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POR QUE A EDUCAÇÃO É ESSENCIAL À COMPETITIVIDADE
POR QUE A EDUCAÇÃO É ESSENCIAL
À COMPETITIVIDADE
Luciano Coutinho
A
competitividade de uma economia em desenvolvimento tornou-se um imperativo do
cenário global contemporâneo, no bojo do processo de rápida mudança tecnológica e de integração comercial e financeira das economias
nacionais ao mercado mundial. A compreensão
– e o adequado enfrentamento – dos desafios
trazidos por esse conjunto de transformações
deve começar pelo reconhecimento de sua complexidade e pelo reconhecimento de seus fundamentos sociais.
A construção da competitividade, coetânea
à Terceira Revolução Industrial e Tecnológica,
não pode prescindir de fundamentos sociais,
como educação básica universalizada, elevada
qualificação da força de trabalho, novas formas
de organização do processo de produção, relações de trabalho cooperativas e mercados que
exigem qualidade. Em suma, fundamentos que
exigem um mínimo de eqüidade na sociedade.
De outro lado, é essencial reconhecer que os
processos espontâneos de busca da competitividade (ganhos de produtividade), por meio do
jogo competitivo das forças de mercado, tendem a provocar efeitos adversos em matéria de
emprego e salários (e, portanto, de eqüidade social.)
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As transformações econômicas recentes
têm produzido automação e desemprego crescente nas principais economias industrializadas. Nem mesmo os períodos de crescimento
nos anos 1980 e 1990 foram suficientes para reduzir o número de desempregados nas economias desenvolvidas, com exceção da etapa de
auge do ciclo americano entre 1996-2000, quando a taxa de desemprego recuou nos EUA. Infelizmente, porém, o desemprego voltou a ser um
sério problema mundial desde 2001 até o presente. A persistência desses efeitos sociais adversos em grandes proporções e por longos períodos é reveladora da impossibilidade de superá-los simplesmente pelo automatismo das decisões privadas. As recentes propostas de grandes empresas de evitar numerosas demissões
por meio da flexibilização da jornada de trabalho e das condições salariais também flexíveis
significam o reconhecimento desse problema. A
solução, no entanto, está a aguardar a discussão e a implementação de mecanismos mais
abrangentes, como a redução de todas as jornadas de trabalho ou o retardamento do ingresso
dos jovens no mercado. Neste sentido, a promoção da formação profissional, o prolongamento
da vida escolar, a oferta de bolsas-emprego podem ser soluções inteligentes e ajustadas às
tendências reais.
Portanto, uma vez que a competitividade
depende de fundamentos sociais, mas a busca
pode produzir efeitos sociais adversos, é necessário promover formas de harmonizar adequadamente essas duas dimensões. E isso é necessário por duas razões: para evitar os efeitos sociais adversos da busca da competitividade e
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para que aqueles alicerces não sejam frágeis e
efêmeros.
No caso brasileiro, somam-se aos novos
elementos que estão presentes no sistema econômico internacional – automação acelerada,
desemprego estrutural, salários decrescentes e
crescente desigualdade – os da herança histórica das fases anteriores ao desenvolvimento brasileiro. O intenso e duradouro crescimento que
antecedeu a longa etapa de crise dos anos 1980
foi incapaz de eliminar o desemprego estrutural
e promover a incorporação da população a formas contemporâneas de existência econômica.
A essa má herança se acrescentou o agravamento da exclusão social – decorrente do fraco
crescimento do emprego formal – ao longo das
duas últimas décadas. Portanto, as desigualdades sociais – muito elevadas e de origem remota
– acentuaram-se fortemente. Infelizmente, por
isso, a taxa de desemprego nas áreas metropolitanas brasileiras se situa, hoje, no dramático
patamar de 12% da população economicamente
ativa.
O desafio da busca da eqüidade com competitividade é, portanto, imenso no caso brasileiro. Este desafio exige políticas ativas de criação de empregos e a desoneração das condições
de formalização dos empregos. Exige, simultaneamente, um tremendo esforço de desenvolvimento na área da educação – abrangendo o ensino médio e a expansão do ensino superior
com formação profissionalizante.
As seguintes linhas de orientação deveriam ser seguidas, reconhecendo que a competitividade se encontra cada vez mais fundada
em condições sistêmicas de natureza social,
que abrangem quatro dimensões essenciais:
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a) prolongamento da vida escolar dos jovens com retardamento do ingresso no
mercado de trabalho por meio de novas
formas de bolsa-escola, de financiamento-educação e de bolsa-trabalho;
b) melhoria continuada na qualidade dos
recursos humanos, tanto os envolvidos
nos processos educacionais quanto nos
processos produtivos e na gestão das
empresas, em matéria de sua qualificação, escolaridade, capacitação e iniciativa;
c) avanços no que toca à maturidade, respeito e mútuo reconhecimento entre capital e trabalho em matéria de legislação e de negociações trabalhistas, que
resultem em sistemas flexíveis de remuneração, que distribuam eqüitativamente os ganhos de produtividade;
d) envolvimento amplo e consciente dos
consumidores quanto às exigências de
qualidade e de conformidade dos produtos às normas de saúde, qualidade,
meio ambiente e segurança e à padronização técnica envolvida.
O sistema produtivo voltado para o desenvolvimento com competitividade é o mesmo que
ocupa trabalhadores qualificados e, portanto,
se preocupa com a educação e com o sistema
educacional. O trabalhador qualificado, ocupado em funções que implicam requisitos exigentes de qualidade e cuja atividade é retribuída
adequadamente, preocupa-se com o seu aprimoramento pessoal e com a educação familiar,
assim como tem possibilidades de ascender a
padrões de consumo superiores em termos de
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tipos de produtos e dos seus respectivos atributos, tornando-se um consumidor que seleciona
os produtos e serviços e, por sua vez, exige desses padrões de qualidade. O sistema econômico
voltado para o desenvolvimento com competitividade tende, portanto, a irradiar os parâmetros de qualidade, garantindo normas institucionalizadas e exigindo o cumprimento de parâmetros que vão muito além e são mais importantes do que simples normas legais.
Esse novo perfil de trabalhador, porém, só
poderá ser alcançado com um sistema educacional expandido e renovado. O novo trabalhador necessita ter conhecimentos básicos sólidos, capacidade de aprendizado, habilidade
para ser treinado e treinar-se para o exercício
de funções constantemente renovadas e reformuladas. Tem que ter iniciativa para se defrontar com o imprevisto, cada vez mais comum nas
situações cotidianas, precisa ter polivalência e
capacidade de comunicação. Por isso, o sistema
educacional, ao lado das tarefas tradicionais
de melhorar a qualidade do ensino básico e ampliar a cobertura do segundo grau, necessita
ser renovado no sentido de privilegiar essas novas aptidões.
Portanto, o sistema educacional terá que
ser capaz de produzir modificações institucionais e políticas importantes. O corpo docente –
centro e eixo do processo educacional – precisa
ser valorizado no essencial das suas tarefas,
que está na sala de aula, a partir de cujo desempenho terá que ser premiado, com base em índices de rendimento, levando em consideração
qualidade e reciclagem. Investir na qualidade e
na preparação dos docentes é, por isso, uma ta-
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LUCIANO COUTINHO
refa prioritária para o desafio da educação, que
soma a conquista da cidadania com o sucesso
em competir globalmente.
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