V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS A imprensa como fonte para a História das Práticas Corporais em Juiz de Fora\MG (1885-1910). Priscila Gonçalves Soares Mestranda Educação PPGE\UFJF GEPHEFE [email protected] Carlos Fernando Ferreira da Cunha Junior Prof.Orientador do Mestrado em Educação UFJF\PPGE\ FAEFID GEPHEFE [email protected] Apoio CNPq\ Fapemig\Rede Cedes\Ministério dos Esportes Este trabalho, parte da minha dissertação de Mestrado em Educação (PPGE\UFJF), focaliza a imprensa enquanto fonte e objeto de estudo na tentativa de buscar melhor compreender o desenvolvimento das práticas corporais em Juiz de Fora/MG no contexto da modernidade. A pesquisa encontra-se em andamento e baseia-se nas contribuições do movimento da História Cultural. Elegemos os jornais como nossas fontes fundamentais, especialmente os periódicos “O Pharol” e “Jornal do Commercio” devido à grande representatividade destes perante a sociedade juizforana no contexto histórico pesquisado. Desta forma, investigamos a circulação e as matrizes dos discursos produzidos por instituições e intelectuais que influenciaram a adesão da população juizforana às práticas corporais, entre elas, a ginástica, o esporte, a dança e a educação física escolar. Observamos que tanto na Europa quanto no Brasil as práticas corporais foram difundidas e assimiladas pela população no período da modernidade. Neste, a necessidade de romper com o passado instiga a busca pelo novo, desta forma os mercados mundiais se expandem e com isso a necessidade dos “bons trabalhadores”. As práticas corporais atendem aos requisitos modernos e as observamos em várias vertentes: educativa, lazer, disciplina, higiene, entre outras. Em terras tupiniquins a modernidade chega um pouco mais tarde que na Europa e aqui adquiri caráter próprio e peculiar. No final do século XIX e inicio do XX, por conta das influências modernas, algumas cidades brasileiras passaram por significativas mudanças em sua estrutura e organização, o que motivou políticos e intelectuais a se empenharem pela modernização brasileira, como é o caso de Juiz de Fora que neste tempo viveu um intenso processo de reforma, saneamento e urbanização. Juiz de Fora, cidade que se constituiu como entreposto comercial entre o Rio de Janeiro e o interior de Minas Gerais, teve seu período áureo no final do século XIX. Pioneira em diversos setores teve a primeira Usina Hidrelétrica da América Latina instalada em seu território, os primeiros Grupos Escolares do Estado (juntamente com os de Belo Horizonte) e seis jornais eram editados na cidade, mais que em Belo Horizonte. Esta riqueza de cultura e novidades permeadas pela modernidade se expressou também em novos costumes e hábitos da população, entre eles, a adesão as práticas corporais. Acreditamos que estes hábitos são resultados de um processo educativo de criação do gosto pelas práticas corporais baseado em justificativas sobre sua validade e importância: argumentos de ordem médica, estética e moral. V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS No presente trabalho i , ainda em fase inicial, procuramos analisar a adesão por parte da população de Juiz de Fora às práticas corporais no período que segue de 1885 a 1910, tempo marcado grandes transformações tanto na Europa quanto no Brasil em prol de um ideal moderno. Para realização deste trabalho, utilizamos os periódicos do período enquanto fonte e objeto de pesquisa. O período marcado pelo final do século XIX e início do XX foi decisivo e muito importante para a cidade de Juiz de Fora. Neste, a cidade se desenvolveu sendo impulsionada pelos ares modernos que, vindos da Europa, tangiam o Brasil e permeavam o projeto de progresso nacional pautado na perspectiva do novo, da modernização, da transformação e da civilização. É neste contexto cultural que diversas cidades brasileiras passaram por transformações significativas tanto nos hábitos e costumes quanto na economia e estrutura. Os ventos europeus, especialmente os de Paris, induziram dirigentes de cidades brasileiras a se empenhar em favor da mudança e consecutiva urbanização e modernização. Muitas cidades se desenvolveram pautadas no ideal moderno como é o caso do Rio de Janeiro que, neste período viveu um intenso processo de reforma organizacional preconizando o saneamento e a urbanização tendo como figura emblemática o Prefeito Pereira Passos (Benchimol, 1990). Essa configuração de um novo modelo de sociedade carioca possibilita uma reestruturação do espaço urbano de forma a instigar a população, assim como na Europa, a conhecer e desbravar o espaço público. E assim, promover uma transição que ocorre do espaço privado para público. Neste percebemos o desenvolvimento de uma estrutura que propicia a expansão de uma cultura focada no corpo através de práticas de lazer e a práticas corporais. Segundo Victor Andrade de Melo (2006), no Rio de Janeiro: Podemos observar na cidade o desenvolvimento e melhor estruturação de um mercado de diversões, que incluía espetáculos musicais e teatrais, os primeiros momentos de nosso cinema e o crescimento das práticas esportivas, onde se destaca o remo. Ele é fundamentalmente um esporte conduzido e apreciado pelas camadas médias em formação (profissionais liberais, gente do comércio e primeiros industriais). (p.5) Nesse processo de modernização práticas higiênicas começavam a se difundir e muitas vezes eram confundidas e considerados como esporte. Melo (2001) analisando o contexto esportivo no Rio de Janeiro neste período e caracteriza três grupos de sports: os esportes ditos “modernos” que são as corridas de velocípede, corridas atléticas, a natação e o futebol; os espetáculos que se definam com caráter de diversão como as corridas de cachorro e pombo correio, touradas, brigas de galo, banho de mar, jogo do bicho, cricket e patinação não competitiva e por fim os praticados em organizações bem desenvolvidas e organizadas como é o caso do turfe e o remo. Para Sevcenko (1998), além de ser um marco moderno o esporte foi essencial no preparo dos corpos para responder aos novos requisitos do mercado capitalista moderno. Como o consumo crescente os operários deveriam trabalhar mais para aumentar a produção, além disso, para aperfeiçoar o trabalho deveriam desenvolver: velocidade, força, agilidade, destreza e principalmente disciplina. O objetivo disso tudo: ... era tornar a vida social na cidade estável, predizível, produtiva e, acima V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS de tudo, veloz, já que ela tinha que se adaptar a uma base tecnológica totalmente montada sobre o motor de combustão interna e os sistemas elétricos. Para alcançar este último objetivo, ou seja, para tornarem-se velozes e adaptadas às modernas fontes de energia, as pessoas tinham de ser fisicamente condicionadas e psicologicamente motivadas. Foi para isso que os esportes modernos foram inventados (p.4). Acreditamos que na cidade de Juiz de Fora, fatos semelhantes aos já citados sobre as práticas corporais e o lazer no Rio de Janeiro também tenham ocorrido, seja pela proximidade com a Capital e/ou pelo momento de grande expansão urbana e econômica que a cidade vivia no final do século XIX e início do XX. Não por acaso, Juiz de Fora, é tema recorrente em estudos históricos visto sua importância cultural e econômica no cenário mineiro e nacional. Esta foi e é uma cidade privilegiada devido a sua proximidade com o Rio de Janeiro. A afinidade e a proximidade com os costumes cariocas teriam possibilitado uma maior influência tanto na arquitetura, quanto nos transportes, na cultura, na economia, em novos hábitos e costumes difundidos na capital. Para Maraliz Christo (1994), “o significado objetivo da iluminação pública em Juiz de Fora extrapola seu próprio dado utilitário. Aqui, ele ganha força simbólica. Possibilita o controle sobre o tempo, sobre o espaço urbano, sobre o interior das residências... sinal de civilização” (p.78). Civilização para os juizforanos era estar em contato com o Rio de Janeiro, importando produtos, costumes, hábitos e principalmente recebendo suas companhias de teatro tão respeitadas na época. Acreditamos que por conta dessa relação tão próxima, o Rio tenha tanta influência na cidade e seja peça fundamental no processo de desenvolvimento de Juiz de Fora. Gilmar Mascarenhas de Jesus (op. cit.) afirma que a receptividade da população carioca aos esportes e outras práticas corporais na virada para o século XX foi significativa, tal atitude se vinculava ao fato destas representarem uma via para a vida saudável além de atender aos ideais capitalistas e, sobretudo “ao fato de constituírem um elemento civilizador do ideário burguês importado da Europa, numa conjuntura em que ser moderno era desejar ser estrangeiro” (p.20). Esta é uma questão citada anteriormente em relação à Juiz de Fora e Rio de Janeiro, questão esta que é posta na passagem do século XIX para o XX, mas que afeta os juizforanos até os dias de hoje quando ainda são “acusados” por outros “mineiros” de buscarem uma identificação junto à cultura carioca em detrimento da mineira. Não por acaso, Juiz de Fora se desenvolvia e se destacava no cenário nacional. Já em 1850, a cidade é elevada a município, mas foi no último quartel do século XIX que a cidade viveu um período de grandes transformações econômicas, políticas, sociais e culturais. Fomentados por capitalistas e fazendeiros a cidade se expandiu rapidamente e o pioneirismo era sempre destaque em diversas empreitadas, recebendo reconhecimento tanto mineiro como nacional. Alguns fatos marcam o desenvolvimento da cidade e abarcam o pioneirismo. O ano de 1871 marca a inauguração da Estrada de Ferro D. Pedro II, em 1881 começa a circular o primeiro bonde de tração animal, 1883 entra em cena o telefone e consecutivamente o telégrafo em 1884, as reformas sanitárias levam a água aos domicílios em 1885, 1887 inaugura o Banco Territorial Mercantil e em 1889 o Banco de Crédito Real além da Academia de Medicina e Cirurgia de Juiz de Fora e a chegada da energia elétrica. As V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS instituições educacionais também marcam presença no final do século XIX iniciando com a criação do Instituto Metodista Granbery em 1890 seguido pela Academia de Comércio em 1894, os Grupos Escolares em 1907 e a Academia Mineira de Letras, 1909 (Lessa, 1985; Andrade, 1987; Christo, op. cit.). Até a década de 1920, como salienta Christo (ibid.), “Juiz de Fora é apontada como o centro cultural do Estado, seja pelo seu número de jornais e teatros, seja pela expressão de suas escolas e instituições culturais” (p.1). Mediante estes acontecimentos que auxiliam no processo de modernização e desenvolvimento da cidade e a projeta para um cenário nacional permeado de identidade carioca, é que temos a intenção de analisar o desenvolvimento das práticas corporais neste período onde os ares da modernidade circularam na cidade. Nossa investigação será realizada em dois dos periódicos mais importantes da época publicados na cidade: “O Pharol” e “ Jornal do Commercio”. Uma questão a ser analisada é a possibilidade de relação entre o processo de desenvolvimento das práticas corporais e do lazer em Juiz de Fora assim como se deu no Rio de Janeiro. Acreditamos que o desenvolvimento das práticas corporais na cidade de Juiz de Fora no período analisado pode ser avaliado pelas importantes instituições que começam a surgir e ganhar espaço na cidade e que tematizam, de alguma maneira, as questões relacionadas ao corpo e\ou às práticas corporais. O ano de 1889 marca a fundação da Sociedade de Medicina e Cirurgia de Juiz de Fora. Tal instituição reuniu médicos e outros profissionais ligados ao campo da saúde que elaboraram pensamentos, pareceres, guias e desenvolveram ações visando uma “Educação Sanitária” que pudesse contribuir para o desenvolvimento e melhoria da qualidade de vida das pessoas da cidade (Queiroz, 1986). Os membros desta instituição defenderam e divulgaram as práticas corporais especialmente a ginástica, como uma das formas de elevar o nível da saúde da população juizforana. Já em 1907 foram criados os primeiros Grupos Escolares de Juiz de Fora, pioneiros no Estado de Minas Gerais junto aos de Belo Horizonte. Este modelo de escola primária estava comprometido com os ideais liberais republicanos de modernização da sociedade brasileira (Yazbeck, 2003). Os Grupos Escolares de Juiz de Fora colocaram em prática uma proposta pedagógica em que as práticas corporais, especialmente a ginástica, tinham lugar de destaque (Cunha Junior, Vargas, 2006). Percebemos neste contexto dos Grupos Escolares que a figura do “professor de ginástica/ educação física” era importante e impunha-se à sociedade local através de exibições de práticas corporais abertas à apreciação pública. Esta foi uma forma encontrada de induzir e educar a população na perspectiva das práticas corporais. Fundado em 1909 por alemães e brasileiros, o Clube Ginástico de Juiz de Fora foi uma das primeiras instituições a desenvolver as práticas corporais sistematizadas na cidade. Este Clube desenvolvia atividades corporais, especialmente os exercícios ginásticos (Cunha Junior, 2003). Em 1979 suas instalações foram fechadas mas deste saíram gerações de praticantes das atividades físicas, atletas e instrutores que se responsabilizaram pelo processo de ensino das práticas corporais em escolas e outros locais da cidade. Investigar o corpo, a relação entre as práticas corporais e a tarefa educativa é investimento desafiador, tendo em vista que apenas recentemente a história do corpo passou a ser objeto de preocupação dos historiadores da educação (Faria Filho, Chamon, 1999; Gondra, 2000; Boto, 2000; Vago, 2002). Um dos aspectos metodológicos fundamentais nos trabalhos de História diz respeito V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS à questão das fontes. Ciro Flamarion Cardoso chama a atenção afirmando que “efetivamente, a ausência de fontes impede que um historiador possa realizar plenamente a sua função: como comprovar, sem elas, as suas hipóteses de trabalho?” (1994, p.51). Em nossa visão, apoiados nos estudiosos da chamada História Nova, consideramos como fonte, tudo aquilo que é passível de história, ou seja, todos os vestígios que nos permitam ampliar a compreensão historiográfica dos fatos: documentos, relatos orais, a iconografia, a literatura, entre outros. “Imaginamos que a historia é a experiência humana e que esta experiência, por ser contraditória, não tem um sentido único, homogêneo, linear, nem um único significado. Desta forma, fazer historia como conhecimento e como vivência é recuperar a ação de diferentes grupos que nela atuam, procurando entender porque o processo tomou um dado rumo e não outro; significa resgatar as injunções que permitiram a concretização de uma possibilidade e não de outras”. (VIEIRA apud CARVALHO,1995, p. 11). É nessa perspectiva que estamos trabalhando no mapeamento dos jornais o “O Pharol” e “Jornal do Commercio”, entendemos que trabalhar com os jornais significa tentar resgatar uma história através de suas múltiplas possibilidades. Diversos autores discutem os riscos de se trabalhar com a investigação dos jornais, instigando para a questão relativa ao que se torna notícia de jornal. O fato de aquela ser a notícia escolhida para ser publicada, por si só, já caracteriza um escolha dentro de tantas possibilidades. A investigação dos periódicos parte do processo de utilizar ferramentas de análise do discurso para estabelecer um paralelo entre o noticiário e o contexto sóciocultural–econômico em cheque, sem esquecer as questões que por ventura possam tendeciar o contexto analisado. É importante perceber que os jornais são meios de informação que retratam o cotidiano do povo através de notícias que abarcam diversos temas como: costumes, modas, esporte, culinária, humor, política, eventos, entre outros. Para tanto, o jornal nos serve como documento que, além de retratar uma época, pode trazer indícios de como a história pode ser contada a partir das páginas dos jornais, visto que, por mais imparcial que o jornal possa ser, este é tendencioso na perspectiva de que é feito por alguém, para alguém e com alguma intenção. As notícias não são construídas e divulgadas por acaso, todas perpassam uma intencionalidade. O discurso adquire significado de diversas formas, a leitura que se faz do jornal perpassa por questões referentes ao público alvo, a organização, linguagem, editorial, colaboradores; tudo isso dá indícios de quais são as relações que o jornal estabelece com diversos setores da sociedade. Resgatando um pouco esse processo de utilização da imprensa enquanto fonte de pesquisa, observamos que nos anos de 1970 a importância da imprensa já era reconhecida devido ao grande avanço deste seguimento. No entanto, poucos trabalhos visavam o estudo da imprensa enquanto fonte (por meio da), o foco principal era a imprensa enquanto objeto trabalhos pautados na História da Imprensa. Em parte, este fato pode ser explicado pela busca da verdade que permeava o ideário do século de XIX e início do XX e a força das tradições que imperavam neste contexto histórico. Desta forma, os documentos oficiais eram tidos como os únicos verdadeiros e passiveis de análise. Somente em 1930, a Escola de Annales criticou este movimento em prol unicamente V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS dos documentos oficiais. Esta propunha a análise de novos objetos, abordagens e problemas, incentivava a interdisciplinaridade na tentativa de se conceber uma nova forma de história. Segundo Luca (2006), “ a renovação temática, imediatamente perceptível pelo título das pesquisas, que incluíam o inconsciente, o mito, as mentalidades, as práticas culinárias, o corpo, as festas, os filmes, os jovens e as crianças, as mulheres, aspectos do cotidiano, enfim, uma miríade de questões antes ausentes do território da História” (p.113). No Brasil, em meados 1960, emergia um movimento que alavancava a crítica em relação aos periódicos na tentativa de alertar os pesquisadores para os riscos de uma visão simples e rasteira das noticias dos jornais. Este movimento tendia a instigar o pesquisador a analisar os olhos e os diversos olhares que moviam e se articulavam por de trás dos jornais. O novo contexto moderno-brasileiro a partir do inicio do século XX fez deslanchar vários impressos periódicos de todos os gêneros: revistas de variedades, anúncios de publicidade, almanaques, até catálogos de acervos institucionais; isto demonstra a importância da imprensa para a sociedade e a velocidade de desenvolvimento e diversificação que os impressos vinham tendo. No final do século XIX e inicio do XX os ares modernos tangenciavam o país, o grande desenvolvimento econômico advindo da agricultura do café alavancou o desenvolvimento urbano. Os meios de transportes, comércio, navegação, produção fabril, mãos de obra imigrante, avanços nas comunicações, eram alguns dos aspectos que marcavam as esperanças de um novo tempo. Estudiosos afirmam que o primeiro jornal editado em Juiz de Fora foi "O Imparcial", um semanário de três colunas, fundado por Francisco Mendes Ribeiro em 1870. Juiz de Fora era então chamada a "capital intelectual de Minas", pois, entre outros fatores, enquanto na capital do Estado havia apenas três jornais diários, aqui se editavam sete. Em pouco mais de cinqüenta anos, observa-se ainda a importância dos jornais na cidade visto a prevalência de vários jornais de cunho diário: “Em 1922, com uma população de 118.166 habitantes, Juiz de Fora tinha seis jornais diários: O Pharol, Correio de Minas, Jornal do Commercio e O Dia (matutinos); A Tarde e o Diário Mercantil (vespertinos)...”. (Musse,2007; p.8) Em nosso trabalho, analisaremos os periódicos “O Pharol” e o “Jornal do Commercio” em suas seções de noticiário, carta de leitores, reclamações, anúncios, entre outros. Esses jornais trazem muitas informações sobre o cotidiano da cidade no período em questão. Assim estes contribuem para a compreensão sobre as discussões que ocorriam naquele momento em torno de um novo projeto de vida e sociedade que se propunha. Sobre os jornais mineiros do século XIX Faria Filho (2002), diz que neles “encontramos como que um retrato em branco e preto da realidade mineira do período, podendo ler em suas páginas desde anúncios de compra, venda, troca de escravos e outras mercadorias, quanto a exposição de motivos para revoltas, revoluções e projetos políticos para, o futuro da nação” ( p.134). É dialogando com Faria Filho, que em nossas pesquisas iniciais percebemos o contexto da realidade cotidiana de Juiz de Fora no final do século XIX. Nesta fase de inicio de pesquisa, buscamos primeiro analisar o jornal “O Pharol” que se encontra disponível no Arquivo da Universidade Federal de Juiz de Fora. Num primeiro contato com este material nos surpreende a riqueza de detalhes tanto da linguagem própria da época quanto da ortografia peculiar. Para além disso as notícias V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS são das mais diversas possíveis desde escravo fugido a cavalo esquecido na praça. Para melhor compreender o que se passava na cidade a partir de 1885 decidimos começar nosso trabalho por um trabalho de campo referente aos jornais anteriores aos anos de 85. Desta forma pretendemos nos aproximar da linguagem própria do período, do contexto sócio cultural e principalmente ir educando o olhar na perspectiva de uma leitura flutuante do que poderíamos encontrar nos jornais. Assim, trabalhamos com os jornais referentes aos anos de 1876, 1877, 1878 dos quais darei um breve panorama das analises até agora realizadas. O jornal “O Pharol” nestes três anos citados se caracteriza por ser bisemanário com publicações editadas as quintas e domingos. Percebemos que o jornal mantém algumas sessões que são fixas e outras muito variáveis dentre estas podemos citar algumas como: literatura onde normalmente se encontrava uma poesia; folhetim continha alguma obra de literatura mais extensa onde os leitores acompanhavam capítulo a capítulo nas edições do jornal; notícias tanto de caráter nacional quanto internacional; interesse geral tratava de assuntos de interesse da cidade principalmente no campo político; a pedidos onde normalmente publicavam as notícias que as pessoas pediam para ser divulgadas; no noticiário encontramos noticias de todos os tipos desde escravos fugidos a saudação de boas viagens para pessoa que vão viajar; anúncios onde observamos os vende-se , espetáculos, oferta e procura por emprego, anúncio de advogados, comércio, leilão, contadores, entre outros que normalmente se encontram nas últimas páginas do jornal; variedades falava das novidades que chegavam à cidade ou que aconteciam em outros locais, saúde, beleza, moda. Como dissemos anteriormente, estas sessões não obedecem a uma ordem fixa, nem uma periodicidade de repetição; a ordem é aleatória e os jornais não contam com todas as sessões nos exemplares. A partir de 1877 o jornal começa a divulgar um layout mais definido, observamos uma maior utilização de desenhos e imagens para ilustrar os anúncios e o surgimento de uma sessão para avisos, neste ano as sessões se mantém mais fixa. Já em 1888 o jornal adquire um ar mais moderno, as sessões são mais organizadas, o texto começa a seguir um padrão de escrita mais próximo do que nos conhecemos hoje. Diferentemente como acontecia, o jornal não vem com noticias escritas até a metade da folha e volta para cima, as noticias ocupam toda a página do início ao fim para posteriore iniciar novamente na parte superior da folha. Os anúncios se apresentam com outros designes que não somente quadrados ou retângulos, inovações geométricas. Com o aumento no número de anúncios estes se tornam menores; acreditamos que possa existir uma relação com o preço a ser pago pelo anúncio, pois percebemos que os anúncios grandes são somente anúncios que pensamos serem instituições mais estabelecidas na cidade seja pelo grau de importância social, política e\ou financeira. Na análise destes três anos de jornal encontramos diversas notícias referentes às práticas corporais, as mais recorrentes foram relativas ao theatro, bailes carnavalescos, festas religiosas, companhias eqüestres e gymnastica, circos e passeios. Estes indícios nos mostram que o que era divulgado pelas páginas dos jornais sobre as práticas corporais neste período é mais voltado para a área do lazer do que para o campo esportivo, entendemos que as práticas corporais estavam em processo de desenvolvimento e difusão o que caracteriza uma divulgação por parte da imprensa um pouco tímida. Acreditamos que estes indícios possam nos auxiliar na perspectiva de analisar e melhor compreender os jornais dos anos que realmente são foco dos nossos estudos. V CONGRESSO DE ENSINO E PESQUISA DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO EM MINAS GERAIS Finalizando esta análise, podemos não podemos deixar de ressaltar o quanto é rica a utilização da imprensa enquanto fonte e objeto para a pesquisa histórica. O jornal através de suas páginas multifacetadas tem nos possibilitado análises diversas que contribuem para a compreensão do passado agregando novas perspectivas às análises históricas. Referências Bibliográficas: ANDRADE, Silvia M. B. Classe operária em Juiz de Fora: Uma história de lutas (19121924). Juiz de Fora: EDUFJF, 1987. ARAÚJO, Rosa M. B. A vocação do prazer: a cidade e a família no Rio de Janeiro Republicano. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. BENCHIMOL, Jaime L. Pereira Passos: um Haussmann Tropical. Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro/ Carioca 11: Rio de Janeiro, 1990. BOTO, Carlota. 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