XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008
AVALIAÇÃO DA COMPATIBILIDADE E
ALINHAMENTO DO ÍNDICE DNA
BRASIL COM OS PRINCÍPIOS DE
BELLAGIO
Mariana Lira de Morais (UFPE)
[email protected]
Maria Teresa Araújo de Lima (UFPE)
[email protected]
Carla Regina Pasa Gomez (UFPE)
[email protected]
Leonardo Augusto Gomez de Castillo (UFPE)
[email protected]
O IDNA Brasil é um sistema composto por 7 dimensões e 24
indicadores, que incorpora aspectos da vida econômica, cultural e
social brasileira a fim de comparar o nível de desenvolvimento do
Brasil frente as suas metas, ou ainda com outros paaíses. No entanto,
para se tornar eficaz, a avaliação pretendida pelo IDNA deve seguir
alguns princípios orientadores denominados Princípios de Bellagio,
que foram formulados com o objetivo de tornar a criação e evolução
de sistemas de indicadores mais eficazes. Este artigo utilizou-se da
pesquisa exploratória a partir de revisão bibliográfica, coleta de dados
em fontes primárias e secundárias para atingir o objetivo de avaliar a
compatibilidade e o alinhamento do IDNA Brasil com os Princípios de
Bellagio.
Palavras-chaves: Indicadores de Sustentabilidade, Desenvolvimento
Sustentável, Princípios de Bellagio, Índice DNA Brasil
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A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008
1. Introdução
A industrialização e o desenvolvimento tecnológico foram responsáveis por mudanças
radicais nas sociedades. Apesar da melhoria do padrão de vida para alguns e do conforto e
comodidade da vida pós-moderna, esses avanços foram conseguidos às custas de consumo de
recursos naturais e da utilização intensiva de fontes não renováveis de energia. O elevado
índice de consumo gera degradações socioambientais de altas proporções e tem começado a
preocupar indivíduos, empresas e nações, colocando uma interrogação no futuro da
humanidade, caso os níveis de consumo e os de exploração de recursos e energia continuarem
nos atuais patamares.
Diante desse contexto, surge a idéia de Desenvolvimento Sustentável, que busca harmonizar o
desenvolvimento da economia com a preservação do ambiente e com soluções para os
problemas sociais. O tema Desenvolvimento Sustentável tem sido bastante discutido nas
últimas décadas. No entanto, apesar das inúmeras tentativas de explicação dos aspectos que
permeiam a Sustentabilidade, ainda há muitas dúvidas a respeito do seu conceito, dos
impactos que essa temática pode causar no meio ambiente, na sociedade e na economia e dos
métodos através dos quais pode-se mensurá-lo.
Segundo Delai e Takahashi (2006) o desenvolvimento sustentável, ou sustentabilidade, é um
novo conceito de desenvolvimento que, apesar de ter surgido em 1987 através do Relatório
Brundtland, somente a partir da última década se tornou comum nas discussões e passou a ser
inserido nas agendas governamentais e empresariais.
Tal relatório ressalta a necessidade da pesquisa e do desenvolvimento de novas ferramentas
capazes de avaliar a performance da Sustentabilidade. A partir daí, muitas iniciativas vêm
sendo implementadas para a construção de novos sistemas de indicadores, o que levou à
criação de um guia, composto pelos Princípios de Bellagio, para avaliação do processo, desde
a escolha e o projeto de indicadores até a interpretação e comunicação dos resultados (VAN
BELLEN, 2005).
No Brasil, a iniciativa de se construir um sistema de indicadores foi idealizada pelo Núcleo de
Estudos de Políticas Públicas (Nepp) da Unicamp, em parceria com o Instituto DNA Brasil, a
qual originou o Índice DNA Brasil. O IDNA Brasil buscou ampliar o IDH, criado pelo
Programa das Nações Unidas pelo Desenvolvimento (PNUD), incorporando dimensões da
vida econômica, cultural e social brasileira (INSTITUTO DNA BRASIL, 2007).
No intuito de compreender e avaliar o alcance do IDNA, este foi analisado de acordo com os
Princípios de Bellagio, sendo assim definido o objetivo deste artigo o de analisar a
consistência do sistema de indicadores DNA Brasil perante os Princípios de Bellagio. Essa
pesquisa busca, através do suporte teórico baseado nas discussões acerca do Desenvolvimento
Sustentável, explanar sobre Indicadores de Sustentabilidade, apresentar o Índice DNA Brasil e
os dez Princípios de Bellagio, e então analisar o alinhamento entre eles. Para tal, adotou-se
como procedimentos metodológicos a pesquisa exploratória, a partir de revisão bibliográfica,
e coleta de dados em fontes secundárias, que foram analisados de forma qualitativa.
2. Desenvolvimento sustentável
Durante séculos o meio ambiente foi considerado como inexaurível. Por trás desse
pensamento, havia a impressão de que os recursos naturais seriam inesgotáveis e de que o
desenvolvimento econômico deveria continuar indefinidamente, sem grandes preocupações
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A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável.
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com os recursos da natureza. Mas, ao longo das últimas décadas, a sociedade passou a
perceber que o desenvolvimento e a modernização são férteis em riscos e ameaças que podem
afetar acentuadamente o conjunto social, as atividades econômicas e o equilíbrio ambiental.
Iniciou-se assim, a procura por um modelo de desenvolvimento mais sustentável (SILVA,
2007).
Segundo Silva (2007), o foco do conceito de desenvolvimento sustentável está situado na
integridade ambiental e apenas a partir da definição do Relatório de Brundtland esse foco se
desloca para o ser humano, gerando um equilíbrio entre as dimensões econômica, ambiental e
social. Hoje, portanto, o conceito de desenvolvimento sustentável envolve a relação sociedade
e meio ambiente na busca pela garantia da sobrevivência de ambos. O desenvolvimento
sustentável ou sustentabilidade é um novo conceito de desenvolvimento que aglutina num
trinômio indissolúvel os desenvolvimentos econômico, social e ambiental (DELAI e
TAKAHASHI, 2006).
Apesar da ampla discussão acerca do conceito de sustentabilidade, a sua complexidade e
multiplicidade de abordagens é tamanha que ainda não se chegou a uma definição precisa. De
acordo com van Bellen (2005, p. 9), “o conceito de desenvolvimento sustentável trata
especificamente de uma nova maneira de a sociedade se relacionar com seu ambiente de
forma a garantir a sua própria continuidade e a de seu meio externo”. O autor apresenta quatro
perspectivas para a sustentabilidade: econômica, social, ambiental e, geográfica e cultural
(Figura 1).
Dimensão social
Dimensão ambiental
Dimensão econômica
Dimensão geográfica e cultural
Figura 1 – Dimensões da sustentabilidade (Baseado em VAN BELLEN, 2005)
A perspectiva econômica trata da alocação e distribuição eficiente dos recursos naturais em
uma escala apropriada. A social refere-se à preocupação com o bem-estar humano, através do
acesso a serviços básicos, água limpa e tratada, ar puro, serviços médicos, segurança, proteção
e educação. A sustentabilidade ecológica significa ampliar a capacidade do planeta através da
utilização do potencial encontrado nos diversos ecossistemas, ao mesmo tempo em que se
mantém um nível mínimo de deterioração dos mesmos. Finalmente, a perspectiva geográfica
e cultural trata da melhor distribuição da ocupação humana na Terra, da busca pela proporção
adequada entre a população rural e urbana de modo a proteger a diversidade biológica e da
árdua procura pela modernização sem romper a identidade cultural dos envolvidos (VAN
BELLEN, 2005).
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Assim, o desenvolvimento sustentável desmembra-se em quatro pilares que facilitam a sua
compreensão e o tornam mais tangível. Apesar de aparentemente distintas, as perspectivas da
sustentabilidade se tangenciam em diversos pontos, havendo espaços de intersecção entre as
mesmas, e juntas compõem o que Sachs (2007) denomina ecossocioeconomia.
3. Princípios de Bellagio
O Relatório Brundtland, de 1987, e a Agenda 21 ressaltam a necessidade de se desenvolver
ferramentas para a avaliação do Desenvolvimento Sustentável. A partir de discussões
envolvendo profissionais especializados na área, foram desenvolvidos os Princípios de
Bellagio. Estes Princípios são resultados do trabalho realizado por um grupo de especialistas e
pesquisadores em mensuração e avaliação da sustentabilidade de diversos países que em
novembro de 1996 se reuniram no Centro de Conferências de Bellagio, na Itália, apoiados
pela Fundação Rockfeller com o objetivo de sintetizar a percepção geral sobre os principais
aspectos relacionados à avaliação da sustentabilidade (DELAI e TAKAHASHI, 2006; VAN
BELLEN, 2005).
De acordo com Hardi e Zdan (1997), os Princípios de Bellagio servem como orientação para
avaliação de todo o processo, desde a escolha e o projeto dos indicadores e sua interpretação
até a comunicação dos resultados. Sendo, segundo Van Bellen (2005), a aplicação desses
princípios relevante como orientação para a melhoria dos processos de avaliação, pois é
necessária uma organização teórica entre os diferentes sistemas de modo que os usuários das
ferramentas tenham condições de selecionar e trabalhar com o modelo mais apropriado para o
seu objetivo final. Para isso, devem ser observadas as ferramentas existentes, e os critérios
ordenadores desta análise são derivados dos Princípios de Bellagio.
São dez os Princípios de Bellagio, que envolvem todas as etapas do processo de
desenvolvimento de indicadores para a mensuração da Sustentabilidade (HARDI; ZDAN,
1997):
- GUIA DE VISÃO E METAS: a avaliação do progresso rumo à sustentabilidade deve ser
guiada por uma visão clara do que seja desenvolvimento sustentável e das metas que definam
esta visão.
- PERSPECTIVA HOLÍSTICA: a avaliação do progresso rumo à sustentabilidade deve
incluir uma revisão do sistema todo e de suas partes; considerar o bem-estar dos subsistemas
ecológico, social e econômico, seu estado atual, bem como sua direção e sua taxa de
mudança, de seus componentes, e a interação entre as suas partes; considerar as
conseqüências positivas e negativas da atividade humana de um modo a refletir os custos e
benefícios para os sistemas ecológico e humano, em termos monetários e não monetários.
- ELEMENTOS ESSENCIAIS: a avaliação do progresso rumo à sustentabilidade deve
considerar a eqüidade e a disparidade dentro da população atual e entre as gerações presentes
e futuras, lidando com a utilização de recursos, superconsumo e pobreza, direitos humanos e
acessos a serviços; considerar as condições ecológicas das quais a vida depende; considerar o
desenvolvimento econômico e outros aspectos que não são oferecidos pelo mercado e
contribuem para o bem-estar social e humano.
- ESCOPO ADEQUADO: a avaliação do progresso rumo à sustentabilidade deve adotar um
horizonte de tempo suficientemente longo para abranger as escalas de tempo humana e dos
ecossistemas atendendo às necessidades das futuras gerações, bem como da geração presente
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em termos de processo de tomada de decisão em curto prazo; definir o espaço de estudo para
abranger não apenas impactos locais, mas, também, impactos de longa distância sobre pessoas
e ecossistemas; construir um histórico das condições presentes e passadas para antecipar
futuras condições.
- FOCO PRÁTICO: a avaliação do progresso rumo à sustentabilidade deve ser baseada em
um sistema organizado que relacione as visões e metas dos indicadores e os critérios de
avaliação; um número limitado de questões-chave para análise; um número limitado de
indicadores ou combinação de indicadores para fornecer um sinal claro do progresso; na
padronização das medidas quando possível para permitir comparações; na comparação dos
valores dos indicadores com as metas, valores de referência, padrão mínimo e tendências.
- ABERTURA / TRANSPARÊNCIA (OPENNESS): a avaliação do progresso rumo à
sustentabilidade deve construir os dados e indicadores de modo que sejam acessíveis ao
público; tornar explícitos todos os julgamentos, suposições e incertezas nos dados e nas
interpretações.
- COMUNICAÇÃO EFETIVA: a avaliação do progresso rumo à sustentabilidade deve ser
projetada para atender às necessidades do público e do grupo de usuários; ser feita de uma
forma que os indicadores e as ferramentas estimulem e engajem os tomadores de decisão;
procurar a simplicidade na estrutura do sistema e utilizar linguagem clara e simples.
- AMPLA PARTICIPAÇÃO: a avaliação do progresso rumo à sustentabilidade deve obter
ampla representação do público: profissional, técnico e comunitário, incluindo participação de
jovens, mulheres e indígenas para garantir o reconhecimento dos valores, que são diversos e
dinâmicos; garantir a participação dos tomadores de decisão para assegurar uma forte ligação
na adoção de políticas e nos resultados da ação.
- AVALIAÇÃO CONSTANTE: a avaliação do progresso rumo à sustentabilidade deve
desenvolver a capacidade de repetidas medidas para determinar tendências; ser interativa,
adaptativa e responsiva às mudanças, porque os sistemas são complexos e se alteram
freqüentemente; ajustar as metas, sistemas e indicadores com os insights decorrentes do
processo; promover o desenvolvimento do aprendizado coletivo e o feedback necessário para
a tomada de decisão.
- CAPACIDADE INSTITUCIONAL: a continuidade na avaliação rumo ao desenvolvimento
sustentável deve ser assegurada pela delegação clara de responsabilidade e provimento de
suporte constante no processo de tomada de decisão; provimento de capacidade institucional
para a coleta de dados, sua manutenção e documentação; apoio ao desenvolvimento da
capacitação local de avaliação.
Van Bellen (2005, p.65) afirma que:
“O princípio 1 refere-se ao ponto inicial de qualquer tentativa de avaliação: deve-se
estabelecer uma visão do que seja sustentabilidade e estabelecer as metas que
revelem uma definição prática desta visão em termos do que seja relevante para a
tomada de decisão. Os princípios 2 até 5 tratam do conteúdo de qualquer avaliação e
da necessidade de fundir o sistema por inteiro (global) com o foco prático nas
principais questões ou questões prioritárias. Os princípios 6 até 8 lidam com a
questão-chave do processo de avaliação, enquanto os princípios 9 e 10 se referem à
necessidade de estabelecer uma capacidade contínua de avaliação.”
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Por fim, para transformar o conceito de desenvolvimento sustentável em prática, deve-se
compreender melhor os processos humanos e naturais que estão relacionados à tríade da qual
fazem parte os problemas ambientais, econômicos e sociais. O processo de avaliação ou
mensuração da Sustentabilidade deve estar também focado, portanto, nesses aspectos que se
fazem presentes através do cumprimento de tais princípios (VAN BELLEN, 2005).
4. Indicadores de sustentabilidade
Um dos desafios da construção do desenvolvimento sustentável é o de criar instrumentos de
mensuração que integrem variáveis de diversas esferas, revelando significados mais amplos
sobre os fenômenos a que se referem. Indicadores de sustentabilidade são instrumentos
fundamentais para guiar a ação e auxiliar o acompanhamento e a avaliação do progresso
alcançado rumo ao desenvolvimento sustentável e através deles a sustentabilidade torna-se
mensurável e mais fácil de ser operacionalizada (CAMPOS, SILVA e GÓMEZ, 2007).
Para Besserman (2003), a produção de estatísticas ambientais e de indicadores é insuficiente e
as deficiências e lacunas superam bastante a oferta de informações existente. O autor indica
como causas para esse atraso o despertar recente da população para a questão ambiental e a
relação inicial que foi feita com um possível esgotamento dos recursos naturais frente a uma
dinâmica da economia que aumentava sobremaneira a sua eficiência no uso e na prospecção
de recursos naturais que desautorizou previsões pessimistas.
Coral, Strudel e Selig (2004, p. 4) afirmam que “para que um indicador atenda o seu propósito
deve ser transparente, completo, relevante, preciso, neutro, comparável e auditável”. As
características de indicadores apropriados são: (a) sua simplicidade de entendimento, (b)
coerência lógica (c) e quantificação estatística. Podendo ser descritivos ou normativos. Os
descritivos refletem o estado real do meio e as pressões sobre ele, enquanto os normativos
comparam as condições reais com um referencial (VAN BELLEN, 2005).
Porém, os modelos de indicadores que buscam analisar a sustentabilidade de uma localidade
nem sempre apresentam as características apontadas anteriormente. Analisando-se alguns
modelos de indicadores (Barometer of Sustainability, Dashboard of Sustainability e
Ecological Footprint Method) percebe-se que tais lacunas ainda são um desafio para a
construção e utilização de indicadores.
Segundo Prescott-Allen (1997), o Barometer of Sustainability (Figura 2), criado pela União
de Conservação Mundial, tem a finalidade de medir e comunicar o bem estar e o progresso de
uma sociedade para a sustentabilidade. A partir da sua utilização é possível extrair conclusões
sobre as condições das localidades e os efeitos de interações pessoa-ecossistema.
Este método analisa um conjunto de indicadores das dimensões social e ambiental. Os dados
analisados na ferramenta são representados numa configuração bidimensional, onde as
categorias de bem-estar humano e de ecossistema são introduzidos em escalas relativas, que
vão de 0 a 100, indicando uma situação variável de circunstâncias ruins e boas em relação à
sustentabilidade. A localização do ponto definido por estes dois eixos, dentro do gráfico
bidimensional, fornece uma medida de sustentabilidade ou insustentabilidade do sistema
(CAMPOS, SILVA e GÓMEZ, 2007).
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Figura 2 – Representação gráfica do Barometer of sustainability (MANITOBA CONSERVATION, 2002)
Já o Dashboard of Sustainability (Figura 3), desenvolvido em 1999 pelo Consultative Group
on Sustainability Development Indicators (CGSDI), é um modelo que agrega indicadores
relacionados ao bem-estar humano, ecológico, econômico e institucional que representam os
fluxos e estoques que influenciam no desenvolvimento sustentável. A visualização dos
indicadores se dá graficamente através de um painel de controle, semelhante a painéis de
controles automotivos, ilustrado a partir das cores vermelha (situação crítica), amarela
(situação intermediária) e, verde (situação excelente), passando por nove variações de cores.
O Ecological Footprint Method é apresentado por Wackernagel e Rees (1996), como uma
ferramenta que transforma o consumo de matéria-prima e a assimilação de dejetos de um
sistema econômico ou população humana, em área correspondente de terra produtiva ou água,
fundamentando-se no conceito de capacidade de carga. O método revela a área de ecossistema
necessária para assegurar a sobrevivência de uma determinada população ou sistema. A
ferramenta representa a apropriação de uma determinada população sobre a capacidade de
carga do sistema total (WACKERNAGEL E REES, 1996; VAN BELLEN, 2005).
Figura 3 – Representação gráfica do Dashboard of Sustainability (EUROPEAN STATISTICAL
LABORATORY, 2007)
No Brasil, a necessidade de mensuração do desenvolvimento sustentável originou discussões
que por sua vez determinaram o surgimento do chamado Índice DNA Brasil (IDNA).
5. Índice DNA Brasil
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O Índice DNA Brasil (IDNA) surgiu com a função de tornar-se um sistema analítico de
medidas, devido às limitações do IDH em gerar discussões mais aprofundadas por se tratar de
um índice sintético. Dentre os seus objetivos está o de ser útil para avaliar o estágio atual do
país em relação ao que a sociedade brasileira pode estabelecer como resultado de um projeto
ético-político nacional para um determinado período de tempo. Assim, o índice, representado
por uma síntese de preferência não numérica dos vários indicadores usados em sua
construção, pode ter diversas utilizações que devem incluir a formulação e o
acompanhamento de políticas públicas específicas, bem como a continuidade de estratégias
gerais de avanço social, e ainda servir de instrumento para a mobilização de atores públicos e
privados envolvidos em projetos de desenvolvimento do país (INSTITUTO DNA BRASIL,
2007).
O índice é constituído de uma representação gráfica conjunta da situação dos indicadores que
o compõem, em que os valores em cada “eixo” representassem o estágio em que o indicador
se localizar em relação ao “desejado” ou “projetado” como possível num horizonte de tempo,
ou ainda, como comparação com o valor do indicador em outro país (Figura 03), sendo
permitido atribuir pesos diferentes para os indicadores. O IDNA é composto de 24
indicadores distribuídos em 7 dimensões (Quadro 1) (INSTITUTO DNA BRASIL, 2007).
DIMENSÃO
Bem-estar
econômico
INDICADORES
Renda per capita, Relação entre as remunerações médias das mulheres e
dos homens, relação entre as remunerações médias de negros e brancos,
taxa de ocupação formal
Competitividade
econômica
Indicadores de participação do Brasil no mercado externo e dos
produtos de média e alta intensidade tecnológica na pauta de
exportações.
Condições sócioambientais
Instalações adequadas de esgotamento sanitário, Destino adequado do
lixo urbano, Tratamento do esgoto sanitário
Educação
Taxa de escolarização líquida no ensino médio, aferindo a faixa etária
matriculada no nível de ensino adequado e obrigatório à sua categoria,
Concluintes do ensino médio na idade esperada, Desempenho no
Programa Internacional para Avaliação do Estudante (Pisa)
Saúde
Anos potenciais de vida, Mortalidade infantil, Coeficientes de
mortalidade por acidentes cardiovasculares (ACVs) e Acidentes
vasculares cerebrais (AVCs)
Proteção social
básica
Cobertura previdenciária para maiores de 65 anos, Financiamento da
atenção à saúde
Distribuição de renda interpessoal, Morte por homicídio em homens (na
faixa de 15 a 24 anos de idade), Percentual de adolescentes que são
mães, Justiça tributária
Quadro 1- Dimensões e Indicadores do IDNA (baseado em INSTITUTO DNA BRASIL, 2007)
Coesão social
Segundo Veiga (2006, p. 28), “apesar de também ser chamado de índice, o DNA é na verdade
uma estrela cujas pontas e ângulos internos mostram as distâncias que separam o Brasil da
Espanha”.
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Figura 03- Representação gráfica do IDNA Brasil (INSTITUTO DNA BRASIL, 2007)
A finalidade última do DNA Brasil é criar uma mobilização nacional objetivando um projeto
de desenvolvimento social e econômico para o país, dando ênfase às dimensões problemáticas
e estabelecer com máximo rigor e cientificidade possíveis, parâmetros para orientar a
formulação de políticas e a ação de atores individuais e institucionais (VEIGA, 2006).
6. Comparação entre os Princípios de Bellagio e o Índice DNA Brasil
Os Princípios de Bellagio, já apresentados anteriormente, foram confrontados com as
características do IDNA Brasil para verificação do alinhamento entre ambos. O quadro 2
apresenta os dez Princípios, a indicação da existência ou não desses nas ações que
caracterizam o IDNA e a análise do alinhamento ou não entre os objetos estudados.
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PRINCÍPIO DE BELLAGIO
Guia de Visão e Metas
- Ser guiada por uma visão clara de
desenvolvimento sustentável e das metas
que guiam essa visão
Perspectiva Holística
- Incluir uma revisão do sistema todo e
de suas partes.
- Considerar o bem-estar dos
subsistemas
ecológico,
social
e
econômico, seu estado atual, bem como
sua direção e sua taxa de mudança, de
seus componentes, e a interação entre as
suas partes.
- Considerar as conseqüências positivas
e negativas da atividade humana de um
modo a refletir os custos e benefícios
para os sistemas ecológico e humano,
em termos monetários e não monetários.
Elementos Essenciais
- Considerar a eqüidade e a disparidade
dentro da população atual e entre as
gerações presentes e futuras, lidando
com a utilização de recursos,
superconsumo e pobreza, direitos
humanos e acessos a serviços.
- Considerar as condições ecológicas das
quais a vida depende. Considerar o
desenvolvimento econômico e outros
aspectos que não são oferecidos pelo
mercado e contribuem para o bem-estar
social e humano.
Escopo Adequado
Adotar um horizonte de tempo
suficientemente longo para abranger as
escalas de tempo humana e dos
ecossistemas atendendo às necessidades
das futuras gerações, bem como da
geração presente em termos de processo
de tomada de decisão em curto prazo.
- Definir o espaço de estudo para
abranger não apenas impactos locais,
mas, também, impactos de longa
distância sobre pessoas e ecossistemas.
ÍNDICE DNA BRASIL
- Representa um sistema de
indicadores da realidade social,
cultural e demográfica brasileira
com sete dimensões incorporadas
que
envolvem
aspectos
econômicos e sócio-ambientais.
- O IDNA inclui a revisão do
sistema bem como considera o
bem-estar social, econômico e
ecológico, seu estado atual e o
índice de mudança.
- Acompanha as taxas de
mudanças e a interação dos
resultados
- Não possui análise dos custos e
benefícios monetários e não
monetários
-O
IDNA
considera
as
disparidades existentes entre a
população atual e entre a geração
presente através da categoria
coesão social, porém esta está
relacionada aos itens apontados na
coluna ao lado, relaciona-se
apenas
à
indicadores
de
distribuição de renda e justiça
tributária.
- Na categoria ambiental considera
como tal a existência de
instalações
adequadas
para
esgotamento sanitário; destino
adequado do lixo urbano; e
tratamento do esgoto sanitário.
- Ao desenvolvimento econômico
atribui indicadores como cobertura
previdenciária para maiores de 65
anos e financiamento da atenção à
saúde.
- O IDNA Brasil permite
estabelecer metas futuras a partir
de um cenário presente, isso
permitirá no futuro analisar os
resultados previstos e alcançados,
a partir disso automaticamente
constrói-se um histórico das
condições passadas.
- A análise do DNA Brasil limitase aos impactos locais sobre as
pessoas.
ANÁLISE DO
ALINHAMENTO
O conceito de desenvolvimento
sustentável está representado
pela
incorporação
das
dimensões do Triple Bottom
Line – econômico, ambiental e
social
O fato de o sistema não ter sido
revisto nos últimos 4 anos
compromete
a
melhoria
contínua e aperfeiçoamento do
Índice. O IDNA não apresenta
um
equilíbrio
entre
as
dimensões do desenvolvimento
sustentável, isso porque, avalia
mais as dimensões dos
subsistemas
social
e
econômico do que a ambiental.
Portanto,
compromete
a
utilização do IDNA como
indicador de sustentabilidade.
O IDNA não considera, como
direciona o Principio 3, a
análise sobre a utilização de
recursos, o consumo e acesso a
serviços. Além disso, na
categoria sócio-ambiental os
indicadores relacionados ao
meio ambiente são limitados e
não permitem uma análise
segura do cenário, pois por
exemplo,
não
estão
contemplados
indicadores
relacionados
a
água
e
qualidade do ar. Portanto, o
IDNA contempla parcialmente
o Princípio de elementos
essenciais.
Apesar da adoção de um
horizonte temporal o IDNA
Brasil não contempla a análise
do impacto sobre ecossistemas,
pois como já mencionado, a
dimensão
ambiental
está
carente de indicadores que
represente
tal categoria
significativamente
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- Construir um histórico das condições
presentes e passadas para antecipar
futuras condições
Foco Prático
- Um sistema organizado que relacione
as visões e metas dos indicadores e os
critérios de avaliação.
- Um número limitado de questõeschave para análise.
- Um número limitado de indicadores ou
combinação de indicadores para
fornecer um sinal claro do progresso.
- Na padronização das medidas quando
possível para permitir comparações.
- Na comparação dos valores dos
indicadores com as metas, valores de
referência, padrão mínimo e tendências.
- O IDNA relaciona as visões com
os
critérios
de
avaliação
apresentando uma quantidade
limitada de indicadores (07
categorias de análise e 24
indicadores), permite comparações
com outros índices como o IDH
por exemplo
Na medida em que atende aos
requisitos, o IDNA está
alinhado com este Princípio.
Abertura/ Transparência
- Construir os dados e indicadores de
modo que sejam acessíveis ao público.
- Tornar explícitos todos os julgamentos,
suposições e incertezas nos dados e nas
interpretações.
- Os dados relacionados ao IDNA
estão disponíveis ao público de
diversas formas: revistas, internet,
livros, cartilhas e DVD´s. São
tornados explícitos as incertezas,
os julgamentos e as suposições dos
dados e suas interpretações nesses
documentos
Há o alinhamento uma vez que
todos os aspectos deste
Princípio estão presentes.
- Possui linguagem clara e
simples. A limitação de certos
indicadores
compromete
o
atendimento das necessidades dos
usuários e o estímulo dos
tomadores de decisão.
Há alinhamento parcial com
este princípio de Bellagio.
Comunicação Efetiva
- Ser projetada para atender às
necessidades do público e do grupo de
usuários.
- Ser feita de uma forma que os
indicadores e as ferramentas estimulem
e engajem os tomadores de decisão.
- Procurar a simplicidade na estrutura do
sistema e utilizar linguagem clara e
simples.
Ampla Participação
- Obter ampla representação do público:
profissional, técnico e comunitário,
incluindo participação de jovens,
mulheres e indígenas para garantir o
reconhecimento dos valores, que são
diversos e dinâmicos.
- Garantir a participação dos tomadores
de decisão para assegurar uma forte
ligação na adoção de políticas e nos
resultados da ação.
Avaliação Constante
- Desenvolver a capacidade de repetidas
medidas para determinar tendências.
- Ser interativa, adaptativa e responsiva
às mudanças, porque os sistemas são
complexos e se alteram freqüentemente.
- Ajustar as metas, sistemas e
indicadores com os insights decorrentes
do processo.
- O IDNA foi constituído com a
participação de especialistas no
assunto além de empresários,
presidentes
e
ex-presidentes,
cientistas políticos, engenheiros e
psicólogos
- São realizadas anualmente
conferências e debates sobre os
resultados apontados pelo Índice
nas quais participam os tomadores
de decisão
- Os indicadores continuam os
mesmos dentro das 7 categorias de
análise e 24 indicadores desde a
sua concepção em 2004. A partir
do último fórum (2006) cogitou-se
a idéia de incorporar novos
indicadores, pois os debatedores
tiveram dificuldade de chegar a
um consenso sobre as condições
Por adotar uma postura topdown o IDNA não prevê a
participação
de
diversos
stakeholders no seu processo
de formulação e revisão.
Assim, neste Princípio o IDNA
contempla parcialmente o
Fórum de Bellagio
O IDNA carece de revisão de
seus indicadores e por isso não
contempla esse Princípio do
Fórum de Bellagio
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XXVIII ENCONTRO NACIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO
A integração de cadeias produtivas com a abordagem da manufatura sustentável.
Rio de Janeiro, RJ, Brasil, 13 a 16 de outubro de 2008
- Promover o desenvolvimento do
aprendizado coletivo e o feedback
necessário para a tomada de decisão.
Capacidade Institucional
- Delegação clara de responsabilidade e
provimento de suporte constante no
processo de tomada de decisão.
- Provimento de capacidade institucional
para a coleta de dados, sua manutenção
e documentação.
- Apoio ao desenvolvimento da
capacitação local de avaliação.
sócio-econômicas-ambientais do
Brasil sendo o único ponto de
consenso o da necessidade de
novos indicadores num possível
amadurecimento deste sistema
com o objetivo de maior
aprofundamento de questões atuais
- A coleta de dados ocorre de base
de dados secundários como o
DataSus e o IBGE
- Os seminários são realizados
anualmente com a presença dos
especialistas e convidados (porém
não
representam
todos
os
stakeholders), porém não há
capacitação para as localidades
avaliadas.
O IDNA está parcialmente
alinhado com este Princípio.
Quadro 2 - Princípios de Bellagio confrontados com o DNA Brasil (Autores)
7. Considerações Finais
Foi possível verificar que o IDNA Brasil está em conformidade com três (30%) dos dez
Princípios de Bellagio (guia de visão e metas, foco prático, abertura/transparência), está
parcialmente de acordo com seis princípios (60%) - perspectiva holística, elementos
essenciais, escopo adequado, ampla participação, capacidade institucional e comunicação
efetiva e não está contemplando um único Princípio, o da avaliação constante. Logo, este não
apresenta alinhamento aos Princípios do Fórum de Bellagio.
Conclui-se então que apesar do não completo alinhamento com os Princípios de Bellagio, o
Índice DNA Brasil é um sistema de indicadores que possui potencialidades. Porém, para a sua
evolução e para que se possa suprir as carências existentes, é necessária uma revisão do
sistema, categorias e indicadores, pois da forma como se apresentam, os resultados são
míopes e comprometem o atingimento das metas.
Este artigo não tem pretensão de esgotar o assunto e reconhece que sua principal limitação
ocorreu tendo em vista que o instrumento de coleta de dados que foi construído e que
continha treze (13) perguntas abertas direcionadas a identificação dos Princípios de Bellagio
na construção do IDNA o qual foi enviado por e-mail para os responsáveis pelo IDNA no mês
de janeiro de 2008 e ainda não foi respondido, prejudicando assim a triangulação dos dados.
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avaliação da compatibilidade e alinhamento do índice dna