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151 p.: il.
1. Linguística. 2. Intertextualidade. 3. Coesão e Coerência Textual. I.
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Eneida Oliveira Dornellas de Carvalho
Elisabete Borges Agra
Teorias Linguísticas II
Campina Grande-PB
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Sumário
I Unidade
Conhecendo a linguística textual.........................................................................7
II Unidade
A coesão textual ......................................................................................................23
III Unidade
Mecanismos de coesão textual: a Referenciação ..........................................41
IV Unidade
A relação entre a coerência e a coesão textuais ...........................................57
V Unidade
Intencionalidade, situacionalidade e aceitabilidade:
fatores pragmáticos responsáveis pela textualidade ....................................79
VI Unidade
Intertextualidade: uma forma de reflexão crítica
sobre o estudo do texto ........................................................................................95
VII Unidade
A textualidade proporcionada pelos critérios
de informatividade e não- contradição textuais .........................................117
VIII Unidade
Revisão dos fatores responsáveis pela coesão e coerência textuais.........131
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I UNIDADE
Conhecendo a
linguística textual
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Apresentação
Neste segundo curso de teorias linguísticas é nosso propósito dar prosseguimento ao seu aprendizado sobre o objeto da linguística. Se no primeiro momento, apresentamos
várias perspectivas de estudo que terminaram por consagrar
a linguística como ciência autônoma de investigação da língua, neste segundo momento, o direcionamento do curso
se dá no sentido de aprofundar uma teoria. Esta teoria é a
linguística textual. Vamos descobrir o modo como se desenvolvem os estudos que adotam seus pressupostos para o
estudo do texto, os procedimentos metodológicos adotados
para a investigação dos processos linguísticos que se dão no
interior do texto, a que resultados se pode chegar centrando-se a análise a partir dos pressupostos da linguística textual,
bem como tomar conhecimento de resultados práticos que
se observam no campo do ensino de leitura e compreensão
do texto, um aspecto que ganhou relevada importância a
partir do desenvolvimento da linguística textual.
Levando-se em consideração os aspectos referentes à
compreensão dos processos envolvidos no ato de produção
do texto, dos elementos que o constituem de forma a torná-lo
uma unidade de sentido, garantimos a você que sua própria
percepção do texto, sua capacidade de ler e observar como
se dá a construção do texto a partir de sua materialidade linguística, sua capacidade de elaborar o sentido para o texto,
irão se ampliar de forma surpreendente. Portanto, este curso
lhe será muito útil em sua vida acadêmica. Mas, você já sabe,
resultados tão positivos só surgirão se você fizer sua parte,
como fez para nosso primeiro curso. Assim, reforçamos nos 8
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sas recomendações para que você tenha o melhor aproveitamento possível, seguindo os passos já conhecidos:
• Dedicar cotidianamente um tempo para suas leituras.
• Ler os textos de modo atento, refletindo sobre os novos conceitos e informações apresentados;
• Reler se necessário, fazendo anotações, marcando o
que julgar importante;
• Responder as atividades propostas, com atenção.
• Não guardar para si as dúvidas, esclarecendo-as com
o professor ou o tutor;
• Realizar com segurança a autoavaliação que se encontra ao final da aula. Se você achar que sua avaliação não foi satisfatória, retome as leituras, pesquise,
reflita, discuta com o professor ou tutor, até que constate que aprendeu.
A orientação para que você siga esses passos é para que
alcance também os objetivos estabelecidos para esta aula.
Assim, esperamos que ao final desta unidade, você:
Objetivos
• Demonstre uma compreensão do que significa um estudo da língua na perspectiva da linguística textual;
• Conheça os fundamentos teórico-metodológicos da
linguística de texto;
• Assimile a concepção de texto como a propõe a linguística textual.
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Um pouco de
contextualização
Finalizamos nossa última unidade do curso de Teorias Linguísticas I
chamando a atenção para o fato de que, se os estudos da linguagem
permaneceram por muito tempo marcados pelos pressupostos teóricos
de Saussure, seguindo uma abordagem imanente do fenômeno linguístico, nos anos sessenta, contudo, assiste-se a um novo direcionamento na linguística, que resultou em novas tendências para o estudo da
língua, caracterizadas sobretudo pela contribuição de aportes teóricos
advindos de outros ramos do saber. Assim, a linguística definitivamente
se abria para a interdisciplinaridade, da qual resultou, por exemplo,
a sociolinguística e a antropolinguística, disciplinas das quais fizemos
uma breve apresentação para que você tivesse uma idéia de como se
deu a conjunção de outras áreas com aquela que tem por objeto específico o estudo da língua.
Vimos que essas disciplinas estavam estudando a língua em relação
aos seus usuários, levando em conta o contexto que estava servindo de
base para seu uso. A incorporação desses fatores à análise da língua
terminaram por dar as condições para o surgimento das chamadas
Teorias do discurso: a linguística de texto, a análise da conversação e
a linha francesa da análise do discurso.
Em comum, essas teorias partilham o fato de conceber o texto como
o lugar prioritário onde se reflete a realidade concreta da língua. Como
nosso foco neste curso recai sobre a linguística textual, vamos tratar
de caracterizá-la em especial. Faremos isto principalmente a partir dos
trabalhos de Ingedore Villaça Koch, a autora que difundiu a linguística textual no Brasil e até hoje é referência para qualquer estudo que
trate do tema. É dela que transcrevemos os trechos a seguir, através
dos quais se caracterizam os momentos históricos mais marcantes da
teoria:
“Surgida na década de 60, na Europa, onde ganhou projeção a partir dos anos 70, a Linguística
Textual teve inicialmente por preocupação, descrever os fenômenos sintático-semânticos ocorrentes
entre enunciados ou sequências de enunciados,
alguns deles, inclusive, semelhantes aos que já haviam sido estudados no nível da frase”.
“Na década de 70, muitos estudiosos encontram-se ainda bastante
presos à gramática estrutural, ou – principalmente – à gramática gerativa, o que explica o seu interesse na construção de ‘gramáticas de texto’. A partir da descrição de fenômenos linguísticos inexplicáveis pelas
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gramáticas de frase – já que um texto não é simplesmente uma sequência de frases isoladas, mas uma unidade linguística com propriedades
estruturais específicas -, tais gramáticas têm por objetivo apresentar os
princípios de constituição do texto em dada língua”.
“É somente a partir de 1980, contudo, que ganham corpo as Teorias do Texto – no plural, já que,
embora fundamentadas em pressupostos básicos
comuns, chegam a diferir bastante umas das outras, conforme o enfoque predominante” (KOCH,
1989, p. 11-12).
Foram várias, portanto, as ramificações da linguística textual. Você
pode conhecê-las lendo os textos citados nas referências ao final desta
aula. O que importa nesse momento é ressaltar que, mesmo em se
tratando de ramificações, noções básicas da teoria são constantes em
todas elas. Marcuschi (2008, p. 75) apresenta o que há de comum
nas diversas vertentes da linguística textual (LT). Leia abaixo o que diz
o autor.
• A LT é uma perspectiva de trabalho que observa o funcionamento da língua em uso e não in vitro. Trata-se de uma perspectiva
orientada por dados autênticos e não pela introspecção, mas
apesar disso, sua preocupação não é descritivista.
• A LT se funda numa concepção de língua em que a preocupação maior recai nos processos (sociocognitivos) e não no produto.
• A LT não se dedica ao estudo das propriedades gerais da língua, como o faz a linguística clássica, que se dedica aos subdomínios estáveis do sistema, tais como a fonologia, a morfologia
e a sintaxe, reduzindo assim o campo de análise e descrição.
• A LT dedica-se a domínios mais flutuantes ou dinâmicos, como
observa Beaugrand (1997), tais como a concatenação de enunciados, a produção de sentido, a pragmática, os processos de
compreensão, as operações cognitivas, a diferença entre os gêneros textuais, a inserção da linguagem em contextos, o aspecto
social e o funcionamento discursivo da língua. Trata-se de uma
linguística da enunciação em oposição a uma linguística do
enunciado ou do significante.
• A LT tem como ponto central de suas preocupações atuais as
relações dinâmicas entre a teoria e a prática, entre o processamento e o uso do texto.
À medida que desenvolvemos este curso, você poderá constatar
como de fato essas noções estão arraigadas na proposta teórica da
linguística textual. E constatar por que a linguística textual mantém relações tão fortes com o ensino de língua.
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Refazendo percursos
Para chegarmos à linguística textual, foi necessário que houvesse
uma mudança na perspectiva de estudo da língua, já sabemos. Mas é
certo que toda mudança não acontece de forma repentina. Assim, vale
a pena retomar estudos anteriores que já apontavam para a necessidade de se repensar antigos conceitos com a finalidade de explicar
melhor o objeto da nova linguística que se delineava.
Seguindo essa trilha, você deve estar lembrado de alguns nomes
que citamos anteriormente e que foram importantes para a linguística
renovar seus conceitos, ampliar seus pressupostos, tomar novos rumos.
Um nome que não pode ser esquecido, porque teve importância
fundamental na adoção de novos paradigmas para o estudo da língua,
é o de Jakobson. A elaboração de um circuito de comunicação, de
seus elementos, e sobretudo a consideração das funções fática, metalinguística e poética, representaram uma ampliação do foco de estudo
da linguística que se restringia apenas ao estudo da forma1.
Veja como os representantes do Círculo Linguístico de Praga
explicitaram sua tese sobre as funções da língua, a par da sua estrutura:
O estudo da forma significa o estudo da
estrutura interna da língua. É o estudo
apoiado na tradição saussuriana, que ficou
conhecido como formalismo. Já quando se
trata de relacionar o estudo da língua com
o social, tem-se um estudo de caráter funcionalista.
1
“O estudo de uma língua exige que se considere
rigorosamente a variedade das funções linguísticas
e de seus modos de realização no caso considerado. [...] É de acordo com essas funções e com
esses modos que se transformam a estrutura fônica
e a gramatical, e a composição lexical da língua”.
(PARVEAU E SARFATI, 2006, p. 121)
Percebe-se na citação que o estudo da estrutura linguística está
subordinado ao estudo das funções que acompanham o ato comunicativo. Assim, importam as necessidades, as condições da comunicação,
o contexto, os participantes, ou seja, os fatores e os elementos que
estão envolvidos numa situação de comunicação.
Após esse breve comentário, você pode retomar o que leu sobre Jakobson na sétima unidade do curso de Teorias Linguísticas I, e
então explicitar como sua teoria pode representar um avanço em direção a uma linguística discursiva. Registre suas conclusões na atividade
3 a seguir.
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Atividade I
Um outro autor que é necessário ser retomado é Benveniste. O autor não
concebia o homem separado da língua. Veja como ele pensava essa relação:
“O ato individual pelo qual se utiliza a língua introduz em primeiro
lugar o locutor como parâmetro nas condições necessárias da enunciação. Antes da enunciação, a língua não é senão possibilidade da
língua” (BENVENISTE, 1989, p. 83).
Assim, Benveniste concebeu uma linguística em que o sujeito e as
condições específicas de produção dos enunciados não podiam estar
de fora. Esses elementos de fato representaram contribuições significativas para renovar a perspectiva da linguística, que começa a vislumbrar
possibilidades de estudo da língua para além das formas linguísticas. A
língua passava então a ser considerada como um forma de atividade
entre os participantes de um ato comunicativo.
Em relação a Benveniste, pedimos que você rememore pontos importantes de
sua teoria e registre na atividade a seguir. Veremos que esses pontos terão
importância fundamental para a linguística textual.
Atividade II
Em nossa proposta de retomada de autores determinantes para uma mudança
de perspectiva na linguística, não poderíamos deixar de fora Bakhtin.
Dedicamos toda uma aula no curso de Teorias Linguísticas I ao autor, a aula 9,
você deve estar lembrado. Por isso, vamos chamar sua atenção no momento,
para o que é fundamental em sua teoria, que caracteriza uma compreensão dos
processos linguísticos como tarefa prioritária da linguística.
Bakhtin vê na interação o lugar privilegiado para o estudo da língua. Portanto, a língua não pode ser vista como sistema de formas fixas, exterior à vida social. Nesse caso, o estudo da língua extrapola em
muito o estudo das formas isoladas, porque é na enunciação, no uso
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dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
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que fazem dela os falantes reais quando estão interagindo, que ela se
realiza. E esse é um processo ininterrupto, o da “correnteza verbal”, que
põe toda enunciação em contato com as demais que já foram produzidas e mesmo com as que ainda estão por vir. Yaguello (2002, p. 15),
na introdução que faz para a tradução do livro Marxismo e filosofia da
linguagem, resume essa idéia: “Toda enunciação, fazendo parte de um
processo de comunicação ininterrupto, é um elemento do diálogo, no
sentido amplo do termo, englobando as produções escritas”.
Esse é o processo dialógico da língua, que não permite serem os
enunciados tomados isoladamente. Essa é uma concepção social da língua que vai além do social de Saussure, porque aqui o social é constitutivo. Para Bakhtin, a língua só existe dentro dessa dimensão. Diz o autor:
“A verdadeira substância da língua não é constituída por um sistema abstrato de formas linguísticas
nem pela enunciação monológica isolada, nem
pelo ato psicofisiológico de sua produção, mas
pelo fenômeno social da interação verbal, realizada através da enunciação ou das enunciações. A
interação verbal constitui assim a realidade fundamental da língua” (BAKHTIN, 2002, p. 123).
Agora é sua vez: reflita sobre o que dissemos acima e retome a aula em que
falamos de Bakhtin. Agora responda a pergunta da atividade 3 a seguir:
Atividade III
Em que aspecto a teoria de Bakhtin o faz ser citado como um precursor da
linguística discursiva?
O que os autores comentados acima, e outros que não citamos
aqui, fizeram em comum, foi o fato de apontarem para outras possibilidades de análise do objeto da linguística para além do fechamento
em sua estrutura, como propunha Saussure. E assim, abria-se caminho
para outras considerações no estudo da língua, observando-a em funcionamento, como processo.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
Seguindo esse percurso, chegou-se então ao texto como lugar de
observação da língua, de inscrição de sentidos, das intenções dos seus
produtores. E chegou-se também à linguística textual. Havendo situado
historicamente seu aparecimento, daremos então continuidade a nossa
aula, passando agora à definição desse campo de estudo, o que faremos a partir da resposta dada à pergunta a seguir.
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O que é linguística textual?
A linguística textual é um ramo dos estudos linguísticos que, como
o próprio nome indica, está teoricamente centrado no texto, tomado
como seu objeto de investigação. E textos, como sabemos, são objetos
reais, produzidos com uma finalidade específica. Já aqui podemos antecipar importantes concepções teóricas que vão marcar uma linguística de caráter discursiva. Vamos pensar um pouco sobre isso.
Primeiramente, estamos percebendo que a unidade de análise para
essa linguística não se restringe aos elementos fonéticos, fonológicos,
morfológicos da língua. Se você não está lembrado do que significam
esses conceitos, pare um momento e volte até nossa quarta aula do
curso de Teorias Linguísticas I. Mas não continue sem saber do que
estamos falando porque vamos nomear assim esses elementos, quando
eles aparecerem em nossas aulas. Está vendo como os pilares da linguística estrutural continuam firmes? Nenhuma teoria bem fundamentada se perde com o tempo. Mas voltemos ao texto. Ele é considerado
o lugar específico para a manifestação da linguagem. E como sabemos, o uso da língua pode ser realizado de forma falada ou escrita.
Portanto, a linguística textual tratará tanto de textos falados quanto de
textos escritos.
Em segundo lugar, pensando no que foi dito sobre o texto ser produzido por alguém, com uma finalidade, não há como não considerar
que o texto para se concretizar depende de alguém, de um sujeito (Será
que podemos pensar em Benveniste neste momento?), situado numa
determinada situação de comunicação, dirigindo-se para um outro alguém. Por que esses elementos são importantes? Porque eles nos fazem
pensar na interação, nesse momento em que interlocutores estão estabelecendo uma relação e para isso estão fazendo uso da língua. Nesse
caso, a língua é tomada aqui como uma forma de ação, como uma
atividade. Essa é a concepção que permeia os estudos linguísticos de
orientação discursiva, como a linguística textual.
Veja o que diz Koch (apud XAVIER e CORTEZ, 2003, p. 124) sobre
a língua, ao ser perguntada acerca da relação entre língua, linguagem
e sociedade:
“A língua se configura através das práticas sociais
de uma sociedade, de uma comunidade. Então, a
língua se configura dentro do meio social, como
expressão do meio social, lugar de interação entre
os membros de uma sociedade e nesse lugar de
interação é que se constituem as formas linguísticas e todas as maneiras de falar que existem numa
determinada época, numa determinada sincronia”.
Ao ler esta definição você percebe nela uma orientação teórica
convergente com o que se observa na sociolinguística? Isso acontece porque a linguística textual absorveu contribuições dessa disciplina.
Você pode verificar em que sentido ocorreram essas contribuições, retoTeoria Linguísticas II
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mando a parte da décima aula do curso de teorias linguísticas I que trata da sociolinguística. Esta é nossa proposta para a atividade a seguir.
Atividade IV
Releia a definição de língua acima, e recupere na última aula sobre outras
perspectivas para o estudo da língua, do curso anterior, aspectos em que se
pode perceber a aproximação entre a linguística e a sociolinguística.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
Já que a pergunta feita à autora inclui também a noção de linguagem, é importante que se conheça a diferença de conceitos que existe
entre estes dois termos, embora eles possam ser usados indiferentemente. Você poderá encontrar esse uso em algum texto que venha a
ler. Mas geralmente, quando se fala em linguagem, está se pensando
na “capacidade do ser humano de se expressar através de um conjunto
de signos, de qualquer conjunto de signos” (KOCH, apud XAVIER e
CORTEZ, 2003, p. 124).
O conceito de linguagem, portanto, tem uma ampliação maior do
que a de língua. Saussure mesmo já esboçara uma diferença entre
língua e linguagem. Se for do seu interesse, você pode mais uma vez
voltar um pouco atrás e na aula três, sobre os pressupostos teóricos
de Saussure, relembrar como o fundador da linguística propôs essa
diferença.
Esclarecida a noção de língua com que trabalha a linguística textual, é necessário, como não poderia deixar de ser, em se tratando de
uma linguística de texto, que se esclareça também a noção do que se
está discutindo, quando se fala em texto. Recorremos mais uma vez a
Ingedore Koch que, no comentário a seguir, nos traz uma definição
simples e bastante esclarecedora do que é considerado texto na perspectiva da linguística textual:
“A Linguística Textual toma, pois, como objeto particular de investigação não mais a palavra ou a
frase isolada, mas o texto, considerado a unidade
básica de manifestação da linguagem, visto que o
homem se comunica por meio de textos e que existem diversos fenômenos linguísticos que só podem
ser explicados no interior do texto. O texto é muito
mais que a simples soma das frases (e palavras)
que o compõem: a diferença entre frase e texto não
é meramente de ordem quantitativa; é sim, de ordem qualitativa” (KOCH, 1989, p. 14).
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O que podemos apreender a partir dessa citação? Primeiramente,
você percebe que há um novo direcionamento no recorte do objeto a
ser estudado. A autora diz: não mais a palavra ou a frase isolada, mas o
texto. Portanto, percebe-se claramente o rompimento com a linguística
da frase, e isso por uma razão muito clara nesse estágio dos estudos
da língua: o homem se comunica por meio de textos. Parece óbvio, não
é? Mas só agora é que a ideia é posta de forma tão transparente na
linguística.
Uma outra consideração muito importante que segue essa última
afirmação de Koch, é a de que existem diversos fenômenos linguísticos
que só podem ser explicados no interior do texto. O que isso significa?
Que o estudo da língua, o estudo dos aspectos gramaticais envolvidos
no seu uso, só encontram respaldo se são realizados a partir de seu
aparecimento, do seu uso efetivo no texto. Nesse ponto, retomamos
Bakhtin, que pode ser citado como uma referência para a abordagem
do texto pela linguística, visto que muitos dos seus pressupostos se harmonizam perfeitamente bem com os pressupostos da linguística textual.
Veja por exemplo o que ele já havia enunciado na década de 20:
“Cada texto pressupõe um sistema compreensível
para todos (convencional, dentro de uma dada coletividade) – uma língua (ainda que seja a língua
da arte). Se por trás do texto não há uma língua,
já não se trata de um texto, mas de um fenômeno
natural (não pertencente à esfera do signo)... Assim, por trás de todo texto, encontra-se o sistema
da língua” (BAKHTIN, 2000, p. 331).
Certamente você leu a apresentação desta aula e deve estar fazendo a relação do que foi dito lá com o que acabamos de enunciar aqui
sobre o estudo da língua a partir do texto. É assim que vemos as teorias
funcionando para dar embasamento a uma prática. Esperamos que
você consiga realizar esta ponte quando estiver atuando como professor de língua portuguesa.
Finalizando, vamos tomar o último enunciado: a diferença entre
frase e texto não é meramente de ordem quantitativa; é sim, de ordem
qualitativa. Essa é uma questão interessante porque remete para a noção de texto. O que é preciso para que se diga que uma sequência de
palavras faladas ou escritas seja um texto? Para responder essa pergunta dentro da perspectiva da linguística textual, foram estabelecidos
alguns critérios de textualidade. Sobre esses critérios vamos falar nas
próximas unidades. No momento, analisamos os termos quantitativo
e qualitativo. Texto não é sinônimo de vinte, trinta ou mais linhas. Na
perspectiva que estamos estudando, uma simples palavra, se contextualizada, se correspondendo a uma situação de comunicação, cumprindo uma função comunicativa, é considerada texto. Isso vale dessa
forma, tanto para uma simples pergunta como Que horas são? quanto
para um tratado filosófico de cem páginas sobre o sentido da existência
humana.
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Atividade V
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
Agora é a sua vez. Daremos a seguir uma definição de texto e esperamos que
você justifique por que essa definição está vinculada à perspectiva discursiva
da linguística textual.
“O texto será entendido como uma unidade linguística concreta
(perceptível pela visão ou audição), que é tomada pelos usuários da
língua (falante, escritor/ ouvinte, leitor), em uma situação de interação
comunicativa específica, como uma unidade de sentido e como preenchendo uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente da sua extensão” (KOCH e TRAVAGLIA, 1989, p. 8-9).
Encerrando por aqui esta unidade, gostaríamos de reportar uma
definição de linguística textual de Marcuschi (1983, p. 12-13), porque
com ela o autor resume bem os propósitos da linguística de texto. Leia
a seguir o que ele diz:
“Proponho que se veja a Linguística do Texto, mesmo que provisória e genericamente, como o estudo
das operações linguísticas e cognitivas reguladoras
e controladoras da produção, construção, funcionamento e recepção de textos escritos ou orais. Seu
tema abrange a coesão superficial ao nível dos constituintes linguísticos, a coerência conceitual ao nível
semântico e cognitivo e o sistema de pressuposições
e implicações a nível pragmático2 da produção do
sentido no plano das ações e intenções. Em suma,
a Linguística Textual trata o texto como um ato de
comunicação unificado num complexo universo de
ações humanas. Por um lado deve preservar a organização linear que é o tratamento estritamente
linguístico abordado no aspecto da coesão e, por
outro, deve considerar a organização reticulada ou
tentacular, não linear portanto, dos níveis de sentido
e intenções que realizam a coerência no aspecto semântico e funções pragmáticas”.
O nível pragmático se refere ao nível do
uso da língua. São fatores pragmáticos “os
fatores que regem nossas escolhas linguísticas na interação social e os efeitos de
nossas escolhas sobre as outras pessoas”
(WEDWOOD, 2002, p. 144).
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Serão justamente os temas de que fala o autor na citação, os assuntos que serão tratados nas próximas aulas deste curso. Você terá assim
oportunidade de conhecer os procedimentos teóricos e metodológicos
empregados numa análise da língua centrada nos pressupostos da linguística textual. Com certeza muita leitura e análise esperam por você.
Portanto, encha-se de disposição para aprender. De início, já indicamos as obras a seguir, para que você amplie sua compreensão sobre
o assunto estudado.
Leituras recomendadas
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 7. ed. São Paulo: Contexto, 1997.
De leitura fácil e bastante didática, fazendo uso de muita exemplificação, os textos de Koch são de leitura obrigatória para
quem quer conhecer a linguística textual. Citamos aqui esta introdução, mas qualquer um de seus livros que estão citados nas
referências a seguir, podem ser lidos com esse fim.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e
compreensão. São Paulo, Parábola Editorial, 2008.
Vamos apresentar este livro transcrevendo um trecho de seu
prefácio, na página 11: “A natureza didática do livro é evidente, especialmente, pela presença de atividades, exemplos
ilustrativos, glossários, indicações de obras de consulta para o
aprofundamento dos temas tratados e uma série de quadros e
tabelas que buscam sistematizar as teorias abordadas. Percebe-se ainda uma progressão de dificuldade das atividades propostas, partindo-se de indagações mais pontuais até pesquisas de
campo realizadas pelos alunos e socializadas em pôsteres”. Por
tudo isso vale a pena estudar com esse livro, a partir mesmo do
prefácio.
PAVEAU, Marie-Anne & SARFATI, Georges-Élia. As grandes teorias
da linguística. Da gramática comparada à pragmática. São Carlos:
Claraluz, 2006.
Neste livro os autores fazem uma apresentação da progressão
histórica da linguística no século XIX, mostrando as filiações
teóricas de cada corrente linguística. Assim, ficamos sabendo
das concepções em que se assentaram as bases da linguística
no século XX. Recomendamos para esta aula, especialmente, a
leitura do capítulo sobre as linguísticas discursivas, porque você
ficará conhecendo as fontes em que beberam os pesquisadores
da linguística textual no Brasil.
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Resumo
O surgimento da linguística textual está atrelado ao movimento de
ampliação das fronteiras da linguística, rumo a uma interdisciplinaridade cada vez mais crescente, especialmente na década de 60. Sua
proposta teórica se baseia especialmente na tomada do texto como
objeto de investigação, já que é ele a unidade básica de comunicação.
A linguística textual estuda assim, o funcionamento da língua, como
ela está sendo atualizada pelos falantes. Portanto, a língua enquanto
processo, a partir do qual sentidos são construídos.
Autovaliação
Tendo como base a noção de texto apresentada nesta aula, e considerando que sobre ela deve estar centrada a aula de língua portuguesa,
indique se a proposta abaixo, de uma produção textual requisitada em
um vestibular, apresenta elementos ou não, que justifiquem tal noção.
PROPOSTA DE VESTIBULAR:
“Imagine que você é a ex-ministra do Meio Ambiente, Marina Silva.
Redija a carta de demissão da ex-ministra ao presidente Lula, apresentando a situação e justificando o pedido. Utilize um mínimo de 20 e um
máximo de 25 linhas para elaboração de seu texto.”
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Para ajudá-lo na elaboração de seu comentário, releia o que dizem
Koch e Travaglia, (1989, p. 8-9):
“O texto será entendido como uma unidade linguística concreta (perceptível pela visão ou audição), que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor/ ouvinte, leitor), em uma situação
de interação comunicativa específica, como uma
unidade de sentido e como preenchendo uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente da sua extensão.”
e Marcuschi (1989, p. 12-13):
“Proponho que se veja a Linguística do Texto, mesmo que provisória e genericamente, como o estudo
das operações linguísticas e cognitivas reguladoras
e controladoras da produção, construção, funcionamento e recepção de textos escritos ou orais”.
Lembre-se de que Marcuschi fala nessa mesma passagem, que no
texto estão implicadas “pressuposições [...] a nível pragmático da produção do sentido no plano das ações e intenções”. Dessa forma, o
autor considera o texto “como um ato de comunicação unificado no
complexo universo de ações humanas”.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
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Referências
BAKHTIN, M. (Voloshinov). Marxismo e filosofia da linguagem. (Trad. de
M. Lahud e Y. Vieira). São Paulo: Hucitec. 2002, 1929.
BAKHTIN, M. Estética da Criação Verbal. (Trad. de Mª. E. Pereira). São
Paulo: Martins Fontes, 2000, 1979.
BENVENISTE, E. Problemas de Linguística Geral II. Campinas, SP:
Pontes, 1989 (1902-1976).
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 7. ed. São Paulo: Contexto,
1989.
KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo:
Contexto, 1997.
KOCH, Ingedore Villaça. Introdução à linguística textual: trajetória e
grandes temas. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual.
8. ed. São Paulo: Contexto, 1997.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. A Linguística de Texto: o que é e como se
faz. Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 1983.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e
compreensão. São Paulo, Parábola Editorial, 2008.
PAVEAU, Marie-Anne & SARFATI, Georges-Élia. As grandes teorias
da linguística. Da gramática comparada à pragmática. São Carlos:
Claraluz, 2006.
WEEDWOOD, Barbara. História concisa da linguística. Tradução de
Marcos Bagno. 2. Ed. São Paulo: Parábola Editorial, 2003.
XAVIER, Antônio Carlos e CORTEZ, Suzana (orgs.). Conversas com
linguistas: Virtudes e controvérsias da linguística. São Paulo: Parábola,
2003.
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II UNIDADE
A coesão textual
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Apresentação
Com a unidade anterior você tomou conhecimento dos
pressupostos fundamentais da corrente linguística que toma
o texto como sua unidade básica de estudo. Assim, você já
sabe do que se trata um estudo da língua que seja realizado
segundo a perspectiva da linguística textual. Inclusive, tivemos a preocupação de tornar suficientemente clara a noção
do que se entende por texto, quando se trata de tomá-lo
como objeto de investigação segundo essa perspectiva teórica.
Pois bem, a partir desta segunda unidade estaremos especificamente tratando de apresentar os mecanismos que
estão disponíveis na língua para se produzir textos que sejam compreensíveis aos usuários dessa língua. E o mais
importante: estaremos mostrando qual a função que esses
elementos exercem nas sequencias textuais em que estão
inseridos, de modo a contribuírem para construírem textos
reconhecidos como bem formados pelos usuários da língua.
Trata-se do estudo dos elementos de coesão textual. Trata-se
do que Marcuschi (1983, p. 12-13), citado na aula anterior,
designou como fazendo parte da organização linear que é o
tratamento estritamente linguístico abordado no aspecto da
coesão”.
A partir desta aula você terá certamente uma maior preocupação com sua própria produção textual, seja ela falada ou escrita. Porque é justamente o aspecto da produção
textual que estaremos enfocando nesta unidade. Tendo em
vista tais considerações, só temos a lhe desejar um excelente
proveito de seus estudos, a partir dos objetivos que estabelecemos a seguir:
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Objetivos
Ao final desta unidade, esperamos que você seja capaz de:
• Explicitar uma concepção de texto partindo da identificação dos elementos de coesão;
• Reconhecer os elementos que estão estabelecendo a
coesão do texto;
• Avaliar um texto bem formado, do ponto de vista da
coesão.
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Da definição de coesão
A investigação sobre a coesão no campo da linguística textual é
feita com vistas a se investigar os aspectos que dizem respeito aos processos que são empregados no ato de produção textual, com a finalidade de se obter um produto, o texto, dotado de sentido. É evidente,
portanto, que nesta aula será dispensada atenção prioritária ao estudo
desses processos. Mas antes que comecemos nosso trabalho de análise de textos para explicitar como operam os mecanismos responsáveis
pelo estabelecimento da coesão textual, é necessário conhecermos as
definições do termo, estabelecidas por teóricos da linguística textual.
É nesse sentido que transcrevemos abaixo as definições presentes em
Koch (2001, p. 17, 18).
Uma primeira definição, de Halliday & Hasan, diz que:
“a coesão ocorre quando a interpretação de algum elemento no discurso é dependente da de outro. Um pressupõe o outro, no sentido de que não
pode ser efetivamente decodificado a não ser por
recurso ao outro”.
“Para Beaugrande & Dressler (1981),
a coesão concerne ao modo como os componentes da superfície textual – isto é, as palavras e frases
que compõem um texto – encontram-se conectadas entre si numa sequência linear, por meio de
dependências de ordem gramatical”.
Para Marcuschi, são fatores de coesão, aqueles que:
“dão conta da estruturação da sequência superficial do texto, ‘afirmando que não se trata de princípios meramente sintáticos, mas de’ uma espécie
de semântica da sintaxe textual, ‘isto é, dos mecanismos formais de uma língua que permitem estabelecer, entre os elementos linguísticos do texto,
relações de sentido”.
Você leu as definições acima e certamente percebeu que há um
aspecto caracterizador da coesão que é realçado nas três definições.
Isso quer dizer que é esse o aspecto fundamental para se definir a coesão. Vamos deixar para você a tarefa de explicitar qual é esse aspecto,
respondendo a atividade a seguir:
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Atividade I
Releia as três definições apresentadas acima, e identifique o traço comum
apresentado pelos três autores, que definem resumidamente o que é
conceituado como coesão.
Responda ainda: das três definições, qual a que abarca uma definição mais
completa de coesão? Por quê?
Responda a atividade com bastante atenção, porque sua resposta será
constantemente retomada na sequência desta unidade. Isso porque nessa
resposta está o cerne do que se entende por coesão, o tema que estaremos
desenvolvendo aqui.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
Passemos agora a uma segunda etapa de nosso percurso em direção ao conhecimento da coesão textual: sua efetivação no texto.
Analisando a coesão de um texto escrito
Nesse momento, vamos analisar como a coesão se processa
em um texto real, a exemplo dos que circulam nos diversos suportes
textuais em nossa sociedade. Para isso, vamos tomar como ponto de
partida a noção de coesão como sendo a forma como os elementos
linguísticos da superfície textual se relacionam entre si, numa sequência.
Através dessa relação, são sinalizados os percursos que o leitor/ouvinte
deve percorrer para construir o sentido do texto. Por isso, é certo que a
coesão interfere também no nível semântico do texto.
Mas vamos parar de falar sobre a coesão, para vermos como de
fato ela funciona nos textos. Vamos tomar um texto simples, e assim
facilmente poderemos perceber como acontece o encadeamento dos
sintagmas, das frases, dos parágrafos, das partes do texto, constituindo
o processo coesivo.
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TEXTO 1
PODER INVISÍVEL
Noêmia Lopes
A gente não vê, mas a água de rios, lagos e mares tem moradores incríveis: o plâncton, seres minúsculos e essenciais para
a vida na Terra.
Nessa turma estão algas, bactérias, fungos, crustáceos, moluscos e outras criaturas microscópicas. Alguns não tem membros para locomoção e outros são pequenos demais para nadar.
Por isso, eles ficam flutuando na água.
Existem dois tipos de plâncton, o vegetal e o animal. Os dois
servem de comida para vários animais, por isso são importantes
no equilíbrio da cadeia alimentar. Além disso, o plâncton vegetal
faz a fotossíntese e fornece grande parte do oxigênio que existe
no planeta.
(RECREIO, Ano10, nº 504, 5/11/2009)
Vamos começar a destrinchar esse texto por uma pergunta clássica
das aulas de leitura: do que fala do texto? Claro que você consegue
responder essa pergunta facilmente. E um dos motivos para isso é que o
texto está muito bem tramado do ponto de vista de sua coesão textual.
Veja que o modo como os sintagmas, as frases, as três partes do texto,
estão encadeados de forma a não oferecem qualquer dúvida quanto
aos elementos a que estão sendo feitas as referências no texto. Vamos
ver como isso acontece:
Primeiramente, ficamos sabendo quem são os moradores incríveis porque eles estão anunciados justamente após o termo moradores incríveis.
A gente não vê, mas a água de rios, lagos e mares tem moradores incríveis: o
plâncton, seres minúsculos e essenciais para a vida na Terra.
Veja bem, só essa ordem em que os termos estão dispostos, um imediatamente após o outro, separados pelo sinal de pontuação, os dois pontos, já é indicativo de que o segundo termo, o plâncton, deve ser tomado
como referente ao primeiro, moradores incríveis. Esse já é um fator de coesão. Para ficar bem claro por que esses seres são incríveis, a adjetivação
não deixa dúvida: eles são minúsculos e essenciais para a vida na Terra.
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O segundo parágrafo se inicia através do sintagma nessa turma.
Imediatamente, o leitor faz uma remissão para o parágrafo anterior,
que é onde se encontra o termo referido por nessa turma. Já foi feita
aqui a ligação entre os dois primeiros parágrafos do texto. Continuando a leitura, deparamo-nos como o termo alguns. Dá para recuperar a
quem ele se refere? Se sim, a coesão continua sendo garantida. Logo
à frente, encontramos o termo outros. Mais uma vez, sabemos perfeitamente quem são esses outros no texto. E eles?
Você está vendo, não há como o leitor perder o fio do texto, se
ele segue as pistas linguístico-gramaticais que o autor maneja para
construir seu texto. Veja só como isso fica evidente se destacamos esses
elementos no texto.
A gente não vê, mas a água de rios, lagos e mares tem moradores
incríveis:
seres minúsculos
e
o plâncton
essenciais
para a vida na
Terra
Nessa turma estão algas, bactérias, fungos, crustáceos, moluscos
e outras criaturas microscópicas. Alguns não tem membros para locomoção e outros são pequenos demais para nadar. Por isso, eles ficam
flutuando na água.
E continua: Existem dois tipos de plâncton. Não há como “esquecer” qual era o tema tratado no texto, porque ele foi retomado agora
no terceiro parágrafo, através da mesma palavra: plâncton.
Os dois servem de comida para vários animais. A quem se refere
os dois? Quem são importantes? Se existem dois tipos de plâncton, o
plâncton vegetal é um deles.
Chegamos ao final do texto, mas isso não quer dizer que esgotamos todas as possibilidades de verificação dos seus elementos coesivos. Você até pode ter se dado conta de algum aspecto que não
citamos em nossa análise. É interessante até que faça o registro do que
observou, assim estará exercitando sua capacidade interpretativa. Mas
por ora vamos fazer uma pausa para discutir um aspecto importante da
coesão, no item a seguir.
Por que é importante estudar a coesão
quando se ensina língua?
E então, é simples verificar como se processa a coesão num texto?
Temos que admitir que para nós, leitores proficientes da língua, o texto
Poder Invisível, de fato, é de fácil compreensão. Mas o que importa é
que a construção do texto por meio do manuseio dos elementos linguísticos segue a mesma lógica, no sentido de se alcançar, como produto,
o texto de qualidade coesiva. O que vai acontecer é que dependendo
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do gênero do texto, diferentes recursos coesivos vão ser ativados por
seu produtor. E claro, quanto mais avançamos no nosso conhecimento
de língua e de textos, fazemos um uso mais ampo dos recursos coesivos
que a língua nos oferece. Isso é válido também para os textos orais que
produzimos diariamente em nossa vida cotidiana. É importante salientar ainda que esses recursos são inesgotáveis e que em cada texto são
empregados diferentes recursos coesivos. Portanto, não adianta construir uma forma para analisar todos os textos com que nos deparamos,
porque não há um texto que repita outro, mesmo em se tratando de
sua estrutura formal.
Esse é um aspecto interessante do ponto de vista do ensino da língua, porque, além disso, você deve ter percebido que estudamos elementos linguísticos que normalmente são visualizados somente a partir
da perspectiva da gramática tradicional. No entanto, pudemos verificar a importância desses elementos quando estão funcionando de fato
num texto, como elementos que promovem sua coesão. Portanto, o
importante não é centrar-se sobre uma nomenclatura ou sobre uma
categorização do certo e do errado do ponto de vista gramatical, mas
sobre o que funciona bem para que meu texto adquira sentido e seja
compreendido por quem o lê ou por quem o escuta.
Após essas considerações do ponto de vista do ensino da língua,
temos uma proposta de atividade a seguir.
Atividade II
Retome alguns dos elementos linguísticos que destacamos durante a análise
do texto PODER INVISÍVEL e pesquise numa gramática tradicional o modo como
esses elementos são analisados ali. Reflita sobre qual das duas perspectivas, a
da gramática tradicional ou a da linguístca textual, é mais eficaz para o ensino
de produção textual. Você deverá levar suas reflexões para o fórum de debates
e assim compartilhá-las com seus colegas.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
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A coesão no texto falado
Para desenvolvermos esse item vamos retomar o conceito de
texto que reportamos na unidade anterior:
“O texto será entendido como uma unidade linguística concreta (perceptível pela visão ou audição), que é tomada pelos usuários da língua (falante, escritor/ ouvinte, leitor), em uma situação
de interação comunicativa específica, como uma
unidade de sentido e como preenchendo uma função comunicativa reconhecível e reconhecida, independentemente da sua extensão” (KOCH e TRAVAGLIA, 1989, p. 8-9).
Depreende-se dessa definição, que a linguistica textual trabalha
tanto com textos escritos quanto com textos orais. E os textos orais, dentro de suas especificidades, são também construídos com vistas a serem
compreendidos. Portanto, também nesses estão presentes elementos de
coesão textual.
Somente para exemplificar, porque para tratar da oralidade seria
necessário um curso todo dedicado a isso, mostramos no trecho de fala
a seguir1, como os elementos de coesão são acionados pelo falante, de
modo a que o resultado da fala seja um texto dotado de sentido.
Os três pontos que aparecem nesse texto
transcrito a partir de um texto falado, são
utilizados para indicar pausas feitas pelo
falante. Os dois pontos indica que ele se
alongou na pronúncia da vogal.
1
TEXTO 2
... sabemos por exemplo... que o sindicato... dos comerciários para falar de um assunto que nos toca... pati particularmente... possui uma granja na cidade de Carpina... e que
proporciona... àquela imensa... leva de associados... um lazer
realmente magnífico... um momento de:... descanso... um momento de: felicidade podemos dizer assim... a todos aqueles...
que vão... até lá em busca de paz de sossego e de tranquilidade... sabemos também... que...
(DID.131 – NURC/REC.:39-47)
Ressaltamos no trecho que o falante reformula o enunciado um
lazer realmente magnífico, através de um outro enunciado em forma de
paráfrases: um momento de:... descanso... um momento de:... felicidade. Assim ele precisa o sentido do que quis dizer, e chama a atenção do
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seu ouvinte. Destaca-se também no trecho a presença do conector e,
do termo assim, que resume todo o enunciado anterior. E para finalizar,
a retomada do início do texto, feita através da repetição da sequência:
sabemos também que.
Este exemplo é elucidativo para demonstrarmos que a coesão faz
parte de toda e qualquer produção textual. Isso inclui os textos falados
que são tão presentes em nossa vida cotidiana e que merecem também
ser investigados em seu processo de produção. Mas como não vamos
nos centrar no estudo dessa modalidade de língua, prosseguimos nossa aula discutindo a respeito das propriedades da coesão, no item a
seguir.
A coesão é um processo sintático,
ou semântico?
A afirmação de que a coesão proporciona unidade temática ao
texto reflete a ideia de que ela, operando no nível superficial, favorece,
a partir daí, as construções de sentido para o texto, que se diz fazerem
parte de sua superfície profunda. De forma que no final tem-se um todo
coeso e dotado de sentido, ou seja, tem-se o que podemos reconhecer,
na qualidade de falantes da língua, como sendo um texto.
É hora de fazermos o feedback. Lembra-se de termos pedido que
você respondesse a atividade 1 com bastante atenção? Pois bem, chegou o momento de voltarmos à resposta que você deu naquele momento. E isso através, é claro, de mais uma atividade.
Atividade III
Retome agora a resposta dada para a atividade 1. Avalie se a definição
escolhida por você é condizente com o que dissemos acima sobre a coesão ser
um processo sintático ou semântico.
Você mesmo pode responder agora: A coesão é um processo sintático ou
semântico? Não vale responder sem explicar o porquê. Então, mãos à “caneta”.
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Continuando...
O reconhecimento da unidade temática do texto, de que falamos
anteriormente, se processa porque, ao ir fazendo as ligações na superfície do texto, como vimos para o texto acima, vão se fazendo também
as ligações no nível conceitual.
Assim, por exemplo, no texto PODER INVISÍVEL, é possível, a partir
do título mesmo, fazer sua ligação com o que está nele expresso. Vamos retomar o texto: Por que o uso da palavra poder? Porque de fato as
ações desses seres microscópicos, citadas no texto, são dignas de super
heróis. E será que a palavra “microscópicos” tem a ver com invisibilidade? A primeira frase do texto já nos dá pista disso: A gente não vê.
Se continuamos, podemos perceber claramente que é a partir das
relações que se fazem no nível micro, nas relações gramaticais mesmo,
como por exemplo entre os sujeitos e as formas verbais, que vão sendo
estabelecidas as relações nos níveis superiores.
Assim, como bons conhecedores da língua, estabelecemos como
sujeito do verbo estão, no segundo parágrafo do texto, os termos que
vem depois dele: algas, bactérias, fungos, crustáceos, moluscos e outras
criaturas microscópicas. E por que não fazemos com o termo que vem
antes, o que é a ordem mais comum em nossa sintaxe? Uma pista: a
terminação do verbo indica um sujeito plural.
O simples conectivo e garante a ligação entre algas, bactérias, fungos, crustáceos, moluscos e outras criaturas microscópicas; entre Alguns
e outros.
Se passamos para o nível das orações, temos outros conectores,
que enfatizam determinado tipo de relação que se estabelece entre as
orações.
• A gente não vê, mas a água de rios, lagos e mares tem moradores incríveis;
• Alguns não tem membros para locomoção e outros são pequenos demais para nadar. Por isso, eles ficam flutuando na água;
• Os dois servem de comida para vários animais, por isso são importantes no equilíbrio da cadeia alimentar. Além disso, o plâncton vegetal faz a fotossíntese e fornece grande parte do oxigênio
que existe no planeta.
Para que a compreensão do texto fosse assegurada, o autor do texto garantiu a manutenção do tema ao longo dos parágrafos. Para isso,
estabeleceu os elos de ligação entre eles, através do sintagma Nessa
turma (segundo parágrafo) e da oração Existem dois tipos de plâncton
(terceiro parágrafo),que retomam termos citados anteriormente, mas
também reintroduzindo o tema que vinha sendo exposto, desenvolve-o,
amplia-o.
Tudo isso é feito de modo que, ao chegar ao final do texto, o leitor
pode ter formulado uma interpretação para ele. Percebe-se então que
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o texto é, finalmente, o resultado de um processo de múltiplos encadeamentos, na medida em que cumpre assim, a função da coesão, qual
seja: “a de criar, estabelecer e sinalizar os laços que deixam os vários
segmentos do texto ligados, articulados, encadeados. Reconhecer, então, que um texto está coeso é reconhecer que suas partes – como disse, das palavras aos parágrafos – não estão soltas, fragmentadas, mas
estão ligadas, unidas entre si” (ANTUNES, 2005, p. 47).
O que expusemos até aqui reforça a ideia de que não falamos por
palavras isoladas, mas através de textos, em sua completude. Isso quer
dizer: através de sequências que, interligadas, fazem sentido para quem
as produz e para quem se dirigem. Ou seja, através de textos coesos.
Seria interessante verificar mais uma vez como isso acontece? Então, vamos a mais um texto.
TEXTO 3
2. O determinismo geográfico
O determinismo geográfico considera que as diferenças do
ambiente físico condicionam a diversidade cultural. São explicações existentes desde a Antiguidade, do tipo das formuladas por
Pollio, Ibn Khaldun, Bodin e outros, como vimos anteriormente.
Estas teorias, que foram desenvolvidas principalmente por
geógrafos no final do século XIX e no início do século XX, ganharam uma grande popularidade. Exemplo significativo desse
tipo de pensamento pode ser encontrado em Huntington, em
seu livro Civilization and Climate (1915), no qual formula uma
relação entre a latitude e os centros de civilização, considerando
o clima como um fator importante na dinâmica do progresso.
A partir de 1920, antropólogos como Boas, Wissler, Kroeber,
entre outros, refutaram este tipo de determinismo e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os
fatores culturais. E mais: que é possível e comum existir uma
grande diversidade cultural localizada em um mesmo tipo de
ambiente físico.
Tomemos, como primeiro exemplo, os lapões e os esquimós.
Ambos habitam a calota polar norte, os primeiro no norte da
Europa e os segundos no norte da América. Vivem, pois, em ambientes geográficos muito semelhantes, caracterizados por um
longo e rigoroso inverno. Ambos têm ao seu dispor flora e fauna
semelhantes. Era de se esperar, portanto, que encontrassem as
mesmas respostas culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. Mas isto não ocorre:
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Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando
blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia. Por dentro a casa é forrada com pelos de animais
e com o auxílio do fogo conseguem manter o seu interior
suficientemente quente. É possível, então, desvencilhar-se das pesadas roupas, enquanto no exterior da casa a
temperatura situa-se a muitos graus abaixo de zero grau
centígrado. Quando deseja, o esquimó abandona a casa
tendo que carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo retiro
Os lapões, por sua vez, vivem em tendas de peles de
rena. Quando desejam mudar os seus acampamentos,
necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo
desmonte, pela retirada do gelo que se acumulou sobre as
peles, pela secagem das mesmas e o seu transporte para
o novo sítio.
Em compensação, os lapões são excelentes criadores
de renas, enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos.
A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós
tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e
nem que resolvam os seus conflitos com uma sofisticada competição de canções entre os competidores.
Um segundo exemplo, transcrito de Felix Keesing, é a
variação cultural observada entre os índios do sudoeste norte-americano: (...)
(LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito Antropológico. 11.
ed. Rio de Janeiro: Zahar Editor. 1997, p. 21-22).
Começando pelo começo...
Voltamos nossa atenção para o título do texto e percebemos que o
mesmo já se inicia privilegiando o aspecto coesivo. O primeiro parágrafo parte de uma retomada do título, através da repetição: O determinismo geográfico. O final do parágrafo, por sua vez, já remete para
uma outra parte do texto, anterior, que obviamente não transcrevemos
aqui. Com o enunciado: como vimos anteriormente, o autor deixa claro que já havia tratado do assunto antes. Merecem também atenção
o uso do pronome outros. Através dele o autor pode omitir uma lista
talvez enorme de teóricos. Você deve ter prestado atenção também que
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o sintagma as diferenças do ambiente físico, é retomado primeiro pelo
termo explicações, e depois por do tipo das formuladas. Nesse caso,
houve também a retomada do tema através de termos diferentes, proporcionando o encadeamento das sequências, e consequente progressão do texto. Essa é uma função da coesão.
Passando para o segundo parágrafo, verifica-se que a ligação com
o primeiro está assegurada através do sintagma estas teorias. Mais um
termo que se junta a as diferenças do ambiente físico, explicações, e
do tipo das formuladas. E ainda a esse tipo de pensamento, que lemos
mais à frente. Você pode indicar que termo é substituído pelo pronome
no qual, na quarta linha desse parágrafo? Uma dica: ele está no gênero masculino e no singular.
A partir de 1920, ou melhor, a partir daqui, deixamos para você a
tarefa de dar continuidade à observação de como está sendo costurado
o texto. Este é um ótimo exercício para se aprender a produzir os próprios textos. Portanto, não perca a oportunidade.
Atividade IV
dica. utilize o bloco
Está lançada então a proposta. Dê continuidade à análise que vínhamos
fazendo, e assim você descobrirá variadas possibilidades de se fazer elos
coesivos num texto. Claro que não será possível remarcar todas numa primeira
vez. Nesse caso, compartilhar o que você fez no fórum, com seus colegas,
será uma oportunidade excelente para tomar conhecimento do que você não
percebeu, mostrar o que você fez, e assim ter uma análise bem completa do
texto. Bom trabalho!
de anotações para
responder as atividades!
Com esta atividade encerramos nossa
unidade. Esperamos que você tenha
gostado de descobrir o texto como esse
tapete em que se entrecruzam fios de
variados tamanhos e cores. E veja que
isso é só o começo. Há muito mais a se
observar quando olhamos esse objeto
de perto. Nas próximas aulas estudaremos em maior número possível,
como cada fio em particular funciona no texto, de modo que a trama não
apresente falhas. E ainda, de modo que a trama adquira determinada
padronagem. Essa tarefa de tecer com palavras, definitivamente, não é
uma tarefa fácil. É tarefa que exige cuidado e bastante atenção. Mas vale
a pena se tornar um bom tecelão. Afinal, quem não gosta de ler um bom
texto, um bom livro? E se dizemos que o texto é bom, que o livro é bom, é
porque ele está bem escrito do ponto de vista da coesão. Isso vale para
nossos textos também. Portanto, vale a pena se esmerar.
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Leituras recomendadas
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 7. ed. São Paulo: Contexto, 1997.
Continuamos recomendando Koch, pelas mesmas razões: de leitura fácil e bastante didática, a autora faz uso de muita exemplificação.
Além disso, por ser uma pioneira da linguística textual no Brasil, seus
textos são de leitura obrigatória para quem quer conhecer a teoria. Esta
é uma das suas primeiras produções na área. Portanto, vale a pena
conhecer outras produções da autora como as citadas nas referências
a seguir.
ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo: Parábola Editorial, 2005.
Irandé Antunes é hoje uma das pesquisadoras que têm se ocupado
da linguística textual, e tem sabido transmitir de forma muito simples e
prazerosa a teoria que geralmente é apresentada de forma muito técnica. Com bastantes exemplos extraídos da literatura, de revistas e jornais
da atualidade, facilmente podemos descobrir os efeitos de sentido que
decorrem do uso da linguagem. Portanto, sua leitura é imprescindível.
Resumo
A coesão é estudada no interior da teoria da linguística textual como
uma propriedade do texto falado ou escrito, responsável pelos sucessivos encadeamentos de termos, de frases, de parágrafos, de modo que
este texto como produto, se apresente como uma unidade de sentido.
Observa-se a coesão a partir da materialidade linguística do texto, dos
elementos coesivos da superfície textual, que ao estabelecerem relações entre as diversas partes do texto, vão estabelecendo também as
relações de sentido que tornam os textos compreensíveis para seus leitores e ouvintes.
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Autovaliação
Este é o momento em que você deverá avaliar se seu aprendizado
se deu a contento. Portanto, a proposta de autoavaliação que sugerimos deve ser realizada com bastante segurança. Se você considera que
suas leituras ainda não foram suficientes para realizá-la, é importante
que você retome as leituras, as discussões com o professor e os colegas, de modo a ter segurança para realizar a atividade que sugerimos
a seguir:
Releia os textos PODER INVISÍVEL e O DETERMINISMO GEOGRÁFICO. Compare os dois, levando em consideração seu trabalho como
leitor/leitora para seguir as pistas coesivas nos dois textos, na tentativa
de compreendê-los.
Agora responda: o fato desses dois textos serem de gêneros diferentes, estarem
endereçados a públicos diferentes, faz com que haja maior dificuldade em
reconhecer as pistas linguísticas neles presentes? Por quê?
Lembre-se de que, para responder a essa questão, você deve se
ater aos elementos coesivos da língua. Não entra em jogo em jogo
aqui seu conhecimento maior ou menor acerca dos temas tratados nos
textos.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
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Referências
ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo:
Parábola Editorial, 2005.
COSTA VAL, Maria da Graça. Redação e textualidade. São Paulo:
Martins Fontes, 1991.
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 7. ed. São Paulo: Contexto,
1989.
KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo:
Contexto, 1997.
KOCH, Ingedore Grunfeld Villaça. Introdução à linguística textual:
trajetória e grandes temas. São Paulo: Martins Fontes, 2004.
KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. A coerência textual.
8. ed. São Paulo: Contexto, 1997.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. A Linguística de Texto: o que é e como se
faz. Recife. Universidade Federal de Pernambuco, 1983.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Produção textual, análise de gêneros e
compreensão. São Paulo, Parábola Editorial, 2008.
MARTELLOTA, M. et. alii. (orgs.) Manual de Linguística. São Paulo:
Contexto, 2008.
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III UNIDADE
Mecanismos de coesão
textual: a Referenciação
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Apresentação
Estudando as duas primeiras aulas deste curso de Teorias
Linguísticas II, você travou conhecimento com a Linguística
Textual. Desse modo, já conhece os pressupostos em que se
baseia essa corrente da linguística, já conhece a definição
de texto com que opera a Linguística de Texto, bem como
já exercitou os conhecimentos que foram adquiridos sobre
os recursos utilizados pelos produtores textuais na busca de
uma construção de textos coesivos, observando analiticamente o resultado de seu emprego nos textos.
Esse caminho que você percorreu certamente já lhe proporcionou uma visão muito mais aguçada do produto textual.
Os primeiros passos na linguística textual sempre possibilitam
a aquisição de uma noção de texto como artefato, como um
objeto sobre o qual é preciso trabalhar, elaborando e reelaborando enunciados, escolhendo a palavra mais justa, atentando
para detalhes que podem fazer muita diferença no que o produtor do texto quer dizer, no que o leitor pode interpretar. Todo trabalho de elaboração textual requer a atenção do seu produtor
no intuito de chegar a sua forma final mais acabada. Para isso,
o conhecimento dos elementos linguísticos do texto ajuda muito.
Por isso, para esta aula, nossa proposta é fazer um estudo mais específico da coesão, centrando-nos no estudo dos
mecanismos disponíveis na língua através dos quais são estabelecidas referências entre os constituintes do texto. Nossa
proposta é fazer você perceber como funcionam esses mecanismos e, sobretudo, reconhecer sua importância para a elaboração do texto. A partir disso você mesmo poderá também
fazer um uso muito mais consciente desses elementos. Com
esse propósito, estabelecemos os objetivos de nossa unidade:
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Objetivos
Ao final desta unidade, esperamos que você seja capaz
de:
• Identificar os mecanismos linguísticos responsáveis
pela coesão referencial do texto;
• Avaliar um texto bem formado, do ponto de vista do
emprego dos elementos coesivos referenciais;
• Empregar os conhecimentos da linguística textual em
sua atividade de leitor e produtor textual.
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Considerações
iniciais necessárias
Estamos tratando neste curso, da maneira como os termos, os enunciados, os parágrafos do texto vão sendo encadeados num processo de
idas e vindas, de retomadas, de articulações que vão resultar num texto
coeso e com sentido. Porque, para que o texto tenha sentido, é preciso
que suas palavras, enunciados, parágrafos, estejam interligados. Essa
é a função da coesão. A partir de agora, vamos observar como os
elementos linguísticos responsáveis pela coesão funcionam nos textos.
Seguiremos a proposta de Koch (1989, p. 26), que é bastante didática, em que a autora propõe a “existência de duas grandes modalidades de coesão: a coesão referencial (referenciação, remissão)
e a coesão sequencial (sequenciação)”. Esta unidade será dedicada à
coesão referencial, que Koch (1989, p.30) define como sendo “aquela
em que um componente da superfície do texto faz remissão a outro(s)
elemento(s) do universo textual”. A coesão sequencial será estudada na
próxima unidade.
Ao chegar ao final do curso, você perceberá como será útil para
sua própria atividade de produção textual, o conhecimento de como
funcionam os elementos de coesão. Certamente você desenvolverá
maior controle sobre sua escrita, tornando-se um produtor textual mais
competente. Bem como, um leitor mais atento ao texto que vier a ler a
partir de então.
E já que o objeto de análise da linguística textual é o texto, vamos
apresentar os mecanismos de coesão referencial, naturalmente, através
de textos. E a partir daí, vamos explicando seu funcionamento, sempre
requisitando sua participação, evidentemente. Contudo, selecionaremos trechos em que podemos observar o procedimento linguístico específico que queremos analisar. Isso porque não temos espaço suficiente para incluir o texto integral, em função do limite que nos impõe uma
aula como esta. Assim, teremos o cuidado de recuperar as informações
que sejam relevantes para sua compreensão.
Mas, para satisfazer sua curiosidade de leitor, indicamos sempre a
referência para que você possa recuperar todo o contexto textual, lendo
o texto na íntegra, sempre que possível. Asseguramos que essa será
uma atitude inteligente e prazerosa.
Contamos com sua efetiva participação na aula. Será muito importante seu envolvimento realizando os exercícios, tirando as dúvidas com
o tutor, discutindo com os colegas no ambiente virtual. Portanto, vamos
aos textos ou trechos!
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Analisando procedimentos
de coesão referencial
Para começar, vamos ler um trecho de um diálogo imaginado por
Luis Fernando Veríssimo, entre o cineasta Federico Fellini e seu produtor. Reportamos o trecho final porque ele exemplifica bem um procedimento recursivo: a repetição de um mesmo item lexical. Esse é um recurso através do qual se consegue a reiteração de um referente textual,
conseguindo-se assim estabelecer uma forma de coesão textual.
Antunes (2005, p. 71) explica que
“A repetição, como o próprio nome indica, corresponde à ação de voltar ao que foi dito antes pelo
recurso de fazer reaparecer uma unidade que já
ocorreu previamente. Essa unidade pode ser uma
palavra, uma sequência de palavras ou até uma
frase inteira”.
Vamos ao trecho em que Fellini fala sobre a presença de gatos em
um próximo filme, e você poderá confirmar o que Antunes disse acima
sobre a repetição:
“_ Isso. Oitocentos gatos caolhos. Mil. Os gatos
estão por todo o apartamento. O casal não consegue sentar ou dormir por causa dos gatos. Os
gatos comem a empregada. Os gatos ocupam
todo o prédio. Toda a cidade! É isso! A cidade está
tomada por gatos caolhos. Milhões de gatos caolhos. Anote aí: um milhão de gatos caolhos. Só o
casal ainda não foi comido pelos gatos, porque...”
(VERISSIMO, 2003, p. 43)
Você contou quantas vezes o termo gato aparece no trecho? Parece um exagero, mas a retomada do mesmo item lexical é empregada
para criar um efeito expressivo. A repetição da palavra gato revela o
exagero do cineasta, conhecido pela montagem de cenas inusitadas. A
repetição não desqualifica o trecho, porque neste caso ela cumpre uma
função. A ênfase nos gatos, inevitavelmente, cria em nossa mente um
cenário tomado por gatos que surgem de todas as partes, e a reiteração do termo garante a continuidade do texto, sua coesão. Recomendamos a leitura de Antunes (2005) para um maior aprofundamento
dessa forma de remissão.
No próximo trecho também observamos um caso de repetição, mas
agora através de um outro mecanismo, o uso de expressões nominais
definidas, assim conceituadas por Koch (2009, p. 68): “Denominam-se
expressões ou formas nominais definidas as formas linguísticas constituídas, minimamente, de um determinante definido seguido de um nome”.
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Vamos ao exemplo para deixar claro do que estamos tratando:
“Woody Allen não é um filósofo. É um judeu da
baixa classe média urbana do Leste dos Estados
Unidos, como dez entre dez estrelas da comédia
americana. Ele mesmo se situa na tradição dos
stand-up comedians,...” (VERISSIMO, 2003, p. 50)
Você consegue identificar as expressões nominais que são empregadas no trecho para fazer referência a Woody Allen? Você identificou um judeu da baixa classe média urbana, uma estrela da comédia
americana e um dos stand-up comedians?
O interessante no emprego dessas expressões é que, como ressalta
Koch (2009, p. 68),
“o uso de uma descrição definida implica sempre
uma escolha dentre as propriedades ou qualidades
capazes de caracterizar o referente, escolha esta
que será feita, em cada contexto, em função do
projeto de dizer do produtor do texto”.
Não parece ser isso mesmo o que pretende Veríssimo? A partir
da identificação de Woody Allen pelo que ele não é, um filósofo, Veríssimo informa ao leitor quem ele é. Para isso, faz uso das expressões
nominais. Dessa forma, o referente é retomado, e ao mesmo tempo em
que é retomado, é resignificado pelas novas informações que lhe são
acrescentadas. Assim o texto progride.
O que acontece também nesse trecho é que seu produtor, Fernando
Veríssimo, construiu o texto com o objetivo de fazer o leitor conhecer
Woody Allen a partir da apresentação das características que o identificam, segundo a ótica de Veríssimo, claro. Podemos dizer, portanto,
que o uso das expressões definidas é resultado do projeto discursivo do
autor, naquele contexto.
Um outro recurso coesivo bastante comum nos textos é a substituição de um termo por outros equivalentes. Através desse recurso fica
assegurada a manutenção do elemento que está sendo o foco do texto,
ao mesmo tempo em que se evita uma repetição que poderia ser enfadonha no texto. Mas principalmente, pela substituição, se oferece ao
leitor outras possibilidades de interpretação para um mesmo referente.
É o que acontece nos trechos do jornal a seguir em que, a partir do título que anuncia o nome de Messi, vários outros epítetos são atribuídos
ao jogador.
Messi dá novo show
O craque do Barcelona Lionel Messi deu novo show no Camp Nou ...
O argentino Messi voltou a dar espetáculo e foi ovacionado pela
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torcida do Barça, que fez gestos levantando e abaixando os braços em
reverência ao camisa 10...
Durante o jogo, a imprensa europeia e argentina
também já exaltavam o craque: ‘Deus Messi’, dizia
o espanhol ‘Marca’, enquanto o ‘Olé’ chamava o
meia-atacante de ‘Rei do Camp Nou’. Eleito o melhor jogador do mundo, em 2009, esta é a primeira
vez na carreira que o craque fez quatro gols em um
só jogo...” (O Norte, 07/04/2010)
Podemos dizer que as sucessivas substituições deixam o texto mais
informativo a respeito de quem é Messi, o que é muito apropriado para
um texto jornalístico. Ao mesmo tempo, o leitor tem sempre em mente
que é dele que se está falando. Não há, portanto, possibilidade de
confusão.
Outras formas de substituição podem ser feitas através de Sinônimos1, como em: “A porta se abriu e apareceu uma menina. A garotinha
tinha olhos azuis e longos cabelos dourados”;
Antunes (2005, p. 98)
lembra que “podemos
substituir uma palavra por
um seu sinônimo, isto é,
por uma outra palavra que
tenha o mesmo sentido ou,
pelo menos, um sentido
aproximado (...), sempre
na dependência das condições de cada texto”.
SINONÍMIA – Propriedade de dois ou mais
termos (v. termo) poderem ser empregados um pelo outro sem prejuízo do que se
pretende comunicar (MATTOSO CÂMARA,
1986, p.222)
1
Fonte da imagem:
http://www.grupoescolar.com/materia/
semantica_%28sinonimos_e_antonimos;_
homonimos_e_paronimos%29.html)
Hiperônimos2: “Vimos o carro do ministro aproximar-se. Alguns minutos depois, o veículo estacionava adiante do Palácio do Governo”;
Uma visualização de hiperônimos é facilmente encontrada nas
classificações, como esta abaixo, usada na biologia. Animal funciona
como hiperônimo de qualquer uma das classes que estão abaixo na
classificação.
“Hiperônimo – isto é, uma palavra de sentido geral, que designa uma classe de seres,
por isso mesmo, chamada de ‘palavra superordenada’ ou ‘nome genérico” (ANTUNES,
2005, p. 98).
2
ANIMAL
RÉPTEIS
AVES
MAMÍFEROS
ROEDORES
FELINOS
PRIMATAS
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Nomes genéricos: “A multidão ouviu o ruído de um motor. Todos
olharam para o alto e viram a coisa3 se aproximando”;
Coisa é o mais comum dos hiperônimos em
nossa língua. Uma espécie de “coringa”.
Quem não já se valeu da palavra quando não
se lembrava
3
“Entende-se por nominalização o processo
gramatical de formar nomes a partir de outras partes do discurso, usualmente verbos
e adjetivos.” (KHEDI, 1992, P. 26).
4
Nominalizações4: “Os grevistas paralisaram todas as atividades da
fábrica. A paralisação durou uma semana.
Todos esses exemplos foram retirados de Koch (1989, 46). É fácil
perceber neles que os termos em itálico promovem, anaforicamente,
um retorno ao que foi anunciado antes no texto. Há, portanto, uma
interrelação entre elementos, que caracteriza a coesão textual.
Há muitas outras possibilidades de se fazer remissão em textos,
utilizando-se recursos lexicais. Você encontra nos trabalhos já citados
de Antunes (2005) e Koch (2009), diversos exemplos e comentários de
como esses recursos podem direcionar um sentido para o texto. Em A
Coesão Textual, Koch (1989) faz uma relação exaustiva dessas formas.
Vale a pena conferir esse seu trabalho para iniciar os estudos sobre as
formas de se estabelecer coesão textual.
Vamos parar um pouco para que você agora tenha a oportunidade de refletir sobre como se procede para garantir a coesão textual
através dos recursos coesivos referenciais que estudamos até aqui. Essa
será sua primeira atividade.
Atividade I
Leia atentamente o texto abaixo. Identifique elementos de coesão referencial.
Você pode até identificar elementos que já estudamos na aula anterior. Depois,
explique como, através da repetição de termos, do uso de expressões nominais,
da repetição parcial ou total de termos, o autor do texto consegue garantir a
coesão necessária à unidade textual.
As geleiras de Marte
Imagens raras dos paredões de Mojave, uma gigantesca cratera de gelo do planeta Marte, foram
divulgadas pela Nasa, agência espacial americana. As fotografias registram uma região com cerca
de 60 quilômetros de diâmetro. Sua profundidade
de 2,6 quilômetros mostra ainda que a cratera foi
pouco afetada pela erosão ou por outros processos
geológicos. Mojave é uma das mais recentes grandes crateras de Marte – tem cerca de 10 milhões
de anos. Segundo os cientistas, o clima do planeta
vermelho pode ter sido influenciado pelo intenso
bombardeio de meteoritos há 3,9 bilhões de anos.
(ISTOÉ, 31/03/2010, p. 25)
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
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Retomando o último trecho reportado de Verissimo, verificamos a
presença do pronome ele seguido da expressão mesmo que não deixa
dúvida quanto ao nome que está sendo retomado, Woody Allen. Esse é
um caso de retomada que na linguística é conhecida como anafórica5,
porque o termo a que se faz referência (Woody Allen) vem antes da forma referencial (ele mesmo). Ou seja, há um movimento de referência
ao que veio antes, voltando-se no texto. Veja como isso acontece:
“Woody Allen não é um filósofo. (...) Ele mesmo se situa na tradição
dos stand-up comedians,...”
Quando esse movimento é para frente, diz-se que se tem uma referência catafórica, como no exemplo a seguir:
“Chamamos de anafóricas as expressões
que se interpretam por referência a outras
passagens do mesmo texto. As expressões
anafóricas servem, tipicamente, para ‘retomar’ outras passagens de um texto. Um
exemplo típico é o demonstrativo isso em
frases como ‘a gasolina subiu de novo’, e
isso vai gerar outros aumentos de preços’;
nesse contexto, ficamos sabendo que a
palavra isso faz referência ao aumento de
gasolina, olhando par o texto que precede
(ILARI, 2001, p. 55)”.
5
“Ginástica para viver, ridícula e patética ginástica que tanta gente
faz todo dia simplesmente para isso: para continuar”.
(BRAGA, 2004, p. 26)
Veja que só sabemos a que se refere o pronome isso continuando a
leitura, no segundo momento do enunciado. Primeiro, há a apresentação do referente, isso, e depois o termo referido, continuar. Ressaltamos
que contribui sintaticamente para o estabelecimento dessa relação, a
presença dos dois pontos. Podemos constatar assim, que é a relação
entre diversos procedimentos linguísticos, que proporciona a arquitetura textual.
Os pronomes se incluem entre as principais formas gramaticais
através das quais se faz remissão em português. Eles garantem a continuidade referencial e é muito importante observar no seu uso, as flexões
de gênero e número que permitem a identificação com o termo a que
se referem. Assim fica assegurada a devida ligação entre os elementos
do texto e, consequentemente, assegura-se também sua compreensão.
Observe essa concordância nos exemplos a seguir. Marcamos com
itálico os pronomes que estão estabelecendo uma relação remissiva
nos trechos. Para você, fica a tarefa de identificar o termo que está
sendo retomado pela referenciação pronominal e de explicar como a
referência está acontecendo no trecho. Interprete isso como um mais
exercício a ser realizado. Esta será sua ATIVIDADE 2.
“...Recentemente uma celebridade reagiu à idéia
de que seus seios não eram seus dizendo que tinha
pagado por eles, e, portanto, eles eram mais seus
do que os originais...”
(VERISSIMO, 2003, p. 214)
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“...O Ulisses de Homero e o Ulisses de Dante se
encontram no Ulisses de James Joyce. Encontram-se, mas não se fundem, transformam-se em dois
personagens: Leopold Bloom, o Ulisses de Homero segundo Joyce, cuja aventura é uma volta para
casa, e Stephen Dedalus, o Ulisses de Dante segundo Joyce, cujo exílio é uma aventura sem volta”.
(VERISSIMO, 2003, p. 133)
“...Há tempos apareceu uma teoria segundo a qual
existiria uma ‘memória da água’. A água reteria
nas suas moléculas uma ‘lembrança’ recuperável
de movimentos e efeitos. A teoria não foi provada,
o que é uma pena. Suas possibilidades poéticas
eram imensas...”
(VERISSIMO, 2003, p. 126)
Os artigos, numerais, advérbios pronominais e expressões adverbiais são outros elementos gramaticais que também funcionam como
formas remissivas da língua, como podemos verificar nos exemplos:
a) Era uma vez um rei que morava num castelo. O rei vivia muito
sozinho.
Um comentário importante a respeito dos artigos como elementos
referenciais é que o indefinido funciona como catafórico. Veja que no
exemplo um rei será retomado posteriormente. Já com o artigo definido, a remissão é feita ao que já foi enunciado antes. O rei sozinho
é o rei de quem já se disse morar num castelo. Da mesma forma, se
quiséssemos falar do castelo, teríamos que usar agora o artigo definido.
Por exemplo: Era uma vez um rei que morava num castelo. O castelo
era muito sombrio.
Verificar o valor anafórico ou catafórico dos artigos é uma questão
essencial a se considerar quando a referência é feita através do artigo
definido ou indefinido. A informação acerca dessa particularidade no
uso dos artigos nunca é ressaltada pelas gramáticas tradicionais. Verificamos assim a importância do conhecimento que está sendo adquirido
nessa unidade, acerca da função coesiva dos elementos linguísticos.
b) “Na madrugada do domingo, às 01h45, um adolescente de 17
anos faleceu em um acidente de motocicleta. Outra pessoa que
estava com ele, identificado como Luciano, foi socorrido, levado para Campina Grande e está em estado grave... A moto que
os dois ocupavam, uma yamaha 125, saiu da pisa e tombou em
seguida...” (O Norte, 05/04/ 2010)
Facilmente pode-se reconhecer o valor coesivo do numeral porque
ele está sendo usado para fazer referência às pessoas acidentadas,
citadas anteriormente no texto.
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Você percebe nesse trecho que há o uso de mais formas referenciais
além do numeral? Que tal se você identificar os elementos lingUísticos
que estão servindo para estabelecer esse tipo de coesão? Vamos lá,
essa é mais uma oportunidade de você por em prática os conhecimentos que já adquiriu sobre os modos de se conferir aspectos coesivos ao
texto. Portanto, realize a atividade 3 a seguir:
Atividade III
Identifique os elementos coesivos referenciais no trecho acima, bem como os
termos a que se referem.
Nesse enunciado está presente uma expressão adverbial que funciona como
elemento coesivo. Você pode identificá-lo? Aliás, nossas aulas estão repletas
de elementos circunstanciais que utilizamos para fazer ligações entre suas
partes. É o que acontece nos enunciados:
c) “ Leia atentamente o texto abaixo”;
“ Quando esse movimento é para frente, diz-se que se tem uma referência
catafórica, como no exemplo a seguir:”
“A partir de agora...”
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
São muitas as possibilidades de se estabelecer referências no texto
para que nenhuma parte fique solta, sem ligação com as demais. Em
tão pouco espaço é impossível fazer um estudo exaustivo dos elementos
de coesão referencial. Por isso é importante que você leia sobre o tema
nos livros que recomendamos. Há muitos trabalhos na internet. Analisando com cuidado, você poderá encontrar na rede uma excelente
fonte de pesquisa. Não deixe de compartilhar suas descobertas com os
colegas e tirar as dúvidas com o professor. Essa é uma atitude inteligente por parte do aluno que quer realmente aprender.
Vamos apresentar mais uma forma de se fazer coesão referencial, a
elipse6, um recurso de referenciação sintática, frequentemente empregado em textos. Certamente você já estudou elipse em suas aulas de
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Definição: “ELIPSE – Omissão, numa
enunciação, linguística, do termo presente
em nosso espírito, porque se depreende do
contexto geral ou da situação” (MATTOSO
CÂMARA, 1986, p.49).
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gramática, onde deve ter aparecido sob a designação de uma figura
de linguagem. Agora você poderá observar como esse pode ser um
recurso que propicia a coesão referencial. Mais uma vez Veríssimo nos
dá um excelente exemplo de coesão em seu texto e também nos deixa
mais conhecedores de Woody Allen. Por isso, vamos retomá-lo:
“...Allen pertence ao pequeno mundo liberal-intelectual de Nova York. Escreve para o New Yorker,
apóia todas as causas corretas, frequenta os cinemas de arte, almoça no Russian Tea Room e abomina a Califórnia. Mas, com a lúcida irreverência
de um emigrado do Brooklyn, sabe que há mais
pose do que conteúdo no estilo da ilha. Sabe que
Nova York, como ele, consome cultura de segunda mão: o cinema – que não é feito lá – e o alto
pensamento europeu...” (VERISSIMO, 2003, p. 51)
Vamos então verificar como o processo da elipse se faz presente no
trecho. No primeiro enunciado, tudo muito claro. A partir dele, uma
série de orações:
Escreve para o New Yorker/ apóia todas as causas corretas/ frequenta os cinemas de arte/ almoça no Russian
Tea Room/ abomina a Califórnia.
O sujeito dessas orações não está antecedendo imediatamente as
formas verbais, está elíptico. Mas está presente no primeiro enunciado
do trecho e podemos identificá-lo pelas terminações verbais, bem como
pelo fato de não haver outro termo que pudesse ocupar a posição de
sujeito. Allen é ainda o sujeito para as duas ocorrências verbais do
verbo saber. A próxima forma verbal que aparece no trecho é consome.
Mas o sujeito aqui é outro e por isso está explícito.
A elipse pode ser um recurso de efeito muito expressivo, como se
pode verificar no texto da propaganda a seguir:
A gente está muito orgulhoso
por ter conquistado tanta coisa.
E mais ainda porque sabe
que você também está.
Ministério de
Minas e Energia
(ISTOÉ, 26/05/2010, p.76)
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Este texto servirá para você exercitar seu conhecimento acerca
da coesão referencial. Para isso, sugerimos a atividade a seguir.
Atividade IV
Certamente você identifica o termo que foi intencionalmente suprimido no
texto. A partir dele, pedimos que você explique o modo de funcionamento da
elipse como recurso de coesão referencial.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
Considerações finais inevitáveis
O texto que você acabou de analisar é uma propaganda do Governo Federal. Você deve ter percebido que os exemplos utilizados na
aula para exemplificar o processo de coesão textual são extraídos de
gêneros textuais diversos. Utilizamos texto literário, texto de jornal, texto
de revista. Isso quer dizer que a coesão não é exclusiva de um gênero
específico. Em qualquer texto, pode-se encontrar elementos que estão
funcionando ali para garantir sua coesão.
Ressaltamos nesse aspecto, que é importante observar que gênero
textual estamos lendo ou produzindo, para ter maior clareza de como
o elemento de coesão está empregado no texto, que efeito de sentido
seu uso provoca no texto. Isso porque o modo de funcionamento dos
elementos coesivos vai depender do gênero do texto. Dependendo do
objetivo para o qual o texto foi produzido, a presença de um mesmo
elemento linguístico empregado para estabelecer a coesão, resulta em
um diferente efeito no texto. Portanto, é importante atentar para o uso
desses elementos quando estamos lendo e produzindo textos.
Mais uma vez insistimos que não conseguimos em tão pouco espaço esgotar um assunto tão importante e tão amplo. É por isso que
oferecemos sempre, ao final de cada aula, indicações de leituras complementares ao seu estudo. Mas para esse nosso tema poderíamos
chamá-las de leituras obrigatórias, tal a necessidade de aprofundamento das noções que apresentamos aqui. Você mesmo deverá sentir essa
necessidade. Portanto, não perca tempo. Mergulhe fundo na leitura.
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Leituras recomendadas
KOCH, Ingedore Villaça. Introdução à linguística textual: trajetória e
grandes temas. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
Você já conhece A coesão textual. Já comentamos as qualidades de
Ingedore como teórica que sabe tornar seu texto didático aos iniciantes.
É isso que acontece mais uma vez nesse seu livro. Além disso, é muito
produtivo acompanhar a evolução de uma teoria por quem tem se dedicado a ela. Você vai encontrar aqui um aprofundamento necessário e
instigante das noções que a autora vem pesquisando. Não deixe de ler
esse texto que vai muito além de uma introdução.
ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo:
Parábola Editorial, 2005.
Mais uma vez, uma leitura já recomendada. Sinal de que é imprescindível. Você vai ver que Irandé agrupa as noções que tratamos aqui,
de um modo diferente. Isso porque ela analisa as mesmas questões de
uma perspectiva diferenciada. Portanto, seu horizonte de conhecimento
acerca da coesão será ampliado. Os comentários da autora sobre a
possibilidade de estudo da língua para além da simples gramaticalidade mostram o quanto é necessária uma formação linguística para o
professor de línguas. Portanto, não há como se furtar a lutar com suas
palavras.
Resumo
A construção de um texto requer que seus termos, enunciados,
parágrafos sejam dispostos de forma a estarem encadeados no texto,
obedecendo a um processo de idas e vindas, de retomadas, de articulações que vão resultar num todo coeso. Uma das formas de garantir
essa unidade é através do mecanismo de referenciação, em que os
componentes do texto são retomados, fazendo com que o texto progrida seguindo um fio condutor. Assim, elementos linguístico-gramaticais
são mobilizados de modo a estabelecerem no texto, o que se reconhece na linguística textual, como sendo o processo de coesão referencial.
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Autovaliação
Neste momento de autoavaliação é importante que você retome o
conteúdo que foi estudado e reflita sobre seu aprendizado. Para favorecer esse processo, nada melhor do que por em prática os conhecimentos adquiridos. Portanto, vamos ao texto. Iniciamos com um texto de
Veríssimo, vamos finalizar com um texto sobre ele. É um comentário que
está na quarta capa de seu livro, Banquete com os deuses. Pedimos a
você que a partir deste título, comente o funcionamento dos elementos
que fazem a coesão referencial do texto;
“Louco por cinema, música e literatura, Veríssimo nos convida a
partilhar deste banquete – uma seleta caprichada de textos, escritos ao
longo dos últimos 20 anos, em que ele analisa algumas das suas grandes paixões culturais. Com a proverbial argúcia e o humor generoso
com que invariavelmente tempera suas crônicas, o escritor elege um
time de craques – mestres do jazz, da música popular, da pintura, da
filosofia, de arte várias. No universo dos seus escolhidos, vamos identificar livros e autores que jamais esqueceremos, filmes que marcaram
nossa vida, astros e estrelas por quem já fomos loucamente apaixonados, trilhas sonoras que, há muito, nos emocionam e nos fazem sentir
deliciosamente jovens”.
Esperamos que tenha gostado do texto. Lembre-se de que dissemos ser impossível apresentar todos os recursos de coesão referencial
de que dispõe a língua. Isso é positivo no sentido de que você vai se
dar conta de que já pode identificar sozinho elementos e processos de
referenciação. Mas como é bem possível que escape algum elemento
e você tenha alguma dúvida, compartilhe com os colegas suas descobertas no ambiente virtual. Será muito proveitoso.
Boa leitura! Bom trabalho!
Fontes dos exemplos apresentados
BRAGA, Rubem. Um pé de milho. Rio de Janeiro: Record, 2004.
ISTOÉ, 2107, 31/3/2010; 26/05/2010.
O Norte. João Pessoa, Caderno Esportes. 05/ 04/ 2010; 07, 04/
2010.
VERISSIMO, Luis Fernando. Banquete com os deuses. Rio de Janeiro:
Objetiva, 2003.
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Referências
ANTUNES, Irandé. Lutar com palavras: coesão e coerência. São Paulo:
Parábola Editorial, 2005.
COSTA VAL, Maria da Graça. Redação e textualidade. São Paulo:
Martins Fontes, 1991.
ILARI, Rodolfo. Introdução à semântica – brincando com a gramática. São
Paulo, Contexto, 2001.
KHEDI, Valter. Formação de palavras em português. São Paulo: Ática,
1992.
KOCH, Ingedore Villaça. A coesão textual. 7. ed. São Paulo: Contexto,
1989.
KOCH, Ingedore Villaça. Introdução à linguística textual. São Paulo:
Martins Fontes, 2009.
MATTOSO CÂMARA, Joaquim. Dicionário de Linguística e Gramática.
Petrópolis: Vozes, 1986.
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IV UNIDADE
A relação entre a coerência
e a coesão textuais
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Apresentação
Esta unidade procura resumir alguns dos conceitos mais
importantes com relação à coerência e coesão textuais e
relacioná-los com atividades de análise de redações elaboradas por diversos usuários da língua, na tentativa de estabelecer um diálogo entre texto e leitor e levantar reflexões
acerca do ato de produção do texto escrito. A unidade se
apóia em reflexões acerca do tema, de estudiosos como:
Ingedore Villaça Koch e Luiz Carlos Travaglia, na obra “Texto
e Coerência” (2009).
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Objetivos
Ao término desta unidade, queremos que você:
• compreenda a relação entre coerência e coesão;
• entenda o que se pode considerar como texto;
• observe de que depende e como se estabelece a coerência textual.
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Reflexões iniciais...
Para entendermos o que é coerência textual, devemos compreender, inicialmente, a noção de texto, pois sabemos que:
a linguística textual, desenvolvida sobretudo na Europa a partir do final da década de 60, tem se dedicado a estudar a natureza do texto e os fatores envolvidos em sua produção e recepção. Essa teoria,
na medida em que busca esclarecer o que é e como
se produz um texto, merece ser conhecida e considerada por quem se interessa pelo trabalho com a
expressão escrita na escola (VAL. 1991.p. 02).
Inicialmente, podemos começar pela noção de coerência e sua relação com a coesão.
A coerência de um texto tem a ver “com a boa formação” do próprio
texto. Mas esse critério não diz respeito apenas à noção da competência
gramatical que este apresenta, ele se refere, sobretudo, “a uma boa formação em termos de interlocução comunicativa”. Dessa forma, entendemos
que a coerência se estabelece através do processo de interação, de interlocução e numa dada situação de comunicação entre usuários da língua.
Ela se constitui como a possibilidade de estabelecimento entre aquilo que
se diz e como esse dizer é compreendido e aceito pelos interlocutores. Esse
processo de comunicação é resultado de uma unidade global capaz de
“dá continuidade de sentidos perceptível no texto”. Essa unidade global
depende não apenas dos elementos constitutivos do texto, mas
de fatores socioculturais diversos, devendo ser vista
não só como o resultado de processos cognitivos,
operantes entre os usuários, mas também de fatores interpessoais como as formas de influência do
falante na situação de fala, as intenções comunicativas dos interlocutores, enfim, tudo o que se possa
ligar a uma dimensão pragmática da coerência.
Os processos cognitivos caracterizam a coerência
à medida que possibilitam criar um mundo textual
em face do conhecimento de mundo registrado na
memória, o que levaria à compreensão do texto
(KOCH E TRAVAGLIA, 2009. p. 12).
Como podemos observar a coerência é responsável pelo sentido
do texto. Esse sentido envolve os fatores semânticos e cognitivos. Daí,
afirmarmos que ela é, “ao mesmo tempo, semântica e pragmática”. Do
ponto de vista semântico, podemos destacar o princípio da interpretabilidade, uma vez que o texto necessita do conhecimento partilhado
entre os interlocutores. De acordo com Koch e Travaglia (2009) esse
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princípio “tem a ver com a produção do texto à medida que quem o faz
quer que seja entendido por seu interlocutor, conforme se supõe pelo
princípio da cooperação” (p.13).
Assim, um texto é coerente no momento em que for compatível
com o conhecimento de mundo do receptor. Partindo dessa afirmação,
entendemos que a produção de texto não existe em si mesma, mas sim,
através da união entre locutor, interlocutor e o mundo partilhado por
ambos. Podemos sintetizar a relação de coerência do texto evidenciado
dois fatores: os fatores linguísticos (coesão, coerência e intertextualidade) e os fatores extralinguísticos (intencionalidade, aceitabilidade, informatividade e situalidade).
A coerência textual convive com a coesão textual. Elas formam uma
espécie de par “opositivo/distintivo”, segundo Koch e Travaglia. A coesão se difere da coerência porque ela é explicitamente nítida na superfície do texto através de seus elementos linguísticos. Por isso possui um
“caráter linear” e a observamos através da sintaxe e gramática do texto.
Mas de acordo com Halliday e Hasan (1976) ela também possui um
caráter semântico, uma vez que liga os elementos superficiais do texto,
interferindo na maneira como estes se relacionam, na combinação das
frases e nos períodos, tudo isso, “para assegurar um desenvolvimento
proporcional” (p. 36).
Revisão de conceitos de
coesão segundo alguns
estudiosos
Vamos relembrar, um pouco,
as unidades anteriores?
De acordo com Pécora qualquer tipo de texto, seja oral ou escrito,
não apresenta um conjunto de elementos isolados, todavia um conjunto em sua totalidade semântica em que os elementos estabelecem entre
si, modos de significações. O autor define esse conjunto significativo
como um valor intersubjetivo e pragmático:
A capacidade de um texto possuir um valor intersubjetivo e pragmático está no nível argumentativo
das produções linguísticas, mas a sua totalidade
Semântica decorre de valores internos à estrutura
de um texto e se chama coesão textual. (Pécora,
1987, p. 47).
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Logo, entender os mecanismos de coesão presentes em dado texto
é avaliar que cada componente do texto depende um do outro em seu
contexto situacional. Mesmo apresentando uma relação semântica, a
coesão envolve todos os elementos do sistema lexical e gramatical.
Por isso, existe coesão através dos elementos gramaticais e através dos
elementos do léxico de determinada língua. De acordo com Halliday
e Hasan (1976) “a coesão é a relação semântica entre dois elementos
do texto, de modo que um deles tem de ser interpretado por referência
ao outro, pressupondo-o. Para esses autores há cinco distintos mecanismos de coesão: referência, substituição, elipse, conjunção e coesão
lexical. Cria-se entre os elementos um vínculo” (p.45).Todavia, essa coesão gramatical e essa coesão lexical não garante ao texto um sentido.
A textualidade ultrapassa a coesão gramatical e a lexical, pois o sentido
do texto depende de “certo grau de coerência” que abrange os diversos
elementos tanto do interior do texto quanto do seu exterior. Os recursos
extralinguísticos possuem o mesmo valor dos recursos intralinguísticos
para a compreensão global da textualidade. Diante disso, a coesão
não é condição única para que o texto apresente textualidade. Observe
o exemplo abaixo do escritor Ricardo Ramos:
Circuito Fechado
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel,
espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água
quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, telefone, agenda,
copo com lápis, caneta, blocos de notas, espátula, pastas,
caixa de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros,
papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro
e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales,
cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio.
Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios,
fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de
filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro,
giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo. xícara.
Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes,
pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista,
copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves,
lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal.
Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e
poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, externo, papéis, prova
de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro,
fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone,
papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e ca-
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neta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó,
gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras,
pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e
fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos,
meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
Como se percebe, o texto acima deixa notório que o critério da
textualidade não depende somente dos elos coesivos. No caso desse
exemplo, depende dos recursos extralinguísticos oriundos do conhecimento de mundo do interlocutor.
Beaugrande e Dressler (1981) afirmam que coesão é o modo como
os elementos da superfície do texto se encontram relacionados entre si,
numa sequência combinativa. Marcuschi também (2001) conceitua
coesão textual como sendo a “estrutura da sequência superficial do
texto e à sua organização linear sob o aspecto estritamente linguístico”.
Charolles (1978) sugere os conceitos de coesão e conexão. Para o
autor,
a coesão se refere às relações de identidade, de inclusão ou de associação entre constituintes de enunciados, que são as relações entre os elementos do
texto que podem ser resolvidas em termos de igualdade ou diferença: pronomes, SNs, descrições definidas e demonstrativas, possessivos etc. A conexão
marca as relações entre os conteúdos proposicionais e/ou atos de fala; é a marcação da relação entre enunciados (KOCH E TRAVAGLIA. 2009, p. 23).
Que tal agora refletirmos acerca dos
conceitos de coerência textual?
Conceitos de coerência textual de acordo com alguns estudiosos da
língua citados por Koch e Travaglia, no livro “Texto e coerência”.
Segundo Franck (1980), a coerência é a ligação formal entre os termos sequenciais, tais como: enunciados, frases, atos ilocutórios. Essa
ligação relaciona esses termos uns com os outros “e os insere numa forma de organização superior como, por exemplo, nomes em uma lista,
frases em texto, atos de fala numa sequência dialógica etc.” (KOCH E
TRAVAGLIA. 2009, p. 16).
Já Beaugrande e Dressler (1981) acreditam que a coerência é a responsável pela continuidade dos sentidos do texto. Ela é “o resultado da
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atualização de significados potenciais que vai configurar um sentido”.
Ou seja, é o resultado dos conhecimentos partilhado pelos usuários. Assim, a coerência é responsável por acionar os processos cognitivos. Tais
processos divulgam a conexão conceitual. Um desses processos é o conhecimento declarativo – aquele que sugere crenças que dizem respeito
aos fatos do mundo real - e o conhecimento “procedural” – valores guardados na memória e acionados como parte argumentativa sempre que o
usuário necessitar. Para Widdowson (1978) a coerência está diretamente
ligada ao desenvolvimento dos atos da fala. Nesse sentido, os enunciados são dotados de ações (pedido, conselho, aviso, ordem, promessa
etc.) que se concretizam a partir das condições impostas a esses enunciados. O exemplo a seguir determina com precisão esse conceito, vejamos:
Temos o seguinte enunciado:
1. O carro está com defeito.
1.1. O carro – conteúdo proporcional que faz parte do mundo real.
1.2. está com defeito – informação a respeito do seu estado
(ato de
predicação)
1.3. Através dessa enunciação podem-se apresentar diversos
atos de fala, tais como:
1.4.Uma ordem: o dono da oficina manda o funcionário consertar o carro com defeito.
1.5. Um pedido: o dono do carro pede a alguém que esteja
passando por perto para ajudá-lo a empurrar o carro até
a oficina mais próxima.
1.6. Uma asserção: o dono constata que o carro está com
defeito.
Segundo Bernárdez (1982) apud Salomon Marcus (1980) a coerência é semântica, sintática e pragmática. De ponto de vista semântico
ela se manifesta na unidade textual, ou seja, o texto atua como unidade
para remeter ao seu sentido global. É sintática porque é recuperada,
quando necessária, através da “sequência linguística” que forma a unidade do texto e é pragmática, uma vez que o sentido depende um contexto intencional. Assim, “a coerência [...] é não só uma propriedade
do texto, mas também um processo em que não é possível estabelecer
uma diferença marcante entre os níveis pragmático, semântico e sintático” (op. cit. p. 19).
Os linguistas Van Dijk e Kintsch (1983) afirmavam que coerência era
“uma propriedade lógica do texto”, atualmente esses autores acreditam
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que ela encontra-se estabelecida nas diversas situações de comunicação
dos usuários que possuem “modelos cognitivos comuns ou semelhantes”, propiciados por determinado contexto cultural. Eles falam de dois
tipos de coerência: local – aquela que ocorre na superfície do texto – e
global – aquela que faz parte do texto como um todo. Ainda classificam-na em: coerência semântica, sintática, estilística e pragmática.
Para o autor Marcuschi a coerência “é a organização reticulada ou
tentacular do texto, não linear, portanto, dos níveis de sentido e intenções que realizam a coerência no aspecto semântico e função pragmática” (op. cit. p. 21). Dessa forma, para esse linguista, como também
para os linguistas Beaugrande e Dressler, a coerência é estabelecida
através dos elementos que dão continuidade ao sentido do texto.
Caro aluno!
Pretendemos com essa exposição dos conceitos de coesão e coerência difundidos por Koch e Travaglia, em obra já citada, que vocês
adquiram uma visão global do que se entende por esses dois critérios.
Que tal, agora, vocês
praticarem um pouco?
Atividade I
Partindo do pressuposto de que a coesão é responsável pela unidade formal
do texto, construída através de mecanismos gramaticais e lexicais (KOCK E
TRAVAGLIA, 2009) e “a coerência tem a ver com a ‘boa formação’ do texto não
no sentido de gramaticalidade, mas no sentido de boa formação em termos da
interlocução, numa situação comunicativa entre dois usuários”, identifique as
relações de coesão e coerência nos textos transcritos a seguir.
TEXTO A
A vaguidão específica
As mulheres têm uma maneira de falar que eu chamo
de vago-específica.
- Maria, ponha isso lá fora em qualquer parte.
- Junto com os outros?
- Não ponha junto com os outros, não. Senão pode vir
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responder as atividades!
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alguém e querer fazer qualquer coisa com eles. Ponha no
lugar do outro dia.
- Sim senhora. Olha, o homem está ai.
- Aquele de quando choveu?
- Não, o que a senhora foi lá e falou com ele no domingo.
- Que é que você disse a ele?
- Eu disse pra ele continuar.
- Ele já começou?
- Acho que já. Eu disse que podia principiar por onde
quisesse.
- É bom?
- Mais ou menos. O outro parece mais capaz.
- Você trouxe tudo pra cima?
- Não senhora, só trouxe as coisas. O resto não trouxe
porque a senhora recomendou para deixar até a véspera.
- Mas traga, traga. Na ocasião, né! Descemos tudo de
novo. É melhor, senão atravanca a entrada e ele reclama
como na outra noite.
(FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo.
São Paulo, Círculo do Livro, 2001.)
TEXTO B
A Pesca
Affonso Romano de Sant’Anna
o anil
o anzol
o azul
o silêncio
o tempo
o peixe
a agulha
vertical
mergulha
a água
a linha
a espuma
o tempo
a âncora
o peixe
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a boca
o arranco
o rasgão
aberta a água
aberta a chaga
aberto o anzol
aquelíneo
ágilclaro
estabanado
o peixe
a areia
o sol
Continuando a nossa conversa...
Coesão e coerência: critérios que se complementam
Como podemos observar, os teóricos que estudam as relações
de coesão e coerência concordam que esses critérios estão, indiscutivelmente, relacionados no processo de produção e interpretação
textual.
A coerência é entendida como “a configuração conceitual subjacente
e responsável pelo sentido do texto, e a coesão como sua expressão no
plano linguístico” (VAL, 2000. p. 20). Sendo assim, a coesão contribui
para o estabelecimento da coerência, mas não assegura a sua obtenção.
Segundo alguns autores a coesão é em parte responsável pela coerência,
porque apenas os elementos linguísticos não são suficientes para garantir
a coerência de um texto. Por isso, conclui-se que essa contribuição é
apenas parcial, uma vez que o uso adequado esses elementos sozinhos,
sem que o leitor acione os recursos extralinguísticos, são insuficientes
para que se compreenda o sentido global do enunciado. De acordo com
Marcuschi (2002)
há textos sem coesão, mas cuja textualidade ocorre
a nível da coerência”. De outra forma, pode haver
sequências linguísticas coesas, mas para os quais o
leitor não consegue estabelecer ou dificilmente estabelece um sentido que lhe de coerência. Evidentemente, a nível de leitor individual, um texto coeso
pode parecer incoerente, por dificuldades particulares do leitor, como o desconhecimento do assunto ou
não-inserção na situação. Tudo isso evidencia que a
coesão ajuda a estabelecer a coerência, mas não a
garante, pois ela depende muito dos usuários do texto (seu conhecimento de mundo etc) e da situação.
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Na verdade, alguns linguistas defendem que os elementos coesivos
favorecem na percepção da compreensão da coerência, uma vez que
funcionam como resultado da coerência no processo da atividade textual. Para eles “o texto não é coerente porque as frases que o compõem
guardam entre si determinadas relações, mas estas relações existem
precisamente devido à coerência do texto” (op. cit. p. 24).
O que podemos perceber é que o processo de compreensão de um
texto está diretamente ligado aos critérios de coesão e coerência. Isso
significa afirmar que o texto é considerado texto quando o leitor reconhece implícita e explicitamente os elementos que o compõe tanto na
superfície textual quanto em suas entrelinhas. Tudo isso torna claro que
a coesão ajuda a estabelecer a coerência, entretanto não a garante,
uma vez que ela irá depender dos conhecimentos de mundo acionados
pelos usuários do texto e do contexto em que esse texto está inserido.
Enfim, em se tratando de considerarmos se texto constitui-se um texto
ou não, faz-se necessário atentarmos para o produtor, para o destinatário, para o contexto em que o texto está inserido e, finalmente, para
a intenção comunicativa do locutor.
Para refletir...
Atividade II
Leia o texto abaixo e responda:
A mensagem
Num mundo em que a comunicação é tudo e o discurso sempre pouco, conta-se aqui uma história altamente
moral sobre a inutilidade da primeira enquanto se economiza o segundo.
E chamou o pintor e lhe encomendou a placa para
anunciar a especialidade do seu negócio: “Nesta casa se
vende ovos frescos”. Além dos dizeres, recomendou ao
pintor que bolasse uma figura, qualquer alegoria referente
ao ramo. E perguntou quanto era. O pintor disse que ficaria em 50.000 cruzeiros.
- Cinquenta mil o quê? Indagou o comerciante, pensando, inutilmente, numa moeda mais desvalorizada do
que o cruzeiro.
- Cinquenta mil cruzeiros, disse o pintor. Ah, não vale,
disse então o comerciante.
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- Como não vale? Retrucou o pintou, ofendido em sua
arte mais do que atingido em sua economia.
- O senhor não poderia reduzir um pouco? Arriscou o
comerciante.
- Claro que posso, disse o pintor, posso reduzir a figura
e os dizeres.
- Como assim? Disse o comerciante.
- Olha, explicou o pintor, pra começo de conversa, não
precisamos usar figura nenhuma. Se se diz que o senhor
vende ovos, não há necessidade de colocar nenhuma galinha pintada, não é mesmo? Se o normal são ovos de
galinha, o fato de não ter nenhuma outra ave faz com que
os ovos sejam, presumivelmente, de galinha.
- É certo, concordou o negociante.
- Então, fez o pintou, vinte mil cruzeiros de menos. Agora também não é necessário dizer “nesta casa”. Se o freguês passa por aqui e vê: “se vende ovos frescos”, já sabe
que é nesta casa. Ele não vai pensar que é na casa ao
lado, não é mesmo?
- Certíssimo, exclamou o comerciante.
- então, continuou o pintor, por que colocar “Se vende”? Se o freguês potencial lê “Ovos frescos” já sabe que
se vende. Ninguém pensaria que o senhor vai abrir uma
casa comercial para alugar ovos ou apenas para expô-los,
certo?
- É mesmo, espantou-se ainda mais o comerciante.
- Quanto ao “frescos”, continuou impávido o pintor, refletindo melhor, não é de boa psicologia usar essa palavra.
“Fresco” lembra sempre a hipótese contrária, a de ovos
“velhos”. Não deve nem ter passado pela cabeça do comprador a ideia de que seus ovos podem ser outra senão
frescos. Portanto, tiremos também o “frescos”.
- Certíssimo! Berrou o negociante, agora profundamente entusiasmado com a dialética do pintor. Façamos,
portanto, apenas “OVOS”, tout court. Por favor, desenhe ai
só essa palavra, bem bonita, bem clara: OVOS! Só ovos,
ovos em si mesmos, que se vendam pela sua pura e simples aparência de ovos, pelo inimitável oval!
- Então vamos lá, concordou o pintor. Mas antes de
começar a usar o pincel, voltou-se para o negociante, preocupado:
- Mas, me diga aqui, amigo pensando bem, por que
vender ovos?
(Millôr Fernandes. Tempo e contratempo. Rio de
Janeiro: Edições O cruzeiro, s.d.)
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dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
1. Com base na leitura da crônica de Millôr Fernandes, justifique a seguinte
afirmação: “coerência [...] é uma atividade de articulação entre o que é
apanhado no enunciado e o que é selecionado no conjunto de dados contextuais
que conhecemos.[...] Envolve, pois, uma série de operações mentais, que,
acionados, nos permitem “pescar” ou recuperar a coerência do que dizemos
e ouvimos, considerando não apenas o que é posto na superfície do discurso,
mas tudo quanto está de pressuposto ou implicado naquilo que é dito, ou é
inferível, a partir de nossas experiências de vida” (ANTUNES. 2009,p. 122).
Finalizando a nossa conversa...
Como ocorre e de que depende a coerência textual
A coerência é estabelecida através de uma multiplicidade de fatores, uma vez que ela é vista como um “processo de interpretabilidade do texto”. Dessa forma, a coerência depende do conhecimento
linguístico, do conhecimento de mundo, do conhecimento partilhado,
das inferências, dos fatores pragmáticos, da situacionalidade, da intencionalidade, da aceitabilidade, da informatividade, da focalização, da
intertextualidade e da relevância.
A seguir explicitaremos cada um desses fatores com exemplos para
que você possa se situar no estudo da coerência. Evidentemente, que
cada um desses fatores será objeto de estudo das nossas próximas aulas.
1. Conhecimento linguístico
É do consenso de todos os estudiosos da língua que o conhecimento linguístico é bastante relevante para o estabelecimento da coerência
de qualquer texto. A decodificação é necessária para que se possa entender qualquer língua, sem esse conhecimento o usuário não é capaz
de efetivar o processo de comunicação. Como podemos notar, o conhecimento linguístico é a primeira condição para que a comunicação
seja efetivada. Segundo Koch “a compreensão depende de nosso conhecimento de mundo e fatores pragmáticos”(op. cit. p. 53). Observe
o exemplo a seguir:
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Suponhamos o seguinte aviso no quadro de avisos de uma
universidade;
COLÓQUIO CIDADANIA CULTURAL
O pensionato e seus análogos na literatura e na arte,
na mídia e na história cultural
Prof. Dr. Sébastien Joachim
4ª feira, 06/10/10
15 horas
Auditório Ceduc
Notamos que as expressões linguísticas do aviso acima não constituem uma frase. Para que este aviso seja compreendido é necessário, pelo menos que o interlocutor acione conhecimentos linguísticos
prévios. São eles: 1º - entender o que é um colóquio, 2º - quem é o
palestrante, 3º - em que local fica o auditório Ceduc.
De acordo com Koch (p.54) “é a coerência que determina, em
ultima instância, que elementos vão constituir a estrutura superficial
linguística do texto e como eles vão estar encadeados na sequência
linguística superficial, e isto é suficiente para deixar claro que a recuperação desta coerência passa pelas marcas linguísticas”.
Como vimos, o conhecimento linguístico serve para nortear o leitor
em seu percurso de leitura, pois de acordo com Koch e Travaglia (p. 59)
“não é possível apreender o sentido de um texto com base apenas nas
palavras que o compõem e na sua estruturação sintática, é indiscutível
a importância dos elementos linguísticos do texto para o estabelecimento da coerência [...] esses elementos servem como pistas para a
ativação dos conhecimentos armazenados na memória, constituem o
ponto de partida para a elaboração de inferências, ajudam a captar a
orientação argumentativa dos enunciados que compõem o texto [...],
enfim, todo o contexto linguístico – ou co-texto – vai contribuir de maneira ativa na construção da coerência”.
2. Conhecimento de mundo
Observe o texto abaixo:
O conhecimento de mundo do leitor exerce um papel fundamental
para o estabelecimento da coerência de um texto. É através dele que situamos aquilo que estamos lendo. Segundo Koch e Travaglia “os modelos
cognitivos são culturalmente determinados e apreendidos através de nossa
vivência em dada sociedade [...]. É a partir dos conhecimentos que temos
que vamos construit um modelo do mundo representado em cada texto – é
o mundo textual [...] , para que possamos estabelecer a coerência de um
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texto, é preciso que haja correspondência ao menos parcial entre os conhecimentos nele ativados e o nosso conhecimento de mundo, pois, caso
contrário, não teremos condições de construir o mundo textual, dentro do
qual as palavras e expressões do texto ganham sentido”(p. 63).
3. Conhecimento partilhado
O conhecimento partilhado diz respeito aos conhecimentos comuns
que o locutor e o interlocutor possuem acerca de determinado texto.
Afinal, nenhum texto é coerente ou incoerente, depende de quem o está
lendo. A coerência, é, pois, o jogo de interpretação que se instaura no
momento da recepção de dado texto. Ela depende do receptor, de sua
atitude de cooperação, de habilidade em desvendar o sentido do texto.
A função do leitor é fundamental para a construção da coerência,
porque mesmo um texto sendo inteligível para alguns, se determinado
leitor conseguir atribuir-lhe sentido, ele será considerado coerente.
O conhecimento partilhado é essencial para o processo de compreensão, pois ele abrange basicamente o conhecimento de mundo e
o conhecimento textual, “é armazenado na memória do leitor, a partir
das vivências e experiências acumuladas ao longo de sua vida. Diante
dos estímulos fornecidos pelo texto, esse conhecimento é ativado, possibilitando a compreensão e a construção da coerência” (op. cit. p. 86).
Fatores pragmáticos
responsáveis pela textualidade
Para a obtenção da coerência e o alcance da compreensão concorrem também fatores de ordem pragmática, tais como o contexto de
situação, os atos de fala, as intenções do produtor e do receptor. Fatores como esses influenciam a interação do leitor com o texto e são vistos
como o aspecto pragmático dessa interação. Na verdade, eles criam
condições para que a comunicação se estabeleça, por estarem fortemente relacionados ao conhecimento de mundo dos interlocutores.
Elencaremos aqui cinco fatores responsáveis pela textualidade. São
eles: intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, grau de informatividade e intertextualidade.
Intencionalidade
De acordo com Costa Val (2001) a intencionalidade de um texto diz
respeito “ao empenho do produtor em construir um discurso coerente,
coeso e capaz de satisfazer os objetivos que tem em mente numa de-
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terminada situação comunicativa. A meta pode ser informar, ou impressionar, ou alarmar, ou convencer, ou pedir, ou ofender etc. E é ela que
vai orientar a confecção do texto” (51).
Aceitabilidade
Entende-se por aceitabilidade “a expectativa do recebedor de que
o conjunto de ocorrências com que se defronta seja um texto coerente,
coeso, útil e relevante, capaz de levá-lo a adquirir conhecimentos ou a
cooperar com os objetivos do produtor” (op. cit. p. 51).
Assim, toda produção textual deverá ser compatível com a expectativa do leitor em posicionar-se diante do texto. A cooperação é um
critério estabelecido pelo produtor e pelo receptor e permite que, embora a comunicação apresente falhas de quantidade e de qualidade,
não haja vazios comunicativos. Isso ocorre porque o leitor ao acionar o
critério de cooperação, tenta compreender os textos produzidos.
Situacionalidade
A situacionalidade de texto diz respeito “aos elementos responsáveis pela pertinência e relevância do texto quanto ao contexto em que
ocorre. É a adequação do texto à situação comunicativa”(op. cit. 52).
Dessa forma, o contexto é definido como responsável pela textualidade, pois orienta tanto a produção quanto e recepção de determinado texto.
Grau de informatividade
O grau de informatividade se refere às informações veiculadas através dos diversos textos. Ele é medido de acordo com o conhecimento
de mundo dos usuários a que o texto é endereçado. Isso significa afirmar que o grau de informatividade dependerá do repertório cultural
do leitor. Segundo Costa Val (2001) a informatividade “diz respeito à
medida na qual as ocorrências de um texto são esperadas ou não,
conhecidas ou não, no plano conceitual ou no formal. Ocorre que um
discurso menos previsível é mais informativo, porque a sua recepção,
embora mais trabalhosa, resulta mais interessante, mais envolvente”.
Existem três níveis de informatividade: zero, médio e alto.
Intertextualidade
De acordo com Koch e Elias (2009), “em sentido restrito, todo texto
faz remissão a outro(s) efetivamente já produzido(s) e que faz(em) parte
da memória social dos leitores.” (p.101). E de acordo com Kristeva
(1974), “todo texto se constrói como mosaico de citações, todo texto é
absorção e transformação de um outro texto” ( p. 64).
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Como podemos notar o seu humano sempre se apropria do dito em
seu processo de produção simbólica. E de acordo com essas afirmações, a citação é inerente ao texto. todo texto se constrói em torno de
citações diretas ou indiretas. Segundo COMPAGNON (1996) “escrever, pois, é sempre reescrever, não difere de citar. A citação, graças à
confusão metonímica a que preside, é leitura e escrita, une o ato de leitura ao de escrita. Ler ou escrever é realizar um ato de citação” (p. 34).
Esses fatores de textualidade serão aprofundados nas aulas posteriores.
Vamos praticar?
Atividade III
Nos textos a seguir há trechos que, se tomados, literalmente, levam a uma
interpretação absurda.
TEXTO 1
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TEXTO 2
“João Carlos vivia em uma pequena casa construída no alto
de uma colina árida, cuja frente dava para o leste. Desde o pé da
colina se espalhava em todas as direções, até o horizonte, uma
planície coberta de areia. Na noite em que completava 30 anos,
João, sentado nos degraus da escada colocada à frente de sua
casa, olhava o sol poente e observava como a sua sombra ia diminuindo no caminho coberto de grama. De repente, viu um cavalo que descia para sua casa. As árvores e as folhagens não lhe
permitiam ver distintamente; entretanto, observou que o cavalo
era manco. Ao olhar de mais perto, verificou que o visitante era
seu filho Guilherme, que há 20 anos tinha partido para alistar-se
no Exército; e, em todo esse tempo, não havia dado sinal de vida.
Guilherme, ao ver o pai, desmontou imediatamente, correu até
ele, lançando-se nos seus braços e começando a chorar”.
(Texto texto ilustrado pela Prof Mary A. Kato)
a. Transcreva os trechos problemáticos dos textos em questão.
b. Diga qual a interpretação absurda que se pode extrair desses trechos.
c. Quais as interpretações pretendidas pelos autores?
d. Reescreva os textos de forma a deixar explícitas tais interpretações.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
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Leituras recomendadas
“A obra expõe a constituição dos
sentidos dos textos e seus fatores,
tais como os elementos linguísticos,
o conhecimento do mundo, as inferências e a situação. Um de seus
capítulos é dedicado ao registro de
como a análise da coerência TEXTUAL pode auxiliar no trabalho do
professor no ensino da língua. Os
autores apresentam uma ampla bibliografia comentada para os interessados nesse campo”.
“Este trabalho da professora universitária e pesquisadora de língua
portuguesa, Irandé Antunes, é mais
do que um trabalho sobre a coesão
e a coerência textuais. É, sobretudo,
um exercício de tradução, em palavras simples e compreensíveis ao
leigo, daqueles conceitos teóricos e
técnicos que aparecem nos sisudos
manuais de linguística textual. E que
muitas vezes passam, sem qualquer
mediação explicativa, para os livros
didáticos, e a professora ou o professor sequer conseguem saber do que se trata. A capacidade de dizer
de maneira simples o complexo é uma das tantas virtudes da obra que
você está começando a ler” (Luis A. Marcuschi).
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Resumo
Estudamos, nesta unidade, que a coerência textual convive harmoniosamente com a coesão textual. Elas formam uma espécie de par
“opositivo/distintivo”. Mas a textualidade ultrapassa a coesão gramatical
e a lexical, pois o sentido do texto depende de “certo grau de coerência”
que abrange os diversos elementos tanto do interior da produção quanto
do seu exterior. Os recursos extralinguísticos possuem o mesmo valor
dos recursos intralinguísticos para a compreensão global da textualidade.
Por isso, a coesão não é condição única para que o texto seja um todo
significativo. Para a obtenção da coerência e o alcance da compreensão
concorrem também fatores de ordem pragmática, tais como o contexto
de situação, os atos de fala, as intenções do produtor e do receptor. Fatores como esses influenciam a interação do leitor com o texto e são vistos
como aspectos fundamentais nesse jogo interativo, pois criam condições
para que a comunicação se estabeleça.
Autovaliação
Para Refletir:
Depois das discussões promovidas por esta aula acerca dos fatores responsáveis pela textualidade, é possível afirmar que o texto
abaixo é coerente? Socialize sua resposta no fórum de debates.
Texto
Subi a porta e fechei a escada.
Tirei minhas orações e recitei meus sapatos.
Desliguei a cama e deitei-me na luz
Tudo porque
Ele me deu um beijo de boa noite...
(Autor anônimo)
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Referências
COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Trad. Cleonice P. B.
Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996.
KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. Trad. Lúcia Helena França
Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974.
FERNANDES, Millôr. Trinta anos de mim mesmo. São Paulo, Círculo do
Livro, 2001.
FIORIN, J. & SAVIOLI, P. Lições de texto: Leitura e redação. 2ª ed.. São
Paulo. Ática, [s/d.].
GERALDI, J. W. Concepções de linguagem e ensino de português. In:
––– (org). O texto na sala de aula. São Paulo: Ática, 2007.
KLEIMAN, A. A interface de estratégias e habilidades. In: Oficina de
leitura: teoria e prática. Campinas: Pontes / UNICAMP, 2000.
KOCH, I. & TRAVAGLIA, L.C. A coerência textual. São Paulo. Contexto,
2009.
––––––. A coesão textual. São Paulo. Contexto.2000.
KOCH, CAVALCANTE E BENTES, Ingedore G. Villaça; Anna Christina;
Mônica Magalhães. Intertextualidade: diálogos possíveis. São Paulo:
Cortez, 2007.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e escrever –
estratégias de produção textual. São Paulo: Contexto, 2009.
TRAVAGLIA, L.C. Gramática e interação: uma proposta para o ensino
de gramática no 1º e 2º graus. São Paulo: Cortez, 2002.
VILLARI, R. e GERALDI, J. W. Semântica. São Paulo: Ática, 2006.
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V UNIDADE
Intencionalidade,
situacionalidade e
aceitabilidade: fatores
pragmáticos responsáveis
pela textualidade
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Apresentação
Na aula anterior procuramos resumir alguns dos conceitos mais importantes com relação à coerência e coesão textuais e relacioná-los com atividades de análise de redações
elaboradas por diversos usuários da língua. Nesta aula,
pretendemos que vocês verifiquem que o texto se constitui
a partir do entrecruzamento dos fatores de intencionalidade, aceitabilidade e situacionalidade, pois para que o texto
apresente textualidade, faz-se necessário perceber as intenções do produtor e a receptividade do leitor, que participa
de modo fundamental do processo de compreensão, em que
é chamado a colaborar, preenchendo as lacunas deixadas
pelo texto. O papel do leitor e sua bagagem cognitiva são
essenciais na construção da coerência e do sentido do texto.
E finalmente que o contexto situacional exerce uma função
determinante na construção de seu sentido.
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Objetivos
Ao término desta unidade, queremos que você:
• reconheça as marcas de valores e intenções dos produtores de textos em função de seus interesses políticos, ideológicos e sociais, expressos linguisticamente;
• verifique que a comunicação se efetiva quando se estabelece um contrato de cooperação entre os interlocutores;
• perceba que o contexto situacional é um fator relevante na construção do sentido do texto.
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Reflexões iniciais...
A palavra está sempre carregada de um conteúdo
ideológico ou vivencial.É assim que compreendemos as palavras e somente reagimos àquelas que
despertam em nós ressonâncias ideológicas ou
concernentes à vida.
(Mikhail Bakhtin)
Para relembrar:
Algumas considerações acerca do texto:
REFLEXÃO 1
...o texto possui apenas uma pequena superfície exposta e uma imensa área imersa subjacente. Para se chegar às
profundezas do implícito e dele extrair um sentido, faz-se
necessário o recurso aos vários sistemas de conhecimento
e a ativação de processos e estratégias cognitivas e interacionais. (KOCH, 2003, O texto e a construção dos Sentidos.
p.30).
REFLEXAO 2
Todo texto é um objeto heterogêneo, que revela uma
relação radical de seu interior com seu exterior; e, desse
exterior, evidentemente, fazem parte outros textos, que lhe
dão origem, que o predeterminam, com os quais dialoga,
que retoma, a que alude, ou a que se opõe ( Koch. 2003,
p. 46).
REFLEXAO 3
O texto é um evento sociocomunicativo, que ganha existência dentro de um processo interacional. Todo texto é o
resultado de uma coprodução entre interlocutores (KOCH.
2009. Ler e escrever: estratégias de produção textual, p. 13).
A noção de texto é de suma importância no campo da linguística
textual e na teoria do texto, pois possibilita que se verifiquem os vários
fatores que dizem respeito tanto aos aspectos formais como as relações
sintático-semânticas, quanto às relações entre texto e os elementos que
o constituem: produtor, destinatário e situação sociocomunicativa.
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Vimos na unidade anterior que um texto para possuir textualidade
e ser naturalmente bem interpretado necessita que se verifique alguns
fatores. A textualidade se constitui a partir desses fatores que fazem do
texto não apenas uma sequência de frases, mas um todo constituído de
sentido. De acordo com Beaugrande e Dressier os fatoess que conferem sentido ao texto são: intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, intertextualidade e informatividade.
Nesta unidade, iremos priorizar os fatores intencionalidade, aceitabilidade e situacionalidade.
A intencionalidade, a aceitabilidade e a
situacionalidade como fatores imanentes
ao texto
Como se nota, Ingedore Koch define o texto como um produto em
constante transformação, algo inacabado, no entanto a partir da construção de sentido através do conteúdo fornecido, dos saberes acumulados, do conhecimento linguístico e do conhecimento de mundo, se
instaura o processamento estratégico, que acontece por meio da interação verbal entre interlocutores no ato da comunicação.
Para que aconteça êxito no processamento estratégico, os princípios de textualidade são de suma importância. De acordo com essa
autora, a intencionalidade é a finalidade de o produtor elaborar um
texto com textualidade, pois garante a interação entre autor e destinatário, contribuindo assim, para a realização das intenções e efeitos que
o texto proporcionará ao leitor.
A aceitabilidade é a disposição do destinatário de aceitar um texto
que possua importância para ele, tanto pelo conhecimento transmitido
como pelo jogo de interação entre autor e destinatário.
Desse modo, os efeitos de sentido que o texto pode proporcionar
ao leitor, do ponto de vista da compreensão, da consideração e da
reação, dependerá da construção de sentidos, que é proporcionada
pela intencionalidade e pela aceitabilidade no jogo dialógico no ato
da comunicação
Quanto mais o destinatário tiver conhecimento acerca do tema em
questão, mais eficaz será a interação entre os interlocutores.
Assim, os critérios de intencionalidade e aceitabilidade são de suma
importância na interação verbal, uma vez que são aspectos essenciais
na construção de sentido do texto, por estabelecerem maior nível de
inferências e relações com outros textos. Tais inferências contribuem
para que se percebam também as relações que um texto possui com
outros textos, ou seja, proporcionam a percepção da intertextualidade.
A situacionalidade de acordo com Marcuschi (2008) “é o critério
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que se refere ao fato de relacionamento do evento textual à situação
(social, cultural, ambiente etc) em que ele acontece. Ela além de interpretar e relacionar o texto ao contexto interpretativo, orienta a própria
atividade textual. É um critério de adequação textual que se refere aos
fatores que tornam o texto importante em dada situação. Segundo Koch
e Travaglia (2009) esse critério pode ser entendido sob duas óticas.
Observamos:
“a) da situação para o texto – neste caso, trata-se de determinar
em que medida a situação comunicativa interfere na produção/
recepção do texto. Sendo que a situação pode ser entendida
tanto em sentido estrito (situação comunicativa propriamente
dita), como em sentido amplo (o contexto sócio-político-cultural
em que a interação está inserida). O lugar e o momento da
comunicação vão influir tanto na produção do texto, como na
sua compreensão;”
“b) do texto para a situação: também o texto tem reflexos importantes sobre a situação comunicativa. Ao construir um texto o
produtor recria o mundo de acordo com seus objetivos, logo, o
mundo criado pelo texto não é uma cópia fiel do mundo real, o
mundo representado textualmente é aquele visto pelo produtor,
a partir de suas perspectivas”.
Que tal você refletir um pouco?
Atividade I
Observe os textos abaixo:
TEXTO 1
Jornal do Brasil
Haiti: cônsul do Haiti culpa macumba pelo terremoto
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
BRASÍLIA - Naquele que certamente é o pior momento vivido
pelo Haiti nas últimas décadas, o cônsul geral do país caribenho
em São Paulo, Jorge Samuel Antoine, deu uma demonstração
de insensibilidade grosseira em relação às milhares de pessoas
atingidas pelo terremoto responsável pela devastação do país
que Antoine supostamente deveria estar representando diplomaticamente. Reportagem exibida no SBT Brasil mostra o cônsul
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afirmando que a tragédia no Haiti trouxe bons resultados para o
consulado e atribuindo a culpa do terremoto às origens africanas
da população e da religião haitiana. Antoine deu as declarações
à repórter Elaine Cortez sem saber que estava sendo gravado.
– A desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui ficar
conhecido. Acho que de, tanto mexer com macumba, não sei o
que é aquilo... O africano em si tem maldição. Todo lugar que
tem africano tá f... – comentou o cônsul. Uma das principais
correntes religiosas no país é o vodu, que tem relação com outras manifestações de origem africana como o candomblé e a
santeria.
Sexta-feira, Antoine decidiu se explicar e culpou a falta de
habilidade com a língua portuguesa pelas declarações. Em nota,
o consulado também pediu desculpas pelo ocorrido. “Lamentamos profundamente o fato ocorrido. A intenção foi enfatizar
que o trágico acontecimento no Haiti fez com que o mundo todo
voltasse os olhos para os problemas do seu povo. Em nenhuma
oportunidade tomou atitude racista, tendo se expressado, tão somente, que os povos de origem africana são sofredores em várias
regiões do mundo. O cônsul-geral do Haiti em São Paulo pede
desculpas a quem de alguma maneira tenha se sentido ofendido”, declarou o consulado na nota.
22:02 - 15/01/2010
(Fonte: http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/01/15/e150114905.asp)
TEXTO 2
Na realidade, toda palavra comporta duas faces. Ela é determinada tanto pelo fato de que procede de alguém como pelo
fato de que se dirige para alguém. (...) A palavra é uma espécie
de ponte lançada entre mim numa extremidade, na outra apóia-se
sobre o meu interlocutor. A palavra é o território comum do locutor
e do interlocutor (BAKHTIN/ VOLOCHINOV, 1929, p. 113).1
Responda às questões propostas:
O fragmento foi retirado da obra: “Marxismo e Filosofia da Linguagem”, de Mikhail
Bakhtin. É interessante que leiam este livro
na íntegra.
1
Tendo com apoio a reflexão do texto 2 sobre o uso interacional da palavra, como você avalia a declaração do cônsul geral
do Haiti, presente no texto 1?
Diante da declaração de Jorge Samuel Antoine sobre a tragédia no Haiti, você concorda que o cônsul realmente não dominava a língua, como afirmou em nota explicativa, ou houve uma
intencionalidade por trás de sua afirmação? Se houve intencionalidade a descreva.
Ao afirmar que “a desgraça de lá está sendo uma boa pra gente aqui ficar conhecido”, Antoine usou propriedades que regulam o
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exercício da textualidade e especificam os modos de sua relevância
linguística e social. Evidentemente, que o cônsul utilizou a língua de
forma clara e objetiva para expor seu ponto de vista. Soube relacionar
os elementos linguísticos e os elementos extralinguísticos em sua atuação verbal. Mas será que a sua intenção era realmente “enfatizar que
o trágico acontecimento no Haiti fez com que o mundo todo voltasse os olhos
para os problemas do seu povo”? E a imprensa? Como você avalia a ênfase que
ela está dando a esse fato?
Dando prosseguimento ao nosso diálogo...
Espero que você tenha percebido, com a conclusão da atividade
anterior, que nenhuma atividade verbal acontece de qualquer jeito, sem
nenhuma intencionalidade.
Cada atividade verbal acontece sob uma condição de contexto verbal e é essa condição que justifica o sentido do texto. Como observamos na fala do cônsul do Haiti, ninguém fala ou escreve, a ser não ser
por meio de textos intencionais. E essa atividade textual não “se esgota
pelo conjunto dos elementos verbais que a constituem. Consta entre
outros fatores, com a intervenção dos sujeitos participantes” que são
responsáveis pela produção da interpretação dos eventos de comunicação em que se encontram inseridos.
Dessa forma, o texto não pode ser considerado o resultado de uma
atividade autônoma. Vimos que os estudos sobre a coesão e coerência do texto mostram que esses dois critérios são responsáveis pela
interrelação entre o linguístico e o extralinguístico em cada forma de
manifestação de uso da língua. A coesão é definida como “um conjunto de recursos léxico-gramaticais destinados a prover e a assinalar
a interligação semântica entre os diferentes segmentos que compõem
a superfície do texto”. Cada segmento do texto está vinculado entre si
de modo que cada unidade está “presa a um outro antecedente ou
subsequente”.
Do resultado dessa vinculação “resultam a continuidade e a unidade semânticas necessárias para que a superfície do texto se mostre
coerente”. Todavia, essa coesão não pode ser considerada meramente
superficial. A superfície do texto deve está ligada a sua pertinência. De
modo que a afirmação do cônsul do Haiti “a desgraça de lá está sendo
uma boa pra gente aqui ficar conhecido”, foi inoportuna para o momento,
pois a rede de relações entre o que foi afirmado pelo representante do
Haiti no Brasil foi quebrada. Essa quebra influenciou diretamente no
espaço semântico do seu pronunciamento. Se sua intenção era afirmar
que de agora em diante o mundo olharia para o país com outros olhos,
a distribuição das palavras em seu texto produziu um efeito contrário
e tal contradição refletiu exatamente na relação com os interlocutores.
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Logo, “ a exigência de que um texto deve constituir uma unidade semântica fundamenta o uso dos vários recursos coesivos”. Como afirma
ADAM (2008, p 87) “um texto falho em elementos coesivos concorre
para julgamentos de incoerência e dá a entender que o locutor parece
ter perdido o controle de sua comunicação”.
Podemos concluir que coesão e coerência:
• são relevantes ao texto no momento em que estão em plena
harmonia;
• têm função de promover a interligação semântica solicitada
pela unidade textual.
Veja o exemplo abaixo:
“No Brasil apenas 1% tem. Os restantes 99% tem que” (Millôr Fernandes).
Se tomarmos como base de análise apenas os elementos estruturais
da língua, afirmaremos que o texto citado (muitos nem consideram um
texto) está incoerente porque lhe falta um complemento. Mas, para
entendermos o conteúdo do texto em questão, teremos de atentar que
todo texto, além de sua estrutura formal, é composto também por seus
elementos extralinguísticos. Tais elementos devem ser levados em consideração no momento de análise de toda produção. No caso dessa
produção, o que contribui para sua a coerência são os sentidos que
o autor atribui ao verbo ter. Evidentemente, que a omissão do complemento do verbo “ter” tem uma função muito importante no que se
refere à coerência. Note que o autor opta por deixar uma lacuna no
texto para provocar, além da imprevisibilidade, um tom satírico e contestador. Notamos o que autor legitima essa lacuna por supor que os
leitores saberão preenchê-la.
O texto quebra regras estruturais com a intenção de provocar no
leitor um posicionamento diante do que foi exposto. É notório que,
nesse contexto, a ruptura das regras estruturais da língua promoveu um
jogo interativo entre interlocutores.
Como vimos anteriormente, não basta apenas a disposição de expressões de forma coesa e coerente para produzir a textualidade. É
claro que o texto é construído pela distribuição das palavras, mas apenas essa distribuição não é suficiente para “a determinação de sua
relevância comunicativa”. Sendo assim, “as palavras não preenchem a
totalidade dos requisitos necessários à sua realização” (como vimos no
texto do Millôr).
Como afirma Irandé Antunes (2009, p. 79), um texto é resultado de
uma atividade exercida por dois ou mais sujeitos, que, numa determinada situação social, interagem; produzem juntos uma peça de comunicação. Logo, as implicações resultantes das intenções e expectativas
desses sujeitos constituem, também, elementos do sentido figurado.
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Finalizando a nossa conversa...
Em síntese:
• “a elaboração de um texto consiste em um trabalho artesanal [...].
Entretecer os fios com amor e habilidade, refletir sobre cada
escolha e combinação a serem feitas ter sempre em mente
aqueles a quem o texto se destina, procurando, por meio de
pistas linguísticas e extralinguísticas, orientá-los para a construção de um sentido – um e não o – compatível com a proposta
de sentido que lhes estamos apresentando; enfim, oferecer-lhe
os meios necessários para, ao final, atribuir coerência ao texto
lido” (op. cit. 2009, p. 211).
• intencionalidade, de modo abrangente, é o percurso o qual o
autor utiliza para satisfazer suas intenções comunicativas. Esse
critério é um fator relevante para a textualização, pois se refere
aquilo que os produtores do texto pretendem, têm em mente
ou querem que o leitor faça com o texto. É com base na intencionalidade que podemos afirmar que o texto é produzido
com uma finalidade que deve ser compreendida pelo leitor. De
acordo com Marcuschi citando Beaugrande & Dressler, a intencionalidade, no sentido estrito, é a intenção do locutor de
produzir uma manifestação linguística coesiva e coerente, ainda
que essa intenção nem sempre se realize na sua totalidade, especialmente na conversação usual (MARCHUSCI, 2008).
• A aceitabilidade é o outro lado da intencionalidade. Ela se refere
à postura do destinatário diante do texto como uma configuração aceitável. Permite certo grau de tolerância, diante daquilo
que é lido.
• A situacionalidade, como vimos, exerce um papel de relevância.
Um texto que é coerente em dada situação pode não sê-lo em
outra: daí a importância da adequação do texto à situação comunicativa. Ela tem duas direções: da situação para o texto e
do texto para a situação. “Da situação para o texto” se refere
ao contexto imediato do ato comunicativo; o processo de interação, o contexto sociopolítico-cultural em que a interação
encontra-se inserida. “Do texto para a situação” se refere à recriação do autor do mundo real de acordo com seus propósitos
e interesses. O destinatário, nesse sentido, interpreta o texto de
acordo com seu ponto de vista. Como podemos observar, há
uma mediação entre o mundo textual e o mundo real.
Que tal analisarmos um pouco essas propriedades?
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Atividade II
Observe os textos abaixo e responda às questões propostas:
TEXTO 1
TEXTO 2
a. No texto 1, o que, de fato, o gato quis dizer ao rato?
b. Ao associar os elementos visuais aos elementos verbais do texto 2 , você
consegue perceber a intencionalidade do produtor?
c. Ambos os textos atingiram as suas intencionalidades?
dica. utilize o bloco
d. Explique os critérios de situacionalidade e aceitabilidade a partir da leitura
do texto em questão.
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de anotações para
responder as atividades!
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Leituras recomendadas
”Este livro procura condensar
noções relevantes dessa teoria e
aplicá-las a analise de redações
de vestibular, na tentativa de estabelecer um diagnóstico e levantar
sugestões para o trabalho com a
expressão escrita na escola”.
“Nesta obra, Luiz Antônio Marcuschi reúne alguns textos que escreveu ao longo dos últimos anos,
muitos dos quais provenientes de
sua participação em congressos e
seminários de Linguística. Vários
deles foram publicados, primeiramente, em revistas universitárias
brasileiras, cuja regularidade e distribuição, como sempre acontece
com publicações desse tipo, são,
em geral, muito precárias. Por isso,
pesquisadores da área, professores e alunos, há muito se ressentem da
falta desses textos que, agora, se apresentam nesta coletânea. Fenômenos da linguagem: reflexões semânticas e discursivas constitui uma
excelente oportunidade para conhecer ou revisitar alguns temas polêmicos da Linguística, vistos pela análise penetrante de Luiz Antônio
Marcuschi, um linguista à frente de seu tempo.” Dino Preti
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Resumo
Em diálogo com as unidades anteriores, esta unidade mostrou que
o ensino do texto deve está pautado nas propriedades: intencionalidade e aceitabilidade presentes na construção de seu sentido. Nessa
perspectiva, a atividade verbal acontece mediante a intervenção dos
sujeitos participantes que se predispõem para produzir e interpretar,
de forma coesa e coerente, as manifestações linguísticas que efetivam.
Diante disso, confeccionar um texto é promover um diálogo entre língua e sociedade. É a manifestação da participação efetiva dos interlocutores. Não existe passividade no processo de interação verbal. A atividade linguística só é possível quando produto e destino empenham-se
por encontrar o sentido de um enunciado.
Autovaliação
Explicite na canção abaixo os critérios de intencionalidade, aceitabilidade e
situacionalidade presentes em sua constituição.
O Bêbado e A Equilibrista
Elis Regina
Composição: João Bosco e Aldir blanc
Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos...
A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
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Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!...
Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil...
Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança...
Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar...
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar...
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Referências
ADAM, J. M. A linguística textual: introdução à análise textual dos
discursos. São Paulo: Cortez, 2008.
ANTUNES, Irandé. Língua texto e ensino outra escola possível. São Paulo:
Parábola Editorial, 2009.
BAKHTIN, M. Marxismo e filosofia da linguagem. São Paulo:Hucitec,
1995.
BRAIT, B. (org.) Bakthin, dialogismo e construção de sentido. Campinas,
SP. :Editora da Unicamp, 1997.
COSTA VAL, Maria da Graça. Redação e textualidade. São Paulo:
Martins Fontes, 2004.
KOCH, Ingedore Villaça. O texto e a construção dos Sentidos. São Paulo:
Contexto, 2003.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e compreender – os
sentidos do texto. São Paulo: Contexto, 2009.
_________. Ler e escrever – estratégias de produção textual. São Paulo:
Contexto, 2009.
KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Coerência e
Ensino. In: A Coerência Textual. 17ed. São Paulo: Contexto, 2009.
MARCHUSCI, Luiz Antônio. Processos de produção textual. In:
Produção textual, análise de gêneros e compreensão. São Paulo: Parábola
Editorial. 2008.
OLIVEIRA, M.L.Simões de. Charge Imagem e palavra numa leitura burlesca
do mundo. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 2001.
http://jbonline.terra.com.br/pextra/2010/01/15/e150114905.asp
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VI UNIDADE
Intertextualidade: uma
forma de reflexão crítica
sobre o estudo do texto
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Apresentação
Na unidade anterior, percebemos que atividade verbal
acontece a partir da intervenção dos sujeitos participantes
que se predispõem para produzir e interpretar as manifestações linguísticas que efetivam. Por isso, fez-se necessário
o estudo das propriedades: intencionalidade, aceitabilidade
e situacionalidade. Para tanto, destacamos que essas propriedades se constituem como elementos responsáveis pelo
caráter interativo do texto. Assim, a atividade linguística só
é possível quando produto e destino empenham-se por encontrar o sentido de um enunciado.
Nesta unidade, estudaremos como o critério da intertextualidade se comporta no texto como um modo de recuperação da história do homem e como condição inerente à
produção humana.
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Objetivos
Ao final desta unidade, esperamos que você entenda que:
• Todo texto faz remissão a outro texto efetivamente já
produzido e que faz parte da memória social dos leitores;
• A intertextualidade se dá tanto na produção como na
recepção da grande rede cultural, de que todos participam;
• Referências, alusões, epígrafes, paráfrases, paródias
ou pastiches são algumas das formas de intertextualidade.
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Para começo de conversa...
De acordo com a Linguística Textual a intertextualidade é um dos
fatores de textualidade, pois todo texto faz remissão a outro texto ainda que inconscientemente. Desse modo, tanto quem produz um texto
quanto quem o recebe recorre ao conhecimento prévio de outros textos.
O conhecimento prévio sobre algo que foi exposto anteriormente é
de grande importância para elaboração de um sentido ao novo texto,
assim como contribuem com os conceitos que se instauram do mundo,
da cultura e dos estereótipos. É natural que, ao elaborar um texto, o
autor se valha daquilo que já vivenciou.
Os conceitos referentes à intertextualidade são objetos de reflexão
constantes na linguística contemporânea, porque sempre um texto dialoga com outro que o antecedeu no tempo e no espaço de sua produção.
Ao dialogar conscientemente com um texto anterior, nem sempre o
autor faz referência à fonte, pois imagina que o leitor ative seu conhecimento de mundo e compartilhe com ele das informações a respeito dos
textos que compõem um determinado universo cultural.
De acordo com a teoria de Bakhtiniana acerca do dialogismo, os
enunciados produzidos só adquirem sentido quando ocorre a interação
verbal. A enunciação ocorre na relação com o outro e só desta forma
é que ganha sentido, pois
[...] todo falante é por si mesmo um respondente
em maior ou menor grau: porque ele é o primeiro falante, o primeiro a ter violado o terno silêncio do universo do universo, e pressupõe não só
a existência do sistema da língua que usa, mas
também de alguns enunciados antecedentes – dos
seus e alheios – com os quais o seu enunciado entra nessas ou naquelas relações (baseia-se neles,
polemiza com eles, simplesmente os pressupõe já
conhecidos do ouvinte). Cada enunciado é um elo
na corrente complexamente organizada de outros
enunciados (BAKTHIN. 2003, p, 272).
Assim ocorre a experiência discursiva individual, que “se forma e se
desenvolve em uma interação constante e contínua com os enunciados
individuais dos outros” (op. cit. 2003, p. 294).
Dessa interação constante entre os textos emerge o caráter intertextual. A própria constituição da palavra intertextualidade já deixa notória
a relação que existem entre os textos. Evidentemente, que o sentido de
texto aqui é visto como um recorte significativo feito no processo ininterrupto na imensa rede se significações dos bens e valores culturais.
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Dessa forma, a intertextualidade “encontra-se na base de constituição
de todo e qualquer dizer” (KOCH, 2006, p. 75).
As diversas transformações verificadas na arte em geral têm levado
muitos artistas a dialogarem não com a realidade aparente das coisas,
mas com a realidade da própria linguagem. Compartilhando o seu
espaço com as artes de modo geral, a linguagem literária, por exemplo, alargou-se internamente, ao se apropriar de uma vasta gama de
materiais estilísticos e formais pertencentes a outros espaços artísticos.
Não raro os escritores se utilizam de recursos que são tipicamente
do cinema, elaborando narrativas, em que se verifica nitidamente um
narrador que mais parece um diretor cinematográfico, conduzindo as
cenas do enredo da história, como se pode constatar na novela de
Caio Fernando Abreu, “Bem Longe de Marienbad” e o filme “O ano
passado lá em Marienbad”, dirigido por Robbe-Grillet, por exemplo.
Esse procedimento intertextual a partir do entrecruzamento de linguagens é amplamente usado tanto por Caio em sua novela como por
Robbe-Grillet na direção de seu filme. Vejamos como isso se configura:
1.O ano passado lá em Marienbad
sob a direção de Robbe-Grillet
L’année dernière à Marinebad, autêntico representante
do nouveau cinéma francês, escapa a qualquer tentativa
de análise que se paute pela linearidade clássica. Marcado por uma multiplicidade de imagens, diálogos e cenas
que se repetem e por uma linguagem cinematográfica que
congrega várias outras, música, teatro, fotografia, pintura,
vídeo, é uma produção atravessada por diversos discursos
que remetem para uma evidente metalinguagem, o que é
um traço fundamental da arte na virada do milênio, segundo Calvino (1990, 237). Sobre essa nova tendência da
arte na contemporaneidade, essa multiplicidade como traço fundamental, Machado (1997, p. 238) afirma que, aos
olhos de quem a produz, “o mundo é visto e representado
como uma trama de relações de uma complexidade inextricável em que cada instante está marcado pela presença
simultânea de elementos os mais heterogêneos”. Dessa
forma, no cinema, por exemplo, a tela se converte num
“espaço topográfico” em que os distintos recursos imagéticos, verbais e sonoros vêm efetuar-se de forma a diluir
as fronteiras formais e materiais entre esses recursos e as
linguagens. As referências a outras situações e lugares são
muitas, o que exige permanente atitude de alerta da parte
do espectador. A começar pela escolha da cidade, na República Tcheca, famosa pelos hotéis luxuosos frequentados
por espiões durante a Guerra Fria, onde se praticava o
mesmo jogo em que se arriscam as personagens do filme. Também a guerra configura uma temática recorrente
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neste cinema que se aproxima da literatura dos nouveaux
romanciers, sendo o próprio Robbe-Grillet um dos seus representantes, na década de 60.
As partes que compõem o quadro da trama se deslocam para os mais diversos contextos espaciais e temporais,
sobrepondo-se em aspectos que se cruzam. Nesse sentido,
a tela transforma-se em espaço mosaicado e,
Representa hoje o local de convergência de
todos os novos saberes e das sensibilidades emergentes que perfazem o panorama
da visualidade(e também da musicalidade,
da verbalidade) deste final de século [...] a
imagem eletrônica se mostra ao espectador
não mais como um atestado da existência
prévia das coisas visíveis, mas explicitamente como uma produção do visível, como
efeito de mediação. A imagem se oferece
agora como um “texto” para ser decifrado
ou “lido” pelo espectador e não mais como
paisagem a ser contemplada (MACHADO,
1997, p.244).
Na película de Robbe-Grillet, o narrador descreve
a decoração pesada do ambiente e essa descrição vem
acompanhada de um som que reforça o efeito de peso.
Ambos combinam.
Na observação inicial dessa trama, percebem-se, imediatamente, as instâncias em que se cruza a metadiscursividade. São várias formas artísticas que a formam.
Na abertura do filme ocorrem ações simultâneas com
montagens paralelas. A cena inicia-se a partir da atitude
observadora do narrador (suposto amante) de uma peça
teatral e reproduz exatamente a sua situação: um casal
de amantes discute a relação e a fala da mulher reproduz
o fim do relacionamento. Ao se ver representado no espetáculo, o amante tem um momento de conscientização
do seu papel e resolve procurar sua amada. A utilização
desse recurso cinematográfico, que traz a peça teatral para
dentro do filme, vai proporcionando uma interiorização e
subjetivação, de maneira a exteriorizar o ponto de vista do
narrador da trama. Nesse sentido, é o narrador que rege o
olhar em torno das cenas que ele fragmenta, estabelecendo uma ponte com o público a partir do que essas cenas
representam.
Podemos antecipar uma conclusão, dizendo que O
ano passado lá em Marienbad é um melodrama passional
de cunho intimista que, baseado na montagem alternada de
ações paralelas, controla os afetos do espectador e a ma-
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neira como este reagirá aos acontecimentos encenados. A
forma como o narrador interage com o público faz deste
uma testemunha e também cúmplice involuntário do desenrolar da trama.
Nesse ponto, o cinema se aproxima da construção literária, pois traz para o lugar cinematográfico uma instância
narrativa que forja o tempo e o espaço, proporcionando
assim, como faz a literatura com o leitor, um efeito que
aflora com os sentimentos do espectador, como observa
Machado (1997, p. 140): “o cinema aproxima-se cada
vez mais do ideal literário de uma narrativa controlada nos
seus mínimos detalhes, capaz, ao mesmo tempo, de trabalhar os afetos do espectador na sala escura”.
2. Bem longe de Marienbad, de
Caio Fernando Abreu
Causando menos estranhamento, mas ainda assim
inusitada, percebemos a proposta de Caio Fernando Abreu
em Bem longe Marienbad. Em sua novela o autor usa e
abusa do expediente intertextual transitando em um espaço
provisório, cria um narrador que exerce abundantemente
sua condição de diretor cinematográfico. Ele existe no espaço fílmico. Assim como narrador da película, o narrador
protagonista na novela de Caio é uma recriação do primeiro, uma vez que como o narrador do filme ele entrecruza as linguagens e transforma o ambiente ao seu redor em
um espaço cinematográfico.
A excessiva fragmentação narrativa desse texto pode
ser encarada como qualidade ou apontada como uma debilidade na construção da história. A impressão, não rara,
de desconexão verbal é suplementada pela estratégia da
repetição de cenas, expressões, situações, como no filme.
Ambos, novela e filme, parecem apostar no hibridismo das
linguagens como novo modelo estético que se diferenciará
da tradição.
Essa mistura de linguagens presente na narrativa de
Abreu, assim como no filme de Robbe-Grillet, convive harmonicamente com o apelo da busca do eu total que, por
mais que se apresente em fragmentos, almeja a unificação.
Os anos 70 no Brasil, época em que se situa a novela, essa
hibridização figura como interlocutora assídua no universo
carnavalizado das referências,seja para transformar autores em personagens, ou apenas para a desmitificação da
postura vitalista da contracultura cujo lema era o discurso
ideal de vida “faça amor e não faça guerra”.
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A novela Bem longe de Marienbad, predominantemente escrita em primeira pessoa, oferece ao narrador uma
posição privilegiada. A postura desse narrador evolui do
entusiasmo inicial à escritura fortemente contestadora que
se estrutura numa forma de dizer e articular experiências
existenciais singulares que funcionam como marca engajada em torno das representações da sensibilidade e dos
vazios deixados por essa contracultura radical.
Dessa forma, o autor atribui vida a um narrador que
será protótipo de boa parte de sua poética: de maneira introspectiva, o narrador captura os momentos reais em que,
através de digressões, coaduna um cenário de ocorrências
que estrutura um enredo entrecortado por vozes e situações
distintas buscando retratar identidades imersas em conflitos
construídos a partir das suas inaptidões no lidar com seus
vários eus. A função desse narrador, atordoado ante a sensação de impotência do narrar, é constituir as formas de
recuperar sua totalidade, instituindo esteticamente o caos
em busca da ordem.1
Texto adaptado do artigo: Cruzamentos e
fronteiras nos espaços do cênico e do literário, apresentado por Elisabete Borges Agra
e Eneida Dornellas de Carvalho, no congresso Abralic: Diálogo entre Literatura e outras
artes, 2008.
1
Posto isso, podemos afirmar que existe uma relação intertextual entre a película e a novela, uma vez que ambos
apresentam uma experiência de tempo, e é essa experiência de tempo que faz tanto o espectador quanto o leitor
reagirem em suas observações. A novela e a película são
lentas. A lentidão encoraja quem está assistindo ou lendo a
pensar. Tanto no filme quanto na novela a participação do
espectador e do leitor afeta o texto. Muda-o, pois as obras
nos favorecem pensar como a história se relaciona com a
nossa própria experiência. Literatura e cinema interagem
com a nossa perspectiva. Veja que através da manipulação
do espaço e do tempo a montagem das cenas paralelas na
película assume-se como a principal força organizadora
em termos da construção de significados. A mesma coisa
acontece na novela de Caio, que nos coloca em diversos
tempos e espaços dentro da narrativa, mas sempre dentro
do momento das personagens envolvidas, situando assim
desta forma uma ou várias personagens (ou as suas memórias) em diversos tempos e espaços ao mesmo tempo.
Pela comparação feita entre cinema e literatura, podemos perceber que a relação intertextual existente entre as
obras analisadas pode ser considerada como uma tradução, pois apresenta no texto um efeito centrípeto, conservando os sentidos da primeira no ato da releitura.
Vamos colocar essa teoria em prática?
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Atividade I
Leia o texto a seguir e responda à questão proposta:
Ave Maria cheia de graças...” A tarde era tão bela, a vida era tão pura, as mãos de minha mãe eram tão doces,
havia, lá no azul, um crepúsculo de ouro... lá longe... “- Cheia de graça, o Senhor é convosco, bendita!”
Bendita!
Os outros meninos, minha irmã, meus irmãos menores, meus brinquedos, a casaria branca de minha terra, a burrinha do vigário pastando junto à capela... lá longe...
Ave cheia de graça
- ...”bendita sois entre as mulheres, bendito é o
fruto do vosso ventre...”
E as mãos do sono sobre os meus olhos,
e as mãos de minha mãe sobre o meu sonho,
e as estampas de meu catecismo
para o meu sonho de ave!
E isto tudo tão longe... tão longe...
(Jorge de Lima)
1. Acione o seu conhecimento de mundo e comente o recurso da intertextualidade
utilizado por Jorge de Lima no poema citado.
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dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
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Continuando a nossa conversa...
Tipos de relações intertextuais:
Observe as tirinhas abaixo:
Alusão
A alusão é uma forma subtendida de citação: há uma sutileza do
autor ao se referir ao texto de outrem. Veja que Mauricio de Souza recorre sutilmente ao conhecimento de mundo do leitor, quando recorre
à teoria da relatividade associando imagem a texto. Para Afonso R.
de Sant`Anna “a percepção desse recurso depende exclusivamente do
leitor, [..] o que equivale a dizer que são recursos percebidos por um
leitor mais informado.
Paráfrase
Esse recurso se constitui a partir da interpretação de um texto com
as próprias palavras daquele que interpretou, mantendo, essencialmente, o ponto de vista da produção interpretada. É uma espécie de adaptação do texto original. É um processo no qual o texto “reformulador
mantém com o texto anterior uma relação de equivalência semântica”, com a intenção de promover um diálogo entre os interlocutores.
A paráfrase não anula o que foi dito anteriormente, entretanto retoma
o enunciado anterior com outras palavras. Portanto, mantém uma re-
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lação de retrospectiva com o texto parafraseado. Um exemplo corriqueiro de paráfrase é a síntese, uma vez que consiste em reproduzir a
essencialidade do texto resumido; condensa aquilo que o autor discutiu
amplamente, sem, contudo, fugir do seu ponto de vista. Observe o
exemplo abaixo:
Exemplo 1
O QUINZE
2
Debaixo de um juazeiro grande, todo um bando
de retirantes se arranchara: uma velha, dois homens, uma
mulher nova, algumas crianças.
O sol, no céu, marcava onze horas. Quando Chico
Bento, com seu grupo, apontou na estrada, os homens
esfolavam uma rês e as mulheres faziam ferver uma lata
de querosene cheia de água, abanando o fogo com um
chapéu de palha muito sujo e remendado.
Em toda a extensão da vista, nenhuma outra árvore
surgia. Só aquele juazeiro, devastado e espinhento, verdejava a copa hospitaleira na desolação cor de cinza da
paisagem.
Cordulina ofegava de cansaço. A Limpa-Trilho gania e
parava, lambendo os pés queimados.
Os meninos choramingavam, pedindo de comer.
E Chico Bento pensava:
– Por que, em menino, a inquietação, o calor, o cansaço, sempre aparecem com o nome de fome?
– Mãe, eu queria comer... me dá um taquinho de
rapadura!
– Ai, pedra do diabo! Topada desgraçada! Papai, vamos comer mais aquele povo, debaixo desse pé de pau?
O juazeiro era um só. O vaqueiro também se achou
no direito de tomar seu quinhão de abrigo e de frescura.
E depois de arriar as trouxas e aliviar a burra, reparou
nos vizinhos. A rês estava quase esfolada. A cabeça inchada não tinha chifres. Só dois ocos podres, mal cheirosos, donde escorria uma água purulenta.
Encostando-se ao tronco, Chico Bento se dirigiu aos
esfoladores:
– De que morreu essa novilha, se não é da minha
conta?
Um dos homens levantou-se, com a faca escorrendo
sangue, as mãos tintas de vermelho, um fartum sangrento
envolvendo-o todo:
– De mal-dos-chifres. Nós já achamos ela doente. E
vamos aproveitar, mode não dar para os urubus.
Chico Bento cuspiu longe, enojado:
– E vosmecês têm coragem de comer isso? Me ripuna
só de olhar...
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Exemplo retirado de uma proposta de vestibular da UFPB, de 1989.
2
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O outro explicou calmamente:
– Faz dois dias que a gente não bota um de-comer de
panela na boca...
Chico Bento alargou os braços, num grande gesto de
fraternidade:
– Por isso não! Aí nas cargas eu tenho um resto de
criação salgada que dá para nós. Rebolem essa porqueira pros urubus, que já é deles! Eu vou lá deixar um
cristão comer bicho podre de mal, tenho um bocado no
meu surrão!
Realmente a vaca já fedia, por causa da doença.
Toda descarnada, formando um grande bloco sangrento, era uma festa para os urubus vê-la, lá de cima,
lá da frieza mesquinha das nuvens. E para comemorar o
achado executavam no ar grandes rondas festivas, negrejando as asas pretas em espirais descendentes.
(Rachel de Queiroz )
Síntese
Arranchados sob um juazeiro, em meio àquela desolação, um bando de retirantes tentava aproveitar uma vaca
já em estado de putrefação, para combater-lhe a fome de
dois dias. Quando Chico Bento, com o seu bando, aproxima-se também em busca de abrigo e, compadecendo-se
daquela situação, divide com os miseráveis o resto de alimento que trazia, deixando o animal para os urubus.
EXEMPLO 2
MONTE CASTELO/ LEGIÃO URBANA
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.
É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
O amor é bom, não quer o mal,
Não sente inveja ou se envaidece.
O amor é o fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
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É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos
Sem amor eu nada seria.
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É um não contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.
É um estar-se preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É um ter com quem nos mata a lealdade.
Tão contrário a si é o mesmo amor.
Estou acordado e todos dormem.
Todos dormem. Todos dormem.
Agora vejo em parte,
Mas então veremos face a face.
É só o amor! É só o amor
Que conhece o que é verdade.
Ainda que eu falasse
A língua dos homens
E falasse a língua dos anjos,
Sem amor eu nada seria.
Amor é fogo que arde sem se ver/ Luís Vaz de Camões
Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?
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Paródia
Observe o texto abaixo do autor Affonso Romano de Sant’anna
acerca do recurso intertextual paródia:
Começo por redefinir paródia traçando uma breve história do termo e vendo como modernamente se aprofunda
o seu entendimento. O termo paródia tornou-se institucionalizado a partir do séc. 17. A isto se referem vários dicionários de literatura. No entanto já em Aristóteles aparece
um comentário a respeito desta palavra. Em sua Poética
atribuiu a origem da paródia, como arte, a Hegemon de
Thaso (séc. 5 a.C.), porque ele usou o estilo épico para
representar os homens não como superiores ao que são
na vida diária, mas como inferiores. Teria ocorrido, então,
uma inversão. A epopéia, gênero que na Antiguidade servia para apresentar os heróis nacionais no mesmo nível
dos deuses, sofria agora uma degradação.
Essa observação de Aristóteles revela um enfoque marcadamente ético e mostra que os gêneros literários eram tão
estratificados quanto as classes sociais. A tragédia e a epopéia eram gêneros reservados a descrições mais nobres, enquanto a comédia era o espaço da representação popular.
Alguns autores, no entanto, apontam Hipponax de Éfeso (séc. 6 a.C.) como “o pai da paródia”.
Significados
É mais importante ir rastreando, por enquanto, as definições do termo. Aliás, tais definições nunca constituíram um
grave problema. O dicionário de literatura de Brewer, por
exemplo, nos dá uma definição curta e funcional: “paródia
significa uma ode que perverte o sentido de outra ode (grego:
para- ode)”. Essa definição implica o conhecimento de que
originalmente a ode era um poema para ser cantado. Por isto,
Shipley , mais acuradamente, registraria que o termo grego
paródia implicava a idéia de uma canção que era cantada ao
lado de outra, como uma espécie de contracanto. A origem,
portanto, é musical. Em literatura acabaria por ter uma conotação mais específica. O próprio Shipley, no seu dicionário de
literatura discrimina três tipos básicos de paródia:
a) verbal — com a alteração de uma ou outra palavra
do texto;
b) formal — em que o estilo e os efeitos técnicos de
um escritor são usados como forma de zombaria;
e) temática — em que se faz a caricatura da forma e
do espírito de um autor.
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Modernamente a paródia se define através de um jogo
intertextual. A esse respeito, como veremos mais adiante
em Manuel Bandeira, pode-se falar de intertextualidade
(quando um autor utiliza textos de outros) e intratextualidade (quando o escritor retoma sua obra e a reescreve). Essa
anotação, no entanto, não é típica da paródia. Também
ocorre na paráfrase, como observaremos oportunamente.
Por isto é que é necessário trabalhar mais essa questão da
intertextualidade.
De uma maneira geral, porém, os autores que antecederam os dois formalistas (Tynianov, 1919, e Bakhtin,
1928) definiam a paródia dentro de uma certa sinonímia.
Aproximavam-na do burlesco, considerando-a como um
subgênero. Nesta linha, mesmo autores mais contemporâneos definem a paródia também por contiguidade, considerando-a um mero sinônimo de pastiche, ou seja, um
trabalho de ajuntar pedaços de diferentes partes de obra
de um ou de vários artistas.3
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia,
Paráfrase & Cia. São Paulo: Ática, 2003
3
Como podemos notar, de acordo com Romano de Sant’anna, a paródia é um texto que subverte a mensagem do texto que o inspirou. Leia
a história em quadrinhos do Maurício de Souza, cujo diálogo já indica
a intenção paródica do filme “O vento levou”: -“Oh, minha fazenda
Kara foi arrasada pelos ianques! – “E o que sobrou o vento levou”:
Se a paráfrase funciona como um efeito centrípeto, a paródia funciona como um efeito centrífugo, ou seja, ela descentraliza o texto parodiado. Note que ao decorrer ao título do filme a personagem de Maurício
de Souza estabelece um diálogo com ele pautado na ridicularizarão. A
ridicularização, nesse caso, está voltada para a diferença entre a proposta do filme e a proposta do quadrinho. Sabe-se que o quadrinho tem a
intenção de provocar o humor a partir da relação que o leitor fará do
texto anterior com o texto parodiado, nisso reside a diferença. De acordo com Romano de Sant`Anna(2003) “[...] falar de paródia é falar de
intertextualidade das diferenças [...]a paródia é como a lente: exagera os
detalhes de tal modo que pode converter uma parte do elemento focado
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num elemento dominante, invertendo, portanto, a parte pelo todo, como
se faz na charge e na caricatura. E eu diria, usando ainda um raciocínio
psicanalítico, que a paródia é um ato de insubordinação contra o simbólico, uma maneira de decifrar a Esfinge da Mãe Linguagem. Ela difere da
paráfrase na medida em que a paráfrase se assemelha àquele que dorme edipianamente cego no leito da Mãe Ideologia. Sendo uma rebelião,
a paródia é parricida. Ela mata o texto-pai em busca da diferença. E o
gesto inaugural da autoria e da individualidade (p. 33).
Pastiche
O pastiche é uma forma de intertextualidade parecida com a paródia,
pois ambos envolvem imitação. Entretanto traduzir as formas como sinônimo é um equivoco, pois o pastiche associa-se à imitação de um estilo. Ele
pode ser entendido como uma colagem ou montagem do texto “original”.
Ele é a forma mais polemica de intertextualidade, pois a obra literária é
imitada diretamente de outra. É uma espécie de colagem, se o leitor conhece a obra imitada, percebe claramente trechos inteiros sendo copiados.
Glauco Mattoso de posse desse recurso intertextual e remonta a obra de
Alencar “A pata da gazela”numa espécie de versão transviada. Observem:
Texto de referência
A Pata da Gazela
José de Alencar
Simples no trajo e pouco favorecido a respeito de beleza; os dotes naturais que excitavam nesse moço alguma
atenção eram uma vasta fronte meditativa e os grandes
olhos pardos, cheios do brilho profundo e fosforescente que
naquele momento derramavam pelo semblante de Amélia.
Havia minutos que, percorrendo a Rua da Quitanda
em sentido oposto à direção do carro, avistara a moça
recostada nas almofadas, e sentira a seu aspecto viva impressão. Sem disfarce ou acanhamento, recostando-se à
ombreira de uma porta de escritório, esqueceu-se naquela
ardente contemplação.
O coração é um solo. Vale onde brotam as paixões,
como os outros vales da natureza inanimada, ele tem suas
estações, suas quadras de aridez ou de seiva, de esterilidade ou de abundância.
Depois das grandes borrascas e chuvas, os calores
do sol produzem na terra uma fermentação, que forma o
humo; a semente, caindo aí, brota com rapidez. Depois
das grandes dores e das lágrimas torrenciais, forma-se
também no coração do homem um humo poderoso, uma
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exuberância de sentimento que precisa de expandir-se. Então um olhar, um sorriso, que aí penetre, é semente de
paixão e pulula com vigor extremo.
O moço parecia estar nessas condições: ele trajava
luto pesado, não somente nas roupas negras, como na cor
macilenta das faces nuas, e na mágoa que lhe escurecia
a fronte.
Notando Amélia a insistência do mancebo, ficou vivamente contrariada. Aquele olhar profundo, que parecia
despedir os fogos surdos de uma labareda oculta, incutia nela um desassossego íntimo. Agitava-se impaciente,
como uma criatura no meio de um sono inquieto ou mesmo de um ligeiro pesadelo.
Até que abriu o chapeuzinho-de-sol para interceptar a
contemplação apaixonada de que era objeto. Nesta ocasião, Laura, que frequentemente se debruçava para ver
quando vinha o lacaio, retraiu o corpo com vivacidade:
— Enfim; aí vem!
— Felizmente! disse Amélia.
Versão transviada
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Existe um antagonismo presente nessas obras que são fundamentais
para se entender o processo intertextual proporcionado pela leitura de
“A planta da donzela”, de Glauco Mattoso. Enquanto em “A pata da
gazela” prevalece a pura contemplação/ idealização do sexo, em “A
planta da donzela” esse desejo sublimar se transforma em incessante
masturbação. É naturalmente uma versão transviada da obra de Alencar. De acordo com Ítalo Moriconi (2005) “A planta da Donzela” é um
pastiche que “se combina com a paródia [...] não é pura repetição.
Glauco utiliza-se do espírito sardônico da paródia para colocar a nu
temas e percepções que os textos românticos e os clássicos modernistas
deixaram na sombra. E nessa área da paródia literária, o autor também
é mestre. Em relação ao decoro de Alencar, A planta da Donzela é uma
abertura desenfreada de sentidos. É a liberação em ato. É a revelação
do inconsciente obsceno dos românticos e até mesmo dos historiadores
de alta estirpe, como Gilberto Freire. É o grito de “ia, ia” da mulher
devassa que chicoteia seu parceiro submisso. A planta da donzela refaz
o jogo d’ A pata da gazela”, reaproveitando cenas inteiras do livro de
Alencar , mas modificando completamente o perfil sexual dos personagens e o tipo de intriga em que se envolvem” (p. 220).
Atividade II
Leia a composição abaixo, de Caetano Veloso e responda o que se pede:
Sampa
Composição: Caetano Veloso
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
Quando eu te encarei frente a frente não vi o meu rosto
Chamei de mau gosto o que vi, de mau gosto, mau gosto
É que Narciso acha feio o que não é espelho
E à mente apavora o que ainda não é mesmo velho
Nada do que não era antes quando não somos mutantes
E foste um difícil começo
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Afasto o que não conheço
E quem vende outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso
Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas
Da força da grana que ergue e destrói coisas belas
Da feia fumaça que sobe, apagando as estrelas
Eu vejo surgir teus poetas de campos, espaços
Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva
Pan-Américas de Áfricas utópicas, túmulo do samba
Mais possível novo quilombo de Zumbi
E os novos baianos passeiam na tua garoa
E novos baianos te podem curtir numa boa
Entendemos que a intertextualidade é “o diálogo entre os muitos
textos da cultura, que se instala no interior de cada texto e o define”.
(Barros, 1994, p 4). Como exemplo de texto em que se realiza a intersecção de muitos diálogos, temos a fala poética de Caetano Veloso
na composição “Sampa”. Verifica-se que o compositor utiliza-se desse
recurso para estabelecer o diálogo com outros textos. Ative o seu conhecimento de mundo e identifique com quem Caetano dialoga para
descrever São Paulo em sua variedade.
Encerrando a nossa conversa...
Originalidade e intertextualidade
4
OTexto de autoria de João Ferreira (2000)
no ensaio intitulado: Os meandros e as
fronteiras da intertextualidade. Ele pode
ser encontrado no seguinte endereço:www.
Usinadeletras.com.br/exibelotexto.
php?cod=237&cat=Ensaios&vinda=S
4
A teoria da intertextualidade, além de nos ensinar que entre os humanos
a linguagem é circulante e que os conceitos se desdobram em ondas de
comunicação temporal e intemporal entre humanos, leva-nos ainda à
humilde conclusão de que o verbo que consideramos nosso é de certa
forma o verbo de todos, graças à socialização da palavra. E aqui vem,
a termo, a distinção feita por Saussure entre língua e fala. Todos os
falantes humanos têm naturalmente uma base de partida para elaborar
sua comunicação escrita ou falada dentro de um código próprio da
comunidade a que pertencem mas é em seu ato singulativo que a palavra
toma o sentido da pessoa e da individualidade. Todavia, nunca ninguém
deve esquecer, nem sequer os intelectuais, de que no lar, na escola, nos
livros, na roda dos amigos, na leitura, na escuta das informações da
imprensa ou na Internet, nós estamos apenas no circuito de linguagem
que é nossa e dos outros e que o caráter intertextual da expressão e
da linguagem nos mostra o patrimônio comum de que participamos
nesta grande teia universal do pensamento e da comunicação escrita e
falada no seio dos códigos da linguagem.
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Resumo
Nesta unidade, você observou que a intertextualidade, seja a paródia seja a apropriação, por exemplo, mais que simples expedientes
lúdicos, podem ser entendidas como forma de reflexão crítica sobre
a arte. Os autores, em diferentes épocas e estilos, recorreram a tal
expediente para demonstrar maior consciência sobre o fazer artístico.
A intertextualidade está diretamente associada à metalinguagem, pois
tais procedimentos são relacionais. Na intertextualidade, um texto absorve outros textos. Esses procedimentos tornam o leitor mais crítico e
reflexivo.
Autovaliação
Agora é com você:
Acione a sua história de leitura e produza um texto comentando acerca do
recurso da intertextualidade presente nas leituras feitas por você ao longo
de sua vida. Socialize seu texto no chat a combinar.
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Leituras recomendadas
“Reunião dos principais
ensaios do autor dedicados à
literatura brasileira e diversos
outros trabalhos de reflexão
sobre teoria literária, semiótica e poética da tradução;
balanços das obras de Bense,
Barthes, Sergio Buarque de
Holanda, bem como excursos sobre a prática textual do
autor, sobre a razão antropofágica e sobre as relações poesia-música, sob o signo antinormativo da
invenção e da leitura revisional”( Sinopse livraria Saraiva).
“Toda a cultura, incluindo
a produção literária, dialoga
com outras produções por
meio de um processo intertextual. Todo o texto retoma
outro texto, relativizando a
questão da autoria. Na produção literária, são vistas as
epígrafes, a citação, a referência, a alusão. São especialmente destacados a paráfrase, a paródia, o pastiche e
a tradução. A intertextualidade ainda é abordada na perspectiva da
recepção e da história literária. Além da parte teórica, ricamente exemplificada, as autoras propõem para esta obra uma prática de vinte e
uma atividades”(Sinopse livraria Saraiva).
“Os conceitos de paródia,
paráfrase, estilização e apropriação redefinidos, para esclarecer
a natureza da literatura, levando
o leitor a entender as relações
ideologia/linguagem”(Sinopse livraria Cultura).
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Referências
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela; Série Bom Livro. São Paulo: Ática,
1998.
BARROS, Diana Luz Pessoa & FIORIN, José Luiz. (org.) Dialogismo,
polifonia, intertextualidade: em torno de Bakhtin. São Paulo. Universidade
de São Paulo-USP. 2001.
COMPAGNON, Antoine. O trabalho da citação. Trad. Cleonice P. B.
Mourão. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1996.
KRISTEVA, Julia. Introdução à semanálise. Trad. Lúcia Helena França
Ferraz. São Paulo: Perspectiva, 1974.
KOCH, CAVALCANTE E BENTES, Ingedore G. Villaça; Anna Christina;
Mônica Magalhães. Intertextualidade: diálogos possíveis. São Paulo:
Cortez, 2007.
KOCH, Ingedore Villaça; ELIAS, Vanda Maria. Ler e escrever –
estratégias de produção textual. São Paulo: Contexto, 2009.
KOCH, Ingedore G. Villaça. Desvendando os segredos do texto. São
Paulo: Cortez, 2002.
_____. Introdução à linguística textual: trajetória e grandes temas. São
Paulo: Martins Fontes, 2004.
_____. O texto e a construção dos sentidos. São Paulo: Contexto, 2005.
_____. Intertextualidade: diálogos possíveis. São Paulo: Cortez, 2007.
LUYTEN, Sonia M. Bibe (Org). Histórias em quadrinhos – leitura crítica.
São Paulo: Paulinas, 1985.
MATTOSO, GLAUCO. A planta da donzela. Rio de Janeiro: Lamparina,
2005.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Paródia, Paráfrase & Cia. São Paulo:
Ática, 2003.
SCHNEIDER, Michel. Ladrões de palavras. Ensaio sobre o plágio, a
psicanálise e o pensamento. Trad. Luiz Fernando P. N. Franco. Campinas:
Editora da UNICAMP, 1990.
SOUSA, Maurício de. Magali nº. 90. São Paulo: Globo, 1992.
_________________ .Mônica nº. 131. São Paulo: Globo, 2003.
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VII UNIDADE
A textualidade
proporcionada
pelos critérios de
informatividade e nãocontradição textuais
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Apresentação
Na unidade anterior, você observou que a intertextualidade é um recurso capaz de acionar a reflexão crítica sobre o
texto. Verificou também que ela está diretamente associada
à metalinguagem, pois tal procedimento é relacional. É através dele que um texto absorve outros textos, portanto, esse
recurso é também responsável pela coerência textual.
Nesta unidade, verificaremos como o grau de informatividade presente no texto é medido a partir do conhecimento
de mundo a que ele se destina. Refletiremos também que um
texto precisa respeitar princípios lógicos elementares. “Suas
ocorrências não podem se contradizer, devem ser compatíveis entre si e com o mundo a que se referem”( Costa
VAL.2006).
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Objetivos
Ao término desta unidade, queremos que você:
• Compreenda que o grau de informatividade é responsável pela coerência textual;
• Entenda que um texto coerente é um texto não-contraditório.
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Reflexões iniciais...
Grau de informatividade
do texto
Segundo Koch e Travaglia (2009) ao se deparar com um texto, o leitor
pode ter dificuldade de interpretá-lo ou porque as informações são para
ele superficiais, ou porque falta-lhe domínio do assunto abordado. O que
vai determinar, portanto, se um texto é ou não coerente é o grau de conhecimento existente entre leitor e texto. Se o leitor não possuir conhecimento
prévio suficiente para entender o texto, não ocorrerá interação entre texto
e receptor. Não havendo interação o texto torna-se incoerente para ele.
Levando em consideração que o ato de comunicação é recíproco, é
pertinente afirmar que o grau de conhecimento prévio partilhado entre
leitor e texto é que vai desvendar se o grau de informação do texto é
baixo ou alto a ponto de ter dificultado o estabelecimento da coerência.
Posto isso, parece notório que o conhecimento prévio e o conhecimento partilhado são essenciais no estabelecimento do grau de informatividade do texto, pois estes fatores podem nos apontar se o receptor
é portador ou não dos conhecimentos que ajudarão na compreensão
do texto como um todo significativo.
Costa Val (2006) usa o termo informatividade para explicar “a extensão em que as ocorrências linguísticas apresentadas no texto, no
plano conceitual e no formal, são novas ou inesperadas para os receptores”. Para essa autora a informatividade é medida pelo grau de
previsibilidade apresentado pelo texto. Dessa forma, se um texto for, em
grande parte, previsível menor será o seu caráter informativo, se o texto
surpreender o leitor com informações desconhecidas por ele, maior
será o seu caráter informativo.
Diante disso, Costa Val esclarece que as informações são previsíveis
quando não são novidades para o ouvinte ou leitor; são rapidamente
reconhecidas e de fácil processamento, já as informações imprevisíveis,
aquelas incomuns ao leitor ou ouvinte, fornecem ao texto um aspecto
inovador e proporciona ao leitor/ouvinte um desafio por exigir dele
mais esforço na compreensão. Assim, o texto com um padrão razoável
de informatividade deve conter todas as informações necessárias para
que seja entendido de acordo com intencionalidade do autor.
Já a previsibilidade do texto vai ser determinada pelos conhecimentos adquiridos culturalmente pelos interlocutores no ato da comunicação, pois estes são guardados na memória e ativados durante o processo comunicativo.
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Posto isso, podemos concluir que o grau informatividade de um
texto é medido a partir do conhecimento de mundo das pessoas a que
ele se destina. Isso significa afirmar que o texto dependerá do repertório
cultural do leitor para ser designado como portador de graus de informatividade baixo, médio ou alto.
Veja o exemplo abaixo:
A Literatura do Brasil faz parte das literaturas do Ocidente da Europa. No tempo da nossa independência, proclamada em 1822, formou-se uma teoria nacionalista que
parecia incomodada por este dado evidente e procurou
minimizá-lo, acentuando o que haveria de original, de diferente, a ponto de rejeitar o parentesco, como se quisesse
descobrir um estado ideal de começo absoluto. Trata-se de
atitude compreensível como afirmação política, exprimindo
a ânsia por vezes patética de identidade por parte de uma
nação recente, que desconfiava do próprio ser e aspirava
ao reconhecimento dos outros. Com o passar do tempo foi
ficando cada vez mais visível que a nossa é uma literatura
modificada pelas condições do Novo Mundo, mas fazendo
parte orgânica do conjunto das literaturas ocidentais.
Por isso, o conceito de “começo” é nela bastante relativo, e diferente do mesmo fato nas literaturas matrizes.
A literatura portuguesa, a francesa ou a italiana foram se
constituindo lentamente, ao mesmo tempo que se formavam os respectivos idiomas. Língua, sociedade e literatura
parecem nesses casos configurar um processo contínuo,
afinando-se mutuamente e alcançando aos poucos a maturidade. Não é o caso das literaturas ocidentais do Novo
Mundo.
Com efeito, no momento da descoberta e durante o
processo de conquista e colonização, houve o transplante
de línguas e literaturas já maduras para um meio físico diferente, povoado por povos de outras raças, caracterizados
por modelos culturais completamente diferentes, incompatíveis com as formas de expressão do colonizador. No caso
do Brasil, os povos autóctones eram primitivos vivendo em
culturas rudimentares. Havia, portanto, afastamento máximo entre a cultura do conquistador e a do conquistado,
que por isso sofreu um processo brutal de imposição.
Este, além de genocida, foi destruidor de formas culturais superiores no caso do México, da América Central e
das grandes civilizações andinas.
CANDIDO, Antonio. Iniciação à literatura brasileira. Humanitas publicações – FFLCH/USP. 1999.
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O texto acima contém discussões acerca da teoria literária. Se esse
texto for direcionado a todos os públicos poderá apresentar alto grau
de informatividade, todavia se for endereçado a um público restrito:
aqueles que dominam os conceitos desta área do conhecimento, o
grau de informatividade poderá ser considerado médio, uma vez que
esse público domina o conteúdo em questão. Se o grau de informatividade do texto for muito baixo, o destinatário pode desinteressar-se
por ele, pelo fato de não apresentar informação relevante. Um exemplo
de informação óbvia é o que comumente chamamos “senso comum”.
Observe o exemplo a seguir:
Notamos que o diálogo do texto acima é composto por informações óbvias. O texto não apresenta nenhum grau de informatividade.
A coerência é afetada, pois não existe nenhuma informação relevante
que atraia o publico ao qual se destina. São afirmações irrelevantes e
pautadas no senso comum.
Agora é a sua vez...
Atividade I
Leia o texto seguinte (transcrito tal qual foi produzido) e observe o grau de
informatividade apresentado e responda às questões propostas abaixo.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
“Atualmente, um dos grandes problemas que afetam a
vida de uma sociedade, é a violência nela inserida. Violência essa que devido a vários fatores, segundo sociólogos,
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psicólogos e outros estudantes das ciências humanas, será
praticamente impossível de ser eliminada.
A dificuldade na solução deste problema está na complexidade do mesmo. Várias são as suas causas e para
cada uma se faz necessária uma medida especial, medias
essas que muitas vezes são impossíveis de serem colocadas
em prática.
A violência pode ser gerada pela própria sociedade,
por crises econômicas, por um problema mental do indivíduo, pelo grande número de adeptos ao uso de drogas, e
por uma enorme série de outros fatores.
Devido as perspectivas quase que inexistentes em uma
solução a curto ou médio prazo para a questão da violência,
o melhor a fazer, é se precaver para não se tornar mais uma
vítima de um dos problemas mais sérios da nossa sociedade.
(Redação de aluno. Apud Maria da Graça Costa Val, op.cit.,p.86)
1. Que grau de informatividade o texto acima apresenta? Para fundamentar a
sua resposta analise os seguintes aspectos:
a. A tese apresentada pelo texto;
b. Os argumentos:
c. O desenvolvimento dos argumentos;
d. Informações relevantes;
e. A inovação acerca do tema;
f. estrutura formal do texto no que se refere à coerência.
2. Leia a tirinha abaixo e responda o que se pede:
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dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
a. Segundo Costa Val (2006) “um texto com um bom índice de informatividade precisa atender a outro requisito: a suficiência
de dados. Isso significa que um texto tem que apresentar todas
as informações necessárias para que seja compreendido com o
sentido que o produtor pretende. Não é possível nem desejável
que o discurso explicite todas as informações necessárias ao seu
processamento, mas é preciso que ele deixe inequívocos todos os
dados necessários a sua compreensão aos quais o recebedor não
conseguirá chegar sozinho”(p. 85). De acordo com o pensamento
dessa autora e com as discussões promovidas por esta unidade,
analise o grau de informatividade da tirinha acima.
Continuando a nossa conversa...
A não-contradição do texto
Um texto bem articulado coerentemente possui relações de sentido
entre suas informações, que se relacionam entre si. “A relação existente
em um texto é a maneira como seus conceitos se organizam e os como
exercem seus papeis uns com os outros na sociedade. As relações entre
os fatos têm que estar presentes e ser pertinentes. Isso se constitui como
fator lógico irrefutável. Um texto bem relacionado é um texto não- contraditório. Se ocorrer contradições internas ou externas a textualidade
ficará comprometida. Às vezes, o produtor de determinado texto levanta um ponto de vista (uma tese) e não consegue argumentá-la, os argumentos não passam de informações pautadas no senso comum. Como
resultado disso, o texto começa apresentar informações desencontradas, sem sentido, contraditórias. De acordo com Costa Val (2006)
A coerência resulta também da não-contradição entre as diferentes
partes de um texto que devem estar encadeadas logicamente. Cada
parte é pressuposto da parte seguinte, e assim por diante, formando
assim um entrecruzamento de ideias concatenadas harmonicamente.
Quando ocorre ruptura nessa concatenação, ou quando uma parte
atual do texto é contraditória com a anterior, rompe-se a coerência textual, uma vez que ela é também resultante da adequação do que se diz
ao contexto além texto, ou seja, tudo aquilo a que o texto diz respeito,
que precisa ser conhecido pelo destinatário.
O texto a seguir é uma reportagem da Folha de São Paulo afirmando que a presidenta Dilma Rousseff “em seu contato direto com
os eleitores depois de tomar posse” não entusiasmou a população,
há não ser quando falou do recado que o ex-presidente Luis Inácio
Lula da Silva mandou para os Baianos. Acontece que pela fotografia
ocorre uma nítida contradição, pois imagem e texto escrito não combinam entre si.
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Percebemos que o conjunto de textos é incoerente em decorrência da incompatibilidade entre a imagem e o conteúdo escrito para
explicá-la. Percebe-se que a textualidade está comprometida porque
os segmentos estão desconexos, ou seja; a imagem proporciona uma
leitura e o texto escrito outra. De acordo com a intencionalidade de
quem produziu essa reportagem, a imagem e a escrita deveriam combinar no sentido de um texto reafirmar as informações do outro. Todavia
percebemos que essa harmonia foi quebrada, causando, portanto uma
contradição entre as partes que compõem este gênero textual.
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Vamos praticar um pouco?
O texto a seguir é uma crônica de Carlos Drummond de Andrade, retirada da obra “De notícias e não-notícias faz-se a crônica”. Nela o autor
relata um dia comum de aula. Leia a crônica e responda o que se pede:
DA UTILIDADE DOS ANIMAIS
Terceiro dia de aula. A professora é um amor. Na sala,
estampas coloridas mostram animais de todos os feitios. É
preciso querer bem a eles, diz a professora, com um sorriso
que envolve toda a fauna, protegendo-a. Eles têm direito à
vida, como nós, e além disso são muito úteis. Quem não
sabe que o cachorro é o maior amigo da gente? Cachorro
faz muita falta. Mas não é só ele não. A galinha, o peixe, a
vaca… Todos ajudam.
- Aquele cabeludo ali, professora, também ajuda?
- Aquele? É o iaque, um boi da Ásia Central. Aquele
serve de montaria e de burro de carga. Do pêlo se fazem
perucas bacanas. E a carne, dizem que é gostosa.
- Mas se serve de montaria, como é que a gente vai
comer ele?
- Bem, primeiro serve para uma coisa, depois para outra. Vamos adiante. Este é o texugo. Se vocês quiserem pintar a parede do quarto, escolham pincel de texugo. Parece
que é ótimo.
- Ele faz pincel, professora?
- Quem, o texugo? Não, só fornece o pêlo. Para pincel
de barba também, que o Arturzinho vai usar quando crescer.
Arturzinho objetou que pretende usar barbeador elétrico. Além do mais, não gostaria de pelar o texugo, uma vez
que devemos gostar dele, mas a professora já explicava a
utilidade do canguru:
- Bolsas, mala, maletas, tudo isso o couro do canguru
dá pra gente. Não falando da carne. Canguru é utilíssimo.
- Vivo, fessora?
- A vicunha, que vocês estão vendo aí, produz… produz
é maneira de dizer, ela fornece, ou por outra, com o pêlo
dela nós preparamos ponchos, mantas, cobertores, etc.
- Depois a gente come a vicunha, né fessora?
- Daniel, não é preciso comer todos os animais. Basta
retirar a lã da vicunha, que torna a crescer…
- A gente torna a corta? Ela não tem sossego, tadinha.
- Vejam agora como a zebra é camarada. Trabalha no
circo, e seu couro listrado serve para forro de cadeira, de almofada e para tapete. Também se aproveita a carne, sabem?
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- A carne também é listrada?- pergunta que desencadeia riso geral.
- Não riam da Betty, ela é uma garota que quer saber
direito as coisas. Querida, eu nunca vi carne de zebra no
açougue, mas posso garantir que não é listrada. Se fosse,
não deixaria de ser comestível por causa disto. Ah, o pinguim? Este vocês já conhecem da praia do Leblon, onde
costuma aparecer, trazido pela correnteza. Pensam que só
serve para brincar? Estão enganados. Vocês devem respeitar o bichinho. O excremento – não sabem o que é? O
cocô do pinguim é um adubo maravilhoso: guano, rico em
nitrato. O óleo feito da gordura do pinguim…
- A senhora disse que a gente deve respeitar.
- Claro. Mas o óleo é bom.
- Do javali, professora, duvido que a gente lucre alguma coisa.
- Pois lucra. O pêlo dá escovas é de ótima qualidade.
- E o castor?
- Pois quando voltar a moda do chapéu para os homens, o castor vai prestar muito serviço. Aliás, já presta,
com a pele usada para agasalhos. É o que se pode chamar de um bom exemplo.
- Eu, hem?
- Dos chifres do rinoceronte, Belá, você pode encomendar um vaso raro para o living da sua casa.
Do couro da girafa Luís Gabriel pode tirar um escudo de
verdade, deixando os pêlos da cauda para Tereza fazer um
bracelete genial. A tartaruga-marinha, meu Deus, é de uma
utilidade que vocês não cauculam. Comem-se os ovos e
toma-se a sopa: uma de-lí-cia. O casco serve para fabricar
pentes, cigarreiras, tanta coisa. O biguá é engraçado.
- Engraçado, como?
- Apanha peixe pra gente.
- Apanha e entrega, professora?
- Não é bem assim. Você bota um anel no pescoço
dele, e o biguá pega o peixe mas não pode engolir. Então
você tira o peixe da goela do biguá.
- Bobo que ele é.
- Não. É útil. Ai de nós se não fossem os animais que
nos ajudam de todas as maneiras. Por isso que eu digo:
devemos amar os animais, e não maltratá-los de jeito nenhum. Entendeu, Ricardo?
- Entendi, a gente deve amar, respeitar, pelar e comer os animais, e
aproveitar bem o pêlo, o couro e os ossos.
(Texto extraído de Drummond, Carlos de.
De notícias e não notícias faz-se a crônica. Rio
de Janeiro, José Olympio, 1975)
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a. No decorrer da narrativa existem trechos contraditórios. Identifique-os e
comente-os levando em conta as discussões promovidas por esta unidade.
dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
Encerrando a nossa conversa...
Caros alunos,
Sabemos que na organização de um texto é essencial que todos
os seus segmentos estejam interligados. São eles que proporcionam
nosso processo reflexivo, funcionam como componentes de um todo
e devem articular-se de maneira harmônica para que as informações
não se dispersem. É fundamental saber que a tessitura de um texto não
é resultado de frases soltas e desvinculadas entre si.
Por isso que estudar a coerência textual é de suma importância
para que entendamos o processo de textualidade. Entender os níveis
que promovem a informatividade do texto é perceber que o enunciado
tem por obrigação apresentar informações relevantes para aquele a
que ele se destina.
Compreender também que um texto contraditório compromete a
textualidade, é um requisito fundamental no estudo da coerência textual, pois cada frase enunciada deve ter vínculo com a anterior para
não perder o fio do pensamento, não ocorrendo isso, haverá uma sequência de frases sem nexo, sucedendo-se umas após outras, sem coerência.
Portanto um texto contraditório e com grau nulo de informatividade
é um texto incoerente, e de acordo com Costa Val (2006) “um discurso é aceito como coerente quando apresenta uma configuração
conceitual compatível com o conhecimento de mundo do recebedor.
Essa questão é fundamental. O texto não significa exclusivamente por
si mesmo. Seu sentido é construído não só pelo produtor como também
pelo recebedor, que precisa deter os conhecimentos necessários à sua
interpretação. O produtor do discurso não ignora essa participação do
interlocutor e conta com ela. É fácil verificar que grande parte dos conhecimentos necessários à compreensão dos textos não vem explicita,
mas fica dependendo da capacidade de pressuposição e inferência do
recebedor” (p. 85).
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Resumo
Nesta unidade, estudamos os dois critérios responsáveis pela coerência textual: informatividade e não-contradicao. Vimos que a não-contradicão de um texto é percebida a partir das relações existentes
entre as suas partes. Tais relações referem-se à forma como seus conceitos se encadeiam, como se organizam, que papeis exercem uns em
relação aos outros. E a informatividade é medida pelo grau de previsibilidade apresentado pelo texto. Assim, se um texto for, em grande
parte, previsível menor será o seu caráter informativo, se o texto surpreender o leitor com informações desconhecidas por ele, maior será
o seu caráter informativo. Sendo assim, esses dois critérios são grandes
contribuintes no estabelecimento de sentido do texto.
Autovaliação
Agora é sua vez...
Os temas abaixo são sugestões para você desenvolver argumentos
pertinentes a eles, dando-lhes um caráter mais informativo, que fuja do
senso-comum. Cuidado! Não entre em contradição no momento de
desenvolvê-los.
a) A leitura é fundamental para a formação do indivíduo.
b) A sociedade deve lutar pelo direito da cidadania.
c) Uma boa educação é fundamental para o desenvolvimento de
toda nação.
d) É necessário preservar o meio ambiente, pois nossas crianças de
hoje dependerão dele amanhã.
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dica. utilize o bloco
de anotações para
responder as atividades!
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Leitura recomendada
“A intenção deste livro é fixar
algumas noções básicas acerca da
propriedade textual da coesão e de
sua relação com a coerência, com
o objetivo de desenvolver nossa
competência para falar, ouvir, ler
e escrever textos, com mais relevância, consistência e adequação.
Isso contribuirá para que todo leitor
compreenda o que fazer para deixar o seu texto articulado, encadeado,
coeso e coerente”(Sinopse da livraria Saraiva).
Referências
ANDRADE, Carlos Drummond de. De notícias e não notícias faz-se a
crônica. Rio de Janeiro, José Olympio, 1975.
AZEREDO, José Carlos (org.). Repensando a textualidade. In: Língua
portuguesa em debate: conhecimento e ensino. 4. ed. Petrópolis, RJ:
Vozes, 2007.
CANDIDO, Antonio. Iniciação à literatura brasileira. Humanitas
publicações – FFLCH/USP. 1999.
COSTA VAL, Maria da Graça. Redação e textualidade. São Paulo:
Martins Fontes, 2006.
KOCH, Ingedore Villaça; TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Coerência e
Ensino. In: A Coerência Textual. 17ed. São Paulo: Contexto, 2009.
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VIII UNIDADE
Revisão dos fatores
responsáveis pela coesão
e coerência textuais
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Apresentação
Nas unidades anteriores, vimos que para que um texto seja dotado
de sentido/ textualidade, ele precisa ser coeso e coerente. Para isso faz-se necessário que ele se constitua de fatores, tais como: articulação de
ideias; progressão e continuidade; informatividade, não-contradição;
intertextualidade; intencionalidade, situacionalidade e aceitabilidade.
Nesta unidade, resumiremos esses fatores e os relacionaremos com
atividades de análise de redações elaboradas por diversos usuários da
língua.
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objetivos
Ao término desta unidade, queremos que você
• Relembre que a relação entre coesão e coerência é essencial
ao estabelecimento da textualidade;
• Revise os fatores responsáveis pela coesão e coerência textuais.
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Reflexões iniciais...
Vamos relembrar?
Um texto não é uma unidade construída por uma adição de sentenças, mas, sim, pelo encadeamento semântico
delas, resultando, dessa maneira, em uma trama semântica
a que denominamos de textualidade. O encadeamento semântico que produz a textualidade chama-se coesão. Podemos definir a coesão através do estabelecimento de fatores
que, de acordo com Marcuschi “dão conta da estruturação
da sequência superficial do texto, ‘afirmando que não se
trata de princípios meramente sintáticos, mas de’ uma espécie de semântica da sintaxe textual, ‘isto é, dos mecanismos
formais de uma língua que permitem estabelecer, entre os
elementos linguísticos do texto, relações de sentido”.
Vamos tomar um texto simples, e assim facilmente poderemos perceber como acontece o encadeamento dos sintagmas, das frases, dos
parágrafos, das partes do texto, constituindo o processo coesivo.
PODER INVISÍVEL
Noêmia Lopes
A gente não vê, mas a água de rios, lagos e mares tem moradores incríveis: o plâncton, seres minúsculos e essenciais para
a vida na Terra.
Nessa turma estão algas, bactérias, fungos, crustáceos, moluscos e outras criaturas microscópicas. Alguns não tem membros para locomoção e outros são pequenos demais para nadar.
Por isso, eles ficam flutuando na água.
Existem dois tipos de plâncton, o vegetal e o animal. Os dois
servem de comida para vários animais, por isso são importantes
no equilíbrio da cadeia alimentar. Além disso, o plâncton vegetal
faz a fotossíntese e fornece grande parte do oxigênio que existe
no planeta.
(RECREIO, Ano10, nº 504, 5/11/2009)
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Vamos começar a destrinchar esse texto por uma pergunta clássica
das aulas de leitura: do que fala do texto? Claro que você consegue
responder essa pergunta facilmente. E um dos motivos para isso é que o
texto está muito bem tramado do ponto de vista de sua coesão textual.
Veja que o modo como os sintagmas, as frases, as três partes do texto
estão encadeados de forma a não oferecem qualquer dúvida quanto
aos elementos a que estão sendo feitas as referências no texto. Vamos
ver como isso acontece:
Primeiramente, ficamos sabendo quem são os moradores incríveis
porque eles estão anunciados justamente após o termo moradores incríveis.
A gente não vê, mas a água de rios, lagos e mares tem moradores incríveis: o
plâncton, seres minúsculos e essenciais para a vida na Terra.
Veja bem, só essa ordem em que os termos estão dispostos, um
imediatamente após o outro, separados pelo sinal de pontuação, os
dois pontos, já é indicativo de que o segundo termo, o plâncton, deve
ser tomado como referente ao primeiro, moradores incríveis. Esse já é
um fator de coesão. Para ficar bem claro por que esses seres são incríveis, a adjetivação não deixa dúvida: eles são minúsculos e essenciais
para a vida na Terra.
O segundo parágrafo se inicia através do sintagma nessa turma.
Imediatamente, o leitor faz uma remissão para o parágrafo anterior,
que é onde se encontra o termo referido por nessa turma. Já foi feita
aqui a ligação entre os dois primeiros parágrafos do texto. Continuando a leitura, deparamo-nos como o termo alguns. Dá para recuperar a
quem ele se refere? Se sim, a coesão continua sendo garantida. Logo
à frente, encontramos o termo outros. Mais uma vez, sabemos perfeitamente quem são esses outros no texto. E eles?
Você está vendo, não há como o leitor perder o fio do texto, se ele
segue as pistas linguístico-gramaticais que o autor maneja para construir seu texto.
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E a coerência textual, como é estabelecida,
e qual é a sua relação com a coesão?
Para entendermos o que é coerência textual, devemos compreender, inicialmente, a noção de texto, pois sabemos que:
a linguística textual, desenvolvida sobretudo na Europa a partir do final da década de 60, tem se dedicado a estudar a natureza do texto e os fatores envolvidos em sua produção e recepção. Essa teoria,
na medida em que busca esclarecer o que é e como
se produz um texto, merece ser conhecida e considerada por quem se interessa pelo trabalho com a
expressão escrita na escola (VAL. 1991.p. 02).
Inicialmente, podemos começar pela noção de coerência e sua relação com a coesão.
A coerência de um texto tem a ver “com a boa formação” do próprio texto. Mas esse critério não diz respeito apenas à noção da competência gramatical que este apresenta, ele se refere, sobretudo, “a uma
boa formação em termos de interlocução comunicativa”. Dessa forma,
entendemos que a coerência se estabelece através do processo de interação, de interlocução e numa dada situação de comunicação entre
usuários da língua. Ela se constitui como a possibilidade de estabelecimento entre aquilo que se diz e como esse dizer é compreendido e
aceito pelos interlocutores. Esse processo de comunicação é resultado
de uma unidade global capaz de “dá continuidade de sentidos perceptível no texto”. Essa unidade global depende não apenas dos elementos
constitutivos do texto, mas
de fatores socioculturais diversos, devendo ser vista
não só como o resultado de processos cognitivos,
operantes entre os usuários, mas também de fatores interpessoais como as formas de influência do
falante na situação de fala, as intenções comunicativas dos interlocutores, enfim, tudo o que se possa
ligar a uma dimensão pragmática da coerência.
Os processos cognitivos caracterizam a coerência
à medida que possibilitam criar um mundo textual
em face do conhecimento de mundo registrado na
memória, o que levaria à compreensão do texto
(KOCH E TRAVAGLIA, 2009. p. 12).
Como podemos observar a coerência é responsável pelo sentido
do texto. Esse sentido envolve os fatores semânticos e cógnitivos. Daí,
afirmarmos que ela é, “ao mesmo tempo, semântica e pragmática”. Do
ponto de vista semântico, podemos destacar o princípio da interpretabilidade, uma vez que o texto necessita do conhecimento partilhado
entre os interlocutores. De acordo com Koch e Travaglia (2009) esse
princípio “tem a ver com a produção do texto à medida que quem o faz
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quer que seja entendido por seu interlocutor, conforme se supõe pelo
princípio da cooperação” (p.13).
Assim, um texto é coerente no momento em que for compatível
com o conhecimento de mundo do receptor. Partindo dessa afirmação,
entendemos que a produção de texto não existe em si mesma, mas sim,
através da união entre locutor, interlocutor e o mundo partilhado por
ambos. Podemos sintetizar a relação de coerência do texto evidenciado
dois fatores: os fatores linguísticos (coesão, coerência e intertextualidade) e os fatores extralinguísticos (intencionalidade, aceitabilidade, informatividade e situalidade).
A coerência textual convive com a coesão textual. Elas formam uma
espécie de par “opositivo/distintivo”, segundo Koch e Travaglia. A coesão se difere da coerência porque ela é explicitamente nítida na superfície do texto através de seus elementos linguísticos. Por isso possui um
“caráter linear” e a observamos através da sintaxe e gramática do texto.
Mas de acordo com Halliday e Hasan (1976) ela também possui um
caráter semântico, uma vez que liga os elementos superficiais do texto,
interferindo na maneira como estes se relacionam, na combinação das
frases e nos períodos, tudo isso, “para assegurar um desenvolvimento
proporcional” (p. 36).
Que tal agora refletirmos acerca dos
conceitos de coerência textual?
Conceitos de coerência textual de acordo com alguns estudiosos da
língua citados por Koch e Travaglia, no livro “Texto e coerência”
Segundo Franck (1980), a coerência é a ligação formal entre os termos sequenciais, tais como: enunciados, frases, atos ilocutórios. Essa
ligação relaciona esses termos uns com os outros “e os insere numa
forma de organização superior como, por exemplo, nomes em uma lista, frases em texto, atos de fala numa sequência dialógica etc.”(KOCH
E TRAVAGLIA. 2009, p. 16).
Já Beaugrande e Dressler (1981) acreditam que a coerência é a
responsável pela continuidade dos sentidos do texto. Ela é “o resultado da atualização de significados potenciais que vai configurar um
sentido”. Ou seja, é o resultado dos conhecimentos partilhados pelos
usuários. Assim, a coerência é responsável por acionar os processos
cognitivos. Tais processos divulgam a conexão conceitual. Um desses
processos é o conhecimento declarativo – aquele que sugere crenças
que dizem respeito aos fatos do mundo real - e o conhecimento “procedural” – valores guardados na memória e acionados como parte argumentativa sempre que o usuário necessitar. Para Widdowson (1978) a
coerência está diretamente ligada ao desenvolvimento dos atos da fala.
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Nesse sentido, os enunciados são dotados de ações (pedido, conselho,
aviso, ordem, promessa etc.) que se concretizam a partir das condições
impostas a esses enunciados. O exemplo a seguir determina com precisão esse conceito, vejamos:
Temos o seguinte enunciado:
1. O carro está com defeito.
1.1. O carro – conteúdo proporcional que faz parte
do mundo real.
1.2. está com defeito – informação a respeito do seu
estado (ato de
predicação)
1.3. Através dessa enunciação podem-se apresentar
diversos atos de fala, tais como:
1.4.Uma ordem: o dono da oficina manda o funcionário consertar o carro com defeito.
1.5. Um pedido: o dono do carro pede a alguém
que esteja passando por perto para ajudá-lo a
empurrar o carro até a oficina mais próxima.
1.6. Uma asserção: o dono constata que o carro está
com defeito.
Segundo Bernárdez (1982) apud Salomon Marcus (1980) a coerência é semântica, sintática e pragmática. De ponto de vista semântico
ela se manifesta na unidade textual, ou seja, o texto atua como unidade
para remeter ao seu sentido global. É sintática porque é recuperada,
quando necessária, através da “sequência linguística” que forma a unidade do texto e é pragmática, uma vez que o sentido depende um contexto intencional. Assim, “a coerência [...] é não só uma propriedade
do texto, mas também um processo em que não é possível estabelecer
uma diferença marcante entre os níveis pragmático, semântico e sintático” (op. cit. p. 19).
Os linguistas Van Dijk e Kintsch (1983) afirmavam que coerência era “uma propriedade lógica do texto”, atualmente esses autores
acreditam que ela encontra-se estabelecida nas diversas situações de
comunicação dos usuários que possuem “modelos cognitivos comuns
ou semelhantes”, propiciados por determinado contexto cultural. Eles
falam de dois tipos de coerência: local – aquela que ocorre na superfície do texto – e global – aquela que faz parte do texto como um todo.
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Ainda classificam-na em: coerência semântica, sintática, estilística e
pragmática.
Para o autor Marcuschi a coerência “é a organização reticulada ou
tentacular do texto, não linear, portanto, dos níveis de sentido e intenções que realizam a coerência no aspecto semântico e função pragmática” (op. cit. p. 21). Dessa forma, para esse linguista, como também
para os linguistas Beaugrande e Dressler, a coerência é estabelecida
através dos elementos que dão continuidade ao sentido do texto.
Caro aluno! Pretendemos com essa exposição dos conceitos de coesão e coerência difundidos por Koch e Travaglia, em obra já citada,
que vocês adquiram uma visão global do que se entende por esses dois
critérios.
Que tal, agora, vocês praticarem um pouco?
Atividade I
1. Leia o texto a seguir, e faça uma análise dos fatores responsáveis pela sua
coesão.
“A atividade de leitura em sala de aula, em toda sua
complexidade, como sabemos, não é uma tarefa fácil para
o professor de Língua Portuguesa, mas também não deve
ser uma tarefa enfadonha e improdutiva. Os PCN prescrevem que as práticas de leitura e produção de textos não
devem limitar-se a um gênero específico, já que a pluralidade textual possibilita o leque de ferramentas que interagem nas relações sociais, permitindo a ampliação dos
horizontes do aluno. Assim como, o trabalho com o texto
não pode limitar-se a uma prática arraigada a certa tradição, nem mesmo se deve considerar o texto como pretexto
ou exemplificação da Gramática da frase e sim promover
um ensino produtivo que permita dotar os alunos de uma
sólida capacidade de manejo com o texto, propiciando
enriquecer o repertório, socializar os gêneros discursivos,
solidificar os tipos textuais, desvendar os implícitos, ativar e
estimular, cognitivamente as inferências, bem como outras
estratégias de leitura”.
(Irandé Antunes)
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Continuando a nossa conversa...
Coesão e coerência: critérios que se complementam
Como podemos observar, os teóricos que estudam as relações de
coesão e coerência concordam que esses critérios estão, indiscutivelmente, relacionados no processo de produção e interpretação textual.
A coerência é entendida como “a configuração conceitual subjacente e responsável pelo sentido do texto, e a coesão como sua expressão no plano linguístico” (VAL, 2000. p. 20). Sendo assim, a coesão
contribui para o estabelecimento da coerência, mas não assegura a
sua obtenção. Segundo alguns autores a coesão é em parte responsável pela coerência, porque apenas os elementos linguísticos não são
suficientes para garantir a coerência de um texto. Por isso, conclui-se
que essa contribuição é apenas parcial, uma vez que o uso adequado
esses elementos sozinhos, sem que o leitor acione os recursos extralinguísticos, são insuficientes para que se compreenda o sentido global
do enunciado.
Atividade II
1. De acordo com os conceitos de coesão e coerência discutidos
anteriormente nesta aula, observe o texto abaixo e conclua se ele é coeso
e coerente aplicando o que vimos até agora acerca deste assunto:
A VELHA CONTRABANDISTA
Diz que era uma velhinha que sabia andar de lambreta.
Todo dia ela passava pela fronteira montada na lambreta,
com um bruto saco atrás da lambreta. O pessoal da Alfândega – tudo malandro velho – começou a desconfiar
da velhinha.
Um dia, quando ela vinha na lambreta com o saco
atrás, o fiscal da Alfândega mandou ela parar. A velhinha
parou e então o fiscal perguntou assim pra ela:
- Escuta aqui, vovozinha, a senhora passa por aqui
todo dia, com esse saco aí atrás. Que diabo a senhora
leva nesse saco?
A velhinha sorriu com os poucos dentes que lhe resta-
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vam e mais os outros, que ela adquirira no odontólogo e
respondeu:
- É areia!
Aí quem sorriu foi o fiscal. Achou que não era areia
nenhuma e mandou a velhinha saltar da lambreta para
examinar o saco. A velhinha saltou, o fiscal esvaziou o saco
e dentro só tinha areia. Muito encabulado, ordenou à velhinha que fosse em frente. Ela montou na lambreta e foi
embora, com o saco de areia atrás.
Mas o fiscal ficou desconfiado ainda. Talvez a velhinha passasse um dia com areia e no outro com muamba,
dentro daquele maldito saco. No dia seguinte, quando ela
passou na lambreta com o saco atrás, o fiscal mandou
parar outra vez. Perguntou o que é que ela levava no saco
e ela respondeu que era areia, uai! O fiscal examinou e
era mesmo. Durante um mês seguido o fiscal interceptou
a velhinha e, todas as vezes, o que ela levava no saco era
areia.
Diz que foi aí que o fiscal se chateou:
- Olha, vovozinha, eu sou fiscal de alfândega com 40
anos de serviço. Manjo essa coisa de contrabando pra burro. Ninguém me tira da cabeça que a senhora é contrabandista.
- Mas no saco só tem areia! – insistiu a velhinha. E já ia
tocar a lambreta, quando o fiscal propôs:
- Eu prometo à senhora que deixo a senhora passar.
Não dou parte, não apreendo, não conto nada a ninguém,
mas a senhora vai me dizer: qual é o contrabando que a
senhora está passando por aqui todos os dias?
- O senhor promete que não “espaia” ? – quis saber a
velhinha.
- Juro – respondeu o fiscal.
- É lambreta.
(Stanislaw Ponte Preta)
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Encerrando a nossa conversa...
Fatores de coerência: uma breve revisão
Como vimos, a textualidade se constitui a partir de fatores que
fazem do texto não apenas uma sequência de frases, mas um todo
constituído de sentido. Beaugrande e Dressier denominam tais fatores,
como: intencionalidade, aceitabilidade, situacionalidade, intertextualidade e
informatividade e não-contradicão.
Ingedore Koch define o texto como um produto em constante
transformação, algo inacabado, no entanto a partir da construção de
sentido através do conteúdo fornecido, dos saberes acumulados, do
conhecimento linguístico e do conhecimento de mundo, se instaura o
processamento estratégico, que acontece por meio da interação verbal
entre interlocutores no ato da comunicação.
Para que aconteça êxito no processamento estratégico, os princípios de textualidade são de suma importância. De acordo com essa
autora, a intencionalidade é a finalidade de o produtor confeccionar um
texto com textualidade, pois garante a interação entre autor e destinatário, contribuindo assim, para a realização das intenções e efeitos que
o texto proporcionará ao leitor.
A aceitabilidade é a disposição do destinatário de aceitar um texto
que possua importância para ele, tanto pelo conhecimento transmitido
como pelo jogo de interação entre autor e destinatário.
Desse modo, os efeitos de sentido que o texto pode proporcionar
ao leitor, do ponto de vista da compreensão, da consideração e da
reação, dependerá da construção de sentidos, que é proporcionada
pela intencionalidade e pela aceitabilidade no jogo dialógico no ato
da comunicação
Quanto mais o destinatário tiver conhecimento acerca do tema em
questão, mais eficaz será a interação entre os interlocutores.
Assim, os critérios de intencionalidade e aceitabilidade são de suma
importância na interação verbal, uma vez que são aspectos essenciais
na construção de sentido do texto, por estabelecerem maior nível de inferências e relações com outros textos. Tais inferências contribuem para
que se perceba também as relações que um texto possui com outros
textos, ou seja, proporcionam a percepção da intertextualidade.
A situacionalidade de acordo com Marcuschi (2008) “é o critério que
se refere ao fato de relacionamento do evento textual à situação (social,
cultural, ambiente etc) em que ele acontece. Ela além de interpretar e
relacionar o texto ao contexto interpretativo, orienta a própria atividade
textual. É um critério de adequação textual que se refere aos fatores que
tornam o texto importante em dada situação. Segundo Koch e Travaglia
(2009) esse critério pode ser entendido sob duas óticas. Observemos:
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“a) da situação para o texto – neste caso, trata-se de determinar em
que medida a situação comunicativa interfere na produção/recepção do texto. Sendo que a situação pode ser entendida tanto em
sentido estrito (situação comunicativa propriamente dita), como
em sentido amplo (o contexto sócio-político-cultural em que a interação está inserida). O lugar e o momento da comunicação vão
influir tanto na produção do texto, como na sua compreensão;”
“b) do texto para a situação: também o texto tem reflexos importantes
sobre a situação comunicativa. Ao construir um texto o produtor
recria o mundo de acordo com seus objetivos, logo, o mundo
criado pelo texto não é uma cópia fiel do mundo real, o mundo
representado textualmente é aquele visto pelo produtor, a partir de
suas perspectivas”.
Segundo Koch e Travaglia (2009) ao se deparar com um texto, o
leitor pode ter dificuldade de interpretá-lo ou porque as informações
são para ele superficiais, ou porque falta-lhe domínio do assunto abordado. O que vai determinar, portanto, se um texto é ou não coerente
é o grau de conhecimento existente entre leitor e texto. Se o leitor não
possuir conhecimento prévio suficiente para entender o texto, não ocorrerá interação entre texto e receptor. Não havendo interação o texto
torna-se incoerente para ele.
Levando em consideração que o ato de comunicação é recíproco, é
pertinente afirmar que o grau de conhecimento prévio partilhado entre
leitor e texto é que vai desvendar se o grau de informação do texto é baixo
ou alto a ponto de ter dificultado o estabelecimento da coerência.
Posto isso, parece notório que o conhecimento prévio e o conhecimento partilhado são essenciais no estabelecimento do grau de informatividade do texto, pois estes fatores podem nos apontar se o receptor
é portador ou não dos conhecimentos que ajudarão na compreensão
do texto como um todo significativo.
Costa Val (2006) usa o termo informatividade para explicar “a extensão em que as ocorrências linguísticas apresentadas no texto, no plano
conceitual e no formal, são novas ou inesperadas para os receptores”.
Para essa autora a informatividade é medida pelo grau de previsibilidade apresentado pelo texto. Dessa forma, se um texto for, em grande
parte, previsível menor será o seu caráter informativo, se o texto surpreender o leitor com informações desconhecidas por ele, maior será o seu
caráter informativo.
Diante disso, Costa Val esclarece que as informações são previsíveis quando não são novidades para o ouvinte ou leitor; são rapidamente reconhecidas e de fácil processamento, já as informações
imprevisíveis, aquelas incomuns ao leitor ou ouvinte, fornecem ao texto um aspecto inovador e proporciona ao leitor/ouvinte um desafio
por exigir dele mais esforço na compreensão. Assim, o texto com um
padrão razoável de informatividade deve conter todas as informações
necessárias para que seja entendido de acordo com intencionalidade
do autor.
Já a previsibilidade do texto vai ser determinada pelos conhecimenTeoria Linguísticas II
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tos adquiridos culturalmente pelos interlocutores no ato da comunicação, pois estes são guardados na memória e ativados durante o processo comunicativo.
Posto isso, podemos concluir que o grau informatividade de um
texto é medido a partir do conhecimento de mundo das pessoas a que
ele se destina. Isso significa afirmar que o texto dependerá do repertório
cultural do leitor para ser designado como portador de graus de informatividade baixo, médio ou alto.
Um texto bem articulado coerentemente possui relações de sentido
entre suas informações, que se relacionam entre si. “A relação existente
em um texto é a maneira como seus conceitos se organizam e os como
exercem seus papeis uns com os outros na sociedade. As relações entre
os fatos têm que estar presentes e ser pertinentes. Isso se constitui como
fator lógico irrefutável. Um texto bem relacionado é um texto não- contraditório. Se ocorrer contradições internas ou externas a textualidade
ficará comprometida. Às vezes, o produtor de determinado texto levanta um ponto de vista (uma tese) e não consegue argumentá-la, os argumentos não passam de informações pautadas no senso comum. Como
resultado disso, o texto começa a apresentar informações desencontradas, sem sentido, contraditórias. De acordo com Costa Val (2006)
A coerência resulta também da não-contradição entre as diferentes
partes de um texto que devem estar encadeadas logicamente. Cada
parte é pressuposto da parte seguinte, e assim por diante, formando
assim um entrecruzamento de ideias concatenadas harmonicamente.
Quando ocorre ruptura nessa concatenação, ou quando uma parte
atual do texto é contraditória com a anterior, rompe-se a coerência textual, uma vez que ela é também resultante da adequação do que se diz
ao contexto além texto, ou seja, tudo àquilo a que o texto diz respeito,
que precisa ser conhecido pelo destinatário.
De acordo com a Linguística Textual a intertextualidade é um dos
fatores de textualidade, pois todo texto faz remissão a outro texto ainda que inconscientemente. Desse modo, tanto quem produz um texto
quanto quem o recebe recorre ao conhecimento prévio de outros textos.
O conhecimento prévio sobre algo que foi exposto anteriormente é
de grande importância para elaboração de um sentido ao novo texto,
assim como contribuem com os conceitos que se instauram do mundo,
da cultura e dos estereótipos. É natural que, ao confeccionar um texto,
o autor se valha daquilo que já vivenciou.
Os conceitos referentes à intertextualidade são objetos de reflexão
constantes na linguística contemporânea, porque sempre um texto dialoga com outro que o antecedeu no tempo e no espaço de sua produção.
Ao dialogar conscientemente com um texto anterior, nem sempre o
autor faz referência à fonte, pois imagina que o leitor ative seu conhecimento de mundo e compartilhe com ele das informações a respeito dos
textos que compõem um determinado universo cultural.
De acordo com a teoria de Bakhtiniana acerca do dialogismo, os
enunciados produzidos só adquirem sentido quando ocorre a interação
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verbal. A enunciação ocorre na relação com o outro e só desta forma
é que ganha sentido, pois
[...] todo falante é por si mesmo um respondente
em maior ou menor grau: porque ele é o primeiro falante, o primeiro a ter violado o terno silêncio do universo do universo, e pressupõe não só
a existência do sistema da língua que usa, mas
também de alguns enunciados antecedentes – dos
seus e alheios – com os quais o seu enunciado entra nessas ou naquelas relações (baseia-se neles,
polemiza com eles, simplesmente os pressupõe já
conhecidos do ouvinte). Cada enunciado é um elo
na corrente complexamente organizada de outros
enunciados (BAKTHIN. 2003, p. 272).
Assim ocorre a experiência discursiva individual, que “se forma e se
desenvolve em uma interação constante e contínua com os enunciados
individuais dos outros” (op. cit. 2003, p. 294).
Dessa interação constante entre os textos emerge o caráter intertextual. A própria constituição da palavra intertextualidade já deixa notória
a relação que existem entre os textos. Evidentemente, que o sentido de
texto aqui é visto como um recorte significativo feito no processo ininterrupto na imensa rede sd significações dos bens e valores culturais.
Dessa forma, a intertextualidade “encontra-se na base de constituição
de todo e qualquer dizer” (KOCH, 2006, p. 75).
As diversas transformações verificadas na arte em geral têm levado
muitos artistas a dialogarem não com a realidade aparente das coisas,
mas com a realidade da própria linguagem. Compartilhando o seu
espaço com as artes de modo geral, a linguagem literária, por exemplo, alargou-se internamente, ao se apropriar de uma vasta gama de
materiais estilísticos e formais pertencentes a outros espaços artísticos.
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Leituras recomendadas
”Este livro procura condensar noções relevantes dessa teoria e aplicá-las à analise de
redações de vestibular, na tentativa de estabelecer um diagnóstico e levantar sugestões para
o trabalho com a expressão escrita na escola”.
“Toda a cultura, incluindo a produção literária, dialoga com outras produções por meio
de um processo intertextual. Todo o texto retoma outro texto, relativizando a questão da
autoria. Na produção literária, são vistas as
epígrafes, a citação, a referência, a alusão.
São especialmente destacados a paráfrase, a
paródia, o pastiche e a tradução. A intertextualidade ainda é abordada na perspectiva da
recepção e da história literária. Além da parte
teórica, ricamente exemplificada, as autoras
propõem para esta obra uma prática de vinte e
uma atividades”(Sinopse Livraria Saraiva).
“A intenção deste livro é fixar algumas
noções básicas acerca da propriedade textual
da coesão e de sua relação com a coerência,
com o objetivo de desenvolver nossa competência para falar, ouvir, ler e escrever textos,
com mais relevância, consistência e adequação. Isso contribuirá para que todo leitor compreenda o que fazer para deixar o seu texto
articulado, encadeado, coeso e coerente” (Sinopse da Livraria Saraiva).
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Resumo
A coesão é estudada no interior da teoria da linguística textual como
uma propriedade do texto falado ou escrito, responsável pelos sucessivos
encadeamentos de termos, de frases, de parágrafos, de modo que este texto como produto, se apresente como uma unidade de sentido. E a coerência textual convive harmoniosamente com a coesão textual. Elas formam
uma espécie de par “opositivo/distintivo”. Mas a textualidade ultrapassa a
coesão gramatical e a lexical, pois o sentido do texto depende de “certo
grau de coerência” que abrange os diversos elementos tanto do interior da
produção quanto do seu exterior. Por isso, a coesão não é condição única
para que o texto seja um todo significativo. Para a obtenção da coerência
e o alcance da compreensão concorrem também fatores de ordem pragmática, tais como: o contexto de situação, os atos de fala, as intenções
do produtor e do receptor, grau de informatividade, não-contradicão e
intertextualidade. Fatores como esses influenciam a interação do leitor com
o texto e são vistos como aspectos fundamentais nesse jogo interativo, pois
criam condições para que a comunicação se estabeleça.
Autovaliação
Este é o momento em que você deverá avaliar se seu aprendizado
se deu a contento. Portanto, a proposta de autoavaliação que sugerimos
deve ser realizada com bastante segurança. Se você considera que suas
leituras ainda não foram suficientes para realizá-la, é importante que
você retome as leituras, as discussões com o professor e os colegas, de
modo a ter segurança para realizar a atividade que sugerimos a seguir:
Leia os textos abaixo: PODER INVISÍVEL e O DETERMINISMO GEOGRÁFICO. Compare os dois, levando em consideração seu trabalho como
leitor/leitora para seguir as pistas coesivas e coerentes nos dois textos,
na tentativa de compreendê-los.
Agora responda: o fato desses dois textos serem de gêneros diferentes, estarem endereçados (intencionalidade) a públicos diferentes
(aceitabilidade) , faz com que haja maior dificuldade em reconhecer as
pistas linguísticas neles presentes? Por quê?
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Lembre-se de que, para responder a essa questão, você deve se
ater aos critérios de coesão e coerência textuais responsáveis pela textualidade. Entra em jogo aqui o grau de informatividade acerca dos temas
tratados nos textos.
TEXTO I
PODER INVISÍVEL
Noêmia Lopes
A gente não vê, mas a água de rios, lagos e mares tem moradores incríveis: o plâncton, seres minúsculos e
essenciais para a vida na Terra.
Nessa turma estão algas, bactérias, fungos, crustáceos, moluscos e outras criaturas microscópicas. Alguns
não tem membros para locomoção e outros são pequenos
demais para nadar. Por isso, eles ficam flutuando na água.
Existem dois tipos de plâncton, o vegetal e o animal. Os dois servem de comida para vários animais, por
isso são importantes no equilíbrio da cadeia alimentar.
Além disso, o plâncton vegetal faz a fotossíntese e fornece
grande parte do oxigênio que existe no planeta.
(RECREIO, Ano10, nº 504, 5/11/2009)
TEXTO II
O DETERMINISMO GEOGRÁFICO
O determinismo geográfico considera que as diferenças do ambiente físico condicionam a diversidade cultural.
São explicações existentes desde a Antiguidade, do tipo
das formuladas por Pollio, Ibn Khaldun, Bodin e outros,
como vimos anteriormente.
Estas teorias, que foram desenvolvidas principalmente
por geógrafos no final do século XIX e no início do século
XX, ganharam uma grande popularidade. Exemplo significativo desse tipo de pensamento pode ser encontrado em
Huntington, em seu livro Civilization and Climate (1915),
no qual formula uma relação entre a latitude e os centros
de civilização, considerando o clima como um fator importante na dinâmica do progresso.
A partir de 1920, antropólogos como Boas, Wissler,
Kroeber, entre outros, refutaram este tipo de determinismo
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e demonstraram que existe uma limitação na influência geográfica sobre os fatores culturais. E mais: que é possível e
comum existir uma grande diversidade cultural localizada
em um mesmo tipo de ambiente físico.
Tomemos, como primeiro exemplo, os lapões e os esquimós. Ambos habitam a calota polar norte, os primeiro
no norte da Europa e os segundos no norte da América.
Vivem, pois, em ambientes geográficos muito semelhantes,
caracterizados por um longo e rigoroso inverno. Ambos
têm ao seu dispor flora e fauna semelhantes. Era de se
esperar, portanto, que encontrassem as mesmas respostas
culturais para a sobrevivência em um ambiente hostil. Mas
isto não ocorre:
Os esquimós constroem suas casas (iglus) cortando
blocos de neve e amontoando-os num formato de colméia.
Por dentro a casa é forrada com pelos de animais e com o
auxílio do fogo conseguem manter o seu interior suficientemente quente. É possível, então, desvencilhar-se das pesadas roupas, enquanto no exterior da casa a temperatura
situa-se a muitos graus abaixo de zero grau centígrado.
Quando deseja, o esquimó abandona a casa tendo que
carregar apenas os seus pertences e vai construir um novo
retiro
Os lapões, por sua vez, vivem em tendas de peles de
rena. Quando desejam mudar os seus acampamentos,
necessitam realizar um árduo trabalho que se inicia pelo
desmonte, pela retirada do gelo que se acumulou sobre as
peles, pela secagem das mesmas e o seu transporte para
o novo sítio.
Em compensação, os lapões são excelentes criadores
de renas, enquanto tradicionalmente os esquimós limitam-se à caça desses mamíferos.
A aparente pobreza glacial não impede que os esquimós tenham uma desenvolvida arte de esculturas em pedra-sabão e nem que resolvam os seus conflitos com uma
sofisticada competição de canções entre os competidores.
Um segundo exemplo, transcrito de Felix Keesing, é a
variação cultural observada entre os índios do sudoeste
norte-americano: (...)
(LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito Antropológico. 11. ed. Rio de Janeiro:
Zahar Editor. 1997, p. 21-22).
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Vozes, 2007.
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