In: ENCONTRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS, 2., 2002, Recife. Anais... Recife: Observatório da Realidade Organizacional : PROPAD/UFPE : ANPAD, 2002. 1 CD. Violência, Teoria Institucional e Organizações Policiais Marcus Vinicius Gonçalves da Cruz Ana Luisa Castro Almeida Resumo A forte repercussão na sociedade e no Estado brasileiro dos episódios de violência, especialmente os que ganham espaço na mídia, começam a tornar ainda mais aguda a percepção da violência. A idéia principal deste artigo é contribuir para a compreensão desse fenômeno pela análise do sistema de justiça criminal a partir da conversação entre uma das vertentes da teoria das organizações – o novo institucionalismo, tendo como eixo de análise as organizações policiais. A partir dos mecanismos sugeridos por autores como Powell e DiMaggio (1991) esse artigo procura identificar as pressões institucionais que podem levar as organizações policiais responsáveis pelo combate à violência ao isomorfismo, e a pressão cada vez maior proporcionada pela cobertura da mídia. Os resultados apontam para um amplo leque a ser coberto pelos estudos organizacionais e algumas características isomórficas das instituições policiais. Abstract The burst of violence in the Brazilian nation and in its society has launched a strong repercussion, specially those highlighted by the media that made its perception even more noticeable. The main idea of this article is to contribute to the understanding of this phenomenon through the analysis of the criminal justice system starting from the conversation (dialogue) among one of the streams of the organizational theory, the new institutionalism, focusing its analysis on the police organizations. Starting from the mechanisms proposed by authors like Powell and Dimaggio(1991) this article tries to identify the institutional pressure that can lead the police organizations responsible for the fight against violence to isomorphism, and the growing pressure due to the media coverage. The results imply a wide range to be covered by the organizational studies and some isomorphic characteristics of the police institutions. 1. Introdução As transformações na sociedade hoje envolvem uma miríade de fenômenos como a globalização, blocos econômicos, precarização do trabalho, descentralização das organizações e sua articulação em redes, mudanças nas formas de intervenção do Estado, novos sistemas e formatos de comunicação, e mudanças sociais tão drásticas quanto tecnológicas e econômicas. Castells (1999) destaca que em um mundo de fluxos globais de riqueza, poder, violência, e imagem, os homens reforçam a busca pela identidade coletiva ou individual, atribuída ou construída, como fonte básica de significado social. Para Martuccelli (1999), o significado da violência na sociedade é antes de tudo, de natureza “subjetiva” um “sentimento”, uma maneira de “ter experiências do mundo exterior", "de ser ou de sentir exposto a ele...”. O indivíduo sente-se ameaçado por riscos econômicos (quedas de bolsas, inflação, desemprego); tecnológicos (centrais nucleares, clonagem, alimentos transgênicos); sanitários (novas doenças); sociais (assaltos, seqüestros, roubos), levando-o a um aumento generalizado de insegurança. O dilema contemporâneo, diante da violência, decorre, em parte, sob a forma de risco que a sociedade se mostra incapaz de controlar. De um modo indissociável, a representação deste mundo social, se dá através da veiculação da imagem de um mundo social descritivo e normativo, onde a relação com o mundo é cada vez mais mediatizada pelos símbolos e a ação se reduz à circulação e atuação de códigos. Nesse sentido, trata-se de compreender que a dominação simbólica se sustenta por um conjunto de elementos que asseguram a dominação social. O autor ressalta que as novas formas de desligamento social, critério determinante para aprender o grau de insegurança “física”, real ou imaginária, em face da violência, não é outro senão a natureza dos mecanismos que definem a inserção do ator em relação à sociedade. Foucault (1987) e Bourdieu (1989) consideram a violência como um dispositivo de excesso de poder, uma prática disciplinar que produz um dano social, desde a prescrição de estigmas até a exclusão efetiva ou simbólica. Outras definições destacam, explicitamente ou não, como o “outro” não tem espaço ao diálogo, a negociação, a reação: a violência como o não reconhecimento do outro, a violência como a negação da dignidade humana; a violência como excesso de poder (Zaluar et al, 2001). Dentro de uma outra abordagem, alguns teóricos buscam o reconhecimento de uma articulação entre violência e cultura. Nesse sentido, procuram compreender o papel e o sentido que tem a violência, ou suas formas de manifestação no contexto de uma dinâmica cultural de uma dada sociedade. Como pistas analíticas têm investigado “a linguagem da violência” através de suas manifestações sóciocorporais, das interações – produção e consumo - com o universo mediático, da estetização da violência, dentre outras. Na cultura contemporânea, o fenômeno da violência se reflete nas artes – literatura, cinema, vídeos, na mídia e no cotidiano mais amplo dos agentes sociais. Não aparece apenas como evidência de dissidência ou da iminência de uma situação de “caos” social, mas adquire um papel estruturador e/ou fundador de novas expressões do social (Pereira et al, 2000, p.15). A violência também se contrapõe ao discurso dos grandes pensadores do século XIX, que acreditavam que o “mal estar” da sociedade cederia lugar ao pleno domínio da razão. O tempo presente acentua o descompasso do discurso da modernidade, marcado pela visão da racionalidade que se mostra insatisfatório para a significação do mundo contemporâneo (Rifiotis, 1999). O Estado possui o poder legítimo da manutenção da lei e da ordem, inclusive com o uso da violência nos parâmetros da lei. Castells (1999) reforça que as instituições sociais são constituídas para impor o cumprimento das relações de poder existentes em cada período histórico, inclusive os controles, limites e contratos sociais conseguidos nas lutas de poder. Na sociedade contemporânea, o crescimento da criminalidade e o suposto aumento da impunidade resultam, em grande parte, na erosão da lei e da ordem. Nesse sentido, o Estado surge como incapaz de cuidar da segurança dos cidadãos e de proteger seus bens materiais e simbólicos (Adorno, 1998). Há que se considerar também que os fatos constituem narrativas sociais, que ocorrem em determinados momentos históricos, e gravitam no interior de um campo determinado, seja este político, cultura ou social. As pressões do ambiente sobre o sistema de justiça criminal, entendido como o campo organizacional em que atuam as organizações policiais, são de variadas origens, como a crescente demanda por serviços, a necessidade de manutenção da ordem e o equilíbrio da sociedade, o questionamento dos instrumentos utilizados pelas organizações para lidar com os conflitos originados de sua atuação, a cobertura da mídia, entre outros, o que reforça a complexidade das inter-relações entre os diversos atores envolvidos. Destaca-se que a polícia é a mais poderosa agência de controle social imediato por sua distribuição espacial, mecanismos de urgência e poder legal de constrangimento. Dentro do sistema de justiça criminal as organizações policiais têm um papel proeminente na prevenção criminal, sendo a organização reconhecida e respeitada por toda a população. A forte repercussão na sociedade e no Estado brasileiro dos episódios de violência, especialmente os que ganham espaço na mídia, começam a tornar ainda mais aguda a percepção da violência. A necessidade de interpretação deste fenômeno suscita uma maior discussão sobre esta temática e sua importância no país. Kant de Lima et al. (2000) indicam que o crescente interesse público e a necessidade de compreensão de sua complexidade promoveram uma produção acadêmica relevante sobre as temáticas da violência, da criminalidade, da segurança pública e da justiça criminal, especialmente nas áreas de sociologia, antropologia e ciência política. Carneiro (2000) destaca que embora o volume de informações tenha aumentado significativamente nos últimos anos, é possível encontrar enormes lacunas, mais especificamente no campo da economia e administração. A idéia principal deste artigo é contribuir para a compreensão da realidade do sistema de justiça criminal a partir da conversação entre uma das vertentes da teoria das organizações – o novo institucionalismo, tendo como eixo de análise as organizações policiais. A partir dos mecanismos sugeridos por Powell e DiMaggio (1991) esse artigo procura identificar as pressões institucionais que podem levar as organizações policiais responsáveis pelo combate à violência ao isomorfismo, e a pressão cada vez maior proporcionada pela cobertura da mídia. Meyer e Scott (1992, p.152) preconizam que as organizações do mesmo campo estão embebidas em grandes sistemas de relações, no sentido vertical e horizontal, sendo dependentes entre si, o que também implica em custos associados a sua estratégia, com variações ao longo do tempo. O pressuposto adotado neste artigo é que a análise das organizações é um campo de conversações entre diferentes abordagens que, de acordo com Reed (1998), formam o pano de fundo e o contexto que permitem um debate crítico e de reflexão que produzem os estudos organizacionais contemporâneos. Sob esta perspectiva, o trabalho consiste na descrição dos principais aspectos do novo institucionalismo, a especificidade da relação entre as suas características e as organizações policiais a repercussão da violência. A escolha do novo institucionalismo como opção metodológica justifica-se pelas características do objeto de análise, as organizações policiais. O institucionalismo tem suas origens teóricas nas últimas décadas do século XIX, sendo resultante da convergência de contribuições da ciência política, sociologia e economia, que buscam incorporar em suas proposições a idéia de instituições e de padrões de comportamento, de normas e de valores, de crenças e de pressupostos, nos quais encontram-se imersos indivíduos, grupos e organizações (Machado-da-Silva et al, 1998). Prates (2000) destaca que as instituições têm como significado os valores e normas sociais estáveis que impõem limitações a alternativas de ações ou estabelecem roteiros adequados específicos de interação social. Espino (1999) define as instituições como um conjunto de regras que articulam e organizam as interações econômicas, sociais e políticas entre os indivíduos e os grupos sociais. As instituições policiais, legítimas representantes do Estado para manutenção da ordem detêm tais características. O esforço desse trabalho é ampliar o escopo da discussão através de uma abordagem sob o foco da administração. 2. O Novo Institucionalismo Em meados da década de 1970, surgem novas articulações para o entendimento das organizações através de teorias emergentes que passam a ser debatidas com maior ênfase na década seguinte, como a teoria dos custos de transação (Willianson, 1981), a ecologia populacional (Hannan e Freeman, 1977) e o novo institucionalismo (DiMaggio e Powell, 1983). Para Aldrich e Marsden (1988) estas teorias têm avançado em considerar para generalizações empíricas, o ambiente e formas estruturais estabilizadas pelas pesquisas orientadas pela contingência. Por outro lado, os teóricos baseados na gerência continuam na tradição dos sistemas abertos e na perspectiva de propósitos racionais, conforme enfatizam estes autores. Proeminente entre essas opções é a economia dos custos de transação de Williamson (1981), em que reforça a transação como a unidade básica de análise e a compreensão da economia nos custos de transação como central no estudo das organizações. As aplicações dessa abordagem requerem que as fronteiras da organização sejam fixadas, e as estruturas de governança estabilizadas, para minimizar os custos de coordenação do trabalho em um sistema de atividade. As transações podem tornar-se custosas quando conduzidas sob condições de incerteza e de informação distribuída imperfeitamente, e quando existe um pequeno número de compradores e vendedores “oportunísticamente” inclinados para suas partes. Sob essas circunstâncias, essa perspectiva ressalta que a direção administrativa de uma organização providenciará uma coordenação mais eficiente que as transações no mercado entre produtores independentes. Assim, se mudanças em condições tecnológicas ou nas estruturas de mercado alteram o ambiente para as transações, considerações sobre a eficiência levariam a criações ou transformações estruturais das organizações. A integração vertical ou o movimento de estrutura unitária para multidivisional seriam alguns exemplos. Em contraste, a ecologia populacional de Hannan e Freeman (1977) dá pouca atenção a transformação. Ao contrário, os ecologistas mantêm que as pressões estruturais e da sociedade em direção à inércia estrutural colocam severos limites à capacidade adaptativa das organizações. O ajuste entre organização e ambiente é, então, obtido através de processos demográficos – maiores formas de adaptação são criadas mais rapidamente do que são eliminadas. Essa perspectiva foca na competição, seleção e diferenciação na livre mortalidade entre formas organizacionais, cujas aptidões são julgadas pela extensão em que os nascimentos excedem as mortes. Cunha (1999) destaca que apesar das críticas ao modelo “darwinista” proposto pela ecologia populacional, essa abordagem avança ao afirmar que não há uma melhor forma de organização, mas muitas formas para muitos nichos. As limitações de recursos são importantes para modelar o crescimento, desenvolvimento e declínio das organizações, assim como o papel das inovações bem sucedidas em delinear novas espécies de organizações. Segundo Scott (1995), a partir dessas contribuições, novos esforços foram empreendidos no sentido de introduzir argumentos institucionais na sociologia das organizações a partir de Berger e Luckmann (1985) e que marcam a chegada do neoinstitucionalismo nos estudos organizacionais. Reed (1998) reforça que a teoria institucional tem, como preocupação central, o processo cultural e político por meio do qual atores e seus interesses e valores são institucionalmente construídos e sustentados. Nessa perspectiva se destacam os trabalhos de Meyer & Rowan (1977) e de DiMaggio & Powell (1983), entre outros. Os teóricos do novo institucionalismo, ao contrário de restringirem o foco apenas em condições externas para sobrevivência ou transformação das organizações, destacam o “campo organizacional” os valores e normas da sociedade para as quais as organizações devem se moldar. Reforçam a idéia de “campo organizacional” como unidade de análise, afirmando que inclusive são mais abrangentes que os nichos de firmas competindo entre si da ecologia populacional (Powell e DiMaggio, 1991, p.65). Quando as relações de causa e efeito entre as estruturas organizacionais e seus resultados são pobremente entendidas, a manutenção de um fluxo seguro de recursos requer das organizações a adoção de práticas legitimadas externamente. A mudança é assim pensada para seguir as definições de alterações de estruturas e processos promulgadas por corpos externos às organizações como associações profissionais e agências do estado. Uma interessante implicação nessa linha de raciocínio é que estas previsões aumentam a homogeneidade das organizações em seus campos, de acordo com Powell e DiMaggio (1991), já que estão tipicamente sujeitas às mesmas pressões externas. A similaridade estrutural poderia levar as organizações em seu campo a adotar práticas prescritas pela legislação ou pela pressão normativa de uma associação profissional. Poderia também crescer com novas organizações entrando em um campo, copiando as estruturas das unidades já existentes, ou com unidades existindo de forma mimética e de procedimentos de uma com a outra. Houve reações a essa nova proposta, de defensores de concepções racionalistas e daqueles que destacavam as relações entre organizações e ambiente, e dos que valorizavam o papel da cultura na formação das organizações, como refletem as discussões de Selznick (1996) e Prates (2000), e a reflexão de Tolber e Zucker (1998). Um dos principais trabalhos do novo institucionalismo é o artigo de Meyer e Rowan (1977) para quem as organizações são levadas a incorporar novas práticas e procedimentos definidos pelos conceitos racionalizados de trabalho organizacional prevalecentes e institucionalizados na sociedade. As organizações que fazem isso incrementam sua legitimidade e seus propósitos de sobrevivência, independentemente da eficácia imediata adquirida em suas práticas e procedimentos. Ou seja, o ambiente institucional legitima as ações da organização e permite sua sobrevivência. Os autores apontam para a conformidade das estruturas organizacionais a influências de fatores institucionais (legislação, normas sociais) do ambiente. Assim, destacam a relatividade de instâncias como tamanho e tecnologia, pelos modos diferenciados de interpretá-las quanto à sua visibilidade. A influência do ambiente institucional é revelada no setor organizacional através de diversos arranjos como políticas de contratação, práticas contábeis, orçamento, e cargos semelhantes. Há uma mudança de foco quanto à formalização, complexidade e centralização analisadas pelas teorias anteriores. O sucesso organizacional vai além da coordenação e controle, legitimando-se em ambientes institucionais elaborados e tornando-se isomórficas naqueles ambientes. Para eles todas as organizações, em um grau ou outro, estão embebidas em contextos relacionais e institucionalizados e estão preocupadas com a coordenação e controle de suas atividades e com seus resultados. Algumas organizações dependem mais da manutenção de suas demandas internas e das relações nos limites de suas atividades, enquanto a sobrevivência de outras depende mais de demandas cerimoniais de um ambiente altamente institucionalizado. A noção de que organizações poderiam sobreviver mesmo com baixo desempenho, contraria a lógica vigente de que organizações ineficientes em termos de produção seriam eliminadas, enquanto a relação entre as atividades do dia-a-dia e os comportamentos dos membros da organização e das estruturas formais poderiam ser negligenciados e as estruturas revestidas de significados socialmente compartilhados, concluem Meyer e Rowan (1977). Na mesma linha, DiMaggio e Powell (1983) revelam que as organizações tendem a utilizar linhas de ação já definidas e racionalizadas na sociedade, que lhes permitam garantir sua sobrevivência e legitimidade, independente de sua eficiência e demanda, assim, mais que mercado ou tecnologia, orientam-se pelo contexto, as regras e os significados institucionalizados nas estruturas. Perante a incerteza ambiental, a competição entre as organizações volta-se não apenas para recursos e consumidores, como também para a legitimidade institucional tornando suas práticas cada vez mais homogêneas dentro de um domínio organizacional. As organizações buscam então adaptar suas estruturas e procedimentos às expectativas do contexto, através dos mecanismos de isomorfismo. O processo de isomorfismo pode ser desenvolvido através de mecanismos coercitivos, miméticos ou normativos. Os mecanismos coercitivos resultam de pressões formais e informais exercidas por uma organização sobre outra que se encontra em condição de dependência, ou pela expectativa cultural da sociedade dentro da qual aquela organização funciona. Pode ocorrer, por exemplo, na relação da matriz com a subsidiária, quando a primeira é obrigada a adotar as medidas que sejam adequadas à política da segunda. A mudança isomórfica pelos mecanismos miméticos fundamenta-se na adoção por parte de uma organização, de procedimentos e arranjos estruturais já implementados por outras organizações que pertençam a seu ambiente específico a fim de reduzir a incerteza. A contratação de consultorias para resolver momentos difíceis da vida organizacional, ou a adoção generalizada das técnicas de gestão da qualidade total mostram esse mecanismo. O isomorfismo por mecanismos normativos refere-se a formas comuns de interpretação e de ação frente a problemas que se põem em evidência na vida organizacional. Uma das formas mais freqüentes de pressão normativa é a profissionalização, ou seja, ter determinada ocupação que leve a compartilhar um conjunto de normas e rotinas de trabalho pelos membros de uma mesma profissão. O sistema de ensino e em particular as universidades, onde se formam grande parte dos profissionais, são veículos privilegiados dos conjuntos de normas, regulamentos e práticas comuns de uma profissão. A articulação entre os três mecanismos em direção à homogeneização das ações organizacionais pertencentes a um mesmo campo organizacional é relevante, mas o peso de cada um depende do contexto. 3. Novo Institucionalismo e Organizações Policiais No Brasil o sistema de segurança pública é composto pelas organizações policiais polícia federal, polícia rodoviária federal, polícia ferroviária federal, polícia militar, polícia civil; Ministério Público, Defensoria Pública, Judiciário e unidades prisionais. Grande parte dos cientistas sociais utiliza a expressão sistema de justiça criminal como sinônimo de sistema de segurança pública (Campos Coelho, 1986; Sapori, 1995), talvez derivada da utilização na literatura norte-americana da expressão “criminal justice system” (Walker, 1992). Sapori (1995) destaca que o sistema de justiça criminal tem a incumbência de aplicar os ordenamentos jurídicos, evitando a ocorrência de atos criminosos, reprimindo e investigando quando tais atos ocorrem, processando seus possíveis atores e punindo-os quando a autoria ficou evidenciada. De acordo com Paixão (1988), a atividade criminosa constitui uma externalidade na vida cotidiana dos indivíduos que compõem um grupo social e as instituições da justiça penal existem para regular os custos correspondentes e cooperar para a implementação de alguma ordem política, o que envolve necessariamente a adoção de mecanismos de controle social. A Constituição de 1988 manteve as polícias militares e corpos de bombeiros militares como forças auxiliares e de reserva do Exército, estando ambas subordinadas, juntamente com a polícia civil aos Governadores dos Estados, do Distrito Federal e Territórios (Brasil, 1989). Nesse contexto, destaca Carballo Blanco (2000), verifica-se a existência de dois níveis funcionais policiais bipartidos, a polícia administrativa da ordem pública que é a que realiza a prevenção e repressão imediata, atuando individual ou coletivamente (polícias militares) e a polícia judiciária que é a que apura as infrações pessoais e auxilia o Poder Judiciário, realizando a repressão mediata (após a ocorrência da infração penal), atuando individualmente (polícia civil). Assim, cada polícia cumpre parte das funções previstas para o ciclo completo de atividades policiais: polícia administrativa + polícia investigativa + polícia técnica. O campo de análise de acordo com Powell e DiMaggio (1991) é entendido como aquelas organizações que constituem uma área reconhecida da vida institucional, e o conceito neste estudo seria o sistema de justiça criminal, enquanto as organizações analisadas seriam a Policia Militar e a Polícia Civil, como limitação metodológica. O surgimento do sistema policial se confunde com a criação do Estado brasileiro, pois o Estado tem o compromisso com a ordem legal e moral, além do poder legítimo da violência. A segurança pública estava centrada nos estados federados, daí a relativamente recente criação da Polícia Federal (década de 1940). As polícias militares foram concebidas a partir da estrutura militarista herdada da Missão Francesa e depois mantidas pela legislação atrelada às Forças Armadas. Nota-se um mecanismo coercitivo que modelou a polícia militar. A evolução histórica das polícias militares revela como característica organizacional marcante, segundo Silva Neto (1997) o hibridismo de sua destinação militar e policial. As pressões do ambiente institucional sempre tiveram papel relevante ao marcar as tendências quanto a um papel mais policial ou mais militar. Os reflexos em seu ambiente interno podem ser verificados na organização a partir de sua estrutura hierárquica e disciplinar. O papel repressivo durante o regime de ditadura no país (1964-1985) reforçou o caráter militar, enquanto a sua transição para a consolidação do regime democrático levou as polícias militares a buscarem novos métodos de ação operacional. Ao longo de sua trajetória, as polícias militares têm internalizado na organização uma estrutura burocrática com diversas características do modelo weberiano clássico: ordenamento hierárquico, baseado na disciplina, normas exaustivas e escritas, cargos estruturados onde prevalece o padrão monocrático de chefia e ocupantes dos cargos desempenham papéis rigorosamente definidos; promoções por mérito e antiguidade, treinamentos específicos e na organização; regras legalistas e rígidas; com um tratamento dos clientes de forma impessoal e universalista. As dificuldades para mensuração dos resultados continuam difíceis nesse ramo de atividade. A burocracia na polícia civil também segue os padrões weberianos, mesmo que seus processos sejam extremamente morosos entre a denúncia, registro de ocorrência e o início da investigação. Soares (2000) destacou que as mediações burocráticas são responsáveis pela lentidão nos processos de uma delegacia fluminense tradicional típica, retratado nos 64 livros em que se traduzem essas operações. Uma modernização institucional com novos arranjos estruturais para responder ao ambiente externo torna-se imprescindível. Kant de Lima (1995) revela as ações das polícias no Brasil a partir do caso do Rio de Janeiro e constata a precariedade das técnicas de investigação e a inserção das polícias no sistema de justiça criminal. Silva Neto (1997) ressalta que as diretrizes das organizações policiais militares reforçam e destacam diversos destes componentes. Porém, reflete que diante das mudanças do ambiente e as pressões frente a uma postura voltada para a comunidade, a polícia tende a adotar novas formas de operação baseadas no policiamento comunitário, conhecida na corporação como “polícia cidadã”. Assim, no passado, pressões normativas levaram as polícias a adotarem regras voltadas para características militares, enquanto novas práticas voltadas para a democracia reforçam a questão operacional sem deixar de lado as relações com o respeito aos direitos humanos e do cidadão. A pressão sobre o campo organizacional do sistema de justiça criminal gerou algumas práticas diferenciadas do pressuposto legal existente em lei para as organizações analisadas. Uma situação indicada por Silva Filho (1999) é característica dessa transformação e foi à adoção de um posicionamento da Polícia Civil como polícia alternativa, abdicando em parte de sua função de investigação, e buscando estruturas administrativas e operacionais semelhantes à Polícia Militar acirrando a competitividade entre as duas corporações. Esse fenômeno de isomorfismo entre a Polícia Civil na tentativa de competir com a Polícia Militar utiliza-se de mecanismos miméticos, conforme definição de Powell e DiMaggio (1991). A Polícia Civil passa a adotar procedimentos e arranjos estruturais já implementados por outras organizações que pertençam a seu ambiente específico a fim de reduzir as incertezas. Várias são as constatações das ações daquela organização, principalmente frente à Polícia Militar. Novamente, cabe ressaltar que o papel da Polícia Civil é o de investigação. Porém, as unidades especiais de ação tática ostensiva daquela organização competem com as da Polícia Militar quando de algum evento. Relatos sobre desentendimentos com agressões mútuas entre as duas corporações são comuns. A compra de helicópteros para as polícias também tem sido alvo de disputas entre as duas corporações. Este é um tipo de equipamento incompreensível para atividades de investigação, e o exemplo de São Paulo em as duas polícias competem pelo radiopatrulhamento aéreo é emblemático. Motivo de questionamentos por profissionais estrangeiros em visita ao país, as viaturas da polícia civil são preparadas com pinturas chamativas, e equipamentos típicos da polícia ostensiva, como sirenes, o que impede o uso desses veículos para a investigação, sua principal atividade. Também os policiais civis utilizam roupas com símbolos e distintivos pouco próprios para a ação investigativa, a exemplo de coletes e insígnias, e muito semelhantes aos congêneres da polícia militar. Para Silva Filho (1999) a adoção pela polícia civil de uma postura de polícia ostensiva, constitucionalmente reservada à polícia militar, através de patrulhamento aleatório improdutivo, e em outros momentos de autoridade judiciária, seu real papel, à espera passiva dos fatos, a serem tratados após a ocorrência dos mesmos; deixa em segundo plano a atividade de investigação, havendo uma postura reativa aos delitos. Ao considerar os aspectos de estrutura, operação, tecnologia e formação, verifica-se as semelhanças entre as polícias militar e civil. Uma proposta de entendimento a partir dos preceitos de Powell e DiMaggio (1991) sob pena do reducionismo que pode provocar, leva a considerar algumas das hipóteses daqueles autores. Uma das hipóteses destes autores é que a maior dependência de uma organização em relação à outra, a torna mais similar a essa em estrutura, clima e procedimentos. À época dos governos militares, as polícias, principalmente as militares, estavam sob intervenção permanente, destaca Silva Filho (1999), o que ainda se reflete hoje em sua estrutura, muito semelhante inclusive no caso de cargos e patentes ao Exército no caso das polícias militares. A dependência da polícia civil dos poderes constituídos a fez aproximar-se da organização com maior legitimidade à época - a polícia militar, tornando-se isomórfica a esta em alguns aspectos, e por outro lado, incentivando a competição entre elas. Desta forma, outra hipótese destes autores, é que a maior centralização de recursos em uma fonte leva a organização a moldar-se a ela, mostra como as duas organizações buscam adequar-se ao ambiente institucional vigente e buscar recursos a partir da sua legitimidade no ambiente, pois assim poderia reforçar sua procura por recursos. Essa legitimidade também é verificada pelas atividades semelhantes da polícia civil em imitar a polícia militar, tanto no sistema operacional e aquisição de tecnologia como nos ritos e símbolos. Na análise do campo organizacional, Powell e DiMaggio (1991) destacam que quanto maior a dependência do campo organizacional de uma única fonte de recursos vitais, maior o nível de isomorfismo. Isso parece revelar-se pela dependência das polícias ao governo em nível estadual o que as leva a uma disputa por recursos limitados. Porém, o ambiente, pelo aumento da violência e criminalidade não vê efeito nas práticas tradicionais e ultrapassadas que limitam o trabalho dos policiais, e os resultados esperados não têm sido alcançados. A pressão para que a polícia atue junto com a comunidade local e modifique suas estratégias de gestão estão expressas em ações pretendidas pelo governo como o Plano Nacional de Segurança Pública (Brasil, 2000), coincidentemente lançado após o seqüestro de um ônibus no bairro Jardim Botânico no Rio de Janeiro, que resultou na morte de uma refém e do seqüestrador por uma desastrada ação policial, amplamente coberta pela mídia nacional e internacional. 4. Pressão da Mídia Como Fator de Mudança Institucional? A limitação dos modelos convencionais de controle social sugere a necessidade de repensá-los, além do domínio exclusivo dos aparelhos repressivos do Estado, refletindo sobre as novas formas de interação e sociabilidade entre as classes sociais e os comportamentos expressos através de variadas interpretações sobre o uso das normas e sua eficácia prática e simbólica. Dentro deste mesmo raciocínio, um ponto de partida, é o papel da mídia neste processo como um espaço estratégico na produção simbólica da violência. O seu impacto no cotidiano das organizações policiais também se mostra significativo. Os estudos da área de comunicação social têm dado maior ênfase no conteúdo das mensagens divulgadas como argumento de uma análise focada principalmente em aspectos políticos, ou nas condições de produções. Autores como Harry Pross, em “La violência de los símbolos sociales”, Vicente Romano em “El tiempo y el espacio en la communicacion”, Dietmar Kamper em “Distúrbios da Imagem” e “No Subterrâneo das Imagens”, fizeram considerações sobre o fenômeno da violência e como e porquê se desenvolve uma tipologia de códigos comunicativos da violência, sem, no entanto analisar a perspectiva da presença da violência nos meios de comunicação (Baitello Junior,1999). No Brasil, Porto et al (1995) em “A Encenação dos Sentidos”; Fausto Neto e Pinto (1995) em “O Indivíduo e as Mídias" avançam na discussão das práticas de mediação. Analisando de forma mais específica o fenômeno da violência e o papel das mídias destacam-se os estudos de Pereira et al (2000) em “Linguagem da Violência”; Rifiotis (1999) em “Violência Policial e Imprensa – O caso da Favela Naval”; Baitello Júnior (1999), em “Linguagem e Violência: a perda do presente”. A crescente importância dos recursos e linguagens dos meios de comunicação representa um sistema de conteúdos e formas pelo qual estruturamos nossa visão do mundo, nossa competência perceptiva e expressiva constituindo na elaboração dos princípios da sociabilidade vigente. Os meios de comunicação se constituem e veiculam um conjunto de valores, uma mentalidade, uma lógica de significados engendrados na demanda cognitiva de conhecimento sobre o atual “estado do mundo”, se envolvendo ativamente na construção do mundo social. É importante salientar que a conjunção de análise da natureza social da comunicação e da sociabilidade tem sido um campo exploratório, gerador de debates e de novas demarcações no campo de estudo da comunicação, nos últimos anos. A sua influência nos estudos organizacionais também se mostra exploratório. Há uma expansão dos limites do ato comunicativo, uma aproximação e interpenetração com outras práticas da vida social. O esforço mediático inserido no terreno mais amplo da vida social realiza, compõe e pontua o cotidiano. Para Pereira (2000, p.17) a mídia constitui um dos principais cenários do debate contemporâneo, sendo que através dela se produz visibilidade e se constroem os sentidos de algumas práticas culturais. Neste contexto o autor destaca que a difusão das manifestações de violência resulta na estigmatização dos agentes e grupos envolvidos em tais atos/prática e, eventualmente, na institucionalização de um “locus” no qual expressar-se-iam diferenças capazes de configurar novos territórios e espaços sociais. As práticas comunicativas da sociedade obedecem a uma lógica da vida social, ou seja, os meios de comunicação estão inseridos nas relações cotidianas, interferem nas atividades dos atores sociais e em suas construções de sentido, da mesma forma que são invadidos e perpassados pelos comportamentos, atitudes, normalizações e controles sociais. Nesse sentido, a cobertura da mídia sobre a violência representa formas de engendramento de relações sociais, em que atores buscam constituir espaços e repercutir seus discursos. Rifiotis (1999) em seu texto “Violência Policial e Imprensa: O Caso da Favela Naval” realiza um estudo sobre matérias publicadas nos jornais "Folha de São Paulo" e "O Estado de São Paulo", após a divulgação do caso pela Rede Globo de Televisão, no dia 31 de março de 1997, mostrando cenas de abuso de autoridade, tortura, extorsão e morte envolvendo policiais militares do 24º Batalhão de Policia Militar de SP, em Diadema. A força daquelas imagens era tamanha que, embora os dias e as horas em que foram gravadas mostrassem cenas de um mês atrás, elas ganhavam atualidade, pareciam à nossa imaginação e emoção com atos mostrados “ao vivo” e os jornais do dia seguinte, rádios e outros programas de TV mobilizaram os códigos para prover o leitor dos elementos interpretativos necessários à sua leitura. A divulgação demonstra como a preocupação central com as cobranças quanto ao desempenho policial cedeu lugar a várias questões: reivindicação salarial e a jornada de trabalho extra na segurança privada, vinculação como força auxiliar do Exército, a falta de treinamento e armamentos adequados. Outros eventos que sucederam no tempo o caso da Favela Naval são emblemáticos. No dia três de abril, o Senado aprovou em regime de urgência um projeto que tramitava desde agosto de 1994, tipificando o crime de tortura; no dia seguinte, a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara aprovou a emenda constitucional que federaliza os crimes contra os direitos humanos, o Presidente da República sancionou a lei que torna o crime de tortura inafiançável e criou a Secretaria Nacional de Direitos Humanos. A ampliação do fato se dá também no espaço que os meios de comunicação passam a dedicar ao tema da violência. Skolnick e Fyfe (1993) descrevem fenômeno semelhante ao relatar o espancamento do afro americano Rodney King por policiais em Los Angeles, Estados Unidos, em março de 1991, o impacto internacional das imagens realizadas por um cinegrafista amador e o vandalismo e perturbação da ordem que tomou conta da cidade com a absolvição dos policiais no ano seguinte. Este episódio provocou novos estudos sobre as ações das polícias norte americanas. Dentre os episódios de violência no país nos últimos anos chamou a atenção na cobertura da mídia pelos atributos de impacto e de mobilização o seqüestro dos empresários Abílio Diniz e Washington Olivetto, a chacina dos presidiários no Carandiru, os meninos de rua da Candelária, de moradores de Vigário Geral e de Nova Brasília; o estudante de medicina, que atirou e matou pessoas dentro de um cinema, em um shopping center de São Paulo; o massacre de trabalhadores sem-terra em Eldorado dos Carajás pela policia militar; o assassinato de uma jornalista pelo ex-namorado, chefe de redação do jornal “Estado de São Paulo"; o assassinato dos prefeitos de Campinas e Santo André em São Paulo, e a execução de um promotor público em Belo Horizonte. A partir da transmissão mediática estes episódios ganharam visibilidade no espaço público. Segundo Pereira et al (2000), o paradoxo em que a violência se insere atualmente, especialmente no Brasil, leva a uma análise sobre duas perspectivas. Por um lado a violência se impõe como realidade alheia e hostil à realização das tentativas de democratização da sociedade em todos os níveis de marginalização do pequeno criminoso até a repressão militar de conflitos trabalhistas. Por outro lado, surge como expressão de articulações culturais dinâmicas, como uma das opções de reivindicação de exigências sociais justas, numa tentativa de superação de exclusão social. Outras formas de fenômenos coletivos de violência – linchamento, “arrastões”, conflitos entre torcedores, grupos de carecas e neonazistas - utilizam toques rituais e coreográficos como forma de garantir a presença no espaço público e mediático. Baitello Junior (1999), ressalta que a violência organiza sociabilidades e funda a legitimidade interna de grupos sociais, como nos casos de criminalidade organizada. É um canal de interação que adota meios simbólicos como forma de expressar a violência e agressividade como a estética punk, os rituais das galeras funkeiras, a linguagem do gangsta rap. A violência torna-se um espetáculo performático, estetizado, muitas vezes criado pelos atores, como forma de dar visibilidade e, até mesmo, de incluir a categoria dos “excluídos”, já que na forma de aparecimento, de organização e de ação de certos fenômenos violentos, os “atores sociais” convocam a imprensa para o registro da cena (Pereira et al, 2000). Silva Filho (1999) reforça que nas organizações policiais as técnicas de organização e de gestão são tradicionalistas e predominantemente voltadas para o ambiente interno, o que tende a gerar intensa atividade burocrática, com baixa prioridade a resultados operacionais e atendimento ao público. A necessidade de resultados somente é acionada por algum escândalo na imprensa. A maioria dos episódios citados revela a mobilização das instituições policiais, dos políticos responsáveis frente à pressão da sociedade civil, após a exposição mediática. O escândalo pode ser entendido como uma falha no esforço de administrar, em que a informação ou conduta que os indivíduos ou instituições gostariam de manter reservada ao domínio privado, é repentinamente exposta ao domínio público. Os escândalos geralmente pressupõem conjunto de normas ou expectativas que são transgredidas, e uma vez reveladas, são denunciadas. Com a crescente proliferação dos meios de comunicação, tem se tornado cada vez mais difícil para as instituições controlar a visibilidade de ações e dos acontecimentos que protagonizam, aumentando significativamente a vulnerabilidade aos riscos da exposição através da mídia. De acordo com Thompson (1999) “é cada vez mais difícil estender uma cortina de segredos sobre si mesmos e sobre suas atividades, e garantir que permanecerão invisíveis ou acessíveis apenas em maneiras cuidadosamente predeterminadas”. Em uma pesquisa realizada em 1995 e 1996, sobre a Polícia Militar de Minas Gerais, Aquino (1998) observou que para os cidadãos, dentre os aspectos mais importantes na formação do conceito sobre a imagem da PMMG, está a atuação da Polícia em primeiro lugar e, em seguida, a televisão e os noticiários. Percebe-se que o papel da mídia tem influenciado direta e indiretamente, a percepção que os cidadãos têm da Polícia. Por outro lado, segundo Rondelli (2000), os crimes mais destacados na mídia, nos últimos anos, contaram com o envolvimento da polícia. O que surpreende é o paradoxo de uma violência praticada por aqueles que são responsáveis pela repressão e coibição de tal prática. Aquino (1998) sugere que a PMMG dê um novo enfoque a atividade de comunicação visando monitorar a imagem da instituição e definir medidas corretivas, reforçadoras, estratégicas e mercadológicas. O autor propõe, dentro deste cenário, que a instituição reconheça a mídia como fator de pressão externa e desenvolva estratégias que lhe permita adquirir legitimidade para exercer suas políticas de segurança. 5. Comentários Finais A complexidade do tema “violência” na contemporaneidade, leva ao privilégio concedido à interrogação para sugerir uma elaboração teórica, que contribua para identificar sob o ponto dos estudos organizacionais de categorias e estratégias que compõem a dinâmica do sistema de justiça criminal, principalmente das organizações policiais e a necessidade lógica desse entendimento relacional entre estas organizações e a sociedade. Na análise do campo organizacional a partir da perspectiva do novo institucionalismo, verifica-se, dentro do escopo e limitações do trabalho, que as premissas de autores como Meyer e Rowan (1977) e Powell e DiMaggio (1991) para as organizações policiais revelam-se pertinentes pelas suas práticas e resultados, que apesar de cada vez mais questionados, reforçam sua legitimidade e permitem sua sobrevivência, ainda que a pressão da mídia revele a necessidade de novas formas de adaptações institucionais pelas organizações policiais, ora de forma coercitiva como as emanadas pelas decisões do poder público ou ainda de maneira mimética ao absorver experiências inovadoras de outras corporações, como indica a tendência ao policiamento comunitário, prática adotada com sucesso em outros países. Como outro fenômeno com grande impacto no sistema de justiça criminal, o espaço mediático tem, seguramente, assumido novos papéis na articulação social, redefinindo espaços políticos, ampliando e reproduzindo discursos, construindo cenários, mobilizando os atores sociais, agendando temas. Da mesma forma, o novo institucionalismo como abordagem teórica possibilita a análise dos impactos que o espaço mediático pode gerar sobre o campo organizacional, especificamente no caso das organizações policiais. Entender como as instituições policiais em sua dinâmica de atuação de combate à criminalidade e violência, seus arranjos organizacionais e sua relação com a população e a mídia abrem uma perspectiva de reflexão sobre as práticas de legitimação destas instituições. Abre-se então um amplo leque a ser coberto pelos estudos organizacionais em um dos contextos relacionais que coloca estas instituições frente à ameaça constante da visibilidade e exposição de suas ações e estratégias, ao mesmo tempo em que força a uma atuação institucional no combate à violência para o atendimento dos anseios da sociedade, legitimando as políticas e práticas do sistema de justiça criminal. 6. Bibliografia ADORNO, Sérgio. Conflitualidade e violência: reflexões sobre a anomia na contemporaneidade. Tempo Social, São Paulo, v.10, n.1, p.19-47, maio 1998. ALDRICH, Howard E., MARSDEN, Peter V. Environments and Organizations. In: SMELSER, Neil J. Handbook of Sociology. Newbury Park, Califórnia: Sage, 1988. AQUINO, Flávio A. R. A Identidade corporativa e a imagem institucional como estratégia mercadológica: o caso da PMMG. Belo Horizonte: CEPEAD/FACE/UFMG; 1998. (Dissertação, Mestrado em Administração) BAITELLO JÚNIOR, Norval. Imagem e violência - a perda do presente. 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