GÊNEROS MIDIÁTICOS MULTIMODAIS: UMA DISCUSSÃO SOBRE
LETRAMENTO VISUAL, ENSINO E PRÁTICAS SOCIAIS
Rodrigo ACOSTA PEREIRA
(Universidade Federal de Santa Catarina)
ABSTRACT: Contemporary researches in Applied Linguistics have emphazised the role of discourse genres in
the language teaching and learning looking for comprehending the relationship among language, discourse and
society. Upon this perspective, this paper aims to present the multimodal genre magazine cover as a resource to
develop material to critical reading classes in Portuguese based on the critical Discourse Analysis (Fairclough,
1989; 1995). It also aims to analyze the genre based on the Systemic Functional Grammar (Halliday, 1994;
Thompson, 1996) and The Grammar of Visual Design projected by Kress and van Leeuwen (1996) and using
this brief analysis to project materials to critical reading classes.
KEY-WORDS: Media Discourse Genre; Multimodality; Visual Literacy.
1. Introdução
Pesquisas contemporâneas em Lingüística Aplicada (LA) têm enfatizado o papel dos
gêneros do discurso no ensino/aprendizagem de línguas sob diferentes perspectivas teóricometodológicas (BONINI, 2005; CRISTÓVÃO E NASCIMENTO, 2004; 2005; KLEIMAN,
2006; MARCUSCHI, 2002; 2005; MEURER, 2005; MOTTA-ROTH, 2005; 2006;
RODRIGUES, 2001; 2004; 2005; ROJO, 2005; SIGNORINI, 2006). Destaco 4 abordagens de
estudo dos gêneros do discurso: (a) a socioretórica, cujos pressupostos teóricos e
metodológicos estão ancorados nas pesquisas de Swales (1990), Bazerman (2005; 2006) e
Miller (1984); (b) a interacionista sociodiscursiva cujos gêneros são investigados baseados em
Scheneuwly e Dolz (2004); Bakhtin (2000); Bronckart (1999) e Vygostky (1998); (c) a
sociodialógica cujos referenciais teóricos e metodológicos de investigação dos gêneros estão
sob a perspectiva de Bakhtin (1981; 1989; 2000) e (d) a abordagem que proponho investigar
nesse trabalho a sociossemiótica, cujos gêneros são estudados com base na Análise Crítica do
Discurso (ACD) (Fairclough, 1989; 1992; 1995) e na Gramática Sistêmico-funcional (GSF)
(HALLIDAY, 1994; THOMPSON, 1996).
Analisar o gênero sob a perspectiva sistêmico-funcional é, primeiramente, entender
três principais conceitos: (a) linguagem – como prática social que medeia o discurso em
diferentes contextos (situacionais e culturais), configurando uma representação social do
mundo através desse sistema (HALLIDAY, 1994); (b) texto – como uma unidade da
linguagem em uso; uma unidade semântica (HALLIDAY & HASAN, 1989) e (c) contexto –
compreendendo que todo texto carrega consigo um contexto (EGGINS, 1994). Nessa
dimensão, entende-se que a linguagem é uma forma de prática social, nas quais as formas
discursivas e as estruturas sociais se influenciam mutuamente. Quanto à análise de textos sob
o escopo da ACD, segundo Meurer (2005, p. 81), “ao analisar textos criticamente não
est[amos] interessados apenas nos textos em si, mas em questões sociais que incluem
maneiras de representar a ‘realidade’, manifestação de identidades e relações de poder no
mundo contemporâneo”.
Sob essa perspectiva teórica e metodológica de análise do discurso, objetivo (a)
discutir aspectos relacionados aos Gêneros do Discurso sob a perspectiva da ACD e da GSF
(b) explicar a inter-relação entre Gêneros, Contexto e Estruturação Social; (c) explanar sobre
Práticas Sociais; (d) apresentar considerações lingüístico-aplicadas sobre o Ensino de Línguas
com base em Gêneros Multimodais; (e) apresentar propostas de análise do gênero capa de
1708
revista como exemplificação para modelização e planejamento didáticos para o ensino de
leitura crítica e (f) levantar considerações finais sobre o assunto.
Serão utilizados aspectos conceituais e metodológicos baseados na Análise Crítica do
Discurso (FAIRCLOUGH, 1989; 1992; 1995, MEURER, 2004a; 2004b; 2005, WODAK,
2001), na Gramática Sistêmico-funcional (HALLIDAY, 1994, THOMPSON, 1996) e na
Gramática do Design Visual de Kress e van Leeweun (1996) e discussões de Callow (1994) e
Unsworth (2001).
2. Gêneros do Discurso sob a Perspectiva da Análise Crítica do Discurso (ACD)
Usamos a linguagem constantemente em diferentes contextos sociais de uso: ao
interagir interpessoalmente, na organização de experiências, na socioconstrução de nossa
identidade, e no desenvolvimento e reconstrução do conhecimento (FAIRCLOUGH, 1992;
1994) entre outras atividades diárias, nas quais a linguagem é o sistema mediador.
Halliday (1989, p. 3-11) afirma, nesse sentido, que “a linguagem é um dentre os
sistemas por meio dos quais construímos sentidos, e esse sistema se organiza na forma de rede
de escolhas léxico-gramaticais”. Para o autor, “combinações de escolhas codificam e realizam
significados”1. Esses significados são negociados e produzidos no processo de interação
social por pessoas que, como membros de grupos sociais, se engajam em eventos
comunicativos por intermédio da linguagem.
Assim, compreender os eventos comunicativos é poder relacioná-los aos seus
contextos de produção e recepção. Entendemos que sob a perspectiva hallidayana, um texto
pode ser considerado como “linguagem realizando alguma tarefa em algum contexto 2[...]”
(idem, p. 10) e o contexto em que esse texto se desenvolve pode ser concebido como a
situação ou o ambiente que produz e é produto desse texto (idem, p 5). Com isso, para
compreender as diversas atividades diárias, isto é, o uso da linguagem como mediação da
interação em um grupo social, torna-se fundamental estudar os textos produzidos nos eventos
comunicativos como também os contextos produção, recepção e circulação desses textos.
Bazerman et. al (2005, p.19) afirma que, nessas atividades diárias, “as pessoas criam
novas realidades de significação, relações e conhecimentos [e fazem isso] por meio de
textos”. De acordo com o autor, esses textos são produzidos numa seqüência de eventos que,
por sua vez, são compostos por fatos sociais cuja principal característica é se apresentarem
estruturados, tipificados na forma de gêneros e sua relação de constituição mútua com as
práticas sociais.
Nessa perspectiva, podemos entender que, as práticas sociais moldam o uso da
linguagem em determinados eventos comunicativos tipificados, os quais denominamos de
gênero. È a partir disso que Marcuschi (2002; 2005) enfatiza o papel da prática social na
produção da linguagem na forma de gêneros, já que para o autor, “os gêneros servem para
obter e estabilizar as atividades humanas” (2002, p.17).
Sob a perspectiva da ACD, segundo Meurer (2005, p. 81-82),
o termo gênero é usado por Fairclough para designar um conjunto de convenções
relativamente estável que é associado com, e parcialmente realiza, um tipo de
atividade socialmente aprovado [...]. [...] um gênero implica não somente um tipo
particular de texto, mas também processos particulares de produção, distribuição e
consumo de textos. Cada gênero, portanto, ocorre em determinado contexto e
envolve diferentes agentes que o produzem e consomem.
1
2
Tradução do autor.
Tradução do autor.
1709
Além disso, a ACD concebe linguagem como prática social e considera fundamental o
contexto de uso da linguagem. Segundo Wodak (2001, p. 2), “a ACD preocupa-se
fundamentalmente com a análise da opacidade, assim como das relações estruturais
transparentes de dominação, discriminação, poder e controle manifestadas pela linguagem”. 3
Meurer (2005, p. 82) postula que a ACD “se dedica a investigar as conexões do uso de formas
discursivas com a produção, a manutenção e mudança de relações de poder”. Dessa forma, os
gêneros sob a ótica da ACD são considerados a partir da teorização e descrição dos diferentes
processos e estruturas sociais que estão pressupostos na produção, circulação e consumo dos
textos. Wodak (2001, p. 3) discute que,
a ACD tenta evitar posicionar-se a partir de uma relação simples entre textos e o
social. [Entende-se que] cada discurso é historicamente produzido e interpretado,
isto é, situado no tempo e no espaço e que estruturas de dominação são legitimadas
por ideologias de grupos do poder, e uma abordagem complexa proposta pela ACD
torna possível analisar pressões e possibilidades de resistência de relações
assimétricas de poder que se apresentam nas convenções sociais. 4
Entendemos, portanto, que estudar os gêneros do discurso sob o escopo da ACD é
buscar compreender a relação bidirecional entre discurso e estruturação social, enfatizando a
linguagem enquanto prática social de significação que (a) estrutura experiências diárias; (b)
(re)constrói relações interpessoais e (c) se manifesta na forma de textos sócio-situados. Sob
essa perspectiva, a ACD se propõe analisar o discurso criticamente sob três aspectos
dimensionais (1) Práticas Sociais, buscando explicar que ideologias e hegemonias estão
implícitas ou explícitas no discurso; (2) Práticas Discursivas, procurando interpretar aspectos
dialógicos do discurso (intertextualidade e interdiscursividade) e práticas de produção,
distribuição e consumo dos textos e (3) Texto, objetivando descrever as diversas escolhas
léxico-gramaticais do evento comunicativo. Segundo Meurer (2005, p. 95), “a ACD se
diferencia de outras abordagens do discurso que enfatizam ou [somente] a descrição (como a
Lingüística Textual e algumas abordagens a gêneros) ou a explicação (como os trabalhos de
Foucault)”.
Outra questão importante para a análise de gêneros a partir da ACD é entender a
relação entre gêneros e contexto, compreendendo que, diferentes discursos e estruturas sociais
conjuntamente determinam as regras de formação do discurso, isto é, o que deve ou pode ser
dito. Por meio do discurso, os indivíduos constroem, criam e recriam realidades, sofrendo as
coerções da realidade circundante da qual se inserem (MEURER, 2000). As diferentes
escolhas léxico-gramaticais que os indivíduos se utilizam em suas diversas atividades
mediadas pela linguagem, sofrem determinadas e específicas regulamentações de formação,
oriundas de regras e recursos que constituem a estrutura social, determinando como as
pessoas agem, se comunicam ou se comportam.
Com isso, objetivo explicar como diferentes discursos e estruturas sociais
conjuntamente determinam o que pode ou deve ser dito e como essas escolhas (léxicogramaticais e/ou visuais) emanam de valores, crenças e visões de mundo de indivíduos que,
por sua vez, se inserem de diferentes formas em relações sociais.
3
4
Tradução do Autor.
Tradução do Autor.
1710
3. Gêneros do Discurso, Contexto e Estruturação Social
A linguagem em uso segue determinadas legitimações, isto é, as ações sociais
mediadas pela linguagem nas diversas práticas sociais são regulamentadas por diferentes
estruturas da organização espacial da sociedade. Entender linguagem enquanto prática social
passa ser compreender a relação bidirecional existente entre linguagem e estruturas sociais.
Segundo Giddens (1984, p. 14),
estrutura refere-se às propriedades de estruturação que permitem a ‘delimitação’ de
tempo-espaço em sistemas sociais, às propriedades que possibilitam a existência de
práticas sociais discernivelmente semelhantes por dimensões variáveis de tempo e
de espaço e lhes emprestam uma forma sistêmica. Estrutura é uma ‘ordem virtual’
de relações transformadoras, isto é, os sistemas sociais como práticas sociais
reproduzidas, não têm estruturas, mas antes exibem propriedades estruturais, e que a
estrutura só existe como presença espaço-temporal [...].
Giddens (1984; 2002) afirma que as estruturas sociais são constituídas e existem como
resultado do uso de que as pessoas fazem de regras e recursos. Com base em Giddens (1984),
podemos entender que regras são normas, as convenções e os significados através dos quais as
pessoas se orientam ao compreender ou desempenhar ações sociais. Os recursos são as posses
e as capacidades que as pessoas têm que lhes permitem exercer controle sobre o meio
ambiente e sobre os outros indivíduos.
As regras e recursos 5formam as estruturas porque se repetem no tempo e no espaço e
criam esquemas de expectativas dentro dos quais as pessoas agem e se comportam ou utilizam
a linguagem, formas tipificadas de uso social da linguagem. Giddens (1984) postula que as
regras se subdividem em elementos normativos e códigos de significação e os recursos em
autoritativos e alocativos que, por sua vez, respectivamente, constituem as estruturas de
legitimação, significação e de dominação. Meurer (2000, p. 157) propõe que, “tipicamente, as
estruturas de significação e legitimação são realizadas através de textos específicos que, por
sua vez, refletem e reproduzem diferentes discursos”. Poderíamos assim representar a relação
dialógica entre regras e recursos na estruturação social:
Estrutura Social
Regras
Recursos
Elementos
Normativos
Códigos de
Significação
Alocativos
Autoritativos
Condutas Sociais
Significado Social
Posses Materiais
Coordenação de Atividades
Humanas
Estruturas de
Legitimação
Estruturas de
Significação
Estruturas de Dominação
Instituições Legais
Discurso
Hegemonias Políticas, Econômicas, Intelectuais.
Tabela 1. Relação Dialógica entre Estrutura Social e Aspectos da Vida Social com base em
Giddens (1984) e Meurer (2004b)
5
Segundo Meurer (2004b, p. 90), “as regras e recursos constituem o meio pelo qual nossas práticas sociais
surgem. Em outras palavras, os indivíduos agem no mundo por meio de textos ou fazem uso deles recriando
estruturas sociais específicas”.
1711
O autor ainda retoma que “a sociedade em si constitui uma estrutura e os eventos
sociais – incluindo os gêneros – constituem estruturas menores que tomam forma, são
reproduzidas e/ou vão mudando paulatinamente, dentro da estrutura social”. A linguagem é
uma forma de prática social, as formas discursivas e estruturas sociais se influenciam
mutuamente (FAIRCLOUGH, 1992; 1994a). Dessa forma, podemos dizer que os diferentes
gêneros do discurso são orientados por diferentes regras e recursos que constituem seu
sentido.
Segundo Giddens (1984, p. 20-21),
ao analisar a estruturação de sistemas sociais significa estudar os modos como tais
sistemas, fundamentado nas atividades de atores localizados que se apóiam em
regras e recursos na diversidade de contextos de ação, são produzidos e reproduzidos
em interação [...]. De acordo com a teoria da estruturação, o momento de produção
da ação é também um momento de reprodução nos contextos de desempenho
cotidiano da vida social, mesmo durante as mais violentas convulsões ou as mais
radicais formas de mudança social. [...] Ao reproduzirem as propriedades estruturais,
para repetir uma frase usada anteriormente, os agentes também reproduzem as
condições que tornaram possível essa ação. A estrutura não tem existência
independente do conhecimento que os agentes possuem a respeito do que fazem em
sua atividade cotidiana.
A proposta de Giddens (1984, p. 23) distingue, dessa forma, três dimensões estruturais
dos sistemas sociais de interação que podem ser assim representados:
Significação
Dominação
Legitimação
Estrutura
Comunicação
Poder
Sanção
Interação
Tabela 1. Relação entre Estrutura e Interação das Ações Sociais Cotidianas.
Outra questão fundamental para compreensão da relação entre discurso e estruturação
social é a discussão sobre contexto imediato e cultural. Eggins (1994) procura compreender,
na relação entre gênero e contexto, “o como as pessoas usam a linguagem e como essa
linguagem é estruturada para o uso”6 (idem, p. 25). Em outras palavras, é buscar entender
como a linguagem em uso atinge determinados objetivos sócio-construídos em determinadas
interações interpessoais nos determinados e específicos contextos. Gêneros, assim, podem ser
definidos como atividades construídas e reconhecidas socialmente.
Eggins (1994, p. 26, citando MARTIN, 1984, p. 25) afirma que, “os gêneros são
atividades definidas por estágios, objetivos e propósitos nos quais os interactantes se
envolvem e se engajam como membros de [uma determinada] cultura”7. Por outro lado e em
interdependência ao contexto cultural, os gêneros se definem a partir de seu contexto imediato
ou situacional de mediação. Segundo a autora, o contexto situacional ou imediato se define a
partir de três variantes: (a) o campo, (b) a relação e (c) o modo. 8 As três variáveis do contexto
situacional constituem o registro9 do gênero. Dessa forma, podemos entender que, a forma
como nos comunicamos está intimamente relacionada com a representação social que
fazemos da realidade e as funções que a linguagem desempenha nessas representações. Com
isso, as três variantes do registro estão intimamente relacionadas com as três metafunções
apresentadas por Halliday (1994). Eggins (1994, p. 78-79) discute a inter-relação entre
variáveis do registro e metafunções, que poderia ser assim esquematizado:
6
Tradução do autor.
Tradução do autor.
8
Em inglês, field, tenor e mode respectivamente.
9
Em inglês register.
7
1712
Variável
Metafunção
Campo
Ideacional
Relação
Interpessoal
Modo
Textual
Significação
A representação da ação social mediada pela linguagem enquanto
prática social. A realização de significações experienciais.
A determinação dos participantes envolvidos da interação mediada
pela linguagem enquanto prática social. A realização de
significações intersociais.
O reconhecimento da organização coesiva e coerente da mensagem
lingüístico-textual mediada pela linguagem enquanto prática social.
A realização de significações textuais.
Tabela 2. A Inter-relação entre Variáveis do Contexto Situacional e Metafunções da
Linguagem com base em Eggins (1994).
4. Práticas Sociais
As práticas sociais moldam o uso da linguagem em determinados eventos
comunicativos tipificados, os quais denominamos gêneros. É a partir disso que Marcuschi
(2002; 2005) enfatiza o papel da prática social na produção da linguagem na forma de
gêneros, já que para o autor, “os gêneros servem para ordenar, e estabilizar as atividades
humanas” (p.17).
Entendo que todo gênero insere-se em uma determinada prática social, que por sua
vez, determina seus propósitos e funcionamento a partir da linguagem, havendo uma relação
recíproca de constituição entre práticas sociais e linguagem. A esse respeito Marcuschi (2002,
p.19) afirma que, “precisamos [...] trabalhar com a linguagem em funcionamento com
critérios dinâmicos de natureza ao mesmo tempo social e lingüística [...] não podemos tomálos como peças que sobrepõem às estruturas sociais”.
Outro aspecto importante a ser retomado acerca da discussão sobre práticas sociais e
linguagem nos estudos de gêneros é o fato do gênero realizar-se em textos, isto é, ações
sociais. Faraco (2003, p.112 citado em MARCUSCHI, 2002, p.23) retomando Bakhtin
ressalta a importância das práticas sociais, afirmando que na perspectiva bakhtiniana, “os
gêneros do discurso e atividades sociais são mutuamente constituídas”.
Meurer (2005, p. 92) pontua que, “ao mesmo tempo em que uma prática social pode
repetir ou reforçar práticas anteriores, pode também questionar, desafiar e mudar práticas
anteriores”. Para o autor, “práticas sociais são o que as pessoas de fato fazem, isto é, as
atividades que se engajam, assim como o modo como conduzem suas vidas na sociedade [...]”
10
(MEURER, 2004b, p. 88).
Em suma, entendo que atentar para a importância das práticas sociais na realização da
linguagem contribui para compreendermos as próprias funções sociais, dinamicidade e as
relações humanas envolvidas nessa realização. E entendermos que todo gênero é estruturador
da cultura, e para entendê-lo, devemos perceber que a cultura envolve práticas sociais
localizadas que são, por sua vez, mediadas pela linguagem.
Práticas sociais são vistas como reflexo da realidade; a prática social possui uma
relação ativa com o real, muda a realidade, isto é, há uma dialética social, pois as estruturas
sociais não só realizam as práticas sociais e discursivas, como também são produto delas.
10
Tradução do Autor.
1713
5. Gêneros no Ensino/Aprendizagem da Linguagem
Usamos a linguagem constantemente em diferentes práticas socais: estabelecendo
relações sociais, organizando e estruturando experiências, (re)construindo identidades,
desenvolvendo conhecimento (ver FAIRCLOUGH, 1992; 1995). Para Bazerman et. al (2005,
p. 19), nessas atividades diárias, as pessoas criam novas realidades de significação, relações e
conhecimentos,[e fazem isso] por meio de textos. De acordo com o autor, esses textos são
produzidos numa seqüência de eventos que, por sua vez, são compostos por fatos sociais cuja
principal característica é apresentarem-se estruturados, tipificados na forma de gêneros.
Relacionado à pedagogia das línguas, percebemos que, por muito tempo, as aulas de
línguas estavam condicionadas a meras exposições ou simples manipulações de regras,
normas, esquemas gramaticais, que não só ocultavam o valor social da linguagem, como
também apostavam em métodos compensatórios e desestimulantes de ensino. Atividades
descontextualizadas aliadas a discursos convencionais.
Entretanto, pesquisas recentes têm contemplado práticas socioculturais no ensino de
línguas: reflexividade de professores, identidade de alunos e professores, classe social,
gênero, raças e etnias passaram a ser fundamentos essenciais na atividade de ensinar e
aprender (por exemplo, os PCN). Nessa perspectiva, um programa de disciplina que privilegie
o uso de gêneros do discurso, destina-se não apenas a entender linguagem como uma prática
social como também proporcionar um espaço de investigação científica que considere o
exercício docente um processo no qual conceitos como linguagem, discurso, gênero e
sociedade tornam-se a base para o trabalho.
Entendo que um programa sob a perspectiva discursiva dos gêneros vem a oportunizar
uma discussão relevante entre linguagem e comunicação social, visto que a comunicabilidade
é uma característica fundamental da língua. Nesse contexto, compreender os eventos
comunicativos, é saber relacionar as diferentes atividades humanas sociais (cuja característica
é apresentarem-se tipificadas) com os diversos gêneros que compreendem essas atividades.
Vejo que se utilizar de gêneros como um instrumento de compreensão das diversas atividades
humanas na prática pedagógica fortalece não apenas a identificação e entendimento dos
diversos papéis e posições sociais das quais nos encaixamos (por exemplo professor-aluno)
como também das diferentes relações das quais participamos. Entendo que nossa identidade
se constrói pelo discurso, espaço no qual os diferentes “gêneros moldam [nossas] intenções,
motivos, expectativas, atenção, percepção, afeto [...] aumentando nossa própria consciência da
vida” (Bazerman, 2005, p. 102,103).
Em síntese retomo a importância da compreensão da linguagem e da sua relação com
o social no ensino de línguas, contribuindo para uma prática relevante e que esteja de acordo
com os princípios de um ensino comunicativo. Proporcionar espaços de discussão sobre a
prática lingüística é entender que interagimos pela linguagem nos constituindo, constituindo o
outro e à nossa vida social, questões estas que um programa de ensino/aprendizagem
discursivo e sob o escopo dos gêneros do discurso objetiva considerar.
A seguir proponho uma análise do gênero capa de revista da mídia do jornalismo
magazine com o objetivo de apresentar subsídios para uma modelização e planejamento
didáticos que privilegie a perspectiva discursiva dos gêneros.
6. Análise – Modelização Didática no Gênero Midiático Capa de Revista
A modelização pode ser considerada como uma análise prévia do gênero como
subsidio para o planejamento e desenvolvimento de atividades como base no gênero
escolhido. Segundo Rojo (2001, p. 313-314),
1714
claramente, a elaboração de projetos educativos de escola – dentre outros aspectos,
mas de maneira central – a capacidade de eleger metas e objetivos e de organizar
ações para atingi-los, acompanhando sua consecução e reorganizando-as na medida
do necessário. Isto é, envolve, centralmente, a capacidade de planejar. No caso do
planejamento educacional, esse ainda exige a capacidade de definir, selecionar e
organizar “conteúdos” que deverão ser tematizados por meio de ações didáticas
distribuídas no tempo e no espaço escolar. Para tal, quase sempre a modelização
didática é necessária.
Dessa forma, o planejamento de atividade requer uma organização de objetivos a
serem alcançados com a escolha de um determinado gênero. Sua análise prévia auxilia o
professor na determinação das regularidades lingüístico-discursivas que podem ser
investigadas e estudadas com o gênero escolhido. Abaixo apresento as capa de revista
escolhidas para análises.
Sugestão I
Capa 1 Capa 2 Capa 3
20/8/2003 13/7/2005 10/5/2006
Apresento algumas considerações acerca da análise sistêmico-funcional das imagens
que compõem o gênero capa de revista. O objetivo é discutir considerações sociossemióticas
das imagens que compõem as capas de revista com base em Kress e van Leeuwen (1996),
Callow (1999) e Unsworth (2001).
1715
Metafunção
Ideacional Natureza dos
Eventos
Representados pela
Imagem.
Capa 1
Capa 2
Capa 3
Participantes - Ícones,
figuras, lugares, objetos
e pessoas que aparecem
nas imagens.
Presidente Luis Inácio
Lula da Silva.
Objetivou-se destacar
Lula como temática
central da capa. Dessa
forma, Lula apresenta-se
como participante
central do gênero.
Presidente Luis Inácio
Lula da Silva; cédulas de
dólares; uma pessoa.
Objetivou-se apresentar
o presidente como tópico
central da capa.
Presidente Luis Inácio
Lula da Silva; uma sola
de sapatos. O presidente
é o ícone central da capa.
É o destaque.
Processos - Vetores da
imagem, linha dos olhos,
posição do corpo,
ferramentas em ação.
Os olhos de Lula estão
direcionados diretamente
ao público leitor.
Construção de uma
representação
conceitual11, pois está
presente apenas um
participante e não há
vetores. Esta construção
causa um efeito de
atenção entre
participante e leitor,
busca-se a aproximação
entre o participante e o
público.
Apresentação de
aspectos do fundo da
capa, gravata, camisa.
Aspectos secundários
das informações contidas
na capa.
Os olhos de Lula não se
direcionam ao público
leitor. É uma construção
conceitual. Apresenta-se
apenas um participante.
Esta construção provoca
uma significação de
impessoalidade.
Lula está de costas. É
uma construção
conceitual. Apresenta-se
apenas um participante.
A imagem provoca
indiferença.
Apresentação de
aspectos do fundo da
capa, gravata, camisa.
São aspectos pouco
relevantes apresentados
na capa.
Apresentação de
aspectos do fundo da
capa, gravata, camisa.
Aspecto secundário das
informações da capa.
Circunstâncias Localidade, ambiente,
meios,
acompanhamentos;
participantes que
poderiam ser retirados
sem afetar a construção
de significado das
imagens.
Tabela 3 – A Metafunção Ideacional nas Imagens.
11
Há as construções narrativas que servem para construir e apresentar no discurso não-verbal as ações ou
eventos. Sua configuração se dá por meio de vetores. Por outro lado, há as construções conceituais que servem
para apresentar estados, estruturas, classes, qualidades e significados.
1716
Metafunção
Interpessoal Natureza das
Relações
Sociointeracionais
construída pela
Imagem.
Capa 1
Capa 2
Capa 3
Interação e Contato -
Relação pessoal com o
leitor.
Relação impessoal com
o leitor.
Construção de
indiferença e abandono.
Contato
Interacional
relaciona-se
com
a
construção visual de
participantes com olhar
direto ou não aos
espectadores. Em outras
palavras, o sistema de
contado é configurado
em discurso visual por
meio do olhar do
participante
principal
(em movimento direto
ou indireto).
Os vetores estão em
direção reta ao leitor.
Procura-se construir um
convite sintético para
com o leitor, incitando-o
a participar da interação
com
o
participante
(Lula). A personificação
sintética se constrói
pelos vetores retos à
procura por atenção do
leitor.
Chama-se
‘demanda’, a construção
pessoal.
Íntimo = Aproximado
(close up)
Não há um movimento
de vetores entre o Lula e
os leitores em ângulo
reto.
O que pode construir
uma significação de
indiferença, afastamento
com os leitores. Chamase ‘oferta’ a construção
impessoal.
Íntimo = Aproximado
(close up)
Impessoal = Afastado
(long shot)
Atitude
Plano
Frontal
Envolvimento
=
Plano Oblíquo = Não –
envolvimento
Costas - Abandono
Poder
Ângulo dos
Igualdade
=
Ângulo dos
Igualdade
Ângulo Alto = Poder do
Espectador
Distância Social
olhos
Tabela 4– A Metafunção Interpessoal nas Imagens
1717
olhos
=
Metafunção
Textual
Significações
construídas
Imagem
Capa 1
Capa 2
Capa 3
pela
Valor da informação: o
lugar dos elementos está
de acordo com seu valor
funcional
ligado
às
várias zonas do layout
do texto visual.
Esquerda = Novo =
Discurso citado em caixa
alta;
Esquerda = Novo =
Pergunta Retórica em
caixa alta.
Esquerda = Novo =
Presidente Lula levando
um chute.
Direita
=Velho/conhecido = O
Presidente Lula.
Direita
=Velho/conhecido =
Presidente Lula
Direita
=Velho/conhecido =
Pergunta Retórica.
O sistema de informação
está de acordo com a
posição dos participantes
representados
nas
diferentes
áreas
da
imagem.
Topo = Ideal = VEJA
Topo = Ideal = VEJA
Topo = Ideal = VEJA
Embaixo = Real =
Informações
secundárias.
Embaixo = Real =
Informações
secundárias.
Embaixo = Real =
Informações
secundárias.
Centro = Principal =
Lula
Centro = Principal =
Lula
Margens = Dependente
= Informações
relacionadas ao Lula.
Margens = Dependente
= Informações relativas.
Esquerda = Novo
Direita
=Velho/conhecido
Topo = Ideal
Embaixo = Real
Centro = Principal
Margens = Dependente
Centro = Principal =
Lula
Margens = Dependente
= Informações relativa
Tabela 5 - A Metafunção Textual nas Imagens.
Cabe ressaltar que uma análise completa dos gêneros sob o escopo da ACD e da GSF
requer, em adição, uma análise da linguagem verbal do gênero. Porém, nesse trabalho dedico
as discussões apenas à construção visual do gênero capa de revista. O ensino de línguas no
Brasil ainda tem desconsiderado aspectos imagéticos como recursos a serem explorados na
sala de aula. Deveríamos reconhecer a importância da multimodalidade ao nosso redor e o
quanto às imagens constroem significados sociais. As tabelas acima apresentam
resumidamente algumas das várias considerações que podem ser identificadas na construção
das imagens com base na Gramática do Design Visual de Kress e van Leeuwen (1996).
O que se pretende, nessas breves identificações analíticas, é uma
demonstração/sugestão de como uma análise prévia dos gêneros escolhidos para se trabalhar
leitura crítica na sala de aula pode contribuir para uma exploração do texto que correlacione o
lingüístico-discursivo e o social.
Dessa forma, poderemos discutir como o texto materializa a realidade social e como,
por meio de recursos discursivos, reproduz ou (re)constrói determinados pontos de vista e
ideologias. É claro que se torna fundamental a reflexão de professores sobre o uso de gêneros
do discurso na escola.
É preciso conhecer aspectos teórico-metodológicos relativos aos gêneros do discurso
para que não se reduza a uma abordagem ascendente ou descende de leitura. O importante na
análise prévia do gênero é perceber que o ensino de línguas com base em gêneros do discurso
não prevê a anulação do ensino de gramática, pelo contrário, procura conciliar por meio da
gramática ‘forma e função’, ou seja, identificar e compreender como recursos léxicogramaticais estão a serviço dos diversos objetivos intencionais dos interlocutores.
1718
O que se objetiva é uma preocupação com a metaconsciência sobre o papel de sujeitos
agentes e críticos na sociedade. Dessa forma, para professores e professores em formação
torna-se essencial propiciar espaços de investigação que considere o contexto sociocultural e a
atividade de ensinar e aprender a partir das experiências sociais de alunos.
8. Considerações Finais
Diferentes perspectivas teórico-metodológicas e aplicadas estão sendo desenvolvidas
em pesquisas sobre análise de gêneros no Brasil e no exterior. Contudo, todas privilegiam o
papel do social em relação bidirecional com a linguagem enquanto discurso. Dessa forma,
atentar para a inter-relação lingüístico-social, é compreender como a linguagem se apresenta
enquanto prática social de mediação.
Esse trabalho procurou mostrar como é possível explorar a multimodalidade na sala de
aula aliada a questões de cunho social e discursivo. Buscou-se, em adição, discutir como se dá
a socioconstrução do contexto de uso da linguagem, assim como essa linguagem está em
relação dialógica de mútua constituição com a estruturação social. Em síntese, apresentaramse considerações metodológicas e aplicadas do ensino de leitura crítica com base em gêneros
da mídia do jornalismo de revista com o intuito de não apenas explorar o verbal, mas a
multimodalidade presente no uso diário da linguagem.
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