É POSSÍVEL UMA EDUCAÇÃO Á DISTÂNCIA PARA AGRICULTORES FAMILIARES? Selma Lúcia Lira Beltrão Juliana Andrea Oliveira Batista Empresa brasileira de pesquisa agropecuária - Embrapa informação tecnológica [email protected] [email protected] Brasília - Distrito Federal – Brasil Resumo O presente trabalho pretende analisar a adequação de curso de atualização para técnicos agropecuários e de capacitação para agricultores familiares com uso da internet e a mediação de audiovisuais, a partir de dois projetos atualmente em execução pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, em territórios rurais, e buscar nos conceitos e experiências que envolvem a Educação a Distancia (EAD) meios para o alcance dos objetivos principais desses projetos. Um deles é o projeto Minibibliotecas, cujo objetivo é democratizar o acesso às informações e conhecimentos gerados pela pesquisa agropecuária para agricultores familiares, por meio de seus filhos em idade escolar. O acervo que compõe o projeto é formado por cartilhas ilustradas, áudios e vídeos com temas voltados para uma agricultura sustentável e os cuidados com o meio ambiente. O outro é um projeto denominado de Núcleos Piloto de Informação e Gestão Tecnológica para a Agricultura Familiar. Os Núcleos Piloto funcionam como Telesalas, onde está sendo desenvolvido um sistema de gestão de informações técnico-científicas para a Web em forma de árvore hiperbólica, com linguagem simplificada e temas apropriados para a aprendizagem dos agricultores e atualização de técnicos da assistência técnica e extensão rural. A metodologia de análise desse trabalho é qualitativa e se baseia em entrevistas semiestruturadas com técnicos, professores, alunos e agricultores envolvidos nesses projetos. Os resultados iniciais mostram que a adoção de tecnologias de informação e comunicação nos projetos tem se mostrado indicada para um processo de aprendizagem dialógica e mediada pela tecnologia, e podem ser consideradas como uma aprendizagem do agricultor ao longo da vida, pois, além da capacitação visam a melhoraria integral da qualidade de vida desses cidadãos e de suas comunidades. Palavras-Chave: educação a distancia, agricultura familiar, tecnologias de informação e comunicação, políticas públicas. 1 Can a Distance Education for Family Farmers? Abstract This paper discusses the suitability of refresher course for technical and agricultural training for farmers using the Internet and mediation of media, from two projects currently implemented by the Brazilian Agricultural Research Corporation - Embrapa, in rural areas, and get the concepts and experiments involving the Distance Education (EAD) means to achieve the main objectives of these projects. One is the Minibibliotecas project, whose goal is to democratize access to information and knowledge generated by agricultural research to farmers through their school-age children. The collection that makes up the project consists of illustrated booklets, audios and videos with themes focused on sustainable agriculture and the care of the environment. The other is a project called the Pilot information and technology management cluster for family agriculture. The Pilot Cluster operate as telesales, which is being developed a management system for technical and scientific information for the Web in the form of hyperbolic tree, with simplified language and themes appropriate for the learning of farmers and update technical assistance and rural extension. The methodology of this study is qualitative and is based on semistructured interviews with experts, teachers, students and farmers involved in these projects. Initial results show that the adoption of information technologies and communication in projects has proved suitable for a learning process based on dialogue and mediated by technology, and can be considered as a farmer's learning throughout life, because in addition to training aimed at improve the whole quality of life of citizens and their communities. Keywords: distance education, family agriculture, information technology and communication, public policy 2 Introdução Em 2003, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária – Embrapa, em apoio à estratégia de governo Fome Zero1, e em parceria com o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome (MDS) implantou o projeto Minibibliotecas do Semiárido com o objetivo de democratizar o acesso às informações e conhecimentos gerados pela pesquisa agropecuária para os agricultores familiares, por meio de seus filhos em idade escolar e que freqüentassem escolas públicas do ensino fundamental e médio em áreas rurais, em municípios com baixo Índice de Desenvolvimento Humano 2 (IDH). O acervo que compõe o projeto é formado por material impresso (cartilhas ilustradas), áudios (CDs) e vídeos (DVDs), com temas voltados para a segurança alimentar, agricultura sustentável e cuidados com o meio ambiente, a exemplo da produção orgânica de frutas e hortaliças, criação de pequenos animais, preparação de compostagem, como evitar a poluição das águas, convivência com a seca, associativismo, cidadania e direitos. E, em 2006, a instituição passou a fazer parte de um novo projeto, denominado de Núcleos Piloto de Informação e Gestão Tecnológica para a Agricultura Familiar (NAFs), dentro do programa Agrofuturo3 e de âmbito territorial, com atuação em quatro territórios rurais (Sisal na Bahia, Grande Dourados em Mato Grosso do Sul, Zona da Mata Sul em Pernambuco e Nordeste Paraense, em Aurora do Pará). O objetivo desse projeto é catalisar as competências existentes nas diversas organizações, que compõem o aparato institucional existente na área de abrangência do Núcleo Piloto, para promover intercâmbio e aprendizado entre técnicos e agricultores, com vistas ao fortalecimento da agricultura familiar desses territórios rurais4. Para as ações de aprendizagem, atualização de técnicos da assistência técnica e extensão rural das organizações que atuam nos territórios (sindicatos, 1 Fome Zero – criado em 2003 como um programa tornou uma estratégia em 2006. É uma estratégia impulsionada pelo governo federal para assegurar o direito humano à alimentação adequada às pessoas com dificuldades de acesso aos alimentos (http://www.fomezero.gov.br/o-que-e). 2 Para o cálculo do Índice de Desenvolvimento Humano – IDH são computados os seguintes fatores: educação (taxas de alfabetização e escolarização), longevidade (expectativa de vida da população) e renda (PIB per capita). 3 Programa de Apoio à Inovação Tecnológica e Novas Formas de Gestão na Pesquisa Agropecuária (Agrofuturo), coordenado pela Embrapa e financiado com recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID 4 Territórios Rurais são arranjos socioprodutivos intermunicipais instituídos pelo Programa de Desenvolvimento Sustentável de Territórios Rurais (PDSTR), coordenado pela Secretaria de Desenvolvimento Territorial (SDT) do Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA). Representam espaços socialmente construídos, lugar de manifestação de diversidades culturais e ambientais que expressão limites e potenciais para a promoção do desenvolvimento rural sustentável (SDT/MDA: www.mda.gov.br). 3 associações, cooperativas, ONGs) e a capacitação dos agricultores foi desenvolvido um sistema de organização, tratamento e disponibilização de informações técnico-científica para a Web. As informações são organizadas de forma hierárquica por meio de árvore hiperbólica, com uso de linguagem simplificada, de recursos audiovisuais (áudios e vídeos) e temas apropriados às demandas e necessidades dos sistemas produtivos de cada território rural. Esse sistema é denominado de Árvore do Conhecimento da Agricultura Familiar do Território e, associado à realização de cursos e unidades de demonstração, busca fomentar a discussão sobre diversificação da produção e comercialização dos sistemas produtivos locais, além de temas sobre conservação dos recursos naturais, cultura local, histórico dos municípios que compõem os territórios e atuação das organizações sociais locais. A análise das entrevistas realizadas indica que, se compararmos os meios usados nesses projetos com as modalidades mais utilizadas para a mediação na Educação a Distancia (EAD), verifica-se que as Minibibliotecas têm funcionado como um complemento ou apoio às ações pedagógicas das escolas voltadas para a comunidade rural. Seu acervo também tem sido utilizado nas escolas para estimular feiras de ciências, criação de hortas e novas disciplinas, a exemplo da Escola Estadual Professora Izaura Antônia de Lisboa, de Arapiraca (AL), que criou a disciplina de Convivência com Semiárido apoiada nos conteúdos disponíveis nas cartilhas, vídeos e áudios. As entrevistas com agricultores e lideranças de diversas associações de agricultores familiares e outras entidades locais também identificou que essas têm adotado os recursos das Minibibliotecas para fomentar debates e palestras com agricultores e jovens rurais sobre a viabilidade de adoção de determinadas técnicas na solução de problemas relacionados à produção agropecuária. Quanto aos Núcleos Piloto, esses deverão funcionar como Telesalas, uma vez que dispõem de espaço físico com computadores, internet, data show e outros recursos disponíveis para palestras, cursos e outras atividades de capacitação. Nesses espaços os técnicos e agentes públicos (representantes das instituições oficiais de pesquisa e extensão rural da região) e das organizações sociais locais farão suas atualizações a partir do acesso à Árvore do Conhecimento da Agricultura Familiar do Território, de outros repositórios disponíveis na Web e do acervo das Minibibliotecas. E, em seguida, discutirão com os agricultores as informações usando todos esses recursos, sempre procurando explorar os saberes e experiências vivenciadas e já estabelecidas nos territórios, e assim capacitar os agricultores para chegarem à solução de problemas que afetam à produção, ao meio ambiente ou ao desenvolvimento local. 4 Dessa forma, a proposta é que os técnicos e os próprios agricultores, por meio desse método, compreendam os processos e técnicas disponíveis, construam novos conhecimentos e se apropriem dos já existentes para superar os impasses encontrados na produção agropecuária. Por isso, a introdução de tecnologias de informação e comunicação no processo tem se mostrado, até o momento, a mais indicada para um processo de aprendizagem dialógica e mediada pela tecnologia. Hoje o projeto de desenvolvimento das Árvores do Conhecimento nos Núcleos Piloto está em fase de desenvolvimento, inserção e revisão de conteúdos nos seus nós e subnós, e este trabalho está sendo realizado de forma compartilhada com as instituições públicas e demais organizações que atuam junto aos agricultores nos territórios. Este processo busca, guardadas as suas especificidades, um modelo de comunicação baseada no diálogo, conforme defendido por Paulo Freire no final da década de 60, e retomado pela teoria das comunicações com as potencialidades abertas pelas tecnologias interativas. Modelo que se atualiza com o aceno das tecnologias interativas para a quebra da unidirecionalidade e da concentração das comunicações (Lima, 2004, p. 67). 1. A relação entre tecnologia e sociedade - porque a máquina não deve transcender a educação dialógica Desde o final da Idade Média, a ciência moderna passou a ser vista como um instrumento de domínio da natureza e de emancipação do homem. E, enquanto a ciência estava unida à teoria, a técnica (utensílios e aparatos) relacionava-se a certo tipo de saber instrumental. Com o surgimento da máquina, a partir da exploração dos recursos naturais para gerar os bens de produção e consumo, surgiu também a expressão tecnologia - que no século XIX passou a tornar-se referência para a criação do mundo social histórico, em detrimento da religião, da política, da educação e da arte. “Com a investigação industrial de grande estilo, a ciência, a técnica e a revalorização do capital começam a confluir num único sistema” (HABERMAS, 1990, p. 28). Na ampliação da Revolução Industrial para países industrializados da Europa e América do Norte, ocorreu o primeiro estágio de expansionismo tecnológico e a formação de um sistema capitalista internacional. O segundo surgiu com o advento da eletricidade, seguida da invenção do transistor que revolucionou o mundo das máquinas e anos depois deu início à chamada miniaturização das tecnologias, “promovendo grande impulso em todo o desenvolvimento dos sistemas de comunicação em informação” (PRETTO, 1996, p. 1). E o terceiro a partir da crescente automação dos sistemas e de tecnologias 5 capazes de codificar e manejar o próprio ser humano, a exemplo do DNA, da clonagem e dos transgênicos. A partir da década de 70, as transformações nas tecnologias de informação e comunicação proporcionaram as bases da chamada Sociedade da Informação ou Sociedade do Conhecimento, que introduziu gradativamente a informática na sociedade e se aprofundou nas décadas seguintes com a popularização dos computadores pessoais e as redes telemáticas. Essas últimas passaram a constituir as novas tecnologias de informação e comunicação (MATELLART, 2001, p. 53). Alguns autores como Scott Lash (2002) construiu uma projeção extremamente positiva quanto à possibilidade do novo meio de comunicação informacional, visto sob a ótica de veículo, restaurar o espaço público e até tornarse uma espécie de Ágora Virtual para atender à demanda de livre expressão não obtida nos meios tradicionais de comunicação. No entanto, embora seja crescente o número de pessoas com acesso às redes de computadores, poucos têm a oportunidade de usá-la como meio para promoção seja social, econômica ou intelectual. Foi no final do século XX que a sociedade começou a viver mais profundamente um novo ciclo de transformações em todas as áreas do conhecimento, especialmente no desenvolvimento de tecnologias cujo foco direto não era mais a economia, mas “o próprio modo de ser humano” (RÜDIGER, 2007, p. 70). E, ao mesmo tempo, o capitalismo assumiu a informação como forma de mercadoria, encetando o desejo e até mesmo o fetichismo pelo tecnológico. Castells (1999, p. 35) lembra que atualmente o capitalismo assiste a uma mudança que consiste na passagem do padrão industrial para o padrão informacional de desenvolvimento. As relações de propriedade e de produção estão sendo substituídas por relações de acesso ao capital científico e tecnológico. Apesar de certo determinismo tecnológico, este autor ainda defende que as tecnologias de informação ensejam o aparecimento de um novo paradigma ou modelo de vida que afeta as condições de funcionamento e a eficiência de todos os processos de produção, consumo e gerenciamento existentes. Para Rüdiger (2007, p. 81) “o capitalismo moderno tornou a tecnologia um princípio de dominação política”. A tecnologia também pode se converter em ideologia, quando a resolução de problemas que ela pretender ser torna-se um fim em si mesmo. Logo a tecnologia não é neutra. Mas, como alerta Feenberg (2007), a humanidade não tem que se voltar contra a tecnologia, pois o problema não está no produto em si, mas nas possibilidades de escolha de progresso que fazemos a partir delas. E como a sociedade pós-moderna é dependente da tecnociência ou tecnocultura devemos buscar alternativas para o uso da tecnologia que levem em 6 conta a necessidade de uma intervenção consciente do ser humano no uso e desenvolvimento das mesmas. Esta ação exige postura crítica e participação ativa da sociedade contemporânea frente aos efeitos da dominação da tecnologia, da obsessão humana pelo controle da natureza e de si mesmos, ou seja, da nossa existência, bem como para a criação e manutenção de processos comunicativos que promovam a reflexão crítica do ser humano e não a hegemonia ideológica. No contexto do meio rural brasileiro, a introdução de novas tecnologias ocorreu a partir da década de 60 com o surgimento do Difusionismo, usando modelos de comunicação baseados na persuasão, como forma de influenciar o agricultor a aderir aos pacotes tecnológicos5 estimulados pela estratégia governamental de modernização da agricultura no contexto da Revolução Verde6, mas sem lhe dar condições de escolha ou decisão. Isto é, negando-o como sujeito e protagonista do processo. 2. As Novas Tecnologias de Informação e Comunicação e a Educação a Distância A expressão adotada por alguns autores a qual afirma que, na Sociedade da Informação é preciso o desenvolvimento de uma nova educação para os seres humanos “aprenderem a aprender”, impõe à educação e aos processos pedagógicos de formação especializada e de capacitação uma responsabilidade ainda maior. Não apenas no sentido de garantir ao aprendiz uma educação informacional, isto é, torná-lo conhecedor da linguagem telemática (informática e internet), mas para ser capaz de apropriar-se do conhecimento que “o dominador” disponibiliza no ciberespaço7. Para integrar a adoção de tecnologias de informação e comunicação sem se deixar seduzir pelo “caráter privatista do capital, hoje em sua fase informacional” (MORAES, 2003, p.126) é preciso que o projeto político pedagógico 5 Pacotes Tecnológicos – conjunto de técnicas/práticas e procedimentos agronômicos que se articulam entre si e são aplicados indivisivelmente numa lavoura ou criação, segundo padrões estabelecidos pela pesquisa (AGUIAR, R. C de - Abrindo o pacote tecnológico: Estado e pesquisa agropecuária no Brasil. São Paulo: Polis; Brasília: CNPq, 1986, p. 42). 6 Revolução Verde - Modelo internacional que buscava o aumento da produtividade agrícola mediante alterações na base genética de um conjunto de espécies vegetais, articulada com o emprego de um pacote integrado de técnicas que incluía sementes, insumos químicos, irrigação e mecanização (AGUIAR, R. C de Abrindo o pacote tecnológico: Estado e pesquisa agropecuária no Brasil. São Paulo: Polis; Brasília: CNPq, 1986, p. 40). 7 O ciberespaço descreve e delimita o espaço virtual de comunicação e informação, onde se cruzam e interagem conhecimentos científicos, informações para vida cotidiana e seres virtuais (RÜDIGER, F. R. – Introdução às teorias da cibercultura: perspectiva do pensamento tecnológico contemporâneo. Porto Alegre: Sulina, 2ª ed., 2007). 7 tenha como proposta levar o aprendiz a refletir sobre a adequação ou não desses conhecimentos para a sua formação e seu trabalho, de expressar sua opinião de forma autônoma e poder descobrir verdades por si mesmo, ação que Gramsci (1968) denomina de criação. E assim não se deixar seduzir pelo uso da tecnologia de controle privado como solução em si mesma para seus problemas e os da humanidade. É sob essa ótica que as tecnologias de informação e comunicação devem ser adotadas na educação, ou seja, enquanto um processo de comunicação como lembra McLuhan (1971). Nesses processos, seja de Educação a Distancia (EAD) ou mesmo presencial, essas tecnologias são importantes ferramentas e suportes de mediação pedagógica, e de interação entre os atores envolvidos (educadores, aprendiz, elaboradores de conteúdos, gestores), pois ajudam a superar as demandas sociais do nosso século e barreiras como a distancia no espaço e no tempo. Diversos autores já reconhecem que o uso das tecnologias de informação e comunicação tem alterado sobremaneira as relações pessoais. E, se por um lado essas TICs permitem liberdade e rompimento das fronteiras (hierarquia, distancia), aproximando pessoas que geograficamente teriam dificuldades de se conhecerem, dialogarem ou ter acesso a fontes de informações e conhecimentos, por outro têm alterado o comportamento e os valores da sociedade. A preocupação com a linguagem a ser adotada nessas novas tecnologias e nos materiais com objetivo de ensino e aprendizagem, também deve ocupar lugar de destaque nos programas que adotam a metodologia da EAD. Um desafio necessário é saber combinar a linguagem dos diversos meios tecnológicos, e abordar diferentes temas e problemas atuais para ajudar o aprendiz a refletir melhor sobre o que lhe é ensinado, especialmente em áreas como a educação comunitária e para a mudança social, como defende Pereira (2002, p. 256), e que tem sido um foco de preocupação dos projetos em execução pela Embrapa. Outro desafio é aproximar essa linguagem da realidade sociocultural, dos conhecimentos e experiências do aprendiz para atender suas expectativas e estabelecer identidade com os mesmos. Isto porque a educação é também um processo de troca de saberes e, portanto, precisa reconhecer por meio da linguagem os diversos conhecimentos envolvidos no projeto. É importante diferenciar conceitualmente informação de conhecimento. A informação é a matéria-prima das tecnologias de informação e comunicação, a rigor trata-se de um processo informativo que é comunicado. E, como defende Castells (1999, p. 62), a informação constitui a matéria bruta do paradigma da tecnologia da informação. Enquanto o conhecimento, como afirma Dieuzeide (1994, p. 31) “ainda não é saber, e o saber escolar não é todo saber: ele é seleção 8 e interpretação dos conhecimentos cuja aquisição é julgada indispensável ao desenvolvimento pessoal e à competência dos que aprendem”. Iniciativas que visam à adoção de método de EAD em educação informal ou não-formal, isto é, que não têm como objetivo a escolarização, e são voltadas para uma clientela dispersa geograficamente a exemplo do público rural como forma de integração desses cidadãos na Sociedade do Conhecimento têm se intensificado no Brasil. Principalmente por meio de políticas públicas direcionadas para os territórios rurais recentemente constituídos na política de desenvolvimento rural sustentável. Nesse sentido, instituições não educacionais têm também desenvolvido programas baseado na EAD com o objetivo de atualizarem profissionais e capacitarem agricultores – muitos com baixa escolaridade formal – para o domínio de novas tecnologias e para o desenvolvimento social e humano. Esses programas tratam, em geral, de assistência rural, associativismo, cidadania, direito e meio ambiente. Neste caso, a educação surge como uma perspectiva de troca de saberes ao longo da vida dos agricultores e encontra suas bases “na crença ilimitada da acessibilidade de todos ao saber como condição de emancipação do indivíduocidadão” (BELLONI, 2008, p. 49) e, como reforça Leff (2004, p. 64), “a troca de saberes promove novas significações sociais e posicionamentos políticos frente ao mundo”. 9 Conclusão: Na sociedade contemporânea ou sociedade pós-moderna como alguns autores denominam a questão tecnológica, especialmente o uso das tecnologias de informação e comunicação, também diz respeito à problemática existencial e ao universo de representações simbólicas do homem na sociedade. Pois as pessoas se sentem seduzidas pelas comodidades e luxos oferecidos pelas novas tecnologias. Mas esse homem também se sente dividido nesse novo mundo e questiona-se quanto à necessidade real de acesso a tais tecnologias porque, na maioria das vezes, encontra-se ainda excluído dos seus benefícios. Por isso, é fundamental que o Estado e as instituições públicas promovam políticas que busquem não apenas o acesso das pessoas às informações e conhecimentos, ou seja, o acesso público, mas, sobretudo, que também garantam a possibilidade de promover sua autonomia e emancipação. Para isso é preciso promover ações que capacitem os profissionais envolvidos nesses programas para conhecerem as tecnologias que serão adotadas, sua linguagem e potencialidades, mas que esses profissionais também tenham conhecimento claro das expectativas e realidade daqueles que são aprendiz no processo. Dessa forma, as ações em execução pela Embrapa em territórios rurais são exemplos de programas que podem ser considerados como uma aprendizagem ao longo da vida. Pois, além da capacitação do agricultor, visam a melhoraria integral da qualidade de vida desses cidadãos e o desenvolvimento rural sustentável dos espaços socialmente construídos que constituem esses territórios. E, assim como o sistema educacional brasileiro exige transformações estruturais urgentes, tanto para a metodologia tradicional (ensino presencial) quanto para a Educação a Distancia (EAD) e maior articulação com os sistemas de informação e comunicação, os programas de educação informal também exigem maior integração com outras políticas públicas. Entre as políticas necessárias para essa articulação está a de inclusão social e digital para prover, inicialmente, o acesso de agricultores à internet, como no caso dos programas da Embrapa; e promover a educação desses agricultores para o uso das tecnologias de comunicação e informação, mas de forma a estimular nos mesmos a reflexão e a compreensão de que sua capacidade de aprendizagem e emancipação está em si próprios e não nas tecnologias. Selma Lúcia Lira Beltrão Jornalista, Mestranda do Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília (CDS/UnB), na área de concentração de Política e Gestão de C&T, Analista da Embrapa Informação Tecnológica, Brasil, Brasília - Distrito Federal, Juliana Andrea Oliveira Batista Pedagoga com Especialização em Extensão Rural para o Desenvolvimento Sustentável pelo CDS/UNB, Analista da Embrapa Informação Tecnológica, Brasil, Brasília - Distrito Federal 10 Referências BELLONI, Maria Luiza – Educação a Distancia, 5ª ed., Campinas: Autores Associados, 2008. CASTELLS, Manuel - A Sociedade em Rede, São Paulo: Paz e Terra, 1999. DIEUZEIDE, H. – Les Nouvelles Technologies. Paris: Nathan/UNESCO, 1994. FEENBERG, Andrew – O que é Filosofia (http://www.sfu.ca/~andrewf) acesso: fevereiro 2007 da Tecnologia? FREIRE, Paulo – Extensão ou Comunicação? , 12ª ed., Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. 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