A BAIXA APROVAÇÃO NO EXAME DE SUFICIÊNCIA. Maria de Nazaré dos Anjos Barros (*) “A comprovação de competência e o exercício profissional” foi o tema do trabalho apresentado pelo saudoso contador Dr. Olívio Koliver no XV Congresso Brasileiro de Contabilidade, realizado em Fortaleza-CE em outubro de 1996, também publicado na Revista do CRCRS nº 87 do mesmo ano. O mestre defendia, por meio de um esquema, que: “A competência a ser comprovada pelo candidato, para que possa ingressar no universo profissional, estrutura-se, de Estudos Formais e sistemáticos. Da experiência colhida no exercício profissional os quais devem resultar na aquisição de conhecimentos gerais e técnicos, de habilidades e consciência da classe, cuja posse pelo profissional pelo menos em nível mínimo, significa: COMPETÊNCIA PROFISIONAL. A certificação da competência não esgota o esquema, portanto o processo de aquisição de conhecimento e habilidades, tanto como o fortalecimento da consciência da classe, prossegue por toda a vida.” CRCRS, 2009. Essa última afirmação nos remete à necessidade da educação continuada, tão necessária em nosso meio. O Exame de Suficiência foi instituído pela Resolução CFC nº853/99 com objetivo de “Comprovar a obtenção de conhecimentos médios, consoante os conteúdos programáticos desenvolvidos no curso de bacharelado em Ciências Contábeis e no Curso de Técnico em Contabilidade.” O referido exame foi considerado uma conquista à classe, uma vez que, para conseguir habilitação junto ao Órgão de registro e fiscalização profissional(CRC Regional), o futuro profissional deve comprovar as competências e habilidades compatíveis com a formação, também inerentes ao projeto pedagógico dos respectivos cursos, os quais devem estar alinhados com as diretrizes curriculares do MEC. Nesse sentido, todo o processo incentiva a busca de conhecimentos atualizados, já que os conteúdos abrangem todo o período do curso, ainda que a exigência seja de qualificação mínima ou média, pois a aprovação ocorre para quem acertar até 50% das questões. Mesmo com essa medida, o referido exame não foi totalmente aceito pela categoria. Faltou a “conscientização”, e as ações judiciais ao longo do tempo comprovam esse fato, pois não existia um instrumento jurídico que garantisse ao Órgão referida exigência. O exame amparado apenas por uma resolução do CFC teve dez edições entre os anos de 2000 a 2004. Os resultados de aprovação em termos percentuais em nível nacional atingiram uma média para Contadores de 60,5% e para Técnicos 42,9%, atingindo-se o maior índice de aprovação no 1º Exame tanto para Contadores como para Técnicos, alcançando-se os percentuais de 84% e 68%, respectivamente. No âmbito do Estado do Maranhão, a média alcançada para contadores foi de 59,8% e a maior média foi atingida, também, na primeira edição do Exame, com o percentual de 80,7%. O respaldo regulatório veio com a Lei 12.249/2010, que alterou o Decreto Lei 9295/1946, ratificando a função fiscalizadora do Conselho e ampliando a competência para regular acerca dos princípios contábeis, do exame de suficiência, do cadastro de qualificação técnica, dos programas de educação continuada e da edição das normas brasileiras de contabilidade. O Conselho, com essa amplitude garantida, por meio de vários projetos e programas, luta para o reconhecimento da relevância das atividades desenvolvidas pelo profissional contábil perante a sociedade e sua conseqüente valorização. Após a Lei, a regulamentação da aplicação do exame ocorreu por meio da Resolução CFC 1.373/2011, que exige a aprovação no Exame de Suficiência para obtenção ou restabelecimento do registro profissional. Com o mesmo objetivo da resolução anterior, foi aplicado em todo o território nacional a partir de 2011, somando oito edições. Houve uma queda substancial nos índices de aprovação nesta nova fase do Exame. A média de aprovação nacional para Contadores foi de 41,5% e de Técnicos de 31,9%, havendo maior aprovação para Contadores na 2ª edição (2011.2) com o percentual de 58,2% e para os Técnicos foi a 5ª edição (2013.1) com o percentual de 52,94%. No âmbito estadual, a média para Contadores atingiu 26,7% e para Técnicos 20,7%, com maior índice de aprovação na 2ª edição para Contadores (41%) e 5ª edição para Técnicos com o percentual de 41,51%. É notório que os resultados não são nada animadores, principalmente se comparados com as dez edições anteriores. A situação é ainda pior ainda para o Estado do Maranhão, que se encontra muito abaixo da média nacional. Sem dúvida nenhuma, estamos diante de um gigantesco desafio. Aos profissionais ligados à educação, há uma inquietude, pois a missão é formar profissionais que atendam às demandas de conhecimentos técnicos e comportamento ético compatíveis com as tendências do mundo coorporativo. Essa dinâmica encontra-se associada às novas exigências ditadas pelo mercado, com inovadoras tecnologias de informação e ferramentas de gestão, pois a qualidade dos serviços a serem prestados num mercado altamente competitivo depende do nível de formação do profissional e sua flexibilidade em interagir em outras áreas do conhecimento. A complexa estratégia na formação do discente envolve várias dimensões, as quais são avaliadas por diversos instrumentos do Ministério da Educação - MEC. Destaca-se para os concludentes dos Cursos o Exame Nacional de Cursos – ENADE. Porém, existem outros elementos sob avaliação, tais como os aspectos estruturais da Instituição formadora; titulação, produção científica e qualificação do corpo docente; atividades práticas desenvolvidas pelo discente, envolvendo laboratórios, estágios e intervenção junto à sociedade. Um dos temas abordados no IX Encontro de Coordenadores e Professores de Cursos de Ciências Contábeis – ECCCC, realizado em setembro do corrente ano no Conselho Federal de Contabilidade em Brasília, foi a Análise dos resultados do Exame de Suficiência por conteúdos abordados nas provas. Nesta análise verifica-se que há uma variação significativa de um exame para outro no que tange ao nível de acerto por conteúdos. No primeiro exame (2011.1), o maior índice de aprovação foi em relação aos conteúdos de Contabilidade Aplicada ao Setor Público; no segundo foram conteúdos de Contabilidade Gerencial/Controladoria; no terceiro Perícia Contábil; no quarto e quinto Legislação e Ética Profissional; no sexto Auditoria Contábil e no sétimo Teoria Contábil, Princípios e Normas. Existem muitos comentários acerca do referido exame, tais como estrutura da prova e das questões, forma de aplicação, conteúdo exigido, etc. Referidos questionamentos foram evidenciados por meio de uma pesquisa realizada no XIII Encontro de Coordenadores e Professores do Curso de Ciências em 2013 e apresentada no Encontro seguinte, realizado no mês de setembro do corrente ano em BrasíliaporRobertaCarvalhodeAlencar,CoordenadoradaComissãodequestõesparacomposiçã o de provas – FBC: Dos 139 respondentes, 96% possuem graduação em Ciências Contábeis; 30% têm uma segunda graduação, sendo a maioria em administração; 70% ocupam cargo de chefia; e somente 25% são docentes, 68% deles com título de mestrado e 18% com doutorado. Para 75%do grupo, a quantidade de questões é adequada. Alguns sugeriram questões dissertativas, provas incluindo novas temáticas. Comentários nos questionários: “Exame mais amplo para inclusão de outros conteúdos formadores do perfil do contador, de forma interdisciplinar. Inclusão dos temas: Contabilidade do Terceiro Setor, Contabilidade Ambiental, Contabilidade Aplicada (Sistema Financeiro), Análise de Demonstrações Contábeis, Legislação Fiscal e tributária, Orçamento e Legislação Societária, Orçamento empresarial, Planejamento de Gestão Pública, Responsabilidade Social, Contabilidade Tributária. Inclusão de questões em língua estrangeira, especialmente inglês. Inclusão do tema Informática” Com a ampliação dos conteúdos, como seriam os resultados? Sabe-se que na prática do dia-a-dia muito mais é efetivamente exigido do profissional. A pesquisa revelou a importância dos conteúdos exigidos atualmente na prova, excluído o item sem importância, cujos percentuais foram inexpressivos. Pelos dados da pesquisa, os conteúdos considerados de maior importância foram Contabilidade Geral (87%); Princípios e Normas Brasileiras de Contabilidade (82%); Contabilidade de Custos (75%); Teoria da Contabilidade, Contabilidade Gerencial e Ética e Legislação Profissional (65%); Auditoria (63%); Contabilidade Aplicada ao Setor Público (58%); Controladoria (57%); e Perícia (54%). Os demais conteúdos tiveram um grau de muita importância inferior a 50%. Comparando o grau de importância dos conteúdos citados pelo seleto grupo com o desempenho no sétimo exame, em que houve apenas34,4% de acertos para contabilidade de custos e 35,5% para contabilidade geral (a nível nacional), constata-se uma preocupação maior, pois são conteúdos necessários em qualquer tipo de atividade contábil. Voltando ainda aos percentuais de aprovados nos últimos exames, alguns questionamentos são necessários: 1) Existe adequação dos conteúdos ministrados com os exigidos no exame? 2) As Instituições de Ensino encontram-se estruturadas com elementos essenciais ao aprendizado? 3) O corpo docente está apto e atualizado com novas mudanças na área contábil? 4) Referidas mudanças ocorridas na área contábil nos últimos anos já são contempladas no processo de ensino/aprendizagem?5) Os discentes são motivados e/ou orientados adequadamente desde o inicio do curso pelas Instituições a ficarem atentos sobre o exame? 6) Realmente houve uma queda no interesse do discente pelo aprendizado? 7) Como mensurar a responsabilidade dos envolvidos no processo pelos resultados desapontadores? 8) Quais ações devem ser implementadas para superar os desafios mais emergentes? As respostas devem fazer parte de uma profunda reflexão por todos os que, de alguma forma, fazem parte do processo de formação do profissional contábil. Porém, de modo particular, cada um deverá se questionar: “Estou fazendo a minha parte?”. “Estamos conscientes da nossa responsabilidade?”. Essa consciência foi inclusa num construtivo diálogo entre Moacir Gadotti, Paulo Freire e Sergio Guimarães, sobre a temática Educar: Ler, Escrever e Contar + Ouvir, Falar e Gritar: “Gadotti – A leitura crítica abre a questão do ensino crítico, este vinculado a uma concepção da educação em que o conteúdo do ensino não é acabado. Essa consciência do leitor, do professor e do aluno é o verdadeiro motor da continuidade da busca do saber, como você colocou, mas essa consciência não é só adquirida através da leitura. É preciso ler para se conscientizar? Paulo – É preciso ler o mundo, mas sobretudo, “escrever”ou reescrever o mundo, quer dizer, transformá-lo.”GADOTII(1989, p.114) Nesse contexto, torna-se necessária uma mobilização de todos os que formama classe contábil brasileira por meio das Entidades constituídas, além das Instituições de Ensino para uma melhor qualidade na formação profissional. (*) Mestrado em auditoria e em economia. Professora e Coordenadora do Curso de Ciências contábeis da UNDB. Membro da Academia Maranhense de Ciências Contábeis