CADERNOS DE ESPIRITUALIDADE FRANCISCANA 24 Editorial Franciscana BRAGA – 2004 3 Índice O ROSTO DE JESUS EM SANTA CLARA PROJECTADO NO NOSSO MUNDO Fr. David de Azevedo ofm A IRMÃ MORTE NOS ESCRITOS DE SANTA CLARA (Nos 750 anos do seu passamento) Ir. Maria V. Triviño, osc A IRMÃ MORTE NOS ESCRITOS DE SANTA CLARA (Nos 750 anos do seu passamento) Ir. Maria V. Triviño, osc SER FRANCISCANOS E FRANCISCANAS HOJE *Fr. José Rodríguez Carballo, ofm Ministro Geral O DECLÍNIO FRANCISCANO NO OCIDENTE: UMA PROPOSTA DE ANÁLISE Fr. Luís Oviedo Documentos A Pobreza, Carisma Capuchinho Mensagem de João Paulo II aos Capuchinhos italianos pela ocasião do ―Capítulo das Esteiras‖ 4 I — Estudos O ROSTO DE JESUS EM SANTA CLARA PROJECTADO NO NOSSO MUNDO Fr. David de Azevedo ofm* ————— * Conferência proferida no dia 4 de, no Mosteiro de S. Miguel das Aves, no âmbito das "Jornadas Clarianas", lá realizadas. 5 O ROSTO DE JESUS EM SANTA CLARA PROJECTADO NO NOSSO MUNDO Celebramos os 750 anos da morte de Santa Clara e da aprovação da sua Regra, respectivamente em 11 e 9 de Agosto de 1253. Dois acontecimentos dignos de memória solene para a humanidade, porque Santa Clara é figura de destaque na galeria das mulheres mais ilustres da história; e a sua Regra, como experiência do Evangelho, define uma filosofia de vida de importância decisiva para o a realização do homem como homem. Escolhemos como tema o Rosto de Jesus em Santa Clara, porque o rosto é a presença da pessoa e o relacionamento interpessoal é central na vida de Clara e indispensável para que a vida do homem seja um vida verdadeiramente humana. O Capítulo Geral da Ordem Franciscana celebrado em Madrid em 1973 promulgou um documento intitulado Declaração sobre a vocação da Ordem nos Dias de Hoje. No parágrafo quinto estabelece: "No coração da vida franciscana encontra-se a experiência de fé em Deus no encontro pessoal com Jesus Cristo"1. A afirmação vale com igual precisão para a espiritualidade clariana. No coração da espiritualidade de Santa Clara está uma experiência singular de fé em Deus, no encontro pessoal com Jesus. Tudo brota desse encontro. Vamos, pois, considerar, primeiro, a centralização de Clara no rosto de Jesus; depois, seu enamoramento e amor esponsal; e, finalmente, dois traços do rosto de Jesus. I – CENTRALIZADA NO ROSTO DE JESUS Sua Santidade o Papa João Paulo II na carta apostólica No Início dum Novo Milénio, depois de recordar a celebração do ano jubilar, ao voltar-se para o futuro, para o novo milénio, apresenta como título da sua reflexão, a ————— 1 – Declaração sobre a Vocação da Ordem nos dias de Hoje, Ed. Franciscana, Brga 1973, p. 11 6 expressão: Um rosto a Contemplar. É um título singularmente feliz porque dum significado crucial para a vida cristã. O que é decisivo nesta não são comportamentos impessoais: a crença num determinado elenco de doutrinas, a observância dum código de normas morais, fosse ele o mais sublime, ou a proposta duma filosofia política capaz de construir um mundo ideal; mas sim a relação do homem com Deus – que é pessoa – e a relação do homem com o homem – que pessoa é também. Só quando as relações entre os homens forem autenticamente inter-pessoais, é que o homem estará no seu "habitat" próprio. É essa a grande prioridade do novo milénio. Santa Clara está nesta corrente. A vida da irmã clarissa tem alguns traços configuradores: a contemplação, a fraternidade, a igualdade, a pobreza, a clausura, o silêncio, a vida comunitária e outros, mas as irmãs não vivem para isso. Vivem para Jesus. Tirem Jesus da vida delas e que é que fica?… No seu Testamento – escrito talvez em 1247, como forma de acentuar o seu carisma em contraste com a regra proposta por Inocêncio IV – Clara, depois de proclamar a sublimidade da vocação clariana, afirma: "O Filho de Deus fez-se nosso caminho (cf. Jo 14-16), como nos mostrou e ensinou pela palavra e exemplo o nosso bem-aventurado pai S. Francisco, seu apaixonado imitador" (Ibd. 5). O Filho de Deus fez-se nosso caminho enquanto centro de amor, como indicia o adjectivo " apaixonado". Francisco foi imitador, porque antes foi apaixonado. Mais à frente Clara recomenda as suas irmãs à protecção da Igreja e do Cardeal Protector, "a fim de que, por amor daquele Senhor que foi reclinado pobre no presépio, pobre viveu no mundo e nu ficou sobre o patíbulo, se dignem conduzir o pequenino rebanho que, na sua Igreja santa, o Senhor Pai gerou com a palavra e exemplo do bem-aventurado Pai São Francisco" (TCl 45-46). Note-se a emoção e encanto com que Clara se refere "àquele Senhor que foi reclinado no presépio, pobre viveu no mundo e nu ficou na patíbulo". Não a comovem a pobreza e a humildade como virtudes ascéticas, mas sim "aquele Senhor", no presépio, na vida e na Cruz. Na Regra é de novo a pessoa de Cristo que aparece no centro: "A forma e vida da Ordem das Irmãs Pobres que S. Francisco instituiu é esta: Observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem próprio e em castidade (cf Mat 19,22)" (RCl 1-2). A forma e vida das Irmãs Pobres não é outra senão contemplar Nosso Senhor Jesus Cristo e torná-lo presente, como num espelho, pela observância do santo Evangelho. Por seu lado, S. Francisco diz no seu Testamento: "E, depois que o Senhor me deu o cuidado dos irmãos, ninguém me ensinava o que devia fazer; mas o mesmo Altíssimo me revelou que devia viver segundo a forma do Santo Evangelhos" (T 14). Francisco 7 saltou sobre todas as formas tradicionais de vida religiosa que lhe eram propostas (cf. LP 114), para se fixar directamente e só no Evangelho. E fê-lo não porque considerava o Evangelho a única proposta religiosa e política capaz de renovar a Igreja e de converter a sociedade de então, mas porque estava enamorado de Jesus e o Evangelho era para ele Jesus. Esta centralização na pessoa de Jesus é ainda mais forte nas cartas de Clara a Santa Inês de Praga. Na primeira, depois de lembrar a possibilidade que Inês teve de aceitar casamento com o Imperador, diz com encanto: "Mas a tudo isso renunciastes. Antes preferistes abraçar com todo o afecto de alma e coração a santíssima pobreza, escolhendo um esposo de linhagem mais nobre, o Senhor Jesus Cristo, que guardará imaculada e incólume a tua virgindade. (E continua em jeito de hino): Amando-O sereis casta, abraçando-O, ficareis mais pura, acolhendo-O, sereis virgem. O seu poder é mais forte, a sua generosidade, mais excelsa, o seu aspecto, mais formoso, o seu amor, mais suave e as suas graças, de maior encanto". (1CCl 6-9). Na segunda carta, advertindo Inês contra as pressões que havia contra a opção pela pobreza absoluta, encoraja-a: "Esta é aquele perfeição pela qual o Rei dos céus se unirá a ti na mansão celeste, onde reina sentado num trono de estrelas. Pois que desprezaste a glória da realeza terrena, e renunciaste às delícias dum casamento imperial, tornaste-te imitadora da altíssima pobreza e em espírito de grande humildade e caridade, seguiste as pegadas daquele que te achou digna para esposa" (2CCl 5-7). E mais à frente: "Antes, como virgem pobre, abraça a Cristo pobre. Contempla-O desprezado por teu amor e segue-O tornando-te desprezível por Ele neste mundo. Contempla, nobre rainha, o teu Esposo. Sendo o mais belo dos filhos dos homens (cf Sl 44,3) transformou-se, para tua salvação, no mais desprezível dos mortais" (Ibid. 17-20). O mesmo enlevo na terceira carta: "Alegra-te, tu também, em Cristo (Fl 4, 4) caríssima e não te envolva qualquer névoa de amargura, dilecta Senhora em Cristo, alegria dos anjos e coroa das irmãs. Fixa o teu olhar no espelho da eternidade, deixa a tua alma banhar-se no esplendor da glória e une o teu coração Àquele que é a encarnação da essência divina, para que, 8 contemplando-O, te transformes inteiramente na imagem da sua divindade. (…) Ama, repito, aquele Filho do Deus Altíssimo, nascido da Virgem, que o concebeu sem deixar de ser virgem" (3CCl 11-17). Na quarta carta, depois de felicitar Inês por ter desposado o Cordeiro de Deus, deixa o coração transbordar: "Feliz daquela a quem foi dado gozar desta íntima união, e que aderiu com todas as fibras do seu coração Àquele cuja beleza é contemplada por todos os santos do exército celeste, cujo amor nos encanta, cuja contemplação nos vivifica, cuja bondade e benignidade nos basta, A sua doçura satisfaz-nos plenamente e a sua recordação ilumina-nos com suavidade. O seu amor ressuscita os mortos, e a sua visão beatífica santifica os habitantes da Jerusalém celeste. Ele é o esplendor da eterna glória, a luz da eterna luz, o espelho sem mancha (cf Sb 7,20). (4CCl 9-14). Perdoe o leitor tão longas citações, mas pareceu-nos não dever privá-lo de saborear o encanto e poesia de Clara. Alem disso, este encanto mostra bem que a relação era de Esposo-esposa, e não qualquer função de caracter utilitarista. Terá esta centralização na Pessoa de Jesus algum sentido para hoje?… Não será preciso demonstrá-lo. A vida dos humanos na actualidade situa-se quase totalmente no campo da economia: produção, eficácia, profissionalismo, competição, consumo, negócios, grandes empresas, grandes fábricas, grandes superfícies comerciais, lutas laborais, jogos de bolsa, grupos financeiros, etc., etc.. Jesus disse: "Já não vos chamo servos, mas amigos". Quando chegará o dia em que as relações dos homens entre si serão prevalentemente relações de amizade?… 9 II – ENAMORAMENTO E AMOR ESPONSAL Tentámos contemplar a centralização de Clara na Pessoa de Jesus, mas importa projectar mais luz sobre essa relação. O cristão pode fixar-se em Jesus duma forma interesseira. Jesus é o Redentor, porque a mentalidade está dominada pelo problema do pecado. Jesus é a Vítima de Expiação, porque predomina a ideia da justiça divina. Jesus é o Mestre, porque são necessárias normas para definir os caminhos da vida. Jesus é o Modelo, porque é necessário espevitar o zelo contra as injustiças e o fogo para a libertação dos oprimidos. Em todos estes casos é o homem quem está no centro. Não foi essa a posição de Clara. Jesus não está em função de Clara, nem Clara em função de Jesus. As coisas passam-se em registo diferente. Simplesmente: amar. Clara é uma flor. Clara é um fruto… simplesmente porque se sente amada e ama. As clarissas não estão em função de nada. São flores, são uma primavera… simplesmente porque se sentem amadas e amam; e isso basta. Este enamoramento manifesta-se em duas linhas: na veemência do falar e nas imagens esponsais. Por dentro das palavras de Clara há um força incontível de encanto, de ternura e de paixão. Só algumas expressões "Observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo" (RCl 2); "Clara indigna serva de Cristo e plantazinha do bem-aventurado Francisco" (RCl 1,3); "depois que o altíssimo Pai celestial" (RCl 6, 1); "a altíssima pobreza que abraçámos" (RCl 6, 3); "em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e sua santíssima Mãe" (RCl 12, 11). Repare-se na frequência dos superlativos. No Testamento é a mesma melodia: "O Filho de Deus fez-se nosso caminho" (TCl 2); "Qual não deve ser a solicitude e empenho que devemos pôr em realizar, de alma e corpo, os mandamentos de Deus nosso Pai" (TCl 18); e, referindo-se a S. Francisco: o "nosso bem-aventurado Pai S. Francisco"; "ele que, depois de Deus, era a nossa coluna, a nossa única consolação e nossa fortaleza" (TCl 38); "E eu Clara, indigna serva de Cristo e das Irmãs Pobres de S. Damião e plantazinha do santo Pai" (TCl 37); "Eis porque, de joelhos em terra, prostrada de corpo e alma, recomendo à Santa Igreja romana… a fim de que por amor daquele Senhor que pobre foi reclinado no presépio, pobre viveu no mundo e nu morreu na patíbulo" (TCl 44-47). Mesmo quando não visa directamente a Jesus, e esta vibração de Clara é ressonância da ternura que tem por Ele. É ainda mais enternecido o seu sentir nas imagens esponsais que passamos a focar nas cartas. Sendo correspondência entre duas almas femininas, é natural que o falar de Clara assuma imagens do amor esponsal. Posto 10 que frequente na espiritualidade de então, por influxo de S. Bernardo, Guilherme de S. Tierry e da escola de S. Victor, a beleza com que Clara o "canta" é bem pessoal dela. A palavra "esposa" referida a Inês aparece pelo menos dez vezes e o qualificativo de "esposo" aplicado a Jesus, quatro vezes, mas o fio das palavras, linha após linha, é um sentir todo repassado de melodia esponsal, às vezes compondo verdadeiros hinos nupciais. Assim na primeira carta: Amando-O sereis casta, abarçando-O, ficareis mais pura, acolhendo-O, sereis virgem. O seu poder é mais forte. a sua generosidade, mais excelsa, o seu aspecto., mais formoso, o seu amor, mais suave e as suas graças de maior encanto. Ele vos segura em seus braços, e ornamenta de pedras preciosas o vosso peito, e enfeita de jóias inestimáveis vossas orelhas, e vos envolve de pérolas cintilantes, coroando-vos com a coroa de ouro, marcada pelo sinal da santidade (cf Ecl 45.14) (1 CCl 8-11) Na carta segunda: "Contempla nobre rainha o teu esposo. Sendo o mais belo dos filhos dos homens, transformou-se, para tua salvação, no mais desprezível dos mortais… Olha, medita e contempla e que o teu coração se inflame na sua imitação" (e logo, como eflúvio espontâneo): Se com Ele sofreres, com Ele reinarás: se com Ele chorares, com Ele exultarás; se com Ele morreres na cruz da tribulação, com Ele habitarás na glória dos santos, na mansão celeste, e teu nome será gravado no livro da vida e para sempre glorificado ente os homens" (Ap 3, 5). (2CCl 20-21). 11 Mais emocionada ainda a encontramos na última carta, já sobre o fim da sua vida, em 1253, em texto já citado acima. Juntando ao conceito de esposo à imagem de espelho, exorta: "Contempla diariamente este espelho, ó rainha e esposa de Jesus Cristo. (…) Neste espelho poderás contemplar, com a graça de Deus, como resplandece a bem-aventurada pobreza, a santa humildade e a inefável caridade. Contempla, no fundo deste espelho, a pobreza, pois está colocado no presépio e envolto em paninhos. Oh maravilhosa humildade! Oh admirável pobreza! O rei dos anjos, o Senhor do céu e da terra reclinado num presépio! Ao centro desse espelho contempla a humildade e a santa pobreza. Quantas tribulações e sofrimentos não suportou para resgatar o género humano! E no fim deste espelho contempla a inefável caridade que o fez sofrer no patíbulo da cruz a morte mais infame. (…) (E, plena de anseios e profundo amor, põe na boca de Inês): Atrai-me a Ti e correrei ao odor dos teus perfumes, ó celeste Esposo. Correrei sem desfalecer, até que me introduzas na sala do festim, até que a minha cabeça repouse sobre a tua mão esquerda, e a tua direita me abrace com ternura e me beijes com o ósculo suavíssimo da tua boca. (cf. Ct 1,3. 2, 4-6; 1,l); (4CCl 15-32). Mais uma vez, alargando o pensamento, terá este aspecto afectivo alguma importância para a vida social? O Pai Américo, numa festa de caridade em 1956, partindo do hino à caridade (1 Cor 13), gritava no cinema Tivoli: "Tirem a caridade do mundo e que é que fica?… Tirem a caridade do mundo e que é que fica?… Tirem a caridade do mundo e que é que fica?… Sem a caridade, nada presta… sem a caridade, nada vale… sem a caridade, nada dura…". Nós poderíamos dizer: Tirem a amizade do mundo e que é que fica?… Ou, melhor ainda: "Tirem a ternura do mundo e que é que fica?… Pode o mundo ter riquezas a deitar por fora… grandes vivendas… grandes palácios… etc., etc., etc., se dentro do mundo não há ternura?!… Teremos um mundo árido, duro e frio. Os mosteiros de clarissas deverão ser canteiros a emanar esse perfume indispensável ao homem. 12 III – JESUS POBRE E HUMILDE Além da natureza da relação com Jesus – uma paixão enamorada – é importante focar dois traços do rosto de Jesus, para termos uma ideia de como ele era para Clara. Em primeiro lugar, a pobreza. A linguagem esponsal de Clara prolonga-se nas referências à pobreza. Tanto nas Cartas como na Regra. No Testamento, dos seus 79 parágrafos, 56 são sobre a pobreza. Para compreender a pobreza, porém, importa realçar duas vertentes: a descida de Jesus e a não-propriedade. A descida de Jesus – Na pobreza de Jesus, juntamente com a pobreza material – que contempla com tanto encanto no Presépio, na vida pública e no Calvário – e mais importante ainda do que ela – Clara admira sobretudo a humildade, a descida do Verbo de Deus, do seu trono real até à pequenez do seio de Maria e à candura do presépio: "Se, pois, um tão grande Senhor desceu ao seio da Virgem Maria e apareceu desprezível, desamparado e pobre neste mundo, para que os homens, pobres desamparados e carenciados do divino alimento, nele se tornassem ricos, possuindo o Reino dos Céus, alegrai-vos e rejubilai, enchei-vos de grande prazer e de alegrias espirituais" (1CCl 19-21). Na carta segunda: "Contempla, nobre rainha, o teu Esposo. Sendo o mais belo dos filhos dos homens, transformou-se, para tua salvação, no mais desprezível dos mortais". (2CCl 20).. Na terceira: "Ama, repito, aquele Filho do Deus Altíssimo, nascido da Virgem, que O concebeu sem deixar de ser virgem. Vive unida à Mãe dulcíssima que deu à luz o Filho que nem os céus puderam conter. E, todavia, ela o levou no pequeno claustro do seu ventre sagrado e o formou no seu seio de donzela" (3CCl 17-19). E na quarta: "Contempla, no fundo deste espelho, a pobreza, pois está colocado no presépio e envolto em paninhos. Oh maravilhosa humildade! Oh admirável pobreza! O Rei dos reis, o Senhor do céu e da terra reclinado num presépio" (4CCl 19-22). Ao contemplar esta auto-humilhação, esta auto-pequenez de Deus, Clara está bem no centro do sentir de Francisco. É também assim que o Santo de Assis vê, antes de mais, a santa pobreza, contemplando os mistérios da Encarnação e da Eucaristia. No início do opúsculo intitulado Avisos Espirituais ou Exortações, no início, digo, das suas Exortações, Francisco coloca, como pórtico de entrada, essa infinita descida do Verbo: "Por isso, ó filhos dos homens, até quando haveis de ser de coração duro? Porque não reconheceis a verdade e acreditais no Filho de Deus? Eis que Ele se humilha cada dia como quando baixou do seu trono real, a tomar carne no 13 seio da Virgem; cada dia desce do seio do Pai, sobre o altar, para as mãos do sacerdote!" (Ex 1ª 14-18). Na Carta a toda a Ordem, pedindo a adoração dos irmãos, principalmente dos que são ou desejam ser sacerdotes, para a Santa Eucaristia, exclama: "Que o homem todo se espante, que o mundo todo trema, que o céu exulte, quando sobre o altar, nas mãos do sacerdote, está Cristo, o Filho de Deus vivo! Oh! grandeza admirável, oh! condescendência assombrosa, oh! humildade sublime, oh! sublimidade humilde, que o Senhor de todo o universo, Deus e Filho de Deus, se humilde a ponto de esconder, para nossa salvação, nas aparências dum bocado de pão. Vede, irmãos, a humildade de Deus, e derramai diante dele os vossos corações; humilhai-vos também vós para que Ele vos exalte. Em conclusão: nada de vós mesmos retenhais para vós, a fim de que totalmente vos possua Aquele que totalmente a vós se dá" (CO 26-29). A Ir. Maria do Rosário, clarissa do mosteiro de Monte Real, em livro recente, escreve com profunda intuição e beleza feminina: "Clara pertence àquela estirpe de "águias imperiais" que, pairando nas alturas, fitam o sol. S. João começa a sua narrativa evangélica a partir da Fonte: "No princípio era o Verbo (…) e o Verbo era Deus…) Tudo começou a existir por meio dele e sem Ele nada foi criado. Nele estava a Vida e a Vida era a luz dos homens (…) O Verbo era a luz verdadeira que, vindo a este mundo, a todo o homem ilumina. Estava no mundo, e o mundo foi feito por Ele, mas o mundo não o conheceu. Veio ao que era seu e os seus não o receberam (Jo 1, 1-11). Clara, como S. João, remonta ao Verbo no seio do Pai. É aí a génese da sua Pobreza.: porque o Verbo de Deus desceu do seio do Pai e aniquilou-se a si mesmo, fazendo-se homem – servo – por nosso amor. Deus atreve-se a descer dos Céus para lavar os pés aos homens… A Pobreza de um Deus não começa para Clara no Presépio ou em Nazaré, mas no aniquilamento do Verbo. (…) Clara contempla, em abismos de vertigem, o Verbo incriado baixar ao seio duma Virgem que vive no anonimato… (E um pouco à frente, à guisa de conclusão): A Pobreza em Clara não é o "sustine et abstine" dos estoicos ou dos cínicos (…) A verdadeira pobreza de Clara está no interior, é a seiva da árvore que lhe dá a Vida Teologal. A renúncia à posse de bens (…) é apenas a casca da árvore"2. A pobreza é, pois, uma realidade teologal. É preciso distinguir no Evangelho a superfície – que neste caso seria a pobreza material – e as funduras do Mistério que nos dão o significado teológico da mesma. ————— 2 – MARIA DO ROSÁRIO F. GASPAR, Clara – a constelação e o signo, Ed.- Paulinas, 2004, p. 316 s. 14 Esta descida e auto-doação do Verbo – a pobreza – nasce na essência da Santíssima Trindade – que é Amor -; e define toda a lógica de Jesus. Aos discípulos que discutiam entre si sobre qual deles era o maior, Jesus contesta: "Sabeis que os chefes das nações as governam como se fossem seus senhores e que os grandes exercem sobre elas o seu poder. Não seja assim entre vós. Pelo contrário quem entre vós quiser fazer-se grande, seja o vosso servo; e quem no meio de vós quiser ser o primeiro seja vosso servo. Também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida para resgatar a multidão" (Mt 20, 25-28). É a definição mais perfeita da palavra "menor" que faz parte do nome da Ordem Franciscana, Ordem dos Frades Menores. O franciscano é alguém que sente uma alergia visceral a tudo o que seja grandeza, poder, dominação, auto-afirmação de si mesmo. Pelo contrário, sente-se como uma fonte cujo existir é todo e só oferecer continuamente sua água cristalina. Em total gratuidade e generosidade, sem um mínimo movimento de retorno ou a mais ténue intenção de sentido contrário, voltada para si mesmo. "O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir". Esta foi a pobreza de Jesus. Giovanni Miccoli, nesta linha de pensamento, depois de recordar a Carta de Francisco a Um Ministro, conclui: "A misericórdia para com os pecadores e o amor dos inimigos vão unidos à rejeição de todo o acto de violência, de poder e de domínio sobre os outros e convidam a adoptar uma lógica que constitui uma mudança total e a antítese absoluta em relação à lógica que domina as relações habituais entre os homens.(O sublinhado é nosso. Fixe-se sobretudo a expressão "antítese absoluta"). E continua: "É neste contexto de ideias, exortações e de opções que se situa o augúrio da paz – "O Senhor te dê a Paz" – que caracteriza a maneira franciscana de saudar. É este contexto que lhe dá o significado profundo: não se trata só do desejo de que diminuam os conflitos e contendas. Trata-se (voltamos a sublinhar) da vontade de se apartar da lógica do mundo, feita de possessão, de poder e de afirmação de si mesmo, como condição para realizar a paz"3. Estas palavras – que consideramos absolutamente exactas – revelam a importância do "Rosto de Cristo", visto por Clara de Assis, para o mundo de hoje. A não-propriedade – De significado semelhante e de amplitude maior ainda é o tema da "não propriedade", o não ter nada de seu, para viver sus————— 3 – MICCOLI G. Francisvco de Assis – Realidad y Memoria de una Experiencia Cristiana, Ed- Aranzazu, 1994, p. 79. 15 penso da Divina Providência. Logo no início da Regra de Clara, tal como na de Francisco, há uma palavra que surpreende. Em vez de pobreza diz sem próprio. "A Regra e vida das Irmãs Pobres é esta: observar o santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, vivendo em obediência, sem próprio, e em castidade" (RCl 1-2). A formulação habitual seria: "vivendo em obediência, em pobreza e em castidade". Porque terá Francisco, e depois Clara, substituído pobreza por sem próprio? Porque nela está a diferença decisiva entre pobreza relativa e pobreza absoluta. Nas demais ordens religiosas, a ordem ou mosteiro, como colectividade, mantinha a propriedade dos seus bens: terrenos e outras fontes de rendimento para garantir o sustento dos seus membros. Francisco nada quer ter de seu. Nem individual nem colectivamente. Nada que se lhe apresente como uma segurança diferente do Pai. Foi este o cavalo de batalha de Clara durante toda a sua vida, até à aprovação da sua Regra dois dias antes de morrer. Por solicitação de Roma, o mosteiro de S. Damião aceitou inicialmente a Regra de S. Bento, mas Clara logo conseguiu de Inocêncio III, em 1216, o "privilegium paupertatis, que era precisamente isso: não poder ter terrenos para sustento das Irmãs. Por encargo de Honório III, o Cardeal Hugolino, entre 1219 e 1221 procurou estruturar os grupos de "mulheres religiosas" que se multiplicavam no centro e norte da Itália; e para tanto redigiu uma regra de teor cisterciense, na qual se impunha a clausura, a dependência directa de Roma e o direito de possuir terrenos para sustento das religiosas. Em 1228, já como papa, sob o nome de Gregório IX, quis atrair S. Damião para o seu monaquismo, mas Clara resistiu. E como o ponto de maior melindre era o possuir terrenos, o Papa renovou o "privilegium paupertatis". Em 1247 o Papa Inocêncio IV publicou uma nova regra para os mosteiros hugolinianos; e estendeu-a a S. Damião. Mais uma vez Clara advertiu o perigo e, insatisfeita, começou a redigir a "sua" Regra que, não obstante as pressões do papa e do cardeal protector, acabou por ver aprovada pelo mesmo Inocêncio IV, em 9 de Agosto de 1253, dois dias antes morrer. Deste problema aparecem indícios bem claros no Testamento e na Regra. No Testamento (1247): "Se para salvaguardar a dignidade e isolamento do mosteiro se achar conveniente em determinada altura, adquirir terrenos fora da horta, não se adquira mais do que o absolutamente necessário. E de maneira nenhuma se cultive ou se semeie este terreno, antes se deixe baldio e inculto" (TCl 54-55). E na Regra (1253): "Por isso, não recebam, por si ou por interposta pessoa, algum domínio ou propriedade, ou alguma coisa que razoavelmente possa ser considerada como tal. Só podem ter aquela porção de terra que honestamente se achar necessário para decoro e isolamento do 16 mosteiro, a qual não poderá ser cultivada senão como horta para satisfazer as necessidades da comunidade" (RCl 12-14). Admite que haja algum terreno, mas não para garantir sustento das Irmãs, mas somente para salvaguardar a dignidade e isolamento do mosteiro. Porquê esta resistência? Porque Jesus dissera: "Olhai as aves do céu: não semeiam, nem ceifam., nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai do céu alimenta-as. Não valeis vós mais do que elas? (…) Olhai como crescem os lírios do campo: não trabalham nem fiam. Pois eu vos digo: Nem Salomão em toda a sua magnificência, se vestiu como qualquer deles" (Mt 6, 26-29). E ainda: "As raposas têm tocas e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça". Clara queria existir como Jesus: existir entregue à Providência divina. Ser como um dom de Deus que nos faz existir como a corrente eléctrica mantém iluminada a lâmpada suspensa no tecto. Ser alimentada dia a dia pelo Pai do céu que inspira a caridade dos irmãos. Um mundo de confiança, de gratidão e de alegria. A pobreza absoluta tem ainda outro aspecto que a liga à humildade e à fraternidade. Não propriamente pela partilha de bens, como se compreende habitualmente, mas pelo respeito ante a liberdade de cada um. Copiando da Regra dos Frades Menores, Clara faz escrever no c. VIII da sua Regra: "As Irmãs nada tenham de seu, nem casa, nem lugar nem coisa alguma. Como peregrinas e estrangeiras, servindo o Senhor em pobreza e humildade, com muita confiança sejam enviadas a pedir esmola. E não devem ter vergonha porque também o Senhor por nós se fez pobre neste mundo. Esta é a excelência da altíssima pobreza que a vós, minhas irmãs caríssimas, vos constituiu herdeiras e rainhas do Reino dos Céus. Fez-vos pobres das coisas temporais mas enobreceu-vos de virtudes. Seja esta a herança que vos leve à terra dos vivos. Apegai-vos bem a elas, minhas queridas irmãs, e nenhuma outra coisa, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Santíssima Mãe, jamais queirais ter debaixo do céu". (RCl 8, 1-6). "Sola abdicatio dominii facit pauperem". Um pobre só é pobre quando não tem nada seu, quando abdica de ser dono das coisas. Quando Roma declarou que os bens que os frades usam são propriedade da Santa Sé, alguns membros do clero secular e alguns mestres da Universidade de Paris acharamn que a solução não passava dum fingimento, "fictio iuris". Diziam: "Eu só posso usar aquilo que é meu… e daquilo que é meu faço o que eu quero e ninguém tem nada com isso". A reacção deve situar-se no seu contexto histórico. Não é mera questão de economia, mas de organização social. Na mentalidade de então o distintivo da nobreza estava em ser 17 Senhor, ser Dom (D. António, D. Nuno, D. Sancho…) ter domínios, não depender de ninguém ser mais que os outros, dominar. Ora era precisamente isso provocava – e deve provocar sempre – uma alergia mortal no franciscano. O Capítulo Geral de 1967, que na renovação das Constituições Gerais pôs de lado as tradicionais Declarações Pontifícias e suprimiu tanta coisa, manteve, todavia, esta declaração aparentemente jurídica. É que se trata dum tema decisivo, tanto no que diz respeito a Deus: ter para com Ele uma gratidão total; como no que diz respeito aos homens: não ser mais que os outros. Todos iguais, nada de classes, nada de dominação… Era verdadeiramente revolucionário. Desmoronava a sociedade. Mas o Evangelho é isto. Se os homens de hoje se sentissem como as avezinhas do céu… que tudo recebem de Deus… sentissem que são verdadeiramente filhos do Pai celeste… que devem administrar os bens e talentos para a felicidade dos irmãos… que a circulação de bens – que chamamos comércio – é na realidade uma inter-comunhão de amizade e solicitude… se não quisessem dominar ninguém… oprimir ninguém… ser mais que ninguém, mas, pelo contrário, procurassem zelar pela liberdade e felicidade todos… teríamos realizadas as utopias dos profetas. Um caso prático: o trabalho. S. Francisco disse: "os irmãos trabalhem fiel e devotamente (…) não por causa da cobiça do preço do trabalho, mas para dar bom exemplo e repelir a ociosidade". Hoje, em vez de "dar bom exemplo e repelir a ociosidade", diríamos: para fazer a felicidade de todos, principalmente dos mais carecidos. Paradoxal! Não é o salário que importa!… Mas colaborar para a felicidade dos outros!… E S. Francisco continuava: "e quando não lhes derem o preço do trabalho, recorram "mesa do Senhor", pedindo esmola de porta em porta" (T 20-22). Pedir esmola é uma possibilidade extrema. Hoje, a "mesa do Senhor" seria a inter-comunhão de amizade e a solicitude mútua, nascida da alegria ver os outros felizes". Fazer do mundo uma "mesa do Senhor, fazer do mundo uma família de irmãos, eis um desafio, para todos nós, do Rosto de Jesus em Santa Clara.4 ————— 4 – Reflexões mais extensas sobre estas projecções da espiritualidade franciscana nos grandes temas da vida humana, pode encontrar em DAVID DE AZEVEDO, OFM, Francisco de Assis, Fé e Vida, 2ª Edição, Ed. Franciscana, Braga, 2003. 18 A IRMÃ MORTE NOS ESCRITOS DE SANTA CLARA (Nos 750 anos do seu passamento) Ir. Maria V. Triviño, osc* ————— * Artigo publicado nas Selecciones de Franciscanismo, nº 97, 2003. 19 A IRMÃ MORTE NOS ESCRITOS DE SANTA CLARA (Nos 750 anos do seu passamento) A morte é uma realidade a que ninguém consegue subtrair se. O que se disse de Moisés, que partiu deste mundo pelo caminho que todos seguem (Dt 34,5) dir-se-á de todos os que chegámos e hão-de chegar à vida. É fácil filosofar acerca da morte. Podemos entrar em reflexões teológicas, e é esse, de facto, o objecto duma parte da dogmática que estuda os novíssimos, a escatologia. A morte é a fronteira, a porta, a passagem de um a outro estado de que só temos notícia pela revelação "Creio na ressurreição dos mortos e na vida eterna". É esta a nossa fé. Aquilo que esperamos. E quando a fé se fundamentar na visão, e a esperança se diluir na posse, permanecerá sempre o amor. A vida eterna decide-se no juízo graças a uma iluminação que há-de permitir o conhecimento sem véus de Deus e da própria consciência. Na reflexão medieval sobre a morte fazem-se duas propostas: uma negativa, que pretende mover à conversão pela consideração da brevidade da vida, da caducidade dos bens terrenos, da angústia da agonia, da corruptibilidade, etc…; outra positiva, que alimenta a esperança cristã na bem-aventurança eterna, no gozo da ressurreição da carne. Destes dois aspectos se extraía um ensinamento para viver no Bem, e a serenidade para morrer em Paz. Santa Clara escutou e meditou, sem dúvida, aquilo que no seu tempo se ouvia a respeito da morte. Porém, quando sobre ela exorta e escreve, parece não ter em conta os aspectos negativos. Ao acompanharmos Clara de 20 Assis nos 750 anos da sua morte, o percurso que vamos seguir é o da franciscana humildade e simplicidade, da pobreza e obediência, a via da Beleza e da contemplação transformadora, que faz da morte um encontro desejado e jubiloso. São Francisco chamou "irmã" à morte e, exultando, acolheu-a entre louvores. Clara recebeu-a dando graças ao Pai pela esmola da vida. Para que também assim a vejamos impõe-se-nos encontrar a chave da santa pobreza, do despojamento, da humildade original. Aquilo, numa palavra, que Leclerc chama "um coração leve". Desgraçadamente, porém, "o homem moderno tem o coração pesado. Percorrendo sofregamente os caminhos do poder, o coração torna-se-lhe cada vez mais pesado. Tenhamos a coragem de reconhecer: nem temos leve o coração, nem sabemos o que isso seja". Cristo disse: "Vinde a Mim todos os que andais afadigados e sobrecarregados e Eu vos aliviarei" (Mt 11, 28-30). Ele tirou de cima de nós a pesada lousa que nos oprimia na caminhada e nós apressámo-nos a carregar novamente com ela. Um coração leve – como o que vemos claramente em Francisco de Assis – retira toda a sua força e serenidade do relacionamento íntimo com a fonte da vida e do ser. Uma relação de carácter, que lhe permite comportar-se tal qual a criança em presença do último segredo das coisas e encontrar a felicidade no seu Criador. Daí essa segurança última na existência que não se deixa perturbar com coisa alguma. Daí também essa feliz confiança, essa divina alegria de existir. "Obrigado, Senhor, por me terdes criado", exclamava Clara pouco antes de morrer. Esta expressão de Clara é um eco fiel do cântico de Francisco. Seria inútil procurar nesse cântico o mais ténue vestígio de angústia, mesmo perante a morte. Nele só brilha o esplendor da manhã, à hora do sol nascente, quando o orvalho ainda não apresenta vestígios de qualquer passagem1. Nos seus escritos, Clara fala da morte onze vezes. É quanto nos basta para seguirmos o seu pensamento, uma vez que tais referências são bastante uniformes e espaçadas no tempo. ————— 1 LECLERC, E., Desponta o Sol em Assis, EF, Braga, 1999, p. 158 21 Podemos abrir dois apartados nestes seus textos: os que contemplam a morte do Filho de Deus e os que se referem ao instante da morte de Francisco e de Clara. 1. JESUS MORREU POBRE E DESNUDO Chegou o momento em que, para Clara de Assis, a reflexão sobre a morte corporal se dilui na contemplação da morte do Filho de Deus. Morrer será fitar os olhos no divino amante Crucificado, obediente, desnudo, rendido… e com ele morrer num lance de total entrega, de obediência, de desapropriação, de amor esponsal. "E no fim deste espelho contempla a inefável caridade que O fez padecer no patíbulo da cruz a morte mais infame" (4CCL 23)2. Por penosas que sejam as circunstâncias que acompanhem a agonia, nada pode ser considerado bastantemente humilhante e doloroso quando vemos o Filho de Deus morrer da morte mais infame. Sabemos que quando Frei Reinaldo, ao acompanhar Clara na sua agonia, "a quis exortar à paciência, ela respondeu-lhe com toda a franqueza: ‗Querido Irmão, desde que me foi dado conhecer a graça do meu Senhor Jesus Cristo por meio do seu servo Francisco, nenhuma pena me foi molesta, nenhuma penitência me pareceu severa, nem nenhuma doença me foi difícil de suportar" (LCl 44). A graça começou a transformar Clara desde que conheceu Francisco nos alvores da remota juventude. Agora, ao chegar ao derradeiro momento, bem podiam os jograis de Francisco cantar-lhe a última estrofe do Cântico das Criaturas: "Felizes os que aceitam em paz a dor, porque chegou para eles o tempo da consolação". Já não havia para Clara pena suficientemente molesta, ou amargura bastantemente amarga que não se transformasse em doçura. Essa confissão da Senhora Pobre, providencialmente preciosa para conhecermos a sua fortaleza de ânimo e os frutos de tão porfiada contemplação do Espelho da eternidade, temos que a agradecer à solicitude loquaz de Frei Reinaldo. "Varão piedoso" era ele, mas, em vez de lhe dar consolação em transe tão ————— 2 As citações são feitas a partir das FONTES FRANCISCANAS II – SANTA CLARA DE ASSIS, ESCRITOS, BIOGRAFIAS, DOCUMENTOS, EF, Braga, 1996 22 difícil como fez frei Junípero, "molestava-a com palavras supérfluas" (cf. LCL 45). Jesus é o Espelho da eternidade onde Clara, nele reflectida, busca a vera efígie divina e tenta a sua semelhança com Ele. É o Espelho em que anseia transfigurar-se por inteiro, em perfeita sintonia e comunhão. Consta o Espelho de três partes ou momentos e neles se contempla o mistério de Cristo: no começo o nascimento do Senhor pobre, em Belém; no centro a vida pública; no fim a morte e ressurreição. Quando Francisco e Clara repetiam uma e mil vezes: "Tu és Humildade", repeliam energicamente de si mesmos a veleidade de serem alguma coisa, a fim de que a humildade do Filho de Deus pudesse encher por completo todos os escaninhos de suas almas. Quando diziam: "Tu és Paciência", parecia-lhes impossível haver no mundo pena alguma que não pudessem suportar em paz. Quando diziam: "Tu és Doçura, tu és Mansidão‖ sentiam não haver doçura comparável à do olhar do Senhor. Nem nada tão amargo que não pudessem transformar imediatamente em doçura. E, como dizia São Leão Magno: "A amargura não é motivada pela maneira de actuar da justiça divina, mas da maldade humana. E neste sentido, é mais deplorável a atitude de quem pratica o mal do que a situação de quem tem de padecer por causa da maldade, porque ao injusto a malícia acarreta-lhe castigo, ao passo que a paciência do justo leva-o à glória. Aos pacíficos e mansos, aos que estão dispostos a tolerar toda a espécie de injustiça é-lhes prometida a posse da terra‖3. E quando diziam: "Tu és Caridade, tu és Ternura" rendiam-se ao amor do Salvador, "em extremo" fascinados por Ele. E choravam todas as lágrimas do mundo, movidos de compaixão, embriagados com a inefável ternura do Filho de Deus na sua paixão e na sua cruz. Se caminhar é ter os olhos, a mente e o coração fixos no Filho de Deus para nos tornarmos, como ele, pobres, humildes, amorosos, mansos… ————— 3 Sermão 95, 4-6; PL 54, 462-464. Ofício de Leituras do Sábado XXII, do Tempo Comum. 23 morrer que será ? É imitar o Esposo, tendo em pouca monta o sofrimento, é dar-lhe graças antegozando a proximidade do encontro: "Contempla, nobre rainha, o teu Esposo. Sendo o mais belo dos filhos dos homens, transformou-se, para tua salvação, no mais desprezível dos mortais. Morreu na Cruz, no meio dos maiores sofrimentos, golpeado e vezes sem conta açoitado em todo corpo. Olha, medita e contempla e que o teu coração se inflame na sua imitação " (2CCL 20-21). Quem, de si esquecido, perseverar nessa contemplação é levado ao abraço que identifica, como virgem pobre, é totalmente transfigurado após ter seguido a pobreza, a humildade, paciência, mansidão e doçura… do Filho de Deus. Ruminado então pela sua inefável caridade, quem com ele morrer com ele reinará. "Receberás a coroa da imortalidade" (5CCL). A morte, nos aspectos negativos, está vencida. Será qual irmã abrindo a porta da bem-aventurança. Júbilo, santidade, esplendor… para sempre! É esta, em toda a sua simplicidade, a argumentação de Clara a respeito da morte. Há um Espelho, Cristo pobre. Um espelho que urge imitar na vida e na morte. Em estreito abraço, com Ele se vive, se morre e se alcança a eterna bem-aventurança. Os braços para esse abraço transfigurados e glorificante são a humildade e a pobreza. Pobre, humilhado e desnudo morreu o Senhor no leito da cruz. Desnudo, reclinado sobre a terra nua do aniquilamento e da cinza, morria Francisco… Abrasado em inefável caridade, morre o Senhor. Abraçada a Cristo pobre, virgem pobre, em seráfico arrebatamento, morria Clara. 2. FRANCISCO DEIXA COMO HERANÇA A SANTA POBREZA, ANTES E DEPOIS DA SUA MORTE Outra série de textos se referem igualmente à morte de Francisco e de Clara, porém uma morte escandida em dois tempos: um "antes" e um "depois". De qualquer modo, o denominador comum é invariavelmente a santa pobreza do Filho de Deus que as irmãs, tanto presentes como futuras, devem abraçar. 24 a) O legado de Francisco "antes da sua morte " A influência de São Francisco não terminou com o seu passamento. Clara recorda e escreve que a vida é um caminho interior, uma evolução mística para se chegar ao abraço: "O Filho de Deus fez-se nosso caminho, como nos mostrou e ensinou pela palavra e exemplo o nosso bem-aventurado Pai São Francisco, seu apaixonado imitador" (TCL 5). De resto, ele teve sempre um cuidado amoroso e a mais diligente solicitude no acompanhamento das irmãs pobres, quais senhoras suas, num caminhar que era o seguimento fiel das pegadas do Filho de Deus (1Pe 2,21, manso, humilde e pobre… Pouco antes da sua morte Francisco legou-lhes a Santa Pobreza em escrito firme e singelo. Tal como ele se comprometia a observar a Pobreza "até ao fim", isso mesmo pedia o fizessem as senhoras pobres. Clara recolhe esse escrito e integra-o na redacção da Regra. É sua convicção que, tanto para as irmãs que puderam venerar as chagas do "verdadeiro amante do Filho de Deus", como para as que viriam depois, nada seria tão forte e aliciante como aquela exortação testamentária em forma de testemunho. “E para que nem nós, nem as que nos hão-de suceder nos desviássemos da altíssima pobreza que abraçámos, pouco antes de morrer, novamente nos escreveu a sua última vontade: „Eu, o pequeno irmão Francisco, quero seguir a vida e a pobreza do nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e da sua santíssima Mãe e perseverar nela até ao fim, rogo-vos, minhas senhoras, e vos aconselho, que vivais sempore nesta santíssima vida e pobreza. E conservai-vos muito atentas para que de nenhum modo jamais vos afasteis dela, por ensinamentos ou conselhos, donde quer que venham” (RCI VI, 6 …). b) O legado de Francisco para "depois da sua morte" Francisco exortou as Senhoras Pobres a que, depois da sua morte… continuassem abraçadas à pobreza do Filho de Deus como forma de vida. Deixou muitos escritos que não chegaram até nós, ou chegaram em recolhas cujos destinatários ainda hoje ignoramos se eram irmãs ou irmãos. "Não contente em nos exortar durante a vida, com muitas palavras e exemplos, ao amor e observância da santíssima pobreza, deixou-nos também muitos escritos, para que, depois da sua morte, de modo nenhum nos afastássemos dela, a exemplo do Filho de Deus que, enquanto viveu neste mundo, nunca da santa pobreza se quis desviar" (TCI 34-35). 25 São estas as referências de Clara à morte de São Francisco. Visam inevitavelmente a imitação da santíssima vida e pobreza do Senhor e de sua bendita Mãe pobrezinha. Há ainda outra citação que transferimos para mais adiante pelo facto de coincidir com a própria exortação de Clara. 3. CLARA EXORTA À OBSERVÂNCIA DA POBREZA PARA ALÉM DA SUA MORTE Porém, após a morte de Francisco, irmãs houve que claudicaram desviando-se da santa pobreza. Este facto foi ensejo para palavras de Clara em que nunca reflectiremos bastantemente e que denunciam bem a dor e decepção que lhe coube sofrer como fundadora e mãe. "Eu, Clara, indigna serva de Cristo e das irmãs pobres de São Damião e plantazinha do santo Pai, considerando com as outras minhas irmãs a sublimidade da nossa profissão e o mandato de tão grande Pai, e ao mesmo tempo a fragilidade das nossas irmãs – fragilidade que nós mesmas temíamos depois da morte do nosso Pai Francisco que, depois de Deus, era a nossa coluna, a nossa única consolação e fortaleza…" (TCL 37-38). Olhando para além do seu tempo, Clara exorta "a que, depois da minha morte… " Na verdade, morta ela, a influência da sua santidade e dos seus ensinamentos jamais se extinguiria. Como transparecendo luminosamente de um véu, o seu magistério continua a inspirar e a renovar a fidelidade ao abraço de Cristo pobre. "Frequentemente renovamos a nossa adesão voluntária à nossa senhora, a santíssima pobreza, a fim de que, depois da minha morte, as irmãs, tanto as presentes como as futuras, de nenhum modo delas se apartem" (TCL 39). "E se acontecesse terem as referidas irmãs de deixar este lugar para se mudarem para outro, sintam-se mesmo assim obrigadas a guardar depois da minha morte, onde quer que se encontrem, a sobredita pobreza que a Deus prometemos e a nosso Pai Francisco" (TCL 52). As irmãs presentes e as que vierem na sucessão dos tempos… Todas as irmãs… em toda a parte…, quer se mantenham num mesmo lugar ou se transfiram para outro… Sempre e em toda a parte hão-de permanecer abraçadas à Pobreza, a exemplo do Filho de Deus, segundo a forma do Evangelho que a Igreja aprovou para Francisco e Clara.. Na vida e na morte:.. 26 "Esta é a excelência da altíssima pobreza que a vós, minhas, irmãs caríssimas, vos constituiu herdeiras e rainhas do Reino dos Céus, fez-vos pobres das coisas temporais e enobreceu-vos de virtudes. Apegai-vos bem a ela, minhas queridas irmãs, e nenhuma outra coisa, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Santíssima Mãe, jamais queirais ter debaixo do céu" (RCL VIII,4-6). Abraçai-vos a Cristo pela altíssima pobreza que vos torna herdeiros de Deus como filhos, co-herdeiros com Cristo como irmãos e esposas. Reserva para vós uma habitação nas moradas eternas e ofereceu amizade de gente de tão bom trato, como é os santos em sua glória. Clara conjura em nome daquele Jesus, ante cujo poder e soberania se dobram todos os joelhos no céu, na terra e nos abismos… Nada há mais poderoso do que a humildade e a pobreza do Filho de Deus, conquanto não seja fácil anunciá-las a uma sociedade que aposta no bem-estar e na cultura do lazer. Nada há mais apetecível do que a mansidão, fortaleza no meio da insegurança propiciada pela violência. Para que apetecer outras riquezas? "O que se propõe e proclama em todo o orbe não é Cristo ostentando poder terreno, nem um Cristo opulento de riquezas terrenas, ou um Cristo resplandecente de felicidade terrena, mas um Cristo crucificado. Dele escarneceram povos soberbos e o mesmo continuam a fazer os que ainda hoje lhes pagam a herança. Porque quando se pregou a Cristo crucificado para que nele cressem uns quantos ante a irrisão dos povos, os coxos andavam, os mudos falavam, os cegos viam e os mortos voltavam à vida. Assim, finalmente, a soberba terrena pôde dar-se conta de não haver nada mais poderoso do que a humildade divina. E desse modo a salubérrima humildade humana pôde defender-se, por obra e graça da divina imitação"4. ————— 4 Santo Agostinho, Carta 236-6, Madrid 1944, BAC 99-b, 398. 27 4. CLARA ABENÇOA. ―DEPOIS DA MINHA MORTE…‖ Já prestes a morrer, a Senhora Pobre avançava no tempo antes de sair do tempo. Mãe e fundadora, dispõe-se a deixar a sua bênção. Com essa bênção deseja repartir todo o bem alcançado em favor de todos os seus devotos e filhas. Mais, teve em mente não apenas as que então estavam com ela como as que viriam depois. "Eu, Clara, serva de Cristo e plantazinha do nosso pai São Francisco, irmã e mãe vossa e de todas as irmãs pobres, ainda que indigna… vos abençoo durante a minha vida e depois da minha morte, quanto posso e mais do que posso, com todas as bênçãos que o Pai das misericórdiasconcedeu ou venha a conceder aos seus filhos e filhas espirituais…" (BCL 6.11-12). Clara promete uma bênção que continuará actuante depois da sua morte. Por isso ela diz abençoar "quanto pode e mais do que pode". Na verdade, lega-nos uma bênção de tão longo alcance que ainda hoje, no século XXI, envolve todos os seus devotos e não apenas os seus filhos e filhas. Tão é isto uma confissão de fé na vida bem-aventurada, na comunhão dos santos? Se alguma dúvida nos restasse sobre tão ardente fé, que se move no eixo que une misticamente os três estratos da Igreja, atentemos em como ela associa e compromete na mesma causa, na mesma bênção, todos os santos e santas. CONCLUSÃO Fascinada pela pobreza, mansidão e doçura do Filho de Deus na vida e na morte, Clara já não busca mais espelhos nem outros pensamentos a respeito da irmã morte senão os de "morrer com Ele para com Ele reinar". Nem outra coisa sabe recomendar para além da fidelidade à imitação da humildade e pobreza do Filho de Deus "até ao fim". Esta a lição para a vida: "Abraçar a Cristo pobre como virgem pobre." Esta a lição para a morte: "Se com Ele morrermos com Ele reinaremos." Se virmos as palavras de Clara à luz das que ela própria escreveu a sua irmã Inês: "É do agrado de Deus que eu parta…"; se, mais ainda, nos lembrarmos as suas últimas palavras: "Obrigado, Senhor, por me terdes criado…‖ por terdes tratado de mim com a ternura duma mãe para com o 28 seu filhinho…, melhor veremos a unidade rectilínea de toda uma vida em que o passamento deste mundo é algo natural, previsto e ditoso. Ela sabe que, um dia, Deus a chamou pelo nome, sabe que foi criada com inefável amor durante toda a vida – uma vida que, segundo o nosso cômputo, terá totalizado 59 anos e oito meses – e que sempre caminhou com os olhos postos no Filho de Deus. Agora, a morte era como que o chamamento do divino Amante, ansioso por levá-la nos braços ao banquete das núpcias eternas. "É do agrado de Deus que eu me vá". O mesmo amor que a criou e a santificou vem buscá-la para lhe dar a plenitude do gozo, do amor e da doçura. Os olhos de Clara fecharam-se. Silenciou a água, emudeceu o vento, o fogo acolheu-se debaixo das cinzas, a mãe terra abriu-lhe os braços. As estrelas correram o véu e ela desferiu voo para além do sol e da lua a fim de reinar para sempre. "Clara morreu rodeada pelas irmãs, pelos primeiros companheiros de Francisco e seus também, na morada onde sempre vivera. Morreu como uma rainha, ou antes, como a jovem esposa que recebe da rainha-mãe o dote desde sempre preparado para com ela reinar"5. Clara ensina a arte de morrer com a serenidade e a doçura infinita de Deus. Clara ensina-nos a arte de morrer na infinita serenidade e doçura de Deus. ————— 5 Bartoli, M., Clara de Asís, Oñate 1992, Ed. Franciscana, p. 265. 29 CLARA, CO-FUNDADORA DO FRANCISCANISMO Fr. Isidro Lamelas, ofm* ————— * Palestra pronunciada a 25 de Junho de 2004, no Mosteiro de S. José, Vila das Aves 31 CLARA, CO-FUNDADORA DO FRANCISCANISMO ―Por detrás de um grande homem está sempre uma grande mulher‖. Se a sentença foi usada no passado e, em muitos casos, confirmada pelos factos, ela é hoje menos aceite pela sua carga de preconceito… Porque há-de a mulher estar ―atrás‖? perguntam as mentes emancipadas dos nossos dias. Mas talvez já noutros tempos não fosse bem assim. Pelo menos não o é no caso de Clara e Francisco. Primeiro, porque Francisco não se assume como ―um grande homem‖, mas o ―menor e mais miserável dos homens‖, depois porque Clara não merece permanecer ―detrás‖ ou sob a sombra de Francisco, como sucedeu em tempos passados (ou sucede ainda?). Bastará recordar que só no século XX os seus escritos foram recuperados e estudados: como foi possível esconder uma tal luz sob o alqueire? E, no entanto, a riqueza do carisma franciscano só será plenamente abrangido se colocarmos Francisco e Clara não um atrás ou à frente do outro, mas lado a lado ou no coração um do outro, pois ambos são parte e, com Deus, o todo de uma mesma e única aventura. Tal aventura nada tem a ver com as cores românticas com que o vulgo frequentemente pinta a relação entre os dois jovens de Assis. O movimento franciscano a que deram origem e continua vivo só se explica pelos alicerces bem mais profundos sobre os quais assenta. Sabemos que a vocação e o caminho de Clara nasceram e amadureceram na escuta de Francisco e na frequência da fraternidade minorítica primitiva. Mas quantos outros e outras não escutaram Francisco? Porém, só Clara soube, como ninguém, ler no coração do Poverello e conhecer exactamente a sua vontade em relação aos irmãos menores assim como relativamente às Damas pobres de S. Damião. Clara é, sem dúvida, o espelho ou o reflexo mais lúcido do mundo interior de Francisco. Isso sucede porque 32 ela encontrou em Francisco algo que procurava, e alcançou porque buscava, isto é, tinha inquietudes e, por isso, encontrou o seu tesouro. Não sabemos ao certo de quem partiu a iniciativa do primeiro encontro: de Francisco ou de Clara? Ou do Espírito? O que sabemos é que, paulatinamente, a relação entre Clara e Francisco é patenteada em dois movimentos aparentemente contraditórios: de um lado o grande desejo de Clara de ver frequentemente Francisco; por outro lado, o progressivo distanciamento físico de Francisco que evita cada vez mais encontrar-se com as suas ―Damas‖, sem, no entanto, alguma vez as abandonar (cf. 2C 204): ―Quando as virgens de Cristo, vindas de todas as partes do mundo, se lançavam numa vida de alta perfeição… foi-se o pai furtando pouco e pouco a visitá-las, não, todavia, sem redobrar de solicitude ao amá-las ainda mais no Espírito… Efectivamente… prometeu-lhes firmemente, a elas e às que viessem a professar o mesmo teor de vida pobre, o seu indefectível apoio e o dos irmãos. Enquanto viveu, manteve, sempre escrupulosamente esta promessa, e, prestes a morrer, recomendou encarecidamente aos irmãos que tivessem por elas as mesmas atenções, porquanto, dizia ele, um só e mesmo espírito levou os irmãos e as senhoras pobres a deixarem o mundo” (2C 204). Por sua vez, S. Clara, no seu Testamento, afirma: ―Recomendo as minhas irmãs presentes e futuras ao sucessor do nosso bem-aventurado Pai Francisco e a toda a Ordem, para que nos ajudem a progredir no serviço de Deus e a observar cada vez melhor sobretudo a santíssima pobreza‖ (TCL 50-51). E, na sua Regra, ―Clara e suas irmãs prometem obediência ao bem-aventurado Francisco, da mesma maneira promete obediência inviolável aos seus sucessores‖ (1,4). Em flagrante contradição com a Regra não bulada (12,1.3), Clara e suas irmãs assumem, ―livremente‖ (Regra 6,1) a obediência a Francisco e seus sucessores. Como vemos, há uma sintonia perfeita nas palavras e no comportamento. O ―amor espiritual‖ de que fala Francisco é muito mais real que qualquer outro amor, por que não é possessivo, não atrofia, não infantiliza, mas faz crescer ou ―progredir‖, como anseia Clara. Por isso, segura que estava que este era também o desejo de Francisco, tudo fará para que os frades continuem a exercer o ministério pastoral em S. Damião. E teve de lutar tenazmente para que entre as duas Ordens se mantivesse a relação mútua querida por ela como por Francisco: isto é, para que entre ambas se mantivesse a comunicação espiritual que germinou entre Francisco e Clara. 33 O verbo ―germinar‖ não vem ao acaso. A própria Mãe Clara se auto-assume como ―plantazinha‖ de S. Francisco. Que significa este diminutivo? Dependência e subserviência? De modo nenhum. Uma planta, por pequena que seja, tem vida própria e não é a dimensão que garante a beleza das flores ou a qualidade dos frutos. ―Plantinha‖ de Francisco, porque muito próxima e alimentada da mesma seiva, mas com uma vida própria, com um vigor próprio e original. A ―pequena planta‖ não é mais que uma ―muda‖, isto é, um rebento que brota da seiva comum da planta matriz. Mas, uma vez despontado, este rebento cresce por conta própria, permanecendo fiel à planta-mãe. Compreende-se que toda a planta necessita de um ―plantador‖, mas depois, torna-se autónoma, sem deixar de necessitar dos cuidados daquele. O plantador e o jardineiro é Francisco, mas foi Clara que cresceu e, à sua volta fez-se jardim. Ela aparece-nos, por isso, tão viva e tão pujante como Francisco. A metáfora da ―planta‖ traduz, pois, bastante adequadamente o vínculo entre Francisco e Clara, entre a primeira e a segunda Ordem: as irmãs clarissas são franciscanas e não beneditinas; mas exprime igualmente a identidade e as possibilidades de desenvolvimento próprios de cada uma. Clara e sua Ordem são outra árvore que mergulha as suas raízes no mesmo solo que Francisco e produz, por isso, flores semelhantes e frutos próprios. Por isso, podemos e devemos afirmar que Clara é tão mãe da Família Franciscana quanto é Francisco seu pai. Os fundamentos da sua espiritualidade são comuns aos de Francisco (Jesus Crucificado, pobreza, contemplação, fraternidade), porém, Clara nunca copia, mas recria. Quer seguir à risca o exemplo de Francisco, porém, a sua imitação não é mimética mas criativa e marcada pela exuberância da sua experiência feminina de Deus. Clara e Francisco dificilmente seriam o que são um sem o outro, mas são irredutíveis um ao outro. Clara e Francisco iluminam-se e completam-se, portanto, mutuamente. E se na génese da vocação de Clara foi determinante o testemunho de Francisco, no discernimento e na consolidação do posterior carisma franciscano é difícil avaliar de onde veio o maior contributo1. Mas não nos preocupemos com tais comparações, pois não serão os pedestais por nós construídos que diferenciarão a sua equidistância do Sol Altíssimo. ————— 1 A sua figura como mãe do franciscanismo emerge sobretudo nos 27 anos que viveu após a morte de Francisco. 34 Um dos testemunhos do processo de canonização de S. Clara narra que, tendo certo frade da Ordem dos Frades Menores, de nome Estêvão, ficado doente, S. Francisco o enviou ao mosteiro de S. Damião, para que Clara fizesse sobre ele o sinal da cruz. Uma vez cumprido este desejo, o referido frade dormiu um pouco sobre o mesmo lugar onde Clara costumava rezar. Quando acordou, estava curado. Comeu qualquer coisa e regressou ao seu convento‖2. Este episódio, confirmado por outras fontes, ilustra bem o clima de proximidade e colaboração que, por querer do próprio Francisco, vigorava entra as duas ordens. Francisco confia a Clara a cura de um irmão, porque está certo da ―força‖ de que Clara é dotada. Por outro lado, Clara e suas irmãs não poupam meios espirituais e materiais para ajudar este irmão enfermo em hora de dificuldades. Depois da morte de Francisco, Clara continuou, durante os 27 anos de vida que lhe restaram, fiel ao primitivo ideal de Francisco, nomeadamente no que se refere às relações com a primeira Ordem. Não por acaso os mais íntimos confidentes de Francisco serão também os confidentes de Clara (cf. LCL 45). Tendo presente que estes primeiros anos do movimento franciscano foram marcados por ventos e marés tempestuosos, Clara não se deixou ficar como espectadora alheia ao que ia sucedendo com o movimento religioso iniciado por Francisco. Na vida do beato Egídio conta-se que, em determinado dia, um douto frade foi enviado a pregar a S. Damião. Enquanto este falava, frei Egídio interrompeu-o, tomando a palavra em sua vez para pregar às sorores. O referido frade muito mais douto, acedeu humildemente a tal intromissão. O que levou Clara a exclamar: ―pareceu-me ter visto o próprio Francisco‖3. Este episódio mostra, por um lado, que Clara continua a assegurar às suas irmãs a partilha do pão da palavra, recorrendo aos frades mais doutos; por outro lado, a presença de frei Egídio em S. Damião, dá a entender que era comum que a referida pregação fosse escutada juntamente pelos irmãos e as irmãs. Por outro lado, como o mesmo episódio parece mostrar, Clara, S. Damião e suas irmãs continuam a ser o garante da conservação da memória de Francisco e do franciscanismo. Como afirma Fr. Giacomo Bini, ―Francisco constitui o momento inspiracional da comum vocação; Clara, na sua fidelidade, garante a continuação do primitivo projecto de vida de Francisco. Da clausura de S. Damião, ela e ————— 2 ProcC 2,15. 3 Dicta B. Aegidii, 73. 35 suas irmãs sustentam e animam os seguidores da forma de vida franciscana‖4 Tomás de Celano, ao escrever em 1228, a primeira biografia de S. Francisco, já se refere a Clara como ―pedra preciosa e inabalável, alicerce para as outras pedras que se haviam de sobrepor‖ (1C 18,29). A força expressiva da metáfora arquitectónica reaparece num outro passo em que Celano se refere às origens do ―edifício espiritual‖ que Francisco e Clara erigiram a partir de S. Damião: ―Depois da restauração material da Igreja de S. Damião, um edifício espiritual muito mais precioso ia ser erguido pelo Pai naquele mesmo lugar, sob a conduta do Espírito Santo… como já anteriormente o Espírito Santo havia predito, devia ali ser fundada uma Ordem de santas virgens, as quais, como reserva de pedras vivas e trabalhadas, serviriam a seu tempo para a restauração da casa do céu” (2C 204). Francisco viu em S. Damião o símbolo e a realidade, o alicerce e o edifício a construir. E Clara é a pedra angular desse edifício que, sem ela, ficaria mais pobre e mais frágil. Na verdade, ela conferiu ao edifício franciscano o traço artístico e a profundidade que distingue as obras de arte que Deus planeou. Enquanto o jovem Francisco incorreu na tentação de permanecer em S. Damião, preso à sua tarefa de ―reconstrução‖, Clara guia-o para a novidade e as alturas de uma Igreja espiritual e interior. Ela é, na Igreja, a primeira mulher fundadora: deu origem a uma Ordem religiosa, deu-lhe uma espiritualidade e redigiu-lhe uma Regra, a primeira saída das mãos de uma mulher. Podemos, por isso, dizer que é ela a primeira a realizar e a mostrar o sentido do mandato: repara a minha Igreja. E, como continua Celano, ―um nobre edifício de pérolas preciosas emerge sobre ela‖ (1C 19). Em Clara a utopia de Francisco fez-se clarividente e realidade. Ela não é, pois, a sombra mas a luz de Francisco. Ambos são dotados de uma energia e personalidade fortes, mas une-os o mesmo espírito, o mesmo ideal e radicalidade, o mesmo projecto evangélico. Dois apaixonados pela vida, e uma mesma paixão: seguir Cristo pobre e humilde; duas almas inconfundíveis, mas uma mesma vocação: restaurar a casa de Deus. Clara é o incenso que o fogo brotado de Francisco transformou em perfume irradiante. Clara assume plenamente as consequências da sua aliança esponsal, a qual implica a total comunhão de bens. Narra a Legenda que, num momento de carência maior, Clara partiu a meio o único pão que restava no ————— 4 Fr. GIACOMO BINI, Clara de Assis, um hino de louvor, II. 36 mosteiro, enviando uma das partes aos filhos de Francisco. Este gesto da partilha do pouco pão que resta exprime bem o vínculo de comunhão na pobreza que une ambas as ordens (LCL 15). Mas explica também o milagre da multiplicação de tantos bens que Deus opera em ambas. Por isso reagirá com surpreendente firmeza quando algo ou alguém põe em causa a comunhão espiritual e o cerne do carisma franciscano, e tudo fará para salvaguardar as boas relações com os irmãos da primeira Ordem. Recordemos apenas um conhecido episódio: ―Uma vez, quando o papa Gregório [IX] proibiu qualquer frade de ir sem sua licença aos mosteiros das Senhoras. A piedosa madre, doendo-se porque ia ser mais raro para os Irmãos o manjar da doutrina sagrada, lamentou: ‗Tire-nos também os outros frades, já que nos privou dos que nos davam o alimento da vida‖. E, na mesma hora, devolveu aos ministros todos os irmãos esmoleres‖ (LCL 37). Clara ameaça recorrer à ―greve de fome‖, caso o papa promova a separação das duas ordens. O que levou o papa a retirar imediatamente a proibição, entregando o caso ao Ministro geral. Por estas e por outras, Paul Sabatier pode retratar Clara como ―uma mulher que durante todo um quarto de século susteve uma luta de todos os dias, mantendo-se ao mesmo tempo respeitosa e inquebrantável‖. ―Ninguém me ensinou o que devia fazer‖. A mesma firmeza de Francisco, expressa nestas palavras, aparece também na atitude de Clara. Tal atitude não manifesta qualquer tipo de arrogância ou sede de protagonismo, mas a plena confiança na iniciativa do Altíssimo De facto, tudo fez para evitar as intromissões inconvenientes dos senhores feudais e dos bispos, e, quando lhe foi ―imposta‖ a Regra de S. Bento, Clara tudo fez para permanecer fiel ao ideal de Francisco e para ter como único privilégio viver sem privilégios (―Privilégio da Pobreza). Em contrapartida, conhecendo ―por dentro‖ e envolvendo-se totalmente no mesmo projecto evangélico de Francisco, Clara revelou sempre um particular empenho em manter e incrementar a comunhão com os irmãos: – Conservando e exortando à fidelidade, à memória e vontades de Francisco, explicitamente evocadas na sua Regra (cap. 6) e no seu Testamento (2, 3, 4-5, 7, 8-15, 17, 22, 23), assumindo para si e suas irmãs a paternidade espiritual de Francisco (TCL 22); – No seu Testamento encomenda suas irmãs ao cuidado da Igreja e dos irmãos menores; 37 – Na sua Regra pede explicitamente quatro irmãos menores para o serviço do mosteiro: um capelão, um clérigo de boa fama, e dois irmãos leigos: Pedimos à Ordem dos Frades Menores, pelo amor de Deus e o bem-aventurado Pai S. Francisco, que nos faculte sempre esta graça até agora nunca regateada‖ (12,5). – Toda a história das duas ordens mostram como este matrimónio feliz entre ambas perdurará: desde S. António de Lisboa que cuidará das irmãs pobres de Arcella até aos nossos dias. O caminho percorrido por Clara no sentido de preservar seu carisma será árduo como o de Francisco. Passou por momentos e situações difíceis e combates que se prolongaram até à sua morte. Dificuldades que se prolongarão ao longo dos séculos, até aos nossos dias. Tais lutas nasceram sempre, porém, de uma exigência de radicalidade e fidelidade ao Evangelho e a Francisco. E, por isso, cabe-nos a nós hoje e aqui procurar, sem medo de ―ir à luta‖, a mesma fidelidade, para sermos mais evangélicos e mais sal e luz do mundo. ―Clara morreu vitoriosa, não contra alguém, contra Gregório IX ou contra Inocêncio IV, ou contra a autoridade, mas vitoriosa consigo e com eles. São dois os elementos que fazem tão original o catolicismo de S. Francisco e S. Clara: a submissão em liberdade, e a liberdade na submissão‖ (P. Sabatier). Submissão à Igreja e a Francisco, porque via em ambos a fonte da sua própria liberdade e neste último o exemplo acabado daquilo que ela mesma procurava viver de modo autónomo e responsável. Ela é, por isso, com Francisco, fundadora e mestra da nossa comum espiritualidade. Ela é fundamental para toda a família franciscana, e para o nosso mundo. As nossas irmãs clarissas são as guardadoras deste tesouro de precioso valor para a nossa família religiosa. Com e como Clara e Francisco cabe-nos hoje a nós incrementar a comunhão espiritual e fraterna e a permuta do ―pão espiritual‖ que nos faz crescer como franciscanos e como Igreja. Aprendamos com os nossos fundadores a transformar o tempo em templo e as clausuras e os conventos em viveiros de liberdade e crescimento humano, espiritual. E que Clara e Francisco nos ajudem a ser fiéis ao carisma que eles plantaram e, por eles, Deus fez crescer e multiplicar-se até nós. 38 SER FRANCISCANOS E FRANCISCANAS HOJE *Fr. José Rodríguez Carballo, ofm Ministro Geral* ————— * Palestra dirigida à Ordem Franciscana Secular, pelo Ministro Geral, aquando da sua visita a Portugal, Março de 2004. 39 SER FRANCISCANOS E FRANCISCANAS HOJE Queridos Irmãos e Irmãs Alegra-me muito estar convosco. Saúdo-vos cordialmente a todos, queridos Ministros provinciais e queridos irmãos e irmãs da Família Franciscana. O Senhor vos dê a sua paz! Nestes dias em que não cessam de chegar-nos notícias de combates e de morte, em que o Santo Padre, perante a violência dos poderosos das nações, convida todos a construir pontes em vez de muros, em que se eleva a voz dos povos pedindo a paz, constantemente negada, sentimo-nos chamados a oferecer, uma vez mais, aos irmãos e irmãs do nosso tempo a saudação de paz que o Senhor revelou a São Francisco. Esta saudação nos seus lábios não continha nenhuma retórica, pois comunicava aos irmãos o dom da paz que havia recebido pessoalmente de Deus e que ele mesmo vivia na sua vida. O nosso desejo é que se possa dizer o mesmo de nós, franciscanos do terceiro milénio. Com efeito, também nós, quando saudamos desejando a paz, queremos fazê-lo sobretudo como homens e mulheres que encontraram a verdadeira paz no encontro com o Ressuscitado e nos passos de São Francisco e de Santa Clara, e desejam dá-la aos seus irmãos; gostaríamos que todas as nossas acções e os nossos gestos se convertessem em anúncio da salvação que encontrámos, em anúncio da verdadeira paz. De facto, sabemos, como nos recordava João Paulo II, que ―os homens do nosso tempo, talvez nem sempre conscientemente, pedem aos crentes de hoje não apenas que nos falem de Cristo, mas de certo modo que no-lo façam ―ver‖ […]. O nosso testemunho seria por outro lado imensamente deficiente se não fôssemos os primeiros a contemplar o seu rosto‖ (Novo Millennio ineunte 16). 40 HOMENS E MULHERES DE CONTEMPLAÇÃO Para sermos verdadeiros anunciadores e portadores de paz é, pois, indispensável partir da dimensão contemplativa da nossa vida. Só mantendo-nos numa relação vital com o Senhor teremos olhos novos para ler a história que vivemos e estar significativamente presentes nela. Assim, perante as mudanças cada vez mais rápidas da sociedade e do mundo, os nossos esforços apontarão exactamente para a elaboração de novos projectos que expressem o sentido da nossa presença. Mas não podemos esquecer que este sentido nos é dado na relação com Deus e que sem Ele todo o projecto será estéril. Por isso, é cada vez mais urgente o chamamento de São Francisco a todos os franciscanos e franciscanas para que, ―removido todo o impedimento e posto de parte todo o cuidado e solicitude, do melhor modo que possam, trabalhem por servir, amar, adorar e honrar ao Senhor Deus com um coração limpo e espírito puro‖ (1R 22, 26). O que primeiramente nos deveria caracterizar como homens e mulheres no seguimento de Cristo pelo caminho traçado por Francisco e por Clara deveria ser precisamente ter o olhar constantemente voltado para o Senhor, ou, dito com palavras de São Francisco, ―ter o Espírito do Senhor e a sua santa operação‖ (2R 10, 9). Manter este único ponto de referência significa alcançar a unidade na própria vida e, portanto, viver reconciliados consigo mesmos e com os outros. É talvez o maior sinal profético que podemos oferecer hoje aos nossos irmãos. Mas para isso, temos que nos converter continuamente para que Jesus Cristo seja verdadeiramente o centro da nossa vida e da vida da nossa fraternidade. Assim, a nossa vida poderá ―converter-se em anúncio de um modo de viver alternativo ao do mundo e da cultura dominante‖, pois ―com seu estilo de vida e a busca do Absoluto [a vida consagrada] quase insinua uma terapia espiritual para os males do nosso tempo‖ (Partir de Cristo [PC] 6a). Poderemos falar de renovação da nossa vida e da nossa presença se estamos dispostos e na medida em que estivermos dispostos a acolher a Palavra e a Eucaristia ―com um coração limpo e espírito puro‖, a convertê-las no eixo central das nossas actividades, a fazer crescer as nossas fraternidades a partir do intercâmbio e da participação destas riquezas inesgotáveis. Como sabemos, tudo isto requer de nós uma grande disposição para nos pormos seriamente a avaliar o tempo pessoal e comunitário que dedicamos, tanto quantitativa como qualitativamente, à vida com Deus, pois ―é 41 necessário aderir cada vez mais a Cristo, centro da vida consagrada, e voltar a percorrer um caminho de conversão e de renovação que, como na experiência inicial dos Apóstolos, antes e depois da sua ressurreição, seja um recomeçar a partir de Cristo” (PC 21a). Só recomeçando a partir de Cristo a nossa vida poderá ser verdadeiramente um cântico que dá glória a Deus no alto do Céu e paz na terra aos homens que Ele ama (cfr. Lc 2, 14). HOMENS E MULHERES QUE VIVEM A FRATERNIDADE NO DIÁLOGO Vivendo neste diálogo com Cristo, Palavra de Deus vivo, abre-se ao ser humano a possibilidade de um verdadeiro diálogo com os irmãos. Efectivamente, na relação com a Palavra feita carne aprendemos a conhecer o amor de Deus aos seus filhos e a todas as criaturas, e, portanto, a entrar em diálogo com elas a partir desse amor e não simplesmente de nós mesmos. Nesta nova relação, que abarca todos os aspectos da pessoa e toda a realidade que a rodeia, o que era amargo pode tornar-se verdadeiramente em doçura de alma e corpo (cfr. T 3). Re-criados à imagem de Cristo Jesus, Ele ―que é de condição divina, não considerou como uma usurpação ser igual a Deus; no entanto esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo‖ (Fl 2, 6s), também nós queremos despojar-nos de nós mesmos e ir ao encontro dos homens e acolhê-los com o mesmo amor e respeito com que Cristo nos acolheu. Abraçar o outro na sua pobreza, respeitando a sua alteridade, viver com ele a experiência de sermos irmãos e irmãs significa romper as barreiras do egoísmo e do individualismo que, talvez hoje mais do que nunca, são a causa dos males da sociedade. Para fomentar esta mudança, temos que partir da nossa experiência quotidiana, das nossas fraternidades, pois, como ensina o Senhor ―todos conhecerão que sois meus discípulos se vos amardes uns aos outros‖ (Jo 13, 35). Por isso é indispensável comprometer-se a que nas fraternidades se criem as condições para viver o que prometemos e se dediquem tempos à programação e à avaliação comunitária do caminho que se está a percorrer em comum. Neste sentido, as nossas fraternidades podem chegar a ser verdadeiras escolas nas quais se aprende e se ensina a viver o despojamento de si mesmo para dar espaço à vida do irmão na nossa própria vida, do mesmo modo que a mãe está disposta a renunciar às suas próprias necessidades 42 para satisfazer as do filho, realizando assim a sua maternidade (cfr. 2R 6, 8-10). A forma de vida franciscana converte-se então, para o mundo de hoje, num desafio para substituir toda a forma de domínio e de exploração do outro, cujo fim são a afirmação pessoal, pela escuta e o acolhimento que se exprimem no serviço e na participação dos bens e cujo fim é a promoção da justiça e da paz. Abrir-se ao diálogo significa não se refugiar em posições consideradas adquiridas de uma vez para sempre, mas estar abertos e disponíveis, conscientes de que o outro não é um inimigo de quem temos de nos defender ou a quem derrotar, mas alguém que, como nós, é portador de verdade, pois Deus manifesta-se em todo o irmão e irmã. Na escola de Francisco e de Clara de Assis, queremos aprender a escutar o outro, ―pois muitas vezes o Senhor revela à que é menor o que é mais conveniente‖ (RCL 4, 18), e a falar com ele como fez Francisco com o Sultão, que ―intensamente comovido pelas suas palavras o escutava com grande prazer‖ (1C 57b). HOMENS E MULHERES QUE QUEREM VIVER NOS LUGARES DE FRACTURA Sem dúvida alguma, semelhante itinerário é difícil de percorrer, pois é contrário às lógicas que parecem prevalecer hoje e que, por isso, não são totalmente alheias nem sequer à nossa própria vida, à vida das nossas fraternidades e da nossa actividade pastoral. Numa sociedade que parece ter perdido a referência aos valores de que surgiu, vemos impor-se um mercado que, com frequência carente de regras, não faz senão aumentar as diferenças entre ricos e pobres, perseguindo como único fim o crescimento incessante dos que dominam este sistema sem se preocupar com os meios utilizados nem com as consequências que produz. O uso da força e da violência são justificados como instrumentos a que é lícito recorrer para garantir a convivência pacífica entre os povos e as pessoas. Espezinham-se os direitos dos mais pobres e dos mais débeis e sente-se a necessidade de afirmar a própria identidade negando a do outro. Renasce o mito da própria superioridade e com ele a ilusão de não estar ao serviço da verdade, mas de possuí-la. Enfim, subordina-se tudo ao engano da própria e imediata afirmação e realização. Contra esta lógica, negação de todo o diálogo, como seguidores de Francisco e de Clara que encontraram a felicidade no encontro com o outro 43 e não na sua negação, não queremos fechar os olhos a estas realidades de pecado, mas assumi-las e vivê-las com aqueles que as sofrem, repetindo uma vez mais que nos sentimos felizes quando convivemos com gente de baixa condição e desprezada, com os pobres e os débeis, com os enfermos e leprosos, e com os mendigos dos caminhos (cfr. 1R 9, 2). Esta é a tarefa que a Igreja confiou às comunidades de vida consagrada: ―fomentar a espiritualidade de comunhão, antes de mais no seu interior e também na própria comunidade eclesial e para além das suas fronteiras, iniciando ou restabelecendo constantemente o diálogo da caridade, sobretudo onde o mundo de hoje está dilacerado pelo ódio étnico ou por loucuras homicidas‖ (Vita Consecrata [VC] 51a). Seguindo a voz do Espírito que guia os nossos passos, queremos começar por nós mesmos, a partir da nossa realidade de cada dia, vivendo nela não apenas uma convivência entre pessoas diferentes pela sua idade e cultura, mas dando testemunho de que se pode viver a reconciliação aceitando precisamente o valor de tais diferenças em vez de as eliminar. Ao mesmo tempo, desejamos privilegiar a nossa presença nos lugares onde aparecem mais dramaticamente as feridas provocadas pelo pecado do mundo e ser aí testemunhas da misericórdia e profetas da esperança. HOMENS E MULHERES TESTEMUNHAS DA ESPERANÇA Com santa Clara confessamos que no encontro com o Salvador nos foi revelado o ―Pai das misericórdias‖ (2Cor 1, 3), a quem queremos dar graças com toda a nossa vida (cfr. TCL). A experiência de que Deus se fez misericórdia em Jesus nos impulsiona a olhar o homem com olhos diferentes sobretudo quando está ferido na sua dignidade. O primeiro e principal gesto de misericórdia, como nos ensina a parábola do ―Pai misericordioso‖ (cfr. Lc 15, 11-32), consiste em devolver a dignidade à pessoa. Esta é sem dúvida a perspectiva de São Francisco na sua Carta a um Ministro, na qual concebe o exercício da autoridade como um serviço de misericórdia: ―E é desta forma que eu quero ver se amas o Senhor e a mim, seu servo e teu, se procederes assim: Que não haja no mundo nenhum irmão que por muito que tenha pecado e venha ao encontro do teu olhar a pedir misericórdia, se vá de ti sem o teu perdão. E se não vier pedir misericórdia, pergunta-lhe tu se a quer. E se, depois, mil outras vezes vier ainda à tua presença para o mesmo, ama-o mais que a mim, a fim de o trazeres ao Senhor. E que sempre te enchas de compaixão por esses desgraçados‖ (CM 9-11). 44 O dom da misericórdia consiste, portanto, no amor que atrai os homens para o Senhor. Um dom que não devemos oferecer só quando nos pedem, pelo contrário, devemos adiantar-nos a oferecê-lo a quem dele precise. Neste sentido, a misericórdia é uma atitude vital, um modo de ser entre e com os outros, mais do que uma acção que se deva realizar em determinadas circunstâncias. E fomos chamados a ser testemunhas da misericórdia num mundo que tende a opor-se à misericórdia e a considerá-la supérflua. Se a lógica vencedora é a do domínio e do controlo da natureza, das nações e das pessoas, parece não haver espaço para a misericórdia (cfr. Dives in Misericordia 2), que seria a atitude do débil e do perdedor, a atitude de quem renuncia a impor o seu direito sobre o outro para lhe devolver a dignidade perdida ou negada. Certamente estar com estas pessoas ou do seu lado significa decidir-se entre duas alternativas e ter a valentia de se comprometer, como fez São Francisco, que levou a todos a misericórdia de Deus Pai e não teve medo da crítica dos seus concidadãos quando abraçou o leproso nem dos seus irmãos quando levou comida aos ladrões de Monte Casale, nem dos cidadãos de Gúbio quando foi à procura do ―lobo‖ para o levar a viver na cidade. Quem foi tocado pela misericórdia de Deus sabe muito bem que ela é a única capaz de romper as barreiras dos corações mais endurecidos para reconduzir o homem ao seu criador. Esta é a nossa esperança! HOMENS E MULHERES GUARDIÃES E PROFETAS DA ESPERANÇA Diante do mal presente no nosso tempo, nós, os franciscanos, temos de ser necessariamente homens de esperança, pois nos nossos corações ressoa a palavra do Ressuscitado: ―Não tenhais medo […] Eu estou convosco todos os dias até ao fim do mundo‖ (Mt 28, 10.20). Como repetiu João Paulo II: ―Cristo é a nossa esperança‖ (Ecclesia in Europa [EiE] 19), uma esperança que rasga os limitados horizontes humanos e que é a única que pode saciar a sede de felicidade do ser humano. Firmes nesta esperança, captamos por entre as densas sombras que nos rodeiam os numerosos sinais de renovação que nos permitem continuar a olhar com confiança o futuro que nos espera. Juntamente com a busca do proveito exclusivamente individual e até em prejuízo dos interesses dos outros, cresce a consciência duma solidariedade que considera o outro não 45 apenas como alguém a quem se deve ajudar, mas como um companheiro de caminho. Juntamente com a violência como único instrumento para fazer respeitar o direito, cresce cada vez mais a consciência de que nunca se poderá alcançar a paz se não se garante ao mesmo tempo a justiça. Juntamente com a soberba de uma humanidade que se sente dona indiscutível da natureza, aumenta a sensibilidade perante o meio ambiente, o respeito por ele e a consciência de formar parte dele. Juntamente com o uso massificado e passivo dos meios de comunicação, aumenta o desejo de formas de expressão que dêem espaço à criatividade e à imaginação pessoal. Portanto, a nossa tarefa deve ser a de homens e mulheres que, tendo em Cristo uma esperança que não pode defraudar, sabem indicar aos seus irmãos e irmãs as luzes que guiam até ao Salvador. Portanto, devemos saber ler os sinais dos tempos em diálogo contínuo com a Palavra de Deus, pois ―a verdadeira profecia nasce de Deus, da amizade com Ele, da escuta atenta da sua Palavra nas diversas circunstâncias da história. O profeta sente arder no seu coração a paixão pela santidade de Deus e, depois de ter acolhido a Palavra no diálogo da oração, proclama-a com a vida, com os lábios e com os factos, tornando-se porta-voz de Deus contra o mal e contra o pecado‖ (VC 84b). Por isso não podemos descuidar a qualidade da nossa vida fraterna que contém a força de ser profecia autêntica de um mundo renovado, sinal certo de esperança para um futuro mais humano (cfr. VC 85), como aconteceu no princípio do movimento franciscano e clareano quando, tendo abandonado tudo, aqueles homens e mulheres começaram uma experiência de vida que continua a fascinar ainda hoje com a transparência da sua mensagem evangélica. Guardar e testemunhar esta esperança é o maior serviço que podemos prestar aos homens do nosso tempo; mas para poder fazê-lo é preciso saber abandonar tudo cada dia para seguir Jesus pobre e crucificado. Só sendo autenticamente livres das lógicas do mal que ameaçam a nossa sociedade, só despojando-nos continuamente de nós mesmos para recomeçar a partir de Cristo, só se tivermos a força de sair dos nossos conventos para ir, desarmados, ao encontro dos nossos irmãos, seremos testemunhas credíveis do amor que nos foi dado e, então, como nos ensina a Igreja, na nossa vida encontrará ―novo impulso e força o anúncio do Evangelho a todo o mundo. Com efeito, são necessárias pessoas que apresentem o rosto paterno de Deus e o rosto materno da Igreja, que dêem a vida para que os outros tenham vida e esperança‖ (VC 105b). 46 Gostaria de concluir esta intervenção com a ―confissão de esperança‖ da exortação apostólica Ecclesia in Europa, que, parece-me, alcança o anseio, presente no coração de cada um de nós, de que o Reino, cujo acontecimento estamos a celebrar nestes dias, possa difundir-se e chegar a todos os homens e mulheres: ―Tu, Senhor, ressuscitado e vivo, és a esperança sempre nova da Igreja e da humanidade, tu és a única e verdadeira esperança do homem e da história, tu és entre nós a ‗esperança da glória‘ (Col 1, 27) já nesta vida e também para além da morte! Em ti e contigo podemos alcançar a verdade, a nossa existência tem um sentido, a comunhão é possível, a diversidade pode transformar-se em riqueza, a força do Reino já está a agir na história e contribui para a edificação da cidade do homem, a caridade dá valor perene aos esforços da humanidade, a dor pode tornar-se salvífica, a vida vencerá a morte e a criação participará da glória dos filhos de Deus‖ (EiE 18b). 47 O DECLÍNIO FRANCISCANO NO OCIDENTE: UMA PROPOSTA DE ANÁLISE Fr. Luís Oviedo* ————— * Artigo publicado na VITA MINORUM revista di spiritualità e formazione interfrancescana, Janeiro-Fevereiro de 2000, pp. 35-60. Trad. Cadernos de Espiritualidade Franciscana. 49 O DECLÍNIO FRANCISCANO NO OCIDENTE: Uma proposta de análise Não tem havido muito empenho em analisar as causas da crise actual de crescimento que sofre a Ordem Franciscana – tal como outras ordens – nas sociedades mais avançadas e secularizadas, nem em buscar soluções1. Dispomos de algumas hipóteses de explicação deste panorama desolador, mas falta-nos uma visão suficientemente ampla, baseada em dados empíricos, de molde a compreender como a grande parte dos grupos religiosos se afundou no ambiente moderno e secular, e porque estas dificuldades afligem de maneira particular as Ordens tradicionais, salvo alguma excepção significativa. Excluímos desde já a tese segundo a qual a secularização moderna compromete todas as iniciativas religiosas; experiências positivas em curso, constituem um antídoto contra o derrotismo geral. Podemo-nos socorrer de muitas perspectivas para levar a cabo o nosso intento. A sociologia das religiões, no seu desenvolvimento mais recente, pode-nos fornecer, melhor que qualquer outra teoria, os instrumentos de diagnóstico e sugestões para possíveis paliativos. É certo que se trata de um ponto de vista parcial (como é qualquer ponto de vista), mas estou convencido que nos pode oferecer informações suficientes e elementos para estimular uma reflexão. Convém reconhecer que o caminho proposto suscita graves problemas, sobretudo por causa da dificuldade que acompanha a teoria social, considerada por muitos «intrinsecamente social». Não é este o lugar para debates ————— 1 O único exemplo que conheço, refere-se às ordens religiosas em geral: P. W ITTBERG, The Rise and Fall of Catholic Religious Orders: A Social Movement Perspective (State University of New York Pr. 1994): concentra-se nos aspectos ideológicos que motivam e mantêm um ―movimento de virtuosos‖. 50 tão complexos; permanece válido, todavia, o método sociológico ao menos para dar o mínimo de esclarecimentos sobre alguns dos nossos problemas. Em todo o caso estamos dispostos a assumir um risco: o trabalho tem sobretudo um carácter explicativo, e pode servir ainda de modelo para uma aplicação prática, mesmo para outros casos. As explicações propostas devem juntar-se a outras, habituais entre nós – mais de índole ―espiritual‖ – relacionadas com a fidelidade pessoal e comunitária aos ideais evangélicos que professamos. Não é minha intenção negar a validade e a capacidade de denúncia crítica que estas percepções têm; só desejaria complementar a partir de outra perspectiva, até porque, em especial a vida religiosa vivida com sinceridade e generosidade não basta para analisar os graves problemas que temos pela frente. Estou convicto que, se queremos compreender e resolver certos problemas característicos da nossa forma de vida, é necessário um aprofundamento pela via da ―reflexão‖: a boa intenção e o bom exemplo não são suficientes para orientar a acção duma instituição da dimensão da Ordem Franciscana. Desejaria prevenir contra um voluntarismo que no fim dá resultados escassos, como também contra um certo ―abandono à providência‖ que atraiçoa o sentido cristão da Providência. 1. O QUE HÁ DE NOVO E DE ÚTIL NA SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO Desde há muito tempo que nos habituamos a compreender o papel da religião na sociedade no âmbito da assim chamada ―teoria da secularização‖. Duma maneira geral reinava a convicção de que a fé religiosa e a sua forma institucional entrou numa fase de decadência, submetida à dinâmica da ―superação‖ e da emergência social, privada do influxo puro a nível da consciência pessoal. Para os mais extremistas o desenvolvimento descrito poderia levar à extinção da maior parte das formas religiosas. A única esperança reservada aos crentes seria transformar, com coragem e redimensionar os conteúdos considerados propriamente ―espirituais‖ e partir para outro tipo de ―prestações‖ da vida cristã: o serviço social e político, a dimensão ―terapêutica‖ da fé, assinalando os motivos estéticos e existenciais, abandonando, se necessário, os dogmas e valores tradicionais. A situação mudou nos últimos anos. No último decénio os especialistas que ―observam‖ as dinâmicas e os influxos do ambiente religioso na sociedade moderna advertem que, antes de tudo, não é verdade – como afirmava a teoria da secularização – que, quando uma sociedade se desen51 volve e se moderniza, o resultado é a diminuição e o desaparecimento da religião (o exemplo norte americano é o mais claro); em segundo lugar, nem todos os grupos religiosos sobrevivem no novo contexto, que favorece alguns e penaliza outros, que ficam para trás nesta espécie de competição; isto porque a influência de outros factores na sociedade continua a pesar, como se viu no caso do comunismo. A sociologia das religiões, teve que recorrer a outras estratégias para compreender o fenómeno, uma vez que a teoria da secularização tinha perdido a sua capacidade de explicação. Finalmente foram adoptadas a seguintes estratégias: o modelo económico da ―escolha racional‖ e o da ―teoria da organização‖. Tanto num como noutro caso, a teoria procura compreender, como num contexto altamente concorrencial, há umas entidades que prosperam e outras que vão à falência e há certas organizações que resistem à erosão do tempo e outras que se dissolvem depois das primeiras dificuldades. No primeiro caso o instrumento conceptual mais usado na assim chamada ―escolha racional‖ (em inglês: rational choice), compreende a maior parte dos processos económicos: tanto na perspectiva da oferta como na da procura, cada um dos actores ou a corporação tenta obter o máximo de vantagens com o mesmo esforço. Ser ―racional‖ neste caso significa fazer a escolha que permite melhorar a própria situação. Não só no campo económico, mas também noutros campos se provou as vantagens de utilizar este critério de ―racionalidade‖: na política, nas relações pessoais e até nas religiões, susceptíveis de ser analisadas como uma relação de oferta e procura, numa situação de ―falso mercado‖2. A perspectiva que oferece a ―teoria da organização‖ é ligeiramente diferente: o objectivo é apontado sobre a estratégia que favorece a sobrevivência e o crescimento de uma instituição no tempo, malgrado a tendência de entorpecimento (ou de perca progressiva de energia) que leva depois à dissolução do colectivo. São seguramente factores positivos e negativos que interferem no sucesso duma organização, não sendo fácil, neste caso, falar de ―racionalidade organizativa‖, porque muitas vezes a sua lógica é distinta daquela que se verifica no comportamento racional atrás descrito. ————— 2 L.A. YOUNG, Rational Choice Theory and Religion (New York – London 1997); L.R. IANNACCONE, Introduction to the Economics of Religion, Journal of Economic Literatur 36 (1998) 1465-1496. 52 Não podemos ignorar que os ―modelos de análise‖ propostos são parciais e objecto de crítica e de discussão entre os especialistas. De facto não é difícil provar um certa diferença, por causa de orientações fortemente egoístas, que exibe a teoria da ―escolha racional‖, uma perspectiva que deixa sem explicação as condutas mais altruístas em favor do próximo. Devo admitir que a aplicação deste modelo de análise à instituição religiosa deixa perplexidade e suspeita, sobretudo quando se quer equiparar as dinâmicas que presidem à escolha no campo religioso a um cálculo de vantagens e proveitos, reduzindo as relações entre grupos religiosos a um ―mercado‖ onde tudo concorre para conseguir o maior número de clientes. É óbvio que o fenómeno religioso não se esgota em considerações deste género; aqui entram sempre elementos de outra ordem: a pertença a tradições vividas, convicções profundas e outros factores dificilmente sujeitos a tais ―racionalizações‖3. Muitas vezes os modelos propostos mostram-se muito fecundos – como mais tarde se verá – e capazes de compreender o actual panorama religioso, permitindo assim superar a teoria da secularização, os complexos e os desânimos por ela provocados. Infelizmente os protagonistas da vida eclesial interiorizaram a ideia de que no mundo moderno a fé religiosa estava condenada à irrelevância. O ―dogma sociológico‖ da secularização proporcionou a lógica da ―profecia auto aplicada‖, na medida em que expoentes do clero e da actividade pastoral se tornaram de modo incansável ―agentes de secularização interna‖: quanto mais se acentuava o carácter inconsistente daqueles diagnósticos, mais se acomodavam vários sectores da vida eclesiástica a este panorama de crise, em vez de tentar opor-se a estas tendências que apontam para a dissolução. O problema é que muitos davam como adquirido a perda de interesse em relação à dimensão religiosa e quiseram encontrar o significado do cristianismo algures (causas morais, ecológicas e culturais) na tentativa disparatada de conter os danos. Hoje sabemos que uma boa parte daquela teoria tinha matrizes ideológicas e que não se preocupava muito em ————— 3 M. Chaves, On the racinal Choice, Journal for the Scientific Study of Religion 34 (1995) 84-104; Rationality and the Framing of Religious Choices, Journal for the Scientific Study of Religion 35 (1996) 128-144. Pode-se ver alguma crítica na resposta da parte de L.R. IANNACCONE, Second Thoughts. A Response to Chaves, Demerath and Ellison, Journal for the Scientific Study of Religion 34 (1005) 113-120; e a continuação do debate com a resposta de R. FINKE-R.STARK, Religious Choice and Competition, American Sociological Review 63 (1998) 761-766. 53 fornecer evidências empíricas, sobretudo no caso de sociedades avançadas com outros níveis religiosos. A vida religiosa já prestou colaborações notáveis às ciências humanas e sociais, contribuindo para a compreensão do mundo. Ao contrário, certas teorias psicológicas e sociológicas foram utilizadas para iluminar as escolhas no campo formativo e no discernimento sobre as melhores formas de encarnação, com resultados muitas vezes discutíveis. A tentativa que agora se propõe não deve causar grandes preocupações: provavelmente servirá apenas para corrigir outros usos menos construtivos e estéreis das ciências sociais, usadas de maneira pouco crítica e pouco útil na análise da situação eclesial. Não temos notícia de estudos empíricos do género que proponham a temática que eu apresento neste estudo sobre a realidade da vida religiosa. Caso novos estudos sejam feitos devemo-los avaliar na aplicação sobre outros tipos de grupos religiosos, procurando aproveitar as analogias e as semelhanças que nos ajudem a iluminar a própria realidade. 2- OS FACTORES ORGANIZATIVOS DO SUCESSO/INSUCESSO DOS GRUPOS RELIGIOSOS. O CASO FRANCISCANO. Todos os estudos recentes revelaram uma multiplicidade de factores que ajudam a compreender o ―sucesso religioso‖, porém devemo-nos limitar aos resultados mais notáveis e seguros, aqueles que resistem à confirmação empírica e aqueles que parecem mais adaptados à vida religiosa e franciscana. Muitas vezes trata-se – insisto – de hipóteses de explicação que requerem um estudo mais aprofundado e mais análises de dados concretos sobre a vida de comunidade e da província. 2.1 Os problemas que colocam aqueles que “ Se aproveitam” Muitas investigações no campo da sociologia das religiões acentuam o mecanismo da ―oferta‖, isto é a estratégia que alguns dos institutos religiosos adoptaram em vista à sobrevivência num ambiente hostil e competitivo. Trata-se de cada grupo convencer os seus fiéis, de forma que novos elementos a ele se juntem. Se o comportamento daqueles que ―oferecem religião‖ é racional, os dirigentes das instituições religiosas empenham-se em tirar o máximo de vantagens para a Igreja ou para o movimento a que pertencem. O objectivo do sociólogo é seguir os métodos que possibilitam a 54 adaptação ao novo contexto e de individualizar as estratégias que garantem sucesso. Do ponto de vista exposto uma organização racional não pode tolerar a pertença de membros que se aproveitem, isto é, de pessoas que procuram aproveitar as possibilidades que oferece a organização, graças ao empenho de todos, mas não contribuem com o próprio esforço. Estes elementos ―aproveitadores‖ são frequentes e reflectem uma tendência natural, mesmo em nome da racionalidade exposta; só que neste caso verifica-se um desencontro entre a ―racionalidade do indivíduo‖ que procura obter o máximo de vantagens com o mínimo de investimento de energia, e a ―racionalidade da instituição‖, que deve maximizar os resultados com os recursos humanos disponíveis. A racionalidade económica das organizações procura prevalecer sobre a acção destrutiva dos ―manhosos‖. A lógica é muito simples: se num grupo fundado sobre a cooperação, ou esforço comum, não são penalizados aqueles que só perseguem o interesse pessoal (em inglês, free riders), e não contribuirem positivamente e, apesar da sua atitude, gozam das mesmas vantagens daqueles que se comprometem, a consequência mais provável é que o resto do grupo se desencoraje e tenda a colaborar o menos possível. O sociólogo americano Laurence Iannaccone usou este modelo para explicar a dinâmica de crescimento e declínio nos grupos religiosos. O resultado é que quanto mais tolerante é um grupo em relação aos ―manhosos‖ mais decai a instituição religiosa; com efeito os estudos de campo mostram que os movimentos rigoristas conhecem maior sucesso que os mais ―mórbidos‖4. A explicação que oferece o sociólogo é que as formas religiosos rigoristas adoptam uma linguagem de comportamento e de exigência que levam a uma distinção cada vez mais clara entre o indivíduo pertencente ao movimento religiosos e o resto da sociedade e da cultura, através da criação de espaços internos, o de ―micro-culturas‖ inter-ligadas. Desta forma torna-se difícil alguém aproveitar-se da instituição. Só no interior do grupo ou em estreita ligação com ele têm significado as actuações e os códigos de comunicação usados. É muito diferente o ambiente das organizações religiosos onde é possível servir-se das vantagens de dentro e viver ao mesmo tempo mais orientados para o exterior; é muito alto o nível de exigência e o ―preço a pagar‖ para se poder ―aproveitar‖. Muitos exemplos ————— 4 L.R. IANNACCONE, Why Strict Churches are Strong, American Journal of Socology 99 (1994) 1180-1211. 55 confirmam a hipótese: movimentos como a Comunidade Neocatecumenal ou Comunhão e Libertação fornecem casos ilustrativos, onde o rigor interno e a criação duma linguagem e cosmovisão própria, afastam a atitude de busca de vantagens pessoais e evitam a consequente tendência para a desmobilização5. No nosso caso a aplicação é óbvia: tal como aconteceu em outras ordens, os franciscanos, nos últimos tempos, não tiveram êxito em impedir o abuso dos ―manhosos‖. O critério de tolerância foi aplicado muitas vezes na ajuda a pessoas em situação difícil e em facilitar a inclusão de todos, o que levou, por fim, a extremos de auto desmoralização. Se um frade pode gozar das vantagens e da segurança que oferece a vida religiosa, sem que se lhe exija o mínimo de compromisso, como no campo da oração comum, da comunhão de bens, da obediência e na colaboração nos trabalhos, não é estranho que se produza uma certa desmobilização na comunidade e na província, quando os religiosos se apercebem que, com um mínimo de esforço, podem continuar a gozar as vantagens de todos. Dito de outra maneira: muita das províncias franciscanas do Ocidente não conseguiram ―activar‖ os seus membros como o fizeram outros grupos religiosos e até outras províncias, no sentido de encorajar e atiçar o entusiasmo que leva a escolhas de grande generosidade e empenho6. A explicação até agora apresentada é ―racional‖, isto é, não toma em consideração os elementos espirituais que reclamam que cada um seja dono de si e uma fidelidade que não deve depender de cálculos mesquinhos sobre aquilo que fazem os outros. É verdade que, malgrado a lógica exposta, muitos vive a sua vocação com grande entusiasmo; mas a consequência da falta de rigor, ou simplesmente a falta de medidas para desencorajar os ―manhosos‖ (o que tradicionalmente significa aqueles que provocam escândalo), acumulam-se em médio e longo prazo e acabam por corroer a estrutura de um instituto religioso. Por outro lado não parece que o excesso de rigor seja sempre vantajoso para os movimentos religiosos e para a vida consagrada. Em alguns ————— 5 O caso dos neo-catecumenais e de outros movimentos com indiscutível sucesso nos ultimos anos adapta-se perfeitamente à chave da análise que R. STARK propõe e ao seu modelo de 11 pontos: Why Contemporary Religious Movement Succed or Fail: A Revised General Theory, Journal of Contemporary Religion 11 (1996) 133-146; e a aplicação a um caso concreto: The Rise and Fall of Christian Science, Journal of Contemporary Religion 13 (1998 189-214. 6 Tomo o termo ―ativar‖ de R. STARK que refere o sucesso de uma entidade religiosa à capacidade de mobilizar os próprios membros tal como aconteceu nos pricípios da Ordem Franciscana e em alguns períodos posteriores à reforma. 56 casos registam-se abusos que demonstram pouca ―adequação‖ à maturidade da pessoa e à opção por uma sociedade complexa7. A ―modernização‖, portanto, duma instituição religiosa, não depende tanto do incremento dos níveis de tolerância no seu interior, nem de facilidades na disciplina e obrigações, mas da adequação e equilíbrio entre os extremos, o que em alguns casos se verifica através dos resultados e da capacidade de evitar ulteriores efeitos desagregadores. 2.2 Orientação religiosa versus orientação à “agência de serviço”. Um segundo factor a ter em consideração, foi proposto pelo sociólogo Mark Chaves, que observa as organizações sobre o ponto de vista da orientação da oferta e da estrutura da autoridade. Tendo como ponto de partida estudos empíricos efectuados sobre algumas confissões religiosos, sublinha um factor de ―secularização interna‖ que prejudica o desenvolvimento da instituição religiosa: quando se dá muito espaço e autonomia no que se costuma chamar agência, isto é, ―agência de serviços‖ não especificamente espirituais, favorece-se a progressiva dissolução da estrutura religiosa. Ao contrário, os grupos que mantêm uma orientação para as actividades especificamente espirituais ou, em qualquer caso, são dependentes da autoridade religiosa, têm mais hipótese de sobreviver e de crescer8. Não é difícil de observar como esta norma se cumpre a nível geral: os grupos que conseguem maior sucesso são os que se centram mais nas actividades espirituais, enquanto que aqueles que se dedicam a outras actividades, como o ensino, a saúde, a assistência social, a ―justiça e paz‖ fracassam e definham. Quando se investe muito nas actividades socialmente úteis, presta-se, certamente, um serviço à comunidade, mas não à Igreja, ————— 7 A opinião de R. STARK mostra que só uma ―meia tensão‖ no rigor favorece um gripo religioso: ―The Rise and Fall of Christian Science, Journal of Contemporary Religion 13 (1998) 198 ss. Por outro aldo nãos eria honesto esconder a opinião contrária de Ianaccone: G. MARWELL, We Still Don‟t Know if Strict Churches are Strong, Much Less Why: Comment on Iannacconte, American Joutnal of Socilogy 101-104 (1996) 1097-1103; e a resposta de L.R. IANNACCONE, Strictness and Strenght Revisitet: Reply to Marwell, ibid. 1103.1108. 8 M. CHAVES, Intraorganizacional Power and Internal Secularization in Protestant Denominations, American Journal of Sociology 99 (1993) 1- 48; Denominations as Dual Structures. An Organizational Analysis, N.J. DEMERATH III – P. DOBKIN HALL – R.H. WILLIAMS (eds.) Sacred Companies: Organizational Aspects of Religion and Religious Aspects of Oeganization (New York – Oxford, Oxford Univ. Pr. 1998) 175-194. Ajuda a compreender e classifa-a de orientações das missões das oprganizações religiosas, que oferece com grande clareza J.M. MCCANN, Church and Organization: Um inqérito sociológico e teológico (Crambury, NJ – London, Associated Univ. Pr. 1993) 161-185) 57 que vê uma desvalorização dos interesses e das prioridades. Já Niklas Luhmann advertia nos anos 70 que a escolha eclesial orientada à dioconia (serviço social em sentido alargado), não trazem um reconhecimento correspondente da parte de sectores mais estéticos e distantes da Igreja, antes provocavam um incremento da secularização, que vem da identificação de actividades prioritárias, não propriamente religiosas: seria como se a própria Igreja reconhecesse que a opção por actividades não espirituais fosse mais importante que a opção pelas actividades espirituais9. A nossa Ordem optou subitamente, como tantas outras, por esta tendência agora analisada. Muitos sectores e protagonistas interiorizaram a ilusão de poder ganhar maior relevância social através da inserção em actividades não especificamente religiosas, mas de grande conteúdo simbólico, prestígio social e força atractiva, em relação aos mais jovens. Pode-se certamente objectar que alguns movimentos que tiveram grande sucesso, optaram por uma orientação clara pela via da ―agência‖, como no caso da Opus Dei no campo do ensino, ou o caso das Missionárias da Caridade de Madre Teresa de Calcutá no campo da assistência. Em ambos os casos, uma análise mais profunda descobre que as coisas são mais complexas. A verdade é que a Opus Deis aproveita o ensino como meio de formação religiosa e do aumento do grupo e as filhas de Madre Teresa colocam a opção decisiva na dimensão espiritual e na oração, embora os meios de comunicação só valorizem o serviço aos mais pobres e doentes. As prioridades são sempre espirituais, o que não acontece noutros casos. Nós franciscanos entendemos como sinal de generosidade e de desinteresse a dedicação a actividades sociais e assistenciais, sem requerermos uma adesão religiosa e sem exigirmos aceitação das mensagens mais espirituais, receando que isso se entenda como atitude interessada, como proselitismo, o que seria uma traição à bondade e à pureza do nosso serviço gratuito. Noutras ocasiões identificamos, simplesmente, evangelização ou missão com obras de promoção humana e cultural, independentemente da relação à mensagem religiosa explicita: fazer bem aos outros ————— 9 N. LUHMAN, Funktion der religion (Frankfurt a.M. Suhrkamp 1977) 264. Recentemente a pesquisa de alguns sociólogos alemães demonstraram as teses de Luhmann: quando as igrejas se convertem em ―organizações orientadas para a acção social‖, favorecem a secularização, usando uma expressão de K. Gabriel, se dá um ―desequilíbrio, entre a lógica da participação e da inluência‖: quanto mais cresce o individualismo, mais se acentua o carácter de ―organizações de serviços‖ da parte das igrejas, tendo como resultado um afastamento dis fiéis; K. GABRIEL, Modernisierung als Organisierung von Religion, M.RUEGGELER – K. GABRIEL – W. GEBHARDT (Hrsg.), Institution, Organization, Bewegung: Sozialformen der Religion im Wandel (Opladen, Leske+Budrich 1999) 19-37, qui: 33. 58 seria, para muitos, mais importante que o próprio anúncio espiritual, que viria em segundo lugar ou como consequência. Estamos em condições de afirmar que depois de anos de experiência, regra geral, a opção por voltar ao sector secular, mesmo que vivida em circunstâncias difíceis e até heróicas, (sobretudo em ambientes de missão) não deu o resultado desejado e muitas vezes a aposta de forma cada vez mais clara por outros centros de interesse, tornou-se veiculo de secularização e de desvalorização da dimensão estritamente espiritual. O cuidado das coisas como a justiça, a solidariedade, a paz e a ecologia, não é negativa em si mesmo, mas sem a justa dimensão da evangelização em sentido restrito, arrisca-se a comprometer o futuro da Igreja e da Ordem. Todas as actividades seculares devem submeter-se à autoridade e centralidade da dimensão espiritual, no sentido afirmado por Francisco quando se referia ao ―espírito… ao qual todas as coisas devem estar sujeitas‖ (2R 5, 3). 2.3 A realidade da concorrência religiosa Admitamos que não é pacifico falar de ―concorrência‖ em relação às diversas comunidades e iniciativas de seguimento evangélico. No entanto não nos resta outro caminho, se queremos compreender alguns fenómenos que mais se parecem com ―movimentos religiosos‖. O fenómeno percebe-se, seja no confronto entre as grandes religiões num ambiente socialmente tolerante, seja no interior duma mesma confissão cristã, quando se regista uma concorrência − não só latente − entre os diversos movimentos, carismas e organizações de fiéis que os animam. Muitos sociólogos defendem amplamente a bondade desta situação, frente a situações de ―monopólio‖ dominante. Autores como Rodney Stark e Laurene Iannaccone inverteram, por fim, um dos princípios que guia o empenho ecuménico, isto é, a convicção de ver a divisão entre igrejas cristãs como um escândalo que impede o crescimento do Evangelho. Estes autores vêem as coisas sob outra perspectiva: quanto mais as confissões concorrem entre si numa certa zona, mais vitalidade conhece a oferta religiosa, enquanto que o domínio duma certa religião empobrece a oferta, diminui a qualidade e a atenção aos potenciais ―clientes‖ da oferta de bens espirituais 10. ————— 10 Sobre esta questão há abundantes estudos: R. STARK − L.R. IANNACCONE, A Supply-Side Reinterpretation of the 2Secularization of Europe”, Journal for the scientific Study of 59 A situação descrita tem ―paralelo económico‖ e adquire grande força de explicação: do mesmo modo que num mercado concorrencial determinada empresa procura conquistar a sua fatia de mercado, fazendo valer a sua marca, assim numa situação de mercado ―religioso fictício‖ as entidades religiosos tudo devem, para melhorar a qualidade da sua prestação, oferecendo ―a melhor religião possível‖. Numa situação de monopólio cai-se na inércia e acaba-se por oferecer um serviço de ―fraca qualidade‖, uma vez que os clientes estão seguros e sem concorrente. A mesma coisa acontece com o catolicismo quando no seu interior concorrem movimentos e grupos de inspiração diversa, com a pretensão de oferecer um ―cristianismo melhor‖ para cada pessoa nas coisas referentes á fé e à satisfação dos seus desejos espirituais. Mesmo que a análise pareça brutal – além disso, longe da espiritualidade franciscana – não convém desprezar a perspectiva dos sociólogos e a sua lógica. Queiramos ou não, nós franciscanos encontramo-nos no meio dum ambiente concorrencial com todos os seus condicionamentos. Os grupos e movimentos que melhor aceitaram esta circunstância no novo contexto, e se adaptaram tomando medidas de conquista que afirmam a sua identidade própria, sobreviveram melhor à crise do que os grupos que se deixaram levar por um espírito optimista de inclusão, por uma aceitação ecuménica de tudo e de todos. É verdade que a vocação religiosa pode crescer e desenvolver-se nos mais diversos institutos e congregações e que não devemos considerar nenhuma entidade cristã como de inferior de qualidade, mas isso não significa esbater as diferenças e acabar por reconhecer e proclamar as vantagens dos outros: a nossa ―bondade‖ não deve levar – efeito não desejado − a uma descida temerária dos nossos níveis de auto estima, que impediria que jovens candidatos entrassem na Ordem. Na situação presente demonstrou-se que as organizações religiosas mais exclusivistas e que afirmam sem complexos a sua identidade diferenciada, prosperam, enquanto que os grupos que optam por posições de diálogo e de abertura aos outros carismas, perdem presenças. A lógica do processo é óbvia: na chave da ―escolha racional‖, independentemente da bondade dos grupos e dos seus protagonistas, consegue mais sucesso quem acentua mais a própria posição e exibe, sem problemas, a própria identi————— Religion 33 (1994) 230-252; L.R. IANNACCONE, Introduction to the Economics of Religion, Journal of Economic Literature 36 (1998) 1465-1496. 60 dade e o próprio projecto, como expressão duma fé mais viva capaz de convidar à adesão e ao seguimento. Ainda neste caso convém matizar antes de cair no extremo oposto. De facto alguns autores contestaram a linha de pertença e mostraram que no campo religioso é muito difícil que se dêem as condições de uma concorrência perfeita entre os diversos contendores: existem muitos condicionamentos de tipo afectivo e ambiental, que sem dúvida pesam na hora das decisões11. Não obstante certos fenómenos, como a emergência de novos movimentos e o seu rápido sucesso, demonstram uma flexibilidade na relação ―oferta‖ e ―procura‖ religiosa, uma relação em todo o caso menos rígida que em tempos passados. Devemos reter, de qualquer forma, que o inclusivismo franciscano não resultou numa boa estratégia: fazer de todos franciscanos, pensar que outros movimentos eclesiais possam assumir tranquilamente o carisma seráfico porque todos são evangélicos, prejudicou a capacidade de propor como algo original e distinto o projecto espiritual franciscano. Vai ser necessário algum tempo para corrigir uma mentalidade – junto com outros factores – que contribuiu consideravelmente para a crise de identidade e para a dissolução do nosso carisma, e que resultou na incapacidade de propor o nosso caminho vocacional. 2.4. Falta de racionalidade organizativa Outros factores que contribuíram para a crise actual dizem respeito aos níveis especificamente organizativos. Alguns são mais evidentes que outros: deficit de leadership e de centralização, falta de especialização, abuso de iniciativas sem coordenação; e abandono consciente de orientação dirigida à expansão. Analisemos estes pontos mais de perto: a- Um lugar comum da cultura política popular é que a modernização das grandes organizações sociais coincide com os processos de democratização e participação subsidiária. Na realidade as coisas são bem mais complexas e muitas contrariam as ideias mais difundidas: a teoria da organização mostra, claramente, que certos colectivos de grande dimensão não podem funcionar sem um elevado nível de centralização e controle sobre as partes. Ainda hoje se discute muito sobre os níveis de participação mais ————— 11 Entre outros: S. BRUCE, Religion and Racional Choice: A Critique of Economical Explanations of Religious Behavoir, Sociology of Religion 54 (1993) 193-205. 61 conveniente para cada tipo de organização (uma multinacional não é o mesmo que uma organização de beneficência), mas é indiscutível que organizações com uma certa dimensão e complexidade exijam estruturas de direcção muito mais centralizadas e um leadership decisivo e reconhecido. O sociólogo italiano Luca Diotellevi mostrou recentemente a existência de uma relação positiva entre os níveis de centralização em algumas dioceses italianas e o indicador de vitalidade religiosa, mostrando a evidência de causa efeito12. Não parece que do ponto de vista organizativo a dispersão de forças contribua para o sucesso duma ordem religiosa, sobretudo quando se atravessa um tempo de crise. A história pode-nos ajudar a compreender esta relação, ao identificar certos momentos de centralização com esforços de renovamento em algumas etapas históricas da nossa Ordem. O esforço organizativo levado a cabo por S. Boaventura, para guiar um grupo muito heterogéneo e disperso, é um bom exemplo. Mas também nos tempos mais recentes vem à memória a figura de Bernardino de Portogruaro, o Geral que nos momentos da restauração, nos fins do século XIX, soube, como evidenciam os estudos de Giuseppe Buffon, adoptar estratégias mais condizentes com os tempos modernos, de forma a enfrentar as contingências da época, deixando de parte alguma nostalgia paralisante13. De qualquer forma devemo-nos interrogar sobre o tipo de autoridade requerido nas estruturas tão peculiares como são as ordens religiosas. Em geral aceita-se que no nosso caso o melhor é haver a autoridade carismática frente a outras opções e estilos, como é no caso duma autoridade de origem democrática. Certamente que a democracia sempre foi um procedimento na vida religiosa para caracterizar os superiores maiores e provinciais; mas normalmente a função deste sistema, acaba nas decisões capitulares tomadas por maioria. Mesmo já a este nível as coisas tornam-se problemáticas, sobretudo porque nem sempre uma assembleia geral possui as informações e a capacidade de juízo e decisão que se exige a um dirigente e aos seus conselheiros. Mesmo que a ideia seja pouco agradável, a análise empírica das organizações – incluindo as religiosas – demonstra que um colectivo com um leadership decidido, em relação ao discernimento dos carismas e à ————— 12 DIOTALLEVI L., Religione e modernizzazione. Un contributo sul ruolo delle chiese a partiere dal caso italiano, tese de doutoramento, Univ. De Parma X Ciclo; The terriotorial articulation of secularization: social modernization, religious modernization in Italy, publicado no Archives de sciences sociales des religions (1999). 13 G. BUFFON, Dalle soppressioni alla rinascita: il sine próprio nell prospettiva di una « histoire au ras du sol”, Antonianum 72 (1997), 267-301; Tra ideati utopici e strategie di modernizzazione, Antonianum 74 (1999), 527-543. 62 tomada de decisões com pleno conhecimento, é mais capaz a enfrentar o desafio da secularização, do que no caso de grupos que se deixam levar por práticas democráticas e de participação. A presença duma autoridade decidida resolve melhor os conflitos e a ameaça de divisões. b- A especialização é ou outro factor de grande importância organizativa. Nós, os franciscanos, cultivamos muito a ilusão de que todos os frades servem para tudo ou quase tudo. Pondo de parte as questões históricas de alguns abusos e de cenários de especializações pouco edificantes (como atitudes classicista e de superioridade de alguns irmãos sobre os outros), a realidade organizativa exige aquilo que os técnicos chamam ―sofisticação‖, e que significa a orientação de cada um para funções especializadas, com notável vantagem para todos. Um exemplo da tendência oposta a estas normas é a tendência que quer envolver a todos na pastoral vocacional, o que não só não é realista, mas pouco eficaz, porque ao querer responsabilizar a todos, acaba por diminuir a responsabilidade num âmbito tão essencial para o futuro duma entidade religiosa. A especialização implica o discernimento e escolha, muitas vezes incómoda para a nossa mentalidade, habituada muitas vezes à ideia de que todos devem empenhar-se em tudo. A ciência organizativa mostra que não é viável um tal modelo, e recentes estudos empíricos evidenciam a influência positiva dos processos de especialização em algumas dioceses. Que diversos movimentos de sucesso sejam privados de ―animador vocacional‖, isto deve-se ao facto de os mecanismo de convocação ou chamada serem substituídos, funcionalmente, por um espírito de proselitismo muito irradiante e com um alto grau de empenho pessoal no envolvimento dos outros, elementos infelizmente muitas vezes estranhos na maior parte dos membros das nossas instituições. c- O terceiro elemento organizativo é designado eufemisticamente como ―abuso de iniciativas de coordenação‖. Refiro-me à prática de reuniões, encontros, cursos, convívios e outras actividades requeridas para a animação dos irmãos, mas que muitas vezes são vistas como um perda de tempo e de energias; com escassos resultados, provocando o desencorajamento geral. Muitos estudiosos da teria da organização mostraram nos últimos anos a abundância de práticas irracionais que afligem o mundo organizativo. Dá-se o caso que alguns responsáveis têm necessidade de mostrar, de forma protocolar a sua capacidade de convocação, por razões de imagem e, so63 bretudo, por causa de tendências miméticas. Isto leva a que se incorporem modelos e práticas provenientes de outros grupos ou instituições consideradas mais prestigiadas, independentemente da sua actividade concreta. É o assim chamado ―isomorfismo organizativo‖14. Muitos frades lamentam-se, ultimamente, sobre a inflação de reuniões nas quais se fala de oração e fraternidade, sem resultados satisfatórios à vista. Não estou, obviamente, a propor o fim de actividades como encontros de animação, mas a sua revisão numa perspectiva mais pragmática: as análises da nossa realidade mostram que não é realista pretender o renovamento através de reuniões e de cursos de formação. Na verdade podemo-nos guiar pelos resultados, e as nossas decisões e estratégias deveriam antes de tudo procurar resolver os graves problemas que temos entre mãos. Sem duvidar da bondade das iniciativas apontadas, é necessário dar-lhe o justo valor: elas não podem de forma alguma substituir as medidas concretas que devemos tomar em ordem à sobrevivência e ao crescimento. d- Por fim, mas não o último dos problemas organizativos, está a falta de um espírito claro voltado à expansão, isto é a falta de objectivos dirigidos ao crescimento, aspecto que não é tão secundário como alguns fazem querer. A orientação duma organização pode assumir formas que vão da conservação de posições adquiridas, à experiência de formas novas, ao aprofundamento do próprio carisma, à qualidade de ―autenticidade‖, e também à expansão e ao crescimento. Este último aspecto privilegia as actividades e os trabalhos de procura de novos membros, ao incremento do número de presenças, a propor de forma convincente o próprio modelo de vida para que seja seguido pelo maior número possível de pessoas. Infelizmente a maior parte das Províncias do Ocidente franciscano descuidaram, nos últimos trinta anos, o sentido do crescimento, sobretudo por causa da má consciência em relação a formas anteriores de busca de crescimento (recrutamento de crianças de ambientes pobres), também por causa da difusão de algumas ideias ou teorias sobre a interpretação correcta do carisma franciscano que denunciavam um estilo suspeito de proselitismo ————— 14 J.G.MARCH, Introduction: A Chronicle of Speculations About Decision-Making in Organizations, J.G. March (ed.), Decisions and Organizations (Oxford − New York, Basil Blackwell 1988) 1-21; P.J. DI MAGGIO − W.W. POWELL, The Iron Cage Revisited: Institutional Isomorphism and Collective Racionality in Organizational Fields, American Sociological Review 48 (1983), 147-160. 64 demasiado pretensioso, e longe do espírito que aponta para a autenticidade e a Providência; para muitos a única via de ―chamamento vocacional‖ é o nosso testemunho e a vida exemplar. Infelizmente tratou-se duma orientação estéril do ponto de vista dos resultados concretos. A nível empírico, pode afirmar-se, hoje, com toda a certeza que os grupos religiosos mais orientados à expansão, que não duvidaram em propor de modo firme o próprio carisma ou modelo de seguimento evangélico aos jovens, estão em vantagem em relação àqueles grupos mais tímidos e que adoptaram um outro tipo de estratégia; esses ficaram para trás nos cenários concorrenciais descritos15. 2.5. A certeza doutrinal O último factor que incide fortemente sobre o andamento da Igreja e das organizações religiosas relaciona-se com a questão das crenças partilhadas. Os especialistas vêem uma relação positiva entre os níveis de certeza e o crescimento dum grupo. Dito de forma oposta: quanto mais uma entidade religiosa duvida das crenças recebidas, quanto mais revê os valores morais e favorece o pluralismo interno, mais adesões perde e mais experimentará a indiferença dos seus membros16. Este fenómeno observa-se, por exemplo, na igreja da Inglaterra, onde vozes autónomas se mostraram como um dos factores que mais pesaram no processo de secularização em curso. Esse factor consubstancia-se numa excessiva disparidade de opiniões no seu interior, numa diversidade de tendências exibidas por clérigos e até por bispos17. Os grupos mais sólidos apresentam um alto nível de certeza, uma autoridade sem oposição em relação ao conteúdo das crenças e uma grande unidade proclamada e vivida. ————— 15 A evidência empírica, neste caso, parece óbvia. Todavia estudos recentes demonstram que o mais importante não é o rigorismo, mas que é a capacidade de recrutamento e de oferta de bens interessantes, que explica o sucesso dos movimentos: C.K. HADAWAY − P.L. MARLER, Response to Iannaccone: Is There a Method to this Madness?, Journal for the Scientific Study of Religion 35 (1996 217-222 16 Como explicação diz-se que, em tempos de transformação e de insegurança, muitos movimentos arriscam assumir a expressão de ―continuidade cultural‖, oferecendo uma imagem de autoridade intocável: L.L. DAWSON, Comprehending Cults. The Sociology of Religious Movements (Oxford − New York, Oxford Univ. Pr. 1998) 41-71 17 Consulte-se, por exemplo, a opinião de R.J. NEUHAUS, The Future of Once Protestant Britain, First Things 96 (1999, October) 78 s. 65 Infelizmente a vida religiosa em geral, e a franciscana não é excepção, não goza neste momento de um alto grau de certeza. Não que tenha chegado ao extremo da igreja da Inglaterra, mas não alcança a solidez, a coesão e a força convincente que caracterizam muitos movimentos religiosos do Ocidente que manifestam uma certa supremacia e auto-confiança. Que se passa: de alguns anos a esta parte difundiram-se algumas ideias em relação ao carisma das nossas origens que tiveram uma influência discutível. Atendamos, por exemplo, à auto estima que deveria sustentar a opção pela consagração, já de si difícil e que requer muita coragem. Se a vida consagrada se coloca ao mesmo nível de outras opções cristãs, tem pouco sentido o esforço suplementar que se exige para se tomar uma opção muito difícil, como é a opção pela vida consagrada. Mas o mais inquietante diz respeito a uma certa releitura das nossas Fontes – pondo de lado a crítica histórica – que traz para o interior da Ordem a ideia de Sabatier, graças sobretudo a novos ―sabatierianos‖ e à ajuda que lhes temos dado na publicação das suas obras. Segundo esta corrente deu-se uma ruptura e por isso uma verdadeira oposição entre Francisco e as sucessivas gerações de franciscanos; assim, nós franciscanos não nos sentimos mais como protagonistas e herdeiros da experiência de vida e dos ideais do Santo de Assis (que na verdade se esfumaram um pouco na história), antes somos considerados agentes de uma degeneração ou, quiçá, como traidores do carisma original, e de toda a frescura da intuição. Nós franciscanos tornamo-nos agentes de uma falsificação, resultado dum processo de identificação com os interesses dos poderosos18. São posições que ferem claramente o amor à nossa Ordem e carregaram as novas gerações com um complexo de culpa histórica do qual ainda não nos libertamos. O resultado é uma incapacidade de propor com convicção o próprio projecto de vida, o perigo de uma frustração institucional e uma profunda e absurda crise de identidade. O elenco dos factores descritos pode ser considerado em si mesmo ou por partes: não é necessário a presença de todos os factores para explicar uma situação do bom enquadramento de um grupo religioso no contexto moderno; a falta da maior parte dos elementos assinalados, é por si suficiente para o declínio de muitas ordens religiosas. ————— 18 Esta problemática já foi tratada por estudos precedentes: LL. OVIEDO, A identidade franciscana como questão prática, Selecciones de Franciscanismo 77 (1997) 285-303; Sobre la noción de autenticidad aplicada al seguimento franciscano de Jesu Cristo, Verdad y Vida 222 (1998) 239-248. 66 A espiritualidade e a praxis franciscana podem continuar ligadas a certos ideais característicos da segunda metade do século passado, mas com o preço de um declínio ainda mais dramático, ou podem abrir-se a outras ideias e práticas, que mesmo que pareçam atraiçoar os ideais de uma geração inteira (ou de duas) podem, no entanto, salvar a vida franciscana no Ocidente. Por outro lado não sei que vantagens há em continuar com certas ideias, acaso muito belas, mas que não vão encontrar seguidores nos próximos anos. A refundação provável de algumas províncias na Europa estarão nas mãos daqueles que souberem sobreviver, mesmo que com estratégias que a alguns pareçam pouco adequadas ao espírito franciscano. 67 II — Documentos A Pobreza, Carisma Capuchinho Mensagem de João Paulo II aos Capuchinhos italianos pela ocasião do ―Capítulo das Esteiras‖. Queridos irmãos capuchinhos italianos. 1- Dirijo-me a vós com afecto, saudando-vos cordialmente, pela ocasião do ―Capítulo das Esteiras‖ dos capuchinhos italianos. Estendo a minha saudação a toda a vossa benemérita Ordem, guiada pelo Ministro Geral P. John Corriveau, a quem dirijo o meu pensamento, com votos de bons desejos. Esta vossa reunião na seráfica cidade de Assis, junto ao túmulo de S. Francisco, fonte viva do carisma franciscano, reveste uma importância significativa, tanto para o número de pessoas reunidas – sois 500, representando aproximadamente 2500 irmãos italianos – como pelo tipo de encontro, que faz reviver aquela primeira e singular assembleia desejada por São Francisco e conhecida como ―Capítulo das Esteiras‖ (LP 114). As temáticas que vos propusestes aprofundar inspiram-se no conhecido pequeno Testamento de Siena (TS), que evidencia a solicitude do vosso fundador 69 pela Ordem e que é a sua última vontade: o amor recíproco entre os irmãos, o amor pela pobreza evangélica, o amor pela Igreja. Quereis enquadrar as vossas reflexões num contexto eminentemente existencial e dinâmico, tendo em conta as mudanças do tempo presente em contínua evolução, à luz dos desígnios providenciais de Deus, que acompanha com o seu amor a ―história sagrada‖ desta nossa época. 2- ―Em memória da bênção e do testamento‖ (TS 3) de São Francisco, a vossa primeira preocupação será a sublinhar o sentido e as consequências do nome que o vosso fundador vos deu: quis que vos chamasses ―frades‖, ―irmãos‖. Os termos fraternidade e irmão expressam de forma significativa para vós a novidade evangélica do ―mandamento novo‖. Ser irmãos deve caracterizar as vossas atitudes para com Deus, para convosco mesmos, para com os outros e para com as criaturas. Portanto, em função do valor fundamental evangélico da fraternidade vivida, a espiritualidade, o modo de viver, as opções práticas, os critérios pedagógicos, os sistemas de governo e de convivência, as actividades e métodos apostólicos, em suma, a vossa própria identidade carismática de grupo bem definido no seio da Igreja, assumem para vós conotações muito próprias. Esta forma de vida em fraternidade constitui um desafio e uma proposta no mundo actual, com frequência ―dilacerado pelo ódio étnico e pela loucura homicida‖, atiçada por paixões e por interesses contrastantes, pelo desejo duma unidade, mas incerta sobre o caminho a seguir (cf. Vita Consecrata, 51). Com efeito, a fraternidade evangélica, proposta ―quase como modelo e fermento de vida social, convida os homens a promover as relações fraternas entre si e a unir as forças com vista ao desenvolvimento e à libertação de toda a pessoa, assim como dum autêntico progresso social (CCGG 11,4). Como irmãos e membros da fraternidade, vós formais uma ―Ordem de irmãos‖. Este estilo fraterno, peculiar deve reflectir e favorecer o sentido da pertença de cada um a uma grande família sem fronteiras. Uma conversão contínua e total à fraternidade por parte dos indivíduos, das fraternidade locais e das províncias, poderá levá-los a uma espécie de globalização da caridade, vivida como irmãos a nível da Ordem, com a possibilidade real e plenamente normal de dispor dos recursos individuais e comunitários para o serviço fraterno e ―menorítico‖, conforme as exigências prioritárias e gerais de toda a fraternidade capuchinha. 70 3- Outro tema sobre o qual quereis deter-vos é o amor à pobreza à luz da ―menoridade‖. Este termo identifica a vossa denominação completa ―Frades Menores‖ e compreende ao mesmo tempo os demais aspectos significativos do carisma capuchinho, e a própria pobreza. Sobre as dimensão da menoridade, que deve caracterizar o vosso ser e actuar, concentra-se neste momento a atenção de toda a Ordem, tendo em vista o próximo Conselho Plenário. Estou certo que as reflexões emergentes deste ―Capítulo das Esteiras‖ contribuirão para compreender e para actuar cada vez mais de acordo com este valor que vos identifica na Igreja. Como tive oportunidade de vos dizer noutra ocasião, este valor torna-vos ―próximos e solidários com o povo humilde e simples‖ e faz das vossas fraternidades menoríticas ―um ponto de referência cordial e acessível para os mais pobres e para todos os que, sinceramente, buscam a Deus‖ (Mensagem de 18 de Setembro de 1996). A ―menoridade‖ implica um coração limpo, humilde, manso e simples, como Jesus propôs e como São Francisco viveu; requer uma renúncia total de si mesmo e uma disponibilidade plena para Deus e para os irmãos. A ―menoridade‖ vivida expressa a força desarmada e desarmante da dimensão espiritual na Igreja e no mundo. E não só isso! A ―menoridade‖ verdadeira liberta o coração e dispõe para um amor fraterno cada vez mais autêntico, que se dilata numa ampla constelação de comportamentos típicos. Favorece, por exemplo, um estilo caracterizado por atitudes de simplicidade e sinceridade, de espontaneidade e franqueza, de humildade e alegria, de abnegação e disponibilidade, de proximidade e serviço, especialmente com o povo e as pessoas mais necessitadas. 4- Além do amor fraterno e o amor pela pobreza, meditareis também sobre o amor fiel à Igreja. Este amor exige de vós, à imitação do vosso pai e irmão São Francisco, uma atitude de fé e de obediência, que se traduz no serviço humilde e criativo, capaz de transformar a vida num ―sinal‖ estimulante e convincente de fidelidade eclesial e de abertura aos irmãos‖. São Francisco fez-se promotor e porta-voz duma mensagem humilde mas incisiva de renovação evangélica, porque conseguiu propor o Evangelho na sua integridade e pureza, mediante uma vida caracterizada pelo amor, pela proximidade, o diálogo e a tolerância cristã. Testemunhai, queridos irmãos, a vossa obediência à Igreja, seguindo o coração e o estilo do vosso fundador. Trata-se de um compromisso sem descanso, que vos fará felizes e conscientes de gastar a existência pelo reino de Deus, em nome de Jesus. 71 5- Desejo de coração que o ―Capítulo das Esteiras‖ produza os frutos espirituais esperados e vos ajude a descobrir a direcção certa para avançar, fiéis ao vosso carisma, num mundo em transformação. É estimulante para vós que vos tenhais encontrado para reforçar a vossa vocação fraterna, como menores e eclesiais. Num clima de oração, de reflexão e de diálogo, podereis apreciar melhor a graça de serdes filhos e irmãos de São Francisco, sendo possível pôr em evidência a vossa missão no início do terceiro milénio. Discernindo e perscrutando o passado, abrir-vos-eis às exigências do presente, para construir juntos o futuro da vossa Ordem. Desejo, também, que este importante encontro vos ajude a compreender ainda mais o dever urgente de percorrer o ―caminho estreito‖ do Evangelho: o caminho da conversão permanente a Cristo, que é o caminho da santidade. Segundo o ensinamento evangélico, é necessário mudar o coração para que haja mudança sincera de vida. Ao contrário, corre-se o perigo de experimentar o desencanto e frustração, e resultariam inúteis as palavras e as propostas, por muito belas que sejam, os encontros e reuniões, e ficariam perdidas tantas energias gastas para elaborar programas espirituais e apostólicos. Que a Virgem ―Convertida em Igreja‖ (SVM), Santa Maria dos Anjos, Rainha da Ordem dos Menores, vos assista. Vos sustente e alente a intercessão constante de São Francisco e os inumeráveis santos e beatos capuchinhos, para que possais viver a fidelidade na transformação, mediante a conversão permanente do coração. Com estes votos, concede-vos a vós e aos demais irmãos da Itália e do mundo inteiro uma especial bênção apostólica. Vaticano 2 de Outubro de 2003 João Paulo II 72