UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS DEPARTAMENTO DE GEOLOGIA PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOLOGIA E GEOFÍSICA MARINHA A TECTÔNICA GRAVITACIONAL NO CONE DO AMAZONAS: COMPARTIMENTAÇÃO ESTRUTURAL E MECANISMOS CONTROLADORES VALTERLENE DE OLIVEIRA Dissertação de Mestrado Maio / 2005 O48 Oliveira, Valterlene A tectônica gravitacional no Cone do Amazonas: compartimentação estrutural e mecanismos controladores/ Valterlene Oliveira. - Niterói : s.n., 2005. 83p. Dissertação (Mestrado em Geologia e Geofísica Marinha) – Universidade Federal Fluminense, 2005. 1.Tectônica Gravitacional 2. Cone do Amazonas I.Título. . CDD 551.8 VALTERLENE DE OLIVEIRA A TECTÔNICA GRAVITACIONAL NO CONE DO AMAZONAS: COMPARTIMENTAÇÃO ESTRUTURAL E MECANISMOS CONTROLADORES Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Geologia e Geofísica Marinha da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtensão do Grau de Mestre em Ciências, Área de Concentração: Geologia e Geofísica Marinha. Orientador: Profº. Dr. Cleverson Guizan Silva Co-orientador: Profº. Dr. Antonio Tadeu dos Reis NITERÓI 2005 “Algo só é impossível até o momento que alguém duvida e resolve provar o contrário.” Albert Einstein À minha Mãe. Resumo O Cone do Amazonas, parte da Bacia da Foz do Amazonas, é intensamente afetado por processos de tectônica gravitacional (shale tectonics). A análise de cerca de 9000 Km de sísmica multicanal possibilitou a confecção de uma série de mapas: estrutural, de morfologia da superfície de destacamento, e de isópacas do pacote sedimentar que representa o Cone do Amazonas (Neomioceno-Recente). Três domínios estruturais principais foram identificados na região: um domínio proximal extensivo, que se estende desde a quebra da plataforma até aproximadamente a cota batimétrica de 500 m; um domínio intermediário que translada talude abaixo de forma rígida e um domínio contracional distal que cobre uma área entre a cota batimétrica de 1500 m e 2500 m. O domínio extensivo caracteriza-se pela presença de falhas lístricas sintéticas e rollovers associados; enquanto o domínio contracional caracterizase por falhas de empurrão, por vezes aflorantes. Esse sistema de deformação superficial extensiva encontra-se ancorado num nível basal de destacamento localizado na base da sequência Neomiocênica. O sistema tectono-gravitacional da região pode ser ainda dividido em dois compartimentos estruturais principais: um sudeste e um noroeste. O Compartimento Sudeste caracteriza-se por um sistema gravitacional mais estreito (cerca de 115 km de largura), e geograficamente mais restrito ao talude continental, estendendo-se até aproximadamente 1500 m de profundidade;. já o Compartimento Noroeste caracteriza-se por um sistema gravitacional mais amplo (cerca de 152 km de largura), que se estende até cerca de 2500 m de profundidade. A morfologia da superfície de destacamento (base da camada de folhelhos) parece desempenhar importante papel condicionador no desenvolvimento do arcabouço estrutural da região, pois observa-se que as falhas extensionais estão localizadas na porção de maior gradiente da superfície de destacamento, enquanto as falhas de empurrão encontram-se na porção onde há importante quebra de gradiente. O mecanismo de sobrecarga sedimentar diferencial é outro fator que apresenta-se como condicionante do arcabouço estrutural da região, pois as estruturas extensivas encontram-se na região de maior espessura sedimentar, ao passo que as falhas de empurrão encontram-se nas bordas do depocentro (limites da sobrecarga). ii Abstract The Amazon Cone, located on the Amazon Mouth Basin, is intensely affected by gravitydriven tectonics (shale tectonics). In this work, approximately 9000 km of multichannel seismic reflection lines were analysed, which enabled us to create a series of maps: a structural map, a map of the morphology of the detachment surface and an isopach map of Neomiocene–Recent sedimentary cover. Three main structural domains were identified in the region: a proximal extensional domain, from the shelf edge to a depth of 500 m, an intermediate domain that translates down slope in a rigid way and a contractional domain which covers an area from approximately 1000 m to 1500 m in water depth. The extensional domain is characterised by synthetic listric faults and rollovers while the contractional domain presents thrust faults. The Amazon Cone thin-skinned extensional system detaches over a surface located at the base of the Neomiocene sequence. It is divided in two main compartments: the South-eastern Compartment and the North-western Compartment. The South-eastern Compartment is a narrow gravitational system (115 km wide), geographically limited to the continental slope reaching up to 1500 m in water depth. The North-western Compartment is a wider gravitational system (152 km wide), reaching up to 2500 m in water depth. The morphology of the detachment surface (base of the shale layer under pressure) seems to represent an important role in the development of the structural framework of the area. Extensional faults are located in the region of higher gradient of the detachment surface, while the thrust faults are in the region of lower gradient. The mechanism of differential sedimentary overload is another important factor of development of the structural framework in the region, because the extensional structures are located in the thickest part of the depocentres and the thrust faults are located on the boarders of the depocentres. iii Agradecimentos Meus sinceros agradecimentos ao meu orientador Cleverson Silva, por todo o apoio que me foi dado durante a realização desse trabalho e a quem tenho um grande carinho. Ao meu co-orientador Tadeu dos Reis, agradeço de forma especial, por ter sido um grande amigo e pela paciência em passar-me seus conhecimentos não só referentes a dissertação mas também de vida. Às minhas amigas Beatriz, Piscuilinha (Priscila) e Valdenira, por toda a ajuda que me deram, não somente no trabalho, mas principalmente com as palavras de incentivo nos momentos de alto estresse que passei. À Jenny por ter sido mais que “a secretária” ter sido uma amiga e psicóloga disposta e me ouvir nos dias em que eu a alugava para desabafar. À Eneida e Patrícia por todas às vezes em que me foram solícitas quando precisava de algo na secretaria. Aos meus colegas da sala de doutorado, David, Fred e Lázaro pelo apoio e companhia dentro e fora do Lagemar. Agradeço a toda família Lagemar (Professores, alunos e funcionários) por ter me acolhido e dessa forma amenizado a saudade da minha família. Agradeço a Empresa Gaia pela disponibilização de parte das seções sísmicas utilizados no trabalho. À Diretoria de Hidrografia e Navegação da Marinha do Brasil, pelo fornecimento das seções sísmicas do projeto LEPLAC. À Agência Nacional do Petróleo pelo suporte financeiro através do Programa de Recursos Humanos para o Setor de Petróleo e Gás – PRH – ANP/ MCT. À todos os meus amigos de Salvador que não estão perto fisicamente mas que sempre incentivaram meus propósitos (Silvana, Iêda Maria, Kátia Abdalla, Julice, Joceane, Karine e Miguel). À minha professora e amiga Angela Beatriz Menezes Leal, agradeço de todo o meu coração por ter acreditado em mim e me apoiado no momento em que decidi fazer esse mestrado. Valeu Angela! Agradeço principalmente à minha Família por acreditar em mim e respeitar todas as minhas decisões. Agradeço mais que especialmente a minha Mãe, a quem devo tudo em minha vida. A pessoa mais forte e digna que conheço e que me ensinou a ser verdadeira e perseverante nos meus objetivos. Mãe, eu te amo muito. iv Sumário Resumo .................................................................................................................... ii Abstract ................................................................................................................... iii Agradecimentos ..................................................................................................... iv Sumário ............. ..................................................................................................... v Índice de Figuras .................................................................................................... viii Introdução ……………………………………………………………………...... 1 Capítulo I ............................................................................................................... 2 1.1 Área de Estudo .................................................................................................. 2 1.2 Base de Dados ................................................................................................... 2 1.2.1 Batimetria ....................................................................................................... 2 1.2.2 Sismica de reflexão multicanal ...................................................................... 4 1.3 Metodologia ...................................................................................................... 5 1.3.1 Interpretação dos perfis sísmicos ................................................................... 5 1.3.2 Processamento dos dados (Confecção dos Mapas )........................................ 6 1.3.2.1 Batimetria .................................................................................................... 6 1.3.2.2 Confecção de mapas temáticos (Mapas da Morfologia da Superfície de Destacamento e de Isópacas) .................................................................................. 6 1.3.2.3 Confecção de perfis morfológicos da Superfície de Destacamento e de espessura da cobertura sedimentar Neomioceno-Recente ...................................... 7 Capítulo II .............................................................................................................. 9 Caracterização Regional ....................................................................................... 9 2.1 Bacia da Foz do Amazonas ............................................................................... 14 2.2 O Cone do Amazonas ....................................................................................... 17 2.3 - Estudos Prévios sobre a Tectônica Gravitacional na Região do Cone do Amazonas ................................................................................................................ 19 v Capítulo III ............................................................................................................ 25 A Tectônica Gravitacional: uma revisão ............................................................ 25 3.1 Estruturas Geradas na Deformação Superficial Extensiva ................................ 27 3.2 Mecanismos que influenciam o arcabouço estrutural da tectônica gravitacional ............................................................................................................ 29 3.2.1 Sobrecarga Sedimentar Diferencial ............................................................... 29 3.2.2 Morfologia da superfície basal de destacamento (morfologia do substrato pré-salífero) ............................................................................................................. 31 3.2.2.1 Topografia Residual do Substrato ............................................................... 33 3.3 Comparação entre estilos de deformação e o comportamento mecânico associados com folhelhos móveis e sal ................................................................... 34 3.4 Diferenças nos etilos estruturais de acordo com as características reológicas e densidade do sal e do folhelho ................................................................................ 37 Capítulo IV ............................................................................................................ 41 A Tectônica Gravitacional no Cone Do Amazonas ............................................ 41 4.1 Análise do Arcabouço Estrutural do Sistema Gravitacional do Cone do Amazonas ................................................................................................................ 42 4.1.1 Análise do estilo estrutural da tectônica gravitacional do Cone do Amazonas ................................................................................................................ 43 4.1.1.1 Estruturas observadas no Domínio Extensivo ..........................…….......... 47 4.1.1.2 Estruturas observadas no Domínio Contracional.....................……............ 49 4.1.2 Compartimentação Estrutural da Tectônica Gravitacional do Cone do Amazonas ......................................................................................................…..... 51 4.1.2.1 O Compartimento Sudeste................................................................……... 52 4.1.2.2 O Compartimento Noroeste .........................................................…...….... 54 4.2 Parâmetros que influenciam o estilo estrutural da tectônica gravitacional no Cone do Amazonas ................................................................................................. 60 4.2.1 Morfologia da Superfície Basal de Destacamento .....................................… 60 4.2.2 Mapa de Isópacas da Cobertura sedimentar Neomioceno –Recente .........… 65 vi Capítulo V…………………………………………………………...................… 69 Discussão e Conclusões …………………………………………………………. 69 5.1 Discussão …………………………………………………………………….. 69 5.2 Conclusões …………………………………………………………………… 74 Perspectivas Futuras ....................................................................................…… 76 Referências Bibliográficas ……………………………………………………… 78 vii Índice de Figuras Figura 1-1. Localização da área de estudo ..................................................................... 3 Figura 1-2. Mapa com a localização dos perfis sísmicos ............................................... 4 Figura 1-3. Perfil sísmico interpretado com a estruturação, a superfície de destacamento e a camada móvel ...................................................................................... 8 Figura 2-1. Os diferentes estágios evolutivos de uma margem transformantes ............... 11 Figura 2-2. Padrão morfológico das bacias associadas a transcorrência.......................... 12 Figura 2-3. Distribuição das bacias sedimentares na Margem Equatorial Brasileira ...... 13 Figura 2-4. Limites oceânicos da Bacia da Foz doAmazonas ......................................... 14 Figura 2-5. Carta estratigráfica da Bacia da Foz do Amazonas ....................................... 16 Figura 2-6. Feições morfológicas e limites fisiográficos do Cone do Amazonas ............ 18 Figura 2-7. Mapa de zoneamento das provincias estruturais do Cone do Amazonas ...... 20 Figura 2-8. Perfil estrutural esquemático da Região do Cone do Amazonas. ................. 21 Figura 2-9. Mapa estrutural da região do Cone do Amazonas ......................................... 22 Figura 2-10. Perfil sísmico interpretado exibindo as superfícies de destacamento ......... 23 Figura 2-11. Modelo esquemático de geração da estruturação no Cone do Amazonas ... 23 Figura 2-12. Perfil Interpretado exibindo a disposição das estruturas no Cone do Amazonas observadas por Cobbold et al., 2004 .............................................................. 24 viii Figura 3-1. Evolução esquemática do mecanismo de deslizamento gravitacional, proposto por Vendeville (1987) ...................................................................................... 26 Figura 3-2. sistemas simples ilustrando o conceito geralmente aceito de deslizamento gravitacional (Ramberg, 1980, 1981 apud Schultz-Ela, 2000) ...................................... 27 Figura 3-3. Modelo idealizado de estruturação em uma bacia afetada pela tectônica salífera, levemente modificado de Morley e Guerin (1996) .......................................... 28 Figura 3-4. Modelo de estruturação no Delta do Niger (Hooper et al., 2002) ............... 28 Figura 3-5. Correlação entre as estruturas geradas pelo modelo analógico e uma grande falha antitética na Bacia de Santos, Brasil .......................................................... 30 Figura 3-6. Correlação entre as estruturas extensivas geradas pelo modelo (A) analógico por Vendeville, 1987, e um exemplo real ilustrado pela reflexão sísmica (B) – Fundo marinho do Petit Rhone (Reis, 2001)................................................................. 31 Figura 3-7. Modelo analógico simulando deslizamento gravitacional radial divergente (Cobbold e Szatimari, 1991) ............................................................................................ 32 Figura 3-8. (A, B, C) Resultados dos modelos analógicos que ilustram o papel da 33 topografia residual (Gaullier et al., 1993) ........................................................................ Figura 3-9. Falhas de empurrão formadas sobre a Zona de Fratura de Charcot (Wu e Bally, 2000)....................................................................................................................... 34 Figura 3-10. Modelos idealizados de estruturação formada pelo folhelho e pelo sal, levemente modificados de Morley e Guerin (1996)......................................................... 35 Figura 3-11. Resultados de dois modelos experimentais mostrando os efeitos da reologia do décollement no estilo estrutural .................................................................... 37 ix Figura 3-12. Falhas de empurrão na bacia off-shore Pará–Maranhão ............................. 38 Figura 3-13. Estilos estruturais desenvolvidos em décollement de camadas de sal …… 39 Figura 3-14. Estilos estruturais desenvolvidos sobre décollement de folhelhos .............. 40 Figura 4-1. Mapa com os limites aproximados das províncias fisiográficas do Cone do Amazonas ........................................................................................................................ 41 Figura 4-2. Mapa ilustrativo dos domínios estruturas no Cone do Amazonas .............. 42 Figura 4-3. Perfil sísmico com a interpretação da camada móvel e da superfície basal de destacamento................................................................................................................ 45 Figura 4-4. Perfil sísmico que abrange a área da plataforma ........................................... 46 Figura 4-5. Estruturas características do domínio extensional.......................................... 47 Figura 4-6. Mapa com a disposiçao das estruturas que compõem o sistema de deformação gravitacional existente no Cone do Amazonas ........................................... 49 Figura 4-7. Estruturas características do domínio contracional........................................ 50 Figura 4-8. Mapa com a compartimentação estrutural .................................................... 51 Figura 4-9. Perfil sísmico onde é observado a existência de escarpamentos formados por falhas normais lístricas ativas no Compartimento Sudeste....................................... 53 Figura 4-10A. Perfil sísmico com escarpamentos formados por falhas normais lístricas ativas e por falhas reversas ativas no Compartimento Noroeste............................................................................................................................ 55 x Figura 4-10B. Escarpa formada por falha normal lístrica ativa no Compartimento Noroeste ........................................................................................................................... 56 Figura 4-11. Perfil sísmico onde é observada um maior distanciamento das estruturas 57 após uma falha ativa. Compartimento Noroeste .............................................................. Figura 4-12. Perfil sísmico com a presença de altos topográficos e sub-bacia associada 58 formado por falhas de empurrão ativas no Compartimento Noroeste ............................. Figura 4-13. Perfil sísmico mostrando a formação de sub-bacias e a estruturação das 59 camadas sedimentares dentro delas (Compartimento Noroeste) ..................................... Figura 4-14. Mapa morfológico da superficie basal de destacamento ta tectônica 61 gravitacional do Cone do Amazonas................................................................................ Figura 4-15. Mapa da superfície de destacamento coma as direções gerais do 61 gradiente........................................................................................................................... Figura 4-16. Mapa da superfície de destacamento coma as direções gerais do gradiente 62 Figura 4-17. Perfil da superfície basal de destacamento em conjunto com a a superfície do fundo submarino no Compartimento Sudeste.............................................................. 63 Figura 4-18. Perfis 2 e 3 da superfície basal de destacamento em conjunto com a superfície do fundo submarino no Compartimento Noroeste.......................................... 64 Figura 4-19. Mapa de isópacas do Cone do Amazonas.................................................... 65 Figura 4-20. Mapa de isópacas do Cone do Amazonas conjugado com as estruturas ..... 67 Figura 5-1. Mapa das prvincias fisiográficas do Cone do Amazonas com a distribuição das estruturas nos Compartimentos Noroeste e Sudeste .................................................. 75 xi Introdução ____________________________________________________________________________________________________ Introdução O presente trabalho está inserido na área de estudo de margens continentais passivas e concentra a pesquisa no estudo da Tectônica Gravitacional. Estudos sobre a tectônica gravitacional em bacias marginais receberam um grande impulso no final da década de oitenta, devido a sua importância para a evolução de bacias petrolíferas de diversas partes do mundo (Bacia de Campos, Bacia de Santos, Golfo do México, Delta do Niger). O trabalho aqui apresentado procura responder algumas questões sobre a tectônica gravitacional atuante na região do Cone do Amazonas, localizado na margem equatorial brasileira. O estudo objetiva a caracterização do arcabouço estrutural gerado por essa tectônica, assim como os mecanismos controladores da deformação superficial extensiva na área. Na tentativa de solucionar essas questões, esse trabalho de Dissertação de Mestrado apresenta cinco capítulos, dispostos da seguinte forma: No Capítulo I é apresentada a localização da área de estudo, como também a base de dados utilizada e a metodologia empregada na elaboração do trabalho. O Capítulo II apresenta uma pesquisa sobre a Geologia Regional da área, com um breve histórico da evolução da margem equatorial brasileira, finalizando com a apresentação de trabalhos anteriores relacionados à tectônica gravitacional no Cone do Amazonas. No Capítulo III é feita uma compilação bibliográfica sobre modelos da deformação superficial extensiva baseados em dados de perfis sísmicos e de modelagem analógica. Seguindo este capítulo, são apresentados os resultados do trabalho num contexto estrutural, Capítulo IV. E, finalizando, no Capítulo V, são apresentados sobre a forma de conclusão os principais resultados desse trabalho. 1 Capítulo I – Área de Estudo, Base de Dados e Metodologia ____________________________________________________________________________________________________ Capítulo I Área de estudo, Base de Dados e Metodologia 1.1 – Área de estudo A área de estudo está localizada na porção equatorial da margem continental brasileira, na região referente ao Cone do Amazonas, mais precisamente na porção superior do cone, entre as coordenadas 0° e 6° N e 47° e 51° W (figura 1-1). O Cone do Amazonas está inserido no contexto da Bacia da Foz do Amazonas, ocupando uma área de aproximadamente 160.000 km2, abrangendo o talude continental até a bacia profunda. 1.2 - Base de Dados Este trabalho é baseado na utilização de dados geofísicos de natureza diversa, tais como a batimetria predita e a sísmica de reflexão multicanal de diferentes níveis de resolução. 1.2.1 – Batimetria Os dados batimétricos utilizados neste estudo são de natureza predita , ou seja, dados de altimetria de satélite (Etopo 2). 2 Capítulo I – Área de Estudo, Base de Dados e Metodologia __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Figura 1-1. Localização da área de estudo 3 Capítulo I – Área de Estudo, Base de Dados e Metodologia ____________________________________________________________________________________________________ 1.2.2 – Sísmica de reflexão multicanal A realização deste trabalho foi baseada principalmente na interpretação de um total de cerca de 9000 km de linhas sísmicas de reflexão multicanal. A malha de levantamentos apresenta um espaçamento médio de 15 km entre os perfis sísmicos (figura 1-2). O conjunto de dados é constituído por 39 linhas sísmicas, sendo 31 linhas na orientação dip e 8 na orientação strike. Este conjunto é composto por levantamentos de 2 campanhas distintas, que apresentam diferentes níveis de penetração e de resolução: Figura 1-2. Mapa com a localização dos perfis sísmicos utilizados. Linhas azuis (LEPLAC), linhas vermelhas (GAIA). 4 Capítulo I – Área de Estudo, Base de Dados e Metodologia ____________________________________________________________________________________________________ • 9 linhas do Projeto Leplac 6 e 8 – estas linhas são de caráter mais regional, com penetração do sinal de até 13 s. Este conjunto permite o traçado da superfície basal na qual se ancoram as estruturas da tectônica gravitacional no Cone de Amazonas, e até mesmo o reconhecimento do embasamento; • 30 linhas cedidas pela Empresa Gaia – estas linhas fazem parte original de um conjunto de dados sísmicos adquiridos pela Petrobrás S/A no ano de 1984, e reprocessadas pela empresa Gaia/PGS. Essas linhas apresentam maior resolução que as linhas do Leplac, com profundidade de penetração do sinal de até 11 s. Estas linhas também permitem a identificação da base de destacamento da tectônica gravitacional, mas, devido ao nível de penetração do sinal, não permitem o reconhecimento do embasamento. 1.3 - Metodologia 1.3.1 - Interpretação dos perfis sísmicos Num primeiro momento, para a obtenção dos dados em meio digital, as linhas sísmicas foram interpretadas através dos softwares Geographix, da Landmark, e o Petrel 2003, da Schlumberger. Posteriormente, essas linhas foram impressas e interpretadas sobre papel. A interpretação em papel foi realizada com o objetivo de obter uma visão mais completa da estruturação na região, pois por serem linhas longas, a visualização na tela era restrita. Para a análise tectono-sedimentar empreendida na região do Cone do Amazonas, os dados sísmicos foram interpretados focalizando as principais estruturas presentes, e segundo os princípios gerais da estratigrafia sísmica (ex: Mitchum et al., 1977a; Mitchum et al., 1977b) Primeiramente, foi mapeado o arcabouço estrutural da cobertura sedimentar Neomioceno-Recente (falhas lístricas sintéticas e antitéticas, e falhas de empurrão) (figura 13). Também foi identificado um refletor sísmico de expressão regional sobre o qual repousam 5 Capítulo I – Área de Estudo, Base de Dados e Metodologia ____________________________________________________________________________________________________ as estruturas identificadas na cobertura sedimentar Neomioceno-Recente (figura 1-3). A ancoragem sistemática das estruturas mapeadas sobre este refletor regional nos indica tratar-se da superfície basal de destacamento (já anteriormente identificada na literatura, Silva et al., 1999). Em alguns perfis, a base de destacamento não se mostra tão clara, sendo feita então a transferência da mesma para esses perfis através do cruzamento das linhas sísmicas. Todas as feições e estruturas mapeadas foram reportadas para mapas de posicionamento da sísmica, para posterior geo-refenciamento. A transferência das linhas de falha das seções sísmicas para os mapas foi feita através do cálculo de distâncias equivalentes entre a seção sísmica em papel e a sua extensão em mapa. 1.3.2 - Processamento dos dados (Confecção dos Mapas ) 1.3.2.1 - Batimetria Os dados de batimetria (Etopo 2 e do Geodas (GEOphysical DAta System – CD-ROM 4.0/ National Geophysical Data Center – NGDC) foram gridados através do programa Generic Mapping Tool – GMT para geração do mapa batimétrico da área. 1.3.2.2 - Confecção de mapas temáticos (Mapas da Morfologia da Superfície de Destacamento e de Isópacas) Os arquivos de dados (em formato ASCII) dos mapas temáticos foram importados da interpretação sísmica realizada no programa de interpretação Petrel 2003. Para a confecção dos mapas foi utilizado o programa Oajis Montaj 6 da Geosoft, utilizando o método de Kriging para gridagem. Este método executa uma análise geoestatística para dados aleatórios e, a partir de um variograma, permite a seleção de um modelo que melhor defina a variação dos dados, possibilitando uma estimativa mais confiável dos valores nos nós de um gride. 6 Capítulo I – Área de Estudo, Base de Dados e Metodologia ____________________________________________________________________________________________________ 1.3.2.3 - Confecção de perfis morfológicos da Superfície de Destacamento e de espessura da cobertura sedimentar Neomioceno-Recente Foram também gerados perfis da base de destacamento transversais à estruturação do cone. Esses perfis foram confeccionados também no programa Oasis Montaj e depois sua base de dados foi exportada para o programa Grapher 4.0 para a edição dos mesmos. A geração dos perfis teve como objetivo o entendimento da relação existente entre a morfologia da superfície de destacamento com a disposição das estruturas. Os perfis da superfície de destacamento possibilitaram uma melhor visão de como as estruturas estão distribuidas no Cone do Amazonas de acordo com a mudança de gradiente na superfície de destacamento. Perfis da batimetria do fundo submarino foram igualmente gerados no programa Oasis Montaj e também transferidos para o programa Grapher 4.0 para edição. Esses perfis foram acoplados aos perfis da superfície de destacamento e possibilitaram uma melhor visão da distribuição das estruturas em função da sobrecarga sedimentar. 7 Capítulo I – Área de Estudo, Base de Dados e Metodologia __________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Figura 1-3.Perfil sísmico interpretado com a estruturação, a superfície de destacamento e a camada móvel.TWTT (tempo duplo de propagação da onda). 8 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ Capítulo II Caracterização Regional A presença de estruturas de cisalhamento e feições de pull-apart são facilmente reconhecidas por toda a margem equatorial brasileira. Esta margem possui características específicas, no que se refere à dinâmica do rifteamento e ao padrão estrutural das bacias sedimentares associadas. A arquitetura convencional das bacias rift, onde a subsidência é controlada por uma importante falha normal de borda, não é um padrão facilmente identificado nas bacias da margem equatorial (Matos e Waick, 1998 apud Matos, 2000). Da mesma forma, leques conglomeráticos sintectônicos de borda de bacia, freqüentes ao longo da margem leste brasileira, não são observados (Matos, 2000). Isto por que a margem equatorial brasileira encontra-se num contexto estrutural de margem do tipo transformante. Os estágios evolutivos de uma margem transformante, observados na figura 2-1, são os seguintes: A - No início do cisalhamento entre as duas placas litosféricas, a falha transformante separa dois continentes. Esta falha é na realidade um feixe transformante, com algumas dezenas de quilômetros de largura. A movimentação de blocos em domínio transformante pode ser bastante complexa, dependendo do ambiente tectônico. O movimento, apesar de ser predominantemente ao longo da falha cisalhante, pode apresentar componentes compressionais ou extensionais. No primeiro caso, o cisalhamento será acompanhado por estruturas compressivas, tais como soerguimento local ou regional e falhas de empurrão. No segundo caso, há o desenvolvimento de falhas normais. Utilizam-se então os termos transpressão e transtensão para designar os respectivos campos de esforços. Uma vez que os campos de esforços têm que se ajustar às heterogeneidades locais, as zonas strike-slip podem mudar de direção ao longo do tempo, mesmo que a trajetória das placas permaneça constante. Pequenas mudanças na posição dos pólos de rotação das placas podem também causar 9 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ mudanças nas relações de compressão e extensão ao longo da falha transformante. Desta forma, o mesmo local pode, ao longo do tempo, passar de um regime compressivo a um regime extensivo, e vive-versa. Esta primeira etapa de evolução de uma margem transformante se dá em contexto inteiramente intra-continental. B - A continuação da extensão leva ao estiramento da crosta continental. Teremos assim, crosta continental afinada de uma margem em contato com crosta continental não afinada da placa adajacente. C Numa segunda etapa, a ruptura continental e a abertura oceânica se produzem no seguimento da zona de falha transformante. Os dois extremos da falha se encontram face a um domínio oceânico (crosta oceânica neo-formada) em fase de espalhamento, e onde a dorsal mesoceânica não é paralela à margem, como no caso das margens passivas de divergência, mas sim perpendicular ou oblíqua a ela. Nesta etapa, a evolução térmica é bastante complexa. Cada local da margem sentirá sucessivamene os efeitos da aproximação (soerguimento térmico), da passagem e do afastamento (subsidência térmica) da dorsal mesoceânica, que desfilará a frente da margem à maneira de um ponto quente. A evolução estrutural será também complexa: dependendo do local e do momento, o movimento horizontal se operará entre duas litosferas continentais, ou entre a margem e uma litosfera oceânica, e cessa após a passagem da dorsal mesoceânica. D - Quando finalmente a dorsal mesoceânica se interrompe com o contato com uma falha transformante intra-oceânica, a falha torna-se efetivamente intra-placa e passiva ao longo de toda a sua extensão. A partir daí ela será submetida às conseqüências da evolução térmica da litosfera (subsidência pós-tectônica). Inferida no contexto explicitado acima, a formação da margem equatorial brasileira está relacionada a três estágios evolutivos: pré, sin e pós movimentos transformantes (Matos, 2000). A fase pré-transformante da margem equatorial brasileira é dividida em dois ciclos sedimentares: um pré-transtensão, durante o periodo Pré-Barremiano; e, um sin-transtensão, do Barremiano ao Aptiano. A fase pré-transtensão é representada pelos sedimentos de rift das bacias de Marajó e a parte onshore da Bacia Potiguar, e estão relacionadas, respectivamente, à abertura do Atlântico Central e Sul. Na fase sin-transtensão, movimentos transtensionais criaram uma série de depocentros en-echelon com direção NW-SE por todo o domínio equatorial. A fase sin-transformante, com duração do Albiano ao Cenomaniano, engloba uma série de eventos tectônicos mecanicamente distintos, inicialmente dominado por transtensão seguida de transpressão, e finalmente a fase de margem passiva transformante. No ciclo de transtensão, o movimento divergente foi acomodado por zonas relativamente estreiras. No 10 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ ciclo de transpressão houve a formação de um grande cinturão traspressivo (Bacias Piauí – Acaraú) como resultado do encurtamento geral e o soerguimento de uma borda restrita do Atlântico Equatorial. A fase de margem passiva transformante é caracterizada pelo contato crosta oceânica/continental ao longo de uma falha transformante ativa (figura 2-1). Finalmente, o estágio Pós-Transformante (Cenomaniano ao Recente) inicia-se com a instalação de uma margem passiva caracterizada por uma sedimentação contínua que acompanha a subsidência térmica da litosfera (Matos, 2000). Figura 2-1. Os diferentes estágios evolutivos de uma margem transformante (Mascle e Blarez, 1987). Outra característica marcante das margens do tipo transformante é uma diferença topográfica notável entre a porção rasa da margem e a bacia mais profunda, uma vez que a zona de transição entre crosta continental e crosta oceânica é definida por falhamentos do tipo strike-slip, resultando assim numa plataforma pouco desenvolvida e em bacias sedimentares profundas (figura 2-2). 11 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ Figura 2-2. Padrão morfológico das bacias associadas à transcorrência (Boillot e Coulon, 1998). No caso da margem equatorial brasileira, sua fisiografia é caracterizada por uma plataforma estreita, variando de 30 a 50 km de extensão na porção mais ao leste (Bacia Potiguar), e de 50 a 300 km na parte mais a oeste (Bacia da Foz do Amazonas). Ao longo desta margem, o talude continental é relativamente íngreme, e estende-se entre aproximadamente 200 a 2000 m de profundidade. Cânions submarinos são freqüentes ao longo do talude, destacando-se o Canyon do Amazonas como a mais notável destas feições por sua extensão, relevo relativo e papel sedimentar na construção da margem. Outras feições marcantes nessa margem são os montes submarinos ou guyots, como por exemplo, a Elevação do Ceará e o Guyot do Ceará (Matos, 2000). O contexto estrutural de rifteamento transtensivo, no qual a Margem Equatorial Brasileira se desenvolveu, conduziu a uma evolução segmentada desta margem, formando uma série de bacias offshore que apresentam diferentes histórias em termos de fluxo térmico, subsidência, distribuição das fácies sedimentares, magmatismo, eventos de soerguimento e episódios de deformação. Dentre estas se situam as bacias Potiguar, Ceará, Barreirinhas, ParáMaranhão e Foz do Amazonas (figura 2-3). Algumas destas bacias se estendem ainda em direção onshore, como as bacias de Barreirinhas e Potiguar. A margem Equatorial Brasileira apresenta também três rifts abortados, como o Graben de Potiguar, Bacia do Marajó (grabens da Mexiana, Limoeiro e Gurupá) e o Sistema de Grabens do Gurupi (grabens de São Luís, Bragança Viseu e Ilha Nova) (Matos, 2000). A região de estudo deste trabalho, o Cone do Amazonas, está inserida na bacia da Foz do Amazonas, bacia que se localiza no extremo oeste da Margem Equatorial Brasileira. 12 Capítulo II – Caracterização Regional ___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Figura 2-3. Distribuição das bacias sedimentares na Margem Equatorial Brasileira ( Milani et al., 2001). 13 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ 2.1 - Bacia da Foz do Amazonas A Bacia da Foz do Amazonas ocupa uma área de aproximadamente 360.000 km2 localizada entre as coordenadas 51º e 47º oeste, e 0º e 6º norte (figura 2-3) (Brandão e Feijó, 1994). Essa bacia é separada da bacia continental do Baixo Amazonas pelo Escudo das Guianas, a noroeste, o Escudo Pré-cambriano Brasileiro, a sudeste, e o Arco de Gurupá, a oeste. Os limites oceânicos da bacia correspondem às feições da Cadeia Norte Brasileira, a Elevação do Ceará e a Planície Abissal do Ceará (figura 2-4). Figura 2-4. Limites oceânicos da Bacia da Foz do Amazonas levemente modificado de Damuth et al. (1988). A Bacia da Foz do Amazonas está fisiograficamente dividida em Plataforma Continental, até a cota batimétrica de 200 m, e o Cone do Amazonas, que se estende até a cota batimétrica de aproximadamente 4500 m (Damuth et al., 1988), correspondendo a aproximadamente 45% da área total da bacia. A Plataforma Continental Amazônica destaca14 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ se como a mais larga dentre as plataformas da margem continental brasileira, com uma largura média que varia de 133 km, no extremo norte da área, a 330 km, em frente à foz do Amazonas (Palma, 1979). Esta situação lhe confere uma morfologia submarina que difere das margens transformantes estreitas. A margem da Bacia da Foz do Amazonas é caracterizada por um espesso prisma progradante de sedimentos siliciclásticos. Esse prisma é composto principalmente por sedimentos do Neomioceno ao Recente, que recobrem a plataforma carbonática do EoTerciário. Schaller et al. (1971) conduziram os primeiros estudos estratigráficos na região, determinando a primeira coluna estratigráfica da Bacia da Foz do Amazonas. Mais recentemente, Brandão e Feijó (1994), baseados em dados mais recentes, propuseram uma nova carta estratigráfica (figura 2-5), onde estabelecem duas seqüências principais para a bacia: uma seqüência Rift e uma Seqüência de Margem Passiva. A Sequência Rift está presente nos grabens da região de Caciporé, que, segundo os autores, foram aparentemente palco de eventos tafrogênicos em duas ocasiões distintas: no Triássico quando se acumularam os clásticos e rochas ígneas da Formação Calçoene, provavelmente associada com a abertura do Atlântico Norte; e, no Aptiano, quando ocorreu a deposição dos sedimentos clásticos da Formação Caciporé, referente ao rift que precedeu a abertura do Atlântico Sul. A Sequência de Margem Passiva é representada por clásticos finos albocenomanianos, transgressivos marinhos, e por arenitos e folhelhos, progradantes neríticos e batiais que constituem a Formação Limoeiro. O sistema de plataforma-talude-bacia é composto pelos clásticos das Formações Marajó e Travosas, e pelos carbonatos da Formação Amapá, onde se distinguem seqüências sedimentares do Neopaleoceno, Eoceno, Eoceno/Oligoceno e Oligoceno/Mioceno. Entre o final do Mioceno até o Holoceno, destacase a seqüência representada pelos clásticos finos progradantes das formações Tucunaré, Pirarucu e Orange, agrupadas no chamado Grupo Pará (Brandão e Feijó, 1994). No final do Meso-mioceno, a plataforma carbonática (representado pela Formação Amapá) foi recoberta por uma grande quantidade de clásticos. O Neo-mioceno-Holoceno corresponde a um intervalo de tempo em que a área da plataforma sofreu relativa subsidência e o Cone do Amazonas se instala na zona de transição entre a crosta continental e a crosta oceânica, correspondendo estratigraficamente à Formação Pirarucu, geograficamente restrita, e à Formação Orange, que compõe a essência do Cone do Amazonas. A Formação Orange é representada por sedimentos argilosos de talude e bacia profunda e por poucas camadas de arenito fino que foram depositadas através da ação de correntes de turbidez (Castro et al., 1978 apud Oliveira, 1996). A base desta formação, constituída de sedimentos finos (silte e 15 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ Figura 2-5. Carta estratigráfica da Bacia da Foz do Amazonas (Brandão e Feijó, 1994). 16 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ argilas), foi identificada por vários autores como num estado de super-pressurização de fluidos, cuja mobilidade estaria na origem da tectônica gravitacional que afeta as seqüências sobrepostas (Bruno, 1987; Brandão e Feijó, 1994; Silva et al., 1999). Silva et al. (1999) dividiram a megaseqüência do Paleoceno- Mioceno Médio da Bacia da Foz do Amazonas nos intervalos Paleoceno –Eoceno com 1000 m de espessura, a do Oligoceno com 200 m, e Paleomioceno – Mioceno médio com 1500 m, e relatam que na região do Cone do Amazonas essa megaseqüência teve dois depocentros. Um na porção sudeste, com espessura de 5500m, e outro na porção noroeste, com 5000 m. Segundo Silva et al. (1999), a megaseqüência mais jovem (Neomioceno–Recente) que representa o Cone do Amazonas é constituída por um prisma progradacional de 9000 m na parte noroeste do Cone do Amazonas. 2.2 - O Cone do Amazonas O Cone do Amazonas está entre os maiores leques submarinos presentes no oceano moderno. Ocupa uma área de aproximadamente 160.000 km2, estendendo-se desde a quebra da plataforma até profundidades superiores a 4500 m (Damuth, 1988) (figura 2-6). A superficie base sobre a qual se desenvolve o Cone do Amazonas encontra-se a profundidades superiores a 10 km (Cobbold et al., 2004). Suas seqüências basais apresentam idades a partir de aproximadamente 10 Ma. Damuth e Kumar (1975) foram os primeiros a descrever a morfologia, os processos de sedimentação e as estruturas do cone, baseados em dados de sísmica convencional e de testemunhos. Posteriormente, Damuth et al. (1988) revelaram, espacial e estratigraficamente, os sistemas de canal-dique marginal que compõem o cone. A característica mais marcante desses sistemas de canal-dique marginal são os seus complexos canais distributários meandrantes com índice de sinuosidade de até 2.5. A formação, manutenção e modificação desse sistema de meandros provavelmente requer grandes volumes de fluxos turbidíticos relativamente contínuos através dos canais e por um período relativamente longo (Damuth et al., 1988). De acordo com as mudanças de gradiente e de morfologia, Damuth e Kumar (1975) subdividiram e delimitaram a extensão das províncias fisiográficas que compõem o cone, ou seja, o Cone Superior, Médio e Inferior (figura 2-6). 17 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ Figura 2-6. Feições morfológicas e limites fisiográficos do Cone do Amazonas (Baptista Neto e Silva apud Baptista Neto et al, 1988). O Cone Superior apresenta uma superfície irregular côncava para cima e estende-se desde a quebra da plataforma até profundidades de 3000m, onde os contornos batimétricos mostram uma notável quebra no gradiente do talude (gradiente médio de aproximadamente 1:70). Localmente a superfície do cone apresenta irregularidades, marcadas por escarpas com relevos de poucas centenas de metros (Damuth et al., 1988). O Cânion submarino do Amazonas é a feição mais proeminente desta parte do Cone, com um relevo relativo da ordem 18 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ de 600 m, estendendo-se desde a plataforma e talude abaixo até a cota batimétrica de aproximademente 1400 m (Damuth et al., 1988). Nesta província fisiográfica parece existir somente um complexo de canal-diques marginais e a maior parte dos sedimentos do Cone do Amazonas está concentrada em profundidades de 200 – 3000 m (Damuth, 1975; Flood e Piper, 1997; Mickelsen et al., 1997). Damuth e Embley (1981) apud Damuth et al. (1988) documentaram ainda a ocorrência de grandes depósitos de transporte de massa nesta porção do cone. Cone Médio estende-se entre profundidades de 3000-4200 m, caracterizando-se por apresentar uma superfície convexa para cima, marcada por feições morfológicas do tipo hummocky, onde se identificam dois complexos canais-diques marginais distintos (complexo oriental e ocidental). O complexo oriental apresenta um trend para noroeste e o ocidental para nordeste. Perfis sísmicos mostram que o complexo oriental cobre a borda do complexo ocidental, sugerindo que o mesmo (complexo oriental) é mais novo e também o mais eficiente. Em profundidades entre 2500 e 3500 m o complexo oriental é parcialmente soterrado por um extenso depósito de fluxo de detritos. Esses depósitos são formados a partir de aproximadamente 1000 m de profundidade e apresentam uma maior representação na sedimentação do cone no período Quaternário (Damuth et al., 1983). O Cone Inferior estende-se até a profundidade de 4800 m, onde se encontra com a planície abissal de Demerara, apresentando uma superfície suave e côncava com um gradiente médio mais suave, da ordem de 1:430 (0.1º). Apresenta igualmente inúmeros canais de menores dimensões (5 – 20 m), geralmente sem levees, que cruzam toda a sua extensão (Normark et al., 1972 apud Damuth e Kumar, 1975; Damuth et al., 1988). 2.3 - Estudos Prévios sobre a Tectônica Gravitacional na Região do Cone do Amazonas Várias estruturas extensionais (falhas normais lístricas) e compressionais (falhas reversas) presentes no Cone do Amazonas, foram identificadas e mapeadas. A formação dessas estruturas foi atribuída a processos da deformação superficial extensiva (thin-skinned extension) e foram interpretadas de formas distintas pelos autores que estudaram o processo (Bruno, 1987; Silva et al., 1999; e Cobbold et al., 2004). Bruno (1987), baseado em dados de sísmica de baixa resolução e sem uma visão mais moderna da tectônica gravitacional, apresentou uma estruturação para o Cone do Amazonas subdividida em três zonas estruturais morfologicamente distintas (figuras 2-7 e 2-8). 19 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ Figura 2-7. Mapa de zoneamento das províncias estruturais do Cone do Amazonas, elaborado por Bruno (1987) e levemente modificado. Na primeira zona (figuras 2-8 e 2-9), parte mais proximal do sistema, o autor observou a predominância de falhas de crescimento, que segundo ele, são originadas pelo escorregamento por gravidade da seqüência regressiva durante o período de progradação. O declive acentuado do substrato, nesta região, e o predomínio da taxa de deposição sobre a taxa de subsidência proporcionaram um espaço reduzido entre as falhas. Na segunda zona (figuras 2-7 e 2-8), o autor relata a presença de grandes estruturas anticlinais de crescimento formadas a partir da combinação de duas estruturas “rollover” opostas. Segundo o autor, uma dessas estruturas formou-se devido à movimentação de uma grande falha de crescimento com mergulho na mesma direção do mergulho regional da bacia. A segunda estrutura “rollover” seria formada pela movimentação de uma falha antitética de compensação. Essas estruturas não foram observadas no presente trabalho, pois não foram identificadas estruturas desse tipo na área e sim a existência de grabens formados por falhamentos sintéticos e antitéticos. Bruno (1987) também descreve a presença de uma estrutura, a qual ele denominou de “muralha de argila”, e explica que a formação dessas estruturas não estaria ligada a processos diapíricos, mas o próprio autor relata que elas estão em uma região de alívio de pressão, o que acaba lhe 20 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ dando uma conotação de diapirismo, tornando de difícil entendimento a explicação do autor. Na terceira zona (figuras 2-7 e 2-8), o autor observou o predomínio de estruturas diapíricas formadas devido ao fluxo sedimentar em decorrência da progradação da seqüência regressiva sobre a massa argilosa. Ele explica que essa massa tende então a migrar para a região após a quebra da plataforma, área onde o gradiente de pressão seria menor, pois a cobertura sedimentar é menos espessa. Outra observação feita por Bruno (1987) é que nesta área provavelmente ocorre uma inversão de mergulho no substrato da bacia, ocasionando o aprisionamento dessa massa argilosa, comprimindo-a e formando diápiros. Figura 2-8. Perfil estrutural esquemático da Região do Cone do Amazonas, exibindo os fatores controladores da estruturação, elaborado por Bruno (1987) Silva et al. (1999), utilizando dados de sísmica de alta resolução, dados de poços e com os conhecimentos mais modernos sobre a tectônica gravitacional, propõem um sistema de deformação composto por dois domínios estruturais: um domínio extensional, na porção mais proximal da plataforma continental, caracterizado por falhas normais lístricas sintéticas e antitéticas, e um sistema contracional distal, caracterizado por falhas reversas, onde os autores observaram dois sets de falhas de empurrão: um na porção noroeste e outro na porção sudeste. Os autores interpretam as falhas normais lístricas como estruturas contínuas que abrangem quase toda a extensão do cone, apresentando extensões maiores que 100 km (figura 2-9). Essa configuração de falhas normais lístricas contínuas não foi observada nesse trabalho, como mostra o mapa estrutural da figura 4-2 (Capítulo IV). 21 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ Figura 2-9. Mapa estrutural da região do Cone do Amazonas elaborado por Silva et al. (1999). O sistema de deformação superfícial do Cone do Amazonas, segundo Silva et al. (1999), está ancorado em duas superfícies de destacamento relacionadas a camadas de folhelhos super-pressurizados (figura 2-10). Uma dessas superfícies encontra-se na região referente à área da plataforma e está localizada na base do Terciário (Paleoceno). A segunda superfície está na zona do talude e localiza-se na base da megasseqüência do Mioceno Superior–Recente. Essas superfícies acomadam dois sets de estruturas: a primeira superfície ancora estruturas que estão na parte mais proximal e que fazem parte do domínio extensional; a segunda ancora estruturas na parte mais distal e que fazem parte tanto do domínio extensional quanto do domínio contracional (figura 2-10). 22 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ Figura 2-10. Perfil sísmico interpretado exibindo as superfícies de destacamento observadas por Silva et al.( 1999). Silva et al. (1999) associam a morfologia da zona compressiva à zona de fratura de São Paulo e ao limite entre a crosta continental e crosta oceânica. Os autores explicam que a descontinuidade formada por essas feições teria servido como barreira, impedindo a movimentação do pacote sedimentar (associado aos movimentos de deslizamento (gliding) e espalhamento (spreading) gravitacional). Dessa forma, ocorreria o empilhamento do pacote sedimentar e a geração de falhas reversas (figura 2-11). Porém, a feição que representaria, segundo Silva et al. (1999), a zona de fratura de São Paulo não foi identificada na base de dados utilizada neste trabalho. Figura 2-11. Modelo esquemático de geração da estruturação presente no Cone do Amazonas proposto por Silva et al. (1999). 23 Capítulo II – Caracterização Regional ____________________________________________________________________________________________________ Mais recentemente, Cobbold et al. (2004), utilizando dados de sísmica 2D/3D, dados de poços, avaliação geoquímica de geração de hidrocarbonetos e modelagem analógica (em caixa de areia) propõem um sistema (figura 2-12) que se assemelha ao proposto por Silva et al. (1999). Porém, os autores contestam que o motor gerador do deslizamento gravitacional da cobertura sedimentar Neomioceno-Recente esteja associado a um nível móvel constituido por folhelhos super pressurizados, e sim que este estaria associado à presença de gás (metano), formando uma superfície basal de cisalhamento. Cobbold et al. (2004) observam ainda uma compartimentação estutural no cone: um compartimento a sudeste e outro a noroeste, tendo, como eixo divisor o Canyon do Amazonas. Estes resultados corroboram o mapeamento feito no presente trabalho e que será descrito no capítulo V. Os autores descrevem que as estruturas extensionais estão na área que abrange até 500 m de profundidade, e que as estruturas contracionais estão entre as profundidades de 1000 a 1500 m. As estruturas extensionais descritas por Cobbold et al. (2004) são: falhas normais lístricas, cunhas estratigráficas e rollovers. As contracionais são: dobras e falhas reversas com vergência em direção ao mar. Figura 2-12. Perfil interpretado exibindo a disposição das estruturas no Cone do Amazonas observadas por Cobbold et al. (2004). 24 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ Capítulo III A Tectônica Gravitacional: uma revisão O estudo da tectônica gravitacional ou deformação superficial extensiva (thin-skinned extension) tem recebido especial atenção nas últimas décadas (e.g. Vendeville e Cobbold, 1988; Jackson, 1990; Vendeville, 1991; Nelson, 1991; Vendeville e Jackson, 1992 a e 1992b; Mohriak et al., 1995; Morley e Guerin, 1996) pelo fato de importantes áreas potenciais e/ou produtoras de petróleo serem estruturalmente afetadas por deformações geradas por essa modalidade de tectônica. O estudo da deformação superficial extensiva tem sido desenvolvido em várias regiões do mundo, como por exemplo, no Golfo do México (Wu e Bally, 2000), na margem brasileira (Mohriak et al., 1995), na margem angolana (Duval et al., 1992), no Golfo de Lion (Reis, 2001; Reis et al., in press) A deformação superficial extensiva está ligada ao deslizamento gravitacional de uma cobertura sedimentar sobre uma superfície basal móvel de sal ou argila. Mesmo que a superfície basal possua baixo ângulo de declividade, uma camada sedimentar sob efeito da força gravitacional pode deslizar (Vendeville et al. 1987; Cobbold et al., 1989) (figura 3-1). A magnitude da força gravitacional será proporcional à inclinação da superfície do fundo e à inclinação do substrato basal, que pode ser induzida pela subsidência da bacia. (Nelson, 1991). 25 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ Figura 3-1. Evolução esquemática do mecanismo de deslizamento gravitacional, proposto por Vendeville (1987) no contexto da bacia do tipo de margem Atlântica (margem passiva). A) bacia evaporítica inicial; B)subsidência; C) extensão da cobertura por deslizamento gravitacional sobre a superfície de evaporitos; D) estágio final. As variações na quantidade e na natureza dos aportes sedimentares (volume e distribuição) também influenciam na deformação superficial extensiva, pois a deformação é favorecida por taxas de sedimentação elevadas provocando assim um aumento da pressão litostática, que controla a instabilidade do sistema. Desta forma, a sedimentação ativa pode desempenhar papel importante como agente disparador do deslizamento gravitacional, atuando como um motor da tectônica gravitacional (Vendeville et al., 1987). No processo de translação gradiente abaixo da cobertura sedimentar, o agente gravitacional que induz o movimento da cobertura, pode ser de origem diversa: deslizamento gravitacional (gravity gliding) e espalhamento gravitacional (gravity spreading). O processo de deslizamento gravitacional é originado pelo movimento de uma camada declive abaixo, sobre uma superfície basal inclinada. No processo de espalhamento gravitacional a expansão lateral de uma massa de sal ou argila se dá pelo efeito de uma carga sedimentar diferencial 26 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ atuando sobre uma superfície basal horizontal ou inclinada (Schultz-Ela, 2001). Esse conceito é demonstrado no modelo de Ramberg (1980; 1981) apud (Schultz-Ela, 2001) (figura 3-2). Ambos os movimentos necessitam de espaço lateral para a expansão da carga durante o estiramento. A diferença entre eles está relacionada à quantidade de sal ou folhelho que pode fluir lateralmente. Teoricamente (segundo os modelos analógicos), o fluxo da massa móvel será mínimo para o movimento de deslizamento gravitacional, o que implica num deslizamento simples da camada sedimentar em direção à bacia, enquanto a rotação se concentra na porção proximal do sistema. Em contraste, o movimento de espalhamento gravitacional envolve também a migração lateral da massa móvel a longas distâncias (Nelson, 1991). Figura 3-2. Sistemas simples ilustrando o conceito geralmente aceito de deslizamento gravitacional (gravity gliding) e de espalhamento gravitacional (gravity spreading). (Ramberg, 1980, 1981 apud Schultz-Ela, 2000). 3.1 - Estruturas Geradas na Deformação Superficial Extensiva Diversos autores (Vendeville e Cobbold, 1988; Cobbold et al., 1989; Cobbold e Szatmari, 1991; Jackson, 1990; Vendeville, 1991; Nelson, 1990; Vendeville e Jackson, 1992a e 1992b; Mohriak et al., 1995; Morley e Guerin, 1996; Reis, 2001; Reis et al., 2004a; Reis et al., 2004a; Reis et al., in press), através de investigações utilizando seções sísmicas e/ou experimentos em laboratórios, observaram a existência de uma compartimentação estrutural em áreas afetadas pela tectônica gravitacional. Essa compartimentação compreende três domínios estruturais: extensional, intermediário e contracional (figura 3-3). Os domínios são geograficamente limitados de acordo com as características morfológicas do substrato e a interação entre estruturas e sedimentação. O domínio extensional, localizado na região mais proximal do sistema, possui falhas normais lístricas sintéticas e antitéticas que, em muitas 27 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ situações, geram grabens, rollovers opostos e também cunhas sedimentares em forma de leques. Seguindo em direção à bacia profunda, ocorre um compartimento contracional com dobramentos, diapirismo e/ou falhas reversas. Entre os compartimentos extensional e contracional ocorre uma região intermediária, onde os sedimentos são pouco deformados, como se os mesmo transladassem talude abaixo de forma rígida ou quase rígida. As feições estruturais existentes em cada domínio possuem uma longa história de desenvolvimento durante a qual a sedimentação foi ativa. Essa compartimentação pode ser observada na margem ocidental Africana, bacia de Kwansa (Duval et al. 1992; Lundin et al., 1992), na margem sudeste brasileira (Cobbold e Szatmari, 1991), no Golfo do México (Jackson, 1995), no Delta do Niger (Hooper et al., 2002) (figura 3-4), no leque submarino do Rhone (dos Reis, 2001; dos Reis et al .,2004a / 2004b) e no Cone do Amazonas (Silva et al., 1999; Cobbold et al., 2004 e Oliveira et al., 2004). Figura 3-3. Modelo idealizado de estruturação em uma bacia afetada pela tectônica salífera, (levemente modificado de Morley e Guerin, 1996). Figura 3-4. Modelo de estruturação da tectônica gravitacional no Delta do Niger (Hooper et al., 2002). 28 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ 3.2 - Mecanismos que influenciam o arcabouço estrutural da tectônica gravitacional Visto que o sal (ou argila) move-se ao longo do maior gradiente do substrato e que o deslizamento gravitacional segue uma direção preferencial paralela ao gradiente, a observação das falhas lístricas geradas pela tectônica gravitacional mostra que normalmente essas falhas apresentam direção perpendicular ao sentido geral do deslizamento (Cobbold e Szatmari, 1991). Contudo, também se observa a presença de falhas normais lístricas de direção oblíqua ou paralela à direção do fluxo do nível móvel. Da mesma forma, os modelos analógicos sugerem que a velocidade e a natureza da sedimentação podem condicionar a geometria e evolução das estruturas formadas pela extensão superficial (Vendevile, 1987). Assim, a existência de estruturas complexas ao longo das margens continentais afetadas pela tectônica gravitacional não é explicada simplesmente pelos mecanismos de deslizamento gravitacional. A formação dessas estruturas depende também de fatores como sobrecarga sedimentar diferencial, e a morfologia da superfície basal de destacamento. 3.2.1 - Sobrecarga Sedimentar Diferencial A sobrecarga sedimentar diferencial é considerada como um dos mecanismos disparadores da deformação superficial extensiva (Worral e Snelson, 1989). De forma geral, estruturas extensionais e contracionais complexas têm sido reconhecidas como decorrentes do movimento de sal e folhelhos sob a ação da sobrecarga sedimentar diferencial. Damuth (1994) e Hooper et al. (2002) relacionaram o desenvolvimento de falhas de crescimento na parte superior do talude do Delta do Niger à rápida progradação dos sedimentos em direção ao mar, e conseqüentemente ao aumento da carga sedimentar. Kehle (1983) através de seu trabalho na porção norte do Golfo do México observou que em profundidades rasas geralmente a carga sedimentar diferencial pode ocasionar o crescimento de domos. A sobrecarga sedimentar diferencial pode estar relacionada a mudanças da taxa de aporte sedimentar ou a variações laterais de fácies, como as que ocorrem nos leques turbidíticos ou em complexos progradantes de forma geral. Modelos experimentais, aplicados a um ambiente de leque submarino evidenciam o papel da sobrecarga sedimentar diferencial sobre a distribuição e orientação das estruturas salíferas, e mostram que uma sedimentação localizada ao nível do talude pode provocar o fluxo de uma camada de baixa resistência em 29 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ direção a zonas de menor sobrecarga. A migração dessa camada cria espontaneamente uma extensão sobre o talude (Gaullier, 1993). Ao longo da margem brasileira, Szatmari et al. (1996) atribuem à sobrecarga sedimentar diferencial a formação de uma falha antitética (mergulhando em direção ao continente) de escala regional na Bacia de Santos (figura 3-5). Gaullier (1993) também demonstra que a velocidade da sedimentação que resulta numa sobrecarga sedimentar diferencial é um fator importante. Uma sedimentação rápida pode criar um fluxo lateral efetivo em direção às zonas de menor sobrecarga. No caso da construção de sistemas de canal-diques marginais, esta sobrecarga pode levar à migração do sal também no sentido lateral. Do ponto de vista mecânico associado à formação de estruturas extensivas, os modelos analógicos (Vendeville, 1987) sugerem também que a velocidade e o tipo de sedimentação podem condicionar a geometria e evolução das estruturas num contexto de tectônica gravitacional. Vendeville (1987) constata, por exemplo, que à medida que a espessura de sobrecarga sedimentar aumenta, algumas das falhas tornam-se inativas (figura 36). Este bloqueio parcial do sistema é responsável pelo aumento da dimensão dos compartimentos estruturais (blocos). Reis (2001) atribui a este fator, a mudança de dimensão dos compartimentos ativos entre o Plioceno e o Quaternário no Golfo de Lion. COUNTER-REGIONAL FAULT IN SANTOS BASSIN (A) A A' Figura 3-5. Correspondência entre a (B) 0.0 1.0 2.0 3.0 4.0 estrutura gerada analógico (A), pelo simulando modelo uma sobrecarga sedimentar diferencial (AA’), e uma grande falha antitética (B) na Bacia de Santos, Brasil (Szatmari et 5.0 6.0 0 1 2 3 4 5 km al., 1996). 7.0 TWT (s) 30 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ A 0 4 cm 1 TWTT(s) 2 3 4 5 salt roller 5 Km B Figura 3-6. Correlação entre as estruturas extensivas geradas pelo modelo (A) analógico areiasilicone desenvolvido por Vendeville, 1987, e um exemplo real ilustrado pela reflexão sísmica (B) – Fundo marinho do Petit Rhone (Reis, 2001). 3.2.2 - Morfologia da superfície basal de destacamento (morfologia do substrato pré-salífero). Variações de tipos estruturais, como a presença de falhas normais lístricas de direção oblíqua ou paralela à direção do fluxo do deslizamento gravitacional indicam a presença de fatores que perturbam as forças principais geradas pela direção preferencial do gradiente, influenciadas pela morfologia do substrato. Cobbold e Szatmari (1991) através de modelos cinemáticos e analógicos discutem a variação de tipos estruturais de um segmento a outro ao longo de margens com contornos irregulares, como o Golfo do México e a margem continental brasileira, com o intuito de enfatizar a importância da direção do gradiente na diversidade de estruturas. Os autores observaram diferenças no estilo estrutural presente na região ao longo de segmentos côncavos da linha de costa da Bacia de Campos e aquele presente ao longo da geometria convexa da linha de costa da Bacia de Santos. Como o deslizamento gravitacional segue o gradiente mais forte do substrato, este então será sempre 31 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ radial à linha de costa (Cobbold e Szatmari, 1991). O deslizamento será radial divergente ao longo de segmentos salientes da costa e formará estruturas extensivas perpendiculares à linha de costa. O movimento será ao longo de reentrâncias, gerando dobras e/ ou falhas reversas na base do talude. Na reentrância da linha de costa de Santos, o deslizamento tem sido radial convergente, proporcionando a geração de dobras e/ou falhas reversas na base do talude, já na saliência de Campos o deslizamento tem sido divergente, formando falhamentos perpendiculares à linha de costa (figura.3-7). Figura 3-7. Modelo analógico simulando o deslizamento gravitacional radial divergente (Cobbold e Szatmari, 1991). A) Formação de grabens radiais divergentes de orientação geral paralela à direção da inclinação. B) Perfil longitudinal. 32 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ 3.2.2.1 - Topografia Residual do Substrato Gaulier (1993) também discute, baseado em modelos analógicos, o papel da topografia residual do substrato salífero, representada por irregularidades topográficas locais herdadas ou não do tectonismo crustal, no controle estrutural de falhas lístricas. O autor verificou que as irregularidades no plano de deslizamento do sal representam um fator de perturbação ao deslizamento gravitacional e condicionam a orientação das estruturas salíferas até mesmo paralelamente à direção de deslizamento (figura 3-8). 1 2 3 D Figura 3-8. (A, B, C) Resultados dos modelos analógicos que ilustram o papel da topografia residual sobre a divisão e a consolidação das falhas associadas ao deslizamento gravitacional. Na base da camada dúctil (silicone, no caso da experiência) a direção oblíqua à direção geral do substrato do deslizamento provoca a geração de falhas em equilíbrio com os acidentes do embasamento. (D) Evolução esquemática (1, 2, 3) da deformação do silicone e da areia sobre o degrau do substrato de deslizamento (Gaullier et al., 1993). 33 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ A influência de topografias residuais nos estilos estruturais foi observada por Wu e Bally (2000) em trabalho realizado no Golfo do Guiné na Nigéria. Os autores observaram, através de perfis sísmicos, que a formação das estruturas contracionais desenvolvidas no sistema de deformação da área estavam sendo intensamente influenciadas por uma feição morfológica proeminente do embasamento. Essa feição morfológica, identificada pelos autores como a zona de Fratura de Charcot, serviu como barreira, impedindo a migração da camada transladante, proporcionando a concentração de encurtamento nesta região e, consequentemente, a formação de falhas de empurrão (figura 3-9). Figura 3-9. Falhas de empurrão formadas sobre a Zona de Fratura de Charcot (Wu e Bally, 2000). 3.3 - Comparação entre estilos de deformação e o comportamento mecânico associado a folhelhos móveis e sal Em bacias marginais, camadas de sal e ou de folhelhos super-pressurizados (ovepressured shales) desenvolvem, sob a ação de uma carga sedimentar diferencial (progradação) e do gradiente da superfície basal de destacamento (décollement), um zoneamento estrutural característico: um sistema extensional proximal associado a um sistema contracional distal. Contudo, diferenças marcantes de propriedades físicas entre sal e 34 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ folhelhos (ex.: densidade e reologia) imprimem diferenças notáveis ao zoneamento estrutural e estratigráfico das margens passivas correspondentes. Estruturas produzidas pelo sal e por folhelhos são normalmente similares, o que pode ser observado nos modelos propostos por Morley e Guerin (1996) (figura 3-10), porém, existem algumas diferenças nos estilos estruturais das estruturas que são ditadas pelo comportamento reológico diferenciado dos materiais (Morley e Guerin, 1996). Figura 3-10. Modelos idealizados de estruturação formada pelo folhelho e pelo sal, levemente modificados de Morley e Guerin (1996). A principal diferença está ligada à mobilidade dos materiais. A mobilidade do sal não diminui à medida que este é soterrado, como o que ocorre em sedimentos em processo de diagênese. O sal é um material viscoso e flui sobre mínimo “deviatoric stress”, por isso pode ser deformado logo após a sua deposição, necessitando apenas que ocorra uma pequena sobrecarga e/ ou ocorra uma mudança de gradiente no substrato em que ele repousa. Em contraste o folhelho é um material plástico e não se deforma até que a sua resistência ao cisalhamento seja ultrapassada. A resistência ao cisalhamento do folhelho é o produto do coeficiente de fricção do folhelho e do esforço vertical efetivo, que corresponde à pressão 35 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ litostática na base da sobrecarga, menos o efeito da super-pressurização (Rowan et al., 2004). Por isso, nos folhelhos, o coeficiente de fricção ao longo da superfície de destacamento é reduzido pelo aumento da pressão de fluidos. À medida que a pressão de fluido aproxima-se à da sobrecarga (ex: quando o coeficiente de pressão se aproxima de 1), o esforço vertical efetivo tende a zero e a resistência do folhelho à deformação torna-se mínima (Rowan et al., 2004). Situações de super-pressurização extrema podem resultar, por exemplo, de rápida taxa de sedimentação, da geração de hidrocarbonetos (ex: Baker, 1990; Morley e Guerin, 1996) e da compactação tectônica durante o processo de “encurtamento” da cobertura sedimentar transladada. A rápida deposição dos sedimentos acima da camada de folhelho é um fator fundamental para que este não se compacte e apresente valores elevados de pressão de fluidos. Com uma razão sedimentar baixa, a argila terá tempo de se compactar lentamente, levando com isso, à expulsão dos fluidos intersticiais. Desta forma não haverá aumento na pressão de fluidos, que confere mobilidade ao folhelho. Os dois principais mecanismos de geração de fluidos intersticiais durante o soterramento do pacote sedimentar são: a desidratação durante a transição smectita/ilita, e a geração de hidrocarbonetos. Entre esses dois processos, o mais representativo no aumento da pressão de fluidos é a geração de hidrocarbonetos, específicamente a formação de metano (Morley e Guerin, 1996). A geração do gás metano ocorre à medida que a matéria orgânica é decomposta nos sedimentos. Esse processo é tanto termoquímico, quanto bioquímico. Inicialmente, o metano é liberado pela ação das bactérias na decomposição da matéria orgânica. Com o aumento da profundidade de soterramento, a degradação termal da matéria orgânica passa a ser mais importante na geração do metano. À medida que a permeabilidade do folhelho diminui e a quantidade total de água dos poros decresce, e, com a contínua alteração da matéria orgânica, existirá uma tendência para a água de poros se tornar saturada e para o aparecimento do gás livre. Isso promove o aparecimento de pressões anormalmente altas (Hedberg, 1974 apud Bruno, 1987). Outra diferença existente entre o sal e a argila é a densidade dos materiais. O sal não se compacta significativamente com o soterramento como a argila. Por exemplo, o sal em profundidades em torno de 700 e 1600 metros possui uma densidade de aproximadamente 2,2 g/cm3, que tende a ser menor que a densidade de várias rochas sedimentares em superfície. Isso demonstra que o sal é extremamente fluido com viscosidade entre 1017 e 1019 Pa (Jackson et al., 1990). Já a argila, à medida que é soterrada, tende a perder a sua porosidade e com isso se torna uma argila compactada, mais densa e sem mobilidade. 36 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ 3.4 - Diferenças nos estilos estruturais de acordo com as características reológicas e densidade do sal e do folhelho Estudos de caso e de modelagem analógica ( Morley e Guerin,1996; Wu e Bally, 2000 e Rowan et al., 2004) a partir de destacamento sobre nível salífero e folhelho revelaram algumas diferenças nas estruturas formadas pelo sal e pelo folhelho. Algumas dessas diferenças nos estilos estruturais estão ligadas diretamente às variações de propriedades físicas desses dois materiais (diferenças na reologia e densidade). Reologia As características reológicas da camada de décollement apresentam grande influência nos tipos de estruturas contracionais formadas pela translação da cobertura sedimentar sobre uma superfície basal de destacamento (Rowan et al., 2004). O grau de fricção (atrito), por exemplo, é uma dessas diferenças. Superfícies de destacamento com alto grau de fricção (no caso de folhelhos) tendem a gerar falhas de empurrão com baixo ângulo (figura 3-11a), já o movimento de uma camada basal com alta viscosidade (no caso do sal) tem como resultado a formação de pequenas dobras simétricas com alto ângulo (figura 3-11b). Figura 3-11. Resultados de dois modelos experimentais mostrando os efeitos da reologia do décollement no estilo estrutural: a) um destacamento friccional resulta em falhas embricadas assimétricas; e b) um decollement viscoso produzindo dobras simétricas com alto ângulo (Rowan et al., 2004). 37 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ Densidade Como já foi explicado anteriormente, o sal não se compacta significativamente e por isso possui densidade baixa mesmo quando soterrado, enquanto o folhelho, à medida que é soterrado, tende a perder a sua porosidade e com isso aumentar a sua densidade. Essas diferenças de densidade relativas ao sal e folhelho também são expressas nas estruturas que são formadas por esses materiais. O sistema de deformação gerado pelo sal tende a migrar de forma contínua em direção à bacia e formar estruturas de colapso devido a sua baixa densidade e facilidade em retirar-se por completo (Morley e Guerin, 1996). O folhelho, ao contrário do sal, apresenta densidades variáveis e dependentes do seu nível de compactação e grau de super-pressurização. O sistema originado pela migração do folhelho, desta forma, pode se deformar continuamente ou através de pulsos dependendo das mudanças no seu grau de super-pressurização (Morley e Guerin, 1996). Folhelhos altamente super-pressurizados apresentam menor densidade e conseqüentemente maior mobilidade e isso proporciona a geração de diápiros e dobras (Morley e Guerin, 1996; Wu e Bally, 2000; Rowan et al., 2004) (figura 3-14c). Já, a formação de cinturões de falhas reversas indicam uma camada de decollement relativamente resistente, isto é, com super-pressurização e mobilidade moderada, como no caso da Bacia Pará-Maranhão (figura 3-12). Figura 3-12. Falhas de empurrão na bacia off-shore Pará –Maranhão (Rowan et al., 2004). Outro fator que expressa diferenças nas estruturas formadas em sal e folhelhos é a espessura das camadas (Rowan et al., 2004). Camadas espessas de sal tendem a formar falhas simétricas e diápiros curtos (figura 3-13a), camadas de sal massivas e espessas tendem a formar nappes (figura 3-13b) e, camadas finas de sal formam falhas de empurrão com vergência tanto em direção à bacia e quanto para o continente (figura 3-13c). 38 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ Figura 3-13. Estilos estruturais desenvolvidos em décollement de camadas de sal: (a) camada de sal espessa formando falhas simétricas e diápiros curtos; (b) camada de sal massiva e espessa formando nappes e; (c) camada fina de sal formando falhas de empurrão com vergência tanto em direção à bacia quanto para o continente (Rowan et al., 2004). Em camadas finas de folhelhos resistentes são formadas famílias de empurrões imbricados (figura 3-14a), camadas espessas e com mobilidade moderada formam dobramentos falhados devido à baixa razão de deformação (figura 3-14b), já em uma camada espessa e altamente super-pressurizada são formados diápiros seguidos de dobramentos (figura 3-14c) . 39 Capítulo III – A Tectônica Gravitacional: uma revisão ____________________________________________________________________________________________________ Figura 3-14. Estilos estruturais desenvolvidos sobre décollement de folhelhos: (a) camadas finas e resistentes de folhelhos formando famílias de empurrões imbricados; (b) camadas espessas e com mobilidade moderada formando dobramentos falhados; (c) camada espessa e altamente superpressurizada formando diápiros seguidos de dobramentos (Rowan et al. 2004) . 40 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ Capítulo IV A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas A análise estrutural, as cartas geológicas e os resultados apresentados nesse capítulo referem-se à cobertura dos dados sísmicos disponíveis que recobrem apenas parte do sistema turbidítico do Cone do Amazonas, correspondendo à província fisiográfica do Cone Superior e parte do Cone Médio (figura 4-1). No entanto, a região de cobertura dos dados sísmicos corresponde efetivamente à área do sistema turbidítico afetada pela tectônica gravitacional, objeto do presente estudo. Figura 4-1. Mapa com os limites aproximados das províncias fisiográficas do Cone do Amazonas. 41 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ 4.1 - Análise do Arcabouço Estrutural do Sistema Gravitacional do Cone do Amazonas O Cone do Amazonas apresenta no seu pacote sedimentar uma diversidade de estruturas associadas ao mecanismo do sistema de deformação superficial extensiva (thinskinned extension) (figura 4-2): um domínio proximal extensivo, onde predominam falhas normais lístricas sintéticas; um domínio intermediário pouco deformado e deslizando de maneira rígida ou quase rígida; e, finalmente, um domínio distal contracional, caracterizado essencialmente pela presença de falhas reversas. Figura 4-2. Mapa ilustrativo dos domínios estruturais identificados no Cone do Amazonas. 42 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ O domínio extensivo distribui-se ao longo de uma faixa proximal de direção geral NW-SE localizado aproximadamente entre as profundidades de 300 e 500 m. Este domínio apresenta uma largura média da ordem de 42 km, sendo ligeiramente mais largo na porção noroeste do cone (aproximadamente 46 km) que na sua porção sudeste (aproximadamente 38 km) (figura 4-2). O domínio estrutural intermediário pouco deformado (ausência de estruturas visíveis no nível de resolução dos perfis sísmicos disponíveis) é observado entre os dois domínios anteriormente citados. Mas, diferentemente de outras regiões no mundo também afetadas pela tectônica gravitacional onde um domínio intermediário é claramente identificado (ex: Leque Submarino do Rhône, Delta do Niger, etc), sua presença é pouco expressiva no Cone do Amazonas. De forma geral, o domínio intermediário indeformado apresenta pouca expressão areal (aproximadamente 30 km de largura) quando comparado à largura dos domínios extensional (42 km em média) e contracional (60 km em média). Além disso, este domínio estrutural não é sistematicamente observado ao longo de todos os perfis no sentido da bacia (dip lines). Algumas vezes o domínio extensional é imediatamente seguido de falhas reversas que caracterizam o domínio contracional (figura 4-2). Finalmente, o domínio contracional constitui o domínio estrutural mais distal distribuindo-se igualmente ao longo de uma faixa de direção geral NW-SE. Sua largura contudo é variável, apresentando aproximadamente 70 km na porção noroeste do cone, e aproximadamente 40 km na porção sudeste (figura 4-2). 4.1.1 – Análise do estilo estrutural da tectônica gravitacional do Cone do Amazonas As estruturas (extensionais e compressionais) que compõem o sistema tectonogravitacional na região do Cone do Amazonas encontram-se ancoradas numa superfície basal de destacamento que se estende desde a região do talude até a bacia profunda da região de estudo (figura 4-3). Esta superfície foi identificada e datada por Silva et al. (1999) como sendo de idade miocênica. No entanto, na plataforma continental da região de estudo, observa-se uma família de falhas normais lístricas que parece ancorada numa superfície de destacamento mais profunda, identificada somente na região da plataforma continental da área. Tais falhas já foram mapeadas por Silva et al. (1999), e relacionadas à superfície basal 43 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ de destacamento mais antiga, datada pelos autores como sendo de idade terciária. No presente trabalho, dispomos de apenas uma linha sísmica onde puderam ser identificadas as falhas relacionadas à superfície de destacamento mais profunda (figura 4-4). No entanto, devido ao nível de resolução do perfil, não foi possível a identificação da superfície em questão. Assim, devido à insuficiência de dados na região da plataforma, as estruturas relacionadas a essa superfície de destacamento mais profunda não foram objeto de investigação. Na verdade, a superfície basal de destacamento estudada parece relacionada a um nível móvel basal, como identificado por Silva et al. (1999). Este nível móvel (uma camada de folhelhos super-pressurizados) foi aqui identificado, de acordo com Hedberg (1974), através das características apresentadas nos refletores sísmicos: presença de dois refletores (base e topo da camada) com alta amplitude delimitando uma camada com refletores descontínuos ou mesmo sem reflexões internas (figura 4-3). 44 Capítulo IV – a Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Figura 4-3. Perfil sísmico com a interpretação da camada móvel e da superfície de destacamento. TWTT (tempo duplo de propagação da onda). 45 Capítulo IV – a Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Figura 4-4. Perfil sísmico que abrange a área da plataforma.São observadas as estruturas que estão ancoradas na superfície basal de destacamento. TWTT (tempo duplo de propagação da onda). 46 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ 4.1.1.1 - Estruturas observadas no Domínio Extensivo O domínio extensivo é caracterizado pela presença predominante de falhas normais lístricas sintéticas, que possuem mergulho em direção ao mar (figura 4-5A), e por vezes falhas antitéticas, com mergulho em direção ao continente (figura 4-5B). As falhas normais lístricas apresentam uma distância média entre si de aproximadamente 4 km, e uma extensão de linha de falha de no máximo 80 km (figura 4-6). A maior parte das falhas encontram-se soterradas, mas algumas chegam até a superfície. Estas falhas aflorantes podem resultar num forte impacto morfológico formando escarpamentos de até 180 m de desnível no fundo submarino (figura 4-5C). Essas escarpas não foram descritas em trabalhos anteriores, apenas Damuth et al. (1988) fizeram referência a feições a morfológicas “escarpadas” na região do Cone Superior, sem inferi-las, contudo num contexto estrutural. São também observadas cunhas sedimentares sintectônicas (expanding wedges) e localmente podem ainda ser observadas falhas sintéticas e antitéticas conjugadas formando grabens (figura 4-5B). Figura 4-5. Estruturas do domínio extensional observadas no Cone do Amazonas. 47 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ 48 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ Figura 4-6. Mapa com a disposição das estruturas que compõem o sistema de deformação gravitacional existente no Cone do Amazonas e suas províncias morfológicas (Cone Superior e Cone Médio). 4.1.1.2 - Estruturas observadas no Domínio Contracional O domínio contracional é representado por falhas de empurrão (thrust faults) com mergulho em direção ao continente formando frentes compressivas (figura 4-7A). A zona de frentes compressivas possui uma largura variável dependendo da região, apresentando cerca de 30 km no setor sudeste e 70 km no setor noroeste. O comprimento das linhas de falhas de empurrão é de no máximo 70 km, enquanto a distância média entre elas é de cerca de 3 a 5 km (figura 4-6). A maior parte das falhas de empurrão são inativas, porém algumas atingem a 49 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ superfície afetando a morfologia do fundo. Estas falhas aflorantes podem formar altos topográficos e/ou escarpas com relevo relativo de até 480 m de altura (figura 4-7B). A presença de altos estruturais em pares delimita sub-bacias sedimentares (figura 4-7C). São também observadas, na porção frontal do domínio contracional, falhas reversas aparentemente neo-formadas que se assemelham à evolução do sistema de falhas reversas em prismas sedimentares de acreção em margens continentais ativas (Keary e Vine, 1999) (figuras 4-3 e 4-4). Figura 4-7. Estruturas características do domínio contracional no Cone do Amazonas. 50 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ 4.1.2 – Compartimentação Estrutural da Tectônica Gravitacional do Cone do Amazonas Como anteriormente já identificada por Cobbold et al. (2004), a análise estrutural e a integração dos dados disponíveis possibilitaram a compartimentação do sistema tectonogravitacional da região do Cone do Amazonas em dois compartimentos principais, baseado na variação do estilo estrutural ao longo do talude da área de estudo: um Compartimento Sudeste e um Compartimento Noroeste (figura 4-8). O sistema Canyon-canal submarino atual do Amazonas representa um eixo que divide geograficamente os dois compartimentos. A falta de cobertura de dados na região intermediária a esses dois compartimentos impossibilitou a observação de como ocorre a interação entre eles. Se há uma provável interdigitação entre eles ou se efetivamente não há presença de estruturas na região. Figura 4-8. Mapa com a compartimentação estrutural existente no Cone do Amazonas. 51 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ 4.1.2.1 - O Compartimento Sudeste O Compartimento Sudeste (figura 4-8) caracteriza-se por um sistema gravitacional estreito (cerca de 115 km de largura) estendendo-se de aproximadamente 300 até cerca de 1500 m de profundidade. Representa um compartimento geograficamente mais restrito ao talude continental superior, correspondendo desta forma à porção proximal da província fisiográfica do Cone Superior. A estruturação do sistema de deformação gravitacional observada nesse compartimento apresenta uma configuração mais uniforme, no sentido de que as estruturas (extensionais e compressionais) estão seqüenciadamente dispostas seguindo um maior paralelismo entre elas. A quantidade de falhas que integram tanto o domínio extensional quanto o contracional deste compartimento é menor que no Compartimento Noroeste, que se encontra mais afetado pela tectônica gravitacional. O domínio extensional neste compartimento estrutural possui uma largura de aproximadamente 38 km e se estende desde a quebra da plataforma até profundidades em torno de 500 m. A distância entre as falhas normais lístricas varia à medida que elas se dispõem em direção à bacia, passando de 3 km entre as falhas mais proximais a 8 km entre as falhas mais distais. O comprimento de linha de falha em mapa chega a variar entre 30 e 85 km. Algumas dessas estruturas atingem a superfície e afetam a morfologia do fundo submarino, formando escarpamentos de aproximadamente 180 m de altura (figura 4-9). Neste compartimento estrutural, as escarpas são observadas, via de regra, ao longo das falhas mais distais do domínio extensional. O domínio intermediário no compartimento sudeste apresenta-se melhor definido que no Compartimento Noroeste. Possui uma extensão que varia entre 15 e 30 km de largura, formando uma faixa contínua entre aproximadamente 300 e 600 m de profundidade na porção mais larga (figura 4-8). O domínio contracional possui uma largura de 40 km, e atinge profundidades que vão de 500 a 1500 m. Neste compartimento estrutural, o domínio contracional também apresenta uma configuração mais uniforme em relação ao Compartimento Noroeste, pois as falhas reversas são mais paralelas entre si (figura 4-8). Da mesma forma, estas falhas apresentam menor distância relativa entre elas (variando de 1 km a 2.8 km), e menores comprimentos de linha de falha, com extensões variando entre 8 e 40 km. A presença de altos topográficos e/ou escarpas formados por falhamentos ativos não é tão característica nesse compartimento. 52 Capítulo IV – a Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Figura 4-9. Perfil sísmico onde é observada a existência de escarpamentos formados por falhas lístricas ativas no Compartimento Sudeste. TWTT (tempo duplo de propagação da onda). 53 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ 4.1.2.2 – O Compartimento Noroeste O Compartimento Noroeste do Cone do Amazonas (figura 4-8) apresenta-se mais complexamente estruturado que o Compartimento Sudeste, sendo caracterizado por um sistema gravitacional geograficamente mais amplo (cerca de 152 km de largura), que se estende até cerca de 2500 m de profundidade (figura 4-8). Desta forma, este compartimento estrutural afeta uma maior área do cone submarino, englobando na área a quase totalidade da província fisiográfica do Cone Superior. A estruturação nesse compartimento é relativamente mais complexa que no compartimento sudeste, pois apresenta um padrão anastomosado, onde as falhas (normais e reversas) parecem se interdigitar. O domínio extensional apresenta larguras bastante variáveis (de 30 a 85 km), sendo que a maior largura está na porção central do compartimento, atingindo profundidades desde a quebra da plataforma até 1500 m. As falhas normais possuem distâncias entre elas variando de 2.8 km a 8.5 km de largura, com extensão de linha da falha entre 15 a 74 km (figura 4-8). A presença de falhamentos aflorantes modifica a morfologia do fundo submarino neste compartimento, gerando escarpas com alturas de até cerca de 100 m (figura 4-10A e 4-10B). Na porção mais proximal do domínio, pares conjugados de falhas normais lístricas sintéticas e antitéticas formam uma série de grabens. O domínio intermediário apresenta um contorno bastante irregular, ora localizandose mais distalmente ou mais proximalmente. Sua largura é igualmente variável no sentido SENW, variando de 3 a 30 km. Contudo, em alguns locais este domínio é praticamente inexistente, pois ocorre a passagem do domínio extensional para o contracional quase que instantaneamente (figura 4-8). 54 Capítulo IV – a Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Figura 4-10A. Perfil sísmico onde é observada a existência de escarpamentos formados por falhas normais lístricas ativas e também por falhas reversas ativas no Compartimento Noroeste. TWTT (tempo duplo de propagação da onda). 55 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ Figura 4-10B. Escarpa formada por falha normal lístrica ativa no Compartimento Noroeste O domínio contracional neste compartimento estrutural é mais largo, variando entre 45 a 70 km de largura, e atinge profundidades que vão desde 500 m até cerca de 2500 m aproximadamente. As falhas reversas apresentam uma distância entre elas variando de 1 a 8.5 km, sendo que essa distância maior está entre as falhas dispostas após uma falha aflorante (figuras 4-8 e 4-11). Outra diferença em relação ao compartimento sudeste é a extensão das linhas de falha, situando-se entre 8 a 60 km. A disposição destas falhas é também mais complexa, caracterizada por um padrão anastomosado onde as falhas se entrelaçam e parcialmente se superpõem (figura 4-8). Neste compartimento encontram-se também escarpas e altos topográficos relacionados à falhas ativas aflorantes. Estas feições chegam a atingir até cerca de 480 m de altura e são as feições superficiais, originadas através da tectônica gravitacional, mais significativas em toda a escala do Cone do Amazonas. Estes altos delimitam uma série de sub-bacias confinadas, cuja configuração se assemelha às formadas por domos de sal em bacias afetadas pela tectônica salífera (ex. Bacia de Campos) (figura 412). Estas sub-bacias apresentam unidades sedimentares basais inclinadas (estratos subhorizontalizados com mergulho suave em direção ao continente) e unidades superficiais pouco ou não deformadas (figura 4-13). 56 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ___________________________________________________________________________________________________________________________________________________________ Figura 4-11. Perfil sísmico onde é observado um maior distanciamento das falhas reversas após uma falha ativa no Compartimento Noroeste. 57 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ Figura 4-12. Perfil sísmico com a presença de altos topográficos e sub-bacia associada formado por falhas de empurrão ativas (Compartimento Noroeste). 58 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ Figura 4-13. Perfil sísmico mostrando a formação de sub-bacias e a estruturação das camadas sedimentares dentro delas (Compartimento Noroeste). 59 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ 4.2 - Parâmetros que influenciam o estilo estrutural da tectônica gravitacional no Cone do Amazonas A existência de uma compartimentação estrutural do sistema gravitacional na região do Cone do Amazonas nos leva a questionamentos sobre o porquê dos estilos estruturais identificados, e finalmente sobre os fatores condicionadores do arcabouço estrutural de cada compartimento. Assim, para uma melhor compreensão dos distintos estilos estruturais mapeados, empreendemos a investigação dos principais componentes do sistema da tectônica gravitacional, a saber: mapeamento da superfície basal de destacamento (mapa morfológico); mapeamento da cobertura sedimentar afetada pela deformação (mapa de isópacas da seqüência sedimentar Neomioceno-Recente, que constitui o Cone do Amazonas). 4.2.1 - Morfologia da Superfície Basal de Destacamento Devido a não disponibilização de dados crono-estratigráficos e de velocidade intervalar das unidades sedimentares afetadas pela tectônica gravitacional, as isolinhas que ilustram o mapa morfológico dessa superfície estão representadas em tempo (ms). Da mesma forma, não foi possível a realização de cálculos de subsidência na região. Assim, a morfologia da superfície basal de destacamento, representada no mapa da figura 4-14 é de caráter qualitativo que nos indica as variações morfológicas da superfície (gradientes relativos), impossibilitando contudo a inferência de valores absolutos de gradiente. No mapa da figura 4-14, a superfície basal de destacamento mostra uma morfologia geral simétrica caracterizada por direções de gradiente que se dispõem num arranjo radial convergente (na definição de Cobbold e Szatmari, 1991), situando-se a região de convergência na porção central da área de estudos. Considerando a compartimentação estrutural estabelecida no item precedente, o Compartimento Sudeste ocupa uma região onde a morfologia da superfície basal de destacamento é caracterizada por um gradiente geral de direção SSE-NNW, e onde ela se encontra mais rasa (entre aproximadamente -4000 e -6700 ms). Já o Compartimento Noroeste ocupa uma região caracterizada por gradientes gerais que variam entre as direções SW-NE e WNW-ESE, englobando assim a zona de convergência dos gradientes, e a região onde a superfície basal de destacamento apresenta as maiores profundidades relativas (entre aproximadamente -4000 e -8500 ms) (figura 4-15). 60 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ Figura 4-14. Mapa morfológico da superfície basal de destacamento da tectônica gravitacional do Cone do Amazonas. Figura 4-15. Mapa da superfície de destacamento com as direções gerais do gradiente. 61 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ O arcabouço estrutural de várias regiões do mundo afetadas pela tectônica superficial extensiva apresenta estruturas que se orientam ortogonalmente à direção geral do gradiente da superfície basal de destacamento, como por exemplo: o Delta do Niger (Hooper et al., 2002), o Leque submarino do Rhone (Reis, 2001, Reis et al.,in press), o Leque PirineoLanguedociano (Reis et al., 2004a). No entanto, a observação de um mapa estrutural conjugado com o mapa morfológico da superfície basal de destacamento na região do Cone do Amazonas (figura 4-16) mostra que nem todas as estruturas (falhas normais e reversas) se orientam ortogonalmente à direção geral do gradiente da superfície basal de destacamento. Contudo, valores relativos e mudança de gradiente parecem condicionar a localização dos domínios extensionais e contracionais, tanto no Compartimento Sudeste quanto no Compartimento Noroeste, como ilustram os perfis topográficos da superfície basal: Figura 4-16. Mapa da superfície de destacamento com as direções gerais do gradiente e a localização das estruturas. 62 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ • O perfil topográfico traçado ao longo do Compartimento Sudeste mostra que as estruturas extensionais encontram-se sistematicamente ancoradas ao longo de segmentos morfológicos de maior gradiente relativo da superfície basal de destacamento (figura 4-17). No caso das falhas aflorantes que formam escarpamentos, elas se localizam geralmente nas regiões de quebra de gradiente. Já as estruturas compressivas estão localizadas na porção mais distal onde o gradiente da superfície apresenta-se mais horizontalizado (figura 4-17). Figura 4-17. Perfil da superfície basal de destacamento em conjunto com a superfície do fundo submarino no Compartimento Sudeste. As falhas demonstradas não correspondem à escala real na área de estudos, servindo apenas de modo ilustrativo. É observada a localização das estruturas extensionais na região d e maior gradiente relativo, e as falhas lístricas ativas na região próxima a quebra de gradiente. Localização do perfil na figura 420. • Ao contrário, os perfis topográficos traçados ao longo do Compartimento Noroeste mostram que parte das estruturas extensionais (região central do compartimento) dispõem-se ortogonalmente as direções de gradiente, ao mesmo tempo que a frente contracional ocupa, de maneira geral, a região de convergência das direções de gradiente. Da mesma forma que no Compartimento Sudeste as estruturas contracionais também estão situadas na porção de menor gradiente (figura 4-18); ao passo que as estruturas extensionais não estão, como no compartimento sudeste, localizadas na região de maior gradiente, mas sim numa região de gradiente relativo intermediário. Neste compartimento, as falhas aflorantes que formam escarpamentos também se localizam geralmente nas regiões de quebra de gradiente (figura 4-18). 63 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ Figura 4-18. Perfis 2 e 3 da superfície basal de destacamento em conjunto com a a superfície do fundo submarino no Compartimento Noroeste. As falhas demonstradas não correspondem a escala real na área de estudos, servindo apenas de modo ilustrativo. É observada a localização das estruturas extensionais na região de gradiente relativo intermediário, e as falhas lístricas ativas na região próxima a quebra de gradiente. Localização do perfil na figura 4- 20. As observações feitas sobre a relação entre estruturas e a morfologia da superfície de destacamento corroboram estudos de casos e modelos analógicos, pois as falhas normais ocupam, via de regra, regiões proximais de maior gradiente (Reis, 2001; Reis et al., in press) enquanto que feições compressionais (falhas reversas) e/ou diapíricas ocupam regiões distais com tendência à diminuição de gradiente (Vendeville, 1987, Vendeville e Cobbold, 1989). As estruturas compressionais se instalam em função dos baixos gradientes que diminuem o movimento de translação do pacote sedimentar, criando uma zona de contração. Neste sentido, a configuração da superfície de deslizamento (radial convergente) explicaria em parte, a configuração do compartimento estrutural norte do Cone do Amazonas, onde múltiplas e complexas frentes de encurtamento se desenvolvem próximos à região de convergência radial dos gradientes da superfície de destacamento (direção preferencial da translação). Contudo, os valores e direções de gradiente da superfície não explicam por si só, os estilos estruturais presentes no cone, nem tampouco a assimetria observada na 64 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ compartimentação estrutural do sistema de tectônica gravitacional, pois a evolução sedimentar (sobrecarga) é outro fator condicionante na evolução do sistema (Worral e Snelson, 1989; Szatmari et al., 1996; Damuth, 1994). 4.2.2 - Mapa de Isópacas da Cobertura sedimentar Neomioceno –Recente. O mapa de isópacas da cobertura sedimentar Neomioceno-Recente (figura 4-19) não representa os valores reais da espessura sedimentar da seqüência, pois estão representados em tempo (ms). Esta limitação não compromete o objetivo do estudo, uma vez que o mapa nos indica as variações laterais de espessura, assim como ilustra a localização dos principais depocentros da seqüência. Essas são as informações relevantes para a compreensão da influência da sobrecarga sedimentar diferencial sobre o funcionamento do sistema de tectônica superficial extensiva (Vendeville et al., 1987). Figura 4-19. Mapa de isópacas do Cone do Amazonas. As espessuras relativas são dadas em tempo(ms). 65 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ O mapa de isópacas da Seqüência Neomioceno–Recente mostra que o principal depocentro do Cone do Amazonas (depocentro D1 na figura 4-19) encontra-se na região central da área de estudos, apresentando valores máximos de espessura da ordem de 8376 ms. Este depocentro localiza-se no Compartimento Noroeste do sistema gravitacional do cone. Um depocentro secundário (depocentro D2 na figura 4-19) encontra-se na porção sudeste da área, correspondendo ao Compartimento Sudeste. Este depocentro apresenta uma configuração areal mais restrita e também uma espessura sedimentar menor (aproximadamente 6500 ms de espessura). O depocentro observado no Compartimento Noroeste já havia sido reportado por Silva et al. (1999), onde os autores indicam uma espessura de 9000 m. A localização do principal depocentro corrobora de certa forma a feição morfológica assimétrica do Cone do Amazonas (quando considerando a posição não axial do sistema Canyon-canal do Amazonas), estando localizado na porção a norte do sistema Canyon-Canal do Amazonas (figura 4-19). Esta situação provavelmente reflete a história de subsidência da bacia, e o padrão de empilhamento do sistema de canal-dique marginal que, segundo Damuth et al. (1983) empilharam-se, pelo menos durante o Quaternário, preferencialmente a norte do canyon atual. É observado que a localização das estruturas (extensionais e contracionais) corresponde a áreas de variação significativa na espessura sedimentar da seqüência, tanto no compartimento estrutural Sudeste quanto no Noroeste: • Um perfil conjugado da morfologia da superfície basal de destacamento e da espessura do pacote sedimentar no Compartimento Sudeste (figura 4-17) nos revela a dimensão do prisma sedimentar que corresponde à região do depocentro secundário local (depocento D2 na figura 4-19). O perfil mostra que tanto as estruturas extensionais quanto compressionais estão localizadas próximas ao limite da sobrecarga sedimentar (bordas do depocentro D2), e que as falhas ativas do domínio extensional estão localizadas na região onde se tem os valores máximos de espessura sedimentar do depocentro D2. Finalmente, a largura do sistema gravitacional estruturado (sistema extensional-contracional) de cerca de 115 km de extensão corresponde à largura do prisma sedimentar que constitui o depocentro D2 (figura 4-19). • Nos perfis conjugados da morfologia da superfície basal de destacamento e da espessura do pacote sedimentar no Compartimento Noroeste (figura 4-18) também é observado que as estruturas compressionais estão 66 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ localizadas próximas ao limite da sobrecarga sedimentar (bordas do depocentro D1, figura 4-20). Já as falhas normais do domínio extensional estão localizadas na região de maior espessura do depocentro, mas as falhas ativas do domínio também estão, como no Compartimento Sudeste, localizadas na região onde se tem os valores máximos de espessura sedimentar do depocentro D1. A maior largura do Compartimento Noroeste (152 km) corresponde à largura do prisma sedimentar que constitui o depocentro D1 (figura 4-20). Figura 4-20. Mapa de isópacas do Cone do Amazonas conjugado com as estruturas e localização dos perfis. 67 Capítulo IV – A Tectônica Gravitacional no Cone do Amazonas ____________________________________________________________________________________________________ A relação existente entre a espessura sedimentar e as estruturas observadas no Cone do Amazonas corroboram com estudos feitos no Delta do Niger (Damuth, 1994; Hooper, et al., 2002), onde, a rápida progradação de uma sedimentação deltaica em direção ao mar favorece a formação de falhas normais lístricas na região mais proximal do sistema de deformação superficial extensiva (área de maior espessura sedimentar); enquanto que as falhas contracionais são formadas na região mais distal do sistema (bordas do depocentro). É observado também que as falhas normais que formam escarpamentos estão geralmente alinhadas ao longo do depocentro, pois seu caráter de falhas sin-sedimentares favorece o próprio desenvolvimento do depocentro, através do espessamento sin-tectônico das cunhas sedimentares delimitadas entre o plano de falhas e o rollover. Essa distribuição estrutural do sistema de deformação superficial extensiva em função da sobrecarga sedimentar, se explicaria, segundo Damuth (1994) e Hooper, et al. (2002), pelo fato de que a sobrecarga sedimentar atuaria na camada de folhelhos desestabilizando-a e fazendo com que esta se movimentasse em direção à bacia profunda (região de menor sobrecarga sedimentar). Ao atingir essas áreas de menores pressões a camada tenderia a diminuir o seu movimento. A migração dessa camada sobrepressão formaria então, na parte superior do sistema de deformação superficial extensiva, estruturas extensionais (falhas normais lístricas). Já, na porção de borda da sobrecarga sedimentar, onde o movimento desta camada tende a cessar, seriam formadas falhas reversas e/ ou diápiros (estruturas contracionais). As estruturas contracionais são formadas devido ao empilhamneto do pacote sedimentar transladante. 68 Capítulo V– Discussão e Conclusões __________________________________________________________________________ Capítulo V Discussão e Conclusões 5.1 - Discussão O Cone do Amazonas representa um dos maiores sistemas turbidíticos em escala global, estendendo-se desde a região de quebra da plataforma até profundidades de aproximadamente 4500 m. Considerando as províncias fisiográficas de leque superior e leque médio, o Cone do Amazonas apresenta-se como uma feição construcional de forma geral cônica. Contudo, considerando a localização não axial do sistema canyon-canal do Amazonas, o cone apresenta-se, a grosso modo, como uma feição construcional assimétrica (figura 5-1). Esta assimetria reflete também a configuração do arcabouço estrutural da tectônica gravitacional na região. No sentido talude-bacia, o Cone do Amazonas apresenta uma diversidade de estruturas associadas ao mecanismo da tectônica superficial extensiva (thin-skinned extension) (figura 42): um domínio proximal extensivo, onde predominam falhas normais lístricas sintéticas; um domínio intermediário pouco deformado e deslizando de maneira rígida ou quase rígida; e, finalmente, um domínio distal contracional, caracterizado essencialmente pela presença de falhas reversas. As estruturas que compõem esse sistema de deformação superficial extensiva estão ancoradas em uma superfície basal de destacamento localizada na base de um nível móvel (folhelhos super-pressurizados ?), semelhantemente ao que ocorre no Delta do Niger (Cohen e McClay, 1996, Damuth, 1994; Hooper, et al., 2002). Essa provável camada de folhelhos super-pressurizados, já identificada anteriormente por Silva et al. (1999), é também considerada neste trabalho. A identificação desta camada foi feita através das características 69 Capítulo V– Discussão e Conclusões __________________________________________________________________________ das reflexões sísmicas e sua interpretação foi definida através da análise de fácies sísmicas de uma camada presente na base da cobertura sedimentar estruturada. Esta camada é limitada na base e no topo por refletores sísmicos com alta amplitude, e internamente por refletores descontínuos ou mesmo quase com ausências de reflexões (figura 4-3), essas características coincidem com as atribuídas por Hedberg (1974) para folhelhos super-pressurizados. A super-pressurização nesta camada estaria, provavelmente, associada à presença de gás metano (Bruno, 1987; Brandão e Feijó, 1994; Silva et al., 1999). Porém, Cobbold et al, (2004) não associam a geração das estruturas à movimentação de uma camada de folhelhos super-pressurizados, e sim, a uma descontinuidade gerada simplesmente pela presença de gás metano, formada pela presença de fluidos numa superficie basal de destacamento não associada a um nível móvel. Os autores afirmam que seria improvável a existência de sedimentos não compactados na profundidade em que se encontra a superfície de destacamento (cerca de 10 km). O autor do presente trabalho também concorda com o fato de que na profundidade em que se encontra a camada de folhelhos, esta normalmente estaria compactada, mas a presença de fluidos super-pressurizados (gás metano) possivelmente lhe proporcionaria mobilidade (comportamento dúctil). O fato de existir gás nessa região não descartaria a importância do movimento da camada de folhelhos como motor da instabilidade gravitacional da cobertura sedimentar Neomioceno-Recente e sua conseqüente estruturação. Desta forma, as hipóteses da presença de folhelho super-pressurizados e de gás metano não parecem excludentes. A análise estrutural e a integração dos dados disponíveis possibilitaram ainda a compartimentação do sistema tectono-gravitacional da região do Cone do Amazonas em dois compartimentos principais, baseados na variação do estilo estrutural ao longo do talude e elevação continental da área de estudo: um Compartimento Sudeste e um Compartimento Noroeste (figura 5-1). O sistema atual canyon-canal submarino do Cone do Amazonas representa um eixo que divide geograficamente os dois compartimentos. Essa divisão do sistema tectono-gravitacional do Cone do Amazonas em dois compartimentos (Sudeste e Noroeste) já havia sido feita por Cobbold et al. (2004), porém as larguras desses compartimenos estipuladas pelos autores diferenciam-se das verificadas no presente trabalho. Cobbold et al. (2004) delimitaram o Compatimento Sudeste estendendo-se de aproximadamente 300 até cerca de 1200 m de profundidade e o Compartimento Noroeste de 300 até cerca de 1500 m de profundidade. 70 Capítulo V– Discussão e Conclusões __________________________________________________________________________ O Compartimento Sudeste (figura 5-1), neste trabalho, é representado por um sistema gravitacional mais estreito (cerca de 115 km de largura) estendendo-se de aproximadamente 300 até cerca de 1500 m de profundidade, correspondendo à porção proximal da província fisiográfica do Cone Superior. O Compartimento Noroeste (figura 5-1) apresenta-se mais complexamente estruturado que o Compartimento Sudeste, sendo caracterizado por um sistema gravitacional geograficamente mais amplo (cerca de 152 km de largura), que se estende até cerca de 2500 m de profundidade. A assimetria deste arcabouço estrutural é fruto da interação de fatores como: a morfologia da superficie basal de destacamento e a sobrecarga sedimentar diferencial. A análise do mapa morfológico da superfície basal de destacamento e do mapa de isópacas da cobertura sedimentar Neomioceno-Recente do Cone do Amazonas, juntamente com o mapa de localização das estruturas, possibilitou as seguintes conclusões: • O sistema de deformação superficial extensiva do Cone do Amazonas é condicionado pela sobrecarga sedimentar diferencial, pois os dois compartimentos estruturais (Sudeste e Noroeste) estão localizados na área equivalente aos dois principais depocentros (D1 e D2) existentes no cone. O domínio extensional, de forma geral, está localizado na porção de maior espessura relativa de cada depocentro; enquanto o domínio contracional localiza-se nas bordas dos depocentros (limites da sobrecarga), onde se tem uma diminuição da sobrecarga sedimentar. No domínio extensional, ainda se observa que as falhas normais lístricas que formam escarpamentos estão geralmente alinhadas ao longo do eixo do depocentro, pois seu caráter de falhas sin-sedimentares favorece o próprio desenvolvimento do depocentro, através do espessamento sin-tectônico das cunhas sedimentares delimitadas entre os planos de falha e os rollovers. A relação existente entre a espessura sedimentar e a localização dos domínios extensional e contracional no Cone do Amazonas refletem a mesma relação em estudos feitos no Delta do Niger (Damuth, 1994; Hooper, et al., 2002), onde a rápida progradação de uma sedimentação deltaica em direção ao mar favoreceu a formação de falhas normais lístricas na região mais proximal (área de maior espessura sedimentar) do sistema de deformação superficial extensiva; enquanto que as falhas compressivas (reversas) são formadas na região 71 Capítulo V– Discussão e Conclusões __________________________________________________________________________ mais distal do sistema (limites da sobrecarga). Essa distribuição estrutural do sistema de deformação superficial extensiva em função da sobrecarga sedimentar se explicaria, segundo Damuth, (1994) e Hooper et al. (2002), pelo fato de que a sobrecarga sedimentar atuaria na camada de folhelhos desestabilizando-a e fazendo com que esta se movimentasse em direção à bacia profunda (região de menor sobrecarga sedimentar). Ao atingir essas áreas de menores pressões, a camada tende a diminuir o seu movimento. Com a migração dessa camada superpressurizada, o pacote sedimenar, sobrejacente a ela, translada e então são formadas, na porção proximal do sistema, estruturas extensionais (falhas normais lístricas). Já nos limites da sobrecarga sedimentar onde o movimento desta camada tende a diminuir, seriam formadas falhas reversas e/ou diápiros (estruturas contracionas), através do empilhamneto do pacote sedimentar transladado. Porém, Silva et al. (1999) associam a morfologia da zona compressiva a uma descontinuidade morfológica na base de destacamento, relacionada com à zona de fratura de São Paulo e ao limite entre a crosta continental e a crosta oceânica. Os autores explicam que a descontinuidade formada por essas feições teria servido como barreira, impedindo a movimentação do pacote sedimentar decorrente do deslizamento gravitacional. Dessa forma, ocorreria o empilhamento do pacote sedimentar transladante e consequentemente a geração de falhas reversas (figura 2-10). A base de dados disponíveis para este trabalho não permitiu relacionar o domínio contracional com a morfologia da zona de fratura de São Paulo e ao limite entre a crosta continental e a crosta oceânica. Wu e Bally (2000), em estudo feito no Golfo de Guiné na Nigéria, observaram uma feição bastante proeminente referente à Zona de Fratura de Charcot (figura 3-9). A Zona de Fratura de Charcot gera uma descontinuidade no embasamento e favorece a formação de falhamentos reversos. Na região do Cone do Amazonas não foi observada feição morfológica que caracterizasse uma zona de fratura. O que parece acontecer é a evolução natural do sistema de deformação superficial extensiva, direcionado pelo movimento de uma camada basal dúctil, formando um domínio proximal extensivo (com falhas normais lístricas), e, à medida que migra para as porções distais, essa camada basal, devido às forças de atrito e também à mudança de gradiente da superfície de destacamento, diminui o seu movimento e, consequentemente, o pacote sedimentar transladante tende a empilhar-se e formar um domíno contracional. A área estruturada correspondente aos Compartimentos Noroeste e Sudeste parece refletir a largura do prisma sedimentar nesses dois compartimentos. O depocentro D1, referente ao Compartimento Noroeste, é representado por um prisma sedimentar de uma 72 Capítulo V– Discussão e Conclusões __________________________________________________________________________ maior largura e, conseqüentemente, resultaria numa maior área estruturada nesta porção do cone. O depocentro D2, referente ao Compartimento Sudeste, é representado por um menor prisma sedimentar, e conseqüentemente, resulta numa área estruturada de largura inferior à do Compartimento Noroeste. • A morfologia da base de destacamento também influencia a formação das estruturas existentes no Cone do Amazonas. Observa-se que as falhas normais lístricas localizam-se normalmente na região de maior gradiente relativo da superficie basal de destacamento; enquanto as estruturas contracionais (falhas reversas) estão na região de quebra de gradiente, a partir de onde este quase se horizontaliza. A relação entre as estruturas e a morfologia da superfície de destacamento corrobora uma série de estudos de caso e com modelos analógicos, segundo os quais as falhas normais ocupam, via de regra, regiões proximais de maior gradiente (Vendeville e Cobbold, 1988; Cobbold e Szatmari, 1991; Reis, 2001; Reis et al., in press) enquanto que as estruturas contracionais (falhas reversas e/ou diapíricas) ocupam regiões distais com tendência à diminuição de gradiente (Vendeville, 1987; Vendeville e Cobbold, 1989). As estruturas compressionais se instalam em função dos baixos gradientes que diminuem o movimento de translação do pacote sedimentar, criando uma zona de contração. Neste sentido, a configuração das direções de gradiente da superfície de deslizamento (radial convergente) explicaria em parte, a configuração do compartimento estrutural noroeste do Cone do Amazonas, onde múltiplas e complexas frentes de encurtamento se desenvolvem próximos à região de convergência radial dos gradientes da superfície de destacamento (direção preferencial da translação). Através dos estilos estruturais presentes no Cone do Amazonas (falhas de empurrão imbricadas), e de acordo com o estudo feito por Rowan et al. (in press), podem-se inferir as características reológicas da camada de folhelho. Possivelmete deve tratar-se de um folhelho com grau de super-pressurização intermediário, pois as estruturas contracionais existentes na área são representadas por falhas de empurrão assimétricas e não há a presença de diápiros. 73 Capítulo V– Discussão e Conclusões __________________________________________________________________________ 5.2 - Conclusões Os resultados do trabalho mostram que a tectônica gravitacional no Cone do Amazonas é condicionada por fatores externos e internos no que diz respeito à argila superpressurizada. Os principais fatores externos reconhecidos como possíveis condicionadores do arcabouço estrutural da tectônica gravitacional no Cone do Amazonas são: progradação sedimentar (sobrecarga diferencial) e a morfologia da base de destacamento Os dois compartimentos estruturais do Cone do Amazonas estão sobre a influência da progradação sedimentar, pois as estruturas tanto no Compartimento Sudeste como no Noroeste estão associadas aos limites da sobrecarga, referentes aos depocentros D1 e D2. Assim a progradação sedimentar diferencial é o fator preponderante que determina a dimensão dos compartimentos do Cone do Amazonas: o compartimento mais curto e próximo, no sudeste da área, e o compartimento mais amplo que estende mais distalmente, na porção noroeste da área (figura 5-1). Porém a morfologia da superfície de destacamento parece ter um papel diferenciado na formação dos domínios extensionais dos compartimentos. As falhas extensionais do Compartimento Sudeste estão condicionadas pelo maior gradiente da superfície de destacamento (figura 4-17); enquanto no Compartimento Noroeste, ao contrário, as falhas extensionais estão localizadas na zona de sobrecarga máxima (eixo do depocentro) (figura 4-18). Os fatores internos que controlam o estilo estrutural da tectônica gravitacional do Cone do Amazonas são a reologia e o grau de super-pressurização da camada de destacamento. O arcabouço estrutural da área apresenta um domínio contracional caracterizado por falhas de empurrão imbricadas com planos de falha de alto ângulo, e também pela ausência de diápiros. A comparação desse arcabouço estrutural com modelos analógicos simulando a espessura, a mobilidade e o grau de fricção basal de uma nível móvel (constituído por folhelhos super-pressurizados) sugerem que a camada basal do Cone do Amazonas constitua um nível móvel com mobilidade apenas moderada. Como proposto nos modelos analógicos (Rowan et al., 2004) simulando “mobilidade moderada” dos folhelhos, o sistema tectônico do Cone do Amazonas evolui pela acresção frontal de unidades estruturais sucessivamente mais jovens e pela aparente ausência de estrututuras indicativas de alta mobilidade (domos), não encontrados na base de dados disponível. 74 Capítulo V– Discussão e Conclusões __________________________________________________________________________ Figura 5-1. Mapa das províncias fisiográficas do Cone do Amazonas com a distribuição das estruturas nos Compartimentos Noroeste e Sudeste. Observa-se também a assimetria do cone em relação ao sistema Canyon-canal do Amazonas (linha pontilhada azul). 75 Perspectivas Futuras ________________________________________________________________________________________________________ Perspectivas Futuras O trabalho aqui apresentado deteve-se na análise estrutural de primeira ordem da tectônica gravitacional, ou seja, de caráter mais regional do Cone do Amazonas. Essa análise foi feita na tentativa de obter informações que possibiltassem o reconhecimento dos fatores condicionantes da tectônica gravitacional atuante na área (estudo qualitativo). Contudo, o estágio atual do conhecimento sobre a tectônica gravitacional e estruturas associadas no Cone do Amazonas permanece ainda parcial e insuficiente. Não se conhecem a complexidade do arcabouço estrutural, nem tampouco sua evolução temporal. Sabemos, por exemplo, que as frentes contracionais (thrust folds) são ainda ativas, mas desconhecemos sua evolução temporal (se a deformação se dá de forma contínua desde o Mioceno, ou por pulsos tectônicos). Da mesma forma, embora saibamos que a compartimentação estrutural do sistema (Compartimentos Noroeste e Sudeste) é, em parte, decorrência da sobrecarga sedimentar diferencial que se desenvolve sobre os compartimentos, não sabemos se tal compartimentação se desenvolve sincronicamente nas regiões Noroeste e Sudeste. Ressente-se também, por exemplo, de estudos que relacionem o papel do arcabouço estrutural da tectônica de folhelhos com as ocorrências de hidratos de gás recentemente mapeadas na região (Tanaka et al., 2003; Tanaka, 2003). Assim, a continuação deste estudo mostra-se de grande importância, uma vez que o estudo estrutural da tectônica de folhelhos não tem sido suficientemente avaliado como ferramenta exploratória em bacias sedimentares petrolíferas em comparação com os de tectônica salífera. Para tal necessita-se de estudos mais detalhados e quantitativos. Para isso sugere-se apurar os seguintes itens: 76 Perspectivas Futuras ________________________________________________________________________________________________________ • Análise evolutiva do sistema de deformação superficial extensiva no cone com o objetivo de conhecer melhor a evolução das estruturas em relação ao padrão de sedimentação. Necessita-se de datação e análise sismoestratigráfica. • Impacto do arcabouço estrutural sin-sedimentar na evolução do sistema turbidítico: desvios na rota de dispersão sedimentar e impacto na localização de lobos distais. • Mapear as sub-bacias (depocentros turbidíticos) condicionadas pelas frentes compressionais. Embora pareçam se desenvolver provavelmente por uma combinação de compressão ativa e inversão tectônica, tais sub-bacias carecem ainda de datação e de melhor contextualização estrutural. • Modelagem analógica em escala para simulação dos fatores de controle da evolução do sistema da tectônica gravitacional: sobrecarga sedimentar, taxa de deposição, gradiente da superfície basal. A análise quantitativa dos itens anteriormente citados trará um melhor entendimento dessa tectônica, com possíveis impactos para objetivos exploratórios de hidrocarbonetos no Cone do Amazonas, em particular, e em áreas igualmente afetadas pela tectônica de folhelhos, em geral. 77 Referências Bibliográficas ________________________________________________________________________________________________________ Referências Bibliográficas Azevedo, R. P. (1992). Evolução Tectônica da Margem Continental Equatorial Brasileira. Congresso Brasileiro de Geologia, 37, São Paulo, 1992. Boletim de Resumos Expandidos. São Paulo, SBG. V. 1 (Simpósios), p. 565. Boillot ,G; Coulon, C. (1998). La déchirure continentale et l’ouverture océanique. Ed. Gordon and Breach Science Publishers, Amsterdam. Brandão, J. A. S. L.; Feijó, F. J. (1994). Bacia da Foz do Amazonas. Boletim de Geociências da Petrobrás. 8: 91 -99. Brouwer, M. J. N.; Schwander, M. M. (1988). 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