NOVOS DESAFIOS PARA A EDUCAÇÃO DO CAMPO Francisco José Montório Sobral1 Incentivado pelas discussões da I Oficina sobre Ensino Médio Integrado à Educação Profissional do Campo ocorrido no mês de Dezembro de 2007 em Brasília, escolhi levantar algumas questões sobre o Ensino Médio no Campo a partir da pesquisa por mim realizada nos anos de 1999 a 2002, quando concluí o doutorado em educação que versa sobre a Formação do Técnico em Agropecuária no Contexto da Agricultura Familiar. Compartilhar reflexões acerca da Educação Rural com profissionais que defendem uma proposta de educação de nível médio com características emancipatórias estimula a promoção de um debate mais profundo sobre um modelo diferenciado para a parcela da população brasileira que se encontra no campo, em especial a de jovens. É nesse sentido que espero contribuir com esse artigo para potencializar a discussão da Educação no Campo superando a visão assistencialista que vem acompanhando essa modalidade de educação ao longo de sua história. O acelerado ritmo com que as inovações tecnológicas vêm se difundido nos últimos anos, tem despertado grande preocupação entre os pesquisadores, no sentido de analisar as características desse processo, bem como as conseqüências mais visíveis das transformações que se operam no setor educacional. Assistimos desta forma, a um intenso debate centrado nos impactos que as novas tecnologias, assim como as novas formas de organização do processo de trabalho, vem causando sobre o mesmo, o que tem feito emergir novas discussões sobre a relação Educação e Trabalho, e como conseqüência, também, sobre a formação profissional de nível médio. O ensino médio no Brasil, ao longo de sua história, tem-se constituído como o nível mais carente de identidade, em decorrência de sua própria natureza de mediação entre a educação fundamental e a formação profissional de nível 1 Doutor em Educação pela UNICAMP e Professor da Escola Agrotécnica Federal de Concórdia 2 superior. Apresenta dupla função, preparar para a continuidade de estudos e, ao mesmo tempo, para o mundo do trabalho. Com efeito, mostra-se ambíguo, uma vez que esta não é apenas uma questão pedagógica, mas política, determinada pelas mudanças nas bases materiais de produção, que se define a cada época. Historicamente a relação Educação e Trabalho, foi marcada pela dicotomia entre formação profissional e formação propedêutica. Como bem lembra Peterossi (1994), a necessidade de qualificar trabalhadores é para o setor educacional um desafio não vencido. Ao longo da história da educação brasileira o ensino técnico de nível médio tem sido alvo das mais diferentes políticas e tem se caracterizado muito mais por um modelo de treinamento do que por uma educação técnica de caráter mais abrangente. Nesse sentido, procuramos refletir sobre a formação do técnico em agropecuária, apontando principalmente as contradições existentes no interior do processo de formação desse profissional e a sua relação com a dinâmica capitalista de desenvolvimento agrícola. A formação técnica no Brasil foi requerida juntamente com a emergência da industrialização no país, ou seja, nas primeiras décadas do século XX. O processo produtivo industrial, naquela época, passou a demandar uma força de trabalho intermediária entre a concepção e a execução. A organização da fábrica, através dos princípios da divisão técnica do trabalho e do controle hierárquico da execução, necessitou de uma camada média de emprego representada pelos profissionais técnicos de nível médio. Assim, podemos indicar o período compreendido pelas décadas de 1920-30 como referência para o ensino técnico no Brasil. Nesse período ocorreu a criação de muitas escolas técnicas, principalmente em regiões onde a produção industrial se destacava. O ensino técnico industrial começou a fazer parte dos debates nacionais como elemento importante da defesa da indústria brasileira, que começava a se consolidar. Entretanto, nesse mesmo período, a formação profissional voltada para a agropecuária, estava a cargo de poucas universidades que formavam profissionais de nível superior – agrônomos e veterinários, atendendo uma pequena demanda agrícola. No meio rural como um todo, a formação escolar 2 3 básica ainda era ignorada pelas políticas oficiais, salvo pelo movimento conhecido como “ruralismo pedagógico” protagonizado por políticos e educadores que se manifestavam num mesmo sentido: a necessidade de conter a crescente migração rural-urbana, em função da industrialização e a tentativa de fixação do homem ao campo, através da educação. Interessa lembrar que, enquanto o sentido de qualificação profissional dos trabalhadores era usado na formação técnico-profissional urbana, no meio rural a proposta de qualificação não foi entendida da mesma forma. A produção agropecuária naquele momento histórico, não demandava a formação de técnicos de nível médio, não obstante a necessidade de maior demanda por alimentos básicos para a população nas cidades. Desde o início, as políticas educacionais voltadas para a educação rural apresentaram uma intencionalidade clara de fixação do homem no campo. A lógica de contenção da migração campo-cidade, principalmente para a população mais jovem, veio permeando praticamente todas estas políticas educacionais, voltadas para o meio rural. Analisando a história do ensino agrícola no Brasil podemos evidenciar alguns problemas advindos da introdução do ensino técnico agrícola numa cultura ainda marcada, com grande ênfase, numa certa tradição bacharelesca, remontando à época colonial e à formação social baseada em relações de trabalho escravista, em que o fazer era desqualificado e não digno para pessoas livres e cultas. Nesse sentido, qualquer modalidade de formação agrícola de nível médio veio carregando, ao longo de sua evolução, uma característica marginal (mesmo quando a economia se baseava na agricultura), pois sendo o trabalho desenvolvido na agricultura predominantemente braçal, revestiu-se de preconceito e de certa discriminação. Assim, a história do ensino técnico se diferencia do agrotécnico quanto à sua origem, pois enquanto a formação técnica urbana foi requerida juntamente com a industrialização no Brasil, a agrotécnica teve a sua emergência a partir das décadas de 1950-60. Foi a partir desse período que inúmeros fatores revolucionaram o ensino agrícola no Brasil. A modernização na agricultura, a transformação tecnológica no meio rural, a tecnificação crescente dos produtores familiares 3 4 ligados às agroindústrias, a teoria do capital humano e a “Revolução Verde”, foram condicionantes para que o capital agroindustrial demandasse um profissional que desse conta de promover uma nova extensão rural: o Técnico em Agropecuária. A “Revolução Verde” estabeleceu um novo padrão tecnológico no campo, apropriado à etapa oligopolista do capitalismo agrário. Esse padrão produtivo demandava uma difusão de novas técnicas, novas formas de relações de produção, novas culturas, enfim uma nova forma de produção agropecuária. Dessa forma, o profissional técnico em agropecuária, passou a ser requerido tanto no meio privado como no público, como agente de difusão de tecnologia. Esse novo padrão tecnológico aproximou ainda mais a agropecuária brasileira ao modelo de produção industrial urbano, principalmente após a explosão tecnológica ocorrida no campo na década de 1950. A modernização agrícola, de fato, alterou o processo produtivo, tanto do grande como do pequeno produtor rural, contudo, foi a emergência da integração agroindustrial que causou maior impacto nas novas relações de produção que começaram a ser estabelecidas e, por conseqüência, nas novas relações sociais. A incorporação de um conjunto de tecnologias “modernas” na agricultura, em substituição das práticas denominadas de “tradicionais”, aumentou consideravelmente a produtividade na agropecuária. Contudo, a incorporação dessas tecnologias ocorreu de forma inadequada à realidade do meio rural brasileiro, seja pela maneira como se deu esta implantação, seja pela natureza mesma das tecnologias introduzidas. A prevalência de práticas e métodos que se tornaram convencionais à época, revelaram na verdade, problemas de relação homem-meio físico com conseqüências ambientais e principalmente sociais. A modernização da agricultura não pode ser dissociada das transformações capitalistas ocorridas no Brasil a partir da década de 1960. A intensificação do uso de máquinas e insumos estava associada à constituição de um importante setor industrial fabricante de meios de produção para a agricultura e à montagem (a nível da política de Estado) de um conjunto de instrumentos capazes de viabilizar a sua adoção por parte dos agricultores. 4 5 Fato relevante foi a adoção do ideário da teoria do capital humano que nesse período foi significativo tanto na elaboração de políticas educacionais, principalmente voltadas para a orientação do tecnicismo educacional, como para nortear a proposta de modernização da agricultura. A concepção sobre a modernização tecnológica na agricultura, tinha como pressuposto as idéias de Schultz, que orientava como sendo a única maneira de aumentar a eficiência produtiva na agricultura o aporte de fatores externos, substituindo os insumos tradicionais por insumos modernos, oferecidos a custos baixos ao agricultor, através de créditos subsidiados, acompanhados de assistência técnica. Assim, a transformação tecnológica ocorrida na agricultura brasileira originou determinados impactos que se revelaram como responsáveis pela mudança na natureza da agricultura. No período conhecido como “Revolução Verde”, que coincide com o auge da transformação tecnológica na agricultura, tivemos um aumento considerável no grau de mecanização de nossas lavouras, ou seja, tivemos um aumento de quase quatro vezes na relação área de lavoura/número de tratores, criando uma forma de produção assentada num novo padrão tecnológico. Isso, se revelou diretamente sobre a necessidade de mão-de-obra na agricultura, ou seja, a partir daquele momento tivemos, por um lado uma liberação em grandes proporções, do trabalho vivo no setor agrícola. Por outro lado, tivemos a emergência de grandes indústrias processadoras de produtos agropecuários, fazendo surgir o conceito de complexo agroindustrial, que demandou uma produção agrícola mais tecnificada e integrada diretamente ao capital agroindustrial. Ainda, como resultantes da transformação tecnológica, principalmente na agricultura familiar do país, houve o aumento considerável tanto no êxodo rural como no êxodo agrícola, avanço da mecanização na lavoura, um maior aporte tecnológico beneficiando as culturas de exportação, uma maior dependência principalmente do pequeno produtor rural para com o capital agroindustrial, concentração agrária e urbanização dos espaços rurais, masculinização do campo, envelhecimento da população campesina e recrudescimento da problemática educacional no campo. 5 6 Nessa perspectiva, percebe-se que os impactos da transformação tecnológica atingiram a agricultura familiar, potencializando a estratificação social entre os pequenos produtores rurais. Assim, após a criação do sistema de integração na produção agroindustrial, proposto pelo agronegócio, entendido como grande capital agrícola, tivemos o surgimento de duas categorias de pequenos produtores, os integrados à agroindústria e os não integrados. O sistema de integração pressupõe que haja a subordinação e a dependência direta entre os pequenos produtores rurais e a agroindústria. Os integrados gozam de algumas garantias na relação com a agroindústria, entretanto, perdem autonomia como produtores rurais. Com a elevação do padrão técnico de produção, ocorrido a partir da década de 60, o sistema de produção ficou mais complexo, necessitando de um aporte maior no condicionante técnico. Ocorreu a necessidade de se aumentar a produtividade do integrado, sendo que para isso, se fez necessária a adoção de novas tecnologias na produção agropecuária. É nesse contexto que surgiram as Escolas Agrotécnicas Federais. O grande capital agroindustrial, a partir de 1960, passou a contar com a formação de mão-de-obra especializada, através das Escolas Agrotécnicas Federais. Assim, o técnico em agropecuária num primeiro momento, através da assistência técnica, atuou na mediação entre agroindústria e integrado. Desta forma, a adoção de novas tecnologias por parte do pequeno produtor rural se deu pela atuação de um agente difusor, o técnico em agropecuária. Contextualizando o período histórico em que ocorreu uma maior demanda por técnicos em agropecuária no Brasil como um todo, podemos apontar o processo de transformação tecnológica no campo, ocorrido a partir das décadas de 1950-60 como responsável pela criação da maioria das Escolas Agrotécnicas Federais no país, ou seja, diferentemente da história da formação técnica industrial, foi só a partir desse momento que a formação técnica de nível médio para o campo de consolidou no país. Através de uma diretriz condizente com a proposta da “Revolução Verde”, ou seja, da substituição dos insumos “tradicionais” por insumos ditos “modernos”, é que a Rede Federal de Ensino Agrícola articulou sua proposta de 6 7 formação técnica. A estrutura curricular dos cursos da área agrícola orientava-se no sentido de atender o padrão tecnológico vigente na época. A formação de extensionistas proposta nesse período, voltava-se para a criação e a difusão de uma ideologia modernizante, a qual serviu para implantar e justificar as modificações nas bases tecnológicas e nas relações sociais de produção, garantindo que o homem rural e sua família entrassem no ritmo e na dinâmica da sociedade industrial. Nesse sentido, haveria a necessidade de preparar pessoal técnico e integrá-lo à estrutura de produção para desempenhar uma assistência técnica com uma certa missão educativa na industrialização agroindustrial, atendendo a preocupação de reproduzir a ordem econômica. A extensão rural, considerada como um instrumento necessário para efetivação das políticas de modernização no campo, apresentava, principalmente, a “intervenção técnica” como responsável por mudanças na sociedade rural. Com essa forma de ação, a extensão rural conseguiu criar em determinadas parcelas de produtores rurais uma cultura de produção agroindustrial mais próxima das estratégias de produção urbano-industrial, transformando a agricultura familiar. Entretanto, no decorrer da década de 1980, a reestruturação do capital também atingiu a produção agropecuária, ocasionando uma maior dependência por parte dos produtores integrados à agroindústria. Esse fato debilitou ainda mais a agricultura familiar não integrada, ou seja, ficou mais difícil para essa categoria de produtores aplicar o novo padrão tecnológico. A assistência técnica a serviço da agroindústria passou a assumir outras funções além daquela de suprir a deficiência técnica por parte do produtor. Outras funções foram requeridas como a fiscalização, maior controle de produção, controle da qualidade, modificação de comportamentos por parte do produtor integrado, enfim, procedimentos advindos dos métodos de gestão empresarial. A formação profissional do Técnico em Agropecuária, para atender essa nova realidade, também sofreu um processo de reestruturação. Nesse sentido, reformas educacionais foram implantadas com objetivo de atender novas demandas do capital. Com efeito, a diretriz curricular para o curso técnico em 7 8 agropecuária atendeu e ainda atende o padrão tecnológico da agricultura comercial e segue a lógica da racionalidade econômica, pois os cursos passam a apresentar uma característica mais pontual e com duração reduzida. Quanto ao que se pode observar nas políticas educacionais que tratam do ensino profissional, verificamos que, mesmo com as novas reformas educacionais oficiais, propostas na atualidade, a educação tecnológica continua referendando a histórica separação entre o saber e o fazer, o manual e o intelectual A justificativa apresentada em documentos oficiais para legitimar reformas no ensino técnico como um todo, é de aumentar a empregabilidade do jovem recém formado, diante do novo quadro desenhado para o mundo do trabalho. Entretanto, pela análise dos dados de nossa pesquisa, realizada no estado de Santa Catarina, observamos que o capital agroindustrial requer um profissional com competências condizentes com a formação universitária de graduação: agronomia e medicina veterinária, bem como de pós-graduação nestas áreas. Ou seja, a demanda por técnicos em agropecuária, apresentou um refluxo. Nossos levantamentos indicam que o capital agroindustrial está dispensando o trabalho desse profissional, que fora demandado pelas agroindústrias em períodos históricos anteriores. Assim, o curso Técnico em Agropecuária, criado para atender o capital agroindustrial, necessita redirecionar seu projeto pedagógico, orientando uma formação menos utilitária e mais emancipatória. O sistema escola-fazenda apresenta particularidades e peculiaridades que permitem pensar e desenvolver o trabalho como princípio educativo, aproximando a metodologia de ensino aos princípios da politecnia . Hoje novos desafios são apresentados para a formação do técnico em agropecuária, pois em nosso trabalho apontamos um dado que vem confirmar a necessidade de se questionar o processo de formação, orientado para o padrão tecnológico da agricultura comercial ou patronal. Considerando pouco expressivo o número de alunos egressos, que retornaram às propriedades as quais atingiram um padrão tecnológico compatível com o ideário da modernização, bem como o baixo número de egressos 8 9 contratados pelas agroindústrias, podemos por um lado, questionar a função do atual projeto de formação agrotécnica. Por outro lado, o número expressivo de alunos egressos que retornaram às atividades agrícolas, desvinculadas diretamente do modelo de integração e ligadas às cooperativas e associações de pequenos produtores rurais, aponta um padrão tecnológico emergente, que difere daquele priorizado no atual projeto de formação agrotécnica. Em função de tais apontamentos, torna-se necessário refletir sobre alternativas para essa modalidade de ensino no sentido de atender as necessidades dos pequenos produtores rurais desvinculados da integração agroindustrial, visto que a atual proposta de formação profissional não contempla os interesses dessa categoria. Um projeto de formação profissional agrícola que priorize a coletividade, a autonomia e a emancipação humana, demandado pelas diversas organizações sociais no campo, compreendido pelos Sindicatos Rurais, Associações da Agricultura Familiar, MST, Cooperativas de Produtores Rurais, etc, pode ser construído por essa escola pública, desde que, se criem meios para torná-lo possível. Assim, é preciso buscar efetivos canais de participação, pelos quais a população, principalmente a rural, ouse assumir seu direito de demandar, pressionar e cobrar uma outra formação. Nossos dados apontaram que os pequenos produtores rurais, não integrados aos grandes frigoríficos, bem como os cooperados, parecem possuir uma certa “cultura da esperança”, pois acreditam que, com a introdução de novas alternativas (produção de mel, leite, peixes, hortaliças, reflorestamentos, etc), desenvolvidas pelos egressos de escolas agrícolas, a situação pode melhorar. Assim, parece-nos urgente repensar a atual proposta de formação técnica bem como as atuais práticas educativas das escolas agrotécnicas e vislumbrar a aproximação da concepção politécnica como uma alternativa possível. Palestra apresentada no Seminário Nacional de Educação Profissional, do PRONERAINCRA, em 04/06/2008, em Luziânia/GO. 9