WORKSHOP PLANTAS MEDICINAIS E PRÁTICAS
FITOTERAPÊUTICAS NOS TRÓPICOS
IICT / CCCM 29, 30 e 31 DE OUTUBRO
ENTRE MÉDICOS E CURANDEIROS
PARTILHA OU MARGINALIAÇÃO DE SABERES EM
MOÇAMBIQUE EM FINAIS DO SÉCULO XIX
Ana Cristina Roque
Instituto de Investigação Científica Tropical
“Há na serra e suas faldas muitas Ervas medicinais que parece
são poucas que tinhãm essa vertude e nam se achem na dita
Serra, mas como eu nom as conheço, nem lhes ey o nome, e
neste logar de São Pedro ha hum insigne Ervellarioo por nome
Domingos Rodrigues, lhe falley e me deu o rol incluzo dos
nomes das que lhe lembrarão tinha a serra de ervas”
Resposta do Prior António de Sousa Seixas,
da Feguesia de S. Pedro da Pena, em Sintra, 1758.
ANTT, Memórias Paroquiaes, vol 11, fl. 2277. Cf. Apêndice 4, documento 6
“Na ocasião em que o governo solicita notícias da medicina
cafreal, permita V. Exa. que lhe ofereça um simples ensaio,
bazeado nos meus apontamentos.(...) junto-lhe uma relação de
plantas medicinaes..., empregadas pelos cafres do districto de
Sofala: esta relação não é minha, é devida ao professor de
Chiloane, o sr. Guilherme Hermenegildo Ezequiel da Silva, o
homem que mais me tem auxiliado na investigação dos usos e
costumes dos indígenas. ”
,
Breve memória àcerca da medicina entre os cafres da Província de Moçambique.
Joaquim d’Almeida da Cunha, 1883
Moçambique, Imprensa Nacional, p. 2
- A relação do homem com a natureza pressupôs desde
sempre a utilização desta em seu benefício
- Mais do que aproveitar, sobreviver significou
experimentar, aprender a conhecer e a afeiçoar a
natureza, a reconhecer as suas potencialidades e a sua
imensa diversidade
- Mitigar a fome, sarar feridas, curar febres, indisposições
e outros males foram o reflexo da aprendizagem
Deste saber de experiência feito resultaram comportamentos
específicos das diferentes comunidades que traduzem a
forma como cada uma aprendeu a aproveitar os muitos e
variados recursos disponíveis. Este espaço de
especificidade é o espaço dos saberes que reflecte o
conhecimento e a experiência do que aproveitar no meio em
que se vive e que, no domínio das plantas medicinais
implicou, para cada comunidade, o progressivo
conhecimento da sua distribuição e disponibilidades
regionais
Documentação portuguesa do século XIX
Relatórios mensais e anuais dos serviços de saúde
Informam sobre:
- aspectos específicos da administração colonial, em
particular no domínio da saúde e higiéne;
- aspectos da organização, usos e costumes das populações;
- características geográficas e ambientais das áreas afectas
aos diferentes serviços regionais de saúde
particularmente significativa a informação sobre as condições
meteorológicas, com um registo diário exaustivo e minucioso, cuja análise,
quando articulada com a maior ou menor frequência das principais
doenças, permite outro tipo de estudos como seja, entre outros, o das
alterações climáticas e a sua relação com a saúde
Documentação portuguesa
(séculos XVIII e XIX)
- Relevância para a história do colonialismo em
Moçambique
- Informação sobre um conjunto de saberes e práticas das
comunidades da zona centro que possibilita uma melhor
percepção da(s) forma(s) como essas comunidades se
relacionavam com o meio em que viviam
- Informação que permite perceber melhor a dificuldade
de implantação de um sistema que, no domínio da saúde,
se revelava ineficaz para resolver os principais problemas
Documentação portuguesa
(séculos XVIII e XIX)
Informação que permite colmatar a ausência de dados
resultantes do reconhecimento e estudo dos recursos
naturais que tinha orientado as várias
“Expedições Philosophicas”
incentivadas, no último quartel do século XVIII, pelo
Ministro do Ultramar e Marinha, Martinho de Melo e
Castro
Moçambique - “Expedições Philosophicas”
Resultados
Manuel Galvão da Silva (1784 – 1793)
- informação sobre recursos minerais e marinhos, de que foram enviados
vários exemplares e amostras;
- relato da sua viagem pelas terras de Manica
- notícia do envio de uma colecção de 83 espécies de “raizes e outras ervas
medicinaes” de que se desconhece o destino
Padre João Loureiro (1780)
- Ilha de Moçambique (primeiras herborizações)
Resposta às questões sobre os cafres (1795-96)
- Sertões de Sofala
Não houve, na sequência destas iniciativas, nenhum
reconhecimento sistemático dos recursos naturais desta
área
Moçambique - Expedições científicas Inglesas
(Início do século XIX)
Sertões de Sofala e Madanda (1810)
Objectivo: “herborizarem e adiantarem conhecimentos de
História Natural”
Desconhecem-se em Portugal os resultados alcançados
Moçambique – Expedições científicas portuguesas
(Finais do século XIX)
Expedição de Rodrigues de Carvalho à Zambézia
(1886)
envio de 379 espécies para o herbário de Coimbra
“a hervaria só no
sertão se encontra e a
não ser os cafres,
mais ninguém aqui lhe
conhece as virtudes”
Ofício do Governador de Sena, Francisco de Melo e Castro
Moçambique, 7 de Junho de 1784
Biblioteca da Ajuda, Secção Ultramarina, Maço 46
Moçambique – Séculos
XVIII / XIX
- Pessoal médico e farmacêutico deficitário;
- Falta de “Cirurgicos” ou médicos que se pudessem “mandar
para aquella conquista voluntariamente”;
- Recurso à comissão dos médicos da Escola de Goa.
Moçambique – 1877
Relatório do Serviço de Saúde de Moçambique
Pessoal médico e farmacêutico em serviço:
12 facultativos
1 chefe de serviços
5 dos 6 farmacêuticos previstos
Provimento dos Hospitais / serviços de saúde de:
Quelimane
Inhambane
Lourenço Marques
Ibo
Angoche
Chiloane
Sem provimento os Hospitais / serviços de saúde de:
Sena e Tete
Não contabilizado neste número o pessoal afecto a Moçambique
(Ilha de Moçambique)
Moçambique – Século XIX
Obstáculos invocados pelos facultativos ao
desempenho de outras actividades
- Escassez de pessoal de enfermagem
- Limites impostos pelo tempo em comissão de serviço
- Remuneração insuficiente
Moçambique – Século XIX
Obstáculos invocados pelos facultativos ao
desempenho de outras actividades
“...não é com poucas vezes de clínica numa localidade acanhada e
escassa, que um homem da minha profissão pode obter
conhecimentos vastos e profundos, … que embora dignos de séria
atenção, são secundários. Não devo, Exmo. Sr. abandonar a
cabeceira do enfermo, que tenho de disputar à morte, para voar em
cata de conhecimentos, que não sei se adquirirei, ou se aproveitarão
à humanidade. É possível... que nas diferentes localidades deste
districto... hajam substâncias medicinais... eu todavia pouco sei, e
esse pouco… provém do testemunho d’algumas pessoas fidedignas.
Em quanto conhecimentos adquiridos pela própria experiência, não
conte V.Exa. com eles, atendendo que no pouco tempo que aqui
demoro, tem a enfermaria... reclamado o meu serviço”
Relatório da Ilha de Chiloane, capital de Sofala, apresentado pelo facultativo de 2ª classe em comissão no quadro de
saúde de Moçambique. Artur Ignácio da Gama (1878)
AHU1506 DGU 5ª rep.Mç. 1848-1890 / Serviço deSaúde de Moçamqbieu, Dco. 10
Em finais do século XIX, a presença portuguesa
em território de Moçambique polarizava- se ainda
em torno de alguns núcleos populacionais
costeiros e ao longo do Vale do Zambeze.
Do restante território, de limites ainda por definir,
prevaleciam as informações dos séculos
anteriores
AHU – Sul de Moçambique. Comissão de Delimitação de Fronteiras. Segunda metade do século XIX
Moçambique – Século XIX
A presença de Portugal em Moçambique perpetuava
ainda formas de ocupação territorial e de relação com
as populações que revelavam, como nos séculos
anteriores, a diferença entre a posição oficial dos
representantes da coroa e seus funcionários, e a de
quem ali vivia e tinha de enfrentar um quotidiano
particularmente difícil no que respeitava a
alimentação e saúde
Moçambique – Século XVI - XIX
O estabelecimento e a sobreviência dos Portugueses
em Moçambique dependeu fundamentalmente da sua
capacidade de adaptação e de inserção nas
comunidades locais por via das quais lhes foi possível
não só o conhecimento dos recursos e das suas
formas de aproveitamento, como também, de um
conjunto de práticas e saberes que viabilizaram o seu
próprio estabelecimento na região
Moçambique – Século XVI - XIX
- A capacidade de adaptação e inserção nas comunidades
locais permitiu a alguns, como Ezequiel da Silva, descrever
detalhadamente ervas e raízes medicinais com a autoridade
de quem já as usou ou viu usar, que pode atestar a sua
eficácia e recomendar a sua aplicação
- A falta de entendimento deste processo ou um alheamento
do mesmo constituíu uma barreira à tentativa de obter esse
tipo de informação
- As informações fornecidas neste contexto ou decalcam as
anteriores ou são imputadas a pessoas “fidedignas”que, por
experiência, sabiam que a farmácia natural regional era bem
mais eficaz no tratamento dos males e maleitas locais que
qualquer botica vinda do reino
Moçambique – Século XVIII - XIX
Transposição, para o espaço africano, da
compartimentação de saberes que caracterizava o
sector da saúde no reino.
Médicos, boticários e ervanários reflectiam níveis de
saber diferenciados e reproduziam hierarquias onde a
profissão nobre de físico ou cirurgião nada tinha a ver
com a do boticário, listado entre os ofícios mecânicos, e
muito menos com a de ervanário, tido por “mero
servente dos boticários, hindo ao campo buscar-lhes as
Hervas, Raízes e plantas”
Moçambique – Século XVIII - XIX
- A arte de curar obrigava à combinação de vários saberes,
sabiamente distribuídos segundo a função específica de
cada um dos intervenientes no processo
- Em última instância, a ausência de um poderia pôr em
causa o resultado final
Moçambique – Século XVI - XIX
Clínicos, farmacêuticos e demais funcionários da
administração portuguesa, dificilmente consideraravam os
curandeiros locais como médicos ou boticários,
reconhecendo-lhes algo de ervanário - e tal como deste,
desconfiando deles porque “traziam...umas plantas pelas
outras”- mas, sobretudo, de feiticeiro, pela performance da
sua actuação
Moçambique – Século XVIII - XIX
Os curandeiros não usavam de “expecie nenhuma de pesos
nem medidas para os (seus) remédios.... (e serem todos)
ministrados.... em quantidades calculadas a olho”, tornando
difícil, mesmo nos casos de comprovada eficácia, o registo
de uma fórmula que, depois de analisada e cientificamente
validada, pudesse integrar o rol dos remédios reconhecidos
que constavam das boticas do reino
Moçambique – Século XVIII - XIX
Recurso ao curandeiro e aos remédios da terra:
- “a experiência que assim livrão melhor os perigos, do que
se fossem curados com a arte”
- Falta de confiança na capacidade e no tratamento de
alguns facultativos d’Índia...”
- Demora no abastecimento regular das boticas, incompatível
com a necessidade de atender aos doentes, forçando ao
estudo e ao uso dos remédios locais e que, não raro, acabava
por reconhecer a riqueza e a possibilidade de “aproveitar
muitas mais plantas útéis para a medicina”
Moçambique – Século XVIII - XIX
Aproveitar os remédios da terra
- Identificação de substitutos locais para a raiz de alteia,
para o extracto de alcacuz, o laúdano e a mostarda
- Referência à abundância de rícino, sene, estrofanto,
escorcioneira, cardo-santo, agave, anil e purgueira que
podiam ser localmente aproveitados e incorporados nas
boticas oficiais
Moçambique – Século XVIII - XIX
Remédios da terra incorporados na farmacopeia portuguesa
do século XVIII e nas boticas oficiais:
- Rícino / óleo de rícino (Ricinus communis)
- Coco / azeite de coco (Cocos nocifera)
- Raiz de Abutua (Cissampelos parreira)
Propriedades tónicas e diuréticas
Usada no alívio de dores articulares, de estômago e cólicas
intestinais, disenterias, hematuria e blenorragia
- Calumba (Jateorhiza palmata)
Usada no combate a febres e problemas gastrointestinais
Moçambique – Século XVIII - XIX
- A experiência do uso dos remédios da terra e o
conhecimento das plantas e ervas que entravam na sua
composição foi, sobretudo, resultado da inciativa de quem, in
loco, sentia esta necessidade
- As possíveis limitações científicas não impediram nem as
recolhas de espécimes e de receituários nem os registos
exaustivos onde se enunciavam as características das várias
ervas e plantas referenciadas e as suas formas de
preparação e aplicação
Moçambique – Século XVIII - XIX
- Falta de estímulo às expedições científicas de
reconhecimento da flora medicinal
- A ausência de correspondência entre o nome científico e
o(s) nome(s) vulgar(es) resultava, na prática, na
impossibilidade de saber de que planta se tratava e,
consequentemente, quais as suas propriedades medicinais
- Na falta de exemplares recolhidos para estudo, a sua
simples descrição muito dificilmente permitia a sua
classificação científica
Moçambique – Século XIX
Trabalhos de Ezequiel da Silva (1883-84):
Referenciação de 74 ervas e
plantas medicinais distribuídas por
7 tipos de ambientes e habitat
específicos ocorrentes no distrito
de Sofala e usadas no tratamento
de 71 situações de patologia
identificada
O desaparecimento das amostras anexas às fichas de registo
que integravam o seu trabalho, não permitiu a identificação das
espécies referidas, sendo que apenas 14 das 74 se encontram
hoje devidamente identificadas e validadas
Moçambique – Século
XIX
As plantas e ervas medicinais locais eram largamente
utilizadas nos tratamentos das doenças mais comuns na
região recorrendo-se mais facilmente aos remédios da
terra que à botica do hospital onde tudo ou quase tudo
faltava ou se mostrava ineficaz
Moçambique
Século XIX
A coroa tinha informação sobre a riqueza da flora medicinal
local mas não dispunha de dados nem de meios suficientes
que lhe permitissem validar a eficácia terapêutica dessas
espécies
Esta situação deixava alguma margem para a sua utilização,
mesmo para os facultativos, que assim supriam as faltas da
botica do reino
Posição não extensiva aos curandeiros, sendo bem claro que
aprender a curar com os remédios da terra pressupõe que se
reconhecem as potencialidades medicinais de algumas
espécies locais e não a eficácia das práticas de curas a elas
associadas
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