É POSSÍVEL UMA EDUCAÇÃO Á DISTÂNCIA PARA AGRICULTORES
FAMILIARES?
Selma Lúcia Lira Beltrão
Juliana Andrea Oliveira Batista
Empresa brasileira de pesquisa agropecuária - Embrapa informação tecnológica
[email protected]
[email protected]
Brasília - Distrito Federal – Brasil
Resumo
O presente trabalho pretende analisar a adequação de curso de atualização para técnicos
agropecuários e de capacitação para agricultores familiares com uso da internet e a mediação de
audiovisuais, a partir de dois projetos atualmente em execução pela Empresa Brasileira de
Pesquisa Agropecuária – Embrapa, em territórios rurais, e buscar nos conceitos e experiências que
envolvem a Educação a Distancia (EAD) meios para o alcance dos objetivos principais desses
projetos.
Um deles é o projeto Minibibliotecas, cujo objetivo é democratizar o acesso às informações
e conhecimentos gerados pela pesquisa agropecuária para agricultores familiares, por meio de
seus filhos em idade escolar. O acervo que compõe o projeto é formado por cartilhas ilustradas,
áudios e vídeos com temas voltados para uma agricultura sustentável e os cuidados com o meio
ambiente.
O outro é um projeto denominado de Núcleos Piloto de Informação e Gestão Tecnológica
para a Agricultura Familiar. Os Núcleos Piloto funcionam como Telesalas, onde está sendo
desenvolvido um sistema de gestão de informações técnico-científicas para a Web em forma de
árvore hiperbólica, com linguagem simplificada e temas apropriados para a aprendizagem dos
agricultores e atualização de técnicos da assistência técnica e extensão rural.
A metodologia de análise desse trabalho é qualitativa e se baseia em entrevistas
semiestruturadas com técnicos, professores, alunos e agricultores envolvidos nesses projetos.
Os resultados iniciais mostram que a adoção de tecnologias de informação e comunicação
nos projetos tem se mostrado indicada para um processo de aprendizagem dialógica e mediada
pela tecnologia, e podem ser consideradas como uma aprendizagem do agricultor ao longo da
vida, pois, além da capacitação visam a melhoraria integral da qualidade de vida desses cidadãos
e de suas comunidades.
Palavras-Chave: educação a distancia, agricultura familiar, tecnologias de informação e
comunicação, políticas públicas.
1
Can a Distance Education for Family Farmers?
Abstract
This paper discusses the suitability of refresher course for technical and agricultural training
for farmers using the Internet and mediation of media, from two projects currently implemented by
the Brazilian Agricultural Research Corporation - Embrapa, in rural areas, and get the concepts and
experiments involving the Distance Education (EAD) means to achieve the main objectives of these
projects.
One is the Minibibliotecas project, whose goal is to democratize access to information and
knowledge generated by agricultural research to farmers through their school-age children. The
collection that makes up the project consists of illustrated booklets, audios and videos with themes
focused on sustainable agriculture and the care of the environment.
The other is a project called the Pilot information and technology management cluster for
family agriculture. The Pilot Cluster operate as telesales, which is being developed a management
system for technical and scientific information for the Web in the form of hyperbolic tree, with
simplified language and themes appropriate for the learning of farmers and update technical
assistance and rural extension. The methodology of this study is qualitative and is based on semistructured interviews with experts, teachers, students and farmers involved in these projects.
Initial results show that the adoption of information technologies and communication in
projects has proved suitable for a learning process based on dialogue and mediated by technology,
and can be considered as a farmer's learning throughout life, because in addition to training aimed
at improve the whole quality of life of citizens and their communities.
Keywords: distance education, family agriculture, information technology and communication,
public policy
2
Introdução
Em 2003, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, em
apoio à estratégia de governo Fome Zero1, e em parceria com o Ministério do
Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) implantou o projeto
Minibibliotecas do Semiárido com o objetivo de democratizar o acesso às
informações e conhecimentos gerados pela pesquisa agropecuária para os
agricultores familiares, por meio de seus filhos em idade escolar e que
freqüentassem escolas públicas do ensino fundamental e médio em áreas rurais,
em municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano 2 (IDH).
O acervo que compõe o projeto é formado por material impresso (cartilhas
ilustradas), áudios (CDs) e vídeos (DVDs), com temas voltados para a segurança
alimentar, agricultura sustentável e cuidados com o meio ambiente, a exemplo da
produção orgânica de frutas e hortaliças, criação de pequenos animais,
preparação de compostagem, como evitar a poluição das águas, convivência com
a seca, associativismo, cidadania e direitos.
E, em 2006, a instituição passou a fazer parte de um novo projeto,
denominado de Núcleos Piloto de Informação e Gestão Tecnológica para a
Agricultura Familiar (NAFs), dentro do programa Agrofuturo3 e de âmbito territorial,
com atuação em quatro territórios rurais (Sisal na Bahia, Grande Dourados em
Mato Grosso do Sul, Zona da Mata Sul em Pernambuco e Nordeste Paraense, em
Aurora do Pará).
O objetivo desse projeto é catalisar as competências existentes nas
diversas organizações, que compõem o aparato institucional existente na área de
abrangência do Núcleo Piloto, para promover intercâmbio e aprendizado entre
técnicos e agricultores, com vistas ao fortalecimento da agricultura familiar desses
territórios rurais4.
Para as ações de aprendizagem, atualização de técnicos da assistência
técnica e extensão rural das organizações que atuam nos territórios (sindicatos,
1
Fome Zero – criado em 2003 como um programa tornou uma estratégia em 2006. É uma estratégia impulsionada pelo
governo federal para assegurar o direito humano à alimentação adequada às pessoas com dificuldades de acesso aos
alimentos (http://www.fomezero.gov.br/o-que-e).
2
Para o cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH são computados os seguintes fatores: educação (taxas de
alfabetização e escolarização), longevidade (expectativa de vida da população) e renda (PIB per capita).
3
Programa de Apoio à Inovação Tecnológica e Novas Formas de Gestão na Pesquisa Agropecuária (Agrofuturo),
coordenado pela Embrapa e financiado com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID
4
Territórios Rurais são arranjos socioprodutivos intermunicipais instituídos pelo Programa de Desenvolvimento
Sustentável de Territórios Rurais (PDSTR), coordenado pela Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT) do
Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Representam espaços socialmente construídos, lugar de manifestação de
diversidades culturais e ambientais que expressão limites e potenciais para a promoção do desenvolvimento rural
sustentável (SDT/MDA: www.mda.gov.br).
3
associações, cooperativas, ONGs) e a capacitação dos agricultores foi
desenvolvido um sistema de organização, tratamento e disponibilização de
informações técnico-científica para a Web. As informações são organizadas de
forma hierárquica por meio de árvore hiperbólica, com uso de linguagem
simplificada, de recursos audiovisuais (áudios e vídeos) e temas apropriados às
demandas e necessidades dos sistemas produtivos de cada território rural.
Esse sistema é denominado de Árvore do Conhecimento da Agricultura
Familiar do Território e, associado à realização de cursos e unidades de
demonstração, busca fomentar a discussão sobre diversificação da produção e
comercialização dos sistemas produtivos locais, além de temas sobre
conservação dos recursos naturais, cultura local, histórico dos municípios que
compõem os territórios e atuação das organizações sociais locais.
A análise das entrevistas realizadas indica que, se compararmos os meios
usados nesses projetos com as modalidades mais utilizadas para a mediação na
Educação a Distancia (EAD), verifica-se que as Minibibliotecas têm funcionado
como um complemento ou apoio às ações pedagógicas das escolas voltadas para
a comunidade rural.
Seu acervo também tem sido utilizado nas escolas para estimular feiras de
ciências, criação de hortas e novas disciplinas, a exemplo da Escola Estadual
Professora Izaura Antônia de Lisboa, de Arapiraca (AL), que criou a disciplina de
Convivência com Semiárido apoiada nos conteúdos disponíveis nas cartilhas,
vídeos e áudios. As entrevistas com agricultores e lideranças de diversas
associações de agricultores familiares e outras entidades locais também
identificou que essas têm adotado os recursos das Minibibliotecas para fomentar
debates e palestras com agricultores e jovens rurais sobre a viabilidade de adoção
de determinadas técnicas na solução de problemas relacionados à produção
agropecuária.
Quanto aos Núcleos Piloto, esses deverão funcionar como Telesalas, uma
vez que dispõem de espaço físico com computadores, internet, data show e outros
recursos disponíveis para palestras, cursos e outras atividades de capacitação.
Nesses espaços os técnicos e agentes públicos (representantes das
instituições oficiais de pesquisa e extensão rural da região) e das organizações
sociais locais farão suas atualizações a partir do acesso à Árvore do
Conhecimento da Agricultura Familiar do Território, de outros repositórios
disponíveis na Web e do acervo das Minibibliotecas. E, em seguida, discutirão
com os agricultores as informações usando todos esses recursos, sempre
procurando explorar os saberes e experiências vivenciadas e já estabelecidas nos
territórios, e assim capacitar os agricultores para chegarem à solução de
problemas que afetam à produção, ao meio ambiente ou ao desenvolvimento
local.
4
Dessa forma, a proposta é que os técnicos e os próprios agricultores, por
meio desse método, compreendam os processos e técnicas disponíveis,
construam novos conhecimentos e se apropriem dos já existentes para superar os
impasses encontrados na produção agropecuária. Por isso, a introdução de
tecnologias de informação e comunicação no processo tem se mostrado, até o
momento, a mais indicada para um processo de aprendizagem dialógica e
mediada pela tecnologia.
Hoje o projeto de desenvolvimento das Árvores do Conhecimento nos
Núcleos Piloto está em fase de desenvolvimento, inserção e revisão de conteúdos
nos seus nós e subnós, e este trabalho está sendo realizado de forma
compartilhada com as instituições públicas e demais organizações que atuam
junto aos agricultores nos territórios.
Este processo busca, guardadas as suas especificidades, um modelo de
comunicação baseada no diálogo, conforme defendido por Paulo Freire no final da
década de 60, e retomado pela teoria das comunicações com as potencialidades
abertas pelas tecnologias interativas. Modelo que se atualiza com o aceno das
tecnologias interativas para a quebra da unidirecionalidade e da concentração das
comunicações (Lima, 2004, p. 67).
1. A relação entre tecnologia e sociedade - porque a máquina não deve
transcender a educação dialógica
Desde o final da Idade Média, a ciência moderna passou a ser vista como
um instrumento de domínio da natureza e de emancipação do homem. E,
enquanto a ciência estava unida à teoria, a técnica (utensílios e aparatos)
relacionava-se a certo tipo de saber instrumental.
Com o surgimento da máquina, a partir da exploração dos recursos naturais
para gerar os bens de produção e consumo, surgiu também a expressão
tecnologia - que no século XIX passou a tornar-se referência para a criação do
mundo social histórico, em detrimento da religião, da política, da educação e da
arte. “Com a investigação industrial de grande estilo, a ciência, a técnica e a
revalorização do capital começam a confluir num único sistema” (HABERMAS,
1990, p. 28).
Na ampliação da Revolução Industrial para países industrializados da
Europa e América do Norte, ocorreu o primeiro estágio de expansionismo
tecnológico e a formação de um sistema capitalista internacional. O segundo
surgiu com o advento da eletricidade, seguida da invenção do transistor que
revolucionou o mundo das máquinas e anos depois deu início à chamada
miniaturização das tecnologias, “promovendo grande impulso em todo o
desenvolvimento dos sistemas de comunicação em informação” (PRETTO, 1996,
p. 1). E o terceiro a partir da crescente automação dos sistemas e de tecnologias
5
capazes de codificar e manejar o próprio ser humano, a exemplo do DNA, da
clonagem e dos transgênicos.
A partir da década de 70, as transformações nas tecnologias de informação
e comunicação proporcionaram as bases da chamada Sociedade da Informação
ou Sociedade do Conhecimento, que introduziu gradativamente a informática na
sociedade e se aprofundou nas décadas seguintes com a popularização dos
computadores pessoais e as redes telemáticas. Essas últimas passaram a
constituir as novas tecnologias de informação e comunicação (MATELLART, 2001,
p. 53).
Alguns autores como Scott Lash (2002) construiu uma projeção
extremamente positiva quanto à possibilidade do novo meio de comunicação
informacional, visto sob a ótica de veículo, restaurar o espaço público e até tornarse uma espécie de Ágora Virtual para atender à demanda de livre expressão não
obtida nos meios tradicionais de comunicação. No entanto, embora seja crescente
o número de pessoas com acesso às redes de computadores, poucos têm a
oportunidade de usá-la como meio para promoção seja social, econômica ou
intelectual.
Foi no final do século XX que a sociedade começou a viver mais
profundamente um novo ciclo de transformações em todas as áreas do
conhecimento, especialmente no desenvolvimento de tecnologias cujo foco direto
não era mais a economia, mas “o próprio modo de ser humano” (RÜDIGER, 2007,
p. 70). E, ao mesmo tempo, o capitalismo assumiu a informação como forma de
mercadoria, encetando o desejo e até mesmo o fetichismo pelo tecnológico.
Castells (1999, p. 35) lembra que atualmente o capitalismo assiste a uma
mudança que consiste na passagem do padrão industrial para o padrão
informacional de desenvolvimento. As relações de propriedade e de produção
estão sendo substituídas por relações de acesso ao capital científico e
tecnológico. Apesar de certo determinismo tecnológico, este autor ainda defende
que as tecnologias de informação ensejam o aparecimento de um novo paradigma
ou modelo de vida que afeta as condições de funcionamento e a eficiência de
todos os processos de produção, consumo e gerenciamento existentes.
Para Rüdiger (2007, p. 81) “o capitalismo moderno tornou a tecnologia um
princípio de dominação política”. A tecnologia também pode se converter em
ideologia, quando a resolução de problemas que ela pretender ser torna-se um fim
em si mesmo. Logo a tecnologia não é neutra. Mas, como alerta Feenberg (2007),
a humanidade não tem que se voltar contra a tecnologia, pois o problema não está
no produto em si, mas nas possibilidades de escolha de progresso que fazemos a
partir delas.
E como a sociedade pós-moderna é dependente da tecnociência ou
tecnocultura devemos buscar alternativas para o uso da tecnologia que levem em
6
conta a necessidade de uma intervenção consciente do ser humano no uso e
desenvolvimento das mesmas.
Esta ação exige postura crítica e participação ativa da sociedade
contemporânea frente aos efeitos da dominação da tecnologia, da obsessão
humana pelo controle da natureza e de si mesmos, ou seja, da nossa existência,
bem como para a criação e manutenção de processos comunicativos que
promovam a reflexão crítica do ser humano e não a hegemonia ideológica.
No contexto do meio rural brasileiro, a introdução de novas tecnologias
ocorreu a partir da década de 60 com o surgimento do Difusionismo, usando
modelos de comunicação baseados na persuasão, como forma de influenciar o
agricultor a aderir aos pacotes tecnológicos5 estimulados pela estratégia
governamental de modernização da agricultura no contexto da Revolução Verde6,
mas sem lhe dar condições de escolha ou decisão. Isto é, negando-o como sujeito
e protagonista do processo.
2. As Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e a Educação a
Distância
A expressão adotada por alguns autores a qual afirma que, na Sociedade
da Informação é preciso o desenvolvimento de uma nova educação para os seres
humanos “aprenderem a aprender”, impõe à educação e aos processos
pedagógicos de formação especializada e de capacitação uma responsabilidade
ainda maior. Não apenas no sentido de garantir ao aprendiz uma educação
informacional, isto é, torná-lo conhecedor da linguagem telemática (informática e
internet), mas para ser capaz de apropriar-se do conhecimento que “o dominador”
disponibiliza no ciberespaço7.
Para integrar a adoção de tecnologias de informação e comunicação sem
se deixar seduzir pelo “caráter privatista do capital, hoje em sua fase
informacional” (MORAES, 2003, p.126) é preciso que o projeto político pedagógico
5
Pacotes Tecnológicos – conjunto de técnicas/práticas e procedimentos agronômicos que se articulam entre si
e são aplicados indivisivelmente numa lavoura ou criação, segundo padrões estabelecidos pela pesquisa
(AGUIAR, R. C de - Abrindo o pacote tecnológico: Estado e pesquisa agropecuária no Brasil. São Paulo:
Polis; Brasília: CNPq, 1986, p. 42).
6
Revolução Verde - Modelo internacional que buscava o aumento da produtividade agrícola mediante
alterações na base genética de um conjunto de espécies vegetais, articulada com o emprego de um pacote
integrado de técnicas que incluía sementes, insumos químicos, irrigação e mecanização (AGUIAR, R. C de Abrindo o pacote tecnológico: Estado e pesquisa agropecuária no Brasil. São Paulo: Polis; Brasília: CNPq,
1986, p. 40).
7
O ciberespaço descreve e delimita o espaço virtual de comunicação e informação, onde se cruzam e
interagem conhecimentos científicos, informações para vida cotidiana e seres virtuais (RÜDIGER, F. R. –
Introdução às teorias da cibercultura: perspectiva do pensamento tecnológico contemporâneo. Porto Alegre:
Sulina, 2ª ed., 2007).
7
tenha como proposta levar o aprendiz a refletir sobre a adequação ou não desses
conhecimentos para a sua formação e seu trabalho, de expressar sua opinião de
forma autônoma e poder descobrir verdades por si mesmo, ação que Gramsci
(1968) denomina de criação. E assim não se deixar seduzir pelo uso da tecnologia
de controle privado como solução em si mesma para seus problemas e os da
humanidade.
É sob essa ótica que as tecnologias de informação e comunicação devem
ser adotadas na educação, ou seja, enquanto um processo de comunicação como
lembra McLuhan (1971). Nesses processos, seja de Educação a Distancia (EAD)
ou mesmo presencial, essas tecnologias são importantes ferramentas e suportes
de mediação pedagógica, e de interação entre os atores envolvidos (educadores,
aprendiz, elaboradores de conteúdos, gestores), pois ajudam a superar as
demandas sociais do nosso século e barreiras como a distancia no espaço e no
tempo.
Diversos autores já reconhecem que o uso das tecnologias de informação
e comunicação tem alterado sobremaneira as relações pessoais. E, se por um
lado essas TICs permitem liberdade e rompimento das fronteiras (hierarquia,
distancia), aproximando pessoas que geograficamente teriam dificuldades de se
conhecerem, dialogarem ou ter acesso a fontes de informações e conhecimentos,
por outro têm alterado o comportamento e os valores da sociedade.
A preocupação com a linguagem a ser adotada nessas novas tecnologias e
nos materiais com objetivo de ensino e aprendizagem, também deve ocupar lugar
de destaque nos programas que adotam a metodologia da EAD.
Um desafio necessário é saber combinar a linguagem dos diversos meios
tecnológicos, e abordar diferentes temas e problemas atuais para ajudar o
aprendiz a refletir melhor sobre o que lhe é ensinado, especialmente em áreas
como a educação comunitária e para a mudança social, como defende Pereira
(2002, p. 256), e que tem sido um foco de preocupação dos projetos em execução
pela Embrapa.
Outro desafio é aproximar essa linguagem da realidade sociocultural, dos
conhecimentos e experiências do aprendiz para atender suas expectativas e
estabelecer identidade com os mesmos. Isto porque a educação é também um
processo de troca de saberes e, portanto, precisa reconhecer por meio da
linguagem os diversos conhecimentos envolvidos no projeto.
É importante diferenciar conceitualmente informação de conhecimento. A
informação é a matéria-prima das tecnologias de informação e comunicação, a
rigor trata-se de um processo informativo que é comunicado. E, como defende
Castells (1999, p. 62), a informação constitui a matéria bruta do paradigma da
tecnologia da informação. Enquanto o conhecimento, como afirma Dieuzeide
(1994, p. 31) “ainda não é saber, e o saber escolar não é todo saber: ele é seleção
8
e interpretação dos conhecimentos cuja aquisição é julgada indispensável ao
desenvolvimento pessoal e à competência dos que aprendem”.
Iniciativas que visam à adoção de método de EAD em educação informal ou
não-formal, isto é, que não têm como objetivo a escolarização, e são voltadas para
uma clientela dispersa geograficamente a exemplo do público rural como forma de
integração desses cidadãos na Sociedade do Conhecimento têm se intensificado
no Brasil. Principalmente por meio de políticas públicas direcionadas para os
territórios rurais recentemente constituídos na política de desenvolvimento rural
sustentável.
Nesse sentido, instituições não educacionais têm também desenvolvido
programas baseado na EAD com o objetivo de atualizarem profissionais e
capacitarem agricultores – muitos com baixa escolaridade formal – para o domínio
de novas tecnologias e para o desenvolvimento social e humano. Esses
programas tratam, em geral, de assistência rural, associativismo, cidadania, direito
e meio ambiente.
Neste caso, a educação surge como uma perspectiva de troca de saberes
ao longo da vida dos agricultores e encontra suas bases “na crença ilimitada da
acessibilidade de todos ao saber como condição de emancipação do indivíduocidadão” (BELLONI, 2008, p. 49) e, como reforça Leff (2004, p. 64), “a troca de
saberes promove novas significações sociais e posicionamentos políticos frente ao
mundo”.
9
Conclusão:
Na sociedade contemporânea ou sociedade pós-moderna como alguns
autores denominam a questão tecnológica, especialmente o uso das tecnologias
de informação e comunicação, também diz respeito à problemática existencial e
ao universo de representações simbólicas do homem na sociedade. Pois as
pessoas se sentem seduzidas pelas comodidades e luxos oferecidos pelas novas
tecnologias. Mas esse homem também se sente dividido nesse novo mundo e
questiona-se quanto à necessidade real de acesso a tais tecnologias porque, na
maioria das vezes, encontra-se ainda excluído dos seus benefícios.
Por isso, é fundamental que o Estado e as instituições públicas promovam
políticas que busquem não apenas o acesso das pessoas às informações e
conhecimentos, ou seja, o acesso público, mas, sobretudo, que também garantam
a possibilidade de promover sua autonomia e emancipação.
Para isso é preciso promover ações que capacitem os profissionais
envolvidos nesses programas para conhecerem as tecnologias que serão
adotadas, sua linguagem e potencialidades, mas que esses profissionais também
tenham conhecimento claro das expectativas e realidade daqueles que são
aprendiz no processo.
Dessa forma, as ações em execução pela Embrapa em territórios rurais são
exemplos de programas que podem ser considerados como uma aprendizagem
ao longo da vida. Pois, além da capacitação do agricultor, visam a melhoraria
integral da qualidade de vida desses cidadãos e o desenvolvimento rural
sustentável dos espaços socialmente construídos que constituem esses territórios.
E, assim como o sistema educacional brasileiro exige transformações
estruturais urgentes, tanto para a metodologia tradicional (ensino presencial)
quanto para a Educação a Distancia (EAD) e maior articulação com os sistemas
de informação e comunicação, os programas de educação informal também
exigem maior integração com outras políticas públicas.
Entre as políticas necessárias para essa articulação está a de inclusão
social e digital para prover, inicialmente, o acesso de agricultores à internet, como
no caso dos programas da Embrapa; e promover a educação desses agricultores
para o uso das tecnologias de comunicação e informação, mas de forma a
estimular nos mesmos a reflexão e a compreensão de que sua capacidade de
aprendizagem e emancipação está em si próprios e não nas tecnologias.
Selma Lúcia Lira Beltrão Jornalista, Mestranda do Centro de Desenvolvimento Sustentável da
Universidade de Brasília (CDS/UnB), na área de concentração de Política e Gestão de C&T,
Analista da Embrapa Informação Tecnológica, Brasil, Brasília - Distrito Federal,
Juliana Andrea Oliveira Batista Pedagoga com Especialização em Extensão Rural para o
Desenvolvimento Sustentável pelo CDS/UNB, Analista da Embrapa Informação Tecnológica,
Brasil, Brasília - Distrito Federal
10
Referências
BELLONI, Maria Luiza – Educação a Distancia, 5ª ed., Campinas: Autores
Associados, 2008.
CASTELLS, Manuel - A Sociedade em Rede, São Paulo: Paz e Terra, 1999.
DIEUZEIDE, H. – Les Nouvelles Technologies. Paris: Nathan/UNESCO, 1994.
FEENBERG,
Andrew
–
O
que
é
Filosofia
(http://www.sfu.ca/~andrewf) acesso: fevereiro 2007
da
Tecnologia?
FREIRE, Paulo – Extensão ou Comunicação? , 12ª ed., Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1977.
GRAMSCI, A. – Os intelectuais e a organização da cultura, Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1968.
HABERMAS, J. – Ciência e técnica como ideologia. Lisboa: Dom Quixote, 1990.
LASH, S. – Critique of Information. Oxford: Polity Press, 2002.
LEFF, Enrique – Aventuras da epistemologia ambiental – Da articulação das
ciências ao diálogo de saberes. 2ª ed., Rio de Janeiro: Garamound, 2004.
Coleção Idéias Sustentáveis.
LIMA, Venício A. – A mídia: Teoria e Política. São Paulo: Fundação Perseu
Abramo, 2004.
MATTELART, Armand – História da sociedade da informação. São Paulo:
Loyola, 2001.
MORAES, Raquel de Almeida – Educação a Distancia: Aspectos históricos e
filosóficos, In: Linguagens e Interatividade na Educação a Distancia,
FIORENTINI, Leda Maria Rangearo e MORAES, Rachel de Almeida (Orgs.), Rio
de Janeiro: DP&A, 2003.
PEREIRA, Eva W. - Expansão e diversidade. In: Formação de professores a
distância: experiências brasileiras. Universidade Aberta de Portugal (Tese de
Doutorado). 2002, p. 255-269.
PRETTO, Nelson – Educação e inovação tecnológica: Um olhar sobre as políticas
públicas brasileiras. In: Educação e Novo Milênio: as novas tecnologias da
comunicação e informação e a educação, 1998. Disponível em: < http://
WWW.ufba.br/~pretto
11
RUDIGER, Francisco Ricardo - Introdução às teorias da Cibercultura:
perspectiva do pensamento tecnológico contemporâneo, 2ª ed., Porto Alegre:
Sulina, 2007.
12
Download

É possível uma Educação a Distancia para a Agricultura Familiar