Anais do 6º Encontro Celsul - Círculo de Estudos Lingüísticos do Sul
ENUNCIAÇÃO E DIFERENÇA EM TEXTOS PRODUZIDOS
POR ALUNOS DO ENSINO MÉDIO
Juliana Batista RODRIGUES (G-UEL)
ABSTRACT: By means of French Discourse Analysis, our aim is to check marks of exclusion of
other subjects in statements written in school composttions. We propose to study the discoursive
resources by which means is produced in text statements.
KEYWORDS: Discourse Analysis; exclusion; teaching; dissertation
0. Introdução
Este trabalho faz parte do projeto de pesquisa: “A construção da Diferença pelo Discurso:
procedimentos enunciativos de exclusão”, que se desenvolve na Universidade Estadual de Londrina,
sob a coordenação do prof. Luiz Carlos Fernandes. O projeto tem como um de seus objetivos
principais contribuir com novas propostas para os estudos textuais inerentes a áreas diferenciadas
como as da crítica lingüística, discursiva e literária, integrando, de forma efetiva, os mecanismos de
produção dos sentidos, que caracterizam a exclusão, veiculados por diferentes modalidades de
discurso.
Os vários gêneros discursivos estudados no projeto como: publicitário, jurídico, jornalístico,
pedagógica, musical e humorístico representam alguns dos que mais freqüentemente são utilizados na
comunicação diária, no trabalho, na escola e nos meios de comunicação em geral. A descoberta das
peculiaridades da expressão ideológica de cada uma delas poderá trazer contribuições para os estudos
de crítica e interpretação textuais.
Neste trabalho, daremos ênfase ao gênero pedagógico, analisando textos escolares, já que o
projeto também visa a contribuir com reflexões sobre as práticas pedagógicas de ensino e de leitura e
produção de textos que a escola brasileira realiza atualmente. Para isso, consideramos a importância do
ato de leitura, o processo cognitivo que o envolve, e a associação da produção de textos à questão da
autoria. A noção de autoria leva-nos ao autor, posto que este trabalha no intradiscurso, enquanto que o
sujeito do discurso está na dimensão do interdiscurso, sendo que inter e intradiscurso não podem ser
concebidos separadamente (Pêcheux, 1997).
Como a Análise Francesa do Discurso acredita que um discurso sempre cita e é influenciado
por outros, analisaremos nas redações as vozes que estão presentes nesse discurso, mesmo existindo
uma ilusão de liberdade discursiva do sujeito aluno, ressaltando que este finge que o discurso é dele
para esconder o discurso do Outro a que, invariavelmente, faz referência.
1. Perspectiva Teórica
A Análise do Discurso de linha francesa (AD) tem uma proposta interdisciplinar que une a
Lingüística, a História e a Psicanálise. Seu objeto de estudo, o discurso, segundo Foucault, é
atravessado, não pela unidade do sujeito, mas pela sua dispersão. Portanto, o sujeito não é senhor de
seu discurso e sim, descentralizado.
A AD tem como meta refletir sobre os processos discursivos inscritos em relações
ideológicas. Seus conceitos nucleares são os de discurso e ideologia. Maingueneau (1997) ressalta que
o discurso é uma dispersão de textos cujo modo de inscrição histórica permite defini-los como um
espaço de regularidades enunciativas.
O discurso deve ser remetido às grandes unidades históricas que os enunciados constituem, ou
seja, à formação discursiva a que se refere. Estas constituem espécies de operadores de coesão
semântica e representa um sistema comum de restrições que pode investir-se nos universos textuais
(Cardoso, 1999). A formação discursiva constitui a pluralidade de textos de um determinado grupo, em
que um discurso é atravessado por vários.
Um fator relevante levado em conta pela AD são as condições de produção. Estas têm
correspondência nas circunstâncias da enunciação, a seu contexto imediato, considerando-se o
contexto sócio-histórico e ideológico (Orlandi, 2003).
Pêcheux define as Condições de Produção do discurso (1969) a partir de normas que os
interlocutores estabelecem entre si e dos lugares determinados que ocupam na estrutura de uma
formação social. No processo discursivo, funciona uma série de formações imaginárias que indicam os
lugares que os interlocutores conferem a si mesmos e ao outro.
A opção quanto ao que o sujeito pode/deve ou não dizer é determinada pelo lugar
que ocupa no interior de uma formação ideológica à qual está submetido seu discurso, de modo que
esse jogo de imagens vai se constituindo à medida em que se constitui o próprio discurso.
O interdiscurso é um dos pontos principais que fundam a construção teórica da AD.
Aprofundando o conceito de interdiscurso, Maingueneau (1997), especifica outros três termos
complementares: os de universo discursivo, campo discursivo e espaço discursivo. Por universo
discursivo, o autor entende “um conjunto de formações discursivas de todos os tipos que coexistem, ou
melhor, interagem em uma conjuntura. Este conjunto é finito, mas irrepresentável, jamais concebível
em sua totalidade pela AD.” (Maingueneau, 1997, p.116).
O campo discursivo é definido por Maingueneau (1997, p.116), como “um conjunto de
formações discursivas que se encontram em relação de concorrência, em sentido amplo, e se
delimitam, pois, por uma posição enunciativa em uma dada região”. Esse conjunto de formações
discursivas possui unidades de uma mesma formação social, que, no entanto, diferem em seu
desempenho, o que faz com que estabeleçam uma relação polêmica, de aliança ou de aparente
neutralidade. É no interior do campo discursivo que se constitui um discurso. Já o espaço discursivo
delimita, para Maingueneau (1997,p.117), “um subconjunto do campo discursivo, ligando pelo menos
duas formações discursivas que, supõe-se, mantêm relações privilegiadas, cruciais para a compreensão
dos discursos considerados.”. Essa delimitação é feita pelo analista, tendo em vista seus objetivos de
pesquisa.
Essas três noções conferem ao interdiscurso um caráter histórico, pois os recortes e
as relações estabelecidas pelo analista são regulados pelos limites do campo discursivo. Maingueneau
proclama ainda o primado do interdiscurso sobre o discurso, sem, com isso, inscrever a AD em um
terreno desregrado, mas, ao contrário, postula a existência de uma rede de regularidade semântica que
especifica um discurso mediante as relações do mesmo com o seu Outro. Entende-se por “Outro” um
sujeito discursivo com o qual um certo discurso se constitui em uma relação aberta, embora regrada.
Assim, “a interdiscursividade se organiza a partir da exploração sistemática das possibilidades do
núcleo semântico de cada formação discursiva que compõe o campo discursivo”.(Mussalim, 2004,
p.90).
A partir da noção de interdiscursividade, pode-se observar a relação memória e
discurso. Toda produção discursiva faz circular formulações já enunciadas; desse modo, a noção de
memória discursiva, para a AD, diz respeito à existência histórica do enunciado no interior de práticas
discursivas reguladas por aparelhos ideológicos. O interdiscurso pode ser entendido como um conjunto
de já -ditos (e esquecidos) que sustentam a possibilidade de todo dizer. Opondo-se intuitivamente a ele,
teremos o que é formulado em um momento dado, em condições dadas, e que pode ser chamado de
intradiscurso.
A intertextualização é a relação de um texto com outro pré-existente. Pode ser de
maneira explícita: citação; ou implícita: alusão, paródia, ironia. Do ponto de vista discursivo,
Maingeneau (1997) considera a intertextualidade o tipo de citação que uma formação discursiva
legitima por sua própria conta; sendo que as maneiras de citar, as ocasiões em que é permitido citar ou
é preciso citar, o grau de exatidão exigido, variam de época para época e de discurso para
discurso.(Cardoso, 1999)
2. Análise do Corpus
O corpus selecionado para esta pesquisa é formado de textos produzidos por alunos da 8ª série
do ensino médio. Trata-se da proposta de redação contida na unidade 4 do livro didático Linguagem:
criação e interação, de 8ª série, cujas autoras são Cássia Ga rcia de Souza e Márcia Paganini
Cavéquia, publicado pela Editora Scipione.
O comando da proposta pede um parágrafo dissertativo e oferece o seguinte cartum como
apoio:
O mesmo contém uma cena em que crianças estão deixando as brincadeiras para assis tir à
televisão. Desse modo, o aluno terá de elaborar um parágrafo desfavorável ao ato de ver televisão para
estar de acordo com a atividade sugerida.
Devido à grande influência da intertextualização para nossa abordagem, faremos um breve
comentário sobre os dois textos principais contidos na unidade em questão que serviram de apoio para
os textos produzidos pelos alunos. Nesta unidade, há uma sincronia entre elementos gráfico-visuais e
verbais relacionados à temática da televisão, de modo a privilegiar, na maioria dos casos, conforme
constatamos, aspectos pejorativos.
Um dos textos (vide anexo -1-) tem como título Médicos advertem: TV faz mal. Trata-se de
um artigo jornalístico transcrito do periódico Folha de São Paulo. Como o título já diz, esse texto fala
sobre os malefícios causados pela TV. Um outro texto (vide anexo -2-) que o livro didático traz é uma
crônica de Rubem Braga com o título Ela tem alma de pombo. Nele, são também abordados alguns
aspectos positivos do veículo televisivo, apesar dos negativos serem a maioria.
Nossa análise pôde constatar a influência dos textos de apoio veiculados através do livro
didático e do professor nos parágrafos analisados, pois, dos 14 textos produzidos, 12 citavam apenas os
aspectos negativos da TV. Alguns até, muitas vezes, estão parafraseando os dois textos principais da
unidade. Para exemplificar, faremos uma comparação entre trechos dos textos de apoio contidos no
livro didático e trechos das redações produzidas pelos alunos.
Texto 1
Texto de apoio: “As pessoas que assistem a muita TV estão sendo tratadas como viciadas”.
Texto dos alunos: “A televisão hoje em dia virou um vício na vida das pessoas, a qual elas não
conseguem ficar sem assistir...”
“Mas não ficar em frente da TV onde ela escolhe seu caráter de “telemaníaco” ou “televiciado”.”
“... se as mães evitassem que seus filhos, quando pequenos assistissem muita TV, depois de uma certa
idade eles não teriam que sustentar esse vício”.
Texto de apoio: “John Nelson, da associação Médica dos EUA, acrescenta que a televisão é
responsável também por um aumento da violência na sociedade norte-americana”.
Texto dos alunos: “A TV passa coisas que criança não deveria ver tipo um filme de tiro”.
Texto de apoio: “... essas crianças assistem em média a 22 horas de TV por semana...”
Texto dos alunos: “As crianças ficam em frente da TV 22 horas por semana”.
Texto de apoio: “O mais indicado, talvez, seja fazer como se recomenda nos anúncios de bebidas
alcoólicas, ou seja, ‘consumir com moderação’.”
Texto dos alunos: “Eu sei que não posso lhe proibir de assistir à TV, mas posso lhe dar um simples
conselho: ‘ Consuma com moderação, a sua televisão’.”.
Texto 2
Texto de apoio: “Também acho que a televisão paralisa a criança numa cadeira mais do que o
desejável”.
Texto dos alunos: “ ... até as crianças que são bagunceiras, na hora do desenho, elas sossegam”.
Texto de apoio: “Sete horas da noite era hora de uma pessoa acabar de jantar, dar uma volta pela praça
para depois pegar uma sessão das 8 no cinema. Agora todo mundo fica em casa vendo uma novela,
depois outra novela”.
Texto dos alunos: “As crianças não têm mais a mesma educação que as crianças de antigamente
tinham”.
Nos dois textos, em que foi citado um aspecto positivo da televisão, esse procedimento foi
feito de maneira sutil: “Às vezes a televisão nos traz coisas boas e ruins, mas também nos rouba a
atenção que poderíamos estar utilizando numa coisa mais criativa, divertida ou educativa”. Mesmo
neste caso, pode-se identificar uma exclusão, pois o enunciador afirma que a TV rouba a atenção e este
verbo: roubar tem sentido de tirar sem o consentimento, de forçar uma pessoa a fazer algo que na
verdade não quer. Ao afirmar que ao invés de assistir à TV poderíamos estar nos ocupando com coisas
mais criativas, divertidas e educativas, o enunciador transmite a idéia de que a TV não possui
significativamente estas características.
No outro texto em que foi mencionado um aspecto positivo da TV, o enunciado nos revela
uma igualdade entre o comentário positivo e o negativo: Porém, no último período demonstra uma
preocupação maior pelas “bobagens” que podem influenciar as pessoas: “A TV na mesma hora que é
uma boa influência é uma má influência porque ela passa notícias do mundo para ficarmos informados
e também passa muitas bobagens que as pessoas podem se influenciar, principalmente as crianças”.
Conforme se pode perceber, o sujeito enunciador da redação escolar também situa o seu
discurso em relação ao discurso do outro, ajusta e planeja o enunciado para seu destinatário, mostrando
assim, que inclui outras vozes em seu discurso. Nesta pesquisa, procurou-se averiguar o tipo de
influência que os textos de apoio exercem na produção do aluno, enquanto recurso intertextual para
verificar se há, de fato, uma exclusão do aspecto positivo da televisão , já que o mesmo acontece nos
textos de apoio.
Um fator relevante para esta pesquisa são as condições de produção, que são as circunstâncias
em que o enunciado é produzido, ou seja, das regras que o enunciador obedece para produzir o
enunciado. Por se tratar de uma instituição escolar, o sujeito enunciador (aluno) preocupa-se em
escrever um texto adequado, pois vai ser avaliado pelo enunciatário (professor). Os alunos percebem
que o tema foi veiculado por duas autoridades: livro didático e professor, então preferem adequar seus
enunciados à proposta. Pois acreditamos que adolescentes, na idade de 14 anos gostam de assistir à TV
e não se preocupam tanto com os malefícios.
Também por se tratar da instituição escola, há uma tendência do indivíduo a remeter seu
discurso à intelectualização. Uma vez que um dos textos de apoio contém citações de médicos,
pesquisas, manifestações de entidades não governamentais, livros, estatísticas entre outras autoridades
que legitimam e dão credibilidade, influenciando assim, através do interdiscurso, as escolhas
discursivas dos enunciadores.
3. Conclusão
Com esta análise, foi identificada uma tendência à exclusão de outras visões sobre o mesmo
tema no corpus: o lado positivo da televisão. Pôde-se constatar que isso ocorreu devido às influências
do interdiscurso (já-dito), da intertextualização (citação de outros textos) e das condições de produção
(instituição escolar). Comprovando então que há outras vozes no discurso.
RESUMO:
Com base nas propostas teóricas da Análise de Discurso de linha francesa, temos por objetivo
verificar as relações de alteridade em enunciados produzidos na escola. Analisaremos também, os
recursos utilizados para a produção de sentido nos enunciados-comandos relativos à atividade de
redação em algumas unidades de um livro didático.
PALAVRAS-CHAVE: Análise do Discurso; exclusão; discurso-didático; dissertação.
ANEXOS:
Texto 1
Texto 2
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CARDOSO, Silvia. Discurso e ensino. B. Horizonte: Autêntica Editora, 1999.
FOUCAULT, Michel. Arqueologia do saber. Trad. Luiz Felipe Baeta Neves. 5.ed. Rio de Janeiro:
Forense Universitária, 1997.
MANGUENEAU, Dominique. Novas tendências em Análise do Discurso. 3ed. Campinas: Pontes,
1997.
MUSSALIM, F. Análise do discurso. In: MUSSALIM, F. e BENTES. A. C. (Org.) Introdução à
lingüística. São Paulo: Editora Cortez, 2001. p. 101-142.ORLANDI, Eni Puccinelli. Análise de
Discurso. 5. ed.- Campinas, SP: Pontes, 2003
PÊCHEUX, Michel. Semântica e Discurso: uma crítica à afirmação do óbvio. Trad. Eni P. Orlandi (et
al.) 3.ed. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1997. (Título original, 1975).
SOUZA, Cássia Leslie Garcia e CAVÉQUIA, Márcia Paganini. Linguagem, criação e interação. 1.
ed.- São Paulo: Saraiva, 1999.
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