AQUISIÇÃO DE ESPANHOL COMO SEGUNDA LÍNGUA: QUAIS AS
DIFICULDADES ENFRENTADAS PELOS EDUCANDOS.
*Adriane Abrantes Lazarotti
Fernanda Barros de Oliveira1
**Adriana Lemes2
RESUMO
A aquisição da Segunda língua, no caso de espanhol e suas dificuldades são o tema
deste artigo. Verificar como deveria ser e como está sendo aplicado o ensino de língua
estrangeira (no caso o espanhol), perceber as dificuldades do ensino e especificá-los, foi
uma forma que tivemos de dividir o mesmo. Mostrar o que está acontecendo dentro das
escolas e que dificuldades os aprendizes de L2 estão tendo, dando sugestões para melhorar
o ensino-aprendizagem dessa língua estrangeira, foi a meta que estabelecemos para a
realização deste trabalho.
Palavras-chave: língua, espanhol, dificuldades, semelhanças, diferenças.
INTRODUÇÃO
Devido à globalização, os avanços tecnológicos e a dificuldade no mercado de
trabalho, entre outros fatores, são ofertados muitos cursos para a aquisição de L2. Como
Chomsky afirma para a aquisição de língua materna, que nós, seres humanos somos
“competentes” para adquirí-la e que a partir daí, começamos a “produção” de formas de
comunicação dentro da língua. Dentro desta teoria encontramos a GU (Gramática
Universal) proposta por Chomsky, que é comum a todos os seres humanos onde as
estruturas são inatas ao falante. Com todos os falantes é assim, independente da língua que
falam ou aprendem, na L2 durante o processo da aquisição, o falante tentará usar das
estruturas que já sabe, da sua língua materna para facilitar a aquisição da Segunda língua.
Quais as dificuldades que esse falante encontra, como está o ensino de espanhol e o que
está previsto nos PCN´s é o que segue adiante.
1. LÍNGUA ESTRANGEIRA (O QUE OS PCN´S DIZEM)
1
2
Acadêmicas do curso de Letras da ULBRA-Campus Guaíba, cursando o quinto semestre.
Mestre, Professora da Disciplina de Lingüística Aplicada da ULBRA e orientadora deste trabalho.
2. DIFICULDADES DO ENSINO
Uma das principais dificuldades que os alunos encontram são os heterossemânticos,
baseado no artigo de Silva, a proximidade do espanhol LE com o português LM
dificulta a aprendizagem da seguinte forma:
“Para Vandresen (1988, p. 77), a "interferência" é
manifestada através de "desvios" na língua estrangeira
estudada, por influência da língua materna do aprendiz.
Ou seja, o aprendiz tende a substituir traços
fonológicos, morfológicos, sintáticos, (acrescentamos a
estes os traços semânticos) da língua estrangeira pelos
da língua materna. (p.01)”
O aprendiz tende a usar desses artifícios que parecem o ajudar na aquisição da nova
Língua mas isso muitas vezes não ocorre. O que acaba acontecendo são erros de
interferência da LM na aquisição da LE. Silva explica:
“Segundo Almeida Filho (1995, p.19), línguas muito
próximas levam o aprendiz a viver numa zona de
facilidade enganosa proporcionada pelas percepções dos
aprendizes. Nessa proximidade, há vantagens, caso
sejam combinadas à capacidade de risco, segurança e
extroversão, sem as quais espera-se a ocorrência de
tentativas de obtenção de fluência e de disponibilidade
vocabular, o aparente meio-sucesso leva ao
estacionamento
dessa
interlíngua
denominada
2
Portunhol .
A facilidade enganosa a que se refere Almeida Filho
(1995, p.15) encontra-se na teoria de aquisição de
língua expressa pela hipótese da análise contrastiva. A
versão forte dessa hipótese sustenta que toda diferença
entre os sistemas lingüísticos traduz-se em dificuldade
de aprendizagem. Essa diferença seria diretamente
proporcional ao grau de interferência da língua materna
sobre a língua-alvo em construção. (p. 01)”
O Portunhol é tão conhecido e os falantes acham que podem falar essa mistura de
idiomas e que serão entendidos, por ser muito fácil, o aplicam na aprendizagem e acabam
errando porque não é correto. Cada idioma possui as suas singularidades que devem ser
respeitadas.
Outra dificuldade é lançada por causa de falsos cognatos:
“Embora tenham a grafia semelhante ou mesmo igual
nas duas línguas, como observamos em muitos destes
pares heterossemânticos, essas palavras podem ter
sentidos totalmente diferentes; podem ser parcialmente
semelhantes no sentido, ou seja, podem ter algum
sentido em comum, porém não compartilhar outros;
podem também ser totalmente diferentes no sentido,
mas representar sentidos que existem na língua materna,
isto é, os sentidos são sempre diferentes entre ambas as
línguas, mas existem na língua materna de outra forma.
Os heterossemânticos formam um grupo especial e estão
situadas num nível bem elevado na escala de
dificuldade dessa classificação, rotulada de difícil. Tais
palavras são "armadilhas infalíveis", pois a semelhança
delas, em forma, com palavras da língua materna
aumenta sua freqüência no uso normal da língua pelos
estudantes. (Lado, 1972, p.117-118). (p.1)”
Essas armadilhas servem para dificultar o trabalho do professor e também do aluno
que estuda a LE, no caso de Espanhol, pelo fato da distância genética e territorial ser
pequena, as palavras podem ser iguais na grafia, mas o sentido e a contextualização dela,
pode torná-la completamente diferente.
Uma nova dificuldade encontramos ainda no léxico: forma, sentido e distribuição
que Silva explicita no seu artigo:
“Lado (1972, p.108), ao tratar da comparação de
sistemas de vocabulário, cita três aspectos das palavras:
forma, sentido e distribuição. Para ele, estes são
aspectos vitais no ensino de uma língua. A forma das
palavras abrange a maneira de manifestação, e a
maneira de propriedade, identificadas pelos indivíduos
da cultura. Na maioria das línguas, a forma consiste de
segmentos fônicos, intensidade e altura, e varia de
acordo com a situação, rapidez da fala, posição na frase,
posição quanto à intensidade, etc.
A distribuição compreende o modo como são
distribuídas as unidades em determinada língua, quanto
ao tempo, ao espaço, aos vários níveis sociais, e aos
estilos de fala e escrita. Exemplo disso são algumas
palavras usadas na poesia: a forma como, muitas vezes,
estão distribuídas não são usadas no dia a dia, numa
conversa comum.
Segundo Lado (1972, p.111), os falantes de uma língua
trazem consigo os hábitos das restrições em
distribuição, assim como as línguas diferentes têm
restrições diferentes. Dessa forma, as restrições em
distribuição não são totalmente as mesmas em
Português e Espanhol, existe, em ambas, restrições
características.”(p.03)
Para que não aconteçam erros como veremos a seguir é que devemos debater em
sala de aula, com os alunos-aprendizes da L2 Espanhol, para que possam compreender e
internalizar o que está sendo ensinado. E para que não caiam no erro de se utilizarem de
falsos cognatos e repensem a questão do léxico.
Inadequações lexicais:
O uso da forma em Português:
“indica uma falta de contato com o item lexical em Espanhol suficiente para que o aprendiz
faça uso da mesma, decorrente do desconhecimento total da forma em Espanhol, ou da
aparente semelhança. Exemplos:
1. ... las mujeres pueden executar. (Esp. ejecutar)
2. ... no son cumpridas en nuestro país. (Esp. cumplidas)”
O uso de uma forma mista:
“caracterizada pela presença inadequada de formas da LE, o que demonstra uma percepção
e desenvolvimento no processo de aprendizagem da mesma. É a partir deste ponto que
devem ser reforçadas a conscientização e a aplicação de metodologia e atividades
específicas através da análise contrastiva sobre as semelhanças e as diferenças entre as duas
línguas. Exemplos:
3. Hoy me he acuerdado del viaje que hicimos a Itália. (Esp. acordado)
4. ... me acusa de ser exagerada en tudo aquello que haço. (Esp. todo/hago)5
5. ... muchas gracias por el envite. (Esp. la invitación)
6. ... viajé al extrangero. (Esp. extranjero)”
Inadequação léxico-semântica:
“Este subgrupo ou intergrupo, embora pareça, a primeira
vista, que não apresenta nenhuma inadequação lexical,
se caracteriza como um dos mais complexos, pois
envolve inadequações quanto à forma, ao sentido e à
distribuição, em alguns casos. Neste grupo, aparecem as
sutilezas e o emaranhado de sentidos (primário,
secundários, conotativo, etc) que cada língua e cada
cultura apresenta em seu léxico de forma muito
peculiar.
Referimo-nos,
portanto,
aos
heterossemânticos, que, como já dissemos, na escala de
dificuldade estão situados em um nível bem elevado, e
que merecem uma atenção redobrada e um estudo
voltado ainda mais para a leitura e produção de textos. É
neste grupo que, em muitos casos, embora o aprendiz já
se encontre em níveis avançados de aprendizagem de
LE, permanece com determinados bloqueios e
inadequações, tanto na compreensão como na produção
oral e escrita...” (Silva, p.03)
7. ... os envio um regalo, es um esquisito mantel bordado. (Esp. hermoso, lindo)
8. ... el preconceito está sólo en la cabeza de las personas. (Esp. prejuicio)
9. El ladrón tiró de mi bolsa todo el dinero. (Esp. sacó/bolso)
10 .... aunque no creas, ocorrió un hecho que me dejó muy aburrida. (Esp.
ocurrió/enojada)
11. Mi amigo está muy embarazado hoy en el trabajo. (Neste caso, para não haver
constrangimentos, é melhor usar desordenado/perturbado, ...)
12. La secretária está muy exquisita. (A palavra adequada seria rara/extraña, pois exquisita
tem sentido de deliciosa, de muito bom gosto, ...).
13. "Tiró al aire un largo cuchillo". ("Atirou ao ar uma faca comprida". Excelente
exemplo, pois reúne três Falsos cognatos, de Jorge Luis Borges, apud Leal, 1997: 7,8).
14. Le contestó que había borrado lo que estaba escrito. ( Respondeu-lhe que tinha
apagado o que estava escrito.). (Leal, 1997 : 7).
Nestes dois exemplos (13 e 14) observamos a incompreensão ou compreensão inadequada
quanto ao sentido das palavras e da própria frase por parte dos alunos.
Essas particularidades de cada língua, deveriam ser abordadas dentro das salas de
aula, com debates e outras formas de mostrar para os aprendizes que cada língua tem suas
minúcias e que apesar das semelhanças entre o Português e o Espanhol, são diferentes e de
culturas diferentes. Nesse ponto, partimos para o próximo título porque nele explicitaremos
melhor a questão da cultura que não é abordada na sala de aula e não é levada em conta na
hora de ensinar a L2, no caso do Espanhol. É viável e muito válido praticar a produção oral
e escrita dos aprendizes, trabalhar a compreensão e expressão escrita, promovendo a ênfase
no contraste entre as duas línguas, explicitando as diferenças e semelhanças entre as duas
línguas, para uma melhor aprendizagem da L2 Espanhol.
3. COMO ESTÁ O ENSINO DE ESPANHOL
Ultimamente o ensino de língua estrangeira, no caso do Espanhol, vem passando
por um período de transição. O ensino vem se modernizando e as técnicas e metodologias
adotadas pelos professores está dando um melhor resultado do que vinha tendo antes.
Estava acontecendo que os professores ensinavam a L2 Espanhol dissociada de sua
cultura, isso acarretava muitos problemas na aprendizagem dos falantes-aprendizes que por
sua vez acabavam descontextualizados, tornando a língua apenas como um instrumento de
comunicação, independente da sua origem. Segundo Brown,1994:187 “Língua e cultura
estão intrinsecamente interligadas” então não há como dissociá-las. Os indivíduos que
falam uma determinada língua estão em contato com a cultura que o idioma carrega, esse
carrega também uma ideologia. Como falar uma língua estrangeira sem saber que ideologia
está por trás daquela fala? Pois é isso que está começando a mudar. Segundo Fontanini,
Vecchi, Gulla e Santos (2003) “ideologias e cultura são fundamentais para a estrutura do
pensamento (p. 02)”, ou seja, como decodificar palavras ou expressões novas, baseados nos
“dicionários mentais” se não temos como estabelecer a estrutura do pensamento porque nos
falta a ideologia da língua?
Então o que o aprendiz de língua estrangeira faz? Ele se utiliza da própria
identidade sociocultural do pensamento, adquirida na LM para interpretar e se comunicar
com o idioma estrangeiro. “Por outro lado, quando o indivíduo vive no exterior há um
choque cultural, uma “aculturação”, porém essa não é a realidade de sala de aula
(Fontanini, Vecchi, Gulla e Santos, p.03)”.
Hoje os professores estão promovendo aulas mais dialogadas no idioma em questão,
trazendo para dentro das salas de aula inclusive textos literários para a compreensão e
interpretação.
Para o ensino e aprendizado de espanhol como língua
estrangeira, os textos literários são materiais muito
ricos, pois não se limitam a aspectos estruturais da
língua. Tais textos também difundem a cultura de um
povo. Além disso, favorecem o desenvolvimento de
uma visão crítica nos alunos devido a elementos
característicos da literatura, como a subjetividade e a
ambigüidade, que estimulam discussões e permitem
diversas interpretações para o texto. São fundamentais,
portanto, por proporcionarem uma gama de alternativas
de trabalho ao professor e despertarem o interesse dos
alunos em cultura hispânica e hispano-americana,
enquanto desenvolvem naturalmente a compreensão
leitora, a produção oral e escrita. (Rosa, Barroso e
Santos, p.01)
Uma nova forma de trabalhar a língua dentro da sala de aula. Fazendo isso, o
professor incitará os alunos a uma melhor compreensão da língua e não somente uma
mecanização da comunicação como era feito anteriormente.
CONCLUSÃO
Ao concluirmos este trabalho percebemos que há uma evolução no processo de
ensino-aprendizagem da língua estrangeira, no caso de Espanhol. Mostramos que o ensino
dessa língua não pode ser dissociado de sua cultura e que as semelhanças e diferenças entre
ela e o Português, nossa língua materna, deve ser exposto e debatido em sala de aula.
Acreditamos também que trabalhando de forma diversificada a aquisição da L2, mostrando
a tipologia de textos e explorando a expressão oral e escrita dos alunos, teremos melhoras
significativas nesse processo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Parâmetro Curricular Nacional para o ensino de Língua Estrangeira (Espanhol)
http://www.filologia.org.br/soletras/5e6/03.htm
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