POR QUE CONSERVAR? POR QUE MANEJAR? Aspectos filosóficos, particularmente éticos, referentes à conservação da biodiversidade Vicente Rahn Medaglia [email protected] Novembro de 2005 SUMÁRIO 1. 1.1. 1.1.1. 1.1.2. 1.1.3. 1.1.4. 1.1.5. 1.1.6 1.2. 1.2.1. 1.3. 1.3.1. 1.3.1.1. 1.3.2. 2. 2.1. 2.2. 2.3. 2.3.1. 2.3.2. 2.3.2.1. 2.3.2.2. 2.3.2.3. 2.3.2.4. 2.3.2.5. 2.3.3. Pág. APRESENTAÇÃO......................................................................................... .......2 Argumentos em favor da conservação da biodiversidade.......................... .......3 Argumentos antropocêntricos....................................................................... .......3 Biodiversidade como recurso genético............................................................. .......4 Biodiversidade como equilíbrio dos ecossistemas........................................... .......5 Biodiversidade como recreação........................................................................ .......5 Biodiversidade como interesse científico......................................................... .......6 Biodiversidade como contemplação................................................................. .......7 Compilação dos argumentos antropocêntricos e surgimento da possibilidade de outro tipo de argumento............................................................................... .......8 Argumento zoocêntrico.................................................................................. ......9 Conservação da biodiversidade em relação aos animais sencientes e autoconscientes................................................................................................. .......9 Argumento ecocêntrico.................................................................................. .....11 Emergentismo e valor....................................................................................... .....13 Valor intrínseco e sistêmico............................................................................. .....14 A hierarquia dos valores na matriz da vida...................................................... .....14 Conservação in situ e ex situ.......................................................................... .....17 Por que manejar uma população? ............................................................... .....17 Conservação in situ......................................................................................... .....17 Conservação ex situ........................................................................................ .....18 O que é a felicidade para um animal? ............................................................. .....18 Tipos de manejo ex situ.................................................................................... .....19 Recreação...............................................................................................................19 Interesse científico............................................................................................ .....19 Banco genético................................................................................................. .....19 Triagem............................................................................................................. .....19 Reintrodução..................................................................................................... .....20 Ecocentrismo e manejo ex situ......................................................................... .....20 APRESENTAÇÃO Toda ação humana (ao menos toda que pode ser expressa por palavras) necessita de uma motivação, alguma razão que impele o agente em questão a passar do estado de inatividade para o de atividade. De fato, (quase) ninguém age fortuitamente. E em se tratando dos círculos científicos, isso é ainda mais certo. Em um contexto de intervenção no curso de eventos naturais, não é razoável que se aja sem uma justificativa para tanto. Em se dando a devida atenção, perceber-se-á que a justificativa de uma ação é a sua própria definição. Se se pergunta a uma pessoa: “o que fazes?” e em ela respondendo “estou reintroduzindo uma população de primatas em uma mata onde eles hoje não mais ocorrem”, essa resposta mais geral não se refere a uma descrição da ação imediata como seria, por exemplo “estou carregando uma gaiola com um bugio dentro”, mas constitui o próprio “porque” da ação imediata: reintroduzir uma população de primatas. Mas da mesma forma que carregar a gaiola com o bugio é justificado como uma etapa da reintrodução da população, a própria reintrodução da população necessita de uma justificativa: por que reintroduzir populações de primatas? Para alguns, essa questão pode parecer ser sentido, mesmo óbvia. Mas encarada dentro do contexto da Filosofia, cuja essência é o próprio questionamento sistemático e profundo, testando as motivações últimas de cada ação, ela se mostra inteiramente pertinente. Essa pertinência pretendo clarificar no seguimento deste texto. No caso da reintrodução de populações naturais, a justificativa mais imediata, largamente assumida, é a conservação da biodiversidade. Mas por que conservar a biodiversidade? Será essa uma pergunta infundada, que não precisa ser feita? Mas o argumento acima apresentado nos mostrou que nenhuma pergunta que se refira a questões éticas (isto é, que busca a fundamentação da ação humana) é infundada. Temos sim razão em perguntar o por que de conservar a biodiversidade. Não tanto por duvidar que haja uma explicação razoável para tanto. Bem pelo contrário. A minha intuição ética indica-me que sim, e o mesmo se dá para todos os conservacionistas. A intenção de um questionamento filosófico sobre a pertinência da Conservação dirige-se, antes, a suprir o movimento conservacionista de argumentos que permitam a defesa dessa prática frente aqueles que não vêem nela algo relevante, por quaisquer que sejam os motivos. Como subsidiária a essa, apresenta-se a questão da pertinência do manejo ex situ. Por que e como manejar uma espécie alijada de seu lugar na natureza? Quais são as implicações éticas desse tipo de manejo? Essas questões impõem-se com a mesma força que as que foram anteriormente formuladas, devendo, portanto, ter uma defesa argumentativa por parte de quem se preocupa com esse tipo de prática. Antes de se iniciar a discussão filosófica, cabe fazer um aparte biológico em relação ao conceito de biodiversidade. O conceito mais aceito, e, portanto, aqui utilizado, é o de que A biodiversidade refere-se à variedade de organismos vivos de qualquer fonte, incluindo os ecossistemas terrestres, marinhos e outros aquáticos, e os complexos ecológicos dos quais fazem parte. Isso inclui a diversidade dentro de uma espécie (diversidade genética), entre espécies e entre ecossistemas.1 A biodiversidade não se refere, portanto, somente a diversidade em nível de espécies, mas também ao nível superior (ecossistemas) e inferior (genes). Todos os níveis são interdependentes. Particularmente, a existência de uma espécie está inteiramente ligada a diversidade genética de uma população, que é o que garante que aquela espécie poderá adaptar-se às condições ambientais que inevitavelmente se modificam. Para tanto, não é necessário somente que se conserve uma população da espécie, sendo de vital importância que se conserve uma “população mínima viável”2. Pode bem ocorrer que exista uma população, em cativeiro, por exemplo, mas que não tenha variabilidade genética suficiente para viver na natureza. Em certo sentido (no que considera os 3 níveis), podemos dizer que a espécie está, então, extinta. Tratar-se-á, portanto, em primeiro lugar (no ponto 1.), de enfrentar a questão de por que a conservação da biodiversidade é importante. Serão, então, apresentados diversos argumentos pelos quais ela pode ser respondida afirmativamente, partindo de concepções mais próximas das intuições éticas de nosso tempo para algumas que se apresentam somente como pertinentes entre um número reduzido de indivíduos. A saber, partiremos de argumentos antropocêntricos para argumentos ecocêntricos, passando por argumentos zoocêntricos. Depois de apresentados argumentos, será apresentado o ponto de vista defendido pelo autor e que implicações esse ponto de vista traria para a conservação in situ. Em seguida (no ponto 2.) será discutida a questão do manejo ex situ em relação, também a diferentes concepções, e, por fim, será discutida a questão de que atitudes se devem tomar para a conservação da biodiversidade. 1. Argumentos em favor da conservação da biodiversidade 1.1. Argumentos antropocêntricos Argumentos antropocêntricos são aqueles nos quais o critério usado para determinar o que deve ser feito é o bem estar dos humanos. Em outras palavras, uma visão de mundo antropocêntrica é aquela que confere aos humanos a condição de valor absoluto ou intrínseco. É dizer, os humanos devem ser respeitados pelo que representam em si mesmos. Em contraste, essa visão de mundo prescreve que os demais seres possuem valor somente em relação aos humanos, ou seja, os demais seres são dotados de valor instrumental. A justificativa para que se atribua valor intrínseco aos humanos e instrumental para os outros seres é uma questão bastante complexa, e não será discutida neste texto3. Indicações acerca dessa questão, no entanto, serão apresentadas na seção 2. onde apresento a minha concepção sobre o assunto. 1 PNUMA, IBAMA e UMA. Perspectivas do meio ambiente mundial – GEO-3. disponível em www.ibama.gov.br. 2004. Visita realizada em 15 de novembro de 2005. 2 Cf. Shaffer, M. Minimum population sizes for species conservation. BioScience vol. 31, nº 2, pp. 131-134. February 1981. 3 Para uma discussão dessa questão, ver SINGER, Peter. Ética Prática. São Paulo, Martins Fontes: 1994. E ROLSTON III, Holmes. Philosophy Gone Wild. New York: Prometheus Books, 1989. Ambos autores Para os leitores que já estão familiarizados com os argumentos antropocêntricos expressos abaixo, sugiro que passe para os argumentos zôo e ecocêntricos da seqüência. No que tange à questão da biodiversidade, existem diversos argumentos de caráter antropocêntrico. Dentre eles apresentaremos os que tratam da biodiversidade enquanto: • Recursos genéticos • Equilíbrio dos agro-ecossistemas • Recreação • Interesse científico • Contemplação 1.1.1. Biodiversidade como recurso genético É indisputável que o desenvolvimento da cultura humana se fez sobre a utilização de recursos genéticos. Em realidade, é isso que é a agropecuária. E a diversidade de genes está alocada justamente na diversidade de formas de vida. É verdade que hoje o ser humano possui um vasto conhecimento de plantas e animais que podem ser diretamente aproveitados para o uso humano. Poder-se-ia dizer que com o avanço tecnológico, não se necessitaria mais de descobrir novos seres na natureza a serem utilizados para fins humanos, mas isso é evidentemente falso. A tecnologia humana está muito longe de conseguir sintetizar seres vivos. Mesmo quanto a compostos químicos (para uso como medicamentos, cosméticos e alimento) cuja tecnologia de sintetização é razoavelmente dominada, existe uma procura incessante por parte de cientistas de grandes indústrias farmacêuticas pelos conhecimentos tradicionais de povos que vivem a centenas ou milhares de anos em contato com a diversidade. Se o humano fosse capaz de desenvolver toda a sua necessidade de compostos químicos em laboratório, não existiria biopirataria. E ela existe em proporções planetárias. Quanto a todos os alimentos consumidos pelos humanos (com a exceção de aditivos químicos sintetizados, muitos deles devendo ser chamados antes de venenos do que de alimentos), eles foram uma vez encontrados em estado natural. Arroz do sudeste asiático, soja do leste asiático, batatas dos Andes, milho do México, trigo da Europa, etc. Em um período em que a cultura humana passava por um período de diversificação, foram desenvolvidas centenas de milhares, ou mesmo milhões de variedades das espécies consumidas pelas populações humanas. Cada variedade particularmente adaptada às condições ambientais do lugar de seu cultivo. Com o processo de homogeneização da cultura, decorrente da globalização do capital, essas variedades foram se perdendo. Põe-se então, a pergunta de se as poucas variedades que hoje são cultivadas terão a capacidade de agüentar as mudanças ambientais advindas das mudanças climáticas, para citar um só exemplo. No que tange a esse ponto, a conservação da biodiversidade deve ser promovida por dois motivos: (1) para bem que os humanos possam descobrir e fazer uso de compostos químicos que contribuam para o seu bem viver, assim como (2) para que as variedades criticam essa concepção. Para uma defesa dela, ver Kant, Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Existem diversas edições em Português. Uma edição de qualidade em inglês é KANT, I. Foundations of the metaphysics of morals. S.n.t, The Library of Liberal Arts: 1959.* utilizadas como alimento tenham as capacidades de adaptação às mudanças ambientais que virão, ou seja, para que exista uma segurança alimentar. 1.1.2. Biodiversidade como equilíbrio dos ecossistemas Vivemos em ecossistemas. Essa proposição que, para os que têm algum conhecimento em ecologia, é banal, passa, de fato, desconhecida da maioria. O funcionamento dos ecossistemas é o que fornece o equilíbrio relativo do qual necessitamos para manter nossa vida biológica. Quando dizemos que nosso metabolismo é o que mantém a temperatura de nosso corpo, por exemplo, isso não passa de uma meia verdade. Além do funcionamento do metabolismo, é necessário que o ambiente a nossa volta, particularmente a atmosfera, esteja dentro de certos limites. Se a temperatura do ambiente baixa de mais, não há metabolismo que sustente o calor necessário à vida. Se não existe um ambiente em relativo equilíbrio, a vida torna-se impossível. Outro exemplo pertinente é a relação de macro-organismos com micro-organismos. Se não existe um equilíbrio entre a quantidade e qualidade de micro-organismos patogênicos, os macro-organismos irão sucumbir doentes. Assim a saúde se interpenetra ao meio-ambiente, no que hoje chamamos saúde-ambiental. Ocorre que o equilíbrio dos ecossistemas é mantido graças a interações muito sutis entre os organismos e os fatores abióticos. E isso é assim tanto em escala local quanto em escala global. Em escala local, por exemplo, em um ambiente rural, pode suceder que a extinção de um artrópode, consumidor secundário, ocasione a explosão da população de sua presa, consumidora primária, que se torna, então, uma praga de lavoura. Exemplos disso não faltam. Em um ambiente urbano, por exemplo, com o despejo de esgoto cloacal em cursos d’água pode ocorrer que populações de micro-organismos patógenos sofram uma explosão com conseqüências graves para a saúde humana, como é o caso da cólera. Em escala global, podemos citar o caso da exploração dos recursos pesqueiros. De 1950 a 2002, a pesca em nível mundial setuplicou4. Esse aumento está causando com que os recursos pesqueiros se acabem. Como foi assinalado na introdução, um dos efeitos que essa prática pode acarretar é o enfraquecimento genético da espécie que pode resultar na entrada da mesma no chamado vórtice de extinção. Como existe contigüidade entre os ecossistemas marinhos, uma completa alteração nas teias alimentares pode causar um colapso nas populações marinhas. Ainda em escala global, pode-se citar o efeito do desflorestamento sobre o clima mundial. As grandes florestas tropicais são importantíssimas para a dinâmica da água do planeta. A destruição das florestas, de diversidade biológica, portanto, pode, então causar mudanças substanciais no clima.5 Nesse sentido, podemos dizer que, para a humanidade, é importante conservar a biodiversidade (3), pois dela depende o equilíbrio dos ecossistemas de que necessitamos para desenvolver as atividades da cultura humana. 1.1.3. Biodiversidade como recreação 4 Halwi, B. “Aquaculture pushes fish harvest higher” in The World Watch Institute. Vital Signs 2005. Norton, New York: 2005. 5 Gardner, G. “Forest losses continue” in The World Watch Institute. Vital Signs 2005. Norton, New York: 2005. Um outro argumento antropocêntrico é o que diz ser a diversidade das formas de vida interessante para a admiração humana. Não só em museus de história natural, como também “in vivo”. Exemplos bastante comuns disso nos são familiares. O que vai fazer alguém no arquipélago de Fernando de Noronha, por exemplo? Vai conhecer a beleza dos seres que lá vivem, particularmente da fauna marinha. Esse argumento é comum a toda a defesa do que hoje se chama “ecoturismo”. Trata-se fundamentalmente de conservar as espécies para que os humanos possam admirá-las. E como bem se sabe, essa atividade é uma grande fonte de recursos. Os turistas carregam consigo muito dinheiro. No entanto, dentro da perspectiva antropocêntrica na qual estamos trabalhando no momento, esse argumento pode parecer particularmente fraco. Pode alguém dizer: “bom, podemos preservar uma área natural de sua destruição para o turismo, mas a renda que isso gera é muito menor do que se instalássemos a indústria X.” Pode isso ser verdade, mas cabe lembrar que a perspectiva que estamos adotando aqui é a que leva em conta valores humanos. O argumento apresentado possui como premissa oculta que a geração de renda é o que de mais interessante ou importante existe. Isso é, reduz as potencialidades humanas à sua condição material, ou melhor, monetária. A experiência humana, no entanto, é infinitamente mais rica. O que faria alguém cheio de dinheiro em um planeta onde só existissem pouquíssimas espécies? Teria ele a capacidade de se maravilhar com a beleza dos peixes de Fernando de Noronha, ou com a exuberância da Mata Atlântica? Segundo esse argumento, portanto, a biodiversidade deve ser conservada (4) para ser admirada pelos seres humanos. 1.1.4. Biodiversidade como interesse científico Outra dimensão fundamental da existência humana é a sua capacidade de fazer ciência, ou seja, a capacidade de, a partir da observação de casos particulares, induzir leis universais e, além disso, comprová-las. Nenhuma outra espécie tem a capacidade de entender e intervir no meio ambiente que nós temos. Mas, muito além da capacidade de intervenção (que é, com justiça, acusada de suscitar a grande destruição ambiental), existe a capacidade de maravilhar-se com a complexidade e beleza que a matriz generativa que é a natureza é capaz de engendrar. Em falando assim da ciência, faço eco ao que Lutzemberger uma vez disse sobre o assunto: a ciência verdadeira é a contemplação da beleza sagrada do universo (...) dizer que a ciência não tem nada a ver com valores, ética, moralidade, religião e política, é uma grande bobagem. A ciência está profundamente imbuída de valores, e, conseqüentemente, de sentimentos.6 Quem não se maravilha ao olhar para um bando de bugios-ruivos nas matas de Porto Alegre. Quão incríveis foram as forças da evolução que levaram à existência de um 6 Lutzemberger, J. “Science, Ethics and Environment” in Callicott, J. B. & Da Rocha, F. J. R. Earth Summit Ethics: toward a reconstructive postmodern philosophy of environmental education. New York, State University of New York Press: 1996. pp. 28-29 tal ser, um primata, folívoro, que emite um rugido (em realidade, ronco) estrondoso, que faz as matas tremerem! Que mecanismo será que o permite emitir um tal som? Que mecanismos digestivos o permitem uma nutrição quase que inteiramente à base de folhas? Que tipo de interações será que ele estabelece com outros seres da mata? Conhecer a realidade imensamente rica e complexa é uma das motivações centrais da ciência, do espírito científico. Dizer, portanto, que a ciência tem a sua motivação inteiramente no transformar a realidade é desconhecer uma das potencialidades (talvez uma das mais importantes) da existência humana. Fazer ciência meramente para aumentar o poder, particularmente o poder econômico, humano sobre outros seres (incluindo outros humanos) é incorrer no mesmo erro apresentado na seção anterior, a saber, reduzir as potencialidades humanas ao acumulo de capital, esquecendo-se de diversas outras. Lá, da capacidade da admiração cênica, plástica da vida nesse planeta. Aqui, da capacidade de compreender os maravilhosos mecanismos que levaram à existência de tamanha diversidade de formas de vida. Quantos processos maravilhosos já deixaram de existir por ação do homem? Quantos mecanismos e estratégias adaptativas não desapareceram com extinções de origem antrópica? Essa pergunta não se pode responder, mas ela dá a dimensão de que, em destruíndo a diversidade da vida no planeta, nós estamos acabando com uma das possibilidades mais fascinantes da existência humana. A aventura científica na qual a humanidade ingressou desde há muito tempo. Segundo esse argumento, portanto, devemos conservar a biodiversidade (5) para bem de que possamos conhecer as maravilhas que permitem que uma imensa quantidade de variedades de vida possam coexistir nesse planeta. 1.1.5. Biodiversidade como contemplação Essa seção será como uma síntese das duas anteriores. Tratar-se-á de pensar a possibilidade de se encarar a natureza de uma maneira ao mesmo tempo abrangente, como é o caso da admiração pela paisagem, e que represente algum tipo de conhecimento (para além da esfera puramente subjetiva), como é o caso do maravilhamento científico. Existe uma experiência humana sui generis vivida quando se está em contato profundo com a natureza. Algo que vai além no mero “que bonito” da penúltima seção (turismo). A admiração que corriqueiramente experienciamos é feita a partir do ponto de vista de uma idéia (ou feixe de idéias) a qual chamamos “eu”, profundamente ligada, mesmo condicionada àquilo que vivemos no passado. Então temos uma individualidade observando algo exterior a ela. Mesmo que essa individualidade estiver muito impressionada com o que vê, quando observamos da beira de um dos cânions do Parque Nacional dos Aparados da Serra, se ela mantiver o ponto de vista do “eu”, sempre haverá uma barreira entre o observador e a coisa observada. Agora, em algumas ocasiões especiais, (para alguns mais raras, para outros mais freqüentes), particularmente quando se está em contato com a natureza, longe dos nossos pensamentos corriqueiros, quando a nossa consciência é subitamente tomada por uma experiência em tudo distinta do que estamos acostumados. Nesse estado de espírito, estranhamente a nossa constante preocupação com nós mesmos se desvanece, paramos de reafirmar a nossa identidade, nosso “eu”, com pensamentos ininterruptos. Nossa mente silencia. E sentimos um profundo sentimento de união com tudo que está a nossa volta, com toda a beleza que agora experienciamos como partícipes, não como observadores. O observador e a coisa observada são, então, a mesma coisa. Essa é a experiência de Comunhão com a Natureza, entendida essa menos como a soma dos processos ecológicos descritos cientificamente e mais como a matriz generativa da realidade mesma, o próprio fluxo da existência. O que há de particular nela e que a diferencia de todas demais experiências é que ela se dá precisamente na e pela ausência de uma individualidade, um “eu” que se auto-afirma por meio de pensamentos constantes. Estando a mente livre desses pensamentos, ela tem a possibilidade de apreender o mundo diretamente. Se a mente humana possui ou não essa capacidade eu não ponho em dúvida, pois a tenho experienciado. O que é relevante de se dizer em relação à essa vivência é que, nesse estado de espírito, a consciência é tomada por um estado de alegria, e conforto. Aí não existe sofrimento (psicológico), pois a mente não é guiada pelo passado, mas está atenta ao presente. E que essa experiência é grandemente facilitada pelo contato com a natureza não resta dúvida. Contrapondo a natureza à cidade, percebemos com facilidade que a vida urbana é regida pelo pensamento no passado ou no futuro. A mente de quem está na cidade é cheia, não há espaço para comunhão com nada. Só há espaço para o “eu”. Já em meio à natureza, a realidade é única, una. A atenção está naquilo que ocorre no momento. Não há porque nem como se preocupar (pré-ocupar) com o passado e o futuro. Ainda que com grande estranheza, podemos extrair daí um argumento antropocêntrico para a conservação da biodiversidade. Devemos conservar a biodiversidade (6) para manter a possibilidade de os humanos terem experiências de comunhão com a natureza. 1.1.6 Compilação dos argumentos antropocêntricos e surgimento da possibilidade de outro tipo de argumento Foram oferecidos seis argumentos, portanto, que nos conclamam a preservar a biodiversidade. É importante notar, no entanto, que os argumentos apresentados até agora são antropocêntricos, ou seja, são argumentos que partem do pressuposto que os humanos são dotados de valor (intrínseco), e que, portanto, visam proteger a biodiversidade em função do que ela representa ou pode representar para os humanos. Em suma, a biodiversidade deve, antropocentricamente falando, ser conservada: (1) para bem que os humanos possam descobrir e fazer uso de compostos químicos que contribuam para o seu bem viver; (2) para que as variedades utilizadas como alimento tenham as capacidades de adaptação às mudanças ambientais que virão, ou seja, para que exista uma segurança alimentar; (3) pois dela depende o equilíbrio dos ecossistemas de que necessitamos para desenvolver as atividades da cultura humana; (4) para ser admirada pelos seres humanos; (5) para bem de que possamos conhecer as maravilhas que permitem que uma imensa quantidade de variedades de vida possam coexistir nesse planeta; e (6) para manter a possibilidade de os humanos terem experiências de comunhão com a natureza. Não existem, contudo, somente argumentos antropocêntricos para que se conserve a diversidade biológica. Alguns outros pontos de vista nos permitem achar outros argumentos para essa questão. Quais serão eles, então? Vamos imaginar a seguinte situação: estamos no meio do mato, por causa de algum dos seis argumentos apresentados, ou ainda por outro motivo qualquer, quando, de repente, nos deparamos com uma cena terrível: uma bugia (bugio fêmea) morta, (por um tiro, talvez), estirada no chão, com um filhote vivo ainda em suas costas. E o filhote não pára de chorar. Qual será nossa reação? Olhar para a cena, pensar como a natureza é cruel com os seus filhos, virar as costas e ir embora? Ou talvez prestar algum socorro ao filhote? Imagino que alguns leitores poderiam escolher a primeira opção, mas creio, sinceramente, que diversos escolheriam a segunda. Por que? Qual o motivo que os levariam a agir assim? Pode a vida de um bugio(zinho) fazer alguma exigência ética sobre nós? Que tipo de exigência? Uma resposta a essa pergunta é o que tentarei fornecer na próxima seção. 1.2. Argumento zoocêntrico Em simetria com a definição dada para os argumentos antropocêntricos, um argumento zoocêntrico é aquele no qual o critério usado para determinar o que deve ser feito é o bem estar dos animais. Ou seja, de acordo com um argumento desse gênero, é necessário que, ao deliberarmos sobre nossa linha de ação, devemos considerar se não estamos fazendo mal para algum animal, e, se o estivermos, nossa linha de ação deve ser modificada. Dessa maneira, é atribuído valor intrínseco aos animais (incluídos aí os humanos, bem entendido), que não podem ser utilizados como meios para que alguém atinja um fim qualquer7. Diferente do argumento antropocêntrico que, por estar arraigado em nossa cultura, é bastante intuitivo para nós, a existência de um argumento zoocêntrico deve, por si, ser justificada. Existem, no entanto, diversas maneiras de fazê-lo. 1.2.1. Conservação da biodiversidade em relação aos animais sencientes e autoconscientes Uma das estratégias é asseverar que a sensibilidade é a fonte do valor intrínseco desses seres. “Sensibilidade”, aqui, é entendida no sentido reconhecido pela ciência atual, ou seja, possuir um sistema nervoso desenvolvido suficiente para ter a sensação de dor corporal. Assim, não são todos os animais que entrariam nesse conceito, mas somente os animais “superiores”, ou melhor, os vertebrados. Esse conceito é celebremente defendido pelo filósofo australiano Peter Singer, autor de Libertação animal (Animal Liberation) que se tornou um clássico do movimento 7 Os termos “fim” e “meio” são utilizados tecnicamente em filosofia, sendo que os seus significados são os seguintes. O fim é o objetivo de uma ação qualquer. Se considero que me alimentar é algo importante, então “alimentar-me” é um fim de minha ação. Agora, para se alimentar é necessário que se alimente de algo. Aquilo com que me alimento, nesse caso, é o meio pelo qual realizo o meu fim. vegetariano. Trabalhando no nível do que devemos levar em conta em nossas deliberações morais, afirma Singer que Se um ser sofre, não pode haver nenhuma justificativa de ordem moral para nos recusarmos de levar esse sofrimento em consideração. Seja qual for a natureza do ser, o princípio de igualdade exige que o sofrimento seja levado em conta em termos de igualdade com o sofrimento semelhante (...) de qualquer outro ser. Quando um ser não for capaz de sofrer, nem de sentir alegria ou felicidade, não haverá nada a ser levado em consideração.8 Ora, certamente em se assumindo um conceito desses, a vida dos seres humanos seria substancialmente modificada. Não importa em que situação que se estivesse, em se deparando com uma vida dotada de sensibilidade, é necessário que se leve ela em conta, perguntando “será que não vou causar dor a esse ser?”, e, se sim, “preciso realmente causar dor a esse ser?” Isso vai diametralmente contra o senso comum de hoje (incluindo grande parte da legislação) que considera que qualquer coisa que não seja humana está aí para ser usada ao bel prazer dos humanos. O autor vai mais longe, no entanto, que a concernência ética aos seres sencientes. Mais do que levar em conta os seres sensíveis, devemos, em alguns casos, garantir-lhes direitos como o à vida. Para tanto, ele se sustenta sobre dois pilares, o da sensciência e o da autoconsciência. Tendo definido o conceito de “pessoa” em relação à capacidade de fazer referência a si próprio e de se imaginar no passado e no futuro, Singer chega à estranha conclusão de que alguns animais são pessoas. Particularmente os primatas antropóides: chimpanzés, orangotangos e gorilas (todos eles, no momento, ameaçados de extinção), dos quais já existe confirmação científica de que eles preenchem os requisitos acima. A afirmação de Singer, a despeito do que alguns possam imaginar, é embasada em experimentos científicos conduzidos com esses primatas. O conceito de pessoa estender-seia, ainda, aos cetáceos, cujos estudos permitem já a confirmação de sua autoconsciência. Frente à nossa limitação científica, no entanto, o autor advoga que, pelo princípio da precaução, deveríamos estender ainda mais esse conceito, começando pelos demais primatas e chegando, até mesmo, a incluir todos os mamíferos. Em se assumindo essa visão de mundo, quais seriam as conseqüências para a conservação da biodiversidade? Peter Singer enfrenta essa questão. Em discutindo a questão da destruição provocada pela construção de uma hidrelétrica, ele afirma que nos cálculos de prós e contras sobre a construção da barragem, “devem agora entrar os interesses de todos os animais que vivem na área a ser inundada. (...). Esses fatos vão aumentar significativamente o peso dos argumentos contrários à construção da represa”9. É claro. Se damos peso à existência animal, e uma ação ameaçar essa existência, essa ação será imediatamente rechaçada. 8 SINGER, Peter. Ética Prática. São Paulo, Martins Fontes: 1994. p. 67. Recomendo, que, em havendo interesse, o leitor procure essa fonte. Pois o tratamento que dou aqui é muito incompleto ao texto de Singer. De fato, ele desenvolve um argumento bastante bem fundamentado para defender os seus pontos de vista. 9 Idem, p. 290. Um outro corolário dessa visão de mundo é que os ambientes naturais devem ser preservados em função dos animais, particularmente os auto-conscientes que aí vivem. Além disso, é claro que, em se tendo real apreço pela vida do animal, não se pode simplesmente conservá-lo. Antes, é necessário conservar também o seu hábitat. Esta tese é inconteste dentro das ciências biológicas: que um ser vivo só é o que é dentro de seu hábitat. Tanto o hábitat faz parte dele quanto ele, do hábitat; são interdependentes. Se queremos conservar as populações de chimpanzé, que é a espécie à qual o argumento de Singer mais se conforma, temos que necessariamente conservar as florestas tropicais da África onde ele mora. Não faz sentido respeitar o chimpanzé e não respeitar a floresta. A floresta faz parte do chimpanzé. E não basta conservar só as árvores onde esse primata vive, é necessário, igualmente, ou ainda mais, conservar os ecossistemas que dão a base de sua existência. A vida do chimpanzé está inserida em uma gigantesca e complexíssima teia de relações ecológicas. Em se rompendo essa teia, rompe-se a possibilidade desse animal. Esse argumento, então, partindo de pressupostos que asseveram o valor intrínseco da vida dos animais, particularmente dos auto-conscientes, diz que a biodiversidade deve ser conservada (7) em respeito à vida dos seres sencientes que encontram nela o seu hábitat. 1.3. Argumento ecocêntrico Até aqui consideramos dois pontos de vista possíveis de serem assumidos. Primeiro, o que considera que o importante a ser buscado é o bem estar para os seres humanos, ou seja, a visão antropocêntrica. Vimos que nesse registro, podem-se desenvolver argumentos de peso para a conservação da biodiversidade. Em seguida, consideramos o ponto de vista zoocêntrico, ou seja o que considera que o importante é o bem estar dos animais. Vimos que se utilizarmos argumentos inspirados nessa visão de mundo, a força dos argumentos é ainda maior, mais imperativa, pois abrange um maior escopo de consideração moral. Será que esse escopo não pode ser aberto um pouco mais? Será que não podemos incluir outras classes de seres em nossas deliberações éticas? Fazer esse trabalho é o que intento com essa seção. A começar pelo nome. Ecocêntrismo. Para alguns, pode parecer uma esquisitice sem tamanho, coisa de hippies dos anos 70. Para outros, o nome pode fazer referência à disciplina institucionalizada dentro das universidades, a ecologia. No que têm somente meia razão. O uso dado aqui a esse termo é inspirado pela sua origem etimológica: eco, oíkos10, casa. É o ponto de vista que baseia-se em nossa casa, mas aqui na abrangência do planeta Terra. Assim, quanto ao significado, ela distingue-se em tudo daquilo que, na grafia, distingue-se por apenas uma letra: egocentrismo. Nesse último, temos a supremacia absoluta do indivíduo sobre o resto. Já no ecocentrismo, temos a supremacia do todo sobre as partes. Mas temos que qualificar o que seja esse todo e em que sentido o consideramos. Antes, no entanto, de ir direto ao assunto, lembremos um pouco de nossa história. A Terra iniciou sua formação há aproximadamente 4,5 bilhões de anos, levando aproximadamente 500 milhões de anos para estabilizar-se. Um bilhão de anos depois do 10 A palavra oíkos é grega, grafada e significa propriamente “casa”. Na transliteração do grego para o latim e daí para as línguas neo-românicas, o ditongo “oi” transforma-se em “e”. Assim também em “oinos”, “vinho” para “eno” de enologia. início do processo, já existia a vida.11 Daí em diante, o que antes eram elementos químicos estáticos passaram a ser elementos dinâmicos, com a fantástica e inexplicável propriedade de auto-replicação. E esses organismos auto-replicantes passaram a “querer” permanecer. Surgiu a pressão da seleção natural. Começou, então, a magnífica diversificação das formas de vida, passando de um número zero de espécies para milhões. Constituídos a princípio de alguns poucos compostos químicos, os organismos passaram a ter milhões de células, em sistemas cada vez mais complexos. Complexidade é, de fato a palavra para se exprimir o movimento da vida no planeta. O movimento é de complexificação. Foi daí que os mecanismos que sustentam a vida surgiram, como é o caso, por exemplo, da fotossíntese, dos sistemas de decomposição, etc. A complexificação dos organismos, em certo sentido, significa que esses não permaneceram parados, eles melhoraram. De que forma? Criando mecanismos que lhes permitissem sobreviver mais e melhor. Pensemos, de uma bactéria para o ser humano existe alguma diferença qualitativa? É claro que não podemos fazer uma afirmação absoluta nesse sentido. Temos que fazê-la em relação a algum critério. Qual poderíamos, então, usar? Para um ser humano temos minimamente definido o que é ser feliz, por exemplo. Perguntar o que significa a felicidade para uma bactéria dificilmente fará sentido. É que no ser humano está presente algo que, aparentemente, não existe na bactéria: a auto-consciência. E essa como uma das manifestações da mente. Tomando, então, a mente como ponto de análise. Durante séculos acreditou-se que o ser humano era especial. Era qualitativamente distinto dos demais seres. Era filho de Deus, enquanto aos outros seres restava o título honorífico, sim, mas pouco eficiente, de “criatura”. O mundo era feito para nós. Com o avanço da ciência, pôs-se em dúvida essa afirmação. O homem, então, deixou de ser o ser especial e passou a compor com todos os outros o reino dos seres vivos. Se antes se acreditava que só o homem possuía alma, com a substituição desse conceito pelo de mente (sem conotações metafísicas), os (ou melhor, alguns) humanos deram-se conta que o que ocorria com os humanos não era um processo diferenciado dos demais seres, mas o mesmo. O homem também é filho da complexificação. A mesma força que faz com que a borboleta tenha asas é a que faz com que os homens vivam fazendo uso de suas mentes. Para sobreviver, a borboleta usa as asas (entre outros meios), já os humanos usam a mente. E tanto é assim que os humanos coexistem com as borboletas. Em outro sentido de adaptação, é impossível dizer qual espécie ou indivíduo é mais evoluído. Se ambos estão vivos, ambos têm a mesma capacidade de estarem vivos. Ambos são igualmente adaptados para coexistirem. Não há dúvida, no entanto, que, nós, humanos, valorizamos a nossa vida mental. Adoramos nossos prazeres, os que são de várias naturezas. Dizemos que são bons. Que é boa a nossa vida. Mas, em assumindo, uma visão antropocêntrica do valor, ao mesmo tempo que dizemos que a nossa vida possui valor, dizemos que a de outros seres não possui valor absoluto nenhum. É o que ocorre quando se destrói uma floresta na construção de uma hidrelétrica, por exemplo. O argumento que é mais ouvido é o de que a hidrelétrica é necessária para o crescimento eco(ECO!)nômico do país e para a “felicidade geral da nação”. Esse argumento é, no entanto, do ponto de vista ecocêntrico que estamos trabalhando, profundamente ignorante. 11 Teixeira, W. Toledo, M. Fairchild, T. Taioli, F. Decifrando a Terra. São Paulo: Oficina de Textos, 2000. Ignorante? Por que? Digo que ele é ignorante por não reconhecer que o processo generativo que nos formou, que formou nossas mentes, é o mesmo que mantém os demais seres. É ignorante, pois considera que a existência é algo estático, que o processo de geração não parou, e que todos os seres continuam o seu caminho de complexificação. Será por acaso justo valorizar uma parte do processo sem valorizar o processo inteiro? Se dizemos que a hidrelétrica é importante para o bem estar humano, estamos sumariamente desconsiderando a existência dos milhares de outros seres que serão mortos durante essa construção. Estamos desconsiderando a história de milhões de anos de existência do processo que gerou os seres que agora aí estão. A Natureza levou bilhões de anos para construir a complexidade da qual é formada uma dada floresta. Nós, humanos, a destruímos em cinco anos! Desse ponto de vista, parece bastante estranha essa situação. Parece, então, com esse argumento, que devemos respeitar a vida de todos os seres, e ainda mais, que talvez tenhamos a obrigação de não destruir esses seres. Mas não é bem isso que se quer dizer aqui. Pois, se os humanos não matassem nenhum outro ser, na condição fisiológica que hoje temos, isso significaria decretar nossa própria morte. Se não mato nenhum ser, eu mato a mim mesmo. E isso seria, igualmente, desrespeitar o desenvolvimento da história natural da qual eu faço parte. Essas exigências de não matar nada trazem, portanto, em si, uma contradição. 1.3.1. Emergentismo e valor O que se quer defender é algo diferente. Mas para conseguir explicá-lo, é necessário que introduzamos um outro conceito, a saber, o de propriedade emergente. Esse conceito coloca-se na disputa entre duas concepções epistemológicas, o reducionismo e o holismo. O Reducionismo advoga que a constituição de qualquer ser pode ser descrita e explicada através de suas partes. Um organismo vivo é explicado em função de seus órgãos, esses de suas células, e em seguida moléculas, átomos, e assim por diante. A tese fundamental é que, em se tendo as unidades fundamentais, o todo é um desdobramento delas. As propriedades das partes são suficientes para explicar o funcionamento do todo. Contra essa concepção, o holismo defende que o todo não é igual a soma de suas partes. Ele é a soma das parte mais algo, a saber, o padrão de organização. O todo é a soma das partes mais o padrão de organização que não está presente nas partes individualmente, mas que só emerge em seu estado de inter-relação. De onde surge, então, esse padrão? Só podemos entender a tese holista a partir de um contexto de evolução. Em se tendo seres mais simples se relacionando, de acordo com as transformações que o sistema for sofrendo, e de acordo com o padrão no qual essas relações se dão, esses seres podem passar a compor um todo no qual exista uma propriedade que não esteja presente nas partes. É assim com a vida. Nas moléculas que se formavam há 4 bilhões de anos na Terra não havia a capacidade de se reproduzir. Agora, quando algumas dessas moléculas passaram a interagir, particularmente as de código genético, surgiu a replicação. A replicação não está presente na molécula genética. A propriedade de replicar-se emerge da relação entre outras moléculas. Aqui existe o surgimento de uma propriedade. E assim explica-se como que de um mundo puramente geológico veio a ser um mundo eminentemente biológico. Se, de um lado, podemos identificar o surgimento de propriedades emergentes no mundo puramente geológico, essas tomam um vulto muito maior no mundo biológico. O processo de seleção natural, de fato, vai propiciar as interações que gerarão as inúmeras propriedades emergentes que caracterizam os seres vivos. Por exemplo, a partir de seres unicelulares surgirão seres pluricelulares. Surgirá a capacidade de fixar energia solar através da fotossíntese. Surgirá a capacidade de locomoção. Depois surgirá a capacidade, de percepção do ambiente externo. Surgirão os sentidos, visão, audição, etc. Surge a mente! Surgirá a capacidade de auto-regulação da temperatura. Possivelmente daí, surge, particularmente nos mamíferos, o afeto. Daí surge, nos mamíferos mais desenvolvidos, o amor. E assim podemos listar a infinidade de propriedades que os seres vivos desenvolveram. Agora, o que isso tem a ver como a maneira que esses seres, por mais propriedades que tenham desenvolvido, devem ser tratados? Tradicionalmente, os teoricos éticos não se preocuparam com esse tipo de questão. Em se admitindo, como se fez por muito tempo (e ainda se faz), que o estatuto moral humano é derivado de seu parentesco divino, e que os demais seres nada têm a ver com isso, a questão das propriedades emergentes fica, evidentemente, fora de propósito. Mas se considerarmos (o que é muito mais consoante com as teorias científicas) que a moralidade é permitida por um desenvolvimento da mente, e que a mente é um resultado do processo de evolução da vida, não é mais difícil considerarmos que devemos levar em conta outros resultados do processo. Se o que estamos valorizando é uma parte, por que não valorizar as outras? A questão é saber dar o valor apropriado a cada parte. A história da vida é a de um desenvolvimento de propriedades. Não faz sentido dar o mesmo valor a um ser humano e a uma bactéria. Se usarmos a questão das propriedades emergentes como mediada, um humano possui muito mais valor que uma bactéria. Como derivar, então, o valor de propriedades emergentes. Isso não é tarefa fácil. 1.3.1.1. Valor intrínseco e sistêmico Em primeiro lugar, devemos definir o que chamamos de valor. Valor é aquilo que requer de nós, seres morais, respeito. Quando identificamos um valor, isso faz com que tenhamos que agir em relação a ele de uma determinada forma. Nas visões de mundo apresentadas nos pontos 1.1. e 1.2., identificamos o valor como se fazendo presente exclusivamente nos humanos (visão antropocêntrica) e, depois, nos animais (visão zoocêntrica). Mas, nos dois casos, o valor considerado era tido como intrínseco, ou seja, derivado de propriedades que os seres possuíam independente de relação com qualquer outro. Se, no entanto, escolhemos uma visão holística de valor, esse tipo de colocação fica sem sentido. Nenhum ser existe independente dos demais. O que existe são relações. São elas mesmas que moldam os seres. Se considerarmos o fluxo da vida no planeta, veremos que o que se dá é uma constante troca de valores. Por exemplo, em determinado período da história natural, alguns seres vegetais desenvolveram a habilidade de guardar energia em tecidos específicos. É o caso das batatas. Isso fez com que esses seres resistissem melhor a situações de desgaste ambiental, como secas, etc. Isso é um mecanismo que o vegetal tem para proteger a sua existência, coisa que ele valoriza (mesmo sem possuir uma mente nos moldes da nossa para saber disso). Para ele, a batata é algo bom, é um valor. Agora, um tatu é um ser que, na relação com a batata, desenvolveu a capacidade de escavar a terra e de encontrar a batata. E, quando ele a acha, come-a. Ele está promovendo a transferência do valor (no caso, valor energético). Um predador do tatu, por sua vez, refará essa transferência. Existe, então, um fluxo de valores em um sistema de trocas e transferências. Nesses sistemas, existem alguns coágulos, os indivíduos que defendem suas existências, mas isso não quer dizer que eles estejam isolados. É certo que, no sentido de defenderem suas própria existências, os indivíduos se asseveram valor intrínseco, mas é absurdo considerar esse valor em desconexão à matriz à qual os seres pertencem. O conjunto dos valores e, principalmente, suas trocas e transferências, é o valor sistêmico. 1.3.2. A hierarquia dos valores na matriz da vida Voltemos à questão de como derivar valores de propriedades emergentes. O que interessa, aqui, e que consigamos estabelecer quais seres merecem maior consideração moral do que quais outros. Já dissemos que um ser humano merece maior consideração que uma bactéria. Isso dificilmente poder-se-ia contestar, em partindo da concepção de que os valores são derivados de propriedades emergentes. Assumir essa concepção, no entanto, revela ser possível estabelecer uma hierarquia de valores. Que tipo de divisão, então, faremos em considerando os demais seres? Quais propriedades consideraremos relevantes para o estabelecimento da hierarquia de valores? Podemos começar pelo que nos é mais familiar (talvez não tenhamos outra opção). A propriedade da autoconsciência é, sem dúvida valorizada por todos humanos. Em se tendo que escolher entre a vida de um humano autoconsciente e um em estado vegetativo, dificilmente haveria hesitação. E essa concepção é perfeitamente compatível com a teoria da geração de valor e a partir de propriedades emergentes. A autoconsciência é algo raro entre (as espécies de) seres vivos. Pelo que conhecemos, ela só ocorre entre os mamíferos (dentre as aproximadamente 1.750.000 de espécies descritas, apenas cerca de 4.700 são de mamíferos12), e, dentre esses, temos confirmação apenas entre os primatas antropóides (além do homem, o chimpanzé, o gorila e o orangotango), e indícios entre os cetáceos (baleias e golfinhos). Podemos bem supor que outros mamíferos o tenham em menor grau. Talvez algumas dezenas de espécies tenham autoconsciência, provavelmente não mais do que isso. A autoconsciência do ser humano, no entanto, parece ser a mais desenvolvida. E a franca supremacia que a espécie humana possui frente a qualquer outro ser enquanto competidora é testemunha disso. Há séculos a humanidade (ocidental) traçou uma linha divisória entre a humanidade e os demais seres vivos. Um lado deve-se levar em conta nas deliberações morais; o outro não. Hoje, no entanto, existe a proposta de se incluir outros seres em nosso escopo moral. Continuamos achando que é melhor preservar a vida de um ser humano do que a de um outro primata, pois existem mais propriedades emergentes nos humanos do que nos demais primatas. Mas isso não quer dizer que qualquer coisa que venha a beneficiar um humano valha mais do que a vida desse primata. Com certeza, a vida do primata male mais do que um desejo fútil de um humano, mais mesmo do que um interesse não fútil, como é a busca científica. Dentro desse novo paradigma, podemos, por exemplo, dizer que matar mães chimpanzés para pegar os filhos e conduzir com eles pesquisas científicas não é correto, 12 PNUMA, IBAMA e UMA. Perspectivas do meio ambiente mundial – GEO-3. disponível em www.ibama.gov.br. 2004. Visita realizada em 15 de novembro de 2005. pois nesses animais existem diversas propriedades extremamente desenvolvidas, dentre elas a autoconsciência, a capacidade de sentir afeto, etc. Da mesma maneira, podemos dizer que a vida de um ser humano vale mais do que a de uma árvore, dentre outros motivos pelo mesmo critério da autoconsciência. Agora, isso não quer dizer que a árvore possa ser derrubada por qualquer motivação humana. Por algumas, talvez sim, mas por outras, não. A existência da árvore merece respeito. Afinal, aí estão concentrados milhões de anos da maravilhosa aventura da evolução biológica, esse fenômeno que, até onde podemos saber, é raro no universo. Isso quanto ao valor que os indivíduos possuem por si mesmos (lembrando, valor sistêmico). Quando tratamos de espécies, no entanto, a questão é ainda mais séria. Quantas necessidades humanas são tão importantes a ponto de justificar a extinção de uma espécie? Com certeza, o desejo de enriquecimento monetário não contaria aí. Como poderia um interesse supérfluo de algo que mal dura 100 anos justificar a destruição de algo que dura mais de 100 milhões de anos? Sabemos, apesar disso, que um dos motores da destruição ambiental, talvez o principal, seja o desejo de enriquecimento. Uma espécie é o produto e um dos degraus de um processo que não sabemos aonde vai dar, mas que, sem dúvida, é algo maravilhoso. Em se extinguindo uma espécie, a possibilidade de valores que nem sonhamos existirem está sendo abortada. Se o nosso objetivo é proteger os valores que surgem com as propriedades emergentes, a conservação da biodiversidade é algo que deve figurar entre os nossos principais motes. Todo essa teoria acerca da conservação dos valores que surgem durante a evolução da vida é profundamente influenciado pelo filósofo norte-americano Holmes Rolston, III. Dentre os seus ditos, cabe destacar o seguinte: “de agora em diante, ninguém pode se dizer educado a menos que saiba dos riscos da extinção das espécies e aja de acordo com esse conhecimento”13. Fica claro que essa visão de mundo engloba em si o que foi apresentado na seção anterior, a do zoocentrismo. Pois o que foi dito sobre o porque de se levar em conta os animais nas deliberações morais foi o fato de eles possuírem uma sensibilidade, ou seja, capacidade de sentir dor. Ora, essa capacidade é uma propriedade emergente, e com ela valores são estabelecidos e defendidos. Para um animal, é bom não sentir dor. Se assim é para ele, nós somos compelidos a respeitar esse valor que ele defende, tanto quanto possível para nós. Assim, podemos dizer que o zoocentrismo seria incluído do ecocentrismo. 2. Conservação in situ e ex situ Encerrarei o texto discutindo quais são as conseqüências para o manejo in situ e ex situ das concepções apresentadas acima. “Manejo” é aqui definido como a intervenção no curso de vida de uma população ou de um indivíduo de uma espécie selvagem. 2.1. Por que manejar uma população? 13 Rolston, III, H. “Earth Ethics, a challenge to liberal education” in CALLICOTT, J. B. & DA ROCHA, F. J. R. Earth Summit Ethics: toward a reconstructive postmodern philosophy of environmental education. New York, State University of New York Press: 1996. Ver também Rolston, III, Holmes. Philosophy Gone Wild. New York: Prometheus Books, 1989. A resposta a essa pergunta é evidente a partir da argumentação desenvolvida até aqui. Uma população deve ser manejada se estiver ameaçada de desaparecimento, de modo a evitar a perda de biodiversidade. Lembremos que a biodiversidade é definida não somente no nível de espécie, mas também no de ecossistema (nível superior) e no genético (nível inferior). Assim, podemos, certamente, falar em perda de biodiversidade se uma população de uma dada espécie desaparece. Pois a variabilidade genética que aqueles indivíduos possuíam será perdida. É claro que o desaparecimento de populações selvagens não foi algo inaugurado pela ação humana. Devemos, portanto, manejar as espécies cujas populações foram sensivelmente reduzidas graças à ação antrópica. Ou seja, 99,9% das espécies hoje ameaçadas, já que o ritmo de extinção de espécies é calculado em 1000 vezes maior que o natural.14 2.2. Conservação in situ Analisemos agora, os aspectos filosóficos concernindo o manejo para populações in situ. Ora, sabemos que uma espécie não é algo estático. Ela é parte de um processo cuja finalidade é ser capaz de viver e desenvolver-se dentro de um ecossistema. E essa adaptação só se pode dar na convivência com esse ecossistema. Como já foi dito, a espécie só mantém a sua particularidade na sua permanência dentro do ecossistema. Se o nosso objetivo primeiro é resguardar os valores criados durante o processo de desenvolvimento da vida, é sumamente desejável que conservemos a biodiversidade onde é o seu lugar, ou seja, dentro do ecossistema que o gerou. Quanto ao manejo a ser praticado sobre as populações ameaçadas, a menos que adotemos uma perspectiva antropocêntrica, ele deve levar em conta a constituição dos seres aos quais ele se dirige. Se estamos manejando invertebrados (o que é muito raro), não teremos que ter maiores cuidados quanto ao bem estar dos indivíduos, já que, ao que se saiba, eles possuem sistemas nervosos pouco desenvolvidos. Agora, se estamos manejando espécies mais desenvolvidas, como mamíferos, por exemplo, temos que ter toda uma consideração sobre o tipo de manejo que fazemos. A menos que seja de extrema importância, não se devem usar métodos invasivos, como capturas. Lembremos que esses animais são dotados de sensibilidade, e alguns até mesmo da autoconsciência (no caso de primatas). Uma barata, ao que se saiba, não sente medo. Um macaco sente. É claro que algumas vezes, não há alternativas. Sendo necessário fazer uma translocação, é inevitável que se faça a captura. 2.3. Conservação ex situ Considerando o conceito de espécie apresentado no ponto anterior, a saber, o de que uma espécie só mantém a sua particularidade no seio de seu ecossistema, quais seriam as justificativas para se realizar um manejo ex situ, ou seja, em cativeiro? Traçaremos, a seguir, cinco motivos para que isso se faça, analisando-os do ponto de vista ético, ou seja, procurando sua justificativa. 14 SHAFFER, M. Minimum population sizes for species conservation. BioScience vol. 31, nº 2, pp. 131-134. February 1981. 2.3.1. O que é a felicidade para um animal? Antes disso, porém, façamos uma reflexão sobre se os animais se importam ou não de estarem cativos. Em primeiro lugar, é difícil que algum animal tenha a consciência do que se passa com ele estando dentro de uma jaula. Não saberá ele que está ali por tal ou qual motivo, e não poderá fazer um julgamento de valor. Dentro da compreensão de que dispomos hoje, é de todo impossível que nasça Karl Marx dos bugios, que mostre para os outros que eles estão sendo usados para interesses que não são deles etc. Podemos dizer então que não faz diferença para um animal estar preso ou estar solto? Dificilmente. Esses animais surgiram e evoluíram sem cercas, sem fronteiras. A sua natureza é vagar, não ficar parado no mesmo lugar. Em se capturando um animal, é certo que na primeira oportunidade ele escapará. É claro que isso não é sempre assim, já que a mente da maioria dos seres é bastante propensa ao condicionamento. Se um animal passou sua vida inteira dentro de um recinto, talvez ele aí permaneça mesmo se estiver o recinto aberto. Além disso, os animais estando cativos (em princípio) recebem alimento e tratamento médico. Coloca-se então a questão de se é melhor para um animal (indivíduo) estar cativo ou liberto. É claro que não podemos ter uma resposta definitiva para essa questão, já que não temos acesso à vida subjetiva dos animais. Temos, no entanto, diversas indicações que podem nos auxiliar a responder a essas questões. Primeiro, é sabido que diversas espécies não reproduzem ou reproduzem com dificuldades em cativeiro. Segundo, os recintos nos quais os animais ficam são muitas vezes inadequados para eles. Terceiro, muitos animais sofrem de grande estresse a cargo de ficarem expostos à observação dos humanos. Quarto, muitas espécies precisam de uma alimentação diferenciada para se manterem em cativeiro. No CEPESBI – Centro de Pesquisas Biológicas de Indaial, em Santa Catarina, por exemplo, os bugios recebem ração de cachorro como fonte de proteínas. Para um animal folívoro, isso é bastante diferente de seus hábitos na natureza. De acordo com todas essas indicações, podemos inferir, ou supor, que para os animais é muito melhor estar em seu hábitat nativo do que cativos. Desde que esses animais possuem uma vida subjetiva, como todos os mamíferos, podemos dizer que esses animais são mais felizes (ou seja, sente-se melhor) livres do que cativos. Quais são, então, os motivos de se deixar um animal cativo? Essa é a questão que analisaremos agora, procurando identificar que visão de mundo as justifica. 2.3.2. Tipos de manejo ex situ 2.3.2.1. Recreação A razão de ser de muitos zoológicos é ser um lugar de entretenimento para os humanos. Assim, animais que nunca ou muito dificilmente se veriam na natureza, como leões, hipopótamos e onças-pintadas podem ser vistos a alguns metros de distância. Capturar um animal para mostrá-lo, com certeza, só é justificável em termos antropocêntricos. Ou seja, sem levar em consideração os interesses do próprio animal nem as exigências da espécie. 2.3.2.2. Interesse científico Muitos animais são de difícil observação in situ. Assim, é bem mais fácil estudar um animal cativo. Dependendo de quais sejam as motivações do pesquisador, essa situação pode justificar-se tanto antropocentricamente (por mero interesse em saber como se comporta ou é constituído esse ser) quanto zoocentricamente e ecocentricamente (se o interesse na pesquisa for o de dar melhores condições ao animal ou a conservação da espécie). 2.3.2.3. Banco genético Um dos principais argumentos conservacionistas para se manterem animais cativos é o de resguardar o conteúdo genético desses seres. Não deixa de causar certa estranheza, já que os animais tiveram que ser retirados da natureza, onde seu conteúdo genético está não só resguardado como também ativo e evoluindo, para serem levados ao zoológico. A questão só se justifica na medida em que as áreas ocupadas por esses animais estão sendo destruídas. Sabemos, no entanto, que os zoológicos tiveram e ainda têm um papel importante no tráfico de animais silvestres. Existem diversos casos, no entanto, em que uma espécie só não foi extinta por causa de existirem animais em cativeiro que foram reintroduzidos. É o caso do Mico-Leão-Dourado (Leontopithecus rosalia), cuja não extinção está dependendo da reintrodução de populações de animais cativos. Esse argumento pode ser motivado por qualquer das posições defendidas acima (no ponto 1.), já que se refere diretamente à conservação da biodiversidade. 2.3.2.4. Triagem Uma das funções de se manter animais cativos é a recepção de animais. Quando um animal é atropelado, por exemplo, o que fazer com ele? Depende, como tudo mais, da visão de mundo que se utiliza. Em termos antropocêntricos, em princípio não se necessitaria fazer nada, pois o animal em si não possui valor. Somente se isso interessasse aos humanos, como é o caso de ser uma espécie ameaçada de extinção. Em termos zôo e ecocêntricos, faz-se necessário recolher e tratar o animal. Isso será, então, um manejo ex situ. Se um animal é apreendido de uma residência por autoridades, no caso de sua posse ser proibida, ele irá também para cativeiro. 2.3.2.5. Reintrodução A reintrodução consiste na soltura de indivíduos retirados do ambiente selvagem ou criados em cativeiro, dentro de sua área de ocorrência histórica onde essa espécie não existe mais ou está em declínio15. Para a conservação da biodiversidade, talvez essa seja a justificativa mais importante para o manejo ex situ. Combinado com o banco genético e com a triagem, a reintrodução é a ferramenta de se manter ou aumentar populações selvagens ameaçadas. Assim como no ponto anterior, essa preocupação pode ser encarada em qualquer das visões de mundo, pois se refere à conservação da biodiversidade. Existem grandes riscos, no entanto, com a reintrodução, principalmente quanto a disseminação de doenças no ambiente natural. 2.3.3. Ecocentrismo e manejo ex situ 15 Kleiman, 1989 Em primeiro lugar, nessa visão, é necessário que se reveja toda a motivação de cunho exclusivamente antropocêntrico. Dentro da perspectiva ecocêntrica, tendo por base a argumentação exposta no ponto 2.3.1., é inadmissível que se mantenha um animal preso por puro gosto de observá-lo. Para um humano significa uma hora de diversão. Para o animal é a vida inteira de reclusão. Isso do ponto de vista do indivíduo animal. Já quanto aos demais pontos (Interesse científico, Banco genético, Triagem e Reintrodução), existe justificativa suficiente somente no que tange à conservação da espécie. É por causa, portanto, da conservação da biodiversidade que o manejo ex situ deve ser realizado. Uma conseqüência prática dessa posição é que zoológicos com poucos recursos, como é o caso do Parque Zoológico de Sapucaia do Sul, mantido pelo governo do estado do Rio Grande do Sul, não deveriam investir seus escassos recursos em animais exóticos, como girafas e elefantes. A ênfase, talvez exclusividade, deveria ser dada aos animais nativos. No referido zoológico, eles recebem pouquíssima prioridade. Deveriam ser realizados estudos (Interesse científico) e trabalhos de conservação da biodiversidade local. Além disso, os animais deveriam ser tratados com maior respeito, de modo que os recintos tivessem muito melhores condições. Em certos casos, os animais são expostos a situação extremas, como pumas presos em jaulas de poucos metros quadrados e expostos a observação constante.