saber, outrora seu, seja um ser ativo que constrói conhecimento, e, a cada nova situação, lance novos desafios a si mesmo (FRANZOI, 2009, p. 191). Para Rummert (2002, p. 126), a problemática central na educação de jovens e adultos no cotidiano das escolas é a aproximação e "as relações entre os conhecimentos escolares e os conhecimentos vivenciais." O conhecimento sobre os saberes e experiência de trabalho, especificamente, é ainda bastante incipiente em todos os campi. Uma entrevista (CAVG) indica que uma parte dos/as alunos/as não tem experiência de trabalho e "um número mínimo de pessoas já tinham trabalhado na área, por exemplo, eu sei de um senhor do vestuário que já tinha trabalhado [...] vem muita gente que vem aprender a costurar". Assim, a motivação das pessoas para o ingresso no curso seria o interesse em participar do PROEJA – e, possivelmente, da instituição de ensino –, e não a coincidência entre a área do curso e a as experiências de trabalho anteriores: "o que eu acho é que muita gente veio porque era o curso que estava sendo aberto e era um curso técnico, era um curso profissionalizante." Nesse sentido, como afirma Charlot (2008, p. 82) "[...] paradoxalmente, é em termos de acesso ao mundo do trabalho que a educação é pensada hoje, e, cada vez mais, é a este acesso que ela está reduzida hoje." Tal constatação aproxima-se do relato do então coordenador do PROEJA de outro campus: A maioria dos nossos alunos, ou boa parte deles, têm trabalhos informais, também tem bastante dona de casa [...] os alunos durante o curso se empregam, se desempregam, mudam de cidade [...] a gente tem um dado inicial, mas não tem um dado que acompanha durante a permanência deles na escola (IFSul – Sapucaia do Sul). Por essa perspectiva, podemos identificar que para os jovens e adultos que procuram os cursos ofertados pelo PROEJA, 184 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA apresentam-se múltiplas possibilidades. Contudo como afirma Rummert "[...] como característica comum, [aparece] a partilha de expectativa que constitui a expressão do desejo de viver 'uma vida melhor'", na qual a busca da escola representa melhores chances de conseguir um trabalho digno. [...] para esses alunos, a passagem pela escola reveste-se da crença de que constitui garantia de acesso a satisfatórias condições de trabalho, o mesmo não ocorre quando buscamos avaliar a relação que percebem entre os conteúdos disciplinares e suas vidas. [...] porque se distancia do viver, dos inúmeros saberes adquiridos ao longo de existências marcadas por enormes esforços de sobrevivências [...]. (2002, p. 125-126) Independente da motivação para o ingresso no curso há que destacar que os/as estudantes têm no curso uma formação inicial naquela área de atuação. Essa situação também é comum a outros campi, tais como IFSul Charqueadas5, IFF Julio de Castilhos e o IFSul Sapucaia do Sul6. Nesse contexto, a escola aparece [...] como local onde eles terão acesso ao saber social, a partir do que compreenderão melhor seu mundo, sua prática e melhorarão suas condições de vida. [...] Apesar de suas limitações, a escola se constitui, portanto como alternativa da qual eles dispõem para superar os aspectos de parcialização e fragmentação do saber que elaboraram com a prática. (KUENZER, 1989, p. 190) À exceção do CAVG, as falas indicam que os saberes do trabalho manifestam-se na participação dos/as alunos/as em sala de aula ou em conversas informais em horários de intervalo. São, portanto, fruto da manifestação espontânea dos/as alunos. Também há menção a iniciativas individuais e isoladas de professores (IFF São Vicente; IFF Alegrete; CTISM; IFRS Rio Grande), porém sem relatos de situações concretas em que o professor tenha provocado intencionalmente a fala dos/as alunos acerca de suas experiências de 5 A respeito, ver a dissertação de Claudia Klinski. 6 A respeito, ver as dissertações de Anália Martins. Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 185 trabalho, e os saberes nela produzidos. As manifestações desses saberes acontecem como aproximações, a título de ilustração, aos conteúdos escolares, como revela o relato a seguir: [...] muitas vezes se utiliza as dificuldades ou problemas do trabalho deles, para digamos um trabalho de aula, ou um exercício de aula. Ah, você está com um problema? Vamos usálo aqui em aula como um exercício pra resolver o seu problema, ao invés de eu criar um exercício. Então, eles sentem: puxa vida, aquilo que eu nunca consegui resolver, que não tinha solução, quer dizer que agora, aqui na aula, a gente vai resolver. Então, tem um caráter motivador para eles. Claro que tem áreas diversas, que não consegue se atender (CTISM). Desse modo, somente se manifesta nas falas dos/as alunos/as aquilo que eles/as reconhecem como um saber equivalente ou aproximado ao saber escolar. Os saberes que "não cabem" no conteúdo não são objeto de reflexão na turma. Sendo assim, as experiências de trabalho que não correspondem à área do curso silenciam-se, nesse sentido nos parece que "Os jovens e adultos trabalhadores trazem para o interior do espaço escolar uma multiplicidade e uma riqueza de saberes que quase nunca ousam externar por considerá-los inadequados, sem valor, ou mesmo equivocados" (Rummert, 2002, p. 126). Com isso, as escolas somente conhecem aquilo que é narrado pelo/a discente em relação à própria experiência de trabalho. Não há elaboração de iniciativas de investigação ou problematização das áreas de atuação em que estão inseridos esses/as estudantes, as quais poderiam visibilizar saberes do trabalho não reconhecidos pelos/as trabalhadores/as que ingressam nos cursos de PROEJA, como na continuidade do relato anterior: Alguns [alunos] que não trabalham nesta área, não se consegue atender. Então, eles ficam, digamos, observando os problemas, na indústria, dos outros. O que se espera (como a maioria já está na indústria, é motivo deles terem vindo para cá) se espera que eles cresçam dentro da indústria, saiam daqueles postos. Tem alguns que são simplesmente operadores de máquina. Uma vez técnicos, eles não vão ser operadores de máquinas, eles vão coordenar a equipe, vão projetar a peça, fazer o projeto 186 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA daquilo que a máquina vai fazer. Eles têm como subir degraus lá dentro (CTISM). O fato de o conhecimento da escola sobre os saberes do trabalho limitar-se à verbalização dos alunos é um ponto em comum entre os campi, exceto no IFRS – Bento Gonçalves. Tal aspecto indica um desafio comum às instituições de ensino e às de pesquisa em educação, haja vista que narrar o trabalho é uma dificuldade para os trabalhadores, o que motiva inúmeros estudos sobre a relação entre linguagem e trabalho (Nouroudine, 2002; França, 2007; Cunha, 2010). Falando a partir de experiências no contexto de trabalho, Cavaco (2009) destaca a dificuldade de verbalização dos trabalhadores sobre os próprios saberes experienciais: A dificuldade em produzir um discurso sobre as suas experiências resulta igualmente do fato de terem adquirido esses saberes através de mecanismos de tentativa e erro e/ou pela observação de colegas, sem que ocorressem explicações verbais de procedimentos a adotar. Quando alguém lhes solicita a transmissão dos seus saberes, é mais fácil agirem para demonstrarem esses conhecimentos do que verbalizar. Nestes casos, os saberes que possuem são "um misto de saberes construídos com os outros e de saberes que resultam de uma bricolage realizada por si próprios na experiência de trabalho (LAHIRE, 1993, p. 48)" (p. 226). O tema também é abordado por Cunha, que destaca a incapacidade da linguagem de antecipar totalmente o trabalho. Em estudo com trabalhadores da mineração, a autora identificou que os mesmos não contam muita coisa sobre o trabalho real. Esse silenciamento tem relação com a riqueza do trabalho, a qual não pode ser nomeada em sua totalidade, conforme analisa a autora: Essa dificuldade de verbalização da atividade industriosa tem relação direta com o fato de que, mesmo quando verbalizada, ela antecipa apenas parcialmente o que ocorrerá nas situações de trabalho, pois a atividade sempre ressingulariza seu meio e transgride o que foi antecipado na linguagem codificada dos manuais, das prescrições, das normas antecedentes do trabalho a ser executado. Se a linguagem antecipa a ação por meio de Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 187 normas, esta supera e transgride a primeira, sendo sua fonte de reatualização (2010, p. 61). O modo como as falas dos alunos são "aproveitadas" é ainda uma construção para os grupos de educadores dos IFs, tendo em vista que os profissionais interpretam a emergência das experiências de trabalho em sala de aula das mais variadas formas, desde uma troca de experiência no dia a dia do trabalho, definida como uma "troca de figurinhas" (IFRS - Rio Grande) entre aluno e professor até o filtro afetivo entre eles. Na minha opinião, dependendo da maneira como tu faz pode parecer meio forçação de barra porque não vai ter aquela lógica de alguém que já viria trabalhando ali na experiência profissional, mas que já tem uma ideia do que é, porque a experiência por contar mesmo... Mesmo que essa experiência de contar pra gente como é que funcionou, como é que trabalhou, isso também é uma forma de se aproximar deles e deles também se aproximarem. Eles têm uma história de confiar num professor. Então, claro, a gente conversa, a gente ouve... Tudo isso é importante também pra prática pedagógica. Na verdade, o filtro afetivo, a gente consegue. Eu acredito nisso muito mais do que eles. Eles confiam no professor, o professor é pra eles muito mais que é pra os outros alunos dos outros cursos. O professor é aquele amigo, é que aquele que eles têm que confiar [...]. Mas aí, com essa relação do trabalho, é quando dá (CTISM). O relato enfatiza o aspecto afetivo da relação professoraluno. A educadora destaca a confiança do aluno no professor como um diferencial da EJA em relação a outras modalidades, o que corrobora a reflexão de Freire (2002, p. 161), que ressalta o respeito à dignidade da tarefa do educador e ao espaço pedagógico: [...] em que não se pense que a prática educativa vivida com afetividade e alegria, prescinda da formação científica séria e da clareza política dos educadores e educandos. A prática educativa é tudo isso: afetividade, alegria, capacidade científica, domínio técnico a serviço da mudança ou, lamentavelmente, da permanência do hoje. 188 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Além disso, a reflexão sugere que o reconhecimento dos saberes do trabalho está restrito à área de formação do curso. Aquelas experiências que não fazem parte dessa área não são consideradas relevantes para o currículo, e sua única alternativa possível de aproveitamento em sala de aula seria pela dimensão afetiva da relação professor-aluno. Todavia, a fala indica ser uma opinião individual da educadora entrevistada, sem que ela afirme efetivamente presenciar essas questões na escola. A abordagem também sugere que a relação com o trabalho, no contexto pedagógico, é eventual e, portanto, não é central. Conforme Kuenzer, um novo desafio se coloca para a escola e para a formação profissional do trabalhador, a articulação entre os diferentes saberes e os diferentes atores: professores, alunos, classes e comunidade. O conhecimento exige a compreensão da relação entre o concreto e abstrato, entre o lógico e histórico, a partir de "precárias e provisórias abstrações resultante de saberes e experiências anteriores, para, através de uma profunda imersão na realidade empírica, atingir outro patamar de compreensão dessa mesma realidade [...]" (KUNZER, 2000, p. 83). Os dois excertos a seguir também evidenciam a escuta sensível dos professores à experiência do aluno. Porém, essa escuta não encontra lugares para a problematização das narrativas e dos dados captados em sala de aula. Ainda a interpretação da experiência dos alunos aparece como um esforço individual e fragmentado dos professores, o que prejudica – ou mesmo inviabiliza – a articulação dessa experiência ao saber escolar. Duas falas expressam essa fragmentação: [...] eu acho que é uma experiência meio individual, alguns professores trabalham e tentam trazer pra suas aulas a experiência profissional (IFF - Julio de Castilhos); [...] fora os depoimentos informais na sala de aula eu acredito que não exista nenhum momento que esses saberes do trabalho pudessem ser legitimados ou levados em conta ou até declarados pelos próprios alunos Como se faz isso? Até eu quero saber, eu quero saber, eu quero aprender (IFSul Sapucaia do Sul). Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 189 Essas situações vivenciadas no âmbito escolar apontam para o que Rui Canário (2008) problematiza sobre o futuro da escola, na qual, alunos e professores tornam-se prisioneiros dos problemas e dos constrangimentos que decorrem do falta de sentido das situações escolares. O mesmo autor aponta para a necessidade de se pensar na construção de outra relação com o saber por parte dos alunos e outra forma de viver a profissão por parte dos professores. Sendo assim, desenvolver metodologias para conhecer os saberes experienciais dos trabalhadores – com o objetivo de contemplá-los na construção do currículo – é um dos desafios a enfrentar, esforço no qual podem contribuir a articulação entre pesquisa e ensino, bem como o diálogo entre a escola e a universidade. Nesse sentido, algumas iniciativas têm sido construídas tanto nas instituições de ensino quanto no meio acadêmico. Todas elas podem ser vistas como um ponto de partida ao desenvolvimento de formas de aproximação à experiência de trabalho dos alunos – e, portanto, aos saberes experienciais – sem recorrer exclusivamente à narração sobre o trabalho ou mesmo à linguagem verbal. São propostas de produção de fotografias pelos alunos (França, 2011; Martins, 2010) em estudos de caso realizado por integrantes do GT Escola, Saberes do Trabalho e dos Trabalhadores; de criação de uma mini-empresa por turma de PROEJA, em que os estudantes articulam os saberes escolares adquiridos nos semestres anteriores e os saberes experienciais para gerir coletivamente o trabalho (o qual passou a integrar o currículo do curso a partir de 2009 - IFSul - Sapucaia do Sul); de organização de um seminário mensal, no qual participam alunos e professores (IFRS - Bento Gonçalves). Também o CTISM buscou definir estratégias para conhecer os alunos. A instituição possui uma ficha de levantamento de dados socioeconômicos e profissionais. Contudo, a consulta a esses materiais depende da iniciativa individual dos professores, ficando como um instrumento de coleta de dados isolado sem incorporação efetiva no Currículo do curso. A própria entrevistada manifesta suas ressalvas ao material, porque considera mais eficaz o contato direto com os discentes: 190 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Nós temos um levantamento, nós temos uma ficha para cada aluno, com histórico, histórico de vida deles inclusive, até eles fazem entrevistas com a profª S na questão psicossocial, então tudo esta registrado lá, muitas coisas são anotações pessoais da orientadora pedagógica, com dados pessoais e os dados profissionais geralmente são disponibilizados. [...] agora em sala de aula, no diálogo, na apresentação inicial na troca de experiência, aí eu acho que funciona melhor. Eu particularmente também, apesar de ter esta informação, preferi a primeira vez que eu fui dar aula para eles, no inicio da aula cada um deles fala, faz uma apresentação, eu acho que funciona melhor do que documentos, que muitas vezes tu não consegue associar quem é com a ficha (CTISM). Conforme o relato, o material não é objeto de análise em reuniões de professores nem subsidia a elaboração do Currículo ou outras ações de planejamento por parte do corpo docente ou da equipe pedagógica. O parecer da profissional de que uma conversa direta com a turma pode ser mais rica que a ficha carrega uma avaliação depreciativa do material, sugerindo que o mesmo serve mais a protocolos administrativos que ao trabalho pedagógico. Nesse sentido, o grupo de educadores do Campus Julio de Castilhos vem buscando construir uma proposta que abranja as variadas experiências de trabalho dos/as estudantes. Não se tem um trabalho efetivo muito nisso porque a gente tem diferentes alunos e poucos trabalharam com a informática e o comércio. A gente achou que fosse uma opção que pudesse também oferecer a eles a questão da economia solidária, o pessoal está trabalhando e está tentando escrever outro conceito de trabalho. Então, a proposta é essa, que se consiga congregar mais as experiências dos alunos (IFF - Campus Julio de Castilhos). A identificação de que as experiências são variadas conduziu à revisão do conceito de trabalho e à possibilidade de novos cursos. Também o Campus Bento Gonçalves do IFRS, por sua vez, apresentou como alternativa de sistematização dos saberes do trabalho uma oficina intitulada "Saberes do trabalho e saberes do trabalhador", com o objetivo de problematizar a relação entre trabalho e educação no contexto do PROEJA. A iniciativa contou Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 191 com a participação de uma equipe de profissionais: psicóloga e assistente social (relações humanas no trabalho), pedagoga e pedagoga empresarial (trabalho e educação), advogada (direito do trabalhador), enfermeira (saúde do trabalhador), além dos docentes envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem. Conforme relato da coordenadora do PROEJA do referido campus, os/as professores/as incorporaram ao planejamento coletivo o resgate desses saberes por meio das seguintes estratégias: teatro, leitura de textos, entrevistas, palestras, desenhos, seminários e outras. Tais experiências permitiram a discussão sobre o tema gerador e a rede temática proposta à turma, bem como a organização de um seminário mensal, que contou com a presença de professores e alunos. É possível evidenciar que este trabalho coletivo vem refletindo na prática pedagógica, reforçando a importância da formação continuada e do planejamento coletivo dos professores, como acontece nas aulas de matemática citadas na entrevista: Existiu situação em que o professor de matemática foi explicar determinado conteúdo a partir do aluno, antes dele falar sobre aquilo ele chamou o aluno e disse olha, vem aqui e me mostra como é que tu faz isto na tua empresa, como é que tu utiliza isso lá na empresa? E a partir daí eles viram, porque a pergunta que eles fazem na área de matemática é aquela né: pra que eu preciso saber disso? E aí a gente ta tentando mostrar e construir junto com eles a importância, a necessidade e a utilidade que é o que eles tanto buscavam nos tais dos conhecimento e saberes (IFRS – Bento Gonçalves). Tais encaminhamentos são específicos em cada instituição. Entretanto, é bastante presente entre os educadores a análise de que o reconhecimento e a incorporação dos saberes do trabalho no currículo são ainda majoritariamente advindos do esforço individual dos professores. A fala a seguir representa uma consideração recorrente nas entrevistas7: 7 Cabe salientar que, no IFSul - Sapucaia do Sul, os educadores desenvolveram, posteriormente à entrevista, suas estratégias específicas de superação da fragmentação das ações dos professores. A experiência de criação de uma mini-empresa foi a alternativa encontrada pelo coletivo, conforme mencionado neste texto. 192 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Como a gente não consegue muito essa integração entre os professores, as ações são muito, em geral, isoladas, então o professor na sua própria sala de aula se aproxima dos alunos de uma forma não planejada, assim como os demais colegas. Então a própria aula assim pode desencadear esse processo, mas, digamos, não há uma formação mais específica voltada pra a área da administração para que os professores dessa área se preparem, eles tentem se aproximar dessa experiência de trabalho dos alunos e propor projetos, que eles possam simular situações de trabalho, ou situações de empreendimentos. Então isso certamente acontece por iniciativa do professor, surgem informações sobre as experiências que os alunos tiveram, profissional assim mas isso como eu disse, de uma forma isolada. A gente não conseguiu transformar essas informações numa metodologia conjunta, num processo planejado que pudesse repercutir assim como um todo na prática pedagógica (IFSul - Sapucaia do Sul). Esse educador destaca as limitações das práticas pedagógicas no que concerne à interlocução entre os saberes escolares e do trabalho. Evidencia-se, desse modo, a necessidade de elaborar metodologias de trabalho para se conhecer os saberes do trabalho e contemplá-los na constituição do Currículo Integrado. A identificação dessa demanda motivou naquele campus – assim como em outros já mencionados – a elaboração de propostas pedagógicas voltadas ao conhecimento dos saberes experienciais dos alunos e sua articulação com os saberes escolares. Está presente entre os educadores entrevistados uma escuta sensível (Freire, 2002) ao novo público dos IFs. Isso não significa a ausência de tensionamentos. Conforme o relato do professor (IFF Julio de Castilhos), a implantação do curso de PROEJA no campus passou por conflitos e resistências tanto por parte dos professores, cujo "aluno ideal" não correspondia ao do PROEJA, quanto dos estudantes, que iniciaram o curso de informática com uma expectativa distinta da formação ofertada: o de informática era bem difícil, essa relação por que os professores de informática achavam que tinha que ter outro perfil pra eles e então a gente tinha certa dificuldade com a expectativa dos alunos, com a expectativa dos professores e em conseguir fazer com que a coisa andasse. Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 193 Além disso, os saberes experienciais do/a aluno/a do PROEJA são interpretados, em alguns casos, como ilustração do saber escolar. Os dados das entrevistas indicam que a experiência tende a ser definida como ilustração do conteúdo escolar. Em um dos casos, ela é responsável pela "adaptação dos conteúdos": eles vêm com uma experiência de vida muito grande. Isso a gente adapta aos conteúdos que a gente vai trabalhando, o que sugere que a redução do currículo em quantidade de conteúdos seja em nível de profundidade de sua abordagem pelos professores. Tal aspecto também está presente na reflexão do coordenador do PROEJA do IF de Santo Augusto. Segundo ele, a experiência dos alunos é utilizada durante as aulas apenas para que possam compreender melhor o conteúdo trabalhado, relacionando com seu contexto no mundo do trabalho: Hoje eu acho que ela está sendo utilizada de forma setorizada, em alguma área e algum componente curricular se utiliza mais a experiência e em outras menos, não há um planejamento sistemático do curso ou da coordenação, enfim, nós não temos dentro do nosso planejamento global do PROEJA esta previsão. O professor, dentro daquilo que consegue conhecer sobre os alunos que nós temos, ele muitas vezes utiliza as informações dentro da sala de aula, mas eu diria assim "não tem uma fórmula" para a sistemática dessas informações (IF Santo Augusto). Os processos pedagógicos não se restringem à sala de aula. Por isso, ressalta-se a importância de que a escola como um todo pense o seu planejamento e que todos os envolvidos saibam o que se pretende trabalhar para uma renovação e ressignificação da prática pedagógica. Os alunos carregam consigo uma experiência de trabalho singular, e estas discussões devem ser incorporadas intencionalmente na proposta pedagógica da instituição, permitindo assim, que todos os professores possam dialogar com a realidade vivida pelos seus alunos e os saberes produzidos a partir dessa realidade, para que realmente aconteça "[...] uma verdadeira revolução no seu conteúdo através de nova articulação entre os saberes tácitos e culturais, conhecimento científico e método. O que implica nova concepção de trabalho pedagógico, de professor, de aluno, de suas relações e de organização na gestão escolar" 194 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA (Kuenzer, 2000, p. 361). Para Freire (2002, p. 34), o reconhecimento e o respeito pelos saberes dos educandos fazem surgir um questionamento na prática pedagógica: por que não aproveitar a experiência dos alunos para "estabelecer uma necessária 'intimidade' entre os saberes curriculares e a experiência social que eles têm como indivíduos?". Conclusões Este texto buscou responder ao seguinte questionamento: quais interlocuções a escola estabelece com os saberes do trabalho dos estudantes nas práticas pedagógicas dos cursos de PROEJA? Em torno dessa questão, analisou-se o relato de educadores dos cursos de PROEJA do Rio Grande do Sul. As entrevistas indiciam a aproximação dos campos da EJA e da EP, ao ressaltarem o reconhecimento da especificidade do público do PROEJA no que concerne aos saberes experienciais que esses alunos possuem ao ingressarem no IF. O destaque ao vínculo afetivo do educador com os alunos no curso de PROEJA permite retomar, no campo da formação profissional, um debate travado na EJA sobre a dimensão ética do trabalho do professor, indissociável das dimensões política e pedagógica, conforme Freire (2002). Avanços são necessários nesse reconhecimento dos saberes experienciais. Identificou-se que o mesmo está restrito à área de conhecimento do curso, ou seja, os saberes do trabalho contemplados em sala de aula são especificamente aqueles que coincidem com a área de atuação do curso. Os trabalhadores que não atuam na área permanecem, em muitos casos, com seus saberes alheios ao planejamento pedagógico. Além disso, identificou-se que muitos dos conhecimentos sobre a experiência de trabalho do aluno advêm das verbalizações em sala de aula. Nesse aspecto, a dificuldade de falar sobre o trabalho – relacionada à própria natureza do mesmo, conforme Cunha (2010), e ao reconhecimento da relevância do seu trabalho pelo aluno – corroboram a demanda por novas metodologias de investigação dos saberes do trabalho, sem o uso exclusivo da linguagem verbal. Destaca-se a importância de criar estratégias e Trabalhadores em sala de aula: o que a escola conhece sobre os saberes experienciais... 195 instrumentos metodológicos para conhecer os saberes do trabalho e a experiência em geral que possibilitem tomar o saber como objeto de reflexão coletiva, em detrimento da iniciativa individual e espontânea de um professor ou um pequeno grupo. Nesse esforço, o grupo de trabalho Escola, Saberes do Trabalho e dos Trabalhadores vem buscando contribuir, através do estudo de metodologias e de investigações que recorrem à fotografia (MARTINS, 2010; FRANÇA, 2011) e ao vídeo (GODINHO, 2010), autobiografia (OLIVEIRA, 2010) como estratégias para conhecer os saberes experienciais dos estudantes do PROEJA. Também as instituições de ensino vêm buscando alternativas próprias, com a criação de mini-empresas, seminários e outras formas de contemplar na educação profissional para a reflexão sobre a relação escola-mundo do trabalho. Caminham, com essas experiências, para um projeto de formação humana, que contribua para o desenvolvimento individual, social e profissional dos alunos. Espera-se, com este estudo, auxiliar a práxis pedagógica desses educadores. Referências BARROS, Anália Martins de. A relação entre os saberesexperiência do trabalho e os saberes escolares, vistos por alunos do PROEJA do IF Sapucaia do Sul. 2010. 246fl. 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SABERES, TRAJETÓRIAS E PERSPECTIVAS PROFISSIONAIS DE ALUNOS: O PROEJA NO ENCONTRO DE PROJETOS DE ESCOLA E DE TRABALHADORES Maria Clara Bueno Fischer1 Naira Lisboa Franzoi2 Introdução Ao discutirmos a educação profissional integrada à elevação de escolaridade para os que vivem do trabalho, destacamos aspectos ligados às trajetórias, identidades, saberes e projetos profissionais dos alunos. Consideramos que estes são a ponta do iceberg que é a integração das ditas área geral e profissional. Outra metáfora não poderia representar melhor o bloco de gelo que a escola solidificou em volta da separação entre as ditas áreas geral e específica, entre os saberes científicos e os saberes da experiência, separações essas congeladas e tão difíceis de derreter. São duas as idéias-força que desenvolvemos aqui: a) o ingresso em um curso profissionalizante faz parte de um projeto traçado pelos trabalhadores de acordo com suas trajetórias, estas condicionadas pelo contexto histórico-social em que vivem. 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 200 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Esses projetos são passíveis de redefinições à medida que muda tal contexto. Oferecer condições para que isso aconteça é um importante papel da escola, em particular do PROEJA, foco deste artigo. É no encontro do projeto e das estratégias políticopedagógicas da escola com os projetos dos alunos que ambos se redefinem fazendo com que o PROEJA cumpra com seus objetivos. b) o aluno trabalhador, pela condição de quem vive do trabalho, premido pelo imediatismo do fazer, é portador de uma cultura e de um patrimônio de experiências e saberes produzido em situação de trabalho, na qual se fundem e, ao mesmo tempo, se separam o trabalho intelectual e o manual, a criação e a destruição. Logo, carrega em si a contradição e a potência do que é inerente ao humano: a síntese entre o fazer e o pensar, a prática e a teoria. A presença, pois, desse trabalhador/trabalhadora na escola é agente de fusão entre o "geral" e o "profissionalizante". Mas isto só acontece se a escola como um todo, e na figura do professor, prestar atenção, conhecer e reconhecer este patrimônio. Essas idéias inscrevem-se na continuidade dos estudos que vimos desenvolvendo há um longo tempo sobre trajetórias, projetos, identidades e saberes do trabalho e profissionais (FISCHER e FRANZOI, 2009, 2010; FRANZOI, 1991, 2003, 2005, 2006; FISCHER,1999, 2003, 2004, 2008, 2009)3. Os achados das diferentes pesquisas realizadas pelos integrantes do subgrupo temático saberes do trabalho, no âmbito do projeto CAPESPROEJA, somam-se e ajudam a consolidar essas idéias O artigo está organizado em três tópicos: no primeiro refletimos sobre o lugar da educação profissional no sistema escolar, sublinhando seu caráter de direito do trabalhador; a seguir tecemos algumas considerações acerca do aluno trabalhador; suas trajetórias, O Grupo de Pesquisa Educação, Trabalho e Conhecimento (CNPq) que fazemos parte tem organizado as Jornadas sobre Produção e Legitimação de Saberes do e no Trabalho desde 2006. Nesses encontros temos debatido pressupostos e resultados de pesquisa sobre este tema. Esses eventos têm sido fundamentais para consolidarmos a temática dos saberes do trabalho como objeto permanente de nossas investigações. Há dois números (2006, 2009) da Revista Educação Unisinos com publicações das Jornadas. Há que registrar que o grupo de orientandos e de pesquisadores têm produzido teses, dissertações e vários artigos tendo como objeto o tema dos saberes do trabalho. 3 Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 201 identidades, saberes e projetos profissionais. Ao final indicamos algumas recomendações para as ações da escola que nos parecem pertinentes neste momento em que se avança para a consolidação do PROEJA e implementação da Rede Certific. Do difícil lugar da educação profissional como um lugar digno e como direito legítimo do trabalhador Ainda que fundado na separação entre os indivíduos de acordo com o lugar que ocupam na divisão social do trabalho, o capitalismo adquire diferentes faces de acordo com arranjos societários particulares. Assim é que, nos países europeus, as corporações de ofício conferiram um lugar mais digno ao trabalho. Ilustram tal lugar os sobrenomes anglo-saxões, que carregam em si as profissões de seus antecessores4. Em solo nacional, ao contrário, o regime escravocrata amplia o fosso existente entre trabalho manual e intelectual. Identificado com o trabalho escravo, aqui o trabalho manual foi e continua sendo particularmente menosprezado. "A idéia que se divulga é que [...] quem é um pouco esperto não trabalha neste país. Assim é visto o trabalho na nossa cultura desde a escravidão ou parasitismo de nossas elites, que sempre viveram à custa de outros e sempre desprezaram o trabalho" (ARROYO, 2000, p. 77). Trata-se, pois, de não rechaçar a educação profissional, mas, ao contrário, reafirmá-la como um direito do trabalhador. Enquanto o direito à educação básica fundamental foi sendo paulatinamente conquistado, chegando-se à obrigatoriedade e universalização do ensino fundamental, e à inclusão do ensino médio como etapa da educação básica, a educação profissional nunca foi reconhecida como tal (ARROYO, 2000). Posto que fruto de condicionantes sociais maiores, a luta pela superação dessa desigualdade não se encerra no interior da escola. Por tudo isso, quer-se sublinhar esse lugar de destaque da educação São exemplos de sobrenomes de origem anglo-saxã que carregam a profissão de seus antecessores: Schöeler, sapateiro; Fischer, pescador, entre tantos. 4 202 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA profissional nas atuais políticas educacionais. Parte-se do pressuposto de que a mesma é lócus privilegiado para que o trabalho adquira um lugar de dignidade, porque é aí que as vivências de trabalho podem circular com todo o seu vigor, com a sua força de princípio educativo no âmbito político-pedagógico na escola. Mas, para tanto, não deve nunca perder de vista a formação integral do ser humano, que articula ciência, trabalho e cultura mediada pela ações dos sujeitos que fazem a escola. Embora o discurso aponte para uma integração entre formação geral e profissional, essa integração é uma constante luta de educadores e educadoras em todos os níveis em que se constroem as propostas políticopedagógicas para trabalhadores. Desse ponto de vista, o foco, aqui, para além da dualidade entre educação básica e educação profissional, é a dualidade no interior da própria educação profissional, que confere ao trabalho um lugar limitado à experiência histórica hegemônica atual: o trabalho na sua dimensão abstrata e, consequentemente, o trabalhador enquanto força de trabalho. Esse lugar do trabalho no interior da educação profissional dá-se especialmente na versão mais corriqueira, na de preparação para o mercado de trabalho. São reforçadas as compreensões estritas sobre o manejo da técnica sem problematizá-la, sem que a mesma seja compreendida como construção humana. Separa-se, então, a técnica de todo pensamento e formação humana que a ela estão intrinsecamente associados; separa-se o fazer e o pensar, inseparáveis em qualquer atividade humana. Quando pensada para atender aos novos requisitos da reestruturação produtiva, essa preparação para o trabalho agrega aspectos comportamentais em sua dimensão mais empobrecida: as boas maneiras, a boa aparência, o "trabalho em equipe" tal qual concebido pelos manuais empresariais. Nunca se mencionam as "outras" relações que se constroem no cotidiano do trabalho: solidariedade entre os coletivos de trabalhadores e as lutas sindicais, reforçando total submissão ao mercado de trabalho. Dessa forma, o trabalho deixa de ser compreendido na sua dimensão de experiência humana; como relação social contraditória e permeada de conflitos, antagonismos e, também, cumplicidades. A pedagogia do capital é hegemônica. Por outro lado, ao curvar-se a vara, buscando propiciar aos trabalhadores o que lhes foi negado – a educação humanista – Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 203 cai-se, por vezes, no outro extremo. Filhos do nosso tempo e espaço, encharcados do preconceito que cerca o trabalho e não entendendo o que o trabalho significa em toda a sua plenitude, corremos o risco, para o qual nos alerta Arroyo (2000), de se ignorar o povo e sua cultura, desprezando o que ele faz, que é trabalhar e produzir. Ou seja, mesmo "quando se pensa na politecnia, se pensa muito mais em posturas teóricas para compreender os jogos, os mecanismos da exploração do trabalhador do que propriamente no domínio da técnica [...]. A técnica parece não se situar no reino do humano" (ARROYO, 2000, p. 77). Quando se fala, pois, em encontrar um lugar digno para o trabalho na escola, fala-se do trabalho na sua complexidade e da necessidade de se promover uma formação que, em todos os níveis, incorpore uma concepção e um respeito ao trabalhador enquanto ser humano integral. Para tanto, é preciso deixar que suas experiências e saberes trazidos do trabalho invadam o espaço escolar, o que implica, necessariamente, considerar o aluno na sua condição de sujeito que compõe um par dialético com o professor, sem o qual o processo ensino-aprendizagem não acontece. Isso significa realizar um trabalho pedagógico em que a experiência, e não as carências, esteja no centro; cujo propósito não seja "o de transmitir sentidos susceptíveis de contribuírem para a normalização, mas o de instituir mediações susceptíveis de produzirem sentido para as experiências" (CORREIA, 2005, p. 69). São muitas as instâncias de mediação que se fazem necessárias para que isso ocorra, e de imediato é importante, pois, definir o que entendemos por aluno-trabalhador, ou "trabalhador-aluno". O "aluno-trabalhador", este estrangeiro à escola O envolvimento permanente com o trabalho, com suas contingências de necessidade e busca de liberdade, de prazer e sofrimento, de alienação em maior ou menor proporção, confere ao aluno-trabalhador uma identidade própria e um patrimônio singular de experiências e saberes. Contudo, esses trabalhadores guardam sobre a escola que os expulsou desde muito cedo (em muitos casos, 204 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA repetidas vezes) um misto de fascínio e medo, porque não a reconhecem como um direito seu: A gente não tem emprego. Aí a gente não tem um tênis pra se apresentar. Até o material, como é que tu vai chegar em uma sala de aula. Tem que ter dinheiro para comprar o material. Não precisa ser uma calça Wrangler, mas tu tem que ter um básico. Que não chegue lá de barriga cheia, mas que não chegue lá morrendo de fome (depoimento de um entrevistado, em entrevista realizada por Franzoi, 2006, p. 79). A escola regular, com seus modos tradicionais de organização pedagógica, cria para eles dificuldades de acesso e permanência, porque ignora este fato fundamental: que esses trabalhadores necessitam combinar horário de trabalho com horário de estudo. Trata-os, dentro ou fora dela, como estrangeiros. O trabalhador-aluno, em geral, não se beneficia da forma e do conteúdo dos currículos escolares por esses não serem construídos tendo como base sua atual condição sociopolítica e cultural e sua potencialidade de transformar o mundo. A designação "aluno-trabalhador" é encontrada nas mais diferentes propostas de educação e qualificação profissional. Em algumas, a pessoa do aluno é reduzida à mercadoria força de trabalho, e o que se deseja é capacitá-lo para a realização das funções que já exerce ou poderá exercer no mercado de trabalho. Essa é uma perspectiva limitada. Faz-se necessário que a categoria central, organizadora do processo educativo, seja o "trabalho" – na sua dimensão ontológica e histórica - e não o "emprego". Algumas experiências de educação do trabalhador5 têm caminhado nessa direção. Nesse sentido, agregam ao seu horizonte a perspectiva do estudante-trabalhador na sua condição e experiência de classe para que sua educação e qualificação profissional sejam realizadas numa perspectiva de desenvolvimento de uma identidade sociopolítica e cultural (de classe). O crescimento da demanda de jovens e adultos trabalhadores por escolarização, ou sua complementação visando à inserção, 5 Esse é o caso da experiência do Programa Integrar. Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 205 manutenção e progressão no mercado formal de trabalho, ou ainda como forma de se qualificarem com vistas à realização de uma "outra economia" e exercício pleno da cidadania, têm provocado o reconhecimento das especificidades desses alunos e exigido abordagens pedagógicas e curriculares próprias. A experiência do trabalho, independentemente do ciclo de vida em que o ser humano encontra-se, problematiza sobremaneira o entendimento de "aluno". Interroga, por consequência, a relação entre prática e teoria, entre trabalho/outras experiências da vida e a instituição escola. É tal a relevância disso, que o mais adequado seria falarmos de trabalhadoraluno e não aluno-trabalhador, como o fazem alguns autores, em função do peso substantivo do trabalho na constituição desses sujeitos. Paulo Freire (1999, 2002, 2006) preferiu o termo educando a aluno6, posto o sentido que este último termo carrega, para defender a necessidade de transformar o ato educativo numa prática de liberdade. O autor insistiu, em sua obra, que a relação dialética educando-educador é constitutiva da concepção de educação como prática da liberdade, porque é problematizadora. Na sua perspectiva, a relação pedagógica entre educando e educador é mediada por um mundo que necessita ser conhecido e pode ser transformado, porque os seres humanos são históricos. Nessa relação, ambos aprendem e lutam pela transformação das condições de opressão que os constituem no ato pedagógico e no mundo mais amplo em que habitam. O educando, em seu ciclo de vida e em função do tempo e do lugar em que se encontra, chega com suas vivências, cheio de interrogações, que são para ele significativas, mas também com "pré" respostas da "vida-vivida". Traz saberes que necessitam ser sistematizados e problematizados, em face de uma totalidade mais ampla na qual sua vivência singular está inserida. Mas, ao Aluno, como se sabe, vem do latim alumnu, que diz respeito à ausência de luz. Está, portanto, associado à ideia de alguém que é colocado na condição de ser conduzido por outro, de um lugar de não saber para outro de saber. Tem, então, uma conotação de iluminação de caminhos a partir das ideias, particularmente do saber científico, mediado pelas disciplinas escolares. A condição de aluno está intrinsecamente associada à escola, que é determinante na instituição dos papéis sociais de professor e de aluno e na concepção pedagógica 'bancária'. Nos bancos escolares, o aluno aprende e o professor, ao transmitir conhecimento, ensina. 6 206 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA mesmo tempo, na singularidade, vivencia dimensões da totalidade da experiência humana em determinado tempo e espaço. Porque singular e vivida por mentes e corpos, essa experiência problematiza os saberes institucionalizados, que generalizam e afastam-se da experiência cotidiana. Nesse sentido, espera-se do educador um domínio relativo do conhecimento sistematizado, e, ao mesmo tempo, uma capacidade ética, política e pedagógica para escutar, incorporar e dialogar sobre questões, vivências e conhecimentos já presentes naqueles em condição de educandos. Educando-educador e educador-educando constroem o tensionado diálogo entre mundo dos conceitos e mundo das vivências (FISCHER, 2008). Reconhecer o trabalho como experiência fundamental do "aluno-trabalhador" demanda que se incorpore, no âmbito da educação profissional, o entendimento de diálogo de Freire (2002), que o considera como uma práxis crítica, pois representa o esforço para unificar num patamar mais amplo, reflexão e ação, dialeticamente. Ser capaz de agir e refletir – portanto de transformar a natureza e trabalhar – é garantia de entendimento das relações que constituem a realidade e impulsiona o ser humano a agir na perspectiva de sua humanização. Imersos em situações de trabalho diferenciadas, professor e aluno experimentam, de forma singular, as relações de trabalho de nossos tempos, o que demanda que ambos superem a condição de alienação e fragmentação em que se encontram. Tal superação, no que diz respeito às ações educativas escolares, só pode acontecer na tensionada relação dialógica entre o pólo da experiência do trabalho, à "espera" de conceitualização, e o pólo dos conceitos. Já os conceitos tendem à generalização e racionalização, afastando-se da singularidade da vivência da atividade de trabalho deste "corpo-si" (SCHWARTZ, 2007), implicado no processo e resultado do trabalho. Entre prescrição e realização do trabalho, há um sujeito que renormatiza, pouco ou muito, as normas que regem o trabalho. Nesse espaço se fazem e se produzem saberes. Esse "corpo-si", o sujeito trabalhador, necessita, no entanto, confrontar-se com sua atividade de trabalho, objetivá-la e ressignificá-la para dela se apropriar em outro patamar. O professor, situado no pólo dos conceitos, viabiliza, através do diálogo, o patrimônio das disciplinas, numa atitude, no entanto, de reconhecimento de suas próprias Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 207 limitações e, portanto, de aprendizado dos saberes produzidos na atividade de trabalho, que só podem ser conhecidos com os sujeitos envolvidos nessa atividade (SCHWARTZ, 2003). Esses pressupostos da ergologia7 ampliam a reflexão sobre o lugar do aluno-trabalhador na educação profissional. Tais reflexões contribuem para problematizar as estratégias pedagógicas em execução no campo da educação profissional, especialmente quando o perfil do público é de "alunos-trabalhadores". Acredita-se ser o "trabalhador-aluno" a figura central para que se estabeleçam os diálogos silenciados entre os ditos ensinos "geral" e "específico", porque é portador de uma cultura e de um patrimônio de experiências e de saberes desenvolvidos pelo corpo-si em situação de trabalho8, na qual se fundem e, ao mesmo tempo, se separam o trabalho intelectual e o manual, a criação e a destruição. Como portador da experiência, no par dialético com o professor no processo ensino-aprendizagem, dá-se lugar de destaque a patrimônio da experiência do aluno-trabalhador na educação profissional como mediadora da produção de conhecimento na escola. Isto porque, repetimos, por ter sua experiência ancorada no trabalho, é o "trabalhador-aluno" que traz com mais vigor a possível síntese entre aquilo que no humano não está separado: o fazer e o pensar, a prática e a teoria9. "Ergologia é uma démarche [abordagem] que reconhece a actividade como debate de normas. A partir daí, a ergologia tenta desenvolver simultaneamente no campo das práticas sociais e com a finalidade de elaboração de saberes formais, "dispositivos a três pólos", por toda a parte onde é possível. Daí uma dupla confrontação: confrontação dos saberes entre si; confrontação dos saberes com as experiências de actividade como matrizes de saberes." (DURRIVE e SCHWARTZ, 2008, p. 25). 7 A noção de situação de trabalho implica uma relação entre a atividade profissional exercida, o contexto material e social e as condições de exercício da atividade, em termos econômicos e sociais (POSTIC, 1996, p. 2). O termo corpo-si é utilizado por Yves Schwartz no contexto das reflexões sobre o sujeito trabalhador quando em atividade de trabalho (2007). 8 9 Barato (2003) tem insistido na inadequação da utilização destes pares para designar a forma como os seres humanos aprendem, em especial teoria/prática, pelos equívocos que provocam. 208 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA A representação da escola sobre jovens e adultos trabalhadores – muito alimentada pelo senso comum das políticas públicas em geral – é de que se situam em um espaço nebuloso tratado genericamente [como] de "exclusão e vulnerabilidade" social. Em primeiro lugar, o termo ou conceito de exclusão tem sido amplamente questionado pelos equívocos que pode causar. A começar pela tradição marxista que desvelava entre os trabalhadores à margem do sistema formal de emprego, um exército industrial de reserva, que ao pressionar o sistema, lhe é absolutamente [perfeitamente] funcional, possibilitando uma maior e mais eficiente exploração dos trabalhadores. Castel defende que a integração social através do trabalho se dá num continuum, que vai do centro às franjas, onde se situam essas populações, que estão incluídos na sociedade salarial dessa maneira, o que Kuenzer (2007) chama de inclusão excludente. A partir desse entendimento e de um olhar mais atento, esse espaço nebuloso começa a ganhar contornos mais nítidos. É este olhar atento que possibilita que a experiência de trabalho e a relação que trabalhadores e trabalhadoras estabelecem com ele sejam apreendidas em toda sua complexidade. Essa complexidade diz respeito à forma como se ligam intrinsecamente saberes, trajetórias, identidades e projetos profissionais desse sujeito. A identidade profissional se constrói numa relação dialética entre o reconhecimento social do sujeito e o auto-reconhecimento associando-se de forma inseparável o espaço de reconhecimento das identidades e os espaços de legitimação dos saberes e competências ligados a essas identidades. (DUBAR, 2001)10. Identidade profissional, ou formas identitárias, para o autor, implica a interação entre trajetórias individuais e sistemas de emprego, sistemas de 10 Para os fins deste artigo, esta definição nos é suficiente. Um esboço de conceituação de profissão pode ser encontrada em Franzoi (2003, 2006). Através dele procura-se fugir das armadilhas em que se pode cair ao se adotar o conceito de profissão da sociologia clássica, e da correspondente diferenciação entre profissões e ocupações nos sistemas oficiais de classificação em diferentes países. Uma dessas armadilhas é negar a grande parte de trabalhadores o direito a reconhecer-se como profissional. Reconhece-se no conceito de identidade profissional, ou formas identitárias, de Dubar, uma aproximação com o de qualificação como construção social complexa de Naville (FRANZOI, 2006). Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 209 trabalho e sistemas de formação. A identidade profissional constróise a partir da forma como se articulam o que o autor chama "transação objetiva e transação subjetiva": "como resultados de compromissos "interiores" entre identidade herdada e identidade visada, mas também de negociações "exteriores" entre identidade atribuída por outro e identidade incorporada por si" (DUBAR, 1997a, p. 235). Aqui se associam dialeticamente o reconhecimento por si mesmo e pela sociedade. Estabelece-se assim, uma negociação dos indivíduos pelo "reconhecimento e não-reconhecimento das competências, dos saberes e das imagens de si que constituem os núcleos duros das identidades reivindicadas". (DUBAR, 1997a, p. 183). Adotando um conceito de profissão que vai na contramão daquele contido na sociologia clássica das profissões, entendemos que profissão está estreitamente ligada ao reconhecimento social da utilidade de um determinado serviço e do conhecimento nele embutido, assim entendemos profissão como o reconhecimento de ambos pelo sujeito que é deles o portador. Este reconhecimento implica, portanto, a identificação do profissional com a atividade que desempenha, e é o que faz com que queira nela permanecer, ou, ao contrário, na ausência de identificação com ela, queira desempenhar uma outra atividade, ou seja, ter uma "nova profissão". Está em jogo, portanto, a identificação do sujeito com uma profissão, dada pela articulação daquilo que o sujeito possui (os recursos de sua trajetória) e daquilo que ele deseja para si (seus projetos futuros) com o reconhecimento e o lugar que a sociedade lhe reserva no mundo do trabalho. Esse reconhecimento por parte do indivíduo envolve, de forma articulada, tanto aspectos objetivos, como uma remuneração aceita como justa pelo profissional e os direitos provenientes da posição, quanto aspectos subjetivos – gostar de desempenhar a atividade, por exemplo – nos horizontes que ele se coloca em determinado momento de sua trajetória (FRANZOI, 2006) 210 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Trajetórias, identidades e projetos profissionais dos alunos Chegamos aqui ao cerne de nossa argumentação: a escola tem muita dificuldade de reconhecer e ir ao encontro dos projetos dos seus alunos trabalhadores, projetos ao mesmo tempo singulares, dos indivíduos, e de classe, negando-lhes assim seu direito à educação em geral, e à profissionalização, em particular. Ao reconhecer essas trajetórias e identidades profissionais dos alunos, a escola pode ajudar a construí-los e/ou redefini-los, ajustando seus próprios projetos, estratégias pedagógicas e políticas da escola. Passaremos a analisar tais trajetórias, identida realizada com egressos de cursos profissionalizantes11, chamou atenção o fato de que a referência a "ter" ou "não ter uma profissão" era recorrente nas falas dos entrevistados. Foi então possível identificar basicamente dois tipos de trajetórias: fragmentadas e (mais) contínuas. Trajetórias fragmentadas ou "em constante mutação", o nome é auto-explicativo, designa as trajetórias que, quanto à ocupação, podem ser consideradas "erráticas", sem continuidade nem em um mesmo local de trabalho, nem sequer em uma mesma área de atividade. As trajetórias formativas são condizentes com essas trajetórias ocupacionais: o indivíduo não realiza qualquer curso ou os realiza em diferentes áreas. Assim, esses entrevistados diziam querer "aprender uma profissão" pela primeira vez porque ainda não haviam construído nenhuma, ou outra profissão, diferente da que diziam possuir, porque negavam a que haviam construído até então. Inácia, uma das entrevistadas, é um exemplo: com 33 anos, embora já houvesse tido vários empregos assalariados, com registro em carteira, grande parte de sua trajetória foi traçada como autônoma – diarista, cuidando de crianças e vendedora. À época da primeira entrevista12, trabalhava com carteira assinada em uma empresa responsável pelas refeições dos funcionários de uma 11 Os cursos em questão são os que foram oferecidos pelo PLANFOR, Programa Nacional de Qualificação de Trabalhadores vigente no Brasil na segunda metade dos anos 1990, durante o governo FHC. 12 A metodologia utilizada na pesquisa encontra-se detalhada em Franzoi, 2003. Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 211 companhia de aviação, como auxiliar de cozinha. Segundo ela, ganhava muito pouco e não gostava do trabalho. Nunca fez nenhum curso de qualificação. Assim, Inácia nega a sua trajetória profissional e, embora tenha uma ocupação, sua trajetória é fragmentada do ponto de vista dos acúmulos que vai fazendo. Para Inácia e outras entrevistadas com trajetórias semelhantes, o desejo de ter o que entendem como verdadeira profissão advém do fato de considerarem seus trabalhos como desqualificado, desvalorizado, que não se configura, em suas visões, uma profissão: "qual é a mulher que não sabe limpar uma casa?", dizia Leida, outra entrevistada, reproduzindo um discurso discriminatório em relação a gênero e, conseqüentemente, aos saberes adquiridos no âmbito doméstico. Além disso, mesmo estando em um patamar tão baixo de inserção, gostar de uma profissão é um elemento importante na definição e escolha da carreira. Profissão "é uma coisa de que se gosta", na expressão de vários entrevistados, quer quando perguntados sobre o que é profissão, quer quando falam de suas trajetórias ou projetos: "não gosto, não tem nada a ver comigo" (Inácia, que trabalha como cozinheira, explicando porque quer outro emprego), com todos os atravessamentos subjetivos e objetivos desse "gostar". Como nada é permanente em sua trajetória, nem o local, nem a área de inserção, o aprendizado na prática das diferentes ocupações dificulta o acúmulo de saberes numa área específica. Não se defende, pois, tal fragmentação. A expressão "em constante mutação" foi utilizada ironicamente em analogia à expressão utilizada nos documentos do PLANFOR referente à atual situação do mercado de trabalho. Ao fazê-lo, o discurso empresta ao termo um sentido de inevitabilidade, de positividade e modernidade, o que acaba por naturalizar o drama vivido por essa população em seu caminho doloroso e cheio de angústia. Mesmo assim, reconhece-se o tanto de saberes experienciais que vivências tão variadas trazem. Mesmo em relação ao conteúdo do trabalho: quem já tentou ou limpou uma casa, para usar um dos exemplos das tantas atividades exercidas, sabe o quanto é preciso conhecer sobre os produtos mais indicados, tempos e movimentos necessários para fazê-lo com eficácia, ainda que detentores de tais saberes não os enxerguem. Mas principalmente, há um acúmulo no 212 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA que diz respeito às relações de trabalho requerido para montar estratégias as mais variadas, para manter-se em um mercado adverso. Em geral, quando se trata de executivos, isso é chamado de "versatilidade" e altamente valorizado pelas empresas. No entanto, porque penosas ou porque seus conhecimentos não foram adquiridos em cursos de qualificação profissional, no geral, esses trabalhadores negam e têm negadas as suas trajetórias profissionais. Por outro lado, os cursos freqüentados por estas trabalhadoras que não atribuíam valor às atividades até então exercidas desempenharam importante papel em suas vidas, oferecendo-lhes um novo horizonte: Leida, por exemplo, "apaixonou-se" pela computação e passou a procurar trabalho na área13. As trajetórias designadas como (mais) contínuas dizem respeito às trajetórias que se desenvolvem em uma mesma área de atividade, ou em uma mesma empresa, ainda que, na maior parte das vezes, marcada por relações de trabalho precárias nas quais que se alternam períodos sem trabalho com os de ocupação, ou incursões temporárias por outras áreas. Portanto, trajetória contínua não é sinônimo de inserção estável. É por essa razão que o advérbio mais é aqui utilizado. Algumas nuances foram verificadas dentro deste grupo: as trajetórias são, às vezes, contínuas, mas interrompidas, ascendentes ou em declínio. As trajetórias formativas desses entrevistados são razoavelmente cumulativas, ou seja, desenvolvidas na mesma área, em geral na mesma área da trajetória ocupacional, ou acompanham as mudanças de empresa. A trajetória de Davi, 44 anos à época, é um bom exemplo do que se considera aqui uma trajetória (mais) contínua: começou a trabalhar aos 10 anos de idade, com o pai, desenvolvendo atividades na construção civil e considera esta a sua "profissão". De fato, 13 Pesquisa realizada com egressos do PLANFOR mostra que há uma diminuição drástica do desemprego por desalento dentre os trabalhadores-alunos. Para o escopo da discussão que fazemos aqui, vale-nos este resultado como positivo para a vida dos entrevistados, segundo seu próprio julgamento. Não desconsideramos, no entanto, a importância de análises sobre as reais possibilidades de ingresso no mercado de trabalho, e os limites de um Plano de governos como este, desacompanhado, dentre outras coisas, de uma eficiente política de emprego. Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 213 embora tenha incursionado por outras áreas, nunca abandonou esse ramo, no qual desenvolveu a maior parte de suas atividades. Como a maioria dos trabalhadores do mercado informal, ele percorreu um caminho longo e acidentado, querendo por muito tempo sair do ramo da construção civil, para sair da "sujeira" e porque parecia que em outro ramo poderia ganhar mais. Mudou constantemente de empresa e, em algumas, desempenhou outras atividades: cobrador de ônibus; responsável pelo caixa em um posto de gasolina; vendedor de pastéis e lanches. Mas a profissão herdada do pai se impunha, sempre, como a possibilidade mais presente: "acho que [a construção civil] está no sangue. A construção civil é uma área que nunca fica parada". Na maior parte das empresas em que trabalhou, desempenhou diferentes atividades na área, como pintura, eletricidade e alvenaria. Depois de muitas idas e vindas, sucessos e insucessos, Davi, que morava no interior, mudou-se para Porto Alegre para "tentar a sorte", onde continuou trabalhando na construção civil, seguindo a oportunidade que lhe surgiu. E a visão que tinha da profissão começou a mudar: Hoje a gente vê a construção civil de outra maneira. No interior, até hoje, lá, a vida é difícil. Eu nem conhecia a palavra "andaime"; no interior, a gente construía um "poleiro", ia colocando uma madeira em cima da outra, com estacas, e amarrava por dentro. Esse "jaú"14 eu não sabia nem que existia. A partir daí Davi começou a se consolidar como autônomo na área da construção civil, através de uma clientela fixa, grande e com uma remuneração que considerava satisfatória. Assim, no momento da primeira entrevista, afirmou com segurança: "profissão eu já tenho". No PLANFOR buscou um curso de elevação de escolaridade que, dizia, era o que lhe faltava. Na segunda entrevista, após concluir o ensino médio na modalidade EJA, planejava ingressar em um curso superior. Para Davi e tantos outros, o ofício aprendido de diferentes maneiras, o mesmo que exerceram durante toda a vida profissional, 14 Andaime exterior movido por roldanas 214 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA faz com que se identifiquem com uma profissão: pertencem a um grupo que exerce a mesma atividade e possui os mesmos saberes. Consideram que são detentores de uma profissão: "profissão eu já tenho", "já me sinto profissionalmente definido" ou "no ramo em que trabalho, exige-se muito nessa profissão" são expressões disso. Para esses entrevistados, a profissão construída ao longo da sua vida serve como referência aos seus projetos futuros, estabelecendo bastante consonância entre projeto e trajetória. Tendo uma profissão, por eles afirmada e reconhecida, seus projetos e suas estratégias formativas em particular condizentes com suas trajetórias, ajudam-nos a se aperfeiçoar na área em que sempre desenvolveram suas atividades. Uma primeira dimensão desse aperfeiçoamento diz respeito à elevação da escolaridade. O complemento do aprendizado prático com o conhecimento teórico é um elemento importante em seus projetos futuros e, nesse sentido, a escolaridade assume papel de destaque. Isso porque, para estes entrevistados, embora a afirmação de ter uma profissão explicite um auto-reconhecimento de seus saberes específicos relativos à atividade que desempenham, atribuem ao fato de não possuir um grau de escolaridade satisfatório o patamar de inserção no mercado de trabalho e a exclusão a que estão submetidos. A escolaridade é um complemento indispensável: não é a falta de uma profissão o que os coloca em situação precária no mercado de trabalho, mas sim o fato de não terem atingido um grau de escolaridade satisfatório. Dos vários depoimentos de trabalhadores, dos quais os acima são apenas exemplos, depreendem-se, de imediato, pelo menos duas conseqüências: 1) os alunos trazem diferentes trajetórias, com diferentes graus de identificação com as ocupações que têm ou tiveram. Algumas que aparentam ser trajetórias fragmentadas podem esconder uma profunda identidade profissional; 2) a escola, como instituição participante da construção das identidades dos alunos, pode influenciar e tem importante papel na construção/reconstrução dessas trajetórias e identidades profissionais e, consequentemente, nos projetos profissionais dos alunos, seja agregando-lhes valor, ou dando-lhes oportunidade de Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 215 novas investidas para encontrar novas oportunidades, no caso de não identificação com a ocupação exercida até então. Mas é papel da escola ajudar seus alunos a ver até que ponto tais ocupações são negadas porque de fato não são o que queriam, ou se são negadas por serem desvalorizadas socialmente. Neste caso cabe à escola, com o poder que tem, auxiliar ou trabalhar para a valorização dessas profissões. Considerações finais Está em jogo uma complexa luta daqueles e daquelas que vivem do trabalho, numa sociedade de classes, de afirmação do trabalho como experiência central da formação humana. Essa experiência se expressa, em cada contexto e momento da história, de maneira singular, como no caso da educação profissional de jovens e adultos trabalhadores no Brasil. Nesse sentido alguns elementos, articulados entre si, nos parecem centrais: a dualidade estrutural do sistema educativo, que se expressa na divisão entre ensino profissionalizante e ensino propedêutico e nas trajetórias descontínuas dos alunos trabalhadores que possuem características singulares; a realidade socioeconômica e política de uma sociedade de classes sob a hegemonia neoliberal, que induz os sujeitos a buscarem formas de elevar seus níveis de escolaridade (formação geral) e qualificação profissional (educação profissional); indicações sobre políticas públicas relacionadas à articulação entre educação profissional e a EJA que incorporaram e reconheceram, de certa forma, ações educativas realizadas pelo movimento sindical. Assumir o fato social e a categoria trabalho e, de forma mais ampla, os processos de produção da existência como fundantes do processo de formação humana, e incorporá-los em projetos políticopedagógicos de educação integral de jovens e adultos trabalhadores é uma tarefa histórica, política, coletiva e que depende de experimentação. Como pano de fundo, está a discussão do sentido político da formação (geral e profissional) de trabalhadores e da teoria pedagógica que a sustenta. E, conseqüentemente, o reconhecimento da importância da realização e análise de 216 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA experiências que articulem o campo acadêmico e os movimentos sociais nas interfaces com o Estado na proposição e realização de tais experiências. No caso da sociedade brasileira, há que se refletir sobre o direito universal à educação e à qualificação técnico-profissional dos jovens e adultos trabalhadores frente ao estágio de desenvolvimento da sociedade contemporânea e futura. Parece-nos que um elemento central, aqui, é a necessidade de nos desvencilharmos da reduzida equação, por demais debatida, mas que sempre se repõe, da educação profissional "para" o capital, o emprego, etc. Se é certo que é assim, também é certo que empobrecemos a reflexão, o que acaba por empobrecer a elaboração política e pedagógica sobre o sentido mais universal do direito de todos de sermos contemporâneos ao tempo histórico em que vivemos. No que diz respeito à teoria pedagógica, há que se dar continuidade à reflexão inesgotável a respeito dos vínculos ontológicos e históricos entre trabalho e educação nos processos de formação humana para subsidiar os projetos político-pedagógicos15. A ampliação de oportunidades e experiências de educação de jovens e adultos trabalhadores, no Brasil de hoje, propicia e impõe o aprofundamento sobre essa reflexão. A princípio, a necessidade de analisar a complexidade contraditória de determinações que está em jogo na "volta à escola" de milhares de jovens e adultos trabalhadores, esses estrangeiros na escola. Um misto de inclusão subordinada; de sonho individual realizado; de políticas de caráter neoliberal e ao mesmo tempo republicano, entre outros aspectos. A seguir, o desafio de combinar, de forma dialética, o que é o trabalho hoje, os sentidos a ele atribuídos, e o trabalho desejado e desejável. Não menos relevante, faz-se necessário o aprofundamento da reflexão teórica que articula, mas não reduz, a "existência humana" ao "trabalho", e que reconhece nos processos materiais da produção da existência, considerando as suas singularidades, um fio condutor fundamental entre trabalho e educação. Nesse sentido, a reflexão teórica cria condições para 15 Ver especialmente as reflexões propostas por Miguel Arroyo (1998), em artigo intitulado 'Trabalho-educação e teoria pedagógica'. Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 217 superar relações lineares e de determinação unilateral do trabalho e suas instituições sobre a escola, e para reconhecer no alunotrabalhador um processo de tornar-se humano. Em tal processo de produção de sua existência, inclui-se a própria escola enquanto instituição com sua materialidade, cultura e historicidade. Reconhecer as características do aluno-trabalhador de hoje que entra portão adentro coloca em xeque a desintegração entre as partes geral e profissionalizante do currículo; implica repensar não somente a dimensão de "preparação para o trabalho" adequada, mas a própria escola. As experiências apontadas neste artigo mostram o quanto esse é um caminho viável. E, como questão não menos importante, coloca-se a tarefa de quem, como e em que esfera de debate e de elaboração de políticas ocorre e deve ocorrer a construção de projetos em que os "destinatários" sejam sujeitos, já no processo de elaboração, de propostas a eles destinadas. A participação do movimento sindical, no contexto dos anos de 1990, sob a égide do PLANFOR, foi e é alvo de muitas análises e críticas por parte do próprio movimento e pela academia. No entanto, é inegável a rica experiência histórica que vivenciou o movimento sindical de combinar, num mesmo processo, a elaboração de projetos pedagógicos e a disputa de visões sobre educação profissional em fóruns públicos. Assim, independentemente do julgamento político que se faça, é digno de atenção o que aí se construiu. Tal perspectiva, a ser teorizada com os alunos-trabalhadores, considerando suas experiências de educação de classe e em suas organizações coletivas, pode auxiliar na elaboração de projetos político-pedagógicos e políticas públicas voltados aos desafios atuais e futuros da sociedade e dos sujeitos concretos que a estão construindo. Numa abordagem mais direcionada, indicam-se algumas pistas para ações da escola e do PROEJA: 1) a importância de que os IFs articulem-se junto aos atores que gravitam em seu entorno, elegendo organizações representativas dos trabalhadores como seus interlocutores privilegiados para discussão e elaboração de suas estratégias pedagógicas. O patrimônio dos sindicalistas, referido acima, é um patrimônio a ser incorporado pelas escolas que acolhem os trabalhadores na condição de alunos; 218 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA 2) se as trajetórias, identidades e projetos profissionais diferem significativamente entre si, evidentemente diferencia-se também o que cada aluno busca em um curso profissionalizante. No caso do PROEJA, objeto de nossos estudos atuais, os gestores têm se dado conta disso. Para tentar superar a evasão, procedem ou passaram a proceder conforme um complexo processo de seleção que inclui a apresentação da autobiografia por parte dos alunos e, por parte das escolas, a apresentação dos cursos a que estão se candidatando. Isto tem tido importante repercussão no acesso e permanência dos alunos.16 No entanto, falta que esse conhecimento e que tais práticas sejam trazidas para dentro de sala de aula. Experiências esparsas, porém extremamente inovadoras e significativas tem acontecido (OLIVEIRA, 2011; ZORZI e PEIXOTO, 2011, dentre outras)17, mas estão ainda ilhadas em escolas pouco acostumadas a este perfil de aluno. Recomenda-se conhecer e aproveitar as metodologias de pesquisa desenvolvidas no âmbito do CAPES-PROEJA, para captar os saberes em sala de aula18. 3) se dentre os alunos encontram-se aqueles que estão em busca de um aprimoramento das profissões com as quais se identificam e, portanto, norteiam seus projetos profissionais, encontram-se aqueles que negam as trajetórias que construíram. Como visto, isso se dá na maioria das vezes por serem estas atividades desvalorizadas socialmente. Dar visibilidade aos saberes contidos em tais atividades (MACHADO, 2011)19, promover cursos que as qualifiquem e articulá-los a cooperativas de trabalhadores, é uma importante medida para agregar valor e proteger profissões desvalorizadas. 16 Ver artigos sobre acesso e permanência nesta coletânea. As autoras relatam práticas pedagógicas já experimentadas nos cursos, em que são participantes ou promotoras, em artigos que constam desta coletânea. 17 18 Ver capítulos de Martins; França e Franzoi; e Godinho, nesta coletânea. 19Artigo nesta coletânea. Saberes, trajetórias e perspectivas profissionais de alunos: o PROEJA no encontro de projetos... 219 Referências ARROYO, Miguel. Trabalho-educação e teoria pedagógica. In: FRIGOTTO, Gaudêncio (Org.). Educação e crise do trabalho: perspectivas de final de século. Petrópolis/RJ: Vozes, pp. 138-165, 1998. ______. Ação política sobre a educação profissional. Outras falas. Escola Sindical 7 de Outubro, 3, 70-79, 2000. BRASIL/MEC/SEMTEC. 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Estas duas categorias estão fundamentadas a partir das contribuições de autores como E.P.Thompson, Shwartz, Freire, Charlot, entre outros. No terceiro momento analiso os depoimentos dos alunos sobre as suas experiências de trabalho antes e durante o curso de administração no PROEJA a luz dos referenciais teóricos 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 226 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA que formam o campo de estudo trabalho e educação. Por fim, apresento conclusões em torno dos resultados da pesquisa. 1. Metodologia A metodologia utilizada foi de cunho qualitativo e se inseriu no campo do materialismo histórico e dialético. Foram feitas entrevistas, a abordagem do sósia-substituto, grupo focal e trabalho com a autofotografia. Para análise dos dados, a opção foi combinar a descrição e apresentação dos sujeitos com suas histórias e trajetórias de trabalho, considerando seus sonhos e saberes, produzido como resultados de suas experiências. Destaco entre as diferentes técnicas de produção de dados na pesquisa a autofotografia, em primeiro lugar pela adesão à esta por parte dos estudantes. Em segundo, pela riqueza que ela possibilitou ao coletivo. Pode-se afirmar que a fotografia é uma "[...] narrativa imagética capaz de preservar o dado e convergir para o leitor uma informação cultural a respeito do grupo estudado [...]" (ACHUTTI, 1997, p. 14). Onze alunos participaram da pesquisa. Cada um foi convidado a contribuir com esta etapa, tirando fotos das suas atividades de trabalho. A adesão à proposta foi imediata e a maioria deles possuía máquina fotográfica digital. Uma aluna não sabia fotografar e não tinha máquina. A pesquisadora emprestou uma máquina e a filha dela tirou as fotos. Outra aluna perdeu todas as fotos, pois as mesmas estavam em um pendrive que pegou vírus. Houve, também, uma situação particular, com um aluno que era novo na função e não quis correr riscos tirando fotos do local de trabalho. Em outro caso semelhante, uma aluna que trabalhava há apenas dois meses no local não pode fotografar o seu ambiente de trabalho. Depois de produzirem as fotos, os estudantes discorreram sobre cada uma delas, explicando o seu contexto. É possível afirmar que, durante o trabalho de campo, esse foi um dos momentos mais prazerosos para os pesquisados e para a pesquisadora. Eles falaram muito sobre cada instrumento de trabalho, sobre cada situação que aparecia na fotografia. Todos os trabalhadores presentes naquele Saberes-experiência de trabalho dos alunos do PROEJA 227 momento se interessaram muito pelo trabalho dos colegas e ficaram surpresos com o que estes traziam de conhecimento. A fotografia possui uma dimensão simbólica importante, pois permite que o sujeito da pesquisa escolha aqueles momentos que considera importantes para registrar a melhor posição, o melhor ângulo, a situação de trabalho mais importante, as pessoas significativas. 2. Categorias centrais: experiência e saberes do trabalho Toda experiência está contextualizada e é necessariamente uma experiência de classe. Assim sendo, considera-se importante levar em conta a especificidade de classe desses estudantes e o papel do trabalho e da escola, nesse cenário. Afinal, "Toda educação que faz jus a esse nome envolve a relação de mutualidade, uma dialética, e nenhum educador que se preze pensa no material a seu dispor como uma turma de passivos recipientes de educação." (THOMPSON, 2002, p. 13). A experiência é uma categoria que permite perceber a construção histórica, a partir do real, sem correr o risco de cair na armadilha estruturalista, em que os sujeitos são marionetes, que não conseguem construir sua própria história. Como afirma Marx (1978, p. 329), as pessoas fazem a sua própria história "[...] mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstância de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado". Resgatando a experiência como uma categoria histórica, Thompson (1981) destaca a ação humana nas relações sociais, políticas e econômicas, lembrando que a história humana é feita pelas pessoas, a partir da sua cultura e das condições objetivas nas quais se desenvolvem as forças produtivas. Para ele, homens e mulheres atuam e constroem suas vidas em condições determinadas, e vivem esta experiência tanto no âmbito do pensamento como no sentimento. Há uma relação entre o pensamento e ação. Desse modo, a "[...] experiência surge espontaneamente no ser social, mas não surge sem pensamento. Surge porque os homens são racionais e refletem 228 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA sobre o que acontece a eles e ao mundo." (VENDRAMINI, 1984, p. 26). Outra categoria central na pesquisa foi a de saberes do trabalho, compreendido como conhecimentos que resultam das experiências no mundo do trabalho. Compreendo que estudando os saberes, através de experiências, é possível compreender como esses sujeitos deram saltos, seja do ponto de vista de sua inserção social, no mundo do trabalho e, também, do ponto de vista de sua formação escolar. Afinal, toda ação é pensada, e todo pensamento é fruto da ação. Sobre os saberes, Fernandes (2001, p. 64) diz que, em seu sentido original, "[...] a palavra saber etimologicamente vem de sabor. O sabor não está nem no alimento nem no organismo; é uma construção que se produz entre ambos [...]. O saber mostra e guarda". Bollas (1989 apud FERNANDES, 2001, p. 65), por sua vez, afirma: "[...] o saber não é instintivo, nem um bloco irremovível. Pelo contrário, esse saber [...] constrói-se pela experiência de vida na história do sujeito. O saber está sempre em construção". Segundo Boaventura Souza Santos (2007, p. 29), vive-se em uma sociedade em que são produzidas ausências, e uma delas gera a "[...] monocultura do saber e do rigor: a idéia de que o único saber rigoroso é o saber científico; portanto outros conhecimentos não têm a validade nem o rigor do conhecimento científico." Ele chama esse movimento de "[...] monocultura do saber e do rigor [...]", que destrói outros conhecimentos. Malglaive (1995, p. 37) diz que o saber é "[...] infinito, multiforme, sem contorno discernível. Se é saber para o pensamento, torna-se saber-fazer para a ação". Pode-se simplificar, dizendo que os trabalhadores sabem fazer, mesmo que não saibam aprofundar aspectos teóricos do conhecimento de que precisam, para fazer a sua atividade de trabalho. Charlot (2000, p. 59), outro estudioso que pensa a escola no contexto da globalização, explica como entende a questão do aprender e sua relação com o saber: "Aprender pode ser adquirir um saber no sentido estrito da palavra, isto é, um conteúdo intelectual [...]. Mas, aprender pode ser também dominar um objeto ou uma atividade, ou entrar em formas relacionais". Saberes-experiência de trabalho dos alunos do PROEJA 229 Para esse autor, aprender é um conceito mais amplo que o saber (CHARLOT, 2000). A ideia de saber implica a de sujeito, da relação do sujeito com ele mesmo, com o outro e com o próprio saber; portanto, o conceito de relação é fundamental na construção do conceito de saber, em Charlot (2000) quando ele pensa a escola, o conhecimento e o mundo onde estamos inseridos, com todas suas idiossincrasias. Os saberes do trabalho têm centralidade, quando se faz referência à educação na sua relação com o mundo do trabalho. A escola não é o único lugar onde os trabalhadores podem aprender, mas é um lugar central para a apropriação de conhecimentos socialmente construídos, que são fundamentais para sua formação. Schwartz (2003, p. 26) fala sobre os saberes construídos nas atividades de trabalho e ressalta "saber é aquilo que existe de mais singular, de mais histórico, de mais impalpável numa situação de trabalho". Para Freire (1983, p. 66), "[...] só existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente que os homens fazem no mundo, com o mundo e com os outros. [...]". Se os saberes se constituem na relação com os outros, é na relação professor aluno que esses saberes devem ser retomados e revistos. Freire considera que existem diferentes saberes não hierarquizados, e que não precisam ser classificados mecanicamente como válidos ou inválidos. São os "saberes da experiência feitos" que se constituem na prática cotidiana. Para ele, não há estado absoluto de ignorância e nem de saber. Esses saberes do histórico possuem sempre uma vocação a socializar-se, a transmitir-se "[...] esses saberes não-neutros, gerados dentro da história do trabalho são saberes para quem e para quê?". (SCHWARTZ, 2003, p. 29). O autor afirma, também, que "Esse saber começa nas profundezas do corpo, com aquilo que existe de mais singular, de mais impalpável numa situação de trabalho". (SCHWARTZ, 2003, p. 26) A expressão saberes do trabalho, utilizada nesta pesquisa, não se reporta apenas aos saberes técnicos operacionais, mas ao conjunto dos conhecimentos necessários para que exista uma relação de trabalho. Schwartz (2003, p. 31) diz que é a própria noção de saber "[...] que deveria ser re-trabalhada, a fim de incluir todos 230 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA esses saberes que, de dentro e pela história, vão do mais escondido no corpo ao mais verbalizável e socializável." Este artigo tem por objetivo analisar as experiências coletivas de trabalho dos alunos-trabalhadores do PROEJA sempre buscando compreender a relação do saberes-experiência e a prática pedagógica do curso técnico de administração. Para tanto, selecionei algumas das experiências de trabalho que compõem o setor de serviços, particularmente aqueles relacionados aos cuidados e limpezas dos espaços, sejam domésticos ou empresariais que apresento a seguir. 3. Saberes-experiência de trabalho dos alunos do proeja Marinubia: o trampolim Apresenta-se, inicialmente, o depoimento de Marinubia, 39 anos, casada, mãe de uma filha e empregada doméstica na época da pesquisa. Antes disso, ela havia trabalhado como vendedora, caixa operadora de supermercado, atendente e operadora de máquina em uma indústria. Duas fontes serão analisadas para identificar os saberesexperiência de Marinubia. Primeiramente, a fotografia, que possibilita visualizar suas atividades de trabalho. Na segunda fonte, que foram os depoimentos, selecionou-se um, resultado da metodologia do sósia-substituto e que se considera como o que melhor traduz o conjunto de atividades que envolvem o seu dia a dia no trabalho. Entende-se que a fala de Marinubia oferece aqui pistas bastante significativas sobre os seus saberes: Eu chego, vou direto pra cozinha, que é pra fazer tudo bem rápido. Aí, eu já recolho o lixo [...], limpo a sujeira do cachorro, limpo a calçada, passo a mangueira na calçada. Nisso, ela tá lá na burocracia com a filha, que a filha não quer ir pra escolinha [...]. Aí, eu vou, converso um pouco com a guriazinha [...]. Aí eu dou aquele incentivo pra guriazinha. Pego um brinquedo, pego a cachorrinha, ponho do lado dela, pego pela mão. Aí convenço a guriazinha e levo até o carro [...] aí eles vão e eu pego a sacola de roupa suja. Sempre tem um baita de um sacolão de roupas, todos os dias eu lavo roupa [...] tem que fazer a volta, aí eu ligo Saberes-experiência de trabalho dos alunos do PROEJA 231 a máquina, que fica na outra casa – que era da mãe dela que morreu – boto a roupa na máquina e espero a máquina encher, que ela tá com aquele negócio automático estragado. Aí, vou pro banheiro de baixo; depois, o de cima. Aí volto e limpo, varro e aspiro. Depois, pego o balde e já passo pano na cozinha e na varanda, onde eles jantam. Por último, limpo a garagem [...]. Seu depoimento revela atividades de cuidado com o outro e saberes que garantem a produção e a reprodução da vida. Em um mundo em que as famílias são nucleares - mãe, pai e filhos, apenas mãe e filhos, ou ainda pais e filhos - e cujos casais trabalham fora de casa é necessário a delegação das tarefas de manutenção das casas a terceiros. Quanto aos seus afazeres, ela contou, ainda, que atendia ao telefone e tinha que dar o recado à patroa de forma compreensível. Sabia que devia tratar com educação quem estava ligando, sabia que devia agradar à filha da patroa. Enfim, observa-se que seus saberes são tantos, porque suas funções são muitas. Marinubia não trabalhava com um tipo de família que contrata, separadamente, cozinheiras, lavadeiras e/ou babás. Ela era uma empregada doméstica que fazia quase tudo na casa, apesar de não trabalhar durante o dia todo. Como resultado imediato de sua exposição, pode-se destacar a surpresa dos colegas que estavam presentes na entrevista quando expressaram verbalmente que o trabalho dela era exaustivo. Disseram que "só de ouvir o seu depoimento" estavam cansados e, no burburinho que se estabeleceu entre eles, demonstraram espanto, como se não tivessem dimensão da rotina de uma trabalhadora doméstica. Na contramão desse sentimento dos colegas, ela disse: "Escuto amigas minhas dizerem que empregada doméstica é desgastante. Esse meu não, é maravilhoso. Ela me entusiasma a estudar, até pra eu estudar aqui foi a minha patroa, que fez o tecnólogo aqui, que me incentivou bastante [...]". Marinubia reconheceu que a relação de trabalho dela com a sua patroa era boa e que a mesma estimulava o seu crescimento pessoal e profissional, o que fazia a diferença, em relação ao relato de suas colegas. 232 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Mesmo gostando do que fazia, como se observa acima, Marinubia, em vários momentos da pesquisa, reiterava a ideia de mudar de trabalho, querer uma coisa melhor, pois afirmava que, ser doméstica, para ela, é algo apenas de um momento. Ela disse querer se aposentar trabalhando em algo melhor. A minha expectativa é sair desse trabalho, que não é muito bom, não tem expectativa de sucesso, de progredir e de conseguir um emprego melhor. Sem dúvida, o segundo grau técnico de administração vai ajudar, e que Deus ajude também, que a minha idade (risos dela), tenho 39 anos. A minha expectativa é terminar o curso e sair atrás de alguma coisa, principalmente agora que a gente pega o estágio no terceiro ano e vou à busca de alguma coisa. Eu pretendo me aposentar melhorzinha. Para ela, há uma clara percepção que não há futuro nessa profissão. Esse sentimento demonstra uma "Apreensão que é uma ansiedade sobre o que pode acontecer; é criada num clima que enfatiza o risco constante, e aumenta quando as experiências passadas parecem não servir de guia para o presente (SENNETT, 2008, p. 115)". Esse conjunto de atividades de lavar, passar, limpar, cuidar de plantas e animais representa um trabalho intenso, polivalente e que se repete a cada dia de forma solitária. Mesmo assim, "havia um encontro", tomando a expressão de Schwartz (2010, p. 11-12): "[...] um encontro de pessoas em parte singulares, de meios coletivos particularizados pela história comum, de instrumentos de trabalho, e vocês mesmo nesse instante: um encontro de encontros". Esse encontro acontecia, também, na relação entre ela e a história, presente nos objetos de trabalho e na própria casa. A experiência de Marinubia como doméstica na época da pesquisa é emblemática e possui uma identidade semelhante às trajetórias de trabalho das mulheres das classes populares. No mundo do trabalho e na escola, no entanto, parece não haver lugar para seus conhecimentos. A fala de Marinubia destaca-se pela sua capacidade de contar sua própria história. "Pode recorrer a um acervo de toda uma vida [...]. Seu dom é poder contar sua vida; sua dignidade é contá-la inteira. [...]". (BENJAMIN, 1994, p. 221) Saberes-experiência de trabalho dos alunos do PROEJA 233 O trabalho doméstico está de tal modo naturalizado para o conjunto da sociedade que fica difícil visualizar a sua execução. Neste sentido, a utilização da fotografia foi muito interessante, porque possibilitou à pesquisadora e aos entrevistados detalhar como ele acontece no cotidiano. Para o senso comum esse serviço é considerado simples, sendo "simples" aqui utilizado no sentido dado por Marx (1978, p. 138), "[...] um trabalho ao qual qualquer indivíduo médio pode ser adestrado e que pode executar de uma ou de outra forma [...] o trabalho simples constitui de longe a maior parte do trabalho total da sociedade burguesa [...]". Marinubia contou, também, que trabalhou em uma indústria, [...] rebobinando fios que vinham prontos de outro setor, eu fazia aquelas bobinas grandes que iam para as malharias. Era lidar com uma máquina que tinha três metros, e era fazer a produção e fazer a produção e se corria com o trabalho. Aí eu vi como meu organismo era fraco. Eu pesava uns 40 quilos. Eu não resisti muito tempo, eu caí fora [...] Seu depoimento faz pensar na condição dramática do uso de si pelos outros e por si, conforme nos lembra Schwartz (2007, p. 253): "As dramáticas do uso de si perpassam todos os aspectos da vida das pessoas". Nesse caso, o uso extremado do seu corpo, em atividades de trabalho, levou-a a adoecer, pois seu corpo não aguentou, nem mesmo fazendo uma economia da fadiga. Na época da pesquisa, ela estava com 33 anos e esperava conseguir coisa melhor, apesar da idade. "As atuais condições da vida empresarial encerraram muitos preconceitos sobre a meia-idade dispostos a negar o valor da experiência passada da pessoa [...]" (SENNETT, 2008, p. 107). Marinubia refere, mais de uma vez, uma preocupação em relação à sua idade, pois sabe que muitos empregadores não querem contratar mulheres mais velhas e com larga experiência de trabalho. Para esta pesquisa, a vivência de Marinubia é algo fundamental e que lhe confere legitimidade e qualidade. Dessa forma, não deve ser vista por ela como algo vergonhoso (SENNETT, 2008). Ela também foi 234 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA [...] operadora de caixa, crediarista vendedora, office boy, operadora de máquina, por último fiz até um curso de mecânica industrial, pra ver se eu conseguia atuar nessa área. Só não consegui atuar porque eles querem pessoas do sexo masculino. Então de tudo um pouco eu já tentei fazer e eu vou ver agora se eu vou ter oportunidade de... Eu não uso computador, só limpo ele... (risos dela e do grupo). Os saberes que Marinubia trouxe para a sala de aula são resultados de uma longa caminhada, que se constituiu em seu patrimônio. O fato de estar no momento da pesquisa trabalhando como doméstica não eliminava os saberes anteriores a esse trabalho. Ela é uma pessoa íntegra que contribuía muito com as aulas. Como afirma Beillerot, citado por Fernandes (2001, p. 66), "[...] saber algo não é possuir algo: é poder fazer. A realidade dos saberes é a de um processo, e não a de resultados e produtos". Seus saberes são resultados das suas atividades de trabalho ou "formas de saberes evidentemente imbricados nas atividades, muito mais históricas, e cujo 'objeto' não cabe ser matizado como tal." (SCHWARTZ, 2007, p. 269) Em cada lugar em que trabalhou, Marinubia soube lidar com situações adversas, que envolviam demandas impróprias para seu corpo e sua mente. Nestes contextos, ela fez uso dos saberes investidos, criou e recriou situações de trabalho. Mostrou, durante a pesquisa, que estava pronta para superação de mais uma etapa de sua vida: concluir o curso profissionalizante e conseguir um emprego melhor. Catiucia: "Não tem letras no chão, pra gente ler" Catiucia tinha 35 anos, era líder de uma equipe de limpeza de uma empresa de prestação de serviços, junto ao IFSul. Ela coordenava o trabalho das mulheres que faziam a lavagem, varrição, organização das salas de aula e demais departamentos da instituição. Quando perguntada sobre os saberes utilizados no desempenho de sua tarefa, ela respondeu: Eu as distribuo pra toda escola, distribuo por setor, distribuo as mulheres para limpar a escola. Minha função é gerenciar essa Saberes-experiência de trabalho dos alunos do PROEJA 235 parte e deixar a escola sempre com bem-estar, essas coisas assim. E eu entro em contato com o pessoal da escola, também. Precisa limpar uma sala lá, tá faltando alguma coisa, preciso de uma mulher pra limpar uma sala tal. Eu sempre vejo essas coisas. O meu chefe mesmo é de Santa Maria. Eu conhecia todos os setores da escola, conhecia como funcionavam os horários. Então pra botar alguém lá de fora, sem conhecer o sistema da escola, eu acho que é meio difícil. Então mais vale uma pessoa que, como eu, sabia de tudo. Como fazia café pra reunião, eu já transito no meio deles, e sabia já a maneira deles lidar, daí eu já tinha todo conhecimento que precisa lá para aquele setor. Sou a ponte entre eles e o chefe. (CATIUCIA, 2009). Seu trabalho era garantir o bem-estar na escola. Neste caso, proporcionar bem-estar significava manter o espaço da escola sempre limpo e organizado, segundo as normas da instituição. O espaço escolar, que para alguns sujeitos é de trabalho e de estudo precisa estar limpo, cheiroso, as cadeiras em ordem, ter um cafezinho nas horas de reunião; os professores desejam dar aula em uma sala bem organizada e sem papéis pelo chão. Tudo isso dependia da equipe de Catiucia e de como ela conseguia coordenar o trabalho. Um saber intrínseco, aqui, é o saber fazer acontecer. Um saber que se sobressaiu, em seu depoimento, é o conhecimento da realidade. Outro é o "saber lidar com eles", os professores, no sentido de estabelecer relações. Conhecer a realidade onde está inserida fez a diferença para que ela se tornasse a responsável pela equipe. Sua fala demonstrou o conhecimento daquele espaço/território e de seus agentes, atestando que isso era importante para que ela pudesse fazer o seu trabalho. Ela não destacou aspectos como saber limpar bem ou outro saber técnico qualquer como necessários para ser líder da equipe, mas sim, a sua experiência na escola. Lembrou que iniciou como copeira e permaneceu trabalhando até o momento da pesquisa, quando já era líder de equipe. Catiucia também sabia utilizar o computador, pesquisar preços e produtos na internet, utilizar correio eletrônico, elaborar planilhas, fazer ofícios, atender ao telefone, fazer as relações com os 236 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA responsáveis na escola por suas tarefas. Ela não deu ênfase a esses conhecimentos quando foi perguntada sobre quais os saberes utilizava para executar o seu trabalho. Ressaltou as relações entre os colegas e com os colegas, além da relação com o seu chefe. Pode-se visualizar melhor o seu trabalho com as observações das fotografias, nas quais ela registrou imagens do seu local de trabalho e, principalmente, das trabalhadoras. Quando as fotos foram analisadas no coletivo da pesquisa, constatou-se que, além do trabalho de coordenação, ela também era responsável pela organização e separação de garrafas PET e papelão da escola. Ela relatou que aprendeu a separar o papelão e a calcular o valor de cada tipo. Comentou que, a partir daquele momento, eles iam poder prensar, pois conquistaram uma prensa com a escola. Também contou que este trabalho específico era acompanhado por um professor da escola que lhes ajudava em todo processo. Ela administrava o trabalho e a aplicação do dinheiro proveniente da venda do material. Esses recursos normalmente eram utilizados para atividades de confraternização e aquisição de alguns bens como fogão, micro-ondas e, recentemente, um tanquinho para que as mulheres pudessem lavar a roupa com maior facilidade. Esse detalhe do seu trabalho não havia aparecido nas entrevistas, nem na abordagem do sósia-substituto. Foi através das fotografias que se evidenciaram outros saberes que ela possuía como: saber o valor do papelão por cor e por tipo; saber separar garrafas pet; saber como se calcula a tonelada. Enfim, pôde-se perceber que há mais saberes que organizam a sua presença no mundo. A trajetória pregressa de Catiucia mostra que ela começou a trabalhar aos 10 anos e fez uma longa jornada. Eu trabalhei bem nova também. Acho que uns 10, 12 anos, eu já, eu fui pra uma casa pra trabalhar. Auxiliava-a na limpeza da casa e, como ela era vizinha da minha mãe, às vezes eu ficava lá com ela. Fiquei com ela assim um bom tempo, até meus 14 anos. Depois, essa mulher que eu trabalhava botou um xis. Daí, como eu já tinha quase uns quinze anos, comecei a trabalhar no xis e também fazia os trabalhos na casa dela. Eu saí dela e fui trabalhar em uma padaria e na casa da dona também. Era babá Saberes-experiência de trabalho dos alunos do PROEJA 237 do gurizinho e fazia a arrumação normal da casa. Isso eu tinha 16 ou 17 anos. Depois fui trabalhar no Atlas, assinar minha carteira só no Atlas, onde fiquei um ano e oito meses, no setor de espumas. Lá eu fazia os pincéis. Lá era manual na esteira, assim, quando dava as crises e não tinha o que fazer, eu aí pra injetora, e lá a gente fazia algumas coisas com a espátula. Depois, a gente foi pra outro setor, que era o de Kit. Lá também era bem corrido o serviço. Eu me atrapalhava um monte. No kit, vinha as bandejinhas. Depois de lá, trabalhei na San Remo, só que lá trabalhava com potes plásticos. Potes coisas assim, né? Eu trabalhava nas injetoras. Não operava a máquina, só fazia mesmo rebarbas. Eu gostei um monte. Senti não poder ficar aí, porque eu trabalhei de temporária – foi seis meses - de lá eu vim trabalhar aqui. Catiucia possui uma trajetória de trabalho fragmentada e ascendente, começando no trabalho doméstico ainda criança e adolescente, na informalidade. Depois trabalhou na indústria e, por último, foi contratada por essa empresa de prestação de serviços de limpeza. Sobre sua história de trabalho ao longo da sua vida, ela sintetizou: "Olhando assim foi bom pra mim. Não sabia fazer 'xis' e eu soube. Não tinha filho ainda e já sabia cuidar de criança. Foi bem interessante". Segundo Barato "Aprender a trabalhar é uma necessidade vital e acontece desde o surgimento da humanidade sem necessidade de planos de estudo ou organização sistemática de conteúdos de ensino. Em poucas palavras, acontece sem escolarização" (2004, p. 51). Ela sabe cuidar de crianças, operar máquinas em indústrias, ser vendedora em lancherias e padarias, lavar, varrer, arrumar camas, enfim, tem aqueles saberes típicos dos trabalhos socialmente destinados às mulheres em diferentes sociedades e épocas históricas. São saberes em uso para garantir o bem viver e que estão à espera de uma conceituação, como diria Santos (2006), sobre os saberes dos trabalhadores. Não se sabe em que medida sua experiência foi ou será considerada, em seu trabalho atual, na escola ou por todos aqueles que convivem com ela. Como diria Walter Benjamin (1994, p. 114), "[...] está claro que as ações da experiência estão em baixa [...]". Se é verdade que as experiências estão em baixa, nesses tempos de tantas e tão rápidas modificações no mundo do trabalho, tomo 238 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA emprestado o questionamento feito por Benjamin (1994, p. 115): "Qual o valor de todo nosso patrimônio cultural, se a experiência não mais o vincula a nós?" Joelcir: "Queria voltar a estudar fazia tempo, fazia bastante" Joelcir, 55 anos, casado, estudante. Entre o primeiro e o último encontro com a pesquisadora - em 2008 e em 2009 - ele havia se aposentado, mais em função das circunstâncias do que por desejo próprio. Atuava também no setor de serviços em uma empresa terceirizada que atendia à White Martins. Ingressou lá para trabalhar na limpeza e um ano e meio depois foi promovido à líder de equipe, fazendo, para isso, uma capacitação para formação de líderes, oferecida pela própria empresa. Ele se dispôs a trazer fotos para socializar com a pesquisa, mas só tinha duas: uma de um antigo trabalho, em preto e branco, e outra também de um trabalho mais antigo, como auxiliar de escritório e office boy. Aqui se pode perceber não só uma época histórica em que as fotos eram em preto e branco, era oneroso ter uma máquina e reproduzir as fotos captadas, mas também a relação do próprio pesquisado com a fotografia. Ele não pertence à geração que precisa o tempo todo registrar o que está fazendo. Fotografia, para ele, provavelmente serve para registrar ocasiões especiais. As imagens são momentos de sua trajetória passada de trabalho em escritório. Nas fotos de Joelcir, é possível notar modificações interessantes do ponto de vista do mundo do trabalho. Por exemplo, na foto em preto e branco ele está trabalhando em um escritório e tem ao fundo uma máquina de escrever. Já na foto colorida, ele tem um computador em sua mesa de trabalho. O mesmo ocorre na foto de Catiucia, ela tem um computador em sua sala de trabalho, ao mesmo tempo em que desenvolve outra atividade, que é a mistura dos produtos para serem distribuídos a sua equipe para limpeza. Sobre os seus afazeres, Joelcir contou o seguinte: Eu dizia limpa aquela sala lá! Tu faz assim. Não precisava dizer detalhes. Era os pisos, as paredes, portas, armários. Então é um Saberes-experiência de trabalho dos alunos do PROEJA 239 serviço bom. Tá não é desgastante, só que o pessoal dizia assim prá mim "Tu é líder, tu não faz nada", mas eu não consigo ficar parado. Eu tenho que estar trabalhando junto, tenho que estar agilizando. Eu tinha o supervisor acima de mim, mas o líder é quem coordenava tudo. Tinham outras pessoas que trabalhavam comigo, jardineiro, pessoal de limpeza, pessoal que varria o pátio, que capinava. Todas essas pessoas aí eu coordenava, tem que tá sempre olhando: "tem que fazer isso, tem que fazer aquilo". Então, eu dizia pra eles o pessoal pediu pra tu dar uma olhadinha na parte de lá, dá uma coordenada melhor. Quando é que vai cortar a grama? Quando é que vai fazer a poda?" Então, tinha que estar sempre controlando eles. Se a pessoa tá falando errado, tu diz: "olha tu tá falando a palavra errada". A sua atividade era coordenar os trabalhadores para que fizessem a manutenção e limpeza na White Martins. Esse serviço envolvia, assim como no trabalho que Catiucia coordenava, varrer as peças, lavar e limpar os banheiros, cuidar do jardim, da área verde e fazer a poda das árvores. Ele coordenava todo esse trabalho e, como afirmou, tinha que estar sempre "controlando eles". Joelcir evidenciou o cuidado ao lidar com os colegas no relato que deu sobre como solicita que eles façam o seu trabalho. Essa é uma habilidade que desenvolveu ao longo dos anos de experiência e no curso de liderança que recebeu na empresa. Ele reconheceu, portanto, uma das dimensões desse conhecimento que é saber lidar com os outros, o que não se limita a somente fazer bem o serviço. Essa é uma dimensão dos saberes do trabalho que foram destacadas por praticamente todos os participantes da pesquisa. Trago aqui um aspecto em comum que se evidencia nas atividades de trabalho de Joelcir e Catiucia e que se caracteriza pelo cuidado com o bem estar do outro. Sua função implica que eles tenham muito jogo de cintura, muito tato na relação com os demais. Isso significa que a garantia do bom serviço está nas mãos de quem executa as tarefas. Conseguir que o trabalho saia bem feito depende muito da sabedoria empregada nas relações de trabalho, pois em geral elas são bastante tensas e atravessadas por conflitos. Outros saberes aparecem em seus depoimentos. Por exemplo, tanto seu Joelcir, quanto Catiucia cumprem o papel de 240 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA tirar dúvidas e esclarecer os trabalhadores sobre os diferentes aspectos das suas relações de trabalho e também de controle e fiscalização, fazendo a mediação entre "elas" e o "chefe". Eles têm conhecimentos que os colegas não têm, e isso acaba criando uma diferença entre eles. É possível dizer, então, que essa dimensão aparece aqui como solidariedade de classe. Conclusão Pode-se apresentar como uma das conclusões a centralidade do trabalho nas vidas dos alunos, o que se evidencia em cada relato feito por eles. Tudo que diz respeito às suas histórias de vida está relacionado ao fato de estarem ou não trabalhando. Para esses trabalhadores não está posta a possibilidade de questionamento sobre a importância do trabalho em suas vidas, por mais rude e precário que ele possa se apresentar. O trabalho é uma necessidade objetiva e concreta dos estudantes e de suas famílias. Isso provoca uma antecipação da vida adulta para a maioria deles, que começaram a trabalhar ainda crianças, aspecto que colabora para que haja um rompimento em suas trajetórias escolares. Analisando as suas trajetórias de trabalho, pode-se saber onde trabalharam, onde estavam trabalhando e que tipo de trabalho está reservado para aqueles com baixa escolaridade em nossa sociedade. É possível concluir que aqueles que param de estudar acabam ocupando os postos de trabalho mais precários e transitórios e, por isso, circulam de trabalho em trabalho em busca de uma vida melhor. Os alunos demonstraram serem trabalhadores orgulhosos de seu fazer, mas não se percebeu nos depoimentos nenhuma inclinação no sentido de considerarem seus conhecimentos e saberes como suficientemente importante para serem temas estudados na escola. Sob este ângulo, os alunos se colocaram sempre como aprendizes, seja no trabalho, seja na escola. Percebe-se, na pesquisa, que os alunos da educação de jovens e adultos estão longe da fatia do mercado de trabalho que lida com as novas tecnologias. Os empregos desse mercado estão reservados Saberes-experiência de trabalho dos alunos do PROEJA 241 aos que possuem trajetórias contínuas na escola e na vida: escolas caras, viagens, acesso a lazer, cultura e tecnologia. Nesse cenário onde tudo é transitório, onde setores sociais dominantes discutem, sem pudor ou reserva, o fim dos direitos sociais - décimo terceiro, férias remuneradas, licença maternidade, seguridade social mais flexível, etc. - é necessário pensar no papel da escola e da educação como um todo no sentido de que a mesma possa contribuir para sua inserção no mundo do trabalho globalizado. No mundo contemporâneo em que cada dia mais as experiências valem menos, em que os conhecimentos passados não fazem mais o presente, o que fazer com os saberes-experiência dos estudantes que chegam à escola? A pesquisa desenvolvida revelou que os trabalhadores-estudantes são portadores de saberes, saberes populares, saberes de classe, saberes do trabalho. Revelou também que a escola pouco faz no sentido de reconhecer e utilizar esses saberes no processo de planejamento do curso e das aulas. Essa dimensão fica relegada à sensibilidade de alguns professores. A escola deve estar aberta a todas as dimensões acionadas pela entrada desses trabalhadores estudantes. Essa abertura deve superar a disposição individual de alguns professores, ou as iniciativas isoladas de visibilidade desses alunos e de seus saberes. Uma escola de educação profissional deve construir um currículo, um planejamento pedagógico que dê conta da concepção de trabalho como um princípio educativo, e precisa pautar suas metodologias e dinâmicas a partir do reconhecimento dos saberesexperiência de trabalho desses sujeitos. Pode-se, então, questionar: que conhecimentos, que experiências considerar? Que método utilizar? Essas são perguntas que fazem pensar em qual proposta de formação profissional é mais adequada para esse público, bem como que currículo deve ser desenvolvido e como se dará a escolha do mesmo. Pode-se concluir, a partir de seus depoimentos e relatos, que todos os alunos têm a "esperança" ou a ilusão de que concluindo o ensino médio vão conseguir um trabalho/emprego melhor. Com isso vão conseguir ganhar mais e ter mais segurança para si e para o conjunto da sua família. Alguns estavam se aposentando, outros no meio da caminhada, uma minoria estava iniciando sua trajetória de 242 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA trabalhador, no entanto todos eles acreditavam que a escola poderia lhes garantir uma vida melhor em diferentes aspectos: na relação com os familiares, na relação com os colegas de trabalho e na relação com amigos. Referências ACHUTTI, L. E. R. Fotoetnografia – um estudo de antropologia visual sobre cotidiano, lixo e trabalho. Porto Alegre: Tomo Editorial e Palmarica, 1997. BARATO, Jarbas Novelino. Educação Profissional: saberes do ócio ou saberes do trabalho? São Paulo, SENAC, 2004. BARROS, Anália B. Martins de. 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A participação é outro ponto importante: é a partir dela que os sujeitos passam coletivamente a decidir e a construir iniciativas autônomas em torno do desenvolvimento que desejam. Acreditamos em uma produção de saberes não regida só pelos interesses dos dominantes. Entendemos a escola como um espaço de produção de saberes com significado para a comunidade 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 2 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 246 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA na busca da articulação entre o meio-ambiente e o mundo do trabalho, construindo uma aprendizagem integrada com a produção de novos saberes, em busca do desenvolvimento. Neste sentido, a participação da escola na vida da comunidade constitui uma rede de partilha de saberes que nos permite observar, analisar e refletir sobre situações reais. Assim, nosso estudo é perpassado pelos valores de vida coletiva, e os saberes que sustentam estes valores através da atividade humana. Partimos do pressuposto de que a relação da escola com a comunidade se encontra nas necessidades e problemas reais da população, e de que a escola reinventa suas reações às situações concretas da comunidade onde está inserida. Acreditamos na construção de um conceito de desenvolvimento local, nascido a partir de quem constrói suas alternativas vivendo o real, contrariando as lógicas de exclusão. Neste contexto, o processo de construção coletiva sobre o desenvolvimento local não é entendido como exclusividade do Estado e das elites econômicas. Assim, pensamos em um desenvolvimento capaz de produzir transformação social a partir da produção de experiências contrahegemônicas, sendo a escola o espaço desafiador das experimentações trazidas e construídas pelos educandos trabalhadores para encarar o local como campo de possibilidade e de construção de um projeto de cidadania reflexiva e crítica na esfera local sem se deixar levar por um localismo ingênuo e pouco efetivo. Para pensar que a educação se constitui como um direito, é preciso reconhecer que o envolvimento da escola com a comunidade é importante para que o sujeito encontre seu lugar social por meio de suas lutas, levando em consideração o seu envolvimento e as suas necessidades. Neste sentido, conceber a educação como direito humano significa considerar o ser humano na sua vocação ontológica. A educação no seu sentido amplo é um elemento essencial para a realização da vocação humana, pois os processos educativos permeiam a vida dos sujeitos. A reflexão sobre o PROEJA nos leva a pensar em um processo educativo que possa buscar a construção de alternativas. No universo da educação profissional os saberes são produzidos PROEJA: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na escola 247 pelo educando trabalhador através da interação deste sujeito com seus diferentes tempos e espaços de socialização. Os saberes do trabalho se modificam constantemente, fazendo com que o trabalhador os construa de acordo com a história vivenciada. Assim, para Schwartz (2003), o trabalho é visto de forma positiva como espaço de criação a partir do diálogo com o meio, com sua história de vida e de trabalho. Segundo Schwartz (2003), o trabalho envolve sempre o que ele chama uma "dramática do uso de si", ou seja, existe ai um envolvimento integral do trabalhador, seus valores, normas, afetividade, sendo sempre um espaço de invenção, recriação, conflitos e tensões. Os cidadãos construíram seus saberes no movimento das relações familiares, do mundo do trabalho, da vida social, vivenciando um campo de articulação onde teoria e prática foram sendo construídas fora do tempo e espaço escolar. Refletir sobre as questões que envolvem os saberes, o trabalho e o desenvolvimento local nos motiva a buscar aproximações e encontros que trazem o universo dos sujeitos no espaço escolar por estar relacionado com tudo que toca o outro em seu tempo e lugar. Como caminho metodológico, utilizamos a análise documental. O estudo está assentado numa concepção de mundo que articula uma relação entre os textos e o nosso entorno de estudo, visando predominantemente o debate entre as partes. Quanto aos procedimentos de análise, realizamos uma primeira leitura dos documentos citados a partir da qual foi possível transformar nossas questões em posicionamentos. O posicionamento a que nos referimos passa necessariamente pelo descolamento de duas ordens de realidade: a realidade da pesquisa conduzida e a dos saberes produzidos durante o mergulho nos documentos. Assim, nos colocamos na posição de sujeitos que fizeram escolhas, pois o que nos interessa é a possibilidade de contribuir com o PROEJA enquanto um campo de saberes capaz de intervir numa realidade. 248 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA O desenvolvimento local A escolha do estudo revela que por não serem fatos isolados, o desenvolvimento e o PROEJA acabam revelando coisas mais profundas. Eles têm evidentemente relação com tudo o que toca o indivíduo em seu tempo e lugar. Nosso estudo parte da noção de desenvolvimento local em uma perspectiva crítica em oposição ao desenvolvimento local criado e difundido pelo capitalismo globalizado. Neste sentido, destacamos o nosso posicionamento ao concordar com Francisco de Oliveira quando afirma: Do ponto de vista neoliberal, a cidadania é sinônimo de nãoconflito, de harmonia, de paz social, [...] Como conseqüência, está-se elaborando um discurso sobre o desenvolvimento local como paradigma alternativo à sociedade plagada de conflitos por todos os lados; desenvolvimento local é apresentado como um "emplastro" (do romance de Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas), capaz de curar as mazelas de uma sociedade pervertida, colocando-se no lugar bucólicas e harmônicas comunidades. Pensado dessa forma, o desenvolvimento local tende a fechar-se para a complexidade da sociedade moderna e passa a buscar o idêntico, o mesmo, entrando, sem querer, perigosamente, na mesma tendência midiática da sociedade complexa. O desafio do desenvolvimento local é o de dar conta dessa complexidade, e não voltar as costas para ela. (OLIVEIRA, 2001, p. 13) Acreditamos que é possível construir conceitos críticos de desenvolvimento local que se contraponham ao discurso dominante. Segundo Francisco de Oliveira, "O desenvolvimento local é uma noção polissêmica, e necessariamente comporta tantas quantas sejam as dimensões em que se exerce a cidadania; qualquer tentativa, pois, de transformá-la em modelos paradigmáticos, está fadada ao fracasso" (OLIVEIRA, 2001, p. 13). Assim, não existe um conceito único de desenvolvimento local, o que demonstra uma intensa disputa tanto ideológica quanto política em torno de um projeto de desenvolvimento na escala local. Nosso pensamento corrobora o já salientado pelo autor Francisco de Oliveira de um não "reducionismo da sociedade civil PROEJA: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na escola 249 ao desenvolvimento local, ou a uma conceituação apaziguadora tanto da sociedade civil quanto do desenvolvimento local" (OLIVEIRA, 2001, p. 22). Compreendemos que a educação de jovens e adultos vai além dos espaços formais onde ocorre o encontro de saberes que são produzidos na escola e em outros espaços, criando uma rede de interação onde acontece o envolvimento dos sujeitos e oportunizando as relações entre a escola e a comunidade na construção do desenvolvimento local. Neste sentido, Ladislau Dowbor afirma que: A idéia da educação para o desenvolvimento local está diretamente vinculada a esta compreensão, e à necessidade de se formar pessoas que amanhã possam participar de forma ativa das iniciativas capazes de transformar o seu entorno, de gerar dinâmicas construtivas [...]. Com o peso crescente das iniciativas locais, é natural que da educação se espere não só conhecimentos gerais, mas a compreensão de como os conhecimentos gerais se materializam em possibilidades de ação no plano local. (DOWBOR, 2006, p. 1 e 3) Acreditamos na escola como espaço no qual os desejos e as necessidades se transformam em projetos em prol da justiça social, e que encontram no seu entorno as condições para se efetivarem. A escola parte do seu contexto sócio-cultural, buscando junto com seus educandos as alternativas para melhorar este contexto, de modo que as participações dos sujeitos presentes nas comunidades locais possam transformar qualitativamente o lugar em que estão inseridos. [...] podemos ser donos da nossa própria transformação econômica e social, de que o desenvolvimento não se espera, mas se faz, constitui uma das mudanças mais profundas que está ocorrendo no país [...]. A grande diferença, para municípios que tomaram as rédeas do próprio desenvolvimento, é que em vez de serem objetos passivos do processo de globalização, passaram a direcionar a sua inserção segundo os seus interesses. Promover o desenvolvimento local não significa voltar as costas para os processos mais amplos, inclusive planetários: significa utilizar as diversas dimensões territoriais segundo os interesses da comunidade (DOWBOR, 2006, p. 1 e 3). 250 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA A escola contribui ao mergulhar na comunidade local junto com os educandos para o empoderamento destes sujeitos enquanto protagonistas do seu próprio destino, conhecedores e construtores dos saberes sobre o lugar em que vivem. "A escola passa assim a ser uma articuladora entre as necessidades do desenvolvimento local, e os conhecimentos correspondentes" (DOWBOR, 2006, p. 5). A escola, nesse contexto, poderá contribuir para construção das redes onde a participação e a valorização dos sujeitos são importantes no fortalecimento da relação da escola com a comunidade. Entendemos que assim são tecidas as ações e reações que desejamos, envolvendo a solução de problemas, a concretização do exercício da cidadania e da qualidade de vida com dignidade e justiça. Em nossas reflexões, o PROEJA passa a ser analisado em sua função social, uma vez que se constitui em espaço onde poderemos expor a necessidade de construir um caminho próprio a partir dos seus educandos. Colocamos em evidencia o ser que pensa e entende o que ocorre no seu entorno, provocando problematizações e soluções. Acreditamos que o PROEJA pode ser entendido como um processo articulado com o desenvolvimento local, que começa na situação vivida, nas necessidades e nos problemas da comunidade, seus recursos e oportunidades de desenvolvimento. Compreendemos que a escola poderá criar espaços de integração entre os saberes que são produzidos pelo educando trabalhador em seus diferentes tempos e espaços de socialização. Estes saberes do trabalho se modificam constantemente, fazendo com que o trabalhador construa seus saberes de acordo com a história vivenciada. Os saberes construídos no trabalho e a relação estabelecida entre a escola e o desenvolvimento local nos fazem refletir sobre as formas como os educandos "renormalizam" as normas antecedentes para adequá-las ao seu meio. Entendemos os saberes como fruto da experiência dos trabalhadores, que podem ser um instrumento fundamental para compreendermos como são transformadas as situações vivenciadas pela comunidade. De acordo com Yves Schwartz, o sujeito usa sua experiência empregando o seu saber para a realização do seu fazer. Os PROEJA: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na escola 251 educandos trabalhadores recriam saberes em um movimento contínuo de renormalização, que modifica seu meio de trabalho, suas normas e valores. Ao fazerem "uso de si", os educandos desenvolvem seus saberes. A partir dessa visão, o PROEJA torna-se um espaço de reflexão com relação ao mundo do trabalho e à discussão entre o desenvolvimento local, considerando o uso do saber local assim como a articulação realizada pelos saberes gerados no trabalho realizado pelo educando e sua contribuição na formulação de políticas públicas relacionadas à realidade e aos problemas da comunidade. Análise: nosso olhar sobre os Documentos O Documento Base publicado em 2007 do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional Técnica de Nível Médio ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos expõe a necessidade da construção de um projeto nacional de desenvolvimento onde a articulação entre as políticas públicas seria o processo para se alcançar o projeto desejado. [...] é necessário construir um projeto de desenvolvimento nacional auto-sustentável e inclusivo que articule as políticas públicas de trabalho, emprego e renda, de educação, de ciência e tecnologia, de cultura, de meio ambiente e de agricultura sustentável, identificadas e comprometidas com a maioria, para realizar a travessia possível em direção a um outro mundo, reconceitualizando o sentido de nação, nação esta capaz de acolher modos de vida solidários, fraternos e éticos (BRASIL, 2007, p. 32). A discussão apresentada no Documento Base é construída a partir da interface de um projeto de desenvolvimento nacional que busca alternativas para a construção de outro espaço regido pela igualdade real. [...] Um projeto como esse, requerido para o desenvolvimento nacional, precisa, em nível estratégico e tático, de uma política 252 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA pública de educação profissional e tecnológica articulada com as demais políticas. A educação profissional e tecnológica comprometida com a formação de um sujeito com autonomia intelectual, ética, política e humana exige assumir uma política de educação e qualificação profissional não para adaptar o trabalhador e prepará-lo de forma passiva e subordinada ao processo de acumulação da economia capitalista, mas voltada para a perspectiva da vivência de um processo crítico, emancipador e fertilizador de outro mundo possível (BRASIL, 2007, p. 32). Diante do contexto descrito no Documento, percebemos uma concepção de educação que deseja avançar para além de um discurso atrelado ao pensamento capitalista, pautado num sujeito autônomo, ficando para a escola um maior aprofundamento acerca das questões levantadas diante da sua realidade. O desenvolvimento de uma nação não depende exclusivamente da educação, mas de um conjunto de políticas que se organizam, se articulam e se implementam ao longo de um processo histórico, cabendo à educação importante função estratégica neste processo de desenvolvimento. Ao mesmo tempo, deve-se ter clareza em reconhecer que nem a educação geral nem a educação profissional e tecnológica, por si sós, gerarão desenvolvimento, trabalho e renda. Também não é novidade reconhecer que a educação desempenhou um papel estratégico em todas as nações que construíram um projeto nacional de desenvolvimento soberano e autônomo. A experiência histórica tem demonstrado que não há desenvolvimento econômico se não acompanhado de desenvolvimento social e cultural. A educação é, nesse sentido, o processo de criação, produção, socialização e reapropriação da cultura e do conhecimento produzidos pela humanidade por meio de seu trabalho (BRASIL, 2007, p. 32). Como se pode observar, o Documento Base caminha em torno de uma perspectiva política, assumindo as políticas públicas como um elemento de intervenção social. Apóia-se em uma concepção pedagógica que toma o trabalho como princípio educativo. Nessa perspectiva, o papel estratégico da educação na contemporaneidade é compreendido enquanto espaço em que a pesquisa, a ciência e a tecnologia são elaborados com a PROEJA: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na escola 253 intencionalidade de contribuir para a solução de problemas e valorização da comunidade. A vinculação da escola média com a perspectiva do trabalho não se pauta pela relação com a ocupação profissional diretamente, mas pelo entendimento de que homens e mulheres produzem sua condição humana pelo trabalho — ação transformadora no mundo, de si, para si e para outrem (BRASIL, 2007, p. 38). A discussão entre o PROEJA e o desenvolvimento local exerce uma tensão criativa e impulsionadora, uma vez que registra informações e interpreta novos conhecimentos em torno dos fatos históricos que compõem o trânsito social. Estamos buscando um modo de compreender, registrar e intervir no mundo, numa sociedade educativa que faz do conhecimento um processo em permanente transformação. Buscamos também um conhecimento que tenha caráter transdisciplinar, que ultrapasse fronteiras e crie o novo mostrando a oportunidade de registrar e recuperar saberes que transforme a realidade. A cada invenção histórica alcançada, há uma expectativa educacional. Por isso, os saberes da escola, os saberes do educando e o desenvolvimento local são campos que se invadem mutuamente, numa forte relação de fluxo, benéfica para o contexto da sociedade. Entendemos que, a partir do Documento Base, a idéia da educação para o desenvolvimento local está diretamente vinculada à compreensão e a necessidade de formarmos cidadãos capazes de participar ativamente das iniciativas, de transformar o seu entorno e de gerar dinâmicas construtivas, nas quais possam tomar o seu destino e transformar o seu meio. Ensinou-nos Paulo Freire, que: [...] como experiência especificamente humana, a educação é uma forma de intervenção no mundo (FREIRE, 1996, p. 98). A análise a respeito do Documento Base nos levou também a refletir sobre o Plano de Curso de Técnico em Contabilidade integrado ao Ensino Médio na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) coordenado pelo IFRS - Campus Bento Gonçalves. O curso em questão é parte do programa PROEJA do Governo Federal, via SETEC, numa relação de parceria entre o IFRS – Campus Bento Gonçalves e o Instituto de Pesquisa e 254 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Educação do Campo – Veranópolis, sendo esta uma iniciativa pioneira, tratando-se de um projeto piloto. O curso acontece no Instituto de Educação Josué de Castro – Veranópolis. Os professores do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul – Campus Bento Gonçalves se deslocam até a cidade de Veranópolis. As disciplinas são ministradas por professores dos dois institutos assim, como outras atividades de processo seletivo, registro escolar e acompanhamento pedagógico. O curso de nível médio técnico em contabilidade acontece em regime de alternância onde cada semestre é composto por duas etapas com Tempo Escola (carga horária presencial) e Tempo Comunidade (carga horária à distância). Permitindo a participação dos jovens e adultos dirigentes das cooperativas e associações dos assentados de reforma agrária, oriundos de diferentes municípios da região sul do Brasil. Segundo o Plano de Curso: [...] esta proposta de Educação de Jovens e Adultos integrada ao ensino profissional no IFRS- Campus Bento Gonçalves traz pressupostos de uma iniciativa piloto na qual tem como objetivo a implantação de um curso em PROEJA técnico em Contabilidade na forma do regime ou sistema de alternância, considerando o desenvolvimento do processo educativo/formativo que transcorrerá no curso. Assim durante o processo do curso os educandos vivenciarão um período em que a maior influência é a da escola e um período em que a maior influência é a da comunidade, entendida como continuidade do processo de formação, mantendo o enraizamento com a coletividade ou coletivo de origem (PLANO, 2009, p. 7). Durante a leitura do Plano, ficou clara a construção de um processo que exige que pensemos além dos campos instituídos, na medida em que nos coloca diante de necessidades e questões desafiadoras para a realização de um trabalho que não se resume a propor atividades dentro daquilo que comumente é considerado como posição da educação. Apesar deste ambiente econômico desfavorável aos pequenos e médios empreendimentos, as cooperativas dos assentados PROEJA: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na escola 255 poderiam qualificar sua inserção econômica na medida em que qualifiquem a sua administração. [...] estes empreendimentos econômicos apresentam limitações no terreno gerencial e contábil. Este curso vem ao encontro desta demanda, buscando aproximar da profissionalização agricultores assentados, que se encontram diretamente envolvidos na administração das cooperativas e associações (PLANO, 2009, p. 12). Diante do Plano, não poderíamos deixar de mencionar a iniciativa ancorada na criação das redes que surgem entre a comunidade e os Institutos, o que se torna relevante na medida em que tais redes empoderam os sujeitos no lugar em que realizam a sua prática, no sentido de: [...] Construir um processo de análise e intervenção das/nas práticas que são desenvolvidas cotidianamente pelos estudantes. [...] Contribuir para que os educandos possam entender-se como parte do processo histórico sabendo fazer uma leitura histórica da realidade; conhecer informações fundamentais sobre a história do mundo, em especial a história do Brasil e da América Latina, incluindo o domínio especifico da História da luta pela terra e dos Movimentos Sociais Camponeses (PLANO, 2009, p. 23 e p. 29). Nossa intenção, ao analisar o Plano, foi tentar compreender de que maneira encontrava-se a formação dos educandos trabalhadores enquanto pensadores e construtores do desenvolvimento local sendo esta possibilidade encontrada na articulação das necessidades e saberes dos educandos incorporados ao processo escolar. Durante o processo de análise do plano de curso, verificamos que em sua formulação existia uma clareza na descrição dos comportamentos desejados a serem atingidos pelo educando trabalhador. Oferecer uma Educação para Jovens e Adultos baseada na construção do conhecimento no coletivo, que aponte para a resolução de problemas, para o desenvolvimento da aprendizagem, que possibilite a reflexão permanente sobre a prática de forma interdisciplinar e contextualizada; Oferecer aos jovens e adultos a oportunidade de articular as experiências da 256 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA vida com os saberes escolares, ampliando sua inserção no mundo do trabalho (PLANO, 2009, p. 13). Notamos também uma preocupação em integrar os objetivos ao conteúdo programático, estabelecendo relação com a realidade dos educandos, sendo mencionado o direcionamento profissional para o mundo do trabalho. Durante a análise do plano, percebemos os movimentos na busca de uma escola que se ajusta em sua forma e conteúdo, aos sujeitos e suas necessidades assim, a escola vai ao encontro dos educandos trabalhadores. Acreditamos que esta iniciativa contribui para a reflexão onde a escola pode assumir um outro jeito de ser escola como um todo, onde a disposição e a sensibilidade pedagógica abrem-se ao movimento social e ao movimento da história, permitindo a escola fazer belas experimentações. Entendemos o plano de curso enquanto um movimento pedagógico que mistura identidades, cotidianos, pedagogias, tentando construir um espaço escolar que experimenta novas relações de produção no campo pedagógico, onde a escola é exposta no conteúdo analisado como um espaço de transformação consciente. No processo de analise do plano, percebemos que as ementas das disciplinas traziam algumas reflexões que dizem respeito à concepção do fazer educacional numa escola inserida na dinâmica de um movimento social, considerando a escola como um lugar de formação humana. No momento atual, essa interlocução torna-se importante no processo de construção de um projeto que se mistura com a luta que precisa ser obra dos próprios sujeitos. No Plano, entendemos que o processo escolar é possível no diálogo com outros sujeitos da práxis educativa, na relação com outros sujeitos sociais e com o movimento da história onde o político, o cultural e o pedagógico são construídos numa visão de escola que não se restrinja a aulas aprisionadas nas grades curriculares. O documento apresenta a escola como um lugar de formação humana, onde os conteúdos de alguma disciplina compreendem a importância de discutir sobre suas opções pedagógicas e sobre que PROEJA: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na escola 257 ser humano estão ajudando a formar. Vê a educação como uma relação entre sujeitos que fazem as transformações sociais. Diante do que foi exposto, poderíamos pensar a respeito de como as renormalizações utilizadas pelo educando trabalhador nos permitem compreender as relações estabelecidas entre a escola e o desenvolvimento local. O educando trabalhador carrega consigo valores e regras que criam e recriam a todo instante sua relação com o meio em que vive, recriando esse meio através das renormalizações que são geradas por ele nas situações de trabalho constituídas por suas normas antecedentes. De acordo com o exposto, relembramos Paulo Freire quando afirma que "o educando se reconhece conhecendo os objetos, descobrindo que é capaz de conhecer, assistindo à imersão dos significados em cujo processo se vai tornando também significado crítico" (FREIRE, 2000, p. 47). Acreditamos que o trabalho envolve sempre o "uso de si", como também o "uso de si pelos outros". Assim os trabalhadores estão transformando e superando os desafios da atividade do trabalho. Na perspectiva do "uso de si", de acordo Yves Schwartz, entendemos o sujeito como ser capaz de ações inventivas, criadoras, em constante movimento de renormalização que antecedem os atos. Assim, o educando trabalhador transforma as normas constituintes de seu mundo em cada instante vivenciado, fato que lhe exige novos saberes. Isso nos motiva a percebermos como a escola de jovens adultos usa essas renormalizações para estabelecer ligações com o desenvolvimento local. Concebendo a escola enquanto espaço perpassado por sujeitos, atravessado por escolhas e valores, enxergamos que através do Documento Base e do Plano de Curso os alunos devem conhecer e compreender a realidade onde vivem e onde irão participar como cidadãos e como profissionais. Conforme Paulo Freire, a escola pública exige: [...] o desenvolvimento de ações concretas no sentido de uma educação crítica e criticizadora; o implemento de uma educação que possibilite ao educando a discussão corajosa e franca de sua problemática; o fortalecimento de uma educação capaz de enfrentar a discussão com o homem comum, de seu direito de participação, isto é, do pleno exercício da cidadania; a modificação dos conteúdos programáticos e dos currículos, 258 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA adequando-se à realidade de cada população-alvo (FREIRE, 1980, p. 86-107). Entendemos que, no Plano de Curso, se estabelece uma ligação entre o conhecimento formal curricular e o mundo onde cada pessoa constrói seus saberes quando fala em: [...] abordar conceitos básicos e necessários para o entendimento da física do cotidiano e sua relações com o mundo do trabalho. [...] A química aplicada ao cotidiano das comunidades e ao processo produtivo no meio rural. [...] Compreender os conceitos, procedimentos e estratégias de resolução de situações-problema do cotidiano, do mundo científico e do mundo do trabalho. [...] Valorizar a experiência de vida dos alunos, trazidas do mundo do trabalho e construir de forma ativa e participativa os principais conceitos que da matemática financeira e da estatística (PLANO, 2009, p. 25, 27, 28 e 34). Neste sentido, concordamos com Paulo Freire quando afirmou que "[...] formar é muito mais do que treinar o educando no desempenho de destrezas, ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção" (FREIRE, 1996, p. 14). A importância da educação e sua aproximação com desenvolvimento local se dão ao refletirmos sobre como os cidadãos estão buscando melhorar as condições de vida no seu entorno. Compreendemos que a cidadania se apresenta em diversos níveis, mas acreditamos que é no plano local que a participação e os saberes podem se expressar de forma mais concreta, de acordo com as necessidades e interesses da comunidade. Paulo Freire afirmou que: a capacidade de aprender, não apenas para nos adaptar, mas, sobretudo para transformar a realidade, para nela intervir, recriando-a, fala de nossa educabilidade a um nível distinto do nível do adestramento dos outros animais ou do cultivo das plantas. (FREIRE, 1996, p. 69). PROEJA: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na escola 259 A escola poderá ser uma articuladora entre as necessidades do desenvolvimento local e os saberes construídos de forma emancipadora assegurando aos jovens e adultos a autonomia na utilização de seus saberes como instrumentos de intervenção sobre a sua realidade. Neste sentido, durante o estudo do Plano percebemos a originalidade da práxis onde o processo educativo e as concepções pedagógicas contidas nele buscam a transformação de uma situação vivenciada pelos educandos trabalhadores, ficando em evidência a função social e ideológica da escola. A escola de jovens e adultos é entendida como espaço de reflexão com relação ao mundo do trabalho e as discussões entre a construção do desenvolvimento local e as renormalizações dos saberes dos educandos, que vivenciam um campo de articulação onde teoria e prática foram sendo construídas fora do tempo e espaço escolar. Diante da análise, tomando os dois Documentos, compreendemos o PROEJA como uma ação escolar diferenciada através da qual o processo educacional tem a intenção de influência na transformação de realidades locais e contribui para formação de redes que conectam a escola e a comunidade, favorecendo assim a formação de problematizações coletivas e atividades comunitárias marcadas pela continuidade das ações. Neste sentido, a escola assume uma intencionalidade clara como possível impulsionadora da participação dos educandos trabalhadores como capazes de contribuir na solução de problemas num exercício permanente de geração e sistematização de saberes sobre o contexto em que vivem, possibilitando que os atores locais busquem o empoderamento enquanto protagonistas do desenvolvimento. Entendemos que o Documento Base não traçou formulações acerca da noção crítica do desenvolvimento local, deixando de estabelecer uma formulação teórica completa. O que encontramos são fragmentos que podem fazer parte de um construto teórico mais amplo. Desse modo, entendemos que o Documento Base apresenta uma proposta possível de integração entre Educação Profissional Técnica de Nível Médio e a Educação de Jovens e Adultos que pode tornar a política pública um instrumento de intervenção social. 260 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Os Documentos não trazem incorporado o acúmulo teórico referente ao papel da pesquisa, ciência e tecnologia, que poderiam ser realizadas na escola para o desenvolvimento local. No entanto, apresentam, ainda que de forma superficial, questões referentes à articulação entre a escola e o desenvolvimento local. Acreditamos que as idéias trazidas pelo Documento Base podem ser aperfeiçoadas mediante as reflexões geradas a partir dos IFs, contribuindo para a consolidação do PROEJA como um espaço de ação e de construção de conceitos críticos acerca do desenvolvimento local. Isso possibilitaria a criação de bases teóricas para o campo do pensamento entre a escola e o desenvolvimento local, para se afirmar enquanto uma política pública de qualidade com oportunidades igualitárias. Ao compreendermos o desenvolvimento local como espaço de práticas e processos de educação, somos levados a perceber o modo como esses mecanismos se constituem enquanto um processo coletivo de aprendizagem. Ao refletirmos sobre princípios do Documento Base, o PROEJA poderá se posicionar diante do desenvolvimento local, que é um momento de articulação das práticas presentes na comunidade. O caminho seguido foi uma maneira por nós encontrada para contribuirmos com a análise do Documento Base e do plano de curso construído a partir deste Documento, adicionando inquietação e curiosidade a respeito da produção do conhecimento realizado pela escola e seu direcionamento, tentando, contudo, compreender sua ligação com o contexto local e sua capacidade de promover desenvolvimento. Deste modo, tentamos analisar o que estava sendo proposto pelo Documento estabelecendo princípios entre prática e teoria vivenciadas pelos alunos no seu cotidiano. Nossa pesquisa nos mostra que tudo está no início, nada está acabado quando discutimos assuntos referentes ao PROEJA. As experiências observadas e ouvidas durante a caminhada foram essenciais para nosso percurso até aqui. Acreditamos que dificilmente chegaríamos ao resultado esperado se tivéssemos percorrido o caminho sem os parceiros necessários. Como pesquisadoras, acreditamos e desejamos que nosso estudo permita que cada pessoa que o utilize possa reconstruir um pouco do que foi apresentado por nós. PROEJA: espaço de reflexão sobre a construção do desenvolvimento local na escola 261 Referências BRASIL. Decreto nº 5.840, de 13 de julho de 2006. 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Essa proposta de formação tem como principal objetivo contribuir para que os trabalhadores e trabalhadoras se tornem capazes de compreender a realidade social contribuindo para a construção de uma nova sociedade com interesses sociais e coletivos. A separação entre o ensino acadêmico e o ensino profissionalizante expressa uma profunda desigualdade social. A 1 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 266 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA proposta de um currículo que os integre (re) acende o debate2 sobre os vínculos entre trabalho, educação e articulação dos saberes produzido nesses dois espaços e ainda a relação dessa formação profissional e o desenvolvimento local no qual os trabalhadores/ trabalhadoras estão inseridos. É com base nesse debate que este texto apresenta as análises parciais da pesquisa de mestrado realizada no âmbito do Projeto CAPES/PROEJA com alunos trabalhadores da fumicultura na Escola Estadual Técnica de Agricultura – EETA em Viamão. Esta pesquisa pretende contribuir para os estudos que envolvem a oferta de cursos PROEJA3 para jovens e adultos trabalhadores do meio rural. Sobre a Pesquisa A pesquisa de mestrado em andamento, realizada na Escola Estadual Técnica de Agricultura – ETA4, inscreve-se na continuidade do trabalho de conclusão da Especialização em Educação Profissional Integrada a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA, realizada na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em Porto Alegre, sob o título "Aprender Para um Fazer Transformador: saberes que Os debates sobre a educação profissional, a partir do governo do Presidente Lula, passam a considerar a relevância de uma política pública de formação profissional do trabalhador integrada e articulada ao plano territorial. 2 3 No estado do Rio Grande do Sul a implantação do PROEJA dependia da manifestação do CEED/RS, o que o ocorreu no ano de 2011, através do Parecer nº 241/2011, que "Acolhe a implantação do "Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na modalidade de Educação de Jovens e Adultos – PROEJA" nas Escolas Técnicas e de Ensino Médio da Rede Pública Estadual do Rio Grande do Sul". Escola de Educação Profissional da Rede Pública do Estado do RS. Embora a ETA não tenha oficialmente cursos de Proeja, seu público e seu currículo apresentam aproximações com a proposta de currículo integrado proposto no PROEJA. 4 Cruzando as fronteiras dos saberes: do trabalho na fumicultura, da formação profissional... 267 formam e transformam" (2009)5 a qual teve como objetivo identificar se e como o aluno, trabalhador do campo, modifica ou "renormaliza"6 suas atividades de vida e trabalho a partir da formação profissional. Os resultados das análises apontaram que os alunos trabalhadores percebiam e reconheciam a articulação dos seus saberes da experiência de vida e trabalho com os saberes da escola e da formação profissional na EETA, renormalizando a partir dessa dialética, suas atividades de vida e trabalho. Os alunos consideraram, ainda, como relevante para a construção dos novos conhecimentos os projetos de pesquisa desenvolvidos por eles na escola. Na pesquisa, a partir desse primeiro estudo, me proponho olhar mais profundamente as questões relacionadas à produção de saberes no/do trabalho, os saberes escolares e o desenvolvimento local, focado nos trabalhadores da agricultura familiar na cultura do tabaco (fumo) através do projeto de pesquisa: "O Uso da Fécula de Batata Doce como Alternativa de Renda para Agricultura Familiar". Este projeto foi protagonizado pelos alunos como alternativa à monocultura do tabaco (fumo). A problematização da pesquisa, parte da "realidade concreta"7 de vida e trabalho na agricultura familiar, na cultura do fumo e do retorno destes trabalhadores a escola, no ensino médio e na formação profissional. A metodologia utilizada é a pesquisa qualitativa através do estudo de caso. Para a construção de informações e a produção dos dados estão sendo utilizados: a pesquisa documental, entrevista Artigo publicado no Livro Refletindo sobre o Proeja: Produções de Porto Alegre. Série Cadernos Proeja-Especialização Rio Grande do Sul. 2010. v. II p. 35-54. 5 Segundo Yves Schwartz, todo ser humano está exposto a exigências ou normas no meio em que se encontra. Para existir como ser singular, ele vai permanentemente re-interpretar essas normas que lhe são propostas. Fazendo isso, ele vai configurar o meio como o seu próprio meio. É o processo de renormalização que está no cerne da atividade (2008). 6 Realidade concreta segundo Freire [...] é algo mais que fatos ou dados tomados mais ou menos em si mesmo. Ela é todos esses fatos e todos esses dados e mais a percepção que deles esteja tendo a população neles envolvida. Assim a realidade concreta se dá a mim na relação dialética entre objetividade e subjetividade. (1999, p. 35). 7 268 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA semiestruturada e narrativas autobiográficas. As categorias centrais para análise nesse estudo são: trabalho, saberes, formação e desenvolvimento local. Os dados já produzidos permitem algumas reflexões que são aqui apresentadas. Os saberes da escola e os saberes da experiência do trabalho na formação profissional [...] se o trabalho é atravessado pela história, se "nós fazemos história" em toda atividade de trabalho, então, não levar em conta esta verdade nas práticas das esferas educativas e culturais, nos ofícios de pesquisadores, de formadores, nas nossas práticas de gestores, de organização do trabalho, e também nas nossas práticas de cidadão, é desconhecer o trabalho, é mutilar a atividade dos homens e das mulheres que, enquanto "fabricantes" de história, re-questionam os saberes, reproduzindo em permanência novas tarefas para o conhecimento (SCHWARTZ, 2003, p. 23). Na citação acima, Schwartz, estudioso do trabalho na perspectiva da ergologia, sintetiza o que atualmente está no centro dos debates sobre a educação profissional de trabalhadores e trabalhadoras: a reflexão sobre a formação profissional e a realidade concreta do mundo do trabalho e articulação entre os saberes produzidos nesses espaços. Nessa articulação proposta está a apropriação dos conhecimentos relativos à cultura, à sociedade, às ciências e ao domínio dos conhecimentos de cunho tecnológico, os quais são referência ao exercício de atividades técnicas e de trabalho indispensáveis para que esses/essas usufruam da tecnologia tanto para o desempenho de seu trabalho como também para seu bem estar. Outra questão que está no foco desse debate é a formação profissional enquanto alternativa viável que promova o desenvolvimento local e o enfrentamento das desigualdades socioeconômicas. Cabe destacar que a escola de educação profissional não será capaz de superar sozinha todas as desigualdades provocadas pelas Cruzando as fronteiras dos saberes: do trabalho na fumicultura, da formação profissional... 269 questões históricas do trabalho em nosso país. Nesse sentido, Fischer e Franzoi apontam que: Fruto de condicionamentos sociais maiores, a luta pela superação dessa desigualdade não se encerra no interior da escola. É necessário que esteja articulada a lutas por políticas de emprego, de ciência e tecnologia, que conduzam a outra forma de inserção do país no cenário internacional. [...] que requer da educação uma complexidade de respostas (2009, p. 39). Contudo, existe a compreensão de que o cotidiano da escola de educação profissional pode e deve constituir-se como espaço fundamental para que o aluno trabalhador construa seus conhecimentos, criando e apropriando-se de novas tecnologias, através de uma nova concepção de educação que "articule formação científica e sócio-histórica à formação tecnológica" (KUENZER, 2000. p. 34) [grifo da autora]. Compreendendo a escola como possibilidade de formação humana para construção de outras relações sociais, a mesma autora, considera que: [...] é nessa sociedade, com toda a sua carga de exclusão, é nessa escola, que a transformação tem o seu ponto de partida; negarse a analisá-la e a trabalhar seus espaços contraditórios significa sucumbir sob o peso do capital [...] se a escola quiser formar homens para a transformação que desejamos, deverá prepará-lo para enfrentar essa realidade não para ajustar-se a ela, mas para superá-la, destruindo as condições de exclusão e construindo novas relações sociais, nas quais todos sejam plenamente humanos e humanidade (2000, p. 354). Para que essa transformação ocorra é necessário o reconhecimento da desumanização como realidade histórica. A possibilidade de mudança está a partir da consciência e do desvelamento dessa realidade. Para Freire, não é possível refletir sobre educação sem refletir sobre o próprio homem, para o qual o processo de educação é sustentado pelo seu "inacabamento ou inconclusão": "Aí se encontram as raízes da educação mesma, como manifestação exclusivamente humana. Isto é, na inconclusão dos homens e na consciência que dela têm." (FREIRE, 2005, p. 84) 270 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Contribuindo com a reflexão sobre o trabalho escolar tornarse significativo para os alunos trabalhadores, reconhecendo, assim, os saberes construídos em suas experiências de vida e trabalho, Rummert aponta: [...] o que a escola oferece quase nunca é efetivamente valorizado porque se distancia do viver, dos inúmeros saberes adquiridos ao longo de existências marcadas por enormes esforços de sobrevivência, numa sociedade que não assume como tarefa fundamental a plena democratização do conhecimento, mas que, ao contrário, utiliza-o como instrumento de poder, como arma de discriminação (2002, p. 126). O distanciamento entre os conteúdos culturais e a realidade nos currículos escolares também está presente nos estudos de Santomé, que ressalta a: "[...] necessidade de que as questões sociais de vital importância, os problemas cotidianos, sejam contempladas no trabalho curricular nas salas de aulas e escolas." (1998, p. 9). Com essa mesma preocupação, Canário considera ainda que a maioria das aprendizagens significativas ocorre fora dos ambientes escolares, de modo informal, o que torna imprescindível a articulação dessas experiências aos processos pedagógicos. Essas reflexões levam o mesmo autor a considerar que para superar esse distanciamento entre o espaço escolar e o cotidiano de vida e trabalho dos alunos, será necessário [...] construir uma escola onde se aprenda pelo trabalho e não para o trabalho, contrariando a subordinação funcional da educação escolar à racionalidade econômica vigente [...] fazer da escola um sítio onde se desenvolva e estimule o gosto pelo ato intelectual de aprender, cuja importância decorrerá do seu uso para "ler" e intervir no mundo [...] (2008, p. 80). Assim, o autor ainda considera que a educação e o desenvolvimento só passam a ter sentido se estiverem diretamente voltados para preparar os indivíduos para compreenderem a si mesmos e aos outros através de um melhor conhecimento do mundo: Cruzando as fronteiras dos saberes: do trabalho na fumicultura, da formação profissional... 271 A questão do desenvolvimento não é hoje um problema de "eficácia" econômica, antes nos confronta com um problema civilizacional que recoloca no centro do debate questões da distribuição das riquezas, a redução e transformação do trabalho, o desenvolvimento de valores e de práticas sociais não baseadas na competição, nem na procura do lucro. [...]. (CANÁRIO, 1997, p. 7). O desenvolvimento local é fundamentado sob a perspectiva do desenvolvimento social, no qual as pessoas passam a ser a prioridade, valorizando o social e tornando os sujeitos protagonistas nesse processo de construção coletiva. A centralidade da construção do desenvolvimento se dá a partir de situações concretas e locais na qual: "[...] a acção educativa deverá ser hoje encarada como uma dimensão intrínseca dos processos de desenvolvimento local, multidimensionais e globalizados, ao nível de um território." (Ibid., p. 7). Schwartz coloca na discussão do desenvolvimento local as questões do desenvolvimento planetário, abordado na ergologia a partir do conceito da atividade humana, na qual o trabalho é uma forma historicamente específica "[...] o desenvolvimento só pode ser apropriado pelos povos e adaptados às realidades locais se for concebido e concretizado a partir das actividades humanas, em geral, do trabalho em particular." (SCHWARTZ, 2007, p. 17). A atividade humana é produtora de normas e está sempre em negociação com as próprias normas da atividade, cada ser humano, principalmente no trabalho, tenta recompor o meio em função do que ele é, do que ele desejaria que fosse este meio. "[...] cada ser humano – e principalmente cada ser humano em trabalho – tenta mais ou menos [...] recompor, em parte, o meio de trabalho em função do que ele desejaria que fosse o universo que o circunda" (SCHWARTZ, 2007, p. 31). Cruzando as Fronteiras dos Saberes Os trabalhadores no cultivo do fumo nascem e crescem praticamente em contato com a cultura do fumo, se desenvolvem tendo em mente que o cultivo do fumo é a única maneira de viver 272 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA com uma renda suficiente para suas necessidades básicas. O medo de mudar ou inovar, na maioria das vezes por falta de informação ou formação, faz com que os fumicultores fechem os olhos para o mundo e acomodem-se, não encontrando alternativas viáveis em curto prazo e submetendo-se ao domínio e a exploração, no qual o trabalho está regulado pelo capital. As questões que envolvem a indústria do tabaco e as desigualdades em que se encontram os alunos trabalhadores representam as consequências do desenvolvimento histórico do capitalismo no Brasil e a dependência aos grandes centros hegemônicos do capitalismo mundial. Ao produzirem suas autobiografias8 quando ingressam na escola, os alunos contextualizam esse cotidiano. Esses sujeitos protagonizam uma história por vezes cruel e perversa já considerada como destino dado, como uma herança em aderência ao vivido no aqui e agora, que se arrasta pela história familiar. No desenrolar desse cotidiano, estão as tensões, as contradições, os conflitos e o poder centrado na acumulação do capital pelo processo de industrialização das empresas fumageiras, que invadem o campo passando a impor a lógica de mercado à vida e ao trabalho desses agricultores, o que acaba, muitas vezes, afastando-os da escola, como aconteceu com Jardel: A iniciação no trabalho rural se dá muito cedo [...] tu acaba perdendo tua infância, tua adolescência [...] na época de safra tu não tem dia nem final de semana, na realidade tu não percebe quando tu começa a trabalhar na lavoura [...] tu começa a trabalhar com um serviço mais leve, mas, quando tu percebe mesmo tu tá envolto em um sistema que envolve toda a família [...] a fumicultura hoje é uma cadeia produtiva que escraviza o produtor. O produtor que eu falo é toda a família: pai, mãe e filhos, sejam eles maiores ou menores... Na verdade eu nem percebi quando iniciei a trabalhar, quando me dei por conta eu já tinha perdido a vontade de estudar (entrevista - Jardel). O que Jardel relata reafirma as desigualdades apontadas pelos índices de escolaridade entre meio rural e urbano, mais 8 A redação de uma autobiografia é uma das etapas do processo para a classificação dos alunos candidatos ao ingresso à escola. Cruzando as fronteiras dos saberes: do trabalho na fumicultura, da formação profissional... 273 especificamente também confirma os dados da pesquisa realizada pelo NUPES/UNISC9 para a AFUBRA10, a qual aponta que a média de escolaridade dos fumicultores é a 7ª série11, ou seja, 89,9% dos trabalhadores não têm o ensino fundamental, 1,2% não completaram o ensino médio e apenas 2,1% desses trabalhadores concluíram o ensino médio. Entretanto, por vezes a mesma história desses sujeitos é de esperança ou, mais ainda, de desejo, vontade, de coragem em transgredir, para transformar essa história inacabada. Assim, no protagonismo desse viver o aqui e o agora, eles vislumbram uma possibilidade de (re) escrever, de (re) inventar essa realidade, (re) construindo a sua própria história como Jardel continua a em seu relato: Meus pais desde sempre plantaram fumo e comigo não seria diferente, porém aos 22 anos decidi que não queria aquela vida pra mim [...] eu parei seis anos de estudar. Quando pensei em voltar a estudar, eu tinha muitas preocupações, eu pensava na questão idade, porque o jovem está ingressando com 15, 16 anos no ensino médio e eu tinha 22 anos, será que ei ia ser aceito pelos meus colegas? Depois eu pensava será que eu ia acompanhar quem saiu o ano passado da escola? Vou conseguir ter o mesmo nível de aprendizado? Foi difícil pensar em voltar depois de seis anos, mas quando a gente quer, não faz do limite um problema pelo contrário faz desse limite uma conquista (entrevista – Jardel). Com Eder também não foi diferente: [...] eu conclui o ensino fundamental e parei de estudar três anos. Decorrente desse tempo eu ajudei o meu pai na fumicultura, eles são plantadores de fumo. Eu sempre tive a vontade de fazer um curso técnico de agricultura. Certo dia parei e pensei: o que estou fazendo da minha vida? Senti necessidade de tomar um rumo. Fui trabalhar em uma fazenda 9 Núcleo de Pesquisa Social da Universidade de Santa Cruz do Sul 10 Associação dos Fumicultores do Brasil Na época era o termo utilizado pela LDB 5692/71. Corresponde hoje ao Ensino Fundamental incompleto (8º ano) 11 274 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA e no decorrer do tempo ia vendo que sem estudo não teria certa estabilidade em minha vida. Daí a ideia de estudar e aprimorar o conhecimento. Foi aí que conheci a ETA e gostei, no momento em que tu está juntando o útil com o agradável, tu faz tudo com vontade, tu te dedica mais. E isso é muito interessante (entrevista rádio –Eder). Essas desigualdades entre o urbano e o rural abrangem os aspectos culturais, o modo de vida, a escolaridade e principalmente, as questões do trabalho no setor produtivo envolvido nesse território. No meio rural o pouco valor da educação e a não exigência de qualificações para as atividades de trabalho colaboram para manter a distinção e discriminação entre o trabalho intelectual e o trabalho manual. O trabalho está presente nas vidas desses alunos desde muito cedo, no qual o "fazer" do trabalho é transmitido de pai para filho. Isso não quer dizer que não existam saberes nesse trabalho, pelo contrário, "[...] é inegável o 'saber' adquirido pelo homem do campo em relação ao seu trabalho [...] saber e trabalho alinham-se em um sentimento único de sobrevivência material e de valores [...]" (LEITE, 2002, p. 72). Essa situação de vida, trabalho e de saberes está expressa nas falas desses alunos em suas autobiografias: [...] eu aprendi a trabalhar ainda na minha família, [...] iniciei aí o meu primeiro serviço na área da agricultura, mais precisamente na cultura do fumo [...] trabalhei dois anos para mim como empregado na área fumageira, agora estava trabalhando com meu pai novamente. [...] Eu já sabia das tarefas que deveriam ser feitas em casa ou na condução de uma lavoura (desde o preparo até a colheita), principalmente na cultura do fumo, que é a principal na minha região. Este aprendizado, num primeiro momento, foi passado de pai para filho. Depois, foi necessário um orientador técnico, devido às transformações no mercado (1º autobiografia-Jardel). Trabalhei primeiramente com meus pais no cultivo do fumo, milho etc. Depois, fui trabalhar em uma fazenda de criação de gado de corte e plantação de arroz. Na fazenda, eu trabalhava como operador de máquinas agrícolas, aplicação de veneno, adubações, etc.. Também ajudava no manejo do gado. Tudo o Cruzando as fronteiras dos saberes: do trabalho na fumicultura, da formação profissional... 275 que aprendi antes de chegar na ETA devo muito a meu pai (2ª autobiografia-Eder). As histórias de vida e de trabalho desses alunos carregam heranças culturais, patrimônios locais que remetem a construção de saberes e valores, que escrevem e (re) escrevem a história singular de cada um deles estabelecidas na relação com esse meio ou território. Esse conjunto de fatores, na ergologia, é chamado de "aderência", ou seja, esses encontros com os meios de vida mediados pelos valores de cada um desses sujeitos. Eu fui conhecer uma cidade grande aos dezoito anos [...] foi uma experiência dura para mim, foi um 'baque', partindo de uma coisa simples, a educação, a cultura das pessoas do meio urbano é diferente, os valores são diferentes. A adaptação é muito difícil, eu não consegui ter essa adaptação [...] para ti mudar, não precisa ser radical [...] eu contínuo no setor primário, mas busquei um aperfeiçoamento, uma profissionalização. O que me levou a seguir na agricultura, eu posso dizer foi a questão de eu já ter a experiência do trabalho rural (Jardel). Ao confrontar-se com situações em que seja necessário (re) combinar saberes e experiências, como a situação relatada por Jardel, coloca-se em evidência o encontro e um debate de normas sobre vida, atividade de trabalho, costumes, cultura, valores e projetos de vida, fazendo com que se encontrem alternativas para superar essa situação, o que pode surpreender e criar novas condições para o meio no qual se encontram. A ideia do projeto desenvolvido por esses dois alunos surge dessa necessidade de buscar alternativas para o enfrentamento da situação na qual eles se encontravam. Isso os motivou e ainda mobilizou seus conhecimentos e experiências anteriores na agricultura. [...] eu acho que tu tem que ter uma motivação, nós tínhamos uma necessidade, então nós fomos de encontro a essa necessidade que era a do meio rural, onde nós temos raízes. Pensando nisso [...] antigamente se produzia o milho, o aipim e se produzia a própria farinha, [...] pensando em produção alternativa, em fazer um aproveitamento do que se produz na 276 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA pequena propriedade, reutilizar essa produção de forma diferente. O que nós encontramos aqui na escola foi um incentivo para melhorar esse pensamento, e aqui dentro [escola] nós melhoramos essa ideia (entrevista - Jardel). Nas diversas situações de trabalho, encontram-se saberes historicamente acumulados, normas de vida e de trabalho que se (re) inscrevem na história. Essa história é sempre singular e em parte "uma (re) invenção local", pois nunca haverá uma única forma de fazer as coisas e isso implica em escolhas, riscos, responsabilidades, mas também faz surgir daí, reservas de alternativas. (SCHWARTZ, 2008) [...] o nosso projeto visa à agricultura familiar, até porque mesmo esta agricultura familiar precisa de incentivos, é o nosso trabalho como estudante e como futuros técnicos auxiliar essa área. A batata-doce tem um custo de produção baixíssimo. Como assim? Ela é um produto altamente resistente a pragas e doenças, o que possibilita que o pequeno agricultor não use um grande índice de agrotóxico, tornando então o custo de produção baixíssimo. A rentabilidade por hectare plantado também é um item positivo do nosso projeto, chegando a até 15 mil quilos por hectare. Então nós temos um custo de produção baixíssimo e uma rentabilidade altíssima (entrevista rádio - Eder). Se nós formos comparar com o trigo... Nós não fazemos apologia contra o trigo, até porque nós sabemos da capacidade nutricional que o trigo tem, mas a gente procura novidades, alternativas. Mas vamos fazer uma comparação. Com o maquinário utilizado na produção do trigo, com a mão de obra, com os agrotóxicos, com os adubos... se nós formos comparar tudo isso com a produção da batata-doce e mais com a produtividade, só por si nós teríamos um projeto que traria, para a agricultura familiar, uma sustentabilidade e uma alternativa mais (entrevista rádio – Jardel). O que os alunos propõem é uma alternativa de produção à pequena propriedade, com o objetivo da diversificação da monocultura nas regiões fumageiras, região de origem dos alunos. Eles desenvolveram uma forma artesanal para extração e produção Cruzando as fronteiras dos saberes: do trabalho na fumicultura, da formação profissional... 277 da fécula e da farinha da batata doce com o objetivo do aproveitamento na confecção de produtos coloniais e ainda a utilização da fécula como espessante natural na fabricação de bebida láctea. Essa proposta dos alunos nasce dessa realidade de vida e trabalho, de uma experiência carregada de valores e aspectos culturais do meio rural. No início do projeto o principal foco era fazer farinha, daí fizemos com alguns tubérculos, com abóbora e, ao fazer com a batata-doce, [...], ao armazenar o líquido em um recipiente, quando nós fomos tirar esse líquido [...] nós observamos que tinha um produto branco no fundo do recipiente, daí iniciou todo um estudo e uma pesquisa em cima desse produto [...] A fécula da batata-doce são as partículas menores de uma farinha. Ela tem a mesma textura do amido de milho. Ela tem a mesma textura do amido de milho, porém ela não contém glúten e as condições nutricionais dela são bem mais elevadas que as do amido de milho (entrevista na rádio – Eder). O projeto "Uso da Fécula e da Farinha de Batata Doce como Alternativa de Renda para Agricultura Familiar" materializa essa combinação, essa dialética entre saberes da experiência, ou seja, o saber pessoal colocado em prática nas situações de trabalho, com os saberes acadêmicos da formação profissional. Isso leva a considerar o que Saviani aponta ser o papel fundamental da escola de ensino médio a de "[...] recuperar a relação entre o conhecimento e a prática de trabalho" (SAVIANI, 2007, p. 160.) A professora Jane, orientadora do projeto, faz referência a esse encontro de saberes da escola e da prática de trabalho. [...] esses conhecimentos da prática, eles trouxeram de casa, lógico que aqui na escola, com outros conhecimento, com outras informações, fez aflorar mais isso. Na escola eles tiveram um ambiente favorável para desenvolver essas potencialidades adormecidas. Mas, essa bagagem, veio de casa. Aqui o que nós fizemos? Nós só desenvolvemos essas possibilidades. [...] eles trouxeram uma realidade que eles já conheciam que era a produção de farinha, eles tinham a preocupação de melhorar a qualidade da alimentação, o próprio Jardel disse que isso foi se perdendo, porque segundo ele "se criou comendo pães com a 278 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA farinha produzida pelos próprios avós" isso foi o que motivou a pesquisa em cima das farinhas (entrevista - Jane). O relato da professora também corrobora a compreensão de Schwartz de que toda atividade humana é produtora de normas e está sempre em negociação com as próprias normas da atividade. Cada ser humano, principalmente no trabalho, tenta recompor o meio em função do que ele é, do que ele desejaria que fosse esse meio. Então, "[...] a ideia de atividade é sempre um 'fazer de outra forma', um 'trabalhar de outra forma'" (SCHWARTZ, 2007, p. 35). Contudo esse fazer de outra forma não é um fazer mecânico desconectado de pensamento. Para Barato "para serem atividades precisam de uma conexão com as estruturas cognitivas dos sujeitos. [...] atividade de sujeitos que elaboram e reelaboram continuamente o conhecimento". (2004, p. 29). Meu foco era adquirir certo conhecimento e transmitir para minha comunidade. Mas, com o decorrer do tempo parece que me caiu a venda dos meus olhos, e agora vejo as coisas diferentes. Pretendo ir mais além, conhecer novos lugares, levar e trazer diferentes conhecimentos técnicos. Acho que minha história se encaixa perfeitamente com a escola e o curso que me oferece conhecimentos técnicos de coisas que só sabia fazer na prática (2ª autobiografia - Eder). [...] Antes eu sabia fazer o trabalho, hoje continuo fazendo o mesmo trabalho, porém com uma significativa mudança. Hoje eu entendo porque fazer certas práticas, quais os seus ganhos e quais as melhores maneiras de garantir uma sustentabilidade financeira e ecológica (2ª autobiografia - Jardel). Na ETA, o desenvolvimento de projetos de pesquisa tem possibilitado troca de experiência e conhecimentos entre professores e alunos e a produção de novos saberes, orientando a busca de soluções práticas para as atividades de trabalho dos alunos. Essa prática pedagógica tem modificando não só os alunos, mas, também os professores. A escola, o diretor, os professores dão muito apoio aos projetos de pesquisa que tenho a iniciativa de inovar de criar alternativas. Cruzando as fronteiras dos saberes: do trabalho na fumicultura, da formação profissional... 279 [...] a professora nos ensinava muito e agente ensinava muito ela, porque ela um conhecimento aqui e nós tínhamos um conhecimento lá de fora. Nós fomos nos descobrindo, tanto aluno quanto professor e isso foi muito bacana! Porque nós tínhamos uma toca de ideias (entrevista – Jardel). E outra coisa que eu tenho que reconhecer e agradecer foi o meu [professora] crescimento também com eles. Porque a experiência trazida por eles de casa, da vivência deles no campo, coisas que eu também sou do interior, mas são coisas que eu não conhecia... Esse crescimento que houve, essa troca de experiências foi muito boa (entrevista - Jane). Essa troca de conhecimentos extrapola a escola, pois os alunos compartilham com a família essas possibilidades de conhecimentos gerados a partir dessa confluência de conhecimentos e experiência de trabalho que os projetos envolvem. Eder fala sobre a importância do diálogo em casa com o pai, como Eder afirma a opinião do pai conta muito pela prática que esse tem: Agora eu chego em casa, aos finais de semana, troco uma ideia, oriento o pai: "quem sabe a gente faz assim, né"? E ele também fala, pela prática também conta muito, pela prática que ele tem. E aí nós conversamos e dialogamos (programa técnica rural – Eder). Segundo Paulo Freire, "a práxis é reflexão e ação dos homens sobre o mundo para transformá-lo" (2005, p. 42.). Nesse sentido, a reflexão dos alunos sobre o seu cotidiano, sobre aquilo que era conhecido por eles foi imprescindível para que compreendessem as relações envolvidas em seus contextos de vida e trabalho. Com isso, foi possível (re) significar os conhecimentos e as experiências, possibilitando aos sujeitos da aprendizagem elaborar alternativas buscando uma transformação social não só para eles e suas famílias como também em suas comunidades. No início do projeto nós tínhamos toda uma preocupação de fazer um projeto que fosse viável, que tivesse um custo de produção, mas também tivesse um custo benefício. E o nosso projeto é um projeto que se enquadra bem na agricultura familiar pela batata-doce ocupar pequeno espaço na 280 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA propriedade. Então em pequenas propriedades de três, sete, dez hectares, ele é um projeto que ele se enquadra bem, e também não tem uma mão de obra muito elevada (entrevista rádio Eder). Para além da formação técnica profissional, os alunos buscaram desenvolver uma tecnologia alternativa à monocultura, à dependência a de produtos químicos, visando à sustentabilidade, agregando valor a produtos considerados de valor reduzido, criando alternativas para o desenvolvimento local nas regiões fumageiras. Essa tecnologia criada a partir de saberes do contexto históricosocial "por meio de saberes recombinados, produzidos, transmitidos ou deixados em repouso, é uma experiência, uma tentativa permanente de fabricação de um "viver em comum". (SCHWARTZ, 2003, p. 28) [...] assim como minha formação pessoal se deu dentro da agricultura familiar, é meu sonho um dia trabalhar voltado para esta área. Quem sabe ajudar tanto quanto já fui ajudado pela agricultura familiar, e a Escola me proporciona esta oportunidade. Quero muito poder contribuir para o desenvolvimento da agricultura familiar e pretendo colocar em prática tudo o que aprendi na Escola (2ª autobiografia -Jardel). O projeto protagonizado pelos alunos trabalhadores pode apresentar-se como uma perspectiva para o desenvolvimento local nas regiões fumageiras. Na centralidade da construção do desenvolvimento local estão as situações concretas, nas quais os sujeitos de uma determinada população ou comunidade tornam-se agentes de desenvolvimento que exigem uma resposta no nível da ação para a construção de um conhecimento, identificando assim os meios para superar essa situação. [...] o próximo passo do projeto seria implantar aqui em Venâncio, pra ter tipo de um custeio para o produtor, quando o fumo não fosse bem, ele ter outra parte que pudesse custear. E a ideia seria formar pequenas cooperativas para a produção de batata e comercializar isso aqui, beneficiar ela aqui na região, na cidade, e, após, vender para empresas de laticínios (entrevista rádio-Eder). Cruzando as fronteiras dos saberes: do trabalho na fumicultura, da formação profissional... 281 A ideia, como diz o Éder, seria direcionar essa fécula para empresas de laticínios. É sabido que a região é rodeada por empresas de laticínios, que têm uma bacia leiteira com forte expressão. Então esse subproduto da batata-doce seria uma alternativa mais de produção e de renda para a agricultura familiar, para esse pequeno produtor [...] (entrevista rádioJardel). As citações mostram que o processo educativo contribui para a construção de projetos de vida voltados não somente ao desenvolvimento profissional, mas também social, na perspectiva do desenvolvimento local. O projeto proposto pelos alunos demonstrou a viabilidade da produção para a pequena propriedade rural, contribuindo para o desenvolvimento a sustentabilidade do sistema produtivo familiar, o que despertou interesse pela implantação do projeto na cidade de origem desses. No âmbito da escola, houve mudanças significativas decorrentes do projeto, os processos de produção de derivados do leite foram melhorados, a aceitação por parte do consumidor aumentou, os custos de produção foram reduzidos, viabilizou-se economicamente a agroindústria com produto sustentável e principalmente a construção de novos conhecimentos para toda a comunidade escolar. A problemática que se coloca nas questões de desenvolvimento local são amplas, abrangendo além da dimensão social, as dimensões políticas e econômicas. E estas não são ignoradas por estes trabalhadores, eles têm a consciência de que a implantação desse projeto precisa de incentivos e apoio dos gestores locais e que certamente a influência das grandes empresas pode trazer dificuldades. Mesmo assim, esses alunos trabalhadores têm a expectativa da implantação desse projeto em suas comunidades como uma forma de diversificar a monocultura em busca de melhores condições de vida e trabalho de suas famílias. Considerações Finais As análises dos dados, mesmo que iniciais, sinalizam que os alunos sujeitos desta pesquisa estão enfrentando o desafio de cruzar 282 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA as fronteiras entre os saberes do trabalho e os saberes da formação profissional. Nesse enfrentamento da realidade concreta da formação e da elevação da escolaridade está o resgate de saberes e valores que pareciam ter perdido o sentido para estes sujeitos. Nesse sentido ou na ressignificação desses saberes está a potencialidade para criar um movimento de enfrentamento dos problemas vivido e de seus projetos de vida, tornando-os agentes de intervenção e de desenvolvimento nessa realidade. É na concepção humana que está à condição de homem como um ser integral, cidadão capaz de refletir e atuar sobre a realidade e, dessa forma, participar ativamente na história da sociedade da qual faz parte e na construção de sua própria história. Nessa perspectiva, os processos educativos não podem ser pensados isoladamente da realidade histórica social em que os sujeitos estão inseridos. Destaco aqui a importância em proporcionar nos espaços da formação profissional a dialética entre esses saberes. Isso significa uma ruptura no paradigma da pura transmissão de conhecimentos constituídos e abrir o espaço para que os alunos trabalhadores também produzam saberes a partir de suas experiências, fazendo com que a escola assuma o seu sentido educativo. Pensar a oferta de cursos de PROEJA (re)coloca, no âmbito do trabalho escolar, novas questões a serem incorporadas à prática cotidiana da formação profissional e à educação dos jovens e adultos trabalhadores. Será necessário (re)configurar esse meio escolar, com uma nova maneira de pensar e fazer esse "trabalho" pedagógico, de forma singular, individual ou coletiva. Essas atividades estão sendo apreendidas nesse movimento de mudança que implicam em escolhas, e em valores, sobre os quais professores/professoras, alunos/alunas estão produzindo uma nova história com novos saberes. Referências BARATO, Jarbas Novelino. Educação Profissional: saberes do ócio e saberes do trabalho? São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2004. 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MEMÓRIAS, TRAJETÓRIAS E LEGADOS DOS ESTUDANTES-TRABALHADORES NO ESPAÇO ESCOLAR Fernanda Zorzi1 Juraciara Paganella Peixoto2 Naira Lisboa Franzoi3 Introdução [...] reconhecer a diferença entre os sujeitos individuais e sociais não é mesmo que legitimar a desigualdade. Pelo contrário, toma-se própria diferença, sobretudo, aquela que é fruto da desigualdade, como ponto de partida real para sua autosuperação naquilo que diz respeito ao sistema educativo. Sabemos que a desigualdade não é gerada na escola, mas na sociedade. A escola pode reforçá-la ou contribuir para sua superação (FRIGOTTO, 2005, p. 248). Compreender que os estudantes-trabalhadores, jovens e adultos, trazem para o espaço escolar conhecimentos que vão além daqueles tidos como científicos significa valorizar outros saberes que constituem esses sujeitos e reconhecer suas potencialidades no 1 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. 2 Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. 3 Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 286 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA processo de ensino e de aprendizagem nesta modalidade de ensino. Para que esses conhecimentos sejam percebidos e valorizados no ambiente acadêmico, é necessário estabelecer um diálogo entre eles e isso só é possível na medida em que se assume uma postura epistemológica e ontológica que foge dos padrões tradicionais: Epistemologicamente seria reconhecer e valorizar outro tipo de conhecimento para além do conhecimento sistematizado, socialmente valorizado. [...] denominado como conhecimento tácito. [...] o trabalhador, ainda que de forma assistemática, produz conhecimento, elabora um saber sobre o trabalho, que não é apenas constituído de noções de sobrevivência e relacionamento na selva competitiva do mercado de trabalho, mas que é também técnico (ARANHA, 2003). O PROEJA se apresenta não somente como um desafio político, mas também como desafio pedagógico. Insere-se no reconhecimento do direito a uma educação pública, gratuita e de qualidade nos sistemas de ensino. Não se trata de uma ação assistencialista e reparadora, mas um direito à educação e à educação profissional. Essa articulação coloca exigências maiores do que a pura instrução e instrumentalização poderiam realizar. Os estudantes-trabalhadores, mais do que adquirir conhecimentos, precisam constantemente recriá-los, o que requer outra relação com o saber, a qual vai além do paradigma cartesiano. Instruir, somente, é muito pouco, uma vez que os saberes construídos no trabalho vão além das informações e habilidades propiciadas por cursos e treinamentos. A busca por outro sentido para o trabalho no contexto escolar implica segundo Canário (2008, p. 79) na "[...] construção de um novo sentido para o trabalho [...]". Dessa maneira, considerar o trabalho como experiência formadora a partir do olhar da escola permite pensar como se dá o processo da aprendizagem no e pelo trabalho e possibilita visualizar essa relação na sua totalidade, no sentido de provocar a crítica epistemológica ao fazer pedagógico, condição necessária, mas não suficiente, para o movimento de transformação que se propõe. Para este autor: Memórias, trajetórias e legados dos estudantes-trabalhadores no espaço escolar 287 A construção de uma "outra" educação que represente uma saída positiva para as dificuldades atuais supõe a nossa capacidade de agir em dois sentidos que, já na aparência, são contraditórios. Por um lado, agir no sentido de superar a forma escolar, e, por outro, agir no sentido de reinventar a organização escolar, o que implica um terceiro eixo de ação, o de construir uma nova legitimidade para a educação escolar. (CANÁRIO, 2006). Interessa-nos, ao considerar o 'educativo', desvelar o processo da construção dos saberes que circulam no espaço de trabalho e potencializam os saberes que até então, aparentemente pertenceriam somente ao espaço escolar. Desta forma, considerar as experiências de trabalho vividas pelos trabalhadores dentro e fora do espaço escolar, sem deixar de considerar a contribuição singular dos atores envolvidos nas situações de trabalho, torna-se uma tarefa necessária da escola. A experiência com os estudantes-trabalhadores do PROEJA mediadas pelas leituras de Schwartz, mostra que, embora os trabalhadores comecem a estudar por garantia ou melhoria da empregabilidade fazendo 'uso de si por outros', a escolarização faz com que eles se envolvam com o processo de estudo e passem a fazer 'uso de si por si', percebendo a relevância da educação para a melhoria da qualidade de vida, resgate da autoestima e valorização de sua ação no seu processo de desenvolvimento social, moral e intelectual. É imprescindível não somente reconhecer e valorizar os saberes dos sujeitos, mas também criar oportunidades para que esses encontrem espaços de relações com os saberes escolares no sentido da busca por uma escola com cheiro de gente e com sabor de vida, propostos por Paulo Freire. O exercício da escrita dos "Memoriais Formativos", como ação proposta para os referidos estudantes, compreende a análise das trajetórias escolares, pessoais e profissionais dos estudantestrabalhadores, buscando promover a reflexão sobre o processo pessoal de constituição da identidade profissional e acadêmica, além de favorecer a compreensão das relações consigo, com o outro e com a sua profissão. Tal ação faz parte da opção metodológica praticada nos cursos de PROEJA da Instituição, a construção da 288 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Rede Temática e do detalhamento das atividades desenvolvidas em sala de aula. Trata-se de um trabalho coletivo do grupo de professores destinado a cada um dos grupos de estudantes. Esta forma de organização curricular provoca o olhar sobre as especificidades de cada um dos contextos e possibilita a organização do processo relativo à realidade observada. Por exemplo, destacamos, dentre outras, a elaboração, pelos estudantes do Proeja Formação Inicial e Continuada em Economia Solidária de um roteiro de entrevistas, coleta de depoimentos e montagem de um documentário relativo ao processo de formação das turmas de Proeja Fic em Economia Solidária do município de Garibaldi. Essa ação proporcionou àqueles a reflexão sobre o próprio processo de formação, provocando a busca pela pesquisa sobre a relação entre o processo de formação e o cotidiano de trabalho dos entrevistados, desencadeando novas reflexões e originando um novo documentário. Se para o 'mercado de trabalho' a escolarização de seus trabalhadores significa custo/benefício, aumento de produtividade, concorrência, competição, controle sobre o processo de trabalho e, principalmente sobre a força de trabalho, para os trabalhadores representa a possibilidade de desenvolvimento de potencialidades e de emancipação; favorece maior domínio no processo de trabalho por sistematizar os saberes nele produzidos e promove a relação do saber com o fazer. As entrevistas feitas com os estudantes do PROEJA evidenciam que voltar para o espaço escolar possibilita para esses estudantes-trabalhadores o contato com o saber que está em constante processo de construção. A experiência da escolarização constitui novas relações sociais e forja relações diferenciadas em seus processos de subjetivação, no nível pessoal, familiar, social, além de modificar as relações no ambiente de trabalho. Articular a escolarização e o trabalho, no contexto do PROEJA, tem um sentido pessoal de alargamento de horizontes, promoção da reflexão sobre o processo de trabalho, melhoria nos relacionamentos interpessoais, desenvolvimento da consciência de coletividade, possibilidade de intervenção na realidade e de melhoria da qualidade de vida. Memórias, trajetórias e legados dos estudantes-trabalhadores no espaço escolar 289 A experiência do trabalho enquanto fundamento dos saberes escolares Vive-se em uma sociedade em que o trabalho confere dignidade ao homem: para ser cidadão é preciso ser trabalhador. Schwartz, (2003, p. 24) sugere a necessidade de compreender "[...] como nós produzimos a nossa vida na atividade de trabalho." É possível, através do trabalho, conseguir a emancipação, o desenvolvimento das potencialidades humanas, socialização, mobilização das competências individuais, transformação da natureza, do próprio homem e da prática laboral, dentre outras. Enfim, Marx (1985, p. 18) considera que o trabalho é uma atividade especificamente humana e central para a produção da vida: "[...] o trabalho mesmo é uma atividade vital própria do operário, a sua maneira específica de manifestar a vida. E é esta atividade vital que ele vende a um terceiro para conseguir necessários meios de subsistência". No entanto, Marx (1985, p. 18) também alerta para o fato de que a atividade de trabalho capitalista, segundo o modelo de trabalho assalariado, onde o trabalhador o faz para sobreviver "[...] não é uma parte de sua vida, antes é um sacrifício da sua vida. É uma mercadoria que os outros usarão." Percebe-se o trabalho como uma atividade humana que está em constante disputa. Segundo Schwartz (2008, p. 44) nenhuma atividade de trabalho é pura execução, alienação ou repetição, acontece "[...] como negociação problemática das normas de trabalho no seio de uma pessoa humana, alma e corpo, biológico e histórico." O que queremos destacar é que a escola pode proporcionar este espaço de formação. Arroyo (1991, p. 1) desafia-nos a incorporar esses avanços no espaço escolar com o objetivo de atribuir ao trabalho, um novo significado a partir do olhar para o trabalho e para o trabalhador: "Se na pequena pedagogia escolar pouco avançamos, na grande pedagogia do trabalho e da práxis social houve grandes avanços". Neste sentido, Santos (2003, p. 142) sugere a distinção entre saber e conhecimento apresentando três dimensões deste deslocamento: o saber pode ser entendido como conhecimento formalizado, construído histórica e socialmente, autenticado como 290 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA conhecimento científico; como saber tácito, resultante da experiência e das histórias individuais ou coletivas dos indivíduos; e, a como inconsciente do saber, em que são articulados o sujeito do saber e o desejo de saber presentes nos atos e escolhas que o sujeito faz. Trata-se, muitas vezes de um não-saber, por isso não passível de ser nomeado. Optamos pelo uso do termo 'saberes' porque abarca a amplitude do processo de sua construção e não somente do produto, reconhece o caminho percorrido pelo sujeito para além de um conhecimento formalizado, acabado e academicamente legitimado. Para Canário (1991), todo o vivido no ambiente escolar e no mundo do trabalho é formação, por esta razão, a teoria não poderia ser considerada, cronologicamente, precedendo a prática ou o contrário. Acreditamos que ao buscar conhecer o estudante e pensar o espaço escolar sob o ponto de vista deste, o professor, enquanto pesquisador, torna o espaço escolar um terreno fértil para uma práxis capaz de transformar a realidade na busca de melhores condições de vida e trabalho, porque, para Freire (1996, p. 25) o professor pesquisador organiza, sistematiza, pesquisa o processo do estudante para compreendê-lo e ajudá-lo. Ensinar dialética, dialógica e problematizadoramente, implica investigar e agir simultaneamente com os envolvidos no processo educativo "[...] existe saber na invenção, na reinvenção, na busca inquieta, impaciente, permanente que os homens fazem do mundo, com o mundo e com os outros." (FREIRE, 2005, p. 67). Schwartz (2001) afirma, ainda, que para conhecer o trabalho faz-se necessário saber o que pensam e sabem aqueles que o executam, pois o conhecimento sobre o trabalho só pode ser alcançado por meio do conhecimento de quem vive as situações de trabalho, ou seja, os próprios trabalhadores. É, portanto, à singularidade, à subjetividade do trabalhador que devemos nos reportar quando falamos de um sujeito e de sua relação com o saber. (SANTOS, 1997, p. 24). O que ocorre na atividade de trabalho (SCHWARTZ, 2003) é a materialização do inacabado, da transformação. A possibilidade de Memórias, trajetórias e legados dos estudantes-trabalhadores no espaço escolar 291 criação de saberes produz e modifica o trabalho, reconhecendo que o trabalhador pensa e que sua atividade não é totalmente imposta ou previsível. Quando um trabalhador socializa ideias produzidas na ação, com o outro, ele incentiva os seus colegas de trabalho a produzirem também, favorecendo a legitimação dos saberes advindos da experiência do grupo. O saber vai se produzindo coletivamente e, de forma dinâmica, modifica a singularidade da atividade de cada sujeito. Para ele (1998), toda e qualquer aprendizagem traz consigo os ingredientes das experiências anteriormente adquiridas, as quais são requisitadas em uma nova situação de aprendizagem, caracterizando a competência de aprender. Para Charlot (2004): A educação é um triplo processo de humanização, de socialização, de subjectivação. Isso significa que as situações educativas devem ser pensadas em referência a essas três dimensões – e especialmente que a educação é ao mesmo tempo "reprodução" de posições sociais e história singular de um sujeito. Isso significa também que "aprender" é apropriar-se das formas diversas e heterogêneas sobre as quais se apresenta o que a espécie humana criou no decorrer da sua história: palavra, conceitos, teorias, quer dizer, objetos intelectuais existindo pela e na linguagem, mas também gestos, ações, sentimentos, emoções, maneiras mais ou menos intuitivas de compreender a vida (p. 23-24). A proposição de atividades que problematizam o trabalho no espaço escolar, não em nível de discurso, mas com uma postura de pesquisa, exige um processo de reflexão e avaliação constantes sobre o seu ensino e a sua aprendizagem: um olhar específico sobre os saberes em construção, levando em conta a sistematização insipiente e embrionária que acompanha a educação de pessoas jovens e adultas e, em contrapartida, às ricas experiências da vida e do trabalho que constituem estes sujeitos. Com Charlot (2001), entendemos que a relação entre o Eu empírico e o Eu epistêmico busca compreender como se opera a conexão entre o sujeito e o saber; como se processa a aprendizagem com o olhar no aprender. Para o autor, aprender é um movimento 292 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA interior que não pode existir sem o exterior. Portanto, ensinar é ação que tem origem fora do sujeito, mas só pode ter êxito se encontrar um movimento no seu interior. Aprender é uma construção de si que só é possível pela intervenção do outro. Neste sentido, ensinar é uma ação do outro que só tem êxito se encontrar um sujeito em construção. Esse movimento de construção de si, do mundo e do outro é que permite ao sujeito o acesso a um mundo não-natural, o da lei humana e o do símbolo. Toda a relação com o saber é também relação consigo. O sentido da aprendizagem está ligado ao sentido que o sujeito atribui a ele mesmo enquanto aprende. E, também, é relação com o outro, na medida em que imita, identifica-se e opõe-se, ou como fantasma do outro que cada um traz em si ou ainda como humanidade com suas criações ao longo da história. A relação com o saber é uma relação entre a atividade que a produziu e a atividade na qual o sujeito se engaja mediada pelo processo de formação. Trata-se de um caminho de mão dupla: na medida em que o sujeito se introduz nas relações que produziram uma atividade para dominar suas operações específicas (normatividade) e domina tais operações, vai assumindo, progressivamente, a postura que essa atividade permite. Assim, ao mesmo tempo em que a relação com o saber é um processo singular do sujeito, a relação com o aprender é um processo social, considerando que esse sujeito é, por sua constituição, um sujeito social e aquilo de que ele se apropria foi elaborado socialmente. A atividade humana produz, simultaneamente, obras e relações sociais, considerando os dois polos desta relação: a normatividade das atividades, ou seja, as operações exigidas para que a atividade atinja um fim visado; e sua normalização, que as conformam com certas normas sociais, sem, no entanto, confundi-las. A ênfase na negociação e construção conjunta de um projeto político-pedagógico e a valorização dos saberes que nem sempre são reconhecidos em outros espaços são aspectos importantes a serem dimensionados nos projetos de educação de trabalhadores. Memórias, trajetórias e legados dos estudantes-trabalhadores no espaço escolar 293 O contexto do PROEJA como campo de pesquisa O professor disserta Sobre ponto difícil do programa Um aluno dorme, Cansado das Canseiras desta vida O professor vai sacudi-lo? Vai repreendê-lo? Não. O professor baixa a voz Com medo de acordá-lo. (Carlos Drummond de Andrade) O Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos propõe a integração entre a Educação Profissional com o Ensino Médio – PROEJA e com o Ensino Fundamental – PROEJA FIC, direcionado às pessoas que não conseguiram concluir essas etapas na idade considerada apropriada. Esse programa foi implantado no IFRS – Campus Bento Gonçalves a partir do ano de 2006. Três turmas de Nível Médio concluíram o Curso técnico em Comércio e existem duas turmas em andamento: uma com ingresso em 2009 e outra em 2010, além da turma do Curso Técnico em Contabilidade destinado aos trabalhadores das Cooperativas dos assentamentos do Movimento Sem Terra que funciona sob o regime de alternância, no Instituto Josué de Castro do ITERRA na cidade de Veranópolis – RS. Buscando contribuir para a ampliação da oferta de formação para trabalhadores, a SETEC/MEC lança o convite às instituições da rede federal para colaborarem com a implantação do PROEJA FIC4 nos sistemas ou redes municipais de educação. O IFRS-BG estabeleceu parceria com nove municípios: Bento Gonçalves, Garibaldi, Salvador do Sul, Caxias do Sul, Canoas, Dois Irmãos, Novo Hamburgo, Capão da Canoa e Balneário Pinhal, totalizando sete turmas de formação de professores e trinta e oito turmas PROEJA FIC – Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos – Formação Inicial e Continuada (Nível Fundamental). 4 294 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA noturnas de formação Inicial e Continuada abordando as terminalidades profissionais de Administração, Comércio, Informática, Cumim (auxiliar de Garçom), Crecheiro, Economia Solidária, Panificação, Metal Mecânica e Construção e Reparos. É nesse contexto que o poema de Drummond retrata uma realidade recorrente nas escolas e, em especial, junto aos estudantestrabalhadores dos cursos em questão: o cansaço que expressa a existência, a sobrevivência e a experiência muitas vezes negligenciada nos espaços de formação acadêmica de reflexões e práticas educacionais. A experiência que forma, deforma, constitui e nos faz sermos o que somos. O custo de um sonho Trata-se de um projeto indisciplinar a partir do qual estudantes do Curso Técnico de Nível Médio em Comércio realizaram o estudo sobre a construção da casa própria. A atividade compreendeu discussões sobre a problemática da moradia no Brasil, a elaboração de um projeto de construção de uma casa, confecção da maquete, cálculo dos custos para sua execução no contexto do município de Bento Gonçalves e a apresentação dos resultados em vários espaços acadêmicos. O "Custo de um Sonho" envolveu, de forma mais efetiva, dois estudantes: M e N juntamente com a professora de Matemática do curso. M trabalha na indústria moveleira desde os dezesseis anos de idade e atualmente é um pequeno empresário da área. Buscou o PROEJA com o objetivo da conclusão do Ensino Médio e a Instituição pela qualidade de ensino e qualificação de seus professores. N atua na construção civil por mais de quinze anos como mestre de obras e buscou o PROEJA para crescimento profissional e acesso ao conhecimento, especialmente para acompanhar a escolarização dos filhos. Ao tomar conhecimento da história de vida e da trajetória profissional dos sujeitos, inicialmente pensou-se na proposição da temática da construção civil no sentido de trabalhar os conceitos relativos ao sistema de medidas (comprimento, área, perímetro, volume) e, matemática financeira, desenvolvidos no contexto do Memórias, trajetórias e legados dos estudantes-trabalhadores no espaço escolar 295 componente curricular de matemática. O desafio foi lançado aos dois estudantes/trabalhadores, pensando em "aproveitar" seus saberes profissionais para "ensinar" os colegas da turma. A proposta da professora referia-se a uma atividade bidimensional através do uso de um desenho de uma planta baixa, mas os estudantes visualizaram a atividade como tridimensional, propondo a confecção de uma maquete de madeira. Os estudantes escolheram a planta baixa da casa que estava sendo construída por N. Neste momento apareceu a primeira dificuldade: a transformação da escala da planta para a maquete. A interpretação feita pelos estudantes, durante o final de semana na oficina da empresa de M, inviabilizou o transporte da maquete para o espaço escolar devido ao seu tamanho. O retorno ao ambiente escolar provocou o primeiro momento de diálogo e a deliberação pela escala de 1 metro para 20 centímetros. A construção da maquete possibilitou o diálogo com uma estudante do Curso de Arquitetura e com o engenheiro com o qual N trabalha. Surgiram outros sujeitos, colegas da turma, professores, gestores da Instituição, familiares e amigos, potencializando as discussões e as construções. No decorrer do projeto os estudantes fizeram modificações na planta escolhida, adequando-a conforme suas preferências. Aspectos como acessibilidade, sustentabilidade e cultura regional apareceram na construção como formas alternativas de energia, captação da água da chuva, coleta seletiva do lixo, instalação de elevador residencial, horta ecológica, jardinagem, plantio de videira e cultivo de uva e a presença da 'churrasqueira' no 'porão' da residência. As discussões perpassaram outros componentes curriculares e o projeto alcançou a dimensão da turma e não somente de M e N. Para além dos conceitos da matemática, mobilizaram-se outros saberes necessários à execução do projeto: estudo da posição solar e uso da energia solar; jardinagem, decoração e paisagismo; cultivo de alimentos, construção da horta orgânica, plantio do parreiral e cultivo de uvas, a ocupação do 'porão' na casa como garagem e armazenamento de ferramentas, respeitando as tradições da região; quadra de vôlei, considerando o lazer e o incentivo à prática de esportes; captação da água da chuva, de energia solar e coleta seletiva do lixo, representaram a preocupação com a 296 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA sustentabilidade; elevador doméstico, para melhor acessibilidade; e churrasqueira, considerando a tradição gaúcha. Cada uma das construções foi acompanhada pela assessoria de profissionais da Instituição e sistematizada pelo grupo. Acompanhou-se o envolvimento de M e N de forma mais sistemática. Ambos afirmam que o projeto os desafiou a resolver problemas matemáticos de medidas, áreas, volume, custos, entre outros, mobilizando os saberes que possuíam com os novos saberes provocados pelo processo, além de agregar outros saberes. N desejava conhecer as "fórmulas utilizadas na escola para calcular as coisas que faz no trabalho, saber o que os engenheiros sabem", discutiram-se o uso do teorema de Pitágoras, a trigonometria, dentre outros conceitos de seu uso cotidiano na área da construção civil. Quanto ao uso das medidas de comprimento, destaca-se a forma de pensar de cada um dos sujeitos: N 'pensava' em centímetros e M em milímetros, o que fazia com que eles estivessem o tempo todo fazendo transformações para viabilizar o diálogo. M contribuiu com saberes relacionados a rotinas administrativas, além dos saberes do ramo da marcenaria. N envolveu-se mais com a resolução de problemas na construção da casa. A 'teoria' em ação ficou evidente no processo no encontro entre os saberes dos trabalhadores e os saberes escolares. Apropriar-se dos saberes produzidos no trabalho e sistematizar o saber escolar a partir desse facilitou a resolução dos problemas que surgiam na construção do projeto e ainda, segundo M, possibilitou que se sentissem como parte integrante e ativa no processo. Para M, estar no PROEJA o tornou um homem mais "antenado". Mesmo tendo experiências no 'mundo dos negócios', sentia que às vezes lhe faltava um pouco mais de "conversa". Com retorno à escola, a inclusão no PROEJA e a realização de projetos como este se sente mais seguro e menos "travado". N afirma que os saberes do trabalho o auxiliaram na construção da maquete e sua experiência o permitiu fazer adaptações e modificações na planta original. Da mesma forma, os saberes escolares facilitaram a compreensão dos problemas que surgiram. Declarou que busca na escola o saber sistematizado para melhorar a sua prática no trabalho: "Eu quero saber como se faz, usando as fórmulas, acho que isso dá mais segurança que esteja Memórias, trajetórias e legados dos estudantes-trabalhadores no espaço escolar 297 certo". M afirma que relacionar os saberes que já possui com os saberes sistematizados propostos pela escola tornam a aprendizagem mais interessante por aproximar a escola da vida real, qualificando-a. A construção do projeto permitiu aos estudantes ″vivenciar a relação teoria e prática″, de forma integrada e interdisciplinar mostrando-lhes a importância da ação do sujeito na construção dos seus saberes. Além disso, vislumbrou em N a perspectiva futura de cursar Engenharia Civil e potencializou o desejo de M na área de Gestão. A apropriação dos saberes dos estudantes/trabalhadores é fundamental nesse processo. Este programa lhes garantiu, não somente a possibilidade de conclusão do Ensino Médio, mas a inclusão social, a imersão do mundo do trabalho no espaço escolar e a sua emancipação pessoal e profissional. Durante a execução do projeto, e em conseqüência deste, abriram-se possibilidades de divulgação da experiência e originaram outros projetos igualmente potencializadores da relação pretendida. A participação de ações internas da Instituição, encontros estaduais e nacionais, eventos em universidades possibilitaram a integração com outros estudantes brasileiros, a trocas de saberes, o resgate da autoestima, a (re)construção e (re)elaboração dos saberes neles construídos. A abordagem dos saberes escolares a partir dos saberes dos trabalhadores, representa em elemento provocador do ensino integrado como uma proposta possível para este novo campo de estudo: a Educação Básica, a Educação Profissional e a Educação de Pessoas Jovens e Adultas. Algumas considerações O PROEJA traz tensões e possibilidades para as instituições que o gestam. A integração com a Educação Básica na modalidade de Educação de Jovens e Adultos suscita na Educação Profissional a discussão de categorias visíveis até então somente para a EJA, tais como gênero, etnia, opção sexual, éticas religiosas e convivência de estudantes de diferentes idades em um mesmo espaço escolar. 298 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Salienta-se como um "plus" do programa a possibilidade de um espaço de formação continuada dos técnicos administrativos, professores gestores da Instituição caracterizando a educação como integral do estudante. A parceria com as redes municipais de ensino e com a rede estadual de ensino a partir dos cursos de Especialização PROEJA e do PROEJA FIC proporcionou momentos riquíssimos de troca e construção teórica referente a esse novo campo da educação. O esforço de pesquisa através da constituição de grupos de pesquisa interno às instituições ou através do Capes/Proeja trouxe a possibilidade do monitoramento das ações e um olhar especial para ao fazer pedagógico no cotidiano do espaço escolar nessa modalidade de ensino. Todas estas ações nos remetem ao legado de Paulo Freire, especialmente no que diz respeito ao entendimento do estudante como um sujeito produtor de sua humanização capaz de construir seus saberes no e pelo trabalho. Procura-se entender as ações e o olhar de cada estudantetrabalhador no sentido de constituir-se e transformar a realidade em que está inserido abordando, nas circunstâncias vividas no espaço escolar, as ações executadas no mundo do trabalho, considerando as condições materiais, as relações sociais e as situações concretas do trabalho e da educação. O PROEJA tem garantido aos estudantes-trabalhadores não somente a escolarização, mas a inclusão social e a possibilidade de continuidade dos estudos através de um currículo que valoriza os saberes e promove uma prática pedagógica coerente com o propósito desse novo campo de estudo o qual articula a Educação Básica, a Educação Profissional e a Educação de Pessoas Jovens e Adultas. Referências ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho – Ensaio sobre afirmação e a negação o trabalho. SP: Bomtempo editorial, 2002. Memórias, trajetórias e legados dos estudantes-trabalhadores no espaço escolar 299 ARANHA, Antônia Vitória S. O conhecimento tácito e a qualificação do trabalhador. Trabalho & Educação. Belo Horizonte: Revista do NETE/FaE/UFMG, n. 2- ago/dez, 1997. ______. Trabalho, subjetividade, educação. Outrasfalas. Belo Horizonte: Escola Sindical 7 de Outubro/CUT, nº. 3, p. 54-63, agosto, 2000. ______. 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R. de Oliveira3 A presente pesquisa abrange as marcas formadoras e a reflexão sobre a importância da valorização das experiências de vida em cursos de formação como o PROEJA com foco nas experiências de algumas costureiras. Tal enfoque teve origem na vivência de duas linhas de pesquisa que envolvem as bolsistas de iniciação científica da Universidade do Vale do Rio dos Sinos UNISINOS, com a orientação da Profa. Dra. Maria Clara Bueno Fischer. Uma linha contemplava Saberes do trabalho em experiências de educação profissional e tecnológica integrada à educação de jovens e adultos no Estado do Rio Grande do Sul e a outra Pedagogias no e do trabalho associado: usos de si e circulação de valores e saberes de adultos trabalhadores. Com isso, optou-se por uma integração dos saberes da pesquisa, 1 Universidade do Vale do Rio dos Sinos. 2 Universidade do Vale do Rio dos Sinos. 3 Universidade do Vale do Rio dos Sinos. 304 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA ligando as experiências do saberes do trabalho associadas aos cursos de formação - no caso, o PROEJA. Esta pesquisa constitui-se num exercício de caráter exploratório sobre a prática de costurar, os conhecimentos adquiridos e a influência que a atividade exerce nas experiências de vida de algumas costureiras. Durante todo o processo de atuação, elas desenvolveram técnicas e regras próprias, sendo que, hoje, algumas se caracterizaram pelo padrão de qualidade e reconhecimento por parte da sua fiel clientela. Na costura entre prática e pesquisa, a reflexão das bolsistas foi ganhando arremates, a parte mais delicada deste trabalho. O estudo busca contemplar as percepções de cinco costureiras a respeito da arte de costurar, da própria relação com a arte, da cumplicidade com a profissão, da experiência, da autonomia, do mundo do trabalho e das marcas formadoras de cada uma. Procurou-se uma aproximação com o conceito de experiência formadora de Marie-Christine Josso (2004), que acredita que as experiências são significativas e formadoras para os indivíduos quando abordadas pelo ângulo das aprendizagens. Em um primeiro momento, foram coletados depoimentos de cinco costureiras de diferentes cidades: uma de Porto Alegre, uma de Dois Irmãos, uma de Sapucaia e duas de São Leopoldo. As idades variam entre 24 e 74 anos. As colaboradoras foram orientadas a falar a partir de um roteiro de perguntas a respeito de suas percepções acerca do ofício de costurar em suas vivências familiares e de trabalho. Em um segundo momento, realizou-se uma pré-análise do material obtido, com a intenção de aprofundar a análise de suas marcas formadoras no que diz respeito às suas vivências singulares de trabalho, de profissão e também sobre a questão feminina na arte de costurar, relacionada aos verbos que lembram bem a "arte" de "tecer", "confeccionar". É importante salientar que a performance de "costurar, bordar e outras atividades afins estavam fortemente relacionadas à intimidade do cotidiano, à casa. O ensino de técnicas de corte e costura eram uma exigência para formação de uma "verdadeira dona de casa": a arte da costura era passada às meninas de mãe para filha, estando elas relegadas à atividade de costurar. A arte de costurar: um olhar sobre as experiências de vida, um caminho para elevação... 305 Identificou-se, com isso, que quatro das cinco entrevistadas costuram para fora (como profissão) e estão envolvidas com seu ofício de tal maneira que não se imaginam parando de costurar. Para estas mulheres a costura é muito mais que uma profissão, é um elemento de satisfação pessoal, e não apenas uma maneira de alcançar uma posição no mercado de trabalho. Entretanto, para uma das colaboradoras, a experiência da costura foi algo traumático: ela era uma criança de 12 anos e não queria fazer o curso, mas era obrigada pela mãe e hoje segue por escolha própria a área da educação, sem realizar qualquer tarefa relacionada à costura. Os dados empíricos mostraram também que a costura proporciona à quatro entrevistadas o resgate da sua auto-estima, fragilizada devido às trajetórias escolares descontínuas e de poucas oportunidades no mercado de trabalho. Tal resultado fortalece nossos estudos sobre o conceito de autonomia de Freire (1996), haja vista que para o autor autonomia é a capacidade e a liberdade de construir e reconstruir, a sua maneira, o que lhe é ensinado. Esses saberes sobre a costura não foram adquiridos no ambiente escolar, mas foram fundamentais para a autonomia dessas mulheres, tanto para o reconhecimento de si quanto para a garantia do próprio sustento e dos filhos. Se essas mulheres conseguiram sobreviver sem concluir o ensino fundamental, o que leva pessoas como elas a buscar a educação escolar? Para uma das entrevistadas, sem educação escolar nem curso de corte costura com diploma seu trabalho não teria valor, não seria reconhecido, e quando surgisse o erro a culpa seria pela falta de formação e certificação. Sendo assim, a colaboradora avalia que não ter o curso de corte costura foi um impeditivo para o exercício da função. Nesta pesquisa é possível perceber que, embora essas pessoas vivam apenas com seus saberes não escolares, para elas a formação escolar permanece como seu ponto de referência. Elas acreditam que a escola ainda é a esperança de uma vida melhor, reconhecem que, com a formação, as oportunidades de trabalho podem aumentar e assim serão mais reconhecidas na sociedade. Mas se para essas mulheres o estudo é fundamental para o crescimento humano, o que a escola vem fazendo com suas experiências quando são inseridas em um programa como o PROEJA? 306 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA A educação e o trabalho não estão dissociados. Ao contrário, eles percorrem, mesmo que às margens, o mesmo caminho. O trabalho é, historicamente, considerado como a estrutura do modo humano de existência e uma ligação direta da relação social básica. Neste processo de conhecimento o olhar sobre o trabalho como princípio educativo é produzido e desenvolvido a partir de uma pluralidade de perspectivas teóricas inovadoras. Em meio a tantas argumentações e alternativas, é relevante expandir as fronteiras do saber, do criar e ousar. O objetivo do presente estudo é esboçar algumas questões que provoquem a reflexão sobre a importância de se trabalhar com a experiência do aluno, não simplesmente trabalhar a sua realidade, mas sim as suas vivências, fazer com que os seus conhecimentos de vida façam parte do aprendizado, qualificando-o, e que não se tornem algo inutilizado, esquecido ou apenas somado ao currículo como uma ilustração de importância secundária ao desenvolvimento dos conteúdos disciplinares. É possível identificar similaridades entre a realidade das costureiras entrevistadas e aspectos do PROEJA - Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. As marcas formadoras, os saberes e reflexões concernentes ao mundo do trabalho, à escola e à sua importância para a inserção no mercado de trabalho são algumas das aproximações encontradas entre as histórias de vida de alunos do PROEJA e as costureiras entrevistadas. Além disso, em uma pesquisa anterior4 coletaram-se relatos de envolvimento com marcas formadoras, oportunidades, transformações e significados. Marcas essas, que se tornam significativas e formadoras a partir do exercício de rememoração dos percursos pessoais e profissionais percorridos pelas costureiras. Nesta pesquisa, tivemos como objetivo focar nossa atenção aos Pesquisa intitulada Marcas Formadoras de estudantes do Proeja, desenvolvida e apresentada pelas bolsistas em mostras de iniciação científica no ano de 2010. A pesquisa se deu com 9 estudantes do Proeja do IFSUL de Sapucaia do Sul, com uma turma de formandos. Com isso, a intenção foi investigar, através das entrevistas e narrativas, se o programa deixou marcas formadoras ou não, nestes estudantes. 4 A arte de costurar: um olhar sobre as experiências de vida, um caminho para elevação... 307 sujeitos e as dimensões de suas trajetórias de vida profissional. A partir da fala analisada na primeira pesquisa, percebeu-se a importância da reflexão e rememoração das histórias e experiências de vida, fossem elas com ou sem a certificação profissional, mas com atenção à pluralidade de saberes acumulados na trajetória de vida, muitos dos quais acabam adormecidos ou esquecidos. Nesse contexto, figurou como fonte de inspiração metodológica o trabalho de Marie-Christine Josso, que envolve as histórias de vida e as experiências formadoras articuladas ao processo de formação do sujeito. Acreditamos que a partir das possibilidades criadas por esse tipo de metodologia, intervenções e problematizações têm emergido e desenvolvido a própria maneira de pensar o diálogo entre o individual e o contexto sociocultural, uma forma articulada de formação. Segundo Josso (2004, p. 58), o caminhar para si: [...] da atividade de um sujeito que empreende uma viagem ao longo da qual ela vai explorar o viajante, começando por reconstruir o itinerário e os diferentes cruzamentos com os caminhos de outrem, as paragens mais ou menos longas no decurso do caminho, os encontros, os acontecimentos, as explorações e as atividades que permitem ao viajante não apenas localizar-se no espaço-tempo do aqui e agora, mas, ainda, compreender o que orientou, fazer o inventário da sua bagagem, recordar os seus sonhos, contar as cicatrizes dos incidentes de percurso, descrever as suas atitudes interiores e os seus comportamentos. Em outras palavras, ir ao encontro de si visa a descoberta e a compreensão de que a viagem e o viajante são apenas um. Observar o conhecimento prévio de cada aluno e suas experiências implica considerá-los como facilitadores da aquisição de um novo saber. Nesse sentido, o programa propõe-se a considerar o aluno não como uma folha em branco a ser preenchida, menos ainda como um balde em que o conhecimento será vertido até transbordar, preenchendo majestosamente a vida do sujeito, numa concepção bancária de educação, conforme Freire (1996). Ao contrário, a proposta do PROEJA, expressa em seu Documento-Base (BRASIL, 2007), enfatiza a valorização dos saberes não escolares dos alunos na construção do currículo de 308 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA modo a propiciar uma mútua troca de conhecimentos em que os alunos aprendam uma nova linguagem sobre o mundo, e os professores, por sua vez, também aprendam com os alunos os seus valores e experiências. Nessa perspectiva, o trabalho é considerado como um dos principais espaços sociais onde os alunos produzem experiências e saberes relevantes à sua formação escolar e profissional no PROEJA. O trabalho como principio educativo é, essencialmente, uma concepção que se fundamenta no papel do trabalho como atividade vital que torna possível a existência e a reprodução da vida humana e, conseqüentemente da sociedade. Assim, é fundamental para a sua compreensão, a superação das falsas dicotomias entre o conhecimento científico e o conhecimento do senso comum e entre teoria e prática. Por essa perspectiva, a articulação entre ciência e tecnologia é determinante para a integração entre a Educação Básica e Profissional (BRASIL, 2007). Para Josso (2004), temos uma infinidade de vivências que podem alcançar a condição de experiência a partir de um trabalho reflexivo sobre o que alguma pessoa passou e sobre o que ela observa, percebe e sente. Para que a experiência seja formadora é necessário focá-la pelo ângulo de aprendizagem, que "simboliza atitudes, comportamentos, pensamentos, saber-fazer, sentimentos que caracterizam uma subjetividade e identidades" (JOSSO, 2004, p. 48). Portanto, as experiências de que falam as recordaçõesreferências, constituídas a partir das narrativas de formação, não contam o que a vida ensinou a alguém, mas o que foi aprendido experiencialmente naquelas circunstâncias. Retomando as narrativas das costureiras, foi possível encontrar indicadores de cumplicidade pessoal na "arte de costurar", palavras citadas por elas, levando-nos a pensar que o ofício constituiu-se numa vivência marcante na vida destas quatro costureiras5. Nas falas dessas costureiras (atuantes), destaca-se O mesmo não acontece na vida da quinta entrevistada, que pelo fato de quando criança ser forçada a fazer um curso que não lhe despertava interesse algum, acabou por não exercer a função e ainda alimentar grande aversão pelo ato da costura, a ponto de confeccionar um vestido todo com cola quente para não precisar tocar 5 A arte de costurar: um olhar sobre as experiências de vida, um caminho para elevação... 309 também que todas se "adaptaram" de uma maneira singular às artimanhas da costura. Cada uma revelou seu jeito peculiar de reformar, criar ou transformar uma peça de roupa, exercendo sinuosamente sua autonomia, criatividade e compreensão sobre o atuar e o pensar, atribuindo a si mesmas um crescimento pessoal diário. Segundo Freire (1996), é na experiência da prática que nos transformamos. Compreendeu-se ainda que as vivências acontecidas no ato de costurar – que poderiam ser consideradas triviais ao público externo – transformaram-se para elas em experiências formadoras, uma articulação consciente entre a atividade, sensibilidade, afetividade e ideação, refletindo-se como sentimento de grande orgulho pela escolha de seus ofícios. Conclusão Conclui-se com a pesquisa que as vivências de cada sujeito podem transformar-se em experiências no momento em que existe a oportunidade para que o próprio sujeito reflita sobre sua trajetória de vida. Isso contribui para o reconhecimento de si próprio, seus saberes e suas aprendizagens, portanto é pertinente fazer do ambiente educacional um espaço de promoção dessas reflexões e, consequentemente, da aprendizagem pela experiência. Esta, conforme Josso (2004), ocorre quando o sujeito utiliza um saber no sentido de resolver problemas e também de realizar uma formulação teórica e/ou uma simbolização. Portanto, a experiência formadora é uma aprendizagem que articula hierarquicamente: saber-fazer e conhecimentos, funcionalidade e significação, técnicas e valores num espaço-tempo que oferece a cada um a oportunidade de uma presença para si e para a situação por meio da mobilização de uma pluralidade de registros (p. 39). em uma máquina de costura. Ela, entretanto, manifesta um reconhecimento muito grande pelas pessoas que exercem o ofício. 310 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Todo sujeito constrói sua história de vida e nela sempre estarão presentes as marcas formadoras e o aprendizado individual de cada um. Entretanto, a oferta de uma educação pública de qualidade às pessoas jovens e adultas implica a utilização e valorização desses saberes e marcas formadoras na organização curricular dos cursos. Nesse sentido, considera-se que o ponto de aproximação entre a pesquisa em educação e as políticas públicas da área é o intuito de contribuir para "uma educação para a emancipação, que restabeleça os vínculos entre Educação e Trabalho...[...]" (BRASIL, 2007), e o presente trabalho buscou somar-se a esse propósito. Referências CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2000. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia. São Paulo: Paz e Terra. 1996 JOSSO, Marie Christine. Experiências de vida e formação. São Paulo: Cortez, 2004. ______. As figuras de ligação nos relatos de formação: ligações formadoras, deformadoras e transformadoras. Educação e Pesquisa, São Paulo, v. 32, n. 2. p. 373 – 383 maio/agosto de 2006. ______. História de vida e projeto: a história de vida como projeto e as "histórias de vida" a serviço de projetos. Educação e Pesquisa. v. 25, n. 2. São Paulo, July/Dec. 1999. ENTRE HISTÓRIAS, SABERES E FAZERES – RELAÇÕES DE MULHERES TRABALHADORAS DOMÉSTICAS COM O SABER Liana Pereira Machado Canto 1 Este artigo apresenta os resultados, a metodologia e os referenciais teóricos utilizados na construção da pesquisa de Mestrado intitulada Narrativas de trabalhadoras domésticas estudantes da EJA e suas relações com o saber2, realizada no PPG em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – UNISINOS com a orientação da Profa. Dra. Maria Clara Bueno Fischer. A investigação abordou o tema das relações entre os saberes desenvolvidos na escola e os construídos nas experiências de trabalho, tendo como problema central identificar as relações das mulheres trabalhadoras domésticas com o saber escolar e com o saber de suas experiências de trabalho. O estudo contou com a participação de seis mulheres estudantes da EJA que são trabalhadoras domésticas ou que já o foram por um significativo período. Foi um estudo de caráter qualitativo e como procedimento central foram realizadas entrevistas semi-estruturadas, seguindo inspiração nos princípios da 1 Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Pesquisa realizada com o financiamento do Programa CAPES/PROEJA/SETEC, no período de fevereiro de 2007 a fevereiro de 2009. 2 312 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA metodologia de histórias de vida de Josso (2004). A autora desenvolve a idéia de que os sujeitos, ao terem consciência de suas vivências, podem transformá-las em experiências formadoras, no caso desta pesquisa, as vivências relacionadas ao trabalho e à escola. Segundo Josso, o trabalho com histórias de vida pode ter dois objetivos centrais: as histórias de vida como projeto de conhecimento e as "histórias de vida" a serviço de projetos. O primeiro objetiva que os sujeitos "consigam atingir uma produção do conhecimento que tenha sentido para eles e que eles próprios se inscrevam num projeto de conhecimento que os institua como sujeitos" (2004, p. 25). O segundo caracteriza-se pelo fato de as "histórias de vida" abordarem uma parte específica limitada da globalidade da vida. A autora utiliza, neste caso, o termo abordagem biográfica ou abordagem experiencial. Utilizei a abordagem biográfica ou abordagem da experiência, como denomina, pois a história é limitada ao foco da pesquisa por entre as narrativas das mulheres participantes. Neste caso as "histórias de vida" estão colocadas a serviço de projetos (p. 31). Esta metodologia tem a preocupação de o sujeito produzir conhecimentos que façam sentido para ele, assim, no momento em que ele retorna ao passado, através de lembranças, reconstrói sua história, revivendo e tomando consciência de suas vivências. Após conhecer a escola e as turmas de EJA, observei que o número de alunas que trabalhavam como doméstica era significativo, então fomos formando o grupo participante da pesquisa. Após alguns meses de observação de aulas e conversas informais com professores e alunos (as), iniciamos com as entrevistas. Tais entrevistas foram individuais, marcadas com antecedência e realizadas ao longo do período em que acompanhei a escola. Posteriormente, as mulheres receberam suas respectivas entrevistas transcritas para lerem e pontuarem alguma questão, se necessário. No final desta etapa, realizamos um encontro coletivo em que todas tiveram a oportunidade de falar sobre as entrevistas e a vivência realizada. Assim, com base na abordagem biográfica foi proposto às mulheres entrevistadas uma viagem ao seu passado, a fim de que elas retomassem as "recordações referências" de suas vidas e construíssem seus relatos biográficos, o que levou à identificação e à Entre histórias, saberes e fazeres – relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber 313 compreensão das marcas formadoras que elas foram constituindo no decorrer de suas vidas. Buscou-se, através deste exercício de falar sobre sua trajetória, uma tomada de consciência de suas vivências, podendo esta pesquisa ter se constituído numa oportunidade de formação. O trabalho doméstico e relações de gênero As trabalhadoras domésticas constituem uma categoria profissional em grande número no país, cerca de 8 milhões de trabalhadores/as domésticos/as, o que representa 10% da População Economicamente Ativa3. Porém, estes números ainda representam invisibilidade social e desvalorização das próprias trabalhadoras. Esta atividade é marcada pela baixa remuneração, pela legislação específica, pelos direitos trabalhistas que ainda não foram conquistados, como: salário família, pagamento de horas extras, fundo de garantia por tempo de serviço (FGTS), seguro desemprego e seguro por acidente de trabalho. Diferencia-se das demais profissões principalmente por ser um trabalho que não produz lucros e que não é realizado em empresa ou organização empresarial. Ser uma doméstica em nossa sociedade, para a grande maioria, não é uma opção, é uma saída para o desemprego e para a sobrevivência, uma maneira de escapar das exigências do mercado, inclusive da escolaridade. O trabalho doméstico se estabelece, segundo Souza-Lobo (1991), como um destino para a mulher, pois é relacionado à sua experiência. Ele pode ser caracterizado como naturalizado, como uma rotina invisível que a acompanha por toda a vida. Será que o trabalho doméstico é "destino" de mulheres com pouca escolaridade e pobres? Este trabalho é definido como um trabalho de reprodução, diferente do trabalho que se encontra no nível do público e do produtivo. Não produz diretamente valor Conforme dados da FENADRAT - Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas. 3 314 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA econômico, como o trabalho produtivo de uma fábrica, por exemplo. Segundo observação das narrativas, suas histórias são marcadas por vivências de trabalho doméstico desde muito cedo, na infância, o que caracteriza o "destino". Estas práticas, ao longo do tempo, vão se tornando naturais somadas a outros fatores como o casamento, os filhos (as) ou a dependência de algum familiar próximo. A mulher renuncia a si pelos outros e, não tendo acesso à escola, as oportunidades de optar por outra ocupação que não seja a de doméstica são limitadas. Neste sentido, a Educação de Jovens e Adultos - EJA se justifica como garantia à educação, podendo contribuir para a formação e inclusão social de jovens e adultos trabalhadores que não tiveram oportunidades anteriores, abrangendo, assim, estas mulheres. O trabalho doméstico é permeado por relações de gênero e classe social que marcam suas especificidades. É um trabalho realizado, na maioria das vezes, por mulheres com pouca escolaridade e pobres, marcando uma dupla subalternidade, de gênero e de classe. É um trabalho que não é reconhecido como trabalho nem pela sociedade e, em muitos casos, nem pelas próprias trabalhadoras domésticas. As atribuições domésticas são ensinadas como naturais para a mulher. A exploração da mulher pelo gênero é uma construção histórica enraizada na cultura que vai perpassando as gerações e reforçando a desvalorização do trabalho doméstico como uma atividade natural de reprodução da vida que faz parte do "ser mulher". O trabalho da mulher é caracterizado pelo cuidado do outro, pela fragilidade, afetividade e pelo servir. Lagarde (2005) trabalha com o termo "madresposa" em que define que toda mulher é mãe e esposa, pois cuida do outro em diversas situações da vida, "el objeto sobre el que se aplica el trabajo de la madresposa es el ser humano" (p. 366). Mesmo não sendo casada e não tendo filhos biológicos, o trabalho da mulher estende-se às demais pessoas com quem convive, vizinhos, amigos, pai e mãe. A autora diz que a mulher valoriza mais a existência do outro do que a dela própria, é uma relação de doação, cuidado, que envolve o corpo, sentimentos e energia de vida. Muitas vezes a mulher renuncia à sua própria vida pelo outro, Entre histórias, saberes e fazeres – relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber 315 pelos filhos, marido e pais. Isto é frequente quando ela casa e/ou tem filhos e, após o nascimento da criança, abandona seu emprego, ou outras atividades, para se dedicar ao filho e às suas "obrigações de esposa". Tais caracterizações ajudam a compreender a dificuldade de reconhecimento do trabalho doméstico pelas próprias mulheres trabalhadoras e pela sociedade. Vem sendo construída uma identidade profissional marcada pela reprodução, pela doação e desvalorização. Acredito que estas relações de gênero podem refletir nas relações das mulheres domésticas com o saber e, assim, questiono como a escola pode contribuir para a formação destas trabalhadoras. Relações das mulheres com o saber Para compreender as relações das trabalhadoras com o saber utilizei os conceitos de Malglaive (1995) e Schwartz (2000-2003) acerca dos saberes, identificando semelhanças, diferenças e aproximando os estudos de ambos os pesquisadores. Pensando como estes autores auxiliam para a compreensão destas relações, considero que Malglaive (1995) contribui com a tipologia utilizada para os saberes (práticos, teóricos, processual, em uso) e as inter-relações destes saberes, principalmente no que diz respeito aos saberes em uso, construídos e empregados pelo sujeito na atividade. Outra contribuição é o dispositivo de formação desenvolvido pelo autor, que transforma os saberes pelo investimento e formalização. A escola pode ser o espaço para este dispositivo, com a utilização de vivências e saberes práticos das trabalhadoras domésticas, como exemplo: a resolução de problemas, a economia familiar, o cuidado com o meio ambiente e as relações de trabalho. Refletir, socializar e contextualizar estas situações na escola pode ajudar na "transformação" de saberes dos sujeitos. Schwartz (2000-2007) contribui para compreender as relações das trabalhadoras domésticas com o saber através do espaço de singularização, renormatização, recriação e de debate de normas na atividade. As trabalhadoras domésticas retrabalham os saberes do seu histórico, os saberes formais, escolares, antecedentes, 316 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA transformando-os em saberes investidos na atividade. Segundo o autor, este é o movimento de relação dos sujeitos com o saber. Os autores se complementam pela concepção de sujeito como histórico, singular, aprendente; pela relação do sujeito com o conhecimento através da construção e recriação de saber. Partindo desta abordagem de saberes é possível pensar no movimento que perpassa a vida de transformação, construção e criação do próprio sujeito, reforçando que o pensamento e a prática, a ação e a reflexão, são pares inseparáveis; que se aproximam e se cruzam os vários saberes que constituem e são constituídos pelo ser humano. Charlot (2000, 2001) vem a complementar o entendimento sobre as relações dos sujeitos com o saber a partir da noção de relação com o saber. Esta auxilia na compreensão de como foi sendo construída a relação das mulheres entrevistadas com o saber; qual o tipo de relação que estabelecem com o mundo. Pensar a "relação com o saber" das mulheres no trabalho doméstico contribui para compreender melhor suas narrativas, a dificuldade de falarem sobre seus saberes e aprendizagens construídos e os utilizados hoje no trabalho que realizam. Percebo assim o saber como relação com e não apenas como um produto resultado de um processo de aprendizagem. Esta relação envolve suas vivências como mulheres, trabalhadoras, filhas, esposas, mães e alunas. Seu envolvimento no mundo tem extrema importância, principalmente quando falamos do trabalho que exerceram desde crianças no contexto familiar. Trabalho este que envolve atividades domésticas de cuidado da casa, cuidado do outro, um trabalho de reprodução da vida, que permite a manutenção da vida de suas famílias e, hoje, das famílias com quem trabalham. E nesse mundo que a mulher constrói, produz, cria e reproduz, como foi sendo construída esta relação com o saber? Qual a sua relação com o saber a partir de suas experiências de trabalho, predominantemente o doméstico, e a relação que hoje estabelecem com o saber construído na escola?. Segundo Charlot (2001, p. 25), as atividades humanas constroem o mundo e produzem obras e relações sociais (entre estas atividades humanas Entre histórias, saberes e fazeres – relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber 317 está o trabalho) e "apropriar-se do mundo é, portanto, construir-se um mundo (a partir daquele que preexiste)." Saberes da experiência de trabalho Olha, por enquanto o trabalho que eu tô trabalhando não é um trabalho... É um trabalho de doméstica, não é um trabalho daquele, mas...(A). Busquei evidenciar as percepções das mulheres sobre a realização de seu trabalho atual e de suas vivências ao longo da vida. Minha análise acontece a partir de suas falas e das reflexões teóricas sobre o tema. Ao questionar quais os saberes que julgavam necessários para a realização do trabalho doméstico, as entrevistadas tiveram dificuldades de falar, enfatizando que aprendem o trabalho com a patroa e através da prática. Percebo que sentem dificuldade de pensar em seu trabalho como uma profissão que implica saberes, o que é evidenciado na fala seguinte. Para elas, o que fazem está naturalizado, é "comum"; está enraizado em suas vidas, sempre fizeram, aprenderam fazendo e esta atividade parece não envolver "saberes". [...] eu queria só saber ler e escrever, mas para o meu trabalho não precisa, é só saber fazer meu serviço bem feitinho e ir progredindo cada vez mais (C). Possivelmente julgam que "saberes" são aqueles valorizados socialmente, os escolares e "teóricos" e, como a maior parte de suas vidas não estavam na escola, criou-se uma distância entre a escola, o trabalho e suas vidas. O que fazem está longe do que se considera habitualmente como "saberes". Porém, lembrando o que diz Schwartz, a atividade de trabalho não é pura execução, envolve o pensamento, a reflexão, pois o ser humano a cada momento modifica a sua ação implicando um pouco de si na atividade. Sendo assim, o trabalho doméstico, por mais naturalizado que seja para elas, não é pura execução, ele envolve múltiplos saberes, envolve pensamento, usos de si, escolhas, valores, criação. 318 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA As atividades que compõem o trabalho doméstico são repletas de saberes, de experiências de vida, de ensinoaprendizagem. Recorro a Paulo Freire quando ele fala sobre a relação entre teoria e prática e sobre os saberes construídos pelo sujeito em experiências múltiplas da vida: O ato de cozinhar, por exemplo, supõe alguns saberes concernentes ao uso do fogão, como acendê-lo, como equilibrar para mais, para menos, a chama, como lidar com certos riscos mesmos remotos de incêndio, como harmonizar os diferentes temperos numa síntese gostosa e atraente. A prática de cozinhar vai preparando o novato, ratificando alguns daqueles saberes, retificando outros, e vai possibilitando que ele vire cozinheiro [...]. A reflexão crítica sobre a prática se torna uma exigência da relação Teoria/Prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá e a prática, ativismo (FREIRE, 1996, p. 23-24). Durante suas narrativas, as mulheres dizem como aprenderam a atividade de trabalho que hoje realizam e/ou as que já exerceram. Evidencio maneiras através das quais aprenderam seu ofício: com a mãe, sendo que uma citou o pai; com as patroas; na empresa de serviços gerais, com o chefe; todas falam que aprendem pela observação e pela experiência de fazer; uma cita a intuição no fazer. Para realizarem o trabalho doméstico enfatizam a vivência na família, pois as mulheres, desde pequenas, veem a mãe fazer o serviço da casa e logo estão ajudando, fazendo e aprendendo. Eu aprendi com a minha mãe. Muitas dessas coisas eu aprendi com a minha mãe. Que a minha mãe também trabalhou muito em casa de família, então ela passava as dicas pra mim e eu aprendia (M). É um trabalho que marca a divisão de gênero, pois as mulheres desde cedo já sabem de suas atribuições domésticas, tornando-se natural para homens e mulheres que é ela quem deve ser responsável pelos afazeres do lar, reforçando seu caráter reprodutivo. Entre histórias, saberes e fazeres – relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber 319 Outro destaque é a observação do trabalho, tanto da família quanto das patroas, ou como no caso do cozinhar, de outras pessoas que cozinham bem. [...] ela não me dizia, eu ficava em cima dela quando ia fazer uma coisa e fui aprendendo, ela nunca disse é assim, assim.... a mãe costurava também, eu ficava olhando e aprendia (C). Assim, essas são características que marcam este trabalho: a aprendizagem é construída no decorrer de suas vidas, principalmente no fazer, e não depende da formação escolar (limpar, lavar, cozinhar...). Mas então, qual é a relação entre a escola e o trabalho doméstico? Qual a razão de estas mulheres procurarem e permanecerem na escola? Há alguma modificação no trabalho que realizam? Uma das participantes que estava trabalhando na empresa de serviços gerais tem algumas falas bem específicas sobre o seu trabalho, lembrando que ela teve uma trajetória por volta de treze anos como doméstica: Quando eu cuidava das crianças, ali tinha computador [...] eu ia mexer com as crianças [...] eu vi o gurizinho mexendo e de curiosa que eu sou, aí, deixa eu ver, fui vendo e aprendi (P). Este é um conhecimento que ela utiliza no seu trabalho atual, o uso do computador, e foi aprendendo com a prática e a observação, neste caso das crianças quando estavam brincando na época em que era doméstica. E como as outras entrevistadas, ela cita a aprendizagem com a patroa, neste caso a chefe, que lhe ensinou o serviço: Quando eu fui pra lá, ela me ensinou a primeira vez, a minha chefe passou comigo por tudo e me mostrou e me deixou lá [...]. Muita coisa eu modifiquei, tanto que hoje eles têm uma planilha nova que eu ajudei a secretária a fazer (P). A entrevistada relata que foi modificando a maneira de fazer suas funções, conforme achava melhor, dentro do padrão ou das normas estipuladas pela função, mas com sua singularidade, o que 320 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Schwartz chama de renormatizações das normas e usos de si na atividade. Destaco que há saberes que estão presentes nas experiências de trabalho para além das funções realizadas, como: relacionamento com outras pessoas, resolução de problemas, conhecimento de seus direitos, cooperação, respeito, entre outros. Considero que a relação das mulheres domésticas que participaram da pesquisa com o saber das experiências de trabalho aconteceu, e ainda acontece, de maneira "invisível". Isto se justifica pelo fato de as mulheres não visualizarem em seu trabalho os saberes e as oportunidades de aprendizagem. Para elas é só fazer, e sempre fizeram esta atividade. É tida como uma atividade natural e não é considerada trabalho, fato este que perpassa as famílias e a sociedade em geral. Saberes escolares Neste percurso de voltarem às suas vivências, foi difícil para as participantes relacionarem o trabalho que realizam com a escola, pois não visualizavam em seu trabalho saberes, afirmando que sempre fizeram o trabalho que realizam hoje. não, não precisa no meu trabalho. O que eu faço eu já sabia, não depende eu saber ler ou não, já sei de cor (C). Em alguns momentos estabeleceram relações que envolvem saberes desenvolvidos na escola que contribuem no trabalho, como os referentes ao conhecimento formal: leitura, escrita, matemática, ciências: O importante é tu saber ler, tem que entender um pouco de matemática, muitas coisas tu tem que contar, o material que vem quem cuida sou eu, então tem que saber a quantidade certinha que vai dar para o mês. Eu tenho que calcular e saber, não posso deixar faltar (M). Enfatizo aqui o que Malglaive fala sobre os "saberes em uso" na atividade de trabalho. Há investimento e formalização do sujeito Entre histórias, saberes e fazeres – relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber 321 que mobiliza experiências de trabalho anteriores (como a maneira de limpar, os conhecimentos de informática aprendidos com as crianças que cuidava e no fazer, a troca de aprendizagens com o chefe do setor) e investe saberes teóricos (os cálculos matemáticos no orçamento de compra de materiais, a escrita e leitura na elaboração da planilha de compras de material). Com relação aos valores e atitudes, destacam-se: auto-estima, desenvolvimento da expressão e timidez, confiança, apoio, cooperação, amizade, compreensão, visão de mundo. Na maioria das narrativas, a escola deixa uma forte marca relacionada à convivência com colegas e professores, ao desenvolvimento de atitudes e principalmente a auto-estima: Na minha vida, minha auto-estima, a maneia de me arrumar, é por mim e não para ninguém [...] eu não me produzo para ninguém, me produzo para mim, eu me sinto bem (O). Mas para mim tá sendo muito boa a escola, está me abrindo minha mente, hoje eu penso diferente (O). É evidenciado o reconhecimento de ler além do que está escrito no papel, de decodificar códigos escritos: Eu vou pra um colégio e vai me ajudar a compreender muita coisa, o que tá por trás da letra, por trás do papel [...] (A). Esta visão apontada pela entrevistada é consequência, acredito, das vivências que teve na escola durante os anos em que está na EJA (aproximadamente quatro anos). Vivências que apontam para uma prática de leitura de mundo, de compreensão da realidade, de conhecimento além do senso comum. Não poderia deixar de citar Paulo Freire (1999, p. 20) ao falar da "Importância do ato de ler", pois a leitura por si só não tem sentido, a significação está em entender o que está além da palavra. Ele diz que: "refiro-me que a leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele". Estas palavras reafirmam, também, a importância de considerar e incorporar na escola as vivências dos alunos, e assim, antes de estar inserido na leitura e escrita da palavra, desenvolver sua 322 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA leitura de mundo, suas percepções e maneira de ver a realidade; ultrapassar o que está escrito na palavra, estabelecer conexões com a vida, a sociedade, refletir. Uma entrevistada valoriza muito o saber da prática, pois ela já está tão acostumada com seu trabalho, desde muito cedo presente na sua vida, que não visualiza na leitura e escrita uma maneira de aprimorá-lo, mesmo a leitura e a escrita sendo sua maior motivação para ir para a escola. Ela quer estar inserida em práticas sociais que dependem destas habilidades "pegar um papel e saber o que está escrito", como diz, mas não faz relação com sua atividade de trabalho. Acho interessante esta analogia e motivação, pois mesmo não percebendo as relações ela diz que na escola: A gente se dá com todo mundo, conversa, tem as amizades. Só chego em casa, pego o caderno e venho para o colégio. Aqui no colégio aprendemos bastante coisa, tinha antes as oficinas...de pintura... era na escola aberta. Primeiro eu aprendi a fazer uns salgadinhos, doces, depois passei para pintura em pano, mas não pude completar por causa do meu tempo (C). Esse interesse em estar na escola é evidenciado em sua fala pela participação e interação com o grupo, pelas diferentes aprendizagens oferecidas pelas oficinas, que envolviam habilidades desenvolvidas no seu dia-a-dia com a família e o seu trabalho, como o cozinhar, por exemplo. Mesmo que indiretamente, como neste caso, a escola se tornou na vida destas mulheres o local de valorização e crescimento pessoal, desenvolvimento humano, espaço que permite sonhar, planejar e buscar um futuro, tanto em razão da aprendizagem intelectual quanto pelas relações e convivência com o outro. Além do domínio de funções e tarefas necessárias para a realização do trabalho doméstico, seria importante que o/a trabalhador(a) reconhecesse e valorizasse seu trabalho, tendo consciência do lugar dele na sociedade capitalista, para que não seja visto como um trabalho desvalorizado. Além disso, como o trabalho doméstico assalariado não proporciona os direitos trabalhistas iguais aos demais, é preciso permanecer na luta a favor da garantia de seus direitos e fortalecer a união deste grupo de trabalhadores. Entre histórias, saberes e fazeres – relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber 323 Pensando relações entre a EJA e saberes do trabalho No contexto de exclusão de pessoas jovens e adultas do acesso e permanência na escola, destaco como a EJA vem sendo planejada, mas saliento também as limitações e dificuldades enfrentadas como: a evasão, a dificuldade de vincular o ensino escolar com as vivências e experiências dos estudantes, a dificuldade em conciliar o horário das aulas com o trabalho, a precariedade de formação reclamada pelos professores, entre outras. Estes alunos(as) que hoje estão na EJA representam uma parcela da população, em sua maioria, excluída, ou que nem teve acesso à escola por motivos diversos, e que hoje se encontra também excluída de outros "lugares" da vida, como do trabalho, que é o mais frequente. Assim, neste momento, utilizo o conceito de exclusão como [...] o processo pelo qual certos indivíduos e grupos são sistematicamente impedidos de ascender a posições que lhes permitiriam uma forma de vida autônoma dentro de normas sociais enquadrados por instituições e valores, num determinado contexto. Em circunstâncias normais, no capitalismo informacional, esta posição é comumente associada com a possibilidade de acesso a um trabalho pago regularmente para, pelo menos, um membro num agregado familiar estável. A exclusão social é, de fato, o processo que não permite a uma pessoa o acesso ao trabalho [formal] no contexto do capitalismo (CASTELLS, 1998, p. 73 apud STOER, 2004, p. 26). Esta exclusão definida pelo autor predomina no sistema capitalista, associando-se, como referido, ao fato da pessoa ter um emprego assalariado ou não. A dificuldade de conseguir um emprego, na maioria das vezes, é relacionada à certificação escolar e esta é uma situação muito presente na EJA (e que foi identificada na própria fala dos estudantes durante as a realização da pesquisa). Muitas vezes, os estudantes se sentem incapazes pela pouca escolarização (tanto pelo certificado quanto pelos conhecimentos escolares), buscando na escola uma oportunidade de conseguirem um emprego. Ficam evidentes em seus depoimentos o desejo e a 324 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA necessidade de a escola também garantir formação profissional para conseguirem melhores oportunidades de terem um emprego formal. Observo, assim, que não basta incluir os sujeitos na EJA, é necessário garantir sua permanência, ofertando condições materiais de continuidade na escola. O simples "incluir" se torna posteriormente o "excluir", constituindo o que Kuenzer (2007) fala de inclusão excludente ou subordinada, pois a exclusão e a inclusão relacionam-se e determinam-se mutuamente, não podendo ser analisadas separadamente. Portanto, para que um sujeito seja incluído é necessário anteriormente que ele tenha sido excluído, e este é o movimento que o sistema faz: excluir os sujeitos para incluir posteriormente, e de maneira subordinada. Buscando atender esta população excluída da e na escola e oportunizando uma formação profissional para que possa ampliar suas chances de inserção social, vinculando formação escolar e profissional, é instituído pelo Governo Federal, através do Decreto 5478/05, o Programa de Integração da Educação Profissional Técnica de Nível Médio ao ensino médio na Modalidade da Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). Este programa busca suprir uma demanda social de (re)inserção de jovens e adultos no mercado de trabalho, oferecendo, em nível de educação básica, a possibilidade de elevação da escolarização articulada com uma formação técnica-profissional. Este Programa demonstra um potencial para abranger os alunos que estão na EJA podendo desenvolver seus saberes do trabalho qualificando suas práticas. As trabalhadoras domésticas, ao narrarem suas histórias de trabalho, indicam que nas atividades que realizam há muito saber adquirido pela experiência prática e pela troca com outras pessoas, principalmente os que envolvem a atividade de cozinhar e cuidar de crianças, que é muito freqüente nesse grupo. Ao mesmo tempo, sinto que necessitam aprimorar seus conhecimentos, o que as mobilizam a voltar para a escola depois de anos, mesmo elas não relacionando diretamente a escola com os saberes necessários para o trabalho que realizam. Talvez um curso de PROEJA que atendesse as trabalhadoras domésticas poderia ser uma oportunidade de desenvolverem seus saberes do trabalho, como os que abrangem o cozinhar, o cuidar de Entre histórias, saberes e fazeres – relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber 325 crianças, o planejamento familiar, as relações estabelecidas, entre outros aspectos. Será que sua implantação não seria fundamental na valorização do trabalho doméstico, no desenvolvimento desta classe trabalhadora e na qualificação do trabalho propriamente dito destas mulheres? Considerações finais Acredito que a pesquisa proporcionou às mulheres iniciarem uma volta às suas trajetórias, pensarem em suas histórias e seu passado. Isto ocorreu através da metodologia adotada, através da narrativa oral, da leitura de suas próprias histórias e da conversa e socialização entre elas. Visualizo neste processo um momento formativo, pois as mulheres pensaram em suas vivências, iniciando uma reflexão sobre suas trajetórias. Marcadas por uma trajetória de idas e vindas na escola, trajetórias descontínuas relacionadas à estrutura familiar e às condições materiais de vida, as mulheres participantes tiveram e têm na atualidade uma relação de "distanciamento" e, ao mesmo tempo, de "libertação" com a escola e o saber. A escola foi um espaço de vivências que ao longo da vida propiciou fracasso escolar, dificuldades, repetência, exclusão, como se a realidade da escola fosse "distante" da vida destas mulheres. Ao mesmo tempo, principalmente quando se referem à escola hoje, esta é tida como um espaço de "libertação", pois proporciona autoestima, desenvolvimento da expressão, inserção no mundo letrado da escrita e leitura, convivência com outras pessoas, valorização de si. Marcadas por um passado de fracasso escolar, hoje esta relação inverte-se, pois os estudantes buscam a escola. A EJA se torna significativa aos estudantes ao proporcionar um espaço de desenvolvimento intelectual, através de saberes escolares e teóricos, e ao ampliar saberes que envolvem o desenvolvimento humano e sua relação com o mundo no qual estão inseridos. Os saberes aprendidos em suas experiências de trabalho são "invisíveis" para elas mesmas, "não precisa saber muita coisa, todos fazem", é uma atribuição de ser mulher. Esta relação com o saber se justifica pelo lugar deste trabalho no sistema capitalista, como é 326 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA visto pela sociedade. A invisibilidade do trabalho justifica-se, como já foi abordado, pela naturalização do trabalho feminino, o que traz marcas também na divisão do trabalho e no caráter reprodutivo desta atividade. Ambas as características deste trabalho foram construídas socialmente e historicamente. Pensando na escola e no trabalho, que relações podemos identificar neste caso, quando falo em mulheres trabalhadoras domésticas? A escola é um espaço procurado pelas mulheres que estão na EJA, um espaço que se apresentou em alguns momentos como uma realidade distante de suas vidas e como um espaço de libertação e emancipação. Este espaço é valorizado socialmente como único local de produção de saberes, o que consequentemente foi visível nas falas das mulheres. Portanto, a escola é um dos locais de produção de saberes, mas não o único, e em especial no caso de jovens e adultos trabalhadores, pois estas pessoas têm inúmeras vivências além da escola, como no trabalho. Estes são espaços ricos de aprendizagem, de construção de saberes, são processos educativos. Assim, retomo os sentidos da educação considerados nesta pesquisa, trazendo as palavras de Charlot quando se refere às relações do sujeito com o saber: "A educação é esse triplo movimento de humanização, de subjetivação - singularização e de socialização (indissociáveis). Ela supõe um processo de apropriação do mundo que eu chamo Aprender (ou processo Aprender)" (2001, p. 25). E é esta "apropriação do mundo" que o ser humano busca, tanto na escola, quanto na realização de seu trabalho, pois ele está em processo constante de ensino-aprendizagem. O trabalho, como atividade humana de criação e transformação, está entrelaçado com a escola de maneira intrínseca. Porém, com o sistema capitalista de produção em que estamos inseridos, esta relação fica obscura, pois como o próprio sistema produtivo é dividido, fragmentado, hierarquizado, excludente e seletivo, consequentemente a escola faz parte desta organização e reproduz este sistema. Assim, é valorizado pela sociedade e pela escola o trabalho na perspectiva do capital. O que não se pode esquecer é que nas relações de trabalho, independente de sua organização, há relações sociais e produção de saber. Entre histórias, saberes e fazeres – relações de mulheres trabalhadoras domésticas com o saber 327 Acredito que a escola poderia partir das vivências dos alunos jovens e adultos e de seus saberes construídos fora da escola para a construção do currículo escolar e para o desenvolvimento de metodologias que contemplem e signifiquem mais para estas pessoas. O trabalho como categoria central precisa ser considerado pela escola, tanto através do envolvimento e reconhecimento de saberes, quanto de desenvolvimento e reflexão sobre o ser humano e suas relações com o mundo. Como exemplo, temos a reflexão e o conhecimento sobre os direitos da mulher e dos trabalhadores, neste caso das trabalhadoras domésticas em suas relações com o meio ambiente, através de suas práticas no trabalho, das diferentes maneiras de organização do trabalho, organização sindical, luta dos trabalhadores pelos seus direitos. Isso se estende ao PROEJA, sobre o qual se poderia colocar a seguinte questão: será que o PROEJA poderia proporcionar para as trabalhadoras domésticas ensino técnico com qualificação profissional? Este grupo profissional corresponde ao objetivo do Programa de garantir aos sujeitos que não tiveram acesso à escola ou não conseguiram nela permanecer, escolaridade e formação profissional. Além disso, as trabalhadoras domésticas estão em número significativo na EJA, como visto no decorrer da pesquisa. Será que esta poderá ser uma oportunidade de desenvolvimento dos saberes do trabalho para estas trabalhadoras, qualificando suas atividades de trabalho e buscando formação integral deste grupo profissional? Esta é uma questão que estendo a outros grupos profissionais que estão na informalidade e que constituem a EJA em número significativo. Referências CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber – elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artes Médicas Sul, 2000. CHARLOT, Bernard (Org.). Os jovens e o saber- perspectivas mundiais. Porto Alegre: Artemed Editora, 2001. 328 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA DI PIERRO, Maria Clara. Seis anos de educação de jovens e adultos no Brasil: os compromissos e a realidade. São Paulo: Ação Educativa, 2003. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 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TRAJETÓRIAS E USOS DE SI DE MULHERES NA CIRCULAÇÃO DE SABERES E VALORES EM CURSO DE PROEJA Ana Cláudia Ferreira Godinho1 Apresentação Considerar e valorizar os saberes experienciais das pessoas jovens e adultas é um dos objetivos das práticas educativas no campo da Educação de Jovens e Adultos (EJA). Entretanto, a confrontação desses saberes com os saberes escolares na constituição de propostas pedagógicas como a do PROEJA vêm demonstrando que o encontro entre a escola e o cotidiano dos e das estudantes gera tensionamentos relacionados a distintas dinâmicas de produção e circulação de saberes e valores. Além disso, as aproximações e os tensionamentos entre saberes escolares e experienciais têm relação com os usos de si (SCHWARTZ e DURRIVE, 2007) que fazem os alunos e alunas do PROEJA na circulação de saberes e valores em sala de aula. O presente texto é uma análise inicial dos dados recolhidos no estudo de natureza etnográfica (em andamento) realizado em um curso de PROEJA da região metropolitana de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. O objetivo geral da pesquisa em andamento, bem como das reflexões produzidas neste texto, é analisar os usos de si 1 Universidade do Vale do Rio dos Sinos. 332 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA das alunas do PROEJA na circulação de saberes e valores na atividade de sala de aula. O trabalho de campo, realizado no período de abril a dezembro de 2010, teve como estratégias de recolha de dados: a observação exploratória, nos meses de abril a junho; a observação participante, que contou com dois tipos de registro – diário de campo e vídeo – como forma de recolher elementos verbais e nãoverbais da linguagem produzida pelas estudantes na atividade de sala de aula; e as entrevistas narrativas com catorze das dezesseis alunas2 da turma Quatro3, a fim de obter informações sobre suas trajetórias de vida, de estudo e de trabalho e o modo como interpretam os próprios saberes e aprendizagens escolares e não escolares. Na turma selecionada como campo empírico, o predomínio de mulheres (dezesseis) em relação aos alunos homens (apenas dois) motivou a priorização das mulheres na definição do objetivo geral do estudo que originou este texto: analisar os usos de si das alunas do PROEJA na circulação de saberes e valores em sala de aula. Um dos principais pressupostos teóricos da pesquisa é o de que cada sujeito é um corpo-si que faz um dado uso de si para realizar uma atividade. Na atividade de sala de aula, desempenhada na condição de aluno/a – denominada, deste momento em diante, como atividade discente – o corpo-si mobiliza, confronta, (re)interpreta saberes e valores produzidos ao longo de sua trajetória de vida. Usos de si, saberes e valores em circulação na atividade Compreende-se que um grupo social – nos processos cotidianos de interação que a constituem – atribui significado às vivências, aos fenômenos, objetos com os quais se defrontam. Assim, produzem símbolos, saberes, ritos e mitos, que, partilhados 2 Uma aluna recusou o convite para participar da entrevista e uma aluna não pode comparecer à escola na data agendada, justificando um imprevisto familiar. Nome da turma alterado em conformidade ao compromisso de preservação da identidade, assumido no TCLE. 3 Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 333 entre os membros do grupo, configuram linguagens verbais e não verbais, que permitem a sua interação (BRANDÃO, 2002). Nesse contexto, a cultura corresponde ao conjunto de elementos partilhados, que, de diferentes modos, influencia a maneira como cada pessoa interpreta o mundo, desde os seus próprios sentimentos e sensações (vida individual) até os fenômenos sociais (vida coletiva). Sendo assim, a atividade humana implica a mobilização, o confronto e a ressignificação de valores que circulam no grupo. Há, portanto, uma dimensão ético-política em toda atividade (SCHWARTZ e DURRIVE, 2007). Nas distintas atividades humanas, os sujeitos produzem significados e saberes acerca das experiências individuais e coletivas que ocorrem na vida social. Porque cada sujeito mobiliza, confronta, produz e ressignifica saberes e valores para lidar com as situações históricas singulares com as quais se defronta, considera-se que as pessoas fazem usos de si (SCHWARTZ e DURRIVE, 2007) para realizar uma atividade. O saber pode ser compreendido como um significado atribuído a um dado objeto (fenômenos, ações, emoções ou objetos fisicamente constituídos), que circula entre os integrantes de um dado grupo e se estabiliza na memória individual e coletiva. O sujeito estabelece esse processo ou relação de saber (CHARLOT, 2000) a partir de uma situação sócio-histórica singular, configurando-se como experiência. Assim, [...] a idéia de saber implica a de um sujeito, de atividade do sujeito, de relação do sujeito com ele mesmo (deve desfazer-se do dogmatismo subjetivo), de relação desse sujeito com os outros (que co-constroem, controlam, validam, partilham esse saber) (CHARLOT, 2000, p. 61). A legitimidade social dos diferentes saberes, nas sociedades complexas, varia de acordo com as relações de poder que condicionam o reconhecimento desses saberes e, em última instância, do grupo social que os produziu. Esse reconhecimento, conforme Canário (2005) perdeu força em detrimento do saber formal transmitido pela Escola, desde a sua criação até os anos 1960, período que o autor denomina de "escola das certezas". Contudo, nas últimas décadas, a superação da dicotomia entre a experiência individual e social vem contribuindo para questionar e superar essa hierarquização entre saberes. Com isso, torna-se 334 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA possível a valorização do/a aluno/a enquanto ator social, em interação - sem restringi-lo a um papel passivo de objeto da ação educativa – com os demais atores e com a organização escolar. A partir desta perspectiva, a Escola pode ser compreendida como uma organização historicamente situada, em diálogo com diferentes espaços de educação e constituição de saberes. Assim como outros espaços sociais, também a instituição escolar constituise como um lugar específico de produção e circulação de saberes e valores (SCHWARTZ e DURRIVE, 2007), no qual os sujeitos constituem um modo particular de interação, diferente dos demais espaços sociais por onde transitam. Essa especificidade tem estreita relação com o papel social da instituição, de divulgação e transmissão de um dado tipo de saber formal. Sua criação, no contexto da revolução industrial e liberal, "introduziu, como novidades, o aparecimento de uma instância educativa especializada que separa o aprender do fazer; a criação de uma relação social inédita, a relação pedagógica no quadro da classe, superando a relação dual entre o mestre e o aluno; uma nova forma de socialização (escolar) que progressivamente viria a tornar-se hegemônica" (CANÁRIO, 2005, p. 61). No contexto escolar, a atividade do estudante consiste em engajar-se em processos de ensino-aprendizagem com o objetivo de apropriar-se de um conjunto de saberes científicos institucionalizados em uma dada organização curricular. Tal atividade pressupõe confrontar saberes e valores experienciais com os saberes escolares. Na educação de pessoas jovens e adultas essa confrontação é bastante ampla, pois o/a estudante lida com saberes e valores adquiridos em experiências diversas que conformam sua história de vida, com destaque às experiências no mundo do trabalho, mas sem reduzir-se às mesmas, haja vista que muitas alunas adultas que retomam suas trajetórias de estudo passaram períodos mais ou menos longos de afastamento da escola. Sendo assim, compreende-se que a atividade discente na educação de pessoas jovens e adultas tem especificidades em relação a outros contextos escolares. Esse reconhecimento dos saberes experienciais é basilar das políticas públicas de EJA no país desde a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 20 de dezembro de 1996 (LDB 9394/96). No artigo 36, referente à Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 335 Educação de Jovens e Adultos, a lei estabelece que os sistemas de ensino garantam a oferta gratuita de "oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho" (BRASIL, 1996, documento eletrônico). Nesse contexto, a política pública de educação profissional integrada à escolarização de jovens e adultos em questão – o PROEJA – implantada nos institutos federais de educação, ciência e tecnologia de todo o país representa uma iniciativa de articular, no contexto escolar, saberes de naturezas distintas – os saberes escolares e os experienciais, em especial os adquiridos no mundo do trabalho. Por um lado, a proposta avança no sentido de reconhecer e legitimar os saberes experienciais das pessoas jovens e adultas com trajetórias escolares interrompidas. Por outro lado, há que se considerar que a ideia – já presente na Lei de Diretrizes e Bases de 20 de dezembro de 1996 (LDB9394/96) – necessita ainda de muitos avanços para não se tornar uma segunda oportunidade de promover o fracasso e a evasão escolar4. No pano de fundo desta pesquisa, destacam-se os modos como os atores da política – em especial, os e as estudantes – efetuam este encontro entre saberes escolares e experienciais. Por isso, a análise dos usos de si das estudantes de um curso de PROEJA tem como objetivos específicos: narrar as variadas trajetórias de trabalho e de estudo das mulheres que estudam na turma 4 do PROEJA, no IFSul – Campus X; bem como problematizar o modo como essas mulheres estabelecem aproximações e tensionamentos entre os saberes escolares e experienciais na atividade de sala de aula. Com esses objetivos, realizou-se o trabalho de campo no IFSul - Campus X, descrito e interpretado a seguir. Dados de evasão do PROEJA: na turma em estudo, já no 4º semestre do curso, ultrapassava 50%. Na mesma instituição, a primeira turma teve nove formandos, isto é, a evasão e o fracasso escolar somaram 31 alunos. A evasão escolar no PROEJA é um fenômeno comum a outras instituições de ensino, como as escolas da rede estadual de ensino do Paraná e o CEFET-Bambuí, o que motivou os estudos de Almeida (2008) e Vieira (2009). 4 336 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA O PROEJA e as alunas adultas do curso de PROEJA do campus X O curso de PROEJA acompanhado nesta pesquisa ocorre no Campus X do Instituto Federal Sul-Rio-Grandense. A instituição de ensino localiza-se no município de Sapucaia do Sul – na Região Metropolitana de Porto Alegre-RS – o qual conta com 130.988 habitantes que vivem majoritariamente na área urbana (130.500 hab.). A distribuição da população por gênero é de 67.232 são mulheres e 63.756 são homens (IBGE, 2010). No município, o campus é o único estabelecimento de ensino pertencente ao sistema federal de ensino. Os cursos integrados disponíveis são: Administração (PROEJA, exclusivamente), Informática e Gestão Cultural. Há também um curso subsequente, Técnico em Plásticos, e dois cursos superiores: Gestão da Produção Cultural e Fabricação Mecânica. A procura pela escola no processo seletivo de 2010 foi cinco vezes maior que a oferta de vagas no curso de PROEJA, conforme dados da instituição (IFSul, 2010). Em parte, a densidade de candidatos por vaga tem relação com a pequena quantidade de vagas disponibilizadas pela escola, que dispõe de menor oferta de matrículas para o Ensino Médio em comparação às demais instituições de ensino da cidade5. O quadro 1 apresenta o número de matrículas de Ensino Médio no município de Sapucaia do Sul. Há que salientar que o know-how do sistema de ensino federal é o ensino técnico, em especial a partir do Decreto 2208/97, responsável pela separação entre ensino técnico e a educação básica de nível médio. Os efeitos dessa divisão – como o distanciamento dessas escolas em relação à escolarização básica – ainda são visíveis na educação brasileira, embora a decisão tenha sido revogada pelo Decreto 5154/2004. 5 Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 337 Quadro 1 - Matrículas Ensino Médio Sapucaia do Sul (2009) 9% 3% 8% Escola Pública Estadual Escola Pública Federal Escola Pública Municipal Escola Privada 80% Por sua vez, a oferta de vagas para o Ensino Médio na modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA) é significativamente mais restrita em Sapucaia do Sul: apenas três estabelecimentos de ensino têm cadastro de atendimento da EJA: o Campus X e duas escolas particulares (INEP, 2010)6. Contudo, a informação contraria a declaração da estudante Gabriela de que frequentou o ensino médio em curso noturno de EJA na "escola dos blocos", pertencente à rede pública de ensino de Sapucaia do Sul. A seguir, apresentam-se o perfil e a trajetória de três alunas da turma 4. A escolha das três deve-se à identificação, durante o trabalho de campo e a análise inicial dos dados, de três subgrupos na turma, com características comuns tanto em relação à sua trajetória de trabalho e estudo, quanto aos usos de si em sala de aula. Cada dupla de alunas representa um desses subgrupos. O primeiro – representado por Laura e Janaína – passou por um longo período de interrupção da trajetória de estudos e/ou de trabalho, evidenciando as implicações da dedicação exclusiva às tarefas domésticas e ao cuidado dos filhos sobre usos de si em sala Os dados do INEP não correspondem aos relatos de alunas entrevistadas, que declararam ter freqüentado cursos de educação de jovens e adultos da rede pública de ensino. 6 338 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA de aula. São marcas da postura dessas alunas o silêncio e o constrangimento provocado pela necessidade de falar em público, realizar trabalhos em grupo ou mesmo esclarecer dúvidas relacionadas aos conteúdos, aspectos ligados à presença de alguns colegas que já possuem o Ensino Médio completo. O segundo grupo teve diferentes períodos de interrupção de trajetórias de estudo e/ou trabalho, porém une-se em função da participação das alunas em bolsa-trabalho na escola. Com isso, sua presença na instituição e, consequentemente, sua aproximação com os professores e funcionários é bem maior que a dos/as demais colegas, pois a instituição é, além de seu espaço de estudo, também o seu local de trabalho. Esse é o caso de Gabriela e de outras três pessoas7 em sua turma. O terceiro grupo corresponde às três mulheres que, ao ingressarem no PROEJA, já possuíam Ensino Médio completo, cursado em escola pública no período regular (dos 14 aos 17 anos). Portanto, descartam-se do grupo as duas alunas que obtiveram a certificação escolar devido à realização das provas do ENCCEJA8. O referido grupo está representado por Melissa. Laura tem 34 anos, é casada e tem dois filhos – um menino de dezesseis anos e outro, de dez. É evangélica desde criança, assim como a mãe, a irmã e toda a sua família. Até hoje frequenta a igreja Deus é Amor, na condição de visitante, três vezes por semana. Sua rotina, até a semana anterior à entrevista, dividia-se entre a escola, as tarefas domésticas, o cuidado dos filhos e a igreja. Entretanto, na semana da entrevista, sua rotina mudou devido ao ingresso em vaga de trabalho em uma fábrica do ramo de plásticos que produz peças para automóvel e para ar-condicionado. Com o novo emprego, a Dentre o grupo de estudantes da turma, somente as mulheres receberam convite para entrevista individual. 7 O Exame Nacional de Certificação de Competências na Educação de Jovens e Adultos é o exame de certificação escolar promovido pelo Ministério da Educação. No Rio Grande do Sul, o ENCCEJA substituiu os Exames Supletivos, formulados e aplicados pela Secretaria de Estado da Educação do Rio Grande do Sul, em conformidade com a LDB 9394/96, que estabelece a oferta de EJA por meio de exames e cursos. 8 Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 339 estudante passou a conciliar as tarefas anteriores com o emprego no turno noturno. Laura mora em Sapucaia do Sul desde 1995, quando se mudou com a família. Deixou a cidade natal, Arroio dos Ratos, em busca de melhores condições de trabalho e renda, devido à escassez de emprego naquela cidade. A interrupção da trajetória de estudos aconteceu ainda na infância, quando Laura cursava a 4ª série, e a retomada ocorreu em curso de EJA da rede pública de Sapucaia do Sul, no período de 2007 a 2008, quando a estudante concluiu o Ensino Fundamental. No ano seguinte, ingressou no Instituto Federal como aluna do Técnico em Administração - PROEJA. z Recentemente, em dezembro de 2010, Laura retomou a sua trajetória de trabalho, interrompida desde 1995. Ingressou em um emprego na fábrica em que trabalha a sua colega. Atua no turno da noite (da meia-noite até as 8h), como operadora de injetora, produzindo peças de automóvel e ar-condicionado. Para conseguir a vaga, contou com o apoio de uma colega de sala de aula, que já trabalha no local na mesma função e encaminhou o currículo de Laura ao RH. Gabriela tem 31 anos, é natural de Sapucaia do Sul, cidade onde mora até hoje com o marido e o filho de oito anos. Atua como telefonista na escola (tem bolsa-trabalho) desde abril de 2010, após sete anos de afastamento do mercado de trabalho. Aos dezesseis anos, Gabriela teve sua trajetória de estudos interrompida na primeira série do segundo grau. Ainda adolescente, vivia com os pais e os irmãos quando sua mãe faleceu. Gabriela então parou de estudar para assumir as tarefas de limpeza e organização da casa, antes desempenhadas pela mãe, para que os demais membros da família mantivessem os seus empregos. Também por esse motivo, sua trajetória de trabalho demorou outros quatro anos para ter início. Assim, ela começou a trabalhar apenas aos 19 anos como operária em uma fábrica de peças para automóveis, localizada no município onde vive. Atualmente, a rotina de Gabriela divide-se entre sua casa e a escola. Concilia as tarefas domésticas e o cuidado do filho com o trabalho e o estudo no IF. Por ter bolsa-trabalho na escola, a aluna faz uso dos espaços da instituição com frequência e para diferentes 340 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA fins – o que não ocorre com os e as colegas não bolsistas – pois este é seu local de estudo e também de trabalho. Melissa tem 22 anos, é sapucaiense e viveu na cidade até casar-se, em 2007. Desde então, mora no município vizinho, São Leopoldo, com o marido. Eles não têm filhos nem planejam tê-los no momento. O mesmo plano de adiar indefinidamente a maternidade ocorre com as demais alunas da mesma faixa etária, independentemente do subgrupo em que se situam – Rafaela, com 23 anos; Paula, com 26; Patrícia, com 25 – o que pode indicar uma tendência das mulheres jovens em adiar a maternidade (em relação às gerações anteriores), independentemente da classe social. A jovem nunca interrompeu sua trajetória de estudos ou de trabalho. Concluiu o Ensino Médio na rede pública de ensino de Sapucaia do Sul aos 17 anos, época em que ingressou em seu primeiro emprego formal, como atendente de uma clínica médica, sucedido pelo atual emprego, como coordenadora de unidade em outra clínica do ramo. Desempenha funções administrativas, o que contribuiu para a sua decisão de refazer o Ensino Médio no curso de PROEJA. Os usos de si das alunas adultas em sala de aula de PROEJA A forte influência da igreja sobre a postura de Laura - os valores e a postura de silêncio e escuta assumidos – quando transferidos para o contexto escolar, em sua atividade discente, acabam por gerar problemas. Laura relata o receio de fazer perguntas aos professores para esclarecer dúvidas e a dificuldade de realizar leituras em voz alta e de apresentar trabalhos à turma por temer o deboche e o riso de alguns colegas. Os saberes experienciais adquiridos na igreja também são mobilizados na avaliação da turma e da escola. Laura considera que a solidariedade é um elemento importante para a aprendizagem escolar, pois pode garantir o crescimento de todos, sem que alguém fique para trás. Nesse sentido, a aluna enfatiza a dimensão coletiva da relação de saber estabelecida no contexto escolar. A solidariedade Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 341 é o valor destacado por Laura ao longo de sua fala, opinião reiterada ao final da entrevista. Laura - Porque eu penso assim: se a turma for mais unida, um ajudar o outro, tu vai conseguir ir mais pra frente! Todos. Por exemplo: o Fulano lá sabe [pausa], ajuda! Mas, não! O Fulano não ajuda e ainda fala: o fulano não fez! Muitas vezes, não é porque... Tu não fez em casa não é porque tu não quis fazer! Foi porque tu não conseguiu! Que nem eu: eu chegava muitas vezes em casa, em muitas aulas que eu fui - no começo, que foi bem dificultoso pra mim –, eu olhava o caderno e não conseguia entender! Eu olhava e era o mesmo que estar olhando, assim [pausa breve] Ana – Uma língua estrangeira. Laura – É! Não é a tua língua! E eu tentava! Ficava ali tentando, tentando, tentando! Muitas vezes, também, já pedi ajuda pra alguns colegas e não quiseram me ajudar! Eu já pedi ajuda! Só que [L simula a expressão de impaciência com que deram a resposta]: "Ah, é assim, assado!" Mas eu acho que não é assim, tu tem que sentar e tentar: "Oh, é assim". Eu fico com vergonha de perguntar para os professores. Eu fico com vergonha! Ana – Por quê? Laura – Não sei, eu fico, eu sou assim! E, às vezes, com um colega, ali, que eu já converso mais, eu já fico: "Ah, me ajuda em tal lugar, em tal coisa. Muitas ajudam! Tem muitas ali que ajudam, mas tem outras que não! Por pensar dessa maneira, a aluna salienta a capacidade de trabalhar em grupo como uma qualidade a ser desenvolvida na turma. Nesse sentido, relembra uma atividade proposta pelo professor Daniel, o qual também se aproxima de sua experiência recente de trabalho, como operadora de injetora9. Cabe destacar que, embora não seja foco deste trabalho, é pertinente aprofundar a análise das ocupações destas alunas em sua reinserção profissional. Três alunas passaram a ocupar, após a retomada da trajetória escolar, o cargo de operadora de máquina ou operadora de injetora em fábricas dos municípios de Sapucaia do Sul e 9 342 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Laura – O encarregado [da fábrica onde Laura trabalha] perguntou se eu tinha algum problema em trabalhar em grupo. E eu falei: "Não, eu não tenho, porque no colégio..." Eu lembrei da aula do professor Assis. Aquela vez que ele pediu pra nós trabalhar em grupo. Eu lembrei daquela aula que a gente teve de Cidadania, mesmo, entendeu! Que ele falou assim – eu não sei se tu estava na aula aquele dia – [A responde que sim e L continua a fala], que algumas pessoas estavam, tipo assim, decidindo os grupos, e ele [pausa breve] ia fazer [pausa breve], tipo assim, no caso, um sorteio, que ia ser melhor, no caso. O sorteio é que escolhia. E eu lembrei assim. Eu não me importo em trabalhar em qualquer grupo, eu não escolho: Fulano, Ciclano. Eu vou em qualquer um. Eu não escolho. Mas eu lembrei da aula dele, da Cidadania, que tu tem que ter um conjunto, de ser unido ali com o teu grupo pra aprender melhor. Daí, eu lembrei da aula de Cidadania que ele deu aquele dia. Quando ele me perguntou, eu disse pra ele. Mas, poxa, na realidade, tu lembra de muitas aulas, e eu tenho certeza que eu vou lembrar de muito mais, porque eu lembrei dessa aula dele. Da cidadania! Essa postura contrapõe-se, segundo a aluna, à atitude mais individualista de alguns colegas, cujos nomes ela omitiu. Também contrapõe-se, em parte, à atitude cotidiana da aluna, que escolheu sempre as mesmas colegas, quando teve oportunidade de definir suas parceiras para trabalhos em grupo, constituindo um subgrupo na turma, como analisa-se mais adiante. Além disso, essa interpretação complementa-se com a fala de Melissa, quando comenta que faz os trabalhos sozinha porque prefere não esperar pelos colegas e, com isso, arriscar prejudicar-se. Esteio, enquanto uma aluna assumiu o cargo de atendente de call center. Sendo assim, os cargos não correspondem a uma elevação das ocupações anteriores à interrupção das trajetórias de trabalho. Laura, por exemplo, reinseriu-se no mercado na mesma posição que ocupara na fábrica de calçados onde trabalhou na juventude. Esse aspecto indicia, segundo Canário (2008), a desvalorização dos certificados escolares, relacionada às transformações do mundo do trabalho, em que a precarização e a flexibilização das relações trabalhistas contribuem para a dualização social e estigmatização e guetização de determinados grupos. Nesse contexto, a escola deixa de atender às "promessas" de inserção profissional e ascensão social, tornando-se uma "escola de incertezas" ante a nova configuração da sociedade. Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 343 Esta aluna também relata que são apenas alguns poucos colegas que fazem os trabalhos em grupo, enquanto os demais colegas apenas colocam seus nomes. O silêncio, por exemplo, é interpretado como uma característica pessoal, um traço da sua timidez. Porém, em um momento posterior da entrevista, avaliou que seu silêncio tem relação com a postura de alguns colegas, que estigmatizam e negamse a ajudar quem precisa de esclarecimentos sobre os conteúdos. Seu relato enfatiza o constrangimento diante das próprias dúvidas e o receio da reação de alguns colegas: Tem umas coisas que eu acho, assim, que deviam ser mudadas, [pausa breve] porque eu penso assim: todo mundo está aqui pra aprender! Ninguém está aqui porque sabe mais ou menos que ninguém! Eu tenho dificuldade. Na realidade, eu tenho! Eu sei que eu tenho! Eu sei e eu digo [que] mesmo que eu saiba, muitas vezes, as coisas, eu não digo: "Ah, eu sei! É assim, é assado!" Eu fico na minha, entendeu? Mas é assim. A gente nota muita... Não com os professores! Com os professores, não! Os professores sempre ajudaram! Muitas vezes, eu sei que eu não me abro. Às vezes, eu penso: "Eu vou me abrir e eles vão me ajudar!" Eles ajudam! Mas [são] os colegas! Na realidade, os colegas são, às vezes, meio... Porque tu fica de lado porque tu não sabe e os colegas sabem mais que tu. Portanto, seu silêncio também tem relação com a vergonha de falar em aula, de "falar errado" e ser desrespeitada por esse motivo. O riso de alguns colegas – Laura relatou alguns episódios a esse respeito – reforça a auto-depreciação e interiorização do estigma social do adulto pouco escolarizado. Tal aspecto também é constatado nas manifestações de adultos sem escolarização, no estudo de Cavaco (2002). A estigmatização da pessoa que não domina os saberes escolares, interiorizada e reproduzida por adultos analfabetos recebeu de Cavaco (2002) a seguinte síntese: O reconhecimento das competências de leitura e escrita como fundamentais para fazer face aos desafios da sociedade actual e a percepção da valorização social dada à leitura e à escrita, contribuiu para o fortalecimento de um sentimento de inferioridade dos iletrados relativamente aos letrados. À semelhança das afirmações recolhidas noutros estudos, os adultos não escolarizados entrevistados apesar de evidenciarem 344 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA ao longo do seu discurso os saberes que possuem e que lhes permitiram ter sucesso profissional e social, também deixam transparecer a interiorização do estigma social associado ao analfabetismo, desvalorizando os seus saberes e a sua cultura (p. 96). Esse processo de interiorização do estigma também ocorre entre as alunas do curso de PROEJA, evidenciado nos excertos da entrevista de Laura e de outras integrantes de seu subgrupo10. Embora não se trate de adultas analfabetas, estas estudantes também manifestam em suas falas a interiorização de um estigma social, o que permite identificar também entre as mulheres com trajetórias escolares interrompidas a incorporação, em suas falas, do preconceito social relativo à certificação escolar. Com isso, os dados deste estudo aproximam-se dos resultados da dissertação de mestrado de Cavaco (2002), no que concerne à auto-imagem de pessoas que constituem o público da EJA. Além do silêncio, destaca-se na fala de Laura a solidariedade. A menção a este valor é recorrente para analisar tanto a sua experiência da igreja quanto as relações de saber estabelecidas em sala de aula. Também Gabriela aponta a solidariedade e a união do grupo como critérios de avaliação, no seu caso, da experiência de trabalho que deu início à sua trajetória laboral. Eu me arrependo de sair de lá, sabe? Era um ambiente muito bom, de pessoas boas. Isso conta muito, sabe. Tem lugar que tu trabalha que tem muitas cobras, em certos lugares. A gente tinha uma amizade muito legal. Eu trabalhava de noite. Era um turno que abriu novo, então era todo mundo novo. Então, abriu uma turma de doze, vamos supor! E era todo mundo unido, a gente fazia festa! Eu gostava muito. Mas aí eu casei, aí o Marcelo não queria que eu trabalhasse mais de noite! Ele achava que se eu casei não podia trabalhar de noite. Aí, eu tive que trocar de horário. Aí, que eu não gostei mais! Tu pega outro turno, pega umas cobras, porque aí sempre tem aquelas coisas de turno, né? Já não é mais igual aquela amizade. Aí, eu pensei: "Ah, quer saber? Eu vou ver pra sair". Aí, falei pra sair e 10 Embora as entrevistas destas alunas não sejam o foco da análise deste texto, cabe destacar que a fala de Laura é representativa dessas outras colegas. Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 345 saí. Porque daí eu já não estava legal, eu já tinha o Guilherme pequeninho, daí eu pensava: "Ai..." A partir de valores que apontam para a dimensão coletiva do processo de ensino-aprendizagem, tanto Laura quanto Gabriela estabeleceram vínculos de amizade e apoio mútuo com algumas colegas, cujas trajetórias de vida são semelhantes à sua: Laura aproximou-se de alunas cujas trajetórias de vida são marcadas pela interrupção dos estudos e da trajetória de trabalho; Gabriela, por sua vez, costuma sentar-se, conversar e realizar as tarefas junto com as outras discentes que têm bolsa-trabalho na escola. Com isso, Gabriela e Laura constituíram subgrupos dentro da turma, bastante unidos. Em cada um, as integrantes encontram, conforme relataram tanto Laura quanto Beatriz, em sua entrevista, o apoio afetivo, o auxílio para esclarecer dúvidas sobre os conteúdos e até mesmo conselhos para relevar o constrangimento ocasionado pelos conflitos com os demais colegas e, assim, superar a intenção de evadir-se do curso. Sendo assim, o laço de solidariedade entre essas alunas contribui para a sua permanência no curso. Melissa tem uma boa relação com os/as colegas – não há relato de qualquer conflito que a envolva – e conversa com a maior parte da turma. Sua maior "circulação" pode ter relação com o domínio dos saberes escolares, tanto os de formação geral quanto os técnicos. Nesse sentido, conforme exposto anteriormente, a sua ocupação no mercado contribui para que ela estabeleça aproximações entre os saberes experienciais produzidos na atividade de trabalho e os conteúdos escolares, sobretudo os da formação profissional. Além disso, sua trajetória escolar também contribui para o domínio dos saberes escolares, haja vista que a aluna já tem o Ensino Médio completo. Como consequência, ela teve aprovação em todas as disciplinas até o 4º semestre do curso, em que se encontrava no momento do trabalho de campo. Essa "familiaridade" facilita a sua participação em aula, que é sensivelmente mais freqüente que a de Gabriela e Laura. A solidariedade, valor destacado por Laura e por Gabriela, em suas entrevistas, não é mencionada por Melissa, em qualquer momento da sua entrevista. Ao contrário, a aluna relata que costuma fazer os trabalhos de grupo sozinha, assumindo as tarefas de todos 346 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA os integrantes. Justifica sua postura relatando já ter vivenciado uma situação em que dividiu as tarefas com um colega, e o mesmo não cumpriu a sua parte, prejudicando o grupo. Conforme seu relato, o mesmo processo ocorre nos demais grupos: apenas um/a estudante assume as tarefas enquanto os demais participam somente do momento da apresentação, simulando terem contribuído no planejamento, busca de informações e elaboração do texto e/ou da fala da apresentação. Na sua interpretação, o motivo de alguns colegas não fazerem as próprias tarefas nos trabalhos em grupo é a falta de responsabilidade. A opinião – em contraponto ao relato de Laura – indica um conflito latente na turma. Embora ninguém o verbalize em sala de aula, o episódio a seguir permite identificá-lo e demonstrar os mecanismos de resistência das alunas à dissolução dos subgrupos. O fato ocorreu quando a professora Daniela11 propôs a realização de um trabalho que culminaria na apresentação oral à turma. Para tanto, ela pré-definiu as duplas que deveriam realizar a tarefa e intencionalmente dissolveu os subgrupos que habitualmente se unem nas tarefas escolares. Aquelas duplas, portanto, promoveriam a interlocução de colegas que, em geral, não trabalhavam juntos. Entretanto, a proposta provocou alguns pedidos para mudança de duplas. O primeiro foi o de Gabriela, que justificou a necessidade de trabalhar com sua colega Paula, por terem horários livres na escola (ambas são bolsistas) para o planejamento e a elaboração do texto e slides a apresentar. A professora cedeu e ninguém mais se manifestou. Minutos depois, a aluna Denise chegou à sala fazendo a mesma solicitação (formar dupla com a colega com quem sempre realiza as tarefas escolares), mas, nesse caso, a professora alegou que o assunto já havia sido debatido, e as duplas, definidas. Nessa ocasião, Laura e Melissa, assim como as demais discentes, não se manifestaram, aceitando a proposta da professora em silêncio. Os aspectos comuns entre as falas das alunas foram o silêncio e a criação de redes de solidariedade para a realização da atividade 11 Os nomes dos professores também foram substituídos por nomes fictícios a fim de preservar sua identidade, em conformidade ao TCLE. Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 347 escolar, presentes nas falas de Laura e de Gabriela. Não se evidenciaram aproximações com Melissa, seja na entrevista seja na atividade de sala de aula. Embora a aluna tenha maior proximidade com uma das colegas – com quem conversa e realiza tarefas com maior frequência, se comparado com as demais estudantes – sua atividade em sala de aula prioriza a atuação individual. Esses são alguns aspectos que emergem dos dados recolhidos no trabalho de campo, cuja análise requer ainda maior aprofundamento e articulação com o quadro teórico. Conclusão Este artigo buscou analisar quais são os usos de si das estudantes do PROEJA na circulação de saberes e valores em sala de aula. A partir do referencial teórico da ergologia associado a reflexões de autores do campo de pesquisa em educação, buscou-se delinear conceitos pertinentes ao estudo etnográfico da atividade de mulheres jovens e adultas em sala de aula, compreendendo que o processo de ensino-aprendizagem no curso de PROEJA, assim como em qualquer proposta educativa realizada em contexto escolar, não é alheio aos estudantes e professores. Ao contrário, ambos são considerados enquanto atores sociais que interferem e recriam a política de acordo com as especificidades do contexto em que estão inseridos. Nesse sentido, este estudo alia-se à proposição de Canário (2005) de que a emergência de um novo paradigma nas pesquisas em educação conduz à criação de uma sociologia da escola, o que implica reconhecer a especificidade do estabelecimento de ensino, enquanto realidade organizacional que, sendo produzida pelos comportamentos e interações dos seus membros, não pode ser definida de forma redutora, nem como um território delimitado por fronteiras físicas, nem como um agregado biológico (p. 52). A análise das entrevistas e dos registros da observação participante evidencia aproximações entre os usos de si das mulheres que interromperam as trajetórias de estudo e/ou de 348 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA trabalho, com diferentes períodos de dedicação majoritária aos filhos e às tarefas domésticas. Até o momento, a análise parcial dos dados permite apontar como aproximações nos usos de si dessas mulheres: o silêncio, motivado pelo constrangimento de falar ao grande grupo e pelo medo de "falar errado", e a assunção de uma postura mais passiva no processo de ensino-aprendizagem. Algumas mulheres afirmam utilizar os saberes ligados à comunicação e às relações interpessoais em suas experiências de trabalho. Esse fato contribui para que as mesmas tenham maior participação – se comparadas às demais estudantes da turma – em debates e outras manifestações verbais em sala de aula – espontâneas ou solicitadas pelo professor – no planejamento, elaboração e apresentação de trabalhos em grupo. O domínio daqueles saberes relativos à comunicação que se fazem úteis na atividade realizada em sala de aula também está presente na atividade das alunas que participam do cotidiano da escola como bolsistas. Nesse sentido, a escola propicia a elas o desenvolvimento dos saberes ligados à comunicação, não mediante um trabalho pedagógico específico para esse fim, mas, sim, mediante a circulação nos mais variados espaços da escola e o envolvimento em situações de distintos níveis de interlocução – tanto com a comunidade escolar quanto com o público externo – na condição de bolsistas. A análise parcial aponta a necessidade de aprofundar questões como a relação entre a retomada da trajetória escolar e a reinserção profissional, que não corresponde a uma elevação das ocupações: Laura, assim como outras duas colegas, alcançou sua reinserção no mercado no cargo de operadoras de máquina, em fábricas de Sapucaia do Sul e Esteio (município vizinho). Com essas considerações, pretende-se contribuir para a problematização das políticas públicas em vigência na área da Educação Profissional integrada à EJA. Desse modo, a pesquisa acadêmica coloca-se a serviço dos atores sociais do PROEJA no sentido de oferecer aos profissionais envolvidos no programa alguns elementos para a reflexão sobre a prática. Trajetórias e usos de si de mulheres na circulação de saberes e valores em curso de PROEJA 349 Referências ALMEIDA, Adriana de. Um Estudo do e no Processo de Implantação no Estado do Paraná do Proeja: problematizando as causas da evasão. 2008. Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação, Setor de Educação. Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2008. BRANDÃO, Carlos Rodrigues. A Educação como Cultura. Campinas: Mercado de Letras, 2002. CANÁRIO, Rui. A escola: das promessas às incertezas. Revista Educação, São Leopoldo, v. 12, n. 2, p. 73-81, mai.-ago./2008. ______ O que é a Escola? Um olhar sociológico. Porto: Porto Editora, 2005. Coleção Ciências da Educação – Século XXI, n. 22. CHARLOT, Bernard. Da Relação com o Saber: elementos para uma teoria. 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VIEIRA, Edna Ferreira Costa. Evasão Escolar no Curso do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional Com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos (PROEJA). 2009. Dissertação (Mestrado em Ciências) – Programa de Pós-Graduação em Educação Agrícola, Instituto de Agronomia. Seropédica-RJ: Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, 2009. AUTORES Domingos Leite Lima Filho Doutor em Educação na Universidade Federal de Santa Catarina. Pós-Doutorado na Facultad de Ciencias Sociales da Universidad de Salamanca. Coordenador e Professor do Programa de PósGraduação em Tecnologia da Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Andressa Aita Ivo Graduada em Educação Física Licenciatura Plena pela Universidade Federal de Santa Maria. Mestre em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação pela Universidade Federal de Pelotas. Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas. Valdinei Marcolla Graduado em Pedagogia pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná. Mestre e Doutor pela Universidade Federal de Pelotas. Técnico em Assuntos Educacionais do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. Álvaro Moreira Hypolito Doutor (PhD) em Curriculum and Instruction - University of Wisconsin - Madison em 2004. Professor Associado da Universidade Federal de Pelotas. 352 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Lilian Carla Molon Especialista em Supervisão Escolar e PROEJA - Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adulto. Graduada em Pedagogia. Pedagoga no IFRS – Campus Bento Gonçalves. Lílian Escandiel Crizel Graduada em Química Industrial pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre em Química pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Técnica de Laboratório do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. Silvana Tabarelli Kaminski Graduada em Administração pela Universidade Federal de Santa Maria. Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Santa Maria. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. Karla Marques da Rocha Graduada em Educação Física pela Universidade Federal de Santa Maria. Graduada em Geografia pelo Centro Universitário Franciscano. Mestre em Educação pelo Centro Universitário Franciscano. Doutora em Informática na Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora Adjunta da Universidade Federal de Santa Maria. Professora da Universidade Aberta do Brasil - UFSM. Rita de Cássia Dias Costa Graduada em Pedagogia - Supervisão Escolar pela Faculdade PortoAlegrense. Especialista em Gestão Escolar, Mestre e Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense. Bernhard Sydow Bacharel em Música com Habilitação em Órgão pelo Instituto de Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Licenciado Autores 353 pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professor de flauta doce e regente da Orquestral do Projeto Prelúdio. Professor de Arte Educação - Música do PROEJA do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-riograndense. Simone Valdete dos Santos Graduada em História Licenciatura Plena pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e Doutora em Educação na modalidade sanduíche pela Universidade Federal Fluminense. Professora Associada do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Josiane Machado Godinho Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Monitora do professor referência da Escola Especial Municipal Elyseu Paglioli. Marieli da Silva Marques Graduada em Química Industrial e em Química Licenciatura. Mestre e Doutora em Química pela Universidade Federal de Santa Maria. Coordenação do Núcleo de Inovação e Transferência de Tecnologia do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. Cristina Bandeira Townsend Graduada em Pedagogia pela Universidade Federal de Santa Maria. Mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Maria. Professora efetiva do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Farroupilha. Janaina Marques Silva Bacharel em Administração e Especialista em Educação e Meio Ambiente pela Universidade do Estado de Santa Catarina. Professora e Coordenadora do Curso Técnico em Administração na 354 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Modalidade de Educação de Jovens e Adultos do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-rio-grandense – Campus Sapucaia do Sul. Bianka Biazuz Vicente Graduanda em Pedagogia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ana Cláudia Ferreira Godinho Graduada em Licenciatura em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre e Doutora em Educação pela UNISINOS. Maria Clarice Rodrigues de Oliveira Graduação em Pedagogia e Magistério dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental pela Faculdade de Filosofia Nossa Senhora Imaculada Conceição FAFIMC/PUC-RS. Mestre e Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Pedagoga na Escola Estadual Técnica de Agricultura. Naira Lisboa Franzoi Bacharel em Administração Pública e Administração de Empresas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas. Professora adjunta da Faculdade de Educação e do programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Maria Clara Bueno Fischer Graduada em Pedagogia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Doutora em Educação - University of Nottingham. Pós-doutorado em Educação na Universidade de Lisboa. Professora Adjunta da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Departamento de Estudos Especializados (DEE) Autores 355 atuando nas Licenciaturas e no Programa de Pós-Graduação em Educação. Anália Martins Licenciada em História pela Universidade Federal de Pelotas. Mestre e Doutoranda em Educação pelo Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora de História da Rede Estadual de Ensino. Vice-Diretora do Instituto Estadual Rio Branco. Damiana de Matos Costa França Licenciada em História pela Universidade Estadual da Paraíba. Mestre e Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Fernanda Zorzi Graduada em Matemática pela Universidade de Caxias do Sul. Mestre em Educação pela Universidade Católica de Goiás. Doutoranda em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Docente do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul. Juraciara Paganella Peixoto Graduada em Licenciatura em Letras pela Faculdade de Letras e Educação de Vacaria. Especialista em Supervisão Escolar pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Diovana de Lima Acadêmica do curso de Psicologia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos Fabiana Alves Gass Graduanda em Pedagogia Licenciatura pela UNISINOS Fátima Franciele Rodrigues de Oliveira Graduanda em Licenciatura em Pedagogia pela UNISINOS. 356 Currículo e saberes do trabalho na educação profissional: estudos sobre o PROEJA Liana Pereira Machado Canto Graduada em Pedagogia. Mestre em Educação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos. Professora do Ensino Fundamental. Esta obra foi composta nas fontes Garamond e Arial Narrow e impressa em papel pólen bold 90 g (miolo) e Triplex 250 g (capa) pela Gráfica Instituto de Menores de Bagé-RS.