HENRIQUE COELHO DA PAZ DA CUNHA ESTUDO DA NARRATIVA DOS TEXTOS SONOROS NAS OBRAS “AMACORD”, “E LA NAVE VA” E “ENSAIO DE ORQUESTRA” DE FEDERICO FELLINI SÃO PAULO 2003 HENRIQUE COELHO DA PAZ DA CUNHA ESTUDO DA NARRATIVA DOS TEXTOS SONOROS NAS OBRAS “AMACORD”, “E LA NAVE VA” E “ENSAIO DE ORQUESTRA” DE FEDERICO FELLINI Monografia como exigência parcial para a conclusão da disciplina Projeto em Multimeios II do curso Comunicação em Multimeios da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo PUC/SP. Orientador: Prof. Milton Pelegrini SÃO PAULO 2003 Título: ESTUDO DA NARRATIVA DOS TEXTOS SONOROS NAS OBRAS “AMACORD”, “E LA NAVE VA” E “ENSAIO DE ORQUESTRA” DE FEDERICO FELLINI Autor: HENRIQUE COELHO DA PAZ DA CUNHA Local e Data: São Paulo, 2003 Banca Examinadora: Profª. Drª. Carmem Lúcia José Instituição: PUC-SP Nota:........................................ Assinatura:.............................. Profº. Ms. Milton Pelegrini Instituição: PUC-SP Nota:........................................ Assinatura:.............................. Profº. Drº. Mauro Alejandro Baptista Instituição: PUC-SP Nota:........................................ Assinatura:.............................. 8 Dedico este trabalho ao meu pai pelo apoio que sempre deu na minha formação. 9 Agradeço à força que minha mãe, Manu, Carmem, Fil, Deda, meus colegas de orientação e meu orientador Milton Pellegrini me deram força para execução desse trabalho. 10 RESUMO Esta pesquisa analisa as trilhas sonoras e suas inter-relações com os códigos verbais e visuais nas peças cinematográficas Amacord, Ensaio de orquestra e E la nave va, do diretor italiano Federico Fellini. Como ferramenta de observação adota o corpo teórico de dois compositores, Livio Tragtenberg e Murray Schafer, para na análise empregar a percepção de um comunicador. Uma abordagem com base na teoria do pensamento complexo, de Edgar Morin, é utilizada para enquadrar esse objeto e os elementos que o constituem em uma realidade multidimencional e sistêmica. Com o objetivo, depois alcançado, de provar que as intencionalidades em separado de cada código se juntam para construir uma nova intencionalidade, nessas obras especificamente. 11 ABSTRACT This research analyzes the sonorous tracks and its Inter-relations with the verbal and visual codes in the cinematographic parts Amacord, Prova D’orchestra and and E la nave va, of the Italian director Federico Fellini. As comment tool it adopts the theoretical body of two composers, Livio Tragtenberg and Murray Schafer, stops in the analysis using the perception of a communicator. A boarding on the basis of the theory of the complex thought, Edgar Morin, is used to fit this object and the elements that constitute it in a multidimencional and sistêmica reality. With the objective, later reached, to prove that the scienters separately of each code if join to construct a new scienter, in these workmanships specifically. 12 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ......................................................................................................13 2. PRELÚDIO ............................................................................................................15 3. AMACORD ............................................................................................................21 DECUPAGEM DA PEÇA....................................................................................................................21 ANÁLISE DA TRILHA SONORA ........................................................................................................22 4. ENSAIO DE ORQUESTRA ...................................................................................30 DECUPAGEM DA PEÇA....................................................................................................................30 ANÁLISE DA TRILHA SONORA ........................................................................................................31 5. E LA NAVE VA ......................................................................................................36 DECUPAGEM DA PEÇA....................................................................................................................36 ANÁLISE DA TRILHA SONORA ........................................................................................................37 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................43 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................45 FILMOGRAFIA ...................................................................................................................................46 ARTIGOS DE REVISTA .....................................................................................................................46 WEBIOGRAFIA ..................................................................................................................................46 13 1. INTRODUÇÃO Neste trabalho, pretendo realizar uma análise da narrativa do código sonoro nas obras cinematográficas Amacord, Ensaio de orquestra e E la nave va, do diretor e roteirista italiano Federico Fellini, para investigar como se estabelece a relação entre as linguagens sonoras, visuais e verbais. Para começar, usarei uma conceituação bem objetiva que o semiólogo Christian Metz faz do cinema, partindo do princípio de um sistema real unitário e negligenciando provisoriamente suas diferenças: “O cinema é a linguagem que se estabelece em uma combinação de imagens fotográficas móveis, de ruídos, de falas e de música” (METZ, 1980 p.27). Portanto, o cinema caracteriza-se como obra de comunicação audiovisual, que perdura no espaço e no tempo. São peças que combinam imagens visuais dinâmicas de representação, ruídos, falas e música, na constituição de uma totalidade de natureza da comunicação poética1, que é a chamada obra cinematográfica. Esta conceituação é fundamental para encarar este objeto dentro da perspectiva de que nasce uma nova mídia, apoiada em mídias mais antigas, e entender, mais adiante, o porquê do corpo teórico adotado como ferramenta de análise. Esta análise se ancora então na percepção de um comunicador, e não de um músico, por exemplo, que analisaria a construção do material harmônico ou os intervalos melódicos2 das composições. Na caracterização das intencionalidades de cada código em separado, o visual (as imagens fotográficas de representação da realidade e o gestual cênico dramático), o sonoro (os ruídos e a música) e o verbal, e a relação que eles estabelecem entre si na formação de uma nova intenção. O objetivo é explicitado na visão de Felipe Salles sobre a relação música e imagem: “Assim, a música teria um caráter, a imagem outro, e a sobreposição de ambos um terceiro, resultante, em consonância ou dissonância com o caráter que predomina em ambos” (SALLES, 2002, p.32). No entanto, muitas peças cinematográficas conferem ao código sonoro uma posição puramente decorativa, no sentido de simplesmente apoiar os significados 1 Conforme definido Décio Pignatari no livro Comunicação Poética publicado em 1977. Segundo Murray Schafer “Para termos uma melodia, é preciso movimentar o som em diferentes altitudes (freqüências).” (1997, p.81) 2 14 verbais e visuais. Diante dessa forma de se organizar os elementos numa criação audiovisual, o compositor Lívio Tragtenberg diz em seu livro Música de Cena: “Esse tipo de atitude passiva frente a banda sonora é surpreendentemente corroborada por um cineasta como Federico Fellini que, paradoxalmente, inventou e estabeleceu um discurso próprio na relação entre som e imagem” (1999, p.14). Minha hipótese para essa pesquisa, fruto de uma reflexão com base nessa afirmação de Livio, é que Fellini, ao contrário do que pensa este compositor, confere ao código sonoro a função de formador na construção da totalidade na peça audiovisual. Para isso analisarei as inter-relações que a narrativa sonora estabelece em três obras de fases distintas desse diretor italiano: Amacord (1974), Ensaio de Orquestra (1979) e E La Nave Va (1983). Como metodologia para essa investigação, adotarei o princípio do pensamento complexo, com base nos pensamentos de Edgar Morin, segundo o qual um efeito não tem uma causa e sim uma realidade multidimencional, produtora de um sistema de causas, que é justamente a forma de raciocínio que reivindico na definição do problema para se encarar o cinema, podendo, este pensamento sistêmico, ser definido como um “conjunto organizado de partes diferentes, produtor de qualidades que não existiriam se as partes estivessem isoladas umas das outras” (MORIN, 2000 p.21). 15 2. PRELÚDIO Neste primeiro capítulo, são apresentadas as ferramentas que serão utilizadas para a análise das narrativas sonoras nessas peças audiovisuais. Primeiro, surge a necessidade de uma delimitação do objeto, com a caracterização do processo de criação do diretor Federico Fellini. Para isso, a utilização deste trecho de sua auto-entrevista, publicada a primeira vez em 1983, na Itália, que fala da sua atenção para com os valores figurativos e sonoros nos seus filmes: Eu sinto necessidade de dar ao sonoro a mesma expressividade da imagem, de criar uma espécie de polifonia. É por isso que, muitas vezes, sou contrário a utilizar do mesmo actor o rosto e a voz. O importante é que a personagem tenha uma voz que a torne ainda mais expressiva. Para mim a dobragem [leia-se dublagem sentido dessa expressão em Portugal, onde este livro foi editado] é indispensável, é uma operação musical com a qual reforço o significado das figuras. Nem me serve a captação directa do som. Muitos ruídos da captação directa são inúteis. Nos meus filmes, por exemplo, os passos não se ouvem quase nunca. Há ruídos que o espectador acrescenta com o seu ouvido mental, que não há necessidade de os acentuar, antes, se de facto se ouvem, perturbam. Aí está porque é que a coluna sonora é um trabalho para fazer à parte, depois de tudo o resto, juntamente com a música. (FELLINI, 1985, p.67) Fellini não se utilizava do chamado som direto, que é o som gravado direto das filmagens tanto das interpretações como dos objetos sonoros3, para a sonorização dos seu filmes. Isso se dava por diversos motivos: primeiro, porque ele achava que podia conseguir uma melhor interpretação vocal dos atores fora da situação de filmagem; segundo, como já foi descrito no trecho, porque podia achar apropriado não usar a voz do intérprete da personagem, mas trocá-la por outra voz que expusesse melhor a situação dramática; terceiro, pela forma como organizava o set (espaço) de filmagem durante as gravações (falava o tempo todo através de um megafone, dando orientações para os atores, câmeras, iluminadores etc.), o que tornava impossível essas captações sonoras. Gostava também de ambientar as gravações com uma trilha sonora diferente daquela que seria composta e usada para a cena no final, com uma música escolhida pelo próprio diretor dentre as já 3 Como objetos sonoros, designo aqueles objetos de cena que são fontes de emissão sonora, como um rádio, um instrumento musical ou um copo que numa determinada situação cai no chão. 16 conhecidas e que desse o tom dramático da situação, para ajudar os intérpretes na encenação. Outra questão retirada deste trecho da entrevista, importante para a análise sonora, é o fato do diretor desprezar os efeitos sonoros, que podem ser descritos como sendo os sons produzidos tecnicamente ou captados no som direto para mimetizar os sons produzidos por objetos em cena, tal como o som de um sapato batendo regularmente no chão para dar a idéia de uma pessoa caminhando. Segundo ele, esses sons, se ouvidos, perturbam a atenção do espectador, que já os acrescenta com o “ouvido mental”4. Portanto, por essa posição de Fellini, a análise da narrativa sonora dos seus filmes vai se restringir às trilhas sonoras escolhidas para aquelas imagens e situações cênicas, desconsiderando os efeitos sonoros que, por exceção, possam ocorrer. Trilhas tanto das criações e citações que o compositor Nino Rota fez para as obras Amacord e Ensaio de Orquestra, como a seleção de músicas feita pelo compositor Gianfranco Plenizio para E La Nave Va. Com o objeto mais bem delimitado, apresentar o corpo teórico que será utilizado é o próximo passo. No sentido de orientar a observação da totalidade cênica e o tipo de criação musical que esta exige, será empregado um conjunto de conhecimentos de um compositor de cena, no caso Livio Tragtenberg. Esses fundamentos estão localizados no seu livro intitulado Música de Cena, publicado em 1999. Apesar de ele atuar, principalmente, com a cena teatral e a dança, justifico a sua utilização com base na idéia desenvolvida na introdução, com relação a uma nova mídia (no caso o cinema) atrelar características de suas mídias raízes (o teatro, a literatura e a fotografia principalmente). A sonorização do teatro estabelece uma equivalência direta com a do cinema, principalmente um cinema produzido por um diretor como este, com características altamente teatrais. As questões colocadas por Livio estão direcionadas para o profissional músico em um trabalho específico de composição para a cena. Entretanto, aqui, esse instrumental é adotado de maneira inversa, para analisar as composições já feitas e escolhidas para as imagens cinematográficas produzidas por Federico Fellini. Então, por um instante, é necessário se colocar na figura do compositor para observar a cena (dentro dos parâmetros da teoria adotada), para depois ouvir 4 Entendendo o estímulo sonoro como ondas vibratórias recebidas pelo ouvido, mas interpretadas pelo cérebro. O ouvido mental refere-se diretamente a essas interpretações do cérebro, independente de se ouvir ou não os estímulos físicos. 17 novamente as composições e poder concluir como as intencionalidades (sonoras, visuais e verbais) se relacionam. A primeira consideração de Livio aponta um rumo para o olhar do observador cênico. (...) a partir de que dados o compositor de cena parte para criação de sua composição? Não há dúvidas que o nosso guia inicial é o encenador. (...) A elaboração da composição depende inicialmente do que se pode chamar tom da encenação (...) que será tomado como ponto de partida por toda equipe de criação. (TRAGTENBERG, 1999, p.45, 46) Observar o ator para buscar o que ele chama de tom da encenação, descrito aqui como intenção. No trecho a seguir, tem-se, com melhor detalhamento, os pontos a serem analisados na totalidade da história. Inicialmente, procure fazer uma decupagem da peça (texto ou roteiro) como um todo: 1) Estabelecer onde e quando (espaço x tempo), ou seja, as conhecidas unidades aristotélicas de lugar e tempo; 2) Resumir as situações da trama mais importantes, a unidade de ação aristotélica; 3) Identificar as personagens principais e secundárias buscando suas características básicas, assim como as inter-relações que se estabelecem na trama; 4) Relacionar os diferentes espaços onde as ações se desenvolvem, a fim de estabelecer a natureza acústica desses espaços; 5) Procurar referências a eventos sonoros no próprio texto, seja em rubricas, nos contextos sonoros dos espaços indicados, nas ações das personagens etc. (TRAGTENBERG, 1999, p.46) A decupagem que Tragtenberg propõe para o texto será executada nas peças cinematográficas prontas, como uma decomposição com as principais características das obras. A primeira questão é verificar se a obra pretende se localizar em uma época e lugar, pois assim um universo de referências sonoras pode ser usado para essa localização – tanto referências de timbres de algum tipo de instrumento específico quanto de construção musical, a que este autor designa de estilização, que também pode agir de duas formas, corroborando a idéia representada visualmente por associação ou transgredindo-a por deformação. A segunda e a terceira, são questões relativas ao desenvolvimento da narrativa e dos personagens, numa investigação dos sentidos que se quer passar com aquela trama, com aquele personagem ou na relação entre personagens, para observar 18 depois que relação a criação sonora estabelece com esses sentidos. A quarta questão é denominada pelo autor como a criação de ambientes sonoros, que “é a expressão da qualidade de ressonância do som no espaço” (TRAGTENBERG, 1999, p.138), ou: [o] elemento complementar no sentido da realização do projeto original do espaço cênico, estabelecendo as profundidades e as qualidades acústicas (grande sala, catedral, quarto, sótão, caverna etc.) dos espaços a serem representados. (TRAGTENBERG, 1999, p.151) A quinta questão, por abordar elementos não apreciados pelo diretor – os ruídos –, será desconsiderada como instrumento de análise,. Esses elementos da cena, contudo, não podem ser observados de maneira simplista, como uma relação de causa e efeito, numa situação dramática ou num tipo de personagem, como um tipo de resposta sonora ou uma fórmula. Se assim fosse, a narração sonora estaria cumprindo um papel de apoio, e não como deve ser, um elemento formador do espetáculo cinematográfico. Para isso, para enxergar esse objeto numa realidade multidimensional, Tragtenberg coloca outras necessidades: É preciso que ela explore os diferentes ângulos e que interfira com suas qualidades específicas na encenação como um todo, operando basicamente com os parâmetros de espaço e tempo, densidade e velocidade da cena e, finalmente, na curva dramática. (TRAGTENBERG, 1999, p.23) Ou seja, no sentido de criar uma totalidade na peça audiovisual, com seus elementos se relacionando em vários âmbitos, e não como uma resposta direta a uma característica específica. Nesse sentido de complexidade e de inter-relacionamento interno, um conceito de Peter Brook usado por Tragtenberg nos ajuda a entender a construção dos elementos cênicos. O encenador Peter Brook destaca a idéia de incompletude como fator importante na constituição do elemento presente no jogo cênico. Ou seja, os elementos componentes da cena (...) se completam em interações momentâneas e transitórias. (TRAGTENBERG, 1999, p.52) 19 Sendo a música para cinema um elemento de constituição desse jogo, não pode ela, assim como a música pura, se completar sozinha. A tradução dos seus signos se dá nas interações entre ela, o verbal e o visual. A música cênica trabalha com uma construção interna menos complexa e incompleta (no sentido de um elemento a mais na percepção global do fenômeno teatral). (TRAGTENBERG, 1999, p.53) A baixa complexidade da construção musical é necessária para que música possa estar apta a estabelecer relações com outros elementos da cena, o que não é possível numa construção musical com alta complexidade, em razão do estabelecimento de muitas interações internas, que desviam a atenção do espectador. Depois de alguns aspectos relacionados à observação dos elementos do conjunto do espetáculo e à forma de construção que esse tipo de música aplicada exige, classificar duas maneiras de se posicionar a trilha sonora na relação com os elementos visuais e verbais da cena – como paisagem sonora e intervenção sonora – torna-se necessário para esta análise. Ambas as formas são explicadas na primeira e na segunda citação, respectivamente: (...) uma ambientação sonora, sem relação interna de causalidade, fixidez móvel, assim como quando se observa uma paisagem através da janela de um trem. (TRAGTENBERG, 1999, p.55) Na prática existem basicamente três formas de intervenção do som cena: 1) Como comentário direto ou paralelo, soando em volume baixo (background), simultâneo ao texto falado; 2) Como introdução ou finalização de cena. Neste caso, a intervenção estabelece um espaço interno (da cena) e externo (do som que pontua), desempenhando diferentes funções narrativas (...) 3) Cenas sem texto, com dança, movimentação cênica ou pantomima. É importante que a música desse tipo de cena esteja integrada ao todo da composição. (TRAGTENBERG, 1999, p.58) A paisagem sonora, que é a primeira referência do trecho acima, é desenvolvida através de elementos sonoros com alguma homogeneidade de escala e intensidade, que criam uma espécie de textura sonora com o objetivo de transmitir um clima do espaço cênico. Seria como, numa situação oposta, parar durante o dia por um momento e observar o nosso ambiente com os ouvidos: nós nos 20 depararíamos com uma quantidade impressionante de ruídos que a priori não perceberíamos, mas que criam o clima auditivo. A paisagem sonora na maioria das vezes não é percebida na sonorização. Além das noções que Livio Tragtenberg coloca para a análise das composições, dois outros conceitos serão importantes para a observação das músicas nas peças audiovisuais. O conceito de dissonância e consonância, retirado de Murray Schafer – “dissonância é tensão, e consonância é relaxamento” – descreve, respectivamente, a oposição e a correspondência de significados na relação entre música, imagem e verbal. O conceito de diegese, “próximo, mas não sinônimo de história (pois de alcance mais amplo), designa a história e seus circuitos, a história e o universo fictício que pressupõe”, segundo Vanoye e GoliotLété (1994, p. 40). Este último conceito gera os adjetivos “diegético” e “extradiegético”, que classificam os elementos (como tempo, espaço, som etc.) entre presentes e não presentes na história respectivamente. As músicas diegéticas estão realmente presentes na cena, como a melodia que sai de um rádio da mão de um personagem, e reforçam o sentido de realismo dessas cenas, que são musicadas por elementos do próprio universo cênico. As músicas extra-diegéticas não estão presentes, e não seriam ouvidas pelos personagens se a cena fosse real, e reforçam o sentido de fantasia com uma fonte de emissão sonora fictícia. Com a finalidade de localizar as análises efetuadas, acompanha o texto, ao final de cada parágrafo uma minutagem que aponta para o leitor o início do respectivo trecho do filme analisado no parágrafo. No entanto, para acompanhar a minutagem é necessário que ao início de cada peça, mais precisamente ao primeiro segundo do letreiro com os créditos, seja zerado o contador do videocassete. 21 3. AMACORD DECUPAGEM DA PEÇA Fellini produziu este filme em 1974, retratando a Itália na década de 1930. A ascensão do regime fascista, que teve como característica principal a exaltação do nacionalismo, retrata muito bem esse período histórico, quando o diretor vivia sua adolescência. Amacord, que em português significa “eu me recordo”, traz as lembranças do adolescente Titta (suposto Fellini) e de outros personagens da sua família e da sua pequena cidade natal, Rimini, através de episódios do cotidiano. A peça trata a memória como característica fundamental. Embora algumas seqüências incluam o narrador, e o filme seja anunciado como as memórias do adolescente Titta, ele se desenvolve sem um caráter central. A narração na maior parte das vezes é descontextualizada, diferentes acontecimentos tratam as vidas e os sonhos de uma variedade de personagens e suas histórias, que não são ocasionalmente relacionadas. Isso resulta de uma multiplicidade de vozes narrativas, que enfatiza, por sua vez, a estrutura cíclica da obra. O filme diferencia-se facilmente do cinema narrativo convencional. A característica mais contundente que o distingue das produções tradicionais é a falta de uma linha coerente entre as causas e os efeitos, com falta de linearidades e unidades clássicas. A película tem uma estrutura cíclica, e os eventos de plot5 são organizados nos episódios que somente seguem frouxamente a linha da história. A estrutura é determinada basicamente pelas mudanças das estações do ano inteiro em que perdura o filme. Em Amacord, Fellini dispensou dois elementos que mais fortemente unificam a narrativa tradicional – plot e caráter – para ligar os episódios e dar-lhes uma coerência total. O ponto unificador através do qual tudo é visto, e que fornece um foco temático, é o da nostalgia da lembrança. A estrutura de Amacord, com seu arranjo aparentemente frouxo e cruzado dos acontecimentos, seqüências obviamente fantásticas e eventos realísticos, refletem claramente isso. 5 Segundo Doc Comparato: “‘Plot’ é o dorso dramático da estória, o núcleo central da ação dramática, i.e., as ações organizadas em conexão, de modo que se suprirmos ou deslocarmos qualquer uma delas, alteraremos o todo.” (1983, p. 82) 22 O filme não é uma imagem mimética correta de um período histórico, mas uma coleção de memórias; é memória do passado e não o passado. Assim, os exageros, as distorções e as ridículas passagens irreais não são um problema. Uma característica essencial da nostalgia é tender a distorcer pesadamente o passado que é recordado. Essas distorções podem ser indicadas de forma cômica e/ou séria, e utilizadas explicitamente, como em Amacord, como centro temático de um trabalho de ficção. A razão porque o filme usa a nostalgia enquanto sua característica central unificadora é o que ratifica uma mistura de realidade e ilusão. Pois em qualquer memória os limites entre o sonho e os fatos reais se misturam. Tudo na peça é maior que na vida, é a galeria de caricaturas inesquecíveis. Todos os caracteres são recordados, não são realidade factual. Dois dos aspectos sempre presentes na realidade que Fellini busca retratar em Amacord figuram como mais importantes: a descoberta da sexualidade na adolescência e o alvorecer do regime fascista. ANÁLISE DA TRILHA SONORA A partir de um primeiro olhar sobre o conjunto da composição que Nino Rota fez para essa peça cinematográfica, é possível tecer algumas observações. Apesar do filme estabelecer muito pouca linearidade e unidade no desenvolver dos seus episódios, a criação sonora conseguiu constituir uma totalidade na composição utilizando com arranjos diferentes a música tema do filme. A música tema aparece pela primeira vez logo que os letreiros com os créditos do filme começam e reaparece diversas vezes no desenrolar da narrativa, estabelecendo uma relação de consonância com o que o compositor Livio Tragtenberg denominou de tom da encenação, aqui caracterizado pela lembrança e pela nostalgia. Esse clima de melancolia da música satisfaz plenamente, em correspondência, os significados visuais e verbais, de maneira que, ao ser usada várias vezes com derivações na instrumentação e no andamento, cria uma coesão no clima geral e na composição melódica. Outro fator muito utilizado durante toda peça são as músicas diegéticas ao filme e as extra-diegéticas, que, por intervenção de um personagem a dedilhar um piano, são trazidas para dentro da cena, tornadas diegéticas. Dessa maneira a cena é ambientada com seus próprios elementos, o que torna a situação mais real. Um 23 personagem cego, manco e maltrapilho aparece diversas vezes, durante a peça inteira, tocando acordeom. Ele não tem nenhuma função na história além de criar, executando sempre o mesmo tema, uma paisagem sonora melancólica. O diretor, com esse personagem, materializa um clima sonoro, de forma que ao final do filme não se consegue desvincular aquela melodia da imagem do sanfoneiro. Ao mesmo tempo, ele usa o acordeom, um instrumento de raízes italianas que, apesar de não ter sido inventado na Itália e sim na China, tem no país os seus maiores produtores e é um grande referencial na história da sua música. O filme começa com flocos voando por toda a cidade, simbolizando o fim do inverno e a chegada da primavera. A comunidade prepara uma festa para comemorar tal momento. É na barbearia que ocorre a primeira intervenção sonora, como comentário paralelo às falas e enaltecimento do sentimento de festa, em consonância com as imagens. A música é extra-diegética até o momento em que o maestro, que estava no recinto, pega uma flauta e fraseia junto com a trilha sua nova composição para a noite. Desse modo, ele traz a música que estava fora para dentro da cena, tornando-a diegética. (00:03’:12”) À noite, no centro da pequena Rimini, enquanto as pessoas vão se juntando para festa, a câmera passeia pelos diversos personagens e situações, mostrando suas particularidades. Ao mesmo tempo em que as pessoas estão alegres e contentes, o sanfoneiro-personagem toca um tema melancólico em dissonância com as imagens, mas construindo com elas o clima geral do filme, a nostalgia. A festa realmente começa com a chegada da banda, trazendo uma boneca de bruxa para ser queimada na grande fogueira no centro da praça – “queima-se a bruxa velha e queima-se o inverno”, diz uma personagem. A música diegética que a banda toca é uma marcha alegre em total correspondência com o clima festivo. A comemoração vai chegando ao seu fim com poucas pessoas em volta do que restou da grande fogueira e a sanfona tocando o mesmo tema melancólico, contemplando a lembrança e a nostalgia. (00:04’:17”) Algumas cenas se passam sem nenhuma intervenção musical, como o ambiente escolar, com seus professores e alunos. De novo no centro da cidade, Fellini explora com a câmera passeando pelas mais estranhas situações e personagens: o jovem Titta, com sua turma de colegas fazendo travessuras, a bela Gradisca, vista como a mulher mais bonita da cidade, o narrador, a cafetina, trazendo suas novas prostitutas etc. A trilha sonora extra-diegética percorre o 24 mesmo caminho, tentando ambientar as diversas cenas, não necessariamente em consonância com o significado direto da imagem, mas com o fundo nostálgico. Começa com a música tema, com um arranjo diferente ao do início do filme, à qual foi adicionada uma sanfona e acelerado o andamento. Desenvolve outras linhas melódicas, dando um tom, ora mais glamoroso, quando por exemplo cita o clássico americano, de Ted Koehler e Harold Arlem, Stormy Weather composta para o filme de mesmo nome, ora mais descontraído, com à canção popular cômica-satírica de origem hispânica, com referência também na história mexicana, denominada “La Cucaracha”, na ocasião em que passam a cafetina e suas meninas. (00:29’:05”) Alguns episódios depois, o adolescente, personagem principal, vai ao confessionário. Além de uns breves comentários que faz ao padre, ele pensa, mas não conta, em outras diversas situações de exposição da sua sexualidade juvenil, que vão se tornando episódios da história, numa alternância entre passado e presente, imaginação e realidade. Uma dessas situações é a de quando ele segue Gradisca, que entra no cinema numa tarde de final de verão. Sozinhos na sala, Titta aproveita para aproximar-se cada vez mais, de fileira em fileira, de poltrona em poltrona, até se sentar ao lado dela e começar a passar a mão em sua perna. Apesar da demora, a personagem, que estava encantada pelo galã do filme, reprime o garoto, deixando-o constrangido. A trilha da cena é a música tema em posição extra-diegética, dessa vez com o andamento mais lento e mudanças na instrumentação que tornaram o clima um pouco mais cômico, adaptada em correspondência com as imagens. No final da cena, Nino Rota utiliza-se de um recurso citado por Livio Tragtenberg, que consiste em se servir de algo que a princípio é considerado musicalmente um erro como recurso dramático: na hora em que Gradisca percebe a mão de Titta em sua perna, a música termina em ralento, com uma perda de andamento. Dessa forma, causa uma sensação de estranheza que descreve muito bem o sentimento de Gradisca. (00:33’:55”) Chega o dia da celebração da fundação de Roma, e uma grande parada militar fascista é organizada na cidade. Praticamente todos os personagens do filme participam, menos Aurélio, o pai de Titta, e a esposa, que o tranca em casa por ele ter ideais socialistas. Essa seqüência6 militar pode ser dividida em quatro partes: a chegada do grande Duce, a marcha, a demonstração dos jovens, que não é 6 Uma seqüência, em um filme, “é uma série de cenas ligadas, ou conectadas, por uma única idéia”, segundo Field (2001, p. 80). Comentário: Não encontrei esta palavra! 25 musicada, e o sonho de Francesco. Na primeira parte, uma corneta anuncia a chegada, seguida de uma marcha, de tom altamente patriótico, executada pela banda, sonorização diegética que contempla muito bem o sentido das imagens de exposição do fascismo. A marcha militar caracteriza essa segunda parte e é o nome do estilo musical que sonoriza a cena. Com um andamento muito rápido, a música está em equivalência com o movimento cênico dos personagens, que, de tão rápido, praticamente uma corrida, se torna cômico. A última parte musicada dessa seqüência é um delírio de Francesco, amigo de Titta, que durante as comemorações sonha se casar com sua amada Aldina e ser homenageado pelos militares fascistas. Aqui o tema executado, com referência no imaginário popular, é o tema dos casamentos católicos, acompanhado de muitos sinos, extra-diegético ao filme, o que fortalece o sentido de irrealidade da cena. (00:38’:46”) Terminado o dia de comemoração, de noite, as ruas da cidade estão cheias de oficiais nazistas, jovens, bêbados etc., resíduos da festa – com uma paisagem sonora extra-diegética, triste, executada por um violão – quando o hino da internacional comunista começa a ser ouvido por toda cidade. Esta música diegética, que depois, descobre-se, que sai de um gramofone no alto da torre da igreja, é carregada de significados, sendo a representação sonora do comunismo, oponente histórico do fascismo. Esse elemento é mais do que sonoro, é um elemento na ação dramática, um mote para o episódio seguinte, em que os fascistas, à caça do culpado, torturam Aurélio, pai de Titta. (00:44’:20”) A seqüência seguinte acontece em torno do Grand Hotel, sua apresentação e mais três histórias ocorridas lá dentro. Uma melodia tranqüila e glamorosa é executada por um piano, enquanto o narrador descreve o hotel como “a velha dama da cidade” e ele como o único morador da cidade a freqüentar o local. A música extra-diegética contempla o clima romântico que a narração quer dar ao hotel; este tema musical funde-se então com o tema principal do filme, tocado ao piano. Gradisca também esteve por lá uma vez, em um encontro com um príncipe, motivo para mais um episódio do filme – justamente quando ela, que se chama Ninola, ganhou esse apelido, que significa “por favor, sirva-se”, descreve o narrador. (00:53’:17”) O quarto do príncipe é muito bonito, as luminárias, as cortinas e os móveis em branco e rosa, os nobres bebem champanhe e tudo enaltece o clima fantasioso e glamoroso. Gradisca chega meio sem jeito e deslumbrada, os acompanhantes reais 26 saem do recinto, ela tira a roupa e se deita na cama, exibindo-se para o príncipe, e ao final diz: “Oh alteza, por favor, sirva-se”. A cena é inteiramente narrada pela trilha sonora, com apenas esta fala no final. A música tema do filme, desta vez para satisfazer o tom de deslumbramento e fantasia da situação, é executada primeiro por uma instrumentação de cordas e piano, com andamento mais lento. Depois, no trecho mais descontraído, instrumentos de sopro e piano descrevem a saída dos nobres do quarto, a troca de olhares entre Gradisca e o príncipe e o momento em que ela começa a despir-se. O movimento cênico dos atores está em consonância com o movimento descrito pela música extra-diegética. No meio da cena, o personagem vai ao encontro de Gradisca e toca no piano exatamente a nota que a trilha sonora pedia para aquele instante. Dessa forma, aquela música, que era extradiegética porque não havia fonte de emissão sonora visível, torna-se diegética pela suposição de que estava sendo ouvida pelos personagens, pois, do contrário, o príncipe não conseguiria tocar a nota certa no momento certo, acompanhando a melodia. (00:54’:58”) A segunda história relacionada com o hotel acontecera há dois anos, quando lá se hospedaram um xeique e suas trinta concubinas. A chegada deles é tumultuada pela escolta das mulheres, que cria a maior confusão parando, o transito e impedindo as pessoas de se aproximarem. A trilha sonora extra-diegética está em relação de consonância com o clima cênico atrapalhado da entrada delas no hotel; o andamento rápido da música constrói esse clima. Entretanto, no instante em que mostra o xeique chegando, a sonorização muda para uma melodia também extradiegética, porém calma e tranqüila. Essa troca de temas e climas musicais acontece mais duas vezes durante a cena, no momento em que as concubinas entram no elevador, e o fotografo é intimidado pelos capangas por tentar capturar uma imagem (momento e música de confusão), e depois quando o xeique com sua comitiva entram no elevador (momento e música calma e tranqüila). A cena da chegada dos hóspedes desenvolve-se sem falas dos personagens, com a narrativa sonora descrevendo as situações; a única narrativa verbal é a do contador, no começo e no final. A composição que Nino Rota criou para esse episódio é caracterizada por timbres7 de músicas populares do Oriente Médio. (00:57’:51”) 7 Segundo Murray Schafer “Timbre é essa superestrutura característica de um som que distingue um instrumento de outro, na mesma freqüência e amplitude.” (1997, p.76) 27 Na mesma noite, Bischaine, o vendedor de doces da cidade, conta que visitou o quarto das mulheres do xeique e que se relacionou com 28 delas. Com uma descrição que mistura sonho e realidade, Bichaine desperta as concubinas ao tocar uma flauta doce, como se fosse um hipnotizador de cobras. A sonorização diegética executada pelo personagem está em relação de consonância com as imagens. Em seguida, as mulheres dentro da piscina do quarto dançam o mesmo tema musical tocado na cena de quando chegaram no hotel (momento de confusão). A música é diegética pela suposição de que o vendedor de doces, que acompanha tocando flauta, ouve aquela melodia e as odaliscas, que dançam na piscina, também. (00:59’:43”) A última história é de um baile no Grand Hotel, em que estão presentes alguns moradores da cidade. A banda da festa toca a música tema do filme e depois “La Cucaracha”, canção popular hispânica já utilizada no começo da peça. No final do baile, com algumas poucas pessoas sentadas e um casal na pista de dança, a sonorização é feita pelo piano, de novo com a melodia tema. O andamento mais lento que no começo da festa e a execução por um único instrumento dão à música um arranjo consonante com o clima final da comemoração. As trilhas sonoras desse episódio são todas diegéticas, tocadas no mesmo ambiente por personagens músicos. (01:01’:30”) Na cidade, em um dia de sol e calor, todos os moradores se dirigem para a praia, muitos com trajes de banho, para, em diversos barcos, pequenos e grandes, rumarem mar adentro. A música extra-diegética desse trecho é a mesma que a banda do início do filme tocou na comemoração do final do inverno. Uma marcha alegre, em total correspondência com o clima festivo. Nos barcos, a alguns quilômetros da costa, a população espera para ver o grande “Rex”, um transatlântico vindo da América que está de passagem pelo Mediterrâneo. Esperando, algumas pessoas cantarolam algumas músicas, outro personagem declama um poema, Lallo, tio de Titta, chega nadando; aos poucos a tarde cai e chega a noite. A canção tema do filme, introduzida por um violão acompanhado por um instrumento de sopro extradiegéticos, cria então o clima nostálgico, enquanto Aurélio reflete sobre as estrelas. A música termina, e a cena muda para outro barco, onde o sanfoneiro cego começa a tocar a mesma melodia melancólica característica de seu personagem, que continua a sonorizar diegéticamente a cena seguinte, quando Gradisca divaga sobre sua vida. O “Rex” chega ao som de fortes apitos, que simbolizam o navio, e passa Comentário: Não está se referindo à canção? Se sim, é extra-diegética. 28 ao som dos gritos de saudação e felicidade dos moradores de Rimini; novamente a música principal é tocada, ressaltando o tom nostálgico da cena. (01:19’:04”) De volta ao continente, Titta e sua turma de amigos, após espiarem um luxuoso salão pela fresta da porta, dançam na rua, encoberta por um forte nevoeiro, a canção tema. O tom da cena é de glamour e paixão, que aquele majestoso recinto remete aos adolescentes, apoiado pelas falas dos personagens e pela trilha sonora extra-diegética. (01:29’:43”) No cinema, as pessoas assistem a um filme que, pela sonorização de rugido de leões e batuque de tambores, tem como tema a África, pois as imagens da projeção não são mostradas. Os espectadores são interrompidos pelo anúncio de que começara a nevar, fato que tira as pessoas da sala. À noite, no centro da cidade, com alguns moradores abrindo caminhos na neve com pás, a canção tema do filme constrói o clima nostálgico novamente. O inverno chega, e as ruas da pequena Rimini ficam cobertas por mais de um metro e meio de neve, cheias de caminhos cavados pelos habitantes, formando verdadeiros labirintos. Gradisca passeia por entre os blocos de gelo nas ruas da cidade e Titta, que é apaixonado por ela, presencia esse momento. O adolescente, encantado com ela, começa a segui-la, mas é atrapalhado pelo motoqueiro, que o faz perdê-la de vista. A paisagem sonora extra-diegética é a melodia principal, dissonante com a imagem de felicidade dos personagens, mas consonante com o tom de lembrança da peça. (01:39’:15”) Miranda, suposta mãe de Fellini (Titta), falece após passar um tempo doente no hospital. Na igreja, durante a missa, um canto gregoriano executa a oração, seguido de sinos e da retirada do caixão da igreja. A sonorização diegética está em correspondência com o significado da cena. Um cortejo percorre a cidade rumo ao cemitério com o acompanhamento sonoro extra-diegético de uma marcha fúnebre. As trilhas sonoras deste trecho estão decorando uma situação cênica sem acrescentar novos significados à narrativa visual. (01:43’:52”) A cena final do filme é o casamento e a partida de Gradisca com o soldado Gary Cooper. O evento ocorre em duas tendas, no meio de um campo aberto, com uma sonorização extra-diegética triste e melancólica. Executado por um violão, o tema já foi usado em uma cena do início do filme, após o dia de comemorações da fundação de Roma, no centro da cidade. Os convidados do casório comemoram e saúdam os noivos, a turma de adolescentes faz gracinhas para a noiva e afirmam 29 carinhosamente o afeto que sentem por ela. O sanfoneiro cego senta-se próximo à mesa e toca acompanhando a paisagem sonora. Nesse instante, ele traz aquela música para dentro da história, tornando-a diegética. É o único momento do filme em que esse personagem músico, que se caracteriza por tocar sempre a mesma melodia, abre uma exceção. O fotografo reúne as pessoas em volta dos noivos, na mesa, para registrar o acontecimento. O sanfoneiro muda então a linha melódica para aquela que caracteriza o seu personagem e depois para a música principal, todas com clima nostálgico. O filme termina com Gradisca partindo com seu marido de carro, e os convidados também deixam o local, ao som da sanfona. (01:52’:50”) 30 4. ENSAIO DE ORQUESTRA DECUPAGEM DA PEÇA Uma produção ítalo-franco-alemã de 1979, o filme “Ensaio de Orquestra”, que originalmente, em italiano, chama-se “Prova D’orchestra”, foi dirigido por Federico Fellini e musicado por Nino Rota. A peça foi originalmente produzida para a televisão e tem duração de 72 minutos. A película, como o próprio nome diz, mostra o ensaio de uma orquestra em um dia especial, quando ocorre a documentação do evento pela televisão. Em um velho oratório do século XII, transformado em auditório, onde estão enterrados três papas e sete bispos, as imagens são filmadas. Os músicos, que não sabiam da filmagem, chegam aos poucos e em sua maioria se descontentam com o fato. O filme é justamente o produto desse documentário. A câmera da equipe de televisão do diretor Fellini aborda os músicos, que falam da relação com o seu instrumento e com os outros elementos da orquestra, seguindo-se normalmente um comentário sonoro. Alguns deles se recusam a dar entrevista, questionando uma gratificação financeira e seus direitos sindicais. Com essas entrevistas, o diretor constrói os mais diversos tipos de personagens, que coexistem no grupo e estabelecem com outros personagens relações muitas vezes conflitantes. A organização da orquestra descreve o aparato de uma instituição social tal como uma empresa ou repartição pública, com chefe, empregados, sindicalistas etc. Essas questões pessoais e institucionais revelam a orquestra como uma pequena extensão da sociedade. O maestro é uma pessoa severa, excêntrica e ditadora, que demonstra não acreditar que as pessoas de hoje saibam o que é música. Um trecho de sua entrevista demonstra a sua personalidade: “a música é o mundo. Quando estou regendo me sinto dono do mundo. Não! Sabe como me sinto, de verdade? Como o sargento que manda em todos com chutes no traseiro. Agora há leis absurdas que nos proíbem ser sargento”. Durante o ensaio, o exigente regente interrompe diversas vezes, insatisfeito com o resultado. Rejeita ser questionado pelos músicos; se pudesse colocaria um biombo em frente aos instrumentistas, que o impediria de ver suas caras ferozes debruçadas sobre ele, maestro. 31 Os músicos não aceitam e se revoltam, primeiramente questionando a autoridade. Por que são forçados a tocar aquela música de novo? Por que não podem fazer o que querem? Por que necessitam que falem como executar? Então, alguns propõem que se destitua o maestro e seja colocado em seu lugar um metrônomo gigante. No entanto, essa idéia desagrada outros músicos, que derrubam o metrônomo com uma cadeira. A revolta transforma-se numa verdadeira insurreição popular, com pichações, depredações e palavras de ordem, culminando com a demolição de uma das paredes do oratório por um guindaste de demolição. Apesar disso, os artistas reúnem-se novamente, com o recinto todo destruído, para a execução da última música. O amor que leva indivíduos tão diferentes (muitas vezes antagônicos) a se juntarem com uma mesma finalidade, no caso a música, é uma questão abordada por Fellini durante a peça. Nesse ensaio, vê-se uma ameaça constante à música e à orquestra – ora são as questões políticas que geram conflito entre o grupo e o regente, ora são diferenças pessoais entre os instrumentistas, ora é um rato que surge no local, até seu ápice, que termina por vitimar a harpista. Ainda assim, os músicos, que se rebelavam há pouco contra a ordem das coisas, outra vez se unem para tocar sob uma batuta. Com esse filme, Fellini fez uma pequena homenagem à música e ao companheiro de tantos filmes, o maestro Nino Rota. ANÁLISE DA TRILHA SONORA Quase a totalidade das músicas ou sonorizações do filme são diegéticas, com exceção de um único momento, a entrevista com o regente. Na maioria das vezes, são executadas pelos próprios personagens, com seus instrumentos ou como na única cena fora do auditório durante o intervalo, em que os músicos discutem em um bar ao som do rock-and-roll tocado no recinto. Dessa forma, como já foi descrito anteriormente, o som enaltece o clima realista que um documentário como esse requer. A primeira intervenção sonora acontece no momento em que os instrumentistas começam a chegar ao auditório, para caracterizar aquele espaço de execução musical onde os profissionais se preparam experimentando e testando seus instrumentos. Algumas notas são tocadas pela pianista Mirela, uma das primeiras a chegar. Em seguida ela experimenta algumas linhas melódicas, 32 enquanto seus companheiros conversam e brincam enquanto se acomodam. A harpista e o trompetista também tocam, este último irritado com a brincadeira dos colegas, que colocaram uma bexiga dentro do seu instrumento. (00:04’:15”) A harpista caminha, atravessando o salão, ao mesmo tempo em que alguns músicos se divertem descrevendo o percurso dela com uma trilha sonora cômica. A música, executada por instrumentos de percussão (caixa), sopro (clarinete) e cordas (violino) dos personagens, cumpre a função de gerar um clima descontraído, irritando a instrumentista. A ambientação é dissonante com o sentimento dela, porém consonante com o dos executores, discordância que gera conflito. (00:10’:29”) Depois, a câmera volta-se para a pianista, que dedilha algumas notas, para entrevistá-la. Ela apresenta o piano como um rei magnífico que preenche os espaços totalmente. Diz que “um quarto com um piano se torna o quarto dele”, defende uma individualidade do instrumento, no sentido de não ser propriedade particular e sim ele próprio, “o piano”. A voz do entrevistador Fellini praticamente não é ouvida, a não ser em raros momentos, como durante a resposta da pianista, quando um violinista faz um comentário e ele pede que ela continue. (00:10’:56”) Na seqüência, a flautista, que estava apoiada no piano, é abordada pelo cinegrafista para falar do seu instrumento. Ela descreve a flauta como delicada, discreta e a mais parecida com a voz humana, mas não faz nenhum comentário sonoro exibindo o objeto. Três trombonistas preenchem a cena seguinte, representando seu instrumento, de timbre doce e grave, como a voz de uma criatura solitária, completando com um aparte musical encorpado por mais dois trompetistas, que é um trecho da primeira sinfonia a ser ensaiada, apoiando o sentido verbal. (00:12’:17”) O documentário continua com uma tomada de câmera geral sobre vários músicos, quando se ouve o piano, os trombones e o contra-baixo desconexos, cada um tocando algo diferente. As melodias tocadas nessa cena não têm a função de trilha sonora para uma situação e, sim, de ruído de objetos da cena (objetos sonoros), pois se aqueles instrumentos estão no local sendo manipulados têm que emitir sons. Os percussionistas são questionados se existe simpatia e antipatia entre os instrumentos. Respondem que sim, exemplificando que gostam do contra-baixo, que continua a tocar, porque marca o tempo com exatidão, e que acham particularmente chatos o piano e o violino. Os ritmistas, então, para demonstrar sua 33 qualidade alegre, tocam uma marcha acompanhados do clarinete e do contra-baixo, em consonância com o objetivo. (00:13’:32”) Nesse momento, inicia-se uma discussão, a partir da entrevista com um violoncelista: qual instrumento é o mais importante da orquestra? O desacordo gira em torno principalmente dos violoncelistas e violinistas, que querem a supremacia. No meio do debate, a intervenção de uma nota do fagote, parecida com uma buzina, provoca risos. Um clarinetista e um trompetista são entrevistados em meio aos comentários de colegas, nenhum dos dois comenta sonoramente seu pensamento. (00:16’:54”) Novamente há uma intervenção de vários instrumentos juntos, desconexos um do outro, sem formar uma unidade, como se cada um tocasse sem ouvir os outros instrumentos à sua volta, cada um testando o seu. (00:22’:55”) O maestro chega e, depois de algumas palavras para a televisão, dá o sinal para os violinos começarem. Inicia-se o ensaio, que após alguns segundos é interrompido; o regente, nervoso, pergunta se os violinistas brigaram ou se são de partidos diferentes e pede mais unidade. Os instrumentistas debocham da irritação dele. Novo sinal do maestro, os violinos reiniciam e, da mesma forma, após alguns segundos nova interrupção e outra bronca do condutor da orquestra, que pede aos violinistas para tocarem com sentimento, à flauta para corrigir o Mi natural por um Mi bemol e aos clarinetista para tocarem com delicadeza e suavidade. Nova indicação do regente, e os arcos recomeçam. Os músicos tocam a música inteira desta vez, em meio a conversas paralelas, um jogo de futebol em um radio portátil etc. Entretanto, novamente eles desagradam o maestro, que faz um escândalo no final, joga as partituras para cima e desce do seu posto, numa postura autoritária que diverte os instrumentistas. A música dessa seqüência não está de forma alguma apoiando as imagens; ela ajuda a construir o significado da cena – as imagens do ensaio não teriam o menor sentido sem os sons. (00:25’:06”) O maestro volta para ensaiar outra música, agora o “Galope nº15, que o piano inicia sozinho seguido da forte entrada do conjunto dos instrumentos, construindo, com um andamento rápido, um clima nervoso. A execução novamente é interrompida diversas vezes, ora porque os violinos estão com baixa intensidade, ora porque o oboé é muito evasivo, ora porque o som está pouco compacto. A temperatura no auditório vai aumentando, os músicos vão tirando seus paletós e casacos conforme tocam, um flautista tira a camisa. A música termina com uma 34 parada brusca no clímax. O regente pede a um clarinetista que toque um trecho da melodia e o instrumentista se nega alegando direitos sindicais. Esse conflito gera muita polêmica entre os integrantes, levando o chefe da orquestra a fazer um intervalo. (00:30’:13”) Durante o intervalo, a maior parte dos músicos se dirige para um bar, onde discutem assuntos variados, como o maestro, a música, os músicos, questões pessoais etc. Nessa cena, ouve-se o rock-and-roll tocado no recinto, com elementos elétricos e distorcidos e a princípio dissonante com aqueles músicos eruditos. No entanto, isso parece agradar aquelas pessoas. É a única música diegética do filme não executada pelos personagens músicos. (00:37’:18”) No auditório, ainda permanecem alguns músicos, entre eles um tocador de tuba que é entrevistado pela televisão. Ele descreve sua relação com o instrumento como uma amizade e diz que o escolheu pelas semelhanças entre eles – tristes, solitários e desajeitados. Para encerrar, toca um trecho da primeira música ensaiada, o mesmo tema tocado na entrevista com os trombonistas, que representa, em correspondência, essa relação solitária. Em seguida é a vez do oboísta, que reivindica que tal instrumento dite as regras na orquestra, por ser o mais antigo, magnífico e delicado de todos, solando ao final o mesmo trecho melódico triste que os trombonistas e o tocador de tuba tocaram em suas respectivas entrevistas. (00:40’:06”) O único momento do filme em que existe uma sonorização externa à história – extra-diegética, para ambientar uma situação – é durante a exposição do maestro para o documentário, dentro do seu camarim, quando um piano, que pela comparação das intensidades sonoras não está nem fora do recinto e nem tão pouco sendo executado dentro dele, martela lenta e constantemente algumas notas separadas, criando uma paisagem sonora tensa, consonante com o clima do ensaio. Em uma reflexão longa, ele divaga sobre a música, o seu oficio, os músicos, assuntos recorrentes durante todo o filme. No final da entrevista, o regente senta ao piano localizado no camarim e também toca algumas notas, não associadas com a sonorização extra-diegética, que continua, criando da mesma forma o mesmo clima tenso. A fala dele termina em seguida, no instante em que acaba a luz no prédio. (00:47’:20”) Quando o maestro sai do camarim para descobrir o que aconteceu e chega ao auditório principal, uma grande revolta está instaurada entre os músicos. No meio 35 da rebelião, a harpista concede uma entrevista à equipe de televisão, quando fala de como conheceu o instrumento e de como é a sua relação afetiva com a harpa para ela que é uma pessoa solitária e nunca teve homens. Pichações, depredações e palavras de ordem caracterizam o motim, que termina com a demolição de uma das paredes por uma gigante esfera de aço vinda de fora, que acaba por atingir a harpista. (00:54’:22”) No final, os músicos reúnem-se novamente para ensaiar, sob as mesma regras, a mesma música utilizada no início do filme durante os créditos. Isso acontece após as seguintes palavras do regente: “Cada um cuide do seu instrumento. As notas nos salvam. A música nos salva. Agarrem-se às notas. Sigam as notas. Uma após a outra. Assim como minhas mãos lhes indicam. Somos músicos. Você são músicos. Estamos aqui para ensaiar. O ensaio continua.” A execução desenvolve-se inteira, sem interferência do condutor, que espera até o final para manifestar suas árduas críticas ao grupo de instrumentistas, como sempre fez. (01:07’:43”) 36 5. E LA NAVE VA DECUPAGEM DA PEÇA E la nave va é uma produção ítalo-francesa do ano de 1983, com duração de 128 minutos e direção de Federico Fellini. Essa obra de Fellini, excepcionalmente, ao contrário da maioria, não foi musicada por Nino Rota. É uma homenagem à opera (ou ao estilo operístico), tanto pelo motivo principal do enredo, que é uma viajem fúnebre de Edma Tetua, cantora lírica, quanto pela trilha sonora, que é uma seleção feita pelo compositor Gianfranco Plenizio de peças clássicas de óperas e versos especialmente escritos pelo poeta Andrea Zanzotto. É também uma homenagem ao compositor italiano Guiseppe Verdi, escolhido para as principais partes musicais. A ópera predominante, ouvida durante quase todo o filme, é La Forza Del Destino, além de outras do mesmo compositor, como Aida, Nabucco e La Traviata. O enredo acontece na Europa, em julho de 1914, quando a política européia passa por um momento crítico e se ouvem os primeiros rugidos da 1ª Guerra Mundial, mais precisamente quando a Áustria declara guerra à Sérvia. Um grande e luxuoso navio, Gloria N., parte em uma viagem especial de artistas e nobres que saem de Nápoles, na Itália, levando as cinzas da cantora lírica grega para serem lançadas no mar da Grécia, último desejo da artista antes de morrer. A viagem prossegue por dias e dias, sempre narrada pelo jornalista Orlando que durante o percurso faz um relato das personalidades dos viajantes. As primeiras cenas, no cais, com imagens em preto e branco, mudas e estáticas, fazem referência à maneira de se filmar no começo do século. Aos poucos as imagens recebem maior movimentação, som e cores, semelhante aos filmes restaurados e coloridos artificialmente. São características que demonstram um estilo artístico muito particular do diretor. Entre os diversos tipos de passageiros do navio, encontram-se algumas estrelas do canto lírico de renome internacional que, como amigos e admiradores de Edmea Tetua, vêm prestar suas últimas homenagens. Esses artistas ensaiam juntos um oratório para ser cantado no momento da cerimônia de dispersão das cinzas pelo mar. No entanto, em meio a esses astros prevalece um forte sentimento de rivalidade. 37 A vida a bordo é doce e tranqüila nos primeiros dias de viagem, mas no terceiro dia, como o próprio narrador descreve, as coisas se tornaram estranhas, quase misteriosas. Primeiro, há uma sessão espírita evocando a artista velada, com a presença de alguns personagens; depois, o capitão salva uns refugiados sérvios que se encontram perdidos no mar. Este último fato acarretará mais tarde a interceptação da embarcação por um couraçado austro-húngaro e seu naufrágio,. A maioria dos viajantes se salva, como descreve o próprio narrador Orlando, de um barco salva-vidas junto com o rinoceronte que era transportado no navio. Durante a peça, vemos que Fellini faz suas críticas, a principal delas, nesse filme, quanto à questão das pessoas e suas máscaras, como disfarces de suas personalidades. Aos poucos os personagens vão revelando o que realmente são: suas invejas, rivalidades, rancores, desejos, manias e outros sentimentos vão surgindo. E no final, no momento em que eclode a grande batalha, todos ficam na mesma situação, como vítimas. ANÁLISE DA TRILHA SONORA O filme, como já foi dito no início deste capítulo, começa com imagens em preto e branco, estáticas e mudas, do porto de Nápoles, de passageiros do navio, de transeuntes etc.. Devagar, elas vão ganhando movimento e o som, que aparece pela primeira vez quando as cinzas da cantora chegam ao local, surge por meio de algumas notas tristes de um piano, que se presume ser da banda que aparece algumas cenas antes. Esse som triste, diegético, contempla muito bem o clima fúnebre da cerimônia do pedido de autorização para o embarque das cinzas. Ao som de alguns assobios seguidos, simboliza-se o momento do embarque, quando as cinzas são levadas para dentro da embarcação, ocasião em que as cores aparecem na película. (00:04’:22”) Um maestro, ainda na plataforma de embarque, estende o braço e ordena que a música comece; o tenor Aureliano Fuciletto canta as notas iniciais do coro Compagni, sostiamo, cena três do terceiro ato da ópera La Forza Del Destino. Esta melodia tem um tom aventuroso, consonante com a situação dos personagens que embarcam para uma viagem. O coro formado pelos personagens canta a mesma melodia, que tem o destino como tema principal em seus versos, destino da falecida cantora. Quando todos começam embarcar no navio, o coro altamente animado é Comentário: O Orlando narra do barco ou os viajantes se salvam num barco? 38 substituído pelo famoso tema fatal da ópera La Forza Del Destino, servindo perfeitamente ao movimento ascendente dos passageiros. Outra mudança no modo musical segue quando o outro tenor, Sabatino Lepori, canta a melodia Le minaccie i fieri accenti, cena um do quarto ato da ópera La Forza Del Destino. O navio começa finalmente a se mover, e a seqüência termina com um retorno ao tema Compagni, sostiamo. Essa primeira parte, que pode ser chamada de cena da partida, é composta exclusivamente por temas da ópera La Forza Del Destino de Verdi e de músicas diegéticas cantadas pelos personagens. (00:07’:06”) Depois da partida, abruptamente começa uma cena na cozinha do navio, em um clássico estilo do cinema mudo, pois a cena, sem nenhum efeito sonoro, faz coincidir o movimento cênico dos atores com o andamento da musicalização, de gênero clássico e extra-diegética. Pessoas, trabalhando muito ocupadas, se esbarram em um ritmo frenético, ao som de Dance of the Flutes de Tchaikowsky, que tem uma relação de correspondência com o tom cômico da imagem. Esse tema grotesco se funde lentamente no motivo suave e tranqüilo que, como o tema antecedente, é uma trilha sonora extra-diegética. A troca do clima sonoro acontece ao mesmo tempo em que a cena muda da cozinha para a sala de jantar, onde os garçons servem calmamente um maravilhoso banquete para os viajantes, que começam a ser apresentados pelo narrador-jornalista. (00:10’:09”) Nessa segunda seqüência dentro do navio, após a transição da cozinha para a sala de jantar, a sonorização é toda executada pelos músicos presentes no salão (diegético). Durante o jantar ouve-se a melodia Death of the Swan, da música Carnival of the Animals de Camille Saint Saens, e a valsa Danúbio Azul, de Richard Strauss. A entrada do Grão-duque de Herzog e sua comitiva no recinto é marcada por uma majestosa marcha. Continuando, já com os nobres acomodados, a música retorna a Strauss, com a valsa Emperor, quando a irmã do Grão-duque começa a ver nas notas musicais as cores do arco-íris. A trilha sonora, durante todo o conjunto de cenas na sala de jantar, cria uma paisagem que estabelece uma relação de consonância com as imagens, gerando um clima calmo e tranqüilo que uma refeição sublime merece. Também no momento em que entra a comitiva de nobres, em que a intervenção sonora, como um comentário em paralelo, descreve a grandeza, é reafirmado o significado das imagens. (00:11’:34”) Após algumas cenas pelo navio, com o jornalista Orlando, é na cozinha novamente que acontece a próxima intervenção sonora. Os irmãos Rubetti, 39 professores de canto, tocam o famoso tema Marcha turca de Mozart com a ponta dos dedos molhadas deslizando sobre as bocas de copos de cristal com diferentes níveis de água. Essa cena gira em torno do espetáculo musical, e a música não tem apenas a função de ambientar, mas é um discurso central na narração, um elemento importante da cena. (00:25’:43”) Na plataforma principal, alguns passageiros apreciam a vista do por do sol coexistindo com a lua no céu. Outros observam e conversam sobre as estrelas. O jornalista conversa com o maestro, e depois com a prima de Edmea Tetua, sobre a cantora. Um piano solo, que não pertence à cena, cria através de poucas notas uma paisagem sonora melancólica, uma menção à linha melódica Guarda il sole, pere finto, abertura da ópera II Barbiere di Seviglia. Do convés do navio para o piano bar, as pessoas, em pequenos grupos, discorrem, na maior parte das vezes, sobre a falecida artista. O cenário acústico permanece o mesmo Rossini da cena anterior, entretanto, torna-se diegético, pois a fonte de emissão sonora, o piano, está presente no local. Dessa forma, o diretor traz a música de fora (fonte de emissão sonora fora no espaço cênico) para dentro da cena. (00:28’:10”) Na mesma noite, na cabine do conde Di Bassano II, um grande admirador de Edmea rememora a artista revendo fotos e assistindo a uma projeção com imagens dela. Um piano solo, interpretando Clair de Lune de Debussy, constrói a paisagem sonora melancólica e extra-diegética. (00:36’:22”) Em seguida, uma cena memorável demonstra a grande rivalidade dentro do grupo de cantores líricos que participam da viagem, quando eles, junto com uma parte da tripulação e o jornalista, vão visitar as caldeiras do navio. Os operários pedem que a cantora lírica Ildebranda Cuffari cante para consolá-los. Contudo, o barulho é enorme, deixando a cantora apreensiva. Um dos tenores, Aureliano Fuciletti, para demonstrar suas habilidades e sua superioridade, começa a cantar La donna é mobile, da ópera Riggolleto de Verdi, mais alto que o barulho. Percebe-se que o esforço dele é enorme. Para não ficarem por baixo, os outros cantores começam a imitá-lo, todos tentando ficar com a última palavra, ou melhor, a última nota. A Sra. Cuffari canta o tema Amami, Alfredo, da peça La Traviata de Verdi. E assim a cena prossegue, cheia de egocentrismos e muita vaidade. No final, aplausos dos operários para todos. Outra vez a música diegética não cumpre uma função apenas decorativa, mas uma função importante na narrativa, dialogando diretamente com os elementos visuais. (00:42’:25”) 40 No piano bar, algumas cenas depois, Ildebranda Cuffari ensaia com o maestro ao piano. A câmera sai para o convés, onde outros passageiros se divertem vendo peixes saltarem acompanhando o navio, posando para retratos etc.. Ao fundo, o som do piano da cena anterior continua a ser escutado. A cena volta ao piano bar, agora com os outros cantores presentes para ensaiar o oratório Domine Deus, de Debussy. O ensaio é interrompido por um cheiro fortíssimo, oriundo do rinoceronte que é transportado na embarcação. Essa seqüência é intercalada entre os acontecimentos do convés e os ensaios no piano bar, que sonorizam de maneira diegética e decorativa os anteriores. (00:53’:26”) Terceiro dia de viagem, o comandante do navio recolhe refugiados sérvios da 1ª Grande Guerra perdidos no mar. O clima fica tenso no navio, com a plataforma externa e os ambientes sociais internos cheios de pessoas estranhas e maltrapilhas, com os passageiros sem saberem se são pessoas bem ou mal intencionadas. Durante o almoço, naquele dia, as janelas do salão estavam cheias de sérvios assistindo o banquete, o que constrangia alguns e estimulava a brincadeira de outros. Músicos tocam para os passageiros Death of the Swan, de Saint Saens, construindo um clima calmo e tranqüilo, dissonante com a situação constrangedora dos personagens. (01:11’:40”) À noite, no convés, com os nobres viajantes em um mezanino e os refugiados em uma plataforma inferior, uma mulher sérvia cantarola uma canção popular cigana, que impressiona e aguça alguns artistas eruditos pela sua expressividade. Acompanhada por um instrumento de cordas típico, ela desenvolve um primeiro tema triste, que representa a real situação daquelas pessoas refugiadas e sem destino certo. Logo em seguida, vem uma alegre música instrumental que acompanhada por palmas promove a dança e contagia a todos, inclusive os passageiros, que descem e se juntam aos sérvios. Segundo o padre católico, é uma dança antiga, de uma cultura pagã, que representa um ritual da fecundidade. Esse é o único momento do filme com músicas populares (não eruditas), ocasião em que aquelas pessoas de cultura clássica acolhem e são acolhidas pelos populares. (01:24’:45”) Ao amanhecer, a luxuosa embarcação é interceptada por um couraçado austro-húngaro que exige levar os náufragos sérvios. O comandante do Gloria N. não autoriza a retirada deles do navio, e graças à intervenção do Grão-duque de 41 Herzog é permitido o prosseguimento da viagem até seu destino final, a ilha de Erimo. (01:35’:33”) Ao som das mesmas notas tristes de piano que anunciaram a chegada das cinzas de Tetua ao porto, porém agora extra-diegética, os personagem se dirigem ao convés para a cerimônia de dispersão das cinzas da artista. Na plataforma externa, o padre faz uma oração, que é seguida da acomodação das cinzas em uma almofada, que ao som de “Aida” de Verdi são levadas pelo vento ao mar. A música, que sai de um gramofone acionado por um marinheiro, é interpretada por uma voz feminina que supomos ser da falecida artista. O ritual comove os participantes, mas não os austríacos, que não esperam nem o seu término para abordar de novo o navio exigindo a retirada dos sérvios. (01:41’:23”) Nesse momento, o jornalista Orlando desce para a sua cabine, onde narra o desfecho da peça entre cenas intercaladas com os acontecimentos externos. Orlando, como se previsse os fatos, troca de roupa aos poucos, colocando trajes de banho (maiô). Descreve ele: “Seria bom se o couraçado retomasse seu rumo após enviar uma emocionada saudação. Mas isso não aconteceu. Queriam os sérvios. Queriam recuperá-los mesmo. E seria mais bonito ainda se respondêssemos à prepotência deles com um: ‘Não, não os entregaremos’”. Então, no convés, o maestro rege os cantores para começar Non vê li diamo do famoso tema Va pensiero da ópera Nabucco de Verdi. Os versos adaptados por Andrea Zanzotto expõem exatamente os pensamentos do narrador, que dizem: “Não! Não os entregaremos! Não! Não os entregaremos! Morte à sua arrogância. (...)” Essa música diegética, cantada pelos personagens, tem um tom consonante com as palavras e os pensamentos dessas pessoas, de contestação e bravura. (01:47’:33”) Contudo eles não resistem e entregam os refugiados, acompanhados pelo Grão-Duque. A música muda para o tema fatal da ópera La Forza Del Destino, de Verdi, discurso sonoro em total consonância com o significado das imagens, a fatalidade dessas pessoas. A melodia é interrompida pelas palavras “ai de mim”, soladas pelo tenor Aureliano Fuciletti, e um imponente gesto do mesmo. Os sérvios começam a embarcar no barco salva-vidas que os levará ao couraçado, agora ao som de outro motivo musical, novamente da La Forza Del Destino, o tema Deh non m’ abbandonar, pietá di me Signore, que mantém o clima sonoro da cena anterior. No meio da cena, novamente uma mudança no tema da trilha sonora, desta vez para um motivo de Strauss, que é seguido pelos gritos: “Guerra! Guerra!”. Uma 42 fusão com um tema da ópera La Traviata, de Verdi marca o momento em que o barco salva-vidas toma o seu destino. (01:49’:33”) A música retorna para o tema fatal da ópera La Forza Del Destino de Verdi..Como Orlando descreve, é impossível se ter certeza sobre a ordem e a intenção dos acontecimentos, mas provavelmente o ato imprudente de um anarquista sérvio, arremessando uma bomba de fabricação caseira no interior do couraçado, desencadeou o ataque dos austro-húngaros e a destruição da luxuosa embarcação. No entanto, outras causas podem talvez explicar o desenrolar dos fatos, afirma o narrador. Enquanto o navio naufraga e os móveis deslizam pelo salão, os violinos tocam Deh non m’ abbandonar, pietá di me Signore da La Forza Del Destino. Passageiros e tripulantes embarcam em barcos salva-vidas, trabalhadores da casa de máquinas observam o incêndio da caldeira e todos cantam o tema da La Traviata. A melodia Deh non m’ abbandonar, pietá di me Signore é tocada com piano solo, enquanto na cabine inundada o conde Di Bassano II espera o naufrágio do navio assistindo projeções da sua diva Edmea. No convés, os personagens continuam cantando com grande vigor, agora um coro da ópera Aida de Verdi. Nessa seqüência, assim como em outras partes do filme, a música consonante não está apenas apoiando o significado das imagens, mas em posição de construção do conjunto narrativo. (01:52’:06”) A última cena no convés termina com o navio tombando para a direita e as pessoas correndo para a esquerda, com a câmera seguindo o seu movimento. No entanto, a câmera não pára, ela segue o movimento para a direita e, ao som extradiegético de Deh non m’abbandonar, pietá di me Signore ao piano, ultrapassa o limite do próprio cenário. Como uma grande revelação, quebrando toda a fantasia, Fellini mostra todos os equipamentos e as pessoas que estavam produzindo essas imagens, como o próprio operador de câmera, os operadores de efeitos visuais como o movimento do mar, o captador de som direto etc. Antes do final, volta para uma cena com Orlando, junto com o rinoceronte em um barco salva-vidas, e encerra a peça contando que a maioria das pessoas se salvaram e que o leite daquele animal é ótimo. (01:57’:13”) 43 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS Após analisar essas três obras de Federico Fellin é possível tecer algumas conclusões sobre a forma de suas criações e os valores dados a banda sonora por esse diretor, com base em uma metodologia de pesquisa com abordagem sistêmica dos objetos, e dos instrumentos teóricos utilizados para as análises. Amacord, Ensaio de orquestra e E la nave va têm as qualidades de pertencerem a fases distintas da carreira de Fellini e tratarem motivos diferentes em seus enredos, atributos que fazem delas bons exemplos para análise de uma totalidade, que é a concepção artística desse cineasta. A primeira peça acima, produzida 1974, é uma ficção, assim como as outras, porém com características fantásticas, pela mistura entre realidade e ilusão, pelo exagero dos fatos e pela falta de linearidade dos acontecimentos no enredo. A segunda, produzida em 1979, se propõe a um estilo documental, com qualidades mais realistas, em que uma equipe de televisão produz um documentário, porém não pode ser classificada como tal por conter atores, cenário, etc. A terceira, produzida em 1983, pode ser classificada como um musical, pois constrói sua narrativa verbal muitas vezes através de versos que são cantados pelos personagens acompanhando as músicas, e tem como motivo principal do enredo a música, mais especificamente a ópera. As trilhas sonoras dos filmes constroem de diversas formas uma unidade na composição. Seja, pela repetição de uma melodia diversas vezes com arranjos diferentes, que é o caso de Amacord e Ensaio de orquestra. Seja, pela utilização de um estilo musical específico, tanto nas composições de Nino Rota com estilo erudito, quanto nas escolhas musicais de estilo operístico para o filme E la nave va. As composições utilizadas para as sonorizações não contemplam uma das necessidades citadas por Livio Tragtenberg, de construção musical com baixa complexidade, com base na idéia do encenador Peter Brook, de incompletude para a construção de interações momentâneas. As músicas compostas por Nino Rota e as escolhidas por Gianfranco Plenzio têm uma instrumentação orquestral, que pela quantidade de elementos torna-se complexa na maior parte das vezes. Como conseqüência, as sonorizações ficam sempre aparentes nas cenas, desviando a atenção do espectador, ao contrário, por exemplo, de uma paisagem sonora que tem uma construção simples e não é praticamente percebida. Isso demonstra pouca 44 integração entre os elementos visuais, verbais e sonoros, pois ao contrário perceberíamos a totalidade sem distinção clara das partes. A narrativa sonora nessas obras, na maior parte das vezes, tem um discurso próprio, diferente do significado das linguagens visuais e verbais, que, somando-se a elas constrói um terceiro significado. Em Amacord, é a sonorização que cria na maior parte das vezes o clima cênico, em oposição com o significado das imagens, porém construindo com elas o tom geral da encenação, que é a nostalgia. Na obra Ensaio de orquestra as músicas praticamente não cumprem a função de trilha sonora, uma vez que são sonorizações de ações dos personagens com objetos de cena. Uma música ensaiada pelos instrumentistas, não está ambientando uma situação dramática, mas construindo com as imagens o próprio significado da cena, a música é conteúdo do enredo e não uma decoração sonora. Em E la nave va a trilha sonora exerce novamente função formadora do conjunto do espetáculo, primeiro por ser um musical e a narrativa verbal estar diretamente relacionada com a sonora na construção de um único discurso; segundo porque é formada basicamente por óperas, que por sua natureza contam uma história que também estabelece relação de correspondência ou oposição com os significados verbais e visuais. 45 7. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS • BONDANELLA, Peter. The Cinema of Federico Fellini. Princeton University Press, 1992. • COMPARATO, Doc. Roteiro, Arte e Técnica de Escrever para Cinema e Televisão. Rio de Janeiro: Nórdica, 1983. • FELLINI, Federico. Fellini por Fellini. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1985. • FIELD, Syd. Manual do Roteiro. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001. • FLUSSER, Vilem. Filosofia da Caixa Preta. São Paulo: Hucitec, 1985. • MACHADO, Arlindo. Pré-Cinemas e Pós-Cinemas. Campinas: Papirus, 1997. • MCLUHAN, Marshall. Os Meios de Comunicação Como Extensões do Homem. São Paulo: Cultrix, 1964. • METZ, Christian. A Significação no Cinema. São Paulo: Perspectiva, 1972. • METZ, Christian. Linguagem e Cinema. São Paulo: Perspectiva, 1980. • MORIN, Edgar. O Cinema ou O Homem Imaginário. Lisboa: Relógio D’água, 1997. • MORIN, Edgar. Para navegar no século XXI. Porto Alegre: Sulina / EDIPUCRS, 2000. • PIGNATARI, Décio. Comunicação Poética. São Paulo: Moraes, 1977. • ROMANO, Vicente. El Tiempo y el Espacio en la Comunicación. La razón pervertida. Hondarribia: Argitaletxe HIRU S. L., 1998. • SALLES, Filipe. Imagens Musicais ou Música Visual. Dissertação de Mestrado em Comunicação e Semiótica, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2002. • SCHAFER, Murray. O Ouvido Pensante. São Paulo: Fundação Editora Unesp, 1997. • SEVERINO, Antônio Joaquim. Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo: Cortez, 2003. • TRAGTENBERG, Livio. Música de Cena. São Paulo: Perspectiva, 1999. • VANOYE, Francis e GOLIOT-LÉTÉ, Anne. Ensaio Sobre a Análise Fílmica. Campinas: Papirus, 1994. 46 FILMOGRAFIA • AMARCORD (filme-vídeo). Direção de Federico Fellini. Warner Vídeo, 1974, 127 min., color., son., VHS, v. o. italiano, leg. português. • E la nave va (filme-vídeo). Direção de Federico Fellini. Paris Vídeo, 1983. 128 min, color., son., VHS, v. o. francês, leg. português. • ENSAIO de orquestra (filme-vídeo). Direção de Federico Fellini. Rio de Janeiro: Globo Vídeo, 1979. 72 min, color., son., VHS, v. o. italiana, leg. português. ARTIGOS DE REVISTA • Revista Bravo, São Paulo, ano 7, n.73, p. 28-39, outubro, 2003 • Revista Bravo, São Paulo, ano 5, n.51, p. 96-103, dezembro, 2001 WEBIOGRAFIA • http://opera.stanford.edu/iu/libretti/forz3.html Data de acesso: 15/9/2003 • http://us.imdb.com/name/nm0000019/ Data de acesso: 2/10/2003 • http://www.allmovie.com/cg/x.dll?p=avg&sql=B89547 Data de acesso: 15/9/2003 • http://www.cinemaitalia.com/fellini/index.html Data de acesso: 2/10/2003 • http://www.filmforum.com/juliet.html Data de acesso: 2/10/2003 • http://www.thegoldenyears.org/fellini.html Data de acesso: 2/10/2003