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1 INTRODUÇÃO
“Quantas vezes ela quer saber, o que não sei
explicar que a linha que vagueia, ainda não
pode ser usada para bordar”.
Inicialmente, busco escrever um texto, não um texto qualquer, mas algo que ao
longo dos anos veio despertando em mim inquietações, formando teias em busca de
novos caminhos e saberes.
Em 2008, após a conclusão no Curso de Graduação em Enfermagem da
Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), iniciei minha atividade na
docência de uma universidade particular. Ao entrar na academia passei a perceber a
necessidade de ter uma “linha” profissional claramente definida. Se antes não tinha uma
preocupação em nomeá-la, agora era necessário dentro do espaço acadêmico, conforme
a própria organização do ensino, deliberar o perfil de docente que você tem.
Assim, dentro da minha trajetória docente, duas perguntas me provocavam
inquietações: qual é a sua linha de atuação? E qual a sua experiência prática?
Entretanto, mesmo sem ter uma prática em serviços de saúde, isso não implicava que eu
pudesse discutir, a partir de minhas vivências – estágios, preceptoria – a linha tênue
sobre a clínica e o cuidado de enfermagem ofertado aos usuários. Neste momento,
transcrevo algumas palavras escritas durante o processo de inquietação, que na verdade
se referem mais ao que sentia, do que propriamente constituem uma resposta elaborada:
“quantas vezes ela quer saber, o que não sei explicar que a linha que vagueia, ainda
não pode ser usada para bordar”.
Foi nesse período que iniciei duas especializações. A primeira delas foi mais
uma forma de buscar uma resposta imediata, academicamente falando, para ter um título
de especialista e, posteriormente, tentar definir uma linha de atuação/pesquisa.
Essas duas perguntas se repetiram e, de forma intensa, após a inscrição na
seleção do Programa Mestrado Acadêmica Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde
(PMACCLIS) da Universidade Estadual do Ceará (UECE). Pois, a área destinada à
seleção foi “Psicanálise em Saúde: interfaces com a clínica do sujeito”. A partir daí,
uma parcela das pessoas aconselhavam a mudar de área, pois não ter experiência no
campo da saúde mental não qualificava a minha escolha para a discussão sobre a
psicanálise. Uma vez fora desse campo específico de atuação, a psicanálise não tinha
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relação com a prática da enfermagem. E como ouvi dizer: “não tem nada a ver com
você”.
As dúvidas dos outros me traziam algumas incertezas. Mas a conclusão foi a que
a linha antes não pensada e tão pouco titulada poderia ser agora tecida e bordada e,
assim, a escolha se manteve, na primeira e segunda tentativa do mestrado. Existiam
elementos que me moviam na busca de querer ler sobre aquilo. Havia simplesmente o
desejo.
Ao ler textos sobre a psicanálise sentia, percebia que a discussão não era
circunscrita a um espaço de atuação – saúde mental. Ela está presente em qualquer
contexto das nossas vidas, naquilo que nos move e que se presentifica nas nossas
escolhas – nas relações amorosas, familiares, nas amizades e, também no trabalho. É
esta última que se manifesta de um modo singular na minha implicação quanto à opção
da tal “linha” de atuação que, ao longo dos anos, vagueava.
Não se trata de pôr aqui a psicanálise a um título ou status de uma linha
acadêmica, até porque não podemos reportá-la a um conhecimento que se busca no
espaço acadêmico, mas de afirmar que a minha escolha se fez a partir do desejo. Mas
um desejo que não pode ser facilmente explicado em palavras, não se trata
simplesmente de algo a ser realizado, mas de uma falta nunca realizada. Um desejo
inconsciente.
Assim, meu interesse no sofrimento psíquico do trabalhador como objeto de
estudo aconteceu quando, ao participar de encontros e discussões sobre as experiências
de psicanalistas na clínica, comecei a fazer indagações direcionadas à temática e que
fugiam habitualmente ao que havia aprendido no curso de especialização em
enfermagem do trabalho (nexo causal, medidas preventivas e o diagnóstico médico):
Como se configura a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho na
perspectiva da singularidade do trabalhador?
O referencial da psicanálise, ao propor a subversão do sujeito cartesiano, pode
trazer outras possibilidades para a prática da enfermagem, independente da
especialidade: saúde da mulher, saúde idoso, saúde do trabalhador dentre outras. Pois, a
psicanálise refere-se à clínica do sujeito e não a uma clínica que atua conforme um
recorte de saber sobre o sujeito. Dessa forma, a psicanálise nos possibilita perceber que
aquele de quem cuidamos merece muito mais que um toque gélido de um estetoscópio
ou de um olhar ágil para descrever os sinais e sintomas da doença manifesta no corpo.
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Remete a sair da condição de detentor do saber, do especialista, escutar aquilo que se
diz para além da demanda.
Na Idade Moderna, concomitante às mudanças produzidas pelas transformações
da industrialização, um processo de eliminação da dimensão subjetiva do trabalhador foi
iniciado para que o exercício da função proposta pela empresa fosse cumprido, gerando
assim um comportamento modelado e adaptado do trabalhador. Um exemplo disso pode
ser percebido no cinema com o clássico “Tempos Modernos” de Charlie Chaplin, um
filme mudo que abordou a sensibilidade dos operários ao sofrimento, onde a
personagem robotizou-se para atuar na incansável linha de montagem. Percebemos,
então, o trabalhador cooptado numa engrenagem onde ele passa a ser reconhecido por
sua eficiência, eficácia e pela capacidade de administrar o tempo, gerando dinheiro:
“time is money”.
Homens sem identidade, sem singularidade, considerados simples engrenagem
do trabalho. Fato que acabou gerando o que Dejours (1992) denominou como sendo
sentimento de robotização, ou seja, devido à supressão da subjetividade, o trabalhador
não se sente nada mais que um apêndice da máquina ou dos processos a que se submete.
Assim, cada movimento no ponteiro do relógio marcou a eliminação da subjetividade
do trabalhador por meio do controle dos corpos separados da sua dimensão psíquica.
Essa acepção tributária do pensamento moderno nasce no século XVII, com o
advento da medicina científica, onde novas formas de conhecimento e novas práticas
institucionais tornaram o paciente desvinculado do seu sofrimento. Nessa época, para
conhecer a “verdade do fato patológico”, o médico precisou abstrair o sujeito, pois sua
disposição, temperamento, fala, idade, modos de vida perturbavam a identificação da
doença, segundo o desenho nosográfico preestabelecido.
Ademais, esse significado tem se tornado mais uma característica da prática
clínica dos profissionais da saúde em que a fala do paciente, a sua queixa subjetiva é
considerada, como diz Simanke (2002) desencaminhadora. Pois, o foco é encontrar uma
lesão em um órgão, e não valorizar os padecimentos do sujeito. Portanto, mais que uma
relação de causa e efeito entre lesão e doença, esta passa a assumir a posição de
identidade: doença é lesão.
O campo da psiquiatria nasce para tentar buscar essa mesma relação
anatomopatológica para o seu objeto, a doença mental. No entanto, trata-se de uma
situação paradoxal, pois se precisou lançar mão de uma causalidade orgânica para
justificar as alterações patológicas para algo que é da esfera psíquica: nervos
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enrijecidos, rompidos, desgastados ou não. Tentativas de “decompor” o sofrimento
psíquico em seus elementos de base para, a partir dai, compreendê-los, classificá-los,
estudá-los e tratá-los.
Dessa forma, influenciados pelo modelo biomédico, a linha divisória entre a
sanidade e o adoecimento passa a existir, na tentativa de que a lógica médica pudesse
isolar a pluralidade dos modos de subjetivação encontrados na relação estabelecida
entre o trabalho e o sofrimento psíquico dos trabalhadores.
Atualmente, percebemos que essa busca por uma causalidade orgânica para
fenômenos psíquicos ainda prevalece, muita embora os estudos desenvolvidos se
mostrem bastante inconclusivos. No plano da literatura acadêmica, percebemos que se
sobressaem também estudos que visam a explicar o sofrimento psíquico pelo viés do
estresse e desgaste mental dos trabalhadores. Referenciais que, ao longo do tempo,
depararam-se com a ineficiência das estratégias preventivas que tinham o foco de
“moldarem” os trabalhadores aos perfis de excelência profissional que lhes são
exigidos.
No Brasil, o termo Saúde do Trabalhador surge no bojo do Movimento pela
Reforma Sanitária que se intensificou no país a partir da década de 1980. A união dos
esforços de técnicos de saúde ligados às universidades, ao Ministério da Saúde (MS),
juntamente com a participação dos trabalhadores estabeleceu as bases desse conjunto de
saberes e práticas relacionadas à saúde e ao direito dos trabalhadores (RAMMINGER,
NARDI, 2007).
Apesar de ser um campo que nasce com esse cunho político e libertário,
percebe-se que sua normatização ainda se dá dentro de um modelo medicalizante, que
reduz a complexidade dos quadros a um referencial de doença. Prova disso, por
exemplo, é a atual portaria que regulamenta as ações de saúde do trabalhador (Nº
1339/GM de 18 de novembro de 1999, que institui a Lista de Doenças relacionadas ao
Trabalho, a ser adotada como referência dos agravos originados no processo de trabalho
no Sistema Único de Saúde, para uso clínico e epidemiológico). Nela, os fenômenos
que dizem respeito à saúde mental do trabalhador ainda são categorizados em
“transtornos mentais e do comportamento”. Situações variadas como um fracasso, um
acidente de trabalho, uma mudança de posição (ascensão ou queda) na hierarquia são
enquadradas em diagnósticos médicos que não dão conta da complexidade da situação.
Outro ponto bastante discutido acerca da elaboração das políticas de saúde do
trabalhador refere-se à complexidade para se estabelecer o nexo causal das doenças
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relacionadas com o trabalho, principalmente quando se envolvem doenças que não
apresentam base orgânica. Retornamos aí ao cerne da discussão anteriormente apontada,
que diz respeito às dificuldades que a psiquiatria encontra de situar o seu objeto (a
doença mental) dentro de um modelo que concebe a doença como alteração no corpo.
É por acreditarmos que o trabalho ocupa mais que um espaço concreto, físico ou
técnico na vida dos sujeitos, sendo também um ambiente subjetivo – relação do sujeito
com seu trabalho – que nos impulsionou a debruçar novos olhares sobre uma temática
ainda pouco explorada: trabalho e a dimensão psíquica. Foi a psicanálise que nos
apresentou esta outra face do trabalho, instigadora e complexa, e que nos abre novas
perspectivas de compreensão desta.
A partir do encontro com as leituras que fomos desenvolvendo percebemos que
existe um campo da produção acadêmica preocupado em resgatar essa dimensão da
subjetividade do trabalhador, pautada numa nova concepção sobre a relação entre
trabalho e o sofrimento psíquico. Trata-se de um campo onde se considera o sofrimento
e trabalho em sua relação com a significação e com as maneiras como esse sofrimento é
vivenciado pelo trabalhador.
Foi especialmente após 1980, mediante a introdução dos estudos de Christophe
Dejours com pesquisas sobre a Psicodinâmica do Trabalho, que se percebe que o
trabalho não se configura apenas como uma atividade técnica, porém é uma atividade
direcionada ao outro: “trabalhamos sempre para alguém, para um patrão, para um chefe,
para nossos subordinados, para nossos colegas” (DEJOURS, 2012, p.47).
Assim, Dejours propôs agora explicar as relações do trabalhador com esse
sofrimento, suas formas de defesa e, como o trabalho pode-se constituir um agravante a
sua saúde. Para o referido autor as relações de trabalho, dentro das organizações,
frequentemente, despojam o trabalhador de sua subjetividade, excluindo o sujeito de sua
história de vida.
Neste aporte, tenta-se buscar novos referenciais para explorar a relação entre o
sofrimento psíquico e trabalho sem pautar-se, unicamente, pelo olhar clínico dirigido
para o corpo, representado como lugar da doença. Romper com as camisas de força que
prezam pelo silenciamento do paciente que, em vão, tentava falar de seu sofrimento, que
não era só físico, e daquilo que imaginava ser o seu mal (FOCAULT, 1994).
Se, muitas vezes, não se encontra respaldo tecnológico suficiente para
comprovar a lesão orgânica em determinados processos de adoecimento entre
trabalhadores, no campo do sofrimento psíquico e trabalho a dificuldade se torna ainda
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maior, na medida em que não está dado esse caráter palpável, ou melhor dizendo,
relativamente visível, encontrado nos problemas que atingem diretamente o corpo. Isso
porque, entre outras coisas, “não é possível quantificar a vivência, não se é mensurável
a carga psíquica do trabalho, que é em primeiro lugar qualitativa, mas é real enquanto
vivência articulada às exigências ou pressões do trabalho cotidiano” (DEJOURS, 1992,
p.37).
Ressaltamos que a Psicodinâmica do Trabalho influenciada pelo referencial da
psicanálise, trouxe grandes contribuições para o estudo do sofrimento psíquico do
trabalhador, ao enfatizar a vivência e a subjetividade do mesmo. Entretanto, Dejours
ainda utiliza-se do conceito de normalidade constituído de múltiplas determinações
subjetivas e objetivas para explicar o sofrimento psíquico do trabalhador. Portanto, o
que interessa nessa abordagem é conseguir compreender como os trabalhadores podem
manter certo “equilíbrio psíquico”, mesmo estando submetidos a condições de trabalho
“desestruturantes”.
Embora a Psicodinâmica tenha seus méritos, apontamos dentro do próprio corpo
teórico algumas limitações no que diz respeito à sua interseção com os conceitos
psicanalíticos. Isso será apresentado nos capítulos do nosso trabalho, onde percebemos
que a abordagem da psicodinâmica não rompe com um ideal de normalidade,
permanecendo ainda pautada no modelo da doença.
A psicanálise, por sua vez, promove uma ruptura radical com esse modelo de
clínica pautado na doença e na normalidade. Com o olhar da psicanálise busca-se sair
do circuito causal doença-sintoma, para pensar que o sintoma está para além da
denúncia de uma alteração orgânica. Embora possa corresponder ao adoecimento no
corpo, é como sinal de um conflito inconsciente que cumpre com a função de
organização de um sujeito, ou seja, o sintoma, além de trazer uma possibilidade de o
sujeito se defrontar com o desejo recalcado, pode representá-lo na medida em que nele
se encontra a expressão do desejo.
Além disso, a psicanálise lida com aquilo que afeta o sujeito tomando-o na
singularidade de cada caso, considerando a história de vida, a posição subjetiva de cada
sujeito/trabalhador. Nesta perspectiva, compreende-se que o individual e o coletivo não
são dois campos independentes. São antes costurados pelo fenômeno da linguagem
como causa material. Conforme Quinet (2008) é através da fala que o sujeito surgirá
como efeito de linguagem, efeito único, singular em cada homem. Esse efeito diz sobre
a lógica de uma cadeia de significantes que é construída para cada um de uma maneira,
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pois as marcas que cada homem carrega são também restritas à sua existência. É a
linguagem também que está na base da construção da civilização, é apenas através dela
que o homem pode ir além da natureza, realizando todas as produções culturais.
Esses processos de adoecimento sem base orgânica, a que se convencionou
chamar de sofrimento psíquico, chamaram atenção de um médico vienense no começo
do século XX. Freud funda a psicanálise ao escutar as pacientes histéricas e verificar
que suas queixas eram determinadas por outra lógica, a lógica do inconsciente. Foi a
partir da interrogação de Freud sobre os sintomas histéricos que o levou a postular uma
causalidade psíquica e indicar o papel da representação mental no inconsciente atuando
no corpo. O avanço nessa teoria constituiu um rompimento com os estudos da
psiquiatria clássica, e lhe possibilitou descobrir a origem psíquica do sintoma histérico,
sustentando a determinação simbólica e sexual figurada na fantasia histérica.
Para a psicanálise o sintoma revela não a verdade da doença, mas a verdade do
sujeito inconsciente, pois busca apreender no sintoma o desejo inconsciente
indestrutível. Por isso, não há como eliminá-lo, pretensão da medicina científica que por
meio da medicalização tenta, muitas vezes, anular ou mascarar o sintoma. Se o sintoma
é constituição de desejo reprimido e o desejo é fundado pela falta, ele não se desfaz
completamente. Há sempre um resquício de sua marca, ele sempre retorna com um a
mais.
Existe algo para além da doença que pode ser pensado por um viés diferente.
Para além do sujeito cartesiano, do “penso, logo sou”, existe uma dimensão que é
inconsciente e que perpassa diretamente tudo que vivenciamos. Segundo Quinet (2008),
o inconsciente pode ser acessado por seus efeitos nos sonhos, nos lapsos, nos atos
falhos, nos chistes e no sintoma.
Falar do trabalho implica ter presente esse horizonte para podermos entender a
realidade subjetiva vivida pelo trabalhador em sua forma singular de sofrimento, prazer,
adoecimento. Dessa forma, ao utilizar os referenciais teórico-metodológicos da
psicanálise, não se busca encontrar, certamente, aportes para a cura do sofrimento
psíquico e nem a tentativa de atribuir ao trabalho o papel de único determinante do
sofrimento. A nossa pergunta com embasamento psicanalítico foi feita a partir de outra
formulação: como se configura a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho
na perspectiva da singularidade do trabalhador?
Portanto, não se trata de importar o conceito de trabalho discutido em outras
áreas e aplicá-lo dentro de uma discussão psicanalítica, pois não é o problema
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epistemológico que nos interessa; não se trata de compreender o trabalho enquanto
“espaço” de sofrimento psíquico para cada sujeito, reproduzindo a concepção de que o
trabalho adoece, e também não tem a preocupação de responder o que é Saúde do
Trabalhador, mas pensar como a subjetividade se insere no contexto do trabalho.
O que nos interessa é como se configura o sofrimento psíquico na singularidade
de cada trabalhador, permitindo que ele possa falar sobre aquilo que o aflige. E mostrar
na escuta desse discurso que, embora os trabalhadores possam ser diagnosticados como
adoecidos pelo trabalho, há outra questão aí implicada. E conforme Freud, ao escutar a
história desses sujeitos, poderemos perceber que o trabalho entra como um dos
elementos em jogo ou pode ser o pilar para todas as situações se deflagrarem.
Assim, objetivamos com esse estudo compreender como se configura a queixa
de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho na perspectiva da singularidade do
trabalhador. Para isso, procuramos, através de dois estudos de caso, identificar o que
levou cada trabalhador com queixas sem base orgânica a buscar o atendimento em
saúde do trabalhador, buscando articular essa queixa aos significantes que surgem em
seu discurso. Em seguida, realizamos a escrita do ensaio metapsicológico, onde
convocamos os conceitos psicanalíticos para dialogar com o que foi extraído das
narrativas dos entrevistados. Por fim, destacamos algumas contribuições do referencial
da psicanálise para o cuidado clínico de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento
psíquico.
Portanto, é mediante a abordagem da psicanálise que buscamos explorar novas
possibilidades de pensar a relação entre o sofrimento psíquico e o trabalho. Acreditamos
que a leitura do nosso estudo pode colaborar para que o enfermeiro possa repensar suas
atitudes e práticas de cuidado. Entendemos que a psicanálise não é o saber que opera
sobre as demais verdades científicas. Com elas dialoga, explora os caminhos a serem
percorridos, mas sempre se constitui na verdade do sujeito.
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2 O TRABALHO E A SUBJETIVIDADE DO TRABALHADOR
“(…) Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta
vida é um dia de capina com sol quente, que às
vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E
você ainda pode ter muito pedaço bom de
alegria… Cada um tem a sua hora e a sua vez:
você há de ter a sua”
(Grande sertão: veredas)
Ao falarmos sobre o trabalho percebemos que este remonta a uma atividade
muita antiga e inerente ao ser humano. Desde o tempo primitivo essa função aparece
como elemento importante para a vida dos homens. Não é por acaso que, atualmente, as
pessoas passam grande parte do seu tempo envolvidas com as atividades laborais, seja
de maneira direta, indireta, concreta ou sutil. Assim, o trabalho é visto como o centro de
nossa identidade e sociabilidade. No entanto, desenvolvê-lo não garante obter apenas
prazer na sua realização. Muitas vezes, o trabalho torna-se fonte de sofrimento,
adoecimento e insatisfação (BORSOI, 2007).
Tal relação pode ser percebida ao observarmos os aspectos históricos da
evolução do trabalho nas antigas civilizações. Em Roma, o trabalho era destinado e
executado pelas pessoas que haviam perdido a liberdade como, por exemplo, os
escravos. Segundo Ribeiro; Leda (2004) estes carregavam além da dor e humilhação, o
fardo social – subjugado à perda de sua independência e liberdade. Um fardo que não
estava diretamente relacionado à execução do trabalho manual, mas, sobretudo, à
rejeição a sua condição de submissão a outro homem. Assim, neste período, o
significado do trabalho confundia-se com o de sofrimento, castigo, infortúnio.
A origem etimológica da palavra trabalho vem do latim vulgar “tripalium”.
Entretanto, a palavra trabalho, propriamente dita, estava associada ao verbo “tripaliare”
que significava “torturar sobre o tripalium”. O tripalium era um instrumento, de três
paus agudos, munidos com pontas de ferro, utilizados pelas pessoas para bater no trigo,
no milho, no linho para rasgá-los e esfiapá-los (ALBORNOZ, 1994). Contudo, seu uso
habitual estava relacionado ao instrumento de tortura empregado pelos romanos para
obrigar os presos e escravos a trabalhar. Portanto, nesta época, o tripalium era um
suplício substituto ao castigo da cruz, instrumento de tortura do mundo cristão. Assim,
por muito tempo, a palavra trabalho remeteu a uma experiência dolorosa de sofrimento
e castigo (RIBEIRO; LÉDA, 2004).
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Desse modo, sob o contexto do império romano, percebemos que o trabalho era
considerado uma atividade vil, destinada às camadas mais baixas da sociedade. Por isso
mesmo, não necessitava de proteção maior por parte da elite. Difícil imaginarmos a
construção de regras para proteger os escravos contra qualquer tipo de lesão ou doença
resultante do trabalho. Pois, na época era comum os escravos serem mortos ou
multilados por seus donos. Inúmeros escritos mostram o quanto eram frequentes as
deformações físicas advindas do castigo, as doenças em virtude do trabalho pesado e
sequelas oriundas dos maus tratos praticados pelos proprietários de escravos
(SANCHES, 2011).
Mas é também em Roma, conforme Dias (2006), que surge a lei Lex Aquilia
Dammo (286 A.C)1 que dá início a uma das primeiras proteções estabelecidas acerca da
“saúde do trabalhador”. Utilizamos essa expressão por dois motivos. Primeiro porque
nesse período os escravos eram os trabalhadores vigentes da sociedade. Segundo por ter
sido a primeira lei que direcionava a preocupação com a vida dos escravos. Muito
embora o teor da lei não tenha sido construído para o próprio benefício dos escravos,
mas diretamente aos seus donos. Ela regulamentava punições e indenizações aos
prejuízos causados para as pessoas que praticassem a morte injusta do escravo alheio,
seja por danos causados por incêndio, fratura ou qualquer forma de “deterioração”.
Percebemos que os gregos, por sua vez, utilizavam duas palavras para designar o
trabalho. A primeira delas é “ponos”, que está relacionada a esforço e à penalidade, e a
segunda reporta-se ao termo “ergon”, que se refere criação, obra de arte. Nesta
acepção, os gregos estabelecem a diferença entre trabalhar no sentido de penar,
“ponein”, e trabalhar no sentido de criar, “ergazomai”. Percebemos que a contradição
"trabalho-ponos" e "trabalho-ergon" continua central na concepção moderna de
trabalho, ao remeter a uma atividade que pode ser tanto fonte de prazer ou desprazer
(VIEIRA, 2010).
O trabalho na Grécia antiga, assim como em Roma, era visto como algo indigno,
as pessoas que trabalhavam eram vistas de forma preconceituosa. Desse modo, quem
trabalhava era somente a classe considerada abastarda e os escravos. O filósofo
grego Platão demonstrou esta visão: “É próprio de um homem bem-nascido desprezar o
trabalho”. Logo, os cidadãos gregos valorizavam apenas as atividades intelectuais,
1
A lei Lex Aquilia dammo estabeleceu as bases da responsabilidade extracontratual, criando formas
pecuniárias de proteção (DINIZ, 2005).
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artísticas e políticas. Os trabalhos nos campos, nas minas de minérios, nas olarias e na
construção civil, por exemplo, eram executados por escravos (RIBEIRO; LÉDA, 2004,
p. 76).
Percebemos que entre essas duas civilizações existem algumas semelhanças,
mas também diferenças conceituais sobre o modo de conceber e de operar o trabalho.
Como abordam Araújo; Sachuck (2007), na sociedade grega o trabalho era visto em
função do produto e este, por sua vez, em função de sua utilidade ou capacidade de
satisfazer à necessidade humana. O que contava era o valor de uso e não o valor de
troca, isto é, o valor de uma mercadoria em relação às outras.
Na Idade Média, encontramos o sistema feudal como estrutura predominante da
sociedade. Nesse período surgiu uma nova classe social representada pelos senhores
feudais, que centravam a riqueza a partir do acúmulo de propriedades de terra. Há nesse
período a substituição do trabalho escravo pela relação senhor – servo. Os servos eram
os trabalhadores rurais que estavam vinculados à terra, formando a classe mais baixa da
sociedade feudal.
Diferente dos escravos, os servos não eram propriedade de ninguém e não
podiam ser vendidos. Entretanto, a servidão implicou um trabalho forçado, desgastante
e penoso nos campos de terra dos senhores feudais em troca de proteção, moradia e do
direito de arrendar pequeno lote de terra para a sua subsistência – suprimento necessário
para se alimentarem e sobreviverem.
Portanto, os servos estavam vinculados à terra pelo trabalho, não tinham direito
a salários ou benefícios. Ademais, do trabalho na terra, os servos executavam diversas
atividades relacionadas com a agricultura, artesanato e a comercialização dos produtos
mais baseada no escambo, embora houvesse moedas, mas eram poucas e estas
divergiam de feudo para feudo (RIBEIRO; LÉDA, 2004).
Sob o olhar histórico percebemos que o trabalhador, representado na figura do
escravo e do servo era, na verdade, tido pela sociedade como animal e/ou ferramenta
destinada para a vida laboral. Eram homens sem história, sem perspectiva, sem
esperança de uma vida longínqua, até que, consumidos seus corpos, pudessem se
“libertar”. Portanto, independente da conceituação de ser escravo ou servo, o trabalho
permanece ligado à indignidade social, cuja ocupação permitia às demais classes sociais
realizar atividades valorativas como, por exemplo, orar ou fazer guerra. O fato é que a
subsistência humana sempre esteve condicionada a realizar um trabalho; mesmo aquele
que não o faz diretamente certamente deverá ter alguém que o faça.
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Outro ponto que podemos destacar, ao percorrer a evolução histórica do trabalho
nas principais civilizações, é que este não era visto como possível fonte de riqueza.
Mais tarde, com a Revolução Industrial e a consolidação do capitalismo passou-se a
fazer uma diferenciação acentuada entre o trabalho qualificado e o não qualificado,
entre o produtivo e o não produtivo, entre aquele gerador ou não de riquezas,
aprofundando-se a distinção entre trabalho manual e intelectual (MINAYO-GOMEZ;
THEDIM-COSTA, 1997).
Enquanto na Idade Média a forma de produção estava baseada no artesanato e na
livre expressão, na Idade Moderna, século VXIII, com a Revolução Industrial surgem
profundas alterações quanto à forma de produzir e conceber as etapas que compõem o
trabalho. São mudanças no processo produtivo em nível econômico, político e social
que, posteriormente, passaram a ocorrer nos países subdesenvolvidos (RIBEIRO;
LÉDA, 2004).
Com a ascensão dos ideais capitalistas, outra forma de perceber o trabalho
passou a vigorar, concebendo-o não mais como uma ocupação servil e relacionada ao
sofrimento, mas, conforme as ideias de Marx, longe de pretender escravizar o homem, o
trabalho permite o seu desenvolvimento, preenche sua vida e, conforme Albornoz
(1994, p.59) “transforma-se em condição necessária para a sua liberdade”. O que antes
era um fardo se torna um instrumento de independência e satisfação.
Dessa forma, percebemos que a "experiência” de trabalhar, ao longo da
existência humana, é marcada por paradoxos. Antunes (2005, p. 37), ao tecer um
conceito do trabalho explicita nele os sentidos paradoxais: manifestação de “vida e
degradação, criação e infelicidade, atividade vital e escravidão, felicidade social e
servidão. (...) catarse e martírio”. Algo que veremos se tornará bastante marcante no
contexto da contemporaneidade.
Ao consultarmos o Dicionário Básico de Filosofia (2001) sobre o conceito de
trabalho, este menciona que ele constitui uma atividade pela qual o homem modifica o
mundo, a natureza, de forma consciente e voluntária, como meio de satisfazer as suas
necessidades básicas – alimentação, habitação, vestimenta e etc. Assim, destacamos a
concepção de Marx, expressa na sua obra “O Capital” (1989, p. 47) ao retratar o
trabalho como sendo “a condição indispensável da existência do homem”,
configurando-se como uma necessidade eterna, mediador da circulação material entre o
homem e a natureza.
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Ao olharmos criticamente as concepções do trabalho sob a ótica do capitalismo,
percebemos que ele traz consigo uma série de contradições, cada vez mais arguciosas.
Pois, ao mesmo tempo em que o trabalho tem sido compreendido enquanto fonte de
humanização e identidade do ser social, também contribui para a degradação e alienação
do homem, um ser estranho a si mesmo, que apenas trabalha para atender as
necessidades do capital.
Sobre o capitalismo, Marx (1989), descreveu as implicações dessa contradição
para o trabalhador. Na verdade conforme o modelo político e econômico vigente sai de
cena o trabalhador para existir enquanto condição de mercadoria. Vejamos:
O trabalhador se torna tão mais pobre quanto mais riqueza produz,
quanto mais a sua produção aumenta em poder e extensão. O
trabalhador se torna uma mercadoria tão mais barata quanto mais
mercadoria cria. Com a valorização do mundo das coisas aumenta em
proporção direta a desvalorização do mundo dos homens. O trabalho
não produz só mercadorias; produz a si mesmo e ao trabalhador como
uma mercadoria (MARX, 1989, p. 148).
Diferente do que acontecia na Idade Média, quando os artesãos eram detentores
de todas as etapas do seu trabalho, portanto conhecedores do seu produto final. Com o
capitalismo, o produto do trabalho aparece, no final, como algo alheio ou estranho ao
trabalhador, como um objeto que não lhe pertence.
Neste período, sob a lógica do capital, o trabalho passa a ser regido por um lema
bastante significativo que traduz a preocupação com a produtividade. Tempo livre não
existe ou é escasso. Ao abordar de outro modo podemos dizer que não se deve de forma
alguma desperdiçá-lo. O lema, portanto, se configura em "tempo é dinheiro". Nesta
acepção a racionalização passa a ser a palavra mais repetida no capitalismo. A
programação e o controle são determinantes, tudo é calculado, preciso. O cronômetro
entra no ambiente de trabalho, apodera-se dele e torna-se um instrumento basilar para
disciplinar a conduta, os corpos e a subjetividade dos trabalhadores.
Nesta perspectiva, Christophe Dejours, em seu livro “A loucura do trabalho:
estudo de psicopatologia do trabalho”, (1992) assinala um período em que a
preocupação dos donos dos meios de produção estava direcionada em manter o
progresso industrial. Por outro lado, as condições de trabalho eram péssimas, os salários
dos trabalhadores eram baixos, jornadas de trabalho extensivas (12 a 15 horas),
ambientes insalubres, falta de higiene, promiscuidade, subalimentação, inúmeros
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acidentes e doenças advindas do trabalho. Sem mencionar que o despotismo fabril agia
em agressões físicas, ameaças, castigos, multas e demissões.
Aliás, a intensidade das exigências de trabalho e de vida ameaçava a própria
mão de obra. Dessa forma, ficava extremamente difícil para os trabalhadores manter o
ritmo e a produtividade das empresas, pois os mesmos estavam inseridos, à época,
naquilo que a literatura mundial chamava de “miséria operária”. Pois, a fome e a
miséria não tardaram para assolar a classe trabalhadora, assim como inúmeras doenças
como a cólera, tuberculose, varíola e o tifo. Tal quadro levou à morte de milhares de
trabalhadores pobres (DEJOURS, 1992).
Os trabalhadores, ainda conforme o autor supracitado, acreditando na mensagem
ideológica do capitalismo de que quanto mais trabalhassem, um dia seriam
recompensados e passariam a ganhar mais, submetiam-se à exploração máxima dos
donos das fábricas, acabavam por insistir e labutavam dia após dia. Porém, muitos
outros, desiludidos e desmoralizados pela extrema exploração e o constante
empobrecimento, caíam no alcoolismo, demência, suicídio e as mulheres, na
prostituição ou, em muitos outros casos, buscavam refugiar-se na promiscuidade. Por
outro lado, pequenos grupos de trabalhadores tentavam as revoltas armadas e as
rebeliões contra as condições de trabalho.
Como caracteriza Dejours (1992, p.14) em vista do quadro ao qual o trabalhador
do século XIX estava submetido não cabia falar de “saúde”. Antes se fazia necessário
pensar e assegurar a sua subsistência, independente da doença. Pois, “a luta pela saúde
nesta época identifica-se com a luta pela sobrevivência, viver para o operário é não
morrer”. Ainda nessa acepção, Karl Marx chegou a escrever em veículos de
comunicação da época que, se pudessem, os trabalhadores fugiam do trabalho como se
fosse a própria peste; na verdade, a peste dos trabalhadores era o próprio trabalho.
A partir da obra de Marx, “O Capital” (1989, p. 482), percebemos a
vulnerabilidade e as condições de trabalho ao qual estavam submetidos os
trabalhadores, principalmente as mulheres e as crianças, que representavam grande parte
da mão de obra presente durante o período de desenvolvimento da indústria têxtil na
Inglaterra. Ao se reportar ao trabalho infantil, esse autor descreve os riscos a que as
crianças estavam expostas: "A maioria dos acidentes atinge crianças que se arrastam
embaixo das máquinas para varrer o chão, enquanto elas estão em movimento”.
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Ao retratar as condições de trabalho das mulheres, Marx citando o relatório do
Inspetor de Fábrica Saunders, de 1844, revela a situação de trabalho às quais elas
estavam entregues, destacando, dentre outros fatores, a longa jornada de trabalho.
Entre as mulheres operárias, há mulheres que trabalham muitas
semanas seguidas, com exceção de alguns dias, de 6 da manhã até
meia-noite, com menos de 2 horas para refeições, de modo que, em 5
dias na semana, só dispõem de 6 horas das 24, a fim de ir para casa,
dormir e voltar (MARX, 1989, p. 460).
Nessas condições de trabalho sucediam-se inúmeros e graves acidentes como
amputações e fraturas de membros, queimaduras e intoxicações. Começavam a surgir
diversos tipos de doenças ocupacionais que acometiam os trabalhadores, levando à
morte inúmeros deles, em virtude de doenças cutâneas, cardíacas, respiratórias e aquela
que despertaria mais tarde fortes discussões, a saúde mental dos trabalhadores
(MERLO; LAPIS, 2007).
Posteriormente, por volta do século XIX, concentrações dos trabalhadores
começam a se fortalecer, por intermédio das câmaras, associações e os partidos
políticos, dando ao movimento dos trabalhadores uma dimensão significativa. As
reivindicações dos trabalhadores chegam a um nível propriamente político. E as suas
lutas neste período histórico compreenderam os principais objetivos: redução da jornada
de trabalho e com elas o limite de idade das crianças que são postas a trabalhar, a
proteção às mulheres, o trabalho noturno e o descanso semanal (MERLO; LAPIS,
2007).
Foram conquistas suadas, pois bem a dizer eram leis postas que sempre eram
revogadas e várias eram as recusas de aplicação por parte dos donos das fábricas. Entre
um projeto de lei e sua aprovação era necessário esperar em média dez anos. Só a para
termos uma ideia, mediante a realidade inglesa, foram necessários quinze anos para a
aprovação da lei sobre acidente de trabalho (1883 a 1898) e quarenta anos para jornada
de dez horas (1879 a 1919) e vinte e cinco anos para jornada de 8 horas (1894 a 1919)
(DEJOURS, 1992).
Entretanto, sem surtir resultados significativos sob o absenteísmo, os donos das
fábricas passaram a viabilizar a presença do médico dentro do espaço laboral para tentar
intervir no alto índice de trabalhadores acometidos por doença. Fato que trazia
implicações para a produtividade das indústrias: redução na produção. Tal iniciativa
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surgiu quando um proprietário de uma fábrica têxtil na Inglaterra, 1883, procurou seu
médico particular, Robert Baker, para que indicasse a maneira pela qual ele, enquanto
também empresário, poderia reverter o quadro de doenças dos trabalhadores e manter a
produtividade da empresa (MENDES; DIAS, 1991).
A resposta de Robert foi que colocasse no interior da sua fábrica o seu próprio
médico, pois este exerceria um papel de intermediário entre o patrão e os seus
trabalhadores. Conforme as palavras do médico: “deixe-o visitar a fábrica, sala por sala,
sempre que existam pessoas trabalhando, de maneira que ele possa verificar o efeito do
trabalho sobre as pessoas” (MENDES; DIAS, 1991, p. 341). Se, durante sua avaliação
clínica, ele verificasse que qualquer dos trabalhadores estava sofrendo algum tipo de
risco que pudesse ser evitado, a ele competiria fazer a prevenção. Dessa forma, Robert
afirmou para o dono da fábrica:
[...] você poderá dizer que meu médico é a minha defesa, pois a ele
dei toda a minha autoridade no que diz respeito à proteção da saúde e
das condições físicas dos meus operários; se algum deles vier a sofrer
qualquer alteração da saúde, o médico unicamente é que deve ser
responsabilizado (MENDES; DIAS, 1991. p. 341).
Entretanto, a presença do médico e a medicalização como principal terapêutica
instituída no espaço laboral não se tornaram suficientes para reduzir o número de
doenças ocupacionais e, tão pouco garantir uma fórmula para que mantivesse
significativamente os lucros gerados pela força laboral dos trabalhadores.
Nesta perspectiva, sob o desenvolvimento do capitalismo surgiu um novo modo
de organização do processo produtivo denominado Taylorismo. Este passou a
confrontar o trabalhador a novas condições e exigências de trabalho, provocando novos
desdobramentos na relação entre o processo saúde/doença.
Uma nova forma de organização que visualiza apenas maximizar a produção.
Desse modo, Taylor, criador do taylorismo, desenvolveu métodos objetivos e uniformes
capazes de direcionar a execução dos movimentos dos trabalhadores. O objetivo deste
método consistia em reprimir a “vadiagem no local de trabalho”, mas esta não se referia
tanto aos momentos de repouso e conversações e, sim, as fases durante as quais os
trabalhadores, conforme pensava Taylor, trabalhavam num ritmo menor do que aquele
que poderia ser executado (DEJOURS, 1992, p.68).
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Nessa perspectiva, Taylor fundou a partir de estudos e observações um modo
operatório cientificamente estabelecido. Restou a partir daí impor a todos os operários
sem distinção de altura, sexo, idade, estrutura mental. Tal modo contribuiu para a
desapropriação da liberdade inventiva e de criação do trabalhador. O lema é adaptação,
por isso a necessidade de vigiar cada gesto, cada sequencia, lapidando os movimentos
elementares dos trabalhadores em movimentos rápidos e precisos (NAVARRO;
PADILHA, 2007).
Todavia, não devemos pensar que a intensificação e a organização do trabalho
sejam típicas das atividades industriais. No decorrer do século XX, principalmente em
suas últimas décadas, todas as atividades que concentram volume de capital (ramos da
telecomunicação, saúde, educação etc.) estão submetidos à lógica e objetivo do
capitalismo.
Assim, sob a égide do capitalismo o trabalhador vai sendo separado da sua
condição subjetiva, alienado de seu produto, sem planejar, sem decidir, expropriado de
toda e qualquer propriedade exceto uma: sua própria força de trabalho, expressa em um
corpo cindido de sua dimensão psíquica, assumindo características da máquina. Nesta
perspectiva, o trabalhador tornou-se servo de seu próprio objeto, força de trabalho, só
podendo manter-se sujeito enquanto trabalhador. Mas um sujeito “coisificado” e
alienado tanto do seu processo produtivo quanto de si mesmo.
É pelo mecanismo de desapropriação da subjetividade do trabalhador que este
passa a ser transformado em um objeto manipulável pela ciência. Portanto, no mundo
do trabalho capitalista a subjetividade do trabalhador se apresenta como estranho e
hostil a ele mesmo, como pertencentes a um outro. Assim, reduzem-se os elementos
subjetivos ao estatuto de coisa (AUGUSTO; 2009).
Surge através desta negação da subjetividade, o que Dejours (1992) denominou
como sentimento de robotização, ou seja, o sujeito não se sente nada mais do que um
apêndice da máquina ou dos processos a que se submete. Ele não se visualiza enquanto
um ser integrante, constituinte da construção do crescimento e reconhecimento da
empresa onde se encontra trabalhando, apenas objeto de uso e para uso das empresas.
Sob a paralisia da imaginação, criatividade e subjetividade marca-se o triunfo do
condicionamento sobre a própria criação produtiva. Tal processo se dá através da
“submissão do corpo” às necessidades de um outro - da chefia, da família, da
organização, do sistema - tendo como um de seus principais desdobramentos o
sofrimento psíquico do trabalhador.
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Em um processo que é determinado pelo meio de produção mecanicista, o
elemento humano, subjetivo, encontra-se subordinado aos elementos objetivos – dor,
adoecimento e até o sofrimento psíquico só passam a ser reconhecidos a partir da
mensuração e da observação clínica anatomopatológica resultante da aplicação
consciente da verdade científica – medicina.
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3 A CLÍNICA E SOFRIMENTO PSÍQUICO DO TRABALHADOR
Percebemos que, ao longo da história, o sofrimento recebeu diferentes
significações e destinos. De símbolo do pecado judaico-cristão passando pela bruxaria
medieval, o sofrimento sempre exigiu do homem uma explicação. Entretanto, foi com o
discurso científico que o sofrimento passou a ganhar o status de patologia.
Tal acepção é tributária do pensamento moderno, nasce no século XIII, com o
advento da medicina científica, onde novas formas de conhecimento e novas práticas
institucionais tornaram o paciente desvinculado do seu sofrimento. Uma clínica que
concebe tudo o que foge à norma como patológico, a pessoa como um corpo e um corpo
enquanto máquina com padrão de funcionamento pré-determinado (FOUCAULT,
1994).
Assim, para conhecer a “verdade do fato patológico”, o médico precisa abstrair o
sujeito, pois sua disposição, temperamento, fala, idade, modos de vida perturbam a
identificação da doença, segundo o desenho nosográfico preestabelecido. Portanto, a
história da doença não está mais acessível no sujeito, mas em seus prontuários, basta
consultá-los (SIMANKE, 2002).
Nesta acepção, o olhar do médico assume um poder capaz de detectar os
acontecimentos singulares, assim como de descrevê-los sob a sua razão. Esse olho que é
capaz de ver e falar serve apenas à verdade do médico. Portanto, o signo só adquire
valor de sintoma quando sua descrição passa a ser suplementada pela consciência do
médico, ou seja, aquilo que aparece legível na relação entre o olhar do médico e o corpo
do doente. Pois, o que depende da fala ou da lembrança do paciente ou do relato de
seus familiares possui valor secundário e suspeito. Essa passagem implica a captura no
discurso e na sanção da ordem médica (DUNKER, 2011).
O médico, neste sentido, ouve o paciente, mas não o escuta. Pois, o objetivo é
apenas ouvir para colher as informações na medida em que estas possam ser cotejadas
como um referente anatomopatológico. O paciente atua, assim como mero informante
daquilo que por motivos técnicos não pode ser diretamente visível para o médico como,
por exemplo, a dor, sofrimento, e a intensidade do sintoma (DUNKER, 2011).
É nessa concepção que Bichat define a saúde como sendo “o silêncio dos
órgãos”, portanto, a doença começaria quando os órgãos começassem a falar, ou seja,
manifestar alterações clínicas. Durante esse período o médico devia ser capaz de ler a
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doença, e esta anunciava seu fim quando o corpo voltasse a emudecer. Deste ponto de
vista, o signo na clínica clássica, procura excluir o sujeito. Pois, só o médico é capaz de
relacionar, legitimar e certificar a doença como tal (SIMANKE, 2002).
Um dos destinos da manifestação do sofrimento foi o hospital, que surgiu como
um espaço de consolidação da identidade de doente, de assistência, segregação e
exclusão (FOUCAULT, 1994). Como uma imensa vitrine, a hospitalização deu
visibilidade ao paciente reafirmando-o como doente na família, no trabalho e na
comunidade. Uma vez internado, não havia dúvidas de sua condição de doente, mesmo
quando não se tinha ainda um diagnóstico.
Desse modo, a “coisificação” do sujeito atrelado a uma clínica anátomo-palógica
apenas contribui para reforçar os estudos sobre a ontologia da doença que passou a
predominar na nosografia psiquiátrica. Sobre essa discussão Simanke (2002, p. 38) traz
que:
A medicina lida com doenças, ora, uma doença não pode, por
definição ser do espírito; portanto, só pode ser do corpo. A doença
mental não é, então, verdadeiramente mental, mas sim uma doença
orgânica com efeitos aparentes sobre o nível mental, importando por
isso todos os parâmetros que definem a doença para a patologia
orgânica.
Estabelecer essa relação com a saúde mental dos sujeitos foi, ao longo do tempo,
objeto de estudo da psiquiatria. Paradoxal, pois precisou lançar mãos sobre uma
causalidade orgânica para justificar as alterações patológicas do aparelho mental.
Tentativas de “decompor” o sofrimento psíquico em seus elementos de base para, a
partir daí, compreendê-los, classificá-los, estudá-los e tratá-los. No entanto, se esse
modelo permitiu grandes avanços no plano da clínica médica, no plano da psiquiatria
ele passa a colocar alguns dilemas, pois se tratava de buscar uma causalidade orgânica
para justificar algo que, por definição, pertence à esfera psíquica.
Dessa forma, influenciada pelo modelo biomédico, a psiquiatria se materializou
em práticas discursivas específicas que definiram o que é normal, qual tratamento devia
ser seguido pelos pacientes, exercendo sobre estes uma particular forma de controle
social que atinge todas as dimensões da vida do indivíduo, inclusive a dimensão
psíquica, ao legitimar e institucionalizar o papel do doente. Assim, surgiu um processo
de psiquiatrização da vida social, que veio, ao longo dos anos, transformando todo o
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mal-estar psíquico em doença, fundamentado na neurologia e na genética, incentivando
o tratamento baseado essencialmente em recursos químicos (FERRAZZA et al, 2010).
Desse modo, a psiquiatria concretizou seu desejo, perseguido desde o século
XIX, de ser reconhecida enquanto especialidade médica, de fato e de direito, apoiando
seus fundamentos no discurso rigoroso da ciência biológica. Nessa perspectiva, a
psiquiatria passou a definir um novo modo de funcionamento de sua clínica, entre o
normal e o patológico, onde os medicamentos psicofármacos tornaram-se o novo e o
principal dispositivo para o tratamento e cura do que veio a se denominar doença mental
(FERRAZZA et al, 2010).
Após caminharmos sobre a discussão que permeia a clínica e o sofrimento
psíquico torna-se pertinente abordar, historicamente, os primeiros relatos desta
manifestação no ambiente laboral e as influências que a clínica anatomopatológica traz
para a discussão entre a relação saúde/doença mental e trabalho.
É por meio de um relatório sobre a análise do trabalho realizado em várias
indústrias francesas que podemos perceber a articulação que se estabelecia entre o
aumento do ritmo de trabalho, cada vez mais intenso, e a estratégia utilizada pelos
donos das fábricas para intervir no sofrimento psíquico do trabalhador, que por sinal
tornava-se recorrente. O relatório foi produzido pelo Laboratório de Psicologia do
Conservatório Nacional de Artes e Ofício por Wisner, Laville, Duraffourg em 1972.
Talvez recorrente seria uma palavra aquém do significado. Para uma melhor
expressão do que esse fato representava para os diversos países em processo de
industrialização, inclusive o Brasil, as manifestações de sofrimento psíquico eram
chamadas de “descompensações” que se desencadeavam como se fossem verdadeiras
epidemias avassaladoras e que aterrorizava toda a sociedade da época.
O relatório exemplifica inúmeras situações. Dentre elas destacamos duas. A
primeira delas refere-se às trabalhadoras de uma indústria têxtil. Esse fato foi relatado
com grande espanto, pois em um determinado dia, uma mulher agitada começou a
tremer, a chorar e a gritar desesperadamente. Não havia nada que conseguisse acalmála. O surto se deu diante de todas as outras trabalhadoras. E em questão de segundos
todas as mulheres do mesmo setor de trabalho foram atingidas numa “série de
descompensações”, tendo muitas que abandonar a função (WISNER; LAVILLE;
DURAFFOURG, 1972).
A medida de intervenção apontada no relatório é que se o incidente ficasse
isolado apenas na mulher que desencadeou a primeira crise, ela seria encaminhada para
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a enfermaria e submetida a um tratamento medicamentoso. Mas como diversas
trabalhadoras apresentaram “descompensações”, a estratégia para solucionar o problema
foi simplesmente diminuir o ritmo de trabalho. “Bastou reduzir a pressão organizacional
para fazer desaparecer toda forma de manifestação de sofrimento”. Um método simples
e que garantia, até o próximo descontrole mental das trabalhadoras, um ritmo desejável
de produção (DEJOURS, 1992, p. 120).
Situações que também podiam ser verificadas em setores como a linha de
montagem de automóveis. Segundo o relatório havia determinados dias da semana em
que voavam parafusos nas salas, gritos, ferramentas quebradas, brigas traduzidas em
socos e pontapés. Os trabalhadores agressivos e descompensados passavam a se revelar
contra as máquinas e contra os colegas, o setor parava e os prejuízos se elevavam a
números espantosos.
Por fim, verificava-se que os carros que saíam da fábrica nesses dias tinham
mais defeitos do que aqueles que saíam no começo da semana. Os proprietários de
carro, ao comprar os automóveis e perceberem as falhas mecânicas costumavam dizer
entre si “é um carro de sexta-feira”. Mesmo diante dessa situação, o que se tinha como
registro na época, é que os patrões insistiam em manter o ritmo da produção. É assim
que se ia definindo a norma. Uma norma de produção, claro, mas também uma norma
mental, deveria ser regulada (DEJOURS, 1992).
Dessa forma, as doenças somente eram reconhecidas quando estas manifestavam
sintomas evidentes no corpo, a tal ponto que não poderiam ser negadas como uma tosse
com hemoptise, um emagrecimento acentuado. Qualquer doença que acometesse um
trabalhador só seria motivo para procurar um médico se esta tivesse atingido um nível
de gravidade que impedisse a continuidade da sua atividade profissional.
Nesse contexto, o sofrimento mental e a fadiga dos trabalhadores eram
desconsiderados e, como menciona Dejours (1992), “proibidos” de se manifestarem no
ambiente de trabalho. Só a doença com base orgânica era admissível. Nessa perspectiva,
o trabalhador tinha que apresentar um atestado médico como a garantia de ter o
certificado de uma doença.
Na atualidade, percebemos que a preocupação em banir o sofrimento do mundo
do trabalho ainda é bastante evidente, além de procurar uma causa orgânica ou
epidemiológica para manifestações psíquicas. Em 2013, foi noticiado pelos meios de
comunicação que trabalhadores de uma indústria de vestuários de Bangladesh foram
“atingidos por uma misteriosa doença”. Seiscentos trabalhadores começaram a se
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queixar de dores de estômago e vómitos, levando as autoridades a suspeitar inicialmente
que o consumo de água contaminada no local de trabalho seria a causa. Mas os médicos
e os microbiólogos que investigaram a doença afirmaram não ter encontrado nada de
errado na água disponível para consumo numa das fábricas onde os operários
adoeceram no início daquele mês.
Em vez disso, uma equipe do Instituto de Epidemiologia, Controle de Doenças e
Investigação (IECDI) do país suspeitou que a doença misteriosa fosse uma doença
conhecida como "histeria coletiva" que afetou o país há cerca de oito anos e obrigou ao
encerramento de dezenas de escolas e fábricas.
Ao longo desses relatos, percebemos que o sofrimento psíquico dos
trabalhadores só passa a ser inquietante para os donos das fábricas quando este é
traduzido, pela medicina, em adoecimento físico. Neste contexto, a preocupação
primordial dos donos das fábricas com a saúde dos trabalhadores é assegurar, conforme
o discurso médico, padrões de homens e mulheres que sejam mentalmente saudáveis
para trabalhar.
Portanto, a consulta médica, na grande maioria, tem o objetivo de maquilar o
sofrimento mental na medida em que procura não somente o deslocamento do conflito
homem-trabalho para um terreno mais neutro. O mais importante é a desqualificação do
sofrimento, no que este pode ter de mental. Dessa forma, os sujeitos/trabalhadores
desprovidos de subjetividade, singularidade e história de vida passaram a ser vistos
como corpos e, até as próprias questões psíquicas são transformadas em condições
estritamente biológicas (BRANT; MINAYO-GOMEZ, 2004).
Esse adoecimento não se fez sem consequências, trouxe em seu bojo a
discriminação e exclusão dos trabalhadores que apresentam queixas relacionadas ao seu
sofrimento psíquico. Assim, a prática da medicalização das manifestações do sofrimento
nas empresas, através da prescrição indiscriminada, principalmente de antidepressivos,
ansiolíticos e psicoestimulantes, passa a ser a solução mais viável e rápida para eliminar
o problema.
Logo, é possível deduzirmos que o médico apenas vê ilusoriamente o
trabalhador, pois a doença diagnosticada não está propriamente nele, tem origem em
outro lugar: na instituição do discurso médico que conduz à construção de trabalhadores
doentes. Assim, o controle exercido pela medicina dentro dos espaços laborais também
passou a ser regido pelas normas da clínica anatomopatológica, transformando padrões
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estatísticos de normalidade em critérios de saúde e doença (BRANT; MINAYOGOMEZ, 2004).
Assim, podemos compreender que a clínica direcionada à saúde do trabalhador
pauta-se na busca de instrumentos reguladores dos níveis externos de trabalho:
intensificação, jornada e ritmos de trabalho. Essa é a forma racional que os donos dos
meios de produção atestam para conseguir “combater” o sofrimento psíquico do
trabalhador. Entretanto, este não pode ser regulado somente a partir de fatores externos,
conforme a lógica capitalista preconiza.
Nesta perspectiva, o tópico que se segue discorre sobre a evolução histórica das
práticas institucionalizadas de intervenção, no Brasil, acerca da saúde do trabalhador.
Práticas que, apesar dos avanços significativos, ainda caminham para a percepção das
doenças relacionadas ao trabalho em uma dimensão estritamente biológica, certificada
pela existência de um nexo causal.
3.1 A Clínica do Trabalhador no Brasil: da medicina do trabalho à saúde do
trabalhador
No Brasil, o início da identificação e do registro documental de problemas
relacionados à saúde do trabalhador data do século XIX, mas a incorporação desta
temática a investigações de caráter científico ocorreu somente mais tarde, nas escolas
médicas. A partir desse momento, começaram a produzir um corpo de conhecimento
direcionado para as doenças e acidentes ocupacionais. Surge aí, o campo da Medicina
do Trabalho.
Percebemos, conforme o estudo de Almeida (2008) que foi com a expansão
exponencial dos programas de pós-graduação no país, nos anos 90, que as teses e
dissertações com foco nos problemas nacionais da área da saúde do trabalhador se
proliferaram. Destacam-se, entre os principais temas abordados, as condições de
trabalho, alimentação dos operários, ensino e formação em medicina do trabalho,
acidentes e doenças laborais. Desse modo, a Medicina do Trabalho passou a se
consolidar enquanto uma especialidade dentro do campo da medicina.
Centrada na figura do médico, a atividade da Medicina do Trabalho no Brasil
orienta-se pela teoria da unicausalidade, ou seja, para cada doença, um agente
etiológico. Transplantada para o âmbito do trabalho, vai se refletir na propensão a isolar
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riscos específicos e, dessa forma, atuar sobre suas consequências, medicando todo e
qualquer tipo de adoecimento, em função de sintomas e sinais ou, quando muito,
associando-os a uma doença legalmente reconhecida (MINAYO-GOMEZ; THEDIMCOSTA, 1997).
Desse modo, compreendemos que o objetivo central da Medicina do Trabalho
não consistia em promover a saúde dos trabalhadores, mas garantir o bom
funcionamento dos processos de trabalho. Não é por acaso que, conforme SeligmamSilva et al., (2010) as práticas mais disseminadas eram a seleção de pessoal que, em
tese, fosse menos propenso a se acidentar e adoecer, o controle da saúde para evitar
problemas de absenteísmo e os esforços para proporcionar retorno rápido ao trabalho
nos casos de afastamentos.
Portanto, podemos mencionar que a Medicina do Trabalho não estava
direcionada para atenção à saúde dos trabalhadores, mas configurando-se também numa
espécie de “braço direito” do empresário, contribuindo para manutenção do seu
patrimônio, pois, a garantia de ter o trabalhador “saudável” na linha de produção era
fundamental para que houvesse o bom desempenho e lucratividade das atividades
comerciais (ALMEIDA, 2008).
Para assegurar tal objetivo, a principal atribuição da Medicina do Trabalho era
de contribuir para o estabelecimento e manutenção do nível mais elevado possível do
bem-estar físico e mental dos trabalhadores, conferindo-lhe um caráter regulador das
ações sobre os trabalhadores por meio da concepção positivista da prática médica –
trabalhador enquanto objeto; corpo disciplinado. A implantação desses serviços
médicos baseado neste modelo rapidamente se expandiu, paralelamente ao processo de
industrialização que ocorria no Brasil, passando a exercer um papel vicariante.
Entretanto, a tecnologia industrial evoluía num ritmo de intenso progresso.
Momento traduzido pelo desenvolvimento de novos processos industriais e a inserção
de novos equipamentos modernos. A Medicina do Trabalho não dava mais conta de
“adaptar o trabalhador” às condições de trabalho, novas causas e formas de adoecimento
começavam a surgir também de forma acelerada. Cresceram a insatisfação e o
questionamento dos trabalhadores - ainda que apenas 'objeto' das ações - e dos
empregadores, claramente onerados pelos custos diretos e indiretos dos agravos à saúde
de seus operários (SELIGMAM-SILVA et al., 2010).
Esse quadro era agravado pelo fato de que, frequentemente, as doenças
originadas no trabalho só eram percebidas em estágios avançados. Até porque muitas
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delas, em suas fases iniciais, apresentavam sintomas comuns a outras patologias,
tornando-se difícil, sob essa ótica, identificar os processos que as geravam. Pois, estes
se tornavam bem mais amplos que a mera exposição a um agente etiológico exclusivo.
A rotatividade da mão de obra representou um obstáculo a mais nesse sentido. A
passagem por processos produtivos diversos frustrava as tentativas de estabelecer os
nexos causais e diluía a possibilidade de realizá-los, excetuando-se os mais evidentes
(MINAYO-GOMEZ; THEDIM-COSTA, 1997).
Diante desse novo cenário, a resposta racional, "científica" e aparentemente
inquestionável para intervir sobre a situação traduziu-se na ampliação da atuação
médica direcionada ao trabalhador e ao ambiente. Se um especialista não estava
conseguindo dar conta, a solução foi agregar profissionais de outras áreas de
conhecimento. Surge, nesse contexto, um novo campo conceitual e metodológico para
atuar na relação entre saúde e trabalho, a Saúde Ocupacional.
Esta, por sua vez, avança numa proposta interdisciplinar, relacionando ambiente
de trabalho e corpo do trabalhador. Incorpora a teoria da multicausalidade da doença, na
qual um conjunto de fatores de risco é considerado na produção do adoecimento,
avaliado através da clínica médica e de indicadores ambientais e biológicos de
exposição e efeito (MENDES; DIAS, 1991).
Apesar da nova reformulação, percebemos que a Saúde Ocupacional também
não conseguiu atingir os objetivos propostos, que eram traduzidos na redução
significativa da incidência de casos de acidentes e doenças ocupacionais. Dessa forma,
repetiam-se as limitações da própria Medicina do Trabalho. Podemos dizer que era uma
nova roupagem, porém com estratégias similares de atuação sobre o adoecimento. Pois,
as medidas que deveriam assegurar a saúde do trabalhador, em seu sentido mais amplo,
acabaram por restringir-se a intervenções pontuais sobre os riscos mais evidentes. A
preocupação era normatizar as formas de trabalhar consideradas seguras, o que, em
determinadas circunstâncias, formava apenas um quadro de prevenção simbólica.
Nessa perspectiva, eram imputados aos trabalhadores os ônus por acidentes e
doenças, concebidos como decorrentes da ignorância e da negligência, caracterizando
uma dupla penalização. Além disso, apesar da “nova” proposta enfocar as ações
interdisciplinares no coletivo de trabalhadores, continuava a abordá-los como "objeto"
de suas práticas em saúde (DIAS, 2006).
Diante dessa realidade, os movimentos políticos e sociais passaram a questionar
o quadro de saúde da população trabalhadora. Um percurso marcado pelas lutas
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coletivas em prol de melhores condições de vida e de trabalho; pelo compromisso das
empresas em seguir com a legislação existente; pela participação mais ativa do Estado
na definição e implementação de políticas nesse campo. Essas mobilizações, segundo
Borsoi (2007), contribuíram para a conformação da Saúde do Trabalhador.
No Brasil, o termo Saúde do Trabalhador surge no bojo do Movimento pela
Reforma Sanitária que se intensificou no país a partir da década de 1980. O momento
culminante de mobilização popular pela saúde do trabalhador deu-se na VIII
Conferencia Nacional de Saúde e na I Conferência Nacional de Saúde do Trabalhador,
ambas em 1986. A união dos esforços de técnicos de saúde ligados às universidades e
ao Ministério da Saúde (MS) juntamente com os trabalhadores estabeleceram as bases
desse conjunto de saberes, práticas e intervenções no espaço laboral (RAMMINGER,
NARDI, 2007).
Longe de ser um termo apenas descritivo e sinônimo da Saúde Ocupacional,
percebemos que a Saúde do Trabalhador refere-se a um campo de saberes e práticas
com claros compromissos teóricos, éticos e políticos, e insere-se como uma política
pública em saúde que demanda articulações intersetoriais (saúde, previdência social,
educação, trabalho e emprego e meio ambiente, dentre outras). A amplitude do campo
teórico e prático da Saúde do Trabalhador exige a inter-relação de diversos saberes e a
apreensão de múltiplos conceitos.
Lembramos que tal proposta desenvolve-se como uma crítica à concepção e
prática da Saúde Ocupacional e da Medicina do Trabalho, criadas mais com o propósito
de operar como ferramentas de gestão da força de trabalho. Estas visualizavam a busca
pela eficiência, produtividade e lucratividade e, com a tendência de restringir seus
objetos de atuação às condições do ambiente de trabalho (de natureza física, química,
biológica e mecânica).
Portanto, a Saúde do Trabalhador tem como objetivos prioritários a promoção e
a proteção do trabalhador, traduzida nas ações de vigilância dos riscos presentes nos
ambientes e condições de trabalho, bem como a vigilância dos agravos (acidentes e
doenças) decorrentes. É um campo de atuação que também se preocupa com a
organização e prestação dos serviços assistenciais aos trabalhadores vitimados com
agravos decorrentes do trabalho. Para isso, compreende procedimento de diagnóstico,
tratamento, notificação e reabilitação de forma integrada e regionalizada no SUS
(SATO, 1995).
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Além disso, preconiza que o trabalhador deve se situar enquanto sujeito, provido
de condições e instrumentos para interferir naquilo que lhe causa sofrimento. Pautado
nesse arcabouço teórico e conceitual, em 2001 o Ministério da Saúde (MS) publicou a
obra de referência para regulamentar os tipos de doenças e as normas estabelecidas
sobre a saúde do trabalhador, intitulada “Doenças Relacionadas ao Trabalho: Manual de
Procedimentos para os Serviços de Saúde”. Nela são classificadas 153 doenças e a sua
relação com o trabalho.
Como proposta de fortalecimento da Saúde do Trabalhador, esta política vem
sendo, aos poucos, incorporada às ações do SUS. Para atender esse objetivo foi criado
em setembro de 2002, no Brasil, a Rede Nacional de Atenção Integral à Saúde do
Trabalhador (RENAST) através da Portaria do Ministério da Saúde de nº 1.6796. Esta
se constitui como uma rede de abrangência nacional e como ferramenta estratégica para
a disseminação dos princípios e práticas do campo da Saúde do Trabalhador em todos
os níveis de atenção (JACQUES, MILANEZ, MATTOS, 2012).
Na estruturação da RENAST, os Centros de Referência em Saúde do
Trabalhador (CEREST) ocupam lugar de destaque. Cabe a estes o papel de polos de
atuação sobre o processo de adoecimento, provendo suporte técnico e informações aos
trabalhadores. Além de executar, organizar e estruturar a assistência de média e alta
complexidade acerca dos problemas e agravos à saúde dos trabalhadores (JACQUES,
MILANEZ, MATTOS, 2012).
Dentre as Doenças Relacionadas ao Trabalho, destacamos o capítulo do manual
sobre os “Transtornos Mentais e do Comportamento”. Nele encontramos que as ações
implicadas pelo ato de trabalhar podem atingir o corpo dos trabalhadores, produzindo
disfunções e lesões biológicas, mas também reações psíquicas às situações de trabalho
patogênicas, além de poderem desencadear processos psicopatológicos especificamente
relacionados às condições do trabalho (BRASIL, 2001).
Se observarmos a descrição proposta pelo Ministério da Saúde, dois pontos nos
chamam a atenção. O primeiro deles refere-se às reações psíquicas – ao serem
mencionadas no texto estas já estão previamente relacionadas a situações patológicas,
como sugere a própria denominação: transtorno mental. Fato que demonstra o caráter
biológico que permeia a compreensão da relação entre saúde mental e trabalho. O
segundo ponto refere-se à outra articulação construída entre o sofrimento psíquico e os
fatores externos, traduzidos nas condições de trabalho. Descartando o a constituição do
sujeito e sua forma singular de vivenciar e significar o sofrimento.
P á g i n a | 36
De acordo com a Organização Mundial da Saúde, OMS (1993), que publica a
Classificação Internacional das Doenças (CID -10) passou-se a recomendar a utilização
do termo transtorno em substituição a expressões como doença ou enfermidade, por
entender que estas últimas causavam polêmica, ao trazer em seu cerne forte estigma e
tabu aos portadores. Dessa forma, o CID-10 trata-se de um documento técnico que
padroniza a nomenclatura utilizada pelos profissionais da área de saúde. Assim,
transtorno é utilizado para “indicar a existência de um conjunto de sintomas ou
comportamentos clinicamente reconhecíveis, associados, na maioria dos casos, a
sofrimento e interferência com funções pessoais” (OMS, 1993, p. 25).
Ao observar dados sobre a saúde mental relacionada ao trabalho, estes
demonstram que o afastamento de trabalhadores por transtornos mentais no Brasil subiu
2% em referência ao ano de 2010, atingido a marca de 12.337 casos. Os dados são do
último Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho (AE), referente ao ano de 2011.
Este documento foi produzido pelo INSS, divulgado na primeira semana do mês de
março de 2012.
Outros dados enfatizam que os transtornos mentais e comportamentais ocupam o
terceiro lugar em quantidade de concessão de auxílio-doença acidentário pela
previdência. Segundo o INSS, “dentro” dos transtornos mentais e comportamentais, as
doenças que mais afastaram os trabalhadores foram os episódios depressivos,
transtornos ansiosos e reações ao estresse grave e transtornos de adaptação,
respectivamente (AE, 2011).
Não obstante, ao mencionar os números acerca da saúde mental e o trabalho não
queremos justificar a partir deles a importância dessa discussão no âmbito da área da
saúde. Embora os dados gerem informações significativas, compreendemos que não é o
elevado número de casos de trabalhadores em sofrimento psíquico que irá qualificar a
necessidade de um cuidado pautado na singularidade e na escuta de cada trabalhador.
Percebemos através dos dados que as políticas públicas voltadas à saúde do
trabalhador ainda direcionam suas ações a partir de embasamentos estatísticos. É
mediante essa realidade numérica que os pesquisadores e autoridades governamentais
do país passaram a reconhecer “o transtorno mental dos trabalhadores” como sendo uma
situação preocupante para a Saúde Pública. Não podendo ser mais, conforme os
argumentos das autoridades, ignorados ou negligenciados. Em virtude disso, a relação
entre saúde mental e trabalho passou a ser um tema bastante recorrente no Brasil,
P á g i n a | 37
constituindo um campo de estudos que passou a ser intitulado “Saúde Mental
Relacionada ao Trabalho” (SMRT) (PAPARELLI; SATO; OLIVEIRA, 2011).
Outro aspecto a ser destacado sobre os transtornos mentais relacionados ao
trabalho refere-se à classificação das doenças mentais ligadas à atividade laboral.
Pesquisadores como Lima (2006) destacam que a referida classificação, adotada pelo
Ministério da Saúde em 2001 é pautada na categorização de Shilling, e se encontra
dividida em três grupos. Veremos cada uma delas, na sua peculiaridade, para,
posteriormente, tecermos algumas implicações a seu respeito.
O primeiro grupo se refere às doenças profissionais nas quais o trabalho
representa um nexo causal evidente, como nas neurointoxicações ocupacionais
provocadas por sustâncias químicas como o mercúrio, por exemplo. O segundo grupo
reporta-se ao trabalho podendo ser um fator de risco para patologias, mas não
necessariamente. Estão nesse grupo o alcoolismo crônico, transtornos do ciclo sonovigília etc. E por fim, o terceiro grupo, nesse caso, o trabalho é desencadeador de um
distúrbio latente como os episódios depressivos, a neurose profissional e a neurastenia
(JACQUES, 2007).
Nos grupos II e III se enquadra a maioria dos transtornos mentais e
comportamentais cujos fatores de riscos epidemiológicos não apontam para a exposição
ocupacional por substâncias químicas ou por lesão com base orgânica. Situam-se as
doenças não definidas a priori como resultantes do trabalho, mas que podem ser ligadas
a este, como, por exemplo, outros transtornos neuróticos especificados, síndrome de
burn-out e o alcoolismo crônico relacionado ao trabalho. Nesses casos impõe-se a
necessidade de laudo técnico que estabeleça os nexos causais.
Segundo os princípios norteadores que regem a classificação das doenças
relacionadas ao trabalho é por meio do estabelecimento do nexo causal entre a doença e
a atividade atual ou pregressa do trabalhador que se representa o ponto de partida para o
diagnóstico correto e a terapêutica adequada. Entende-se por nexo causal aquilo que
pode comprovar a ocorrência da causa e do evento, sendo cientificamente medido e
comprovado para testificar a ocorrência de alterações que levem ao processo de
adoecimento do trabalhador (JACQUES, 2007).
O estabelecimento de nexo causal ganhou um novo contorno ao entrarem em
vigor a Lei nº11.430, de 26 de dezembro de 2006, o Decreto nº 6042, de 12 de fevereiro
de 2007, e a Instrução Normativa nº 16, do INSS, de 27 de março de 2007 (IN 16), pois,
a partir desse momento, o reconhecimento das doenças relacionadas ao trabalho passou
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a ser identificado, pelo INSS, mediante o estabelecimento de “nexo técnico
epidemiológico” ligado à atividade profissional exercida. Isto significa dizer que
quando um trabalhador for afastado do trabalho por uma determinada doença que
apresenta significância estatística no ramo econômico a que pertence o seu empregador,
seu benefício será definido automaticamente pelo INSS como acidente de trabalho
(NARDI; RAMMINGER, 2012).
Assim, quando os dados epidemiológicos indicarem que, em determinado ramo
produtivo, há uma alta incidência de incapacidade laborativa decorrente de um mesmo
problema de saúde, não caberá mais ao trabalhador inserido em uma empresa desse
ramo a responsabilidade de comprovar que seu adoecimento, seja físico ou mental, foi
causado pela atividade que desempenhava. Ao contrário, caberá ao empregador o
encargo de provar que tal nexo não existe (NARDI; RAMMINGER, 2012).
Se observarmos, é a incidência estatística presente no ramo de trabalho o que
fundamenta a relação entre saúde mental e o trabalho. Independente de ser elevada ou
não, de quem comprove o nexo causal, se o empregador ou o trabalhador, o fato é que
em ambos os casos o que irá determinar a presença da doença mental é um número. E
na ocorrência de uma situação este é o primeiro a ser investigado.
Percebemos que resgatar essa discussão é algo necessário para, a partir dela,
discutirmos um problema crucial que envolve o campo da saúde mental e trabalho: o
estabelecimento do nexo causal entre certas condições de trabalho e os transtornos
mentais específicos. Pois, apesar de as discussões teóricas que fundamentam o campo
da Saúde do Trabalhador propiciarem avanços significativos, no plano da normatização
das ações ainda prevalece um modelo biologicista e medicalizante, que reduz a
complexidade dos quadros a um referencial de doença.
O estabelecimento desse nexo, no entanto, tornou-se uma questão decisiva,
afetando a vida de muitos trabalhadores com queixa de sofrimento psíquico advindo do
trabalho, principalmente aqueles que não apresentam uma lesão orgânica evidente.
Entretanto, estes acabam sendo direcionados a serviços de saúde que, despreparados
para escutar os padecimentos do trabalhador, emitem diagnósticos comuns a outras
doenças, sendo submetidos a tratamentos baseados em grande quantidade de
medicamentos, caracterizando, muitas vezes, uma verdadeira “camisa de força
química”.
Entretanto, o que se verifica na prática é a dificuldade que o trabalhador em
sofrimento psíquico tem ao procurar tratamento e reconhecimento do nexo com o
P á g i n a | 39
trabalho, isso porque os médicos das empresas na maioria das vezes não irão estabelecer
tal nexo, o sindicato está despreparado para defendê-lo, os profissionais da rede pública
também têm dificuldade em associar seu quadro e, quando este é reconhecido e o
trabalhador é enviado ao INSS, neste local, encontrará alguém que dirá que seu
problema é individual e nada tem a ver com a organização e as condições de seu
trabalho (NARDI; RAMMINGER, 2012).
Diante desse contexto, é como se a queixa do paciente pudesse encontrar dois
caminhos: ou ela é apreendida como doença orgânica (neurológica, neuroendócrina) ou
é tomado como fingimento e a palavra do trabalhador passa a ser colocada em dúvida.
Na primeira opção, o sofrimento psíquico dos trabalhadores passa a ser traduzido como
lesão no órgão e a mente incide a ser reduzida ao cérebro e aos seus neurotransmissores.
Os trabalhadores desprovidos de subjetividade, singularidade e história de vida passam
a ser vistos como corpos e suas questões transformadas em condições estritamente
biológicas.
Na segunda possibilidade, como afirma Jacques (2003) quando se trata das
patologias psíquicas há, em seu cerne, uma forte relação com a fraqueza, sob o risco de
ser considerado fingimento, má- vontade ou a preguiça dos trabalhadores, enfim uma
infinidade de características que o submetem a uma situação de culpado. Em ambos os
caminhos, o que se observa é a destituição do trabalhador da sua condição de sujeito,
seja para transformá-lo em “paciente”, seja para destituir sua palavra do valor de
verdade.
Desse modo, percebemos que a busca por uma causalidade orgânica para
fenômenos psíquicos ainda prevalece, muita embora os estudos desenvolvidos se
mostrem bastante inconclusivos. No campo da saúde do trabalhador, percebemos que se
encontram as mesmas questões que perpassam a clínica geral. Quando os fenômenos
relacionados ao trabalho podem se encaixar no modelo anatomopatológico, a medicina
consegue localizá-lo e apreendê-los através da intervenção, geralmente medicamentosa2.
No entanto, quando se trata de fenômenos que não se apoiam em base orgânica, o
discurso desse trabalhador acerca de seu sofrimento vai ser tido como duvidoso e
2
Mesmo esses fenômenos para os quais há reconhecida base orgânica, não deixam de portar questões que extrapolam esse registro.
Claro está que certas doenças ocupacionais mantêm seu nexo causal objetivo com substâncias e elementos do meio ambiente. O
fato é que, mesmo tais doenças ocupacionais, não deixam de ter impacto sobre a subjetividade desses trabalhadores e também
devem ser entendidas como fato de linguagem, na medida em que, também nos mostram a forma como esse trabalhador é tomado
no mundo atual. Mesmo essas doenças também informam quais os laços sociais estabelecidos pelo trabalhador nestas realidades de
trabalho (FURTADO, 2005).
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secundário, posto que não há um estabelecimento de um nexo causal que comprove que
a sua doença seja de fato “real”.
Desse modo, percebemos que a legislação da saúde do trabalhador está pautada
na relação de causa e efeito. Aquilo que não é regulamentado necessita ser posto a
prova. É comum nos discursos dos trabalhadores em sofrimento psíquico mencionarem,
em muitos casos, a necessidade de levar a vida com um advogado do lado para
comprovar o estabelecimento do nexo causal. Fato que leva o trabalhador com
sofrimento psíquico a percorrer distintos serviços médicos para ter um diagnóstico
conforme a classificação das doenças relacionadas ao trabalho.
Se, muitas vezes, não se encontra respaldo tecnológico suficiente para
comprovar a lesão orgânica em determinados processos de adoecimento entre
trabalhadores, no campo do sofrimento psíquico e trabalho a dificuldade se torna ainda
maior, na medida em que não está dado esse caráter palpável, ou seja, relativamente
visível, encontrado nos problemas que atingem diretamente o corpo (DEJOURS, 2012).
Sublinhamos que a classificação das doenças relacionadas ao trabalho deve
exigir especial reflexão e atenção dos profissionais para não atribuir o problema de
saúde apresentado pelo trabalhador unicamente a fatores individuais. É importante, ao
buscar estabelecer nexo entre trabalho e saúde/ doença mental sejam também
considerados outros aspectos como, por exemplo, a subjetividade do trabalhador;
história de vida, pois não se trata apenas de identificar as fontes de mal-estar localizadas
na esfera do ambiente físico, na gestão e organização do trabalho.
O sofrimento psíquico, assim como argumenta a ciência, não pode ser
objetificável. Por isso, buscam-se construir referenciais sobre a relação estabelecida
entre o trabalho e o sofrimento psíquico, não sendo exclusivamente abordado enquanto
objeto de normas técnicas e de protocolos para orientar os profissionais de saúde. O
tema, conforme revela Paparelli, Sato; Oliveira (2011) continua a solicitar espaço como
objeto de reflexão.
Aqui, navega-se em um barco de papel em mar revolto, ou quando não pisa em
areia movediça. Isso porque, entre outras coisas, “não é possível quantificar a vivência,
não se é mensurável a carga psíquica do trabalho, que é em primeiro lugar qualitativa,
mas é real enquanto vivência articulada às exigências ou pressões do trabalho cotidiano”
(DEJOURS, 2012).
Ao realizarmos um olhar sobre as abordagens teóricas acerca da saúde do
trabalhador, percebemos que durante muitos anos foi marcada por estudos que
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visualizavam apenas os problemas oriundos do ambiente de trabalho como fonte
causadora de danos ao corpo físico. Assim, a essência das ações direcionadas ao
trabalhador, seja da Medicina do Trabalho a Saúde do Trabalhador, ainda se pauta no
que é visível na relação entre trabalho e doença laboral, ou seja, no que pode ser
medido, examinado, fotografado, medicado. Uma clínica que ao abordar esse fenômeno,
se faz de forma naturalizada como se sofrimento e doença fossem sinônimos
(PAPARELLI; SATO; OLIVEIRA, 2011).
Não é por acaso que as dificuldades em estabelecer a relação entre determinadas
formas de trabalho e sofrimento psíquico levaram, na curta história dessa área de
estudos, ao surgimento de diferentes modos de investigar e compreender o problema
(BORSOI, 1993). Destacamos a seguir as principais abordagens teóricas que
fundamentam os estudos, no Brasil, sobre a relação saúde mental e trabalho. São elas: a
abordagem do desgaste, do estresse, da ergonomia e da psicodinâmica do trabalho.
3.2 Abordagens Teóricas sobre a Relação Saúde Mental e Trabalho
A abordagem teórica do desgaste mental fundamenta-se na concepção do
processo de trabalho como elemento fundamental de análise. Assim, o processo e a
carga de trabalho direcionam a compreensão dos aspectos biopsicossociais que exercem
influência no processo saúde-doença mental.
Nessa acepção, o desgaste é
compreendido como a perda da capacidade efetiva e/ou potencial, biológica e psíquica,
na medida em que o trabalho converteu-se em atividade comprometedora e desgastante
para o trabalhador.
Para se reportar ao desgaste psíquico, essa abordagem teórica faz uma
associação à imagem de “mente consumida”. E três aspectos estão relacionados ao
desenvolvimento do desgaste físico: o primeiro refere-se aos quadros clínicos
relacionados ao desgaste orgânico da mente (seja por motivos de acidentes do trabalho,
seja pela ação de produtos tóxicos); a segunda, compreendendo as variações do “malestar”, das quais faz parte a fadiga (mental e física); a terceira, que identifica os
desgastes que afetam a identidade do trabalhador, ao atingir valores e crenças que
podem ferir a sua dignidade e esperança (LAURELL; NORIEGA, 2004).
Dentre os quadros clínicos identificados através da abordagem do desgaste,
destacam-se: a síndrome do esgotamento profissional, também denominada de estafa ou
burnout; síndrome da fadiga crônica ou ainda fadiga patológica; síndromes pós-
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traumáticas, depressivas e paranoides. Iremos especificar algumas delas, pois teremos
uma melhor percepção sobre os argumentos que envolvem a classificação destas
doenças.
A síndrome do esgotamento e da fadiga patológica, concepção pautada na
ciência biológica, corresponde à estafa acumulada ao longo dos anos e/ou períodos de
trabalho, apresentando uma duração variável, ou seja, sua “durabilidade” depende das
características físicas e mentais do trabalhador. A doença não permite uma recuperação
por intermédio de sono e repouso. A característica principal é a fadiga ininterrupta,
física e mental, acompanhada de distúrbios do sono, associado ao cansaço, irritabilidade
e desmaios (SELIGMANN-SILVA, 1995).
É consequência direta da fadiga a perda da eficiência, ou seja, a diminuição da
capacidade do trabalhador em realizar suas atividades. Segundo os pesquisadores suas
causas são geralmente muito mais emocionais do que fisiológicas. Dessa forma, para o
tratamento da doença são indicadas técnicas de relaxamento, adequado repouso e uma
mudança de hábitos que reduzam o estado de ansiedade. Em geral, constituem-se
medidas suficientes para aliviar o estado de fadiga crônica em quase todos os casos.
Para muitos indivíduos, entretanto, pode ser necessário acompanhamento médico e
tratamento específico, ao mesmo tempo em que se tenta identificar e eliminar ou reduzir
os agentes causadores (CARNEIRO, 2010).
Por sua vez, a neurose pós-traumática é compreendida como um quadro de
irritabilidade, angústia, reações emocionais exageradas. O indivíduo, nesse estado,
revive mentalmente a cena traumática, apresentando sintomas como mal estar,
acompanhado, frequentemente, por sudorese e taquicardia. Os pesadelos tornam-se
constantes, provocando distúrbios do sono e irritabilidade (JACQUES, 2003).
No que se refere aos quadros depressivos, ainda na abordagem sobre o desgaste
mental, estes podem ter sua patogenia, desencadeamento e evolução nitidamente
associados às situações de trabalho. Tais quadros podem se apresentar de forma aguda
ou crônica em virtude de tristeza, experiência de perda, falta de esperança. Contudo, os
quadros depressivos associados ao trabalho não se constituem da mesma forma, não são
típicos, revelando-se de modo sutil, apresentando o desânimo diante da vida como a
principal manifestação sintomática (FERNANDES et al., 2006).
Não obstante, ao observarmos os estudos que buscam a vertente do desgaste na
demarcação da relação entre trabalho e saúde mental encontramos ainda entraves na sua
concretização, pois essa abordagem, apesar de relacionada ao aspecto emocional, acaba
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por também mensurar as próprias questões emocionais, delimitando os sinais e sintomas
e classificando-as em quadros psicopatológicos.
Alguns pesquisadores como Fernandes et al., (2006) argumentam que mensurar
elementos emocionais é algo da dimensão do inespecífico, pois estes podem ser
ocasionados por inúmeros elementos e/ou fatores que divergem de pessoa para pessoa,
ao longo da vida e do contexto de vida, portanto, dificultando a sua normatização.
Mediante essa reflexão, buscamos visualizar por meio de estudos, alguns casos
clínicos que pudessem trazer à tona a relação da teoria do desgaste com a fala do
trabalhador. Encontramos o trabalho de Glina (2010) que aborda seis casos de
atendimento pelo CEREST de dois municípios do interior de São Paulo. Desse modo,
percebemos que a partir da história do sujeito extraem-se pontos relacionados aos
aspectos emocionais, mas estes passam a ter uma articulação com as condições e a
organização de trabalho. Para, posteriormente, com as informações coletadas
subsidiarem o quadro clínico e a discussão com o nexo causal com o trabalho, até
chegar ao diagnóstico proposto pelo CID-10. Portanto, os aspectos emocionais são
abordados como plano de fundo das questões do trabalho, estabelecendo a busca de
padrões para normatizar o “desgaste mental”.
A abordagem teórica do estresse tem sido um campo de atuação pautado na
clínica, como um fenômeno psicofisiológico. Nesta acepção o estresse é compreendido
como um desequilíbrio que ocorre entre as demandas do trabalho e a capacidade de
resposta dos trabalhadores. As fontes de estresse no trabalho e sua consequência sobre o
processo saúde-doença mental são estudadas através de categorias analíticas que
permeiam fatores relacionados ao processo de trabalho, a função que o indivíduo ocupa
na organização, as relações intersubjetivas e atmosfera institucional (SELIGMANNSILVA, 1994).
Segundo os pesquisadores dessa vertente, uma área de funcionamento que é
frequentemente afetada pelo estresse excessivo é o das relações interpessoais, posto que
sentimentos de irritabilidade, desprazer, ansiedade impossibilitam relacionamentos
plenos e interferem até nas relações ocupacionais. Nesta última, seus efeitos fazem
sentir-se no desânimo, na falta de idéias originais e na queda da produtividade. O
trabalhador estressado perde a capacidade de concentrar-se e pensar de modo racional e
lógico (LIPP, 2006).
Há alguns autores, dentre eles Fernandes (1999), Lima (2002), que ao considerar
os fatores psicossociais do trabalho e sua relação com a saúde e a dimensão psíquica,
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evidenciam, além dos aspectos organizacionais do trabalho sobre o desenvolvimento do
estresse ocupacional, a influência de aspectos subjetivos na produção do estresse como,
por exemplo, as experiências de vida. Enfatizam que os aspectos individuais e
subjetivos do trabalhador constituem-se enquanto intermediadores que podem fortalecer
ou debilitar a influência de fatores do ambiente de trabalho. Contudo, os referidos
autores não desconsideram os fatores externos à organização.
Apesar de considerarem as diferenças individuais e subjetivas como fatores que
intervêm na relação trabalho-saúde, ressaltam a importância de avaliar tais aspectos com
enfoque no grupo, pois compreendem que se a influência de um fator psicossocial é
intensa, é menor a importância de atuação na vulnerabilidade individual (REIS;
FERNANDES; GOMES, 2010).
As fontes de estresse são classificadas, conforme Lipp (2001), a partir da sua
origem no organismo. Aquelas que se encontram exteriores ao ser humano e que fogem
do seu controle imediato são denominadas de estressores externos. Enquanto aquelas
que surgem do próprio organismo e, portanto, sob seu controle, são chamadas de
internas. Quanto às características das duas fontes, a externa é tida como a mais fácil de
reconhecer o impacto que tem no funcionamento do homem. Por sua vez, as fontes
internas são mais complexas e de difícil acesso ao observador por se reportarem aos
pensamentos, emoções, comportamentos, vulnerabilidades biológicas ou psicológicas,
podendo ser inatas ou adquiridas. Desse modo, percebemos que essa teoria não foge da
percepção de normalidade, pois sugerem que as características de personalidade,
previamente definidas, podem ser fontes internas de estresse, determinando como cada
pessoa reage ao evento da vida.
A crítica a essa abordagem teórica reporta-se ao aspecto subjetivo relacionado
ao estresse, pois não oferece perspectiva de como ocorrem essas interações nas
situações e processos de trabalho no intrapsíquico. Apenas apontam a existência de tal
relação. Na prática da saúde dos trabalhadores, a implicação dessa teoria como categoria
diagnóstica permitiu aos médicos a generalização de todo e qualquer distúrbio psíquico
ou psicossomático como sendo fator estressante (MURTA; TRÓCCOLI, 2004).
Além disso, os estudos do estresse sobre a saúde do trabalhador enfatizam a
prevenção primária no local de trabalho por meio de identificação e de modificação de
condições laborais que possam constituir perigo para a saúde. De acordo com essa
visão, a chave da questão para a solução do estresse no trabalho é reconhecer a dinâmica
da sua etiologia (REIS; FERNANDES; GOMES, 2010).
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A vertente analítica da ergonomia constitui-se num campo interdisciplinar,
envolvendo engenharia, medicina, psicologia, sociologia, psicofisiologia e economia. A
ergonomia enquanto disciplina científica possui um objeto de estudo direcionado para o
funcionamento do homem durante a realização de suas atividades no ambiente de
trabalho.
Nesta perspectiva, a abordagem ergonômica traz em seu cerne teóricometodológico três momentos distintos. O primeiro deles se refere à preocupação,
sobretudo, nas modificações fisiológicas exercidas pelo processo de trabalho,
privilegiando a fadiga física. O segundo momento diz respeito à investigação dos
aspectos psicofisiológicos que ocorrem com o trabalhador durante o exercício de suas
atividades e, por fim, o objeto de estudo está também centrado nos fatores psicossociais
e suas repercussões na fadiga mental crônica.
Apesar das contribuições para os estudos acerca do trabalho e processo saúdedoença, percebemos que o modelo ergonômico privilegia os aspectos objetivos da
condição do trabalho, utilizando metodologias de análise que buscam identificar os
elementos observáveis do ambiente. Há autores, inclusive Dejours, que formulam
algumas críticas às investigações que utilizam a vertente analítica da ergonomia,
especialmente no tocante à compreensão da saúde mental a partir dos efeitos
fisiológicos do trabalho.
Segundo Dejours (1992), a intervenção ergonômica começa no campo pelo que
se chama de “análise do posto”. Para isso diferentes técnicas são utilizadas pelos
especialistas: observação direta, observação clínica, registro das variáveis fisiológicas
do trabalhador, medidas do ambiente físico (barulho, luminosidade, calor, vibração,
temperatura, poeira, umidade, cadência dentre outros) para posteriormente reconhecer e
classificar os principais riscos a que os trabalhadores estão submetidos, objetivando
criar estratégias para a modificação do posto de trabalho, destinado a aliviar os males
detectados.
Dessa forma, ao se chegar ao balanço da intervenção, percebemos que a sua
análise comparativa sob os resultados da intervenção se restringe a critérios de ambiente
– critérios de fisiologia ou a critérios de produtividade. Nesta perspectiva, encontram-se
aqui as vantagens, que são inegáveis, constituindo o que Dejours (1992) passou a
chamar de “positividade da prática ergonômica”, pautadas em medidas como, por
exemplo, a diminuição do custo cardiovascular, melhoria da posição do trabalhador,
atenuação do barulho, melhoria da iluminação, diminuição das lombalgias etc.
P á g i n a | 46
Entretanto, o que Dejours (1992) verifica na prática é que o sentimento de
melhoria e de alívio desfaz-se bastante rapidamente, às vezes em alguns dias. Pois, as
“melhorias das condições de trabalho” resultam, na verdade, de várias causas
concorrentes. E uma delas é a mudança de hábito dos trabalhadores até surgir os outros
prejuízos até então mascarados. Ele exemplifica essa situação quando se tem em meta a
substituição de um banco por um assento de encosto regulável. Essa medida se torna no,
início, apreciada pelo trabalhador, mas após um mês de trabalho ele não tem mais
consciência dessa melhoria, tendo que evocar na lembrança a experiência sentida, não
sendo mais perceptível atualmente.
Assim, a intervenção ergonômica, com efeito, pode aliviar a dor do trabalhador
de lombalgias relativas a uma torsão da coluna por influência da postura. Aliviado deste
mal, ele passa a reconhecer pouco a pouco, outra dor que tomou lugar da precedente:
cervicalgia, em virtude da posição da cabeça e a distância olho-tarefa. As dores
lombares, anteriormente, pela sua intensidade acabavam mascarando as dores na região
cervical.
Portanto, quando se faz desaparecerem os “prejuízos” que ocupam o alto da
hierarquia sintomática, faz-se às vezes aparecerem os de um nível inferior e assim por
diante. O inconveniente da ação ergonômica é a sua ação limitada. Pois, como abordou
Dejours (1992), pode emergir uma insatisfação e posteriormente um sofrimento que não
seja apenas de conteúdo físico, químico, biológico, mas, sobretudo, mental.
Por falta de um indicador global de melhoria das condições de trabalho capaz de
avaliar as intervenções ergonômicas, alguns autores franceses, Thort; Theuraud (1974) e
Dejours (2012), pensaram que seria fundamental não negligenciar a apreciação dos
trabalhadores sobre a intervenção ergonômica e pôr a sua escuta da “vivência subjetiva”
antes e depois da intervenção.
Diante dessas abordagens, verificamos que o trabalho passou a representar uma
importante instância no desencadeamento ou no agravamento e na evolução de
sofrimento psíquicos. A maioria dos pesquisadores que se preocuparam com a realidade
objetiva e com os critérios científicos, como forma de regular e intervir sobre essa
realidade, depararam-se com os próprios limites teórico-metodológicos para estabelecer
um “equilíbrio” entre a saúde mental e o trabalho. Depararam-se com a resistência
quase intransponível dos homens a se moldarem perfeitamente nos perfis de excelência
profissional que lhes são exigidos (FURTADO, 2005).
P á g i n a | 47
É a partir de algumas formulações acerca da subjetividade do trabalhador que
surgiram os estudos da escola francesa, inaugurada por Christophe Dejours,
denominada de Psicodinâmica do Trabalho. Trata-se de uma coletânea de textos que
despertou, inclusive no Brasil, enorme interesse e abriu nova perspectiva de análise
acerca da relação prazer, sofrimento e trabalho.
Esta disciplina adquiriu autonomia em relação a diversos outros campos de
investigação, sofrendo influência da psicanálise, da antropologia, da ergonomia e de
outras ciências. Os questionamentos de Dejours são bastante interessantes para nosso
estudo, principalmente por sua herança psicanalítica. Todavia, esta escola afasta-se da
psicanálise constituindo sua teoria segundo uma metodologia e objeto particulares
(FURTADO, 2005).
Iniciou como uma investigação da psicopatologia do trabalho e acabou por
descobrir que o não adoecimento é que constituía algo enigmático frente à realidade
laborativa. Portanto, o que importa para a Psicodinâmica do Trabalho é conseguir
compreender como os trabalhadores alcançam manter certo equilíbrio psíquico, mesmo
estando submetidos a condições de trabalho desestruturantes (DEJOURS, 1992).
Mais que um estudo voltado para identificar as doenças mentais específicas e
correlacionadas à profissão ou situações de trabalho, a mais nova psicopatologia do
trabalho está preocupada com a gênese e a transformação do sofrimento mental
vinculada à organização do trabalho.
A organização do trabalho exerce sobre o homem uma ação
específica, cujo impacto é o aparelho psíquico. Em certas condições
emerge um sofrimento que pode ser atribuído ao choque entre uma
história individual, portadora de projetos, de esperanças e de desejos e
uma organização do trabalho que os ignora (DEJOURS, 2012, p. 57).
Dessa maneira, Dejours considera que os indivíduos reagem de forma diferente
às dificuldades das situações de trabalho e chegam a este trabalho com a sua história de
vida pessoal. Os problemas, neste contexto, nascem de relações conflituosas. De um
lado, encontra-se a pessoa e sua necessidade de prazer; e do outro, a organização, que
tende à instituição de um automatismo e à adaptação do trabalhador a um determinado
modelo (MENDES; ABRAHÃO, 1996).
Esses conflitos seriam o pontapé inicial para desencadear o sofrimento psíquico
do trabalhador. Para Dejours o sofrimento emerge quando entre o homem e a
organização do trabalho não se tem um espaço de liberdade que autoriza a criação, as
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invenções de trabalhador sobre a própria organização. Não tendo esse espaço para o
trabalhador adaptar suas necessidades, anseios e desejos às exigências do trabalho, a
relação homem-trabalho fica bloqueada, começando o sofrimento.
Desta forma, Dejours (2012) considera que a busca do prazer no trabalho e a
fuga do desprazer constituem um desejo permanente para o trabalhador em face das
exigências contidas no processo, nas relações e na organização do trabalho. Esta, muitas
vezes, só oferece condições contrárias a este propósito, gerando desprazer e
apresentando sintomas específicos. Assim, o trabalho no lugar de fonte sublimatória de
prazer passa a ser um vivência de sofrimento.
Percebemos no trecho acima a sistematização de alguns conceitos psicanalíticos.
Dejours busca inspiração em Freud para dar consistência à articulação estabelecida
entre prazer, desprazer dos trabalhadores mediante o desempenho das atividades
laborais. Desde então, a Psicodinâmica do Trabalho apoiada na teoria psicanalítica está
voltada para a análise da dinâmica dos processos intersubjetivos mobilizados pela
confrontação dos sujeitos com a realidade do trabalho. Trata-se de uma abordagem que
tem como objetivo investigar a saúde do trabalhador pelas vivências subjetivas de
prazer-sofrimento no trabalho. Ela concebe o sujeito como portador de uma história
singular e que participa do processo de construção de uma subjetividade no confronto
entre o psíquico e o social.
Para tentarmos entender o processo de prazer, sofrimento e desprazer abordado
por Dejours é necessário resgatarmos sua concepção sobre o que seja a carga psíquica
do trabalho. Este termo foi escolhido para substituir a expressão “carga mental” adotada
por outras abordagens teóricas. Tal substituição foi em virtude de, conceitualmente,
fazer referência à presença de elementos afetivos e relacionais entre o homem-trabalho.
Enquanto que carga mental apenas remetia às influências neurofisiológicas e
psicofisiológicas, conforme aborda Dejours (2012).
Assim para Dejours (2012), tratando-se de carga psíquica não é possível
quantificar uma vivência. O prazer, a satisfação, a frustração, a agressividade
dificilmente se deixam dominar por números. Dessa forma, pode-se falar em uma
armadilha quando se quer dar conta de termos objetivos de uma vivência individual ou
coletiva quando é por definição, subjetiva. Mas como Dejours irá abordar a carga
psíquica do trabalho, as manifestações de prazer ou desprazer do trabalhador? Mais uma
vez, Dejours irá se apropriar, mesmo que superficialmente, dos estudos de Freud sobre a
origem dos estímulos que afetam o organismo.
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Assim, submetidos a excitações provenientes do exterior ou do interior
(estímulos pulsionais), o trabalhador possui diferentes vias de descarga da energia.
Portanto, se um trabalho permite que o trabalhador possa diminuir sua carga psíquica,
ele se torna equilibrante e prazeroso. Caso contrário, se o trabalho aumenta à carga
psíquica do trabalhador a atividade torna-se fatigante. Um trabalho livremente
escolhido, organizado e que lhe oferece capacidade criativa, geralmente, oferece vias de
descarga mais adaptadas as necessidades do trabalhador, tornando-se um espaço de
relaxamento (DEJOURS, 2012).
Porém, se a energia pulsional não acha uma via para ser descarregada no
exercício do trabalho, acaba por se acumular no aparelho psíquico, aumentando sua
carga e ocasionando um sentimento de desprazer e tensão. É por não ser capaz de
armazenar essa energia por muito tempo que ela acaba transbordando e, a energia voltase para o corpo, nele desencadeando certas perturbações como, por exemplo, as doenças
psíquicas e somáticas.
Desse modo, o sofrimento para Dejours (2012), conforme a liberação adequada
ou não da carga psíquica, poderá diferenciar-se em criativo e patogênico. O sofrimento
criativo resulta na mobilização e engajamento subjetivo que pode levar, como o próprio
nome diz, à criação e à transformação do mundo. Nesse aspecto o trabalhador emprega
seus investimentos pulsionais para a sublimação, ou seja, o prazer sexual será
substituído pelo prazer no trabalho.
No entanto, o sofrimento criativo não é sinônimo de prazer, pois o investimento
sublimatório é muitas vezes, conforme Dejours (2012), limitado por imposições das
situações de trabalho. Diante disso, é necessário utilizar a criação e a inteligência prática
para enfrentar estas situações. Mas dependendo da intensidade das adversidades e do
sofrimento delas decorrentes, o processo de sublimação pode se tornar impossível.
O sofrimento patogênico surge quando não é possível flexibilizar a organização
do trabalho de acordo com as necessidades das pessoas, sendo necessária a utilização de
estratégias adaptativas que podem gerar movimentos de antitransformação que levam à
alienação e ao sofrimento psíquico (MENDES, 2007).
O que Dejours conclui com isso é que o estudo da carga psíquica de trabalho
procede caso a caso. Não há uma solução geral para diminuir a carga psíquica de
trabalho. De tal forma que não se pode atribuir unicamente o aumento da carga psíquica
à estrutura da personalidade do trabalhador, pois se o doente for incapaz de se satisfazer
através de um trabalho intelectual, mostra-se, contudo, apto a um trabalho físico. Isso
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leva os pesquisadores a acreditarem que não existe uma única organização do trabalho
que seria a solução eficaz para diminuir a carga psíquica do trabalho de todos os
trabalhadores.
Observamos que para a Psicodinâmica do Trabalho, o sofrimento é uma
experiência vivenciada, ou seja, é um estado mental que implica um movimento
reflexivo do sujeito sobre seu “estar no mundo”. Dessa forma, o conceito de sofrimento
se insere na ordem do singular, para Dejours o sofrimento coletivo é inconcebível, pois
não podemos dizer que existe um corpo coletivo. Se, clinicamente, observam-se
estratégias coletivas de defesa fundadas em uma cooperação entre sujeitos, por outro
lado o sofrimento permanece sempre individual e único (DEJOURS, 2012).
Apesar de entender o sofrimento na singularidade de cada sujeito, encontramos
uma contradição no arcabouço teórico-metodológico da Psicodinâmica do Trabalho,
pois esta acaba concentrando suas intervenções na coletividade do trabalho. Portanto,
não propõe e não faz uso de recomendações terapêuticas individuais, mas propõe
modificações reais na organização do trabalho, atingindo todo um coletivo de
trabalhadores.
De que forma isso acontece? Dejours, inspirado na psicanálise propõe uma
atividade de escuta atenta à fala. Entretanto, o autor valoriza a fala coletiva dos
trabalhadores para apreensão das angústias vividas no trabalho. Isso porque, como
vimos, para a Psicodinâmica do Trabalho, se o sofrimento é da ordem individual, sua
solução é coletiva. Para isso, Dejours menciona a necessidade de se criar um espaço
público, configurando-se como um local de circulação da palavra coletiva. É na escuta
do que é expresso pelo coletivo dos trabalhadores que se cria a possibilidade de o
sofrimento emergir e sua solução ser pensada por todos.
Embora a Psicodinâmica do Trabalho compreenda a fala e a escuta como
ferramentas indissociáveis para atuar sobre o sofrimento psíquico, estas não trazem
implicações para a singularidade do trabalhador: a forma como ele significa os
acontecimentos de sua vida, seus padecimentos. Mas buscam-se extrair no discurso
coletivo as implicações da organização do trabalho sobre o sofrimento psíquico dos
trabalhadores.
Para Dejours a psicanálise pode contribuir para a abordagem da Psicodinâmica
do Trabalho, no entanto, ele pontua limitações, pelo fato de que a Psicanálise privilegia
o campo do fantasma em relação à realidade. Além disso, afirma que ela tem muitas
dificuldades em articular essa realidade com uma estrutura psíquica concebida, quase
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exclusivamente, a partir de experiências infantis. No entanto, o referido autor diz que é
possível utilizar-se o conceito de sublimação como um instrumento de compreensão de
situações de trabalho.
Apesar da significativa contribuição da Psicodinâmica do Trabalho, observamos
que no decorrer dos seus estudos a psicanálise apenas subsidia algumas formulações.
Dessa forma, percebemos a necessidade de trazer à tona uma maior aproximação dos
conceitos psicanalíticos com o sofrimento psíquico do trabalhador, e o modo como os
sujeitos singularizam suas experiências de sofrimento.
Acreditamos que discorrer sobre o estabelecimento do nexo causal, as
contribuições e os limites das diferentes abordagens acerca da relação entre saúde
mental e trabalho não se trata de negar as condições concretas da atividade de trabalho,
processo produtivo, forma de organização do trabalho e suas implicações na saúde
mental. Trata-se, por ora, de apontar que algo interessante veio ocorrendo, nos últimos
anos, sobre o debate inerente ao sofrimento psíquico dos trabalhadores.
3.3 A Atuação da Enfermagem no Contexto Atual da Saúde do Trabalhador
Embora o título sugira uma abordagem histórica e conceitual sobre a área da
enfermagem do trabalho, este resgate não se configura como elemento central da nossa
discussão, mas a partir dessa especialidade direcionaremos a nossa atenção para a
clínica que embasa o cuidado de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico,
independente do espaço de atuação do enfermeiro.
A enfermagem na atenção a saúde do trabalhador foi incorporada legalmente nas
empresas no início dos anos 70, quando o Brasil se consagrou campeão mundial de
acidentes de trabalho, e o governo impôs que as empresas contratassem profissionais
especializados. No entanto, a ‘enfermagem do trabalho’ só passa a ser reconhecida em
2004 quando o Conselho Federal de Enfermagem (COFEN), por meio de uma
resolução, decide fixar esta área de atuação como competência do enfermeiro.
Assim, a enfermagem na saúde do trabalhador foi se configurando como um
campo de atuação direcionada ao indivíduo ou grupo de indivíduos, considerados
integrantes do processo de produção de bens e serviços da empresa. Uma categoria
presente no enfrentamento dos fatores de riscos ocupacionais e no equacionamento dos
agravos gerados nesse processo. O especialista em enfermagem do trabalho visa a
aprofundar-se nas ações de promoção, proteção e recuperação da saúde, atendendo aos
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princípios da legislação vigente, detendo conhecimentos de higiene e segurança do
trabalho (CASTRO; SOUSA; SANTOS, 2010).
Observamos que durante a formação nesta área as questões inerentes à saúde
mental do trabalhador são direcionadas para uma clínica em que predominam as
doenças e os fatores epidemiológicos (o adoecimento e sua relação com o trabalho,
classificação das doenças, medidas preventivas e o diagnóstico médico).
Desse modo, podemos observar que a formação do enfermeiro do trabalho está
centrada em dois eventos: prestar atendimento ao trabalhador que por eventualidade se
acidentasse no local de trabalho e de evitar os danos à saúde dos trabalhadores,
decorrentes de fatores ambientais, da natureza da própria atividade e dos
comportamentos, hábitos e estilo de vida do trabalhador (MORAES, 2007).
Compreendemos que atenuar os riscos e agravos oriundos do ambiente de
trabalho e conhecer a causalidade do adoecimento dos trabalhadores são ferramentas
importantes para reduzir os índices de acidente do trabalho, doenças ocupacionais,
absenteísmo etc. Mas ao se tratar do sofrimento psíquico do trabalhador, diante das
leituras feitas sobre diversos referenciais teóricos que abordam essa temática,
questionamo-nos sobre como se institui a articulação entre saúde mental e saúde do
trabalhador (que diálogos são possíveis), como o cuidado de enfermagem vem se
estabelecendo aos trabalhadores que procuram os serviços de saúde com uma queixa de
sofrimento psíquico, sem causa orgânica. Quais as contribuições da clínica do sujeito
para o cuidado de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico?
Embora, tenhamos articulado as indagações à atuação da enfermagem do
trabalho, as mesmas não se referem apenas a este campo de conhecimento, pois
compreendemos que o sofrimento psíquico não se restringe a uma especialidade de
saber e nem a um espaço institucionalizado de cuidado (Empresas e CEREST), mas
também a outros locais de atuação do enfermeiro, como a Atenção Primária à Saúde
(APS), Centro de Atenção Psicossocial (CAPs); Unidade Integrada de Saúde Mental
(UISAM).
Aliás, sobre a primeira indagação percebemos que apesar de as leis e portarias
explicitarem que o SUS deve se pautar, entre outros princípios, na integração entre os
diversos níveis de atenção a saúde, na prática a articulação entre saúde mental e saúde
do trabalhador tem ocorrido apenas em experiências pontuais. A centralização das ações
em espaços institucionalizados (Saúde Mental no CAPS e Saúde do Trabalhador no
CEREST) tem se configurado como sendo um dos obstáculos para a concretização da
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intersetorialidade e integralidade do cuidado aos trabalhadores em sofrimento psíquico
(BERNARDO; GARBIN, 2011).
Frequentemente, os trabalhadores com queixa de sofrimento psíquico já foram
atendidos em diversos serviços como o CAPS, APS e lá encontram profissionais de
saúde que, ao escutar sua queixa, transportam-na apenas para a dimensão pessoal,
deixando de lado os aspectos sobre o sofrimento no trabalho, enquanto que no CEREST
busca-se o exato momento em que as condições de trabalho desencadearam o
sofrimento, em detrimento da subjetividade e história de vida do trabalhador
(JACQUES, 2007).
Para a superação desses obstáculos a recém Política Nacional de Saúde do
Trabalhador e Trabalhadora, aprovada pela portaria de n. 1.823 de 23 de agosto de 2012
considera a necessidade de garantir a integralidade na atenção à saúde do trabalhador
em todas as instâncias e pontos da Rede de Atenção à Saúde do SUS, mediante
articulação e construção conjunta de protocolos, linhas de cuidado e matriciamento da
saúde do trabalhador na assistência, nas estratégias e dispositivos de organização e
fluxos da rede (BRASIL, 2012).
Verificamos que a abordagem teórica acerca da integralidade não se reduz
apenas à atenção em saúde nos diferentes níveis de complexidade, mas tem propiciado a
construção de novos saberes e práticas considerando também a dimensão das relações
interpessoais (PINHEIRO; MATTOS, 2001). Portanto, acreditamos que além de
reforçar as políticas de articulação entre a saúde mental e saúde do trabalhador é
necessário que os profissionais de saúde, na sua prática clínica, possam superar a
dualidade corpo-mente, concebida pelo modelo hegemônico de cuidar que associa, em
geral, o sofrimento a uma alteração orgânica.
Sobre a segunda indagação percebemos que a enfermagem desenvolve suas
práticas no contexto do modelo biomédico. Independente do espaço de atuação o
cuidado de enfermagem está centrado na doença, uma clínica que reduz o sofrimento
psíquico a uma alteração orgânica, o sujeito a objeto de observação e mensuração, na
modelização do paciente a um ideal de normalidade propagado, excluindo totalmente o
sujeito de sua posição subjetiva (POLAK, 1997). Assim, a queixa do trabalhador em
sofrimento psíquico é posta de lado, pois são os sinais e sintomas clínicos que irão
direcionar a os cuidados e as intervenções de enfermagem.
Portanto, a clínica que predomina na formação e nas práticas dos enfermeiros
passa a ser organizada por saberes e práticas que tomam o corpo biológico como objeto
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e o esquadrinha em órgãos, separa-o em físico e psíquico, físico e emocional. Além
disso, nesse tipo de clínica, o cuidado de enfermagem passa a ser conduzida por
tecnologias leve-duras e duras, vazia de tecnologias leves; uma clínica que prega a
proteção e autonomia dos profissionais, mas, em contrapartida, exerce-se pela
fragilidade e objetificação dos pacientes (FEUERWERKER, 2007).
Dessa forma, percebemos que quando o trabalhador chega ao serviço acaba
tendo as suas queixas psíquicas desvalorizadas por aqueles que o atendem; apesar de
serem queixas verbalizadas no início de sua consulta, estas perdem sua potência, não
sendo acolhidas de forma adequada (TANAKA; RIBEIRO, 2011).
Percebemos que a demanda inicial, quase sempre, é agenciada por conflitos
emergentes ora no ambiente de trabalho (se a análise da queixa for apreendida pelo
discurso médico), ora na organização do trabalho (se a análise da queixa decorrer da
engenharia de produção, da ergonomia, e mais recentemente da psicopatologia do
trabalho) (GATTO, 1998). Raramente a queixa do trabalhador dirige-se para o
acolhimento do sofrimento psíquico.
Em geral, os enfermeiros buscam na queixa de sofrimento psíquico algo que
possa justificar e ou comprovar as alterações orgânicas. Assim, a atenção à saúde acaba
por corresponder à identificação das patologias na articulação com os riscos oriundos
dos processos de trabalho. Não é por acaso que, muitas vezes, o trabalhador com queixa
de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho traz demandas diferentes do real
problema que o aflige com receio de que sua fala não seja considerada. Desse modo,
eles próprios apontam somente as queixas físicas, localizadas no corpo (BERNARDO;
GARBIN, 2011).
Independente da abordagem teórica adotada, observamos que “as clínicas”
acabam servindo como instrumento para que os enfermeiros e, os profissionais de
saúde, conforme Gatto (1998) acabem por caucionar as relações entre a causalidade das
doenças e as exposições aos riscos (químicos, físicos e biológicos), sem contudo atentar
para a particularidade das histórias de cada um, sem perceber o que pode advir “a mais”
sobre a queixa relacionada ao trabalho.
Na verdade é este o terreno no qual os profissionais de saúde, inclusive os
enfermeiros, não querem adentrar, subjetividade do trabalhador. Então, a queixa do
trabalhador também precisa ser objetificada. Ultimamente, alguns estudos têm
demostrado que existe “uma demanda para o estabelecimento de nexo causal em
trabalhadores de diversos ramos”, alertando para os casos de subnotificação dos agravos
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psíquicos relacionados ao trabalho (JACQUES; 2002). Talvez, a questão não se refira
apenas à subnotificação, mas primeiramente como se estabelece a escuta desses
trabalhadores com queixa de sofrimento psíquico para que ocorra a notificação?
Uma escuta que guiada pela via da epidemiologia descritiva, engenharia de
produção, ergonomia, reduz a interlocução do cuidado de enfermagem aos trabalhadores
que procuram o serviço com alguma queixa de sofrimento psíquico relacionado ao
trabalho. Se observarmos a produção de cartilhas, manuais direcionados a enfermagem
e o cuidado à saúde dos trabalhadores, verificamos que estes apontam a consulta de
enfermagem como sendo um espaço complementar da equipe de saúde para focalizar as
informações relativas aos dados do trabalhador. Num primeiro contato as principais
informações são: dados pessoais, a queixa principal, história da doença atual, história
patológica pregressa, história familiar e o perfil do paciente.
Com frequência o
trabalhador procura o serviço com mais de uma queixa principal. Entretanto, estas são
relacionadas em termos das prioridades e exploradas como “entidades separadas”
(SILVA, 2012).
Como um ritual de objetivação, o corpo do paciente é dividido através de um
instrumento para ser analisado em suas partes. A observação incide no detalhamento do
corpo que só é possível a partir do que está aparente no exame físico ou no exame
psíquico. Foucault (2004, p.154) afirma que a realização desse exame tem caráter
disciplinador, haja vista que “manifesta a sujeição dos que são percebidos como objetos
e a objetivação dos que se sujeitam”. Dessa forma, nos serviços o cuidado de
enfermagem aos trabalhadores que chegam com a queixa de sofrimento psíquico são
direcionados pela escuta do corpo através de um roteiro de entrevista formado por
perguntas prévias.
Nesta perspectiva, percebemos que o conceito de escuta está associado aqui a
um dos resultados que a pesquisa de Lima (2011) evidenciou ao entrevistar enfermeiros
sobre quais significados estes atribuíam à escuta aos pacientes em sofrimento psíquico.
Um destes aponta que a escuta dos enfermeiros está amparada em um discurso
biomédico, e neste local o enfermeiro se coloca na posição de desencadear respostas ou
solucionar algum problema identificado a partir de sua percepção.
Portanto, é o enfermeiro que atribui significados à fala daquele a que veio se
queixar. No entanto, compreendemos que as queixas de sofrimento psíquico, quando
escutadas, poderiam representar vivências subjetivas e modos de vulnerabilidade do
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trabalhador, mas os próprios enfermeiros tentam objetificar o sofrimento, imputando a
doença ao corpo.
O que há é um trabalhador dissociado da sua condição de sujeito. Ao mencionar
trecho da entrevista de Dejours, podemos compreender que não é possível, ao sujeito,
deixar seu funcionamento psíquico no vestiário, juntamente com o macacão do serviço.
Desse modo no plano psicológico, não há divisão entre o trabalho e fora dele, entre
sujeito e trabalhador (CARDOSO, 2001).
Na maioria dos casos de atendimentos na saúde do trabalhador, o cuidado de
enfermagem volta-se para a observação e o registro do comportamento, a medida
comparativa é a referência à “norma” e aos “desvios” psíquicos que o trabalhador possa
apresentar. Nesta perspectiva é comum os enfermeiros direcionarem o seu cuidado para
a própria demanda da instituição, buscando a resposta para ela, ao invés de atuar com a
demanda do trabalhador em sofrimento psíquico (expressa em sua queixa inicial). Como
aborda Kurimoto (2013, p. 103):
Nestas instituições o que ocorre são práticas que representam a forma
de lidar com a efervescência das questões que ali aparecem e que
exigem respostas imediatas e padronizadas de todos que ali trabalham.
Tornam-se assim práticas mais coletivas que acontecem a qualquer
tempo, em espaços coletivos. Quando deveria deixar de focar a doença
para se voltar para aquele que sofre e lidar com o que ele tem a dizer
na sua singularidade.
Essa realidade é perceptível quando a instituição trabalha as ações educativas
direcionadas para um grupo homogêneo de trabalhadores (diagnosticados com síndrome
de burnout, assédio moral), um momento coletivo para discutir as experiências
individuais sobre o seu adoecimento, desenvolvendo temas sobre a autoestima,
qualidade de vida e aproveitando o espaço para relembrar os direitos e deveres
trabalhistas que competem a cada um. Assim, o que se mostra aos bastidores das
instituições e reproduzido nos discursos dos profissionais de saúde é, conforme Gatto
(1998, p. 18) a “reabilitação e readaptação dos ‘trabalhadores’ ao trabalho, pois aí se
valorizam “os trabalhadores” enquanto cidadãos adaptados ao trabalho e ao contrato
social”.
Quando os trabalhadores são agrupados em grupos “homogêneos” acabam
ganhando uma identificação, portanto, como sendo ou não pertencentes a uma
determinada doença, com anulação do sujeito. Essa padronização do sofrimento é o que
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fundamenta a clínica do olhar em detrimento da escuta daquilo que o sujeito faz de seu
sintoma, de como o insere na sua história e no seu discurso.
Desse modo, a instituição busca, por meio das ações dos profissionais
envolvidos, reduzir ou eliminar o sintoma dos trabalhadores em sofrimento psíquico. É
necessário, conforme Kurimoto (2013) pensar um espaço, mesmo que este seja
institucional, contendo regras e normas explícitas, em que haja a construção de furos
que coloquem em função a singularidade daquele que veio a falar sobre seu sofrimento.
Pensar uma instituição que também sustente as condições para a existência do sujeito,
ao contrário de aboli-lo. Lembrando que:
Quando o sujeito procura uma instituição, não é qualquer uma. Algo
de sua causa mais íntima o dirigiu até lá, guiado pelo que supõe poder
encontrar ali. A instituição é um Outro: Outro daquele sujeito. A
instituição não é a mesma para todos (BARROS-BRISET, 2011,
p.02).
Quando o discurso coletivo dos trabalhadores é “acolhido”, estes acabam
ganhando a vertente da escuta psicossocial. Como afirma Kirschbaum; Paula (2002), a
prática de enfermagem nesse modelo psicossocial trata de traduzir os sintomas
apresentados pelas pessoas em dificuldades sociais como: estabelecer relações
interpessoais efetivas; realizar atividades de vida diária ou desempenhar atividades de
vida prática. Fato também que pode ser traduzido em quadros psiquiátricos: síndrome
de burnout; estresse laboral etc.
Devemos pensar, então, a realização de uma pratica de cuidado institucional,
sem desprezar o coletivo, entretanto, construindo um ponto de interlocução possível
para essas práticas díspares (o discurso coletivo e singularidade da fala), esse é o espaço
da clínica. Mas que clínica é essa?
Para acolher o sujeito é necessário romper com uma clínica marcada por
ausência de escuta, de encontros dos profissionais de enfermagem com os trabalhadores
em sofrimento psíquico. O modelo tradicional de atenção à saúde vem sendo
questionado por suas características fragmentárias e reducionistas, que enfatiza a doença
do paciente como objeto de sua intervenção.
Devemos pensar, então, a realização de uma pratica de cuidado institucional,
sem desprezar o coletivo, entretanto, construindo um ponto de interlocução possível
para essas práticas díspares (o discurso coletivo e singularidade da fala), esse é o espaço
da clínica. É esse caminho que se insere este estudo.
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No capítulo seguinte, observamos que a psicanálise subverte o saber científico e
trabalha a partir da inclusão do sujeito no campo de sua experiência, inclusão que
curiosamente se faz, não por acaso ou contingência, pela via do inconsciente: retirado
da condição de excluído, condição própria ao sujeito da ciência, o sujeito da psicanálise
só pode ser incluído como sujeito do inconsciente (ERLICH, 2007).
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4 A CLÍNICA PSICANALÍTICA E O SOFRIMENTO PSÍQUICO DO
TRABALHADOR
Percebemos que, durante o caminhar de dois séculos da medicina científica, a
prática da enfermagem se pauta em uma clínica que fundamenta o olhar sobre a doença
e a desvalorização da escuta do sofrimento do sujeito, marcando a relação profissionalpaciente uma investigação asséptica, sem verdadeiro diálogo. Pois, a medicina, na
acepção de Brant; Mianyo-Gomez (2007), para ser científica tentou anular o que há de
sujeito no paciente e no profissional, buscando transformá-los, respectivamente, em
objeto e instrumento.
Desta forma, entendemos que o sujeito que embasa a clínica biomédica é aquele
que é meramente reduzido a um diagnóstico descrito no manual. Portanto, sendo
destituído de qualquer referência que lhe diga respeito sobre o seu modo singular, sobre
as suas experiências de vida. Assim, se o objeto de investigação da medicina é a doença,
ela, portanto, exclui o sujeito da sua própria constituição.
Em contrapartida, a clínica do sujeito pautada no referencial da psicanálise busca
colocar seu acento no sujeito, utilizando as palavras de Erlich (2007). E este passa a ser
capaz de transmitir um saber desconhecido por outros discursos, qual seja, o de ser
marcado pelo inconsciente. Desse modo, a subjetividade excluída do discurso médico,
é privilegiada no discurso psicanalítico, permitindo compreendermos a possibilidade de
articulação entre sintoma e a forma como o sujeito significa os acontecimentos de sua
vida. É a partir da fala que se pode ter acesso à realidade psíquica, à posição discursiva
do sujeito.
Nessa acepção, ao nos debruçarmos sobre a questão do sofrimento psíquico do
trabalhador numa ótica psicanalítica, é necessário transcender a limitação da queixa
apenas enquanto decorrente da organização do trabalho. É preciso articulá-la às séries
psíquicas que marcam a estruturação desse sujeito nas suas relações de prazer e
desprazer, aos significantes com os quais marcam seu corpo e aos modos singulares que
cada um encontra para se situar frente ao Outro. É importante escutar a queixa da dor
física, mas reconhecendo que aí se encontra uma dor de outra natureza, aquela que
marca o ser falante.
Nesse aspecto em particular, a psicanálise pode dar sua contribuição, na
singularidade de cada caso, para a formulação teórica e metodológica do objeto em
estudo, sofrimento, ao trazer para este campo a reflexão sobre aquilo que é o seu objeto
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primordial - o psiquismo - e, daí, suas inter-relações com o trabalho (FURTADO,
2005).
Desse modo, compreendemos que a psicanálise não tem a dizer sobre a doença
do trabalhador, mas sobre o trabalhador. Furtado (2005, p. 12) corrobora com nossa
percepção ao afirmar que “a psicanálise é uma clínica do sujeito, e não uma clínica do
trabalho, da religião, da escola, do hospital etc”. Desse modo, o trabalho, por mais que
tentemos salientar sua importância para a subjetividade, apresenta-se como mais um
elemento integrante da vida do sujeito e que só faz sentido se articulada a outros
elementos de sua história. Um sujeito que deseja sempre, mas deseja um desejo que é do
Outro.
No entanto, podemos nos perguntar: a que sujeito estamos nos referindo? Será
que se trata do indivíduo cartesiano, tomado em sua extensão de corpo? Ou ainda em
sua racionalidade? Na verdade, para a psicanálise o sujeito é aquele que surge a partir de
um dizer. Ou seja, conforme Furtado (2005) é quando os trabalhadores com sofrimento
psíquico são convocados a falar sobre os acontecimentos causadores de seu sofrimento,
que percebemos que aquilo que antes fazia parte de uma atividade objetiva, pertencente
à realidade material, passa a ser considerado em sua vertente psíquica e suas relações
com o desejo e com a história desses sujeitos. O trabalho, antes visualizado e entendido
como aspecto material e objetivo, agora passa à realidade do inconsciente, de seus
mecanismos e de suas produções.
4.1 O Sujeito Inconsciente
O que eu sou? O que posso pensar? Naturalmente, hoje em dia, já nos
deparamos fazendo perguntas desse tipo em algum momento de nossas vidas. O teor
dessas duas perguntas levaram Descartes (1596-1650) a formular pela primeira vez na
história das ideias o conceito de sujeito. Foi a partir da sua obra intitulada Discurso do
Método que se procurou explicitar um caminho para a busca da verdade por meio de um
método: matemático e filosófico. Podemos perceber que só é verdadeiro, para
Descartes, tudo aquilo que pode ser concebido de forma clara e objetiva, portanto,
somente a razão é capaz de conduzir o homem a esse processo. Assim, o sujeito que
será formulado pelo método cartesiano não é outro senão o sujeito da ciência (QUINET,
2008).
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A equação “penso, logo sou” é a única verdade da qual não podemos duvidar.
Ao ligar a existência do sujeito à certeza do ato de pensar, Descartes a dissocia de tudo
o que não seja vinculado à razão: “não sou senão uma coisa que pensa”. Assim, a
definição desse sujeito é uma coisa cuja substância é o pensamento. Portanto, para
chegar a essa conclusão sobre quem sou eu, Descartes rejeita os sentidos, pois para ele
estes são sempre enganadores. A subjetividade conduz para o afastamento das ideias
racionais. Assim, aquilo que se vê, que se apalpa, que se sente não é capaz de dizer
quem sou. Nessa perspectiva, afirma que o discurso científico separa a existência e os
atributos do próprio sujeito, separação que se torna um ideal para a ciência moderna.
Um pensamento sem qualidades, cujo correspondente, conforme aborda Lopes (2008), é
um sujeito, também, sem qualidades.
Ressaltamos que Lacan (1956/1998), ao escrever o texto “A ciência e a
verdade”, menciona que a psicanálise opera sobre esse mesmo sujeito da ciência. Parece
paradoxal a princípio, mas posteriormente perceberemos que o surgimento da
psicanálise é historicamente dependente do pensamento científico. O que pode ser
resgatado a partir das considerações de Lacan é que a importância do cogito para a
psicanálise dá-se em virtude da relação do sujeito com sua vertente simbólica. É por
meio dessa dimensão que, conforme Erlich (2008), algo pode ter valor de existência
para o ser falante.
Desse modo, para a psicanálise o sujeito é também o sujeito do pensamento
inconsciente. Mas não é por se referir à dimensão psíquica que esse sujeito não pode se
manifestar. O sujeito inconsciente se estrutura em forma de linguagem. Portanto, falar
do sujeito inconsciente não se trata aqui do sujeito da desrazão, como aborda Quinet
(2008), refere-se à razão inconsciente cuja lógica é também apreendida através de um
método, não o método cartesiano, mas ao que se chama de método psicanalítico.
A psicanálise, portanto, se fundamenta a partir de seus próprios princípios e
métodos. Eis a grande contribuição da psicanálise: configura-se em um discurso, mas
traz o particular dos demais discursos, em que o outro a quem esse discurso se dirige é,
por excelência, o próprio sujeito (ALBERTI, 2006).
Assim, se o procedimento cartesiano e o freudiano convergem em definir o
sujeito pela razão, divergem em relação à substância: para Descartes o sujeito é uma
coisa pensante, enquanto para a psicanálise o sujeito não tem substância, manifestandose na hesitação, na dúvida entre isto e aquilo. Como diz Lacan (1956, p. 260-261), “o
inconsciente é o capítulo de minha história que é marcado por um branco ou ocupado
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por uma mentira: é o capítulo censurado”. De outra maneira, o sujeito para a psicanálise
é essa lembrança apagada, esse significante que falta, esse vazio de representação em
que manifesta o desejo (QUINET, 2008).
Portanto, o cogito freudiano é antes de tudo “desidero ergo sum” (desejo logo
sou), uma vez em que lá onde se encontra o desejo, está o sujeito com efeito de
associação das representações. Desejo é o nome do sujeito da era freudiana. Dessa
forma, o sujeito que a psicanálise descobre nos escombros da patologia é um sujeito que
é fundamentalmente desejo (LOPES, 2008).
O sujeito inconsciente é capaz de transmitir um saber desconhecido para ele
mesmo. Porém, nem sempre este sujeito quer saber daquilo que luta tanto para
resguardar. Embora seja um capítulo censurado, a verdade pode ser resgatada, como
lembra Lacan (1956/1998). Pois, na grande parte, ela está escrita de outra forma, com
outros contornos, com outras cores e em outro lugar. Uma escrita contendo textos cujas
partes das frases podem ser suprimidas, sem sentido. Assim, não é porque ele não deseja
saber que ele não se manifesta. Mas de que forma? O sujeito inconsciente se revela na
fala daquele que busca entender o sentido das suas dores, das suas angústias.
Nessa perspectiva, ao se revelar pela fala diz-se que o sujeito inconsciente se
estrutura em linguagem. Portanto, algo foge do controle do sujeito, algo que não é
consciente e que a ele não pertence. E é por meio da linguagem que o sujeito
inconsciente deixa rastros de sua visibilidade (DOR, 2003).
O inconsciente pode ser acessado por seus efeitos nos sonhos, nos lapsos, nos
atos falhos, nos chistes e no sintoma. É assim que ele dribla a armadura e as estratégias
censoras do psiquismo, por isso mesmo deixa escapar a verdade do sujeito. E, conforme
Quinet (2008), o significado delas, na verdade, se constitui no desejo, tão fugaz, quanto
o próprio sujeito que aí se manifesta.
Na restituição de um sonho, por exemplo, quando nós o relatamos, muitas vezes
somos tomados pela dúvida. E, frequentemente, partes do nosso sonho são estranhos
para nós mesmos. É a partir dessas observações na clínica que Freud formula que é no
espaço entre isto ou aquilo, lá onde justamente se pergunta, onde existe a dúvida sobre o
elemento impreciso do sonho, que se apresenta o sujeito, no campo do inconsciente
como pensamento ausente. Portanto, para a psicanálise esse vazio, esse buraco sem fim,
sem sentido, que insiste em ser preenchido por alguma coisa, se configura no
significante que falta e naquilo que se constitui o sujeito-desejo.
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Freud (1980) enfatiza que o inconsciente é constituído não pelo que a
consciência em si evoca, fala, entende e discerne, mas, por sua essência, é o que ela
essencialmente recusa. Assim, o pensamento em si não o define, pois não há
representação própria para expressar o desejo em palavras, pois como o sujeito ele é
vazio, aspiração, falta, é sempre desejo de alguma coisa. Lacan ao falar de sujeito, não
se refere ao indivíduo. Mas reporta-se a ele como algo diferente de um organismo que
se adapta. Um sujeito que é “outra coisa” e “para quem sabe ouvi-lo, a sua conduta toda
fala a partir de um outro lugar, de uma falta-a-ser” (LACAN, (1978/1992).
Dessa forma, percebemos, ao longo dos textos psicanalíticos que a essência do
sujeito freudiano é o sujeito cartesiano subvertido. Este sujeito, o da psicanálise, é o que
está submetido à cadeia de significantes. Mas podemos nos indagar: O que seria, então,
esse significante?
Para demonstrar que o inconsciente é estruturado como linguagem, Lacan, ao
mesmo tempo em que se apropria do conceito de significante formalizado por Saussure,
subverte-o. Ele inverterá a relação entre o significado e significante proposto pela teoria
linguística, colocando o significado (s) em detrimento do significante (S), sendo
representado pelo S/s. Dessa forma, o significante é pré-existente ao sujeito, e o
significado da fala do mesmo está diretamente relacionado à relação de oposição de um
significante ao outro (DOR, 2003).
A psicanálise dá prevalência ao significante e não ao significado. O significado
nada mais é do que outro significante que, junto com o primeiro, retroativamente,
produz efeito de sentido. É uma cadeia de anéis que entrelaçados, mantêm sempre uma
relação com um deles. Um desliza sobre o vazio do outro, mas se tocam em um
determinado ponto, metáfora que mostra que a associação de ideias – regra de ouro da
psicanálise - se faz pela via do significante e não do significado, conforme menciona
Dor (2003).
É nos sonhos, nos lapsos do discurso, nas distorções, nas lacunas e nas
repetições do sujeito, assim como em seus sintomas, que podemos “ler” o traço apagado
do significante recalcado, que emerge na linguagem singular, na fala de cada sujeito,
que apreende o desejo inconsciente. Este desejo, conforme menciona Dias (2006),
abriga inadvertidamente um sentido na cadeia de significantes, determinando a maneira
pela qual o discurso do sujeito se organiza.
O discurso falha, um dos anéis entrelaçados, ao se quebrar, rompe com a
corrente composta por eles, ou seja, a cadeia de significantes se interrompe e é ai que é
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preciso incidir na clínica em busca do quê, do desejo, se encontra recalcado e que o
sujeito insiste em desconhecer como seu. É o mais íntimo que aflora no dito do sujeito,
a despeito dele mesmo, que, conforme Quinet (2008) não sabe o que diz.
É na demanda endereçada ao Outro que circula o desejo, mas não um desejo que
se revela nitidamente. É antes um desejo escamoteado, escondido, disfarçado, que
circula sob os bastidores da enunciação e nos intervalos do enunciado, nas pausas, nas
exclamações e reticências; em suma, é no ato da fala do sujeito que cabe avalizar a
presença do desejo e a verdade que ele oculta. É na fala que deixa escapar, para além do
vazio de seu dizer, o apelo do sujeito à verdade, que já está inscrita em alguma parte no
inconsciente (QUINET, 2012).
Mesmo que a linguagem seja a ferramenta de acesso ao mundo, é impossível
para o sujeito representar tudo. Algo sempre escapa à possibilidade de representação, de
nomear a experiência. Quando isso acontece, diz-se que o sujeito se encontra no plano
do traumático, da angústia. O sintoma surge como tentativa de reparar essa fenda que se
abre (DOR, 2003). E assim o sujeito pode tentar reformular outros significantes para
aquilo que o faz sofrer e pode vir a se constituir como seu sintoma.
4.2 Sofrimento Psíquico do Trabalhador e o Sintoma
É necessário reconhecermos que o sofrimento não tem uma manifestação única
para todos. O que é sofrimento para uma pessoa não é, necessariamente, para outra,
mesmo quando submetidos às mesmas condições ambientais adversas. Ou ainda, aquilo
que é sofrimento para alguém pode ser prazer para outro e vice-versa. Assim, essa
condição básica do ser no mundo não pode ser definida apenas a partir do fenômeno. O
sofrimento depende da significação que assume no tempo e no espaço, bem como no
corpo que ele toca produzindo algo “além do princípio do prazer”. O homem sofre
porque passa a perceber a sua finitude; o que faz do sofrimento uma dimensão não
apenas biológica, mas, sobretudo, existencial (BRANT; MINAYO-GOMEZ, 2004).
Compreendemos, a partir da clínica psicanalítica, que todas as experiências do
sujeito vão ser significadas a partir do lugar que este sujeito ocupa em relação à
linguagem, a partir dos significantes que marcam sua história. O sofrimento do
trabalhador não escapa a isso. Nesta direção buscamos analisar aqui o sofrimento
psíquico do trabalhador e percebemos que este não pode ser pensado apenas como fator
inerente aos estímulos externos (organização do trabalho, infra-estrutura, ritmo de
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produção), mas precisa ser abordado a partir da forma como cada trabalhador o
significa.
Nesta perspectiva, entramos aí na segunda consequência de tomarmos o sujeito
do inconsciente: Como esse sujeito é dividido, consciente e inconsciente, aquilo que
representa sofrimento para uma instancia, é prazer para outra. Há uma satisfação de
desejo, mas essa satisfação tem um caráter problemático, não podendo ser sentida como
tal (FREUD, 1920).
Ao buscarmos material para a discussão dessa temática nos escritos de Freud
enveredamos primeiramente na leitura de uma de suas obras: “O Mal Estar na
Civilização”, (1930) e neste, o autor menciona que trabalhar e amar constituem dois
caminhos para a felicidade. O trabalho apresenta um papel importante na vida dos
homens, assim, este deveria ser apenas fonte de felicidade e prazer. Mas, sabemos a
partir de nossas vivências que a lógica nem sempre é essa. Pois, assim como as demais
fontes que orientam o sujeito na busca do prazer, o trabalho nem sempre garante o
sucesso de sua empreitada: a felicidade. Pois dedicar-se a ele não afasta os sujeitos das
experiências de desprazer.
Embora, Freud não tenha desenvolvido textos sobre o trabalho propriamente
dito, percebemos ao longo de suas obras discussões que remetem aos aspectos psíquicos
envolvidos na relação entre o homem e o trabalho. Considerado um dos caminhos para
aquilo que constitui a jornada pela felicidade, o trabalho pode, conforme Mendes
(1999), tanto gratificar quando frustrar as energias pulsionais, ficando a cargo do
processo de sublimação a mediação entre pulsão e trabalho.
Antes de entramos nessa discussão, torna-se imprescindível voltarmos
brevemente à discussão de Freud sobre a felicidade e as formas de sofrimento que
podem atingir o sujeito para, posteriormente, ascendermos o diálogo sobre o sofrimento
psíquico do trabalhador, na perspectiva psicanalítica.
Para iniciar o tema da felicidade em “O mal-estar na civilização” (1930), Freud
adota como ponto basilar para o seu debate questionamentos sobre o propósito da vida,
tendo como base o comportamento dos homens. A partir de seus estudos ele menciona
que as pessoas se esforçam para alcançar e, mais do que isso, preservar um estado de
intensa felicidade. Assim, esse comportamento abrange a tentativa de conseguir duas
coisas: aspiração à felicidade e a ausência de dor e desprazer.
Nesta acepção, Freud (1930) menciona o sofrimento e as sensações de desprazer
como uma ameaça constante para o homem, a partir de três fontes: do próprio corpo que
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caminha para decadência, o mundo externo que pode se voltar contra nós mediante
forças destrutivas e cruéis, e os relacionamentos que se estabelecem com os outros. Dos
três este último é tido por Freud como sendo o mais penoso.
A vida torna-se, dessa forma, uma tarefa difícil por trazer aos sujeitos
demasiadas dores, decepções e desprazeres. Portanto, a caminhada que as pessoas fazem
para fugir da dor e desprazer, em diversas situações da vida é a que mais se repete,
tornando-se frequente e inevitavelmente presente. Nessa perspectiva Freud chamou-as
de tarefas insolúveis. E para suportá-las os sujeitos precisam dispensar de atividades
paliativas para conseguir aliviar as sensações de desprazer. Para isso, existem três
recursos que Freud (1930) menciona serem uma espécie de escape: as gratificações
substitutivas que seriam as artes; os entorpecentes que agem sobre o corpo, e a atividade
científica. Compreendemos que tanto as artes e a atividade científica, apesar de suas
particularidades, se enquadram na categoria de trabalho.
Essas atividades paliativas têm o propósito de buscar aquilo a que chamamos de
felicidade. Entretanto, Freud analisa que nenhuma destas é capaz de oferecer a
felicidade absoluta, pois é possível apenas a realização parcial da pulsão,
proporcionando apenas uma felicidade “efêmera”, devido ao prazer que causam e/ou ao
desprazer que evitam. De outro modo, a felicidade vem da satisfação repentina de
necessidades altamente represadas, e por sua natureza é possível apenas como fenômeno
passageiro. Rápido e solúvel. É, portanto, mais fácil experimentar a infelicidade que a
própria felicidade, o sofrimento ao prazer (Freud, 1930). Nesse momento Freud afirma
que o homem busca encontrar a felicidade, mesmo que isso signifique uma travessia
infindável. Assim os sujeitos se dão por felizes ao fugir da desgraça e sobreviver ao
tormento.
Freud refere-se no seu texto “Projeto para uma Psicologia Científica” (1921) ao
sofrimento como um estado de expectativa diante do perigo e da preparação para ele.
Afirma ainda que, quando se trata de um perigo desconhecido, estamos diante da
angústia; quando ele é conhecido, temos o medo e, quando o sujeito topa com um
perigo sem estar preparado para enfrentá-lo, sua reação é o susto. O sofrimento se
configura como uma reação, uma manifestação da insistência em viver em um ambiente
que, na maioria das vezes, não lhe é favorável.
Diante de tudo, podemos dizer que a felicidade à qual Freud se refere implica,
neste sentido, a realização do programa do princípio de prazer. Por princípio de prazer,
entendemos com Freud que se trata de um modo de organização que, governando o
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psiquismo desde o início da vida, baseia-se na busca de prazer, mas também na evitação
de sofrimento.
É no Projeto para uma Psicologia Científica (1921) que Freud esboça as
concepções sobre os estímulos que causam o desprazer. Estes estímulos foram
inicialmente chamados de externos e internos. Quanto aos primeiros, são oriundos do
mundo externo e, ao se constituírem como ameaça ao organismo, este pode se
desvencilhar por meio de um mecanismo apropriado de fuga, como por exemplo ação
motora.
Por outro lado, alguns tormentos que se pretende expulsar revelam-se como
inseparáveis do próprio sujeito. Assim, a fim de desviar destas “excitações
desagradáveis que surgem do interior, o ego não pode utilizar senão os métodos que
utiliza contra o desprazer oriundo do exterior e esse é o ponto de partida de importantes
distúrbios patológicos”. Portanto, as estratégias utilizadas para esquivar-se dos
estímulos externos se apresentam ineficazes para os que surgem do meio interno.
Dessa forma, o que Freud (1915, p. 32) chama de interior, perceberemos como
sendo os estímulos endógenos que emergem do próprio sujeito. Destes o organismo não
pode fugir. Por esta razão eles agem também de forma diferente no psíquico, restandolhe apenas encontrar uma forma de lidar com eles. A esses estímulos, Freud chamou
posteriormente de “pulsão” afirmando que se trata de:
[...] um conceito-limite entre o psíquico e o somático, [...] o
representante psíquico dos estímulos que provêm do interior do corpo
e alcançam a psique, [...] uma medida da exigência de trabalho
imposta ao psíquico em consequência de sua relação com o corpo
(FREUD, 1915, p. 45).
Dentre as principais características, a pulsão, ao contrário dos estímulos
externos, nunca age como uma força momentânea de impacto que logo, em seguida,
exige do organismo um ato reflexo para desprender da ameaça. A pulsão, ao contrário,
atua sempre como uma força constante, vindo do próprio sujeito. Por agredir a partir do
interior do corpo, a fuga, no dizer de Freud (1915, p. 20), “não é de serventia alguma”.
Ao pensar em pulsão o termo mais adequado para explicitar sua qualidade seria
“necessidade” [Bedürfnis], e tudo aquilo que suspende a essa necessidade, Freud, deu o
nome de "satisfação" [Befriedigung]. Nos reportamos a essa trama conceitual até aqui
para compreendermos que diferente dos estímulos externos, a satisfação só pode ser
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alcançada por meio de uma alteração direcionada e altamente específica (não é qualquer
coisa que a satisfaça, pois este sempre se encontra no campo do Outro).
Assim, podemos compreender que a meta de uma pulsão é sempre a satisfação,
que só pode ser obtida quando o estado de estimulação presente na fonte pulsional é
suspenso. Embora a meta final de toda pulsão seja sempre a mesma, são diversos os
caminhos que podem conduzir a essa meta. Foi partindo desse princípio que Freud
formulou, inicialmente, que a sensação de desprazer está articulada com um aumento
dos estímulos, por sua vez a sensação de prazer se relaciona com uma redução destes
(FREUD, 1915).
Se compreendermos que toda meta da pulsão é a satisfação, então, podemos
entender que para alcançar seu objetivo ela precisa de alguma coisa que concretize sua
necessidade. Assim, o objeto da pulsão é aquilo em que, ou por meio de que, a pulsão
pode alcançar sua meta. Freud (1915, p. 38) diz sobre o objeto como este sendo:
[...] o elemento mais variável na pulsão e não está originariamente
vinculado a ela, sendo-lhe apenas acrescentado em razão de sua
aptidão para propiciar a satisfação. Em rigor, não é preciso ser um
outro [fremd] objeto externo, pode muito bem ser uma parte de nosso
próprio corpo.
Nesta acepção, a observação da clínica psicanalítica mostrou que os destinos de
tais pulsões podem ser quatro: a transformação em seu contrário; o redirecionamento
contra a própria pessoa; o recalque e a sublimação.
Nessa perspectiva, o trabalho pode ser pensado não apenas com a tarefa
realizada, mas com o que ele atualiza das relações do sujeito com outro como objeto.
Evidente que Freud não estava preocupado com as questões concretas do trabalho, mas
com a dinâmica que a pulsão estabelece com seus objetos, com as exigências pulsionais
e a forma como esse sujeito reage a tais investidas e como significa essa realidade
(MENDES, 1999).
Entendemos que as duas últimas vicissitudes da pulsão são de maior importância
quando se trata de pensar as relações do sujeito com o trabalho, sendo assim,
passaremos a nos deter em cada uma delas.
Ao caminharmos cronologicamente pelos textos freudianos perceberemos que o
termo sublimação foi mencionado pela primeira vez em uma carta de Freud dirigida a
Fliess (Carta 61- Rascunho L), texto ainda pré-psicanalítico no qual o termo é
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empregado em associação a construções fantasiosas e como defesa em relação à
sexualidade.
O que queremos ressaltar é que a sublimação, neste momento, foi elaborada por
Freud sem ser claramente diferenciada do recalque, tendo a função de promover
esquecimento de lembranças dolorosas. Esta conotação de defesa em relação ao sexual
associada à sublimação é fruto da concepção de Freud sobre a sexualidade, o conflito
psíquico e o adoecimento neurótico no início de sua obra (CASTIEL, 2007).
Posteriormente, ao longo das suas obras psicanalíticas Freud formulará novas
percepções sobre a sublimação, diferenciando do mecanismo de recalque. Segundo
Lacan (1964), dentre as vicissitudes que a pulsão pode tomar, a sublimação é aquela que
permite a satisfação sem que haja o recalque. Freud, assim, definiu a sublimação:
[...] sua capacidade de deslocar seus objetivos sem restringir
consideravelmente a sua intensidade. A essa capacidade de trocar seu
objetivo sexual original por outro, não mais sexual, mas
psiquicamente relacionado com o primeiro, chama-se capacidade de
sublimação (FREUD, 1908, p. 193).
Desse modo, queremos destacar duas palavras utilizadas por Freud, ao se
reportar à sublimação, deslocar e relacionar. A partir da primeira palavra podemos
compreender, de forma sucinta, que a sublimação se caracteriza pela mudança na
finalidade pulsional, ou seja, há um deslocamento do investimento libidinal do objeto
para a libido do ego dessexualizada. Portanto, esse processo se dá a custa da
substituição do objeto inicialmente sexual por outro que tem como característica a
valorização social. Embora exista a substituição, o objeto, agora dessexualizado,
mantém uma estreita relação com o objeto inicial. Eis, em destaque, a segunda palavra
que ressaltamos.
Assim, a partir da sublimação, o sujeito com suas características particulares e
seus modos de satisfação peculiares, eleva seu investimento pulsional para o nível
socialmente valorizado. É o que podemos ver com o investimento das pulsões sendo
direcionadas para o trabalho, de forma geral, ou, como exemplificou Freud, as obras
artísticas, a filosofia, religião e a ciência. Assim, o sujeito pode criar o novo porque
existe algo que é da ordem do real, e é neste espaço vazio que é tecida uma rede de
significantes que resultam em uma obra, uma criação cultural ou um trabalho majestoso
perante os olhos da sociedade.
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Portanto, a sublimação, de forma substitutiva, indica a possibilidade de
satisfação pulsional por vias que não as das formações sintomáticas, reafirmando o
caráter de plasticidade do objeto pulsional e sublinhando a presença do sexual, do
erótico na sublimação. Como afirma, Lacan ([1959-60]1997) a sublimação, é uma via
que não passa pelo recalque, mas antes envolve a criação a partir do vazio.
Não é por mera coincidência que para muitos, o trabalho é considerado uma arte.
É possível que em alguns momentos, o trabalho apareça para alguns sujeitos como
possibilidade de criação e assim, se aproximar do conceito de (Lacan, [1959-1960]
1997, p. 140) segundo o qual a sublimação é o ato de “elevar o objeto à dignidade da
coisa”. Assim, o trabalho é uma das possibilidades para a sublimação que pressupõe
criatividade e satisfação, mesmo que de forma substitutiva e parcial.
Ademais, Freud afirma que o ponto fraco desse destino pulsional é que ele não
atinge todas as pessoas e que a intensidade de sua satisfação mostra-se tênue quando
comparada a satisfações mais grosseiras e primárias. A sublimação não proporciona
proteção completa contra os sofrimentos provenientes de diversas fontes. Ela não cria
uma armadura contra as investidas do destino e habitualmente falha quando a origem do
sofrimento é o próprio corpo da pessoa.
Assim, percebemos que a dimensão da sublimação não é a mais enfatizada no
capitalismo, pois a lógica deste é fazer com que o sujeito tampone o vazio com alguma
coisa, e a formula mais simples é fazer com que os sujeitos preencham esse vazio com
objetos concretos e possíveis de ser consumidos: carros, celulares, computadores,
roupas e etc.
O segundo destino pulsional que vai nos interessar quando se trata de analisar as
relações entre sofrimento e trabalho é o do recalque. Este ocorre, segundo Freud (1915)
quando há um desligamento da relação entre a representação de coisa, que está impressa
no aparelho psíquico como traço de memória, e a representação da palavra que lhe dá
significado.
Esta definição nos leva a pensar que o processo de recalque é um trabalho
constante e intenso, que mantém relação direta com os estímulos provenientes do
inconsciente. Por outro lado, o mecanismo de recalque nem sempre obtém sucesso
nesse esforço, então encontramos as formas de manifestação do retorno do recalcado
sob a forma de sonhos, lapsos, chistes e o sintoma. Estes são a prova do fracasso do
recalque e sinais de que os estímulos mais profundos da psique conseguiram obter êxito
frente às estratégias defensivas do psiquismo (FURTADO, 2005).
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Desse modo, compreendemos que, enquanto o instinto tem variações de ritmo e
de intensidade, a pulsão é uma força constante que, embora pressione constantemente
por satisfação, é impossível de ser eliminada. A entrada na civilização, o recurso à
linguagem, exige que uma parcela dessa satisfação pulsional seja deixada de fora.
Apesar de toda essa tentativa de controle dos corpos, a pulsão continua exigindo um
outro trabalho, buscando formas de se manifestar (FREUD,1915).
Um dos caminhos encontrados para obter a satisfação pulsional, embora não seja
reconhecida como tal pelo Eu, é o sintoma. Este, portanto, é a forma através da qual as
representações recalcadas sofreram disfarce para driblar o recalque, assumindo formas
diferentes e/ou substitutivas de se manifestar como, por exemplo, através do próprio
corpo. O corpo é marcado pela palavra, constituindo-se, assim, como corpo libidinal.
Trata-se de uma satisfação também paradoxal, pois como afirma Freud (1920)
embora seja sentida pelo sujeito como sofrimento, denota que em outra cena algo da
pulsão consegue se satisfazer parcialmente. Segundo Mendes (1999), a inibição da
capacidade de trabalho nos neuróticos decorre de uma falta de gratificação pulsional e
que se manifesta em formas de reações sintomáticas como fadiga, tontura, vômitos.
A descoberta de que existe uma satisfação que se obtém “no” e “pelo
sofrimento” desemboca mais tarde numa reformulação importante que Freud realiza em
sua teoria. Foi no texto Além do Princípio do Prazer (1920) que ele reviu toda essa
discussão da pulsão, articulada com os mecanismos de prazer/desprazer, a partir do que
ele identifica na clínica. Apesar de afirmar que o psiquismo humano é regulado pelo
princípio de prazer, uma coisa chama atenção de Freud: se o psíquico está regulado pela
busca da felicidade, por que os sujeitos repetem exatamente as experiências de
desprazer?
Foi a partir das brincadeiras de seu neto, dos relatos dos sonhos dos soldados
com neurose traumática e das transferências na análise, que Freud passou a questionar o
funcionamento psíquico do princípio do prazer. Nestas situações nota a presença de uma
compulsão a repetição de cenas que não representam prazer para os sujeitos, indicando
que existe algo que se impõe, para além do princípio do prazer. Nas palavras de Freud
(1920, p. 33) “existe realmente na mente uma compulsão à repetição que sobrepuja o
princípio de prazer”.
Diante disso, Freud (1920, p.56) compreende que é incorreto falar na
dominância apenas do princípio do prazer nos nossos processos mentais. Pois, “se tal
dominância existisse a imensa maioria dos nossos processos mentais teria de ser
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acompanhada pelo prazer ou conduzir a ele, ao passo que a experiência geral contradiz
qualquer conclusão desse tipo”.
Para entendermos essa indagação de Freud, precisamos compreender que o
princípio de prazer é próprio de um método primário de funcionamento por parte do
aparelho mental, mas responder a todos os seus desejos é desde o início ineficaz como
até mesmo altamente perigoso. Assim, como forma de se resguardar dos desejos
inconcebíveis, os instintos de autopreservação do ego entram em cena, fazendo que o
princípio de prazer seja substituído pelo princípio de realidade. Este fica do lado da
censura psíquica e é de onde provêm os impulsos contrários aos que se mostram mais
antigos e arraigados. O conflito anímico está também diretamente relacionado com a
oposição entre o princípio de prazer e o princípio de realidade (FURTADO, 2005).
Desse modo, podemos nos perguntar: como a compulsão à repetição de situação
de desprazer se relaciona com o princípio de prazer? Como aborda Freud (1920), a
maior parte do que é reexperimentado sob a compulsão à repetição traz uma carga de
desprazer para o ego, já que traz à luz atividades das pulsões recalcadas. Este,
entretanto, é desprazer de um tipo, mas que não contradiz o princípio de prazer: pois, ao
mesmo tempo, que se configura como desprazer para um sistema, é satisfação para
outro.
Entretanto, o princípio de realidade “não abandona a intenção de
fundamentalmente obter prazer; não obstante, exige e efetua o adiamento da satisfação,
o abandono de uma série de possibilidades de obtê-la” (FREUD, 1920, p. 56). Dessa
forma, a restrição e o adiamento da satisfação pulsional são o preço para amar e
trabalhar na sociedade civilizada. Esta renúncia, a que Freud denomina de satisfação
parcial, demanda um prazer pulsional que não pode ser sentido como tal, e quando não é
sublimado, pode ser recalcado, constituindo um mecanismo básico das neuroses e,
sendo um problema no engajamento ao trabalho (MENDES, ABRAHÃO, 1999).
Com Lacan percebemos que o sintoma também é um significante e um sinal. Mas
não um sinal que remeta necessariamente a um caráter de doença. O sintoma com
significante para a psicanálise tem um significado sexual, e como sinal, o sintoma é um
sinal do sujeito de que algo ou alguma coisa ele deseja, mas esse desejo deve ser
encarado como inconcebível. Mas mesmo sendo um desejo paradoxal, o sintoma não
fica totalmente escondido. Ele abre brecha, percorre o labirinto e procura escapar de
qualquer forma. E escapa, ainda que seja por pequenas veredas. Pois, no sintoma, assim
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como nas demais formações do inconsciente, há também uma satisfação de desejo
(QUINET, 2008).
Na clínica psicanalítica, o sintoma em si, a queixa inicial trazida pelo sujeito não
é a questão central a ser analisada. O sintoma, como o próprio nome diz, é sintoma de
algo; está no lugar de algo. Ele representa uma formação do inconsciente que traduz o
conflito entre o recalcado e as defesas (ALBERTI, 2006).
Na medicina, o sintoma é dotado de sentido, mas compete ao médico dar a sua
significação. O médico do trabalho deve procurar no sintoma, manifestação subjetiva do
trabalhador, a possibilidade de sua objetivação deve ser decifrada, portanto, como sendo
ou não sinal de uma doença (PIMENTA, FERREIRA; 2003).
Na psicanálise, o sintoma também é dotado de sentido, mas um sentido que cabe
ao inconsciente. O sintoma revela não a verdade da doença, mas a verdade do sujeito
inconsciente, pois porta o desejo inconsciente indestrutível. Por isso, não há como
eliminá-lo, pretensão da medicina científica que por meio da medicalização tenta,
muitas vezes, anular ou mascarar o sintoma. Mas se o sintoma é desejo e o desejo é
constituído pela falta, ele não se desfaz completamente (PIMENTA, FERREIRA;
2003).
Para Lacan o desejo só consegue satisfação sob a condição de fazer uma
renúncia parcial, ou seja, o desejo para ser desejo se constitui na falta de alguma coisa,
não podendo ser satisfeito em sua plenitude. Desde o início, a necessidade tem de se
tornar demanda e isso remete à intervenção do significante. No entanto, nem tudo pode
ser dito, nem tudo cabe nas palavras, e esse “algo” que escapa à incidência do
significante é que Lacan vai chamar de desejo. Estamos no campo da meia-verdade, já
que a impossibilidade de dizer a verdade toda assinala a presença de algo do significado
que é resistente ao significante (LOPES, 2008).
Para a psicanálise o sintoma também é signo de um sofrimento. No entanto, para
a clínica psicanalítica o sintoma é indicativo de algo, está no lugar de algo que não pôde
ser dito, não encontrou possibilidade de ser representado em palavras e, por isso, busca
outras possibilidades de representação. Além disso, esse “algo” impossível de ser dito,
não diz respeito apenas a um acontecimento atual (uma situação de estresse no trabalho,
por exemplo). Ele remete a um real traumático que está na base da própria constituição
do sujeito.
Para entendermos esta afirmação é preciso retornar a Freud quando ele afirma
que não há algo equivalente ao eu desde o início. Ele precisa constituir a partir da
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relação com o outro. Antes mesmo de vir ao mundo, o recém-nascido já ocupa um lugar
reservado na linguagem que antecede a sua existência material como, por exemplo, por
meio do nome que os pais escolhem e os planejamentos que esses fazem para o futuro
filho. Tudo isso antecede e delimita, de certa forma, o mundo do qual cada bebê irá
fazer parte (FINK, 1998).
Para um ser recém-nascido se manter vivo é necessária a intervenção de um
adulto próximo que realize ações essenciais para sua sobrevivência. A essa alteridade,
Lacan propõe chamá-lo “Outro” (escrito com “o” maiúsculo) para designar não apenas
esse adulto próximo, mas também a ordem linguageira que este adulto encarna para o
ser “recém-aparecido”, ou seja, o que chega ao bebê “é um conjunto de marcas
materiais e simbólicas – significantes – introduzidas pelo Outro materno, que suscitarão,
no corpo do bebê, um ato de resposta que se chama de sujeito” (ELIA, 2004, p. 41).
Sem a presença desse Outro, o recém-nascido fica em uma condição a que Freud
deu o nome de desamparo fundamental (Hilflosigkeit) do ser humano, que exige a
intervenção de um adulto próximo (Nebemensch) que perpetre a ação específica
necessária à sobrevivência do ser humano desamparado. Em meio a uma luta pela
sobrevivência, é nesse Outro que ele vai buscar os significantes para nomear suas
experiências e aquilo que sente: fome, sede e seu desejo (FINK, 1998).
Lacan é radical ao afirmar que uma criança não sabe o que quer antes da
assimilação da linguagem, pois quando um bebê chora, o sentido desse ato é dado pelos
pais ou pelas pessoas que cuidam dele que tentam nomear a dor que a criança parece
estar expressando. Deste modo, o Outro pode ser visto como um intruso traiçoeiro que
transforma nossos desejos, mas é, ao mesmo tempo, aquilo que nos capacita a revelar
uns aos outros nossos desejos e a nos comunicarmos (FINK, 1998).
Porém, a mãe ou quem quer que tenha acolhido esta criança em seu desejo,
precisa estar voltada também para algo que se situe além do bebê, apontando que essa
relação mãe e filho não basta para satisfazê-la. Ao apontar para o filho que tem outros
interesses a mãe se situa também como mulher e, como tal, um ser desejante. A criança
percebe que a este Outro também falta algo, que ele não pode tudo, não vê tudo e não
pode nomear tudo. Nessas idas e vindas o sujeito percebe que a mãe não é completa,
que a ela também falta algo (ELIA, 2004).
Isso ocorre porque o Outro também tem que recorrer à linguagem, impossível de
dizer tudo. Nessa lacuna, que se abre, marcada pela falta no Outro é que o sujeito vai
passar a se perguntar sobre o desejo: o que esse outro quer? E mais, o que ele quer de
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mim? A partir daí, o sujeito segue procurando responder a esta questão, seja tomando o
outro por objeto do seu próprio desejo, seja se colocando como o objeto que poderia
tamponar a falta do outro também desejante (QUINET, 2008).
Essas experiências infantis exigem uma consideração especial, pois são elas que
determinam as mais importantes consequências, porque ocorrem numa época de
desenvolvimento incompleto, e por essa mesma razão, capazes de efeitos traumáticos
(FREUD, 1916-1917). Esse momento estruturante marcará o modo pelo qual o sujeito
irá se relacionar com a realidade e com as demais pessoas que farão parte do seu
convívio e, inclusive a forma de se posicionar frente à construção do seu sintoma.
O sintoma, portanto, para Freud não é tomado como sinônimo de uma afecção
biofisiológica. O sintoma para a psicanálise também é um significado, uma resposta do
sujeito frente ao encontro com o real traumático. Trata-se de uma resposta que carreia
um significado sexual, e como sinal, o sintoma é um sinal do sujeito de que algo ou
alguma coisa ele deseja, embora se trate de um desejo inconcebível. Portanto, no
sintoma, assim como nas demais formações do inconsciente, há também uma satisfação
de desejo (QUINET, 2008).
Como afirma Lacan, o inconsciente se reporta ao capítulo da história do sujeito
que é marcado por um branco, ocupado por um vazio sem sentido, cujas palavras são
incapazes de descrevê-lo, ou por outro lado constituído por uma mentira: é o capítulo
censurado (Lacan [1954-1955]1978, p. 124). É por isso que o sintoma não deve ser
visto como algo a ser “eliminado”. Ele deve, antes, ser “interrogado” na perspectiva de
que se possa decifrar algo dessa resposta constituída pelo sujeito. Isso não significa que
o sujeito também não sofra com este seu sintoma. Mas é por meio da fala, da articulação
dos significantes que se pode desfazer o sintoma, pois o sujeito poderá simbolizar estas
coisas inomináveis e buscar uma saída ainda melhor para elaborar seu conflito interno
(FURTADO, 2005).
A posição do eu diante do inconsciente é a de não querer saber nada sobre isso,
posição essa que é reforçada no modelo médico-científico onde o sujeito é
desresponsabilizado de seu sintoma. A psicanálise, por sua vez, considera que esse
saber se revela na fala daquele que vem se queixar, desde que ela encontre do outro lado
um analista. É nos sonhos, nos lapsos do discurso, nas distorções, nas lacunas e nas
repetições do sujeito, assim como em seus sintomas, que se lerá o traço apagado do
significante recalcado, que emerge na linguagem singular, na fala de cada sujeito, que
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apreende o desejo inconsciente. Este desejo abriga inadvertidamente um sentido,
determinando a maneira pela qual o discurso do sujeito se organiza (QUINET, 2008).
O discurso falha, ou seja, a cadeia de significantes se interrompe e é aí que é
preciso incidir na clínica em busca do quê, do desejo, se encontra recalcado e que o
sujeito insiste em desconhecer como seu. É o mais íntimo que aflora no dito do sujeito,
a despeito dele mesmo, que não sabe o que diz (QUINET, 2008).
No entanto, ao situarmos o sujeito em termos de discurso inconsciente, isso não
implica desconsiderar o corpo, pois, de acordo com o conceito de pulsão, trata-se de
algo que se situa entre o psíquico e o somático. Sendo assim, o sofrimento também tem
uma inscrição no corpo, compondo uma geografia marcada por relevos atravessados por
prazer, desprazer e dor, nem sempre passível de ser expressa em palavras (DOR, 2003).
As fronteiras entre prazer e desprazer são imprecisas, vagas, e se superpõem em
camadas indiscerníveis, muitas vezes inefáveis. O manifestado depende da modalidade
pela qual se introjetou a linguagem e aprendeu a sentir e a nomear a experiência como
angústia, dor, prazer ou satisfação. A maneira como utiliza a linguagem para lidar com
as solicitações do outro define os atos, que podem ser de submissão, desobediência e
contestação. O sujeito é, portanto, produto da contingência da linguagem, do desejo e do
conjunto de dispositivos presentes no seu espaço institucional (BRANT; MINAYOGOMEZ, 2004).
Assim, percebemos que o corpo do ser falante diferencia-se das demais formas
de vida por ser afetado pela linguagem. Não lidamos com o mundo objetivo, mas com
representações que já são construídas de forma singular, a partir das experiências que
constituem o sujeito. É em decorrência dessa exigência da linguagem que entra em jogo
“algo mais”, que não se submete e se manifesta na lógica cartesiana. No campo da
saúde do trabalhador, esse “algo mais” que insiste em se manifestar, que traz algo do
sujeito inconsciente, é relegado, muitas vezes, passando apenas a ser apreendido como
doença mental e, portanto, passível de intervenção médica.
De fato, em nenhum outro momento da nossa história houve tantas reclamações
trabalhistas, reivindicações de indenização por invalidez e pedidos de aposentadorias
(BORSOI, 2007). Na clínica, chegam pacientes dizendo-se deprimidos porque o chefe
os trata com desprezo, não conseguem obter reconhecimento no trabalho, ou ainda
porque “sofrem” de síndrome de burnout, fibromialgia etc. Imbuídos desta queixa,
fixam-se apenas nestas questões e dificilmente se permitem pensar em suas perdas, lutos
e conflitos pessoai
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4.3 Mais–Valia e o Sintoma do Trabalhador
Observamos que em Freud o sintoma é compreendido enquanto uma mensagem
a ser decifrada e uma modalidade de satisfação pulsional. Lacan, na década de 70 vai
mais longe nessa proposta de leitura do sintoma na psicanálise, articulando-a como uma
modalidade de estabelecimento de laço social, elaborando a teoria dos discursos
(VANIER, 2002).
O sintoma é uma discussão que está presente desde a origem da psicanálise;
entretanto, ao ler alguns escritos de Lacan, vê-se que este faz em diversas ocasiões a
afirmação de que Marx inventou o sintoma. Em um de seus últimos seminários, Lacan
afirma que devemos buscar as origens da noção do sintoma, não em Hipócrates como
costumeiramente se faz, mas em Marx (SILVA, 2010).
É necessário destacarmos que esse reconhecimento de Lacan não é devido à
apropriação da palavra “sintoma” que ele encontra descrita por Marx, mas ao fato de
este se referir à própria “dimensão do sintoma”. Segundo Lacan, a leitura de Marx sobre
o capitalismo se faz a partir do “sintoma” do próprio capitalismo, mediante as
frustrações da classe trabalhadora. E nesse aspecto, Marx desenvolve uma teoria do
capitalismo construindo a noção de mais-valia. A mais-valia é para Lacan signo de que
Marx parte exatamente do que na estrutura capitalista é falha, do que aí não funciona.
Tal observação pode ser associada, por Lacan quando este diz que o que há de essencial
no pensamento marxista é a equivalência do sintoma como valor de verdade
(ALBERTI, 2010).
É a partir da estrutura marxista de mais valia que Lacan tece o conceito de mais
gozar. Assim, precisamos discorrer um pouco sobre as ideias de Marx sobre o
capitalismo para compreendermos as observações tecidas por Lacan.
A mais valia é considerada por Marx como sendo produto do discurso capitalista
e, portanto, não é senão a partir desse discurso que se pode determinar seu lugar:
produto e causa. Podemos compreender por mais-valia a diferença entre o valor final da
mercadoria produzida e a soma do valor dos meios de produção e do valor do trabalho.
O resultado dessa operação constitui a base do lucro do capitalismo (SILVA, 2010).
Marx, conforme o autor supracitado, para explicar o funcionamento da mais
valia, descreve a função do mercado e, principalmente, como o trabalho se situa neste
campo. No mercado, o trabalho é comprado como uma mercadoria. Para chegar a essa
conclusão, Marx afirma que a estrutura do sistema capitalista se fundamenta em uma
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cadeia de mercadorias, fruto da articulação de M1 – M2. Nesta cadeia, uma mercadoria
específica ganha uma extrema importância para simbolizar essa própria circulação de
mercadorias: o dinheiro. Tal relação é expressa por Marx como sendo M1 – D – M2.
Essa operação pode ser traduzida em conversão de mercadoria em dinheiro e
reconversão de dinheiro em mercadoria, ou seja, vender para comprar, e esse ciclo não
tem fim. Há sempre uma repetição.
Desse modo, o dinheiro trata-se de algo tão singular que habitualmente as
pessoas esquecem sua condição de mercadoria. Contudo, é na circulação que o dinheiro
atualiza a sua função: facilitar a troca de mercadorias. Porém a grande contribuição de
Marx foi explicitar como o dinheiro se transforma em capital. Isso demandou investigar
algo para além das aparências, aquilo que estava oculto.
Dessa forma, o que Marx percebe é o surgimento de uma segunda operação: DM - D’, aqui se trata agora da conversão de dinheiro em mercadoria e reconversão de
mercadoria em dinheiro, ou seja, comprar para vender. O dinheiro que se movimenta de
acordo com esta última circulação transforma-se em capital (SILVA, 2010).
Foi a partir desse pensamento que Marx mostrou que o valor excedente, portanto
a mais-valia, não pode se originar na circulação de mercadorias, porém algo tem de
ocorrer fora dela e nela ocorrer de forma imperceptível. Transcrevemos a indagação de
Marx (1989, p.185) sobre isso: “Mas pode o valor excedente (mais-valia) ter sua origem
fora da circulação?” Assim, Marx chega à conclusão de que existe no mercado apenas
uma única mercadoria, que, se consumida, pode criar valor: a força de trabalho.
É aqui, por baixo da circulação de capital, que se encontra a verdade do
capitalismo: a expropriação do trabalho. Portanto, uma vez inserido neste sistema
nenhum salário é justo, algo tem de ser usurpado para sustentar o capitalista. É por isso
que a equação não pode se fechar, não pode se igualar: D # D’. Caso contrário seria
inviabilizar o sistema. Circulação e desigualdade combinadas garantem o acúmulo do
capital. E é a mais-valia que garante essa estrutura (OLIVEIRA, 2008).
Nesta perceptiva a força de trabalho também se configura como sendo
mercadoria (M). A apropriação por parte do capitalista sobre o valor excedente da força
de trabalho é uma exigência e condição necessária para o capitalismo. É partindo dessa
abordagem que Lacan fala de um novo discurso, o discurso capitalista. O lugar que o
trabalho e o mercado assumem neste discurso é o que vai permitir a Marx situar a maisvalia (OLIVEIRA, 2008).
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Marx afirma que na sociedade capitalista as relações sociais entre indivíduos
disfarçam-se em relações sociais entre coisas. Daí o caráter fetichista do sintoma
formalizado por Marx. O proletário, não mais na condição de escravo do senhor feudal,
torna-se escravo de sua liberdade, ao vender livremente sua força de trabalho. Nas
palavras de Marx “o trabalho não produz apenas mercadorias; ele produz a si mesmo e
ao trabalhador como uma mercadoria” (MARX, 1989, p.60). Constituindo o processo de
alienação do trabalhador.
Mas o estranhamento não se mostra somente no resultado final do trabalho, ou
seja, a alienação não ocorre somente em relação ao produto final, mas também, e,
principalmente, no ato da produção, dentro da própria atividade produtiva. “Como
poderia, o trabalhador defrontar-se alheio ao produto da sua atividade se no ato mesmo
da produção, não estranhasse a si mesmo?” (MARX, 1989, p.82). O estranhamento de si
mesmo é marca fundante do modo de produção capitalista. No lugar do que se espera
atingir como sendo a identidade do sujeito, o que “eu sou”, há um abismo.
O que faz ponte sobre o abismo é o sintoma e, conforme Oliveira (2010), não o
sintoma signo de qualquer patologia, o sintoma médico, mas o sintoma como laço,
como modo de enlaçar o trabalhador no mundo. Segundo Lacan ([1968-1969] 2008),
quando o trabalho é comprado pelo capitalista pelo preço de mercado, produz-se um
resto, uma parte suplementar que não é paga ao trabalhador. Assim, a mais-valia fura a
forma do valor e ao final do processo produtivo, pode ser chamada de uma economia de
gozo. O gozo é um excesso para além do princípio do prazer, enquanto a mais-valia é
um excesso para além do valor.
Lacan ([1968-1969] 2008) menciona que um significante representa um sujeito
junto a outro significante, nos termos do discurso capitalista; tem-se, então, que um
valor de uso (a força de trabalho) representa um trabalhador junto a outro valor de uso
(seu valor de troca), resultando daí a mais-valia. Dessa operação, irá sempre resultar
uma perda, marcada pela produção do objeto a. Ao vender sua força de trabalho para o
mercado, o trabalhador vende algo que será pago, mas também algo que não será jamais
pago. Pois, sempre nessa transformação, algo falha, algo não é pago, algo não recebe
um preço: falha do saber, de onde cai a mais-valia.
Desse modo, o trabalhador já se mostra dividido pela operação de troca. Algo
dele, incomensurável, “algo” que não pode ser pago agora pertence ao mercado. Ele não
goza mais disso. A rigor, ele nunca gozou. Mas ao perdê-lo, ele pode agora partir em
busca da sua reconquista: gozo perdido a ser recuperado como mais-gozar. É essa perda
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que causa o mais-gozar. É esse não pago que retorna como sintoma, isso mesmo que o
próprio sujeito é incapaz de nomear, até que Marx tenha inventado a mais-valia
(OLIVEIRA, 2008).
Aí inscrito, segundo Lacan, enquanto aquele que vende a sua força de trabalho, o
trabalhador sofre as consequências de um discurso perfeitamente definido. Estas se
manifestam em sua frustração, que introduz a dimensão propriamente conflitiva que
Lacan designará como sendo a da verdade, o mercado enquanto campo de saber.
Desse modo, segundo Lacan, o pensamento de Marx consiste em considerar o
mercado como o campo do Outro que totaliza os valores, como o saber que prescreve os
preços e que, como discurso, detém os meios de gozar. O mais-gozar, enquanto função,
é um efeito do discurso que o articula, ele demonstra na renúncia ao gozo, um efeito do
próprio discurso. Lacan, em homologia, e não por analogia, com o conceito de maisvalia tece o conceito de mais-gozar (SILVA, 2010).
Lacan menciona que é o ocultamento da verdade que permitirá aproximar
capitalismo e ciência. É que tanto o capitalismo quanto a ciência, enquanto saber,
rechaça o que é da ordem da verdade. No capitalismo, isso se mostra, como Lacan frisa,
no fato de que “o saber não é o trabalho”. Na medida em que pensamos o próprio
mercado como saber, diz Lacan, o saber é o preço. Pois, há algo no trabalho que não
tem preço ou a que não é dado nenhum preço, que o saber se mostra em sua falha, que
ele encontra aí uma verdade. Uma verdade da qual o mercado, enquanto saber, nada
quer saber. Mas é no plano da frustração do trabalhador, que Lacan designa como sendo
o nível de uma verdade, nada garante que algo possa estar inteiramente resolvido, pois o
próprio trabalhador por estar inserido na linguagem é incapaz de dizer tudo (SILVA,
2010).
O que vai interessar a Lacan é a relação do saber com o gozo. No seminário
intitulado “O Avesso da Psicanálise”, Jacques Lacan (1992-1969/1970) pontua quatro
discursos que aparelhariam o laço social entre o sujeito e o outro. Ele cria o quinto
discurso, o capitalista, mas este, diferente dos outros, não produz laço social. Quinet
(2006) entende o discurso enquanto laço social como sendo das modalidades possíveis
de relação entre o sujeito e o Outro.
De acordo com Lacan ([1969-1970] 1992), os laços sociais sustentam os quatro
discursos que são representados pelos seguintes elementos: S1, S2, $, a. O S1 que é o
significante mestre, o qual é representado pela sua qualidade de comando. Além disso,
podemos compreendê-lo como sendo aquele significante da primeira experiência de
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satisfação, a qual nunca pode ser retomada de forma plena. Tal impossibilidade é
negligenciada, visto que há uma repetição do S1, o que configura o S2.
Por sua vez, o S2 é representado pela busca incessante da primeira experiência
de satisfação, constituinte da própria cadeia significante, isto é, o saber inconsciente. No
que concerne ao $, lidamos com o sujeito dividido; tal concepção diz respeito ao fato de
que não há um significante que esgote a definição de sujeito. E por fim o objeto a,
objeto causa do desejo que vai se distribuir na equação abaixo, podendo ocupar quatro
lugares:
Esses lugares dizem respeito ao fato de que qualquer discurso apresenta uma
verdade que o mobiliza, constituindo sua mola propulsora, sobre a qual está assentado
um agente, este se dirige ao outro, produtor, a fim de obter deste uma produção. Todos
esses lugares podem permutar de modo circular, produzindo, pois, quatro configurações
de quatro possibilidades de discursos: mestre; universitário; histérica e do analista.
Lacan ainda elabora um quinto discurso, o capitalista (QUINET, 2002).
Lacan, em o Avesso da Psicanálise ([1969-1970]1992), atribui ao agente a
incumbência de dominante do discurso. No caso do discurso do analista, por exemplo, o
agente é o objeto a (causa de desejo); no discurso da histérica é o sintoma que se
posiciona como dominante no discurso, representado pelo sujeito dividido ($). Tais
denominações visam a mostrar a relação entre o agente presente no discurso e aquilo
que constitui sua tônica principal. Vejamos abaixo, a operação dos quatro discursos:
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O primeiro deles, discurso do mestre, caracteriza-se por ser um discurso onde o
poder está nas mãos de um mestre ou senhor, aquele que domina. O escravo estará com
o seu outro possível nessa relação: o saber (S2) e o gozo (a). Este discurso caracteriza-se
por ter um mestre que comanda, mas não sabe fazer. O saber está do lado do escravo,
ele tem o saber-fazer. Ao mestre cabe apenas o esforço para que as coisas funcionem,
não importa de que forma, desde que elas aconteçam (LACAN, [1969-1970]1992).
Desde modo, o discurso só age sustentado por uma verdade escamoteada, que
está oculta: o mestre é castrado. E por fim, o que o discurso do mestre produz é o gozo
(a), para o escravo um mais-de-gozar, porque afinal é um gozo que ele produz apenas
para satisfazer o mestre. Esse é o discurso do governo, do comando e fundador de
grande parte das instituições modernas (LACAN, [1969-1970]1992). Podemos
reconhecer traços deste discurso naquelas situações onde o profissional de saúde é
aquele que manda (prescreve) e o paciente é aquele que obedece. Neste caso, inseridos
neste discurso, o profissional provoca um assujeitamento do outro.
No discurso do universitário, percebemos um deslocamento importante no lugar
do saber. O mestre não é mais aquele que governa, mas ele precisa se apoiar em um
saber outro para afirmar sua verdade. Neste ponto, podemos perceber que no discurso
universitário trata-se de um saber (S2) que tem como pretensão objetificar (a) o outro de
forma a produzir um sujeito ($) dissociado de seus significantes primordiais (S1). Deste
modo, o que resta ao outro é apenas o silêncio, e quando enunciar algo será da ordem da
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reprodução. Porta voz dos enunciados. É o caso, por exemplo, de quando ao escrever
um trabalho acadêmico, o autor precisa estar a todo o momento buscando outros autores
para referenciar e assim garantir a legitimidade de suas afirmações. Na clínica temos um
exemplo desse discurso quando o médico faz uso do saber psiquiátrico para ensinar ou
convencer seu paciente, impondo uma ação corretiva no intuito de normalizar a sua
queixa (QUINET, 2002),
No discurso da histérica, como já observamos, o discurso dominante em questão
é representado pelo $, é o sintoma. A histérica toma o outro como mestre (S1), ao qual
irá dirigir sua demanda de cura do sintoma. Portanto, a histérica coloca o Outro em uma
situação de divisão subjetiva, onde ele vacila em sua verdade, obrigando-o a produzir
um saber. Assim como ocorreu na história da psicanálise quando as histéricas da época
de Freud faziam com seus médicos, deixando-os assombrados frente a suas
manifestações sintomáticas que não correspondiam a uma lesão orgânica. Foram elas,
com seus sintomas, que levaram Freud a produzir um saber: a psicanálise. Como afirma
Quinet (2002), ainda hoje, quando o médico se vê impulsionando a se deter, a estudar e
a escrever para produzir um saber provocado pelo caso de um paciente estamos no
discurso histérico.
O discurso do analista é aquele em que o outro sai do lugar de especialista,
abstém-se de fornecer um saber pronto e se cala, permitindo ao sujeito, sob
transferência, produzir algum saber sobre o que lhe acontece.
Outra particularidade do discurso do analista é ser o único que trata o outro
como sujeito $. No discurso do mestre o outro é tratado como escravo, no discurso da
histérica o outro é tratado como mestre e no discurso universitário o outro é considerado
objeto. Tratar o outro como sujeito é possibilitar que ele se manifeste com sua
singularidade, com seu S1, produto do discurso do analista. Mas o sujeito considerado
pela psicanálise é o $ - sujeito do inconsciente - que ao tomar a palavra não pode dizer
tudo, na medida em que não é unívoco. Sendo assim, o que o $ vai deixar aparecer são
seus equívocos - o mal-entendido - para que disso emerja, como produto do discurso o
S1: os significantes singulares de cada sujeito. O sujeito ($) no discurso do analista é,
portanto, sujeito ativo, inventivo, criativo, um sujeito que trabalha, que não está pronto
e acabado (ALMEIDA, 2009).
Além desses quatro discursos, Lacan ([1969-1970] 1992) vai posteriormente
elaborar um quinto, intitulando-o discurso capitalista, que se relaciona diretamente com
a ciência, pela inversão da parte esquerda do discurso do mestre. Numa disposição que
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indica que, nesse discurso, não há relação entre Sujeito e Outro, relação que vai se dar
entre sujeito e objeto. Isso implica a afirmação, segundo Quinet (2002, p.39), que o
discurso capitalista empobrece, enfraquece os laços, pois “o sujeito só se relaciona com
os objetos-mercadoria”.
Portanto, o que ele articula são sujeitos a gadgets, que a sociedade oferece como
objetos de desejo. Criam-se, portanto, inúmeros objetos de consumo rápido que
supostamente seriam capazes de eliminar o mal-estar do sujeito. Entretanto, ao nutrir a
fabricação da falta de gozo, isso produz sujeitos insaciáveis em sua demanda de
consumo. É necessário sempre obter o celular de última geração, computador mais caro,
roupas de marca, traduzindo-se no único discurso onde o objeto se torna acessível, ou
seja, pode ser comprado (VANIER, 2012).
É necessário sempre obter o celular de última geração, computador mais caro,
roupas de marcas, traduzindo-se no único discurso onde o objeto se torna acessível, ou
seja, pode ser comprado. As consequências disso para o desejo são claras, pois se nos
demais discursos o acesso ao real é barrado, no discurso capitalista tem-se a impressão
de que é possível alcançar o real – basta possuir mais dinheiro, comprar mais, adquirir
mais objetos, tecnologias e saberes que prometem sempre algo a mais. O discurso
capitalista, nesse sentido, promete cumprir a tão sonhada completude do sujeito.
Acoplado aos seus gadgets o sujeito acredita poder alcançar a totalidade.
Essas imitações de objeto são para Lacan exatamente aquilo que permite a ele
definir o objeto a como causa do desejo e não como sua meta. Com consequência diante
das imitações de objetos oferecidos para o consumo, cada vez que o sujeito chega a
possuí-los termina com um: “não é isso!”. Assim, lance-o novamente na busca de outro
objeto.
Desse modo, o sujeito vai assim de objeto em objeto, de significante em
significante, já que esses objetos só valem por sua captura no campo significante. Estes
remetem ao que foi inicialmente perdido, o gozo, ao qual o sujeito renunciou: o que não
quer dizer que o sujeito não vá, imaginariamente, atribuir a um outro este gozo do qual
ele se sente despossuído. Produzido pelo discurso do mestre, pela simbolização, ele
circula no laço social e o faz funcionar (VANIER, 2002).
Nesse discurso haverá uma espécie de rejeição da castração, um movimento se
suspensão da sua divisão subjetiva, um apagamento de sua subjetividade com
consequente enfraquecimento dos laços sociais. O capitalismo não tem como preencher
esse vazio que é constitutivo do sujeito, desejo que não se satisfaz com objetos
P á g i n a | 85
materiais, pois o que está em jogo são os traços mnêmicos do objeto. Essa busca
infindável para preencher o vazio pode gerar o sofrimento, pois o desejo não se encontra
acessíveis em mercadorias, antes é desejo do Outro.
Além disso, o capitalismo ao favorecer a fragmentação do processo produtivo,
expropria o trabalhador de seu potencial criativo. Nesse sentido ele se afasta muito do
conceito de sublimação proposto por Freud e por Lacan em que a possibilidade de
satisfação pulsional por vias que não as das formações sintomáticas, reafirmando o
caráter de plasticidade do objeto pulsional e sublinhando a presença do sexual, do
erótico na sublimação.
Assim, no capitalismo, mais que o fator econômico de uma sociedade, está em
jogo o gozo do empresário e do trabalhador, a psicanálise não deixa espaço para muitas
ilusões quanto à possibilidade de uma saída fácil desses modos de funcionamento dos
sujeitos. Para Lacan, diferentemente de Marx, estamos em uma sociedade de escravos,
todos do mesmo lado da máquina da produção capitalista. No entanto, todos renunciam
ao gozo, condição da entrada no laço social; mas somos todos apanhados na promessa,
reafirmada com insistência, de uma possibilidade de recuperação desse gozo perdido
oferecida pelo consumo que será democraticamente repartido entre todos (QUINET,
2002).
Portanto, não é fácil deixar o mais de gozar nesse sistema que tenta anular a
diferença entre o movimento da pulsão e a Coisa que a satisfaria, numa circularidade
incessante. Surge, assim, o sintoma como forma de manifestação do desejo reprimido.
No campo da saúde percebemos que os objetos produzidos pelo saber biomédico
fazem o sujeito crer que é possível aplacar a falta, a dor e o sofrimento, desde que se
disponha do instrumento adequado. No caso da psiquiatria, conforme Lima (2012), esse
instrumento passa a ser os medicamentos de tarja preta da vez, o antidepressivo de
última geração, e até mesmo o diagnóstico que, ao nomear o sofrimento, cria a ilusão de
apaziguamento. O capital segue custeando financeiramente as pesquisas e os
pesquisadores, induzindo a elaboração do saber sobre as doenças mentais e
comportamentais relacionadas ao trabalho, estabelecendo nexos causais para aquilo que
não é passível de objetificação, o sofrimento psíquico.
P á g i n a | 86
5 REFERENCIAL TEÓRICO – METODOLÓGICO
5.1 Tipo de Pesquisa
Trata-se de uma pesquisa qualitativa. A abordagem qualitativa permite
descobrir processos sociais ainda pouco conhecidos, como também refletir e construir
novos conceitos a partir do objeto de estudo. Tem fundamentação teórica, além de
favorecer a sistematização de conhecimentos empíricos até a compreensão da lógica
interna do grupo ou do processo em estudo (MINAYO, 2008).
Contudo, mediante as particularidades do nosso objeto de estudo (sofrimento
psíquico do trabalhador na singularidade de cada sujeito) optamos por um referencial
teórico-metodológico que possibilitasse uma abordagem do sujeito nas suas questões
singulares: os significantes com que ele pode dizer suas experiência e seu sofrimento.
Desse modo, optamos por realizar uma pesquisa que se embasa no referencial
psicanalítico para delimitação conceitual e obtenção, na área da saúde, de outro olhar
sobre a temática. Estamos cientes que “em sua vertente científica, a psicanálise se apoia
em um objeto e em uma estrutura teórica, mas suas finalidades extrapolam os limites da
ciência”, que rompe com a perspectiva cartesiana do sujeito do conhecimento
(KYRILLOS NETO; MOREIRA, 2010, p.62).
É importante destacarmos que a pesquisa que se embasa no referencial da
psicanálise marca sua diferença em relação às demais abordagens, qualitativa e
quantitativa. Apesar do nosso estudo se inserir no universo das pesquisas qualitativas,
ela se diferencia em dois pontos fundamentais: não inclui em seus objetivos a
necessidade de obter uma inferência generalizadora da amostra ou sujeitos e, segundo,
porque suas estratégias de análise de resultados não trabalham com o significado, mas
sim com o significante (IRIBARRY, 2003).
Portanto, podemos apontar que o que singulariza a pesquisa que contem
psicanálise como instrumental teórico é o campo, o objeto e o método de pesquisa. Este
campo é o inconsciente. O objeto é o enfoque ou a perspectiva a partir de uma posição
em que é colocado o pesquisador psicanalítico, a fim de aceder ao inconsciente – falta a
ser. O método é o procedimento pelo qual ele se movimenta pelas vias ou perspectivas
de acesso ao inconsciente. Autores denominam esse tipo de pesquisa como ‘pesquisa
em psicanálise’ (CAON, 1994).
P á g i n a | 87
Entretanto, ressaltamos que neste trabalho, a pesquisa em psicanálise se
configura na possibilidade de o método psicanalítico ser aplicado em outras situações
que não sejam a da clínica/consultório. Nesta perspectiva, caracterizou-se a
especificidade do método psicanalítico a possibilidade de sua aplicação a outras
situações não estritamente analíticas desde que mantidas as mesmas exigências
provenientes da prática clínica, preservando as ferramentas do método psicanalítico:
associação livre e a atenção flutuante. Desse modo, o pesquisador pode realizar um
trabalho pautado não somente a partir de atendimentos clínicos, mas também na escuta
psicanalítica de depoimentos, material biográfico, filme, entrevistas colhidas em função
do que se pretende investigar (COELHO; SANTOS, 2012).
Dessa forma, a pesquisa em psicanálise aponta para a limitação da ciência, na
medida em que esta se focaliza na objetividade, ou seja, na tentativa de eliminar o
sujeito de seu paradigma. A psicanálise o reintroduz, mas de uma maneira peculiar,
como sujeito do inconsciente. Uma realidade psíquica que possui na subjetividade de
quem anuncia a verdade. A verdade do sujeito inconsciente (MOURA; NIKOS, 2000).
A psicanálise permite reconhecer que esse sujeito que fala é marcado pela
divisão, consciente e inconsciente, que a linguagem impõe a todo ser falante. Sendo
assim, um discurso não porta apenas a dimensão do sentido, mas, também, um saber não
sabido por aquele que fala, e por meio do discurso do sujeito se utiliza dos significantes
que lhe são próprios para dizer aquilo que lhe acontece (IRIBARRY, 2003).
Para que a singularidade do caso possa ser fonte de acolhida na pesquisa em
psicanálise, é necessário interrogar a experiência e deslocar questões. Nessa perspectiva,
ao elaborar e considerar cada caso tem-se que cada um como constituindo um modo
próprio de inscrição do sujeito no laço social. A abordagem da pesquisa em psicanálise
permite, então, os meios para que o sujeito da pesquisa possa decifrar sua modalidade
singular de inscrição (VORCARO, 2010).
A psicanálise permite reconhecer que esse sujeito que fala é marcado pela
divisão, consciente e inconsciente, que a linguagem impõe a todo ser falante. Sendo
assim, um discurso não porta apenas a dimensão do sentido, mas, também, um saber não
sabido por aquele que fala, e por meio do discurso do sujeito se utiliza dos significantes
que lhe são próprios para dizer aquilo que lhe acontece (IRIBARRY, 2003).
Em virtude de a pesquisa trabalhar com a impossibilidade de previsão do
inconsciente, não se poderia jamais exigir uma sistematização completa e exclusiva. A
pesquisa em psicanálise é sempre uma apropriação do autor que depois de pesquisar o
P á g i n a | 88
método freudiano descobre um método seu, filiado a essa vertente e o singulariza na
realização de uma pesquisa (IRIBARRY, 2003). No entanto, iremos delimitar nos
tópicos seguintes alguns elementos que passam a compor o nosso instrumental de
pesquisa.
5.2 Local de Pesquisa
A pesquisa ocorreu no município de Mossoró/RN. Esta cidade está localizada a
uma distância de 295 Km a noroeste da capital do estado, Natal. É o segundo município
mais populoso, conforme os dados de 2011 do Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística (IBGE) que estimou 262.344 habitantes.
A pesquisa foi realizada em um serviço de atenção à saúde do trabalhador e em
dois serviços inseridos no campo da saúde mental do município de Mossoró. Estes
locais constituíram-se no Núcleo de Atenção em Saúde do Trabalhador do Hospital
Regional Tarcísio de Vasconcelos Maia (H.R.T.M); Centro de Atenção Psicossocial
(CAPS); Unidade Integrada em Saúde Mental (UISAM).
O Núcleo de Saúde do Trabalhador foi implantado em 2006, no Hospital
Regional Tarcísio de Vasconcelos Maia, atua como sendo um instrumento que visa a
oferecer uma melhor qualidade de vida aos servidores, seja no aspecto físico, psíquico e
social. Assim, as ações na área são voltadas à formulação e implementação de políticas
de proteção à saúde, visando à redução e eliminação do adoecimento e morte resultantes
das condições, dos processos e dos ambientes de trabalho, bem como o aprimoramento
da assistência à saúde dos trabalhadores. O Núcleo conta com uma equipe
multiprofissional: enfermeiros, médico, psicólogo, fisioterapeuta e dentre outros.
Por sua vez, os CAPS’s são instituições públicas inseridas no Sistema Único de
Saúde, sob exigência proposta pela Reforma Psiquiátrica que preza pelo deslocamento
das práticas psiquiátricas para práticas de cuidado intensivo, comunitário, personalizado
e promovedor de vida. Constitui-se por uma equipe multiprofissional, desempenhando o
papel de regulador da porta de entrada da rede de atenção em saúde mental.
Já a UISAM constitui um serviço de referência regional em saúde mental, pela
qual os usuários passam primeiro por essa unidade para, posteriormente, serem
encaminhados a outros serviços de saúde. Também concentram atendimentos
ambulatoriais de psiquiatras, psicólogos, assistentes sociais e enfermeiros.
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5.3 Sujeitos Participantes da Pesquisa
Os sujeitos que fizeram parte da pesquisa foram os trabalhadores que tinham
uma queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho. Aplicamos os seguintes
critérios de inclusão: trabalhadores que estavam ou que porventura já haviam finalizado
acompanhamento no serviço, aqueles que fossem apontados pelos profissionais de
saúde como tendo uma queixa de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho e que
aceitassem participar voluntariamente da pesquisa.
Como critérios de exclusão foram adotados: ser menor de 18 anos, estar ausente
do seu domicílio por ocasião da coleta de dados (viajando), não estar em condições
físicas ou psíquicas para a realização da entrevista.
Para recrutar os possíveis participantes, primeiramente nos direcionamos a cada
serviço para conversar com os profissionais de saúde. Neste momento, passamos a
explicar as etapas do desenvolvimento da pesquisa, sendo explicitado o tema proposto,
o objeto de estudo e como seria realizada a produção dos dados. Pedíamos para que
cada profissional de saúde nos informassem quais eram os trabalhadores que eles
atendiam e identificavam como tendo uma queixa de sofrimento psíquico relacionado
ao trabalho.
Essa primeira etapa requereu ir ao serviço mais de uma vez para conversar com
todos os profissionais envolvidos no atendimento como, por exemplo, enfermeiros,
psicólogos, psiquiatras, fisioterapeutas.
Após as visitas aos serviços levantamos as seguintes informações: no CAPS não
foi apontado nenhum trabalhador com a queixa de sofrimento psíquico relacionado ao
trabalho; na UISAM foram mencionadas duas trabalhadoras, no Núcleo de Atenção a
Saúde do Trabalhador foram identificados três trabalhadores e mediante o apontamento
de um profissional que atua em um dos locais da pesquisa foi encontrada uma
trabalhadora com o diagnóstico de Transtorno Mental e Comportamental Relacionado
ao Trabalho, mas que esta havia procurado assistência num serviço particular do
município.
Anotamos as informações desta última, pois consideramos que não era o fato de
ser atendida na rede particular de saúde que a descaracterizava a participar da pesquisa.
Pelo contrário, apenas nos confirma que esse perfil de trabalhadores ainda é uma difícil
demanda que se apresenta ao SUS e especialmente ao CEREST. Isso se deve a
P á g i n a | 90
inúmeros fatores como, por exemplo, o desconhecimento dos trabalhadores da
assistência ofertada pelo CEREST, o estigma de serem “adoecidos” em virtude do
trabalho, o medo de ter que se afastar das atividades laborais, a dificuldade que os
profissionais têm em estabelecer o nexo causal e a falta de integração entre os diversos
serviços de assistência à saúde do trabalhador em Mossoró.
A segunda etapa consistiu em contatar pessoalmente os trabalhadores no serviço
a fim de saber se tinham o interesse em participar voluntariamente da pesquisa. Nesse
momento foi entregue uma carta convite explicando o objeto de estudo, os objetivos da
pesquisa, as informações sobre o procedimento de coleta de dados. Ressaltamos para
eles que a pesquisa não se tratava de um processo avaliativo com pré-julgamentos
acerca do seu conhecimento, sua opinião, suas crenças e valores.
Do total de seis trabalhadores previamente selecionados apenas quatro
concordaram em participar das entrevistas. A partir daí, a escolha do local e hora para a
realização das entrevistas ficou a critério do trabalhador, de maneira que este pudesse
comparecer à realização da pesquisa, sem que esta oferecesse algum empecilho pessoal
ou comprometesse, por ventura, as suas ações profissionais.
Foi solicitado o Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) dos sujeitos
participantes da pesquisa. E foi mantido o sigilo sobre a identidade dos trabalhadores,
sendo o nome próprio substituído por um pseudônimo.
5.4 Procedimentos para a Coleta de Dados
Utilizamos como instrumento para a coleta de dados o método de entrevista
aberta. Esta técnica atende principalmente finalidades exploratórias, é bastante utilizada
quando o pesquisador se propõe a detalhar questões ou formular conceitos relacionados.
Ela é utilizada geralmente na descrição de casos individuais.
Quanto à sua estrutura o entrevistador introduz o tema e o entrevistado tem
liberdade para falar sobre o tema sugerido. A interferência do entrevistador deve ser
mínima possível. No entanto, como se trata de uma pesquisa que tem por referencial a
psicanálise para subsidiar a análise das informações, buscamos realizar a entrevista
aberta inspirada em algumas características presentes no que se chama de “entrevistas
preliminares” (QUINET, 2009).
As entrevistas preliminares são, antes de tudo, uma ferramenta clínica. Freud, no
seu texto intitulado “Recomendações ao médico que pratica a psicanálise“ (1912) já
P á g i n a | 91
delimitava a função desse dispositivo. Lacan cunhou o termo “entrevista preliminar”
para se referir a esse momento fundamental da experiência clinica que tem por objetivo
fazer que a queixa se transforme numa demanda endereçada àquele que escuta, fazendo
que o sintoma passe de estatuto de resposta ao estatuto de questão. Este é um dos efeitos
terapêuticos das entrevistas preliminares que consiste em transformar respostas em
perguntas, já que o sintoma é uma resposta.
A adaptação das entrevistas preliminares para a pesquisa tem o objetivo de
emergir um “sujeito” e não somente um “objeto”. Ressalta-se que a concepção de
sujeito na pesquisa em psicanálise é aquele que, através da linguagem e na linguagem –
assujeitado às leis que a organizam –, constitui o universo físico como universo
discursivo, trazendo junto à marca de sua presença. Situa-se um sujeito para além da
fala de um entrevistado (NOGUEIRA, 2004).
Entretanto, para que isso ocorra é preciso um tempo de apropriação por quem é
afetado pela entrevista. Esse tempo requer a inclusão em um circuito de transferência.
Isto significa a constituição de um campo relacional no qual esteja em causa à hipótese
do inconsciente “insabido”, ou seja, a suposição de um saber que “não se sabe”, mas
que é suposto por quem fala (MEZAN, 2006).
As condições de produção de conhecimento sobre este “insabido” são internas
ao campo relacional que o constitui. A isso denominamos em psicanálise
“transferência”. Não é, pois, um saber prévio que já estava ali, no “entrevistado”, como
um dado a ser colhido pelo “entrevistador”. É algo que se situa num espaço
transferencial em que o “insabido” se expressa como formações do inconsciente. Logo,
ele inclui o pesquisador na própria formação.
Dessa forma, a psicanálise não tem a pretensão de apresentar um modelo para a
aplicação da entrevista, pois a referência a padrões situa-se fora desse campo de estudo.
As entrevistas que realizamos nessa pesquisa tiveram como paradigma a
entrevista preliminar da qual tomamos os seguintes elementos:
a)
Embora esteja pautado por uma questão de pesquisa, o pesquisador
se absteve de direcionar a fala do entrevistado para aquilo que queria
ouvir. Tratou de convidar o entrevistado a falar, sem censurar ou
escolher o material de sua fala, de acordo com o que propõe o
método da associação livre. Para captar o discurso foi preciso
escutar aquilo que cada um traz, e como ele fala. Para
operacionalizar essa escuta, recorremos ao pai da psicanálise,
P á g i n a | 92
Sigmund Freud, utilizando a regra fundamental de sua teoria, ou
seja, a técnica da “associação livre”, na qual o paciente é instigado a
falar sobre tudo que lhe vier à mente.
b)
O pesquisador partiu de uma pergunta geradora que foi
suficientemente ampla e indefinida, em um primeiro tempo, para que
possibilitasse ao entrevistado formular sua própria questão e
respondesse a ela de forma singular, sem prescrições prévias. No
caso deste estudo partimos da seguinte pergunta geradora: “Fale-me
sobre o que o levou a buscar atendimento no serviço”. A partir daí
deixamos que a entrevista fosse guiada pelas cadeias significantes de
cada sujeito.
c)
Do lado do pesquisador, este evitou concentrar o foco mais em um
assunto que em outro. Deixou de fora suas hipóteses de pesquisa e se
permitir ouvir tudo que o entrevistado tem a dizer. Do lado do
pesquisador, a escuta seguiu também uma técnica designada por
Freud como “atenção flutuante” que não centra a atenção somente
em elementos que interessem ao profissional, mas a tudo que o
paciente disser (FREUD, 1913).
Diante do que foi exposto, não se tratou de abordar a fala dos trabalhadores
buscando interpretar o que foi dito. Nem tampouco classificaremos o conteúdo da fala
dos trabalhadores entrevistados para atribuir-lhe significados. A partir do olhar
psicanalítico, nos interessará aquilo que está do lado do significante. Pois esse
significante é que forma a cadeia de significação no inconsciente e esse inconsciente
escapa por forma de sintoma.
Desse modo, ressaltamos que as entrevistas com três trabalhadores constituíram
num elemento importante para subsidiar o material para análise dos dados. Todavia não
trabalhamos com todos os casos, mas selecionamos dois deles para compor nosso
material de análise. Optamos por esta seleção por acreditarmos que dentre os casos, dois
deles tiverem mais elementos significativos para compor análise.
As entrevistas foram registradas através de um minigravador de voz digital MP3
Sony, e posteriormente transcritas para leitura. Os dados foram armazenados em CDROM, para assegurar o registro por um período de 05 anos.
P á g i n a | 93
A pesquisa podia ser suspensa ou encerrada caso o pesquisador necessitasse se
ausentar por motivo de doença grave; se o pesquisador não obtivesse nenhum
trabalhador que participasse voluntariamente da pesquisa, inviabilizando a construção
de um único caso, o que seria o mínimo recomendado para alcançar os objetivos do
trabalho, e ainda a não aprovação do projeto pelo Comitê de Ética em Pesquisa da
Universidade Potiguar (UnP).
5.5 Análise dos dados
Ao utilizarmos a entrevista aberta permeada pelas características da entrevista
preliminar em psicanálise, empregaremos para analisar as informações obtidas do
sujeito da pesquisa, o estudo de caso. Este consiste em uma investigação empírica
acerca de “[...] um fenômeno contemporâneo dentro de seu contexto da vida real”.
Utiliza-se esse método quando deliberadamente se deseja lidar com condições
contextuais, acreditando que elas podem ser altamente pertinentes ao seu fenômeno em
estudo. Ressaltamos que várias áreas de conhecimento aplicam o estudo de caso,
podendo ser utilizado como modalidade assistencial, de ensino e de pesquisa (YIN,
2005, p. 32).
A escolha do estudo de caso para compor a nossa pesquisa foi devida ao fato de
esta pesquisa tomar como objeto de estudo a questão da experiência humana,
notadamente no que diz respeito ao sofrimento psíquico e à forma como cada sujeito diz
o seu sintoma. Entendemos que este não pode ser abordado de forma generalizada, mas
implicando uma investigação caso a caso, considerando os elementos particulares a cada
um deles. No entanto, o fato de termos debruçado no aspecto singular desse sofrimento
não nos impede de buscar importantes considerações sobre o corpo de conhecimentos
da clínica em geral.
Em psicanálise, o estudo de caso segue as bases onde Freud, de modo
paradigmático, instaura um estilo de relatar documentalmente a evolução de pacientes
tratados por ele e que serviram, através de suas compilações biográficas e sintomáticas,
como modelos para sua metapsicologia.
Desse modo, com o material do estudo de caso construído, passaremos a
elaborar o ensaio metapsicológico como estratégia de análise do caso, conforme
proposto por Caon (1994), o ensaio metapsicológico consiste em uma produção escrita,
P á g i n a | 94
na qual emerge, durante o seu processo de construção, a experiência do pesquisador em
sua investigação. Um momento singular e importante, pois a experiência se transforma
em saber, qualificando a capacidade de transformação metapsicológica. Assim, para a
sistematização da análise dos dados do nosso trabalho se fará necessário seguir as
balizas para elaboração do ensaio metapsicológico.
A primeira delas se referiu à escuta dirigida pelo olhar e leitura-escuta, momento
em que a escuta apoiada na teoria e, ao mesmo tempo, faz-se atenta ao desfile de
significantes que o sujeito-entrevistado realiza com a sua fala (CAON, 1994). Por isso a
metáfora da leitura, pois é lendo na escuta que podemos, enquanto pesquisador e/ou
analista, sacar o ponto de um equívoco, de uma suspensão; ou seja, aquilo que desvela a
própria enunciação (SOUZA, 1988, p.117).
No momento da leitura-escuta o pesquisador irá instrumentalizar sua
transferência ao texto, elaboração do caso, demarcando os significantes presentes, as
falhas e tropeços de um discurso realizado, neste caso, através da escrita (CAON, 1994).
O trabalho de leitura dirigida pela escuta psicanalítica é o que caracteriza o laboratório
do texto psicanalítico, quando o pesquisador irá construir o ensaio metapsicológico.
Assim, o pesquisador psicanalítico vai instrumentalizar sua transferência ao
texto composto pelo dado coletado de modo que possa identificar significantes já
escandidos pelo autor do texto como também efetuará um trabalho de escansão de
significantes que a legibilidade do texto permite. O trabalho de leitura dirigida pela
escuta psicanalítica é o que caracteriza o laboratório do texto psicanalítico, quando o
pesquisador irá construir o ensaio metapsicológico (VORCARO, 2010).
As impressões e transferências resultarão no modo como o pesquisador faz sua
leitura dos dados. Isso significa dizer que o pesquisador também torna-se implicado
como um participante importantíssimo na investigação realizada. Já que é pelo punho
do pesquisador que uma contribuição conceitual irá se organizar durante o processo de
pesquisa e elaboração e do ensaio metapsicológico (IRIBARRY, 2003).
Outro elemento importante para a elaboração do ensaio metapsicológico, após a
formulação propriamente do texto, é a busca pelo ponto de estofo da cadeia escrita. trata-se do significante que faz a amarração dos demais da cadeia de significantes
(IRIBARRY, 2003).
Esses significantes são introduzidos pela experiência do pesquisador com o texto
que irão oferecer novas significações, novos sentidos para o dado coletado e
transformado em texto. A responsabilidade é inteiramente do pesquisador e/ou
P á g i n a | 95
psicanalista, cada termo novo acrescentado ao texto e divulgado pelo ensaio
metapsicológico alarga o horizonte de compreensão e explicação da temática
investigada (MOURA; NIKOS, 2000).
E, por fim, dá-se a construção do ensaio metapsicológico propriamente dito. A
forma do ensaio é irmã da literatura. O ensaio reflete, não contenta, não classifica. Não
há pretensão de objetividade; há uma vaga plausibilidade. Não interessa a verificação da
tese defendida pela eficácia e repetição de sua comprovação. Interessa o conjunto da
experiência individual e sua potência de vivência criadora e instauradora de
aprendizagem (MOURA; NIKOS, 2000).
Como já vimos o ensaio metapsicológico é uma construção que deve surgir a
partir da pesquisa realizada. O ensaio deverá, posterior a sua conclusão, apreciado por
uma à banca examinadora, de modo que, futuramente, dela surjam artigos destinados a
um público anônimo (IRIBARRY, 2003).
Esta é a perspectiva que adotaremos quando nosso trabalho estiver realizado. Por
enquanto são estas as linhas que podemos fornecer acerca do trabalho de construção do
ensaio metapsicológico (IRIBARRY, 2003).
5.6 Aspectos Éticos
Este projeto de pesquisa será submetido ao Comitê de Ética em Pesquisa (CEP)
da Universidade Potiguar (UnP), Campus Natal, onde foram avaliados os objetivos da
pesquisa e os riscos e benefícios a que foram submetidos os entrevistados desta
investigação.
Portanto, o trabalho contemplou os preceitos emanados da Resolução nº 196/96
do Conselho Nacional de Saúde (CNS), na qual se propõe respeitar os princípios da
autonomia, beneficência, não maleficência e justiça/equidade. Assim como as
considerações, as observâncias presentes na Resolução 311/2007, que trata do Código
de Ética dos profissionais de enfermagem, ressaltando as disposições presentes no seu
capítulo III que trata da produção científica (BRASIL, 1996).
Os entrevistados assinaram individualmente o Termo de Consentimento Livre e
Esclarecido (TCLE) que teve o objetivo de esclarecer aos trabalhadores o que se
pretendia com a pesquisa, bem como a observância à gravação das falas e a utilização
de pseudônimos, mantendo o sigilo quanto à identificação dos nomes.
P á g i n a | 96
Dessa forma, a pesquisa foi submetida ao Comitê de Ética da Universidade
Potiguar, Campus Natal, e aprovada com o parecer nº 324.316 (ANEXO 1).
P á g i n a | 97
6 BASTIDORES DA PESQUISA: INVISIBILIDADE DO SOFRIMENTO
PSÍQUICO DO TRABALHADOR
Inicialmente, havíamos adotado como critério para inclusão dos sujeitos na
pesquisa o diagnostico do Cid 10. O critério parecia algo óbvio dentro do contexto do
Manual de Doenças Relacionadas ao Trabalho que orienta a organização do serviço e é
elaborado dentro da proposta do Cid.10. E com ele conseguiríamos trazer a tona mais
elementos para subsidiar a discussão da nossa pesquisa. Entretanto, ressaltamos que
esse critério de busca através do diagnóstico médico era apenas para nos guiar no
encontro desses sujeitos, já que seria menos provável localizá-los de outro modo. No
entanto, ele seria descartado após essa fase e nos deteríamos na fala de cada trabalhador
acerca do seu sofrimento.
Selecionamos inicialmente a unidade de Centro Regional de Referência em
Saúde do Trabalhador (CEREST) do município de Mossoró para ser o local da
pesquisa. Portanto, a escolha justificou-se pelo fato de esse serviço ser, conforme a
Política Nacional de Saúde do Trabalhador, referência no estabelecimento do
diagnóstico das doenças relacionadas ao trabalho e realizar dentre outras atividades o
acompanhamento, individual ou coletivo, do trabalhador que chega ao serviço com uma
queixa de sofrimento psíquico.
Assim, este serviço possibilitava conhecermos e nos aproximarmos dos
trabalhadores que pudessem se enquadrar no critério de inclusão da pesquisa, ou seja,
ser portador de diagnóstico de transtorno mental relacionado ao trabalho. E segundo os
profissionais existiam no serviço quatro trabalhadores com o referido diagnóstico. Mais
uma vez, parecia-nos óbvio que este seria o local mais indicado para a realização da
pesquisa.
Essa era nossa proposição. Usamos propositalmente o verbo no passado, pois
nem sempre ao longo de uma pesquisa aquilo que parece óbvio se sustenta como tal.
Essa constatação veio a partir do segundo contato com o campo de pesquisa que visava
a obter os primeiros apontamentos para a realização da entrevista: quem eram os
trabalhadores, a frequência com que iam às consultas, se havia a possibilidade de
realizar as entrevistas no próprio serviço.
No entanto, conforme ficamos sabendo na ocasião, havia ocorrido nesse ínterim
mudanças administrativas no CEREST regional de Mossoró, e a coordenação estava
P á g i n a | 98
agora a cargo de outra pessoa. Ocorre que esta nova coordenação resolveu não mais
autorizar a realização da pesquisa. Tentamos conversar com a coordenação e com outros
membros da equipe para explicar melhor o propósito da pesquisa. A conversa se dava
em único sentido: a pesquisadora informando os objetivos e importância da pesquisa, e
os profissionais enfaticamente a dizer, sem esclarecer muito: “você não pode ter acesso
aos pacientes”. Com a minha insistência em querer saber o porquê de não ter acesso aos
pacientes, os membros da equipe alegaram que a entrevista poderia agravar o quadro
clínico dos mesmos. Os profissionais ainda informaram que:
Você quer saber o que deles? Pois, não tem como você conversar com
os pacientes. Agora, assim, se você quiser pode nos dá as perguntas e
a gente pode fazer por você. Mas conversar com eles não. Pois, pode
piorar a situação em que eles se encontram (Profissional 1).
Acredito que aqui nos deparamos com questões veladas que fundamentam essa
recusa, sem serem explicitadas. Afinal, a proposta da entrevista era partir de uma
pergunta aberta “me fale sobre os motivos que lhe levaram a buscar atendimento no
serviço” e ouvir seus relatos. Porque falar do que lhes aconteceu poderia agravar sua
crise? Além disso, os pacientes teriam a oportunidade de recusar participar, caso não se
achassem em condições de fazê-lo. Na verdade o que percebemos é que estávamos
tocando uma espécie de bola de vidro, uma formação sintomática da instituição que, ao
mesmo tempo em que denuncia uma verdade, encobre as dificuldades inerentes ao
diagnostico de saúde mental na saúde do trabalhador.
É a partir da angústia suscitada por esta situação (só captada por quem vivencia
a cobrança inerente aos programas de pós-graduação) e pela repetição de um encontro
com uma invisibilidade do sofrimento psíquico do trabalhador nos serviços visitados
que passamos a nos interessar em enveredar mais profundamente essa realidade. Sendo
assim, descrevemos detalhadamente a realidade encontrada em cada um dos municípios
abordados e, em seguida passamos a analisar os principais pontos encontrados que
foram, aos poucos, tecendo a trama que se revela nessa invisibilidade.
Após novos apontamentos com a orientadora do trabalho decidimos procurar
outros serviços de saúde de Mossoró direcionados para assistência em saúde mental e
saúde do trabalhador, separadamente. Estes serviços eram Centro de Atenção
Psicossocial (CAPS); Unidade Integrada de Saúde Mental (UISAM) e, ainda como
apontamento dos profissionais, poderiam existir trabalhadores que procuram a
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assistência do próprio serviço em que atuam como é o caso do Núcleo de Saúde do
Trabalhador de um hospital regional.
Nesses espaços, passamos a explicar novamente os objetivos da pesquisa e
buscar informações sobre a existência de pessoas com o diagnóstico de Transtorno
Mental Relacionado ao Trabalho. Dessa vez o problema foi outro. Nos três campos
visitados a resposta quanto à realização da pesquisa foi favorável. Entretanto, nenhum
dos três serviços tinha em seus prontuários algum paciente com diagnóstico de saúde
mental relacionado ao trabalho.
Hoje, percebemos que os funcionários mais antigos já trazem essa
queixa de sofrimento: desgaste, estresse, depressão. São pessoas que
trabalham em períodos noturnos, onde o desgaste é grande, são
situações de adoecimento psicológico mesmo [...], mas o diagnóstico
não tem, porque é aquela situação que são os sintomas físicos que
chama atenção, mas se você quiser entrevistar essas pessoas com a
queixa de sofrimento em virtude do trabalho, você irá encontrar
(Profissional 2).
Um profissional de outro serviço retrata a mesma percepção ao mencionar que
“temos um paciente que aborda em sua fala uma queixa de sofrimento psíquico e traz
alguns elementos do trabalho. Inclusive tem benefício concedido pelo INSS. Mas
precisamos olhar no prontuário porque o diagnóstico relacionado ao trabalho, acho que
não tem” (Profissional 3).
Diante dessa realidade e por estar a pesquisa vinculada a uma universidade
cearense, procuramos, durante o mês de abril, abordar o CEREST Estadual e o Regional
de Fortaleza. A situação se repetiu nestes locais que visitamos: não havia trabalhadores
com o diagnóstico, apenas com a queixa de sofrimento psíquico. Entretanto, mais
informações foram sendo coletadas e passamos a ter um material significativo para
subsidiar os processos de reflexão do trabalho. Como mostra a seguinte fala:
Ainda não atendi nenhum caso que denunciasse uma relação com o
trabalho. Não é fácil identificar essa relação com o trabalho. Até tive
um caso que achei que poderia ser, mas descartei porque tinha uma
história pessoal muito evidente (Profissional 4).
Dessa forma, nos reunimos para discutirmos os percalços metodológicos da
pesquisa e traçar novas estratégias para identificação dos trabalhadores em sofrimento
psíquico. Pois, não mais se configurava em entrave metodológico, impedimento de
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escutar os trabalhadores no CEREST de Mossoró, mas também aos problemas que
persistem para o estabelecimento do nexo causal entre saúde mental e trabalho.
O primeiro entrave, a proibição de ao menos convidarmos os pacientes e deixar
a estes a opção de recusar, aponta para uma posição de discurso onde o profissional
ocupa o lugar de especialista, falando no lugar do paciente, destinando-lhe o lugar, não
de sujeito, mas de um mero apêndice do cuidado. O segundo entrave, a não existência
de diagnóstico de sofrimento psíquico relacionado ao trabalho nos serviços visitados
nos provoca certa inquietação, pois ao confrontar as informações fornecidas por artigos
científicos que abordam a temática, percebemos que nos últimos anos esses
diagnósticos também são frequentes, chegando a causar incapacidades, evoluindo para o
absenteísmo no trabalho e a redução de produtividade (SATO; BERNARDO, 2005).
Refletir sobre a realidade que se presentifica nos serviços de saúde é pensar no
tipo de clínica que embasa as ações e a atuação das políticas de saúde do trabalhador e
dos profissionais de saúde. De toda a forma, ambas as situações com as quais nos
deparamos para a realização da pesquisa apontam para uma invisibilidade do
sofrimento. Seja na clínica, na teoria e na política, o sofrimento relacionado com o
trabalho foi lançado à invisibilidade (PEREIRA, 2011). A melhor maneira de não lidar
com um problema é não reconhecê-lo. Mas seria o caso de tomar a invisibilidade do
sofrimento psíquico relacionado ao trabalho como parte do problema. Ela mesma
precisa ser explicada porque, longe de se restringir a não querer ver, passa a ser parte
constituinte do problema.
Entretanto, enfatizamos que independente do espaço de atuação do profissional
de saúde, este deve operar um cuidado pautado na escuta dos padecimentos do
trabalhador. E romper com a prática do cuidar em que se preocupa apenas em identificar
quais os sinais e sintomas diz respeito a qual “doença psíquica”. Esse foi um dos
motivos para inclusão de outros espaços, além do CEREST, para serem locais de
pesquisa.
Mas ao decorrer das falas de diferentes profissionais percebemos que existiam
outros entraves e que potencializam os embates acerca da saúde do trabalhador:
sofrimento psíquico e ausência de lesão orgânica.
Não temos trabalhadores com esse diagnóstico. Até porque é bem
difícil detectar os sintomas. Não é algo tão visível. Diferente de outras
doenças, sabe? (Profissional 5).
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Existem casos de trabalhadores com uma nítida queixa de sofrimento
psíquico relacionado ao trabalho. São situações diversas, um exemplo,
é uma funcionária com depressão, outra que se via numa situação
delicada no ambiente de trabalho, pois estava de plantão e o pai deu
entrada nesse mesmo dia em estado grave, o pai faleceu e, no limite
entre o pessoal e profissional, ela acabou desenvolvendo situações de
sofrimento, não quer mais trabalhar, sente-se mal quando está no
hospital. E tem outro caso de uma funcionária que trabalha na
Unidade de Terapia Intensiva (U.T.I). Mas na verdade todas elas não
possuem o diagnóstico em si. Tem-se a queixa porque a gente sabe
que tem, acompanha esses trabalhadores há muito tempo (Profissional
6).
Assim, ouve-se a queixa do trabalhador, mas esta só será apreendida se reportar
ao relato da dor física localizada no corpo, denunciando as alterações e anormalidades.
Ao se referir às queixas psíquicas estas, na maioria das vezes são postas em segundo
plano ou associadas a sintomas físicos. Dessa maneira, muitos trabalhadores parecem se
sentir mais autorizados a buscar ajuda em serviços de atenção à saúde do trabalhador
quando se ressentem de problemas de ordem física (PAPARELLI; SATO; OLIVEIRA,
2011).
A fala de um dos profissionais abaixo denota essa realidade e acrescenta outra
problemática: a separação entre história de vida e o trabalho.
Atualmente, veio no CEREST um trabalhador que nas consultas
iniciais achei que tinha características nítidas de transtorno mental
relacionado ao trabalho, mas depois esse trabalhador passou a
enfatizar mais a vida pessoal dele, dizendo que a mãe já tinha tido
depressão, e alguém mais da família, então passei a descartar a
possibilidade do diagnóstico relacionado ao trabalho. Mas essa pessoa
não retornou mais ao atendimento. Até o momento não temos
ninguém com esse diagnóstico (Profissional 4).
Assim percebemos que para os profissionais sujeito e trabalhador são postos em
planos distintos. O que há é um trabalhador dissociado da sua condição de sujeito. Esse
dilema se mantém e a dicotomia se faz presente, quando se trata de discutir o sofrimento
psíquico relacionado ao trabalho. A estratégia, então, dos profissionais é tentar pôr entre
parênteses a história de vida que os indivíduos constroem antes (ou, melhor dizendo,
fora) do trabalho, na tentativa de encontrar o exato lugar do trabalho na constituição de
seu sofrimento. Por outro lado, o que é mais frequente, busca-se exorcizar, ou, no
mínimo, desconsiderar o trabalho na história de sofrimento dos trabalhadores (BORSOI,
2007).
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Portanto, podemos perceber que a história pessoal do paciente e a história
relacionada ao trabalho são autoexcludentes. Como se história de vida e trabalho
pudessem realmente ser separadas. O sujeito se estrutura desde a infância, não começa a
existir quando trabalha e nem é possível deixar na porta de entrada os seus problemas
pessoais, história de vida e história de trabalho não se separam. Só no caso a caso isso
pode ser pensado a partir da fala dele e não da decisão do profissional.
Na tentativa de resolver esse dilema, observamos que o que guia as
normatizações no campo da saúde do trabalhador e as ações dos profissionais é a busca
incessante por um reconhecimento técnico do nexo causal entre a doença e o trabalho na
perspectiva de justificar tal relação. Entende-se por nexo causal aquilo que pode
comprovar a ocorrência da causa e do efeito. Assim o nexo técnico é a confirmação, por
parte da perícia médica, da existência ou não, do risco no ambiente de trabalho. A fala
abaixo nos mostra que para os profissionais:
É difícil estabelecer o nexo técnico epidemiológico, muitas vezes, a
gente tem medo de dar o diagnóstico. Olha aqui, até comprei o livro
sobre o nexo técnico epidemiológico previdenciário para entender
melhor, pois confesso que preciso estudar mais sobre isso
(Profissional 7).
Para relembrar que essa determinação sobre o nexo causal está relacionada a
uma visão de saúde no trabalho centrada na interpretação da teoria uni ou multicausal
dos fenômenos relacionados à saúde/doença. Levam-se em consideração os fatores de
riscos específicos, quando atuam no organismo, capazes de causar enfermidades
também específicas (BORSOI, 2007), e que possam caracterizar-se como sendo
legalmente reconhecidas como doenças relacionadas ao trabalho. Entretanto, não é
possível identificar, de forma objetiva, os determinantes que envolvem o sofrimento
psíquico do trabalhador, e o exato momento em que as condições ou a organização do
trabalho foram os “causadores” de alterações mentais. Fato revelado na intensa fala dos
profissionais. E é por, justamente, atuar na esfera psíquica que predomina um dos
maiores impasses para estabelecer o reconhecimento técnico do nexo causal entre a
saúde mental e o trabalho.
Diferentemente dos acidentes de trabalhos típicos, os transtornos
mentais e de comportamento não apresentam nitidamente a relação de
causa e efeito. Apesar de muitos profissionais compreenderem essa
característica, existe ainda um receio e uma resistência política de
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reconhecer as evidências de outros fatores e sua relação com o
trabalho (Profissional 8).
O que se verifica na prática é a dificuldade que o trabalhador em sofrimento
psíquico tem ao procurar tratamento e obter o reconhecimento do nexo com o trabalho.
Portanto, percebemos que o nexo com o trabalho é buscado apenas se houver a exclusão
de elementos que envolvam a vida pessoal pregressa do paciente. Como afirma o
profissional 8 de um dos CERESTs: “as queixas [sofrimento] com o trabalho são até
comuns, mas quando começamos a investigar a situação, as questões pessoais são mais
fortes. É um trabalhador que perdeu o pai, a mãe está depressiva, irmão usa drogas”.
Escutando essas pessoas visualizamos quais seriam as dificuldades para se
estabelecer o reconhecimento técnico do nexo causal entre a doença mental e o trabalho.
A própria política de Saúde do Trabalhador já percebeu a dificuldade de estabelecer esta
causa quando se trata da saúde mental. Daí ter buscado embasamento na epidemiologia,
criando, conforme o decreto nº 6042 de 12 de fevereiro de 2007, o “nexo técnico
epidemiológico” como uma tentativa de suprir essa ausência de causalidade na saúde
mental (NARDI; RAMMINGER, 2012).
Quando não se encontra tal relação, a fala do trabalhador passa a ter uma forte
relação com a fraqueza, sob o risco de ser considerado fingimento, má-vontade ou a
preguiça. Enfim uma infinidade de características que o submetem a uma situação de
culpado (SELIGMAM-SILVA et al., 2010).
Atualmente, os profissionais dos serviços visitados abordaram que ainda existe,
em muitos casos, uma suspeita de que o paciente esteja usando a queixa psíquica para se
beneficiar financeiramente. Segundo o profissional 8 “era frequente os casos de
trabalhadores pedindo afastamento, alegando que não tinha condições psicológicas, só
para conseguir o benefício”. Profissional 9 do CEREST tenta exemplificar essa
situação: “uma trabalhadora que já veio duas vezes pedindo afastamento, mas não foram
constatadas alterações físicas e nem psicológicas. Ela apenas queria o afastamento”.
Visitar os campos de pesquisa deu uma dimensão maior sobre a abordagem da
saúde mental e trabalho. A cada conversa com os profissionais a sensação que se tinha
era que estávamos perguntando sobre algo invisível. E aos poucos fomos percebendo
que não era invisível, porém velado. Fato comprovado quando se observa o número de
notificações relacionadas à saúde mental e trabalho, sendo ainda pouco significativo em
relação ao total dos atendimentos no serviço de saúde. Embora seja um número baixo, a
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presença de trabalhadores com queixa de sofrimento psíquico, sem o devido
diagnóstico, é algo bastante frequente, conforme a fala dos profissionais. Desse modo,
acreditamos que esse apontamento é algo para se colocar em reflexão.
O número pouco significativo desses diagnósticos não indica necessariamente
sua baixa frequência na população trabalhadora. Antes, parecem mostrar a persistência
da dificuldade por parte de todos os envolvidos – empresas, profissionais de saúde e
peritos do INSS – em reconhecer o trabalho como causador de problemas de saúde
mental, o que, consequentemente, reduz a busca de ajuda em serviços de referência,
como os CEREST (NARDI; RAMMINGER, 2012). Se essa foi uma conclusão dos
estudos dos referidos autores em 2005 e a mesma realidade se configura em 2013, então
nos perguntamos por que os problemas ainda persistem.
Talvez a resposta encontra-se na seguinte indagação: a qual demanda estão
atendendo? Apesar das questões apresentadas terem surgido inicialmente como um
entrave para a realização do nosso trabalho, achamos pertinente discuti-las aqui, antes
mesmo da produção final da dissertação. Pois, elas não são sem significado. Apontam
para uma série de não ditos dentro da política de assistência a saúde do trabalhador que
merece ser analisada.
Quanto à questão metodológica, optamos por abandonar o viés do diagnóstico,
pois percebemos que isso não refutava e, tampouco, reduzia a riqueza da nossa
discussão. Pelo contrário, a dificuldade que os profissionais alegavam ao estabelecer o
nexo causal entre o transtorno mental e o trabalho apenas fortalecia o argumento de
compreender que o peculiar ao sofrimento psíquico é não ser passível de uma
objetificação.
Desse modo, sentimos a necessidade de realizarmos a mudança na
formulação do critério de inclusão da pesquisa. Em vez de partirmos com o diagnóstico
decidimos entrevistar os trabalhadores que apresentam a queixa de sofrimento psíquico
em relação ao trabalho. Para localizar esses trabalhadores iremos partir da fala dos
profissionais de saúde: Quais trabalhadores vocês identificam como tendo uma queixa
de sofrimento psíquico em relação ao trabalho?
Por fim, salientamos que cada escolha tem um preço a pagar. Se o viés do
diagnóstico nos deixava a todo o momento lidando com o risco de cair no discurso
biomédico, agora estamos cientes de que a escolha desses sujeitos vai recair na
percepção dos profissionais sobre o sofrimento psíquico do trabalhador. Portanto, vai
além da dimensão do nexo técnico e se configura na fala daquele que vem se queixar e
nos sentidos atribuídos por quem os escuta.
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7 A CONSTRUÇÃO DO ENSAIO METAPSICOLÓGICO
“A linguagem é meu esforço humano. Por destino
tenho que ir buscar e por destino volto com as
mãos vazias. Mas volto com o indizível. O indizível
só poderá ser dado por meio do fracasso de minha
linguagem” (Clarice Lispector)
A psicanálise enquanto método de investigação do inconsciente está pautado em
uma ética da escuta ao discurso. É a partir dessa escuta que elaboramos os ensaios
metaspicológicos. Assim, a partir do caso a caso, do particular, obtemos um saber. No
entanto, não se trata de um saber para todos. Pelo contrário, é um ‘saber insabido’ que
aponta para o singular de cada sujeito num trabalho de processamento psíquico. Sujeito
que se constitui nas malhas da linguagem, dividido pela estrutura significante e pelo
objeto de desejo que o causa (MOURA; NICKOS, 2000).
Nesse sentido, apontamos para a cautela necessária de que, por não serem
advindos de um processo analítico, os ensaios apresentados se constituem em uma das
hipóteses possíveis de elaboração.
7.1 O dia em que Lisiane zerou
O contato com Lisiane foi estabelecido a partir da sugestão de uma psicóloga da
Unidade Integrada de Saúde Mental (UISAM). Como naquele momento não havia
ninguém com o diagnóstico de Transtorno Mental Relacionado ao Trabalho sendo
atendido no serviço, a psicóloga sugeriu que entrevistássemos uma colega sua, também
profissional de saúde, que havia sido diagnosticada recentemente com Síndrome de
Burnout. Fizemos o primeiro contato com Lisiane, que prontamente aceitou o convite
para participar da pesquisa.
Logo na primeira entrevista Lisiane coloca a queixa que a levou a procurar
atendimento psiquiátrico: “o trabalho estava tomando de conta da minha vida; eu não
tinha mais tempo pra mim; minha vida pessoal praticamente zerou”. Refere ainda choro,
irritação, insônia, estresse, agitação e gagueira intensa. Segundo ela, procurou ajuda
quando esses sintomas se tornaram insuportáveis.
Lisiane está na casa dos 30 anos e é a caçula de uma prole de quatro filhos.
Apesar disso, diz que sempre foi tratada como se fosse filha única, devido à diferença
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de 15 anos entre sua idade e a do irmão mais próximo. A explicação que encontra para
essa distância entre os nascimentos, ela afirma: “é porque eu nasci por acidente”.
A gravidez tardia veio quando a mãe já contava com 38 anos de idade e não
cogitava mais ter filhos, pois além da idade e do número de filhos que já tinha, havia
passado por um grave problema de saúde recentemente, chegando a perder um dos rins.
Lisiane menciona que este foi um período de muito sofrimento para a sua mãe
que ficou debilitada, magra e sem forças. Além disso, era submetida a horas de
exposição à radiografia, sem saber que já estava grávida. Quando enfim descobriu a
gravidez foi aconselhada a abortar por um dos médicos que a acompanhava, pois
afirmavam que, certamente, o filho não nasceria normal. Segundo Lisiane, por conta
dessa situação, a mãe entrou em depressão: chorava e tinha vários pesadelos “com a
filha dela nascendo só com um olho na testa”. Apesar disso, por ser uma pessoa muito
católica, decidiu continuar com a gestação.
Quanto ao pai, Lisiane afirma que ele é um exemplo de perseverança: “um
grande exemplo para minha vida é o meu pai, eu sou louca por ele porque ele para mim
é a referência de paciência, de trabalho e de dedicação que eu nunca vi em outra
pessoa”.
Aos 25 anos Lisiane se formou em uma profissão da área da saúde, na área da
enfermagem, conseguindo dois empregos, sendo um deles em um serviço onde sempre
quis atuar. Um ano depois de iniciar o trabalho neste setor, seu pai recebe um
diagnóstico de câncer e passa a precisar de seus cuidados. Afirma que esse foi o maior
problema de sua vida, mas ficou feliz de que a sua profissão permitisse ajudá-lo.
Os dois empregos passam a requerer muito do tempo de Lisiane, mas apesar do
acúmulo de trabalho, sempre achou muito normal. Seu empenho maior foi no setor onde
o pai fazia tratamento. Afirma que lá era uma atividade intensa, desgastante e permeada
por conflitos com a equipe. Mesmo assim sentia-se realizada toda vez que conseguia
resolver um problema. Tinha um sentimento de responsabilidade muito grande e sempre
buscava “deixar tudo perfeito”. Em razão desses esforços, o trabalho passava a lhe
cobrar cada vez mais. Afirma que essa cobrança chegou a um ponto em que cansou,
pois não encontrava nos colegas nem nos chefes o reconhecimento que esperava.
Andava extremamente irritada, tanto no trabalho quanto no dia a dia, não
conseguia se comunicar mais, chegou a um ponto que só gaguejava. Além disso, passou
a não ter mais uma vida pessoal: “o meu lado pessoal zerou, Lisiane zerou”. Já não
existiam mais os fins de semana e o trabalho passou a ser a essência de sua vida: “era
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somente obrigação, trabalho excessivo, trabalho excessivo de forma que eu não
conseguia mais se concentrar direito, é tinha aquelas crises de tristeza, insônia, estava há
quase três meses sem dormir, irritação constante que tudo passou a ser algo muito
frequente”. E quando estava em casa, continuava fazendo coisas do trabalho porque
sempre sobrava algo não terminado.
Apesar de todo esse desgaste, Lisiane diz que a raiz do problema não era essa:
“eu não estava fazendo uma coisa que eu não gostava em grande quantidade e eu
adoeci, não. Era uma coisa que eu gostava, só que realmente tomou conta da minha vida
de forma que não existia a minha vida, só o trabalho”. Procurou um psiquiatra que a
diagnosticou com “Síndrome de Burnout”. Diz que o procurou porque os sintomas
estavam ficando insuportáveis e que ela estava “no limite”: chorava muito, não
conseguia contar a história linearmente, gaguejava muito, não terminava uma frase. Para
ela era “como se aquele sentimento de pressa de resolver as coisas era tão forte que nem
pra falar eu tinha tempo”.
Ao longo desse tratamento, o médico sugeriu que ela abdicasse de um dos locais
de trabalho. De início ela não queria sair de nenhum deles. Relutou, pois achava que se
parasse estaria “invalidando minha serventia pra como pessoa ativa. Então, eu achava
que se eu saísse de um dos dois, ia ficar sem fazer nada, que eu ia ser inútil”. Sobre esse
sentimento de inutilidade ela diz que trabalhar em um só lugar “era igual a zero”.
Foram necessários alguns meses para tomar essa decisão, pois concretizá-la era
como “uma desgraça total”, porque “não ia mais prestar pra nada”, “eu ia me desgraçar
totalmente”. Foi um mês sem dormir, foi um mês chorando, foi um mês desesperada,
achando que isso ia “gerar uma desgraça na minha vida”, a ponto de não ser nunca mais
aceita em local nenhum. “Foi esse mês inteiro louca, sabendo que eu ia destruir a minha
vida inteira, profissional, né?”.
Entretanto, pensar em ter que optar entre o setor onde o pai realizava tratamento
lhe era mais doloroso e lhe gerava um “sentimento de culpa” e frustração. Pois para ela
seria atestar a sua “anulação profissional”: “chegar numa posição e de repente você ter
que destruir tudo, né? Pra recomeçar do zero”. Gostava de ser reconhecida na cidade
como a profissional daquele setor, mas queixava-se do pouco reconhecimento obtido no
local de trabalho. Afirma que esse reconhecimento só veio quando comunicou seu
pedido de demissão. Os chefes pediram que ela não saísse e disseram que quando ela
quisesse voltar estariam de portas abertas para recebê-la: “aíii foi que chegou o pobre, o
pobre do reconhecimento que eu esperei minha vida inteira e que eu não tive durante o
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trabalho, só que aí não dava mais para continuar”. Diz-me que nesse momento
relembrou a conversa que teve com o psiquiatra, na qual este lhe diz que se afastar do
trabalho ia apenas adiar o problema.
Para Lisiane a questão da sobrevivência foi muito mais forte. Porque não era
uma coisa que a incomodava, era uma coisa que a impedia de continuar vivendo: “era
tão forte que não existia mais esse lado pessoal mais, era só o profissional. Então, se eu
deixasse o trabalho eu ia deixar a vida. Não existia vida. Eu tinha que ver que ali eu
tinha que ... infelizmente eu cheguei uma situação que não podia aguentar mais nada”.
Lisiane exemplifica sua situação como se ela estivesse dirigindo um carro e, de
repente, passasse mal, sendo obrigada a parar o carro ou bater e morrer: seria uma
grande desgraça. Como não tinha mais possibilidade de continuar a trabalhar com a
mesma jornada e sobrecarga de trabalho e, ao mesmo tempo, estar fazendo o tratamento,
foi obrigada a parar. Nos primeiros dias após a demissão continuou sem dormir, mas
diferente dos outros dias, agora dizia que não dormia porque sentia que estava
esquecendo-se de fazer alguma coisa. Acordava cedo e ficava procurando o que tinha
que fazer. Continuava com a sensação que estava atrasada, que faltava alguma coisa,
chorava bastante, tristeza enorme, oscilando com agitação intensa. Passou a depender
mais dos remédios para suportar a realidade.
Hoje ela se nomeia “paciente psiquiátrica” e diz que uma vez nessa condição,
não poderá mais deixá-la: “não dá pra dizer que ‘ah! tive síndrome de burnout e agora
estou boa, não tenho mais nada não, estou normal’. Não é, porque se eu voltar a situação
do estresse intenso eu volto a sofrer de novo, com os mesmos sintomas, né? Com a
mesma situação”.
No entanto, diz que agora que se sente “mais normalzinha”, Lisiane se dedica a
ocupar seu tempo com atividades que lhe proporcionam prazer: praticar esportes,
escrever, ler. A atividade esportiva foi também uma tentativa de emagrecer já que o
sobrepeso em que se encontra a incomoda bastante. Durante essa época de sua vida
Lisiane chegou a pesar mais de cem quilos e ela atribui esse excesso de peso á sua
“patologia”.
No momento da entrevista soubemos que Lisiane está gravida. Diz que ficou
feliz, apesar de ter casado recentemente, pois era algo que ela e o marido estavam
desejando. Apesar da alegria, afirma que todos na família ficaram preocupados devido
ao histórico de sua mãe: “minha mãe está morrendo de medo. Quando eu disse a ela que
queria ficar grávida ano passado ela disse “não, precisa não, minha filha, se você não
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quiser aí você adota um menino, você tem sobrinhos” aí assim, ela morre de medo. Eu
acho que ela adoeceu”.
Além disso, a família está apreensiva porque Lisiane estava tendo sangramentos
frequentes, “em decorrências das coisas que eu fiz sem saber que estava grávida, aí tive
sangramento, e fui às pressas ao hospital, fiz a ultra e tal, mas deu tudo normal”.
Reclama das medicações que tem que tomar e da intensidade dos enjoos: eu dizia e
pensava assim: “valha, como é que esse povo tem menino, porque é insuportável. Eu já
estava com crise existencial com medo de não gostar nem do bichim porque era muito
ruim o mal estar”.
Apesar de já ter 30 anos, Lisiane afirma que as pessoas se surpreendem quando
ela diz que está grávida: “como é que pode, meu Deus, uma criança cuidar .... Aquele
negócio, parece que fui estuprada aos 14 anos” [risos], “uma criança vai dar luz a outra
criança”, “como vai ser você cuidar desse menino?, perguntam eles”. Quando indaguei
sobre o que ela achava disso ela me diz que está tranquila e “como lá em casa é todo
mundo muito carinhoso, muito assim... acho que quanto a isso não vai ter problema não.
Eu tenho muitos sobrinhos, assim eu acho que o menino sobrevive em minhas mãos. Eu
tenho quase certeza que ele vai sobreviver [risos]”.
7.1.1 Construção Teórica
Inicialmente gostaríamos de ressaltar que a queixa de Lisiane ao procurar o
serviço de saúde era que sua vida estava se resumindo ao mundo do trabalho e que, em
virtude disso, ela “zerou”. Submetida ao discurso do saber biomédico Lisiane recebe um
significante com o qual nomear aquilo que a atinge no real do corpo: Síndrome de
Burnout.
Para o saber médico a Síndrome de Burnout é considerada resultante das
dinâmicas entre organização do trabalho e trabalhador, e não como uma manifestação
subjetiva. Ela é, portanto, definida como um estado de esgotamento físico e mental em
consequência de fatores ligados ao trabalho. Caracteriza-se por: exaustão emocional,
despersonalização e diminuição da realização pessoal. A exaustão emocional
corresponde à fadiga intensa, falta de forças para enfrentar o dia de trabalho e sensação
de estar sendo exigido além de seus limites emocionais. A despersonalização é
entendida como sendo um distanciamento emocional e indiferença do trabalhador em
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relação ao trabalho ou aos usuários do serviço. Por sua vez, a diminuição da realização
pessoal é a tendência do trabalhador avaliar-se de forma negativa. Sente-se infeliz
consigo próprio e insatisfeito com seu desenvolvimento profissional. Surgem intensos
sentimentos de incompetência e fracasso (TAMAYO, 1997). Outros sintomas apontados
pela literatura médica são insônia, cansaço, palpitações, tremores, oscilações de humor,
dificuldade de concentração, isolamento do meio familiar e social, sensação de
sobrecarga de trabalho a todo o momento.
No entanto, para além dessa definição médica, entendemos ser válido atentarmos
também para o significante que nomeia esse quadro “burnout”, que pode ser traduzido
em português como “pegar fogo”, “consumir-se” ou “queimar”, apontando para um
alguém que se consome, se reduz á cinzas. É interessante observar como, na
singularidade de cada caso, isso vai ser simbolizado.
Freud, ao escutar as pacientes internadas em um hospital de Paris, percebeu em
muitas delas uma contradição entre a realidade da dor dessas mulheres e a inexistência
de uma causalidade orgânica. Sensibilizado pelos fatos que evidenciava, passou a
considerar que havia no próprio discurso das pacientes uma maneira peculiar de revelar
uma verdade (ANDRÉ, 2011).
Ao escutar Lisiane percebemos que, logo de saída, ela nega a definição médica
do seu quadro, pois afirma categoricamente que não ficou assim por trabalhar demais.
Trabalhar muito e a todo o momento não é o que provoca seu sofrimento, na verdade
isso é o que a satisfaz profissionalmente. As coisas caminham bem, assim, até que o pai
passa a ser paciente da unidade onde ela trabalha. Com Lisiane percebemos que o
“burnout” em questão remete ao seu próprio desaparecimento como sujeito. É ela quem
“zera” frente a uma impossibilidade. Mas impossibilidade de que?
Ao ser convocada a falar, algo da verdade desse sujeito pode advir. E dessa fala,
aparentemente desconexa aos olhos do saber biomédico emerge o que se vem a
constituir propriamente como o discurso inconsciente, estruturada a uma lógica ainda
que não afeita aos ditames da racionalidade consciente. Assim, quando se deixa o
sujeito falar são os destemperos das suas manifestações infantis, amorosas, da
sexualidade que aparecem em seu queixume. É pela palavra que alguma coisa cai
(MAURANO, 2010).
Inicialmente Lisiane tem sua vida construída em torno de suas relações de
trabalho. Ela se devota a ele quase integralmente e, inclusive, é através dele que é
reconhecida socialmente. No entanto, essa devoção ao trabalho na saúde que Lisiane
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sustenta não surge por acaso. Ela integra um elemento que está presente no próprio
enigma de seu nascimento, já que ela é concebida “por acidente” sem chance de ser uma
criança “normal”. Ela mesma vem ao mundo como um objeto do saber médico, saber
esse que ela se dedica a suportar em sua profissão. Situar-se, portanto, como enfermeira,
o próprio suporte desse saber, permite a Lisiane sair do lugar da “criança anormal” e
ocupar uma posição fálica. A psicanálise ensina que se pode desejar ser o falo de
alguém e que esta é a posição do sujeito histérico (LACAN [1969-1970] 1992, p. 32).
O falo é um significante da falta. Segundo Lacan em “A significação do falo”,
este não é uma fantasia, não é um objeto parcial que se configura como sendo bom o
mau. Tampouco se restringe a um órgão, pênis ou clitóris. Porém, é um significante do
desejo do Outro. Ao observar os relatos de psicanalistas na sua clínica percebemos
como os sujeitos se relacionam com o falo desconsiderando a diferença anatômica entre
os sexos. O inconsciente não diz ao sujeito de qual sexo ele é, apenas que ele está
submetido a uma relação com o falo (VOLICH, 2005).
Como não há significante para o sexo feminino, só para o masculino, o falo,
acaba por se constituir como sendo uma referência simbólica. É justamente por que ele
falta que Freud o define como sendo o falo simbólico (VALAS, 2010). Na medida em
que ocorre a falta de significante para o sexo feminino, a histérica adota a postura de
reivindicar algo que venha ocupar o lugar deste significante faltoso, fazendo dele um
ponto de apoio que lhe seja oferecido lá onde o inconsciente a deixa abandonada. Ela
busca este significante, algo que faça sentido.
É tentando assumir um local de status no trabalho que Lisiane tenta sustentar
essa posição fálica. Sente-se extremamente importante quando chega a qualquer local
do município e todos os profissionais de saúde a conhecem. Assim, veremos que o
trabalho configura-se na busca incessante para não se deparar com a falta, de
preferência dois empregos para evitar a inconsistência, para garantir que seu vazio seja
preenchido e não se depare com a castração.
Além disso, vive à procura de um reconhecimento que nunca chega. Um
reconhecimento que ela designa para o campo profissional, assumindo um setor que
para ela é de destaque e status, mas que no final, percebe que não se encontra nele. Um
saber insabido que se revela na fala: “o pobre do reconhecimento que eu esperei minha
vida inteira e que eu não tive durante o trabalho”. Como esperar do trabalho, aquilo que
buscou sua vida inteira? Na verdade essa demanda de reconhecimento é uma demanda
de amor. Posição da histérica que busca recobrir sua falta com objeto de amor. Assim,
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não tendo o falo, a mulher se faz de falo e se oferece para ser amada por um homem.
Portanto, como lembra Maurano (2010, p.97), a histérica sabe que não tem o falo e age
de modo a situá-lo como significante do seu desejo, “que deve ser reconhecido, mais
jamais satisfeito”.
No caso de Lisiane é por meio do trabalho que ela substitui o desejar pelo ter
que agradar, defendendo-se assim, do seu vazio. No entanto, na histeria há uma
insatisfação com os objetos: nenhum serve, nada basta, nada garante. Assim, conforme
Volich (2001) podemos dizer que para a histérica ela fica presa à reivindicação de fazer
consistir o objeto que viria a salvá-la. Ela está sempre tentando e se frustrando. Deste
desejo a histérica se faz porta-voz e dele se exibe como pode, sobretudo via seus
sintomas.
É por meio do relato de uma paciente em análise, retirado do livro “O que é a
Histeria” de Maurano (2010), que podemos apreender, a partir da sua fala, a dimensão
do gozo extraído do sintoma. E como é difícil as histéricas abrirem mão dele: “no meu
sintoma eu era plena, ele era algo que me tomava por inteiro, em absoluto e agora o que
é que eu vou ser?”.
Percebemos com Lacan que o sintoma é considerado efeito estrutural do sujeito,
aquilo de mais real que o habita e, portanto, não pode ser erradicado. Cada sujeito se
institui sob seu sintoma. Em Freud, em seus estudos sobre “O caminho para a formação
dos sintomas” (1917) compreendemos que o sintoma se apresenta ao mesmo tempo
como retorno do que foi recalcado e defesa frente à sua realização, de modo a
possibilitar a sua satisfação, ainda que paradoxal e substituta daquela que se revelou
inconciliável para o processamento psíquico do sujeito.
Freud, a partir do seu estudo sobre a Interpretação dos Sonhos (1900), tece suas
formulações sobre o desejo. Para ele o desejo é caracterizado por um impulso na busca
da reprodução da primeira experiência de satisfação do desejo, mas para Freud esse
primeiro desejo é de caráter alucinatório, ou seja, faz referência a um objeto atrelado
originariamente à satisfação e não mais encontrado, um objeto perdido e então
representado na ordem do simbólico.
Assim, o desejo pode realizar-se, sem nunca se satisfazer, e sempre de forma
parcial, na medida em que o encontro com o objeto, tomado pelo desejo, está sempre
perdido e em seu lugar há um furo que causa o desejo, rodeado pelos traços mnêmicos
que tornaram sua representação. Diferente do que acontece com a necessidade, o desejo
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nunca se satisfaz. A busca pelo objeto perdido relança o desejo em sua incansável
circularidade.
Podemos dizer, então, que no cerne do desejo está a falta, pois esta é o que
continua presente em referência ao objeto perdido. Portanto, como aborda Antônio
Quinet (2008), o desejo é a falta que nos move. Enquanto a necessidade (forme, sede)
pode alcançar sua satisfação em um objeto adequado (alimentação, água), a satisfação
do desejo pertence a outro registro, a do sexual. Freud (1905) já assinalava que a
indestrutibilidade advém das primeiras experiências infantis do sujeito com a
sexualidade e esta também é inconciliável, pois o objeto de desejo se estrutura sob as
bases de uma cena infantil incestuosa.
As
experiências
infantis
de
Lisiane
remetem
ao
par
significante
“normal/anormal” que retorna em vários momentos de sua fala: não seria normal se ela
não tivesse dois empregos; ela era criança anormal; após o tratamento sente-se mais
normal; como paciente psiquiátrico ela não é normal, e, finalmente, quando chega o
momento de ela mesma ter um filho, onde, assim como sua mãe, poderá dar á luz uma
criança anormal. É a partir dessa cadeia de significantes, normal/anormal e,
posteriormente, zerar, que Lisiane se faz representar. Como afirma Lacan ([1968-1969]
2008) “o significante é aquilo que representa o sujeito para outro significante”.
A devoção ao trabalho opera de alguma forma como um anteparo, sustentando
Lisiane nas suas identificações ao ideal da enfermagem, ideal este que polariza com o
“ser anormal” que marca seu romance familiar. A identificação para a Psicanálise,
conforme Neto (2005) é o processo psicológico pelo qual o sujeito assimila um aspecto,
uma propriedade, um atributo do outro e se transforma, total ou parcialmente, segundo o
modelo desse outro.
Essa identificação articula sua posição fantasmática. Apesar de não termos
elementos suficientes para chegar à estruturação da fantasia (já que não se trata de uma
análise), podemos identificar aí a presença de dois pólos que alternam-se entre a criança
anormal (cuidada pelos profissionais de saúde) e o lugar daquele que cuida, ou seja, o
próprio profissional de saúde.
Freud (1917) menciona que o que realmente deve ser alvo de interesse na
investigação da construção do sintoma é o fato das fantasias conterem realidade
psíquica em contraste com o que chama de realidade material e que, no mundo das
neuroses, a realidade psíquica é a realidade decisiva. Dessa forma, na concepção
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freudiana, a fantasia é um recurso utilizado na satisfação parcial de um desejo
inconsciente cuja satisfação foi frustrada.
Inicialmente temos, portanto, uma situação em que Lisiane é, como diz Colette
Soler (1998, p. 13), “um sujeito mais ou menos em equilíbrio, bem assentado, como se
diz, e isso repousa sobre uma identificação”, no caso em questão, uma identificação ao
trabalho de enfermeira. Poderíamos pensar que essa “devoção ao trabalho” seria um
substituto da devoção ao pai?
Devotar-se a cuidar do pai é uma estratégia que Freud (1893-1895) já identificou
nos “Estudos sobre a Histeria”. Na verdade, ele inventou a psicanálise ouvindo
mulheres que, como Lisiane, haviam deixado de lado sua vida, afetiva, erótica e sexual,
para se dedicarem ao cuidado de algum membro da família, o pai, mais frequentemente.
Estas eram mulheres que desenvolviam muitos sintomas sem base orgânica: perda de
funções, dores pelo corpo, amnésias.
Freud (1893-1895) inicialmente viu aí uma relação direta entre excesso de
trabalho e uma defesa contra o desejo, pois aquele que está atribulado e intensamente
preocupado com as mil tarefas exigidas pelos cuidados a um doente, cuidados que se
prolongam sem interrupção, acostumam-se a abafar em si todos os indícios de emoção,
já que não têm tempo nem forças para se dar conta delas. Freud achava, na época, que aí
se encontravam materiais para uma histeria de retenção, percebendo a importância do
outro para o histérico em sua intensa necessidade de expressão afetiva.
No entanto, após fazer novas formulações sobre o desenvolvimento da teoria das
pulsões, Freud percebe que a pulsão exige satisfação a todo custo e o desejo, por sua
vez, acaba determinando seus meios por caminhos bastante sinuosos. Os percursos
pelos quais o desejo encontra sua forma particular de se realizar, mesmo que seja
marcada pela eterna insatisfação, configura a lida da histérica em relação ao seu desejo.
É a própria situação de que o sujeito se queixa que lhe permite satisfazer esse desejo,
uma satisfação que mal se reconhece como tal.
No caso de Lisiane, vejamos como essa situação se configura. Sua profissão é
onde ela se sustenta nessa espécie de “devoção ao trabalho”. Sempre achava que estava
atrasada e, se não realizasse as suas atividades, achava que os pacientes morreriam.
Dedicava-se de corpo e alma, buscando a perfeição de tudo. No entanto, a insatisfação
se fazia presente: corria atrás da perfeição, mas tudo o que fazia nunca estava cem por
cento. Além disso, quando buscava a satisfação a partir do reconhecimento do outro,
este também não vinha. Para os outros ela não fazia mais do que sua obrigação. Já que o
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reconhecimento dos outros ela não obtinha, o que conseguia era mais excesso de
trabalho. Nessa posição Lisiane não adoece, pois estando insatisfeita com esse trabalho
de onde não vem o reconhecimento esperado, ela está muito bem identificada, já que
pode se queixar de sua insatisfação. Nesse sentido o “sintoma” enfermagem, ao
contrário de causar sofrimento, permite que ela se insira no laço social.
André (2011) traça uma correlação entre o discurso histérico e a enfermagem,
uma das profissões da área da saúde. Ele aponta que não é pelo fato de o sujeito exercer
a profissão de enfermeiro e se submeter a suas limitações que sobrevém a histeria. Na
verdade a relação deve ser colocada no sentido inverso, a partir do caso Dora, percebese que é porque ela é histérica que se presta particularmente bem a desempenhar as
tarefas de enfermeira. Podemos levar esta correlação para outras profissões da saúde,
nas quais o cuidado aos pacientes também pode se fazer de forma intensa.
Com efeito, essas atividades que envolvem um “cuidar em excesso”, tal como
Freud descreve, são exercidas em duas direções que prolongam a problemática histérica:
por um lado, trata-se de contribuir para reparar o Outro ou para manter as aparências
disso; por outro lado, para a enfermeira devotada, de se consagrar inteiramente à
demanda deste Outro. A retenção de que fala Freud, quer dizer, a mordaça colocada
pelo sujeito sobre a expressão de seus próprios desejos, encontra seu sentido nessa
abnegação diante da demanda do Outro, abnegação na qual o sujeito se reveste de uma
imagem: a imagem daquele, ou daquela, que o Outro só pode amar e preferir a qualquer
outro.
Vemos aí uma proposta de leitura do sintoma-trabalho onde se ocupar do desejo
do outro é não querer saber do seu próprio desejo. Nisso, a histérica permanece entregue
ao desejo do outro como objeto fálico, aquele que pode encobrir sua falta. Porém a
castração é a construção pela qual o ser humano procura dizer a falta, mas, por isso
mesmo, ela ilustra que não pode dizer a falta enquanto tal. Para nomear a falta já
consiste aí, de uma forma ou de outra, a possibilidade de ter que preenchê-la (ANDRÉ,
2011).
O sintoma de Lisiane (nomeado pela medicina como Síndrome de Burnout)
irrompe quando o pai passa a demandar seus cuidados de enfermeira, passando a
frequentar seu local de trabalho. O que podemos depreender a partir disso? Segundo
Colette Soler (1993), o que deflagra esse abalo fantasmático que permite o surgimento
do sintoma é o encontro com um certo real traumático, com um gozo desconhecido pelo
próprio sujeito, que leva ao abalo semântico de suas identificações.
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Não seria possível, apenas a partir de algumas entrevistas determinar quais os
elementos em jogo nesse caso, mas sabemos que se trata de algo que se dá a partir da
demanda de cuidados do pai. Além disso, é certo que algo da ordem de uma demanda
de “reconhecimento” aí se apresenta, pois é em torno desse significante que ela passa a
situar sua impossibilidade de continuar. Expectativa de reconhecimento e apelo ao pai: é
no encontro desses dois elementos que Lisiane literalmente “zera”. Percebemos então
que o tipo de “consumo” do qual ela padece, envolve seu próprio ser de sujeito
Com as teorias do desgaste ou do estresse, essa situação se torna
incompreensível, pois ela sabe que não adoece por trabalhar demais. Com a psicanálise,
podemos nos interrogar um pouco mais acerca desse sujeito que se “consome” nas suas
relações de trabalho.
Não se trata, como ela mesma afirma, da impossibilidade de continuar
trabalhando em decorrência de um corpo desgastado (teorização proposta pelo saber
médico). Trata-se de uma impossibilidade que envolve o encontro com um pai,
apontando ao mesmo tempo para sua impotência (ele adoece, ele pode morrer) e
também para a cena em que esse pai se torna objeto de cuidado. Trata-se, portanto, de
uma cena que amarra a doença e morte do pai com a sua profissão já que, como
profissional de saúde, ela pode se ocupar de providenciar todos os cuidados de que ele
precisa. É isso que marca “o pior problema da sua vida” o momento em que suas
identificações ao trabalho são abaladas.
Haveria aí um encontro próximo demais com o objeto fantasmático, objeto que
ocupa o lugar do desejo, do qual Lisiane não pode se defender? Nesse caso, teríamos aí
uma operação onde o cuidado com os pacientes se revela um substituto dessa fantasia
que enlaça o pai onde:
Devoção ao trabalho
_________________
Devoção do Pai
Uma vez que o pai surge efetivamente no contexto de trabalho de Lisiane
enquanto objeto real a ser cuidado, essa fantasia é abalada. Essa seria uma linha de
pensamento possível, já que a satisfação do desejo tem um valor sexual e assim,
qualquer possibilidade de aproximação do objeto emoldurado nessa cena, faz surgir à
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angústia. Maurano (2010) afirma que o desejo é por natureza inapreensível e
indestrutível, na medida em que tem a falta como mola propulsora. Portanto, preencher
a falta trata-se de ocultar um desejo tão inconciliável e incestuoso que não pode
aparecer senão disfarçado no sintoma. Esta é uma via de retorno.
Lacan mostra que a realização do desejo está ligada a sua representação
significante, sendo o primeiro objeto de desejo o significante do seu reconhecimento.
Daí resulta que quanto mais o sujeito avança, mais ele sofre os efeitos da sua destituição
subjetiva, sendo confrontado com a fragmentação dos seus objetos. Desse modo, a
presença do pai como objeto de cuidado ameaça a falta constitutiva do desejo
implicando uma abolição: sem a falta o sujeito fica impedido de desejar.
Mas como o desejo é indestrutível, só resta uma saída para o sujeito: seu próprio
desaparecimento. O termo afânise é oriundo do grego que significa desaparecimento.
Este termo foi retomado por Lacan, a partir de sua leitura de Jones, e concerne ao
sujeito enquanto desvanecido ante o objeto de seu desejo. Um objeto do qual
desaparecemos, vacilamos. Ao contrário de Jones, Lacan enfatiza que na dialética entre
o sujeito e o objeto, veicula-se o desejo, entretanto, não é o desejo que desaparece, mas
o próprio sujeito (CHATELARD, 2001).
O significante utilizado por Lisiane (zerar) remete ao seu desaparecimento
enquanto sujeito e vem demonstrar a função: desejo que é, ao mesmo tempo,
indestrutível e insuportável. Assim, como portadora da síndrome de burnout, Lisiane
volta à posição de objeto que ocupou em sua fantasia, e coloca-se novamente no lugar
daquela que não é normal.
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7.2 Um grande Currículo de dor
Luísa tem 62 anos e é natural de um município do interior do Rio Grande do
Norte. Fomos apresentadas pelo psicólogo da Unidade Integrada de Saúde Mental que
nos disse se tratar de alguém “que precisa muito conversar”. Ela havia trabalhado como
operária de fabrica de castanha, no momento estava com benefício concedido pelo
Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) e sempre vinha para a consulta angustiada
por ter que passar novamente pela avaliação da perícia médica.
Logo que me propus a escutá-la, Luísa entra em um choro intenso, cabisbaixa e
olhando sempre para seu lado direito, como se quisesse fixar os olhos no lenço de papel.
Diz que está impossibilitada de trabalhar por causa das dores que sente, principalmente,
as dores nos joelhos. Afirma ter medo de andar e cair e diz: “só não caio porque meu pai
não deixa”, apontando o dedo para cima. Quando indagada acerca dessas dores, ela
responde: “meu currículo é muito grande”. E completa dizendo que “para encontrar
emprego tem que ter um currículo grande, né? Pois, é minha filha, pergunte a qualquer
profissional aqui. Minha história é longa”.
Filha de Carmem e Onório, Luísa é a primogênita de uma prole de cinco filhos.
Destes irmãos, três faleceram antes de completarem 10 anos de idade. Luísa ainda teve
dois irmãos, Joaquim e Luciana, por parte de mãe. Sua infância foi marcada por brigas
frequentes entre os pais, sendo comum ele espancar a sua mãe. Luísa buscava intervir
nas brigas e utilizava duas formas: fisicamente, sendo, na maioria das vezes, também
agredida e dirigindo verbalmente o apelo ao pai para que este parasse de bater em sua
mãe. Pois, o pai dizia que ela era sua filha preferida e, assim, Luísa tinha expectativa
que os seus pedidos fossem atendidos.
Numa dessas discussões, quando contava com seis anos de idade, Luísa ouve o
pai expulsar a mãe de casa com a seguinte sentença: “Oh infeliz quando eu chegar não
quero você em casa, se você tiver eu toro suas pernas de foice”. Carmen reúne os filhos
e, no mesmo dia, antes do marido voltar do trabalho, foge de casa, passando a morar
com seu pai, Romero, em uma fazenda, localizada em um município do Rio Grande do
Norte.
Romero, avô de Luísa, já se encontrava separado da mãe de Carmem e, casado
com Marta, com quem teve outros cincos filhos. Quanto à avó, Luísa não sabe muito e
diz que nem mesmo sua mãe a conheceu. Menciona que sua mãe era filha única e, em
meio a um lapso, diz: “no dia que minha mãe morreu... nasceu, a mãe dela faleceu”.
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Quando Carmem foi para casa de seu pai, Luísa tinha entre seis e sete anos. Essa
mudança de residência vai demarcar o que Luísa afirma ser o início de toda sua vida. Na
verdade, percebe que cometeu um lapso e diz: “foi ai que começou todo meu
sofrimento”. Vemos que essa vida/sofrimento se delineia aqui a partir de alguns pontos:
o adoecimento da mãe e o abuso sexual sofrido pelo avô.
Começou a trabalhar cedo na roça para sobreviver, pois nessa época sua mãe não
podia trabalhar por ser doente: “via coisas”, “não tomava banho, era sebosa, não
penteava o cabelo, ela não se limpava”. A explicação apontada pela família de Luísa foi
à de que sua mãe teria “pegado uma macumba”. Nesse período, madastra de Carmem a
levava para “o xangô”, com o objetivo de tirarem “o encosto” dela.
Por volta dos 10 anos, Luísa foi morar em Natal com a madrinha, Julia. Esta, ao
ver as dificuldades pelas quais passava a família de Carmem, pediu a autorização para a
afilhada vir morar com ela. No entanto, após dois anos, o avô manda Carmem buscar
Luísa de volta, dizendo que seria perigoso deixá-la numa cidade grande, pois já estava
“ficando moça”.
Nessa época o avô começou a manifestar um interesse exagerado por Luísa,
dando-lhe muitos presentes como sabonete, perfume, roupas. Além disso, diz Luisa:
“Eu tinha porco, eu tinha cabra, quando nascia uma oveia eu tinha um carneirinho. Ele
me dava. Tudo era me dado. Mas ele estava me preparando tá entendendo? Pra mais lá
na frente ele dá o bote”. Luísa tornou-se objeto de uma preocupação desmedida: não
podia ficar na rua, brincar, conhecer rapazes, etc. Luísa dizia que ele “botou os olhos”
em cima dela: “É porque ele me dava tudo na mal intenção. Porque ele estava querendo
colher eu pra ele”. Depois o assédio foi ficando mais direto e o avô passava a tocá-la:
“Só sei que no mei pelo fim e tudo ele começou a me agarrar. Aí quando ele vinha me
cheirar. Era diferente, ele me cheirava por aqui pelo meu pescoço, aí ele descia assim as
mãos querendo pegar nos meus limãozinhos que estavam nascendo e ele incha aqui na
barriga”. Luísa passa a não mais chamar o seu avô de pai Romero, mas de “velho
Romero”, “o pai da minha mãe” e “o sujo”.
Esse assédio perpassou toda sua infância, mas, segundo Luísa, ela não sabia do
que se tratava. Alega que nesta época era inocente. Foi apenas depois de perguntar a
uma amiga que Luísa “descobriu” que ali se tratava de um abuso sexual. Quando
revelou a amiga o que acontecia, ouviu-a dizer que seu avô estava com “enxerimento”.
A amiga propõe montarem uma armadilha para flagrar o avô. Luísa deixa-se agarrar
para que sua amiga pudesse flagrar a cena. Quando me conta essa situação, Luísa fala:
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“o pobre do meu avô me seduziu, só que ele não conseguiu por conta dessa minha
amiga conseguir desmascarar ele”. Assustada com o fato de o avô sofrer punições
severas, Luísa insistiu dizendo que ele não tinha abusado dela. Diz que ele não
conseguiu desonra-la, mas que ela foi levada pra “vistoria”, uma espécie de exame pra
saber se ainda era virgem.
Quando soube da possibilidade dele ser preso, Luísa se posicionou dizendo que
“não queria que ele ficasse preso. Eu não queria. Não era pra ele ficar preso. Por que ele
era o pai da minha mãe. E minha mãe também era muito ligada com ele”.
Depois da “vistoria” Luísa não retornou mais para a casa do seu avô, “não tinha
condições de por mais os pés lá”. A princípio ela foi morar na casa de uma amiga.
Depois, outro amigo forneceu uma casa para que Luísa morasse com sua mãe e seus
irmãos. Neste período Dona Carmem, continuava indo ao “xangô” e com a melhora da
sua doença começou a namorar outro homem, convidando-o para morar em sua casa.
Deste relacionamento teve dois filhos. Luísa sempre pedia a mãe para não namorar ele,
pois a fama dele na região era de “embuchar as mulheres e ir embora”. Foi o que
aconteceu, ele abandona Carmem, e Luísa passa a ter que sustentar toda a família com
as atividades no roçado.
Luísa diz que o assédio do seu avô fez um “resbolado grande” em sua cabeça e
que isso a levou a se entregar ao primeiro homem que apareceu na sua frente. Aos trezes
anos de idade casa-se um homem mais velho do que ela um soldado do exército.
Entretanto, a relação não era da vontade da mãe, nem do avô, devido ao fato de ele ser
negro e à pouca idade de Luísa. Mas ela insistia e ameaçava fugir com o namorado: “se
foi o sujo que mandou eu não me casar, só porque ele não queria, eu fiz a proposta pra
ele se casar”. Além disso, “eu ia porque queria ser de outro homem do que ser do
próprio, do meu sangue que era o pai da minha mãe. Se ele viesse me tentar depois,
nera? Aí me casei, entre namoro e entre casamento não passou um mês, eu me casei
dentro de um mês, de repente”.
Com este marido passou a morar em Mossoró. Luísa apenas cuidava dos dois
filhos e da casa, pois seu marido não permitia que ela trabalhasse. O casamento durou
quatro anos. Luísa se separou porque seu marido a espancava frequentemente. Luisa
afirma que não desejava seguir o exemplo da mãe: “Ver minha mãe apanhando e de
noite ir para os braços do meu pai.... eu podia fazer isso, podia?. O meu marido batia em
mim e queria que eu fosse servir ele na cama”. Após a separação seu filho mais novo
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passa a ser criado pelos avôs paternos. Luísa sem ter como se sustentar foi à procura de
emprego.
Mesmo distante da sua mãe, Luísa mantinha contato por meio de cartas. Em uma
delas sua mãe solicita que fosse vê-la, caso contrário só iam se reencontrar no dia do
juízo. Luísa ao visitá-la revolve trazê-la, juntamente com seus três irmãos mais novos,
para morar com ela em Mossoró: “vi mamãe doente, aí cheguei lá sabendo que aqui
tinha médico, tinha mais coisa, mais prostitu ..., tinha médico, tinha tudo, nesse tempo
tinha até um plano de saúde. Até que eu trouxe ela, no que eu trouxe justamente quando
eu levei para o psiqui ... todo mundo dizia que era pra eu levar psi, psianalista, né?”
Os médicos recomendaram a internação em um hospital psiquiátrico, e daí em
diante ela segue alternando entre períodos no hospital e períodos em casa. Nesse
período menciona que ficou muito feliz em ter conseguido aposentar a sua mãe por
invalidez. Durante as visitas a sua mãe no hospital psiquiátrico, Luísa percebia-a mais
apática, até que um dia recebeu a notícia dos funcionários do hospital que sua mãe havia
falecido de infarto do miocárdio.
Sobre o pai, Luísa tentou procurá-lo, mas ninguém sabia onde encontrá-lo.
Culpa a sua mãe por tê-lo abandonado e, por isso, ressente-se de nunca mais tê-lo visto:
“Foi minha mãe que foi se embora e deixou meu pai”. Percebe que cometeu um ato
falho e diz: quer dizer, não foi ela, meu pai foi o causador, né?”. Levanta o seu braço e
me mostra um fita preta e diz que este é a única coisa que restou dele, por isso, mantém
a fita representando o luto do seu pai.
Ao se separar do marido Luíza deparou-se em ter que novamente sustentar a
família. Seu primeiro trabalho foi como garçonete e depois, para ganhar mais dinheiro,
passou a trabalhar na fábrica de castanha: “e daí pronto, daí pra cá, trabalhava de dia e
de noite saia. Pronto, trabalhava dos dois jeito. Fui ser prostituta, é. Eu ganhava
dinheiro, eu sai para ganhar o dinheiro”.
Ao ser solicitado para que Luísa falasse um pouco mais sobre “ser prostituta”
disse que era uma menina quando se separou do seu marido, tinha apenas 18 anos, e
suas amigas passavam a convidar ela para sair. Algumas vezes resistia aos convites, mas
não conseguia evitar, gostava de sair à noite com suas amigas e os rapazes “eu não vou
dizer que fui desencabeçada por umas amigas que arranjei, porque via elas fazer. Eu
fazia porque eu queria”.
Apesar de dizer que queria, Luísa afirma que na primeira vez foi enganada.
Quando chegou a um local, a mulher trancou-a num pequeno quarto e “quando eu olhei
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assim, só tinha quatro parede, e a porta trancada eu disse: valha Jesus! Não, eu quero
sair daqui! Eu passei mal, eu desmaiei lá, porque quando eu vi o homem na minha
frente, nu, dentro do motel ...”. Foram anos fazendo programa para ganhar dinheiro.
Segundo Luísa ter sido prostituta foi o destino: “é o destino que eu segui, eu não digo
que esse foi o destino que Deus me deu não, foi não porque pelas coisas que eu já passei
Deus não butou isso no meu caminho, não. Foi eu que procurei”.
Para completar a renda, Luísa em 1979, aos 28 anos, fez a seleção para operária
na fábrica de castanha. Trabalhou neste local por cinco meses, sendo demitida de suas
funções. Na segunda fábrica de castanha reiniciou suas atividades em 1989,
permanecendo por um ano e seis meses. Ao ir trabalhar Luísa levava em sua mochila
outras roupas, pois, quando finalizava o expediente da fábrica aproveitava para se
arrumar e ir fazer programa com os funcionários: “daquela carona as vez saia até um
programa pra ganhar, aí a pessoa ia fazendo, pegava e ia não queria saber, não. Era tudo
sem marido minha filha, não estava coisando o pé pra ninguém”.
Luzia diz que o trabalho na fábrica era “enjoado” e cansativo. Trabalhava
operando uma máquina para descascar e cortar castanha, na qual realizava movimentos
repetitivos com a mãe e o pé. Chega durante a entrevista a imitar os movimentos que
realizava, dizendo: “aqui é mão e aqui é o pé”. Luzia queixava das condições e da
jornada de trabalho. Tinha que chegar cedo e só finalizava o expediente à tarde, tendo
apenas uma hora para o almoço. Nesse período passou a sentir fortes dores no joelho: “a
máquina de cortar castanha com as pernas e com a mão, foi o que apresentou o meu
problema no joelho”. Conforme a intensidade dos movimentos havia dias que ela não
conseguia trabalhar. Teve que fazer tratamento médico, “ele colocava uma luzinha
vermelha, era banho de luz” e teve que retirar líquido que estava acumulado no joelho.
Ficou de atestado por no máximo cinco dias e, em virtude dessas complicações
organizou papeis para conseguir o benefício pelo INSS, mas não conseguiu.
Luísa refere ter sentido nessa época outros problemas, além do joelho. Uma dor
na região das costas começou a aparecer, sua menstruação estava “desmantelada” e um
forte cansaço nas pernas, ao fazer um check-up, fornecido pela fábrica, descobriram que
era preciso fazer uma cirurgia: “tirar meu ovário fora e o apêndice”. A retornar ao
trabalho foi, após um período, demitida.
Ao longo das quatro entrevistas, Luísa comenta os diversos problemas de saúde
pelas quais ela tentou se afastar do emprego, mantendo os direitos trabalhistas 15 dias:
ferida nas pernas, “mancha no pulmão, problema do ovário, dores nas pernas. Assim,
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ela objetivava colocar atestado por mais de 15 dias e, partir daí ser o INSS responsável
pelo pagamento do seu salário. Comenta que no seu caso o “médico de firma tinha raiva
de fornecer atestado: “Só dava dois, três dias e com dois dias ficar boa é difícil, ne, não?
Ainda mais eu que era uma dor na minha perna”.
Além disso, dizia que ao passar do tempo ia “abusando” do trabalho na fábrica.
Tentou algumas vezes infringir regras da fábrica para lhe colocarem para fora: comer
castanha, demorar bastante tempo no banheiro. Contudo, quando perguntei por que ela
queria sair ela me diz que na fábrica “não tinha mais a quem dá, fiquei cavando o
mundo”.
Luísa relembrava que durante as recaídas de sua mãe, quando a levava aos
médicos passou a se consultar com eles também. “Eu fiquei de um jeito também que eu
mesma precisei ir ao médico, o mesmo médico de mamãe chegou a dizer que eu estava
com o mesmo perigo... que eu estava do mesmo jeito da doença da minha mãe”. Refere
que um deles deu a seu irmão, Joaquim, o laudo e os papeis para a sua própria
internação. Mas Luísa, no caminho de casa, tomou os papeis das mãos do seu irmão e
rasgou-os: “não quero ficar igual à mamãe, eu não sou louca, não! Mamãe as vez dizia
que eu que tinha que ser internada, ela dizia que eu era quem estava doente”.
Luísa diz que não toma os remédios como recomenda o médico, pois quando os
toma, fica drogada. Toma-os apenas esporadicamente, quando sente alguma coisa “se eu
tiver ruim da cabeça, muito assim grossa”, com insônia ou quando ela passa a escutar as
vozes. Por isso, estava passando a tomar os remédios com mais frequência. Porém, ao
invés de engoli-los prefere colocar o comprimido dentro da garrafa de água e deixa-lo
dissolver e quando sentia sede, bebia-a: “eu boto pra não ficar tomando o remédio
direto, eu tomando na água eu fico mais, sabe? Eu me sinto mais tranquila”. Mas
sempre fica aflita por saber que é necessário ter que passar pela perícia médica para
renovar o benefício que conseguiu. Certo dia foi até o INSS, “já bem pirada mesmo” e
fez um escândalo lá. Ela não entendia porque não lhe “aposentavam logo, a minha
doença é a mesma, não vai mudar”.
Ao falar sobre sua doença menciona que sua mãe morreu louca, sua irmã de
câncer, sua sobrinha de leucemia, seu pai com câncer de próstata. Aí se lamenta,
perguntando a Deus que família é essa. Uma família que não tem glória. Luísa disse:
“só tenho glória que veio de Deus mesmo, não tenho glória da minha mãe, não tenho
glória do meu pai”.
P á g i n a | 124
Ao finalizar uma das entrevistas Luísa diz que “por tudo isso, minha vida é um
currículo grande”, e diz que isso é bom porque “tá contando que a sua história tem
sentido. Eu creio assim que tem coisa que você está contando que tem conversa de
muita coisa, né?”.
7.2.1 Construção Teórica
Ao escutar Luísa percebemos que ela se faz representar pelo significante “uma
vida de currículo grande” e que é assim que ela busca dar algum sentido à história que
conta.
Observamos nos estudos de Freud que as formações do inconsciente obedecem a
mecanismos próprios de linguagem para fazer emergir um sentido frente à
impossibilidade que há de se nomear todas as coisas. Essas leis primordiais do
inconsciente são a metáfora e a metonímia que correspondem respectivamente à
condensação e ao deslocamento abordado por Freud. Foi devido à presença da metáfora
e metonímia no discurso do sujeito que Lacan esboçou a supremacia do significante em
relação ao significado (DOR, 2003).
A metáfora consiste em designar alguma coisa por meio do nome de outra coisa.
Portanto, a substituição de um significante por outro. Essa substituição só é possível a
partir de uma coerência existente na cadeia de significantes, demonstrando mais uma
vez a supremacia deste em relação ao significado. A metáfora é, portanto, produtora de
sentido (DOR, 2003).
Assim, percebemos que não é a um currículo, no sentido profissional, que Luísa
se reporta, porém a um currículo que articula a dor com a cena sexual. E o primeiro item
desse currículo é a situação em que ela se vê como objeto do investimento libidinal do
avô, pai de sua mãe. É por meio do currículo que ela pode condensar a história da
repetição dessa dor. Um saber insabido que emerge do seu próprio discurso ao crer que
o currículo porta uma história que tem um sentido. Talvez, aí podemos pensar a ideia de
que Lacan vai desenvolver que o sintoma é justamente alguma coisa na qual o sujeito
crê, sendo necessário apenas decifrá-lo (GARCEZ, 2005).
O sintoma é uma metáfora que cifra uma mensagem que não poderia ser dita
claramente tendo em vista que se trata de algo insuportável para a consciência. Por sua
vez o desejo é metonímico, é sempre desejo de outra coisa. Seu objeto é perdido, e o
P á g i n a | 125
que se tem dele é apenas o rastro deixado pelas inscrições dos significantes
(SILVEIRA, 2013).
No entanto, ao relatar as dores que sente, Luísa reporta-se apenas à dor física
localizada no joelho, e identifica este problema como sendo o motivo que a impede de
trabalhar. Ao continuar falando sobre isso diz que “só não caio porque meu pai não
deixa”, portanto, deixa o plano físico e aponta o seu desejo para o campo do Outro, na
qual estabelece aí há a presença de uma figura paterna, seja uma figura religiosa ou um
pai de fato.
Embora Luísa fale pouco sobre seu pai biológico, o seu discurso nos dá pistas
sobre a elaboração da função paterna e como este processo contribuiu para a sua busca
de vir a ser uma mulher. Algo que para ela terá marcas deixadas pelo abandono do pai
biológico e pelo abuso que sofreu do avô, a quem ela chamava de “Pai Romero”. Em
decorrência destas marcas recebidas durante seus primeiros anos, Luísa encontrará uma
maneira própria de transitar na vida e, conforme Garcez (2005) podendo haver tropeços
na relação consigo e com o Outro.
Veremos que a função paterna tem sua relevância devido à articulação que se faz
com outros conceitos que a psicanálise utiliza para teorizar o psiquismo e explicar a
constituição subjetiva do sujeito: a falta e a lei da castração. No entanto, consideramos
que discorrer sobre a função paterna remete abordar a presença materna na constituição
do bebê. Vejamos a seguir como essa relação entre mãe, bebê e o pai se processam.
Quando o bebê nasce, a primeira coisa a considerar como ponto prévio de seu
percurso na direção de se tornar um sujeito é que ele é um ser de necessidade. E, quem
atende a esta necessidade? Quem o atende é a mãe, ou alguém que assume o papel de
cuidadora. Em qualquer dessas situações estes são seres de linguagem e é por meio da
linguagem que eles podem atender a necessidade do bebê. O sujeito registra, ou seja,
representa essa experiência de satisfação da necessidade para depois procurar
reencontrar o objeto segundo as linhas em que ele foi registrado psiquicamente. Freud
denomina essa busca de desejo (ELIA, 2004). Assim, entendemos que a necessidade
implica satisfação, todavia, o desejo jamais é satisfeito.
Nesse período a mãe vai se constituindo para a menina, como também para o
menino, como o primeiro objeto de amor. Até um determinado momento, a criança é o
falo da mãe e a mãe é o falo para a criança. Nesta ultima acepção, a criança acha que é
capaz de completar e realizar todos os desejos da mãe. No entanto, a criança em algum
momento se confrontará com a experiência de castração, percebendo que a aquela
P á g i n a | 126
mulher (mãe) deseja algo para além dela, ou seja, a criança não o completa, ela não é o
falo para sua mãe e, há algo que a mãe deseja e que a criança não pode dar. Ela percebe
que o desejo da sua mãe se direciona para o seu pai.
Em seu texto “A Dissolução do Complexo de Édipo” Freud irá postular o
Complexo de Édipo como fenômeno central do período sexual da primeira infância. Em
um primeiro momento de vida da criança todas as pessoas são vistas como possuidoras
de um pênis, esse período não corresponde a uma idade cronológica, mas antes a um
período lógico (FREUD, 1924, p. 217).
O pênis, a princípio, para Freud é a representação do falo. Em outras palavras,
não há senão um sexo, o falo, mas há dois modos de manifestação: ou a presença ou a
ausência (André, 2011). Assim, o falo não se trata de um objeto qualquer, mas aquele
que serviria de unidade de medida do valor de um sujeito. Portanto, um elemento
indicativo de plena potência. Ninguém o tem, mas ele se afigura, pelo menos na cultura
ocidental, como um vislumbre do que faria alguém consistir (MAURANO, 2010).
O falo é a representação simbólica do pênis, ou seja, qualquer coisa que tenha
para uma pessoa a mesma significação que o pênis teve para a criança no complexo de
castração. E qual é essa significação? Para a criança recém-confrontada com a visão do
órgão genital feminino, o pênis significa o órgão da completude. É por isso que o
menino tem tanto medo de perdê-lo e é por isso que a menina o deseja tanto. Desse
modo, o falo é tido como significante da falta, o significante do desejo do Outro.
Veremos como isso se processa tanto para o menino quanto para a menina.
Quando o menino se depara pela primeira vez com a visão do órgão genital
diferente do seu ele demonstra falta de interesse, rejeita o que viu ou procura recursos
para adequá-lo às suas expectativas, dizendo que o órgão na menina ainda é pequeno e
crescerá em breve. É pelo medo da castração que o menino deixa a mãe enquanto objeto
de amor e passa a se identificar com o pai, detentor a quem ele aponta como detentor do
falo (FREUD, 1938).
Inicialmente o clitóris na menina é capaz de exercer a função de pênis, porém,
quando ela efetua uma comparação com outra criança de sexo oposto, percebe que foi
injustiçada e sente-se inferior. Por algum tempo a menina também acredita que quando
for mais velha poderá ter um pênis. Porém, é importante salientar que a criança não
entende a falta do pênis como sendo uma diferença de caráter sexual, antes explica essa
falta presumindo que, em alguma época, já tivera um órgão como aquele e o perdera.
(FREUD, 1933).
P á g i n a | 127
Seu desejo de possuir um pênis a encaminha para ligar-se de maneira desmedida
ao pai, a procura do falo. A partir daí, o desejo que leva a menina a voltar-se para seu
pai é, sem dúvida, originalmente o desejo de possuir o pênis, o falo, que a mãe lhe
recusou e que agora espera obter de seu pai. A menina pela via da castração entra no
Complexo de Édipo. Está fase, conforme André (2011) inaugura-se por uma metáfora.
Há substituição do pai pela mãe.
Essa substituição decorre porque a menina responsabiliza sua mãe pela falta do
pênis nela e, ao mesmo tempo, a culpa por está em posição inferior em relação ao
menino, afastando-se dessa mãe de forma hostil. A descoberta de que é castrada e,
portanto, não tem o falo representa um marco decisivo para a menina.
Desse modo, a menina possui três caminhos para o enigma da castração e do
Complexo de Édipo. A primeira a leva para à inibição sexual; a menina, assustada pela
comparação com os meninos, cresce insatisfeita com seu clitóris, abandona sua
atividade fálica e, com ela, sua sexualidade em geral, em consequência, renuncia à
satisfação masturbatória e repudia seu amor pela mãe (FREUD, 1931).
O segundo caminho de desenvolvimento refere-se ao sentido de um complexo de
masculinidade. Nessa linha, a menina tem esperança de conseguir um pênis em alguma
ocasião e, isso se torna o objetivo de sua vida e a fantasia de ser um homem. Esse
complexo de masculinidade pode também resultar numa escolha de objeto homossexual
manifesta (FREUD, 1931)
A terceira, finalmente, à feminilidade normal em que toma o pai como objeto,
passando a esperar dele um filho, encontrado assim o caminho para a feminilidade
(FREUD, 1931). Ainda conforme André (2011) é pela via do investimento do homem
pai como doador do filho, representante do falo, que se iniciará um despertar da
sensibilidade vaginal, surgindo a descoberta do privilégio de procriar. A isto se
acrescenta um posterior e uma reconciliação reparatória da imagem da mãe, que
propiciam um avanço e fortalecimento da identificação feminina da menina.
A determinação da separação da menina é tão difícil para ela, mais até que o
menino. Este ao encontrar a saída pelo lado do pai fará a identificação com o falo
imaginário onde o fixa no desejo da mãe. Mas ao fazer isso, André (2011) diz que o
menino acaba encontrando em seu pai um apoio para a identificação viril que
corresponde ao sexo na medida em que há apenas o pênis como representação
simbólica. Logo, não há registro da mulher no inconsciente. Se há dois sexos
P á g i n a | 128
anatômicos, no inconsciente só há um princípio do sexo que o sujeito pode ou não
recusar: o falo.
Por esse motivo, a mãe não pode em caso algum fornecer a filha um traço
simbólico que suporte sua identidade de menina. É com esta falta presente no Outro que
a menina tem que se confrontar. Essa falta reforça de algum modo à castração feminina.
Tudo o que a mãe pode fornecer como traço simbólico suporte da identificação é o falo.
Por fim, a menina cresce acreditando que tem o falo, porém descobre pela via da
castração que não o possui, ao longo do caminho vê-se obrigada a mudar o percurso e
passa a desejar a ter o falo de outro modo. Assim, a vida sexual feminina está centrada
no amor e na demanda de amor, ou seja, na demanda de se fazer dar, pelo Outro, aquilo
que não tem (POLLO, 2004).
Desde que Freud tratou dessas questões nos seus textos sobre a sexualidade
feminina (1931) e a feminilidade (1933), percebemos que a ênfase dos autores que o
seguiram recaiu sobre a relação mãe-bebê como sendo o eixo fundamental em torno do
qual irão girar todas as questões relativas ao Édipo. No entanto, foi a partir das
considerações de Jacques Lacan, que o pai vai passar a ocupar um lugar privilegiado
nessa discussão.
Como afirma André (2011), o pai é um função que, para Lacan, é caracterizada
por dar limites, trazer para o filho a noção de lei como interdição do incesto. O pai aqui
aparece como operador da castração simbólica. O pai entra num mundo que antes era só
da mãe e da criança e o como portador do falo, e priva a mãe em um duplo sentido: ele
interdita a criança em sua busca incestuosa de se fazer ela mesma objeto do desejo da
mãe e priva a mãe do objeto fálico. Assim, o pai é aquele que proíbe e também
possibilita a abertura para novos caminhos.
Assim, é necessário compreender que não é a presença do pai, necessariamente,
que produz essa metáfora paterna, mas o seu Nome, isto é, o pai como ser de linguagem,
um pai que nomeia, mas, ao mesmo tempo, um pai que é um nome. Portanto, o Nome
do Pai no campo da psicanálise se configura enquanto um operador simbólico que
ordena uma tarefa, a função paterna, e não remete exclusivamente a existência de um
pai biológico. Na verdade, a função paterna pode ser compreendida como sendo tudo
aquilo capaz de operar uma nomeação do vazio enigmático que é apresentado, para cada
sujeito quando se vê confrontado com o desejo da mãe (ANDRÉ, 2011). O Nome do Pai
faz obstáculo entre a mãe e o filho, impedindo o incesto.
P á g i n a | 129
No que concerne à estrutura edipiana de Luísa, percebemos que a função paterna
exercida pelo seu pai biológico convocou a mãe quanto à filha a reconhecerem que uma
não completa a outra. O pai cria o triangulo amoroso importante para a constituição
psíquica. Como aborda Goldfeder (2001) o que está no centro da questão do
inconsciente e o que este nos revela é o complexo de Édipo, o triângulo familiar, em
torno do significante falo.
Esse episódio pode ser evidenciado no discurso de Luísa quando esta ficava
surpresa quando sua mãe mesmo sendo agredida pelo seu pai, depois de brigas, corria
para os braços dele. Mas comete um ato falho e diz que podia fazer isso. Essa cena nos
mostra que Luísa teve na infância a mudança de objeto de amor e, conforme Freud, em
toda relação entre uma menina e seu pai, há que se considerar que houve antes, com
igual amor ou intensidade, uma relação de amor com a mãe. A menina só chega ao amor
do pai pela via do amor da mãe. Essa mudança de objeto de amor, relatada
anteriormente, só ocorre a partir da percepção da castração.
O amor de Luísa endereçado ao pai, vela para ela a possível falha que ele teria
cometido ao deixá-los, colocando a culpa da separação para a sua mãe. Até hoje lamenta
que depois desse fato nunca mais viu seu pai e que a única coisa que lhe restou foi o
luto dele.
Após seu pai biológico ter abandonado a família, Luísa passa a ver no seu avô
como sendo aquele que pudesse substituir a presença do pai. No entanto, esse homem
que deveria ocupar um lugar paterno, transgrede a própria lei de interdição ao incesto. O
interdito, o incesto e/ou o abuso sexual passam a se entrelaçar. Esse acontecimento vai
demarcar o que Luísa afirma ter feito um “resbolado” grande na sua vida. Freud, em
seus estudos sobre a sexualidade infantil, abordava que as primeiras experiências
sexuais de uma criança, principalmente quando precoce, deixa-as com marcas
definitivas em sua vida.
As crianças vítimas de algum tipo de abuso sexual pelos próprios pais ou por
alguém que supostamente ocupe esse lugar deparam com situações em que as relações
são postas as avessas e nessa inversão a criança passa a sexualizar bastante o corpo e se
constituir enquanto objeto de uso. Pois ela está submetida aos desejos de um Outro
adulto. Quando abusada sexualmente a criança é confrontada com o excesso e, segundo
as Goldfeder (2001, p. 19) “este excesso remete à experiência de desamparo, marca de
suas experiências mais primitivas”.
P á g i n a | 130
É no discurso de Luísa que percebemos como o abuso sofrido pelo seu avô faz
amarrações com o seu sofrimento. Levaremos em consideração o termo “abuso sexual”,
pois já Freud em seus estudos sobre a sexualidade infantil já estabelecia que o abuso
sexual, pode se instalar uma compulsão a repetir a mesma situação com outras pessoas.
Nos termos de Lacan (1964, p. 57), ocorre nesse caso um evento com aparência de
acidental, mas que é, na verdade, um encontro, no sentido de um real traumático ao qual
se retorna de forma inconsciente e incontrolável.
A posição de Luísa em suas relações amorosas é de se colocar novamente
enquanto objeto de uso para os homens. Primeiramente com seu avô, depois com seu
marido e posteriormente com seus clientes. Além disso, conforme Fortes (2010) as
mulheres podem encontrar na prostituição uma forma de subjetivar a sua falta, pois as
falhas e vazios de alguma forma são preenchidos pelo olhar desejante do outro, é pela
via da prostituição que Luísa marca a busca por homens detentores do falo e, ao mesmo
tempo, transformam a num falo. Tal posicionamento é característico da histeria, pois a
cada relação o lugar da falta fica configurado.
Ainda em André (2011) a falta do Outro é o que forma o ponto de partida da
histeria, é a falha fundamental encontrada no pai. O falo que a histérica encontra no pai
é geralmente insuficiente. O pai da histérica é geralmente impotente, este não pode da o
apoio que a histérica conta para assentar sua identidade feminina. O que se mostra como
causa na histeria é uma falta absolutamente radical. Nesta perspectiva Luísa nos aponta
para essa insuficiência do pai e, ao mesmo tempo, da queixa a sua mãe enquanto mulher
castrada ao afirmar que não tem glória nem de pai e nem de mãe. A histérica ao ser
privado de uma identificação feminina se vê reduzida ao estatuto de objeto de consumo
entregue à perversão do homem, pois a passividade é insuportável para ela.
Tais fatos podem apresentar correlação da vida de Luísa quando esta afirmou
que as tentativas de ser demitida da empresa de castanha, onde atuava como operária,
não eram por causa somente das dores que começavam a assolar seu corpo, mas
fundamentalmente porque não conseguia mais homens, funcionários da empresa, para
fazer programa. Diante disso, ela diz que “não tinha mais a quem dá, fiquei cavando o
mundo”. Assim, Luísa cava o mundo a procura da repetição desse encontro com um
homem, substituto do encontro sexual traumático.
Mas por se constituir enquanto objeto da primeira experiência de satisfação, este
é um objeto perdido. Objeto em torno do qual o sujeito vive uma nostalgia para
reencontrar algo que nunca teve e que, justamente pela impossibilidade de reencontrar o
P á g i n a | 131
que busca, se vira com um objeto que ele acredita substituí-lo e que lhe possa satisfazer.
A prostituição é a via pela qual Luísa tenta reencontrar esse objeto fálico. Contudo,
conforme (FORTES, 2010) quando o prazer não é alcançado, a mulher pode erotizar a
dor e esta, por fim, pode tornar-se fonte inesgotável de prazer.
É neste mesmo ano que Luísa passa a sentir dores nas costas, passa a se
consultar com os psiquiatras e deles obtém o mesmo diagnóstico da doença de sua mãe,
situação que a leva a fazer tratamento. Ela alega que este é o motivo que a impede de
trabalhar, pois devido a sua dificuldade de locomoção, teme cair. O pai que vai “torar as
suas pernas com foice” e o pai que não a deixa cair, apontam para essa anatomia em que
se inscreve o sintoma de Luisa.
Ao falarmos de corpo na psicanálise, não se trata do corpo biológico, ou seja, em
linguagem popular corresponde ao “corpo de carne e osso”, porém de um corpo que é
do registro do simbólico. Segundo Pollo (2003) só pode “ter um corpo” aquele que está
inserido na linguagem. Nesta perspectiva, as autoras ainda afirmam que o ser precisa de
um corpo para se apoiar, que por sua vez precisa da linguagem para ser um corpo. Os
animais não têm corpo nem ser, sendo apenas carne. Só podemos falar do corpo e dizer
“este é meu corpo” porque ele é feito de linguagem. O corpo simbólico, ao pinçar um
corpo com o significante, individualiza-o dos outros, distinguindo-o dos demais. O
corpo simbólico toma posse de nosso corpo.
Desse modo, Lacan se refere a linguagem como constituindo no corpo os
monumentos históricos na histeria. Trata-se, portanto, de uma marca corporal histérica
que situa seu corpo como suporte do sujeito do desejo. Essa marca significante vai se
constituindo enquanto suporte da relação, não sexual, mas do sujeito com o significante.
Esta marca não é eventual, contingente, mas sim necessária, pois não cessa de se
escrever. É o corpo que sustenta a relação do sujeito com o Outro (POLLO, 2003).
Ao conceber a histeria como encadeamento de significantes, ideias patogênicas
ou extravagantes que se apossam no corpo Freud define a relação causal da histeria
como sendo uma “relação simbólica”. Podemos perceber que na discussão do caso de
Elisabeth Von R., Freud afirma que a simbolização é o meio caminho entre a
autossugestão e a conversão, onde as histéricas restauram o significado original das
palavras. Um sintoma histérico de dor precordial, por exemplo, pode corresponder à
ideia não enunciada: “apunhalou-me até o coração”. A dor entre os olhos de Frau
Cäcilie corresponderia à ideia de que a avó lhe dirigira um penetrante olhar acusatório,
quando aos 15 anos, estava deitada em sua cama (POLLO, 2003).
P á g i n a | 132
Assim como essas histéricas famosas da época de Freud, nossa hipótese é de que
Luísa também fala através do corpo. Um corpo submetido a uma história de abandono e
privações, mas que encontra sua satisfação (não sabida) em repetir um encontro
traumático, através de uma história que é um verdadeiro “currículo” que articula o
trabalho (prostituição), o (des)encontro sexual e a da dor.
Relembramos, no entanto, que este estudo parte apenas de algumas entrevistas e
que o ensaio metapsicológico, portanto é somente uma das aproximações possíveis. Não
se trata de uma “verdade” do sujeito, pois esta só poderia ser construída numa relação
transferencial, onde, através da decifração dos sintomas, Luísa pudesse resignificar seu
“currículo”. Apesar disso, acreditamos que a leitura aqui apresentada pode proporcionar
aos profissionais de saúde a abertura de uma outra perspectiva de abordagem da dor de
Luísa, já que no modelo médico esses elementos que perpassam seu discurso, nem
mesmo são considerados.
7.3 Uma elaboração do trabalh(a)dor
A partir da queixa inicial e da construção que realizamos em torno dos sintomas
apresentados por Luísa e Lisiane, nos propomos a pensar quais as amarrações que estes
sujeitos estabelecem entre a sua dor e o mundo do trabalho. Vale ressaltar que a
categoria “trabalho” nos interessa nesse estudo dentro de um recorte muito específico:
aquele que diz respeito como cada sujeito entra no laço social, estabelecendo suas
relações de produção significante e de gozo. Isso porque, como afirma Furtado (2008), a
psicanálise não pode contribuir no que diz respeito ao plano objetivo e tecnocrático do
mundo do trabalho.
Como trabalhamos com o significante, faz-se importante no contexto deste estudo,
resgatar como a palavra “trabalho” foi tomada pela psicanálise. Observamos que Freud
utilizou a palavra alemã ‘Airbeit’ (trabalho), em algumas situações. Em algumas delas
para se referir ao trabalho como atividade profissional, mas, principalmente para
designar o trabalho envolvido na atividade psíquica. Nesse segundo uso da palavra, ela
nunca vinha sozinha, mas acompanhada de algum prefixo que especifica o uso do
termo: Verarbeitung, Bearbeitung e Durcharbeitung (Furtado, 2008).
Iremos
discutir
aqui
apenas
duas
destas
designações
(Verarbeitung
e
Durcharbeitung), pois acreditamos que elas se prestam melhor para a interlocução
teórica com o nosso objeto de estudo, qual seja, o sofrimento psíquico do trabalhador.
P á g i n a | 133
O termo Verarbeitung designa trabalho esmerado, mas é frequentemente traduzido
para o português como ‘elaborar’. Assim, segundo Hanns (1996) o termo indica um
trabalho de processamento, ou seja, de rearranjo, de assimilação (absorção) dos
estímulos no psiquismo. Furtado (2008) aponta que Freud ao usar este termo alemão,
refere-se à forma como lidamos com o excesso de estímulos acumulados para dar conta
de afetos ou libido ameaçando o Eu.
Já o termo Durcharbeitung designa trabalhar continuamente. Refere-se ao indicativo
de superação de obstáculos. ‘Durch’ significa através de, atravessar, entrar e sair. Temse uma ideia de percorrer ou atravessar uma tarefa do início ao fim. Trata-se de uma
atividade muitas vezes prolongada. Comumente traduzida para o português como
‘perlaborar’. Freud (1914) utilizou esse termo em um dos seus mais famosos artigos
“Recordar, repetir e elaborar”. Conforme as palavras de Hans (1996, p. 203): “Não se
pode afirmar que é um conceito psicanalítico, mas é utilizado quando Freud quer se
referir ao modo de ‘trabalhar’ o sonho ou materiais da análise, ou ainda, para o trabalho
de vencer as resistências”.
Por meio dessas duas designações, Freud diz que o aparelho psíquico através de
um trabalho consegue transformar o volume da energia pulsional derivando-a para outro
lugar do psiquismo ou ligando-a a alguma representação. No entanto, nos casos em que
houver incapacidade para elaborar um excesso de estímulos, isso pode resultar numa
neurose atual ou a histeria, na qual a tensão sexual não trabalhada fica derivada em
sintomas somáticos (ZIMERMAM, 2001).
Assim, podemos pensar a verarbeitung como o próprio trabalho de elaboração
do sintoma, que busca lidar com o excesso pulsional. É um trabalho inconsciente que se
faz presente, mesmo quando não há transferência analítica. Por outro lado, a
durcharbeitung remete ao processo de construção desenvolvido ao longo do trabalho
analítico.
Segundo Oury apud Zimerman (2001) é muito importante que se possa
distinguir essas duas operações de trabalho psíquico em Freud, afirmando que é a
posição analítica que pode permitir passar do trabalho inconsciente de elaboração
(Verarbeitung) para um trabalho permanente de perlaboração, (Durcharbeitung). Este
trabalho psíquico possibilita a reintegração e restabelecimento de um sujeito construtor
de uma elaboração a partir de um saber insabido que surge na e pela própria experiência
analítica. Isto é o que vai diferenciá-lo de todos aqueles saberes tradicionalmente
P á g i n a | 134
referenciados pelas formas sugestivas dominantes, permitindo-o tomar o lugar de sujeito
(RODOVALHO, 2006).
A verarbeitung se faz presente nos ensaios metapsicológico que construímos
como a maneira com que Lisiane e Luisa situam suas amarrações no mundo do trabalho.
No caso de Lisiane, esse enlace se dá por meio do par significante normal/anormal,
demandando do profissional de saúde que lhe ateste esta condição. A síndrome de
burnout é a insígnia que restaura o lugar que ela ocupa na fantasia, ao mesmo tempo em
que enlaça aí suas relações com o trabalho. Na situação de Luísa, o significante
“currículo grande” é o que ela endereça aos profissionais de saúde, querendo que o
saber destes possam dizer sobre aquilo que lhe aflige. Um significante que não esgota a
definição de sujeito. No entanto, é pelo saber biomédico que Luísa tenta se ‘sustentar’.
O discurso enquanto articulação significante, conforme Fontes (2007) funda um vínculo
social instaurado pela palavra.
Ambas interrogam o Outro com seu sintoma, exigindo uma resposta. Com
efeito, a histeria coloca uma questão, pelo simples fato de estar ali, de existir. O que
todas as identificações fracassam em fazer. Em seus percursos Luísa e Lisiane buscam
elaborar (Verarbeitung) pela via sintomática um modo de não querer saber sobre a
causa do seu desejo.
A partir do discurso de Lisiane e Luísa, percebemos que o trabalho não é apenas
uma dimensão externa, podendo ser considerado como um fator causador ou
contributivo do sofrimento psíquico do trabalhador, porém um elemento a mais no
encadeamento, entrelaçando o trabalho aos significantes que compõe a trama da vida.
Portanto, o trabalh(a)dor, na sua singularidade, ‘trabalha’ (Arbeit) uma maneira
de lidar com a sua dor através de um trabalho de processamento psíquico
(Verarbeitung). Esta elaboração articula o desejo do trabalhador com o desejo do Outro.
Nesta perspectiva, relembramos a advertência de Freud quanto à ineficácia de,
visando à eliminação do sintoma, informar o paciente sobre qual o seu sentido. É
preciso, antes, que esse saber esteja baseado “em uma modificação interna”, a qual
requer “uma parcela de trabalho” (Freud, 1916-1917, p. 289). Não se trata, pois, em
processo analítico, apontar para o sujeito de onde vem a origem do seu sintoma, mas de
promover uma modificação no modo de satisfação constituído pelo próprio sintoma,
razão pela qual caberá ao sujeito “uma parcela de trabalho” (VENTURINI, 2007).
Percebemos que o que movimenta o aparelho psíquico a trabalhar é o desejo,
representante da falta como condição necessária para o sujeito se movimentar, e da
P á g i n a | 135
pulsão enquanto uma força constante fazendo pressão ao aparelho psíquico na busca de
uma satisfação. Embora, aí se pode encontrar o conflito psíquico, uma luta entre
impulsos plenos de desejo, no entanto, discordantes entre si (RODOVALHO, 2006).
Nesse conflito, o trabalh(a)dor será impelido a realizar um trabalho de processamento
para obter uma saída do conflito, seja pela via da sublimação ou sintomática.
Por fim, percebemos que só a análise permitiria recorrer a outro trabalho com a
dor, agora aquele de perlaboração (Durcharbeitung), onde o trabalh(a)dor poderia vir a
ocupar um outro lugar, não mais alienado ao desejo do outro.
Assim, durante o processo de perlaboração, o sujeito passa a indagar sobre suas
próprias questões, concernindo-o apropriadamente na decifração de seus sintomas. Será
por meio da fala, do trabalho associativo que iniciará na perlaboração, que o sujeito
buscará recuperar a lembrança patogênica, e desse modo dissolver a repetição
sintomática (VENTURINI, 2007). Portanto, o deslocamento então realizado conferirá
ao sintoma um novo valor. Como afirma Soler (1999), o “sintoma fundamental” é a
única coisa que faz identidade, que é o verdadeiro nome próprio. É porque o sintoma,
como fala, passa necessariamente pelo Outro que a análise poderá implicar o sujeito em
sua mensagem; recuperando para ele o sentido de seu sintoma.
Por fim, ressaltamos que devido às particularidades metodológicas da nossa
pesquisa, a perlaboração não poderia acontecer no âmbito da escuta desenvolvida neste
estudo, já que não se trata de uma análise. Mas pensar a existência desses processos,
elaborar e perlaborar, podem trazer interlocuções interessantes entre a psicanálise e o
cuidado clínico de enfermagem ao trabalhador em sofrimento psíquico.
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8 CONTRIBUIÇÕES DA PSICANÁLISE PARA O CUIDADO CLÍNICO DE
ENFERMAGEM
Os dois ensaios metapsicológicos construídos neste estudo nos permitem tecer
quatro pontos importantes para a reflexão e a prática do cuidado clínico de enfermagem:
o posicionamento do enfermeiro frente à queixa de sofrimento psíquico, deslocamento
do lugar de saber, ressignificação da clínica e a consideração da singularidade do caso.
Ao longo da realização da pesquisa percebemos que os profissionais de saúde e,
inclusive os enfermeiros, estabelecem uma nítida relação de causalidade entre a queixa
e o diagnóstico, na medida em que a primeira só tem valor se amparada em um discurso
biomédico, a partir de uma padronização dos sintomas. O trabalhador não é convocado
a ‘elaborar’ um sentido para aquilo de que vem se queixar. Nesse sentido, seu
sofrimento só é reconhecido se sua queixa relacionada ao trabalho puder ser amparada
em um fundamento orgânico e/ou epidemiológico.
A fala de Luísa é tomada no discurso dos profissionais de saúde como uma
“queixa difusa”, já que não corresponde aos critérios de classificação existentes no
manual das doenças relacionadas ao trabalho. Já a queixa de Lisiane pôde ser capturada
no discurso médico, sendo enquadrada numa classificação de “Transtorno Mental e
Comportamental Relacionado ao Trabalho”, sob o título de Síndrome de Burnout. No
entanto, percebemos que, em ambas, escapa a essa forma de olhar tudo aquilo que não
remete apenas ao aspecto físico e, que diz da maneira como elas amarram sua relação
com o trabalho à sua posição de sujeito.
Inserida no modelo biomédico, a atuação da enfermagem fica limitada a uma
espécie de triagem e controle de medicamentos. A preocupação em descrever os sinais e
sintomas de Luísa nos revela que o cuidado de enfermagem esta pautada na clínica da
doença em detrimento do sujeito que adoece. O cuidado clínico e a escuta são tomados
como processos que guardam entre si uma relação de externalidade, pois se enfatiza nas
práticas de cuidar o saber do especialista (enfermeiro), em detrimento da vivência
subjetiva do trabalhador, havendo a naturalização ou objetificação do sofrimento.
Referente à escuta como ferramenta do cuidado clínico de enfermagem,
apreendemos que há uma polissemia em relação à escuta tanto ao nível dos discursos
quanto nas práticas voltadas para o sujeito que apresenta algum sofrimento psíquico.
Alguns enfermeiros quando fazem referência à escuta entendem-na como sendo
sinônimo de ouvir, escutar as queixas patológicas, estratégia de acolhimento ou mesmo
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escutar as solicitações para posterior resolução de queixas (LIMA, SILVEIRA;
VIEIRA, 2012). Raramente a escuta é considerada como um fim em si mesmo, como
uma intervenção que possibilite acessar um saber que está do lado do sujeito.
Nesse sentido, percebemos que a escuta do sofrimento psíquico do trabalhador
passou a ser sinônimo de direcionar a busca por uma pedagogização do corpo e do
sofrimento, que visa à devolução desse sujeito “reparado” ao mercado de trabalho.
Trata-se, portanto, de uma intervenção comprometida com o modo de produção
capitalista.
Conseguimos perceber isso quando as ações de educação em saúde ofertadas
pelos enfermeiros aos trabalhadores caminham unicamente na abordagem acerca dos
acidentes de trabalho, sobrecarga de trabalho, estresse, melhoria da qualidade de vida,
ergonomia. Raramente se aborda a questão do sofrimento psíquico do trabalhador, e
quando se faz, é alertando aos direitos, deveres trabalhistas que competem ao
empregador e ao empregado (GATTO, 1998).
Ao contrário do modelo biomédico, que se debruça para o olhar clínico dos
sinais e sintomas, comprovando as alterações orgânicas por meio dos exames, a
psicanálise se propõe a um deslocamento: ao invés de ver e comprovar os sinais e
sintomas, é a escuta do sujeito que fundamenta a sua clínica.
Assim, quando nos propomos a escutar o sujeito e seus padecimentos na
perspectiva da psicanálise, provocamos necessariamente um giro nesse discurso que não
será sem consequências. A primeira delas é aquela que diz respeito ao deslocamento do
lugar do saber, que sai do lado do “especialista” e passa para o lado daquele que fala
(ainda que ele não saiba nada sobre isso). Isso porque a psicanálise é o único discurso
que considera a existência de um saber do lado daquele que fala, o saber inconsciente.
Talvez essa seja uma das maiores contribuições que o discurso psicanalítico pode trazer
para o cuidado clínico de enfermagem.
A escuta pautada na hipótese do inconsciente implica o reconhecimento do outro
enquanto sujeito de linguagem, que nomeia de forma singular suas vivências. Aposta-se
na implicação do trabalhador sobre aquilo que provoca seu sofrimento, pois, conforme
Almeida (2009), cada um traz no bojo de seu discurso as correlações entre os
significantes de seu sofrimento e a sua história de vida, um saber “insabido” que pode
se revelar na fala daquele que veio a se queixar.
Com a psicanálise percebemos que a fala é deslocada até um outro lugar, muito
além da intenção consciente de comunicar algo. Ao falar, o sujeito comunica muito
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mais que aquilo a que inicialmente se propôs. Lacan afirma que o ato falho é, com
efeito, um ato bem-sucedido, posto que através dele a verdade do sujeito se revela,
ainda que à própria revelia do eu. Nas falas de Luísa e Lisiane percebemos alguns atos
falhos, mas estes quando evidenciados no discurso dos trabalhadores, seja no
atendimento de enfermagem ou na elaboração de pesquisas acadêmicas seriam
descartados, tidos como falhas de comunicação, desatenção ou cansaço provindo
daquele que fala.
A escuta psicanalítica só existe quando sustentada no dispositivo da palavra.
Traduz a maneira do sujeito de se relacionar com o objeto de desejo. Ao ser
fundamentado na palavra, não se trata de uma saída homogênea, aplicada
indiscriminadamente. É uma aposta na singularidade do “cada um”, que vai construir as
saídas possíveis para lidar com seu sofrimento, mas também com seu gozo.
Ao falarmos sobre o deslocamento do lugar do enfermeiro na clínica,
consideramos que este não é um processo fácil de adotarmos. Exige sair de uma zona de
conforto, em que o saber científico nos coloca e nos lança para um campo do “não
saber”, onde o objeto não é simples de ser aprendido. Antes se mostra esquivo,
permitindo apenas observações de sua presença.
Ao propor a escuta do sujeito inconsciente precisamos nos aproximar de
fundamentos específicos, qual seja: o método psicanalítico. Pois, conforme Lima (2012)
essa fala precisa necessariamente ser direcionada a outro, ou seja, é preciso sempre um
outro para dizer-se. Se o outro não está ali, há uma ausência, a fala não ecoa, não
retorna para aquele que se propôs a falar sobre aquilo que lhe aflige.
Desse modo, percebemos que a escuta psicanalítica extrapola os limites de uma
causalidade orgânica e/ou epidemiológica e nos convoca, enquanto enfermeiro, a refletir
sobre nosso posicionamento frente à queixa de sofrimento psíquico do trabalhador,
trazendo novas nuance para o cuidado clínico de enfermagem, rompendo com a
perspectiva de uma clínica puramente biológica e centrada do processo saúde-doença.
Aqui podemos tecer nosso segundo eixo de contribuição da psicanálise para o
cuidado clínico de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico: clínica do
sujeito. Na clínica do sujeito, o modo de conceber o sintoma desloca-se daquilo que
deve ser eliminado, para uma mensagem a ser decifrada. Com efeito, Freud ressaltou
que, diversamente da abordagem psiquiátrica a psicanálise estabelece, em primeiro
lugar, que os sintomas têm um sentido e uma relação com a vida daquele que o produz
(FREUD, 1916-1917).
P á g i n a | 139
Um sintoma que desliza na cadeia de significantes e se expressa no real do
corpo. Como diz Lacan: “O sintoma aqui é o significante de um significado recalcado
da consciência do sujeito”. É, portanto, um símbolo escrito na areia da carne (Lacan,
[1953-1954] 1998, p. 282). Desconhecido pelo próprio sujeito, o sintoma causa
sofrimento, ao mesmo tempo, que expressa a realização de um desejo, pois resulta de
um modo de gozar. Em lugar de modificar o mundo externo para a satisfação, a
modificação se dá no próprio corpo do sujeito. O sintoma é um evento no corpo, diz
Lacan.
Para a psicanálise o corpo é aquele afetado pela linguagem, corpo das trocas,
corpo que movimenta várias economias, em torno do qual se contam as histórias. Não é
o corpo em seu sentido biológico como propõe a medicina. É nos sintomas histéricos
que se pode observar o surgimento de uma nova forma de se olhar para o corpo: um
lugar de simbolização (PIMENTA; FERREIRA, 2003).
Portanto, ao utilizarmos a psicanálise na condução deste objeto de estudo não
objetivamos encontrar um novo saber para a enfermagem, conduzindo ao mesmo caráter
de “verdade absoluta”, característico da ciência moderna. Não se trata disso, mas de
buscar outros referenciais para o cuidado de enfermagem, valorizando o sujeito em sua
vivência singular.
Acreditamos que a psicanálise pode contribuir para que essa vivência singular
também permeie o cuidado de enfermagem nos espaços institucionalizados,
descontruindo uma queixa padronizada para escutar de outra forma o que aparentemente
se mostra como transgressão na clínica biomédica: a singularidade da fala do
trabalhador. Uma escuta que convoca e interroga o sujeito, e não o “estressado”, o
“burnout”.
Assumir essa postura implica ir além da triagem, da possibilidade de escutar sem
amarrar-se a protocolos (manual das doenças relacionadas ao trabalho). Pois, neste
mesmo movimento, vemos o incremento de avaliação e protocolos construídos como
forma de universalizar e padronizar a partir da média (dados numéricos), que acaba por
excluir o que há de particular na queixa de cada trabalhador.
Desse modo, pensamos que o trabalhador poderá ser escutado, a fim de que
construa nesse intervalo algo de novo. Lacan observa que nem sempre o que o paciente
demanda do médico é a cura. Às vezes ele desafia o médico a retirá-lo de sua condição
de enfermo, porém em outras vezes, demanda explicitamente do médico que o
autentique como enfermo (ASSAD, 2009).
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No texto intitulado “A psicanálise e a determinação dos fatos nos processos
jurídicos”, de 1906, Freud estabelece um paralelo entre a atividade do analista e a do
juiz. Achamos pertinente, pois ele aborda essa problemática que envolve a saúde mental
e as questões trabalhistas. Enquanto o analista opera no sentido de revelar um segredo
oculto à consciência, o juiz lida com a simulação da ignorância. Numa ação trabalhista
não é incomum ver a simulação entrar em cena. Porém, não a simulação da ignorância,
mas de causalidades ou não causalidades, fator contributivo ou não contributivo,
relativas ao trabalho. Percebemos que esta é a preocupação que fundamenta a escuta
realizada pelos enfermeiros que atendem os pacientes em sofrimento psíquico: a
causalidade ou não daquilo que ele veio se queixar.
Sabemos que para o modelo biomédico a verdade é sempre factual e pode ser
toda dita e comprovada, mas para a psicanálise o sujeito está de alguma forma
implicado naquilo que diz, portanto, a verdade do sujeito pode aparecer, mas jamais se
pode dizer a verdade toda, pois a linguagem é estruturalmente falha, sempre comporta
furos. O que se diz remete sempre a outro dizer. São as palavras que permitem novos
arranjos, produzindo sentidos diversos. Por isso, a verdade não pode ser toda dita.
Desse modo, as vias da verdade são por essência vias de erro. Segundo Lacan,
as nossas palavras que tropeçam são na verdade palavras que confessam. Uma palavra
que ele nem mesmo sabe, mas que emite como significante de alguma coisa. O sujeito
sempre diz mais do que quer dizer, sempre mais do que sabe dizer (DÖR, 2003).
A clínica, nessa perspectiva, passa a ser de cada sujeito, a clínica do caso-a-caso,
pautada pela escuta e não pela padronização da queixa. Padronização que contribui para
a construção um demanda pré-estabelecida nos serviços de saúde (CEREST, CAPS,
UISAM). Portanto, observamos que não é uma especialidade ou a atuação em um
espaço institucionalizado que promove a escuta da queixa de sofrimento psíquico do
trabalhador, antes, passa pela existência de um referencial que possa nortear a clínica
daqueles que se propõem a escutá-los.
Portanto, como característica essencial da clínica do sujeito, temos a escuta.
Uma escuta que marcará a construção da singularidade do caso. Este é o nosso terceiro
eixo de contribuição da psicanálise para o cuidado clínico de enfermagem aos
trabalhadores em sofrimento psíquico.
Compreendemos que a singularidade do caso é também uma condição
metodológica no sentido de que as construções teóricas sobre a clínica se elaboram
sempre no caso a caso. Cada um deles deve ser escutado como se fosse o primeiro,
P á g i n a | 141
colocando em reversa o saber sobre a teoria (SILVA, 2013). Pois é a fala do sujeito que
anuncia um saber “insabido”. Ao contrário daqueles que são construídos no
ensino/pesquisa de enfermagem no campo da saúde mental. Independente da
nomenclatura utilizada na enfermagem, caso clínico ou estudo de caso, nestes são as
teorias que guiam a sua elaboração e a condução do caso apresentado. Há uma
padronização do formato: sinais e sintomas da doença, condutas de enfermagem.
Assim, percebemos que, diferente das demais pesquisas acadêmicas, aquelas que
trazem a sustentação psicanalítica não buscam iniciar uma investigação com
formulações teóricas já prontas sobre o caso. A demonstração de um saber prévio não
pode ser psicanalítica pela simples razão de que essa resposta já é consciente. A
psicanálise lida com o “não saber” daquele que fala (SILVA, 2013).
Entendemos que essas três dimensões que situam a contribuição da psicanálise
para a enfermagem (deslocamento do lugar de saber, ressignificação da clínica e a
construção da singularidade do caso) estão amarradas entre si por um quarto eixo que,
como aponta Silveira (2013) é aquele de uma outra postura pautada na dimensão ética.
Abordar a ética na psicanálise nunca foi uma tarefa fácil. Freud já se questionava
sobre as repercussões que sua teoria causaria no discurso moral de sua época ao
deslocar o sujeito consciente de sua posição dominante no psiquismo. Então, a que
dimensão ética a psicanálise se refere? Ressaltamos aqui dois pontos para nossa
discussão: falta no Outro e o vazio do objeto causa de desejo. Ao se deparar com a falta
no Outro, conforme Silveira (2013), o sujeito vai passar a se perguntar sobre o desejo: o
que esse outro quer? O que ele quer de mim? Inserido neste enigma, o sujeito conduz a
sua vida procurando responder a esta questão, tomando o desejo do outro por seu
próprio desejo.
Sabemos que essa busca na direção de obter a resposta sobre o seu desejo é
incessante, marcada por uma sobra, um resto de alguma coisa que corresponde ao
impossível de ser simbolizado. Esse resto não para de cessar e não pode ser eliminado.
Portanto, sempre retorna ao sujeito e acaba por conduzi-lo em suas escolhas, Lacan
denominou esse resto como sendo o “objeto causa do desejo” (Lacan, [1962-1663]
2005).
Portanto, no que se refere à dimensão ética da psicanálise não se objetiva
tamponar o objeto causa do desejo, seja com objetos, com medicação, ou mesmo
programas de aconselhamento (palavras de conforto, autoajuda, a oferta de um “bem”
qualquer). Na ocorrência disso, só se pode conduzir ao pior (SILVEIRA, 2013). Esta é a
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posição do discurso científico, amparada pelo discurso capitalista, que os enfermeiros
tendem a fazer: suturar a falta constitutiva do sujeito.
Os enfermeiros, na posição de especialista, buscam as causas e as explicações
para o sofrimento do paciente. Condutas guiadas por uma ética do “bem” comum, da
eliminação do sintoma em nome de uma maior qualidade, da “reabilitação” do sujeito à
sociedade em seu máximo potencial de produção. Mas a psicanálise anuncia que o
sintoma não é uma espécie de “defeito de fabricação” a ser corrigido. Mas uma
mensagem a ser decifrada. Trata-se de considerar a verdade do sujeito dividido, em
relação à sua causa (SILVEIRA, 2013).
Com a proliferação dos diagnósticos, que acabam funcionando como rótulos,
tudo pode ser justificado. O sujeito encontra-se cada vez mais imerso em numa posição
de vítima ou de objeto, apenas aguardando o retorno da situação de prazer. Perde-se a
dimensão de que cada sujeito é responsável por suas escolhas e que estas têm
consequências (VIEIRA, BESSET, 2008).
A ética da psicanálise, como aponta Silveira (2013), consiste na possibilidade de
sustentar esse espaço vazio do objeto causa do desejo, não para tamponá-lo, mas para
fazer o sujeito falar. Como diz Lacan, uma ética do bem-dizer o desejo onde, tomando a
palavra, cada um possa saber um pouco mais sobre isto que lhe causa, aproximando-se
um pouco mais desse desejo, que é o que ele porta de mais estranho e de mais íntimo, e
reorganizando suas formas de extrair satisfação, para além da repetição do sofrimento.
A psicanálise pode contribuir para o cuidado clínico de enfermagem aos
trabalhadores em sofrimento psíquico na medida que se interessa por ouvir a verdade
que esse sintoma tem a dizer. Sendo assim, uma escuta do sofrimento psíquico
perpassada pela ética de sustentação do desejo, precisa considerar alguns pontos:
1- O sofrimento psíquico não pode ser reduzido às alterações orgânicas
(bioquímicas ou neurológicas), ou configurado apenas como apêndice das
condições da organização do trabalho ou da estrutura de personalidade do
trabalhador.
2- O enfermeiro não pode desejar o “bem” do paciente (a eliminação dos seus
sintomas). Qualquer coisa que o enfermeiro coloque nesse lugar só vai
impedir que o próprio sujeito elabore seu desejo.
3- O enfermeiro não pode ocupar um lugar de especialista. Ele precisa estar
aberto à fala do outro, interessar-se pelo que este tem a dizer. Isso, muitas
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vezes, mobiliza a angústia, e daí a nossa pressa em responder à demanda
com soluções imediatas. Ampliar o espaço de tempo entre ouvir a queixa e
dar uma resposta pode favorecer que o próprio sujeito elabore suas
questões, implique-se naquilo de que vem se queixar.
4- É preciso considerar que o sofrimento não é uma doença, e que uma certa
dose dele é até mesmo necessária para que possamos nos constituir
enquanto sujeitos. O ideal de cura, que permeia o campo da saúde, pretende
a eliminação do sintoma como foco do tratamento. É necessário considerar
o sintoma em sua face de mensagem a ser decifrada, mas também em sua
dimensão de gozo, como forma de satisfação substitutiva. O sintoma
(enquanto fenômeno) pode até desaparecer, mas ele continua encontrando
outras formas de dizer sua verdade. Nesse sentido, o desejo de curar o
paciente (ou qualquer outro desejo que se imponha da parte de quem
escuta) só faz dificultar a manifestação dessa verdade do inconsciente.
5- Assim acreditamos que o enfermeiro, junto com os demais profissionais de
saúde, deve assumir uma postura ética. Isso implica ir além da escuta
reduzida a um ato protocolar, a uma técnica de coleta de evidências, de
sinais, ou ainda, a um jogo interpretativo na perspectiva de identificar se a
fala do trabalhador é tida como fingimento ou não. Portanto, não se trata do
enfermeiro se pôr de lado do trabalhador ou do lado do empregador. Mas
do dever ético de escutar os padecimentos do trabalhador, pois quem está
com a queixa de sofrimento psíquico é o trabalhador e, não o empregador.
6- Portanto, os enfermeiros e os demais profissionais podem entender que o
trabalhador não procura o serviço apenas para obter um diagnóstico a fim
de exclusivamente adquirir um benefício financeiro. Pensar assim seria um
pré-julgamento. Compreendemos que receber um diagnóstico, seja para
qual fim, não se configura no que de melhor se possa fazer pelo
trabalhador, se este não receber um acompanhamento adequado. O que
ocorre, no entanto, é que na saúde mental essa “causa” muitas vezes não se
trata de uma causa material. Trata-se sim da relação do sujeito com aquilo
que o causa, que o afeta, em seu desejo e em sua relação com o outro.
7- Precisamos nos questionar sobre a formação necessária para realizar essa
escuta do sofrimento psíquico na saúde mental. Para ser um bom cirurgião,
conforme Silveira (2013), o profissional não precisa, necessariamente, ter
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passado por uma cirurgia. Seria até absurdo esperar isso dele. Mas, para a
psicanálise, segundo a referida autora, escutar o outro implica
necessariamente que possamos lidar com nossa própria falta. Só assim
podemos sustentar esse espaço vazio onde o outro vai poder depositar suas
questões. Daí ela ser o único método de “tratamento” que requer de todo
aquele que se propõe a praticá-la, que ele mesmo se submeta a este
tratamento.
Portanto, pensar a clínica numa perspectiva que considere a hipótese do
inconsciente coloca do lado do profissional, no nosso caso reportamos ao enfermeiro,
uma exigência muito específica acerca de sua formação. Se no modelo médico o saberfazer é adquirido através de um processo de formação acadêmica, pautado em manuais,
registros e teorias que embasam a conduta do sujeito em sofrimento psíquico, no que
tange à psicanálise exige-se uma “formação” que está além dos bancos escolares e do
processo de transmissão de conhecimentos. Não é pelo discurso do mestre e do
universitário que se irá constituir enquanto analista.
A formação analítica passa necessariamente por duas condições fundamentais: o
desejo e a implicação pela análise pessoal. Tais motivos são um meio para que o
enfermeiro interessado na clínica do sujeito possa operar de um outro lugar, não mais de
especialista que tampona o objeto causa de desejo do paciente, mas que faz semblante e
sustenta a posição de objeto de desejo. Neste discurso o enfermeiro (analista) estimula a
regra de associação livre, mobilizando a posição discursiva do sujeito.
Apesar de ser uma pesquisa direcionada para o cuidado de enfermagem,
portanto, aos enfermeiros, é preciso estar advertidos de dois pontos. A leitura desta
pesquisa não ‘conduz’ os enfermeiros a fazer o deslocamento do saber (saber
especialista para o não saber, operando com a escuta inconsciente). Segundo ponto,
desde que convoquemos o sujeito a falar, a própria necessidade de ser escutado vai se
apresentar em algum momento também para o enfermeiro que escuta. Portanto, é
necessário apontarmos que a análise pessoal é uma escolha que só pertence ao sujeito,
cada um no seu percurso singular vai decidir por quais caminhos pretende seguir. Além
disso, depende de como cada um possa formular e querer interrogar, de um outro lugar,
sobre suas próprias questões.
Se esta via não é a implicação do enfermeiro, estes podem estar se questionando
se existem outras possibilidades para se pensar a escuta como ferramenta para cuidado
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clínico de enfermagem aos trabalhadores em sofrimento psíquico. Acreditamos que sim!
Porém, não com restrições. Não se tratará de um escuta analítica; no entanto,
acreditamos que outra via possa surgir: possibilidade de sensibilizar o enfermeiro para
abertura de um espaço institucionalizado, onde a singularidade e a subjetividade do
trabalhador possam existir. É um começo, uma contribuição na medida em que
verificamos na prática que o trabalhador está sob efeito de quantificação e padronização
do seu sofrimento. Quem sabe, a partir daí o desejo de buscar a análise pessoal possa se
presentificar, passando o enfermeiro a operar de um outro lugar.
Também somos cientes de que o referencial psicanalítico tem seus limites de
aplicação, na medida em que este só pode emergir a partir do desejo de cada um (não há
manual ou tempo cronológico apropriado para que isso aconteça), é o desejo que move
o sujeito em busca pela formação, outros obstáculos também podem surgir como as
resistências institucionais e da equipe de profissionais para ressignificar a clínica.
Evidentemente, existem várias outras possibilidades de se pensar o cuidado e a
clínica na enfermagem, que trarão para alguns enfermeiros um significado, justificando
suas ações de cuidado a partir desses referenciais.
A interlocução entre clínica, cuidado de enfermagem e a psicanálise é uma
proposta recente, instigadora e que tem levado alguns pesquisadores, Silveira (2012),
Almeida (2009), Filho (2010), Vieira (2011), Lima (2012), Cunha (2012), a buscar
olhares diferentes para o cuidado de enfermagem, reconhecendo a singularidade de cada
sujeito e suas formas únicas de sofrimento psíquico.3 Um trabalho que tem demandado
discussões com estudantes de graduação, pós-graduação e profissionais do serviço.
Portanto, procuramos a partir do referencial da psicanálise atuar com a clínica do
sujeito, onde a escuta surge como ferramenta básica para a intervenção do enfermeiro
junto aos trabalhadores em sofrimento psíquico, à medida que a abordagem do sujeito
somente é viável através da possibilidade de recorrer à sua própria fala. Diante disso,
compreendemos que a psicanálise pode contribuir para um cuidado clínico de
enfermagem que visualize no termo clínico as ações de cuidado para além do
diagnóstico, dos sinais, sintomas, reconhecendo a existência de um saber inconsciente
do lado daquele que fala.
3
Essa discussão vem sendo realizada no, LAPSU, Laboratório de Psicanálise da Universidade Estadual
do Ceará (UECE) e na linha de Pesquisa em Psicanalise e Saúde: interface com a clínica do sujeito
inserida no Programa de Pós-Graduação Cuidados Clínicos em Enfermagem e Saúde da UECE.
P á g i n a | 146
Portanto, não se trata, com a nossa pesquisa, de fazer do enfermeiro um
psicanalista.
Porém,
de
apontar
algumas
possíveis
elaborações
que
fomos
desenvolvendo recentemente no âmbito da interlocução sobre o cuidado clínico de
enfermagem e a psicanálise. As contribuições que identificamos aqui têm um caráter
processual, preferimos considerá-las em aberto, pois acreditamos que elas não são
respostas prontas e padronizadas. São, na verdade, muito propícias para incitar a
discussão.
Certamente essas não são as únicas questões possíveis. Cada um que se
debruça(rá) sobre este tema carrega(rá) também um pouco das suas implicações
pessoais, ‘elaborar(á)’ e acrescenta(rá) sua contribuição singular para a construção desse
campo, onde o sujeito é colocado em cena, a “clínica do sujeito”.
P á g i n a | 147
9 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Chegar às “considerações finais” da pesquisa não significa que aqui tenhamos
que encerrá-la. Neste momento, ela nos lança para outros desafios. Desafios tão intensos
como aqueles que nos instigaram à sua produção.
Ao longo da realização dessa pesquisa deparamo-nos com acessibilidade e
colaboração dos profissionais de saúde, mas também com resistências institucionais,
com questões burocráticas, com saberes e fazeres estruturados sobre o sofrimento
psíquico e o trabalhador. Talvez essa separação seja a melhor forma para resumir o que
encontramos ao longo da nossa jornada aos locais de pesquisa. Saberes estruturados que
tecem suas ações sobre um único objeto de atuação: o sujeito. Um sujeito recortado e
retalhado pelo discurso científico.
Nessa dicotomia encontramos: um trabalhador, ‘não-sujeito’, que é visível para a
sociedade apenas enquanto mantiver seu ritmo ‘normal’ de produção. Um sofrimento
psíquico que só é visível quando detectado e comprovado por uma causalidade orgânica
e/ou epidemiológica. Portanto, percebemos que estamos lidando é com a invisibilidade
do sofrimento psíquico do trabalhador. Como pensar o cuidado clínico de enfermagem
diante disso? Acreditamos que pensar essa discussão à luz da psicanálise nos convocou
a elaboração distinta do saber estruturado, deslocando-o para o ‘saber insabido’ do
sujeito.
As manifestações desse ‘saber insabido’ podem ser expressas pelos sonhos, o ato
falho, o chiste; estes aparecem sempre sob o modo de um tropeço, através do qual o
sujeito se sente surpreso ao encontrar algo que ultrapassa aquilo que esperava dizer. É
nessa fenda no discurso que podemos localizar o que é da ordem do inconsciente, e que
está sempre prestes a novamente escapar e desaparecer.
Nesta perspectiva, a escuta é um instrumento fundamental para fazer advir este
sujeito, que “não é uma tarefa tão óbvia” e fácil de apreender, mas que surge nos
fenômenos da linguagem e de uma maneira particular para cada um. Por isso, ao
abordamos a escuta, não falamos de qualquer escuta, ou de uma escuta compreensiva e
subordinada a uma prática moral educativa, mas a escuta da articulação significante
inconsciente, na qual o sujeito se produz.
Nesta perspectiva, objetivamos com esse estudo compreender como se configura
a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao trabalho na perspectiva da singularidade
do trabalhador. Para alcançá-lo, escolhemos dois estudos de caso que abordam a
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singularidade discursiva de cada sujeito, articulando a sua queixa de sofrimento
psíquico, direcionada ao atendimento de saúde do trabalhador, aos significantes que
surgem em seu discurso.
Nas entrevistas nos chamaram atenção os significantes ‘zerar’ e ‘a/normal’ de
que Lisiane tem se apropriado para formar a sua linha simbólica, fazendo amarrações
com o trabalho. Amarrações que em Luísa nos são reveladas por um ‘currículo’. Ao se
pensar no significante, nunca se deve imaginá-lo sozinho, pois um significante só é
significante para outros significantes. Portanto, ao elaborar e considerar cada caso temse que cada um como constituindo um modo próprio de inscrição do sujeito no laço
social.
Desse modo, percebemos que a experiência psicanalítica, uma vez colocada em
operação através da instalação do dispositivo freudiano da associação livre, produz as
condições de emergência do sujeito do inconsciente, justamente através da repetição e
da transferência, criando as condições de produção das chamadas formações do
inconsciente.
Ressaltamos que os ensaios metapsicológicos não foram advindos de
elaborações clínicas do consultório psicanalítico. Se para a psicanálise seria um limite
ter enveredado pelo caminho metodológico das entrevistas, e evidentemente é, para a
enfermagem esse ‘limite’ ainda é desafiador, na medida em que podemos com ele
provocar reflexões e mudanças significativas para o cuidado clínico de enfermagem.
Um cuidado que privilegie a dimensão singular, considerando o sujeito inconsciente
único em sua forma de desejar e transitar pela linguagem.
Acreditamos que a psicanálise pode sensibilizar os enfermeiros, não
necessariamente para que estes desenvolvam práticas idênticas aos analistas, a lidar com
a efervescência das queixas do trabalhador em sofrimento psíquico que procuram os
serviços de saúde, onde suas questões não exigem apenas respostas pedagógicas e nem
padronizadas. Valoriza-se a fala do trabalhador, em espaços individuais, sem desprezar
as intervenções coletivas. Quando o enfermeiro deixa de focar a doença para se voltar
para aquele que sofre, acolhendo a singularidade de cada um, há possibilidade de uma
interlocução entre instituição, clínica e psicanálise.
Na enfermagem, atribuímos grande valor ao saber estruturado, servindo para
fundamentar as impressões, elaborar planos de cuidado, apostando na certeza de que
estamos fazendo o ‘melhor’ para o trabalhador. Muitos trabalhadores chegam ao serviço
de saúde com um pedido de alívio e apaziguamento para o sofrimento que está lhe
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afligindo. Mas com a psicanálise essa queixa inicial pode se deslocada para o sujeito
questionar seu próprio sintoma. Isto porque, diferente das ofertas disponibilizadas pelo
mercado capitalista e pela ciência, a psicanálise não busca tamponar a falta. Sob a
orientação de que estas medidas de alívio são apenas paliativas, sendo necessário,
portanto, construir um novo modo de lidar com o seu sofrimento.
Desse modo, a ética da psicanálise, como ética do desejo, não se atém às
experiências moralizantes. Por exemplo, se a fala do trabalhador é tida como fingimento
ou não, preguiça ou desculpa para não ir trabalhar, mas volta-se para o desejo daquele
que fala. No discurso psicanalítico não se trata de dar sentido ao sintoma, pois como
disse Lacan é disso que o sintoma se alimenta. Aquele que escuta e que assume uma
posição de analista visa, antes, a uma desarrumação do sentido, uma destituição daquilo
que sustenta a face simbólica do sintoma.
Por isso a necessidade do próprio enfermeiro, ao optar pela via da análise
pessoal, ser convocado a trabalhar, não somente exercendo a profissão, mas a um
trabalho psíquico. Perlaborar suas próprias questões para que este possa fazer do seu
desejo um ‘desejo prevenido’. Ele sabe que não pode desejar pelo seu paciente. Nem
mesmo desejar seu “bem” (eliminação dos seus sintomas, ou que ele volte ao trabalho,
por exemplo). Desse modo, qualquer coisa que o enfermeiro (analista) ofereça para
tamponar a falta só vai impedir que o próprio sujeito elabore seu desejo.
Esta posição do enfermeiro, implicada na análise pessoal, permitirá que o
trabalhador que chega ao serviço possa também fazer uma ‘travessia’ de seu próprio
sintoma. Pois, a associação livre é uma espécie de ‘trabalho forçado’, assemelhando-se
a um ‘operário especializado’. Mas é um trabalho que, também, ao ocorrer do lado
daquele que fala, é frustrante, na medida em que há uma distância entre aquilo que o
sujeito quer dizer e aquilo que ele efetivamente diz. Entre elaborar e perlaborar há uma
estrada a percorrer: prazer, sofrimento, gozo.
Como resultado, nessa direção de quem não tem todas as respostas para o
sofrimento psíquico do trabalhador que procura o serviço tem-se um cuidado pautado
por uma ética de sustentação do suposto ‘não saber’. Tal como foi discutido
anteriormente, não buscamos apontar a obrigatoriedade da formação do enfermeiro em
uma espécie de ‘especialização em psicanálise’. Esta não ocorre em um espaço
acadêmico. Também, entendemos que não é possível implantar uma forma de serviço
que vá contra o modelo biomédico de assistência, negando e/ou desvalorizando as
contribuições e a importância desse saber para o campo da saúde mental e trabalho.
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Não se trata disso, não é sobre isso que fundamentamos nossa pesquisa. Porém,
pensamos ser possível através das nossas pontuações, que o enfermeiro que atua na
assistência, gerência, pesquisa ou ensino, reconheça o trabalhador em sofrimento
psíquico enquanto sujeito singular de existência, considerando sua posição subjetiva,
que por vezes aparece apenas marcada pelo discurso médico-científico e capitalista.
A partir dos ensaios metapsicológicos, compreendemos que a psicanálise pode
contribuir para o cuidado clínico de enfermagem na medida em que mais do que uma
clínica factual, pronta em seu saber, ela valoriza a subjetividade do sujeito e o “nãosaber”, portanto, uma clínica disposta a se reconstruir a cada escuta realizada com o
trabalhador em sofrimento psíquico. Uma clínica de aprendizado, onde quem toma lugar
de sujeito é aquele que vem se queixar de seu sofrimento. Desse modo, apesar de todo o
saber estruturado que permeia o campo da enfermagem é a fala do paciente que deve ser
valorizada.
Se não cabe aos cursos de graduação e pós-graduação em enfermagem a
responsabilidade de inserir discussões psicanalíticas, os mesmos não se isentam da
reprodução de saberes que recortam o sujeito em físico-psíquico, sujeito-trabalhador.
Nesta perspectiva, a psicanálise pode estabelecer novas relações entre o cuidado clínico
de enfermagem e atenção à saúde mental do trabalhador, comprometidos com a criação
de espaços onde a subjetividade, a fala do trabalhador e a sua história de vida possam
ser também tratadas como elementos importantes para a formulação dos planos de
cuidado em enfermagem, proporcionando discussões mais intensas sobre o cuidado
subjetivo aos trabalhadores em sofrimento psíquico e, consequentemente, propor a
ressignificação das intervenções no tratamento terapêutico desses trabalhadores.
Por fim, não estamos propondo a escuta psicanalítica como um modelo de
intervenção direcionado à atenção à saúde do trabalhador. Até porque como já havíamos
dito a psicanálise refere-se à clínica do sujeito e não a uma clínica que atua conforme
um recorte de saber sobre o sujeito – saúde do trabalhador, saúde da mulher, saúde do
idoso. No entanto, apostamos que a escuta fundamentada nos estudos psicanalíticos
pode permitir que o enfermeiro saia de sua posição de detentor do saber e abra uma
chance para que cada um trabalhe(a)dor.
Além disso, entendemos que esse assunto não se esgota com este ‘trabalho’,
tendo em vista a insuficiência de discussões que fomentam a produção de conhecimento
da enfermagem na atenção a saúde mental do trabalhador e a clínica do sujeito. No
entanto, ao final desta experiência, pudemos perceber que este trabalho pode contribuir
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de alguma forma para explorar novos caminhos em direção a um agir mais reflexivo no
âmbito do cuidar clínico de enfermagem aos trabalhadores que chegam ao serviço com
queixa de sofrimento psíquico.
Desejamos que novos furos apareçam, e que eles nos conduzam a um ‘não
saber’. Talvez, eles já bateram novamente à porta. Continuamos a ‘elaborar’.
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APÊNDICE A
TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO (TCLE)
Este é um convite para você participar da pesquisa de mestrado: “Cuidado Clínico de
Enfermagem aos Trabalhadores em Sofrimento Psíquico: interface com a
psicanálise” realizada pela enfermeira Rúbia Mara Maia Feitosa e sob coordenação da
professora Drª Lia Carneiro Silveira. Sua participação é voluntária, o que significa que
você poderá desistir a qualquer momento, retirando seu consentimento, sem que isso lhe
traga nenhum prejuízo para o senhor(a) ou seus familiares. Essa pesquisa busca
compreender como se configura a queixa de sofrimento psíquico relacionada ao
trabalho na perspectiva da singularidade do trabalhador. Caso decida aceitar o convite,
você será submetido(a) ao(s) seguinte(s) procedimento(s): entrevista aberta, na qual será
feita a seguinte indagação “Fale-me sobre o que levou a buscar atendimento no
serviço”. Os riscos que podem advir da pesquisa estão relacionados ao constrangimento,
inibição inicial ou desconforto em falar sobre o seu sofrimento que serão minimizados
através das seguintes providências: escolha de um local agradável para a participação da
pesquisa, esclarecimento de quaisquer dúvidas e o tempo que você necessitar. A sua
participação nessa pesquisa gerará benefícios, pois a escuta pode se constituir em um
dos elementos terapêuticos. Todas as informações obtidas serão sigilosas e seu nome
não será identificado em nenhum momento. Os dados serão gravados, guardados em
local seguro e a divulgação dos resultados será feita de forma a não identificar os
voluntários. Se você tiver algum gasto que seja devido à sua participação na pesquisa,
você será ressarcido, caso solicite, sendo avaliados os motivos expostos. Você ficará
com uma cópia deste Termo e toda a dúvida que você tiver a respeito desta pesquisa,
poderá perguntar diretamente para Rúbia Mara Maia Feitosa, nos telefones: (84) 91445262. Dúvidas a respeito da ética dessa pesquisa poderão ser questionadas ao Comitê de
Ética em Pesquisa da UnP, no endereço Av. Salgado Filho, 1597 – Dix-Sept Rosado,
Natal/RN.
Consentimento Livre e Esclarecido: Declaro que compreendi os objetivos desta
pesquisa, como ela será realizada, os riscos e benefícios envolvidos e concordo em
participar voluntariamente da pesquisa.
Assinatura do participante da pesquisa: __________________________________
Impressão Datiloscópica
Responsável pela Pesquisa: Rúbia Mara Maia Feitosa
E-mail: [email protected]; [email protected]
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1 INTRODUÇÃO “Quantas vezes ela quer saber, o que não sei