A torção de 1920 Eduardo A. Vidal reud não deixou de reformular sua teoria toda vez que um obstáculo erigia-se intransponível ao prosseguimento da psicanálise. Entre seus contemporâneos e seguidores não faltaram os que consideraram o "Além do princípio do prazer" (Jenseits des Lustprinzips) como resposta a perdas e sofrimentos padecidos no tempo que precedeu o escrito. Conhecemos a veemente posição de Freud de rejeitar qualquer interpretação que apontasse a sua subjetividade na determinação do conceito de pulsão de morte. O além constitui o ponto a partir do qual interroga os fundamentos da metapsicologia, um ponto fora do universo do princípio de prazer com que interpela sua soberania nos processos inconscientes. Acarretaria esse questionamento uma destituição do princípio de prazer? Não é essa a resposta freudiana. Tratar-se-ia de escrever o princípio com seu além; o que não supõe completá-lo daquilo sempre excluído, senão operar com o além a torção topológica que resulte numa passagem de estrutura. A preposição jenseits, cuja regência é o genitivo, pode ser traduzida como "no outro lado, na outra margem" e também "além de", na acepção de "para lá de". Mais do que indicar ultrapassagem, jenseits aponta para algo fora do domínio, e necessário para a demarcação. Desde o "Projeto" (Entwurf) à "Negação" (die Verneinung) um vetor indica que o princípio de prazer é constituído ao preço de uma exclusão originária. Em, 1895, Freud anuncia a hipótese de um aparelho funcionando sob a égide de uma tendência à inércia qúe se obstina em reduzir a zero o nível da quantidade circulante. No horizonte da experiência de satisfação resta algo inassimilável, excluído do traço de memória, constante, das Ding, a coisa, em secreta afinidade com a repetição de uma satisfação já experimentada. Não basta reconhecer que sistema nenhum possa operar apenas na homeostase do princípio de prazer. É necessário destacar que o princípio de prazer freudiano, em nítida distinção com a ética clássica, se funda no cerceamento de uma parte originariamente excluída e separada de seu funcionamento. Longe de produzir unidade ou universo, o princípio de prazer está no fundamento do sujeito dividido do inconsciente. Longe de postular os meios e fins do prazer, esse princípio tem função de regular as quantidades no trabalho do aparelho psíquico. O hedonismo corresponde a um mito filosófico do qual Freud se separa radicalmente. Há um sentido do prazer, por sua vinculação com o processo primário, que consiste na operação de repetição significante no inconsciente, essencial para o estabelecimento do campo da realidade. Os trilhamentos (Bahnungen) inconscientes são os primeiros traçados, as primeiras marcas diferenciais, sobre as quais se edifica a realidade. É precisamente da Bahnung que o aparelho extrai uma garantia contra o extravio da tendência automática à F 22 LETRA FREUDIANA -Ano XI - n a 10/11/12 A torção de 1920 realização alucinatória. Certamente, é trabalho do aparelho governado pelo prazer renunciar à satisfação para dar lugar ao estabelecimento de um princípio de realidade. O princípio de prazer, a partir de 1920, se especifica como barreira ante a forçação ocasionada pelo gozo, cujo nome é masoquismo primário. Que o princípio de prazer domine a economia psíquica, funda-se na hipótese de um aparelho que tende a manter o mais baixo possível, ou constante, os investimentos de quantidades. Uma hipótese quantitativa não corresponde inteiramente à vivência de prazer. Muitos são os processos psíquicos que não se acompanham de prazer e até contrariam o prazer. São os paradoxos e os limites do prazer que Freud reexamina na primeira parte de seu texto de 1920. Entre duas muralhas do desprazer (Unlust) o princípio de prazer transcorre como lei (gesetzmãssig). Por um lado, uma inibição do princípio que implica em protelação e renúncia (Verzicht) às possibilidades de satisfação em prol de uma outra mais duradoura, ainda que comportando uma cota de desprazer. É o modo de implicação do inconsciente no campo de uma satisfação não guiada exclusivamente pelo prazer e a serviço da realidade. Do outro lado, a pulsão sexual constitui um obstáculo para o prazer, embora -eis o paradoxo -procure o prazer. As demandas (Anspruchen) pulsionais, imperiosas, exigem satisfação à margem de qualquer aspiração à conciliação. Certas pulsões ou partes de pulsões fogem da tendência a uma organização e são conseqüentemente segregadas. Resulta um aparelho feito de cisões (Spaltungen), fonte de irremediável desprazer. Uma definição meramente quantitativa de prazer-desprazer resulta insuficiente. O questionamento do prazer entranha a sua confrontação com outro princípio, o de constância, correlato de uma tendência primaria do aparelho à inércia. Prazer e desprazer não constituem dois pólos redutíveis ao registro de diminuição e aumento da quantidade. Em "Pulsões e destinos da pulsão" (1915), Freud estabelece uma outra partição. O eu procura manter o nível mais baixo de excitaçãò, conforme a lei prjmária do aparelho. Inicialmente, o eu e o prazer se correspondem; o resto lhe é indiferente. Só depois, no pleno domínio do prazer, o eu acolhe os objetos que lhe proporcionam prazer - nos quais se mira - e expulsa (AusstoBen) aquilo que lhe ocasiona desprazer. Ao eu real inicial (Real-Ich) seguia o eu-prazer (Lust-Ich). O funcionamento homeostático do prazer produz um resto que não se reabsorve. Nessa região do expulso e do automutilado - isso se torna estranho e exterior - Lacan recorta a função de um objeto e o nomeia a. Prazer e desprazer, escreve Freud em 1915, representam relações do eu com o objeto. Não é, pois, questão de dialética nem de fronteira, mas de nó interno: o prazer sendo atravessado pelo desprazer do objeto. Devemos distinguir nesse atravessamento o lugar do desejo, na causa e no franqueamento do limiar imposto pelo prazer. Unlust não é o correlato de prazer, Lust. Irredutível, Unlust sinaliza um campo heterogêneo que força levar em consideração um além do princípio de prazer. O trauma e a função primária O recurso freudiano à célula elementar do organismo unicelular para fundamentar a hipótese de 1920 nos permite tecer algumas considerações. O organismo elementar se LETRA FREUDIANA -Ano XI -n« 10/11/12 23 Atorçfc>del920 apresenta como uma superfície imersa numa solução, à deriva da ação externa, portanto, passível de sofrer uma desagregação que o conduza à morte. Tratar-se-ia para esse organismo elementar de estabelecer sistemas de proteção na sua superfície diferenciações -que possibilitem sua vida. Esse organismo serve de apoio para indagar a relação do ser vivente no seu encontro traumático com a linguagem, isto é, o campo do Outro. Desproteção e desamparo fazem parte da desgraça irredutível do ser. Trata-se de uma superfície que, no ser falante, recebe o impacto - à diferença do organismo celular - desde exterior e interior, ainda que o excessivo do interior seja tratado como exterior. Uma superfície, tal como Freud propõe, deve ser pensada como fechada e unilátera, isto é, do tipo de uma banda de Moebius. Sobre a superfície o trauma provoca uma ruptura na proteção denominada Einbrüchstelle que, na linguagem militar, significa o lugar da brecha que um exército provoca no adversário. O trauma ocasiona o furo da superfície. À diferença dê uma teoria mecânica ou fisiológica do trauma, Freud prova que é da pulsão que a ruptura provém, uma pulsão proveniente do corpo, tão exterior para o aparelho psíquico quanto qualquer excesso de energia de estímulo provindo do mundo externo. É com a pulsão que o aparelho terá de se haver. O furo, como pensá-lo, se não a partir da borda. O trauma deixa o princípio de prazer fora de ação. A função primária do aparelho é produzir a borda do furo. O aparelho recrutará energia na vizinhança (Umgebung) da brecha provocando empobrecimento dos outros sistemas psíquicos. Um sistema investido (Besetzung, investimento e ocupação) é bem favorável para o estabelecimento de contrainvestimentos (Gegenbesetzung) em tomo da ruptura (Durchbrechung). O trabalho de ligar é o mais primário e comporta uma paralisação da regulação do prazer. Caracteriza-se por uma situação de susto em que falta o alerta próprio da angustia. É o "demasiado antes" do trauma para o qual a palavra chega sempre "só depois". Inadequação do aparelho psíquico para o real, despreparo radical. Concomitantemente, o primeiro trabalho do aparelho é ligar a energja em excesso. "Apartir de então, o aparelho anímico teria a outra tarefa de dominar e ligar aexcitação, não em oposição aoprincípio deprazer, mas independente dele e emparte sem levá-lo em consideração ". O princípio de prazersó é restabelecido após o processo de ligação. A ruptura da superfície, metáfora freudiana ou topologia da estrutura? Para além do efeito metafórico Freud insiste na necessidade de conceitualizar mais uma vez o trauma cujo suporte é o furo ocasionado sobre a superfície. O furo é imaginado, imaginarizado e uma mística o quer indizível enquanto uma psicologia pretende excluí-lo restaurando o sujeito unitário. A superfície, por sua vez, é o revestimento da estrutura. É o que sugere a imagem da produção do contrainvestimento se aplicando na região da ruptura. No entanto, Freud escreve que o trabalho mais originário do aparelho é ligar, atar, fixar (três significantes para o verbo Binden), isto é, produzir a Bindung que traduzimos por atádura ou ligadura querendo enfatizar a fixação, a "fixão" e o ponto-nó que aí resulta. O primário da estrutura é a Bindung, a atadura do corte, o ato de enodar. Interpretamos o trauma como o momento de tomada do ser vivente na srgnificância. O significante causa o corte da estrutura, cujo efeito é o sujeito ao preço de uma perda irredutível. Bindung que se fecha não de uma volta, mas de 2+ LETRA FREUDIANA - Ano XI - n« 10/11/12 A torção de 1920 duas em oito interior. Há inadequação do espaço-tempo kantianos - cujo fundamento é a esfera - aos processos inconscientes, escreve Freud. A topologia é a estrutura, é o dizer de Lacan. O plano piojetivo, em dimensão 4, é suporte da significância. A sua imersão em espaço de dimensão 3 faz aparecer, em corte, um elemento esférico, o disco e outro "asférico", o oito interior. Entendemos que o corte do trauma determina a borda topológica e se escreve como um efeito da linguagem, a letra. A letra é a instância primeira em que se assenta a distribuição do princípio de prazer. A tarefa primária do aparelho é escrever com a letra seu encontro com o real. Fort-Da e o representante da representação O menino de um ano e meio que se aventura a brincar no vazio a seu redor desperta no analista a questão do sentido de seu ato. Da alternância de fonemas pronunciados, a escuta do analista faz letra. O cuidado com que Freud descreve a cena e o brincar deve fazer-nos suspeitar que aí há uma complexidade topológica a ser considerada. Qual o lugar do sujeito no jogo?: Fort... da. O jogo se repetia incansavelmente e, como Freud o constatara, inúmeras vezes reiterava-se apenas a primeira parte, embora fosse a segunda a que trazia um ganho de prazer à criança. Evidenciava-se, então, que no mais precoce trabalho do aparelho psíquico não era o prazer o guia da repetição. Qual é o sentido do ato na interpretação de Freud? O jogo consiste no-trabalho de apoderar-se psiquicamente da pena que a criança experimenta ante a perda da mãe. No fundamento do brincar há um empuxo (Drang) a dominar ativamente a situação traumática. Tornando-se o agente do ato, a criança podia fazer desaparecer o objeto de acordo com seu desejo. O jogo possibilita uma renúncia (Verzkht) à satisfação pulsional e traz uma recompensa: a de perder e recuperar a mãe com os objetos a seu alcance. Em termos metapsicológicos, com a repetição do ato, o sujeito tende a efetuar o enlace de uma compulsão à repetição primária com o ganho de prazer inerente aos processos inconscientes. Que conseqüências tem esse ato da criança em relação ao domínio do princípio de prazer? Haveria lugar para a suposição de uma atividade mais originária no aparelho: a de ligar a energia excessiva de modo a torná-la eficaz ao funcionamento do inconsciente. Esta é uma questão clínica, e portanto ética. Em 1964, Lacan questiona a interpretação freudiana no que acentua o ato de domínio da criança sobre a situação sofrida passivamente. É a significância que produz a exigência de repetir o mesmo jogo, de ouvir textualmente o mesmo relato, significância que se apresenta sempre velada pelas concatenações do princípio de prazer. A criança não se exercita com o jogo porque "sujeito nenhum pode apreender esta articulação radical". Fort e da são os significantes com o que o sujeito é representado no campo do Outro. São, pois, os dois significantes que operam, na sua materialidade, a alienação do sujeito: Fort, o significante primeiro o representa ante o da. O sujeito ali representado está ausente da cadeia e, a partir de então, dividido. Contra o subjetivismo em torno da repetição, Lacan postula que ela decorre da insistência da cadeia significante. O lugar do sujeito é de ex-sistência à cadeia. Uma ênfase dada ao simbólico identifica o Fort-da com a simbolização primordial da ausência da mãe. O LETRA FREUDIANA - Ano XI - «• íOã 1/12 25 A torção de 1920 primeiro símbolo, diria Lacan, porta a marca da morte que ocasiona. O par significante implica a lógica da pulsão de morte: a palavra é o assassinato da coisa. A álgebra do objeto a redimensiona o Fort-da provocando uma retificação essencial na transmissão da psicanálise. A bobina é relevante não como representação da mãe, e sim como o objeto que designa o lugar do sujeito representado pelo significante da alienação, o fort na ocasião. Certamente a partida da mãe abriu uma brecha, cujo efeito é a Spaltung, a divisão do sujeito. Há uma primeira marca significante e algo que se desprende para cair. O sujeito, é na marca que se determina, porém, decepado de uma parte de si. Há alguns elementos essenciais no Fort-da à luz do objeto a: a beirada da cama, o barbante, a bobina. A beirada da cama divide o espaço fazendo aparecer seu caráter heterogêneo. O sujeito se depara com o vazio que se sustenta na necessidade lógica de um ponto fora do universo. A significância derruba as coordenadas do espaço kantiano. Freud escreve no Jenseits...: "A tese de Kant segundo a qual tempo e espaço são formas necessárias de nosso pensar pode hoje ser submetida a revisão à luz de certos conhecimentos psicanalíticos. Sabemos que os processos psíquicos inconscientes são em si 'atemporais'." A questão não deveria isentar os analistas de aprofundar a complexidade própria à temporalidade e à topologia do inconsciente. O jogo com a bobina é resposta de sujeito ao real do trauma que não está ali representado pois há falta da representação. A relação do sujeito ao Outro é produzida por uma hiância. O sujeito se encontra instaurado na cena, sustentado pelo limite que a beirada da cama erige ante si. A beirada, como o marco da porta por onde a mãe foi embora, desempenha a função de uma janela com a qual o sujeito é protegido de precipitar-se aspirado pela vertigem do vazio do Outro. Pode então, graças a essa espécie de garantia que a borda constitui, aventurar-se a "fazer o jogo do salto ", isto é, a lançar a bobina que permanece amarrada pelo barbante, estabelecendo uma ponte sobre o vazio no ato em que se separa de uma parte essencial de si-mesmo. A bobina sinaliza o que sé^perde do sujeito na alienação ao significante. Ela designa o sujeito enquanto objeto a. O jogo do Fort-da encena o efeito de significância de uma marca primeira invisível e da perda original de gozo, que a compulsão à repetição procura reencontrar. Pode-se-ia dizer que as representações governam a cena e, no entanto, no fort e no da há uma estrutura diferente da representação. Há algo do real que constitui aí uma marco e um lastro, o objeto a, cuja presença é necessária para fundar a certeza do sujeito. Esse objeto faz cessar a vacilação do ser. É pelo objeto a que o sujeito poderá iniciar sua separação, não somente da mãe, mas a separação de sua própria alienação ao significante. E bem, o objeto a força a representar mas não é de maneira nenhuma representado. Convém retomar o termo de representante da representação (Vorstellungsreprâsentanz) pois a representação não está presente na operação de corte, de isolamento do objeto. A exigência da topologia se funda nesse ponto radical da estrutura. A esse ponto Freud convoca o representante da representação, precisamente, para articular o que é da pulsão no inconsciente. O representante opera por procuração, isto é, não interessa sua significação própria mas o ato de fazer representar algo que aí não está. Freud, no capítulo 2 do "Além.-.", designa com o termo Stellvertreter, uma função essencial do 26 LETRA FREUDIANA - Ano XI - n» 10/11/12 A torção de 1920 jogo. A criança se vinga dos padecimentos que ela sofreu, na pessoa de um Stellvertreter, de um representante. O termo aponta também a dimensão de suplente e lugar-tenente. Termos conexos a este, encontramos no "Problema econômico do masoqmsmo": Vertretere Vertretung, que indicam a função de representante e não são plenamente equivalentes a Ersatz -substituto. Não se trata de uma metáfora por substituto, mas de ausência radical de representação (Vorstellung) e de significação. A Reprâsentanz tem a função de lugar-tenente, locum tenens da representação. O real é indicado na falta da representação da qual só há um lugar-tenente. A Vorstellungsreprasentanz é o segundo significante do par, Sfe. A alienação compromete o primeiro significante, St, fort que representa o sujeito para um outro significante, S2, da na ocasião. O segundo significante, cerne do recalque originário no inconsciente, causa o efeito de afânise do sujeito, sua desaparição, caindo, passando debaixo, unterdrückt, da barra. A instabilidade, o ponto de falta da cadeia significante são essenciais para interromper a vacilação repetitiva do sujeito, própria da alienação e iniciar a torção necessária que conduz à separação. A Unterdrückung, a passagem para baixo da Vorstellungsreprasentanz, é correlata do trabalho do sujeito na separação. A torção consiste em interrogar a completude do Outro. Há chances, nesse questionamento, de deparar-se com um ponto opaco e real, o irredutível da causa do desejo. O encontro com o desejo do Outro, além do prazer, é à dimensão da causa que reenvia. Com a pulsão de morte Freud aponta para a radical falta de representação, esse ponto basal e originário no qual o desejo se ancora, para, a partir daí, diversificar-se nas representações e significações do princípio de prazer. O além do princípio de prazer é o modo com que Freud funda o lugar do real e a torção que resulta. É ali que o representante da representação se torna relevante para uma clínica, que atravessando o anteparo da representação, possa sustentar-se no semblante da causa. O que se constitui na cena do fort-da é a possibilidade do semblante. Fort-da capta o nó primário do discurso cuja referência é o semblante. Certamente, para o pequeno sujeito se estabeleceu, entre a cena e o mundo, uma função: a da janela que o protege do real. O trabalho primeiro do aparelho é o da borda que se escreve com a letra - uma transformação, escreve Freud, da energia livre em energia quiescente. Esse trabalho com a energia tem como referência o gozo, uma ligadura do excesso traumático. Dessa atadura resulta um marco essencial à separação do sujeito do real. O sujeito é afetado de outro modo: o susto paralizante dá lugar à angústia como sinal ante uma perda já acontecida - houve no intervalo uma extração de gozo presentificada no objeto a, mais-de-gozar. A criança terá feito uma renúncia (Verzicht) à satisfação não sem obter, por outra via, um ganho de prazer, Lustgewinn, equiparável à função de mais-de-gozar e situável, a partir de então, como produto de discurso. Eis o lugar da interrogação sobre a pulsão de morte, que não constitui um sentido único na transmissão da psicanálise. A modo do necessário, para que a inscrição se realize, intervém a pulsão originária; muda, sem representação, tende ao anorgânico, que não é a mesma coisa LJBTRA FREUDIANA - Ano XI - n" 10/11/12 27 A torção de 1920 que a morte e, na curva assintótica que traça, faz o aparelho - o sujeito - escrever. Entre originário e primário, Urverdrãngung e primar Masochismus, entre representante-lugar-tenente de representação — e objeto de gozo: o sujeito da experiência analítica. A repetição do jogo, ou a do mesmo fracasso amoroso, se exerce de tal modo que o gozo que transbordou o princípio de prazer possa ser conduzido de novo a cena do discurso, isto é, uma tentativa de ligá-lo no solo do prazer. Faz de novo, quer dizer, não repete o mesmo. A repetição, como Kierkegaàrd a experimentara, age no sentido de fazer passar o resto de gozo a outro lugar, talvez ao semblante que se suporte na escrita. As cenas que acossam o sujeito, ao ponto de traçar um destino, referem ao fracasso do ser falante ante o sexual. E, no entanto, essas "sempre as mesmas cenas " foram o modo com que se buscou passar ao semblante algo do gozo inacessível ao sujeito. 28 LETRA FREUDIANA-A»o XI - • * 10/11/12