Construção de uma Escala de Auto e
Heteropercepção para Análise da Identidade
Profissional
Adriane Vieira
[email protected]
UFMG
Marília Alves
[email protected]
UFMG
Plínio Rafael Reis Monteiro
[email protected]
FUMEC
Daniela Soares Santos
[email protected]
UFMG
Fernando Coutinho Garcia
[email protected]
Novos Horizontes
Resumo:O objetivo geral desse trabalho foi construir uma escala de auto e heteropecepção para analisar
o grau de identificação dos enfermeiros com a sua categoria profissional. Os objetivos específicos foram:
identificar os principais itens e dimensões da escala; e submeter a escala à análise quantitativa para
depurar as medições. Na etapa exploratória e qualitativa foram realizadas treze entrevistas e uma análise
por painel de especialistas, para depurar e desenvolver as dimensões e itens. Na segunda etapa, de caráter
descritivo e quantitativo, os questionários contendo a escala foram respondidos por 243 estudantes do
último ano do curso de enfermagem e submetidos à análise quantitativa para depurar as medições. Para a
análise dos dados foram utilizados os softwares SPSS 13.0®, AMOS 5.0® e Microsoft Excel®. Após
análise preliminar e depuração da base (dados ausentes, outliers, normalidade e pressupostos), avaliou-se
a dimensionalidade por meio da AFE. Quatro dimensões não apresentaram níveis de confiabilidade
adequados e foram eliminadas, restando apenas 9 (uma dimensão foi dividida em dois fatores). Dos 84
itens, 43 foram excluídos, restando 41. As médias das dimensões de autopercepção foram maiores que as
de heteropercepção, indicando que os estudandes apresentam autopercepção mais positiva do que a
imagem que acreditam que a sociedade tem de sua profissão. A única exceção foi para a dimensão
subordinação, revelando que apesar de historicamente os enfermeiros serem percebidos pela sociedade
como submissos, em especial aos médicos, eles discordam dessa categorização.
Palavras Chave: autopercepção - heteropercepção - identidade - identificação -
1 INTRODUÇÃO
De acordo com Bergman e Luckmann (1989), o conceito que um indivíduo tem de si
mesmo é construído ao longo de sua vida, na medida em que ele internaliza e se apropria da
realidade objetiva e age sobre ela e a modificando. Segundo esses autores, é através do
processo de socialização que a interiorização de um acontecimento objetivo se realiza, ou
seja, que os valores de uma determinada sociedade e de seus segmentos de classe são
internalizados. Em última instância, são os valores que configuram os papéis sociais
experimentados ao longo da vida e é através do exercício de papéis que o indivíduo constrói
seu autoconceito e sua identidade.
A identidade refere-se à autopercepção do sujeito, na interação entre o eu e a
sociedade, entre o interior e o exterior, e a identificação diz respeito à obtenção pelo sujeito
das qualidades do ‘outro’, no sentido de elevar a sua autoestima. Mediante um conjunto de
identificações a pessoa não apenas reconhece “quem ela é” como também adquire a
capacidade de se reconhecer como distinta, de reconhecer semelhanças e de compreender a
vida coletiva (FERNANDES, 2009). Para Hogg e Terry (1995; 2000), o processo de se
reconhecer membro de determinada organização pode se transformar em fonte de prestígio,
segurança e satisfação, afetando sua autopercepção e autoestima. Isso é influenciado não
somente pelo envolvimento afetivo das pessoas com as organizações, seus valores e crenças,
como também pela valorização dos que estão fora, dos “outros significativos”, conforme
Bergman e Luckmann (1986). Em síntese, a autopercepção é resultante da percepção de onde
a pessoa se encontra (sociedade e organizações) e do que é esperado dela (papéis e funções), e
a heteropercepção é resultante de como ela acredita ser percebida pelos demais a partir do
feedback que recebe pelo exercício dos papéis sociais e funções organizacionais (TAJFEL,
1978; TAJFEL e TURNER, 1979; 1985).
O objetivo geral desse trabalho foi construir uma escala de auto e heteropecepção para
analisar o grau de identificação dos enfermeiros com a sua categoria profissional. Os
objetivos específicos foram: identificar os principais itens e dimensões da escala; e submeter a
escala à análise quantitativa para depurar as medições. É preciso esclarecer que este trabalho
está vinculado a um projeto maior, intitulado “Mulheres no atendimento em saúde: diferenças
entre valores geracionais, identificação e vivências de prazer e sofrimento”, que em sua fase
quantitativa conta com a aplicação de três escalas já validadas. As escalas de auto e
heteropercepção precisaram ser construídas, em razão da inexistência de estudos quantitativos
sobre o tema identidade profissional. Para construir e validar o instrumento de pesquisa o
questionário foi aplicado em uma amostra de 243 estudantes do último ano do curso de
enfermagem. Em fase posterior será aplicado em uma amostra de técnicos e enfermeiros de
dois hospitais gerais, que são objeto de estudo da referida pesquisa.
Na sequência deste artigo serão apresentados o referencial teórico que auxiliou na
construção da escala, a metodologia utilizada na sua construção, a escala propriamente dita, a
descrição e análise dos resultados e as considerações finais.
2 CORRENTES TEÓRICAS NO ESTUDO DA IDENTIDADE
A noção de identidade é complexa, pois adquire vários sentidos em diferentes campos
teóricos e mesmo entre correntes do mesmo campo, mas, foi a corrente psicanalítica que
formulou um conceito que mais tem influenciado as ciências sociais. Segundo Dubar (2005),
Freud (1990) usou o termo pela primeira vez para descrever os motivos de ter sido atraído ao
1
judaísmo, referindo-se a obscuras forças emocionais e sua relação com o ego, que se tornaram
pontos de partida para futuros usos do termo.
Sem negar a teoria freudiana, Erikson mudou o enfoque desta para o problema da
identidade e das crises do ego, ancorado em um contexto sociocultural. O estudo da
identidade tornou-se estratégico para o autor, que viveu em uma época onde a psicanálise
deslocava o foco do id e das motivações inconscientes para os conflitos do ego. É por esse
emotivo que a origem do conceito de identidade é atribuída a Erikson (1972, apud DUBAR,
2005).
No âmbito da psicologia, proliferaram as perspectivas que associaram a identidade ao
conceito de self, como aquele que confere unidade ao sujeito e a consciência que ele tem da
sua singularidade, o que remete para o estudo dos processos de reflexividade. Um autor
pioneiro nessa problemática foi George Mead em sua obra intitulada Mind, self and society
(1934), em cuja abordagem se inspiraram muitos dos autores associados à corrente do
interacionismo simbólico. O que Mead fez foi ressaltar a natureza social do self, considerando
aspectos do caráter estrutural e histórico da realidade social (DUBAR, 2005). A terminologia
do self engloba: autoconceito, auto-imagem, auto-estima, auto-avaliação, autopercepção,
autorepresentação, entre outros. Como autores de diferentes correntes teóricas estudaram o
conceito de self ou de eu problemas de interpretação foram gerados quando um mesmo termo
é utilizado com diferentes conotações.
Diferentes perspectivas sobre a identidade também são encontradas na sociologia, em
interação com o campo da psicologia social, ressaltando a análise dos processos sociais a ela
articulados. A abordagem sociológica procura caracterizar os sujeitos enquanto membros de
determinados grupos sociais, onde desempenham papéis, constroem percursos biográficos e
participam das dinâmicas de interação social.
Segundo Gecas e Burke (1995) é possível classificar as produções sobre o tema
identidade na psicologia e na sociologia em dois conjuntos, a dos trabalhos que se enquadram
na corrente da Psicologia Social Psicológica e os da corrente da Psicologia Social
Sociológica. Sendo que a primeira foca os processos intrapsíquicos e as conseqüências do eu
no comportamento, e a segunda se debruça sobre os contextos sociais de desenvolvimento do
self, ou seja, sobre os processos de constituição e manifestação da identidade (VELOSO,
2007).
Hogg, Terry e White (1995), por sua vez, apontam a existência de duas teorias sobre a
identidade: a teoria da identidade e a teoria da identidade social. A primeira está intimamente
associada à corrente do interacionismo simbólico, que procura entender como a sociedade
influencia o comportamento dos indivíduos e destaca a importância dos papéis
desempenhados pelos sujeitos no processo de interação. O self, portanto, emerge dos papéis
desempenhados pelas pessoas na sociedade. A segunda enfatiza a dinâmica dos grupos
sociais aos quais pertencem os sujeitos. Assume que cada grupo social é alvo de uma
categorização e que os seus membros tendem a identificar-se de acordo com a mesma. Para
atender a necessidade de pertença orientam seus comportamentos em consonância com os
atributos que os caracterizam. A identidade social se constitui, então, pelo duplo processo de
identificação com o grupo e pela diferenciação face aos outros grupos.
Para Veloso (2007), a duas teorias realçam elementos diferenciados da
problematização da identidade. A primeira foca a dinâmica da interação e a segunda a
dinâmica de pertencimento e de reconhecimento social. As duas teorias têm em comum o
entendimento de que a identidade se constituiu em uma construção social. Para a autora, as
2
duas teorias se revelam analiticamente limitadas. A teoria da identidade secundariza a procura
de reconhecimento social e de referenciais de identificação por parte dos sujeitos ao destacar
o desempenho de papéis. A teoria da identidade social, por sua vez, negligencia o fato de que
a pertença a determinados grupos e a distinção em relação aos outros pode não ser um fator
decisivo na caracterização das dinâmicas de identificação dos sujeitos.
No caso das empresas é fundamental ter presente alguns fatores estruturadores, como,
por exemplo, a configuração dos modelos de organização do trabalho, o conteúdo das
atividades de trabalho, o momento em que o sujeito se encontra na sua trajetória e as
características do sistema técnico. Assim, sendo, estas diversas perceptivas destacam
dimensões diversas que podem e devem ser incorporadas na problematização da temática das
identidades e da diferença entre ela e o processo de identificação no contexto de trabalho.
3 METODOLOGIA
A construção de uma escala é um processo dinâmico que requer a constituição de uma
série de etapas qualitativas e quantitativas (COSTA, 2011). Como parte de um esforço inicial
na concepção de uma escala para mensurar a identificação organizacional, por meio dos
conceitos de auto e heteropercepção, este estudo apresentou esforços múltiplos na verificação
da adequação das medidas.
Na fase qualitativa foram realizadas treze entrevistas com profissionais da área de
enfermagem, como parte integrante de dissertação de mestrado de Santos (2011) e análise por
painel de especialistas, a fim de depurar e desenvolver os itens e dimensões da escala. Na
segunda etapa, de caráter descritivo, as escalas foram submetidas à análise quantitativa com o
objetivo de depurar as medições. Os dados coletados foram novamente analisados com a
finalidade de ajustar o instrumento de medição em questão.
3.1 CONCEPÇÃO E ANÁLISE QUALITATIVA DAS ESCALAS
Conforme sugerem Netemeyer, Bearden e Sharma (2003), a etapa inicial na
construção dos instrumentos perpassa a geração de itens, atentos a necessária avaliação da
dimensionalidade e aos critérios de validade de transcrição (validade de conteúdo e face).
Fundamentados na revisão da literatura foi proposta uma escala de auto e heteropercepção
composta por 12 dimensões. Com o objetivo de tornar a aplicação mais dinâmica e se ater a
tradição léxica na construção de escalas (NUNNALLY; BERNSTEIN, 1994), os itens foram
compostos por adjetivos que poderiam, ou não, ser característicos de uma determinada
categoria profissional.
A lista original de itens foi avaliada por três especialistas, docentes/pesquisadores com
pós-graduação e atuação na categoria profissional de enfermeiro, que propuseram adaptações,
inserções e exclusões da base original. Adicionalmente, o conteúdo de 13 realizadas com
profissionais da área de enfermagem e parte integrante de dissertação de mestrado de Santos
(2011) foi revisto e compatibilizado com vistas a ajustar o instrumento de medição. Após esta
listagem original foi concebida uma listagem com 84 itens.
O instrumento de pesquisa concebido a partir deste processo contou com a avaliação,
por parte dos respondentes potenciais, a lista de adjetivos atribuindo notas que variam entre 1
a 5 (1 = ‘Descreve muito mau’; e 5 = ‘Descreve muito bem’). Cada adjetivo foi avaliado duas
vezes pelos respondentes, sendo a primeira avaliação sobre o modo como ele percebe sua
3
categoria profissional (autopercepção) e a segunda sobre a percepção que outros indivíduos
têm da categoria profissional (heteropercepção), como ilustra a Figura 1.
Adjetivos
Como você vê sua categoria profissional
1
2
3
4
5
Como a sociedade em geral vê sua categoria
1
2
3
4
5
Produtiva
Figura 1 – Questionário de auto e heteropercepção
Fonte: Elaborado pelos autores.
A escala foi equilibrada (igual número de alternativas positivas e negativas), com
presença de ponto neutro (número três), não forçada (os respondentes poderia avaliar que
algum adjetivo não se aplicava a situação) e numérica (as respostas eram dadas na forma de
números) (COOPER; SCHINDLER, 2011). O instrumento inicial ainda contou com questões
sócio-demográficas e de perfil profissional para fins de classificação e identificação.
3.2 DEPURAÇÃO E APLICAÇÃO INICIAL DO INSTRUMENTO
Concebido o instrumento procedeu-se a seu teste inicial de forma quantitativa. Antes de ir ao
campo, foi realizado o pré-teste do instrumento com profissionais próximos à equipe de
pesquisa, não tendo sido realizadas grandes mudanças, exceção feita às questões sóciodemográficas. Após este procedimento, o instrumento foi aplicado, principalmente, em
estudantes de enfermagem e profissionais que atuam na área. Nesta etapa, foram obtidos 243
questionários válidos. A coleta de dados foi feita por meio de instrumento físico e
autopreenchido.
3.3 TÉCNICAS DE ANÁLISE DOS DADOS
A análise de dados foi realizada utilizando os softwares SPSS 13.0®, e AMOS 5.0® e
Microsoft Excel®. A amostra foi composta por 90% de mulheres. As faixas etárias
predominantes foram: até 25 anos (53%), de 26 a 30 anos (20%) e de 31 a 35 anos (11%). Os
solteiros compuseram 66% da amostra e os casados refletiram 28%. Aproximadamente 75%
da amostra não têm filhos, 23% possuem um ou dois filhos e 86% da amostra tinham
graduação completa ou em andamento, os demais tinham níveis superiores de escolaridade.
O tratamento inicial aconteceu pela avaliação dos dados ausentes, perfazendo 4.850
respostas que representaram 23,76% de toda a base (243 x 168 respostas). Este número inicial
revela que alguns indicadores podem apresentar percentuais de não respostas elevada, devido
a dificuldades no entendimento ou avaliação pouco apropriada do ponto de vista dos
respondentes potenciais. Ademais, muitas variáveis apresentaram perdas superiores a 15%,
relevando potenciais problemas desta natureza. Conforme sugerem Hair et al., (2010) optouse por excluir os respondentes que tinham mais de 50% de dados ausentes, bem como as
variáveis que, após a exclusão de respondentes ainda apresentaram grande perda de dados.
Deste modo a escala passou a ter somente 69 itens (15 foram excluídos) em 215 questionários
válidos. A exclusão dos dados foi apoiada na constatação de que os dados ausentes estavam
dispersos totalmente ao acaso (teste MCAR com Qui-quadrado = 22.819,527, gl = 22.661 Sig.
4
= 0,228). Desse modo, os dados ausentes remanescentes foram repostos por meio do
procedimento de regressão multivariada, conforme sugerem Tabachnick e Fidell (2007).
Na sequencia foi avaliada a presença de observações discrepantes, denominadas de
outliers. Pela análise do intervalo interquartil (casos menores que Q1-3xIQ ou Q3-3xIQ)
comumente apresentado nas caixas de bigodes (boxplots) foram identificados e substituídas
47 respostas (0,158% do total). Na base não forma detectadas outliers mutivariados segundo o
critério da distância de Mahalanobis (D2).
Quando analisada a linearidade por meio dos diagramas de dispersão, e a
multicolinearidade (valores VIF menores que 10) não foram detectados problemas na base de
dados. Na seqüência, partiu-se para a avaliação da dimensionalidade da escala proposta.
É importante salientar que dado o tamanho reduzido da amostra e o número de itens
presentes não foi possível aplicar o procedimento de Análise Fatorial Exploratória (AFE) para
todos os itens da escala pretendida, pois para isto seria recomendada uma amostra de no
mínimo 345 respostas (69x5), conforme sugerem Costa (2011) e Netemeyer et al. (2003).
Assim, aplicou-se um procedimento de AFE para cada dimensão da escala proposta,
verificando se cada dimensão inicialmente prevista poderia ser considerada do tipo
unidimensional (NETEMEYER et al., 2003), com extração de fatores por componentes
principais (objetivo de determinar o menor número de fatores responsáveis pela variabilidade
em cada dimensão) e usando o critério de análise do scree plot. Os resultados desta análise
preliminar podem ser observados na Tabela 1.
Tabela 1: Avaliação da unidimensionalidade das escalas
Dimensão
Definição
Avaliação do grau de dedicação e esforço físico
Esforço
mental requerido pela profissão.
Reconhecimento e respeito próprio e da
Reconhecimento
sociedade da profissão.
Avaliação da dedicação e entrega da profissão
Dedicação
como servidora e prestativa às necessidades de
terceiros.
Avaliação da profissão como pertencente a um
Sociabilidade
grupo social coeso e de interesses partilhados.
O quanto a profissão exerce uma posição de
Subordinação
destaque e Subordinação frente a outras
categorias profissionais em seu setor de atuação.
O quanto a profissão é percebida como tendo
uma natureza inovadora e criativa considerando
Inovação
as tendências contemporâneas no mundo do
trabalho
O quanto a profissão oferece oportunidade para o
Dinamismo
dinamismo e estimulação intelectual.
Grau de hierarquia e formalização no processo
Hierarquização
decisório no exercício da profissão.
Reflete a quantidade de conhecimento e
Tecnicidade
habilidades técnicas requeridas ao exercício da
profissão.
Enquanto a profissão transparece um sentimento
Realização
de auto-realização genérico a seus profissionais.
O quanto a profissão oferece estabilidade na
Estabilidade
carreira.
Ética
Avaliação da ética e honestidade da categoria
Nº1
Nº2
Nº3
Kmo
Var
Alpha
9
6
5
0,709
43%
0,695
6
6
5
0,717
39%
0,612
10
10
9
0,900
44%
0,857
7
5
2
0,500
63%
0,405
8
6
4
0,719
58%
0,748
7
4
2
0,500
72%
0,612
7
6
4
0,673
43%
0,546
5
3
3
0,510
46%
0,386
5
3
3
0,567
60%
0,656
6
4
4
0,702
48%
0,624
6
4
3
0,500
60%
0,299
8
7
6
0,763
41%
0,701
5
profissional.
TOTAL
84
64
50
Fonte: dados da pesquisa.
OBS: 1) N.º 1 número de itens inicial da escala;
2) N.º 2 número de itens da escala após tratamentos iniciais;
3) N.º 3 número de itens da escala após AFE;
4) KMO medida KMO de adequação da amostra (deve ser superior a 0,600);
5) VAR variância extraída na AFE (deve ser superior a 40%);
6) ALPHA medida de confiabilidade Alpha de Cronbach (deve ser maior que 0,600).
A tabela anterior demonstra que a escala desenvolvida apresentou índices adequados
de confiabilidade para grande parte de suas dimensões, exceto quatro dimensões destacadas
em negrito no texto. Estas ficaram com índices de confiabilidade inferior ao limite
estabelecido de 0,600 tomado com ponto de corte para escalas em desenvolvimento
(COOPER; SCHINDLER, 2011). Ademais é possível atestar que cada escala apresentou
somente uma dimensão, após a eliminação de itens com baixas comunalidades ou cargas
carregadas em outros fatores. De fato, após a depuração inicial a escala contendo 84 itens foi
reduzida para 50 itens. Para as escalas que apresentaram baixos níveis de confiabilidade
preferiu-se sua eliminação nas etapas posteriores de validação, exceção feita para a escala de
‘dinamismo’, pois seu valor de confiabilidade ficou próximo ao limite esperado de 0,600. Esta
dimensão foi mantida na expectativa de que estudos futuros possam refinar suas medições
obtendo valores mais confiáveis e válidos. Deste modo, o estudo teve um número de itens
reduzido para 41.
4 DESCRIÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS
Neste ponto do artigo apresenta-se uma visão das escalas obtidas, destacando as
médias dos construtos e dos indicadores. Para tanto serão apresentados os resultados de auto e
heteropercepção, bem como o gap de percepção, ou seja, a diferença entre os dois tipos de
percepção.
Tabela 2: Dimensões da auto e heteropercepção
Dimensões
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Dedicação
4,301
0,643
3,989
0,757
0,313
0,769
Esforço
4,255
0,572
3,789
0,811
0,466
0,782
Ética
4,096
0,683
3,722
0,785
0,373
0,714
Tecnicidade
4,048
0,806
3,239
0,961
0,809
0,969
Dinamismo
3,998
0,828
3,457
0,904
0,541
0,870
Inovação
3,774
0,932
3,070
1,025
0,705
1,108
Reconhecimento
3,503
0,816
3,149
0,917
0,354
0,750
Realização
3,481
0,923
3,181
0,910
0,299
0,895
Subordinação
3,433
Fonte: dados da pesquisa.
0,959
3,786
0,864
-0,353
1,211
6
As dimensões da autopercepção que apresentaram as maiores médias, em ordem
decrescente foram: dedicação, esforço, ética, tecnicidade, dinamismo, inovação,
reconhecimento, realização e subordinação. As dimensões da heteropercepção ficaram assim
hierarquizadas: dedicação, esforço, subordinação, ética, dinamismo, tecnicidade, realização,
reconhecimento e inovação. A maioria dos desvios-padrão ficou acima de 0,75, indicando
dispersão de notas, com exceção para as dimensões ‘inovação’, ‘reconhecimento’ e ‘ética’.
Assim como Brito (2004), Oliveira (2006) e Serra (2008) , entende-se que a construção da
identidade é um processo dinâmico e histórico, que permite reestruturações. Pensar em
identidade como algo inalterável e estático, segundo Dubar (2005), se torna um erro diante
das mudanças vivenciadas ao longo da vida do indivíduo dentro de um grupo.
Para os interacionistas simbólicos Berger e Luckman (1989), todo indivíduo nasce em
uma estrutura social objetiva, dentro da qual encontra os ‘outros significativos’ que se
encarregam de sua socialização. A socialização primária é a mais importante para o indivíduo,
tendo como objetivo inserir a criança no mundo adulto. A socialização secundária, por sua
vez, é a interiorização de mundos institucionais ou baseados em instituições. Através do
processo de socialização primária e secundária, os valores de uma determinada sociedade e de
seus segmentos de classe são internalizados. As identidades são, portanto, construídas por
meio do exercício de papéis, num dado contexto social e mediadas pelo processo de
identificação no qual o “outro” assume um papel relevante.
Neste estudo, com base nos trabalho de Dubar (2005), a identidade social foi
concebida como produto da articulação entre uma dimensão interna ao indivíduo e outra
externa, fundada em suas interações com as diferentes instituições que envolvem seu
cotidiano. Apesar dos respondentes desta pesquisa ainda não haverem se graduado, eles já
realizaram um conjunto de atividades práticas em disciplinas cursadas e também estágios
curriculares e não curriculares. Por meio dessas atividades comunicativas, mediadas pelo
exercício de novos papéis, esses jovens internalizam informações e sensações provenientes
desses ‘outros significativos’, como professores e demais profissionais, e externalizam seus
pensamentos e emoções, construindo suas identidades sociais.
Tabela 3: Dimensão dedicação
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Prestativa
4,484
0,790
4,042
1,056
0,442
1,052
Cuidadosa
4,567
0,679
4,149
1,048
0,419
0,968
Solidária
4,326
1,017
4,009
1,123
0,316
1,239
Amável
4,074
1,083
3,926
1,011
0,149
1,248
Dedicada
4,437
0,840
3,930
1,148
0,507
1,151
Companheira
4,060
1,107
3,953
1,004
0,107
1,193
Humana
4,581
0,756
4,167
1,041
0,414
1,033
Comprometida
4,144
1,060
3,744
1,117
0,400
1,293
Generosa
4,195
1,013
3,963
1,164
0,233
1,224
Amiga
4,144
1,137
4,005
1,074
0,140
1,192
Dedicação
4,301
Fonte: dados da pesquisa.
0,643
3,989
0,757
0,313
0,769
7
Na dimensão ‘dedicação’ todos os adjetivos receberam media acima de quatro pontos,
portanto, descrevem bem autopercepção do aluno de enfermagem. Os adjetivos que
receberam menor pontuação nesse conjunto foram: companheira e amável.
A
heteropercepção também se mostrou positiva para todos os adjetivos. A menor pontuação
nessa dimensão foi dada aos adjetivos ‘comprometida’. A maior diferença entre a auto e
heteropercepção está nos adjetivos: dedicada (0,507), prestativa (0,442), cuidadosa (0,419),
humana (0,414) e comprometida (0,400). O desvio-padrão alcançou pontuação esperada,
revelando pouca dispersão entre as respostas.
Tabela 4: Dimensão esforço
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Árdua
4,167
1,081
3,819
1,184
0,349
1,277
Desgastante
3,981
1,223
3,781
1,174
0,200
1,405
Produtiva
4,391
0,829
3,516
1,071
0,874
1,143
Trabalhadora
4,623
0,664
4,140
1,018
0,484
0,961
Lutadora
4,112
1,175
3,688
1,136
0,423
1,169
Esforço
4,255
Fonte: dados da pesquisa.
0,572
3,789
0,811
0,466
0,782
Na dimensão ‘esforço’ os adjetivos que melhor descrevem a autopercepção do futuro
enfermeiro, ou seja, a forma como os estudantes percebem sua categoria profissional e a
avaliam, em ordem decrescente são: trabalhadora, produtiva, árdua e lutadora. O adjetivo que
recebeu menor pontuação nesse conjunto foi ‘desgastante’. Os desvio-padrão médio ficou em
0,572 pontos, revelando baixa diferença entre as respostas.
No que se refere à heteropercepção, ou seja, a forma como a categoria profissional é
percebida e avaliada pelos ‘outros’, incluindo aqui os demais profissionais com quem
convivem, como usuários e a sociedade como um todo, os adjetivos que receberam maior
pontuação foram: trabalhadora, árdua, desgastante e lutadora. O de menor pontuação foi
‘produtiva’. Destaca-se que trabalhadora (4,140) ficou em terceiro lugar entre os adjetivos
relativos a heteropercepção.O desvio-padrão ficou acima do valor esperado, que é de 0,75.
A maior diferença entre ‘a forma como eu me percebo’ e ‘sou percebido pelos outros’
está no adjetivo ‘produtiva’, com diferença de média bastante elevada, de 0,874, a segunda
maior de todo o questionário. Isso representa um gap, ou seja, aquilo que eu gostaria de
encontrar nos olhar do outro sobre mim mesmo, mas que não está presente e pode gerar
tensões, angústias, conflitos e até crises.
8
Tabela 2: Dimensão ética
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Ética
4,098
1,043
3,623
1,161
0,474
1,245
Honesta
4,112
1,062
3,800
1,116
0,312
1,144
Honrada
3,577
1,301
3,470
1,175
0,107
1,157
Digna
4,419
0,871
3,953
1,058
0,465
1,122
Confiável
4,102
0,937
3,521
1,187
0,581
1,107
Correta
4,242
0,926
3,819
1,076
0,423
1,161
Íntegra
4,121
0,939
3,870
0,958
0,251
1,090
Ética
4,096
Fonte: dados da pesquisa.
0,683
3,722
0,785
0,373
0,714
‘Digna’ é o adjetivo que recebeu a maior pontuação em autopercepção e
heteropercepção na dimensão ‘ética’. Os demais adjetivos também receberam pontuação
acima de quatro pontos para autopercepção, com exceção para ‘ honrada’ (3,577), que
também recebeu menor pontuação entre os adjetivos da escala de heteropercepção.
Na diferença entre a auto e a heteropercepção, esta dimensão foi a terceira com menor
pontuação (0,373), perdendo para ‘realização’ (0,299) e ‘dedicação’ (0,313). Significa que
existe pouca diferença entre a forma como eles avaliam sua categoria profissional e são
avaliados pela sociedade. O adjetivo ‘honrada’, por sua vez, foi o que apresentou menor
diferença. Os desvios-padrão ficaram dentro do esperado.
Tabela 6: Dimensão tecnicidade
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Inteligente
4,037
0,911
3,093
1,148
0,944
1,187
Sábia
4,070
0,967
3,256
1,162
0,814
1,243
Estudiosa
4,037
1,097
3,367
1,223
0,670
1,342
Tecnicidade
4,048
Fonte: dados da pesquisa.
0,806
3,239
0,961
0,809
0,969
‘Inteligente’ é o adjetivo que pontuou a maior diferença entre auto e heteropercepção
nesta dimensão. Significa que apesar dos futuros profissionais perceberem essa qualidade na
categoria a sociedade não a reconhece como tal. ‘Sábia’ e ‘estudiosa’ ficaram com a segunda
e terceira posições nesta dimensão, e com a terceira e quinta maior diferença no conjunto do
questionário. A dimensão ‘tecnicidade’ foi a que apresentou o maior gap entre os dois tipos
de percepção. O desvio padrão ficou acima do esperado.
Tabela 7: Dimensão dinamismo
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Dinâmica
4,140
0,966
3,595
1,152
0,544
1,175
Atualizada
3,972
1,027
3,470
1,097
0,502
1,093
9
Estimulante
3,884
1,219
3,307
1,156
0,577
1,351
Dinamismo
3,998
Fonte: dados da pesquisa.
0,828
3,457
0,904
0,541
0,870
O adjetivo ‘dinâmica’ recebeu uma pontuação elevada (4,140) no conjunto da
dimensão ‘dinamismo’. ‘Atualizada’ e ‘estimulante’ ficaram com a segunda e terceira
posições. Esses adjetivos receberam menor pontuação na heteropercepção, mas mantiveram a
mesma hierarquia. O gap entre auto e heteropercepção apresentou diferença média de 0,541,
a terceira maior entre as dimensões, perdendo para ‘tenacidade’ e ‘inovação’. Os desviospadrão ficaram acima do esperado.
Tabela 8: Dimensão inovação
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Criativa
3,944
1,053
3,158
1,153
0,786
1,354
Inovadora
3,605
1,159
2,981
1,184
0,623
1,254
Inovação
3,774
Fonte: dados da pesquisa.
0,932
3,070
1,025
0,705
1,108
Na dimensão ‘inovação’ o adjetivo que recebeu maior pontuação na auto e
heteropercepção foi ‘criativa’ (3,944 e 3,158, respectivamente). Note-se que ‘inovadora’
recebeu baixa pontuação na heteropercepção (2,981) e a terceira menor posição em todo o
questionário. Esta dimensão apresentou o segundo maior gap na comparação entre os dois
tipos de percepção e os desvios-padrão ficaram acima do esperado.
Tabela 9: Dimensão reconhecimento
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Renomada
2,865
1,266
2,563
1,217
0,302
1,147
Respeitada
3,126
1,245
2,963
1,215
0,163
1,151
Admirada
3,791
1,199
3,274
1,351
0,516
1,311
Prestigiada
3,033
1,375
2,833
1,311
0,200
1,269
Útil
4,702
0,659
4,112
1,012
0,591
1,102
Reconhecimento
3,503
Fonte: dados da pesquisa.
0,816
3,149
0,917
0,354
0,750
Na dimensão ‘reconhecimento’ os adjetivos que melhor descrevem a autopercepção
do estudante são: útil e admirada. Os adjetivos que receberam menor pontuação nesse
conjunto foram: renomada (2,865), prestigiada (3,033) e respeitada (3,126). Esses adjetivos
receberam a menor pontuação no conjunto do questionário, ou seja, são os que menos
descrevem bem a autopercepção da categoria.
Os adjetivos que melhor descrevem a heteropercepção são: útil e admirada. Os de
menor pontuação, e que indicam o que os outros não vêem nessa categoria profissional são os
adjetivos: respeitada, prestigiada e renomada. Destaca-se que ‘util’ (4,112) foi o terceiro
adjetivo que melhor representou a heteropercepção da categoria.
10
A maior diferença entre ‘a forma como eu me percebo’ e ‘sou percebido pelos outros’
está nos adjetivos: útil (0,591) e admirada (0,516), com média de cinco pontos, bastante
elevadas quando se analisa o conjunto do questionário. Os desvios-padrão ficaram acima do
esperado.
Tabela 10: Dimensão realização
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Bem sucedida
2,972
1,219
2,772
1,253
0,200
1,354
Alegre
3,809
1,113
3,405
1,184
0,405
1,203
Feliz
3,660
1,265
3,367
1,140
0,293
1,231
Realização
3,481
Fonte: dados da pesquisa.
0,923
3,181
0,910
0,299
0,895
A dimensão ‘realização’ foi a que apresentou menor diferença média entre a percepção
que os futuros profissionais têm de sua categoria e a forma como são vistos pela sociedade,
apesar de os alunos não considerarem a categoria como bem-sucedida (2,972), adjetivo que
ocupou a segunda menor pontuação entre todos. Os desvios-padrão ficaram acima do
esperado.
Tabela 11: Dimensão subordinação
Autopercepção
Heteropercepção
Diferença
Itens
Média
Desvio
Média
Desvio
Média
Desvio
Obediente
3,805
1,114
3,819
1,041
-0,014
1,295
Submissa
3,149
1,373
3,702
1,240
-0,553
1,572
Subordinada
3,344
1,239
3,837
1,248
-0,493
1,685
Subordinação
Fonte: dados da pesquisa.
3,433
0,959
3,786
0,864
-0,353
1,211
Na dimensão ‘subordinação’, o adjetivo que melhor descreve a autopercepção do
aluno a respeito da categoria profissional é obediente (3,805). Os adjetivos que receberam
menor pontuação nesse conjunto foram: subordinada (3,344) e submissa (3,149).
A heteropercepção também se mostrou positiva para todos os adjetivos: subordinada,
obediente e submissa. A maior diferença entre a auto e heteropercepção está nos adjetivos:
dedicada (0,507), prestativa (0,442), cuidadosa (0,419), humana (0,414) e comprometida
(0,400). O desvio padrão médio ficou acima do esperado, revelando dispersão entre as
respostas.
No conjunto da escala de autopercepção, entre os dez primeiros lugares, o adjetivo de
‘útil’ foi o que recebeu maior pontuação (4,702), seguido de ‘trabalhadora’ (4,623), ‘humana’
(4,581), ‘cuidadosa’ (4,567), ‘prestativa’ (4,484), ‘digna’ (4,419), ‘solidária’ (4,326), ‘correta’
(4,242), ‘generosa’ (4,195), e ‘árdua’ (4,167). Cinco desses adjetivos encontram-se na
dimensão ‘dedicação’.
Na escala de heteropercepção encontra-se os adjetivos ‘humana’ (4,167), ‘cuidadora’
(4,149), ‘trabalhadora’ (4,140), ‘útil’ (4,112), ‘prestativa’ (4,042), ‘solidária’ (4,009), ‘amiga’
(4,005), ‘generosa’ (3,963), ‘subordinada’ (3,837), e em décimo lugar empatados (3,819)
11
estão os adjetivos ‘árdua’, ‘obediente’ e ‘correta’. Sete destes adjetivos estão na dimensão
‘dedicação’.
Figura 2: Auto e hetero percepção
Fonte: dados da pesquisa.
Como ilustra a Figura 2, as médias das dimensões de autopercepção foram maiores
que as de heteropercepção, indicando que os futuros profissionais apresentam uma autoavaliação mais positiva do que a imagem que acreditam que a sociedade tem de sua futura
categoria. A única exceção foi para a dimensão subordinação, revelando que a categoria
profissional enfermeiros é percebida pela sociedade como submissa, mas os sujeitos da
pesquisa discordam dessa categorização.
Como alerta Brito (2004), o sentimento de reconhecimento é fundamental para a
legitimação profissional e consolidação da identidade social. As instituições de saúde vêm
passando por intensas transformações estruturais, gerenciais e processuais que têm
contribuído para a intensificação das contradições, como novos modelos de gestão,
enxugamento do quadro de pessoal, precarização das condições de trabalho com extensão de
jornada, cortes de benefícios e intensificação da carga de trabalho. Esses acontecimentos
interferem nos relacionamentos entre os integrantes das equipes de enfermagem e demais
profissionais de saúde e, portanto, na construção das identidades sociais.
Ao analisar a produção científica nacional sobre o tema identidade dos enfermeiros
Porto (2004) identificou que a dimensão afeto é muito presente, dada a tradição judaico-cristã
da sociedade brasileira, indicativa da vocação, virtude, bondade e amor para com o próximo,
associado ao interesse, à solidariedade, sensibilidade e criatividade inerentes à profissão. A
dimensão profissional, por sua vez, é caracterizada pelo trabalho assalariado em condições
precárias em função da adversidade do sistema de saúde brasileiro.
Estudos realizados por Santos (2011) e Oliveira (2006), revelam que as expectativas
criadas durante a formação profissional dos enfermeiros nem sempre correspondem à
realidade vivenciada no trabalho. De acordo com Oliveira (2006), o principal motivo da
12
escolha da profissão tem sido porque ela permite atender aos desejos ou ideal de cuidar e
promover o bem-estar, em compatibilidade com o sonho de realização pessoal e
independência financeira. Ao ingressar no mercado de trabalho, contudo, os jovens
profissionais precisam enfrentar a dura realidade de um sistema dominante e repressivo, com
horários rígidos e relações desiguais entre médicos e enfermeiros. Ao longo da trajetória
profissional a expectativa que eles mantêm é de que a enfermagem atribua ênfase ao cuidado
e ao conforto do usuário, mas que também assegure o reconhecimento pelas suas atividades
profissionais. Oliveira (2006) conclui que a profissão tem gozado mais de prestígio
individual do que social e o presente estudo aponta para a mesma direção.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A principal contribuição deste trabalho foi construir um instrumento quantitativo para
análise da identidade profissional, ausente na literatura especializada que conta com o
resultado de trabalhos predominantemente qualitativos.
Os procedimentos de avaliação da confiabilidade e da validade interna mostraram
elevada consistência e adequação das medições realizadas. Além disso, as dimensões
retrataram os aspectos levantados na etapa exploratória, reforçando a validade de translação
das medidas.
Quanto à validade externa, o estudo apresenta uma limitação em especial, que é o de
ter sido realizado com uma amostragem composta por estudantes. É preciso enfatizar que o
status de estudante é provisório, uma vez que esses indivíduos estão sendo preparados pela
escola para um futuro que ainda é incerto. Não obstante, o papel de aluno é uma das primeiras
experiências aprendidas pelas crianças fora da família e este preparo é fundamental para a
completa introdução dos indivíduos na sociedade e alcance de autonomia e reconhecimento.
Ao longo dos anos, um conjunto específico de conhecimentos, relacionado às
profissões e às ocupações, é criado e apreendido tendo como mediadores os professores,
tutores e orientadores, que pretendem servir como modelos de um saber ser e agir. Aquilo que
pensam e sentem os alunos deve ser preocupação de toda a escola e sociedade, servindo de
base para a reorientação das atividades formativas e para o desenvolvimento de políticas de
valorização e de planejamento de carreiras.
Os dados analisados revelam que estudantes de enfermagem apresentaram uma
autopercepção mais positiva do que a percepção que acreditam que a sociedade tem de sua
futura categoria profissional. As dimensões da autopercepção que apresentaram as maiores
médias, em ordem decrescente foram: dedicação, esforço, ética, tecnicidade, dinamismo,
inovação, reconhecimento, realização e subordinação. As dimensões da heteropercepção, por
sua vez, ficaram dispostas na seguinte ordem: dedicação, esforço, subordinação, ética,
dinamismo, tecnicidade, realização, reconhecimento e inovação.
No conjunto da escala de autopercepção, os adjetivos que receberam as maiores
médias foram: útil, trabalhadora, humana, cuidadosa, prestativa, digna, solidária, correta,
generosa e árdua. Cinco desses adjetivos encontram-se na dimensão dedicação.
Na escala de heteropercepção os adjetivos que se destacaram foram: humana,
cuidadora, trabalhadora, útil, prestativa, solidária, amiga, generosa, subordinada, árdua,
obediente e correta. Sete destes adjetivos estão na dimensão dedicação.
Como o processo de construção da identidade é histórico e socialmente construído é
possível afirmar que apesar do processo de individualização da sociedade contemporânea,
promovido por um capitalismo centrado no consumismo, o que ainda leva os enfermeiros a
13
escolher uma profissão é a vocação para o cuidado com outro e o desejo de promover o bemestar. No entanto, compatibilizar esse ideal com a necessidade realização pessoal e
independência financeira nem sempre se mostra possível, devido aos baixos salários e
condições precárias do trabalho vivencias por esses profissionais na contemporaneidade.
Destaca-se ainda, que apesar do processo de educação em enfermagem historicamente ter se
constituído para preparar profissionais que deveriam seguir as ordens dos médicos. Esse papel
auxiliar é atualmente renegado pelos estudantes, que discordaram da imagem de subordinação
ainda prevalecente no olhar da sociedade.
Em síntese, os dados permitem considerar que os estudantes de enfermagem não
percebem que sua futura categoria profissional seja devidamente reconhecida e valorizada
pela sociedade. O risco dessa situação é que quando o olhar do ‘outro’ não está carregado de
respeito e admiração, a auto-estima diminui e sobrevém a frustração, enfraquecendo a
identificação com a profissão e trazendo, por pressuposto, prejuízos para a saúde física e
emocional destes cidadãos.
Espera-se que no futuro esta escala possa ser validada também para outras categorias
profissionais, com a finalidade de avaliar o processo de construção de identidade e
identificação profissional.
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