Relatório de Inflação
Setembro 2002
Fatores Determinantes da Queda da Inflação Projetada
entre 2002 e 2003
As projeções para a inflação de 2003 são inferiores às de 2002. No Relatório de junho deste
ano, justificava-se a menor inflação projetada para 2003 pela ausência de depreciação cambial
no próximo ano; pela menor variação prevista para os preços administrados; e pela taxa real de
juros elevada, com o conseqüente impacto sobre o hiato do produto. Explicações semelhantes
foram expostas nas Notas da reunião de agosto do Copom.
Deve-se destacar que as projeções de inflação dependem crucialmente das hipóteses adotadas.
Por exemplo, utilizando as hipóteses referentes à taxa de câmbio (R$ 2,36 por dólar) e à inflação
dos preços administrados (reajuste de 5,6% em 2002) do Relatório de dezembro de 2001, a
inflação projetada para 2002 cairia dos atuais 6,7% para 4,5%. Similarmente, a inflação em 2003
pode se distanciar dos 4,5% projetados neste Relatório dependendo do comportamento da taxa
de câmbio e da inflação dos administrados. Não há, entretanto, fundamentos para se acreditar
que eventuais desvios entre os valores realizados e aqueles previstos neste Relatório atuem no
sentido de aumentar ou diminuir a inflação do próximo ano.
Esta nota pretende avaliar a importância dos determinantes da inflação na queda da inflação projetada
para o próximo ano. Antes de apresentar os resultados do exercício, cabe esclarecer que num regime
de metas para a inflação onde o Banco Central dispõe de credibilidade, o processo inflacionário deve
ser pouco auto-correlacionado. Assim, quando uma série de choques atinge a economia durante um
determinado período, como ocorreu em 2001 e vem ocorrendo em 2002, é natural que a inflação se
eleve temporariamente, mas sem pressionar significativamente a inflação dos períodos seguintes.
De uma forma geral, a inflação livre pode ser especificada por uma curva de Phillips do tipo:
π tl = α1π t−1 + α 2 Etπ t +1 + α 3 ∆( et + ptf ) + α 4ht −1 + ε tπ
Ou seja, a inflação livre (π l ) depende da inflação total (π) com uma defasagem; da expectativa para
a inflação no período seguinte (Et π t+1 ); da variação contemporânea em reais do preço dos bens
comercializáveis, definido pela soma dos logaritmos da taxa de câmbio (e) e do nível de preços
internacionais (pf ); do hiato do produto (h), com uma defasagem; e de um choque de custo (ε π).
Para obter-se a inflação total, soma-se a inflação livre à inflação prevista para os bens administrados,
ponderadas pelos respectivos pesos. Para os itens administrados, as projeções de reajustes são
feitas com base em regras específicas, dependendo dos contratos existentes e da importância do
repasse cambial na formação dos preços, entre outros fatores.
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Setembro 2002
Os termos do lado direito da equação acima fornecem a contribuição direta de cada fator para a
inflação. Por exemplo, a contribuição da inércia é dada por α 1 πt - 1 e a contribuição das expectativas
de inflação, por α 2 Et π t+1 . O quadro abaixo mostra a contribuição direta de cada fator para as
inflações de 2002 e 2003, bem como a diferença entre os dois anos:
2002
2003
Diferença
6,7
4,5
-2,2
Administrados
2,9
2,5
-0,4
Livres
3,8
2,0
-1,8
Inércia
1,8
1,4
-0,4
Expectativa Inflação
2,2
1,7
-0,6
Repasse cambial
1,5
0,4
-1,1
Hiato do produto
-2,0
-1,4
0,6
Resíduo
0,3
0,0
-0,3
Inflação total
Determinantes Inflação Livre
1
1- Inclui as contribuições direta e indireta, via inércia
Como pode ser visto, o repasse cambial e as expectativas de inflação mais baixas são os principais
fatores determinantes da queda da inflação entre 2002 e 2003. A contribuição de 1,1 p.p. associada
ao repasse cambial decorre da hipótese de manutenção da taxa de câmbio no nível vigente às
vésperas da reunião do Copom. Assim, para 2003, os únicos impactos projetados da variação
dos preços internacionais expressos em reais serão aqueles associados ao repasse represado no
ano anterior e à inflação externa.
O comportamento das expectativas de inflação contribui para uma inflação 0,6 p.p. mais
baixa em 2003. Esse resultado deve-se à credibilidade do regime de metas para inflação:
apesar de a inflação projetada para 2002 ser de 6,7%, as expectativas de inflação para
2003 não se distanciaram significativamente da meta. Ou seja, existe a percepção de que a
inflação elevada de 2002 deve-se fundamentalmente a choques e que o Banco Central vem
conduzindo a política monetária de forma a impedir que esses choques levem a uma espiral
inflacionária. Portanto, na ausência de choques previstos para 2003, a expectativa de que
inflação volte para valores próximos à meta é um fator importante para a redução da inflação
no próximo ano.
A inércia inflacionária contribui diretamente com 0,4 p.p. para a queda da inflação entre
2002 e 2003. Parte significativa dessa contribuição deve-se ao fato de a inflação projetada
para o quarto trimestre de 2002 (1,2%) estar bastante abaixo da que ocorreu no quarto
trimestre de 2001 (2,2%).
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O hiato do produto deve pressionar a inflação para baixo tanto em 2002 (-2,0 p.p.) quanto em
2003 (-1,4 p.p.). Entretanto, como a pressão de baixa é maior em 2002, o hiato do produto
apresenta uma contribuição direta de aumentar a inflação de 2003, em comparação à de 2002.
Os demais itens que contribuem para a queda da inflação em 2003 são a menor projeção para o
reajuste dos preços administrados e os resíduos. Esses últimos referem-se aos erros de projeção
e a choques. Para 2002, imputou-se um choque para captar os efeitos remanescentes da crise de
energia, que elevou os custos da energia elétrica consumida pelas indústrias. Para 2003, não há
choques além daqueles já incorporados nos reajustes dos preços administrados e no repasse
cambial represado. Além disso, como não há valores observados para 2003, mas somente
projeções, não se pode falar em erros de previsão. Dessa forma, a contribuição dos resíduos
para a inflação do próximo ano é nula.
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