Página |8 1 INTRODUÇÃO “Quantas vezes ela quer saber, o que não sei explicar que a linha que vagueia, ainda não pode ser usada para bordar”. Inicialmente, busco escrever um texto, não um texto qualquer, mas algo que ao longo dos anos veio despertando em mim inquietações, formando teias em busca de novos caminhos e saberes. Em 2008, após a conclusão no Curso de Graduação em Enfermagem da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), iniciei minha atividade na docência de uma universidade particular. Ao entrar na academia passei a perceber a necessidade de ter uma “linha” profissional claramente definida. Se antes não tinha uma preocupação em nomeá-la, agora era necessário dentro do espaço acadêmico, conforme a própria organização do ensino, deliberar o perfil de docente que você tem. Assim, dentro da minha trajetória docente, duas perguntas me provocavam inquietações: qual é a sua linha de atuação? E qual a sua experiência prática? Entretanto, mesmo sem ter uma prática em serviços de saúde, isso não implicava que eu pudesse discutir, a partir de minhas vivências – estágios, preceptoria – a linha tênue sobre a clínica e o cuidado de enfermagem ofertado aos usuários. Neste momento, transcrevo algumas palavras escritas durante o processo de inquietação, que na verdade se referem mais ao que sentia, do que propriamente constituem uma resposta elaborada: “quantas vezes ela quer saber, o que não sei explicar que a linha que vagueia, ainda não pode ser usada para bordar”. Foi nesse período que iniciei duas especializações. A primeira delas foi mais uma forma de buscar uma resposta imediata, academicamente falando, para ter um título de especialista e, posteriormente, tentar definir uma linha de atuação/pesquisa. Essas duas perguntas se repetiram e, de forma intensa, após a inscrição na seleção do Programa Mestrado Acadêmica Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde (PMACCLIS) da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pois, a área destinada à seleção foi “Psicanálise em Saúde: interfaces com a clínica do sujeito”. A partir daí, uma parcela das pessoas aconselhavam a mudar de área, pois não ter experiência no campo da saúde mental não qualificava a minha escolha para a discussão sobre a psicanálise. Uma vez fora desse campo específico de atuação, a psicanálise não tinha Página |9 relação com a prática da enfermagem. E como ouvi dizer: “não tem nada a ver com você”. As dúvidas dos outros me traziam algumas incertezas. Mas a conclusão foi a que a linha antes não pensada e tão pouco titulada poderia ser agora tecida e bordada e, assim, a escolha se manteve, na primeira e segunda tentativa do mestrado. Existiam elementos que me moviam na busca de querer ler sobre aquilo. Havia simplesmente o desejo. Ao ler textos sobre a psicanálise sentia, percebia que a discussão não era circunscrita a um espaço de atuação – saúde mental. Ela está presente em qualquer contexto das nossas vidas, naquilo que nos move e que se presentifica nas nossas escolhas – nas relações amorosas, familiares, nas amizades e, também no trabalho. É esta última que se manifesta de um modo singular na minha implicação quanto à opção da tal “linha” de atuação que, ao longo dos anos, vagueava. Não se trata de pôr aqui a psicanálise a um título ou status de uma linha acadêmica, até porque não podemos reportá-la a um conhecimento que se busca no espaço acadêmico, mas de afirmar que a minha escolha se fez a partir do desejo. Mas um desejo que não pode ser facilmente explicado em palavras, não se trata simplesmente de algo a ser realizado, mas de uma falta nunca realizada. Um desejo inconsciente. Assim, meu interesse no sofrimento psíquico do trabalhador como objeto de estudo aconteceu quando, ao participar de encontros e discussões sobre as experiências de psicanalistas na clínica, comecei a fazer indagações direcionadas à temática e que fugiam habitualmente ao que havia aprendido no curso de especialização em enfermagem do trabalho (nexo causal, medidas preventivas e o diagnóstico médico): Como se configura a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho na perspectiva da singularidade do trabalhador? O referencial da psicanálise, ao propor a subversão do sujeito cartesiano, pode trazer outras possibilidades para a prática da enfermagem, independente da especialidade: saúde da mulher, saúde idoso, saúde do trabalhador dentre outras. Pois, a psicanálise refere-se à clínica do sujeito e não a uma clínica que atua conforme um recorte de saber sobre o sujeito. Dessa forma, a psicanálise nos possibilita perceber que aquele de quem cuidamos merece muito mais que um toque gélido de um estetoscópio ou de um olhar ágil para descrever os sinais e sintomas da doença manifesta no corpo. P á g i n a | 10 Remete a sair da condição de detentor do saber, do especialista, escutar aquilo que se diz para além da demanda. Na Idade Moderna, concomitante às mudanças produzidas pelas transformações da industrialização, um processo de eliminação da dimensão subjetiva do trabalhador foi iniciado para que o exercício da função proposta pela empresa fosse cumprido, gerando assim um comportamento modelado e adaptado do trabalhador. Um exemplo disso pode ser percebido no cinema com o clássico “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin, um filme mudo que abordou a sensibilidade dos operários ao sofrimento, onde a personagem robotizou-se para atuar na incansável linha de montagem. Percebemos, então, o trabalhador cooptado numa engrenagem onde ele passa a ser reconhecido por sua eficiência, eficácia e pela capacidade de administrar o tempo, gerando dinheiro: “time is money”. Homens sem identidade, sem singularidade, considerados simples engrenagem do trabalho. Fato que acabou gerando o que Dejours (1992) denominou como sendo sentimento de robotização, ou seja, devido à supressão da subjetividade, o trabalhador não se sente nada mais que um apêndice da máquina ou dos processos a que se submete. Assim, cada movimento no ponteiro do relógio marcou a eliminação da subjetividade do trabalhador por meio do controle dos corpos separados da sua dimensão psíquica. Essa acepção tributária do pensamento moderno nasce no século XVII, com o advento da medicina científica, onde novas formas de conhecimento e novas práticas institucionais tornaram o paciente desvinculado do seu sofrimento. Nessa época, para conhecer a “verdade do fato patológico”, o médico precisou abstrair o sujeito, pois sua disposição, temperamento, fala, idade, modos de vida perturbavam a identificação da doença, segundo o desenho nosográfico preestabelecido. Ademais, esse significado tem se tornado mais uma característica da prática clínica dos profissionais da saúde em que a fala do paciente, a sua queixa subjetiva é considerada, como diz Simanke (2002) desencaminhadora. Pois, o foco é encontrar uma lesão em um órgão, e não valorizar os padecimentos do sujeito. Portanto, mais que uma relação de causa e efeito entre lesão e doença, esta passa a assumir a posição de identidade: doença é lesão. O campo da psiquiatria nasce para tentar buscar essa mesma relação anatomopatológica para o seu objeto, a doença mental. No entanto, trata-se de uma situação paradoxal, pois se precisou lançar mão de uma causalidade orgânica para justificar as alterações patológicas para algo que é da esfera psíquica: nervos P á g i n a | 11 enrijecidos, rompidos, desgastados ou não. Tentativas de “decompor” o sofrimento psíquico em seus elementos de base para, a partir dai, compreendê-los, classificá-los, estudá-los e tratá-los. Dessa forma, influenciados pelo modelo biomédico, a linha divisória entre a sanidade e o adoecimento passa a existir, na tentativa de que a lógica médica pudesse isolar a pluralidade dos modos de subjetivação encontrados na relação estabelecida entre o trabalho e o sofrimento psíquico dos trabalhadores. Atualmente, percebemos que essa busca por uma causalidade orgânica para fenômenos psíquicos ainda prevalece, muita embora os estudos desenvolvidos se mostrem bastante inconclusivos. No plano da literatura acadêmica, percebemos que se sobressaem também estudos que visam a explicar o sofrimento psíquico pelo viés do estresse e desgaste mental dos trabalhadores. Referenciais que, ao longo do tempo, depararam-se com a ineficiência das estratégias preventivas que tinham o foco de “moldarem” os trabalhadores aos perfis de excelência profissional que lhes são exigidos. No Brasil, o termo Saúde do Trabalhador surge no bojo do Movimento pela Reforma Sanitária que se intensificou no país a partir da década de 1980. A união dos esforços de técnicos de saúde ligados às universidades, ao Ministério da Saúde (MS), juntamente com a participação dos trabalhadores estabeleceu as bases desse conjunto de saberes e práticas relacionadas à saúde e ao direito dos trabalhadores (RAMMINGER, NARDI, 2007). Apesar de ser um campo que nasce com esse cunho político e libertário, percebe-se que sua normatização ainda se dá dentro de um modelo medicalizante, que reduz a complexidade dos quadros a um referencial de doença. Prova disso, por exemplo, é a atual portaria que regulamenta as ações de saúde do trabalhador (Nº 1339/GM de 18 de novembro de 1999, que institui a Lista de Doenças relacionadas ao Trabalho, a ser adotada como referência dos agravos originados no processo de trabalho no Sistema Único de Saúde, para uso clínico e epidemiológico). Nela, os fenômenos que dizem respeito à saúde mental do trabalhador ainda são categorizados em “transtornos mentais e do comportamento”. Situações variadas como um fracasso, um acidente de trabalho, uma mudança de posição (ascensão ou queda) na hierarquia são enquadradas em diagnósticos médicos que não dão conta da complexidade da situação. Outro ponto bastante discutido acerca da elaboração das políticas de saúde do trabalhador refere-se à complexidade para se estabelecer o nexo causal das doenças P á g i n a | 12 relacionadas com o trabalho, principalmente quando se envolvem doenças que não apresentam base orgânica. Retornamos aí ao cerne da discussão anteriormente apontada, que diz respeito às dificuldades que a psiquiatria encontra de situar o seu objeto (a doença mental) dentro de um modelo que concebe a doença como alteração no corpo. É por acreditarmos que o trabalho ocupa mais que um espaço concreto, físico ou técnico na vida dos sujeitos, sendo também um ambiente subjetivo – relação do sujeito com seu trabalho – que nos impulsionou a debruçar novos olhares sobre uma temática ainda pouco explorada: trabalho e a dimensão psíquica. Foi a psicanálise que nos apresentou esta outra face do trabalho, instigadora e complexa, e que nos abre novas perspectivas de compreensão desta. A partir do encontro com as leituras que fomos desenvolvendo percebemos que existe um campo da produção acadêmica preocupado em resgatar essa dimensão da subjetividade do trabalhador, pautada numa nova concepção sobre a relação entre trabalho e o sofrimento psíquico. Trata-se de um campo onde se considera o sofrimento e trabalho em sua relação com a significação e com as maneiras como esse sofrimento é vivenciado pelo trabalhador. Foi especialmente após 1980, mediante a introdução dos estudos de Christophe Dejours com pesquisas sobre a Psicodinâmica do Trabalho, que se percebe que o trabalho não se configura apenas como uma atividade técnica, porém é uma atividade direcionada ao outro: “trabalhamos sempre para alguém, para um patrão, para um chefe, para nossos subordinados, para nossos colegas” (DEJOURS, 2012, p.47). Assim, Dejours propôs agora explicar as relações do trabalhador com esse sofrimento, suas formas de defesa e, como o trabalho pode-se constituir um agravante a sua saúde. Para o referido autor as relações de trabalho, dentro das organizações, frequentemente, despojam o trabalhador de sua subjetividade, excluindo o sujeito de sua história de vida. Neste aporte, tenta-se buscar novos referenciais para explorar a relação entre o sofrimento psíquico e trabalho sem pautar-se, unicamente, pelo olhar clínico dirigido para o corpo, representado como lugar da doença. Romper com as camisas de força que prezam pelo silenciamento do paciente que, em vão, tentava falar de seu sofrimento, que não era só físico, e daquilo que imaginava ser o seu mal (FOCAULT, 1994). Se, muitas vezes, não se encontra respaldo tecnológico suficiente para comprovar a lesão orgânica em determinados processos de adoecimento entre trabalhadores, no campo do sofrimento psíquico e trabalho a dificuldade se torna ainda P á g i n a | 13 maior, na medida em que não está dado esse caráter palpável, ou melhor dizendo, relativamente visível, encontrado nos problemas que atingem diretamente o corpo. Isso porque, entre outras coisas, “não é possível quantificar a vivência, não se é mensurável a carga psíquica do trabalho, que é em primeiro lugar qualitativa, mas é real enquanto vivência articulada às exigências ou pressões do trabalho cotidiano” (DEJOURS, 1992, p.37). Ressaltamos que a Psicodinâmica do Trabalho influenciada pelo referencial da psicanálise, trouxe grandes contribuições para o estudo do sofrimento psíquico do trabalhador, ao enfatizar a vivência e a subjetividade do mesmo. Entretanto, Dejours ainda utiliza-se do conceito de normalidade constituído de múltiplas determinações subjetivas e objetivas para explicar o sofrimento psíquico do trabalhador. Portanto, o que interessa nessa abordagem é conseguir compreender como os trabalhadores podem manter certo “equilíbrio psíquico”, mesmo estando submetidos a condições de trabalho “desestruturantes”. Embora a Psicodinâmica tenha seus méritos, apontamos dentro do próprio corpo teórico algumas limitações no que diz respeito à sua interseção com os conceitos psicanalíticos. Isso será apresentado nos capítulos do nosso trabalho, onde percebemos que a abordagem da psicodinâmica não rompe com um ideal de normalidade, permanecendo ainda pautada no modelo da doença. A psicanálise, por sua vez, promove uma ruptura radical com esse modelo de clínica pautado na doença e na normalidade. Com o olhar da psicanálise busca-se sair do circuito causal doença-sintoma, para pensar que o sintoma está para além da denúncia de uma alteração orgânica. Embora possa corresponder ao adoecimento no corpo, é como sinal de um conflito inconsciente que cumpre com a função de organização de um sujeito, ou seja, o sintoma, além de trazer uma possibilidade de o sujeito se defrontar com o desejo recalcado, pode representá-lo na medida em que nele se encontra a expressão do desejo. Além disso, a psicanálise lida com aquilo que afeta o sujeito tomando-o na singularidade de cada caso, considerando a história de vida, a posição subjetiva de cada sujeito/trabalhador. Nesta perspectiva, compreende-se que o individual e o coletivo não são dois campos independentes. São antes costurados pelo fenômeno da linguagem como causa material. Conforme Quinet (2008) é através da fala que o sujeito surgirá como efeito de linguagem, efeito único, singular em cada homem. Esse efeito diz sobre a lógica de uma cadeia de significantes que é construída para cada um de uma maneira, P á g i n a | 14 pois as marcas que cada homem carrega são também restritas à sua existência. É a linguagem também que está na base da construção da civilização, é apenas através dela que o homem pode ir além da natureza, realizando todas as produções culturais. Esses processos de adoecimento sem base orgânica, a que se convencionou chamar de sofrimento psíquico, chamaram atenção de um médico vienense no começo do século XX. Freud funda a psicanálise ao escutar as pacientes histéricas e verificar que suas queixas eram determinadas por outra lógica, a lógica do inconsciente. Foi a partir da interrogação de Freud sobre os sintomas histéricos que o levou a postular uma causalidade psíquica e indicar o papel da representação mental no inconsciente atuando no corpo. O avanço nessa teoria constituiu um rompimento com os estudos da psiquiatria clássica, e lhe possibilitou descobrir a origem psíquica do sintoma histérico, sustentando a determinação simbólica e sexual figurada na fantasia histérica. Para a psicanálise o sintoma revela não a verdade da doença, mas a verdade do sujeito inconsciente, pois busca apreender no sintoma o desejo inconsciente indestrutível. Por isso, não há como eliminá-lo, pretensão da medicina científica que por meio da medicalização tenta, muitas vezes, anular ou mascarar o sintoma. Se o sintoma é constituição de desejo reprimido e o desejo é fundado pela falta, ele não se desfaz completamente. Há sempre um resquício de sua marca, ele sempre retorna com um a mais. Existe algo para além da doença que pode ser pensado por um viés diferente. Para além do sujeito cartesiano, do “penso, logo sou”, existe uma dimensão que é inconsciente e que perpassa diretamente tudo que vivenciamos. Segundo Quinet (2008), o inconsciente pode ser acessado por seus efeitos nos sonhos, nos lapsos, nos atos falhos, nos chistes e no sintoma. Falar do trabalho implica ter presente esse horizonte para podermos entender a realidade subjetiva vivida pelo trabalhador em sua forma singular de sofrimento, prazer, adoecimento. Dessa forma, ao utilizar os referenciais teórico-metodológicos da psicanálise, não se busca encontrar, certamente, aportes para a cura do sofrimento psíquico e nem a tentativa de atribuir ao trabalho o papel de único determinante do sofrimento. A nossa pergunta com embasamento psicanalítico foi feita a partir de outra formulação: como se configura a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho na perspectiva da singularidade do trabalhador? Portanto, não se trata de importar o conceito de trabalho discutido em outras áreas e aplicá-lo dentro de uma discussão psicanalítica, pois não é o problema P á g i n a | 15 epistemológico que nos interessa; não se trata de compreender o trabalho enquanto “espaço” de sofrimento psíquico para cada sujeito, reproduzindo a concepção de que o trabalho adoece, e também não tem a preocupação de responder o que é Saúde do Trabalhador, mas pensar como a subjetividade se insere no contexto do trabalho. O que nos interessa é como se configura o sofrimento psíquico na singularidade de cada trabalhador, permitindo que ele possa falar sobre aquilo que o aflige. E mostrar na escuta desse discurso que, embora os trabalhadores possam ser diagnosticados como adoecidos pelo trabalho, há outra questão aí implicada. E conforme Freud, ao escutar a história desses sujeitos, poderemos perceber que o trabalho entra como um dos elementos em jogo ou pode ser o pilar para todas as situações se deflagrarem. Assim, objetivamos com esse estudo compreender como se configura a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho na perspectiva da singularidade do trabalhador. Para isso, procuramos, através de dois estudos de caso, identificar o que levou cada trabalhador com queixas sem base orgânica a buscar o atendimento em saúde do trabalhador, buscando articular essa queixa aos significantes que surgem em seu discurso. Em seguida, realizamos a escrita do ensaio metapsicológico, onde convocamos os conceitos psicanalíticos para dialogar com o que foi extraído das narrativas dos entrevistados. Por fim, destacamos algumas contribuições do referencial da psicanálise para o cuidado clínico de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico. Portanto, é mediante a abordagem da psicanálise que buscamos explorar novas possibilidades de pensar a relação entre o sofrimento psíquico e o trabalho. Acreditamos que a leitura do nosso estudo pode colaborar para que o enfermeiro possa repensar suas atitudes e práticas de cuidado. Entendemos que a psicanálise não é o saber que opera sobre as demais verdades científicas. Com elas dialoga, explora os caminhos a serem percorridos, mas sempre se constitui na verdade do sujeito. P á g i n a | 16 2 O TRABALHO E A SUBJETIVIDADE DO TRABALHADOR “(…) Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria… Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua” (Grande sertão: veredas) Ao falarmos sobre o trabalho percebemos que este remonta a uma atividade muita antiga e inerente ao ser humano. Desde o tempo primitivo essa função aparece como elemento importante para a vida dos homens. Não é por acaso que, atualmente, as pessoas passam grande parte do seu tempo envolvidas com as atividades laborais, seja de maneira direta, indireta, concreta ou sutil. Assim, o trabalho é visto como o centro de nossa identidade e sociabilidade. No entanto, desenvolvê-lo não garante obter apenas prazer na sua realização. Muitas vezes, o trabalho torna-se fonte de sofrimento, adoecimento e insatisfação (BORSOI, 2007). Tal relação pode ser percebida ao observarmos os aspectos históricos da evolução do trabalho nas antigas civilizações. Em Roma, o trabalho era destinado e executado pelas pessoas que haviam perdido a liberdade como, por exemplo, os escravos. Segundo Ribeiro; Leda (2004) estes carregavam além da dor e humilhação, o fardo social – subjugado à perda de sua independência e liberdade. Um fardo que não estava diretamente relacionado à execução do trabalho manual, mas, sobretudo, à rejeição a sua condição de submissão a outro homem. Assim, neste período, o significado do trabalho confundia-se com o de sofrimento, castigo, infortúnio. A origem etimológica da palavra trabalho vem do latim vulgar “tripalium”. Entretanto, a palavra trabalho, propriamente dita, estava associada ao verbo “tripaliare” que significava “torturar sobre o tripalium”. O tripalium era um instrumento, de três paus agudos, munidos com pontas de ferro, utilizados pelas pessoas para bater no trigo, no milho, no linho para rasgá-los e esfiapá-los (ALBORNOZ, 1994). Contudo, seu uso habitual estava relacionado ao instrumento de tortura empregado pelos romanos para obrigar os presos e escravos a trabalhar. Portanto, nesta época, o tripalium era um suplício substituto ao castigo da cruz, instrumento de tortura do mundo cristão. Assim, por muito tempo, a palavra trabalho remeteu a uma experiência dolorosa de sofrimento e castigo (RIBEIRO; LÉDA, 2004). P á g i n a | 17 Desse modo, sob o contexto do império romano, percebemos que o trabalho era considerado uma atividade vil, destinada às camadas mais baixas da sociedade. Por isso mesmo, não necessitava de proteção maior por parte da elite. Difícil imaginarmos a construção de regras para proteger os escravos contra qualquer tipo de lesão ou doença resultante do trabalho. Pois, na época era comum os escravos serem mortos ou multilados por seus donos. Inúmeros escritos mostram o quanto eram frequentes as deformações físicas advindas do castigo, as doenças em virtude do trabalho pesado e sequelas oriundas dos maus tratos praticados pelos proprietários de escravos (SANCHES, 2011). Mas é também em Roma, conforme Dias (2006), que surge a lei Lex Aquilia Dammo (286 A.C)1 que dá início a uma das primeiras proteções estabelecidas acerca da “saúde do trabalhador”. Utilizamos essa expressão por dois motivos. Primeiro porque nesse período os escravos eram os trabalhadores vigentes da sociedade. Segundo por ter sido a primeira lei que direcionava a preocupação com a vida dos escravos. Muito embora o teor da lei não tenha sido construído para o próprio benefício dos escravos, mas diretamente aos seus donos. Ela regulamentava punições e indenizações aos prejuízos causados para as pessoas que praticassem a morte injusta do escravo alheio, seja por danos causados por incêndio, fratura ou qualquer forma de “deterioração”. Percebemos que os gregos, por sua vez, utilizavam duas palavras para designar o trabalho. A primeira delas é “ponos”, que está relacionada a esforço e à penalidade, e a segunda reporta-se ao termo “ergon”, que se refere criação, obra de arte. Nesta acepção, os gregos estabelecem a diferença entre trabalhar no sentido de penar, “ponein”, e trabalhar no sentido de criar, “ergazomai”. Percebemos que a contradição "trabalho-ponos" e "trabalho-ergon" continua central na concepção moderna de trabalho, ao remeter a uma atividade que pode ser tanto fonte de prazer ou desprazer (VIEIRA, 2010). O trabalho na Grécia antiga, assim como em Roma, era visto como algo indigno, as pessoas que trabalhavam eram vistas de forma preconceituosa. Desse modo, quem trabalhava era somente a classe considerada abastarda e os escravos. O filósofo grego Platão demonstrou esta visão: “É próprio de um homem bem-nascido desprezar o trabalho”. Logo, os cidadãos gregos valorizavam apenas as atividades intelectuais, 1 A lei Lex Aquilia dammo estabeleceu as bases da responsabilidade extracontratual, criando formas pecuniárias de proteção (DINIZ, 2005). P á g i n a | 18 artísticas e políticas. Os trabalhos nos campos, nas minas de minérios, nas olarias e na construção civil, por exemplo, eram executados por escravos (RIBEIRO; LÉDA, 2004, p. 76). Percebemos que entre essas duas civilizações existem algumas semelhanças, mas também diferenças conceituais sobre o modo de conceber e de operar o trabalho. Como abordam Araújo; Sachuck (2007), na sociedade grega o trabalho era visto em função do produto e este, por sua vez, em função de sua utilidade ou capacidade de satisfazer à necessidade humana. O que contava era o valor de uso e não o valor de troca, isto é, o valor de uma mercadoria em relação às outras. Na Idade Média, encontramos o sistema feudal como estrutura predominante da sociedade. Nesse período surgiu uma nova classe social representada pelos senhores feudais, que centravam a riqueza a partir do acúmulo de propriedades de terra. Há nesse período a substituição do trabalho escravo pela relação senhor – servo. Os servos eram os trabalhadores rurais que estavam vinculados à terra, formando a classe mais baixa da sociedade feudal. Diferente dos escravos, os servos não eram propriedade de ninguém e não podiam ser vendidos. Entretanto, a servidão implicou um trabalho forçado, desgastante e penoso nos campos de terra dos senhores feudais em troca de proteção, moradia e do direito de arrendar pequeno lote de terra para a sua subsistência – suprimento necessário para se alimentarem e sobreviverem. Portanto, os servos estavam vinculados à terra pelo trabalho, não tinham direito a salários ou benefícios. Ademais, do trabalho na terra, os servos executavam diversas atividades relacionadas com a agricultura, artesanato e a comercialização dos produtos mais baseada no escambo, embora houvesse moedas, mas eram poucas e estas divergiam de feudo para feudo (RIBEIRO; LÉDA, 2004). Sob o olhar histórico percebemos que o trabalhador, representado na figura do escravo e do servo era, na verdade, tido pela sociedade como animal e/ou ferramenta destinada para a vida laboral. Eram homens sem história, sem perspectiva, sem esperança de uma vida longínqua, até que, consumidos seus corpos, pudessem se “libertar”. Portanto, independente da conceituação de ser escravo ou servo, o trabalho permanece ligado à indignidade social, cuja ocupação permitia às demais classes sociais realizar atividades valorativas como, por exemplo, orar ou fazer guerra. O fato é que a subsistência humana sempre esteve condicionada a realizar um trabalho; mesmo aquele que não o faz diretamente certamente deverá ter alguém que o faça. P á g i n a | 19 Outro ponto que podemos destacar, ao percorrer a evolução histórica do trabalho nas principais civilizações, é que este não era visto como possível fonte de riqueza. Mais tarde, com a Revolução Industrial e a consolidação do capitalismo passou-se a fazer uma diferenciação acentuada entre o trabalho qualificado e o não qualificado, entre o produtivo e o não produtivo, entre aquele gerador ou não de riquezas, aprofundando-se a distinção entre trabalho manual e intelectual (MINAYO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997). Enquanto na Idade Média a forma de produção estava baseada no artesanato e na livre expressão, na Idade Moderna, século VXIII, com a Revolução Industrial surgem profundas alterações quanto à forma de produzir e conceber as etapas que compõem o trabalho. São mudanças no processo produtivo em nível econômico, político e social que, posteriormente, passaram a ocorrer nos países subdesenvolvidos (RIBEIRO; LÉDA, 2004). Com a ascensão dos ideais capitalistas, outra forma de perceber o trabalho passou a vigorar, concebendo-o não mais como uma ocupação servil e relacionada ao sofrimento, mas, conforme as ideias de Marx, longe de pretender escravizar o homem, o trabalho permite o seu desenvolvimento, preenche sua vida e, conforme Albornoz (1994, p.59) “transforma-se em condição necessária para a sua liberdade”. O que antes era um fardo se torna um instrumento de independência e satisfação. Dessa forma, percebemos que a "experiência” de trabalhar, ao longo da existência humana, é marcada por paradoxos. Antunes (2005, p. 37), ao tecer um conceito do trabalho explicita nele os sentidos paradoxais: manifestação de “vida e degradação, criação e infelicidade, atividade vital e escravidão, felicidade social e servidão. (...) catarse e martírio”. Algo que veremos se tornará bastante marcante no contexto da contemporaneidade. Ao consultarmos o Dicionário Básico de Filosofia (2001) sobre o conceito de trabalho, este menciona que ele constitui uma atividade pela qual o homem modifica o mundo, a natureza, de forma consciente e voluntária, como meio de satisfazer as suas necessidades básicas – alimentação, habitação, vestimenta e etc. Assim, destacamos a concepção de Marx, expressa na sua obra “O Capital” (1989, p. 47) ao retratar o trabalho como sendo “a condição indispensável da existência do homem”, configurando-se como uma necessidade eterna, mediador da circulação material entre o homem e a natureza. P á g i n a | 20 Ao olharmos criticamente as concepções do trabalho sob a ótica do capitalismo, percebemos que ele traz consigo uma série de contradições, cada vez mais arguciosas. Pois, ao mesmo tempo em que o trabalho tem sido compreendido enquanto fonte de humanização e identidade do ser social, também contribui para a degradação e alienação do homem, um ser estranho a si mesmo, que apenas trabalha para atender as necessidades do capital. Sobre o capitalismo, Marx (1989), descreveu as implicações dessa contradição para o trabalhador. Na verdade conforme o modelo político e econômico vigente sai de cena o trabalhador para existir enquanto condição de mercadoria. Vejamos: O trabalhador se torna tão mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais mercadoria cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho não produz só mercadorias; produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria (MARX, 1989, p. 148). Diferente do que acontecia na Idade Média, quando os artesãos eram detentores de todas as etapas do seu trabalho, portanto conhecedores do seu produto final. Com o capitalismo, o produto do trabalho aparece, no final, como algo alheio ou estranho ao trabalhador, como um objeto que não lhe pertence. Neste período, sob a lógica do capital, o trabalho passa a ser regido por um lema bastante significativo que traduz a preocupação com a produtividade. Tempo livre não existe ou é escasso. Ao abordar de outro modo podemos dizer que não se deve de forma alguma desperdiçá-lo. O lema, portanto, se configura em "tempo é dinheiro". Nesta acepção a racionalização passa a ser a palavra mais repetida no capitalismo. A programação e o controle são determinantes, tudo é calculado, preciso. O cronômetro entra no ambiente de trabalho, apodera-se dele e torna-se um instrumento basilar para disciplinar a conduta, os corpos e a subjetividade dos trabalhadores. Nesta perspectiva, Christophe Dejours, em seu livro “A loucura do trabalho: estudo de psicopatologia do trabalho”, (1992) assinala um período em que a preocupação dos donos dos meios de produção estava direcionada em manter o progresso industrial. Por outro lado, as condições de trabalho eram péssimas, os salários dos trabalhadores eram baixos, jornadas de trabalho extensivas (12 a 15 horas), ambientes insalubres, falta de higiene, promiscuidade, subalimentação, inúmeros P á g i n a | 21 acidentes e doenças advindas do trabalho. Sem mencionar que o despotismo fabril agia em agressões físicas, ameaças, castigos, multas e demissões. Aliás, a intensidade das exigências de trabalho e de vida ameaçava a própria mão de obra. Dessa forma, ficava extremamente difícil para os trabalhadores manter o ritmo e a produtividade das empresas, pois os mesmos estavam inseridos, à época, naquilo que a literatura mundial chamava de “miséria operária”. Pois, a fome e a miséria não tardaram para assolar a classe trabalhadora, assim como inúmeras doenças como a cólera, tuberculose, varíola e o tifo. Tal quadro levou à morte de milhares de trabalhadores pobres (DEJOURS, 1992). Os trabalhadores, ainda conforme o autor supracitado, acreditando na mensagem ideológica do capitalismo de que quanto mais trabalhassem, um dia seriam recompensados e passariam a ganhar mais, submetiam-se à exploração máxima dos donos das fábricas, acabavam por insistir e labutavam dia após dia. Porém, muitos outros, desiludidos e desmoralizados pela extrema exploração e o constante empobrecimento, caíam no alcoolismo, demência, suicídio e as mulheres, na prostituição ou, em muitos outros casos, buscavam refugiar-se na promiscuidade. Por outro lado, pequenos grupos de trabalhadores tentavam as revoltas armadas e as rebeliões contra as condições de trabalho. Como caracteriza Dejours (1992, p.14) em vista do quadro ao qual o trabalhador do século XIX estava submetido não cabia falar de “saúde”. Antes se fazia necessário pensar e assegurar a sua subsistência, independente da doença. Pois, “a luta pela saúde nesta época identifica-se com a luta pela sobrevivência, viver para o operário é não morrer”. Ainda nessa acepção, Karl Marx chegou a escrever em veículos de comunicação da época que, se pudessem, os trabalhadores fugiam do trabalho como se fosse a própria peste; na verdade, a peste dos trabalhadores era o próprio trabalho. A partir da obra de Marx, “O Capital” (1989, p. 482), percebemos a vulnerabilidade e as condições de trabalho ao qual estavam submetidos os trabalhadores, principalmente as mulheres e as crianças, que representavam grande parte da mão de obra presente durante o período de desenvolvimento da indústria têxtil na Inglaterra. Ao se reportar ao trabalho infantil, esse autor descreve os riscos a que as crianças estavam expostas: "A maioria dos acidentes atinge crianças que se arrastam embaixo das máquinas para varrer o chão, enquanto elas estão em movimento”. P á g i n a | 22 Ao retratar as condições de trabalho das mulheres, Marx citando o relatório do Inspetor de Fábrica Saunders, de 1844, revela a situação de trabalho às quais elas estavam entregues, destacando, dentre outros fatores, a longa jornada de trabalho. Entre as mulheres operárias, há mulheres que trabalham muitas semanas seguidas, com exceção de alguns dias, de 6 da manhã até meia-noite, com menos de 2 horas para refeições, de modo que, em 5 dias na semana, só dispõem de 6 horas das 24, a fim de ir para casa, dormir e voltar (MARX, 1989, p. 460). Nessas condições de trabalho sucediam-se inúmeros e graves acidentes como amputações e fraturas de membros, queimaduras e intoxicações. Começavam a surgir diversos tipos de doenças ocupacionais que acometiam os trabalhadores, levando à morte inúmeros deles, em virtude de doenças cutâneas, cardíacas, respiratórias e aquela que despertaria mais tarde fortes discussões, a saúde mental dos trabalhadores (MERLO; LAPIS, 2007). Posteriormente, por volta do século XIX, concentrações dos trabalhadores começam a se fortalecer, por intermédio das câmaras, associações e os partidos políticos, dando ao movimento dos trabalhadores uma dimensão significativa. As reivindicações dos trabalhadores chegam a um nível propriamente político. E as suas lutas neste período histórico compreenderam os principais objetivos: redução da jornada de trabalho e com elas o limite de idade das crianças que são postas a trabalhar, a proteção às mulheres, o trabalho noturno e o descanso semanal (MERLO; LAPIS, 2007). Foram conquistas suadas, pois bem a dizer eram leis postas que sempre eram revogadas e várias eram as recusas de aplicação por parte dos donos das fábricas. Entre um projeto de lei e sua aprovação era necessário esperar em média dez anos. Só a para termos uma ideia, mediante a realidade inglesa, foram necessários quinze anos para a aprovação da lei sobre acidente de trabalho (1883 a 1898) e quarenta anos para jornada de dez horas (1879 a 1919) e vinte e cinco anos para jornada de 8 horas (1894 a 1919) (DEJOURS, 1992). Entretanto, sem surtir resultados significativos sob o absenteísmo, os donos das fábricas passaram a viabilizar a presença do médico dentro do espaço laboral para tentar intervir no alto índice de trabalhadores acometidos por doença. Fato que trazia implicações para a produtividade das indústrias: redução na produção. Tal iniciativa P á g i n a | 23 surgiu quando um proprietário de uma fábrica têxtil na Inglaterra, 1883, procurou seu médico particular, Robert Baker, para que indicasse a maneira pela qual ele, enquanto também empresário, poderia reverter o quadro de doenças dos trabalhadores e manter a produtividade da empresa (MENDES; DIAS, 1991). A resposta de Robert foi que colocasse no interior da sua fábrica o seu próprio médico, pois este exerceria um papel de intermediário entre o patrão e os seus trabalhadores. Conforme as palavras do médico: “deixe-o visitar a fábrica, sala por sala, sempre que existam pessoas trabalhando, de maneira que ele possa verificar o efeito do trabalho sobre as pessoas” (MENDES; DIAS, 1991, p. 341). Se, durante sua avaliação clínica, ele verificasse que qualquer dos trabalhadores estava sofrendo algum tipo de risco que pudesse ser evitado, a ele competiria fazer a prevenção. Dessa forma, Robert afirmou para o dono da fábrica: [...] você poderá dizer que meu médico é a minha defesa, pois a ele dei toda a minha autoridade no que diz respeito à proteção da saúde e das condições físicas dos meus operários; se algum deles vier a sofrer qualquer alteração da saúde, o médico unicamente é que deve ser responsabilizado (MENDES; DIAS, 1991. p. 341). Entretanto, a presença do médico e a medicalização como principal terapêutica instituída no espaço laboral não se tornaram suficientes para reduzir o número de doenças ocupacionais e, tão pouco garantir uma fórmula para que mantivesse significativamente os lucros gerados pela força laboral dos trabalhadores. Nesta perspectiva, sob o desenvolvimento do capitalismo surgiu um novo modo de organização do processo produtivo denominado Taylorismo. Este passou a confrontar o trabalhador a novas condições e exigências de trabalho, provocando novos desdobramentos na relação entre o processo saúde/doença. Uma nova forma de organização que visualiza apenas maximizar a produção. Desse modo, Taylor, criador do taylorismo, desenvolveu métodos objetivos e uniformes capazes de direcionar a execução dos movimentos dos trabalhadores. O objetivo deste método consistia em reprimir a “vadiagem no local de trabalho”, mas esta não se referia tanto aos momentos de repouso e conversações e, sim, as fases durante as quais os trabalhadores, conforme pensava Taylor, trabalhavam num ritmo menor do que aquele que poderia ser executado (DEJOURS, 1992, p.68). P á g i n a | 24 Nessa perspectiva, Taylor fundou a partir de estudos e observações um modo operatório cientificamente estabelecido. Restou a partir daí impor a todos os operários sem distinção de altura, sexo, idade, estrutura mental. Tal modo contribuiu para a desapropriação da liberdade inventiva e de criação do trabalhador. O lema é adaptação, por isso a necessidade de vigiar cada gesto, cada sequencia, lapidando os movimentos elementares dos trabalhadores em movimentos rápidos e precisos (NAVARRO; PADILHA, 2007). Todavia, não devemos pensar que a intensificação e a organização do trabalho sejam típicas das atividades industriais. No decorrer do século XX, principalmente em suas últimas décadas, todas as atividades que concentram volume de capital (ramos da telecomunicação, saúde, educação etc.) estão submetidos à lógica e objetivo do capitalismo. Assim, sob a égide do capitalismo o trabalhador vai sendo separado da sua condição subjetiva, alienado de seu produto, sem planejar, sem decidir, expropriado de toda e qualquer propriedade exceto uma: sua própria força de trabalho, expressa em um corpo cindido de sua dimensão psíquica, assumindo características da máquina. Nesta perspectiva, o trabalhador tornou-se servo de seu próprio objeto, força de trabalho, só podendo manter-se sujeito enquanto trabalhador. Mas um sujeito “coisificado” e alienado tanto do seu processo produtivo quanto de si mesmo. É pelo mecanismo de desapropriação da subjetividade do trabalhador que este passa a ser transformado em um objeto manipulável pela ciência. Portanto, no mundo do trabalho capitalista a subjetividade do trabalhador se apresenta como estranho e hostil a ele mesmo, como pertencentes a um outro. Assim, reduzem-se os elementos subjetivos ao estatuto de coisa (AUGUSTO; 2009). Surge através desta negação da subjetividade, o que Dejours (1992) denominou como sentimento de robotização, ou seja, o sujeito não se sente nada mais do que um apêndice da máquina ou dos processos a que se submete. Ele não se visualiza enquanto um ser integrante, constituinte da construção do crescimento e reconhecimento da empresa onde se encontra trabalhando, apenas objeto de uso e para uso das empresas. Sob a paralisia da imaginação, criatividade e subjetividade marca-se o triunfo do condicionamento sobre a própria criação produtiva. Tal processo se dá através da “submissão do corpo” às necessidades de um outro - da chefia, da família, da organização, do sistema - tendo como um de seus principais desdobramentos o sofrimento psíquico do trabalhador. P á g i n a | 25 Em um processo que é determinado pelo meio de produção mecanicista, o elemento humano, subjetivo, encontra-se subordinado aos elementos objetivos – dor, adoecimento e até o sofrimento psíquico só passam a ser reconhecidos a partir da mensuração e da observação clínica anatomopatológica resultante da aplicação consciente da verdade científica – medicina. P á g i n a | 26 3 A CLÍNICA E SOFRIMENTO PSÍQUICO DO TRABALHADOR Percebemos que, ao longo da história, o sofrimento recebeu diferentes significações e destinos. De símbolo do pecado judaico-cristão passando pela bruxaria medieval, o sofrimento sempre exigiu do homem uma explicação. Entretanto, foi com o discurso científico que o sofrimento passou a ganhar o status de patologia. Tal acepção é tributária do pensamento moderno, nasce no século XIII, com o advento da medicina científica, onde novas formas de conhecimento e novas práticas institucionais tornaram o paciente desvinculado do seu sofrimento. Uma clínica que concebe tudo o que foge à norma como patológico, a pessoa como um corpo e um corpo enquanto máquina com padrão de funcionamento pré-determinado (FOUCAULT, 1994). Assim, para conhecer a “verdade do fato patológico”, o médico precisa abstrair o sujeito, pois sua disposição, temperamento, fala, idade, modos de vida perturbam a identificação da doença, segundo o desenho nosográfico preestabelecido. Portanto, a história da doença não está mais acessível no sujeito, mas em seus prontuários, basta consultá-los (SIMANKE, 2002). Nesta acepção, o olhar do médico assume um poder capaz de detectar os acontecimentos singulares, assim como de descrevê-los sob a sua razão. Esse olho que é capaz de ver e falar serve apenas à verdade do médico. Portanto, o signo só adquire valor de sintoma quando sua descrição passa a ser suplementada pela consciência do médico, ou seja, aquilo que aparece legível na relação entre o olhar do médico e o corpo do doente. Pois, o que depende da fala ou da lembrança do paciente ou do relato de seus familiares possui valor secundário e suspeito. Essa passagem implica a captura no discurso e na sanção da ordem médica (DUNKER, 2011). O médico, neste sentido, ouve o paciente, mas não o escuta. Pois, o objetivo é apenas ouvir para colher as informações na medida em que estas possam ser cotejadas como um referente anatomopatológico. O paciente atua, assim como mero informante daquilo que por motivos técnicos não pode ser diretamente visível para o médico como, por exemplo, a dor, sofrimento, e a intensidade do sintoma (DUNKER, 2011). É nessa concepção que Bichat define a saúde como sendo “o silêncio dos órgãos”, portanto, a doença começaria quando os órgãos começassem a falar, ou seja, manifestar alterações clínicas. Durante esse período o médico devia ser capaz de ler a P á g i n a | 27 doença, e esta anunciava seu fim quando o corpo voltasse a emudecer. Deste ponto de vista, o signo na clínica clássica, procura excluir o sujeito. Pois, só o médico é capaz de relacionar, legitimar e certificar a doença como tal (SIMANKE, 2002). Um dos destinos da manifestação do sofrimento foi o hospital, que surgiu como um espaço de consolidação da identidade de doente, de assistência, segregação e exclusão (FOUCAULT, 1994). Como uma imensa vitrine, a hospitalização deu visibilidade ao paciente reafirmando-o como doente na família, no trabalho e na comunidade. Uma vez internado, não havia dúvidas de sua condição de doente, mesmo quando não se tinha ainda um diagnóstico. Desse modo, a “coisificação” do sujeito atrelado a uma clínica anátomo-palógica apenas contribui para reforçar os estudos sobre a ontologia da doença que passou a predominar na nosografia psiquiátrica. Sobre essa discussão Simanke (2002, p. 38) traz que: A medicina lida com doenças, ora, uma doença não pode, por definição ser do espírito; portanto, só pode ser do corpo. A doença mental não é, então, verdadeiramente mental, mas sim uma doença orgânica com efeitos aparentes sobre o nível mental, importando por isso todos os parâmetros que definem a doença para a patologia orgânica. Estabelecer essa relação com a saúde mental dos sujeitos foi, ao longo do tempo, objeto de estudo da psiquiatria. Paradoxal, pois precisou lançar mãos sobre uma causalidade orgânica para justificar as alterações patológicas do aparelho mental. Tentativas de “decompor” o sofrimento psíquico em seus elementos de base para, a partir daí, compreendê-los, classificá-los, estudá-los e tratá-los. No entanto, se esse modelo permitiu grandes avanços no plano da clínica médica, no plano da psiquiatria ele passa a colocar alguns dilemas, pois se tratava de buscar uma causalidade orgânica para justificar algo que, por definição, pertence à esfera psíquica. Dessa forma, influenciada pelo modelo biomédico, a psiquiatria se materializou em práticas discursivas específicas que definiram o que é normal, qual tratamento devia ser seguido pelos pacientes, exercendo sobre estes uma particular forma de controle social que atinge todas as dimensões da vida do indivíduo, inclusive a dimensão psíquica, ao legitimar e institucionalizar o papel do doente. Assim, surgiu um processo de psiquiatrização da vida social, que veio, ao longo dos anos, transformando todo o P á g i n a | 28 mal-estar psíquico em doença, fundamentado na neurologia e na genética, incentivando o tratamento baseado essencialmente em recursos químicos (FERRAZZA et al, 2010). Desse modo, a psiquiatria concretizou seu desejo, perseguido desde o século XIX, de ser reconhecida enquanto especialidade médica, de fato e de direito, apoiando seus fundamentos no discurso rigoroso da ciência biológica. Nessa perspectiva, a psiquiatria passou a definir um novo modo de funcionamento de sua clínica, entre o normal e o patológico, onde os medicamentos psicofármacos tornaram-se o novo e o principal dispositivo para o tratamento e cura do que veio a se denominar doença mental (FERRAZZA et al, 2010). Após caminharmos sobre a discussão que permeia a clínica e o sofrimento psíquico torna-se pertinente abordar, historicamente, os primeiros relatos desta manifestação no ambiente laboral e as influências que a clínica anatomopatológica traz para a discussão entre a relação saúde/doença mental e trabalho. É por meio de um relatório sobre a análise do trabalho realizado em várias indústrias francesas que podemos perceber a articulação que se estabelecia entre o aumento do ritmo de trabalho, cada vez mais intenso, e a estratégia utilizada pelos donos das fábricas para intervir no sofrimento psíquico do trabalhador, que por sinal tornava-se recorrente. O relatório foi produzido pelo Laboratório de Psicologia do Conservatório Nacional de Artes e Ofício por Wisner, Laville, Duraffourg em 1972. Talvez recorrente seria uma palavra aquém do significado. Para uma melhor expressão do que esse fato representava para os diversos países em processo de industrialização, inclusive o Brasil, as manifestações de sofrimento psíquico eram chamadas de “descompensações” que se desencadeavam como se fossem verdadeiras epidemias avassaladoras e que aterrorizava toda a sociedade da época. O relatório exemplifica inúmeras situações. Dentre elas destacamos duas. A primeira delas refere-se às trabalhadoras de uma indústria têxtil. Esse fato foi relatado com grande espanto, pois em um determinado dia, uma mulher agitada começou a tremer, a chorar e a gritar desesperadamente. Não havia nada que conseguisse acalmála. O surto se deu diante de todas as outras trabalhadoras. E em questão de segundos todas as mulheres do mesmo setor de trabalho foram atingidas numa “série de descompensações”, tendo muitas que abandonar a função (WISNER; LAVILLE; DURAFFOURG, 1972). A medida de intervenção apontada no relatório é que se o incidente ficasse isolado apenas na mulher que desencadeou a primeira crise, ela seria encaminhada para P á g i n a | 29 a enfermaria e submetida a um tratamento medicamentoso. Mas como diversas trabalhadoras apresentaram “descompensações”, a estratégia para solucionar o problema foi simplesmente diminuir o ritmo de trabalho. “Bastou reduzir a pressão organizacional para fazer desaparecer toda forma de manifestação de sofrimento”. Um método simples e que garantia, até o próximo descontrole mental das trabalhadoras, um ritmo desejável de produção (DEJOURS, 1992, p. 120). Situações que também podiam ser verificadas em setores como a linha de montagem de automóveis. Segundo o relatório havia determinados dias da semana em que voavam parafusos nas salas, gritos, ferramentas quebradas, brigas traduzidas em socos e pontapés. Os trabalhadores agressivos e descompensados passavam a se revelar contra as máquinas e contra os colegas, o setor parava e os prejuízos se elevavam a números espantosos. Por fim, verificava-se que os carros que saíam da fábrica nesses dias tinham mais defeitos do que aqueles que saíam no começo da semana. Os proprietários de carro, ao comprar os automóveis e perceberem as falhas mecânicas costumavam dizer entre si “é um carro de sexta-feira”. Mesmo diante dessa situação, o que se tinha como registro na época, é que os patrões insistiam em manter o ritmo da produção. É assim que se ia definindo a norma. Uma norma de produção, claro, mas também uma norma mental, deveria ser regulada (DEJOURS, 1992). Dessa forma, as doenças somente eram reconhecidas quando estas manifestavam sintomas evidentes no corpo, a tal ponto que não poderiam ser negadas como uma tosse com hemoptise, um emagrecimento acentuado. Qualquer doença que acometesse um trabalhador só seria motivo para procurar um médico se esta tivesse atingido um nível de gravidade que impedisse a continuidade da sua atividade profissional. Nesse contexto, o sofrimento mental e a fadiga dos trabalhadores eram desconsiderados e, como menciona Dejours (1992), “proibidos” de se manifestarem no ambiente de trabalho. Só a doença com base orgânica era admissível. Nessa perspectiva, o trabalhador tinha que apresentar um atestado médico como a garantia de ter o certificado de uma doença. Na atualidade, percebemos que a preocupação em banir o sofrimento do mundo do trabalho ainda é bastante evidente, além de procurar uma causa orgânica ou epidemiológica para manifestações psíquicas. Em 2013, foi noticiado pelos meios de comunicação que trabalhadores de uma indústria de vestuários de Bangladesh foram “atingidos por uma misteriosa doença”. Seiscentos trabalhadores começaram a se P á g i n a | 30 queixar de dores de estômago e vómitos, levando as autoridades a suspeitar inicialmente que o consumo de água contaminada no local de trabalho seria a causa. Mas os médicos e os microbiólogos que investigaram a doença afirmaram não ter encontrado nada de errado na água disponível para consumo numa das fábricas onde os operários adoeceram no início daquele mês. Em vez disso, uma equipe do Instituto de Epidemiologia, Controle de Doenças e Investigação (IECDI) do país suspeitou que a doença misteriosa fosse uma doença conhecida como "histeria coletiva" que afetou o país há cerca de oito anos e obrigou ao encerramento de dezenas de escolas e fábricas. Ao longo desses relatos, percebemos que o sofrimento psíquico dos trabalhadores só passa a ser inquietante para os donos das fábricas quando este é traduzido, pela medicina, em adoecimento físico. Neste contexto, a preocupação primordial dos donos das fábricas com a saúde dos trabalhadores é assegurar, conforme o discurso médico, padrões de homens e mulheres que sejam mentalmente saudáveis para trabalhar. Portanto, a consulta médica, na grande maioria, tem o objetivo de maquilar o sofrimento mental na medida em que procura não somente o deslocamento do conflito homem-trabalho para um terreno mais neutro. O mais importante é a desqualificação do sofrimento, no que este pode ter de mental. Dessa forma, os sujeitos/trabalhadores desprovidos de subjetividade, singularidade e história de vida passaram a ser vistos como corpos e, até as próprias questões psíquicas são transformadas em condições estritamente biológicas (BRANT; MINAYO-GOMEZ, 2004). Esse adoecimento não se fez sem consequências, trouxe em seu bojo a discriminação e exclusão dos trabalhadores que apresentam queixas relacionadas ao seu sofrimento psíquico. Assim, a prática da medicalização das manifestações do sofrimento nas empresas, através da prescrição indiscriminada, principalmente de antidepressivos, ansiolíticos e psicoestimulantes, passa a ser a solução mais viável e rápida para eliminar o problema. Logo, é possível deduzirmos que o médico apenas vê ilusoriamente o trabalhador, pois a doença diagnosticada não está propriamente nele, tem origem em outro lugar: na instituição do discurso médico que conduz à construção de trabalhadores doentes. Assim, o controle exercido pela medicina dentro dos espaços laborais também passou a ser regido pelas normas da clínica anatomopatológica, transformando padrões P á g i n a | 31 estatísticos de normalidade em critérios de saúde e doença (BRANT; MINAYOGOMEZ, 2004). Assim, podemos compreender que a clínica direcionada à saúde do trabalhador pauta-se na busca de instrumentos reguladores dos níveis externos de trabalho: intensificação, jornada e ritmos de trabalho. Essa é a forma racional que os donos dos meios de produção atestam para conseguir “combater” o sofrimento psíquico do trabalhador. Entretanto, este não pode ser regulado somente a partir de fatores externos, conforme a lógica capitalista preconiza. Nesta perspectiva, o tópico que se segue discorre sobre a evolução histórica das práticas institucionalizadas de intervenção, no Brasil, acerca da saúde do trabalhador. Práticas que, apesar dos avanços significativos, ainda caminham para a percepção das doenças relacionadas ao trabalho em uma dimensão estritamente biológica, certificada pela existência de um nexo causal. 3.1 A Clínica do Trabalhador no Brasil: da medicina do trabalho à saúde do trabalhador No Brasil, o início da identificação e do registro documental de problemas relacionados à saúde do trabalhador data do século XIX, mas a incorporação desta temática a investigações de caráter científico ocorreu somente mais tarde, nas escolas médicas. A partir desse momento, começaram a produzir um corpo de conhecimento direcionado para as doenças e acidentes ocupacionais. Surge aí, o campo da Medicina do Trabalho. Percebemos, conforme o estudo de Almeida (2008) que foi com a expansão exponencial dos programas de pós-graduação no país, nos anos 90, que as teses e dissertações com foco nos problemas nacionais da área da saúde do trabalhador se proliferaram. Destacam-se, entre os principais temas abordados, as condições de trabalho, alimentação dos operários, ensino e formação em medicina do trabalho, acidentes e doenças laborais. Desse modo, a Medicina do Trabalho passou a se consolidar enquanto uma especialidade dentro do campo da medicina. Centrada na figura do médico, a atividade da Medicina do Trabalho no Brasil orienta-se pela teoria da unicausalidade, ou seja, para cada doença, um agente etiológico. Transplantada para o âmbito do trabalho, vai se refletir na propensão a isolar P á g i n a | 32 riscos específicos e, dessa forma, atuar sobre suas consequências, medicando todo e qualquer tipo de adoecimento, em função de sintomas e sinais ou, quando muito, associando-os a uma doença legalmente reconhecida (MINAYO-GOMEZ; THEDIMCOSTA, 1997). Desse modo, compreendemos que o objetivo central da Medicina do Trabalho não consistia em promover a saúde dos trabalhadores, mas garantir o bom funcionamento dos processos de trabalho. Não é por acaso que, conforme SeligmamSilva et al., (2010) as práticas mais disseminadas eram a seleção de pessoal que, em tese, fosse menos propenso a se acidentar e adoecer, o controle da saúde para evitar problemas de absenteísmo e os esforços para proporcionar retorno rápido ao trabalho nos casos de afastamentos. Portanto, podemos mencionar que a Medicina do Trabalho não estava direcionada para atenção à saúde dos trabalhadores, mas configurando-se também numa espécie de “braço direito” do empresário, contribuindo para manutenção do seu patrimônio, pois, a garantia de ter o trabalhador “saudável” na linha de produção era fundamental para que houvesse o bom desempenho e lucratividade das atividades comerciais (ALMEIDA, 2008). Para assegurar tal objetivo, a principal atribuição da Medicina do Trabalho era de contribuir para o estabelecimento e manutenção do nível mais elevado possível do bem-estar físico e mental dos trabalhadores, conferindo-lhe um caráter regulador das ações sobre os trabalhadores por meio da concepção positivista da prática médica – trabalhador enquanto objeto; corpo disciplinado. A implantação desses serviços médicos baseado neste modelo rapidamente se expandiu, paralelamente ao processo de industrialização que ocorria no Brasil, passando a exercer um papel vicariante. Entretanto, a tecnologia industrial evoluía num ritmo de intenso progresso. Momento traduzido pelo desenvolvimento de novos processos industriais e a inserção de novos equipamentos modernos. A Medicina do Trabalho não dava mais conta de “adaptar o trabalhador” às condições de trabalho, novas causas e formas de adoecimento começavam a surgir também de forma acelerada. Cresceram a insatisfação e o questionamento dos trabalhadores - ainda que apenas 'objeto' das ações - e dos empregadores, claramente onerados pelos custos diretos e indiretos dos agravos à saúde de seus operários (SELIGMAM-SILVA et al., 2010). Esse quadro era agravado pelo fato de que, frequentemente, as doenças originadas no trabalho só eram percebidas em estágios avançados. Até porque muitas P á g i n a | 33 delas, em suas fases iniciais, apresentavam sintomas comuns a outras patologias, tornando-se difícil, sob essa ótica, identificar os processos que as geravam. Pois, estes se tornavam bem mais amplos que a mera exposição a um agente etiológico exclusivo. A rotatividade da mão de obra representou um obstáculo a mais nesse sentido. A passagem por processos produtivos diversos frustrava as tentativas de estabelecer os nexos causais e diluía a possibilidade de realizá-los, excetuando-se os mais evidentes (MINAYO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997). Diante desse novo cenário, a resposta racional, "científica" e aparentemente inquestionável para intervir sobre a situação traduziu-se na ampliação da atuação médica direcionada ao trabalhador e ao ambiente. Se um especialista não estava conseguindo dar conta, a solução foi agregar profissionais de outras áreas de conhecimento. Surge, nesse contexto, um novo campo conceitual e metodológico para atuar na relação entre saúde e trabalho, a Saúde Ocupacional. Esta, por sua vez, avança numa proposta interdisciplinar, relacionando ambiente de trabalho e corpo do trabalhador. Incorpora a teoria da multicausalidade da doença, na qual um conjunto de fatores de risco é considerado na produção do adoecimento, avaliado através da clínica médica e de indicadores ambientais e biológicos de exposição e efeito (MENDES; DIAS, 1991). Apesar da nova reformulação, percebemos que a Saúde Ocupacional também não conseguiu atingir os objetivos propostos, que eram traduzidos na redução significativa da incidência de casos de acidentes e doenças ocupacionais. Dessa forma, repetiam-se as limitações da própria Medicina do Trabalho. Podemos dizer que era uma nova roupagem, porém com estratégias similares de atuação sobre o adoecimento. Pois, as medidas que deveriam assegurar a saúde do trabalhador, em seu sentido mais amplo, acabaram por restringir-se a intervenções pontuais sobre os riscos mais evidentes. A preocupação era normatizar as formas de trabalhar consideradas seguras, o que, em determinadas circunstâncias, formava apenas um quadro de prevenção simbólica. Nessa perspectiva, eram imputados aos trabalhadores os ônus por acidentes e doenças, concebidos como decorrentes da ignorância e da negligência, caracterizando uma dupla penalização. Além disso, apesar da “nova” proposta enfocar as ações interdisciplinares no coletivo de trabalhadores, continuava a abordá-los como "objeto" de suas práticas em saúde (DIAS, 2006). Diante dessa realidade, os movimentos políticos e sociais passaram a questionar o quadro de saúde da população trabalhadora. Um percurso marcado pelas lutas P á g i n a | 34 coletivas em prol de melhores condições de vida e de trabalho; pelo compromisso das empresas em seguir com a legislação existente; pela participação mais ativa do Estado na definição e implementação de políticas nesse campo. Essas mobilizações, segundo Borsoi (2007), contribuíram para a conformação da Saúde do Trabalhador. No Brasil, o termo Saúde do Trabalhador surge no bojo do Movimento pela Reforma Sanitária que se intensificou no país a partir da década de 1980. O momento culminante de mobilização popular pela saúde do trabalhador deu-se na VIII Conferencia Nacional de Saúde e na I Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador, ambas em 1986. A união dos esforços de técnicos de saúde ligados às universidades e ao Ministério da Saúde (MS) juntamente com os trabalhadores estabeleceram as bases desse conjunto de saberes, práticas e intervenções no espaço laboral (RAMMINGER, NARDI, 2007). Longe de ser um termo apenas descritivo e sinônimo da Saúde Ocupacional, percebemos que a Saúde do Trabalhador refere-se a um campo de saberes e práticas com claros compromissos teóricos, éticos e políticos, e insere-se como uma política pública em saúde que demanda articulações intersetoriais (saúde, previdência social, educação, trabalho e emprego e meio ambiente, dentre outras). A amplitude do campo teórico e prático da Saúde do Trabalhador exige a inter-relação de diversos saberes e a apreensão de múltiplos conceitos. Lembramos que tal proposta desenvolve-se como uma crítica à concepção e prática da Saúde Ocupacional e da Medicina do Trabalho, criadas mais com o propósito de operar como ferramentas de gestão da força de trabalho. Estas visualizavam a busca pela eficiência, produtividade e lucratividade e, com a tendência de restringir seus objetos de atuação às condições do ambiente de trabalho (de natureza física, química, biológica e mecânica). Portanto, a Saúde do Trabalhador tem como objetivos prioritários a promoção e a proteção do trabalhador, traduzida nas ações de vigilância dos riscos presentes nos ambientes e condições de trabalho, bem como a vigilância dos agravos (acidentes e doenças) decorrentes. É um campo de atuação que também se preocupa com a organização e prestação dos serviços assistenciais aos trabalhadores vitimados com agravos decorrentes do trabalho. Para isso, compreende procedimento de diagnóstico, tratamento, notificação e reabilitação de forma integrada e regionalizada no SUS (SATO, 1995). P á g i n a | 35 Além disso, preconiza que o trabalhador deve se situar enquanto sujeito, provido de condições e instrumentos para interferir naquilo que lhe causa sofrimento. Pautado nesse arcabouço teórico e conceitual, em 2001 o Ministério da Saúde (MS) publicou a obra de referência para regulamentar os tipos de doenças e as normas estabelecidas sobre a saúde do trabalhador, intitulada “Doenças Relacionadas ao Trabalho: Manual de Procedimentos para os Serviços de Saúde”. Nela são classificadas 153 doenças e a sua relação com o trabalho. Como proposta de fortalecimento da Saúde do Trabalhador, esta política vem sendo, aos poucos, incorporada às ações do SUS. Para atender esse objetivo foi criado em setembro de 2002, no Brasil, a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do Trabalhador (RENAST) através da Portaria do Ministério da Saúde de nº 1.6796. Esta se constitui como uma rede de abrangência nacional e como ferramenta estratégica para a disseminação dos princípios e práticas do campo da Saúde do Trabalhador em todos os níveis de atenção (JACQUES, MILANEZ, MATTOS, 2012). Na estruturação da RENAST, os Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) ocupam lugar de destaque. Cabe a estes o papel de polos de atuação sobre o processo de adoecimento, provendo suporte técnico e informações aos trabalhadores. Além de executar, organizar e estruturar a assistência de média e alta complexidade acerca dos problemas e agravos à saúde dos trabalhadores (JACQUES, MILANEZ, MATTOS, 2012). Dentre as Doenças Relacionadas ao Trabalho, destacamos o capítulo do manual sobre os “Transtornos Mentais e do Comportamento”. Nele encontramos que as ações implicadas pelo ato de trabalhar podem atingir o corpo dos trabalhadores, produzindo disfunções e lesões biológicas, mas também reações psíquicas às situações de trabalho patogênicas, além de poderem desencadear processos psicopatológicos especificamente relacionados às condições do trabalho (BRASIL, 2001). Se observarmos a descrição proposta pelo Ministério da Saúde, dois pontos nos chamam a atenção. O primeiro deles refere-se às reações psíquicas – ao serem mencionadas no texto estas já estão previamente relacionadas a situações patológicas, como sugere a própria denominação: transtorno mental. Fato que demonstra o caráter biológico que permeia a compreensão da relação entre saúde mental e trabalho. O segundo ponto refere-se à outra articulação construída entre o sofrimento psíquico e os fatores externos, traduzidos nas condições de trabalho. Descartando o a constituição do sujeito e sua forma singular de vivenciar e significar o sofrimento. P á g i n a | 36 De acordo com a Organização Mundial da Saúde, OMS (1993), que publica a Classificação Internacional das Doenças (CID -10) passou-se a recomendar a utilização do termo transtorno em substituição a expressões como doença ou enfermidade, por entender que estas últimas causavam polêmica, ao trazer em seu cerne forte estigma e tabu aos portadores. Dessa forma, o CID-10 trata-se de um documento técnico que padroniza a nomenclatura utilizada pelos profissionais da área de saúde. Assim, transtorno é utilizado para “indicar a existência de um conjunto de sintomas ou comportamentos clinicamente reconhecíveis, associados, na maioria dos casos, a sofrimento e interferência com funções pessoais” (OMS, 1993, p. 25). Ao observar dados sobre a saúde mental relacionada ao trabalho, estes demonstram que o afastamento de trabalhadores por transtornos mentais no Brasil subiu 2% em referência ao ano de 2010, atingido a marca de 12.337 casos. Os dados são do último Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho (AE), referente ao ano de 2011. Este documento foi produzido pelo INSS, divulgado na primeira semana do mês de março de 2012. Outros dados enfatizam que os transtornos mentais e comportamentais ocupam o terceiro lugar em quantidade de concessão de auxílio-doença acidentário pela previdência. Segundo o INSS, “dentro” dos transtornos mentais e comportamentais, as doenças que mais afastaram os trabalhadores foram os episódios depressivos, transtornos ansiosos e reações ao estresse grave e transtornos de adaptação, respectivamente (AE, 2011). Não obstante, ao mencionar os números acerca da saúde mental e o trabalho não queremos justificar a partir deles a importância dessa discussão no âmbito da área da saúde. Embora os dados gerem informações significativas, compreendemos que não é o elevado número de casos de trabalhadores em sofrimento psíquico que irá qualificar a necessidade de um cuidado pautado na singularidade e na escuta de cada trabalhador. Percebemos através dos dados que as políticas públicas voltadas à saúde do trabalhador ainda direcionam suas ações a partir de embasamentos estatísticos. É mediante essa realidade numérica que os pesquisadores e autoridades governamentais do país passaram a reconhecer “o transtorno mental dos trabalhadores” como sendo uma situação preocupante para a Saúde Pública. Não podendo ser mais, conforme os argumentos das autoridades, ignorados ou negligenciados. Em virtude disso, a relação entre saúde mental e trabalho passou a ser um tema bastante recorrente no Brasil, P á g i n a | 37 constituindo um campo de estudos que passou a ser intitulado “Saúde Mental Relacionada ao Trabalho” (SMRT) (PAPARELLI; SATO; OLIVEIRA, 2011). Outro aspecto a ser destacado sobre os transtornos mentais relacionados ao trabalho refere-se à classificação das doenças mentais ligadas à atividade laboral. Pesquisadores como Lima (2006) destacam que a referida classificação, adotada pelo Ministério da Saúde em 2001 é pautada na categorização de Shilling, e se encontra dividida em três grupos. Veremos cada uma delas, na sua peculiaridade, para, posteriormente, tecermos algumas implicações a seu respeito. O primeiro grupo se refere às doenças profissionais nas quais o trabalho representa um nexo causal evidente, como nas neurointoxicações ocupacionais provocadas por sustâncias químicas como o mercúrio, por exemplo. O segundo grupo reporta-se ao trabalho podendo ser um fator de risco para patologias, mas não necessariamente. Estão nesse grupo o alcoolismo crônico, transtornos do ciclo sonovigília etc. E por fim, o terceiro grupo, nesse caso, o trabalho é desencadeador de um distúrbio latente como os episódios depressivos, a neurose profissional e a neurastenia (JACQUES, 2007). Nos grupos II e III se enquadra a maioria dos transtornos mentais e comportamentais cujos fatores de riscos epidemiológicos não apontam para a exposição ocupacional por substâncias químicas ou por lesão com base orgânica. Situam-se as doenças não definidas a priori como resultantes do trabalho, mas que podem ser ligadas a este, como, por exemplo, outros transtornos neuróticos especificados, síndrome de burn-out e o alcoolismo crônico relacionado ao trabalho. Nesses casos impõe-se a necessidade de laudo técnico que estabeleça os nexos causais. Segundo os princípios norteadores que regem a classificação das doenças relacionadas ao trabalho é por meio do estabelecimento do nexo causal entre a doença e a atividade atual ou pregressa do trabalhador que se representa o ponto de partida para o diagnóstico correto e a terapêutica adequada. Entende-se por nexo causal aquilo que pode comprovar a ocorrência da causa e do evento, sendo cientificamente medido e comprovado para testificar a ocorrência de alterações que levem ao processo de adoecimento do trabalhador (JACQUES, 2007). O estabelecimento de nexo causal ganhou um novo contorno ao entrarem em vigor a Lei nº11.430, de 26 de dezembro de 2006, o Decreto nº 6042, de 12 de fevereiro de 2007, e a Instrução Normativa nº 16, do INSS, de 27 de março de 2007 (IN 16), pois, a partir desse momento, o reconhecimento das doenças relacionadas ao trabalho passou P á g i n a | 38 a ser identificado, pelo INSS, mediante o estabelecimento de “nexo técnico epidemiológico” ligado à atividade profissional exercida. Isto significa dizer que quando um trabalhador for afastado do trabalho por uma determinada doença que apresenta significância estatística no ramo econômico a que pertence o seu empregador, seu benefício será definido automaticamente pelo INSS como acidente de trabalho (NARDI; RAMMINGER, 2012). Assim, quando os dados epidemiológicos indicarem que, em determinado ramo produtivo, há uma alta incidência de incapacidade laborativa decorrente de um mesmo problema de saúde, não caberá mais ao trabalhador inserido em uma empresa desse ramo a responsabilidade de comprovar que seu adoecimento, seja físico ou mental, foi causado pela atividade que desempenhava. Ao contrário, caberá ao empregador o encargo de provar que tal nexo não existe (NARDI; RAMMINGER, 2012). Se observarmos, é a incidência estatística presente no ramo de trabalho o que fundamenta a relação entre saúde mental e o trabalho. Independente de ser elevada ou não, de quem comprove o nexo causal, se o empregador ou o trabalhador, o fato é que em ambos os casos o que irá determinar a presença da doença mental é um número. E na ocorrência de uma situação este é o primeiro a ser investigado. Percebemos que resgatar essa discussão é algo necessário para, a partir dela, discutirmos um problema crucial que envolve o campo da saúde mental e trabalho: o estabelecimento do nexo causal entre certas condições de trabalho e os transtornos mentais específicos. Pois, apesar de as discussões teóricas que fundamentam o campo da Saúde do Trabalhador propiciarem avanços significativos, no plano da normatização das ações ainda prevalece um modelo biologicista e medicalizante, que reduz a complexidade dos quadros a um referencial de doença. O estabelecimento desse nexo, no entanto, tornou-se uma questão decisiva, afetando a vida de muitos trabalhadores com queixa de sofrimento psíquico advindo do trabalho, principalmente aqueles que não apresentam uma lesão orgânica evidente. Entretanto, estes acabam sendo direcionados a serviços de saúde que, despreparados para escutar os padecimentos do trabalhador, emitem diagnósticos comuns a outras doenças, sendo submetidos a tratamentos baseados em grande quantidade de medicamentos, caracterizando, muitas vezes, uma verdadeira “camisa de força química”. Entretanto, o que se verifica na prática é a dificuldade que o trabalhador em sofrimento psíquico tem ao procurar tratamento e reconhecimento do nexo com o P á g i n a | 39 trabalho, isso porque os médicos das empresas na maioria das vezes não irão estabelecer tal nexo, o sindicato está despreparado para defendê-lo, os profissionais da rede pública também têm dificuldade em associar seu quadro e, quando este é reconhecido e o trabalhador é enviado ao INSS, neste local, encontrará alguém que dirá que seu problema é individual e nada tem a ver com a organização e as condições de seu trabalho (NARDI; RAMMINGER, 2012). Diante desse contexto, é como se a queixa do paciente pudesse encontrar dois caminhos: ou ela é apreendida como doença orgânica (neurológica, neuroendócrina) ou é tomado como fingimento e a palavra do trabalhador passa a ser colocada em dúvida. Na primeira opção, o sofrimento psíquico dos trabalhadores passa a ser traduzido como lesão no órgão e a mente incide a ser reduzida ao cérebro e aos seus neurotransmissores. Os trabalhadores desprovidos de subjetividade, singularidade e história de vida passam a ser vistos como corpos e suas questões transformadas em condições estritamente biológicas. Na segunda possibilidade, como afirma Jacques (2003) quando se trata das patologias psíquicas há, em seu cerne, uma forte relação com a fraqueza, sob o risco de ser considerado fingimento, má- vontade ou a preguiça dos trabalhadores, enfim uma infinidade de características que o submetem a uma situação de culpado. Em ambos os caminhos, o que se observa é a destituição do trabalhador da sua condição de sujeito, seja para transformá-lo em “paciente”, seja para destituir sua palavra do valor de verdade. Desse modo, percebemos que a busca por uma causalidade orgânica para fenômenos psíquicos ainda prevalece, muita embora os estudos desenvolvidos se mostrem bastante inconclusivos. No campo da saúde do trabalhador, percebemos que se encontram as mesmas questões que perpassam a clínica geral. Quando os fenômenos relacionados ao trabalho podem se encaixar no modelo anatomopatológico, a medicina consegue localizá-lo e apreendê-los através da intervenção, geralmente medicamentosa2. No entanto, quando se trata de fenômenos que não se apoiam em base orgânica, o discurso desse trabalhador acerca de seu sofrimento vai ser tido como duvidoso e 2 Mesmo esses fenômenos para os quais há reconhecida base orgânica, não deixam de portar questões que extrapolam esse registro. Claro está que certas doenças ocupacionais mantêm seu nexo causal objetivo com substâncias e elementos do meio ambiente. O fato é que, mesmo tais doenças ocupacionais, não deixam de ter impacto sobre a subjetividade desses trabalhadores e também devem ser entendidas como fato de linguagem, na medida em que, também nos mostram a forma como esse trabalhador é tomado no mundo atual. Mesmo essas doenças também informam quais os laços sociais estabelecidos pelo trabalhador nestas realidades de trabalho (FURTADO, 2005). P á g i n a | 40 secundário, posto que não há um estabelecimento de um nexo causal que comprove que a sua doença seja de fato “real”. Desse modo, percebemos que a legislação da saúde do trabalhador está pautada na relação de causa e efeito. Aquilo que não é regulamentado necessita ser posto a prova. É comum nos discursos dos trabalhadores em sofrimento psíquico mencionarem, em muitos casos, a necessidade de levar a vida com um advogado do lado para comprovar o estabelecimento do nexo causal. Fato que leva o trabalhador com sofrimento psíquico a percorrer distintos serviços médicos para ter um diagnóstico conforme a classificação das doenças relacionadas ao trabalho. Se, muitas vezes, não se encontra respaldo tecnológico suficiente para comprovar a lesão orgânica em determinados processos de adoecimento entre trabalhadores, no campo do sofrimento psíquico e trabalho a dificuldade se torna ainda maior, na medida em que não está dado esse caráter palpável, ou seja, relativamente visível, encontrado nos problemas que atingem diretamente o corpo (DEJOURS, 2012). Sublinhamos que a classificação das doenças relacionadas ao trabalho deve exigir especial reflexão e atenção dos profissionais para não atribuir o problema de saúde apresentado pelo trabalhador unicamente a fatores individuais. É importante, ao buscar estabelecer nexo entre trabalho e saúde/ doença mental sejam também considerados outros aspectos como, por exemplo, a subjetividade do trabalhador; história de vida, pois não se trata apenas de identificar as fontes de mal-estar localizadas na esfera do ambiente físico, na gestão e organização do trabalho. O sofrimento psíquico, assim como argumenta a ciência, não pode ser objetificável. Por isso, buscam-se construir referenciais sobre a relação estabelecida entre o trabalho e o sofrimento psíquico, não sendo exclusivamente abordado enquanto objeto de normas técnicas e de protocolos para orientar os profissionais de saúde. O tema, conforme revela Paparelli, Sato; Oliveira (2011) continua a solicitar espaço como objeto de reflexão. Aqui, navega-se em um barco de papel em mar revolto, ou quando não pisa em areia movediça. Isso porque, entre outras coisas, “não é possível quantificar a vivência, não se é mensurável a carga psíquica do trabalho, que é em primeiro lugar qualitativa, mas é real enquanto vivência articulada às exigências ou pressões do trabalho cotidiano” (DEJOURS, 2012). Ao realizarmos um olhar sobre as abordagens teóricas acerca da saúde do trabalhador, percebemos que durante muitos anos foi marcada por estudos que P á g i n a | 41 visualizavam apenas os problemas oriundos do ambiente de trabalho como fonte causadora de danos ao corpo físico. Assim, a essência das ações direcionadas ao trabalhador, seja da Medicina do Trabalho a Saúde do Trabalhador, ainda se pauta no que é visível na relação entre trabalho e doença laboral, ou seja, no que pode ser medido, examinado, fotografado, medicado. Uma clínica que ao abordar esse fenômeno, se faz de forma naturalizada como se sofrimento e doença fossem sinônimos (PAPARELLI; SATO; OLIVEIRA, 2011). Não é por acaso que as dificuldades em estabelecer a relação entre determinadas formas de trabalho e sofrimento psíquico levaram, na curta história dessa área de estudos, ao surgimento de diferentes modos de investigar e compreender o problema (BORSOI, 1993). Destacamos a seguir as principais abordagens teóricas que fundamentam os estudos, no Brasil, sobre a relação saúde mental e trabalho. São elas: a abordagem do desgaste, do estresse, da ergonomia e da psicodinâmica do trabalho. 3.2 Abordagens Teóricas sobre a Relação Saúde Mental e Trabalho A abordagem teórica do desgaste mental fundamenta-se na concepção do processo de trabalho como elemento fundamental de análise. Assim, o processo e a carga de trabalho direcionam a compreensão dos aspectos biopsicossociais que exercem influência no processo saúde-doença mental. Nessa acepção, o desgaste é compreendido como a perda da capacidade efetiva e/ou potencial, biológica e psíquica, na medida em que o trabalho converteu-se em atividade comprometedora e desgastante para o trabalhador. Para se reportar ao desgaste psíquico, essa abordagem teórica faz uma associação à imagem de “mente consumida”. E três aspectos estão relacionados ao desenvolvimento do desgaste físico: o primeiro refere-se aos quadros clínicos relacionados ao desgaste orgânico da mente (seja por motivos de acidentes do trabalho, seja pela ação de produtos tóxicos); a segunda, compreendendo as variações do “malestar”, das quais faz parte a fadiga (mental e física); a terceira, que identifica os desgastes que afetam a identidade do trabalhador, ao atingir valores e crenças que podem ferir a sua dignidade e esperança (LAURELL; NORIEGA, 2004). Dentre os quadros clínicos identificados através da abordagem do desgaste, destacam-se: a síndrome do esgotamento profissional, também denominada de estafa ou burnout; síndrome da fadiga crônica ou ainda fadiga patológica; síndromes pós- P á g i n a | 42 traumáticas, depressivas e paranoides. Iremos especificar algumas delas, pois teremos uma melhor percepção sobre os argumentos que envolvem a classificação destas doenças. A síndrome do esgotamento e da fadiga patológica, concepção pautada na ciência biológica, corresponde à estafa acumulada ao longo dos anos e/ou períodos de trabalho, apresentando uma duração variável, ou seja, sua “durabilidade” depende das características físicas e mentais do trabalhador. A doença não permite uma recuperação por intermédio de sono e repouso. A característica principal é a fadiga ininterrupta, física e mental, acompanhada de distúrbios do sono, associado ao cansaço, irritabilidade e desmaios (SELIGMANN-SILVA, 1995). É consequência direta da fadiga a perda da eficiência, ou seja, a diminuição da capacidade do trabalhador em realizar suas atividades. Segundo os pesquisadores suas causas são geralmente muito mais emocionais do que fisiológicas. Dessa forma, para o tratamento da doença são indicadas técnicas de relaxamento, adequado repouso e uma mudança de hábitos que reduzam o estado de ansiedade. Em geral, constituem-se medidas suficientes para aliviar o estado de fadiga crônica em quase todos os casos. Para muitos indivíduos, entretanto, pode ser necessário acompanhamento médico e tratamento específico, ao mesmo tempo em que se tenta identificar e eliminar ou reduzir os agentes causadores (CARNEIRO, 2010). Por sua vez, a neurose pós-traumática é compreendida como um quadro de irritabilidade, angústia, reações emocionais exageradas. O indivíduo, nesse estado, revive mentalmente a cena traumática, apresentando sintomas como mal estar, acompanhado, frequentemente, por sudorese e taquicardia. Os pesadelos tornam-se constantes, provocando distúrbios do sono e irritabilidade (JACQUES, 2003). No que se refere aos quadros depressivos, ainda na abordagem sobre o desgaste mental, estes podem ter sua patogenia, desencadeamento e evolução nitidamente associados às situações de trabalho. Tais quadros podem se apresentar de forma aguda ou crônica em virtude de tristeza, experiência de perda, falta de esperança. Contudo, os quadros depressivos associados ao trabalho não se constituem da mesma forma, não são típicos, revelando-se de modo sutil, apresentando o desânimo diante da vida como a principal manifestação sintomática (FERNANDES et al., 2006). Não obstante, ao observarmos os estudos que buscam a vertente do desgaste na demarcação da relação entre trabalho e saúde mental encontramos ainda entraves na sua concretização, pois essa abordagem, apesar de relacionada ao aspecto emocional, acaba P á g i n a | 43 por também mensurar as próprias questões emocionais, delimitando os sinais e sintomas e classificando-as em quadros psicopatológicos. Alguns pesquisadores como Fernandes et al., (2006) argumentam que mensurar elementos emocionais é algo da dimensão do inespecífico, pois estes podem ser ocasionados por inúmeros elementos e/ou fatores que divergem de pessoa para pessoa, ao longo da vida e do contexto de vida, portanto, dificultando a sua normatização. Mediante essa reflexão, buscamos visualizar por meio de estudos, alguns casos clínicos que pudessem trazer à tona a relação da teoria do desgaste com a fala do trabalhador. Encontramos o trabalho de Glina (2010) que aborda seis casos de atendimento pelo CEREST de dois municípios do interior de São Paulo. Desse modo, percebemos que a partir da história do sujeito extraem-se pontos relacionados aos aspectos emocionais, mas estes passam a ter uma articulação com as condições e a organização de trabalho. Para, posteriormente, com as informações coletadas subsidiarem o quadro clínico e a discussão com o nexo causal com o trabalho, até chegar ao diagnóstico proposto pelo CID-10. Portanto, os aspectos emocionais são abordados como plano de fundo das questões do trabalho, estabelecendo a busca de padrões para normatizar o “desgaste mental”. A abordagem teórica do estresse tem sido um campo de atuação pautado na clínica, como um fenômeno psicofisiológico. Nesta acepção o estresse é compreendido como um desequilíbrio que ocorre entre as demandas do trabalho e a capacidade de resposta dos trabalhadores. As fontes de estresse no trabalho e sua consequência sobre o processo saúde-doença mental são estudadas através de categorias analíticas que permeiam fatores relacionados ao processo de trabalho, a função que o indivíduo ocupa na organização, as relações intersubjetivas e atmosfera institucional (SELIGMANNSILVA, 1994). Segundo os pesquisadores dessa vertente, uma área de funcionamento que é frequentemente afetada pelo estresse excessivo é o das relações interpessoais, posto que sentimentos de irritabilidade, desprazer, ansiedade impossibilitam relacionamentos plenos e interferem até nas relações ocupacionais. Nesta última, seus efeitos fazem sentir-se no desânimo, na falta de idéias originais e na queda da produtividade. O trabalhador estressado perde a capacidade de concentrar-se e pensar de modo racional e lógico (LIPP, 2006). Há alguns autores, dentre eles Fernandes (1999), Lima (2002), que ao considerar os fatores psicossociais do trabalho e sua relação com a saúde e a dimensão psíquica, P á g i n a | 44 evidenciam, além dos aspectos organizacionais do trabalho sobre o desenvolvimento do estresse ocupacional, a influência de aspectos subjetivos na produção do estresse como, por exemplo, as experiências de vida. Enfatizam que os aspectos individuais e subjetivos do trabalhador constituem-se enquanto intermediadores que podem fortalecer ou debilitar a influência de fatores do ambiente de trabalho. Contudo, os referidos autores não desconsideram os fatores externos à organização. Apesar de considerarem as diferenças individuais e subjetivas como fatores que intervêm na relação trabalho-saúde, ressaltam a importância de avaliar tais aspectos com enfoque no grupo, pois compreendem que se a influência de um fator psicossocial é intensa, é menor a importância de atuação na vulnerabilidade individual (REIS; FERNANDES; GOMES, 2010). As fontes de estresse são classificadas, conforme Lipp (2001), a partir da sua origem no organismo. Aquelas que se encontram exteriores ao ser humano e que fogem do seu controle imediato são denominadas de estressores externos. Enquanto aquelas que surgem do próprio organismo e, portanto, sob seu controle, são chamadas de internas. Quanto às características das duas fontes, a externa é tida como a mais fácil de reconhecer o impacto que tem no funcionamento do homem. Por sua vez, as fontes internas são mais complexas e de difícil acesso ao observador por se reportarem aos pensamentos, emoções, comportamentos, vulnerabilidades biológicas ou psicológicas, podendo ser inatas ou adquiridas. Desse modo, percebemos que essa teoria não foge da percepção de normalidade, pois sugerem que as características de personalidade, previamente definidas, podem ser fontes internas de estresse, determinando como cada pessoa reage ao evento da vida. A crítica a essa abordagem teórica reporta-se ao aspecto subjetivo relacionado ao estresse, pois não oferece perspectiva de como ocorrem essas interações nas situações e processos de trabalho no intrapsíquico. Apenas apontam a existência de tal relação. Na prática da saúde dos trabalhadores, a implicação dessa teoria como categoria diagnóstica permitiu aos médicos a generalização de todo e qualquer distúrbio psíquico ou psicossomático como sendo fator estressante (MURTA; TRÓCCOLI, 2004). Além disso, os estudos do estresse sobre a saúde do trabalhador enfatizam a prevenção primária no local de trabalho por meio de identificação e de modificação de condições laborais que possam constituir perigo para a saúde. De acordo com essa visão, a chave da questão para a solução do estresse no trabalho é reconhecer a dinâmica da sua etiologia (REIS; FERNANDES; GOMES, 2010). P á g i n a | 45 A vertente analítica da ergonomia constitui-se num campo interdisciplinar, envolvendo engenharia, medicina, psicologia, sociologia, psicofisiologia e economia. A ergonomia enquanto disciplina científica possui um objeto de estudo direcionado para o funcionamento do homem durante a realização de suas atividades no ambiente de trabalho. Nesta perspectiva, a abordagem ergonômica traz em seu cerne teóricometodológico três momentos distintos. O primeiro deles se refere à preocupação, sobretudo, nas modificações fisiológicas exercidas pelo processo de trabalho, privilegiando a fadiga física. O segundo momento diz respeito à investigação dos aspectos psicofisiológicos que ocorrem com o trabalhador durante o exercício de suas atividades e, por fim, o objeto de estudo está também centrado nos fatores psicossociais e suas repercussões na fadiga mental crônica. Apesar das contribuições para os estudos acerca do trabalho e processo saúdedoença, percebemos que o modelo ergonômico privilegia os aspectos objetivos da condição do trabalho, utilizando metodologias de análise que buscam identificar os elementos observáveis do ambiente. Há autores, inclusive Dejours, que formulam algumas críticas às investigações que utilizam a vertente analítica da ergonomia, especialmente no tocante à compreensão da saúde mental a partir dos efeitos fisiológicos do trabalho. Segundo Dejours (1992), a intervenção ergonômica começa no campo pelo que se chama de “análise do posto”. Para isso diferentes técnicas são utilizadas pelos especialistas: observação direta, observação clínica, registro das variáveis fisiológicas do trabalhador, medidas do ambiente físico (barulho, luminosidade, calor, vibração, temperatura, poeira, umidade, cadência dentre outros) para posteriormente reconhecer e classificar os principais riscos a que os trabalhadores estão submetidos, objetivando criar estratégias para a modificação do posto de trabalho, destinado a aliviar os males detectados. Dessa forma, ao se chegar ao balanço da intervenção, percebemos que a sua análise comparativa sob os resultados da intervenção se restringe a critérios de ambiente – critérios de fisiologia ou a critérios de produtividade. Nesta perspectiva, encontram-se aqui as vantagens, que são inegáveis, constituindo o que Dejours (1992) passou a chamar de “positividade da prática ergonômica”, pautadas em medidas como, por exemplo, a diminuição do custo cardiovascular, melhoria da posição do trabalhador, atenuação do barulho, melhoria da iluminação, diminuição das lombalgias etc. P á g i n a | 46 Entretanto, o que Dejours (1992) verifica na prática é que o sentimento de melhoria e de alívio desfaz-se bastante rapidamente, às vezes em alguns dias. Pois, as “melhorias das condições de trabalho” resultam, na verdade, de várias causas concorrentes. E uma delas é a mudança de hábito dos trabalhadores até surgir os outros prejuízos até então mascarados. Ele exemplifica essa situação quando se tem em meta a substituição de um banco por um assento de encosto regulável. Essa medida se torna no, início, apreciada pelo trabalhador, mas após um mês de trabalho ele não tem mais consciência dessa melhoria, tendo que evocar na lembrança a experiência sentida, não sendo mais perceptível atualmente. Assim, a intervenção ergonômica, com efeito, pode aliviar a dor do trabalhador de lombalgias relativas a uma torsão da coluna por influência da postura. Aliviado deste mal, ele passa a reconhecer pouco a pouco, outra dor que tomou lugar da precedente: cervicalgia, em virtude da posição da cabeça e a distância olho-tarefa. As dores lombares, anteriormente, pela sua intensidade acabavam mascarando as dores na região cervical. Portanto, quando se faz desaparecerem os “prejuízos” que ocupam o alto da hierarquia sintomática, faz-se às vezes aparecerem os de um nível inferior e assim por diante. O inconveniente da ação ergonômica é a sua ação limitada. Pois, como abordou Dejours (1992), pode emergir uma insatisfação e posteriormente um sofrimento que não seja apenas de conteúdo físico, químico, biológico, mas, sobretudo, mental. Por falta de um indicador global de melhoria das condições de trabalho capaz de avaliar as intervenções ergonômicas, alguns autores franceses, Thort; Theuraud (1974) e Dejours (2012), pensaram que seria fundamental não negligenciar a apreciação dos trabalhadores sobre a intervenção ergonômica e pôr a sua escuta da “vivência subjetiva” antes e depois da intervenção. Diante dessas abordagens, verificamos que o trabalho passou a representar uma importante instância no desencadeamento ou no agravamento e na evolução de sofrimento psíquicos. A maioria dos pesquisadores que se preocuparam com a realidade objetiva e com os critérios científicos, como forma de regular e intervir sobre essa realidade, depararam-se com os próprios limites teórico-metodológicos para estabelecer um “equilíbrio” entre a saúde mental e o trabalho. Depararam-se com a resistência quase intransponível dos homens a se moldarem perfeitamente nos perfis de excelência profissional que lhes são exigidos (FURTADO, 2005). P á g i n a | 47 É a partir de algumas formulações acerca da subjetividade do trabalhador que surgiram os estudos da escola francesa, inaugurada por Christophe Dejours, denominada de Psicodinâmica do Trabalho. Trata-se de uma coletânea de textos que despertou, inclusive no Brasil, enorme interesse e abriu nova perspectiva de análise acerca da relação prazer, sofrimento e trabalho. Esta disciplina adquiriu autonomia em relação a diversos outros campos de investigação, sofrendo influência da psicanálise, da antropologia, da ergonomia e de outras ciências. Os questionamentos de Dejours são bastante interessantes para nosso estudo, principalmente por sua herança psicanalítica. Todavia, esta escola afasta-se da psicanálise constituindo sua teoria segundo uma metodologia e objeto particulares (FURTADO, 2005). Iniciou como uma investigação da psicopatologia do trabalho e acabou por descobrir que o não adoecimento é que constituía algo enigmático frente à realidade laborativa. Portanto, o que importa para a Psicodinâmica do Trabalho é conseguir compreender como os trabalhadores alcançam manter certo equilíbrio psíquico, mesmo estando submetidos a condições de trabalho desestruturantes (DEJOURS, 1992). Mais que um estudo voltado para identificar as doenças mentais específicas e correlacionadas à profissão ou situações de trabalho, a mais nova psicopatologia do trabalho está preocupada com a gênese e a transformação do sofrimento mental vinculada à organização do trabalho. A organização do trabalho exerce sobre o homem uma ação específica, cujo impacto é o aparelho psíquico. Em certas condições emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos e uma organização do trabalho que os ignora (DEJOURS, 2012, p. 57). Dessa maneira, Dejours considera que os indivíduos reagem de forma diferente às dificuldades das situações de trabalho e chegam a este trabalho com a sua história de vida pessoal. Os problemas, neste contexto, nascem de relações conflituosas. De um lado, encontra-se a pessoa e sua necessidade de prazer; e do outro, a organização, que tende à instituição de um automatismo e à adaptação do trabalhador a um determinado modelo (MENDES; ABRAHÃO, 1996). Esses conflitos seriam o pontapé inicial para desencadear o sofrimento psíquico do trabalhador. Para Dejours o sofrimento emerge quando entre o homem e a organização do trabalho não se tem um espaço de liberdade que autoriza a criação, as P á g i n a | 48 invenções de trabalhador sobre a própria organização. Não tendo esse espaço para o trabalhador adaptar suas necessidades, anseios e desejos às exigências do trabalho, a relação homem-trabalho fica bloqueada, começando o sofrimento. Desta forma, Dejours (2012) considera que a busca do prazer no trabalho e a fuga do desprazer constituem um desejo permanente para o trabalhador em face das exigências contidas no processo, nas relações e na organização do trabalho. Esta, muitas vezes, só oferece condições contrárias a este propósito, gerando desprazer e apresentando sintomas específicos. Assim, o trabalho no lugar de fonte sublimatória de prazer passa a ser um vivência de sofrimento. Percebemos no trecho acima a sistematização de alguns conceitos psicanalíticos. Dejours busca inspiração em Freud para dar consistência à articulação estabelecida entre prazer, desprazer dos trabalhadores mediante o desempenho das atividades laborais. Desde então, a Psicodinâmica do Trabalho apoiada na teoria psicanalítica está voltada para a análise da dinâmica dos processos intersubjetivos mobilizados pela confrontação dos sujeitos com a realidade do trabalho. Trata-se de uma abordagem que tem como objetivo investigar a saúde do trabalhador pelas vivências subjetivas de prazer-sofrimento no trabalho. Ela concebe o sujeito como portador de uma história singular e que participa do processo de construção de uma subjetividade no confronto entre o psíquico e o social. Para tentarmos entender o processo de prazer, sofrimento e desprazer abordado por Dejours é necessário resgatarmos sua concepção sobre o que seja a carga psíquica do trabalho. Este termo foi escolhido para substituir a expressão “carga mental” adotada por outras abordagens teóricas. Tal substituição foi em virtude de, conceitualmente, fazer referência à presença de elementos afetivos e relacionais entre o homem-trabalho. Enquanto que carga mental apenas remetia às influências neurofisiológicas e psicofisiológicas, conforme aborda Dejours (2012). Assim para Dejours (2012), tratando-se de carga psíquica não é possível quantificar uma vivência. O prazer, a satisfação, a frustração, a agressividade dificilmente se deixam dominar por números. Dessa forma, pode-se falar em uma armadilha quando se quer dar conta de termos objetivos de uma vivência individual ou coletiva quando é por definição, subjetiva. Mas como Dejours irá abordar a carga psíquica do trabalho, as manifestações de prazer ou desprazer do trabalhador? Mais uma vez, Dejours irá se apropriar, mesmo que superficialmente, dos estudos de Freud sobre a origem dos estímulos que afetam o organismo. P á g i n a | 49 Assim, submetidos a excitações provenientes do exterior ou do interior (estímulos pulsionais), o trabalhador possui diferentes vias de descarga da energia. Portanto, se um trabalho permite que o trabalhador possa diminuir sua carga psíquica, ele se torna equilibrante e prazeroso. Caso contrário, se o trabalho aumenta à carga psíquica do trabalhador a atividade torna-se fatigante. Um trabalho livremente escolhido, organizado e que lhe oferece capacidade criativa, geralmente, oferece vias de descarga mais adaptadas as necessidades do trabalhador, tornando-se um espaço de relaxamento (DEJOURS, 2012). Porém, se a energia pulsional não acha uma via para ser descarregada no exercício do trabalho, acaba por se acumular no aparelho psíquico, aumentando sua carga e ocasionando um sentimento de desprazer e tensão. É por não ser capaz de armazenar essa energia por muito tempo que ela acaba transbordando e, a energia voltase para o corpo, nele desencadeando certas perturbações como, por exemplo, as doenças psíquicas e somáticas. Desse modo, o sofrimento para Dejours (2012), conforme a liberação adequada ou não da carga psíquica, poderá diferenciar-se em criativo e patogênico. O sofrimento criativo resulta na mobilização e engajamento subjetivo que pode levar, como o próprio nome diz, à criação e à transformação do mundo. Nesse aspecto o trabalhador emprega seus investimentos pulsionais para a sublimação, ou seja, o prazer sexual será substituído pelo prazer no trabalho. No entanto, o sofrimento criativo não é sinônimo de prazer, pois o investimento sublimatório é muitas vezes, conforme Dejours (2012), limitado por imposições das situações de trabalho. Diante disso, é necessário utilizar a criação e a inteligência prática para enfrentar estas situações. Mas dependendo da intensidade das adversidades e do sofrimento delas decorrentes, o processo de sublimação pode se tornar impossível. O sofrimento patogênico surge quando não é possível flexibilizar a organização do trabalho de acordo com as necessidades das pessoas, sendo necessária a utilização de estratégias adaptativas que podem gerar movimentos de antitransformação que levam à alienação e ao sofrimento psíquico (MENDES, 2007). O que Dejours conclui com isso é que o estudo da carga psíquica de trabalho procede caso a caso. Não há uma solução geral para diminuir a carga psíquica de trabalho. De tal forma que não se pode atribuir unicamente o aumento da carga psíquica à estrutura da personalidade do trabalhador, pois se o doente for incapaz de se satisfazer através de um trabalho intelectual, mostra-se, contudo, apto a um trabalho físico. Isso P á g i n a | 50 leva os pesquisadores a acreditarem que não existe uma única organização do trabalho que seria a solução eficaz para diminuir a carga psíquica do trabalho de todos os trabalhadores. Observamos que para a Psicodinâmica do Trabalho, o sofrimento é uma experiência vivenciada, ou seja, é um estado mental que implica um movimento reflexivo do sujeito sobre seu “estar no mundo”. Dessa forma, o conceito de sofrimento se insere na ordem do singular, para Dejours o sofrimento coletivo é inconcebível, pois não podemos dizer que existe um corpo coletivo. Se, clinicamente, observam-se estratégias coletivas de defesa fundadas em uma cooperação entre sujeitos, por outro lado o sofrimento permanece sempre individual e único (DEJOURS, 2012). Apesar de entender o sofrimento na singularidade de cada sujeito, encontramos uma contradição no arcabouço teórico-metodológico da Psicodinâmica do Trabalho, pois esta acaba concentrando suas intervenções na coletividade do trabalho. Portanto, não propõe e não faz uso de recomendações terapêuticas individuais, mas propõe modificações reais na organização do trabalho, atingindo todo um coletivo de trabalhadores. De que forma isso acontece? Dejours, inspirado na psicanálise propõe uma atividade de escuta atenta à fala. Entretanto, o autor valoriza a fala coletiva dos trabalhadores para apreensão das angústias vividas no trabalho. Isso porque, como vimos, para a Psicodinâmica do Trabalho, se o sofrimento é da ordem individual, sua solução é coletiva. Para isso, Dejours menciona a necessidade de se criar um espaço público, configurando-se como um local de circulação da palavra coletiva. É na escuta do que é expresso pelo coletivo dos trabalhadores que se cria a possibilidade de o sofrimento emergir e sua solução ser pensada por todos. Embora a Psicodinâmica do Trabalho compreenda a fala e a escuta como ferramentas indissociáveis para atuar sobre o sofrimento psíquico, estas não trazem implicações para a singularidade do trabalhador: a forma como ele significa os acontecimentos de sua vida, seus padecimentos. Mas buscam-se extrair no discurso coletivo as implicações da organização do trabalho sobre o sofrimento psíquico dos trabalhadores. Para Dejours a psicanálise pode contribuir para a abordagem da Psicodinâmica do Trabalho, no entanto, ele pontua limitações, pelo fato de que a Psicanálise privilegia o campo do fantasma em relação à realidade. Além disso, afirma que ela tem muitas dificuldades em articular essa realidade com uma estrutura psíquica concebida, quase P á g i n a | 51 exclusivamente, a partir de experiências infantis. No entanto, o referido autor diz que é possível utilizar-se o conceito de sublimação como um instrumento de compreensão de situações de trabalho. Apesar da significativa contribuição da Psicodinâmica do Trabalho, observamos que no decorrer dos seus estudos a psicanálise apenas subsidia algumas formulações. Dessa forma, percebemos a necessidade de trazer à tona uma maior aproximação dos conceitos psicanalíticos com o sofrimento psíquico do trabalhador, e o modo como os sujeitos singularizam suas experiências de sofrimento. Acreditamos que discorrer sobre o estabelecimento do nexo causal, as contribuições e os limites das diferentes abordagens acerca da relação entre saúde mental e trabalho não se trata de negar as condições concretas da atividade de trabalho, processo produtivo, forma de organização do trabalho e suas implicações na saúde mental. Trata-se, por ora, de apontar que algo interessante veio ocorrendo, nos últimos anos, sobre o debate inerente ao sofrimento psíquico dos trabalhadores. 3.3 A Atuação da Enfermagem no Contexto Atual da Saúde do Trabalhador Embora o título sugira uma abordagem histórica e conceitual sobre a área da enfermagem do trabalho, este resgate não se configura como elemento central da nossa discussão, mas a partir dessa especialidade direcionaremos a nossa atenção para a clínica que embasa o cuidado de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico, independente do espaço de atuação do enfermeiro. A enfermagem na atenção a saúde do trabalhador foi incorporada legalmente nas empresas no início dos anos 70, quando o Brasil se consagrou campeão mundial de acidentes de trabalho, e o governo impôs que as empresas contratassem profissionais especializados. No entanto, a ‘enfermagem do trabalho’ só passa a ser reconhecida em 2004 quando o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), por meio de uma resolução, decide fixar esta área de atuação como competência do enfermeiro. Assim, a enfermagem na saúde do trabalhador foi se configurando como um campo de atuação direcionada ao indivíduo ou grupo de indivíduos, considerados integrantes do processo de produção de bens e serviços da empresa. Uma categoria presente no enfrentamento dos fatores de riscos ocupacionais e no equacionamento dos agravos gerados nesse processo. O especialista em enfermagem do trabalho visa a aprofundar-se nas ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, atendendo aos P á g i n a | 52 princípios da legislação vigente, detendo conhecimentos de higiene e segurança do trabalho (CASTRO; SOUSA; SANTOS, 2010). Observamos que durante a formação nesta área as questões inerentes à saúde mental do trabalhador são direcionadas para uma clínica em que predominam as doenças e os fatores epidemiológicos (o adoecimento e sua relação com o trabalho, classificação das doenças, medidas preventivas e o diagnóstico médico). Desse modo, podemos observar que a formação do enfermeiro do trabalho está centrada em dois eventos: prestar atendimento ao trabalhador que por eventualidade se acidentasse no local de trabalho e de evitar os danos à saúde dos trabalhadores, decorrentes de fatores ambientais, da natureza da própria atividade e dos comportamentos, hábitos e estilo de vida do trabalhador (MORAES, 2007). Compreendemos que atenuar os riscos e agravos oriundos do ambiente de trabalho e conhecer a causalidade do adoecimento dos trabalhadores são ferramentas importantes para reduzir os índices de acidente do trabalho, doenças ocupacionais, absenteísmo etc. Mas ao se tratar do sofrimento psíquico do trabalhador, diante das leituras feitas sobre diversos referenciais teóricos que abordam essa temática, questionamo-nos sobre como se institui a articulação entre saúde mental e saúde do trabalhador (que diálogos são possíveis), como o cuidado de enfermagem vem se estabelecendo aos trabalhadores que procuram os serviços de saúde com uma queixa de sofrimento psíquico, sem causa orgânica. Quais as contribuições da clínica do sujeito para o cuidado de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico? Embora, tenhamos articulado as indagações à atuação da enfermagem do trabalho, as mesmas não se referem apenas a este campo de conhecimento, pois compreendemos que o sofrimento psíquico não se restringe a uma especialidade de saber e nem a um espaço institucionalizado de cuidado (Empresas e CEREST), mas também a outros locais de atuação do enfermeiro, como a Atenção Primária à Saúde (APS), Centro de Atenção Psicossocial (CAPs); Unidade Integrada de Saúde Mental (UISAM). Aliás, sobre a primeira indagação percebemos que apesar de as leis e portarias explicitarem que o SUS deve se pautar, entre outros princípios, na integração entre os diversos níveis de atenção a saúde, na prática a articulação entre saúde mental e saúde do trabalhador tem ocorrido apenas em experiências pontuais. A centralização das ações em espaços institucionalizados (Saúde Mental no CAPS e Saúde do Trabalhador no CEREST) tem se configurado como sendo um dos obstáculos para a concretização da P á g i n a | 53 intersetorialidade e integralidade do cuidado aos trabalhadores em sofrimento psíquico (BERNARDO; GARBIN, 2011). Frequentemente, os trabalhadores com queixa de sofrimento psíquico já foram atendidos em diversos serviços como o CAPS, APS e lá encontram profissionais de saúde que, ao escutar sua queixa, transportam-na apenas para a dimensão pessoal, deixando de lado os aspectos sobre o sofrimento no trabalho, enquanto que no CEREST busca-se o exato momento em que as condições de trabalho desencadearam o sofrimento, em detrimento da subjetividade e história de vida do trabalhador (JACQUES, 2007). Para a superação desses obstáculos a recém Política Nacional de Saúde do Trabalhador e Trabalhadora, aprovada pela portaria de n. 1.823 de 23 de agosto de 2012 considera a necessidade de garantir a integralidade na atenção à saúde do trabalhador em todas as instâncias e pontos da Rede de Atenção à Saúde do SUS, mediante articulação e construção conjunta de protocolos, linhas de cuidado e matriciamento da saúde do trabalhador na assistência, nas estratégias e dispositivos de organização e fluxos da rede (BRASIL, 2012). Verificamos que a abordagem teórica acerca da integralidade não se reduz apenas à atenção em saúde nos diferentes níveis de complexidade, mas tem propiciado a construção de novos saberes e práticas considerando também a dimensão das relações interpessoais (PINHEIRO; MATTOS, 2001). Portanto, acreditamos que além de reforçar as políticas de articulação entre a saúde mental e saúde do trabalhador é necessário que os profissionais de saúde, na sua prática clínica, possam superar a dualidade corpo-mente, concebida pelo modelo hegemônico de cuidar que associa, em geral, o sofrimento a uma alteração orgânica. Sobre a segunda indagação percebemos que a enfermagem desenvolve suas práticas no contexto do modelo biomédico. Independente do espaço de atuação o cuidado de enfermagem está centrado na doença, uma clínica que reduz o sofrimento psíquico a uma alteração orgânica, o sujeito a objeto de observação e mensuração, na modelização do paciente a um ideal de normalidade propagado, excluindo totalmente o sujeito de sua posição subjetiva (POLAK, 1997). Assim, a queixa do trabalhador em sofrimento psíquico é posta de lado, pois são os sinais e sintomas clínicos que irão direcionar a os cuidados e as intervenções de enfermagem. Portanto, a clínica que predomina na formação e nas práticas dos enfermeiros passa a ser organizada por saberes e práticas que tomam o corpo biológico como objeto P á g i n a | 54 e o esquadrinha em órgãos, separa-o em físico e psíquico, físico e emocional. Além disso, nesse tipo de clínica, o cuidado de enfermagem passa a ser conduzida por tecnologias leve-duras e duras, vazia de tecnologias leves; uma clínica que prega a proteção e autonomia dos profissionais, mas, em contrapartida, exerce-se pela fragilidade e objetificação dos pacientes (FEUERWERKER, 2007). Dessa forma, percebemos que quando o trabalhador chega ao serviço acaba tendo as suas queixas psíquicas desvalorizadas por aqueles que o atendem; apesar de serem queixas verbalizadas no início de sua consulta, estas perdem sua potência, não sendo acolhidas de forma adequada (TANAKA; RIBEIRO, 2011). Percebemos que a demanda inicial, quase sempre, é agenciada por conflitos emergentes ora no ambiente de trabalho (se a análise da queixa for apreendida pelo discurso médico), ora na organização do trabalho (se a análise da queixa decorrer da engenharia de produção, da ergonomia, e mais recentemente da psicopatologia do trabalho) (GATTO, 1998). Raramente a queixa do trabalhador dirige-se para o acolhimento do sofrimento psíquico. Em geral, os enfermeiros buscam na queixa de sofrimento psíquico algo que possa justificar e ou comprovar as alterações orgânicas. Assim, a atenção à saúde acaba por corresponder à identificação das patologias na articulação com os riscos oriundos dos processos de trabalho. Não é por acaso que, muitas vezes, o trabalhador com queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho traz demandas diferentes do real problema que o aflige com receio de que sua fala não seja considerada. Desse modo, eles próprios apontam somente as queixas físicas, localizadas no corpo (BERNARDO; GARBIN, 2011). Independente da abordagem teórica adotada, observamos que “as clínicas” acabam servindo como instrumento para que os enfermeiros e, os profissionais de saúde, conforme Gatto (1998) acabem por caucionar as relações entre a causalidade das doenças e as exposições aos riscos (químicos, físicos e biológicos), sem contudo atentar para a particularidade das histórias de cada um, sem perceber o que pode advir “a mais” sobre a queixa relacionada ao trabalho. Na verdade é este o terreno no qual os profissionais de saúde, inclusive os enfermeiros, não querem adentrar, subjetividade do trabalhador. Então, a queixa do trabalhador também precisa ser objetificada. Ultimamente, alguns estudos têm demostrado que existe “uma demanda para o estabelecimento de nexo causal em trabalhadores de diversos ramos”, alertando para os casos de subnotificação dos agravos P á g i n a | 55 psíquicos relacionados ao trabalho (JACQUES; 2002). Talvez, a questão não se refira apenas à subnotificação, mas primeiramente como se estabelece a escuta desses trabalhadores com queixa de sofrimento psíquico para que ocorra a notificação? Uma escuta que guiada pela via da epidemiologia descritiva, engenharia de produção, ergonomia, reduz a interlocução do cuidado de enfermagem aos trabalhadores que procuram o serviço com alguma queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho. Se observarmos a produção de cartilhas, manuais direcionados a enfermagem e o cuidado à saúde dos trabalhadores, verificamos que estes apontam a consulta de enfermagem como sendo um espaço complementar da equipe de saúde para focalizar as informações relativas aos dados do trabalhador. Num primeiro contato as principais informações são: dados pessoais, a queixa principal, história da doença atual, história patológica pregressa, história familiar e o perfil do paciente. Com frequência o trabalhador procura o serviço com mais de uma queixa principal. Entretanto, estas são relacionadas em termos das prioridades e exploradas como “entidades separadas” (SILVA, 2012). Como um ritual de objetivação, o corpo do paciente é dividido através de um instrumento para ser analisado em suas partes. A observação incide no detalhamento do corpo que só é possível a partir do que está aparente no exame físico ou no exame psíquico. Foucault (2004, p.154) afirma que a realização desse exame tem caráter disciplinador, haja vista que “manifesta a sujeição dos que são percebidos como objetos e a objetivação dos que se sujeitam”. Dessa forma, nos serviços o cuidado de enfermagem aos trabalhadores que chegam com a queixa de sofrimento psíquico são direcionados pela escuta do corpo através de um roteiro de entrevista formado por perguntas prévias. Nesta perspectiva, percebemos que o conceito de escuta está associado aqui a um dos resultados que a pesquisa de Lima (2011) evidenciou ao entrevistar enfermeiros sobre quais significados estes atribuíam à escuta aos pacientes em sofrimento psíquico. Um destes aponta que a escuta dos enfermeiros está amparada em um discurso biomédico, e neste local o enfermeiro se coloca na posição de desencadear respostas ou solucionar algum problema identificado a partir de sua percepção. Portanto, é o enfermeiro que atribui significados à fala daquele a que veio se queixar. No entanto, compreendemos que as queixas de sofrimento psíquico, quando escutadas, poderiam representar vivências subjetivas e modos de vulnerabilidade do P á g i n a | 56 trabalhador, mas os próprios enfermeiros tentam objetificar o sofrimento, imputando a doença ao corpo. O que há é um trabalhador dissociado da sua condição de sujeito. Ao mencionar trecho da entrevista de Dejours, podemos compreender que não é possível, ao sujeito, deixar seu funcionamento psíquico no vestiário, juntamente com o macacão do serviço. Desse modo no plano psicológico, não há divisão entre o trabalho e fora dele, entre sujeito e trabalhador (CARDOSO, 2001). Na maioria dos casos de atendimentos na saúde do trabalhador, o cuidado de enfermagem volta-se para a observação e o registro do comportamento, a medida comparativa é a referência à “norma” e aos “desvios” psíquicos que o trabalhador possa apresentar. Nesta perspectiva é comum os enfermeiros direcionarem o seu cuidado para a própria demanda da instituição, buscando a resposta para ela, ao invés de atuar com a demanda do trabalhador em sofrimento psíquico (expressa em sua queixa inicial). Como aborda Kurimoto (2013, p. 103): Nestas instituições o que ocorre são práticas que representam a forma de lidar com a efervescência das questões que ali aparecem e que exigem respostas imediatas e padronizadas de todos que ali trabalham. Tornam-se assim práticas mais coletivas que acontecem a qualquer tempo, em espaços coletivos. Quando deveria deixar de focar a doença para se voltar para aquele que sofre e lidar com o que ele tem a dizer na sua singularidade. Essa realidade é perceptível quando a instituição trabalha as ações educativas direcionadas para um grupo homogêneo de trabalhadores (diagnosticados com síndrome de burnout, assédio moral), um momento coletivo para discutir as experiências individuais sobre o seu adoecimento, desenvolvendo temas sobre a autoestima, qualidade de vida e aproveitando o espaço para relembrar os direitos e deveres trabalhistas que competem a cada um. Assim, o que se mostra aos bastidores das instituições e reproduzido nos discursos dos profissionais de saúde é, conforme Gatto (1998, p. 18) a “reabilitação e readaptação dos ‘trabalhadores’ ao trabalho, pois aí se valorizam “os trabalhadores” enquanto cidadãos adaptados ao trabalho e ao contrato social”. Quando os trabalhadores são agrupados em grupos “homogêneos” acabam ganhando uma identificação, portanto, como sendo ou não pertencentes a uma determinada doença, com anulação do sujeito. Essa padronização do sofrimento é o que P á g i n a | 57 fundamenta a clínica do olhar em detrimento da escuta daquilo que o sujeito faz de seu sintoma, de como o insere na sua história e no seu discurso. Desse modo, a instituição busca, por meio das ações dos profissionais envolvidos, reduzir ou eliminar o sintoma dos trabalhadores em sofrimento psíquico. É necessário, conforme Kurimoto (2013) pensar um espaço, mesmo que este seja institucional, contendo regras e normas explícitas, em que haja a construção de furos que coloquem em função a singularidade daquele que veio a falar sobre seu sofrimento. Pensar uma instituição que também sustente as condições para a existência do sujeito, ao contrário de aboli-lo. Lembrando que: Quando o sujeito procura uma instituição, não é qualquer uma. Algo de sua causa mais íntima o dirigiu até lá, guiado pelo que supõe poder encontrar ali. A instituição é um Outro: Outro daquele sujeito. A instituição não é a mesma para todos (BARROS-BRISET, 2011, p.02). Quando o discurso coletivo dos trabalhadores é “acolhido”, estes acabam ganhando a vertente da escuta psicossocial. Como afirma Kirschbaum; Paula (2002), a prática de enfermagem nesse modelo psicossocial trata de traduzir os sintomas apresentados pelas pessoas em dificuldades sociais como: estabelecer relações interpessoais efetivas; realizar atividades de vida diária ou desempenhar atividades de vida prática. Fato também que pode ser traduzido em quadros psiquiátricos: síndrome de burnout; estresse laboral etc. Devemos pensar, então, a realização de uma pratica de cuidado institucional, sem desprezar o coletivo, entretanto, construindo um ponto de interlocução possível para essas práticas díspares (o discurso coletivo e singularidade da fala), esse é o espaço da clínica. Mas que clínica é essa? Para acolher o sujeito é necessário romper com uma clínica marcada por ausência de escuta, de encontros dos profissionais de enfermagem com os trabalhadores em sofrimento psíquico. O modelo tradicional de atenção à saúde vem sendo questionado por suas características fragmentárias e reducionistas, que enfatiza a doença do paciente como objeto de sua intervenção. Devemos pensar, então, a realização de uma pratica de cuidado institucional, sem desprezar o coletivo, entretanto, construindo um ponto de interlocução possível para essas práticas díspares (o discurso coletivo e singularidade da fala), esse é o espaço da clínica. É esse caminho que se insere este estudo. P á g i n a | 58 No capítulo seguinte, observamos que a psicanálise subverte o saber científico e trabalha a partir da inclusão do sujeito no campo de sua experiência, inclusão que curiosamente se faz, não por acaso ou contingência, pela via do inconsciente: retirado da condição de excluído, condição própria ao sujeito da ciência, o sujeito da psicanálise só pode ser incluído como sujeito do inconsciente (ERLICH, 2007). P á g i n a | 59 4 A CLÍNICA PSICANALÍTICA E O SOFRIMENTO PSÍQUICO DO TRABALHADOR Percebemos que, durante o caminhar de dois séculos da medicina científica, a prática da enfermagem se pauta em uma clínica que fundamenta o olhar sobre a doença e a desvalorização da escuta do sofrimento do sujeito, marcando a relação profissionalpaciente uma investigação asséptica, sem verdadeiro diálogo. Pois, a medicina, na acepção de Brant; Mianyo-Gomez (2007), para ser científica tentou anular o que há de sujeito no paciente e no profissional, buscando transformá-los, respectivamente, em objeto e instrumento. Desta forma, entendemos que o sujeito que embasa a clínica biomédica é aquele que é meramente reduzido a um diagnóstico descrito no manual. Portanto, sendo destituído de qualquer referência que lhe diga respeito sobre o seu modo singular, sobre as suas experiências de vida. Assim, se o objeto de investigação da medicina é a doença, ela, portanto, exclui o sujeito da sua própria constituição. Em contrapartida, a clínica do sujeito pautada no referencial da psicanálise busca colocar seu acento no sujeito, utilizando as palavras de Erlich (2007). E este passa a ser capaz de transmitir um saber desconhecido por outros discursos, qual seja, o de ser marcado pelo inconsciente. Desse modo, a subjetividade excluída do discurso médico, é privilegiada no discurso psicanalítico, permitindo compreendermos a possibilidade de articulação entre sintoma e a forma como o sujeito significa os acontecimentos de sua vida. É a partir da fala que se pode ter acesso à realidade psíquica, à posição discursiva do sujeito. Nessa acepção, ao nos debruçarmos sobre a questão do sofrimento psíquico do trabalhador numa ótica psicanalítica, é necessário transcender a limitação da queixa apenas enquanto decorrente da organização do trabalho. É preciso articulá-la às séries psíquicas que marcam a estruturação desse sujeito nas suas relações de prazer e desprazer, aos significantes com os quais marcam seu corpo e aos modos singulares que cada um encontra para se situar frente ao Outro. É importante escutar a queixa da dor física, mas reconhecendo que aí se encontra uma dor de outra natureza, aquela que marca o ser falante. Nesse aspecto em particular, a psicanálise pode dar sua contribuição, na singularidade de cada caso, para a formulação teórica e metodológica do objeto em estudo, sofrimento, ao trazer para este campo a reflexão sobre aquilo que é o seu objeto P á g i n a | 60 primordial - o psiquismo - e, daí, suas inter-relações com o trabalho (FURTADO, 2005). Desse modo, compreendemos que a psicanálise não tem a dizer sobre a doença do trabalhador, mas sobre o trabalhador. Furtado (2005, p. 12) corrobora com nossa percepção ao afirmar que “a psicanálise é uma clínica do sujeito, e não uma clínica do trabalho, da religião, da escola, do hospital etc”. Desse modo, o trabalho, por mais que tentemos salientar sua importância para a subjetividade, apresenta-se como mais um elemento integrante da vida do sujeito e que só faz sentido se articulada a outros elementos de sua história. Um sujeito que deseja sempre, mas deseja um desejo que é do Outro. No entanto, podemos nos perguntar: a que sujeito estamos nos referindo? Será que se trata do indivíduo cartesiano, tomado em sua extensão de corpo? Ou ainda em sua racionalidade? Na verdade, para a psicanálise o sujeito é aquele que surge a partir de um dizer. Ou seja, conforme Furtado (2005) é quando os trabalhadores com sofrimento psíquico são convocados a falar sobre os acontecimentos causadores de seu sofrimento, que percebemos que aquilo que antes fazia parte de uma atividade objetiva, pertencente à realidade material, passa a ser considerado em sua vertente psíquica e suas relações com o desejo e com a história desses sujeitos. O trabalho, antes visualizado e entendido como aspecto material e objetivo, agora passa à realidade do inconsciente, de seus mecanismos e de suas produções. 4.1 O Sujeito Inconsciente O que eu sou? O que posso pensar? Naturalmente, hoje em dia, já nos deparamos fazendo perguntas desse tipo em algum momento de nossas vidas. O teor dessas duas perguntas levaram Descartes (1596-1650) a formular pela primeira vez na história das ideias o conceito de sujeito. Foi a partir da sua obra intitulada Discurso do Método que se procurou explicitar um caminho para a busca da verdade por meio de um método: matemático e filosófico. Podemos perceber que só é verdadeiro, para Descartes, tudo aquilo que pode ser concebido de forma clara e objetiva, portanto, somente a razão é capaz de conduzir o homem a esse processo. Assim, o sujeito que será formulado pelo método cartesiano não é outro senão o sujeito da ciência (QUINET, 2008). P á g i n a | 61 A equação “penso, logo sou” é a única verdade da qual não podemos duvidar. Ao ligar a existência do sujeito à certeza do ato de pensar, Descartes a dissocia de tudo o que não seja vinculado à razão: “não sou senão uma coisa que pensa”. Assim, a definição desse sujeito é uma coisa cuja substância é o pensamento. Portanto, para chegar a essa conclusão sobre quem sou eu, Descartes rejeita os sentidos, pois para ele estes são sempre enganadores. A subjetividade conduz para o afastamento das ideias racionais. Assim, aquilo que se vê, que se apalpa, que se sente não é capaz de dizer quem sou. Nessa perspectiva, afirma que o discurso científico separa a existência e os atributos do próprio sujeito, separação que se torna um ideal para a ciência moderna. Um pensamento sem qualidades, cujo correspondente, conforme aborda Lopes (2008), é um sujeito, também, sem qualidades. Ressaltamos que Lacan (1956/1998), ao escrever o texto “A ciência e a verdade”, menciona que a psicanálise opera sobre esse mesmo sujeito da ciência. Parece paradoxal a princípio, mas posteriormente perceberemos que o surgimento da psicanálise é historicamente dependente do pensamento científico. O que pode ser resgatado a partir das considerações de Lacan é que a importância do cogito para a psicanálise dá-se em virtude da relação do sujeito com sua vertente simbólica. É por meio dessa dimensão que, conforme Erlich (2008), algo pode ter valor de existência para o ser falante. Desse modo, para a psicanálise o sujeito é também o sujeito do pensamento inconsciente. Mas não é por se referir à dimensão psíquica que esse sujeito não pode se manifestar. O sujeito inconsciente se estrutura em forma de linguagem. Portanto, falar do sujeito inconsciente não se trata aqui do sujeito da desrazão, como aborda Quinet (2008), refere-se à razão inconsciente cuja lógica é também apreendida através de um método, não o método cartesiano, mas ao que se chama de método psicanalítico. A psicanálise, portanto, se fundamenta a partir de seus próprios princípios e métodos. Eis a grande contribuição da psicanálise: configura-se em um discurso, mas traz o particular dos demais discursos, em que o outro a quem esse discurso se dirige é, por excelência, o próprio sujeito (ALBERTI, 2006). Assim, se o procedimento cartesiano e o freudiano convergem em definir o sujeito pela razão, divergem em relação à substância: para Descartes o sujeito é uma coisa pensante, enquanto para a psicanálise o sujeito não tem substância, manifestandose na hesitação, na dúvida entre isto e aquilo. Como diz Lacan (1956, p. 260-261), “o inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado P á g i n a | 62 por uma mentira: é o capítulo censurado”. De outra maneira, o sujeito para a psicanálise é essa lembrança apagada, esse significante que falta, esse vazio de representação em que manifesta o desejo (QUINET, 2008). Portanto, o cogito freudiano é antes de tudo “desidero ergo sum” (desejo logo sou), uma vez em que lá onde se encontra o desejo, está o sujeito com efeito de associação das representações. Desejo é o nome do sujeito da era freudiana. Dessa forma, o sujeito que a psicanálise descobre nos escombros da patologia é um sujeito que é fundamentalmente desejo (LOPES, 2008). O sujeito inconsciente é capaz de transmitir um saber desconhecido para ele mesmo. Porém, nem sempre este sujeito quer saber daquilo que luta tanto para resguardar. Embora seja um capítulo censurado, a verdade pode ser resgatada, como lembra Lacan (1956/1998). Pois, na grande parte, ela está escrita de outra forma, com outros contornos, com outras cores e em outro lugar. Uma escrita contendo textos cujas partes das frases podem ser suprimidas, sem sentido. Assim, não é porque ele não deseja saber que ele não se manifesta. Mas de que forma? O sujeito inconsciente se revela na fala daquele que busca entender o sentido das suas dores, das suas angústias. Nessa perspectiva, ao se revelar pela fala diz-se que o sujeito inconsciente se estrutura em linguagem. Portanto, algo foge do controle do sujeito, algo que não é consciente e que a ele não pertence. E é por meio da linguagem que o sujeito inconsciente deixa rastros de sua visibilidade (DOR, 2003). O inconsciente pode ser acessado por seus efeitos nos sonhos, nos lapsos, nos atos falhos, nos chistes e no sintoma. É assim que ele dribla a armadura e as estratégias censoras do psiquismo, por isso mesmo deixa escapar a verdade do sujeito. E, conforme Quinet (2008), o significado delas, na verdade, se constitui no desejo, tão fugaz, quanto o próprio sujeito que aí se manifesta. Na restituição de um sonho, por exemplo, quando nós o relatamos, muitas vezes somos tomados pela dúvida. E, frequentemente, partes do nosso sonho são estranhos para nós mesmos. É a partir dessas observações na clínica que Freud formula que é no espaço entre isto ou aquilo, lá onde justamente se pergunta, onde existe a dúvida sobre o elemento impreciso do sonho, que se apresenta o sujeito, no campo do inconsciente como pensamento ausente. Portanto, para a psicanálise esse vazio, esse buraco sem fim, sem sentido, que insiste em ser preenchido por alguma coisa, se configura no significante que falta e naquilo que se constitui o sujeito-desejo. P á g i n a | 63 Freud (1980) enfatiza que o inconsciente é constituído não pelo que a consciência em si evoca, fala, entende e discerne, mas, por sua essência, é o que ela essencialmente recusa. Assim, o pensamento em si não o define, pois não há representação própria para expressar o desejo em palavras, pois como o sujeito ele é vazio, aspiração, falta, é sempre desejo de alguma coisa. Lacan ao falar de sujeito, não se refere ao indivíduo. Mas reporta-se a ele como algo diferente de um organismo que se adapta. Um sujeito que é “outra coisa” e “para quem sabe ouvi-lo, a sua conduta toda fala a partir de um outro lugar, de uma falta-a-ser” (LACAN, (1978/1992). Dessa forma, percebemos, ao longo dos textos psicanalíticos que a essência do sujeito freudiano é o sujeito cartesiano subvertido. Este sujeito, o da psicanálise, é o que está submetido à cadeia de significantes. Mas podemos nos indagar: O que seria, então, esse significante? Para demonstrar que o inconsciente é estruturado como linguagem, Lacan, ao mesmo tempo em que se apropria do conceito de significante formalizado por Saussure, subverte-o. Ele inverterá a relação entre o significado e significante proposto pela teoria linguística, colocando o significado (s) em detrimento do significante (S), sendo representado pelo S/s. Dessa forma, o significante é pré-existente ao sujeito, e o significado da fala do mesmo está diretamente relacionado à relação de oposição de um significante ao outro (DOR, 2003). A psicanálise dá prevalência ao significante e não ao significado. O significado nada mais é do que outro significante que, junto com o primeiro, retroativamente, produz efeito de sentido. É uma cadeia de anéis que entrelaçados, mantêm sempre uma relação com um deles. Um desliza sobre o vazio do outro, mas se tocam em um determinado ponto, metáfora que mostra que a associação de ideias – regra de ouro da psicanálise - se faz pela via do significante e não do significado, conforme menciona Dor (2003). É nos sonhos, nos lapsos do discurso, nas distorções, nas lacunas e nas repetições do sujeito, assim como em seus sintomas, que podemos “ler” o traço apagado do significante recalcado, que emerge na linguagem singular, na fala de cada sujeito, que apreende o desejo inconsciente. Este desejo, conforme menciona Dias (2006), abriga inadvertidamente um sentido na cadeia de significantes, determinando a maneira pela qual o discurso do sujeito se organiza. O discurso falha, um dos anéis entrelaçados, ao se quebrar, rompe com a corrente composta por eles, ou seja, a cadeia de significantes se interrompe e é ai que é P á g i n a | 64 preciso incidir na clínica em busca do quê, do desejo, se encontra recalcado e que o sujeito insiste em desconhecer como seu. É o mais íntimo que aflora no dito do sujeito, a despeito dele mesmo, que, conforme Quinet (2008) não sabe o que diz. É na demanda endereçada ao Outro que circula o desejo, mas não um desejo que se revela nitidamente. É antes um desejo escamoteado, escondido, disfarçado, que circula sob os bastidores da enunciação e nos intervalos do enunciado, nas pausas, nas exclamações e reticências; em suma, é no ato da fala do sujeito que cabe avalizar a presença do desejo e a verdade que ele oculta. É na fala que deixa escapar, para além do vazio de seu dizer, o apelo do sujeito à verdade, que já está inscrita em alguma parte no inconsciente (QUINET, 2012). Mesmo que a linguagem seja a ferramenta de acesso ao mundo, é impossível para o sujeito representar tudo. Algo sempre escapa à possibilidade de representação, de nomear a experiência. Quando isso acontece, diz-se que o sujeito se encontra no plano do traumático, da angústia. O sintoma surge como tentativa de reparar essa fenda que se abre (DOR, 2003). E assim o sujeito pode tentar reformular outros significantes para aquilo que o faz sofrer e pode vir a se constituir como seu sintoma. 4.2 Sofrimento Psíquico do Trabalhador e o Sintoma É necessário reconhecermos que o sofrimento não tem uma manifestação única para todos. O que é sofrimento para uma pessoa não é, necessariamente, para outra, mesmo quando submetidos às mesmas condições ambientais adversas. Ou ainda, aquilo que é sofrimento para alguém pode ser prazer para outro e vice-versa. Assim, essa condição básica do ser no mundo não pode ser definida apenas a partir do fenômeno. O sofrimento depende da significação que assume no tempo e no espaço, bem como no corpo que ele toca produzindo algo “além do princípio do prazer”. O homem sofre porque passa a perceber a sua finitude; o que faz do sofrimento uma dimensão não apenas biológica, mas, sobretudo, existencial (BRANT; MINAYO-GOMEZ, 2004). Compreendemos, a partir da clínica psicanalítica, que todas as experiências do sujeito vão ser significadas a partir do lugar que este sujeito ocupa em relação à linguagem, a partir dos significantes que marcam sua história. O sofrimento do trabalhador não escapa a isso. Nesta direção buscamos analisar aqui o sofrimento psíquico do trabalhador e percebemos que este não pode ser pensado apenas como fator inerente aos estímulos externos (organização do trabalho, infra-estrutura, ritmo de P á g i n a | 65 produção), mas precisa ser abordado a partir da forma como cada trabalhador o significa. Nesta perspectiva, entramos aí na segunda consequência de tomarmos o sujeito do inconsciente: Como esse sujeito é dividido, consciente e inconsciente, aquilo que representa sofrimento para uma instancia, é prazer para outra. Há uma satisfação de desejo, mas essa satisfação tem um caráter problemático, não podendo ser sentida como tal (FREUD, 1920). Ao buscarmos material para a discussão dessa temática nos escritos de Freud enveredamos primeiramente na leitura de uma de suas obras: “O Mal Estar na Civilização”, (1930) e neste, o autor menciona que trabalhar e amar constituem dois caminhos para a felicidade. O trabalho apresenta um papel importante na vida dos homens, assim, este deveria ser apenas fonte de felicidade e prazer. Mas, sabemos a partir de nossas vivências que a lógica nem sempre é essa. Pois, assim como as demais fontes que orientam o sujeito na busca do prazer, o trabalho nem sempre garante o sucesso de sua empreitada: a felicidade. Pois dedicar-se a ele não afasta os sujeitos das experiências de desprazer. Embora, Freud não tenha desenvolvido textos sobre o trabalho propriamente dito, percebemos ao longo de suas obras discussões que remetem aos aspectos psíquicos envolvidos na relação entre o homem e o trabalho. Considerado um dos caminhos para aquilo que constitui a jornada pela felicidade, o trabalho pode, conforme Mendes (1999), tanto gratificar quando frustrar as energias pulsionais, ficando a cargo do processo de sublimação a mediação entre pulsão e trabalho. Antes de entramos nessa discussão, torna-se imprescindível voltarmos brevemente à discussão de Freud sobre a felicidade e as formas de sofrimento que podem atingir o sujeito para, posteriormente, ascendermos o diálogo sobre o sofrimento psíquico do trabalhador, na perspectiva psicanalítica. Para iniciar o tema da felicidade em “O mal-estar na civilização” (1930), Freud adota como ponto basilar para o seu debate questionamentos sobre o propósito da vida, tendo como base o comportamento dos homens. A partir de seus estudos ele menciona que as pessoas se esforçam para alcançar e, mais do que isso, preservar um estado de intensa felicidade. Assim, esse comportamento abrange a tentativa de conseguir duas coisas: aspiração à felicidade e a ausência de dor e desprazer. Nesta acepção, Freud (1930) menciona o sofrimento e as sensações de desprazer como uma ameaça constante para o homem, a partir de três fontes: do próprio corpo que P á g i n a | 66 caminha para decadência, o mundo externo que pode se voltar contra nós mediante forças destrutivas e cruéis, e os relacionamentos que se estabelecem com os outros. Dos três este último é tido por Freud como sendo o mais penoso. A vida torna-se, dessa forma, uma tarefa difícil por trazer aos sujeitos demasiadas dores, decepções e desprazeres. Portanto, a caminhada que as pessoas fazem para fugir da dor e desprazer, em diversas situações da vida é a que mais se repete, tornando-se frequente e inevitavelmente presente. Nessa perspectiva Freud chamou-as de tarefas insolúveis. E para suportá-las os sujeitos precisam dispensar de atividades paliativas para conseguir aliviar as sensações de desprazer. Para isso, existem três recursos que Freud (1930) menciona serem uma espécie de escape: as gratificações substitutivas que seriam as artes; os entorpecentes que agem sobre o corpo, e a atividade científica. Compreendemos que tanto as artes e a atividade científica, apesar de suas particularidades, se enquadram na categoria de trabalho. Essas atividades paliativas têm o propósito de buscar aquilo a que chamamos de felicidade. Entretanto, Freud analisa que nenhuma destas é capaz de oferecer a felicidade absoluta, pois é possível apenas a realização parcial da pulsão, proporcionando apenas uma felicidade “efêmera”, devido ao prazer que causam e/ou ao desprazer que evitam. De outro modo, a felicidade vem da satisfação repentina de necessidades altamente represadas, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno passageiro. Rápido e solúvel. É, portanto, mais fácil experimentar a infelicidade que a própria felicidade, o sofrimento ao prazer (Freud, 1930). Nesse momento Freud afirma que o homem busca encontrar a felicidade, mesmo que isso signifique uma travessia infindável. Assim os sujeitos se dão por felizes ao fugir da desgraça e sobreviver ao tormento. Freud refere-se no seu texto “Projeto para uma Psicologia Científica” (1921) ao sofrimento como um estado de expectativa diante do perigo e da preparação para ele. Afirma ainda que, quando se trata de um perigo desconhecido, estamos diante da angústia; quando ele é conhecido, temos o medo e, quando o sujeito topa com um perigo sem estar preparado para enfrentá-lo, sua reação é o susto. O sofrimento se configura como uma reação, uma manifestação da insistência em viver em um ambiente que, na maioria das vezes, não lhe é favorável. Diante de tudo, podemos dizer que a felicidade à qual Freud se refere implica, neste sentido, a realização do programa do princípio de prazer. Por princípio de prazer, entendemos com Freud que se trata de um modo de organização que, governando o P á g i n a | 67 psiquismo desde o início da vida, baseia-se na busca de prazer, mas também na evitação de sofrimento. É no Projeto para uma Psicologia Científica (1921) que Freud esboça as concepções sobre os estímulos que causam o desprazer. Estes estímulos foram inicialmente chamados de externos e internos. Quanto aos primeiros, são oriundos do mundo externo e, ao se constituírem como ameaça ao organismo, este pode se desvencilhar por meio de um mecanismo apropriado de fuga, como por exemplo ação motora. Por outro lado, alguns tormentos que se pretende expulsar revelam-se como inseparáveis do próprio sujeito. Assim, a fim de desviar destas “excitações desagradáveis que surgem do interior, o ego não pode utilizar senão os métodos que utiliza contra o desprazer oriundo do exterior e esse é o ponto de partida de importantes distúrbios patológicos”. Portanto, as estratégias utilizadas para esquivar-se dos estímulos externos se apresentam ineficazes para os que surgem do meio interno. Dessa forma, o que Freud (1915, p. 32) chama de interior, perceberemos como sendo os estímulos endógenos que emergem do próprio sujeito. Destes o organismo não pode fugir. Por esta razão eles agem também de forma diferente no psíquico, restandolhe apenas encontrar uma forma de lidar com eles. A esses estímulos, Freud chamou posteriormente de “pulsão” afirmando que se trata de: [...] um conceito-limite entre o psíquico e o somático, [...] o representante psíquico dos estímulos que provêm do interior do corpo e alcançam a psique, [...] uma medida da exigência de trabalho imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo (FREUD, 1915, p. 45). Dentre as principais características, a pulsão, ao contrário dos estímulos externos, nunca age como uma força momentânea de impacto que logo, em seguida, exige do organismo um ato reflexo para desprender da ameaça. A pulsão, ao contrário, atua sempre como uma força constante, vindo do próprio sujeito. Por agredir a partir do interior do corpo, a fuga, no dizer de Freud (1915, p. 20), “não é de serventia alguma”. Ao pensar em pulsão o termo mais adequado para explicitar sua qualidade seria “necessidade” [Bedürfnis], e tudo aquilo que suspende a essa necessidade, Freud, deu o nome de "satisfação" [Befriedigung]. Nos reportamos a essa trama conceitual até aqui para compreendermos que diferente dos estímulos externos, a satisfação só pode ser P á g i n a | 68 alcançada por meio de uma alteração direcionada e altamente específica (não é qualquer coisa que a satisfaça, pois este sempre se encontra no campo do Outro). Assim, podemos compreender que a meta de uma pulsão é sempre a satisfação, que só pode ser obtida quando o estado de estimulação presente na fonte pulsional é suspenso. Embora a meta final de toda pulsão seja sempre a mesma, são diversos os caminhos que podem conduzir a essa meta. Foi partindo desse princípio que Freud formulou, inicialmente, que a sensação de desprazer está articulada com um aumento dos estímulos, por sua vez a sensação de prazer se relaciona com uma redução destes (FREUD, 1915). Se compreendermos que toda meta da pulsão é a satisfação, então, podemos entender que para alcançar seu objetivo ela precisa de alguma coisa que concretize sua necessidade. Assim, o objeto da pulsão é aquilo em que, ou por meio de que, a pulsão pode alcançar sua meta. Freud (1915, p. 38) diz sobre o objeto como este sendo: [...] o elemento mais variável na pulsão e não está originariamente vinculado a ela, sendo-lhe apenas acrescentado em razão de sua aptidão para propiciar a satisfação. Em rigor, não é preciso ser um outro [fremd] objeto externo, pode muito bem ser uma parte de nosso próprio corpo. Nesta acepção, a observação da clínica psicanalítica mostrou que os destinos de tais pulsões podem ser quatro: a transformação em seu contrário; o redirecionamento contra a própria pessoa; o recalque e a sublimação. Nessa perspectiva, o trabalho pode ser pensado não apenas com a tarefa realizada, mas com o que ele atualiza das relações do sujeito com outro como objeto. Evidente que Freud não estava preocupado com as questões concretas do trabalho, mas com a dinâmica que a pulsão estabelece com seus objetos, com as exigências pulsionais e a forma como esse sujeito reage a tais investidas e como significa essa realidade (MENDES, 1999). Entendemos que as duas últimas vicissitudes da pulsão são de maior importância quando se trata de pensar as relações do sujeito com o trabalho, sendo assim, passaremos a nos deter em cada uma delas. Ao caminharmos cronologicamente pelos textos freudianos perceberemos que o termo sublimação foi mencionado pela primeira vez em uma carta de Freud dirigida a Fliess (Carta 61- Rascunho L), texto ainda pré-psicanalítico no qual o termo é P á g i n a | 69 empregado em associação a construções fantasiosas e como defesa em relação à sexualidade. O que queremos ressaltar é que a sublimação, neste momento, foi elaborada por Freud sem ser claramente diferenciada do recalque, tendo a função de promover esquecimento de lembranças dolorosas. Esta conotação de defesa em relação ao sexual associada à sublimação é fruto da concepção de Freud sobre a sexualidade, o conflito psíquico e o adoecimento neurótico no início de sua obra (CASTIEL, 2007). Posteriormente, ao longo das suas obras psicanalíticas Freud formulará novas percepções sobre a sublimação, diferenciando do mecanismo de recalque. Segundo Lacan (1964), dentre as vicissitudes que a pulsão pode tomar, a sublimação é aquela que permite a satisfação sem que haja o recalque. Freud, assim, definiu a sublimação: [...] sua capacidade de deslocar seus objetivos sem restringir consideravelmente a sua intensidade. A essa capacidade de trocar seu objetivo sexual original por outro, não mais sexual, mas psiquicamente relacionado com o primeiro, chama-se capacidade de sublimação (FREUD, 1908, p. 193). Desse modo, queremos destacar duas palavras utilizadas por Freud, ao se reportar à sublimação, deslocar e relacionar. A partir da primeira palavra podemos compreender, de forma sucinta, que a sublimação se caracteriza pela mudança na finalidade pulsional, ou seja, há um deslocamento do investimento libidinal do objeto para a libido do ego dessexualizada. Portanto, esse processo se dá a custa da substituição do objeto inicialmente sexual por outro que tem como característica a valorização social. Embora exista a substituição, o objeto, agora dessexualizado, mantém uma estreita relação com o objeto inicial. Eis, em destaque, a segunda palavra que ressaltamos. Assim, a partir da sublimação, o sujeito com suas características particulares e seus modos de satisfação peculiares, eleva seu investimento pulsional para o nível socialmente valorizado. É o que podemos ver com o investimento das pulsões sendo direcionadas para o trabalho, de forma geral, ou, como exemplificou Freud, as obras artísticas, a filosofia, religião e a ciência. Assim, o sujeito pode criar o novo porque existe algo que é da ordem do real, e é neste espaço vazio que é tecida uma rede de significantes que resultam em uma obra, uma criação cultural ou um trabalho majestoso perante os olhos da sociedade. P á g i n a | 70 Portanto, a sublimação, de forma substitutiva, indica a possibilidade de satisfação pulsional por vias que não as das formações sintomáticas, reafirmando o caráter de plasticidade do objeto pulsional e sublinhando a presença do sexual, do erótico na sublimação. Como afirma, Lacan ([1959-60]1997) a sublimação, é uma via que não passa pelo recalque, mas antes envolve a criação a partir do vazio. Não é por mera coincidência que para muitos, o trabalho é considerado uma arte. É possível que em alguns momentos, o trabalho apareça para alguns sujeitos como possibilidade de criação e assim, se aproximar do conceito de (Lacan, [1959-1960] 1997, p. 140) segundo o qual a sublimação é o ato de “elevar o objeto à dignidade da coisa”. Assim, o trabalho é uma das possibilidades para a sublimação que pressupõe criatividade e satisfação, mesmo que de forma substitutiva e parcial. Ademais, Freud afirma que o ponto fraco desse destino pulsional é que ele não atinge todas as pessoas e que a intensidade de sua satisfação mostra-se tênue quando comparada a satisfações mais grosseiras e primárias. A sublimação não proporciona proteção completa contra os sofrimentos provenientes de diversas fontes. Ela não cria uma armadura contra as investidas do destino e habitualmente falha quando a origem do sofrimento é o próprio corpo da pessoa. Assim, percebemos que a dimensão da sublimação não é a mais enfatizada no capitalismo, pois a lógica deste é fazer com que o sujeito tampone o vazio com alguma coisa, e a formula mais simples é fazer com que os sujeitos preencham esse vazio com objetos concretos e possíveis de ser consumidos: carros, celulares, computadores, roupas e etc. O segundo destino pulsional que vai nos interessar quando se trata de analisar as relações entre sofrimento e trabalho é o do recalque. Este ocorre, segundo Freud (1915) quando há um desligamento da relação entre a representação de coisa, que está impressa no aparelho psíquico como traço de memória, e a representação da palavra que lhe dá significado. Esta definição nos leva a pensar que o processo de recalque é um trabalho constante e intenso, que mantém relação direta com os estímulos provenientes do inconsciente. Por outro lado, o mecanismo de recalque nem sempre obtém sucesso nesse esforço, então encontramos as formas de manifestação do retorno do recalcado sob a forma de sonhos, lapsos, chistes e o sintoma. Estes são a prova do fracasso do recalque e sinais de que os estímulos mais profundos da psique conseguiram obter êxito frente às estratégias defensivas do psiquismo (FURTADO, 2005). P á g i n a | 71 Desse modo, compreendemos que, enquanto o instinto tem variações de ritmo e de intensidade, a pulsão é uma força constante que, embora pressione constantemente por satisfação, é impossível de ser eliminada. A entrada na civilização, o recurso à linguagem, exige que uma parcela dessa satisfação pulsional seja deixada de fora. Apesar de toda essa tentativa de controle dos corpos, a pulsão continua exigindo um outro trabalho, buscando formas de se manifestar (FREUD,1915). Um dos caminhos encontrados para obter a satisfação pulsional, embora não seja reconhecida como tal pelo Eu, é o sintoma. Este, portanto, é a forma através da qual as representações recalcadas sofreram disfarce para driblar o recalque, assumindo formas diferentes e/ou substitutivas de se manifestar como, por exemplo, através do próprio corpo. O corpo é marcado pela palavra, constituindo-se, assim, como corpo libidinal. Trata-se de uma satisfação também paradoxal, pois como afirma Freud (1920) embora seja sentida pelo sujeito como sofrimento, denota que em outra cena algo da pulsão consegue se satisfazer parcialmente. Segundo Mendes (1999), a inibição da capacidade de trabalho nos neuróticos decorre de uma falta de gratificação pulsional e que se manifesta em formas de reações sintomáticas como fadiga, tontura, vômitos. A descoberta de que existe uma satisfação que se obtém “no” e “pelo sofrimento” desemboca mais tarde numa reformulação importante que Freud realiza em sua teoria. Foi no texto Além do Princípio do Prazer (1920) que ele reviu toda essa discussão da pulsão, articulada com os mecanismos de prazer/desprazer, a partir do que ele identifica na clínica. Apesar de afirmar que o psiquismo humano é regulado pelo princípio de prazer, uma coisa chama atenção de Freud: se o psíquico está regulado pela busca da felicidade, por que os sujeitos repetem exatamente as experiências de desprazer? Foi a partir das brincadeiras de seu neto, dos relatos dos sonhos dos soldados com neurose traumática e das transferências na análise, que Freud passou a questionar o funcionamento psíquico do princípio do prazer. Nestas situações nota a presença de uma compulsão a repetição de cenas que não representam prazer para os sujeitos, indicando que existe algo que se impõe, para além do princípio do prazer. Nas palavras de Freud (1920, p. 33) “existe realmente na mente uma compulsão à repetição que sobrepuja o princípio de prazer”. Diante disso, Freud (1920, p.56) compreende que é incorreto falar na dominância apenas do princípio do prazer nos nossos processos mentais. Pois, “se tal dominância existisse a imensa maioria dos nossos processos mentais teria de ser P á g i n a | 72 acompanhada pelo prazer ou conduzir a ele, ao passo que a experiência geral contradiz qualquer conclusão desse tipo”. Para entendermos essa indagação de Freud, precisamos compreender que o princípio de prazer é próprio de um método primário de funcionamento por parte do aparelho mental, mas responder a todos os seus desejos é desde o início ineficaz como até mesmo altamente perigoso. Assim, como forma de se resguardar dos desejos inconcebíveis, os instintos de autopreservação do ego entram em cena, fazendo que o princípio de prazer seja substituído pelo princípio de realidade. Este fica do lado da censura psíquica e é de onde provêm os impulsos contrários aos que se mostram mais antigos e arraigados. O conflito anímico está também diretamente relacionado com a oposição entre o princípio de prazer e o princípio de realidade (FURTADO, 2005). Desse modo, podemos nos perguntar: como a compulsão à repetição de situação de desprazer se relaciona com o princípio de prazer? Como aborda Freud (1920), a maior parte do que é reexperimentado sob a compulsão à repetição traz uma carga de desprazer para o ego, já que traz à luz atividades das pulsões recalcadas. Este, entretanto, é desprazer de um tipo, mas que não contradiz o princípio de prazer: pois, ao mesmo tempo, que se configura como desprazer para um sistema, é satisfação para outro. Entretanto, o princípio de realidade “não abandona a intenção de fundamentalmente obter prazer; não obstante, exige e efetua o adiamento da satisfação, o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la” (FREUD, 1920, p. 56). Dessa forma, a restrição e o adiamento da satisfação pulsional são o preço para amar e trabalhar na sociedade civilizada. Esta renúncia, a que Freud denomina de satisfação parcial, demanda um prazer pulsional que não pode ser sentido como tal, e quando não é sublimado, pode ser recalcado, constituindo um mecanismo básico das neuroses e, sendo um problema no engajamento ao trabalho (MENDES, ABRAHÃO, 1999). Com Lacan percebemos que o sintoma também é um significante e um sinal. Mas não um sinal que remeta necessariamente a um caráter de doença. O sintoma com significante para a psicanálise tem um significado sexual, e como sinal, o sintoma é um sinal do sujeito de que algo ou alguma coisa ele deseja, mas esse desejo deve ser encarado como inconcebível. Mas mesmo sendo um desejo paradoxal, o sintoma não fica totalmente escondido. Ele abre brecha, percorre o labirinto e procura escapar de qualquer forma. E escapa, ainda que seja por pequenas veredas. Pois, no sintoma, assim P á g i n a | 73 como nas demais formações do inconsciente, há também uma satisfação de desejo (QUINET, 2008). Na clínica psicanalítica, o sintoma em si, a queixa inicial trazida pelo sujeito não é a questão central a ser analisada. O sintoma, como o próprio nome diz, é sintoma de algo; está no lugar de algo. Ele representa uma formação do inconsciente que traduz o conflito entre o recalcado e as defesas (ALBERTI, 2006). Na medicina, o sintoma é dotado de sentido, mas compete ao médico dar a sua significação. O médico do trabalho deve procurar no sintoma, manifestação subjetiva do trabalhador, a possibilidade de sua objetivação deve ser decifrada, portanto, como sendo ou não sinal de uma doença (PIMENTA, FERREIRA; 2003). Na psicanálise, o sintoma também é dotado de sentido, mas um sentido que cabe ao inconsciente. O sintoma revela não a verdade da doença, mas a verdade do sujeito inconsciente, pois porta o desejo inconsciente indestrutível. Por isso, não há como eliminá-lo, pretensão da medicina científica que por meio da medicalização tenta, muitas vezes, anular ou mascarar o sintoma. Mas se o sintoma é desejo e o desejo é constituído pela falta, ele não se desfaz completamente (PIMENTA, FERREIRA; 2003). Para Lacan o desejo só consegue satisfação sob a condição de fazer uma renúncia parcial, ou seja, o desejo para ser desejo se constitui na falta de alguma coisa, não podendo ser satisfeito em sua plenitude. Desde o início, a necessidade tem de se tornar demanda e isso remete à intervenção do significante. No entanto, nem tudo pode ser dito, nem tudo cabe nas palavras, e esse “algo” que escapa à incidência do significante é que Lacan vai chamar de desejo. Estamos no campo da meia-verdade, já que a impossibilidade de dizer a verdade toda assinala a presença de algo do significado que é resistente ao significante (LOPES, 2008). Para a psicanálise o sintoma também é signo de um sofrimento. No entanto, para a clínica psicanalítica o sintoma é indicativo de algo, está no lugar de algo que não pôde ser dito, não encontrou possibilidade de ser representado em palavras e, por isso, busca outras possibilidades de representação. Além disso, esse “algo” impossível de ser dito, não diz respeito apenas a um acontecimento atual (uma situação de estresse no trabalho, por exemplo). Ele remete a um real traumático que está na base da própria constituição do sujeito. Para entendermos esta afirmação é preciso retornar a Freud quando ele afirma que não há algo equivalente ao eu desde o início. Ele precisa constituir a partir da P á g i n a | 74 relação com o outro. Antes mesmo de vir ao mundo, o recém-nascido já ocupa um lugar reservado na linguagem que antecede a sua existência material como, por exemplo, por meio do nome que os pais escolhem e os planejamentos que esses fazem para o futuro filho. Tudo isso antecede e delimita, de certa forma, o mundo do qual cada bebê irá fazer parte (FINK, 1998). Para um ser recém-nascido se manter vivo é necessária a intervenção de um adulto próximo que realize ações essenciais para sua sobrevivência. A essa alteridade, Lacan propõe chamá-lo “Outro” (escrito com “o” maiúsculo) para designar não apenas esse adulto próximo, mas também a ordem linguageira que este adulto encarna para o ser “recém-aparecido”, ou seja, o que chega ao bebê “é um conjunto de marcas materiais e simbólicas – significantes – introduzidas pelo Outro materno, que suscitarão, no corpo do bebê, um ato de resposta que se chama de sujeito” (ELIA, 2004, p. 41). Sem a presença desse Outro, o recém-nascido fica em uma condição a que Freud deu o nome de desamparo fundamental (Hilflosigkeit) do ser humano, que exige a intervenção de um adulto próximo (Nebemensch) que perpetre a ação específica necessária à sobrevivência do ser humano desamparado. Em meio a uma luta pela sobrevivência, é nesse Outro que ele vai buscar os significantes para nomear suas experiências e aquilo que sente: fome, sede e seu desejo (FINK, 1998). Lacan é radical ao afirmar que uma criança não sabe o que quer antes da assimilação da linguagem, pois quando um bebê chora, o sentido desse ato é dado pelos pais ou pelas pessoas que cuidam dele que tentam nomear a dor que a criança parece estar expressando. Deste modo, o Outro pode ser visto como um intruso traiçoeiro que transforma nossos desejos, mas é, ao mesmo tempo, aquilo que nos capacita a revelar uns aos outros nossos desejos e a nos comunicarmos (FINK, 1998). Porém, a mãe ou quem quer que tenha acolhido esta criança em seu desejo, precisa estar voltada também para algo que se situe além do bebê, apontando que essa relação mãe e filho não basta para satisfazê-la. Ao apontar para o filho que tem outros interesses a mãe se situa também como mulher e, como tal, um ser desejante. A criança percebe que a este Outro também falta algo, que ele não pode tudo, não vê tudo e não pode nomear tudo. Nessas idas e vindas o sujeito percebe que a mãe não é completa, que a ela também falta algo (ELIA, 2004). Isso ocorre porque o Outro também tem que recorrer à linguagem, impossível de dizer tudo. Nessa lacuna, que se abre, marcada pela falta no Outro é que o sujeito vai passar a se perguntar sobre o desejo: o que esse outro quer? E mais, o que ele quer de P á g i n a | 75 mim? A partir daí, o sujeito segue procurando responder a esta questão, seja tomando o outro por objeto do seu próprio desejo, seja se colocando como o objeto que poderia tamponar a falta do outro também desejante (QUINET, 2008). Essas experiências infantis exigem uma consideração especial, pois são elas que determinam as mais importantes consequências, porque ocorrem numa época de desenvolvimento incompleto, e por essa mesma razão, capazes de efeitos traumáticos (FREUD, 1916-1917). Esse momento estruturante marcará o modo pelo qual o sujeito irá se relacionar com a realidade e com as demais pessoas que farão parte do seu convívio e, inclusive a forma de se posicionar frente à construção do seu sintoma. O sintoma, portanto, para Freud não é tomado como sinônimo de uma afecção biofisiológica. O sintoma para a psicanálise também é um significado, uma resposta do sujeito frente ao encontro com o real traumático. Trata-se de uma resposta que carreia um significado sexual, e como sinal, o sintoma é um sinal do sujeito de que algo ou alguma coisa ele deseja, embora se trate de um desejo inconcebível. Portanto, no sintoma, assim como nas demais formações do inconsciente, há também uma satisfação de desejo (QUINET, 2008). Como afirma Lacan, o inconsciente se reporta ao capítulo da história do sujeito que é marcado por um branco, ocupado por um vazio sem sentido, cujas palavras são incapazes de descrevê-lo, ou por outro lado constituído por uma mentira: é o capítulo censurado (Lacan [1954-1955]1978, p. 124). É por isso que o sintoma não deve ser visto como algo a ser “eliminado”. Ele deve, antes, ser “interrogado” na perspectiva de que se possa decifrar algo dessa resposta constituída pelo sujeito. Isso não significa que o sujeito também não sofra com este seu sintoma. Mas é por meio da fala, da articulação dos significantes que se pode desfazer o sintoma, pois o sujeito poderá simbolizar estas coisas inomináveis e buscar uma saída ainda melhor para elaborar seu conflito interno (FURTADO, 2005). A posição do eu diante do inconsciente é a de não querer saber nada sobre isso, posição essa que é reforçada no modelo médico-científico onde o sujeito é desresponsabilizado de seu sintoma. A psicanálise, por sua vez, considera que esse saber se revela na fala daquele que vem se queixar, desde que ela encontre do outro lado um analista. É nos sonhos, nos lapsos do discurso, nas distorções, nas lacunas e nas repetições do sujeito, assim como em seus sintomas, que se lerá o traço apagado do significante recalcado, que emerge na linguagem singular, na fala de cada sujeito, que P á g i n a | 76 apreende o desejo inconsciente. Este desejo abriga inadvertidamente um sentido, determinando a maneira pela qual o discurso do sujeito se organiza (QUINET, 2008). O discurso falha, ou seja, a cadeia de significantes se interrompe e é aí que é preciso incidir na clínica em busca do quê, do desejo, se encontra recalcado e que o sujeito insiste em desconhecer como seu. É o mais íntimo que aflora no dito do sujeito, a despeito dele mesmo, que não sabe o que diz (QUINET, 2008). No entanto, ao situarmos o sujeito em termos de discurso inconsciente, isso não implica desconsiderar o corpo, pois, de acordo com o conceito de pulsão, trata-se de algo que se situa entre o psíquico e o somático. Sendo assim, o sofrimento também tem uma inscrição no corpo, compondo uma geografia marcada por relevos atravessados por prazer, desprazer e dor, nem sempre passível de ser expressa em palavras (DOR, 2003). As fronteiras entre prazer e desprazer são imprecisas, vagas, e se superpõem em camadas indiscerníveis, muitas vezes inefáveis. O manifestado depende da modalidade pela qual se introjetou a linguagem e aprendeu a sentir e a nomear a experiência como angústia, dor, prazer ou satisfação. A maneira como utiliza a linguagem para lidar com as solicitações do outro define os atos, que podem ser de submissão, desobediência e contestação. O sujeito é, portanto, produto da contingência da linguagem, do desejo e do conjunto de dispositivos presentes no seu espaço institucional (BRANT; MINAYOGOMEZ, 2004). Assim, percebemos que o corpo do ser falante diferencia-se das demais formas de vida por ser afetado pela linguagem. Não lidamos com o mundo objetivo, mas com representações que já são construídas de forma singular, a partir das experiências que constituem o sujeito. É em decorrência dessa exigência da linguagem que entra em jogo “algo mais”, que não se submete e se manifesta na lógica cartesiana. No campo da saúde do trabalhador, esse “algo mais” que insiste em se manifestar, que traz algo do sujeito inconsciente, é relegado, muitas vezes, passando apenas a ser apreendido como doença mental e, portanto, passível de intervenção médica. De fato, em nenhum outro momento da nossa história houve tantas reclamações trabalhistas, reivindicações de indenização por invalidez e pedidos de aposentadorias (BORSOI, 2007). Na clínica, chegam pacientes dizendo-se deprimidos porque o chefe os trata com desprezo, não conseguem obter reconhecimento no trabalho, ou ainda porque “sofrem” de síndrome de burnout, fibromialgia etc. Imbuídos desta queixa, fixam-se apenas nestas questões e dificilmente se permitem pensar em suas perdas, lutos e conflitos pessoai P á g i n a | 77 4.3 Mais–Valia e o Sintoma do Trabalhador Observamos que em Freud o sintoma é compreendido enquanto uma mensagem a ser decifrada e uma modalidade de satisfação pulsional. Lacan, na década de 70 vai mais longe nessa proposta de leitura do sintoma na psicanálise, articulando-a como uma modalidade de estabelecimento de laço social, elaborando a teoria dos discursos (VANIER, 2002). O sintoma é uma discussão que está presente desde a origem da psicanálise; entretanto, ao ler alguns escritos de Lacan, vê-se que este faz em diversas ocasiões a afirmação de que Marx inventou o sintoma. Em um de seus últimos seminários, Lacan afirma que devemos buscar as origens da noção do sintoma, não em Hipócrates como costumeiramente se faz, mas em Marx (SILVA, 2010). É necessário destacarmos que esse reconhecimento de Lacan não é devido à apropriação da palavra “sintoma” que ele encontra descrita por Marx, mas ao fato de este se referir à própria “dimensão do sintoma”. Segundo Lacan, a leitura de Marx sobre o capitalismo se faz a partir do “sintoma” do próprio capitalismo, mediante as frustrações da classe trabalhadora. E nesse aspecto, Marx desenvolve uma teoria do capitalismo construindo a noção de mais-valia. A mais-valia é para Lacan signo de que Marx parte exatamente do que na estrutura capitalista é falha, do que aí não funciona. Tal observação pode ser associada, por Lacan quando este diz que o que há de essencial no pensamento marxista é a equivalência do sintoma como valor de verdade (ALBERTI, 2010). É a partir da estrutura marxista de mais valia que Lacan tece o conceito de mais gozar. Assim, precisamos discorrer um pouco sobre as ideias de Marx sobre o capitalismo para compreendermos as observações tecidas por Lacan. A mais valia é considerada por Marx como sendo produto do discurso capitalista e, portanto, não é senão a partir desse discurso que se pode determinar seu lugar: produto e causa. Podemos compreender por mais-valia a diferença entre o valor final da mercadoria produzida e a soma do valor dos meios de produção e do valor do trabalho. O resultado dessa operação constitui a base do lucro do capitalismo (SILVA, 2010). Marx, conforme o autor supracitado, para explicar o funcionamento da mais valia, descreve a função do mercado e, principalmente, como o trabalho se situa neste campo. No mercado, o trabalho é comprado como uma mercadoria. Para chegar a essa conclusão, Marx afirma que a estrutura do sistema capitalista se fundamenta em uma P á g i n a | 78 cadeia de mercadorias, fruto da articulação de M1 – M2. Nesta cadeia, uma mercadoria específica ganha uma extrema importância para simbolizar essa própria circulação de mercadorias: o dinheiro. Tal relação é expressa por Marx como sendo M1 – D – M2. Essa operação pode ser traduzida em conversão de mercadoria em dinheiro e reconversão de dinheiro em mercadoria, ou seja, vender para comprar, e esse ciclo não tem fim. Há sempre uma repetição. Desse modo, o dinheiro trata-se de algo tão singular que habitualmente as pessoas esquecem sua condição de mercadoria. Contudo, é na circulação que o dinheiro atualiza a sua função: facilitar a troca de mercadorias. Porém a grande contribuição de Marx foi explicitar como o dinheiro se transforma em capital. Isso demandou investigar algo para além das aparências, aquilo que estava oculto. Dessa forma, o que Marx percebe é o surgimento de uma segunda operação: DM - D’, aqui se trata agora da conversão de dinheiro em mercadoria e reconversão de mercadoria em dinheiro, ou seja, comprar para vender. O dinheiro que se movimenta de acordo com esta última circulação transforma-se em capital (SILVA, 2010). Foi a partir desse pensamento que Marx mostrou que o valor excedente, portanto a mais-valia, não pode se originar na circulação de mercadorias, porém algo tem de ocorrer fora dela e nela ocorrer de forma imperceptível. Transcrevemos a indagação de Marx (1989, p.185) sobre isso: “Mas pode o valor excedente (mais-valia) ter sua origem fora da circulação?” Assim, Marx chega à conclusão de que existe no mercado apenas uma única mercadoria, que, se consumida, pode criar valor: a força de trabalho. É aqui, por baixo da circulação de capital, que se encontra a verdade do capitalismo: a expropriação do trabalho. Portanto, uma vez inserido neste sistema nenhum salário é justo, algo tem de ser usurpado para sustentar o capitalista. É por isso que a equação não pode se fechar, não pode se igualar: D # D’. Caso contrário seria inviabilizar o sistema. Circulação e desigualdade combinadas garantem o acúmulo do capital. E é a mais-valia que garante essa estrutura (OLIVEIRA, 2008). Nesta perceptiva a força de trabalho também se configura como sendo mercadoria (M). A apropriação por parte do capitalista sobre o valor excedente da força de trabalho é uma exigência e condição necessária para o capitalismo. É partindo dessa abordagem que Lacan fala de um novo discurso, o discurso capitalista. O lugar que o trabalho e o mercado assumem neste discurso é o que vai permitir a Marx situar a maisvalia (OLIVEIRA, 2008). P á g i n a | 79 Marx afirma que na sociedade capitalista as relações sociais entre indivíduos disfarçam-se em relações sociais entre coisas. Daí o caráter fetichista do sintoma formalizado por Marx. O proletário, não mais na condição de escravo do senhor feudal, torna-se escravo de sua liberdade, ao vender livremente sua força de trabalho. Nas palavras de Marx “o trabalho não produz apenas mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria” (MARX, 1989, p.60). Constituindo o processo de alienação do trabalhador. Mas o estranhamento não se mostra somente no resultado final do trabalho, ou seja, a alienação não ocorre somente em relação ao produto final, mas também, e, principalmente, no ato da produção, dentro da própria atividade produtiva. “Como poderia, o trabalhador defrontar-se alheio ao produto da sua atividade se no ato mesmo da produção, não estranhasse a si mesmo?” (MARX, 1989, p.82). O estranhamento de si mesmo é marca fundante do modo de produção capitalista. No lugar do que se espera atingir como sendo a identidade do sujeito, o que “eu sou”, há um abismo. O que faz ponte sobre o abismo é o sintoma e, conforme Oliveira (2010), não o sintoma signo de qualquer patologia, o sintoma médico, mas o sintoma como laço, como modo de enlaçar o trabalhador no mundo. Segundo Lacan ([1968-1969] 2008), quando o trabalho é comprado pelo capitalista pelo preço de mercado, produz-se um resto, uma parte suplementar que não é paga ao trabalhador. Assim, a mais-valia fura a forma do valor e ao final do processo produtivo, pode ser chamada de uma economia de gozo. O gozo é um excesso para além do princípio do prazer, enquanto a mais-valia é um excesso para além do valor. Lacan ([1968-1969] 2008) menciona que um significante representa um sujeito junto a outro significante, nos termos do discurso capitalista; tem-se, então, que um valor de uso (a força de trabalho) representa um trabalhador junto a outro valor de uso (seu valor de troca), resultando daí a mais-valia. Dessa operação, irá sempre resultar uma perda, marcada pela produção do objeto a. Ao vender sua força de trabalho para o mercado, o trabalhador vende algo que será pago, mas também algo que não será jamais pago. Pois, sempre nessa transformação, algo falha, algo não é pago, algo não recebe um preço: falha do saber, de onde cai a mais-valia. Desse modo, o trabalhador já se mostra dividido pela operação de troca. Algo dele, incomensurável, “algo” que não pode ser pago agora pertence ao mercado. Ele não goza mais disso. A rigor, ele nunca gozou. Mas ao perdê-lo, ele pode agora partir em busca da sua reconquista: gozo perdido a ser recuperado como mais-gozar. É essa perda P á g i n a | 80 que causa o mais-gozar. É esse não pago que retorna como sintoma, isso mesmo que o próprio sujeito é incapaz de nomear, até que Marx tenha inventado a mais-valia (OLIVEIRA, 2008). Aí inscrito, segundo Lacan, enquanto aquele que vende a sua força de trabalho, o trabalhador sofre as consequências de um discurso perfeitamente definido. Estas se manifestam em sua frustração, que introduz a dimensão propriamente conflitiva que Lacan designará como sendo a da verdade, o mercado enquanto campo de saber. Desse modo, segundo Lacan, o pensamento de Marx consiste em considerar o mercado como o campo do Outro que totaliza os valores, como o saber que prescreve os preços e que, como discurso, detém os meios de gozar. O mais-gozar, enquanto função, é um efeito do discurso que o articula, ele demonstra na renúncia ao gozo, um efeito do próprio discurso. Lacan, em homologia, e não por analogia, com o conceito de maisvalia tece o conceito de mais-gozar (SILVA, 2010). Lacan menciona que é o ocultamento da verdade que permitirá aproximar capitalismo e ciência. É que tanto o capitalismo quanto a ciência, enquanto saber, rechaça o que é da ordem da verdade. No capitalismo, isso se mostra, como Lacan frisa, no fato de que “o saber não é o trabalho”. Na medida em que pensamos o próprio mercado como saber, diz Lacan, o saber é o preço. Pois, há algo no trabalho que não tem preço ou a que não é dado nenhum preço, que o saber se mostra em sua falha, que ele encontra aí uma verdade. Uma verdade da qual o mercado, enquanto saber, nada quer saber. Mas é no plano da frustração do trabalhador, que Lacan designa como sendo o nível de uma verdade, nada garante que algo possa estar inteiramente resolvido, pois o próprio trabalhador por estar inserido na linguagem é incapaz de dizer tudo (SILVA, 2010). O que vai interessar a Lacan é a relação do saber com o gozo. No seminário intitulado “O Avesso da Psicanálise”, Jacques Lacan (1992-1969/1970) pontua quatro discursos que aparelhariam o laço social entre o sujeito e o outro. Ele cria o quinto discurso, o capitalista, mas este, diferente dos outros, não produz laço social. Quinet (2006) entende o discurso enquanto laço social como sendo das modalidades possíveis de relação entre o sujeito e o Outro. De acordo com Lacan ([1969-1970] 1992), os laços sociais sustentam os quatro discursos que são representados pelos seguintes elementos: S1, S2, $, a. O S1 que é o significante mestre, o qual é representado pela sua qualidade de comando. Além disso, podemos compreendê-lo como sendo aquele significante da primeira experiência de P á g i n a | 81 satisfação, a qual nunca pode ser retomada de forma plena. Tal impossibilidade é negligenciada, visto que há uma repetição do S1, o que configura o S2. Por sua vez, o S2 é representado pela busca incessante da primeira experiência de satisfação, constituinte da própria cadeia significante, isto é, o saber inconsciente. No que concerne ao $, lidamos com o sujeito dividido; tal concepção diz respeito ao fato de que não há um significante que esgote a definição de sujeito. E por fim o objeto a, objeto causa do desejo que vai se distribuir na equação abaixo, podendo ocupar quatro lugares: Esses lugares dizem respeito ao fato de que qualquer discurso apresenta uma verdade que o mobiliza, constituindo sua mola propulsora, sobre a qual está assentado um agente, este se dirige ao outro, produtor, a fim de obter deste uma produção. Todos esses lugares podem permutar de modo circular, produzindo, pois, quatro configurações de quatro possibilidades de discursos: mestre; universitário; histérica e do analista. Lacan ainda elabora um quinto discurso, o capitalista (QUINET, 2002). Lacan, em o Avesso da Psicanálise ([1969-1970]1992), atribui ao agente a incumbência de dominante do discurso. No caso do discurso do analista, por exemplo, o agente é o objeto a (causa de desejo); no discurso da histérica é o sintoma que se posiciona como dominante no discurso, representado pelo sujeito dividido ($). Tais denominações visam a mostrar a relação entre o agente presente no discurso e aquilo que constitui sua tônica principal. Vejamos abaixo, a operação dos quatro discursos: P á g i n a | 82 O primeiro deles, discurso do mestre, caracteriza-se por ser um discurso onde o poder está nas mãos de um mestre ou senhor, aquele que domina. O escravo estará com o seu outro possível nessa relação: o saber (S2) e o gozo (a). Este discurso caracteriza-se por ter um mestre que comanda, mas não sabe fazer. O saber está do lado do escravo, ele tem o saber-fazer. Ao mestre cabe apenas o esforço para que as coisas funcionem, não importa de que forma, desde que elas aconteçam (LACAN, [1969-1970]1992). Desde modo, o discurso só age sustentado por uma verdade escamoteada, que está oculta: o mestre é castrado. E por fim, o que o discurso do mestre produz é o gozo (a), para o escravo um mais-de-gozar, porque afinal é um gozo que ele produz apenas para satisfazer o mestre. Esse é o discurso do governo, do comando e fundador de grande parte das instituições modernas (LACAN, [1969-1970]1992). Podemos reconhecer traços deste discurso naquelas situações onde o profissional de saúde é aquele que manda (prescreve) e o paciente é aquele que obedece. Neste caso, inseridos neste discurso, o profissional provoca um assujeitamento do outro. No discurso do universitário, percebemos um deslocamento importante no lugar do saber. O mestre não é mais aquele que governa, mas ele precisa se apoiar em um saber outro para afirmar sua verdade. Neste ponto, podemos perceber que no discurso universitário trata-se de um saber (S2) que tem como pretensão objetificar (a) o outro de forma a produzir um sujeito ($) dissociado de seus significantes primordiais (S1). Deste modo, o que resta ao outro é apenas o silêncio, e quando enunciar algo será da ordem da P á g i n a | 83 reprodução. Porta voz dos enunciados. É o caso, por exemplo, de quando ao escrever um trabalho acadêmico, o autor precisa estar a todo o momento buscando outros autores para referenciar e assim garantir a legitimidade de suas afirmações. Na clínica temos um exemplo desse discurso quando o médico faz uso do saber psiquiátrico para ensinar ou convencer seu paciente, impondo uma ação corretiva no intuito de normalizar a sua queixa (QUINET, 2002), No discurso da histérica, como já observamos, o discurso dominante em questão é representado pelo $, é o sintoma. A histérica toma o outro como mestre (S1), ao qual irá dirigir sua demanda de cura do sintoma. Portanto, a histérica coloca o Outro em uma situação de divisão subjetiva, onde ele vacila em sua verdade, obrigando-o a produzir um saber. Assim como ocorreu na história da psicanálise quando as histéricas da época de Freud faziam com seus médicos, deixando-os assombrados frente a suas manifestações sintomáticas que não correspondiam a uma lesão orgânica. Foram elas, com seus sintomas, que levaram Freud a produzir um saber: a psicanálise. Como afirma Quinet (2002), ainda hoje, quando o médico se vê impulsionando a se deter, a estudar e a escrever para produzir um saber provocado pelo caso de um paciente estamos no discurso histérico. O discurso do analista é aquele em que o outro sai do lugar de especialista, abstém-se de fornecer um saber pronto e se cala, permitindo ao sujeito, sob transferência, produzir algum saber sobre o que lhe acontece. Outra particularidade do discurso do analista é ser o único que trata o outro como sujeito $. No discurso do mestre o outro é tratado como escravo, no discurso da histérica o outro é tratado como mestre e no discurso universitário o outro é considerado objeto. Tratar o outro como sujeito é possibilitar que ele se manifeste com sua singularidade, com seu S1, produto do discurso do analista. Mas o sujeito considerado pela psicanálise é o $ - sujeito do inconsciente - que ao tomar a palavra não pode dizer tudo, na medida em que não é unívoco. Sendo assim, o que o $ vai deixar aparecer são seus equívocos - o mal-entendido - para que disso emerja, como produto do discurso o S1: os significantes singulares de cada sujeito. O sujeito ($) no discurso do analista é, portanto, sujeito ativo, inventivo, criativo, um sujeito que trabalha, que não está pronto e acabado (ALMEIDA, 2009). Além desses quatro discursos, Lacan ([1969-1970] 1992) vai posteriormente elaborar um quinto, intitulando-o discurso capitalista, que se relaciona diretamente com a ciência, pela inversão da parte esquerda do discurso do mestre. Numa disposição que P á g i n a | 84 indica que, nesse discurso, não há relação entre Sujeito e Outro, relação que vai se dar entre sujeito e objeto. Isso implica a afirmação, segundo Quinet (2002, p.39), que o discurso capitalista empobrece, enfraquece os laços, pois “o sujeito só se relaciona com os objetos-mercadoria”. Portanto, o que ele articula são sujeitos a gadgets, que a sociedade oferece como objetos de desejo. Criam-se, portanto, inúmeros objetos de consumo rápido que supostamente seriam capazes de eliminar o mal-estar do sujeito. Entretanto, ao nutrir a fabricação da falta de gozo, isso produz sujeitos insaciáveis em sua demanda de consumo. É necessário sempre obter o celular de última geração, computador mais caro, roupas de marca, traduzindo-se no único discurso onde o objeto se torna acessível, ou seja, pode ser comprado (VANIER, 2012). É necessário sempre obter o celular de última geração, computador mais caro, roupas de marcas, traduzindo-se no único discurso onde o objeto se torna acessível, ou seja, pode ser comprado. As consequências disso para o desejo são claras, pois se nos demais discursos o acesso ao real é barrado, no discurso capitalista tem-se a impressão de que é possível alcançar o real – basta possuir mais dinheiro, comprar mais, adquirir mais objetos, tecnologias e saberes que prometem sempre algo a mais. O discurso capitalista, nesse sentido, promete cumprir a tão sonhada completude do sujeito. Acoplado aos seus gadgets o sujeito acredita poder alcançar a totalidade. Essas imitações de objeto são para Lacan exatamente aquilo que permite a ele definir o objeto a como causa do desejo e não como sua meta. Com consequência diante das imitações de objetos oferecidos para o consumo, cada vez que o sujeito chega a possuí-los termina com um: “não é isso!”. Assim, lance-o novamente na busca de outro objeto. Desse modo, o sujeito vai assim de objeto em objeto, de significante em significante, já que esses objetos só valem por sua captura no campo significante. Estes remetem ao que foi inicialmente perdido, o gozo, ao qual o sujeito renunciou: o que não quer dizer que o sujeito não vá, imaginariamente, atribuir a um outro este gozo do qual ele se sente despossuído. Produzido pelo discurso do mestre, pela simbolização, ele circula no laço social e o faz funcionar (VANIER, 2002). Nesse discurso haverá uma espécie de rejeição da castração, um movimento se suspensão da sua divisão subjetiva, um apagamento de sua subjetividade com consequente enfraquecimento dos laços sociais. O capitalismo não tem como preencher esse vazio que é constitutivo do sujeito, desejo que não se satisfaz com objetos P á g i n a | 85 materiais, pois o que está em jogo são os traços mnêmicos do objeto. Essa busca infindável para preencher o vazio pode gerar o sofrimento, pois o desejo não se encontra acessíveis em mercadorias, antes é desejo do Outro. Além disso, o capitalismo ao favorecer a fragmentação do processo produtivo, expropria o trabalhador de seu potencial criativo. Nesse sentido ele se afasta muito do conceito de sublimação proposto por Freud e por Lacan em que a possibilidade de satisfação pulsional por vias que não as das formações sintomáticas, reafirmando o caráter de plasticidade do objeto pulsional e sublinhando a presença do sexual, do erótico na sublimação. Assim, no capitalismo, mais que o fator econômico de uma sociedade, está em jogo o gozo do empresário e do trabalhador, a psicanálise não deixa espaço para muitas ilusões quanto à possibilidade de uma saída fácil desses modos de funcionamento dos sujeitos. Para Lacan, diferentemente de Marx, estamos em uma sociedade de escravos, todos do mesmo lado da máquina da produção capitalista. No entanto, todos renunciam ao gozo, condição da entrada no laço social; mas somos todos apanhados na promessa, reafirmada com insistência, de uma possibilidade de recuperação desse gozo perdido oferecida pelo consumo que será democraticamente repartido entre todos (QUINET, 2002). Portanto, não é fácil deixar o mais de gozar nesse sistema que tenta anular a diferença entre o movimento da pulsão e a Coisa que a satisfaria, numa circularidade incessante. Surge, assim, o sintoma como forma de manifestação do desejo reprimido. No campo da saúde percebemos que os objetos produzidos pelo saber biomédico fazem o sujeito crer que é possível aplacar a falta, a dor e o sofrimento, desde que se disponha do instrumento adequado. No caso da psiquiatria, conforme Lima (2012), esse instrumento passa a ser os medicamentos de tarja preta da vez, o antidepressivo de última geração, e até mesmo o diagnóstico que, ao nomear o sofrimento, cria a ilusão de apaziguamento. O capital segue custeando financeiramente as pesquisas e os pesquisadores, induzindo a elaboração do saber sobre as doenças mentais e comportamentais relacionadas ao trabalho, estabelecendo nexos causais para aquilo que não é passível de objetificação, o sofrimento psíquico. P á g i n a | 86 5 REFERENCIAL TEÓRICO – METODOLÓGICO 5.1 Tipo de Pesquisa Trata-se de uma pesquisa qualitativa. A abordagem qualitativa permite descobrir processos sociais ainda pouco conhecidos, como também refletir e construir novos conceitos a partir do objeto de estudo. Tem fundamentação teórica, além de favorecer a sistematização de conhecimentos empíricos até a compreensão da lógica interna do grupo ou do processo em estudo (MINAYO, 2008). Contudo, mediante as particularidades do nosso objeto de estudo (sofrimento psíquico do trabalhador na singularidade de cada sujeito) optamos por um referencial teórico-metodológico que possibilitasse uma abordagem do sujeito nas suas questões singulares: os significantes com que ele pode dizer suas experiência e seu sofrimento. Desse modo, optamos por realizar uma pesquisa que se embasa no referencial psicanalítico para delimitação conceitual e obtenção, na área da saúde, de outro olhar sobre a temática. Estamos cientes que “em sua vertente científica, a psicanálise se apoia em um objeto e em uma estrutura teórica, mas suas finalidades extrapolam os limites da ciência”, que rompe com a perspectiva cartesiana do sujeito do conhecimento (KYRILLOS NETO; MOREIRA, 2010, p.62). É importante destacarmos que a pesquisa que se embasa no referencial da psicanálise marca sua diferença em relação às demais abordagens, qualitativa e quantitativa. Apesar do nosso estudo se inserir no universo das pesquisas qualitativas, ela se diferencia em dois pontos fundamentais: não inclui em seus objetivos a necessidade de obter uma inferência generalizadora da amostra ou sujeitos e, segundo, porque suas estratégias de análise de resultados não trabalham com o significado, mas sim com o significante (IRIBARRY, 2003). Portanto, podemos apontar que o que singulariza a pesquisa que contem psicanálise como instrumental teórico é o campo, o objeto e o método de pesquisa. Este campo é o inconsciente. O objeto é o enfoque ou a perspectiva a partir de uma posição em que é colocado o pesquisador psicanalítico, a fim de aceder ao inconsciente – falta a ser. O método é o procedimento pelo qual ele se movimenta pelas vias ou perspectivas de acesso ao inconsciente. Autores denominam esse tipo de pesquisa como ‘pesquisa em psicanálise’ (CAON, 1994). P á g i n a | 87 Entretanto, ressaltamos que neste trabalho, a pesquisa em psicanálise se configura na possibilidade de o método psicanalítico ser aplicado em outras situações que não sejam a da clínica/consultório. Nesta perspectiva, caracterizou-se a especificidade do método psicanalítico a possibilidade de sua aplicação a outras situações não estritamente analíticas desde que mantidas as mesmas exigências provenientes da prática clínica, preservando as ferramentas do método psicanalítico: associação livre e a atenção flutuante. Desse modo, o pesquisador pode realizar um trabalho pautado não somente a partir de atendimentos clínicos, mas também na escuta psicanalítica de depoimentos, material biográfico, filme, entrevistas colhidas em função do que se pretende investigar (COELHO; SANTOS, 2012). Dessa forma, a pesquisa em psicanálise aponta para a limitação da ciência, na medida em que esta se focaliza na objetividade, ou seja, na tentativa de eliminar o sujeito de seu paradigma. A psicanálise o reintroduz, mas de uma maneira peculiar, como sujeito do inconsciente. Uma realidade psíquica que possui na subjetividade de quem anuncia a verdade. A verdade do sujeito inconsciente (MOURA; NIKOS, 2000). A psicanálise permite reconhecer que esse sujeito que fala é marcado pela divisão, consciente e inconsciente, que a linguagem impõe a todo ser falante. Sendo assim, um discurso não porta apenas a dimensão do sentido, mas, também, um saber não sabido por aquele que fala, e por meio do discurso do sujeito se utiliza dos significantes que lhe são próprios para dizer aquilo que lhe acontece (IRIBARRY, 2003). Para que a singularidade do caso possa ser fonte de acolhida na pesquisa em psicanálise, é necessário interrogar a experiência e deslocar questões. Nessa perspectiva, ao elaborar e considerar cada caso tem-se que cada um como constituindo um modo próprio de inscrição do sujeito no laço social. A abordagem da pesquisa em psicanálise permite, então, os meios para que o sujeito da pesquisa possa decifrar sua modalidade singular de inscrição (VORCARO, 2010). A psicanálise permite reconhecer que esse sujeito que fala é marcado pela divisão, consciente e inconsciente, que a linguagem impõe a todo ser falante. Sendo assim, um discurso não porta apenas a dimensão do sentido, mas, também, um saber não sabido por aquele que fala, e por meio do discurso do sujeito se utiliza dos significantes que lhe são próprios para dizer aquilo que lhe acontece (IRIBARRY, 2003). Em virtude de a pesquisa trabalhar com a impossibilidade de previsão do inconsciente, não se poderia jamais exigir uma sistematização completa e exclusiva. A pesquisa em psicanálise é sempre uma apropriação do autor que depois de pesquisar o P á g i n a | 88 método freudiano descobre um método seu, filiado a essa vertente e o singulariza na realização de uma pesquisa (IRIBARRY, 2003). No entanto, iremos delimitar nos tópicos seguintes alguns elementos que passam a compor o nosso instrumental de pesquisa. 5.2 Local de Pesquisa A pesquisa ocorreu no município de Mossoró/RN. Esta cidade está localizada a uma distância de 295 Km a noroeste da capital do estado, Natal. É o segundo município mais populoso, conforme os dados de 2011 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) que estimou 262.344 habitantes. A pesquisa foi realizada em um serviço de atenção à saúde do trabalhador e em dois serviços inseridos no campo da saúde mental do município de Mossoró. Estes locais constituíram-se no Núcleo de Atenção em Saúde do Trabalhador do Hospital Regional Tarcísio de Vasconcelos Maia (H.R.T.M); Centro de Atenção Psicossocial (CAPS); Unidade Integrada em Saúde Mental (UISAM). O Núcleo de Saúde do Trabalhador foi implantado em 2006, no Hospital Regional Tarcísio de Vasconcelos Maia, atua como sendo um instrumento que visa a oferecer uma melhor qualidade de vida aos servidores, seja no aspecto físico, psíquico e social. Assim, as ações na área são voltadas à formulação e implementação de políticas de proteção à saúde, visando à redução e eliminação do adoecimento e morte resultantes das condições, dos processos e dos ambientes de trabalho, bem como o aprimoramento da assistência à saúde dos trabalhadores. O Núcleo conta com uma equipe multiprofissional: enfermeiros, médico, psicólogo, fisioterapeuta e dentre outros. Por sua vez, os CAPS’s são instituições públicas inseridas no Sistema Único de Saúde, sob exigência proposta pela Reforma Psiquiátrica que preza pelo deslocamento das práticas psiquiátricas para práticas de cuidado intensivo, comunitário, personalizado e promovedor de vida. Constitui-se por uma equipe multiprofissional, desempenhando o papel de regulador da porta de entrada da rede de atenção em saúde mental. Já a UISAM constitui um serviço de referência regional em saúde mental, pela qual os usuários passam primeiro por essa unidade para, posteriormente, serem encaminhados a outros serviços de saúde. Também concentram atendimentos ambulatoriais de psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros. P á g i n a | 89 5.3 Sujeitos Participantes da Pesquisa Os sujeitos que fizeram parte da pesquisa foram os trabalhadores que tinham uma queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho. Aplicamos os seguintes critérios de inclusão: trabalhadores que estavam ou que porventura já haviam finalizado acompanhamento no serviço, aqueles que fossem apontados pelos profissionais de saúde como tendo uma queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho e que aceitassem participar voluntariamente da pesquisa. Como critérios de exclusão foram adotados: ser menor de 18 anos, estar ausente do seu domicílio por ocasião da coleta de dados (viajando), não estar em condições físicas ou psíquicas para a realização da entrevista. Para recrutar os possíveis participantes, primeiramente nos direcionamos a cada serviço para conversar com os profissionais de saúde. Neste momento, passamos a explicar as etapas do desenvolvimento da pesquisa, sendo explicitado o tema proposto, o objeto de estudo e como seria realizada a produção dos dados. Pedíamos para que cada profissional de saúde nos informassem quais eram os trabalhadores que eles atendiam e identificavam como tendo uma queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho. Essa primeira etapa requereu ir ao serviço mais de uma vez para conversar com todos os profissionais envolvidos no atendimento como, por exemplo, enfermeiros, psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas. Após as visitas aos serviços levantamos as seguintes informações: no CAPS não foi apontado nenhum trabalhador com a queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho; na UISAM foram mencionadas duas trabalhadoras, no Núcleo de Atenção a Saúde do Trabalhador foram identificados três trabalhadores e mediante o apontamento de um profissional que atua em um dos locais da pesquisa foi encontrada uma trabalhadora com o diagnóstico de Transtorno Mental e Comportamental Relacionado ao Trabalho, mas que esta havia procurado assistência num serviço particular do município. Anotamos as informações desta última, pois consideramos que não era o fato de ser atendida na rede particular de saúde que a descaracterizava a participar da pesquisa. Pelo contrário, apenas nos confirma que esse perfil de trabalhadores ainda é uma difícil demanda que se apresenta ao SUS e especialmente ao CEREST. Isso se deve a P á g i n a | 90 inúmeros fatores como, por exemplo, o desconhecimento dos trabalhadores da assistência ofertada pelo CEREST, o estigma de serem “adoecidos” em virtude do trabalho, o medo de ter que se afastar das atividades laborais, a dificuldade que os profissionais têm em estabelecer o nexo causal e a falta de integração entre os diversos serviços de assistência à saúde do trabalhador em Mossoró. A segunda etapa consistiu em contatar pessoalmente os trabalhadores no serviço a fim de saber se tinham o interesse em participar voluntariamente da pesquisa. Nesse momento foi entregue uma carta convite explicando o objeto de estudo, os objetivos da pesquisa, as informações sobre o procedimento de coleta de dados. Ressaltamos para eles que a pesquisa não se tratava de um processo avaliativo com pré-julgamentos acerca do seu conhecimento, sua opinião, suas crenças e valores. Do total de seis trabalhadores previamente selecionados apenas quatro concordaram em participar das entrevistas. A partir daí, a escolha do local e hora para a realização das entrevistas ficou a critério do trabalhador, de maneira que este pudesse comparecer à realização da pesquisa, sem que esta oferecesse algum empecilho pessoal ou comprometesse, por ventura, as suas ações profissionais. Foi solicitado o Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) dos sujeitos participantes da pesquisa. E foi mantido o sigilo sobre a identidade dos trabalhadores, sendo o nome próprio substituído por um pseudônimo. 5.4 Procedimentos para a Coleta de Dados Utilizamos como instrumento para a coleta de dados o método de entrevista aberta. Esta técnica atende principalmente finalidades exploratórias, é bastante utilizada quando o pesquisador se propõe a detalhar questões ou formular conceitos relacionados. Ela é utilizada geralmente na descrição de casos individuais. Quanto à sua estrutura o entrevistador introduz o tema e o entrevistado tem liberdade para falar sobre o tema sugerido. A interferência do entrevistador deve ser mínima possível. No entanto, como se trata de uma pesquisa que tem por referencial a psicanálise para subsidiar a análise das informações, buscamos realizar a entrevista aberta inspirada em algumas características presentes no que se chama de “entrevistas preliminares” (QUINET, 2009). As entrevistas preliminares são, antes de tudo, uma ferramenta clínica. Freud, no seu texto intitulado “Recomendações ao médico que pratica a psicanálise“ (1912) já P á g i n a | 91 delimitava a função desse dispositivo. Lacan cunhou o termo “entrevista preliminar” para se referir a esse momento fundamental da experiência clinica que tem por objetivo fazer que a queixa se transforme numa demanda endereçada àquele que escuta, fazendo que o sintoma passe de estatuto de resposta ao estatuto de questão. Este é um dos efeitos terapêuticos das entrevistas preliminares que consiste em transformar respostas em perguntas, já que o sintoma é uma resposta. A adaptação das entrevistas preliminares para a pesquisa tem o objetivo de emergir um “sujeito” e não somente um “objeto”. Ressalta-se que a concepção de sujeito na pesquisa em psicanálise é aquele que, através da linguagem e na linguagem – assujeitado às leis que a organizam –, constitui o universo físico como universo discursivo, trazendo junto à marca de sua presença. Situa-se um sujeito para além da fala de um entrevistado (NOGUEIRA, 2004). Entretanto, para que isso ocorra é preciso um tempo de apropriação por quem é afetado pela entrevista. Esse tempo requer a inclusão em um circuito de transferência. Isto significa a constituição de um campo relacional no qual esteja em causa à hipótese do inconsciente “insabido”, ou seja, a suposição de um saber que “não se sabe”, mas que é suposto por quem fala (MEZAN, 2006). As condições de produção de conhecimento sobre este “insabido” são internas ao campo relacional que o constitui. A isso denominamos em psicanálise “transferência”. Não é, pois, um saber prévio que já estava ali, no “entrevistado”, como um dado a ser colhido pelo “entrevistador”. É algo que se situa num espaço transferencial em que o “insabido” se expressa como formações do inconsciente. Logo, ele inclui o pesquisador na própria formação. Dessa forma, a psicanálise não tem a pretensão de apresentar um modelo para a aplicação da entrevista, pois a referência a padrões situa-se fora desse campo de estudo. As entrevistas que realizamos nessa pesquisa tiveram como paradigma a entrevista preliminar da qual tomamos os seguintes elementos: a) Embora esteja pautado por uma questão de pesquisa, o pesquisador se absteve de direcionar a fala do entrevistado para aquilo que queria ouvir. Tratou de convidar o entrevistado a falar, sem censurar ou escolher o material de sua fala, de acordo com o que propõe o método da associação livre. Para captar o discurso foi preciso escutar aquilo que cada um traz, e como ele fala. Para operacionalizar essa escuta, recorremos ao pai da psicanálise, P á g i n a | 92 Sigmund Freud, utilizando a regra fundamental de sua teoria, ou seja, a técnica da “associação livre”, na qual o paciente é instigado a falar sobre tudo que lhe vier à mente. b) O pesquisador partiu de uma pergunta geradora que foi suficientemente ampla e indefinida, em um primeiro tempo, para que possibilitasse ao entrevistado formular sua própria questão e respondesse a ela de forma singular, sem prescrições prévias. No caso deste estudo partimos da seguinte pergunta geradora: “Fale-me sobre o que o levou a buscar atendimento no serviço”. A partir daí deixamos que a entrevista fosse guiada pelas cadeias significantes de cada sujeito. c) Do lado do pesquisador, este evitou concentrar o foco mais em um assunto que em outro. Deixou de fora suas hipóteses de pesquisa e se permitir ouvir tudo que o entrevistado tem a dizer. Do lado do pesquisador, a escuta seguiu também uma técnica designada por Freud como “atenção flutuante” que não centra a atenção somente em elementos que interessem ao profissional, mas a tudo que o paciente disser (FREUD, 1913). Diante do que foi exposto, não se tratou de abordar a fala dos trabalhadores buscando interpretar o que foi dito. Nem tampouco classificaremos o conteúdo da fala dos trabalhadores entrevistados para atribuir-lhe significados. A partir do olhar psicanalítico, nos interessará aquilo que está do lado do significante. Pois esse significante é que forma a cadeia de significação no inconsciente e esse inconsciente escapa por forma de sintoma. Desse modo, ressaltamos que as entrevistas com três trabalhadores constituíram num elemento importante para subsidiar o material para análise dos dados. Todavia não trabalhamos com todos os casos, mas selecionamos dois deles para compor nosso material de análise. Optamos por esta seleção por acreditarmos que dentre os casos, dois deles tiverem mais elementos significativos para compor análise. As entrevistas foram registradas através de um minigravador de voz digital MP3 Sony, e posteriormente transcritas para leitura. Os dados foram armazenados em CDROM, para assegurar o registro por um período de 05 anos. P á g i n a | 93 A pesquisa podia ser suspensa ou encerrada caso o pesquisador necessitasse se ausentar por motivo de doença grave; se o pesquisador não obtivesse nenhum trabalhador que participasse voluntariamente da pesquisa, inviabilizando a construção de um único caso, o que seria o mínimo recomendado para alcançar os objetivos do trabalho, e ainda a não aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Universidade Potiguar (UnP). 5.5 Análise dos dados Ao utilizarmos a entrevista aberta permeada pelas características da entrevista preliminar em psicanálise, empregaremos para analisar as informações obtidas do sujeito da pesquisa, o estudo de caso. Este consiste em uma investigação empírica acerca de “[...] um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real”. Utiliza-se esse método quando deliberadamente se deseja lidar com condições contextuais, acreditando que elas podem ser altamente pertinentes ao seu fenômeno em estudo. Ressaltamos que várias áreas de conhecimento aplicam o estudo de caso, podendo ser utilizado como modalidade assistencial, de ensino e de pesquisa (YIN, 2005, p. 32). A escolha do estudo de caso para compor a nossa pesquisa foi devida ao fato de esta pesquisa tomar como objeto de estudo a questão da experiência humana, notadamente no que diz respeito ao sofrimento psíquico e à forma como cada sujeito diz o seu sintoma. Entendemos que este não pode ser abordado de forma generalizada, mas implicando uma investigação caso a caso, considerando os elementos particulares a cada um deles. No entanto, o fato de termos debruçado no aspecto singular desse sofrimento não nos impede de buscar importantes considerações sobre o corpo de conhecimentos da clínica em geral. Em psicanálise, o estudo de caso segue as bases onde Freud, de modo paradigmático, instaura um estilo de relatar documentalmente a evolução de pacientes tratados por ele e que serviram, através de suas compilações biográficas e sintomáticas, como modelos para sua metapsicologia. Desse modo, com o material do estudo de caso construído, passaremos a elaborar o ensaio metapsicológico como estratégia de análise do caso, conforme proposto por Caon (1994), o ensaio metapsicológico consiste em uma produção escrita, P á g i n a | 94 na qual emerge, durante o seu processo de construção, a experiência do pesquisador em sua investigação. Um momento singular e importante, pois a experiência se transforma em saber, qualificando a capacidade de transformação metapsicológica. Assim, para a sistematização da análise dos dados do nosso trabalho se fará necessário seguir as balizas para elaboração do ensaio metapsicológico. A primeira delas se referiu à escuta dirigida pelo olhar e leitura-escuta, momento em que a escuta apoiada na teoria e, ao mesmo tempo, faz-se atenta ao desfile de significantes que o sujeito-entrevistado realiza com a sua fala (CAON, 1994). Por isso a metáfora da leitura, pois é lendo na escuta que podemos, enquanto pesquisador e/ou analista, sacar o ponto de um equívoco, de uma suspensão; ou seja, aquilo que desvela a própria enunciação (SOUZA, 1988, p.117). No momento da leitura-escuta o pesquisador irá instrumentalizar sua transferência ao texto, elaboração do caso, demarcando os significantes presentes, as falhas e tropeços de um discurso realizado, neste caso, através da escrita (CAON, 1994). O trabalho de leitura dirigida pela escuta psicanalítica é o que caracteriza o laboratório do texto psicanalítico, quando o pesquisador irá construir o ensaio metapsicológico. Assim, o pesquisador psicanalítico vai instrumentalizar sua transferência ao texto composto pelo dado coletado de modo que possa identificar significantes já escandidos pelo autor do texto como também efetuará um trabalho de escansão de significantes que a legibilidade do texto permite. O trabalho de leitura dirigida pela escuta psicanalítica é o que caracteriza o laboratório do texto psicanalítico, quando o pesquisador irá construir o ensaio metapsicológico (VORCARO, 2010). As impressões e transferências resultarão no modo como o pesquisador faz sua leitura dos dados. Isso significa dizer que o pesquisador também torna-se implicado como um participante importantíssimo na investigação realizada. Já que é pelo punho do pesquisador que uma contribuição conceitual irá se organizar durante o processo de pesquisa e elaboração e do ensaio metapsicológico (IRIBARRY, 2003). Outro elemento importante para a elaboração do ensaio metapsicológico, após a formulação propriamente do texto, é a busca pelo ponto de estofo da cadeia escrita. trata-se do significante que faz a amarração dos demais da cadeia de significantes (IRIBARRY, 2003). Esses significantes são introduzidos pela experiência do pesquisador com o texto que irão oferecer novas significações, novos sentidos para o dado coletado e transformado em texto. A responsabilidade é inteiramente do pesquisador e/ou P á g i n a | 95 psicanalista, cada termo novo acrescentado ao texto e divulgado pelo ensaio metapsicológico alarga o horizonte de compreensão e explicação da temática investigada (MOURA; NIKOS, 2000). E, por fim, dá-se a construção do ensaio metapsicológico propriamente dito. A forma do ensaio é irmã da literatura. O ensaio reflete, não contenta, não classifica. Não há pretensão de objetividade; há uma vaga plausibilidade. Não interessa a verificação da tese defendida pela eficácia e repetição de sua comprovação. Interessa o conjunto da experiência individual e sua potência de vivência criadora e instauradora de aprendizagem (MOURA; NIKOS, 2000). Como já vimos o ensaio metapsicológico é uma construção que deve surgir a partir da pesquisa realizada. O ensaio deverá, posterior a sua conclusão, apreciado por uma à banca examinadora, de modo que, futuramente, dela surjam artigos destinados a um público anônimo (IRIBARRY, 2003). Esta é a perspectiva que adotaremos quando nosso trabalho estiver realizado. Por enquanto são estas as linhas que podemos fornecer acerca do trabalho de construção do ensaio metapsicológico (IRIBARRY, 2003). 5.6 Aspectos Éticos Este projeto de pesquisa será submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Universidade Potiguar (UnP), Campus Natal, onde foram avaliados os objetivos da pesquisa e os riscos e benefícios a que foram submetidos os entrevistados desta investigação. Portanto, o trabalho contemplou os preceitos emanados da Resolução nº 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS), na qual se propõe respeitar os princípios da autonomia, beneficência, não maleficência e justiça/equidade. Assim como as considerações, as observâncias presentes na Resolução 311/2007, que trata do Código de Ética dos profissionais de enfermagem, ressaltando as disposições presentes no seu capítulo III que trata da produção científica (BRASIL, 1996). Os entrevistados assinaram individualmente o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) que teve o objetivo de esclarecer aos trabalhadores o que se pretendia com a pesquisa, bem como a observância à gravação das falas e a utilização de pseudônimos, mantendo o sigilo quanto à identificação dos nomes. P á g i n a | 96 Dessa forma, a pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética da Universidade Potiguar, Campus Natal, e aprovada com o parecer nº 324.316 (ANEXO 1). P á g i n a | 97 6 BASTIDORES DA PESQUISA: INVISIBILIDADE DO SOFRIMENTO PSÍQUICO DO TRABALHADOR Inicialmente, havíamos adotado como critério para inclusão dos sujeitos na pesquisa o diagnostico do Cid 10. O critério parecia algo óbvio dentro do contexto do Manual de Doenças Relacionadas ao Trabalho que orienta a organização do serviço e é elaborado dentro da proposta do Cid.10. E com ele conseguiríamos trazer a tona mais elementos para subsidiar a discussão da nossa pesquisa. Entretanto, ressaltamos que esse critério de busca através do diagnóstico médico era apenas para nos guiar no encontro desses sujeitos, já que seria menos provável localizá-los de outro modo. No entanto, ele seria descartado após essa fase e nos deteríamos na fala de cada trabalhador acerca do seu sofrimento. Selecionamos inicialmente a unidade de Centro Regional de Referência em Saúde do Trabalhador (CEREST) do município de Mossoró para ser o local da pesquisa. Portanto, a escolha justificou-se pelo fato de esse serviço ser, conforme a Política Nacional de Saúde do Trabalhador, referência no estabelecimento do diagnóstico das doenças relacionadas ao trabalho e realizar dentre outras atividades o acompanhamento, individual ou coletivo, do trabalhador que chega ao serviço com uma queixa de sofrimento psíquico. Assim, este serviço possibilitava conhecermos e nos aproximarmos dos trabalhadores que pudessem se enquadrar no critério de inclusão da pesquisa, ou seja, ser portador de diagnóstico de transtorno mental relacionado ao trabalho. E segundo os profissionais existiam no serviço quatro trabalhadores com o referido diagnóstico. Mais uma vez, parecia-nos óbvio que este seria o local mais indicado para a realização da pesquisa. Essa era nossa proposição. Usamos propositalmente o verbo no passado, pois nem sempre ao longo de uma pesquisa aquilo que parece óbvio se sustenta como tal. Essa constatação veio a partir do segundo contato com o campo de pesquisa que visava a obter os primeiros apontamentos para a realização da entrevista: quem eram os trabalhadores, a frequência com que iam às consultas, se havia a possibilidade de realizar as entrevistas no próprio serviço. No entanto, conforme ficamos sabendo na ocasião, havia ocorrido nesse ínterim mudanças administrativas no CEREST regional de Mossoró, e a coordenação estava P á g i n a | 98 agora a cargo de outra pessoa. Ocorre que esta nova coordenação resolveu não mais autorizar a realização da pesquisa. Tentamos conversar com a coordenação e com outros membros da equipe para explicar melhor o propósito da pesquisa. A conversa se dava em único sentido: a pesquisadora informando os objetivos e importância da pesquisa, e os profissionais enfaticamente a dizer, sem esclarecer muito: “você não pode ter acesso aos pacientes”. Com a minha insistência em querer saber o porquê de não ter acesso aos pacientes, os membros da equipe alegaram que a entrevista poderia agravar o quadro clínico dos mesmos. Os profissionais ainda informaram que: Você quer saber o que deles? Pois, não tem como você conversar com os pacientes. Agora, assim, se você quiser pode nos dá as perguntas e a gente pode fazer por você. Mas conversar com eles não. Pois, pode piorar a situação em que eles se encontram (Profissional 1). Acredito que aqui nos deparamos com questões veladas que fundamentam essa recusa, sem serem explicitadas. Afinal, a proposta da entrevista era partir de uma pergunta aberta “me fale sobre os motivos que lhe levaram a buscar atendimento no serviço” e ouvir seus relatos. Porque falar do que lhes aconteceu poderia agravar sua crise? Além disso, os pacientes teriam a oportunidade de recusar participar, caso não se achassem em condições de fazê-lo. Na verdade o que percebemos é que estávamos tocando uma espécie de bola de vidro, uma formação sintomática da instituição que, ao mesmo tempo em que denuncia uma verdade, encobre as dificuldades inerentes ao diagnostico de saúde mental na saúde do trabalhador. É a partir da angústia suscitada por esta situação (só captada por quem vivencia a cobrança inerente aos programas de pós-graduação) e pela repetição de um encontro com uma invisibilidade do sofrimento psíquico do trabalhador nos serviços visitados que passamos a nos interessar em enveredar mais profundamente essa realidade. Sendo assim, descrevemos detalhadamente a realidade encontrada em cada um dos municípios abordados e, em seguida passamos a analisar os principais pontos encontrados que foram, aos poucos, tecendo a trama que se revela nessa invisibilidade. Após novos apontamentos com a orientadora do trabalho decidimos procurar outros serviços de saúde de Mossoró direcionados para assistência em saúde mental e saúde do trabalhador, separadamente. Estes serviços eram Centro de Atenção Psicossocial (CAPS); Unidade Integrada de Saúde Mental (UISAM) e, ainda como apontamento dos profissionais, poderiam existir trabalhadores que procuram a P á g i n a | 99 assistência do próprio serviço em que atuam como é o caso do Núcleo de Saúde do Trabalhador de um hospital regional. Nesses espaços, passamos a explicar novamente os objetivos da pesquisa e buscar informações sobre a existência de pessoas com o diagnóstico de Transtorno Mental Relacionado ao Trabalho. Dessa vez o problema foi outro. Nos três campos visitados a resposta quanto à realização da pesquisa foi favorável. Entretanto, nenhum dos três serviços tinha em seus prontuários algum paciente com diagnóstico de saúde mental relacionado ao trabalho. Hoje, percebemos que os funcionários mais antigos já trazem essa queixa de sofrimento: desgaste, estresse, depressão. São pessoas que trabalham em períodos noturnos, onde o desgaste é grande, são situações de adoecimento psicológico mesmo [...], mas o diagnóstico não tem, porque é aquela situação que são os sintomas físicos que chama atenção, mas se você quiser entrevistar essas pessoas com a queixa de sofrimento em virtude do trabalho, você irá encontrar (Profissional 2). Um profissional de outro serviço retrata a mesma percepção ao mencionar que “temos um paciente que aborda em sua fala uma queixa de sofrimento psíquico e traz alguns elementos do trabalho. Inclusive tem benefício concedido pelo INSS. Mas precisamos olhar no prontuário porque o diagnóstico relacionado ao trabalho, acho que não tem” (Profissional 3). Diante dessa realidade e por estar a pesquisa vinculada a uma universidade cearense, procuramos, durante o mês de abril, abordar o CEREST Estadual e o Regional de Fortaleza. A situação se repetiu nestes locais que visitamos: não havia trabalhadores com o diagnóstico, apenas com a queixa de sofrimento psíquico. Entretanto, mais informações foram sendo coletadas e passamos a ter um material significativo para subsidiar os processos de reflexão do trabalho. Como mostra a seguinte fala: Ainda não atendi nenhum caso que denunciasse uma relação com o trabalho. Não é fácil identificar essa relação com o trabalho. Até tive um caso que achei que poderia ser, mas descartei porque tinha uma história pessoal muito evidente (Profissional 4). Dessa forma, nos reunimos para discutirmos os percalços metodológicos da pesquisa e traçar novas estratégias para identificação dos trabalhadores em sofrimento psíquico. Pois, não mais se configurava em entrave metodológico, impedimento de P á g i n a | 100 escutar os trabalhadores no CEREST de Mossoró, mas também aos problemas que persistem para o estabelecimento do nexo causal entre saúde mental e trabalho. O primeiro entrave, a proibição de ao menos convidarmos os pacientes e deixar a estes a opção de recusar, aponta para uma posição de discurso onde o profissional ocupa o lugar de especialista, falando no lugar do paciente, destinando-lhe o lugar, não de sujeito, mas de um mero apêndice do cuidado. O segundo entrave, a não existência de diagnóstico de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho nos serviços visitados nos provoca certa inquietação, pois ao confrontar as informações fornecidas por artigos científicos que abordam a temática, percebemos que nos últimos anos esses diagnósticos também são frequentes, chegando a causar incapacidades, evoluindo para o absenteísmo no trabalho e a redução de produtividade (SATO; BERNARDO, 2005). Refletir sobre a realidade que se presentifica nos serviços de saúde é pensar no tipo de clínica que embasa as ações e a atuação das políticas de saúde do trabalhador e dos profissionais de saúde. De toda a forma, ambas as situações com as quais nos deparamos para a realização da pesquisa apontam para uma invisibilidade do sofrimento. Seja na clínica, na teoria e na política, o sofrimento relacionado com o trabalho foi lançado à invisibilidade (PEREIRA, 2011). A melhor maneira de não lidar com um problema é não reconhecê-lo. Mas seria o caso de tomar a invisibilidade do sofrimento psíquico relacionado ao trabalho como parte do problema. Ela mesma precisa ser explicada porque, longe de se restringir a não querer ver, passa a ser parte constituinte do problema. Entretanto, enfatizamos que independente do espaço de atuação do profissional de saúde, este deve operar um cuidado pautado na escuta dos padecimentos do trabalhador. E romper com a prática do cuidar em que se preocupa apenas em identificar quais os sinais e sintomas diz respeito a qual “doença psíquica”. Esse foi um dos motivos para inclusão de outros espaços, além do CEREST, para serem locais de pesquisa. Mas ao decorrer das falas de diferentes profissionais percebemos que existiam outros entraves e que potencializam os embates acerca da saúde do trabalhador: sofrimento psíquico e ausência de lesão orgânica. Não temos trabalhadores com esse diagnóstico. Até porque é bem difícil detectar os sintomas. Não é algo tão visível. Diferente de outras doenças, sabe? (Profissional 5). P á g i n a | 101 Existem casos de trabalhadores com uma nítida queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho. São situações diversas, um exemplo, é uma funcionária com depressão, outra que se via numa situação delicada no ambiente de trabalho, pois estava de plantão e o pai deu entrada nesse mesmo dia em estado grave, o pai faleceu e, no limite entre o pessoal e profissional, ela acabou desenvolvendo situações de sofrimento, não quer mais trabalhar, sente-se mal quando está no hospital. E tem outro caso de uma funcionária que trabalha na Unidade de Terapia Intensiva (U.T.I). Mas na verdade todas elas não possuem o diagnóstico em si. Tem-se a queixa porque a gente sabe que tem, acompanha esses trabalhadores há muito tempo (Profissional 6). Assim, ouve-se a queixa do trabalhador, mas esta só será apreendida se reportar ao relato da dor física localizada no corpo, denunciando as alterações e anormalidades. Ao se referir às queixas psíquicas estas, na maioria das vezes são postas em segundo plano ou associadas a sintomas físicos. Dessa maneira, muitos trabalhadores parecem se sentir mais autorizados a buscar ajuda em serviços de atenção à saúde do trabalhador quando se ressentem de problemas de ordem física (PAPARELLI; SATO; OLIVEIRA, 2011). A fala de um dos profissionais abaixo denota essa realidade e acrescenta outra problemática: a separação entre história de vida e o trabalho. Atualmente, veio no CEREST um trabalhador que nas consultas iniciais achei que tinha características nítidas de transtorno mental relacionado ao trabalho, mas depois esse trabalhador passou a enfatizar mais a vida pessoal dele, dizendo que a mãe já tinha tido depressão, e alguém mais da família, então passei a descartar a possibilidade do diagnóstico relacionado ao trabalho. Mas essa pessoa não retornou mais ao atendimento. Até o momento não temos ninguém com esse diagnóstico (Profissional 4). Assim percebemos que para os profissionais sujeito e trabalhador são postos em planos distintos. O que há é um trabalhador dissociado da sua condição de sujeito. Esse dilema se mantém e a dicotomia se faz presente, quando se trata de discutir o sofrimento psíquico relacionado ao trabalho. A estratégia, então, dos profissionais é tentar pôr entre parênteses a história de vida que os indivíduos constroem antes (ou, melhor dizendo, fora) do trabalho, na tentativa de encontrar o exato lugar do trabalho na constituição de seu sofrimento. Por outro lado, o que é mais frequente, busca-se exorcizar, ou, no mínimo, desconsiderar o trabalho na história de sofrimento dos trabalhadores (BORSOI, 2007). P á g i n a | 102 Portanto, podemos perceber que a história pessoal do paciente e a história relacionada ao trabalho são autoexcludentes. Como se história de vida e trabalho pudessem realmente ser separadas. O sujeito se estrutura desde a infância, não começa a existir quando trabalha e nem é possível deixar na porta de entrada os seus problemas pessoais, história de vida e história de trabalho não se separam. Só no caso a caso isso pode ser pensado a partir da fala dele e não da decisão do profissional. Na tentativa de resolver esse dilema, observamos que o que guia as normatizações no campo da saúde do trabalhador e as ações dos profissionais é a busca incessante por um reconhecimento técnico do nexo causal entre a doença e o trabalho na perspectiva de justificar tal relação. Entende-se por nexo causal aquilo que pode comprovar a ocorrência da causa e do efeito. Assim o nexo técnico é a confirmação, por parte da perícia médica, da existência ou não, do risco no ambiente de trabalho. A fala abaixo nos mostra que para os profissionais: É difícil estabelecer o nexo técnico epidemiológico, muitas vezes, a gente tem medo de dar o diagnóstico. Olha aqui, até comprei o livro sobre o nexo técnico epidemiológico previdenciário para entender melhor, pois confesso que preciso estudar mais sobre isso (Profissional 7). Para relembrar que essa determinação sobre o nexo causal está relacionada a uma visão de saúde no trabalho centrada na interpretação da teoria uni ou multicausal dos fenômenos relacionados à saúde/doença. Levam-se em consideração os fatores de riscos específicos, quando atuam no organismo, capazes de causar enfermidades também específicas (BORSOI, 2007), e que possam caracterizar-se como sendo legalmente reconhecidas como doenças relacionadas ao trabalho. Entretanto, não é possível identificar, de forma objetiva, os determinantes que envolvem o sofrimento psíquico do trabalhador, e o exato momento em que as condições ou a organização do trabalho foram os “causadores” de alterações mentais. Fato revelado na intensa fala dos profissionais. E é por, justamente, atuar na esfera psíquica que predomina um dos maiores impasses para estabelecer o reconhecimento técnico do nexo causal entre a saúde mental e o trabalho. Diferentemente dos acidentes de trabalhos típicos, os transtornos mentais e de comportamento não apresentam nitidamente a relação de causa e efeito. Apesar de muitos profissionais compreenderem essa característica, existe ainda um receio e uma resistência política de P á g i n a | 103 reconhecer as evidências de outros fatores e sua relação com o trabalho (Profissional 8). O que se verifica na prática é a dificuldade que o trabalhador em sofrimento psíquico tem ao procurar tratamento e obter o reconhecimento do nexo com o trabalho. Portanto, percebemos que o nexo com o trabalho é buscado apenas se houver a exclusão de elementos que envolvam a vida pessoal pregressa do paciente. Como afirma o profissional 8 de um dos CERESTs: “as queixas [sofrimento] com o trabalho são até comuns, mas quando começamos a investigar a situação, as questões pessoais são mais fortes. É um trabalhador que perdeu o pai, a mãe está depressiva, irmão usa drogas”. Escutando essas pessoas visualizamos quais seriam as dificuldades para se estabelecer o reconhecimento técnico do nexo causal entre a doença mental e o trabalho. A própria política de Saúde do Trabalhador já percebeu a dificuldade de estabelecer esta causa quando se trata da saúde mental. Daí ter buscado embasamento na epidemiologia, criando, conforme o decreto nº 6042 de 12 de fevereiro de 2007, o “nexo técnico epidemiológico” como uma tentativa de suprir essa ausência de causalidade na saúde mental (NARDI; RAMMINGER, 2012). Quando não se encontra tal relação, a fala do trabalhador passa a ter uma forte relação com a fraqueza, sob o risco de ser considerado fingimento, má-vontade ou a preguiça. Enfim uma infinidade de características que o submetem a uma situação de culpado (SELIGMAM-SILVA et al., 2010). Atualmente, os profissionais dos serviços visitados abordaram que ainda existe, em muitos casos, uma suspeita de que o paciente esteja usando a queixa psíquica para se beneficiar financeiramente. Segundo o profissional 8 “era frequente os casos de trabalhadores pedindo afastamento, alegando que não tinha condições psicológicas, só para conseguir o benefício”. Profissional 9 do CEREST tenta exemplificar essa situação: “uma trabalhadora que já veio duas vezes pedindo afastamento, mas não foram constatadas alterações físicas e nem psicológicas. Ela apenas queria o afastamento”. Visitar os campos de pesquisa deu uma dimensão maior sobre a abordagem da saúde mental e trabalho. A cada conversa com os profissionais a sensação que se tinha era que estávamos perguntando sobre algo invisível. E aos poucos fomos percebendo que não era invisível, porém velado. Fato comprovado quando se observa o número de notificações relacionadas à saúde mental e trabalho, sendo ainda pouco significativo em relação ao total dos atendimentos no serviço de saúde. Embora seja um número baixo, a P á g i n a | 104 presença de trabalhadores com queixa de sofrimento psíquico, sem o devido diagnóstico, é algo bastante frequente, conforme a fala dos profissionais. Desse modo, acreditamos que esse apontamento é algo para se colocar em reflexão. O número pouco significativo desses diagnósticos não indica necessariamente sua baixa frequência na população trabalhadora. Antes, parecem mostrar a persistência da dificuldade por parte de todos os envolvidos – empresas, profissionais de saúde e peritos do INSS – em reconhecer o trabalho como causador de problemas de saúde mental, o que, consequentemente, reduz a busca de ajuda em serviços de referência, como os CEREST (NARDI; RAMMINGER, 2012). Se essa foi uma conclusão dos estudos dos referidos autores em 2005 e a mesma realidade se configura em 2013, então nos perguntamos por que os problemas ainda persistem. Talvez a resposta encontra-se na seguinte indagação: a qual demanda estão atendendo? Apesar das questões apresentadas terem surgido inicialmente como um entrave para a realização do nosso trabalho, achamos pertinente discuti-las aqui, antes mesmo da produção final da dissertação. Pois, elas não são sem significado. Apontam para uma série de não ditos dentro da política de assistência a saúde do trabalhador que merece ser analisada. Quanto à questão metodológica, optamos por abandonar o viés do diagnóstico, pois percebemos que isso não refutava e, tampouco, reduzia a riqueza da nossa discussão. Pelo contrário, a dificuldade que os profissionais alegavam ao estabelecer o nexo causal entre o transtorno mental e o trabalho apenas fortalecia o argumento de compreender que o peculiar ao sofrimento psíquico é não ser passível de uma objetificação. Desse modo, sentimos a necessidade de realizarmos a mudança na formulação do critério de inclusão da pesquisa. Em vez de partirmos com o diagnóstico decidimos entrevistar os trabalhadores que apresentam a queixa de sofrimento psíquico em relação ao trabalho. Para localizar esses trabalhadores iremos partir da fala dos profissionais de saúde: Quais trabalhadores vocês identificam como tendo uma queixa de sofrimento psíquico em relação ao trabalho? Por fim, salientamos que cada escolha tem um preço a pagar. Se o viés do diagnóstico nos deixava a todo o momento lidando com o risco de cair no discurso biomédico, agora estamos cientes de que a escolha desses sujeitos vai recair na percepção dos profissionais sobre o sofrimento psíquico do trabalhador. Portanto, vai além da dimensão do nexo técnico e se configura na fala daquele que vem se queixar e nos sentidos atribuídos por quem os escuta. P á g i n a | 105 7 A CONSTRUÇÃO DO ENSAIO METAPSICOLÓGICO “A linguagem é meu esforço humano. Por destino tenho que ir buscar e por destino volto com as mãos vazias. Mas volto com o indizível. O indizível só poderá ser dado por meio do fracasso de minha linguagem” (Clarice Lispector) A psicanálise enquanto método de investigação do inconsciente está pautado em uma ética da escuta ao discurso. É a partir dessa escuta que elaboramos os ensaios metaspicológicos. Assim, a partir do caso a caso, do particular, obtemos um saber. No entanto, não se trata de um saber para todos. Pelo contrário, é um ‘saber insabido’ que aponta para o singular de cada sujeito num trabalho de processamento psíquico. Sujeito que se constitui nas malhas da linguagem, dividido pela estrutura significante e pelo objeto de desejo que o causa (MOURA; NICKOS, 2000). Nesse sentido, apontamos para a cautela necessária de que, por não serem advindos de um processo analítico, os ensaios apresentados se constituem em uma das hipóteses possíveis de elaboração. 7.1 O dia em que Lisiane zerou O contato com Lisiane foi estabelecido a partir da sugestão de uma psicóloga da Unidade Integrada de Saúde Mental (UISAM). Como naquele momento não havia ninguém com o diagnóstico de Transtorno Mental Relacionado ao Trabalho sendo atendido no serviço, a psicóloga sugeriu que entrevistássemos uma colega sua, também profissional de saúde, que havia sido diagnosticada recentemente com Síndrome de Burnout. Fizemos o primeiro contato com Lisiane, que prontamente aceitou o convite para participar da pesquisa. Logo na primeira entrevista Lisiane coloca a queixa que a levou a procurar atendimento psiquiátrico: “o trabalho estava tomando de conta da minha vida; eu não tinha mais tempo pra mim; minha vida pessoal praticamente zerou”. Refere ainda choro, irritação, insônia, estresse, agitação e gagueira intensa. Segundo ela, procurou ajuda quando esses sintomas se tornaram insuportáveis. Lisiane está na casa dos 30 anos e é a caçula de uma prole de quatro filhos. Apesar disso, diz que sempre foi tratada como se fosse filha única, devido à diferença P á g i n a | 106 de 15 anos entre sua idade e a do irmão mais próximo. A explicação que encontra para essa distância entre os nascimentos, ela afirma: “é porque eu nasci por acidente”. A gravidez tardia veio quando a mãe já contava com 38 anos de idade e não cogitava mais ter filhos, pois além da idade e do número de filhos que já tinha, havia passado por um grave problema de saúde recentemente, chegando a perder um dos rins. Lisiane menciona que este foi um período de muito sofrimento para a sua mãe que ficou debilitada, magra e sem forças. Além disso, era submetida a horas de exposição à radiografia, sem saber que já estava grávida. Quando enfim descobriu a gravidez foi aconselhada a abortar por um dos médicos que a acompanhava, pois afirmavam que, certamente, o filho não nasceria normal. Segundo Lisiane, por conta dessa situação, a mãe entrou em depressão: chorava e tinha vários pesadelos “com a filha dela nascendo só com um olho na testa”. Apesar disso, por ser uma pessoa muito católica, decidiu continuar com a gestação. Quanto ao pai, Lisiane afirma que ele é um exemplo de perseverança: “um grande exemplo para minha vida é o meu pai, eu sou louca por ele porque ele para mim é a referência de paciência, de trabalho e de dedicação que eu nunca vi em outra pessoa”. Aos 25 anos Lisiane se formou em uma profissão da área da saúde, na área da enfermagem, conseguindo dois empregos, sendo um deles em um serviço onde sempre quis atuar. Um ano depois de iniciar o trabalho neste setor, seu pai recebe um diagnóstico de câncer e passa a precisar de seus cuidados. Afirma que esse foi o maior problema de sua vida, mas ficou feliz de que a sua profissão permitisse ajudá-lo. Os dois empregos passam a requerer muito do tempo de Lisiane, mas apesar do acúmulo de trabalho, sempre achou muito normal. Seu empenho maior foi no setor onde o pai fazia tratamento. Afirma que lá era uma atividade intensa, desgastante e permeada por conflitos com a equipe. Mesmo assim sentia-se realizada toda vez que conseguia resolver um problema. Tinha um sentimento de responsabilidade muito grande e sempre buscava “deixar tudo perfeito”. Em razão desses esforços, o trabalho passava a lhe cobrar cada vez mais. Afirma que essa cobrança chegou a um ponto em que cansou, pois não encontrava nos colegas nem nos chefes o reconhecimento que esperava. Andava extremamente irritada, tanto no trabalho quanto no dia a dia, não conseguia se comunicar mais, chegou a um ponto que só gaguejava. Além disso, passou a não ter mais uma vida pessoal: “o meu lado pessoal zerou, Lisiane zerou”. Já não existiam mais os fins de semana e o trabalho passou a ser a essência de sua vida: “era P á g i n a | 107 somente obrigação, trabalho excessivo, trabalho excessivo de forma que eu não conseguia mais se concentrar direito, é tinha aquelas crises de tristeza, insônia, estava há quase três meses sem dormir, irritação constante que tudo passou a ser algo muito frequente”. E quando estava em casa, continuava fazendo coisas do trabalho porque sempre sobrava algo não terminado. Apesar de todo esse desgaste, Lisiane diz que a raiz do problema não era essa: “eu não estava fazendo uma coisa que eu não gostava em grande quantidade e eu adoeci, não. Era uma coisa que eu gostava, só que realmente tomou conta da minha vida de forma que não existia a minha vida, só o trabalho”. Procurou um psiquiatra que a diagnosticou com “Síndrome de Burnout”. Diz que o procurou porque os sintomas estavam ficando insuportáveis e que ela estava “no limite”: chorava muito, não conseguia contar a história linearmente, gaguejava muito, não terminava uma frase. Para ela era “como se aquele sentimento de pressa de resolver as coisas era tão forte que nem pra falar eu tinha tempo”. Ao longo desse tratamento, o médico sugeriu que ela abdicasse de um dos locais de trabalho. De início ela não queria sair de nenhum deles. Relutou, pois achava que se parasse estaria “invalidando minha serventia pra como pessoa ativa. Então, eu achava que se eu saísse de um dos dois, ia ficar sem fazer nada, que eu ia ser inútil”. Sobre esse sentimento de inutilidade ela diz que trabalhar em um só lugar “era igual a zero”. Foram necessários alguns meses para tomar essa decisão, pois concretizá-la era como “uma desgraça total”, porque “não ia mais prestar pra nada”, “eu ia me desgraçar totalmente”. Foi um mês sem dormir, foi um mês chorando, foi um mês desesperada, achando que isso ia “gerar uma desgraça na minha vida”, a ponto de não ser nunca mais aceita em local nenhum. “Foi esse mês inteiro louca, sabendo que eu ia destruir a minha vida inteira, profissional, né?”. Entretanto, pensar em ter que optar entre o setor onde o pai realizava tratamento lhe era mais doloroso e lhe gerava um “sentimento de culpa” e frustração. Pois para ela seria atestar a sua “anulação profissional”: “chegar numa posição e de repente você ter que destruir tudo, né? Pra recomeçar do zero”. Gostava de ser reconhecida na cidade como a profissional daquele setor, mas queixava-se do pouco reconhecimento obtido no local de trabalho. Afirma que esse reconhecimento só veio quando comunicou seu pedido de demissão. Os chefes pediram que ela não saísse e disseram que quando ela quisesse voltar estariam de portas abertas para recebê-la: “aíii foi que chegou o pobre, o pobre do reconhecimento que eu esperei minha vida inteira e que eu não tive durante o P á g i n a | 108 trabalho, só que aí não dava mais para continuar”. Diz-me que nesse momento relembrou a conversa que teve com o psiquiatra, na qual este lhe diz que se afastar do trabalho ia apenas adiar o problema. Para Lisiane a questão da sobrevivência foi muito mais forte. Porque não era uma coisa que a incomodava, era uma coisa que a impedia de continuar vivendo: “era tão forte que não existia mais esse lado pessoal mais, era só o profissional. Então, se eu deixasse o trabalho eu ia deixar a vida. Não existia vida. Eu tinha que ver que ali eu tinha que ... infelizmente eu cheguei uma situação que não podia aguentar mais nada”. Lisiane exemplifica sua situação como se ela estivesse dirigindo um carro e, de repente, passasse mal, sendo obrigada a parar o carro ou bater e morrer: seria uma grande desgraça. Como não tinha mais possibilidade de continuar a trabalhar com a mesma jornada e sobrecarga de trabalho e, ao mesmo tempo, estar fazendo o tratamento, foi obrigada a parar. Nos primeiros dias após a demissão continuou sem dormir, mas diferente dos outros dias, agora dizia que não dormia porque sentia que estava esquecendo-se de fazer alguma coisa. Acordava cedo e ficava procurando o que tinha que fazer. Continuava com a sensação que estava atrasada, que faltava alguma coisa, chorava bastante, tristeza enorme, oscilando com agitação intensa. Passou a depender mais dos remédios para suportar a realidade. Hoje ela se nomeia “paciente psiquiátrica” e diz que uma vez nessa condição, não poderá mais deixá-la: “não dá pra dizer que ‘ah! tive síndrome de burnout e agora estou boa, não tenho mais nada não, estou normal’. Não é, porque se eu voltar a situação do estresse intenso eu volto a sofrer de novo, com os mesmos sintomas, né? Com a mesma situação”. No entanto, diz que agora que se sente “mais normalzinha”, Lisiane se dedica a ocupar seu tempo com atividades que lhe proporcionam prazer: praticar esportes, escrever, ler. A atividade esportiva foi também uma tentativa de emagrecer já que o sobrepeso em que se encontra a incomoda bastante. Durante essa época de sua vida Lisiane chegou a pesar mais de cem quilos e ela atribui esse excesso de peso á sua “patologia”. No momento da entrevista soubemos que Lisiane está gravida. Diz que ficou feliz, apesar de ter casado recentemente, pois era algo que ela e o marido estavam desejando. Apesar da alegria, afirma que todos na família ficaram preocupados devido ao histórico de sua mãe: “minha mãe está morrendo de medo. Quando eu disse a ela que queria ficar grávida ano passado ela disse “não, precisa não, minha filha, se você não P á g i n a | 109 quiser aí você adota um menino, você tem sobrinhos” aí assim, ela morre de medo. Eu acho que ela adoeceu”. Além disso, a família está apreensiva porque Lisiane estava tendo sangramentos frequentes, “em decorrências das coisas que eu fiz sem saber que estava grávida, aí tive sangramento, e fui às pressas ao hospital, fiz a ultra e tal, mas deu tudo normal”. Reclama das medicações que tem que tomar e da intensidade dos enjoos: eu dizia e pensava assim: “valha, como é que esse povo tem menino, porque é insuportável. Eu já estava com crise existencial com medo de não gostar nem do bichim porque era muito ruim o mal estar”. Apesar de já ter 30 anos, Lisiane afirma que as pessoas se surpreendem quando ela diz que está grávida: “como é que pode, meu Deus, uma criança cuidar .... Aquele negócio, parece que fui estuprada aos 14 anos” [risos], “uma criança vai dar luz a outra criança”, “como vai ser você cuidar desse menino?, perguntam eles”. Quando indaguei sobre o que ela achava disso ela me diz que está tranquila e “como lá em casa é todo mundo muito carinhoso, muito assim... acho que quanto a isso não vai ter problema não. Eu tenho muitos sobrinhos, assim eu acho que o menino sobrevive em minhas mãos. Eu tenho quase certeza que ele vai sobreviver [risos]”. 7.1.1 Construção Teórica Inicialmente gostaríamos de ressaltar que a queixa de Lisiane ao procurar o serviço de saúde era que sua vida estava se resumindo ao mundo do trabalho e que, em virtude disso, ela “zerou”. Submetida ao discurso do saber biomédico Lisiane recebe um significante com o qual nomear aquilo que a atinge no real do corpo: Síndrome de Burnout. Para o saber médico a Síndrome de Burnout é considerada resultante das dinâmicas entre organização do trabalho e trabalhador, e não como uma manifestação subjetiva. Ela é, portanto, definida como um estado de esgotamento físico e mental em consequência de fatores ligados ao trabalho. Caracteriza-se por: exaustão emocional, despersonalização e diminuição da realização pessoal. A exaustão emocional corresponde à fadiga intensa, falta de forças para enfrentar o dia de trabalho e sensação de estar sendo exigido além de seus limites emocionais. A despersonalização é entendida como sendo um distanciamento emocional e indiferença do trabalhador em P á g i n a | 110 relação ao trabalho ou aos usuários do serviço. Por sua vez, a diminuição da realização pessoal é a tendência do trabalhador avaliar-se de forma negativa. Sente-se infeliz consigo próprio e insatisfeito com seu desenvolvimento profissional. Surgem intensos sentimentos de incompetência e fracasso (TAMAYO, 1997). Outros sintomas apontados pela literatura médica são insônia, cansaço, palpitações, tremores, oscilações de humor, dificuldade de concentração, isolamento do meio familiar e social, sensação de sobrecarga de trabalho a todo o momento. No entanto, para além dessa definição médica, entendemos ser válido atentarmos também para o significante que nomeia esse quadro “burnout”, que pode ser traduzido em português como “pegar fogo”, “consumir-se” ou “queimar”, apontando para um alguém que se consome, se reduz á cinzas. É interessante observar como, na singularidade de cada caso, isso vai ser simbolizado. Freud, ao escutar as pacientes internadas em um hospital de Paris, percebeu em muitas delas uma contradição entre a realidade da dor dessas mulheres e a inexistência de uma causalidade orgânica. Sensibilizado pelos fatos que evidenciava, passou a considerar que havia no próprio discurso das pacientes uma maneira peculiar de revelar uma verdade (ANDRÉ, 2011). Ao escutar Lisiane percebemos que, logo de saída, ela nega a definição médica do seu quadro, pois afirma categoricamente que não ficou assim por trabalhar demais. Trabalhar muito e a todo o momento não é o que provoca seu sofrimento, na verdade isso é o que a satisfaz profissionalmente. As coisas caminham bem, assim, até que o pai passa a ser paciente da unidade onde ela trabalha. Com Lisiane percebemos que o “burnout” em questão remete ao seu próprio desaparecimento como sujeito. É ela quem “zera” frente a uma impossibilidade. Mas impossibilidade de que? Ao ser convocada a falar, algo da verdade desse sujeito pode advir. E dessa fala, aparentemente desconexa aos olhos do saber biomédico emerge o que se vem a constituir propriamente como o discurso inconsciente, estruturada a uma lógica ainda que não afeita aos ditames da racionalidade consciente. Assim, quando se deixa o sujeito falar são os destemperos das suas manifestações infantis, amorosas, da sexualidade que aparecem em seu queixume. É pela palavra que alguma coisa cai (MAURANO, 2010). Inicialmente Lisiane tem sua vida construída em torno de suas relações de trabalho. Ela se devota a ele quase integralmente e, inclusive, é através dele que é reconhecida socialmente. No entanto, essa devoção ao trabalho na saúde que Lisiane P á g i n a | 111 sustenta não surge por acaso. Ela integra um elemento que está presente no próprio enigma de seu nascimento, já que ela é concebida “por acidente” sem chance de ser uma criança “normal”. Ela mesma vem ao mundo como um objeto do saber médico, saber esse que ela se dedica a suportar em sua profissão. Situar-se, portanto, como enfermeira, o próprio suporte desse saber, permite a Lisiane sair do lugar da “criança anormal” e ocupar uma posição fálica. A psicanálise ensina que se pode desejar ser o falo de alguém e que esta é a posição do sujeito histérico (LACAN [1969-1970] 1992, p. 32). O falo é um significante da falta. Segundo Lacan em “A significação do falo”, este não é uma fantasia, não é um objeto parcial que se configura como sendo bom o mau. Tampouco se restringe a um órgão, pênis ou clitóris. Porém, é um significante do desejo do Outro. Ao observar os relatos de psicanalistas na sua clínica percebemos como os sujeitos se relacionam com o falo desconsiderando a diferença anatômica entre os sexos. O inconsciente não diz ao sujeito de qual sexo ele é, apenas que ele está submetido a uma relação com o falo (VOLICH, 2005). Como não há significante para o sexo feminino, só para o masculino, o falo, acaba por se constituir como sendo uma referência simbólica. É justamente por que ele falta que Freud o define como sendo o falo simbólico (VALAS, 2010). Na medida em que ocorre a falta de significante para o sexo feminino, a histérica adota a postura de reivindicar algo que venha ocupar o lugar deste significante faltoso, fazendo dele um ponto de apoio que lhe seja oferecido lá onde o inconsciente a deixa abandonada. Ela busca este significante, algo que faça sentido. É tentando assumir um local de status no trabalho que Lisiane tenta sustentar essa posição fálica. Sente-se extremamente importante quando chega a qualquer local do município e todos os profissionais de saúde a conhecem. Assim, veremos que o trabalho configura-se na busca incessante para não se deparar com a falta, de preferência dois empregos para evitar a inconsistência, para garantir que seu vazio seja preenchido e não se depare com a castração. Além disso, vive à procura de um reconhecimento que nunca chega. Um reconhecimento que ela designa para o campo profissional, assumindo um setor que para ela é de destaque e status, mas que no final, percebe que não se encontra nele. Um saber insabido que se revela na fala: “o pobre do reconhecimento que eu esperei minha vida inteira e que eu não tive durante o trabalho”. Como esperar do trabalho, aquilo que buscou sua vida inteira? Na verdade essa demanda de reconhecimento é uma demanda de amor. Posição da histérica que busca recobrir sua falta com objeto de amor. Assim, P á g i n a | 112 não tendo o falo, a mulher se faz de falo e se oferece para ser amada por um homem. Portanto, como lembra Maurano (2010, p.97), a histérica sabe que não tem o falo e age de modo a situá-lo como significante do seu desejo, “que deve ser reconhecido, mais jamais satisfeito”. No caso de Lisiane é por meio do trabalho que ela substitui o desejar pelo ter que agradar, defendendo-se assim, do seu vazio. No entanto, na histeria há uma insatisfação com os objetos: nenhum serve, nada basta, nada garante. Assim, conforme Volich (2001) podemos dizer que para a histérica ela fica presa à reivindicação de fazer consistir o objeto que viria a salvá-la. Ela está sempre tentando e se frustrando. Deste desejo a histérica se faz porta-voz e dele se exibe como pode, sobretudo via seus sintomas. É por meio do relato de uma paciente em análise, retirado do livro “O que é a Histeria” de Maurano (2010), que podemos apreender, a partir da sua fala, a dimensão do gozo extraído do sintoma. E como é difícil as histéricas abrirem mão dele: “no meu sintoma eu era plena, ele era algo que me tomava por inteiro, em absoluto e agora o que é que eu vou ser?”. Percebemos com Lacan que o sintoma é considerado efeito estrutural do sujeito, aquilo de mais real que o habita e, portanto, não pode ser erradicado. Cada sujeito se institui sob seu sintoma. Em Freud, em seus estudos sobre “O caminho para a formação dos sintomas” (1917) compreendemos que o sintoma se apresenta ao mesmo tempo como retorno do que foi recalcado e defesa frente à sua realização, de modo a possibilitar a sua satisfação, ainda que paradoxal e substituta daquela que se revelou inconciliável para o processamento psíquico do sujeito. Freud, a partir do seu estudo sobre a Interpretação dos Sonhos (1900), tece suas formulações sobre o desejo. Para ele o desejo é caracterizado por um impulso na busca da reprodução da primeira experiência de satisfação do desejo, mas para Freud esse primeiro desejo é de caráter alucinatório, ou seja, faz referência a um objeto atrelado originariamente à satisfação e não mais encontrado, um objeto perdido e então representado na ordem do simbólico. Assim, o desejo pode realizar-se, sem nunca se satisfazer, e sempre de forma parcial, na medida em que o encontro com o objeto, tomado pelo desejo, está sempre perdido e em seu lugar há um furo que causa o desejo, rodeado pelos traços mnêmicos que tornaram sua representação. Diferente do que acontece com a necessidade, o desejo P á g i n a | 113 nunca se satisfaz. A busca pelo objeto perdido relança o desejo em sua incansável circularidade. Podemos dizer, então, que no cerne do desejo está a falta, pois esta é o que continua presente em referência ao objeto perdido. Portanto, como aborda Antônio Quinet (2008), o desejo é a falta que nos move. Enquanto a necessidade (forme, sede) pode alcançar sua satisfação em um objeto adequado (alimentação, água), a satisfação do desejo pertence a outro registro, a do sexual. Freud (1905) já assinalava que a indestrutibilidade advém das primeiras experiências infantis do sujeito com a sexualidade e esta também é inconciliável, pois o objeto de desejo se estrutura sob as bases de uma cena infantil incestuosa. As experiências infantis de Lisiane remetem ao par significante “normal/anormal” que retorna em vários momentos de sua fala: não seria normal se ela não tivesse dois empregos; ela era criança anormal; após o tratamento sente-se mais normal; como paciente psiquiátrico ela não é normal, e, finalmente, quando chega o momento de ela mesma ter um filho, onde, assim como sua mãe, poderá dar á luz uma criança anormal. É a partir dessa cadeia de significantes, normal/anormal e, posteriormente, zerar, que Lisiane se faz representar. Como afirma Lacan ([1968-1969] 2008) “o significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante”. A devoção ao trabalho opera de alguma forma como um anteparo, sustentando Lisiane nas suas identificações ao ideal da enfermagem, ideal este que polariza com o “ser anormal” que marca seu romance familiar. A identificação para a Psicanálise, conforme Neto (2005) é o processo psicológico pelo qual o sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o modelo desse outro. Essa identificação articula sua posição fantasmática. Apesar de não termos elementos suficientes para chegar à estruturação da fantasia (já que não se trata de uma análise), podemos identificar aí a presença de dois pólos que alternam-se entre a criança anormal (cuidada pelos profissionais de saúde) e o lugar daquele que cuida, ou seja, o próprio profissional de saúde. Freud (1917) menciona que o que realmente deve ser alvo de interesse na investigação da construção do sintoma é o fato das fantasias conterem realidade psíquica em contraste com o que chama de realidade material e que, no mundo das neuroses, a realidade psíquica é a realidade decisiva. Dessa forma, na concepção P á g i n a | 114 freudiana, a fantasia é um recurso utilizado na satisfação parcial de um desejo inconsciente cuja satisfação foi frustrada. Inicialmente temos, portanto, uma situação em que Lisiane é, como diz Colette Soler (1998, p. 13), “um sujeito mais ou menos em equilíbrio, bem assentado, como se diz, e isso repousa sobre uma identificação”, no caso em questão, uma identificação ao trabalho de enfermeira. Poderíamos pensar que essa “devoção ao trabalho” seria um substituto da devoção ao pai? Devotar-se a cuidar do pai é uma estratégia que Freud (1893-1895) já identificou nos “Estudos sobre a Histeria”. Na verdade, ele inventou a psicanálise ouvindo mulheres que, como Lisiane, haviam deixado de lado sua vida, afetiva, erótica e sexual, para se dedicarem ao cuidado de algum membro da família, o pai, mais frequentemente. Estas eram mulheres que desenvolviam muitos sintomas sem base orgânica: perda de funções, dores pelo corpo, amnésias. Freud (1893-1895) inicialmente viu aí uma relação direta entre excesso de trabalho e uma defesa contra o desejo, pois aquele que está atribulado e intensamente preocupado com as mil tarefas exigidas pelos cuidados a um doente, cuidados que se prolongam sem interrupção, acostumam-se a abafar em si todos os indícios de emoção, já que não têm tempo nem forças para se dar conta delas. Freud achava, na época, que aí se encontravam materiais para uma histeria de retenção, percebendo a importância do outro para o histérico em sua intensa necessidade de expressão afetiva. No entanto, após fazer novas formulações sobre o desenvolvimento da teoria das pulsões, Freud percebe que a pulsão exige satisfação a todo custo e o desejo, por sua vez, acaba determinando seus meios por caminhos bastante sinuosos. Os percursos pelos quais o desejo encontra sua forma particular de se realizar, mesmo que seja marcada pela eterna insatisfação, configura a lida da histérica em relação ao seu desejo. É a própria situação de que o sujeito se queixa que lhe permite satisfazer esse desejo, uma satisfação que mal se reconhece como tal. No caso de Lisiane, vejamos como essa situação se configura. Sua profissão é onde ela se sustenta nessa espécie de “devoção ao trabalho”. Sempre achava que estava atrasada e, se não realizasse as suas atividades, achava que os pacientes morreriam. Dedicava-se de corpo e alma, buscando a perfeição de tudo. No entanto, a insatisfação se fazia presente: corria atrás da perfeição, mas tudo o que fazia nunca estava cem por cento. Além disso, quando buscava a satisfação a partir do reconhecimento do outro, este também não vinha. Para os outros ela não fazia mais do que sua obrigação. Já que o P á g i n a | 115 reconhecimento dos outros ela não obtinha, o que conseguia era mais excesso de trabalho. Nessa posição Lisiane não adoece, pois estando insatisfeita com esse trabalho de onde não vem o reconhecimento esperado, ela está muito bem identificada, já que pode se queixar de sua insatisfação. Nesse sentido o “sintoma” enfermagem, ao contrário de causar sofrimento, permite que ela se insira no laço social. André (2011) traça uma correlação entre o discurso histérico e a enfermagem, uma das profissões da área da saúde. Ele aponta que não é pelo fato de o sujeito exercer a profissão de enfermeiro e se submeter a suas limitações que sobrevém a histeria. Na verdade a relação deve ser colocada no sentido inverso, a partir do caso Dora, percebese que é porque ela é histérica que se presta particularmente bem a desempenhar as tarefas de enfermeira. Podemos levar esta correlação para outras profissões da saúde, nas quais o cuidado aos pacientes também pode se fazer de forma intensa. Com efeito, essas atividades que envolvem um “cuidar em excesso”, tal como Freud descreve, são exercidas em duas direções que prolongam a problemática histérica: por um lado, trata-se de contribuir para reparar o Outro ou para manter as aparências disso; por outro lado, para a enfermeira devotada, de se consagrar inteiramente à demanda deste Outro. A retenção de que fala Freud, quer dizer, a mordaça colocada pelo sujeito sobre a expressão de seus próprios desejos, encontra seu sentido nessa abnegação diante da demanda do Outro, abnegação na qual o sujeito se reveste de uma imagem: a imagem daquele, ou daquela, que o Outro só pode amar e preferir a qualquer outro. Vemos aí uma proposta de leitura do sintoma-trabalho onde se ocupar do desejo do outro é não querer saber do seu próprio desejo. Nisso, a histérica permanece entregue ao desejo do outro como objeto fálico, aquele que pode encobrir sua falta. Porém a castração é a construção pela qual o ser humano procura dizer a falta, mas, por isso mesmo, ela ilustra que não pode dizer a falta enquanto tal. Para nomear a falta já consiste aí, de uma forma ou de outra, a possibilidade de ter que preenchê-la (ANDRÉ, 2011). O sintoma de Lisiane (nomeado pela medicina como Síndrome de Burnout) irrompe quando o pai passa a demandar seus cuidados de enfermeira, passando a frequentar seu local de trabalho. O que podemos depreender a partir disso? Segundo Colette Soler (1993), o que deflagra esse abalo fantasmático que permite o surgimento do sintoma é o encontro com um certo real traumático, com um gozo desconhecido pelo próprio sujeito, que leva ao abalo semântico de suas identificações. P á g i n a | 116 Não seria possível, apenas a partir de algumas entrevistas determinar quais os elementos em jogo nesse caso, mas sabemos que se trata de algo que se dá a partir da demanda de cuidados do pai. Além disso, é certo que algo da ordem de uma demanda de “reconhecimento” aí se apresenta, pois é em torno desse significante que ela passa a situar sua impossibilidade de continuar. Expectativa de reconhecimento e apelo ao pai: é no encontro desses dois elementos que Lisiane literalmente “zera”. Percebemos então que o tipo de “consumo” do qual ela padece, envolve seu próprio ser de sujeito Com as teorias do desgaste ou do estresse, essa situação se torna incompreensível, pois ela sabe que não adoece por trabalhar demais. Com a psicanálise, podemos nos interrogar um pouco mais acerca desse sujeito que se “consome” nas suas relações de trabalho. Não se trata, como ela mesma afirma, da impossibilidade de continuar trabalhando em decorrência de um corpo desgastado (teorização proposta pelo saber médico). Trata-se de uma impossibilidade que envolve o encontro com um pai, apontando ao mesmo tempo para sua impotência (ele adoece, ele pode morrer) e também para a cena em que esse pai se torna objeto de cuidado. Trata-se, portanto, de uma cena que amarra a doença e morte do pai com a sua profissão já que, como profissional de saúde, ela pode se ocupar de providenciar todos os cuidados de que ele precisa. É isso que marca “o pior problema da sua vida” o momento em que suas identificações ao trabalho são abaladas. Haveria aí um encontro próximo demais com o objeto fantasmático, objeto que ocupa o lugar do desejo, do qual Lisiane não pode se defender? Nesse caso, teríamos aí uma operação onde o cuidado com os pacientes se revela um substituto dessa fantasia que enlaça o pai onde: Devoção ao trabalho _________________ Devoção do Pai Uma vez que o pai surge efetivamente no contexto de trabalho de Lisiane enquanto objeto real a ser cuidado, essa fantasia é abalada. Essa seria uma linha de pensamento possível, já que a satisfação do desejo tem um valor sexual e assim, qualquer possibilidade de aproximação do objeto emoldurado nessa cena, faz surgir à P á g i n a | 117 angústia. Maurano (2010) afirma que o desejo é por natureza inapreensível e indestrutível, na medida em que tem a falta como mola propulsora. Portanto, preencher a falta trata-se de ocultar um desejo tão inconciliável e incestuoso que não pode aparecer senão disfarçado no sintoma. Esta é uma via de retorno. Lacan mostra que a realização do desejo está ligada a sua representação significante, sendo o primeiro objeto de desejo o significante do seu reconhecimento. Daí resulta que quanto mais o sujeito avança, mais ele sofre os efeitos da sua destituição subjetiva, sendo confrontado com a fragmentação dos seus objetos. Desse modo, a presença do pai como objeto de cuidado ameaça a falta constitutiva do desejo implicando uma abolição: sem a falta o sujeito fica impedido de desejar. Mas como o desejo é indestrutível, só resta uma saída para o sujeito: seu próprio desaparecimento. O termo afânise é oriundo do grego que significa desaparecimento. Este termo foi retomado por Lacan, a partir de sua leitura de Jones, e concerne ao sujeito enquanto desvanecido ante o objeto de seu desejo. Um objeto do qual desaparecemos, vacilamos. Ao contrário de Jones, Lacan enfatiza que na dialética entre o sujeito e o objeto, veicula-se o desejo, entretanto, não é o desejo que desaparece, mas o próprio sujeito (CHATELARD, 2001). O significante utilizado por Lisiane (zerar) remete ao seu desaparecimento enquanto sujeito e vem demonstrar a função: desejo que é, ao mesmo tempo, indestrutível e insuportável. Assim, como portadora da síndrome de burnout, Lisiane volta à posição de objeto que ocupou em sua fantasia, e coloca-se novamente no lugar daquela que não é normal. P á g i n a | 118 7.2 Um grande Currículo de dor Luísa tem 62 anos e é natural de um município do interior do Rio Grande do Norte. Fomos apresentadas pelo psicólogo da Unidade Integrada de Saúde Mental que nos disse se tratar de alguém “que precisa muito conversar”. Ela havia trabalhado como operária de fabrica de castanha, no momento estava com benefício concedido pelo Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) e sempre vinha para a consulta angustiada por ter que passar novamente pela avaliação da perícia médica. Logo que me propus a escutá-la, Luísa entra em um choro intenso, cabisbaixa e olhando sempre para seu lado direito, como se quisesse fixar os olhos no lenço de papel. Diz que está impossibilitada de trabalhar por causa das dores que sente, principalmente, as dores nos joelhos. Afirma ter medo de andar e cair e diz: “só não caio porque meu pai não deixa”, apontando o dedo para cima. Quando indagada acerca dessas dores, ela responde: “meu currículo é muito grande”. E completa dizendo que “para encontrar emprego tem que ter um currículo grande, né? Pois, é minha filha, pergunte a qualquer profissional aqui. Minha história é longa”. Filha de Carmem e Onório, Luísa é a primogênita de uma prole de cinco filhos. Destes irmãos, três faleceram antes de completarem 10 anos de idade. Luísa ainda teve dois irmãos, Joaquim e Luciana, por parte de mãe. Sua infância foi marcada por brigas frequentes entre os pais, sendo comum ele espancar a sua mãe. Luísa buscava intervir nas brigas e utilizava duas formas: fisicamente, sendo, na maioria das vezes, também agredida e dirigindo verbalmente o apelo ao pai para que este parasse de bater em sua mãe. Pois, o pai dizia que ela era sua filha preferida e, assim, Luísa tinha expectativa que os seus pedidos fossem atendidos. Numa dessas discussões, quando contava com seis anos de idade, Luísa ouve o pai expulsar a mãe de casa com a seguinte sentença: “Oh infeliz quando eu chegar não quero você em casa, se você tiver eu toro suas pernas de foice”. Carmen reúne os filhos e, no mesmo dia, antes do marido voltar do trabalho, foge de casa, passando a morar com seu pai, Romero, em uma fazenda, localizada em um município do Rio Grande do Norte. Romero, avô de Luísa, já se encontrava separado da mãe de Carmem e, casado com Marta, com quem teve outros cincos filhos. Quanto à avó, Luísa não sabe muito e diz que nem mesmo sua mãe a conheceu. Menciona que sua mãe era filha única e, em meio a um lapso, diz: “no dia que minha mãe morreu... nasceu, a mãe dela faleceu”. P á g i n a | 119 Quando Carmem foi para casa de seu pai, Luísa tinha entre seis e sete anos. Essa mudança de residência vai demarcar o que Luísa afirma ser o início de toda sua vida. Na verdade, percebe que cometeu um lapso e diz: “foi ai que começou todo meu sofrimento”. Vemos que essa vida/sofrimento se delineia aqui a partir de alguns pontos: o adoecimento da mãe e o abuso sexual sofrido pelo avô. Começou a trabalhar cedo na roça para sobreviver, pois nessa época sua mãe não podia trabalhar por ser doente: “via coisas”, “não tomava banho, era sebosa, não penteava o cabelo, ela não se limpava”. A explicação apontada pela família de Luísa foi à de que sua mãe teria “pegado uma macumba”. Nesse período, madastra de Carmem a levava para “o xangô”, com o objetivo de tirarem “o encosto” dela. Por volta dos 10 anos, Luísa foi morar em Natal com a madrinha, Julia. Esta, ao ver as dificuldades pelas quais passava a família de Carmem, pediu a autorização para a afilhada vir morar com ela. No entanto, após dois anos, o avô manda Carmem buscar Luísa de volta, dizendo que seria perigoso deixá-la numa cidade grande, pois já estava “ficando moça”. Nessa época o avô começou a manifestar um interesse exagerado por Luísa, dando-lhe muitos presentes como sabonete, perfume, roupas. Além disso, diz Luisa: “Eu tinha porco, eu tinha cabra, quando nascia uma oveia eu tinha um carneirinho. Ele me dava. Tudo era me dado. Mas ele estava me preparando tá entendendo? Pra mais lá na frente ele dá o bote”. Luísa tornou-se objeto de uma preocupação desmedida: não podia ficar na rua, brincar, conhecer rapazes, etc. Luísa dizia que ele “botou os olhos” em cima dela: “É porque ele me dava tudo na mal intenção. Porque ele estava querendo colher eu pra ele”. Depois o assédio foi ficando mais direto e o avô passava a tocá-la: “Só sei que no mei pelo fim e tudo ele começou a me agarrar. Aí quando ele vinha me cheirar. Era diferente, ele me cheirava por aqui pelo meu pescoço, aí ele descia assim as mãos querendo pegar nos meus limãozinhos que estavam nascendo e ele incha aqui na barriga”. Luísa passa a não mais chamar o seu avô de pai Romero, mas de “velho Romero”, “o pai da minha mãe” e “o sujo”. Esse assédio perpassou toda sua infância, mas, segundo Luísa, ela não sabia do que se tratava. Alega que nesta época era inocente. Foi apenas depois de perguntar a uma amiga que Luísa “descobriu” que ali se tratava de um abuso sexual. Quando revelou a amiga o que acontecia, ouviu-a dizer que seu avô estava com “enxerimento”. A amiga propõe montarem uma armadilha para flagrar o avô. Luísa deixa-se agarrar para que sua amiga pudesse flagrar a cena. Quando me conta essa situação, Luísa fala: P á g i n a | 120 “o pobre do meu avô me seduziu, só que ele não conseguiu por conta dessa minha amiga conseguir desmascarar ele”. Assustada com o fato de o avô sofrer punições severas, Luísa insistiu dizendo que ele não tinha abusado dela. Diz que ele não conseguiu desonra-la, mas que ela foi levada pra “vistoria”, uma espécie de exame pra saber se ainda era virgem. Quando soube da possibilidade dele ser preso, Luísa se posicionou dizendo que “não queria que ele ficasse preso. Eu não queria. Não era pra ele ficar preso. Por que ele era o pai da minha mãe. E minha mãe também era muito ligada com ele”. Depois da “vistoria” Luísa não retornou mais para a casa do seu avô, “não tinha condições de por mais os pés lá”. A princípio ela foi morar na casa de uma amiga. Depois, outro amigo forneceu uma casa para que Luísa morasse com sua mãe e seus irmãos. Neste período Dona Carmem, continuava indo ao “xangô” e com a melhora da sua doença começou a namorar outro homem, convidando-o para morar em sua casa. Deste relacionamento teve dois filhos. Luísa sempre pedia a mãe para não namorar ele, pois a fama dele na região era de “embuchar as mulheres e ir embora”. Foi o que aconteceu, ele abandona Carmem, e Luísa passa a ter que sustentar toda a família com as atividades no roçado. Luísa diz que o assédio do seu avô fez um “resbolado grande” em sua cabeça e que isso a levou a se entregar ao primeiro homem que apareceu na sua frente. Aos trezes anos de idade casa-se um homem mais velho do que ela um soldado do exército. Entretanto, a relação não era da vontade da mãe, nem do avô, devido ao fato de ele ser negro e à pouca idade de Luísa. Mas ela insistia e ameaçava fugir com o namorado: “se foi o sujo que mandou eu não me casar, só porque ele não queria, eu fiz a proposta pra ele se casar”. Além disso, “eu ia porque queria ser de outro homem do que ser do próprio, do meu sangue que era o pai da minha mãe. Se ele viesse me tentar depois, nera? Aí me casei, entre namoro e entre casamento não passou um mês, eu me casei dentro de um mês, de repente”. Com este marido passou a morar em Mossoró. Luísa apenas cuidava dos dois filhos e da casa, pois seu marido não permitia que ela trabalhasse. O casamento durou quatro anos. Luísa se separou porque seu marido a espancava frequentemente. Luisa afirma que não desejava seguir o exemplo da mãe: “Ver minha mãe apanhando e de noite ir para os braços do meu pai.... eu podia fazer isso, podia?. O meu marido batia em mim e queria que eu fosse servir ele na cama”. Após a separação seu filho mais novo P á g i n a | 121 passa a ser criado pelos avôs paternos. Luísa sem ter como se sustentar foi à procura de emprego. Mesmo distante da sua mãe, Luísa mantinha contato por meio de cartas. Em uma delas sua mãe solicita que fosse vê-la, caso contrário só iam se reencontrar no dia do juízo. Luísa ao visitá-la revolve trazê-la, juntamente com seus três irmãos mais novos, para morar com ela em Mossoró: “vi mamãe doente, aí cheguei lá sabendo que aqui tinha médico, tinha mais coisa, mais prostitu ..., tinha médico, tinha tudo, nesse tempo tinha até um plano de saúde. Até que eu trouxe ela, no que eu trouxe justamente quando eu levei para o psiqui ... todo mundo dizia que era pra eu levar psi, psianalista, né?” Os médicos recomendaram a internação em um hospital psiquiátrico, e daí em diante ela segue alternando entre períodos no hospital e períodos em casa. Nesse período menciona que ficou muito feliz em ter conseguido aposentar a sua mãe por invalidez. Durante as visitas a sua mãe no hospital psiquiátrico, Luísa percebia-a mais apática, até que um dia recebeu a notícia dos funcionários do hospital que sua mãe havia falecido de infarto do miocárdio. Sobre o pai, Luísa tentou procurá-lo, mas ninguém sabia onde encontrá-lo. Culpa a sua mãe por tê-lo abandonado e, por isso, ressente-se de nunca mais tê-lo visto: “Foi minha mãe que foi se embora e deixou meu pai”. Percebe que cometeu um ato falho e diz: quer dizer, não foi ela, meu pai foi o causador, né?”. Levanta o seu braço e me mostra um fita preta e diz que este é a única coisa que restou dele, por isso, mantém a fita representando o luto do seu pai. Ao se separar do marido Luíza deparou-se em ter que novamente sustentar a família. Seu primeiro trabalho foi como garçonete e depois, para ganhar mais dinheiro, passou a trabalhar na fábrica de castanha: “e daí pronto, daí pra cá, trabalhava de dia e de noite saia. Pronto, trabalhava dos dois jeito. Fui ser prostituta, é. Eu ganhava dinheiro, eu sai para ganhar o dinheiro”. Ao ser solicitado para que Luísa falasse um pouco mais sobre “ser prostituta” disse que era uma menina quando se separou do seu marido, tinha apenas 18 anos, e suas amigas passavam a convidar ela para sair. Algumas vezes resistia aos convites, mas não conseguia evitar, gostava de sair à noite com suas amigas e os rapazes “eu não vou dizer que fui desencabeçada por umas amigas que arranjei, porque via elas fazer. Eu fazia porque eu queria”. Apesar de dizer que queria, Luísa afirma que na primeira vez foi enganada. Quando chegou a um local, a mulher trancou-a num pequeno quarto e “quando eu olhei P á g i n a | 122 assim, só tinha quatro parede, e a porta trancada eu disse: valha Jesus! Não, eu quero sair daqui! Eu passei mal, eu desmaiei lá, porque quando eu vi o homem na minha frente, nu, dentro do motel ...”. Foram anos fazendo programa para ganhar dinheiro. Segundo Luísa ter sido prostituta foi o destino: “é o destino que eu segui, eu não digo que esse foi o destino que Deus me deu não, foi não porque pelas coisas que eu já passei Deus não butou isso no meu caminho, não. Foi eu que procurei”. Para completar a renda, Luísa em 1979, aos 28 anos, fez a seleção para operária na fábrica de castanha. Trabalhou neste local por cinco meses, sendo demitida de suas funções. Na segunda fábrica de castanha reiniciou suas atividades em 1989, permanecendo por um ano e seis meses. Ao ir trabalhar Luísa levava em sua mochila outras roupas, pois, quando finalizava o expediente da fábrica aproveitava para se arrumar e ir fazer programa com os funcionários: “daquela carona as vez saia até um programa pra ganhar, aí a pessoa ia fazendo, pegava e ia não queria saber, não. Era tudo sem marido minha filha, não estava coisando o pé pra ninguém”. Luzia diz que o trabalho na fábrica era “enjoado” e cansativo. Trabalhava operando uma máquina para descascar e cortar castanha, na qual realizava movimentos repetitivos com a mãe e o pé. Chega durante a entrevista a imitar os movimentos que realizava, dizendo: “aqui é mão e aqui é o pé”. Luzia queixava das condições e da jornada de trabalho. Tinha que chegar cedo e só finalizava o expediente à tarde, tendo apenas uma hora para o almoço. Nesse período passou a sentir fortes dores no joelho: “a máquina de cortar castanha com as pernas e com a mão, foi o que apresentou o meu problema no joelho”. Conforme a intensidade dos movimentos havia dias que ela não conseguia trabalhar. Teve que fazer tratamento médico, “ele colocava uma luzinha vermelha, era banho de luz” e teve que retirar líquido que estava acumulado no joelho. Ficou de atestado por no máximo cinco dias e, em virtude dessas complicações organizou papeis para conseguir o benefício pelo INSS, mas não conseguiu. Luísa refere ter sentido nessa época outros problemas, além do joelho. Uma dor na região das costas começou a aparecer, sua menstruação estava “desmantelada” e um forte cansaço nas pernas, ao fazer um check-up, fornecido pela fábrica, descobriram que era preciso fazer uma cirurgia: “tirar meu ovário fora e o apêndice”. A retornar ao trabalho foi, após um período, demitida. Ao longo das quatro entrevistas, Luísa comenta os diversos problemas de saúde pelas quais ela tentou se afastar do emprego, mantendo os direitos trabalhistas 15 dias: ferida nas pernas, “mancha no pulmão, problema do ovário, dores nas pernas. Assim, P á g i n a | 123 ela objetivava colocar atestado por mais de 15 dias e, partir daí ser o INSS responsável pelo pagamento do seu salário. Comenta que no seu caso o “médico de firma tinha raiva de fornecer atestado: “Só dava dois, três dias e com dois dias ficar boa é difícil, ne, não? Ainda mais eu que era uma dor na minha perna”. Além disso, dizia que ao passar do tempo ia “abusando” do trabalho na fábrica. Tentou algumas vezes infringir regras da fábrica para lhe colocarem para fora: comer castanha, demorar bastante tempo no banheiro. Contudo, quando perguntei por que ela queria sair ela me diz que na fábrica “não tinha mais a quem dá, fiquei cavando o mundo”. Luísa relembrava que durante as recaídas de sua mãe, quando a levava aos médicos passou a se consultar com eles também. “Eu fiquei de um jeito também que eu mesma precisei ir ao médico, o mesmo médico de mamãe chegou a dizer que eu estava com o mesmo perigo... que eu estava do mesmo jeito da doença da minha mãe”. Refere que um deles deu a seu irmão, Joaquim, o laudo e os papeis para a sua própria internação. Mas Luísa, no caminho de casa, tomou os papeis das mãos do seu irmão e rasgou-os: “não quero ficar igual à mamãe, eu não sou louca, não! Mamãe as vez dizia que eu que tinha que ser internada, ela dizia que eu era quem estava doente”. Luísa diz que não toma os remédios como recomenda o médico, pois quando os toma, fica drogada. Toma-os apenas esporadicamente, quando sente alguma coisa “se eu tiver ruim da cabeça, muito assim grossa”, com insônia ou quando ela passa a escutar as vozes. Por isso, estava passando a tomar os remédios com mais frequência. Porém, ao invés de engoli-los prefere colocar o comprimido dentro da garrafa de água e deixa-lo dissolver e quando sentia sede, bebia-a: “eu boto pra não ficar tomando o remédio direto, eu tomando na água eu fico mais, sabe? Eu me sinto mais tranquila”. Mas sempre fica aflita por saber que é necessário ter que passar pela perícia médica para renovar o benefício que conseguiu. Certo dia foi até o INSS, “já bem pirada mesmo” e fez um escândalo lá. Ela não entendia porque não lhe “aposentavam logo, a minha doença é a mesma, não vai mudar”. Ao falar sobre sua doença menciona que sua mãe morreu louca, sua irmã de câncer, sua sobrinha de leucemia, seu pai com câncer de próstata. Aí se lamenta, perguntando a Deus que família é essa. Uma família que não tem glória. Luísa disse: “só tenho glória que veio de Deus mesmo, não tenho glória da minha mãe, não tenho glória do meu pai”. P á g i n a | 124 Ao finalizar uma das entrevistas Luísa diz que “por tudo isso, minha vida é um currículo grande”, e diz que isso é bom porque “tá contando que a sua história tem sentido. Eu creio assim que tem coisa que você está contando que tem conversa de muita coisa, né?”. 7.2.1 Construção Teórica Ao escutar Luísa percebemos que ela se faz representar pelo significante “uma vida de currículo grande” e que é assim que ela busca dar algum sentido à história que conta. Observamos nos estudos de Freud que as formações do inconsciente obedecem a mecanismos próprios de linguagem para fazer emergir um sentido frente à impossibilidade que há de se nomear todas as coisas. Essas leis primordiais do inconsciente são a metáfora e a metonímia que correspondem respectivamente à condensação e ao deslocamento abordado por Freud. Foi devido à presença da metáfora e metonímia no discurso do sujeito que Lacan esboçou a supremacia do significante em relação ao significado (DOR, 2003). A metáfora consiste em designar alguma coisa por meio do nome de outra coisa. Portanto, a substituição de um significante por outro. Essa substituição só é possível a partir de uma coerência existente na cadeia de significantes, demonstrando mais uma vez a supremacia deste em relação ao significado. A metáfora é, portanto, produtora de sentido (DOR, 2003). Assim, percebemos que não é a um currículo, no sentido profissional, que Luísa se reporta, porém a um currículo que articula a dor com a cena sexual. E o primeiro item desse currículo é a situação em que ela se vê como objeto do investimento libidinal do avô, pai de sua mãe. É por meio do currículo que ela pode condensar a história da repetição dessa dor. Um saber insabido que emerge do seu próprio discurso ao crer que o currículo porta uma história que tem um sentido. Talvez, aí podemos pensar a ideia de que Lacan vai desenvolver que o sintoma é justamente alguma coisa na qual o sujeito crê, sendo necessário apenas decifrá-lo (GARCEZ, 2005). O sintoma é uma metáfora que cifra uma mensagem que não poderia ser dita claramente tendo em vista que se trata de algo insuportável para a consciência. Por sua vez o desejo é metonímico, é sempre desejo de outra coisa. Seu objeto é perdido, e o P á g i n a | 125 que se tem dele é apenas o rastro deixado pelas inscrições dos significantes (SILVEIRA, 2013). No entanto, ao relatar as dores que sente, Luísa reporta-se apenas à dor física localizada no joelho, e identifica este problema como sendo o motivo que a impede de trabalhar. Ao continuar falando sobre isso diz que “só não caio porque meu pai não deixa”, portanto, deixa o plano físico e aponta o seu desejo para o campo do Outro, na qual estabelece aí há a presença de uma figura paterna, seja uma figura religiosa ou um pai de fato. Embora Luísa fale pouco sobre seu pai biológico, o seu discurso nos dá pistas sobre a elaboração da função paterna e como este processo contribuiu para a sua busca de vir a ser uma mulher. Algo que para ela terá marcas deixadas pelo abandono do pai biológico e pelo abuso que sofreu do avô, a quem ela chamava de “Pai Romero”. Em decorrência destas marcas recebidas durante seus primeiros anos, Luísa encontrará uma maneira própria de transitar na vida e, conforme Garcez (2005) podendo haver tropeços na relação consigo e com o Outro. Veremos que a função paterna tem sua relevância devido à articulação que se faz com outros conceitos que a psicanálise utiliza para teorizar o psiquismo e explicar a constituição subjetiva do sujeito: a falta e a lei da castração. No entanto, consideramos que discorrer sobre a função paterna remete abordar a presença materna na constituição do bebê. Vejamos a seguir como essa relação entre mãe, bebê e o pai se processam. Quando o bebê nasce, a primeira coisa a considerar como ponto prévio de seu percurso na direção de se tornar um sujeito é que ele é um ser de necessidade. E, quem atende a esta necessidade? Quem o atende é a mãe, ou alguém que assume o papel de cuidadora. Em qualquer dessas situações estes são seres de linguagem e é por meio da linguagem que eles podem atender a necessidade do bebê. O sujeito registra, ou seja, representa essa experiência de satisfação da necessidade para depois procurar reencontrar o objeto segundo as linhas em que ele foi registrado psiquicamente. Freud denomina essa busca de desejo (ELIA, 2004). Assim, entendemos que a necessidade implica satisfação, todavia, o desejo jamais é satisfeito. Nesse período a mãe vai se constituindo para a menina, como também para o menino, como o primeiro objeto de amor. Até um determinado momento, a criança é o falo da mãe e a mãe é o falo para a criança. Nesta ultima acepção, a criança acha que é capaz de completar e realizar todos os desejos da mãe. No entanto, a criança em algum momento se confrontará com a experiência de castração, percebendo que a aquela P á g i n a | 126 mulher (mãe) deseja algo para além dela, ou seja, a criança não o completa, ela não é o falo para sua mãe e, há algo que a mãe deseja e que a criança não pode dar. Ela percebe que o desejo da sua mãe se direciona para o seu pai. Em seu texto “A Dissolução do Complexo de Édipo” Freud irá postular o Complexo de Édipo como fenômeno central do período sexual da primeira infância. Em um primeiro momento de vida da criança todas as pessoas são vistas como possuidoras de um pênis, esse período não corresponde a uma idade cronológica, mas antes a um período lógico (FREUD, 1924, p. 217). O pênis, a princípio, para Freud é a representação do falo. Em outras palavras, não há senão um sexo, o falo, mas há dois modos de manifestação: ou a presença ou a ausência (André, 2011). Assim, o falo não se trata de um objeto qualquer, mas aquele que serviria de unidade de medida do valor de um sujeito. Portanto, um elemento indicativo de plena potência. Ninguém o tem, mas ele se afigura, pelo menos na cultura ocidental, como um vislumbre do que faria alguém consistir (MAURANO, 2010). O falo é a representação simbólica do pênis, ou seja, qualquer coisa que tenha para uma pessoa a mesma significação que o pênis teve para a criança no complexo de castração. E qual é essa significação? Para a criança recém-confrontada com a visão do órgão genital feminino, o pênis significa o órgão da completude. É por isso que o menino tem tanto medo de perdê-lo e é por isso que a menina o deseja tanto. Desse modo, o falo é tido como significante da falta, o significante do desejo do Outro. Veremos como isso se processa tanto para o menino quanto para a menina. Quando o menino se depara pela primeira vez com a visão do órgão genital diferente do seu ele demonstra falta de interesse, rejeita o que viu ou procura recursos para adequá-lo às suas expectativas, dizendo que o órgão na menina ainda é pequeno e crescerá em breve. É pelo medo da castração que o menino deixa a mãe enquanto objeto de amor e passa a se identificar com o pai, detentor a quem ele aponta como detentor do falo (FREUD, 1938). Inicialmente o clitóris na menina é capaz de exercer a função de pênis, porém, quando ela efetua uma comparação com outra criança de sexo oposto, percebe que foi injustiçada e sente-se inferior. Por algum tempo a menina também acredita que quando for mais velha poderá ter um pênis. Porém, é importante salientar que a criança não entende a falta do pênis como sendo uma diferença de caráter sexual, antes explica essa falta presumindo que, em alguma época, já tivera um órgão como aquele e o perdera. (FREUD, 1933). P á g i n a | 127 Seu desejo de possuir um pênis a encaminha para ligar-se de maneira desmedida ao pai, a procura do falo. A partir daí, o desejo que leva a menina a voltar-se para seu pai é, sem dúvida, originalmente o desejo de possuir o pênis, o falo, que a mãe lhe recusou e que agora espera obter de seu pai. A menina pela via da castração entra no Complexo de Édipo. Está fase, conforme André (2011) inaugura-se por uma metáfora. Há substituição do pai pela mãe. Essa substituição decorre porque a menina responsabiliza sua mãe pela falta do pênis nela e, ao mesmo tempo, a culpa por está em posição inferior em relação ao menino, afastando-se dessa mãe de forma hostil. A descoberta de que é castrada e, portanto, não tem o falo representa um marco decisivo para a menina. Desse modo, a menina possui três caminhos para o enigma da castração e do Complexo de Édipo. A primeira a leva para à inibição sexual; a menina, assustada pela comparação com os meninos, cresce insatisfeita com seu clitóris, abandona sua atividade fálica e, com ela, sua sexualidade em geral, em consequência, renuncia à satisfação masturbatória e repudia seu amor pela mãe (FREUD, 1931). O segundo caminho de desenvolvimento refere-se ao sentido de um complexo de masculinidade. Nessa linha, a menina tem esperança de conseguir um pênis em alguma ocasião e, isso se torna o objetivo de sua vida e a fantasia de ser um homem. Esse complexo de masculinidade pode também resultar numa escolha de objeto homossexual manifesta (FREUD, 1931) A terceira, finalmente, à feminilidade normal em que toma o pai como objeto, passando a esperar dele um filho, encontrado assim o caminho para a feminilidade (FREUD, 1931). Ainda conforme André (2011) é pela via do investimento do homem pai como doador do filho, representante do falo, que se iniciará um despertar da sensibilidade vaginal, surgindo a descoberta do privilégio de procriar. A isto se acrescenta um posterior e uma reconciliação reparatória da imagem da mãe, que propiciam um avanço e fortalecimento da identificação feminina da menina. A determinação da separação da menina é tão difícil para ela, mais até que o menino. Este ao encontrar a saída pelo lado do pai fará a identificação com o falo imaginário onde o fixa no desejo da mãe. Mas ao fazer isso, André (2011) diz que o menino acaba encontrando em seu pai um apoio para a identificação viril que corresponde ao sexo na medida em que há apenas o pênis como representação simbólica. Logo, não há registro da mulher no inconsciente. Se há dois sexos P á g i n a | 128 anatômicos, no inconsciente só há um princípio do sexo que o sujeito pode ou não recusar: o falo. Por esse motivo, a mãe não pode em caso algum fornecer a filha um traço simbólico que suporte sua identidade de menina. É com esta falta presente no Outro que a menina tem que se confrontar. Essa falta reforça de algum modo à castração feminina. Tudo o que a mãe pode fornecer como traço simbólico suporte da identificação é o falo. Por fim, a menina cresce acreditando que tem o falo, porém descobre pela via da castração que não o possui, ao longo do caminho vê-se obrigada a mudar o percurso e passa a desejar a ter o falo de outro modo. Assim, a vida sexual feminina está centrada no amor e na demanda de amor, ou seja, na demanda de se fazer dar, pelo Outro, aquilo que não tem (POLLO, 2004). Desde que Freud tratou dessas questões nos seus textos sobre a sexualidade feminina (1931) e a feminilidade (1933), percebemos que a ênfase dos autores que o seguiram recaiu sobre a relação mãe-bebê como sendo o eixo fundamental em torno do qual irão girar todas as questões relativas ao Édipo. No entanto, foi a partir das considerações de Jacques Lacan, que o pai vai passar a ocupar um lugar privilegiado nessa discussão. Como afirma André (2011), o pai é um função que, para Lacan, é caracterizada por dar limites, trazer para o filho a noção de lei como interdição do incesto. O pai aqui aparece como operador da castração simbólica. O pai entra num mundo que antes era só da mãe e da criança e o como portador do falo, e priva a mãe em um duplo sentido: ele interdita a criança em sua busca incestuosa de se fazer ela mesma objeto do desejo da mãe e priva a mãe do objeto fálico. Assim, o pai é aquele que proíbe e também possibilita a abertura para novos caminhos. Assim, é necessário compreender que não é a presença do pai, necessariamente, que produz essa metáfora paterna, mas o seu Nome, isto é, o pai como ser de linguagem, um pai que nomeia, mas, ao mesmo tempo, um pai que é um nome. Portanto, o Nome do Pai no campo da psicanálise se configura enquanto um operador simbólico que ordena uma tarefa, a função paterna, e não remete exclusivamente a existência de um pai biológico. Na verdade, a função paterna pode ser compreendida como sendo tudo aquilo capaz de operar uma nomeação do vazio enigmático que é apresentado, para cada sujeito quando se vê confrontado com o desejo da mãe (ANDRÉ, 2011). O Nome do Pai faz obstáculo entre a mãe e o filho, impedindo o incesto. P á g i n a | 129 No que concerne à estrutura edipiana de Luísa, percebemos que a função paterna exercida pelo seu pai biológico convocou a mãe quanto à filha a reconhecerem que uma não completa a outra. O pai cria o triangulo amoroso importante para a constituição psíquica. Como aborda Goldfeder (2001) o que está no centro da questão do inconsciente e o que este nos revela é o complexo de Édipo, o triângulo familiar, em torno do significante falo. Esse episódio pode ser evidenciado no discurso de Luísa quando esta ficava surpresa quando sua mãe mesmo sendo agredida pelo seu pai, depois de brigas, corria para os braços dele. Mas comete um ato falho e diz que podia fazer isso. Essa cena nos mostra que Luísa teve na infância a mudança de objeto de amor e, conforme Freud, em toda relação entre uma menina e seu pai, há que se considerar que houve antes, com igual amor ou intensidade, uma relação de amor com a mãe. A menina só chega ao amor do pai pela via do amor da mãe. Essa mudança de objeto de amor, relatada anteriormente, só ocorre a partir da percepção da castração. O amor de Luísa endereçado ao pai, vela para ela a possível falha que ele teria cometido ao deixá-los, colocando a culpa da separação para a sua mãe. Até hoje lamenta que depois desse fato nunca mais viu seu pai e que a única coisa que lhe restou foi o luto dele. Após seu pai biológico ter abandonado a família, Luísa passa a ver no seu avô como sendo aquele que pudesse substituir a presença do pai. No entanto, esse homem que deveria ocupar um lugar paterno, transgrede a própria lei de interdição ao incesto. O interdito, o incesto e/ou o abuso sexual passam a se entrelaçar. Esse acontecimento vai demarcar o que Luísa afirma ter feito um “resbolado” grande na sua vida. Freud, em seus estudos sobre a sexualidade infantil, abordava que as primeiras experiências sexuais de uma criança, principalmente quando precoce, deixa-as com marcas definitivas em sua vida. As crianças vítimas de algum tipo de abuso sexual pelos próprios pais ou por alguém que supostamente ocupe esse lugar deparam com situações em que as relações são postas as avessas e nessa inversão a criança passa a sexualizar bastante o corpo e se constituir enquanto objeto de uso. Pois ela está submetida aos desejos de um Outro adulto. Quando abusada sexualmente a criança é confrontada com o excesso e, segundo as Goldfeder (2001, p. 19) “este excesso remete à experiência de desamparo, marca de suas experiências mais primitivas”. P á g i n a | 130 É no discurso de Luísa que percebemos como o abuso sofrido pelo seu avô faz amarrações com o seu sofrimento. Levaremos em consideração o termo “abuso sexual”, pois já Freud em seus estudos sobre a sexualidade infantil já estabelecia que o abuso sexual, pode se instalar uma compulsão a repetir a mesma situação com outras pessoas. Nos termos de Lacan (1964, p. 57), ocorre nesse caso um evento com aparência de acidental, mas que é, na verdade, um encontro, no sentido de um real traumático ao qual se retorna de forma inconsciente e incontrolável. A posição de Luísa em suas relações amorosas é de se colocar novamente enquanto objeto de uso para os homens. Primeiramente com seu avô, depois com seu marido e posteriormente com seus clientes. Além disso, conforme Fortes (2010) as mulheres podem encontrar na prostituição uma forma de subjetivar a sua falta, pois as falhas e vazios de alguma forma são preenchidos pelo olhar desejante do outro, é pela via da prostituição que Luísa marca a busca por homens detentores do falo e, ao mesmo tempo, transformam a num falo. Tal posicionamento é característico da histeria, pois a cada relação o lugar da falta fica configurado. Ainda em André (2011) a falta do Outro é o que forma o ponto de partida da histeria, é a falha fundamental encontrada no pai. O falo que a histérica encontra no pai é geralmente insuficiente. O pai da histérica é geralmente impotente, este não pode da o apoio que a histérica conta para assentar sua identidade feminina. O que se mostra como causa na histeria é uma falta absolutamente radical. Nesta perspectiva Luísa nos aponta para essa insuficiência do pai e, ao mesmo tempo, da queixa a sua mãe enquanto mulher castrada ao afirmar que não tem glória nem de pai e nem de mãe. A histérica ao ser privado de uma identificação feminina se vê reduzida ao estatuto de objeto de consumo entregue à perversão do homem, pois a passividade é insuportável para ela. Tais fatos podem apresentar correlação da vida de Luísa quando esta afirmou que as tentativas de ser demitida da empresa de castanha, onde atuava como operária, não eram por causa somente das dores que começavam a assolar seu corpo, mas fundamentalmente porque não conseguia mais homens, funcionários da empresa, para fazer programa. Diante disso, ela diz que “não tinha mais a quem dá, fiquei cavando o mundo”. Assim, Luísa cava o mundo a procura da repetição desse encontro com um homem, substituto do encontro sexual traumático. Mas por se constituir enquanto objeto da primeira experiência de satisfação, este é um objeto perdido. Objeto em torno do qual o sujeito vive uma nostalgia para reencontrar algo que nunca teve e que, justamente pela impossibilidade de reencontrar o P á g i n a | 131 que busca, se vira com um objeto que ele acredita substituí-lo e que lhe possa satisfazer. A prostituição é a via pela qual Luísa tenta reencontrar esse objeto fálico. Contudo, conforme (FORTES, 2010) quando o prazer não é alcançado, a mulher pode erotizar a dor e esta, por fim, pode tornar-se fonte inesgotável de prazer. É neste mesmo ano que Luísa passa a sentir dores nas costas, passa a se consultar com os psiquiatras e deles obtém o mesmo diagnóstico da doença de sua mãe, situação que a leva a fazer tratamento. Ela alega que este é o motivo que a impede de trabalhar, pois devido a sua dificuldade de locomoção, teme cair. O pai que vai “torar as suas pernas com foice” e o pai que não a deixa cair, apontam para essa anatomia em que se inscreve o sintoma de Luisa. Ao falarmos de corpo na psicanálise, não se trata do corpo biológico, ou seja, em linguagem popular corresponde ao “corpo de carne e osso”, porém de um corpo que é do registro do simbólico. Segundo Pollo (2003) só pode “ter um corpo” aquele que está inserido na linguagem. Nesta perspectiva, as autoras ainda afirmam que o ser precisa de um corpo para se apoiar, que por sua vez precisa da linguagem para ser um corpo. Os animais não têm corpo nem ser, sendo apenas carne. Só podemos falar do corpo e dizer “este é meu corpo” porque ele é feito de linguagem. O corpo simbólico, ao pinçar um corpo com o significante, individualiza-o dos outros, distinguindo-o dos demais. O corpo simbólico toma posse de nosso corpo. Desse modo, Lacan se refere a linguagem como constituindo no corpo os monumentos históricos na histeria. Trata-se, portanto, de uma marca corporal histérica que situa seu corpo como suporte do sujeito do desejo. Essa marca significante vai se constituindo enquanto suporte da relação, não sexual, mas do sujeito com o significante. Esta marca não é eventual, contingente, mas sim necessária, pois não cessa de se escrever. É o corpo que sustenta a relação do sujeito com o Outro (POLLO, 2003). Ao conceber a histeria como encadeamento de significantes, ideias patogênicas ou extravagantes que se apossam no corpo Freud define a relação causal da histeria como sendo uma “relação simbólica”. Podemos perceber que na discussão do caso de Elisabeth Von R., Freud afirma que a simbolização é o meio caminho entre a autossugestão e a conversão, onde as histéricas restauram o significado original das palavras. Um sintoma histérico de dor precordial, por exemplo, pode corresponder à ideia não enunciada: “apunhalou-me até o coração”. A dor entre os olhos de Frau Cäcilie corresponderia à ideia de que a avó lhe dirigira um penetrante olhar acusatório, quando aos 15 anos, estava deitada em sua cama (POLLO, 2003). P á g i n a | 132 Assim como essas histéricas famosas da época de Freud, nossa hipótese é de que Luísa também fala através do corpo. Um corpo submetido a uma história de abandono e privações, mas que encontra sua satisfação (não sabida) em repetir um encontro traumático, através de uma história que é um verdadeiro “currículo” que articula o trabalho (prostituição), o (des)encontro sexual e a da dor. Relembramos, no entanto, que este estudo parte apenas de algumas entrevistas e que o ensaio metapsicológico, portanto é somente uma das aproximações possíveis. Não se trata de uma “verdade” do sujeito, pois esta só poderia ser construída numa relação transferencial, onde, através da decifração dos sintomas, Luísa pudesse resignificar seu “currículo”. Apesar disso, acreditamos que a leitura aqui apresentada pode proporcionar aos profissionais de saúde a abertura de uma outra perspectiva de abordagem da dor de Luísa, já que no modelo médico esses elementos que perpassam seu discurso, nem mesmo são considerados. 7.3 Uma elaboração do trabalh(a)dor A partir da queixa inicial e da construção que realizamos em torno dos sintomas apresentados por Luísa e Lisiane, nos propomos a pensar quais as amarrações que estes sujeitos estabelecem entre a sua dor e o mundo do trabalho. Vale ressaltar que a categoria “trabalho” nos interessa nesse estudo dentro de um recorte muito específico: aquele que diz respeito como cada sujeito entra no laço social, estabelecendo suas relações de produção significante e de gozo. Isso porque, como afirma Furtado (2008), a psicanálise não pode contribuir no que diz respeito ao plano objetivo e tecnocrático do mundo do trabalho. Como trabalhamos com o significante, faz-se importante no contexto deste estudo, resgatar como a palavra “trabalho” foi tomada pela psicanálise. Observamos que Freud utilizou a palavra alemã ‘Airbeit’ (trabalho), em algumas situações. Em algumas delas para se referir ao trabalho como atividade profissional, mas, principalmente para designar o trabalho envolvido na atividade psíquica. Nesse segundo uso da palavra, ela nunca vinha sozinha, mas acompanhada de algum prefixo que especifica o uso do termo: Verarbeitung, Bearbeitung e Durcharbeitung (Furtado, 2008). Iremos discutir aqui apenas duas destas designações (Verarbeitung e Durcharbeitung), pois acreditamos que elas se prestam melhor para a interlocução teórica com o nosso objeto de estudo, qual seja, o sofrimento psíquico do trabalhador. P á g i n a | 133 O termo Verarbeitung designa trabalho esmerado, mas é frequentemente traduzido para o português como ‘elaborar’. Assim, segundo Hanns (1996) o termo indica um trabalho de processamento, ou seja, de rearranjo, de assimilação (absorção) dos estímulos no psiquismo. Furtado (2008) aponta que Freud ao usar este termo alemão, refere-se à forma como lidamos com o excesso de estímulos acumulados para dar conta de afetos ou libido ameaçando o Eu. Já o termo Durcharbeitung designa trabalhar continuamente. Refere-se ao indicativo de superação de obstáculos. ‘Durch’ significa através de, atravessar, entrar e sair. Temse uma ideia de percorrer ou atravessar uma tarefa do início ao fim. Trata-se de uma atividade muitas vezes prolongada. Comumente traduzida para o português como ‘perlaborar’. Freud (1914) utilizou esse termo em um dos seus mais famosos artigos “Recordar, repetir e elaborar”. Conforme as palavras de Hans (1996, p. 203): “Não se pode afirmar que é um conceito psicanalítico, mas é utilizado quando Freud quer se referir ao modo de ‘trabalhar’ o sonho ou materiais da análise, ou ainda, para o trabalho de vencer as resistências”. Por meio dessas duas designações, Freud diz que o aparelho psíquico através de um trabalho consegue transformar o volume da energia pulsional derivando-a para outro lugar do psiquismo ou ligando-a a alguma representação. No entanto, nos casos em que houver incapacidade para elaborar um excesso de estímulos, isso pode resultar numa neurose atual ou a histeria, na qual a tensão sexual não trabalhada fica derivada em sintomas somáticos (ZIMERMAM, 2001). Assim, podemos pensar a verarbeitung como o próprio trabalho de elaboração do sintoma, que busca lidar com o excesso pulsional. É um trabalho inconsciente que se faz presente, mesmo quando não há transferência analítica. Por outro lado, a durcharbeitung remete ao processo de construção desenvolvido ao longo do trabalho analítico. Segundo Oury apud Zimerman (2001) é muito importante que se possa distinguir essas duas operações de trabalho psíquico em Freud, afirmando que é a posição analítica que pode permitir passar do trabalho inconsciente de elaboração (Verarbeitung) para um trabalho permanente de perlaboração, (Durcharbeitung). Este trabalho psíquico possibilita a reintegração e restabelecimento de um sujeito construtor de uma elaboração a partir de um saber insabido que surge na e pela própria experiência analítica. Isto é o que vai diferenciá-lo de todos aqueles saberes tradicionalmente P á g i n a | 134 referenciados pelas formas sugestivas dominantes, permitindo-o tomar o lugar de sujeito (RODOVALHO, 2006). A verarbeitung se faz presente nos ensaios metapsicológico que construímos como a maneira com que Lisiane e Luisa situam suas amarrações no mundo do trabalho. No caso de Lisiane, esse enlace se dá por meio do par significante normal/anormal, demandando do profissional de saúde que lhe ateste esta condição. A síndrome de burnout é a insígnia que restaura o lugar que ela ocupa na fantasia, ao mesmo tempo em que enlaça aí suas relações com o trabalho. Na situação de Luísa, o significante “currículo grande” é o que ela endereça aos profissionais de saúde, querendo que o saber destes possam dizer sobre aquilo que lhe aflige. Um significante que não esgota a definição de sujeito. No entanto, é pelo saber biomédico que Luísa tenta se ‘sustentar’. O discurso enquanto articulação significante, conforme Fontes (2007) funda um vínculo social instaurado pela palavra. Ambas interrogam o Outro com seu sintoma, exigindo uma resposta. Com efeito, a histeria coloca uma questão, pelo simples fato de estar ali, de existir. O que todas as identificações fracassam em fazer. Em seus percursos Luísa e Lisiane buscam elaborar (Verarbeitung) pela via sintomática um modo de não querer saber sobre a causa do seu desejo. A partir do discurso de Lisiane e Luísa, percebemos que o trabalho não é apenas uma dimensão externa, podendo ser considerado como um fator causador ou contributivo do sofrimento psíquico do trabalhador, porém um elemento a mais no encadeamento, entrelaçando o trabalho aos significantes que compõe a trama da vida. Portanto, o trabalh(a)dor, na sua singularidade, ‘trabalha’ (Arbeit) uma maneira de lidar com a sua dor através de um trabalho de processamento psíquico (Verarbeitung). Esta elaboração articula o desejo do trabalhador com o desejo do Outro. Nesta perspectiva, relembramos a advertência de Freud quanto à ineficácia de, visando à eliminação do sintoma, informar o paciente sobre qual o seu sentido. É preciso, antes, que esse saber esteja baseado “em uma modificação interna”, a qual requer “uma parcela de trabalho” (Freud, 1916-1917, p. 289). Não se trata, pois, em processo analítico, apontar para o sujeito de onde vem a origem do seu sintoma, mas de promover uma modificação no modo de satisfação constituído pelo próprio sintoma, razão pela qual caberá ao sujeito “uma parcela de trabalho” (VENTURINI, 2007). Percebemos que o que movimenta o aparelho psíquico a trabalhar é o desejo, representante da falta como condição necessária para o sujeito se movimentar, e da P á g i n a | 135 pulsão enquanto uma força constante fazendo pressão ao aparelho psíquico na busca de uma satisfação. Embora, aí se pode encontrar o conflito psíquico, uma luta entre impulsos plenos de desejo, no entanto, discordantes entre si (RODOVALHO, 2006). Nesse conflito, o trabalh(a)dor será impelido a realizar um trabalho de processamento para obter uma saída do conflito, seja pela via da sublimação ou sintomática. Por fim, percebemos que só a análise permitiria recorrer a outro trabalho com a dor, agora aquele de perlaboração (Durcharbeitung), onde o trabalh(a)dor poderia vir a ocupar um outro lugar, não mais alienado ao desejo do outro. Assim, durante o processo de perlaboração, o sujeito passa a indagar sobre suas próprias questões, concernindo-o apropriadamente na decifração de seus sintomas. Será por meio da fala, do trabalho associativo que iniciará na perlaboração, que o sujeito buscará recuperar a lembrança patogênica, e desse modo dissolver a repetição sintomática (VENTURINI, 2007). Portanto, o deslocamento então realizado conferirá ao sintoma um novo valor. Como afirma Soler (1999), o “sintoma fundamental” é a única coisa que faz identidade, que é o verdadeiro nome próprio. É porque o sintoma, como fala, passa necessariamente pelo Outro que a análise poderá implicar o sujeito em sua mensagem; recuperando para ele o sentido de seu sintoma. Por fim, ressaltamos que devido às particularidades metodológicas da nossa pesquisa, a perlaboração não poderia acontecer no âmbito da escuta desenvolvida neste estudo, já que não se trata de uma análise. Mas pensar a existência desses processos, elaborar e perlaborar, podem trazer interlocuções interessantes entre a psicanálise e o cuidado clínico de enfermagem ao trabalhador em sofrimento psíquico. P á g i n a | 136 8 CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA O CUIDADO CLÍNICO DE ENFERMAGEM Os dois ensaios metapsicológicos construídos neste estudo nos permitem tecer quatro pontos importantes para a reflexão e a prática do cuidado clínico de enfermagem: o posicionamento do enfermeiro frente à queixa de sofrimento psíquico, deslocamento do lugar de saber, ressignificação da clínica e a consideração da singularidade do caso. Ao longo da realização da pesquisa percebemos que os profissionais de saúde e, inclusive os enfermeiros, estabelecem uma nítida relação de causalidade entre a queixa e o diagnóstico, na medida em que a primeira só tem valor se amparada em um discurso biomédico, a partir de uma padronização dos sintomas. O trabalhador não é convocado a ‘elaborar’ um sentido para aquilo de que vem se queixar. Nesse sentido, seu sofrimento só é reconhecido se sua queixa relacionada ao trabalho puder ser amparada em um fundamento orgânico e/ou epidemiológico. A fala de Luísa é tomada no discurso dos profissionais de saúde como uma “queixa difusa”, já que não corresponde aos critérios de classificação existentes no manual das doenças relacionadas ao trabalho. Já a queixa de Lisiane pôde ser capturada no discurso médico, sendo enquadrada numa classificação de “Transtorno Mental e Comportamental Relacionado ao Trabalho”, sob o título de Síndrome de Burnout. No entanto, percebemos que, em ambas, escapa a essa forma de olhar tudo aquilo que não remete apenas ao aspecto físico e, que diz da maneira como elas amarram sua relação com o trabalho à sua posição de sujeito. Inserida no modelo biomédico, a atuação da enfermagem fica limitada a uma espécie de triagem e controle de medicamentos. A preocupação em descrever os sinais e sintomas de Luísa nos revela que o cuidado de enfermagem esta pautada na clínica da doença em detrimento do sujeito que adoece. O cuidado clínico e a escuta são tomados como processos que guardam entre si uma relação de externalidade, pois se enfatiza nas práticas de cuidar o saber do especialista (enfermeiro), em detrimento da vivência subjetiva do trabalhador, havendo a naturalização ou objetificação do sofrimento. Referente à escuta como ferramenta do cuidado clínico de enfermagem, apreendemos que há uma polissemia em relação à escuta tanto ao nível dos discursos quanto nas práticas voltadas para o sujeito que apresenta algum sofrimento psíquico. Alguns enfermeiros quando fazem referência à escuta entendem-na como sendo sinônimo de ouvir, escutar as queixas patológicas, estratégia de acolhimento ou mesmo P á g i n a | 137 escutar as solicitações para posterior resolução de queixas (LIMA, SILVEIRA; VIEIRA, 2012). Raramente a escuta é considerada como um fim em si mesmo, como uma intervenção que possibilite acessar um saber que está do lado do sujeito. Nesse sentido, percebemos que a escuta do sofrimento psíquico do trabalhador passou a ser sinônimo de direcionar a busca por uma pedagogização do corpo e do sofrimento, que visa à devolução desse sujeito “reparado” ao mercado de trabalho. Trata-se, portanto, de uma intervenção comprometida com o modo de produção capitalista. Conseguimos perceber isso quando as ações de educação em saúde ofertadas pelos enfermeiros aos trabalhadores caminham unicamente na abordagem acerca dos acidentes de trabalho, sobrecarga de trabalho, estresse, melhoria da qualidade de vida, ergonomia. Raramente se aborda a questão do sofrimento psíquico do trabalhador, e quando se faz, é alertando aos direitos, deveres trabalhistas que competem ao empregador e ao empregado (GATTO, 1998). Ao contrário do modelo biomédico, que se debruça para o olhar clínico dos sinais e sintomas, comprovando as alterações orgânicas por meio dos exames, a psicanálise se propõe a um deslocamento: ao invés de ver e comprovar os sinais e sintomas, é a escuta do sujeito que fundamenta a sua clínica. Assim, quando nos propomos a escutar o sujeito e seus padecimentos na perspectiva da psicanálise, provocamos necessariamente um giro nesse discurso que não será sem consequências. A primeira delas é aquela que diz respeito ao deslocamento do lugar do saber, que sai do lado do “especialista” e passa para o lado daquele que fala (ainda que ele não saiba nada sobre isso). Isso porque a psicanálise é o único discurso que considera a existência de um saber do lado daquele que fala, o saber inconsciente. Talvez essa seja uma das maiores contribuições que o discurso psicanalítico pode trazer para o cuidado clínico de enfermagem. A escuta pautada na hipótese do inconsciente implica o reconhecimento do outro enquanto sujeito de linguagem, que nomeia de forma singular suas vivências. Aposta-se na implicação do trabalhador sobre aquilo que provoca seu sofrimento, pois, conforme Almeida (2009), cada um traz no bojo de seu discurso as correlações entre os significantes de seu sofrimento e a sua história de vida, um saber “insabido” que pode se revelar na fala daquele que veio a se queixar. Com a psicanálise percebemos que a fala é deslocada até um outro lugar, muito além da intenção consciente de comunicar algo. Ao falar, o sujeito comunica muito P á g i n a | 138 mais que aquilo a que inicialmente se propôs. Lacan afirma que o ato falho é, com efeito, um ato bem-sucedido, posto que através dele a verdade do sujeito se revela, ainda que à própria revelia do eu. Nas falas de Luísa e Lisiane percebemos alguns atos falhos, mas estes quando evidenciados no discurso dos trabalhadores, seja no atendimento de enfermagem ou na elaboração de pesquisas acadêmicas seriam descartados, tidos como falhas de comunicação, desatenção ou cansaço provindo daquele que fala. A escuta psicanalítica só existe quando sustentada no dispositivo da palavra. Traduz a maneira do sujeito de se relacionar com o objeto de desejo. Ao ser fundamentado na palavra, não se trata de uma saída homogênea, aplicada indiscriminadamente. É uma aposta na singularidade do “cada um”, que vai construir as saídas possíveis para lidar com seu sofrimento, mas também com seu gozo. Ao falarmos sobre o deslocamento do lugar do enfermeiro na clínica, consideramos que este não é um processo fácil de adotarmos. Exige sair de uma zona de conforto, em que o saber científico nos coloca e nos lança para um campo do “não saber”, onde o objeto não é simples de ser aprendido. Antes se mostra esquivo, permitindo apenas observações de sua presença. Ao propor a escuta do sujeito inconsciente precisamos nos aproximar de fundamentos específicos, qual seja: o método psicanalítico. Pois, conforme Lima (2012) essa fala precisa necessariamente ser direcionada a outro, ou seja, é preciso sempre um outro para dizer-se. Se o outro não está ali, há uma ausência, a fala não ecoa, não retorna para aquele que se propôs a falar sobre aquilo que lhe aflige. Desse modo, percebemos que a escuta psicanalítica extrapola os limites de uma causalidade orgânica e/ou epidemiológica e nos convoca, enquanto enfermeiro, a refletir sobre nosso posicionamento frente à queixa de sofrimento psíquico do trabalhador, trazendo novas nuance para o cuidado clínico de enfermagem, rompendo com a perspectiva de uma clínica puramente biológica e centrada do processo saúde-doença. Aqui podemos tecer nosso segundo eixo de contribuição da psicanálise para o cuidado clínico de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico: clínica do sujeito. Na clínica do sujeito, o modo de conceber o sintoma desloca-se daquilo que deve ser eliminado, para uma mensagem a ser decifrada. Com efeito, Freud ressaltou que, diversamente da abordagem psiquiátrica a psicanálise estabelece, em primeiro lugar, que os sintomas têm um sentido e uma relação com a vida daquele que o produz (FREUD, 1916-1917). P á g i n a | 139 Um sintoma que desliza na cadeia de significantes e se expressa no real do corpo. Como diz Lacan: “O sintoma aqui é o significante de um significado recalcado da consciência do sujeito”. É, portanto, um símbolo escrito na areia da carne (Lacan, [1953-1954] 1998, p. 282). Desconhecido pelo próprio sujeito, o sintoma causa sofrimento, ao mesmo tempo, que expressa a realização de um desejo, pois resulta de um modo de gozar. Em lugar de modificar o mundo externo para a satisfação, a modificação se dá no próprio corpo do sujeito. O sintoma é um evento no corpo, diz Lacan. Para a psicanálise o corpo é aquele afetado pela linguagem, corpo das trocas, corpo que movimenta várias economias, em torno do qual se contam as histórias. Não é o corpo em seu sentido biológico como propõe a medicina. É nos sintomas histéricos que se pode observar o surgimento de uma nova forma de se olhar para o corpo: um lugar de simbolização (PIMENTA; FERREIRA, 2003). Portanto, ao utilizarmos a psicanálise na condução deste objeto de estudo não objetivamos encontrar um novo saber para a enfermagem, conduzindo ao mesmo caráter de “verdade absoluta”, característico da ciência moderna. Não se trata disso, mas de buscar outros referenciais para o cuidado de enfermagem, valorizando o sujeito em sua vivência singular. Acreditamos que a psicanálise pode contribuir para que essa vivência singular também permeie o cuidado de enfermagem nos espaços institucionalizados, descontruindo uma queixa padronizada para escutar de outra forma o que aparentemente se mostra como transgressão na clínica biomédica: a singularidade da fala do trabalhador. Uma escuta que convoca e interroga o sujeito, e não o “estressado”, o “burnout”. Assumir essa postura implica ir além da triagem, da possibilidade de escutar sem amarrar-se a protocolos (manual das doenças relacionadas ao trabalho). Pois, neste mesmo movimento, vemos o incremento de avaliação e protocolos construídos como forma de universalizar e padronizar a partir da média (dados numéricos), que acaba por excluir o que há de particular na queixa de cada trabalhador. Desse modo, pensamos que o trabalhador poderá ser escutado, a fim de que construa nesse intervalo algo de novo. Lacan observa que nem sempre o que o paciente demanda do médico é a cura. Às vezes ele desafia o médico a retirá-lo de sua condição de enfermo, porém em outras vezes, demanda explicitamente do médico que o autentique como enfermo (ASSAD, 2009). P á g i n a | 140 No texto intitulado “A psicanálise e a determinação dos fatos nos processos jurídicos”, de 1906, Freud estabelece um paralelo entre a atividade do analista e a do juiz. Achamos pertinente, pois ele aborda essa problemática que envolve a saúde mental e as questões trabalhistas. Enquanto o analista opera no sentido de revelar um segredo oculto à consciência, o juiz lida com a simulação da ignorância. Numa ação trabalhista não é incomum ver a simulação entrar em cena. Porém, não a simulação da ignorância, mas de causalidades ou não causalidades, fator contributivo ou não contributivo, relativas ao trabalho. Percebemos que esta é a preocupação que fundamenta a escuta realizada pelos enfermeiros que atendem os pacientes em sofrimento psíquico: a causalidade ou não daquilo que ele veio se queixar. Sabemos que para o modelo biomédico a verdade é sempre factual e pode ser toda dita e comprovada, mas para a psicanálise o sujeito está de alguma forma implicado naquilo que diz, portanto, a verdade do sujeito pode aparecer, mas jamais se pode dizer a verdade toda, pois a linguagem é estruturalmente falha, sempre comporta furos. O que se diz remete sempre a outro dizer. São as palavras que permitem novos arranjos, produzindo sentidos diversos. Por isso, a verdade não pode ser toda dita. Desse modo, as vias da verdade são por essência vias de erro. Segundo Lacan, as nossas palavras que tropeçam são na verdade palavras que confessam. Uma palavra que ele nem mesmo sabe, mas que emite como significante de alguma coisa. O sujeito sempre diz mais do que quer dizer, sempre mais do que sabe dizer (DÖR, 2003). A clínica, nessa perspectiva, passa a ser de cada sujeito, a clínica do caso-a-caso, pautada pela escuta e não pela padronização da queixa. Padronização que contribui para a construção um demanda pré-estabelecida nos serviços de saúde (CEREST, CAPS, UISAM). Portanto, observamos que não é uma especialidade ou a atuação em um espaço institucionalizado que promove a escuta da queixa de sofrimento psíquico do trabalhador, antes, passa pela existência de um referencial que possa nortear a clínica daqueles que se propõem a escutá-los. Portanto, como característica essencial da clínica do sujeito, temos a escuta. Uma escuta que marcará a construção da singularidade do caso. Este é o nosso terceiro eixo de contribuição da psicanálise para o cuidado clínico de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico. Compreendemos que a singularidade do caso é também uma condição metodológica no sentido de que as construções teóricas sobre a clínica se elaboram sempre no caso a caso. Cada um deles deve ser escutado como se fosse o primeiro, P á g i n a | 141 colocando em reversa o saber sobre a teoria (SILVA, 2013). Pois é a fala do sujeito que anuncia um saber “insabido”. Ao contrário daqueles que são construídos no ensino/pesquisa de enfermagem no campo da saúde mental. Independente da nomenclatura utilizada na enfermagem, caso clínico ou estudo de caso, nestes são as teorias que guiam a sua elaboração e a condução do caso apresentado. Há uma padronização do formato: sinais e sintomas da doença, condutas de enfermagem. Assim, percebemos que, diferente das demais pesquisas acadêmicas, aquelas que trazem a sustentação psicanalítica não buscam iniciar uma investigação com formulações teóricas já prontas sobre o caso. A demonstração de um saber prévio não pode ser psicanalítica pela simples razão de que essa resposta já é consciente. A psicanálise lida com o “não saber” daquele que fala (SILVA, 2013). Entendemos que essas três dimensões que situam a contribuição da psicanálise para a enfermagem (deslocamento do lugar de saber, ressignificação da clínica e a construção da singularidade do caso) estão amarradas entre si por um quarto eixo que, como aponta Silveira (2013) é aquele de uma outra postura pautada na dimensão ética. Abordar a ética na psicanálise nunca foi uma tarefa fácil. Freud já se questionava sobre as repercussões que sua teoria causaria no discurso moral de sua época ao deslocar o sujeito consciente de sua posição dominante no psiquismo. Então, a que dimensão ética a psicanálise se refere? Ressaltamos aqui dois pontos para nossa discussão: falta no Outro e o vazio do objeto causa de desejo. Ao se deparar com a falta no Outro, conforme Silveira (2013), o sujeito vai passar a se perguntar sobre o desejo: o que esse outro quer? O que ele quer de mim? Inserido neste enigma, o sujeito conduz a sua vida procurando responder a esta questão, tomando o desejo do outro por seu próprio desejo. Sabemos que essa busca na direção de obter a resposta sobre o seu desejo é incessante, marcada por uma sobra, um resto de alguma coisa que corresponde ao impossível de ser simbolizado. Esse resto não para de cessar e não pode ser eliminado. Portanto, sempre retorna ao sujeito e acaba por conduzi-lo em suas escolhas, Lacan denominou esse resto como sendo o “objeto causa do desejo” (Lacan, [1962-1663] 2005). Portanto, no que se refere à dimensão ética da psicanálise não se objetiva tamponar o objeto causa do desejo, seja com objetos, com medicação, ou mesmo programas de aconselhamento (palavras de conforto, autoajuda, a oferta de um “bem” qualquer). Na ocorrência disso, só se pode conduzir ao pior (SILVEIRA, 2013). Esta é a P á g i n a | 142 posição do discurso científico, amparada pelo discurso capitalista, que os enfermeiros tendem a fazer: suturar a falta constitutiva do sujeito. Os enfermeiros, na posição de especialista, buscam as causas e as explicações para o sofrimento do paciente. Condutas guiadas por uma ética do “bem” comum, da eliminação do sintoma em nome de uma maior qualidade, da “reabilitação” do sujeito à sociedade em seu máximo potencial de produção. Mas a psicanálise anuncia que o sintoma não é uma espécie de “defeito de fabricação” a ser corrigido. Mas uma mensagem a ser decifrada. Trata-se de considerar a verdade do sujeito dividido, em relação à sua causa (SILVEIRA, 2013). Com a proliferação dos diagnósticos, que acabam funcionando como rótulos, tudo pode ser justificado. O sujeito encontra-se cada vez mais imerso em numa posição de vítima ou de objeto, apenas aguardando o retorno da situação de prazer. Perde-se a dimensão de que cada sujeito é responsável por suas escolhas e que estas têm consequências (VIEIRA, BESSET, 2008). A ética da psicanálise, como aponta Silveira (2013), consiste na possibilidade de sustentar esse espaço vazio do objeto causa do desejo, não para tamponá-lo, mas para fazer o sujeito falar. Como diz Lacan, uma ética do bem-dizer o desejo onde, tomando a palavra, cada um possa saber um pouco mais sobre isto que lhe causa, aproximando-se um pouco mais desse desejo, que é o que ele porta de mais estranho e de mais íntimo, e reorganizando suas formas de extrair satisfação, para além da repetição do sofrimento. A psicanálise pode contribuir para o cuidado clínico de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico na medida que se interessa por ouvir a verdade que esse sintoma tem a dizer. Sendo assim, uma escuta do sofrimento psíquico perpassada pela ética de sustentação do desejo, precisa considerar alguns pontos: 1- O sofrimento psíquico não pode ser reduzido às alterações orgânicas (bioquímicas ou neurológicas), ou configurado apenas como apêndice das condições da organização do trabalho ou da estrutura de personalidade do trabalhador. 2- O enfermeiro não pode desejar o “bem” do paciente (a eliminação dos seus sintomas). Qualquer coisa que o enfermeiro coloque nesse lugar só vai impedir que o próprio sujeito elabore seu desejo. 3- O enfermeiro não pode ocupar um lugar de especialista. Ele precisa estar aberto à fala do outro, interessar-se pelo que este tem a dizer. Isso, muitas P á g i n a | 143 vezes, mobiliza a angústia, e daí a nossa pressa em responder à demanda com soluções imediatas. Ampliar o espaço de tempo entre ouvir a queixa e dar uma resposta pode favorecer que o próprio sujeito elabore suas questões, implique-se naquilo de que vem se queixar. 4- É preciso considerar que o sofrimento não é uma doença, e que uma certa dose dele é até mesmo necessária para que possamos nos constituir enquanto sujeitos. O ideal de cura, que permeia o campo da saúde, pretende a eliminação do sintoma como foco do tratamento. É necessário considerar o sintoma em sua face de mensagem a ser decifrada, mas também em sua dimensão de gozo, como forma de satisfação substitutiva. O sintoma (enquanto fenômeno) pode até desaparecer, mas ele continua encontrando outras formas de dizer sua verdade. Nesse sentido, o desejo de curar o paciente (ou qualquer outro desejo que se imponha da parte de quem escuta) só faz dificultar a manifestação dessa verdade do inconsciente. 5- Assim acreditamos que o enfermeiro, junto com os demais profissionais de saúde, deve assumir uma postura ética. Isso implica ir além da escuta reduzida a um ato protocolar, a uma técnica de coleta de evidências, de sinais, ou ainda, a um jogo interpretativo na perspectiva de identificar se a fala do trabalhador é tida como fingimento ou não. Portanto, não se trata do enfermeiro se pôr de lado do trabalhador ou do lado do empregador. Mas do dever ético de escutar os padecimentos do trabalhador, pois quem está com a queixa de sofrimento psíquico é o trabalhador e, não o empregador. 6- Portanto, os enfermeiros e os demais profissionais podem entender que o trabalhador não procura o serviço apenas para obter um diagnóstico a fim de exclusivamente adquirir um benefício financeiro. Pensar assim seria um pré-julgamento. Compreendemos que receber um diagnóstico, seja para qual fim, não se configura no que de melhor se possa fazer pelo trabalhador, se este não receber um acompanhamento adequado. O que ocorre, no entanto, é que na saúde mental essa “causa” muitas vezes não se trata de uma causa material. Trata-se sim da relação do sujeito com aquilo que o causa, que o afeta, em seu desejo e em sua relação com o outro. 7- Precisamos nos questionar sobre a formação necessária para realizar essa escuta do sofrimento psíquico na saúde mental. Para ser um bom cirurgião, conforme Silveira (2013), o profissional não precisa, necessariamente, ter P á g i n a | 144 passado por uma cirurgia. Seria até absurdo esperar isso dele. Mas, para a psicanálise, segundo a referida autora, escutar o outro implica necessariamente que possamos lidar com nossa própria falta. Só assim podemos sustentar esse espaço vazio onde o outro vai poder depositar suas questões. Daí ela ser o único método de “tratamento” que requer de todo aquele que se propõe a praticá-la, que ele mesmo se submeta a este tratamento. Portanto, pensar a clínica numa perspectiva que considere a hipótese do inconsciente coloca do lado do profissional, no nosso caso reportamos ao enfermeiro, uma exigência muito específica acerca de sua formação. Se no modelo médico o saberfazer é adquirido através de um processo de formação acadêmica, pautado em manuais, registros e teorias que embasam a conduta do sujeito em sofrimento psíquico, no que tange à psicanálise exige-se uma “formação” que está além dos bancos escolares e do processo de transmissão de conhecimentos. Não é pelo discurso do mestre e do universitário que se irá constituir enquanto analista. A formação analítica passa necessariamente por duas condições fundamentais: o desejo e a implicação pela análise pessoal. Tais motivos são um meio para que o enfermeiro interessado na clínica do sujeito possa operar de um outro lugar, não mais de especialista que tampona o objeto causa de desejo do paciente, mas que faz semblante e sustenta a posição de objeto de desejo. Neste discurso o enfermeiro (analista) estimula a regra de associação livre, mobilizando a posição discursiva do sujeito. Apesar de ser uma pesquisa direcionada para o cuidado de enfermagem, portanto, aos enfermeiros, é preciso estar advertidos de dois pontos. A leitura desta pesquisa não ‘conduz’ os enfermeiros a fazer o deslocamento do saber (saber especialista para o não saber, operando com a escuta inconsciente). Segundo ponto, desde que convoquemos o sujeito a falar, a própria necessidade de ser escutado vai se apresentar em algum momento também para o enfermeiro que escuta. Portanto, é necessário apontarmos que a análise pessoal é uma escolha que só pertence ao sujeito, cada um no seu percurso singular vai decidir por quais caminhos pretende seguir. Além disso, depende de como cada um possa formular e querer interrogar, de um outro lugar, sobre suas próprias questões. Se esta via não é a implicação do enfermeiro, estes podem estar se questionando se existem outras possibilidades para se pensar a escuta como ferramenta para cuidado P á g i n a | 145 clínico de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico. Acreditamos que sim! Porém, não com restrições. Não se tratará de um escuta analítica; no entanto, acreditamos que outra via possa surgir: possibilidade de sensibilizar o enfermeiro para abertura de um espaço institucionalizado, onde a singularidade e a subjetividade do trabalhador possam existir. É um começo, uma contribuição na medida em que verificamos na prática que o trabalhador está sob efeito de quantificação e padronização do seu sofrimento. Quem sabe, a partir daí o desejo de buscar a análise pessoal possa se presentificar, passando o enfermeiro a operar de um outro lugar. Também somos cientes de que o referencial psicanalítico tem seus limites de aplicação, na medida em que este só pode emergir a partir do desejo de cada um (não há manual ou tempo cronológico apropriado para que isso aconteça), é o desejo que move o sujeito em busca pela formação, outros obstáculos também podem surgir como as resistências institucionais e da equipe de profissionais para ressignificar a clínica. Evidentemente, existem várias outras possibilidades de se pensar o cuidado e a clínica na enfermagem, que trarão para alguns enfermeiros um significado, justificando suas ações de cuidado a partir desses referenciais. A interlocução entre clínica, cuidado de enfermagem e a psicanálise é uma proposta recente, instigadora e que tem levado alguns pesquisadores, Silveira (2012), Almeida (2009), Filho (2010), Vieira (2011), Lima (2012), Cunha (2012), a buscar olhares diferentes para o cuidado de enfermagem, reconhecendo a singularidade de cada sujeito e suas formas únicas de sofrimento psíquico.3 Um trabalho que tem demandado discussões com estudantes de graduação, pós-graduação e profissionais do serviço. Portanto, procuramos a partir do referencial da psicanálise atuar com a clínica do sujeito, onde a escuta surge como ferramenta básica para a intervenção do enfermeiro junto aos trabalhadores em sofrimento psíquico, à medida que a abordagem do sujeito somente é viável através da possibilidade de recorrer à sua própria fala. Diante disso, compreendemos que a psicanálise pode contribuir para um cuidado clínico de enfermagem que visualize no termo clínico as ações de cuidado para além do diagnóstico, dos sinais, sintomas, reconhecendo a existência de um saber inconsciente do lado daquele que fala. 3 Essa discussão vem sendo realizada no, LAPSU, Laboratório de Psicanálise da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e na linha de Pesquisa em Psicanalise e Saúde: interface com a clínica do sujeito inserida no Programa de Pós-Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde da UECE. P á g i n a | 146 Portanto, não se trata, com a nossa pesquisa, de fazer do enfermeiro um psicanalista. Porém, de apontar algumas possíveis elaborações que fomos desenvolvendo recentemente no âmbito da interlocução sobre o cuidado clínico de enfermagem e a psicanálise. As contribuições que identificamos aqui têm um caráter processual, preferimos considerá-las em aberto, pois acreditamos que elas não são respostas prontas e padronizadas. São, na verdade, muito propícias para incitar a discussão. Certamente essas não são as únicas questões possíveis. Cada um que se debruça(rá) sobre este tema carrega(rá) também um pouco das suas implicações pessoais, ‘elaborar(á)’ e acrescenta(rá) sua contribuição singular para a construção desse campo, onde o sujeito é colocado em cena, a “clínica do sujeito”. P á g i n a | 147 9 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegar às “considerações finais” da pesquisa não significa que aqui tenhamos que encerrá-la. Neste momento, ela nos lança para outros desafios. Desafios tão intensos como aqueles que nos instigaram à sua produção. Ao longo da realização dessa pesquisa deparamo-nos com acessibilidade e colaboração dos profissionais de saúde, mas também com resistências institucionais, com questões burocráticas, com saberes e fazeres estruturados sobre o sofrimento psíquico e o trabalhador. Talvez essa separação seja a melhor forma para resumir o que encontramos ao longo da nossa jornada aos locais de pesquisa. Saberes estruturados que tecem suas ações sobre um único objeto de atuação: o sujeito. Um sujeito recortado e retalhado pelo discurso científico. Nessa dicotomia encontramos: um trabalhador, ‘não-sujeito’, que é visível para a sociedade apenas enquanto mantiver seu ritmo ‘normal’ de produção. Um sofrimento psíquico que só é visível quando detectado e comprovado por uma causalidade orgânica e/ou epidemiológica. Portanto, percebemos que estamos lidando é com a invisibilidade do sofrimento psíquico do trabalhador. Como pensar o cuidado clínico de enfermagem diante disso? Acreditamos que pensar essa discussão à luz da psicanálise nos convocou a elaboração distinta do saber estruturado, deslocando-o para o ‘saber insabido’ do sujeito. As manifestações desse ‘saber insabido’ podem ser expressas pelos sonhos, o ato falho, o chiste; estes aparecem sempre sob o modo de um tropeço, através do qual o sujeito se sente surpreso ao encontrar algo que ultrapassa aquilo que esperava dizer. É nessa fenda no discurso que podemos localizar o que é da ordem do inconsciente, e que está sempre prestes a novamente escapar e desaparecer. Nesta perspectiva, a escuta é um instrumento fundamental para fazer advir este sujeito, que “não é uma tarefa tão óbvia” e fácil de apreender, mas que surge nos fenômenos da linguagem e de uma maneira particular para cada um. Por isso, ao abordamos a escuta, não falamos de qualquer escuta, ou de uma escuta compreensiva e subordinada a uma prática moral educativa, mas a escuta da articulação significante inconsciente, na qual o sujeito se produz. Nesta perspectiva, objetivamos com esse estudo compreender como se configura a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho na perspectiva da singularidade do trabalhador. Para alcançá-lo, escolhemos dois estudos de caso que abordam a P á g i n a | 148 singularidade discursiva de cada sujeito, articulando a sua queixa de sofrimento psíquico, direcionada ao atendimento de saúde do trabalhador, aos significantes que surgem em seu discurso. Nas entrevistas nos chamaram atenção os significantes ‘zerar’ e ‘a/normal’ de que Lisiane tem se apropriado para formar a sua linha simbólica, fazendo amarrações com o trabalho. Amarrações que em Luísa nos são reveladas por um ‘currículo’. Ao se pensar no significante, nunca se deve imaginá-lo sozinho, pois um significante só é significante para outros significantes. Portanto, ao elaborar e considerar cada caso temse que cada um como constituindo um modo próprio de inscrição do sujeito no laço social. Desse modo, percebemos que a experiência psicanalítica, uma vez colocada em operação através da instalação do dispositivo freudiano da associação livre, produz as condições de emergência do sujeito do inconsciente, justamente através da repetição e da transferência, criando as condições de produção das chamadas formações do inconsciente. Ressaltamos que os ensaios metapsicológicos não foram advindos de elaborações clínicas do consultório psicanalítico. Se para a psicanálise seria um limite ter enveredado pelo caminho metodológico das entrevistas, e evidentemente é, para a enfermagem esse ‘limite’ ainda é desafiador, na medida em que podemos com ele provocar reflexões e mudanças significativas para o cuidado clínico de enfermagem. Um cuidado que privilegie a dimensão singular, considerando o sujeito inconsciente único em sua forma de desejar e transitar pela linguagem. Acreditamos que a psicanálise pode sensibilizar os enfermeiros, não necessariamente para que estes desenvolvam práticas idênticas aos analistas, a lidar com a efervescência das queixas do trabalhador em sofrimento psíquico que procuram os serviços de saúde, onde suas questões não exigem apenas respostas pedagógicas e nem padronizadas. Valoriza-se a fala do trabalhador, em espaços individuais, sem desprezar as intervenções coletivas. Quando o enfermeiro deixa de focar a doença para se voltar para aquele que sofre, acolhendo a singularidade de cada um, há possibilidade de uma interlocução entre instituição, clínica e psicanálise. Na enfermagem, atribuímos grande valor ao saber estruturado, servindo para fundamentar as impressões, elaborar planos de cuidado, apostando na certeza de que estamos fazendo o ‘melhor’ para o trabalhador. Muitos trabalhadores chegam ao serviço de saúde com um pedido de alívio e apaziguamento para o sofrimento que está lhe P á g i n a | 149 afligindo. Mas com a psicanálise essa queixa inicial pode se deslocada para o sujeito questionar seu próprio sintoma. Isto porque, diferente das ofertas disponibilizadas pelo mercado capitalista e pela ciência, a psicanálise não busca tamponar a falta. Sob a orientação de que estas medidas de alívio são apenas paliativas, sendo necessário, portanto, construir um novo modo de lidar com o seu sofrimento. Desse modo, a ética da psicanálise, como ética do desejo, não se atém às experiências moralizantes. Por exemplo, se a fala do trabalhador é tida como fingimento ou não, preguiça ou desculpa para não ir trabalhar, mas volta-se para o desejo daquele que fala. No discurso psicanalítico não se trata de dar sentido ao sintoma, pois como disse Lacan é disso que o sintoma se alimenta. Aquele que escuta e que assume uma posição de analista visa, antes, a uma desarrumação do sentido, uma destituição daquilo que sustenta a face simbólica do sintoma. Por isso a necessidade do próprio enfermeiro, ao optar pela via da análise pessoal, ser convocado a trabalhar, não somente exercendo a profissão, mas a um trabalho psíquico. Perlaborar suas próprias questões para que este possa fazer do seu desejo um ‘desejo prevenido’. Ele sabe que não pode desejar pelo seu paciente. Nem mesmo desejar seu “bem” (eliminação dos seus sintomas, ou que ele volte ao trabalho, por exemplo). Desse modo, qualquer coisa que o enfermeiro (analista) ofereça para tamponar a falta só vai impedir que o próprio sujeito elabore seu desejo. Esta posição do enfermeiro, implicada na análise pessoal, permitirá que o trabalhador que chega ao serviço possa também fazer uma ‘travessia’ de seu próprio sintoma. Pois, a associação livre é uma espécie de ‘trabalho forçado’, assemelhando-se a um ‘operário especializado’. Mas é um trabalho que, também, ao ocorrer do lado daquele que fala, é frustrante, na medida em que há uma distância entre aquilo que o sujeito quer dizer e aquilo que ele efetivamente diz. Entre elaborar e perlaborar há uma estrada a percorrer: prazer, sofrimento, gozo. Como resultado, nessa direção de quem não tem todas as respostas para o sofrimento psíquico do trabalhador que procura o serviço tem-se um cuidado pautado por uma ética de sustentação do suposto ‘não saber’. Tal como foi discutido anteriormente, não buscamos apontar a obrigatoriedade da formação do enfermeiro em uma espécie de ‘especialização em psicanálise’. Esta não ocorre em um espaço acadêmico. Também, entendemos que não é possível implantar uma forma de serviço que vá contra o modelo biomédico de assistência, negando e/ou desvalorizando as contribuições e a importância desse saber para o campo da saúde mental e trabalho. P á g i n a | 150 Não se trata disso, não é sobre isso que fundamentamos nossa pesquisa. Porém, pensamos ser possível através das nossas pontuações, que o enfermeiro que atua na assistência, gerência, pesquisa ou ensino, reconheça o trabalhador em sofrimento psíquico enquanto sujeito singular de existência, considerando sua posição subjetiva, que por vezes aparece apenas marcada pelo discurso médico-científico e capitalista. A partir dos ensaios metapsicológicos, compreendemos que a psicanálise pode contribuir para o cuidado clínico de enfermagem na medida em que mais do que uma clínica factual, pronta em seu saber, ela valoriza a subjetividade do sujeito e o “nãosaber”, portanto, uma clínica disposta a se reconstruir a cada escuta realizada com o trabalhador em sofrimento psíquico. Uma clínica de aprendizado, onde quem toma lugar de sujeito é aquele que vem se queixar de seu sofrimento. Desse modo, apesar de todo o saber estruturado que permeia o campo da enfermagem é a fala do paciente que deve ser valorizada. Se não cabe aos cursos de graduação e pós-graduação em enfermagem a responsabilidade de inserir discussões psicanalíticas, os mesmos não se isentam da reprodução de saberes que recortam o sujeito em físico-psíquico, sujeito-trabalhador. Nesta perspectiva, a psicanálise pode estabelecer novas relações entre o cuidado clínico de enfermagem e atenção à saúde mental do trabalhador, comprometidos com a criação de espaços onde a subjetividade, a fala do trabalhador e a sua história de vida possam ser também tratadas como elementos importantes para a formulação dos planos de cuidado em enfermagem, proporcionando discussões mais intensas sobre o cuidado subjetivo aos trabalhadores em sofrimento psíquico e, consequentemente, propor a ressignificação das intervenções no tratamento terapêutico desses trabalhadores. Por fim, não estamos propondo a escuta psicanalítica como um modelo de intervenção direcionado à atenção à saúde do trabalhador. Até porque como já havíamos dito a psicanálise refere-se à clínica do sujeito e não a uma clínica que atua conforme um recorte de saber sobre o sujeito – saúde do trabalhador, saúde da mulher, saúde do idoso. No entanto, apostamos que a escuta fundamentada nos estudos psicanalíticos pode permitir que o enfermeiro saia de sua posição de detentor do saber e abra uma chance para que cada um trabalhe(a)dor. Além disso, entendemos que esse assunto não se esgota com este ‘trabalho’, tendo em vista a insuficiência de discussões que fomentam a produção de conhecimento da enfermagem na atenção a saúde mental do trabalhador e a clínica do sujeito. No entanto, ao final desta experiência, pudemos perceber que este trabalho pode contribuir P á g i n a | 151 de alguma forma para explorar novos caminhos em direção a um agir mais reflexivo no âmbito do cuidar clínico de enfermagem aos trabalhadores que chegam ao serviço com queixa de sofrimento psíquico. Desejamos que novos furos apareçam, e que eles nos conduzam a um ‘não saber’. Talvez, eles já bateram novamente à porta. Continuamos a ‘elaborar’. P á g i n a | 152 REFERÊNCIAS ALBERTI, S. O sintoma entre Marx e Lacan. 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Estudo de Caso, planejamento e métodos. 2.ed. São Paulo: P á g i n a | 164 APÊNDICE A TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE) Este é um convite para você participar da pesquisa de mestrado: “Cuidado Clínico de Enfermagem aos Trabalhadores em Sofrimento Psíquico: interface com a psicanálise” realizada pela enfermeira Rúbia Mara Maia Feitosa e sob coordenação da professora Drª Lia Carneiro Silveira. Sua participação é voluntária, o que significa que você poderá desistir a qualquer momento, retirando seu consentimento, sem que isso lhe traga nenhum prejuízo para o senhor(a) ou seus familiares. Essa pesquisa busca compreender como se configura a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho na perspectiva da singularidade do trabalhador. Caso decida aceitar o convite, você será submetido(a) ao(s) seguinte(s) procedimento(s): entrevista aberta, na qual será feita a seguinte indagação “Fale-me sobre o que levou a buscar atendimento no serviço”. Os riscos que podem advir da pesquisa estão relacionados ao constrangimento, inibição inicial ou desconforto em falar sobre o seu sofrimento que serão minimizados através das seguintes providências: escolha de um local agradável para a participação da pesquisa, esclarecimento de quaisquer dúvidas e o tempo que você necessitar. A sua participação nessa pesquisa gerará benefícios, pois a escuta pode se constituir em um dos elementos terapêuticos. Todas as informações obtidas serão sigilosas e seu nome não será identificado em nenhum momento. Os dados serão gravados, guardados em local seguro e a divulgação dos resultados será feita de forma a não identificar os voluntários. Se você tiver algum gasto que seja devido à sua participação na pesquisa, você será ressarcido, caso solicite, sendo avaliados os motivos expostos. Você ficará com uma cópia deste Termo e toda a dúvida que você tiver a respeito desta pesquisa, poderá perguntar diretamente para Rúbia Mara Maia Feitosa, nos telefones: (84) 91445262. Dúvidas a respeito da ética dessa pesquisa poderão ser questionadas ao Comitê de Ética em Pesquisa da UnP, no endereço Av. Salgado Filho, 1597 – Dix-Sept Rosado, Natal/RN. Consentimento Livre e Esclarecido: Declaro que compreendi os objetivos desta pesquisa, como ela será realizada, os riscos e benefícios envolvidos e concordo em participar voluntariamente da pesquisa. Assinatura do participante da pesquisa: __________________________________ Impressão Datiloscópica Responsável pela Pesquisa: Rúbia Mara Maia Feitosa E-mail: [email protected]; [email protected]