“O QUE REVELAM E OCULTAM AS CRIANÇAS QUE ESTÃO NA EDUCAÇÃO INFANTIL,
SOBRE A VIOLÊNCIA QUE VIVENCIAM, PARTICIPAM OU OBSERVAM”
VANESSA GALONI
Núcleo de Estudo e Pesquisa: Práticas Educativas e Processos de Interação - Mestranda
Orientadora: Profª Drª Anna Maria Lunardi Padilha
JUSTIFICATIVA PESSOAL
O meu interesse pelo tema emerge da minha experiência de trabalho, pois atuo como
professora de educação infantil em uma escola municipal de um bairro periférico da cidade de
Piracicaba.
O Bairro chama-se Bosques do Lenheiro. Sim, vários bosques de um lenheiro só.
Vejamos um pouco da história desse bairro que já foi contada por alguns pesquisadores, entre
eles por Ozânea Gonçalves Santana, também por conta de sua pesquisa de mestrado em
2010.1
Nas margens do rio Corumbataí nasceu, em 1998, um novo bairro: Núcleo Habitacional
Bosques do Lenheiro, popularmente chamado de Bosques do Lenheiro; o nome deste bairro
surgiu do resgate de uma história desse local sobre um Lenheiro para vários bosques que
abastecia sozinho as padarias da cidade com lenha e carvão.
Este bairro é composto de 1412 terrenos e fica localizado na região norte do Município
de Piracicaba, a aproximadamente 6 km do centro da cidade. As casas que compõem este
bairro foram construídas de alvenaria, do tipo “bloco de concreto” sem laje, sem forro e a
parede do meio da casa é geminada com a casa vizinha. Os lotes dessas residências são de
aproximadamente 150m² sendo 32m² de área construída; as casas foram chamadas de
embriões, pois foram entregues apenas com quarto, sala/cozinha e banheiro, construídos com
espaço para ampliação.
As casas, segundo entrevista com a moradora Maria que chegou no bairro em janeiro do
ano 2000, foram entregues para os moradores como um embrião, já relatado acima. Havia
energia elétrica em algumas casas, a minoria, mas não nas ruas. Em aproximadamente 300
casas não tinha água nem luz: precisavam puxar gato2 e buscar água no posto policial. As
redes de esgoto das casas estavam entupidas com restos de concreto e outras inacabadas.
Diante de tal situação era preciso fazer as necessidades fisiológicas em sacos plásticos que
eram jogados ao ar livre, o que ocasionou, no ano 2000, uma epidemia de hepatite.
Este loteamento era destinado às famílias de baixa renda, provenientes de áreas de
risco, áreas verdes que deveriam ser preservadas, do movimento dos sem-tetos e às famílias
cadastradas na EMDHAP. O bairro foi constituído a partir da vinda de pessoas de várias
localidades da cidade e de locais denominados por eles de “favelas”. Segundo o que me disse
a moradora Maria, 120 famílias vieram do alojamento da Usina Modelo, que estava desativada;
outras famílias foram removidas das áreas de risco; outras, ainda, estavam com ordens de
1
SANTANA, O. G. Participação Popular no Bairro Bosques do Lenheiro em Piracicaba/SP: Estudo das formas de organização
na perspectiva da educação popular. Dissertação de Mestrado. Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade
1
Metodista de Piracicaba, Unimep, 2010. “Gato” é o modo como os moradores se referem às instalações elétricas
clandestinas.
despejo e já tinham se cadastrado na Empresa Municipal de Desenvolvimento Habitacional de
Piracicaba (EMDHAP).
Maria explica que vieram para o bairro também traficantes de diferentes facções. Cada
um deles comandava sua área e, agora, queriam comandar o tráfico nesse novo local.
Ocorreram, portanto, choques de liderança, cabeças rolaram e daí surgiu a fama do bairro ser
um local violento – conclui a moradora.
Leila Bezerra (2011) escreve sobre o viver em territórios estigmatizados. Segundo a
autora,
A imagem de espaços de insegurança, medo e periculosidade que ganha visibilidade
pública, sobretudo, nas imagens e discursos midiáticos ao assumir tom espetacularizado
e estetizado, capaz de fortalecer a dupla imagem dos residentes de áreas periféricas: a
do pobre perigoso, violento e potencialmente suspeito em relação ambígua com o pobre
vulnerável, necessitado e de vida precária. Ambos são postos na condição de em risco,
no sentido de tornarem-se vítima ou protagonista de violências/violência urbana e da
criminalidade. (BEZERRA, 2011, p. 04).
Frequentemente as crianças relatam sobre o que acontece no bairro onde residem:
tráfico de drogas e a constante presença da polícia à procura de marginais/ traficantes/
infratores.
A partir de alguns episódios vivenciados durante o meu primeiro ano de trabalho como
professora nesta escola, meu desejo de estudar e pesquisar sobre as crianças que convivem
com a violência foi aumentando. Primeiramente foi o tema do meu trabalho para concluir o
curso de especialização em Psicopedagogia em 2011. Em seguida, incentivada pela
professora Alessandra Formagio Martins, que me orientou na especialização, aconteceu meu
ingresso no mestrado e aqui estou para pesquisar e dissertar sobre essa realidade que me
instiga e me afeta: o que as crianças, que no ano de 2012 foram meus alunos da educação
infantil, revelam e ocultam sobre a violência que vivenciam, participam ou observam.
PRESSUPOSTOS
Parto de três pressupostos para elaborar o objetivo da investigação. O primeiro deles é o
de que nas brincadeiras e nas narrações podemos encontrar pistas reveladoras das
elaborações das crianças sobre seu cotidiano, buscando subsídios teóricos em Vigotski 1993;
Leontiev, 1988 e seus seguidores. O professor, ao atentar para o que dizem as crianças e
como se manifestam no brincar, pode captar indícios dos modos como as crianças significam
as experiências de vida.
O segundo pressuposto é o de que a identidade dos moradores de territórios
considerados violentos e categorizados assim em um espaço e um tempo determinados, bem
como as relações intrafamiliares são afetadas e estigmatizadas, como ensina Goffman, 1988;
Chauí, 1999; 2007 e outros autores que analisam o fenômeno da violência.
O terceiro pressuposto é o de que os trabalhadores da educação sejam eles
professores, gestores ou funcionários, devem conhecer a realidade social – a configuração de
nossa sociedade – e a realidade do bairro onde a escola está para que possam atuar como
mediadores do saber escolarizado partindo das significações que circulam no ambiente familiar
dos alunos, trazendo os ensinamentos de Dermeval Saviani e outros pesquisadores que
seguem a mesma matriz epistemológica, ou seja, o da pedagogia histórico-crítica.
OBJETIVO DA INVESTIGAÇÃO
Esta pesquisa objetiva investigar como e porque as crianças de três e quatro anos, que
frequentam a educação infantil em uma escola municipal da periferia da cidade de Piracicaba,
SP, em um bairro considerado violento elaboram, por meio de narrativas, os acontecimentos,
sobretudo os relacionados à violência, que vão compondo suas vidas nos espaços pelos quais
circulam e nas relações sociais de que participam.
QUESTÕES NORTEADORAS
As questões, em si, não constituem problemas, segundo Saviani (1982, pp.18-20): uma
questão em si, não é suficiente para caracterizar o significado da palavra problema”. Explica
que a questão pode já, conter ela mesma, a resposta ou pode ter a resposta já conhecida. Para
este autor, “algo que eu não sei não é um problema; mas quando eu ignoro alguma coisa que
eu preciso saber, eis-me, então, diante de um problema” (p.21). Considero um problema
questionar sobre quais os motivos que levam as crianças pequenas a narrarem, com tanta
freqüência, experiências de violência que vivenciam/observam em suas casas e em seu bairro.
Sei, no entanto, que a abrangência e desdobramentos deste problema não serão
contemplados nesta dissertação. Em vista disso, as questões norteadoras, restringem e
delimitam o que será possível para este momento e este texto: a) Como foi possível a
caracterização de “violento” para o bairro onde a escola está localizada e onde as crianças
moram? b) Quem são as crianças que narram? c) O que dizem essas crianças acerca da
violência quando narram sobre suas experiências? d) O que revelam e ocultam em seus
dizeres acerca da violência que vivenciam?
MODOS DE CONDUZIR A PESQUISA
Minayo (2000) me ajuda a pensar que a pesquisa em educação; na/da educação infantil;
sobre a vida das crianças em seu território; suas narrativas e seus modos de expressar a vida e
suas interações não instituem campos separados das outras instâncias da realidade social
(p.20). Por isso é possível afirmar que esta investigação trata-se de uma pesquisa social no
âmbito da escola, consciente de que a realidade não é transparente. Busco investigar como as
crianças significam o que vivem em seu contexto mais imediato no que se refere à violência,
atenta para suas narrativas e brincadeiras quando estão interagindo entre si ou comigo.
A perspectiva teórica e metodológica enfatiza a dimensão histórica que segundo a
mesma autora “esforça-se para entender o processo histórico em seu dinamismo,
provisoriedade e transformação” (Idem, p.65).
A pesquisa de campo foi realizada em minha própria sala de aula, em uma escola
municipal de educação infantil, onde atuo como professora. As crianças que fazem parte deste
estudo têm idade entre três e quatro anos, frequentam a escola no período da tarde,
configurando-se como alunos de uma turma de Maternal II em tempo parcial. Utilizei anotações
em caderno de campo, para os registros que se fizeram necessários.
Após a transcrição do que nomeio de cenas – as análises levam em conta que as
narrativas são enunciados, ou seja, como afirma Bakhtin (1992, p.66), “A palavra revela-se, no
momento de sua expressão, como produto da interação viva das forças sociais.” Os processos
inter e intrapsíquicos não podem ser observados diretamente nas narrativas das crianças, mas
podem, sim, ser analisadas como signos que podem ser analisáveis por intermédio dos
sentidos que o pesquisador dá aos fatos, por serem ele constitutivos da cultura.
As condições de produção das narrativas das crianças deste estudo são determinadas
pelo contexto social imediato e pelas condições históricas mais amplas nas quais estão
inscritas suas narrativas.
DO QUE FALAM AS CRIANÇAS?
A leitura das anotações, no caderno de campo, das falas das crianças aponta para, pelo
menos, dois núcleos de análise referentes ao modo como elas revelam e ocultam sobre a
violência de que participam em suas vidas, no bairro.
No Núcleo I, as narrativas, mesmo curtas, indiciam a acusação da polícia como a
principal perpetradora de violência. Como exemplo, no limite deste texto trago uma das cenas:
Certo dia o helicóptero apareceu no bairro como de costume e sobrevoou as casas na
procura de possíveis infratores. Passou também em cima da escola. Na primeira vez que
passou eu não ouvi, mas percebi que as crianças começaram a ficar agitadas e ouvi uma delas
dizer: “ó”, como quem diz: “tá escutando” então ouvi o tal do helicóptero, estava instaurado no
rosto das crianças o medo. Ao sair na porta da sala, por curiosidade, para saber o que estava
acontecendo, a aluna Lana, que estava sentado no chão brincando com peças de encaixe, me
falou: “Cuidado tia, esse helipótiro mata todo mundo.” Esse alvoroço aconteceu no horário de
saída dos alunos, e todas as crianças saíam assustadas e olhando para o céu.
No dia seguinte Lana chegou à escola, entrou na sala e na primeira oportunidade veio
me contar que tinha visto “a amormona da polícia”, e fez com suas mãozinhas o gesto de
apontar a arma, imitando o policial. O helicóptero sobrevoa baixo pelo bairro, portanto é
inevitável que as crianças não observem o armamento da polícia. Lana é uma criança que
sempre relata sobre as invasões da polícia.
No Núcleo II, as narrativas indiciam o misto de ficção e realidade, a vida cotidiana de um
bairro considerado violento e a mídia violenta.
Próximo do horário de saída das crianças da escola, elas estavam brincando com peças
de encaixe no chão da nossa sala. Os meninos especialmente, estavam confeccionando
“armas”, sempre oriento para que não as façam, mas neste dia fiquei observando a brincadeira.
Foi então que Sérgio pegou sua “arma”, que acabara de confeccionar e atirou em seu colega,
enquanto atirava reproduzia o som: “pá pá pá”. Depois o que me causou muita surpresa foi que
Sérgio pegou a sua “arma” e guardou por dentro de seu shorts e colocou a camiseta por cima,
ato este que costumamos ver em filmes, programas de televisão... Fiquei imaginando onde
Sérgio poderia ter visto tão ação, programa de televisão? Filmes? Ou algum de seus
familiares?
Após alguns dias, sua prima que o levava diariamente para a escola, fez novamente a
sua rotina, ao chegar com Sérgio na escola, me informou que a criança “estava triste”, pois seu
pai (pai de Sérgio) havia sido preso naquela manhã. Tal situação, poderia ser um indício de
que Sérgio teria reproduzido um comportamento de seu ambiente familiar. Ou então, ter
misturado realidade (ambiente familiar) com ficção (mídia televisiva)
CONSIDERAÇÕES PARCIAIS
Através das brincadeiras e das narrações desses pequeninos, podemos encontrar pistas
reveladoras das elaborações das crianças sobre seu cotidiano. O professor, ao atentar para o
que dizem as crianças e como se manifestam no brincar, pode captar indícios dos modos como
as crianças significam as experiências de vida. Vigotski (2001) sustenta que o processo de
desenvolvimento da subjetividade da criança não acontece do individual para o social, mas, ao
contrário , do social para o individual.
Por meio das relações interpessoais a criança elabora as relações socialmente construídas
e reconstrói internamente os significados das experiências. Sendo assim, ao se apropriar dos
padrões da cultura em que vive, ela se singulariza enquanto indivíduo.
Essa visão nos permite conceber e valorizar o meio como espaço dinâmico de vida e
significação em que a criança influencia e é influenciada, tem possibilidades de relação,
interação e participação na vida social.
Vigotski entende o desenvolvimento psicológico da criança como um processo de natureza
cultural e é por esse processo que a criança deverá apropriar-se, pouco a pouco, das
significações atribuídas pelos homens às coisas (mundo, existência e condições de existência
humana).
BIBLIOGRAFIA
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BEZERRA, L. M. P. Sentidos da Pobreza e do Viver em Territórios Estigmatizados. V Jornada
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http://www.joinpp.ufma.br/jornadas/joinpp2011/CdVjornada/EIXO_DESIGUALDADES_SOCIAIS_E_POB
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CHAUÍ, Marilena. Ética e violência. Teoria & debate. Fundação Perseu Abramo, nº 39.1998.
Disponível em: http://www2.fpa.org.br/conteudo/ensaio-etica-e-violencia. Último acesso em: 20
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GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação de uma identidade deteriorada. 4.ed. Rio
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KOPCAK, S. C. P. No encontro, os sentidos: efeitos da formação de monitores de Educação
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LEONTIEV, A. Os princípios psicológicos da brincadeira pré-escolar. In:VIGOTSKII, L.S.;
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MINAYO, M. C. de S. O desafio do conhecimento : pesquisa qualitativa em saúde. 7.ed. São
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Mestrado. Programa de Pós Graduação em Educação da Universidade Metodista de
Piracicaba, Unimep, 2010
SAVIANI, Dermeval. Educação: so senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez e
Autores Associados, 1982.
VIGOTSKI, L.S. A Construção do Pensamento e da Linguagem. São Paulo: Martins Fontes,
2001.
VYGOTSKI, Lev S. Obras Escogidas. Vol. II. Madrid: Visor, 1993.
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