25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Nº 7 | Ano 1 Director: José Luís Mendonça •Kz 50,00 Moçambicanos falam de Agostinho Neto ESPECIAL FESTINETO LETRAS PAG. 3 PAG. 5 Mendes de Carvalho PAULINO DAMIÃO “CINQUENTA” “Podia Doutor Honoris Causa ter feito mais” A poesia de Amélia Dalomba LETRAS PAG. 8 na óptica de Akhiz Neto ARTES PAG. 16 CD “Angola, mares e lagoas” Carlos Lopes regressa ao mercado B. KWANZA PAG. 30 e 31 “Aquele Amor” Conto de Maria Celestina Fernandes 2 | ECO DE ANGOLA Sumário ECO DE ANGOLA Geografia de conversas | José Luís Mendonça FESTINETO Moçambicanos falam de Agostinho Neto | Isaquiel Cori LETRAS Estorietas do meu beco | Ismael Mateus Mendes de Carvalho, Doutor Honoris Causa pela Universidade Metodista | Isaquiel Cori Nok Nogueira: “Escrever é um terreno tortuoso, que precisa de ser permanentemente lavrado” | Lula Ahrens Duas históricas aulas literárias na FLUL | Lopito Feijóo Manongo-Nongo, a festa dos recém-nascidos | Tazuary Nkeita Compasso do ritmo na nona brisa | David Capelenguela O locus dialógico da poesia de Amélia Dalomba | Akhiz Neto “Filhos do coração” filhos de África - A literatura infantil angolana: Meio de educação, resgate e preservação dos valores e tradições | Nguimba Ngola ARTES Festival Internacional de Teatro eArtes – Luanda | Áurio Quicunga Um teatro cada vez mais angolano | Áurio Quicunga Etu Lene estreia peça “Quem Matou o Velho Kipacaça” | Kindala Manuel O regresso de Carlos Lopes dez anos depois | João Papelo Ainformação emAngola nos anos 1960-74: a festa era da rádio | Rodri gues Vaz GRAFITOS NA ALMA Defesa nacional, espaço e tempo - Novos contextos e outras vulnerabilidades no século XXI | Luís Kandjimbo A Sindérese e a sua relação com a Lei Natural em Tomás de Aquino | Jo sé Manuel Bragança DIÁLOGO INTERCULTURAL “Niketche: Uma História de Poligamia” de Paulina Chiziane - A metalinguística dolorida da mulher moçambicana | Matadi Makola William Carlos Williams: o poeta da ínfima grandeza da humanidade das coisas | Zetho Cunha Gonçalves O jeito de ilustrar a história de Lília Momplé em “Ninguém Matou Suhura” | Eduardo Quive José Luiz Tavares ou quando o rigor se faz poesia | Nuno Rebocho BARRA DO KWANZA Aquele amor | Maria Celestina Fernandes NAVEGAÇÕES Eu sou do sul | Firmino Mendes Publicidade não tem hora nem idade certa | Gociante Patissa Breves Cultura 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Editorial Cultura Geografia de conversas JOSÉ LUÍS MENDONÇA 1 O Tempo (mais uma Vicção do género humano) marcou metade deste ano. Culturalmente falando, o mundo está cada vez mais empenhado em colmatar a ilusão de tudo ser nada e vir a se desmoronar como o destino de Okonkwo, o guerreiro nigeriano da tribo dos Ibo, herói mítico do romance de Chinua Achebe. Por isso, neste dealbar do século XXI, paira no ar uma nuvem de Esperança que, para nós, Angolanos, é perenemente Sagrada. Arvorada em bandeira ou símbolo da nossa alma libertária no título do inderrogável Poema Épico lavrado pela mão do poeta Agostinho Neto, essa Esperança caracteriza o nosso ideário colectivo. Trazemos aqui várias conversas esvoaçantes nesta geograVia. Mendes de Carvalho, “Uanhenga Xitu”, fala-nos da distinção Honoris Causa que recebeu pela Universidade Metodista de Angola, “pela dedicação de toda uma vida à construção de uma Angola livre e independente e à ilustração e bem-estar do seu povo”. A FilosoVia veio fazer morada nesta casa, com a tese do Padre José Manuel Bragança sobre a sindérese e sua relação com a lei natural em Tomás de Aquino. Nok Nogueira, uma voz da novíssima geração de poetas, destaca uma verdade que tem sido ignorada por alguns autores jovens, ávidos de publicar. Que o exercício artístico, e o literário em particular, é uma actividade de altíssimo risco. Um trabalho de Hércules, melhor dizendo. O risco que se corre, acrescentamos nós, é o de ter de submeter à implacável dissecação cirúrgica da Crítica Literária. O ensaísta e poeta Akhiz Neto mostra-nos o imaginário lírico da incansável Amélia Dalomba, enquanto que o escritor Tazuary Nkeita nos apresenta a obra de Luciano Canhanga, “Manongo-Nongo, a festa dos recém-nascidos”. Duas novas vozes a contribuir para a manufactura verbal deste vosso jornal. A estes se vem juntar Ismael Mateus, que nos propõe uma leitura de “Estorietas do meu beco”, o novo título de Garcia Bires, que escreve despido “da nostalgia com que muitos dos mais velhos, conservadores, se esforçam por nos ‘impingir’ o passado como o nosso ideal de futuro.” “Compasso do ritmo na nona brisa” é uma crónica de David Capelenguela, também estreando a sua pena no jornalismo cultural, para nos contar uma faceta da vida social do poeta Lopito Feijóo. Deste, diz Capelenguela que “vive praticamente com e no mar. Sente as ondas a tocar os alicerces do muro de vedação, ao ponto de dar-lhe a sensação de se deixar levar pela aderência do instante, efeito do “kalunga”. Reminiscência de um espírito de kianda? 2 Esta edição aparece prenhe de novidades. Falamos aqui de teatro, pela primeira vez. Rodrigues Vaz apresenta uma panorâmica da informação em Angola nos anos 1960-74, em que, diz, “a festa era da rádio (…) o grande meio de comunicação social em Angola, como aliás continua a ser.” João Papelo divulga o regresso de Carlos Lopes, dez anos depois, com um novo trabalho discográVico, intitulado “Angola, mares e lagoas”, um CD recomendável aos que gostam de música acústica tecida com destreza de mestre. 3 São tantas as conversas e tão escasso o Tempo (ainda que Vicção do género humano), que nada mais nos resta senão desejar que o leitor entre nelas e as desconverse consigo mesmo e com os interlocutores aqui sentados, para que a nossa mística Esperança emerja, deste diálogo quinzenal, cada vez mais alta como a sombra da mulembeira. Propriedade Jornal Angolano de Artes e Letras Nº 7 | Anoa 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 [email protected] CONSELHO EDITORIAL Director e Editor-chefe | José Luís Mendonça Editor de Letras | Isaquiel Cori Editor de Artes | Francisco Pedro Assistente Editorial | Berenice Garcia Fotografia | Paulino Damião (Cinquenta) e Arquivo do Jornal de Angola Edição de Arte e Paginação | Albino Camana, Tomás Cruz, Inês Quingando, Publicidade: (+244) 222 337 690 | 222 333 466 Alberto Bumba e Moisés Gonçalo COLABORAM NESTE NÚMERO: Angola -Akhiz Neto, Áurio Quicunga, David Capelenguela, Gociante Patissa, Ismael Mateus, J.A.S. Lopito Feijóo K., João Papelo, José Manuel Bragança, Kindala Manuel, Luís Kandjimbo, Maria Celestina Fernandes, Matadi Makola, Nguimba Ngola, Patrício Batsikama, Tazuary Nkeita e Zetho Cunha Gonçalves Portugal - Rodrigues Vaz, Firmino Mendes Moçambique - Eduardo Quive Cabo Verde - Nuno Rebocho FONTES DE INFORMAÇÃO: AGULHA, revista de cultura, São Paulo, Brasil Correio da UNESCO, Paris, França AFRICULTURES, Portal e revista de referência das culturas africanas, Les Pilles, França Sede: Rua Rainha Ginga, 12-26 | Caixa Postal 1312 - Luanda Redacção 333 33 69 |Telefone geral (PBX): 222 333 343 Fax: 222 336 073 | Telegramas: Proangola E-mail: [email protected] Conselho de Administração António José Ribeiro | presidente Administradores Executivos | Catarina Vieira Dias Cunha Eduardo Minvu Filomeno Manaças Sara Fialho Mateus Francisco João dos Santos Júnior José Alberto Domingos Administradores Não Executivos | Victor Silva Mateus Morais de Brito Júnior Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |3 Moçambicanos falam de Agostinho Neto DVD reúne depoimentos sobre o primeiro Presidente da República de Angola O ISAQUIEL CORI DVD produzido pela Fundação Agostinho Neto, com depoimentos de 13 personalidades moçambicanas sobre Agostinho Neto, o primeiro presidente da República de Angola, é digno de merecer a maior divulgação possível. Lançado em Janeiro na província do Bié, no quadro dos festejos do Dia da Cultura Nacional, a obra, até aqui, teve escassa repercussão em Angola, ao contrário do que aconteceu em Moçambique, onde foi posta a público no dia 25 de Maio num acto bastante mediatizado que contou com a presença do Presidente Armando Guebuza. Os depoimentos abarcam um longo lapso de tempo da vida de Neto, desde os tempos de estudante em Portugal, nos anos 1940/50, até 1979, o ano da sua morte. A trajectória de Agostinho Neto é narrada, através das memórias das personalidades moçambicanas, na sua dimensão de estudante consciente da importância da libertação do país do jugo colonial, de líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de homem de cultura e de estadista. A permear todas essas dimensões ressalta sempre uma constante: a do homem simples, humilde e camarada, não obstante a sua enorme estatura intelectual e simbólica. “Era um indivíduo que falava pouco mas pensava muito. E quando falava só dizia as coisas muito acertadas” (Joaquim Chissano). “Ele tinha uma conversa para todos” (Mariano Matsinha). As relações estreitas entre o MPLA e a FRELIMO, o contexto em que as mesmas se desenrolaram, as amizades – cumplicidades - entre os dirigentes de ambos os países, alicerçadas e ediQicadas ao longo da luta de libertação nacional, são evocadas pelos depoentes, cada um, naturalmente, à sua maneira. Segundo Mariano Matsinha, fundador da FRELIMO, “havia troca de informação institucionalizada, organizada e informal sobre o que acontecia em Angola e em Moçambique”. Joaquim Chissano, ex-presidente de Moçambique, e ao longo de muitos anos ministro dos Negócios Estrangeiros, aQirma que conheceu pessoalmente Agostinho Neto em Dar-esSalam (Tanzânia) em 1965, num encontro de movimentos de libertação das então colónias portuguesas, em que “ele (Neto) tomou posições muito construtivas”. O escritor Mia Couto, que foi repórter presidencial ao tempo de Samora Machel, e nessa qualidade esteve muito próximo de Agostinho Neto, centra o seu depoimento na vertente cultural, fala da “dimensão mitológica” e exalta as qualidades do poeta. Para ele, a poesia de Agostinho Neto é de “um africano que bebeu a cultura do mundo e que era um homem universal”: na sua poesia não há “uma proposta de um nacionalismo estreito, que nega as contribuições dos outros”. Mia Couto cita particularmente o poema “Depressa”, contido no livro “Sagrada Esperança”, como um exemplo de “poesia pura”, com “uma mensagem intemporal que deve ser ensinada nas escolas, porque ensina os jovens a terem uma atitude”. Outro depoimento de grande impacto, sem desprimor para os outros, é o de Sérgio Vieira, que foi director do gabinete do presidente Samora Machel. Algumas das suas informações são autênticas revelações, verdadeiras pérolas de memória histórica. Por exemplo, o facto da FRELIMO ter fornecido armas, incluindo canhões BM21, ao MPLA, usadas na crucial batalha de Kifangondo, em 1975; a criação, no dia 12 de Novembro de 1975, de um “banco de solidariedade” com as contribuições de um dia de salário dos funcionários moçambicanos, que arrecadou mais de um milhão de dólares que foram entregues ao jovem governo angolano. Sérgio Vieira dá igualmente a conhecer que pouco antes da independência de Angola, diante da situação de incerteza que se vivia, o MPLA transferiu “todos os haveres” do Banco de Angola para o Banco de Moçambique. Tais “haveres” foram devol- vidos ao Banco de Angola logo depois de proclamada a independência. Outra revelação: Agostinho Neto celebrou o seu último aniversário natalício, em 1978, em Moçambique. Malangatana Ngwenya, essa personalidade irradiante da cultura moçambicana, que faleceu pouco depois de ser entrevistado, fala da poesia de Neto e de como ela terá enriquecido a sua visão estética. Outros depoentes são Marcelino dos Santos, Raimundo Pachinuapa, Bonifácio Massamba, Alberto Chipande, Roque Félix, Abdul Bulamusein, Aiuba Cuereneia e Frederico Alberto. Os depoimentos foram recolhidos pelos jornalistas Altino Matos e Horácio Pedro, sob coordenação de Amarildo da Conceição. A Fundação Agostinho Neto concebeu, produziu e realizou o projecto. Lançamento concorrido O lançamento do DVD aconteceu a 13 de Junho, no Centro Cultural Joaquim Chissano, na presença do chefe de Estado moçambicano, Armando Guebuza, da presidente da Fundação António Agostinho Neto (FAAN), Maria Eugénia Neto, de centenas de personalidades inQluentes da sociedade daquele país e do corpo diplomático. O Presidente de Moçambique, a quem foi outorgado o título de membro honorário da FAAN, considerou Agostinho Neto um “intelectual de primeira água”, com alta perspicácia política e uma personalidade humanística contagiante. Sublinhou que a voz de Agostinho Neto não era apenas ouvida, mas sobretudo respeitada internacionalmente. Referiu que Neto colocou toda a sua estatura ao serviço do povo angolano e do alcance da independência nacional. Maria Eugénia Neto aQirmou que o DVD foi produzido para que não se percam as memórias dos camaradas moçambicanos que conviveram com Agostinho Neto, antes e depois da independência, e para que também “não se adultere a verdadeira história de Angola e do MPLA”. A FAAN fez a doação de valores monetários, um total de dez mil dólares, a duas escolas primárias, uma da cidade da Beira, província de Sofala, e outra do bairro Kumbeza, no distrito de Marracuene, na província de Maputo. Maria Eugénia Neto entregou, igualmente, ao Presidente da República de Moçambique, um poema seu, emoldurado, em homenagem ao primeiro presidente daquele país, Samora Machel. Amarildo da Conceição, alto funcionário da FAAN, disse ao jornal Cultura que ainda este ano vai ser lançado o DVD com depoimentos de personalidades de Cabo Verde que conviveram com Agostinho Neto. Referiu que a Fundação já procedeu à recolha de depoimentos do mesmo cariz em Angola, Argélia, Cuba, Namíbia, Congo Brazzavile, RDC e Tanzânia, que em devido tempo também serão publicados. 4 | LETRAS | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Cultura Para uma leitura de “Estorietas do meu beco” No seu novo livro Garcia Bires lembra que as pessoas estão acima de tudo ISMAEL MATEUS P ertenço a uma geração que tem amiúde reclamado da ausência de testemunhos escritos das gerações anteriores, seja de que estilo e temática forem. Felizmente para nós, o autor de “Estorietas do meu beco” despiu-se da nostalgia com que muitos dos mais velhos, conservadores, se esforçam por nos “impingir” o passado como o nosso ideal de futuro. Não descortinamos neste livro qualquer tentação do autor de colorir o “seu tempo” como o melhor e nem sequer a humana vaidade das comparaçoes. Não há o “meu tempo, melhor” nem o “vosso tempo, pior”, nem o contrário. O autor, como é seu timbre na vida pessoal, é elegante, cortez, abre, até de modo surpreendente, as portas da prateleira da sua memória. São pequenas “estórias” sobre um passado de machimbombos e tempo para viver, feitas para serem lidas hoje com os nossos tempos controlados pela economia de mercado, entre um engarrafamento e outro ou entre uma reunião e outra. Perpassa por todo o livro um traço de simplicidade e clareza de raciocínio que emana do texto e se impregna nas personagens. As diferentes personagens de “Estorietas do meu beco” são humildes, gente bem intencionada e sem as vaidades dos nossos tempos. Segundo o próprio autor, “no beco que veio do nada vivia gente trabalhadora e bastante humilde”. Mais do que isso, são-nos próximos, como se, ao lermos, nos guiássemos pela vida de um dos nossos familiares. Claro que não são da minha geração que se pavoneia em futilidades, sobranceria e arrogância. As personagens de Garcia Bires são do seu tempo. São normais, têm princípios, preocupações com a vida humana e são de uma sociedade com moral. No seu texto literário, o autor de “Estorietas do meu beco, não se conseguiu livrar do peso de também ser o poeta Garcia Bires, razão porque encontramos uma prosa que evolui, se enrosca e apimenta como um poema expandido. Quando não está versiJicado, o sentimento poético do “duplo” autor está na escolha das palavras, na utilização das Jiguras de estilo e no ritmo do texto. Realmente, ler “Estorietas do meu beco” é uma conversa a três, entre o leitor e o autor prosador, tendo a seu lado, sentado e observador, o autor poeta. O apresentador não deveria ter preferências mas, para ser justo, não é possivel contornar Arnaldo. Segundo o autor, Arnaldo era um fotógrafo natural pela sua capacidade de fotogra- far mentalmente tudo o que lhe aparecesse pela frente. Para além da Bíblia que lia com regularidade, tinha decorado todo o compêndio de Aritmética Arnaldo, diz o autor, tinha na leitura e no falar uma certa dificuldade em diferenciar a pronúncia das letras D e T: “Quarda Feira, tia quadro na sala te aula ta professora Maria Petroso eu esdava compledamende tesenquatrato do dema.” Compadre Portanto ou simplesmente “Portantoso”. E tambem vos recomendo o senhor “Discursante” ou melhor Falloussó ou também conhecido por Bongololo ou na parte Jinal do texto identiJicado Jinalmente como Phalloussó com PH António Diamante Kizua Jr. Leiam. O livro “Estorietas do meu beco”, de Garcia Bires, lançado a 25 de Maio, Dia de África, é um apelo à reJlexão. O au- Vicente, Joca e outros tantos povoam o livro, mas Arnaldo distinguese pela originalidade e pela caricatura, numa altura em que nós, sobretudo em Luanda, vamos sobrevivendo, sabe Deus como, ao “comê, bebê ou voâ”, ou ao “Arguma coisa, Argo argum” e até, espantemo-nos, “voces és linda demais, como umjk inspirado resolveu cantar”. Arnaldo como outras vidas deste livro, é comedido. Apesar de toda a sua erudição, troca os D pelos T ou vice versa. Mas Arnaldo não se Jica por aí e, por entre leituras, ganhou o vício de dizer “portanto”. Não está sozinho. Era ou é um vício tão comum que os da minha geração se habituaram a apelidar os “portantosos” de Tio Portanto, tor quer que o seu beco seja reconhecido internacionalmente como património da paz e nacionalmente como um exemplo de cidadania. Ele, o beco, personiJica as raizes, os hábitos e costumes. Ora, assim se entende que o livro esteja centrado nas relações familiares, porque estruturam a sociedade e a tal de angolanidade. Este é um livro que fala das pessoas, do seu modo de estar, do que gostam e do que fazem. Das relações que estabelecem umas com as outras e como isso multiplicado e consensualizado perfaz o que é comum chamarmos de sociedade. É um livro que nos diz claramente que as pessoas, as vidas, as suas relações e inter relações são o centro de “Perpassa por todo o livro um traço de simplicidade e clareza de raciocínio que emana do texto e se impregna nas personagens. As diferentes personagens são humildes, gente bem intencionada e sem as vaidades dos nossos tempos” tudo. As pessoas estão acima de tudo. Boa leitura. 25 de Maio 2012. ______________________ João Garcia Bires nasceu em Luanda, aos 27 de Fevereiro de 1944. Fez o ensino primário na Escola Evangélica de Luanda e o secundário no Colégio da Casa das Beiras. Participou na luta de libertação nacional. É licenciado em Direito Internacional pela Faculdade de Economia e Direito da Universidade Patrice Lumumba, em Moscovo. Membro da União dos Escritores Angolanos, Garcia Bires, que também ostenta o pseudónimo Bireslav Wolker, exerce actualmente o cargo de Embaixador de Angola na República Popular da China, depois de ter exercido o mesmo cargo na Namíbia e em Moçambique. É autor, para além de “Estorietas do meu beco”, de três obras literárias, nomeadamente, “Dia do Calendário”, “O Silêncio acordado” e “Olhadelando”. | LETRAS | 5 Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 “Sinto que podia ter feito mais” Mendes de Carvalho Doutor Honoris Causa pela Universidade Metodista O ISAQUIEL CORI veterano escritor e político reformado Mendes de Carvalho “Uanhenga Xitu”, foi distinguido com o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Metodista de Angola (UMA), no passado dia 25 de Maio. Foi a primeira vez que uma instituição de ensino universitário no país atribuiu tal título. Na Carta Doutoral, assinada pela reitora Teresa José Adelina da Silva Neto, a UMA refere que a homenagem leva em conta “a dedicação de toda uma vida, pela via da sua pro5issão, enquanto enfermeiro, pela via da sua dedicação às artes, e à cultura em geral, enquanto escritor, e pela via da sua intervenção política comprometida, primeiro como opositor ao governo colonial português, depois como governante e como deputado, à construção de uma Angola livre e independente e à ilustração e bem estar do seu povo”. O jornal Cultura aproveitou a oportunidade para colher algumas palavras do escritor, que, apesar da força da idade (quase 88 anos) ainda conserva a lucidez do discurso. Jornal Cultura - Qual é o seu sentimento, depois de ter recebido o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Metodista de Angola? Mendes de Carvalho/Uanhenga Xitu – Recebi muitos elogios, não sei se merecidos. Diante da minha biograEia e dos elogios sinto que podia ter feito muito mais. JC – Continua a escrever? MC/UX – Já não escrevo. JC – Há quanto tempo não escreve? MC/UX – Há uns anos. Quase perdi a vista e ouço muito pouco. Tentei ditar aos meus sobrinhos, mas a coisa não é a mesma. Acabei mesmo por deixar de escrever. JC – Não sente a falta do exercício da escrita? MC/UX – Leio um pouco os jornais e tenho uma Eilha que me lê alguns livros. Por exemplo eu nunca tinha lido os meus livros. Quando a minha Eilha me leu “O Ministro” dei-me conta que é um livro que continua muito actual. JC – Até que ponto as suas obras são <icção ou realidade? MC/UX - Nos meus livros a Eicção e a realidade se entrelaçam. JC – A trama da maioria das suas obras se desenvolve no meio rural. O ambiente urbano nunca o cativou? MC/UX – Nasci e cresci no meio rural. Lá as coisas são mais vivas mas sei que o meu “mato” não é necessariamente o “mato” de hoje. Muita coisa mudou e as pessoas também mudaram de comportamento. Deixo as coisas do meio urbano para os que sabem escrever. Os meus livros não têm literatura, não sou capaz de fazer redacções literárias. Eu penso em kimbundo e traduzo para o português. As minhas memórias da infância e da juventude tenho-as em kimbundo e elas é que serviram de material para os meus livros. JC – O que é que mais o preocupa quando pensa na literatura angolana? MC/UX – Alguns jovens já estão a dizer muitas das coisas que eu esperava. JC – O que é que esperava? MC/UX – O retrato da vida do povo, a sua miséria, o seu estar, a realidade actual. JC – Nunca pensou em passar para o papel a sua trajectória de vida, as suas memórias? MC/UX – As minhas memórias estão nos livros que publiquei. Considero o livro “O Ministro” uma relíquia. JC – Considera este livro o mais importante que escreveu? MC/UX – Um dos mais importantes. Todos eles são meus Eilhos. O “Mestre Tamoda” tem as suas características próprias. Em “Manana” fui longe demais, mergulhei fundo na tradição, na vida dos mais velhos, no conhecimento do feitiço, do xinguiladores… JC – Começou a escrever na cadeia, no Tarrafal, em Cabo Verde. Como era possível? MC/UX – Escrevíamos nuns papéis de embrulho, que vinham da loja. Era animado por rapazes como o António Jacinto, o António Cardoso e o Luandino Vieira. Quase todos os meus livros foram escritos na cadeia. Lá eu tinha tempo, sonhava. Escrever era um passatempo. JC – Além do poema “Eu sou pueta de Kimbundu”, que está no livro “O Ministro”, não se lhe conhecem outros poemas. A poesia nunca o cativou? MC/UX – Não sou poeta. Não tenho jeito para escrever poesia. Mas gosto de boa poesia. JC – Quais os escritores que mais respeita e admira? MC/UX – O Luandino Vieira, o Pepetela, os cabo-verdianos Baltasar Lopes, autor do romance “Chiquinho”, e Manuel Lopes, que escreveu “Chuva Braba”. JC – Ainda é muito procurado por jovens aspirantes a escritores? MC/UX – Continuam a procurarme. Perguntam-me se os meus livros são Eicção ou realidade e querem que eu os ensine a escrever. Eu digo que a Eicção também é realidade. JC – Continua a insistir que não é um escritor mas um simples contador de estórias. Isso não é excesso de modéstia? MC/UX – O que é um escritor? É um homem que escreve livros com preocupações de linguagem. Os camaradas é que me dizem que sou escritor. A forma nunca me preocupou. O importan- te era escrever. Não me gabo como escritor porque sei que cometi muitos erros. Não é modéstia a mais. JC – Disse que continua a pensar em kimbundo. Os jovens parecem cada vez mais longe do aprendizado das línguas nacionais… MC/UX – Não falo tão bem, mas ouço muito bem. Dos nossos pais recebemos o erro, por inEluência do colonialismo português, de que as nossas línguas eram língua de cão. JC – Que conselhos dá aos mais novos, aos jovens? MC/UX – Aconselho-os a estudar, a ler muito, a conEiar no trabalho que o Presidente da República está a fazer. Hoje há mais casas, mais estradas, o caminho-de-ferro está a funcionar. Neste últimos anos foi feito muito trabalho. Por isso há esperança de que o futuro será muito melhor. Agostinho André Mendes de Carvalho, de pseudónimo literário Uanhenga Xitu, (n. 29/08/1924), dentre as várias funções que exerceu foi ministro, embaixador e deputado pela bancada do MPLA. Escreveu os livros: “Meu Discurso” (1974), “Mestre Tamoda” (1974), “Bola com Feitiço”, (1974), “Manana” (1974), “Vozes na Sanzala – Kahitu” (1976), “Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem” (1980), “Os Discursos de Mestre Tamoda” (1984), “O Ministro” (1989) e “Cultos Especiais”, (1997). A editora Mayamba reeditou este ano os livros “O Ministro” e “Bola com Feitiço - Kahitu”. 6 | LETRAS | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Nok Nogueira “Escrever é um terreno tortuoso” LULA AHRENS exercício artístico, e o literário em particular, não é como um balaio de adivinhas, onde são jogados os búzios e depois tem-se a ideia do que virá a ser a seguir. É uma actividade de altíssimo risco.” Quem o diz, sem papas na língua, é Nok Nogueira, uma voz da novíssima geração de poetas, em entrevista concedida nas vésperas do lançamento do seu novo livro “Jardim de Estações”. O Lula Ahrens – Recebeu o Prémio Literário “António Jacinto” em 2004, pela obra "Sinais de Sílabas’. Considera ser este o seu melhor trabalho? O que acha que é a força de “Sinais de Sílabas”? Nok Nogueira – Se assim o considerasse e se tal acontecesse, seria uma fatalidade literária. Penso que estas questões de natureza valorativa cabem sempre ao leitor ou aos estudiosos, e nunca ao autor. Embora reconheça que não é sua intenção levar-me a esse exercício de auto-análise da minha própria obra sob o ponto de vista valorativo. E se assim fosse, seria um exercício nada saudável para o ego e de uma tremenda injustiça para quem nos lê. Deve existir naturalmente um sentimento especial por esta ou aquela obra, mas ser esta ou aquela a melhor, na voz do autor, é realmente uma fatalidade literária, tratando-se do li- vro de estreia. Mas se tal acontecesse provavelmente a esta hora não lhe estava a dar esta entrevista. “Sinais de Sílabas” terá sido, sim, o jogar de uma qualquer semente em terreno tortuoso, que precisava e precisa ainda permanentemente de ser lavrado. O exercício artístico, e o literário em particular, não é como um balaio de adivinhas, onde são jogados os búzios e depois tem-se a ideia do que virá a ser a seguir. É feito tiro no escuro. O melhor arranque nem sempre caracteriza o que de melhor possamos produzir. A única leitura possível a esse propósito é que se tratou de um livro que me terá despertado logo no início de carreira para as inúmeras vicissitudes que encontraria pela sempre. Aliás, no acto de entrega do prémio e lançamento do livro, o escritor Boaventura Cardoso, nas vestes de ministro da Cultura, chamou-me atenção para esta odisseia que viria a ser a actividade literária. E olha que não se enganou. É uma actividade de altíssimo risco. LA – Considera-se antes de tudo um jornalista, um poeta ou ambos? NN – Considero existir uma coexistência pacíKica entre as duas Kiguras, na medida em que o jornalismo na sua essência sempre esteve ligado à literatura, razão pela qual ainda hoje é-lhe chamado a “literatura do real”. O meu caso não terá sido diferente dos de muitos outros, e até bem sucedidos, que se iniciaram primeiro no jornalismo e que depois ganharam fôlego para experimentar uma actividade literária de maior consistência. Há, no entanto, um breve relato em relação a isso a acrescer: comecei a escrever quando estava a frequentar o curso de jornalismo no Instituto Médio de Economia de Luanda (IMEL) e foi só aplicar as ferramentas do jornalismo ao exercício literário e pôr as coisas a funcionarem conforme a natureza formal de uma e de outra realidade. Claro está que Ki-lo também um pouco em subversão a todo um conjunto de princípios normativos, pois não me limitei a observar simplesmente as regras de uma área e respeitar os limites de outra. Sempre poderia ir mais além e penso que marquei o passo certo, quando tive tempo de o fazer. LA – Jornalismo e poesia formam uma boa combinação? N11N – Formam sobretudo um caminho com boas doses de tentações. Eu explico-me: o jornalismo requer, acima de todos os requisitos, dois factores fundamentais: objectividade e coerência no discurso, ao passo que estes mesmos dois factores – que estão explicitamente identiKicados no exercício jornalístico como elementos basilares e estruturantes – ganham outros nomes e formas no âmbito da abordagem estética e/ou semântica do discurso poético. O que é coerente Cultura e objectivo em jornalismo em estética pode não signiKicar nada, pode ser irrelevante. A estética funciona muitas vezes como uma espécie de subversão à norma, por não permitir que o discurso se encerre em si. Há que dar largas à voz e à extensão das palavras. Transpor a sua condição natural ou linear. Aqui reside a fronteira entre o literário e o jornalístico. Ou seja, a poesia permite que haja esta vasta extensão e acima de tudo uma irreprimível voz que em seu auxílio faça ouvir o que por meio de outros instrumentos (muitos dos quais legais) não chega a ser ruído sequer. Logo, é uma combinação que mais nos expõe a alguns riscos dignos de experimentar do que uma simples combinação alegórica. E um bom exemplo para isso – claro está que com o devido exagero e imodéstia que esta aKirmação possa sugerir –, é o tipo de versos que construo. Faço uma poesia em prosa e tenho o vício de me explicar detalhada e demasiadamente, às vezes, extrapolando. O jornalismo não se permite a isso, mas permite outras façanhas narrativas. Terá sido esse o motivo para trabalhar com base numa poesia narrativa? Provavelmente! A literatura é todo um processo, ao passo que o jornalismo é um relato breve. LA – Pode descrever os seus temas mais importantes? NN – Com a objectividade e clareza com que me coloca a questão, é diKícil de respondê-la, pois o caminho é longo e as abordagens também, e nunca lineares. Aliás, é a grande artimanha que nos possibilita a poesia, ao permitir que nos coloquemos diante do precipício e nos joguemos de um ediKício abaixo sem darmos por isso. O meu trabalho poético, se calhar por não se tratar de um discurso que se encerre em si (e aqui reKiro-me concretamente aos dois títulos mais recentes, nomeadamente “Jardim de Estações”, já editado pela nósSomos, em Portugal, e “As Mãos do Tempo”, por editar com a mesma chancela), permite-me proceder a um levantamento expansivo dos vários temas que eventualmente andem à volta de uma mesma situação. Não se trata de experimentalismos ou de uma outra questão que a ela se associe. Nem é um facto novo, literariamente extraordinário. Trata-se apenas de descortinar o que vai com a névoa dogmática de que têm sido vítimas as sociedades modernas, todas elas sem excepção. Umas com maior brutalidade e outras com alguma sub- | LETRAS | 7 Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 sado e o início do século XXI. Há coisas más e outras menos más e há também coisas muito boas de autores nascidos da primeira década de 2000. Nomes? Existem alguns, mas preMiro mantê-los guardados sob pena de me esquecer ou omitir o nome de um ou de outro. Mas que há uma nova geração de poetas há, e tudo resto o tempo vai ajudarnos a descortinar depois. ________________ tileza ainda muito mal disfarçada. Agora, há toda uma condição do “meio envolvente”, que neste caso é Angola, que nos vai permitindo que a desarrumemos e olhemos para o mais fundo do poço que existe nela, para que a percebamos em tons mais claros e menos orquestrados. Tematicamente, o olhar poético é vasto e às vezes perdese na imensidão do caminho. Mas é Angola e as suas desarrumações sociais, políticas e culturais que fazem o postal do meu discurso poético. LA – Pode dizer-me algo sobre o seu mais recente trabalho? NN – O “Jardim de Estações”, escrito inteiramente em 2007 na África do Sul, reMlecte precisamente um quadro de renovação emotiva. O virar de uma página que se vai impondo na vida de cada um nós, enquanto parte integrante de todo um processo sociopolítico aberto ao cultivo de formas distintas e cúmplices, mas coerentes e saudáveis, de se fazer o presente do amanhã. Nesse ano de 2007, foi a primeiríssima vez que estava a viver as quatro estações ininterruptamente e longe do espaço terra-mãe e pátria geradora. Este mudar de estações, que acaba por se traduzir sempre num elemento novo, fez-me lembrar a minha mãe, que acreditava que quando chegássemos (eu e os meus irmãos) à idade militar já a guerra teria terminado. Enganou-se redondamente. O “Jardim de Estações” não se limita a debruçarse sobre uma Angola pós-guerra civil de modo alegórico, nem é um relato entusiasta. Mas propõe-se a levantar algumas questões resultantes deste virar da página, pois é comum as pessoas, após um longo período de guerra, trazerem ao de cimo algumas questões não menos importantes sobre o que terão sido todos esses anos e o que virá a ser o dia seguinte de toda essa saga de guerra. Mesmo sabendo que esta reMlexão em nada poderá alterar o que de facto terá lugar, uma vez que a esfera de decisão é outra. Portanto, é um livro comprometido com alguns acontecimentos que decorreram ao longo da história recente de um país que hoje está voltado para um vasto horizonte. Não é entretanto um livro de alusões e nem tampouco está dotado de um discurso apologista, típico dos ditames que nos habituaram, sendo estes politicamente correctos. É um canto livre como as estações. LA – De que forma tem a sua juventude influenciado o seu trabalho? NN – Pergunta diMícil de responder, embora fácil de a desmontar. É preciso aqui não atribuirmos aptidões especiais à fase da juventude, pois por ela passaram milhares de escritores e todos estes tiveram de tomar o máximo de aproveitamento dela para se aMirmarem e atingirem depois a maturidade enquanto escritores e outros como intelectuais. Alguns foram bem sucedidos, os que mais trabalharam para tal, claro está. Mas ainda assim não foi aí que tiveram o auge da carreira. Foi sempre na idade adulta que chegaram à maturidade literária, no sentido do polimento. Nesse sentido, encaro-a como um estágio que me vai permitindo olhar a vida através de um certo ponto de observação, mas que não é suMicientemente capaz de me dar o talento que se precisa para se ser um bom escritor em tão curto espaço de tempo. Gostava vivamente de me tornar um dia num bom escritor e tenho trabalhado para que tal aconteça. Enquanto isso, aproveito a minha juventude para me dedicar à pesquisa e sobretudo ao trabalho aturado que se exige de um exercício criativo. E, claro, também para sonhar com alguma intensidade exacerbada, coisa que com maior idade se não aconselha a ninguém. Podemos ser um bom sonhador na juventude, mas nunca um escritor suMicientemente maduro. LA – Quem são os seus escritores angolanos e poetas favoritos? NN – Olha, eu pertenço a uma geração de jovens poetas angolanos que ainda teve um mestre e o meu foi e é o poeta, dramaturgo e Milantropo Trajanno Nankhova Trajanno. Eu considero-me fruto da escola deste enorme poeta angolano. Quando o conheci, já trilhava os caminhos da literatura e até já escrevia, mas foram os contactos permanentes, as pequenas tertúlias a dois que fazíamos no escritório dele, na Sociedade Espírita Allan Kardec (SEAKA), no Makulusu, que me permitiram descobrir a verdadeira dimensão estética da palavra poética. Claro está que ele não me pegou na mão, com uma caneta, e ensinou-me a escrever um verso ou mesmo um poema. Mas foram as conversas à volta do fenómeno literário e dos grandes temas da actualidade que me permitiram depois deMinir um caminho e tomá-lo como opção certa e seguir em frente. Lembro-me de num desses dias ele me ter dito o seguinte: «Nok, escreva sobre tudo que quiseres sem medo». Acho que nessa altura ele terá percebido que eu estava pouco à vontade após o lançamento de “Sinais de Sílabas”. Sem esquecer que foi ele, Nankhova, quem me baptizou com o nome de Nok. Eu assinava Carry Casy. O Nogueira já o tinha como certo um dia, mas o Nok foi obra do Trajanno Nankhova Trajanno. E depois há outros nomes, naturalmente, mas penso ter sido já muito extensivo. LA – Quem - de acordo consigo representa a nova geração dos poetas e escritores angolanos? NN – Curiosamente, nos últimos meses muitas foram as conversas à volta desta questão da nova geração de poetas angolanos. Eu, apesar de estar a acompanhar de perto através das redes sociais e publicações impressas, procurei e procuro manter-me à parte de todas essas questões, algumas das quais falsas, absurdas e de um despropósito que não é recomendável a ninguém. No entanto, penso que quem o fez no sentido de deitar abaixo uma série de novos autores não terá sido suMicientemente coerente com o que se assiste desde Minais do século pas- Nok Nogueira, pseudónimo artístico de Emílio Miguel Casimiro, nasceu a 24 de Dezembro de 1983, em Luanda. É jornalista de proFissão e escritor. Trabalha na Televisão Pública de Angola (TPA) desde 2004, tendo antes passado pelo extinto Semanário Actual, pela Rádio Ecclésia, e pelas revistas África Today e Vida. Colaborou no Jornal de Angola, onde, para além do trabalho jornalístico, publicou, no suplemento semanal Vida Cultural, textos poéticos e de análise crítica sobre diversos temas ligados à música, à literatura e às artes plásticas. Foi distinguido, em 2004, pelo Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD), com o Prémio Literário “António Jacinto”, pela obra poética “Sinais de Sílabas” (seu livro de estreia), e publicou, pela União dos Escritores Angolanos (UEA), o poemário “Tempo Africano” (2006). Em 2011, marca a sua estreia internacional no contexto editorial lusófono com o livro de poemas “Jardim de Estações”, editado pela nósSomos. Interessa-se também pela pintura e pelo desenho, sobretudo pelo desenho a pastel. É membro da Brigada Jovem de Artistas Plásticos (BJAP). É mentor e fundador do Movimento Associativista Artístico e Cultural – Atelier Monumental. É estudante do curso de Ciências da Comunicação no Instituto Superior Politécnico Metropolitano de Angola (IMETRO). É membro efectivo da União dos Escritores Angolanos. 8 | LETRAS | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Cultura Duas históricas aulas literárias na FLUL LOPITO FEIJÓ D uas memóraveis e muito concorridas aulas abertas aconteceram na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa- FLUL, promovidas por Ana Mafalda Leite, Professora Associada com Agregação do Departamento de Literaturas Românicas da supra-citada Universidade. Na primeira, para estudantes – licenciandos e mestrandos –, professores, bibliotecários da Universidade e público interressado nas falas e escritas das literaturas africanas e angolana em particular, estivemos em companhia de Zetho Cunha Gonçalves e de Nok Nogueira com Ana Paula Tavares e Alberto de Oliveira Pinto prestigiando-nos na assistência. Abordamos questões em torno da História, dos movimentos, correntes e publicações geracionais desde os ídos do «Vamos Descobrir Angola» até às Brigadas de Literatura, em que o Nok contribuiu, com uma panorâmica sobre os novíssimos do seu tempo em busca de aRirmação, tendo citado os nomes de Décio Mateus, Gociante Patissa, David Capelenguela e Nguimba Ngola, Kiokamba Kassua, Moisés Sandombe, Carlos Pedro e Avó Ngola Avó como sendo alguns dos seus correligionários dentre os quais, em seu en- tender, alguns prometem «algo algum» para o futuro das belas letras angolanas. Temos a certeza de que Nok citou-os consciênte de que não deve ser juíz de uma partida onde ele mesmo ainda actua como jogador. Zetho Gonçalves falou da sua experiência de autor com cerca de vinte livros (de poesia, infanto-jovenis, traduções, antologias e outros...) publicados e desconhecidos em Angola e Portugal pois, maioritariamente, foram editados no Brasil em função das políticas editoriais e da marginalização editorial de alguns autores, principalmente nas terras de Camões. Na segunda aula, quinze dias depois, no mesmo local, espaço e com a mesma assistência, Rizemos a apresentação, por junto e atacado, dos três mais recentes livros de poesia do poeta David Capelenguela que para o efeito deslocou-se a Portugal. O VÉU DO VENTO, editado pela União dos Escritores Angolanos e acabadinho de chegar aos escaparates das nossas livrarias. TIPO-GRAFIA LAVRADA e GRAVURAS D’OUTRO SENTIDO, edições da Chá de Caxinde, que neste espaço tivémos já a oportunidade de referenciar. Depois da nossa intervenção em jeito de apadrinhamento, Capelenguela falou de si e da sua poética. Da sua infância e juventude, das suas vivências e convivências na região sul de Angola deixando boquiaberta a assistência que, secundando a nossa voz, não hesitou em considerá-lo mais um legítimo herdeiro da dicção antropológicopoética de Rui Duarte de Carvalho. Aconteçeu assim o baptismo do poeta Capelenguela, tal como já haviamos feito com o Nok, no mesmo local. De ilustres desconhecidos passam agora a ser jovens poetas conhecidos, queridos, admirados e prontos para os fornos dos estudos das literaturas africanas nos círculos académicos lisboetas. Remato Rinalmente, considerando históricas estas duas aulas na FLUL. Ponto Rinal! Me parece que da temática do amor a mulher construtora de poesia tende a escrever de um modo característico em desdobrado prazer, sobretudo no sonho de afectos e sensações emotivas, que se centram para a ardência e amostra de momentos singulares de paixão. A paixão que se direcciona suave e proporcionalmente para um universo masculino, que, com medo de apontar energeticamente os seus afectos e vivências, buscam profundamente encontros e reencontros, bebidas e proclamações que tangem as “Pálpebras do Passado”. Do poema Doce Saudade se remete a hiperbólica conRiguração para enaltecer sonho e doçura das sensações perante o cosmos utópico de Dalomba, que sente da transRiguração das sementes, da plantação do cafezal, e também da doce sombra onde os pássaros chilreiam, e tornam doce a paisagem, o canavial. A mágoa também doce repousa no coração pela simbologia romântica que se traduz de um foco de ternura pela “saudade do mato”, e pela glória simbólica e memorial das “costas no chão na contemplação do zénite”, onde fogo e tensas propostas resvalam. A pensar no cheiro da saudade como o “Moinho de pedra dribla o grão/ Plantações de café à sombra de passarinhos”, alargam a beleza paisagística da realidade “Cana brava a Rlorescer cristais de açúcar” para depois se convocar a “a doce saudade no coração magoado/ saudade do mato”, das “Costas no chão na contemplação do zénite”, para resgatar belezas perdidas que se contratam com “A memória na revolta presente de uma tragédia”, “Quem estrangula o meu mar”. A invencibilidade de um povo destemido da guerra civil, que em Angola parecia não ter Rim, passa do crivo da poesia de Amélia Dalomba com todas as mínguas o povo do Kuito Cidade em Fumo clama e proclama-se vencedor mesmo quando os “Olhos de pluma vagueiam bondade na cidade em fumo/ Morte ressuscita cada despertar”. Dolorosamente os velhos, crianças e mulher grávida na “Inocência indaga bala nas fachadas dos passeios”, daí se anuncia esperança a gesticular preces ao generoso . É o fumo da guerra que se faz leve nuvem pela credibilidade, “Dos cultos ancestrais que nos dão vida/ A história pelo mastro”, como bandeira “A que chamam Rlor”. Odivelas, Maio/2012 O locus dialógico da poesia de Amélia Dalomba AKHIZ NETO A articulação da palavra para a poesia, em Noites Ditas à Chuva, de Amélia Dalomba, se acha “Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança” e coisas doces e de prazer se fundem e a Rigura “Foi Ricando pela orla do corpo”, como “Nasce o poeta do cravo a rosa a maresia no olho do mar”. A colonização encerra em si uma rede dialógica e pontilhada pela costura das ideias que tendem a enaltecer um quadro clínico de essência obscura. Se construindo a obscuridade a presença da cor. Em que a cor negra é vista como de Satanás, ignorante, a do homem sem coração. Nessa negatividade conceptual e como reRlexo da obscuridade que se pretende evocar, é a cor negra que por dentro da realidade não passa senão de manobras e paradoxos para uma melhor governação, maltratando assim o autóctone negro, de sua própria terra, sobre o quadro energético do tribalismo, regionalismo, etc. Tudo para uma obscuridade sentida que se projecta na violência e no catolicismo (sem violência) ao serviço do poder político vigente, da era. A poetisa convoca para o poético os rostos negros associados à fome, ao infortúnio, à morte, à magia, enRim: Rostos negros conjugam fome com vontade de morrer A ira aos pés do infortúnio História vadia das terras sem volta E montes de luto endeusados pelas casas de feitiço e banhos e fumaça de ossos de bichos escalam o Tchizo[2] | LETRAS | 9 Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 Manongo-Nongo a festa dos recém-nascidos Luciano Canhanga narra histórias de mais velhos que moldam o carácter dos mais novos TAZUARY NKEITA M anongo-Nongo não é apenas a festa dos recém-nascidos, é também a festa de um recém-admitido no mundo da literatura. Apesar do Luciano Canhanga ser um jovem jornalista com uma experiência profissional de vinte anos, conheci-o há apenas quatro anos por intermédio de amigos comuns, também ligados ao jornalismo e à literatura. Facto curioso entre ele e eu, é que ambos iniciamos o jornalismo com a mesma idade, 19 anos. Eu em 1975, quando Angola estava a nascer e ele em 1996 quando a independência já era adulta. O mais curioso ainda é que desde que o conheci, ele não deixa de me surpreender. Surpreendeu-me a primeira vez quando me pediu para fazer a revisão e escrever o prefácio do seu primeiro livro, “O Sonho de Kauia”, em 2010. Surpreendeu-me novamente quando tomei conhecimento da publicação deste “Manongo-Nongo - a Festa dos Recém-nascidos” - meses depois de ele ter pedido a minha opinião sobre um outro livro, “O Relógio do Velho Trinta”, a obra que ele já anunciou. E, como se não bastasse, voltou a surpreender-me pela última vez há menos de três dias, quando me convidou para fazer esta apresentação, em cima do joelho e quase na “Vigésima Quinta Hora”. Aceitei este desaIio única e simplesmente por causa do espírito de combatividade que lhe é característico, que nos contagia a todos, e que tenho elogiado desde que o conheci. E sinto um imenso orgulho por ser chamado de “padrinho” de um jovem assim, quando eu próprio, também, me sinto à deriva, procurando padrinhos, como se fosse um recém-nascido mergulhado neste complexo universo que caracteriza a literatura angolana. Talvez não seja o melhor dos exemplos, entre os possíveis, mas o sentimento que me anima, estando ao lado do Luciano Canhanga, neste momento, é precisamente o da obrigação de um proIissional da saúde, chamado a socorrer com urgência o nascimento de uma criança; a sensação de alguém que vai sentir nos braços a respiração de um novo ser; o bater súbito de um coração na ponta dos dedos, mas, descobre, diante dos olhos, uma nova espécie de criação humana – quero dizer, o nascimento de uma obra literária com uma riqueza, um conteúdo e uma vitalidade impressionantes! Manongo-Nongo merece, por mérito próprio, ser também, por isso mesmo, a cerimónia festiva da consagração do autor no universo da literatura angolana. É o mínino que posso dizer sobre o efeito que a leitura de “Manongo-Nongo – a Festa dos recém-nascidos” causou em mim. O Luciano Canhanga tem agora a oportunidade de alimentar o seu recém-nascido, espalhando repetidamente os ecos e a boa nova desta cerimónia, com a mesma combatividade com que tem enfrentado os obstáculos do seu dia a dia. O livro que nos chega, hoje, às mãos merece uma repercussão nacional. Se- ria uma cegueira imperdoável pensar que o principal interesse por Angola hão-de ser eternamente as minas de diamantes, os poços de petróleo ou o jogo político. A prova está aqui, na apresentação destas histórias fantásticas com um retrato magníIico da vida, da cultura e do património de povos de Angola e na mensagem que o autor nos transmite: a nossa cultura é vasta e o trabalho que nos espera é maior ainda! É um livro que se aconselha a todos os estudantes e amantes da literatura angolana; um livro que nos oferece histórias de mais velhos que moldam o carácter dos mais novos, transmitindo conhecimentos e uma hierarquia de valores morais e sociais cujo resgaste há muito se anda à procura. É um livro onde os animais irracionais dão lições de civismo aos seres humanos e cuja repercussão nos faz exclamar “esta é Angola, esta é a nossa terra; esta é a nossa gente!”. Outra caraterística é a recolha de mitos populares sobre a vida, a doença, a morte e o feitiço. O autor reproduz histórias do dia a dia das aldeias que percorreu e termina com a lição moral que elas encerram, transmitindo valores fundamentais e fraquezas do génio humano, tais como a solidariedade, a ingenuidade, a inveja, a ignorância, a ingratidão, o ciúme, a conIiança mútua e o triunfo da verdade e da justiça! Se quisermos ser rigorosos na análise, Manongo-Nongo não é propriamente uma obra infanto-juvenil, mas um livro que os adultos devem ler e interpretar para as crianças. É, Iinalmente, um livro que chega na hora certa e no contexto mais certo. Espero por conseguinte que ajude a aumentar os níveis de conIiança de todos aqueles que ainda estão indecisos quanto à qualidade e ao futuro da literatura angolana. __________________________________ Texto, com ligeira adaptação, lido na apresentação do livro “Manongo-Nongo”, de Luciano Canhanga, na sede da União dos Escritores Angolanos, em Luanda, no dia 05 de Junho. 10 | LETRAS | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Cultura Compasso do ritmo na nona brisa DAVID CAPELENGUELA E m Angola, o periodo postindenpendência produziu importantes nomes que, com o andar do tempo, foram sendo classificados de diversas formas. Há quem os tenha chamado de geração de 80, geração post-independência porquanto o crítico lierário Luís Kandjimbo os apelidou de geração das incertezas, e vários outros nomes. É neste conjunto de talentosos trabalhadores da palavra poética que emergem nomes como o de Lopito Feijóo. De vocação experimental, paródica discursiva, hermetismo, humor a desconstrutividade ou ludismo dos signos, é muitas vezes referenciado como “rebelde” quiçá, dada a sua forma telúrica, irreverência e boemia. Mas este simples homem, na nossa (i) modesta opinião gente de trato fácil, atento e de sensibilidade apurada para pormenores culrurais, é um artista de grande alcance e signiKicado, se buscado na sua exigência e rigor no âmbito do labor estético e poético. O contacto directo com uma dada peça de artesanato, a tela e a banda desenhada, o instrumento musical, a fotograKia e o som do vai-e-vem das ondas do mar fazem o seu quotidinao. Se ontem via o mar pela varanda da “zona libertada” e à distância, hoje, sente a nona brisa a convidá-lo para a conversa com as calemas, com o gesto singelo do pescador passante ou mesmo com a imersão do sol quando o dia já pede passagem à noite. Vive praticamente com e no mar. Sente as ondas a tocar os alicerces do muro de vedação, ao ponto de dar-lhe a sensação de se deixar levar pela aderência do instante, efeito do “kalunga”. Enquanto signiKicado de transmissão colectiva, kalunga, é mar em muitas línguas nacionais do nosso país, embora a este se tem adicionado o de “deus da dvindade da morte”. Mas aqui questionamos, a morte de quê ou de quem? Lendo o livro “Véu do Vento”, de um poeta angolano editado pela União dos Escritores Angolanos em 2011, na página que dedica aos seus pais, o poeta diz: “À memória de meus pais(...), porque a terra é apenas tapete por um lado e cobertor pelo outro, apenas uma fronteira estreita entre aqules que a pisam e aqueles que saõ cobertos por ela, entre o exército do movimento e os do repouso, duas multidões unidas por um esquecimento mútuo”. Remetendo-nos ao conceito de morte, para uma tentativa de análise perfunctória, diríamos que a natureza da objectividade com que se nos apresenta a morte, enquanto viventes, por vezes leva-nos à percepção de que os mortos não têm o direito de viver, porquanto este mito não passa de mera crença, considerada como um processo paralelo ao da passagem do sagrado para o profano. Mas para os produtores de arte, Lopito Feijóo e Aminata Goubel, na casa que desde o primeiro ao terceiro andar, aliás ao terraço, é uma verdadeira transmissão de vida, viver a arte é uma perfeita combinação entre o imaginário concreto e a transferência da vida para uma dimensão além-morte e, em consequência, para eternidade enquanto concepcionalidade do crer, ser, estar e ser, assim mesmo como dizia este poeta: Ao Filimone Meigos, Luis Cezerilo e Eduardo Quive, poetas Moçambicanos…e a Aminata, Palú, Lina e Melita também poetas por transmitirem sensibilidades. “O som do batuque da leba Lembra o canto otyitalukilo Todos cantam Dançam daqui às ondas do mar Passa um recital de poesia Passa outro E todos amparam o rasgo do Índico Temperam a afeição e canto do sul E vem conferir a urgência do kimbundu Na voz do poeta de africalema Em transparência do acto Perde-se a noção do adeus Que o sol adensa Sob olhar atento da nona brisa Um ninge na tradição umbundu Magno devastador Aqui transformado em gesto [estimulante Medita a gravitação da entrega Enquanto à dois passos do alicerce As ondas estendem-se, batem E vão E em vão Soberbas cobrem os corpos na água Ao som do batuque na praia As vezes uma (lo)pitadela no petisco E se a golada do marufo Aguarda a vendedora passante A the famous grouse faz a vez”. Na “nona brisa”, cada dia de domingo é dia de reKlexão, tertúria, recital, debate, teatro e dança com “batuque na praia”, onde todos vibram e vivem, vão e com veemência regressam do mar e mergulham na dança, sentem o pulsar do canto e revestem-se do gesto e da força da arte dos antepassados, já que absorvidos pela espiritualidade do som do batuque. Estas pequenas manifestações, revestidas de grande esssencialidade e signiKicado estético e artístico, que se somam e revigoram sob a reivenção do momento, não se rendem “à conKiguração simplicista fruto de uma intuição que vagueia”, mas pelo contrário, quando feitas com virtude e talento, precisão e concisão sob a orientação do querer e contribuir para o engrandecimento cultural, “realizam a solenidade” das artes e “os seus cultores se podem orgulhar de lhe terem rendido a excelência”. | LETRAS | 11 Cultura | 25 deJunho a 8 de Julho de 2012 A literatura infantil angolana “Filhos do coração” filhos de África Meio de educação e de resgate e preservação dos valores e tradições NGUIMBA NGOLA M arta Santos, escritora angolana, escreve no livro “E nos céus de África... era Natal” que tem Qilhos que escolhem as suas mães, “são os Qilhos do coração, os que aceitamos, porque temos amor para dar!” São para mim, Qilhos de África que protestam, sentem a necessidade de uma infância condigna, educação para todos sem distinção, logo garante de seu desenvolvimento. Vem dai a literatura infantil angolana contribuindo para a educação das crianças pois é inegável a importância que ela tem. Por meio dela a criança desenvolve a imaginação, emoções e sentimentos de forma prazerosa e signiQicativa e acima de tudo a carga pedagógica que encerra. O livro é um elemento fundamental no processo de desenvolvimento da criatividade e da personalidade das crianças. A literatura infantil deve então ser concebida visando o deleite e a recreação mas acima de tudo a formação. Fácil notar nos autores angolanos essa preocupação a julgar pelos títulos dos livros editados: “A esperteza dos animais” de John Bella, “Dois reis no céu para a terra” de Yola Castro, “O luar do saber” da Marta Santos” e outros nomes que pintam letras na escassa mas que se quer vasta literatura infantil angolana. E aproveito aqui parabenizar a nova escritora vencedora do prémio “Jardim do Livro Infantil” Zulini Bumba, aguardamos pela obra. A literatura infantil angolana vem ainda a ser meio de resgate de valores ao propor estórias onde, como escreve Maria Celestina Fernandes “Aparecem personagens que são Qiguras míticas, como a sereia kianda, a deusa das águas, os gingongos (gémeos, tidos como pessoas sobrenaturais) e também os seres inanimados da natureza que falam, sentem e se emocionam como os humanos. Os autores identiQicam-se bastante com o seu meio, a terra de origem” a moral das estórias traz ao de cima os valores da solidariedade, amizade, persistência, empenho, amor. John Bella, o mais prolíQico dos escritores na vertente infantil, escreve no livro “Estes dois são cão e gato” : “Tata Yetu não gostava de sujidade. Por isso achava bonito, quando via gente a pegar em vassouras, varrendo as ruas do local onde morava. Depois apanhava-se o lixo. Era colocado no balde e iam deitá-lo no contentor...” No livro “O golozo” de Yola de Castro o menino Juca mostra persistência, empenho, para ser um bom jogador de futebol. “Juca procurava estar sempre informado sobre as últimas do futebol. Assistia a todos os jogos na televisão... Sonhava com o futebol... No seu imaginário, marcar golos para a vitória fazia-lhe experimentar um gozo superior ao da realidade.” A solidariedade de Tiago sente-se por ele nos seus sonhos oferecer balões vermelhos a todas as crianças. Aprontou-se para a “festa festança” no Jardim do Li- vro Infantil onde certamente partilharia com amigos muita alegria como se lê no livro da Cremilda de Lima “ O balão vermelho”. Apreciamos ainda o exemplo da veradeira amizade que deve ser valorizada no livro de Áurio Quicunga, “Lodinho, menino de lodo boneco de ouro”. A kianda, o mar, o pescador, são temas recorrentes que trazem ao imaginário infantil aquilo que constitui “as nossas tradições/ as nossas raízes culturais” escreve Cremilda de Lima no livro “A kianda e o barquinho de Fuxi”. A oralidade está muito presente nas obras o que aproxima as crianças ao objecto livro pois a linguagem e alguns contos são inspirados na oratura, a Qim de introduzi-las na cultura tradicional. A biblioteca viva é a Qigura do avô que conta nas noites de luar onde “o canto das cigarras e o crepitar das fogueiras acesas...” aumentam o encanto de ouvir. É assim na África, “avós e netos à volta da fogueira, a aprenderem coisas novas: lições de vida!”. O Fuxi, esse nome africano era-lhe assim chamado porque nasceu a seguir aos gingongos, “com as suas mãozinhas foi fazendo ondas e o barquinho navegava mesmo... Não se contentou só em fazer ondas pequeninas. Não! Quis também fazer ondas grandes... cada vez maiores... e assim... Que “GRANDE CALEMA” Desesperado e lágrimas nos olhos vem o avô para o consolo. Fuxi vai então “aninhar-se nos joelhos do avô, “um velho pescador, cabelos brancos, olhos de quem viu e sabe tanta coisa do mar” que lhe iria contar a história da Kianda. “...escuta... vou-te contar uma história que o meu avô me contou e ele dizia que o avô dele já tinha contado... Certa noite...” A kianda, Qigura mítica, é apresentada ao Fuxi e este percebe então que “Não é só ir buscar peixe, é preciso também dar de comer e beber a kianda” a rainha do mar manifesta-se na grande onda os pescadores “para aclmarem a kianda” deitam comida, bebidas ao mar. “Todos os anos fazem uma festa do MAR em sua homenagem”. assim todos os “fuxis” percebem, ainda que fantasiosamente, a tradição, e identiQicam-se com a cultura. O gênero poesia, precisamente a poesia infantil, não é cultivada tendo sido apenas publicado escassos títulos. Ocorre-me agora o nome de Manuel Rui com “O Assalto, 1979” e Maria Celestina Fernandes com o livro “A estrela que sorri 2005” do qual retiro versos do poema “o pescador” para selar minha divagação nas letras para os “cambongas” que são deveras “Qilhos do coração”: “Seguia remando seu dongo garboso pescador da ilha, quando, no alto mar, ouviu um canto de encantar. ... ora, no canto e na luz que da sereia seriam, Qicou para sempre enterrado o sossego do garboso pescador.” Mulemba waxa Ngola, 06 de Junho de 2012. 01:10´ 12 | ARTES | Teatro 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Cultura Festival Internacional de Teatro e Artes – Luanda A Internacionalização como sinónimo da qualidade do Teatro Angolano ÁURIO QUICUNGA* P assaram já quatro anos desde que a cidade de Luanda ganhou mais um festival internacional de teatro (a par do festival de Teatro do Cazenga-FESTECA), desta feita o Festival Internacional de Teatro e Artes – Luanda, organizado pelo Elinga Teatro, que vai na sua 2ª edição, visando comemorar a sua data de aniversário (21 de Maio). Nestes 24 anos de Elinga, a abertura do festival, que aconteceu de 17 a 31 de Maio de 2012, contou com a presença da ministra da Cultura, Rosa Cruz e Silva e da Vice-Governadora para a esfera social, Juvelina Imperial, que fez ponto forte da sua explanação a carta branca dada aos grupos de teatro para que doravante possam utilizar os anPiteatros das diversas escolas para desenvolvimento das artes cénicas. Na cerimónia de abertura do festival, o grupo Horizonte Njinga Mbande, considerado o guru do teatro angolano, foi agraciado com o prémio “Elinga Teatro” pela sua persistência e dedicação ao desenvolvimento das artes cénicas durante 26 anos. Houve um momento de comédia – Free Yourmind com representantes da Namíbia, e seguiu-se a exibição do Horizonte Njinga Mbande, de Luanda, com a peça “Uanga, Feitiço”, de Óscar Ribas, um romance folclórico angolano, que retrata a sociedade luandense dos Pins do século XIX, com os seus usos, costumes e tradições, peça que contou com a encenação de Adelino Caracol. Participaram seis grupos de Angola, respectivamente pela ordem de exibição: Horizonte Njinga Mbande com a peça “Uanga, O feitiço” de Oscar Ribas, Elinga-Teatro com a peça “A Errância de Caim”, versão para o teatro de José Saramago, Projecto Perpetuar com a peça “O Método de Groholm” de Jordi Garcerám, Grupo Pitabel com a peça “O Preço do Fato” texto de criação colectiva do Grupo Pitabel, Companhia de Teatro Dadaísmo com a peça “Luanary” versão para o teatro de Luanary de Adriano B. de Vasconcelos, Grupo Vozes de África (Huambo) com a peça “O Reino da Desigualdade” de Nelson Pedro Nhanga, e o grupo Henrique Artes com a peça “fragrância de Amor” de Flávio Ferrão. Portugal esteve representado pelo grupo Voz Humana, que exibiu a peça “Três Mulheres”, de Sylvia Plath, já o Brasil se fez representar por dois grupos, tratou-se dos grupos Dragão 7, que trouxe na bagagem “O Auto da barca do Inferno” de Gil Vicente, e o grupo O Pecado que exibiu o monolo- go “O Órfão do Rei”, da autoria de José Mena Abrantes. De Moçambique veio o teatro jovem e estético do grupo Lareira (que brilhantemente tem representado Moçambique nos festivais internacionais de língua portuguesa), com a peça “Cavaqueira no Poste” de Sérgio Mabombo, e de Cabo Verde a Companhia de Teatro Solaris com a peça “Glória” de Herlandson Lima Duarte. As exibições ocorreram num clima artístico, todas as sessões registaram Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 sala lotada, onde os grupos convidados, e não só, tiveram a oportunidade de estarem próximos uns dos outros, alguns encontrados somente noutros festivais internacionais, numa trocar de experiência entre encenadores, actores e técnicos, em conversas informais, que permitiu a discussão de aspectos ligados à actividade cênica e ao actual estado do teatro, uma verdadeira festa. Na opinião de Hilário Belson, encenador da Companhia de Teatro Dadaísmo, “esses eventos são importantes para a classe teatral angolana, pois servem igualmente para unir actores de diferentes nacionalidades, falantes da mesma língua, pois chegamos à conclusão que muitos problemas que o teatro angolano enfrenta, como a falta de salas, de formação, de leis que regulem o exercício teatral e de organizações vocacionadas para as artes cênicas são enfrentados na mesma proporção por outros grupos africanos.” Já Orlando Domingos director do Festival de Teatro do Cazenga aUirmou que “o festival do Elinga engrandece o intercâmbio, consolida as posições já conseguidas pelo teatro”. Estes festivais devem ser encarados como barómetros para que os grupos possam medir o seu nível de crescimento quanto à consistência na concepção dos textos, o melhoramento dos cenários e que os mesmos tenham funcionalidade nas peças, e que não sirvam meramente de função decorativa, o enquadramento e aperfeiçoamento das técnicas de luzes, que tem o seu devido efeito e valor, assim com na elaboração do Uigurino, e os traços que marcam o conjunto da encenação. “Hoje aprendemos várias correntes Teatro |ARTES | 13 teatrais, vários tipos de teatro. Eu acho que nós, angolanos, quando vamos a um festival internacional, é peremptório que tenhamos que mostrar algo que é nosso, para saberem como é a nossa cultura”, defendeu Adérito Rodrigues, encenador do Pitabel, e concluiu que “o teatro em Angola ainda não vive os seus melhores momentos, ainda há muito que se fazer”. Contrariado por Flávio Ferrão, encenador do Henrique Artes, que mostrou a sua satisfação pela repercussão que têm tido os trabalhos apresentados pelos grupos angolanos aquando da participação em festivais internacionais, que aUirmou que “só não acredita que o teatro angolano está a crescer quem não quer ver, quem não vai a uma sala de teatro, e não observa aqueles itens que são apropriados para um verdadeiro espectáculo”. “Nós, do teatro,lamentamos muito, e não somos pragmáticos. Não é muito fácil trabalhar nas condições em que nos encontramos, mas nós somos os actores deste processo.” Arrematou Orlando Domingos, director do Festival de Teatro do Cazenga. Além dos doze grupos que apresentaram as suas performances nos quinze dias de exibições, o festival contou igualmente com exibições do grupo Fee Yourmind da Namíbia, com um estilo de comédia que mistura cânticos namibianos, com música urbana, poesia e teatro, o programa contemplou ainda a actuação da Companhia de Artes Kussanguluka de Angola com um espectáculo de dança teatralizada, sobre a história de Tchibinda Ilunga, guerreiro e caçador Luba, que uniUicou o reino Lunda, teve ainda exposição de pintura e sessões de música ao vivo no seu encerramento. Faltou a Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe, para que tivéssemos, de facto, representados todos os países falantes da língua portuguesa no continente africano, quem sabe na 3ª edição se concretize ou em outras iniciativas como esta realizada pelo Elinga, que não seria possível sem o alto patrocínio do Governo Provincial de Luanda e os apoios da TAAG, da Sonangol, do BPC, da TipograUia Corimba, do Jornal de Angola, do Novo Jornal, e do jornal O País. Até lá... Que as cortinas não se fechem e os holofotes não se apaguem. ACÇÃO! Só na transição da década de 1960 para 1970 se assiste à criação de uma empresa de teatro Uixada em Angola, a Companhia Teatral de Angola (CTA), com o Uim confessado de “ser comer- cial e divertir”. Os primórdios do teatro angolano começam por ser encontrados em três experiências concretas ocorridas antes da independência: a primeira nos bairros suburbanos de Luanda nos anos 1950/1960 (na acção dos grupos Gestos e Ngongo e nas dramatizações dos grupos carnavalescos Cidrália, Kabokomeu e outros), a segun- Escritor, actor e comunicólogo. Teatro cada vez mais angolano * ÁURIO QUICUNGA O teatro, expressão máxima de um povo, registou as suas primeiras manifestações em Angola na sua forma laica, só em meados do século XIX, concretamente nas duas décadas compreendidas entre 1845 e 1865, onde se encontram referências sobre um teatro feito em Luanda por “jovens portugueses da classe do comércio”, como nos comprova José Mena Abrantes, em Teatro Angolano. O autor dá-nos conta que, na época, todos os espetáculos eram interpretados exclusivamente por homens, devendo as senhoras, mesmo na assistência, ocuparem uma galeria a elas especialmente destinada. A população autóctone, pela própria diferenciação social imposta pela dominação colonial, não tinha acesso às salas de teatro. 14 |ARTES | Teatro da em bases guerrilheiras no Leste do país (com o chamado “teatro de pioneiros na guerrilha ”) e a terceira nas escolas da capital em 1975. O grupo cultural músico-teatral Ngongo, criado em Outubro de 1961, tinha como principal característica a congregação no seu seio de um grande número de compositores, músicos, coreógrafos, actores, autores, poetas, declamadores, dançarinos, vocalistas e arranjadores, o que lhe permitiu, segundo Mena Abrantes, explorar vias originais e desenvolver uma múltipla actividade nas áreas da música tradicional, da música popular urbana, do teatro, da dança, da poesia e da declamação. O teatro feito em Angola nos primeiros anos da independência e até Pins de 80 foi irrelevante como fenômeno cultural. No período, apenas estiveram activos os grupos ligados à Secretaria de Estado da Cultura, como o GAT (Grupo de Amadores de Teatro), o GIT (Grupo de Instrutores de Teatro), e o GET (Grupo Experimental de Teatro); o Kapa-Kapa, grupo tutelado pela UNTA (central sindical) e os dois primeiros grupos que se podem considerar independentes, o Tchinganje e o Xilenga. Por essa razão, o movimento teatral só a partir de Pins dos anos 80 começou a ganhar outra expressão, com a criação do grupo cultural Makote (Os Makotes), da escola 1° de Maio; do grupo da Faculdade de Medicina; do Horizonte Njinga Mbande (1986), da escola do mesmo nome; do Oásis (1988), tutelado na altura pela Anghotel, e do Elinga-Teatro (1988), herdeiro directo do Tchinganje e do Xilenga. Outros grupos foram surgindo, como o Enigma que substituiu os Makotes, o grupo Julú (1992), o Etu-Lene (1993) e Miragem (1995), e mais recentemente têm estado a aPirmar-se no plano interno e internacional o Henrique Artes (2000), o Pitabel (2001), a Companhia de Teatro Dadaísmo (2006), o Diassonama, o Protevida, o Vozes de África (Huambo), o Damba Maria e o Ombaka (Benguela)] e alguns outros. Para além destes, o que existe é uma proliferação desmesurada de 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 pequenos grupos teatrais (mais de 100 só em Luanda e algumas dezenas nas várias capitais provinciais), quase sempre ligados a igrejas, escolas ou empresas, sem infraestruturas, sem meios técnicos e materiais suPicientes e sem formação adequada. | Cultura Teatro Angolano volume um e dois, da autoria de José Mena Abrantes, duas obras de consulta obrigatória para os fazedores de teatro, demais estudantes e amantes do teatro, para melhor compreensão da história das artes cénicas angolanas. Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 Etu Lene estreia peça Teatro |ARTES | 15 “Quem Matou o Velho Kipacaça” KINDALA MANUEL O grupo de teatro Etu Lene apresentou em estreia, no decurso da segunda quinzena de Maio, na Liga Africana (LAASP), a peça “Quem Matou o Velho Kipacaça”, uma representação baseada no livro de contos “A morte do velho Kipacaça”, do escritor Boaventura Cardoso. A peça foi produzida em Janeiro do ano em curso e é uma adaptação da encenação original de “A Morte do Velho Kipacaça” do grupo de teatro Oásis, exibida pela primeira vez em 1999 no FENACULT. A narrativa reHlecte a vida, hábitos e costumes de uma povoação, algures na região Centro Sul de Angola, centrada na descoberta das causas da morte de um dos melhores caçadores da região, uma situação considerada como a causa do surgimento de várias calamidades no kimbo. Vinte horas, as cortinas vermelhas do palco abrem-se, e o público avaliado em 130 pessoas, presente na sala da Liga Africana, soltava aplausos com a entrada dos actores para a encenação da peça. O palco inundado de luzes vermelhas e verdes apresentava uma caracterização composta por casas de adobe cobertas de capim, e montanhas a circundar a zona. Um cenário típico algures do Centro Sul de Angola. A ansiedade no rosto do público era patente, pelo desfecho que iria resultar dessa coisa de um caçador “tungar” pacaças e elefantes. A peça começa com a dona Teté, mulher do grande caçador Kipacaça, que conta à vizinha o mau sonho que tivera, do marido que foi à caça e não voltou. De repente, aparece Kipacaça, com a sua infalível caçadeira, e ao aperceber-se do sonho da esposa, procura acalmá-la e aos vizinhos com as suas famosas histórias de caça, contadas em jeito de humor. Kipacaça não se cansava de contar ao quimbu que ele era o único homem na aldeia que, ao cabo de três horas de luta, venceu mais de dez pacaças, lutou com elefantes, leões e onças, e como se não bastasse, até o cágado o homem já havia derrotado, tendo feito recurso a cabeçadas, socos, pontapés e bassulas, sem sofrer nem um único ferimento. E, para surtir os efeitos desejados, as suas piadas faziam-se acompanhar sempre de gestos que traduziam os seus malabarismos e acrobacias. Este foi um dos momentos que convidou a plateia a aplaudir Kipacaça, devido à sua forma de interagir com o público. Na sequência da peça, Kipacaça decide ir à caça. Na caça, ele conversa com Pupangombe, o ser invisível, venerado como sendo o protector de caçadores da região, com o qual aborda o sonho que a esposa teve. Passados seis meses, Kipacaça não volta da caça, então o soba do bairro decide reunir com os familiares mais próximos, para saber da causa do não regresso de Kipacaça. Kapapia, o jovem que na sanzala é dado como homem preguiçoso e rabujento, era o mais chegado ao caçador. Kapapia foi o único que viu a hora e a direcção que seguira o seu amigo, um detalhe que mateve em segredo durante seis meses, por temer a afronta de algumas mulheres da sanzala, elas, conhecidas como experientes e ávidas em pôr na capanga homens imprudentes em determinadas situações. Kipacaça era o garante da sobrevivência do bairro, devido à sua misteriosa técnica de caçar. Por isso, durante este período a região enfrentou várias cala- midades: fome, seca, e várias outras doenças. De acordo com a tradição da região, uma vez que o caçador não regresse da caça, e nem o seu corpo é apresentado ao Pupangombe, considerado como o deus invisível que concedia sorte aos caçadores, constituía essa ausência a causa da praga que assolava o bairro. Na reunião, o soba Bernardo perguntou a Kapapia sobre o paradeiro do caçador mas a casmurrice do rapaz fê-lo não escapar das garras da amiga Teté, esposa de Kipacaça, que lhe aplicou o habitual cafrique de baixo-ventre que deixou o vaidoso rapaz sem acção durante cinco minutos, valendo-lhe a intervenção do man Bernardo, o soba gran- de, que socorreu o indefeso salvaguardando a integridade masculina do moço. Diante das indecisões, e instaurado o problema, os mais velhos do bairro decidiram consultar a quimbandeira Kufuca, para saber então “Quem Matou o Velho Kipacaça”. Ela era conhecida por adoptar nos seus julgamentos técnicas duvidosas como a da probabilidade e do terror. Durante o julgamento tradicional, Kufuca instaura um clima de terror e de ameaça aos intervenientes no caso e, para se saber o culpado, os envolvidos tinham de beber uma bebida chamada “Umbulungu” na língua da zona Centro Sul do país, um teste muito usado em certas regiões, em 16 |ARTES | Teatro que a prova consiste nos presumíveis culpados tomarem a bebida. Em caso de falecimento, é considerado culpado. Todos beberam, menos Kapapia. Temendo as probabilidades da quimbanda, decidiu contar que apenas tivera visto Kipacaça partir para a caça às primeiras horas da manhã. Por esta razão, Kapapia foi achado culpado das várias calamidades que assolaram a região, ao esconder informações importantes sobre a morte do Velho Kipacaça, que estaria a pôr em causa a fúria de Pupangombe, o deus que dá sorte aos caçadores. Depois da quimbanda ter dado o veredicto Qinal – a justiça por mãos próprias – Kapapía foi agredido brutalmente pela população, até lhe acertarem com um pau na cabeça e acontecer o infortúnio. A peça não acaba nesta cena, é bom mesmo ir às salas de teatro para sentir as emoções produzidas pelos artistas da arte de representar. No decurso da apresentação, foi notória a interação entre os actores e o público, algo que foi motivo de muitos aplausos e risadas, causadas pelas piadas. Produzida em Janeiro do ano em curso, a peça foi contracenada por seis actores e teve a duração de 50 minutos. O encenador e a história do grupo No Qinal, Beto Cassua, encenador do grupo, informou que decidiram readaptar a peça com o título na 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 interrogativa pela importância que representa na divulgação de valores culturais, usos e costumes do nosso povo. Embora readaptada, o artista garante que a peça é uma reprodução Qiel da obra do escritor angolano Boaventura Cardoso. | Cultura Fundado a 26 de Abril de 1993, o Grupo de teatro Etu-Lene tem 10 actores, contando no seu acervo com mais de 20 peças, dentre elas “O feiticeiro e o Inteligente”, “Uiji Uijia”, “Balumuka” e “O kubele e a sogra que engoliu sapo vivo”. O regresso de Carlos Lopes O músico está de volta ao mercado com uma proposta madura e muito pessoal JOÃO PAPELO povosdasuaterra. Os seus temas, imbuídos de lirismo, revelam a simplicidade do cantor perante a convivência e as controvérsias da vida. Revelam mais: a humanidade de quem escreve um poema e canta-o, fazendo expor a dualidade plástica do artista: “ Angola, noites e luas” é o título do CD do músico angolano Carlos Lopes, apresentado ao público em 2002, reeditado agora para deleite dos ouvidos dos que têm bom gosto e sabem apreciar música de qualidade ímpar. A reedição deste disco acontece na senda do lançamento do seu novo trabalho discográQico, intitulado “Angola, mares e lagoas”, um CD recomendável aos que gostam de música acústica tecida com destreza de mestre. Com “Angola, noites e luas” Carlos Lopes propõe-nos uma viagem de primeira classe ao seu imaginário, cujas reminiscências, várias vezes, atravessam uma Angola com os olhos embutidos de lágrimas. Mas foi no sorrir da paz, em 2002, que o artista nos brindou com temas de boas notas para reQlexão. ReQlexão imperiosa sobre os desastres da guerra, sobre o alvorecer da paz, sobre a beleza das noites e luas e sobre a textura do amor cantado. Para mim, Carlos Lopes, antes de músico, é o poeta, o escultor da palavra cantada, o pintor do verbo que faz dançar. As suas músicas são espirituais na medida em que frisam um país de pranto em pranto, lembrando, não raras vezes, o Bié e o Huambo chicoteados pelos canhões da guerra ci- um dia atraco no teu porto e vou esquecer minha cidade tiro rosas do teu rosto e planto na minha herdade viro lavrador descontraído com semente e viva alma vil. Um exímio compositor que conjuga as estiagens de Cabo Verde com as acácias Qloridas de Benguela, na música número cinco do disco “Angola, noites e luas”. Depois vem o músico, o artista do ritmo e dos acordes, o mestre dos arranjos vocais. Um músico de primeira linha da angolanidade. Um engenheiro electrónico de formação que faz da música o seu estandarte e baluarte de aQirmação no mosaico cultural angolano, pleno e diverso de potencialidades. A sua coloração musical aproxima-se à de André Mingas e Filipe Mukenga, dois clássicos nossos, sem sombra de dúvidas, que cantam com substracto de jazz atravessando o nosso folclore. Carlos Lopes sabe, melhor que ninguém, dar testemunho de si neste trabalho: “quando cai a noite, em Angola, e o silêncio invade o meu redor, a guitarra torna-se, muitas vezes, a minha companhia”. “Aluaeasestrelas”,sublinhaomúsico, “sãoquasesempreosúnicosespectadoresdestecasamentorepetido.Eodisco ‘Angola,noiteseluas’éoresultadodeste cenário”,remata.Masestecenárioétambém um ponto de encontro, de um namoro com a tradição e a memória dos (Estrofe do tema “Amar o mar”) Aprecie-se a dicção chique (ou “chic!”, como prefere escrever a cantora brasileira, Paula Lima, herdeira e intérprete do espólio da Bossa Nova) do umbundo pronunciado de Carlos Lopes no tema Unandalê, que chora as desgraças da guerra. O novo disco de Carlos Lopes, “Angola, mares e lagoas” com 12 temas interpretados em português, umbundo e nhaneca, entre baladas, bossa nova e fusão de semba com jazz, foi lançado no largo da LAC nos dias 16 e 17 deste mês. Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 A festa era da rádio ARTES | 17 A informação em Angola nos anos 1960-74 RODRIGUES VAZ Nos anos sessenta e setenta do passado século, a rádio era o grande meio de comunicação social em Angola, como aliás continua a ser. Pode até dizer-se que a própria televisão que aqui se faz atualmente continua a revelar o dinamismo muito próprio do tipo de rádio que então se fazia, o que acaba, paradoxalmente, por lhe dar alguma qualidade, que as estações portuguesas não conseguem, tão preocupadas que estão na sua tabloidização. Não será diNícil perceber porque é que se passava isto em Angola. Por um lado, a rádio começou a ser feita por pura carolice, nos chamados rádios-clubes que foram aparecendo pelo menos nas capitais distritais, hoje capitais provinciais, onde os mais interessados na cultura começaram a dar os sinais da sua graça. Por outro lado, contou também muito a inNluência brasileira que sempre se fez sentir, quer ao nível de livros – era fácil, por exemplo, arranjar em Luanda os livros proibidos do Jorge Amado – quer de revistas - a Manchette e o Cruzeiro eram as mais vendidas. E não podemos esquecer que mesmo noutros campos da cultura havia um inter-relacionamento mais desenvolvido do que aquele que acontecia entre a então chamada erradamente Metrópole e o Brasil. Depois, e talvez seja o mais importante, nos anos cinquenta passaram pelo Huambo, então denominada Nova Lisboa, homens como o Fernando Curado Ribeiro, um proNissional de reconhecida qualidade cultural, que teve no Sebastião Coelho um digno seguidor, o qual fez a rádio angolana alcandorar-se a um grande nível, com o seu programa Café da Noite. Não esquecer, entretanto, o papel de pioneiros como Mesquita Lemos, Sara Chaves, Cremilda de Figueiredo, Maria do Carmo Mascarenhas, Joaquim Berenguel e Norberto Franco, nem de outros proNissionais como Alexandre Caratão, Santos e Sousa, Carlos Meleiro, Arlete Pereira, Joana Campinos, José Manuel Frota, Cecília Victor, Carlos Moutinho, Adriano Parreira, Rodrigues Costa, Augusto Pita Grós Dias, Fernando Marques, Teixeira Júnior, Gioconda Ferreira, Norberto de Castro, Maria Dinah e Ferreira Arouca. Nos últimos anos da presença portuguesa, vale a pena citar o Manuel Berenguel, o Francisco Simmons, a Luisa Fançony, hoje a grande animadora da LAC, a Wanda Maria, e evidentemente o José Maria de Almeida, do Luanda 74, e o Emídio Rangel, que revolucionaram ainda mais a rádio angolana com o seu proNissionalismo e competência, qualidades que depois estenderam à rádio portuguesa depois do regresso, inovando e renovando a maior parte das estações, onde alcançaram lugares ímpares, como é o caso de Fernando Alves e de Alberto Ramos, entre muitos outros. Já agora convém lembrar que a radiodifusão em Angola, cujos expoentes além dos rádios-clubes, foram a Emissora ONicial de Angola, hoje Rádio Nacional de Angola, a Rádio Eclésia, Emissora Católica de Angola e a Rádio Comercial, foi iniciada por um amador devidamente autorizado em 28 de Fevereiro de 1931, Álvaro Nunes de Carvalho, o CR6AA, motivo porque é considerado como o pai da rádio angolana. Está claro que a primeira emissão em circuito aberto foi feita em Benguela, a cidade que queria ser pioneira em tudo, até foi lá que se realizou igualmente a primeira emissão de televisão em Angola, pela mão do conhecido fotógrafo Luís de Camões. Acrescente-se ainda o aparecimento de a Voz de Angola, criada em 1968, que utilizava um emissor de Onda Curta de 10 KW e outro de Onda Média, com 100 Kw de potência. Na realidade, a Voz de Angola não chegou a existir como emissora autónoma, uma vez que emanava da Emissora ONicial de Angola, EOA, constituindo como que um desdobramento de emissão. No entanto, funcionava nas instalações da EOA, se bem que com estúdios e pessoal de produção próprios. Assumidamente dirigida à população autóctone, privilegiava as línguas nacionais mais usadas e a música angolana. Por isso chegou a ter bons níveis de audiência, sobretudo na capital, embora os ouvintes se apercebessem claramente que era um órgão político por excelência, com o controlo direto da PIDE. Intencionalmente, só agora reNiro a presença de outro proNissional brilhante que muito fez avançar a rádio em Angola: Paulo Cardoso. Autor do famoso slogan “Se não quer que noticie, não deixe que aconteça”, Paulo Cardoso estaria à frente do primeiro projecto de televisão comercial em Angola, a TVA, a qual, apesar de não autorizada pelas autoridades, chegou a ser “inaugurada”, em 1973, pelo General Costa Gomes, antes de abandonar o cargo de Comandante em Chefe das Forças Armadas em Angola. Convidado a visitar oNicialmente as instalações da estação, na então Rua Luís de Camões, hoje Rua da Missão, ao lado do Hotel Trópico, Costa Gomes só aceitou fazer uma visita “clandestina”, mas as coisas estavam de tal maneira preparadas e de tal modo formalizadas, que no Ninal da visita foi-lhe ofertada uma bobine com a reportagem da sua visita, devidamente montada e registada. De qualquer modo, foi o primeiro reconhecimento “oNicial”. No entanto, o braço de ferro que a PIDE opunha a qualquer tentativa de instalação de TV em Angola, só vem a ser amainado em 27 de Junho de 1973, com a autorização da constituição de uma sociedade anónima para a exploração desses serviços em Angola, que criaria a 18 |ARTES Radiotelevisão Portuguesa de Angola, cuja sigla, RPA, para não ser confundida com a da proclamada República Popular de Angola, mudará para TPA, Televisão Popular de Angola. No tocante à imprensa, nos últimos anos da presença portuguesa, excetuando a revista Notícia, um projeto proTissionalizado com pessoal competente, mas defendendo, antes de tudo, uma Angola portuguesa, mesmo com independência, o panorama não era muito animador. A Província de Angola, embora jornal privado, podia ser considerado, se não oTicial, o diário oTicioso, raramente ousando questionar os problemas reais. É preciso termos em conta, por exemplo, que quando um dos seus colaboradores, o António Pires, se meteu a denunciar a poderosa Diamang, a direção do jornal foi obrigada a despedi-lo, para poder continuar a ter os anúncios daquele potentado. Este jornalista, que também se armava pro vezes em literato, viria a fundar o semanário Atualidade Económica, que conheceu algum êxito. Nos últimos anos, a Província de Angola tinha como fundista um tal Humberto Lopes, que vivia em Benguela, onde aliás a delegada Maria Virgínia de Aguiar se via às aranhas para conter os vários interesses contraditórios dos empresários locais. O oásis era ao domingo, com um suplemento cultural coordenado pelo Carlos Ervedosa, Tilho de um dos proprietários, que conseguia fazer conhecer a pouca literatura que se ia fazendo, apesar de ter de aguentar os folhetins do Reis Ventura, por sinal vastamente lidos. De salientar que Carlos Ervedosa foi o autor da primeira sinopse de literatura angolana, intitulada Roteiro da Literatura Angolana, editado pela Sociedade Cultural de Angola, 1972. O Comércio de Luanda, cuja publicação foi várias vezes suspensa, era mais bem feito, primeiro pela acção de um proTissional como Ferreira da Costa, comprometidíssimo com o regime colonial, e depois pela acção do secretário-geral, José Maria Araújo, que fez muito bem a ponte com o último proprietário, António Champallimaud. Ficaram célebres neste jornal as crónicas de Alfredo Bobela-Mota, tão sarcásticas quão certeiras. Depois de ter reaparecido em Maio de 1974 com um certo equilíbrio, o apoio editorial à tentativa de golpe de Estado em Moçambique, em Setembro daquele ano, ser-lhe-ia fatal. Havia também dois diários vespertinos: o Diário de Luanda, da União Nacional, e o ABC, fundado e dirigido por Machado Saldanha, republicano da velha cepa. Ambos 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 cumpriam o seu papel, a seu modo e como a férrea censura da época os deixava, isto é, o primeiro sem ser muito agressivo, e o segundo com muitos entraves. Como o Estado deixou de publicar anúncios no ABC, por vingança de algumas ferroadas que conseguia ir dando, este começou a debater-se com diTiculdades Tinanceiras, que já não eram cobertas pelo lucro proveniente da Livraria ABC na Baixa, próximo da Versailles. Por isso, o ABC acabaria por desaparecer enquanto o seu antigo suplemento, a Tribuna dos Musseques, que se emancipara ainda na década de 60, continuou em circulação. A Tribuna dos Musseques, na fase de suplemento do ABC, era dirigida por TeóTilo José da Costa, vulgo Cu de Palha, que foi um personagem que esteve na base do desenvolvimento do Carnaval de Luanda. Era irmão de Carlos Lamartine, uma das Tiguras principais da música angolana e que chegou a ser deputado pelo MPLA. Depois, autonomizou-se e Ticou com uma redação perto da Estrada da Cuca em pleno musseque Marçal e o Centro de Informação e Turismo de Angola, CITA colocou lá um branco, Albuquerque Cardoso, para controlar e como redatores Maria Eduarda e Jerónimo Ramos, ambos conhecidos como muito «mussequeiros» até porque eram casados com angolanos. Fora de Luanda o único diário era O Lobito, dirigido por Mimoso Moreira, onde a extrema-direita campeava com uma incompetência de bradar aos céus. Quanto aos semanários, fora o Jornal de Angola, uma interessante experiência da Associação dos Naturais de Angola, ANANGOLA, há que recordar o papel importante que teve o Intransigente, em Ben- guela, depressa debelado pela censura, e uns anos (poucos) do Jornal do Congo, dirigido pelo Acácio Barradas, que conseguia fazer verdadeiras diabruras aos accionistas. O Jornal de Benguela e o Jornal da Huila limitavam-se a funcionar, embora este fosse mais a voz do dono, o poderoso Venâncio Guimarães Sobrinho, sogro do conhecido Eng. Cardoso e Cunha, que foi ministro de Cavaco Silva, célebre nos últimos anos pelas grandes confusões que arranjou à volta dos seus negócios em vários países africanos. Lembre-se que este Venâncio Guimarães Sobrinho, que era deputado e membro do Conselho Legislativo de Angola, subsidiava sozinho uma curiosa publicação, a Revista de Angola, dirigida pelo fundador do Comércio de Luanda, Araújo Rodrigues. E são ainda de referir a revista Trópico, pré-tablóide, do célebre eng. Pompílio da Cruz, fundador da FRA, Frente de Resistência Angolana, em 1974, e que chegou a ser candidato à presidência da República em Portugal, assim como uma coisa que dava pelo nome de Semana Ilustrada, de Borges de Melo, vindo do semanário O Planalto, do Huambo, que pelo menos tinha uma boa “saúde comercial”. É curioso analisar as capas da Trópico – eram só “belezas” europeias, como se Luanda não fosse a capital de um país africano onde as suas naturais “não pediam meças” às mais elegantes parisienses! Além do Notícia, propriedade da NeográTica, que pertencia ao Grupo Vinhas, da CUCA, esta editou ainda uma revista de cultura e espetáculos, a Noite e Dia, onde colaborava o conhecido Domingos VanDúnem, ultimamente coordenada pelo Rogério Beltrão Coelho, que tem andado por Macau, e um sema- | Cultura nário humorístico quase todo feito pelo crítico de teatro Angerino de Sousa, natural de Moçâmedes, que era diretor de uma companhia de seguros, e pelo Xico Orta, que ainda continua a ser um excelente gráTico – é ele que anima graTicamente os Roteiros do TT Kwanza-Sul - irmão do conhecido encenador português Filipe La Féria. Ainda no que concerne às revistas não pode ser esquecida a Prisma, ligada a católicos progressistas e que teve como diretor e principal animador António Palha, que foi casado com Joana Campinos, que pertencia a uma família que viria a estar ligada ao Partido Socialista. Antes, Joana Campinos fora casada com o radialista e ator Fernando Curado Ribeiro e ainda viria a casar com Sebastião Coelho, uma das personalidades da rádio mais marcantes em Angola. Um dos acionistas principais da Prisma era Mota Veiga, um grande empresário de Angola, originário da região de Viseu. Foi para evocar a mãe, que foi instituído o Prémio Maria José Abrantes Mota Veiga, cuja primeira edição foi ganha pelo livro Luuanda, da autoria de Luandino Vieira, que a seguir viria dar grande polémica ao vencer também o Prémio da Sociedade Portuguesa de Escritores, originando o seu encerramento compulsivo decretado pelo regime salazarista. Evocamos, por último, os vários boletins que algumas instituições mantinham mensalmente, sendo os mais notáveis, pela sua qualidade, o Boletim do Museu de Angola, o Boletim do Instituto de Angola, o Boletim do Grupo “Amigos de Luanda”, e, claro, o Boletim da Sociedade Cultural de Angola, que se viria a transformar na revista Cultura, antepassada desta nossa atual. Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 GRAFITOS NA ALMA | 19 O espaço e o tempo da Defesa Nacional Novos contextos e outras vulnerabilidades no século XXI LUIS KANDJIMBO Herói mítico Tchibinda Ilunga © Arquivos Museu Dapper –Foto Hughes Dubois N uma perspectiva epistemológica alternativa, importará trazer à reKlexão o espaço e o tempo como coordenadas fundamentais, e detectar a sua articulação aos conceitos de defesa e cultura no contexto angolano. A dimensão do espaço remete para a semântica do território. A coordenada do tempo alude a semântica da história. Embora situando-se no plano categorial, o espaço e o tempo são elementos que integram o conceito de cultura. Apesar das inúmeras deKinições conhecidas, a cultura é tomada naquela acepção em que é concebida como interacção do homem e seu meio, englobando o conjunto dos modos e condições de vida de uma sociedade assente num substrato comum de tradições e do saber, bem como as diversas formas de expressão e realização do indivíduo. Ora, a consciência da herança comum e o sentimento de pertencer ao mesmo espaço social e Kísico e, por outro lado, o sistema de representações e imagens positivas em que se fundam os comportamentos dos angolanos, traduzem simultaneamente uma identidade colectiva e uma identidade cultural. Pode parecer um truísmo abordar a identidade, ou seja, aquilo que torna uma comunidade, uma nação diferente de outras, apesar dos intercursos por que passa ao longo dos tempos. É que identidade traduz a vontade de um sujeito, individual ou colectivo, vontade que se vai concretizando incessantemente em actos conscientes do que já é ou em projectos do que há-de ser. Por estar sempre submetida às tentações da alteridade, a identidade implica um elevado grau de segurança ontológica de que depende a actuação de vários sujeitos. Tal actuação é, no entanto, uma reactualização da memória e das representações colectivas.Os principais agentes dessa estratégia são os sujeitos individuais. Para desempenho de tal papel têm de interiorizar modelos pré-existentes da cultura. Se a nação pode ser entendida como sujeito colectivo, constituído por indivíduos, obviamente a sua coesão dependerá da eKicácia com que se rea- lizam os mecanismos de socialização. É por meio das identidades individuais e grupais (colectivas) que se afere a segurança do projecto da identidade da nação. Isto signiKica que são os comportamentos individuais que dão forma aos comportamentos colectivos. As reKlexões sobre a questão da identidade lançam luz acerca das condições que subjazem à concepção de uma política de defesa que se situe ao nível das aspirações que comandam a construção da nação. Com efeito, a política de defesa tem o seu objecto principal na segurança do projecto de nação, que é um valor digno de protecção nos Estados democráticos modernos. Estaremos em presença da projecção da segurança ontológica dos indivíduos. Da imagem que os angolanos tiverem de si individualmente dependerá a imagem do projecto da nação angolana diante de outras nações e, consequentemente, a sua coesão e capacidade de aKirmação. Por essa razão, a produção de uma política nacional de defesa adequada ao nível e aos progressos da construção do Estado em Angola e do projecto de nação tem de emergir de uma ideia clara de segurança enquanto premissa básica. A segurança pode ser entendida como um fenómeno global que implica capacidades e forças que vão desde as produtivas passando pelas forças culturais, forças militares com projectos de aKirmação no horizonte, sem perder de vista os planos da sua efectivação, nomeadamente os apoios políticos internos e os apoios políticos externos. É neste sentido que aponta a Lei de Defesa Nacional e das Forças Armadas. Extraio dela duas noções importantes, o âmbito interministerial e a natureza global. Sem me deter na primeira que alude o nível interministerial da política de defesa, veriKico que a natureza global é deKinida como algo que se traduz na «integração de uma componente militar e componentes não-militares». Isto quer dizer que a política de defesa não se esgota apenas no vector militar. Está igualmente patente a ideia de rigor da concertação político-institucional. Pode-se concluir que entre as várias políticas que complementam a defesa, enquanto núcleo duro, teremos uma política cultural que alguns especialistas designam por política de mobilização social. Portanto, a dimensão cultural das políticas não pode estar oculta. Para os Estados africanos que emergem dos escombros do colonialismo, como é evidentemente o caso de Angola, a tomada de consciência revela-se fundamental, porque tanto o Estado quanto a nação é extensão de múltiplas dinâmicas culturais. Daí que o espaço e o tempo vistos num plano mais concreto, ou seja, o território e a população que o habita, assim como a história registada na sua memória colectiva, sejam coordenadas a não perder de vista. A primeira tarefa que se impõe consiste em proceder à releitura do adjectivo nacional. Pretendo assim determinar os aspectos substantivos em que se analisa o conceito de nação, pois é dele que derivam tais adjectivações. O sociólogo suiço Jean Ziegler, num estudo que consagra ao continente africano, tece algumas considerações através das quais distingue o processo de construção da nação em África do da Europa no século XVIII e XIX. Destaca o facto de a construção da nação e a construção do Estado serem tarefas complementares em África . As elaborações conceptuais de pensadores europeus continuam, no entanto, a impregnar o pensamento de historiadores, sociólogos, juristas e Kilósofos africanos, embora se comecem a revelar interpretações inovadoras do fenómeno. No seu Essai sur les moeurs e l’esprit des nations (Ensaio sobre os costumes e o espírito das nações), Voltaire escrevia: «a nação é uma pessoa jurídica constituída pelo conjunto de indivíduos que formam o Estado, mas distingue-se deste por ser titular do direito subjectivo de soberania». Ainda no dizer de Voltaire, «a nação é um grupo de homens estabelecidos num território determinado, constituindo uma comunidade política que se caracteriza pela consciência da sua unidade e a sua vontade de viver em comum». Outro ensaísta francês, Ernest Renan, numa conferência proferida na Sorbonne em 1882, considerava que «uma nação é uma alma, um princípio de ordem espiritual. Um destes aspectos – continua Renan – é a posse comum de um rico legado de lembranças; o outro é o consentimento actual, 20 |GRAFITOS NA ALMA o desejo de viver em sociedade, a vontade de fazer valer a herança indivisa. Uma nação é expressão de grande solidariedade constituída pelo sentimento de sacriTícios partilhados […]» . Num artigo publicado em 1954, Marcel Mauss deTinia a nação como sendo «uma sociedade material e moralmente integrada, com um poder estável, permanente, com fronteiras determinadas, uma relativa unidade moral e cultural dos habitantes que aderem conscientemente ao Estado e a suas leis». Na senda desta mesma tradição ocidental alinham ainda hoje vários sociólogos e cientistas políticos. Tiryakian e Nevitte (1985:57-86) evidenciam também a dimensão subjectiva ou voluntarística da nação. O conceito não é redutível às «condições objectivas» como o território. Estes autores entendem que «a nação é uma realidade dinâmica do ponto de vista histórico (cada nação tem sua historicidade) e a pertença a uma colectividade nacional implica um elemento de compromisso e escolha subjectiva». E acrescentam: «Diferentes actores habitando o mesmo território podem produzir diferentes interpretações sobre a sua comunidade societal» (1985:57-86). A nação assim entendida dá lugar ao conceito de nacionalismo, exprimindo a dimensão política, a actividade que gravita em redor do poder político, isto é, do Estado. O nacionalismo nos Estados liberais europeus era uma ideologia através da qual se inculcava o espírito de nação às populações que, apesar das diferenças e da estratiTicação social, habitavam o território do mesmo Estado. A história do conceito de nação, bem como de outros substantivos e adjectivos que lhe andam associados, como nacionalismo, nacionalidade e nacional, demonstra a sua natureza Ticcional. Tradição inventada e comunidade imaginada , duas expressões forjadas por historiadores europeus traduzem bem a ideia de Ticção. No contexto da África contemporânea, o chamado «Estado pós-colonial», que pretende ser também um Estado-nação, caracterizou-se sempre por um certo pluralismo. Atento a estes fenómenos está igualmente o cientista político Mwayila Tshiembe, que apresenta argumentos a favor de um Estado multinacional africano. Segundo o cientista político congolês democrata, é o conceito de nação sociológica que melhor se adequa à especiTicidade do fenómeno social e do político en África, e ao reconhecimento da etnia enquanto comunidade cultural e simultaneamente sociedade política.Já ao conceito actual de nação, tributário das teorias políticas europeias do século XIX e XX, prefere atribuir o sentido de nação jurídica, pois entende tratar-se de uma Ticção jurídica . Se a etnicidade em África representava, aos olhos dos observadores, o 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Chefe sentado © Arquivos Museu Dapper e Hughes Dubois estigma do primordialismo, um fenómeno pré-moderno, a verdade é que as experiências de desintegração dos Estados-nação europeus, vieram provar a falibilidade do modelo, além de um pluralismo étnico que conTirma a existência de uma percentagem muito insigniTicante de Estados etnicamente homogéneos. Mas a ideia de falência do Estado-nação não se concretiza apenas ao nível sociológico e político, tal acontece igualmente ao nível económico. Um dos mais ferozes apologistas do desaparecimento do Estadonação é o japonês Kenichi Ohmae. Ele defende que a existência de uma economia planetária está a dar lugar ao surgimento de Estados-regiões. Nesta linha de pensamento parece indispensável evitar a confusão entre cultura e economia. Aliás, não tendo aprofundado as ideias a este respeito, Kenichi Ohmae aborda levemente esta dicotomia ao pôr em causa a visão polemológica de Samuel Huntington assente no «choque de civilizações». Apesar da questionada validade do conceito de nação, para a presente reTlexão interessa mais a realidade que lhe está subjacente. Em estudo publicado em 1985, G.P. Nielsson concluiu que numa taxionomia centrada no Estado (state-centric taxonomy) de 1981, cobrindo um universo de 161 Estados (de um total de 168) e três territórios dependentes ( de um total de 16), o conceito convencional de Estado-nação aplica-se a ¼ de membros do sistema de Estados. Outra conclusão aponta indicadores respeitantes à existência de vários grupos étnicos num Estado e a dispersão de um mesmo grupo por vários Estados.Em ambas as amostras, Angola Tigura na lista de países com uma situação de pluralismo étnico. Com efeito, o mapa de Angola apresenta um traçado de fronteiras para além das quais se disseminam comunidades étnicas habitando o espaço angolano e o espaço de países vizinhos. Apesar de algumas comunida- Cultura des étnicas angolanas não habitarem exclusivamente o território angolano, é ele que legitima os mitos defensivos. O território é, em sentido amplo, um elemento cultural de grande relevância para a caracterização da nação entendida como sujeito colectivo. O território é o lugar em que se Tixa e se estabelece a unidade do povo na sua diversidade. Em sentido estrito, pode, dizer-se que o território permite deTinir os contornos de uma fronteira cultural angolana. Convém, no entanto, que o leitor esteja de sobreaviso quanto ao debate que se trava a respeito da falência e da crise do modelo de Estado-nação territorial. Invoca-se o facto de os territórios dos Estados serem vulneráveis. Joseph S. Nye Jr catalogou cinco modelos alternativos construídos para corresponder àquela constatação. São eles: federalismo mundial, funcionalismo, regionalismo, ecologismo, ciber-feudalismo. Ainda assim continuam a ser reconhecidas importantes virtualidades ao Estado-nação, quando se trata de alcançar objectivos primordiais como «segurança Tísica, bem-estar económico e identidade comum». É que o Estado-nação ou Estado territorial sofre os efeitos das vulnerabilidades provocadas, por exemplo, pela revolução no domínio das tecnologias de informação. Fala-se de um novo tipo de ameaças susceptíveis de abalar o Estado territorial. São os ciber-ataques, produtos da revolução da informação, que liquidaram o sistema de Vestefália. É o Tim do território, como diz Bertrand Badie. 1 Mwayila Tshiembe e Muyele Bukasa, L’Afrique face à ses Problémes de Sécurité et de Défense, Paris, Présence Africaine, 1989, p.241 2 Jean Ziegler, Main Basse sur L’Afrique, Paris, Editions du Seuil, 1980, 39 3 Ernest Renan, Qu’est qu’ une nation?, Paris, Calmann-Levy, 1882 4 Ver Eric Hobsbawm e Terence Ranger (ed.), La invencion de la tradicion, Barcelona, Libros de Historia, 2002; e Benedict Anserson, Imagined communities, London, New York, Verso, 2002; Liah Greenfeld, Nacionalismo.Cinco Caminhos para modernidade, Lisboa, Publicações Europa-América,1998 . 5 Mwayila Tshiembe, «L’Etat Multinational como modèle politique et constitutionnel des sociétès plurinationales» in www.eur.nl/frg/iacl/papers/tshiembe.htm l 6 Kenichi Ohmae, De L’État-Nation aux Étas-régions, Paris, DUNOD, 1996 7 Ver Edward Tiryakian e Ronald Rogowski (ed.), New Nationalisms of the Developed West, Boston, London, Sydney, Allen & Unwin, 1985,pp.57-86 8 Ver Joseph S. Nye Jr., Compreender os ConQlitos Internacionais.Uma introdução à Teoria e História, Lisboa, Gradiva, 2002, pp.265 9 Bertand Badie, O Fim dos Territórios Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 GRAFITOS NA ALMA | 21 A Sindérese e a sua relação com a Lei Natural em Tomás de Aquino O Padre José Manuel Bragança defendeu no passado dia 30 de Abril a sua tese de doutoramento em @iloso@ia pela Ponti@ícia Universidade Urbaniana, na cidade do Vaticano, perante um júri constituído por três professores catedráticos. O tema da pesquisa escolhido pelo prelado é “A Sindérese e sua relação com a Lei Natural em Tomás de Aquino”, que apresenta a sindérese como o hábito que contém os primeiros preceitos da lei natural ou primeiros princípios do agir, que comandam o impulso de se fazer e perseguir o bem e de se evitar o mal. O acto foi assistido pelo embaixador de Angola junto da Santa Sé, Armindo do Espírito Santo, bem como por familiares, amigos, colegas e funcionários diplomáticos. Natural de Luanda, José Manuel Bragança, foi ordenado sacerdote pelo cardeal dom Alexandre do Nascimento, na Sé Catedral de Luanda em Março de 1997. Foi professor no Instituto de Ciências Religiosas de Angola (ICRA) e trabalhou na paróquia de Nossa Senhora da Nazaré em Luanda e no Santuário de São José do Calumbo até Maio de 2003. José Bragança, que é Mestre em Filoso@ia pela Ponti@ícia Universidade Urbaniana desde 2006, aguarda a publicação em livro da sua tese, altura em passará a usar o título de doutor em @iloso@ia. Publicamos a seguir o resumo da dissertação. 1. Introdução O tema da nossa pesquisa é a sindérese e sua relação com a lei natural em Tomás de Aquino. Com efeito, Tomás aborda a questão da sindérese e da lei natural, a partir dos escritos juvenis, concentrando-a na consideração do livre arbítrio, e proseguindo nas obras da maturidade com a consideração das virtudes, dos actos humanos e dos princípios que os orientam. Ele apresenta a sindérese como o hábito que contém os primeiros preceitos da lei natural ou primeiros princípios do agir, que comandam de se fazer e perseguir o bem e de se evitar o mal. Porém, a compreensão de tal hábito e respectivos preceitos, diante da consideração dum agir humano que se coloca para além do bem e do mal e, pelas várias interpretações que têm recebido, torna complexa a sua abordagem e suscita múltiplas interrogações. Ora, uma primeira preocupação recai sobre as razões pelas quais se deve fazer e perseguir o bem e se evitar o mal. E daquí podem seguir-se outros questionamentos a respeito do hábito e dos preceitos, como aqueles sobre a potência racional na qual se constituem, sobre o ordenamento que exprimem, sobre a validade dos mesmos e o bem que apresentam. E ainda, pelo facto de Tomás abordar o agir humano tanto no ordenamento da lei como no ordenamento da virtude, essa sua explicitação do agir do sujeito humano, pode ser interpretada de maneira variada. 2. Motivações e objectivos As motivações para a escolha desse tema, reenviam não só à problemática que se quer afrontar, mas também ao pensamento do autor e à existência de uma diversidade de posições, por parte de alguns estudiosos que interpretam Tomás. A escolha desse tema ligase ao desejo de aprofundar o ensino de Tomás, de maneira especial sobre um aspecto particular, aquele da sindérese e sua relação com a lei natural, o qual reveste-se de várias implicações teóricas e práticas. De facto, o período no qual Tomás viveu, foi marcado pelo desabrochar de várias correntes de pensamento e de fortes disputas intelectuais, que exigiam um esclarecimento de posições. No enunciado do tema, embora se pressuponha a existência da sindérese e da sua relação com a lei natural, todavia, não se procura colocar a sindérese em relação com a lei natural em todos os seus domínios, mas sim, focalizando aquele ponto onde a sindérese atinge a lei natural, isto é, os seus primeiros preceitos, os quais nos colocam no campo do fundamento agir humano. Para aprofundar a análise nos concentramos nos textos nos quais Tomás trata da sindérese. E tal procedimento não reduz a abordagem da sindérese nem altera o nosso objectivo, na medida em que, não impede que desde a sindérese se busque a sua ligação com a lei natural. Assim, nos propusemos clari@icar o ensino de Tomás sobre a sindérese e sua relação com a lei natural, identi@icando, as posições a ele reconduzidas, se são da responsabilidade dos intérpretes ou encontram no vasto conteúdo do seu ensino quaisquer elementos onde se fundamentam. 4. Propósito e método Posto isso, devemos frisar que o trabalho realizado concentra-se na análise dos textos de Tomás sobre a sindérese. E com esse estudo pretendemos demostrar que o tema da sindérese e a abordagem da sua relação com a lei natural, revela que se trata, não só, de um tema de particular interesse da re@lexão de Tomás desde as obras da juventude até às da maturidade, mais também, de um ponto fundamental do seu ensino sobre o agir humano. Para isso, usamos na pesquisa o método histórico crítico com diferentes acentuações dos seus aspectos: para se indicar o percurso histórico do problema em torno da sindérese e do primeiro preceito da lei natural; para a análise dos textos de Tomás colocando-os no conjunto do seu ensino; e para fazer a distinção do pensamento de Tomás das interpretações contrárias. 5. Estrutura do trabalho Dividimos o trabalho em três capítulos, nos quais ao @inal faz-se uma breve síntese conclusiva, e a conclusão geral no @im do trabalho. Capítulo I Assim, no primeiro capítulo, @izemos um breve percurso histórico-literário sobre a sindérese e os primeiros preceitos da lei natural nos predecessores e contemporâneos de Tomás, com destaque às @iguras de S. Boaven- tura e S. Alberto Magno. E também apontamos, alguns traços principais do desenvolvimento posterior à Tomás até aos nossos dias. Deste modo, são apresentados alguns elementos ligados à origem do tema da sindérese, à sua natureza, ao seu conteúdo e função, à sua consideração de hábito da razão prática e às tensões nascidas ultimamente na concepção dos preceitos da lei natural. Quanto a problemática referente ao primeiro preceito da lei natural, nos ocupamos de interrogações que os intérpretes de Tomás suscitam, como as questões ligadas à natureza da formulação do mesmo, a sua colocação no discurso prático, a sua disposição para o universal ou particular, a sua colocação diante do intelecto e da vontade, sem deixar de mencionar o seu carácter e função na consideração moral do agir. Capítulo II No segundo capítulo, passamos em revista os textos de Tomás que se referem à sindérese no contexto da obra a que pertencem. Ora, vimos a sindérese e sua relação, não só, com a lei natural, mas também, com as outras instâncias a@ins, tal como foi abordado por Tomás. Assim, observamos os aspectos de distinção e de semelhança da sindérese com a razão, a consciência, o livre arbítrio e a lei natural. Focalizamos, os motivos pelos quais, a potência racional, que é o intelecto prático, tem necessidade dum hábito, os da a@irmação de que a sindérese nunca erra e da sua não extinção, e os da distinção do acto da sindérese do acto pessoal. Notamos as razões aduzidas para uma certa prioridade do intelecto em relação à vontade na realização da acção e da diferença das mesmas quanto ao acto próprio de cada: o conhecer e o querer. E assinalamos a presença da sindérese e da sua relação com a lei natural desde as primeiras obras até à maturidade do seu pensamento. Capítulo III Já no terceiro capítulo, para responder as inquietações levantadas nos dois primeiros capítulos, @izemos a distinção do pensamento de Tomás das interpretações contrárias para demostrar os elementos da sua proposta. Colocamos em evidência os principais problemas relacionados com o tema, começando por afrontar a compreensão da natureza da sindérese, à luz da passagem feita por Tomás de “potência com hábito” à simplesmente 22 |GRAFITOS NA ALMA “hábito”. E ainda, observamos algumas a@irmações de Tomás relacionadas com a temática e que recebem interpretações divergentes, como por exemplo: que o intelecto divide-se em especulativo e prático; que existe uma certa prioridade própria do intelecto especulativo; que o intelecto especulativo por extensão à obra se torna prático; e que o intelecto especulativo não causa movimento, enquanto que o prático sim. Outrossim, abordamos uma série de questionamentos ligados ao modo da obrigatoriedade do preceito, à sua imutabilidade, à tensão entre preceito e liberdade. E na compreensão da racionalidade prática, apresenta-se o questionamento da relação lei e virtude, tendo em conta que Tomás ao tratar da acção boa, relaciona-a tanto à lei quanto à virtude, indicando ambos como elementos determinantes do seu carácter moral. Todavia, torna-se surpreendente, o facto de no @inal da tratação, fundamentalmente, apresentar o bem moral como bem virtuoso. Nas posições dos antecessores e contemporâneos de Tomás, nota-se uma preocupação na determinação do intelecto prático entre o intelecto e a vontade, devido a sua relação ao verdadeiro e ao bem. É nesse contexto de preocupação que Tomás procura explicar o hábito da sindérese, distinguindo-a do intelecto, da consciência e da lei natural. Para Tomás a sindérese reside no intelecto e pode ligar-se na sua inerrância ao conhecimento afectivo, que pertence à vontade, impedindo-a de qualquer erro na apreensão do bem quanto aos princípios universais, porém não quanto aos particulares elegíveis . Para a garantia da justiça no agir racional, Tomás aponta para uma certa prioridade do intelecto em relação à vontade, e a presença da sindérese garante que o voluntário não seja a@irmado irracionalmente, nem a razão contra a vontade. A sindérese é considerada enquanto natureza e enquanto princípio de acção. Ora, se a sindérese considerada em si mesma, não pode ser extinta sem que se extinga a própria alma, o mesmo já não se pode dizer do seu acto. O acto da sindérese que é a a@irmação dos primeiros preceitos da lei natural e o acto pessoal no homem, fundam-se na mesma natureza racional, mas não se identi@icam, porque o acto da sindérese diz respeito à natureza segundo a espécie e o acto pessoal à natureza segundo o indivíduo. A sindérese é constitutiva da natureza do conhecimento humano, nela dá-se uma apreensão imediata dos primeiros princípios práticos naturalmente conhecidos, e comporta quatro características: ser um conhecimento da verdade sem pesquisa; ser o princípio de todo o conhecimento sucessivo; estar presente naturalmente no ho- mem; e estar de modo habitual. Já, a razão prática enquanto potência, tem necessidade do hábito da sindérese, por três motivos fundamentais: primeiro, para o seu aperfeiçoamento, pois a presença da virtude melhora a disposição da potência. Em segundo lugar, para a sua operação, pois possibilita a sua passagem à acto , e @inalmente para a sua condução ao @im, ao óptimo para a potência, que é a realização do seu acto. Com isso permite-se a@irmar que a acção indeterminada da razão prática não constitui um tipo de acção anterior à aquela moral, já que para Tomás, a indeterminação impossibilita qualquer acção por parte da razão prática, porque sem uma determinação do hábito a razão prática não pode agir. Notamos que, as acções recebem a sua razão de bondade desde a sua submissão ao ordenamento do preceito da lei natural . Porém, as acções consideradas em si mesmas, não constituem um critério para julgar sobre a e@icácia dos princípios práticos. Contudo, os preceitos da lei natural ou princípios da razão prática orientam as acções humanas não de modo indiferente, mas segundo a verdade, a bondade e a justiça, ou seja, segundo o @im último do homem. Ora, os primeiros princípios da sindérese e os primeiros preceitos da lei natural, tratam-se dos mesmos para ambas instâncias. Contudo, a origem do carácter do seu dever ou da obrigatoriedade que os acompanha, não se refere de igual modo para a sindérese e para a lei natural. Com efeito, o dever e o conteúdo que o primeiro preceito da lei natural a@irma, encontra-se já radicado na formulação e segue o ordenamento racional dado pela sindérese. De facto, embora a razão prática apreenda naturalmente as inclinações naturais como bens humanos básicos, a formulação dos primeiros princípios evidentes por si, não cabe a ela, mas sim ao hábito da sindérese. É ainda, a luz da sindérese que se pode compreender a correspondência entre a ordem dos preceitos da lei natural com a ordem das inclinações naturais, na medida em que tais ordenamentos apóiam-se não nos preceitos nem nas inclinações, mas na razão. E não é contrário ao ordenamento da razão a presença de um triplo ordenamento das inclinações naturais e de preceitos da lei natural. Com isso, Tomás a@irma não só que os objectos das inclinações, ou seja, a vida, a procriação, a vida social e o conhecimento de Deus, são bens fundamentais, mas sobretudo que a presença de uma ordem entre as inclinações torna claro a existência de uma ordem entre os bens fundamentais : «a ordem das inclinações naturais corresponde à ordem dos preceitos da lei natural» . E neste particular, Tomás aponta haver uma ligação ordenada entre, inclinação, princípio e preceito. 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Nessa correspondência, sem a presença da sindérese, não se pode conceber a moralidade expressa pela lei natural. Embora a moralidade apresenta uma referência ao bem colhido pela vontade na inclinação natural, a sua concepção é obra do intelecto, ou seja, enquanto é elaborado pelo intelecto e dele recebe a sua força. O referimento moral da sindérese liga-se à estreita relação da sindérese com as potências que caracterizam o acto humano, o intelecto e a vontade, a moralidade é natural à sindérese. Contudo, não só, a sindérese permite uma melhor compreensão da lei natural, mas também, essa ligação ordenada, que permite a correspondência da inclinação natural e do preceito natural, ajuda a comprender a sindérese enquanto hábito natural. A apresentação da sindérese em relação com a lei natural, focalizada nos primeiros preceitos, garante a a@irmação da inerrância da lei natural em universal, e pede que, se indique a sua relação com a consciência, que é a instância da razão onde se faz a aplicação dos mesmos preceitos no particular. Quanto a relação entre a sindérese e a consciência é aquela de hábito e acto, análoga à relação de causa e efeito. A consciência depende e recebe a sua força da sindérese . E quanto ao bem moral, este é conhecido, directamente em universal e indirectamente em particular, no mesmo acto de conhecer do intelecto. Em Tomás, a “objectividade” do preceito da lei natural e a “subjectividade” do hábito da sindérese ao revelarem os aspectos do “bem fundamental humano” e da “boa realização de tal bem fundamental” cooperam na compreensão do sujeito moral e da sua acção. 7. Contribuições e perspectivas Da leitura dos textos de Tomás, notamos um desenvolvimento do seu pensamento acerca da sindérese e da lei natural, que indica um interesse em aprofundar e esclarer essa temática. De facto, observa-se uma evolução na apresentação da sindérese e, consequentemente da relação da sindérese com a lei natural. Com efeito, nos primeiros escritos fala que existe uma relação da sindérese com a lei natural, ou seja, que os preceitos da lei natural estão inscritos na sindérese, mas a a@irmação é, sobretudo, para distinguir as duas instâncias. Na Suma Teológica, a relação é para fundamentar o agir do sujeito humano desde as faculdades operativas do indivíduo em ordem a sua natureza especí@ica, de modo a poder produzir o acto bom e recto. Nessa apresentação da sindérese como hábito que contém os preceitos da lei natural e da sua função junto da potência racional com vista a acção, decorrem estes elementos, que reclamam por uma rea@irmação, para demostrar a especi@icidade do agir humano, a uni- Cultura dade entre agente-acção-@im, e que uma consideração da moral não pode prescendir dos elementos afrontados por Tomás, em torno da abordagem da sindérese e da sua relação com a lei natural, com o risco de se deturpar a caracterização do agir humano. E esta constatação encontra uma certa concordância nos resultados parciais da pesquisa a que chegou Abbà, indagando sobre a lei e a virtude em Tomás, ao indicar que a mudança de perspectiva da consideração do agir humano, tenha pedido «por soluções novas acerca do habitus e acerca da lei natural, e consequnetemente acerca do modo de conceber o exemplar divino» . De facto, o homem pode não só começar a agir, mas sobretudo, decidir perseguir o seu bem com um certo tipo de acção porque tem uma inclinação, que se exprime num triplo modo de ordenamento correspondente à tripla dimensão da ordem da lei natural, cujos primeiros princípios o homem conhece naturalmente graças ao “hábito natural”, que é a sindérese. Portanto, sem a colocação da sindérese em relação à lei natural, esta última não se concebe correctamente e perde fundamento o dever moral expresso pelos seus preceitos, ou seja, em Tomás para se compreender o carácter moral da lei natural, esta não pode ser vista sem a sua relação com a sindérese, que constituida como hábito da razão prática, formula os primeiros preceitos da lei natural, inclina para a acção e orienta o agir humano de acordo com os preceitos por si formulados. GRAFITOS NA ALMA |23 Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 Com efeito, na relação sindérese e lei natural, Tomás indica não só que é um bem que o homem naturalmente seja orientado para o bem através dos primeiros preceitos, mas também que constitui um bem que ele naturalmente seja capacitado pelo hábito da sindérese para agir sempre bem. Assim, no homem a sua moralidade apóia-se na orientação para o bem e na capacidade para agir bem, que pertencem naturalmente ao homem, graças à sindérese. O contributo do nosso estudo é a análise dos textos de Tomás sobre a sindérese e as implicações relacionadas com a lei natural, indicando os pontos fundamentias do seu ensino e os elementos principais que cooperaram para o desenvolvimento do seu pensamento sobre essa temática. A particularidade da nossa pesquisa, encontramos não somente no resultado da mesma, mas sobretudo, no seu desenvolvimento e nos elementos postos em evidência, que nos permitiram chegar a aLirmar aquilo que Tomás ensina a respeito da sindérese e da sua relação com a lei natural. Estamos conscientes de não ter esgotado todas as perspectivas desse relacionamento, seja pela subtileza e abrangência do assunto, seja pela opção de afrontar o assunto desde os textos referidos à sindérese, seja pela relação com outras instâncias aLins como a consciência e o livre arbítrio, e daí que pode-se considerar igualmente como um ponto de partida para estudos posteriores. Contudo, esperamos que o ensinamento de Tomás aqui analisado, possa contribuir para uma melhor compreensão das questões relacionadas com a sindérese e com a lei natural, e especialmente, sobre a moralidade dos seus preceitos. O conceito de sindérese: termo e problemática “Sindérese” provém do grego, syntéresis ou syndéresis, embora não se explica com precisão essa variação de uma à outra; ou ainda de syneídesis (consciência) . Com efeito, a palavra derivaria do verbo syn – teréo, que signiLica eu conservo, mantenho, preservo, ou de syn – diairéo que signiLica, eu distingo, divido. É dessas duas etimologias que possivelmente surgem os dois modos de escrever a palavra , ainda que se reconheça uma certa obscuridade acerca da origem Lilológica do termo . Contudo, não se pode negar alguma aLinidade quanto ao conceito de “conservar” do estoicismo na perspectiva teológica medieval e também a presença do conceito de “natura” tanto dos estoicos como de Aristóteles (384-322 a.C.) na problemática da sindérese. O vocábulo syntéresis ou syndéresis para alguns estudiosos parece ter provido de um modo posterior de escrita , enquanto que para outros foi devido a um erro de transcrição da palavra contida no mesmo texto do comentário de S. Jerónimo (347-420) sobre o conteúdo da visão de Ezequiel , no qual cita uma teoria LilosóLica que compara os quatro animais da visão com a distinção platónica das partes da alma . S. Jerónimo em seguida aproxima esta sindérese à duas passagens de S. Paulo. A realidade chamada sindérese corresponderia igualmente àquela que S. Paulo entendeu pelo termo “espírito”, aquele espírito que clama no íntimo do homem com gemidos inefáveis (Romanos 8, 26), que conhece tudo aquilo que está em nós (1 Coríntios 2, 11) e que o apóstolo recomenda aos cristãos de salvaguardar (1 Tessalonicenses 5, 23). Na sequência do texto, S. Jerónimo prende provavelmente o termo syntéresis como sinónimo do termo syneídesis e o traduz simplesmente por conscientia . A passagem sugere assim por si mesmo que o termo syntéresis poderia não ser senão uma deformação de syneídesis, que signiLica conhecimento em comum, informação, estar cônscio, sentido íntimo, ‘consciência’. Esse erro ou mudança de transcrição não disturba o pensamento de S. Jerónimo, pois para ele syntéresis é sinónimo de syneídesis. Mas o mesmo não acontece no pensamento dos medievais, os quais procuram distinguir os termos . Contudo, o facto de que em S. Jerónimo os termos syneídesis e syntéresis ou syndéresis, apesar da mudança na sua transcrição, tenham a mesma signiLicação, daí não se pode concluir que os dois últimos derivem necessariamente do primeiro termo . Os historiadores e linguistas ainda discutem acerca dessa variação do termo, mas os Lilósofos não estão tão preocupados com o desenvolvimento histórico da palavra, quanto das interpretações escolásticas do sentido do termo . A passagem desse comentário de S. Jerónimo citado por Pedro Lombardo (1100-1160) nas suas Sentenças , colocado no contexto do estudo do pecado e da graça é incontestavelmente o ponto de partida da acepção do termo nos pensadores da Idade Média . Contudo, é oportuno salientar que Pedro Lombardo nessa citação não usa o termo syndérese, mas sim superior scintilla rationi . Residindo na alma humana, a sindérese abre-nos também ao estudo da psicologia humana na sua perspectiva clássica. Para alguns estudiosos ela constitui igualmente o ponto de partida para a comprensão da Psiché humana . Tendo nascido num contexto de tradição cristã e o termo estar presente em alguns tratados de moral, o seu uso não se restringe à essa tradição, pois que a sindérese diz respeito à pessoa e à natureza humana colocando «o problema do fundamento moral no entrelaçamento entre natureza, desejo, Lim, bem» . A “sindérese” foi muito usada na doutrina moral pelos escolásticos, os quais indicavam-na também por scintilla conscientiae, naturale iudicato- rium, ratio naturalis, lex intellectus nostri, intellectus primorum principiorum operabilium, scintilla animae, e destes variados apelativos, surgem as tensões na precisão da natureza da sindérese, se se trata de uma “potência”, uma “potência com hábito” ou simplesmente um “hábito”. 1 Cfr. TOMÁS DE AQUINO, De malo, q. 16, a. 6, também por Borgonovo, segundo o qual «o erro 2 Cfr. ID., STh., I-II, q. 55, a. 2, Resp. primitivo syneídesis (consciência), num não me- ad s. c. 6. 3 ID., In Sent., I, d. 47, q. 1, a. 4, Resp. 4 Cfr. M. MURPHY, Natural Law and Practical Rationality, cit., 195 5 TOMÁS DE AQUINO, STh., I-II, q. 94, a. 2. 6 Cfr. ID., In Sent., II, d. 24, q. 2, a. 4, ad 6 e Resp. 7 G. ABBÀ, Lex et virtus..., cit., 268. de um qualquer copista que, transformando o lhor precisado syntéresis, viria a fornecer, mau grado seu e sem saber, um precioso termo para um conceito que o aguardava e à volta do qual surgiria um serrado debate.» (Cfr. G. BORGONOVO, Sinderesi e coscienza..., cit., 49). 14 Veja-se em Ezequiel, 1, 5-8. 15 Cfr. S. JERÓNIMO, Comentario a Ezequiel, 8 Albertuni indica que os termos syntéresis e L. 1, [10-13], in Obras Completas (Edición Bilin- syneídesis, ou seja, consciência. Ainda que apre- tradução de Hipólito-B. RIESCO ÁLVAREZ) vol. syndéresis sejam um erro de escrita da palavra senta a idéia de uma possível origem estoica do termo, resalta os vários sentidos que ligam a sindérese à consciência, comparando a sindére- gue promovida por la Orden de San Jerónimo – Va, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid 2005, 17-22. 16 «O termo sindéresis é uma inovação em se à consciência moral, ao sentimento de remor- relação ao pensamento aristotélico e foi intro- sequente, à consciência antecedente. Contudo, ma problemática através de um texto, a Glossa so, à consciência psicológica, à consciência con- sublinha que o problema principal do conceito não assenta na origem da palavra, se nasce de escrita errada ou do uso estoico, mas da sua relação com a consciência, a lei natural e a razão. (Cfr. C. A. ALBERTUNI, O conceito de sindérese..., cit., 13-15). 9 Cfr. I. SCIUTO, «Sinderesi, desiderio natura- le...», cit., 128; M. PANGALLO, Legge di Dio, Sinde- resi e Coscienza nelle “Quaestiones” di S. Alberto Magno, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 1997, 25. 10 Cfr. J. A. GARCÍA-JUNCEDA, «La sindéresis en el pensamiento…», cit., 433. 11 Cfr. C. A. ALBERTUNI, O conceito de sindé- rese..., cit., 219-220. duzido na teologia e cilosocia medievais de for- de Jerônimo a Ezequiel, em que consta o termo syntéresin e em seguida uma referência ao mesmo através da expressão scintilla conscientiae. Daí, o conceito por ele designado, ter sido elabo- rado numa tensão permanente com o conceito de consciência, uma vez que havia dúvida sobre a origem do termo sindérese, que talvez fosse uma transcrição errada do vocábulo grego syneídesis, que já circulava entre os estudiosos com o signicicado de consciência. A despeito disso, na evolução do debate medieval, o conceito de sindérese ganhou autonomia e importância na teoria da acção moral» (C. A. ALBERTUNI, O conceito de sindérese..., cit., 11). 17 «A distinção entre sindérese e consciência 12 Nega-se que a mudança seja devido à um tornou-se usual nos pensadores medievais a forma antiga da palavra, como indica Dalia mentário sobre Ezequiel de S. Jerónimo, no qual erro de transcrição, mas por um abandono da Stanciené. «O estudioso francês Christian Trott- mann acirma que a ortogracia de syndéresis co- mo syneídesis encontrada nos mais antigos ma- nuscritos não é um erro dos escribas mas o testemunho de alguma inicial tradição de escrever a palavra, que foi abandonada mais tarde com o surgimento da escola de empréstimo dos comentários, em 842, Rabão Mauro, um escriba, utiliza syntéresis» (Cfr. D. M. STANCIENÉ, «Synderesis in Moral Actions», in PONTIFICIA ACADE- MIA SANCTI THOMAE AQUINATIS, Atti del Con- partir do século XII por causa de um texto do Coaparece o termo “syndéresis” ou “syntéresis”. Em que modo S. Jerónimo tenha usado a palavra “sindérese” foi um tema amplamente debatido na primeira metade do Novecento. Provavelmente o termo ή ς está por ί η ς por um erro de transcrição […], mas o signicicado da palavra [syndéresis] não se diferenciaria daquele de consciência, ao menos no pensamento de S. Jeró- nimo» (Cfr. M. PANGALLO, Legge di Dio, Sinderesi..., cit., 21). 18 Cfr. I. SCIUTO, «Sinderesi, desiderio natu- gresso Internazionale su l’umanesimo cristiano rale...», cit., 128. D’Aquino 21-25 Settembre 2003, vol. II, Pontici- Actions», cit., 857. Vaticano 2005, 856). in ID., Sententiae in IV Libri Distinctae (ed. PP ção nesse escrito de S. Jerónimo e essa é uma opi- venturianum, IV), Ad Claras Aquas 1971, 556, nel III millennio: La prospettiva di Tommaso cia Academia Sancti Thomae Aquinatis, Città del 13 Acirma-se que houve um erro de transcri- não comum. Em vez de syneídesis (consciência) do texto original na transcrição colocou-se syn- 19 Cfr. D. M. STANCIENÉ, «Synderesis in Moral 20 Veja-se PEDRO LOMBARDO, Sent. II, d. 39, COLLEGII S. BONAVENTURAE, Specilegium Bonann. 5-9. 21 Cfr. C. A. ALBERTUNI, O conceito de sindé- térese ou syndérese. A prova foi tentada por Fr. rese..., cit., 16. R. Leiber (1912). Três manuscritos do comentá- 556, nn. 5-9. «Diz-se simplesmente que o homem sis ao lugar de syntéresis. Na mesma senda colo- tade boa e recta; certamente a centelha superior Nitzch uma primeira vez e retomada depois por rio de S. Jerónimo portam efetivamente syneídeca-se J. De Blic, que em 1949 no seu artigo «syn- dérèse ou conscience?» concirma a tese, tendo examinado vinte e dois manuscritos. «O erro seria portanto dos copistas e como tal chegou à 22 Cfr. PEDRO LOMBARDO, Sent. II, d. 39, cit., quer o bem, porque está comprometido na vonda razão que também, como acirma S. Jerónimo, não pode extinguir-se; quer sempre o bem e odeia o mal». 23 Cfr. J. F. SELLÉS DAUDER, «La Sindéresis o Rabão Mauro no IX século» (Cfr. M. PANGALLO, razón natural...», cit., 321-322. do Padre J. De Blic sobre o assunto é mencionado rale...», cit., 126. Legge di Dio, Sinderesi..., cit., 24-25); o parecer 24 Cfr. I. SCIUTO, «Sinderesi, desiderio natu- 24 | DIÁLOGO INTERCULTURAL 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Cultura “Niketche: Uma História de Poligamia” de Paulina Chiziane A metalinguística dolorida da mulher moçambicana MULHER É TERRA. SEM SEMEAR, SEM REGAR, NADA PRODUZ (PROVÉRBIO ZAMBEZIANO) MATADI MAKOLA A contaminação entre a prosa e a poesia nasce das evasões de Rami. A protagonista traz, por via da comparação dos estatutos sociais entre um homem e uma mulher, o seu complexo mundo interior. Os rasgos de poeticidade vazam em momentos de tristeza e repúdio da penitência de um amor e da condição de mulher na sociedade. Rami, a revoltada pedinte de amor, traz no discurso uma verbalizada acção feminista recheada de imagens que realçam ontologicamente a diferença. “Niketche”, de algum modo, no campo imaginário do leitor, expande-se como uma contradição sofrida entre a essência das entranhas e a super@ície num consequente jogo de sonho e realidade. De débil distanciamento estético e presa conformada da estética da recepção em que o anti “eu” romântico do autor narcisista é sacri@icado para dar regalias ao destinatário/leitor e o herói é construído como @igura disfuncional cujo protagonismo é retirado para investir na temática, o que faz com que a obra aconteça num plano em que todos são vítimas e participantes incondicionais do sentido trágico que a vida toma, seguindo assim a apologia de Taine de que a literatura deve ser resultado de meio, raça e momento. Apesar da sua tentadora actuação feminista, conserva a sua intenção de sonora ferramenta de luta ante as lacunas da sociedade, instrumento para superar os desvarios da natureza através do retrato fácil e @iel, consequentemente apoiado no determinismo e historicismo cultural para ajustar o seu neo-realismo. Esta tese, que é debatida nas letras desde meados do século XIX, repugnando a alienada arte pela arte e abrindo-se como alternativa ao decadente romantismo, a@irmou-se como uma corrente de pensamento que atribui à obra literária a categoria de fonte ou forma de conhecimento positivo. “Niketche” leva o leitor a decifrar o silogismo duma visão auto crítica e a correr riscos de condescender a adopção, por via da sugestão implícita, de realidades culturais afectas ao ocidente, injectadas ao leitor pela tragicomédia que a trama ganha ao revirar as consequências da autoridade da cultura e da paradoxal superioridade darwinista na coabitação entre homem e mulher. Mas é, sobretudo, na disposição dos factos que a narrativa revela-se uma arrepiante metalinguística da vida conjugal debatida até a exaustão. Este debate que obriga uma dialéctica nutrida, traz à obra, além de factos e denúncias resultantes do crivo de investigação da autora, uma mão cheia de imprudentes tentativas inverosímeis na transposição do real ao @ictício. A trama do quinteto de mulheres falseia em seus extensos momentos de intensidade uma variação técnica como pontos de exaltação que se @ixam na trama como pilares ou alternativas do clímax. Esta técnica de Paulina faz transparecer que a obra é composta de vários momentos e problemáticas, ligados por uma temática que funciona como momento de eclosão resultante da colisão entre passado, presente, futuro, cultura, modernidade, tradição, liberdade, conservadorismo, relativismo e utopia. Paulina subentende a sua preocupação de tornar a obra uma mensagem de fácil digestão para o leitor a @im de cumprir uma função edi@icadora e accionar o relativismo pretendido com a pragmática daquele texto. Entretanto, esta incessante preocupação que se estende em toda obra custa-lhe a sublime consagração de irreverente em verbalismo e conoto-a como possuidora de um realismo desgovernado que, em alguns momentos, abre rasgos para uma satisfação naturalista. Investida na digestão da temática, “Niketche” não é uma obra em que des@ilam primorosas visões nos detalhes comportamentais, engenhosa caracterização adjectival, ironia elegante, sátira mordaz e jocosa ou um senso fértil de criatividade na feitiçaria da palavra. A obra assume-se determinantemente como parte pragmática da realidade em primeiro plano que leva-a ser dependente incontornável de factores extrínsecos à literatura. Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho 2012 William Carlos Williams DIÁLOGO INTERCULTURAL |25 O poeta da ínfima grandeza da humanidade das coisas ZETHO CUNHA GONÇALVES P oeta, ficcionista, autor dramático, ensaísta e memorialista, William Carlos Williams nasceu em Ruthford, Nova Jersey, E.U.A., a 17 de Setembro de 1883, e aí veio a falecer a 4 de Março de 1963. Fez os estudos primários e secundários na sua cidade natal, tendo sido enviado em 1897 para Génova e Paris, onde estudou durante dois anos. De regresso, estudou em Nova Iorque e, depois de ter sido aprovado num exame especial, foi admitido em 1902 na Faculdade de Medicina da Universidade da Pensilvânia, em Filadélfia, onde concluiu a formatura em 1906. Estudante do 1.º ano de medicina conheceu o poeta Ezra Pound (também ele aluno da mesma Universidade, mas de letras), de quem se tornou imediatamente amigo, e cuja amizade perdurou até ao [im da vida de Williams. Ainda na Pensilvânia conheceu a poetisa H.D. (Hilda Doolittle), outra amizade intelectual importante para Williams. Em 1909, publica “Poems”, o seu primeiro livro, com o nome de William C. Williams. O segundo livro, “The Tempers”, já assinado com o nome de William Carlos Williams, virá a lume em Londres, em 1912, pela intercedência de Ezra Pound, que se tornará no maior promotor, agente e divulgador da poesia “moderna” e de toda a literatura de vanguarda: “Digamos então”, escreve Pound no seu livro “Make it New” (Londres, 1934), “que, a partir de 1912 e durante mais de uma década me empenhei em forçar a edição e, secundariamente em comentar a respeito, de certas obras hoje reconhecidas como válidas por todos os leitores competentes.” É neste espírito de ruptura com “a dicção poética predominante na época”, que William Carlos Williams ingressa no movimento Imagista, cujo mentor era Pound, e cuja publicação, “Des Imagistes”, de 1914, conglomerava nomes como os de H.D., Richard Aldington, F.S. Flint, Skipwith Cannell, Amy Lowell, James Joyce, Ford Madox Ford, Allen Upward e John Cournos, para além do próprio Pound e de Williams. Com o advento da I Guerra Mundial e o subsequente exílio de vários intelectuais europeus em Nova Iorque, William Carlos Williams adere, em 1915, ao grupo “The Others” (“Os Outros”). Fundado pelo poeta Alfred Kreymborg e pelo fotógrafo e artista plástico Man Ray, faziam ainda parte deste grupo Walter Conrad Arensberg, Wallace Stevens, Mina Loy, Marianne Moore e Marcel Duchamp. Em 1917 dá à estampa “Al Que Quiere!”. Em 1920, na sequência da publicação do seu livro mais arrojadamente experimental, “Kora in Hell: Improvisations”, Williams sofre violentas críticas, inclusive dos seus amigos mais chegados, como H.D. (que apodou a obra de “petulante e super[icial”), enquanto Ezra Pound a considerou “uma obra incoerente”. No ano seguinte aparece “Sour Grapes”, e, dois anos mais tarde, “Go Go” e “Spring and All”, podendo ler-se nesta última obra alguns dos seus poemas que o tempo transformou em verdadeiros clássicos da poesia norte-americana, como “By the Road to the Contagious Hospital”, “The Red Wheelbarrow”, e “To Elsie”. Entretanto, a publicação em 1922 de “The Waste Land” de T.S. Eliot, que se tornara de imediato num dos maiores monumentos da poesia mundial do século XX, ensombrou as aspirações literárias de Williams. E tal foi o impacto, que Williams acabou confessando na sua “Autobiogra[ia” como a publicação de “The Waste Land” o fez “sentir, de uma vez por todas, ter regredido vinte anos” nas suas pesquisas e no seu labor poético, voltando a publicar apenas em 1932, “The Cod Head”. Em 1934 sai a público a primeira reunião da sua obra poética, “Collected Poems 1921-1931”, a que se seguem “An Early Martyr and Other Poems”, (1935), “Adam & Eve & The Ci- ty”, (1936), “The Complete Collected Poems: 1906-1938”, (1938), “The Broken Span”, (1941), “The Wedge” (1944), até à publicação da vasta epopeia “Paterson”, originalmente dada à estampa em cinco volumes, entre 1946 e 1958, e que venceu o National Book Award for Poetry, em 1950. Contrapondo o coloquial da língua inglesa falada nos E.U.A. (que de longe preferia) ao intelectualismo de Eliot (com seu uso frequente de linguagens e alusões da literatura clássica europeia), Williams construiu a sua obra escorada na história, no povo e na alma da cidade de Paterson, em Nova Jersey. Em “Paterson”, onde a imagem da cidade é como um homem deitado a seu lado, povoando os lugares e as ruas com os seus pensamentos, Williams tentou a escrita e a criação do seu próprio poema épico, visceralmente moderno, centrando-o “não em ideias, mas em coisas”, utilizando e impondo o “regionalismo” numa radicalidade que antes apenas havia ensaiado. Inovador, incansável experimentalista do “fazer poético”, Williams in[luenciou profundamente os poetas da Beat Generation, sendo considerado por estes, com Allen Guinsberg à cabeça, um profeta na “Revolução da Palavra” e uma alternativa ao gosto instituído pelas academias. Para além de várias antologias e reuniões da sua poesia, publicou ainda: “The Clouds”, 1948; “The Pink Church”, 1949; “The Desert Music and Other Poems”, 1954; “Journey to Love (includes Asphodel, That Greeny Flower)”, 1955; “The Lost Poems of William Carlos Williams; or, The Past Recaptured”, 1957; “Pictures From Brueghel and Other Poems”, 1962, a que foi atribuído postumamente o Prémio Pulitzer, em 1963. Obra em prosa ([icção, ensaio, autobiogra[ia e teatro): “The Great American Novel”, 1923; “In the American Grain (essays)”, 1925; “A Voyage to Pagany (novel)”, 1928; “The Knife of the Times, and Other Stories (short stories)”, 1932; “A Novelette and Other Prose”, 1932; “The First President (three-act libretto for an opera)”, 1936; “White Mule (novel; part I of trilogy)”, 1937; “Life along the Passaic River (short stories)”, 1938; “In the Money (novel; part II of White Mule trilogy)”, 1940; “A Dream of Love (three-act play)”,1948; “A Beginning on the Short Story: Notes”, 1950; “Make Light of It: Collected Stories”, 1950; “Autobiography”, 1951; “The Build-Up (novel; part III of White Mule trilogy)”, 1952; “I Wanted to Write a Poem: The Autobiography of the Works of a Poet”, 1958; “Yes, Mrs. Williams: A Personal Record of My Mother”, 1959; “Many Loves and Other Plays: The Collected Plays of William Carlos Williams”, 1961; “The Farmers’ Daughters: Collected Stories”, 1961. Em 1949 William Carlos Williams foi convidado para consultor da Biblioteca do Congresso, tendo então declinado o convite, alegando motivos de saúde: sofrera um ataque cardíaco, que o haveria de marcar para o resto da vida. Porém, a sua devoção à causa da poesia não se alterou: apenas o tema da morte como exorcismo em favor da vida, e o tema do amor que se regenera (ou seja, como sublinhou Hofstadter, “o amor e a imaginação como essência da vida”) se tornaram mais presentes na sua obra. Acusado, na sequência da publicação do seu poema “Rússia”, de comunista, pela editora da revista Lyric, não pôde Williams, quando em 1952 decidiu aceitar o cargo na Biblioteca do Congresso, assumi-lo, nem jamais o convite lhe foi alguma vez renovado. A permanente atenção, quer à ín[ima grandeza das coisas do mundo, quer ao sentido mais frágil ou mais heróico do ser humano (a que não é alheia a sua condição de médico), ou ao seu lado trágico e não raro burlesco, fazem da poesia de William Carlos Williams um hino à vida numa contenção exuberante do seu dizer inaugural e límpido. 26 | DIÁLOGO INTERCULTURAL 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Cultura 3 poemas de William Carlos Williams O DESCENSO Convoca-nos o descenso como nos convoca a ascensão. A memória é um acaso de cortesia, uma renovação – e mais: uma iniciação: os espaços que abre são novos lugares povoados por tribos errantes até então inexistentes, novas espécies movendo-se para novos objectivos (os mesmos que antes haviam abandonado.) Nenhuma derrota é eternamente derrota: o mundo que abre é sempre um lugar antes insuspeitado. Um mundo perdido é um mundo que nos convoca aos lugares originais: nenhuma brancura (perdida) é tão branca como a memória da brancura. Ao anoitecer, o amor desperta – ainda que as sombras, altivas pela lei do sol, esvoacem agora e se desprendam do desejo. O amor agora sem sombras fortalece-se e conforme a noite avança desperta. O descenso feito de desesperos pelo não cumprido nos cumpre: é um novo despertar, reverso do desespero. Aquilo que não pudemos cumprir, o que ao amor foi negado, perdido na antecipação, cumpre-se num descenso, sem Aim: indestrutível. O PARDAL A meu pai Este pardal que vem saltitar por sobre o peitoril da minha janela, mais que um ser natural é uma verdade poética. O seu canto, as suas danças, os seus hábitos – o prazer com que sacode as asas na poeira – tudo o demonstra; claro que o faz para se espulgar mas o alívio que sente incita-o a gorjear com veemência: algo mais próximo da música que o próprio silêncio. Onde quer que se encontre no despontar da primavera, rua vagabunda ou palácio, prossegue imperturbável os seus namoricos. Principia no ovo, o sexo é o seu talento: Há presunção mais inútil, endeusamento maior de nós mesmos? É algo que nos arrasta, quase sempre, ao abismo. Nem o pequeno galo nem o corvo com suas vozes desaAiantes superam o seu gorjeio incessante. Certa vez no El Paso, até ao anoitecer, vi (ouvi) dez mil pardais. Vinham do deserto para dormir e cobriram as árvores de um pequeno parque. Os humanos, zumbindo-lhes os ouvidos, fugiram sob a tempestade de dejectos. Deixaram livre o terreno aos lagartos que vivem na fonte. A sua imagem não é menos familiar que a do aristocrático unicórnio – pena que haja menos azémolas agora a comer aveia: isso facilitava-lhe a vida. Não importa: seu breve tamanho, seus olhos aguçados, seu bico eAiciente e sua truculência garantem-lhe a sobrevivência – para já não falar da sua inumerável descendência. Até os japoneses o conhecem e têm-no pintado com simpatia, com profunda intuição das suas características mais insigniAicantes. Nada menos subtil que os seus galanteios. Agacha-se perante a fêmea, arrasta as asas, valsa, atira para trás a cabeça e, por Aim, provoca um alarido. O impacto é terrível. O seu modo de limpar o bico batendo-o contra uma tábua é contundente. Como, de resto, tudo o que faz. Cor de cobre, as sobrancelhas dão aquele ar de ser ele sempre o vencedor – porém eu vi, certa vez, uma das suas fêmeas, empoleirada com determinação na borda de um cano de água, agarrá-lo pelo cocuruto de penas (para que não guinchasse), prendê-lo, suspenso das ruas, até que o recalcou. E tudo isso para quê? Perplexa, ali está ela agora suspensa da sua própria façanha. Ri-me com vontade. Prático até ao Aim, o que depois triunfou foi o poema da sua existência: uma nódoa de penas incrustada no chão, as asas simetricamente estendidas, como se voassem, a cabeça desfeita, o negro escudo de armas do peito indecifrável: a imagem de um pardal, reles pasta seca de penas, e ossos, e sangue, ali deixada para dizer – e diz sem ofensa, duma forma exemplar: Isto era eu, um pardal. Fiz e dei o meu melhor, adeus. ENTRE MUROS ao fundo na ala do hospital onde já carvão nada despontará verdes brilham os cacos de uma garrafa partida (Tradução de Zetho Cunha Gonçalves) Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 DIÁLOGO INTERCULTURAL |27 O jeito de ilustrar a história de Lília Momplé em “Ninguém Matou Suhura” À LÍLIA MOMPLÉ E OS SEUS PAIS “A FELICIDADE JAMAIS SE ALCANÇARÁ DEFINITIVAMENTE; É NECESSÁRIO CONQUISTÁ-LA DIA A DIA, COM UMA INABALÁVEL ESPERANÇA NO FUTURO, MAS TAMBÉM COM OS ENSINAMENTOS DO SOFRIMENTO PASSADO.” LÍLIA MOMPLÉ, IN “NINGUÉM MATOU SUHURA” EDUARDO QUIVE “ Ninguém Matou Suhura¹” de Lília Momplé nos remete a uma viagem latente, para factos inalados pela história que ainda se recusa a passar para a memória dos Moçambicanos. No discurso da leitura que se pode fazer da obra, notam-se as marcas de quem, viveu o passado composto por opressão, impunidade, injustiça prevaricada por uma raça branca de estrangeiros, que já se tinham tornado donos de uma porção de terra, onde existiam já, povos e culturas. ReLiro-me aos portugueses que colonizaram Moçambique e a autora ilustra os fatos datados de Junho de 1935 e a Abril de 1975, enquanto o País, na altura uma província de Portugal, estava entre o mais alto período do jugo colonial e por outro lado, chegava à independência. 1.“Histórias que ilustram a estória” “Ninguém Matou Suhura” não são apenas vivências que a escritora nos leva a conhecer, mas trata-se de 5 contos – estórias que ilustram a história – relatados por quem as viveu e sentiu na pela, mais do que, por uma alma feminina que nos transmite, em cada parágrafo, alma de uma mãe que vive o calvário de ver seu filho atirado aos bichos. Que não seja só por isso, até porque a esta obra, mais do que uma denuncia e desabafo dos macabros acontecimentos da era colonial em Moçambique, vem carregada de uma energia que a leva a renovar-se todos os dias, isto é, ler “Ninguém Matou Suhura”, é ter em si, o poder da escrita e em mão, uma verdadeira narrativa realista com dimensão única entre nós. “Ninguém Matou Suhura” é a consagração, logo a primeira, da Lília Momplé como uma verdadeira contadora de estórias em volta da lareira – Xitiku Ni Mbaula – pela objectividade da sua obra, mas pela eLiciência do seu domínio da palavra, não deixa de criar uma convulsão para, antes de nos passar a mensagem, fazer com que participemos das suas emoções. Se bem que na Literatura Moçambicana, pelo menos lançando um olhar para a presença feminina, muito pouco nos é fornecido em termos de livros, e da sua geração menos ainda, em Moçambique, na literatura feita por mulheres, há mais poetisas (com pouca expressividade, principalmente sob ponto de vista de qualidade artística da sua poesia) do que prosistas, género em que Liguram como exímias. Ilustrar a história através deste livro foi a chegada em peso, de uma mulher nas artes escritas, depois da reconhecida Noémia de Sousa que inspira gerações, aliás, embora esta ter se destacado por ilustrar a história com a poesia, pode-se considerar a Lília Momplé, mais um braço direito na continuidade desta linha, mas de um jeito mais atrevido, ao ter pautado pelo conto. 2.Os Contos O primeiro conto, “Aconteceu em Saua-Saua” o assunto principal é o suicídio de um homem chamado Mussa Racua que, por não ter conseguido atingir a meta dos 8 sacos de arroz exigidos pela administração colonial como pagamento de imposto depois de longas jornadas de procura de ajudas à vizinhança. Ficara inconformado de perder a esposa e ter que viver o drama das torturas nas plantações (locais onde se levavam negros que não conseguiam pagar o imposto ao Posto Administrativo), preferiu pendurar o pescoço numa corda e balouçar eternamente numa árvore. Neste acontecimento, nota-se o drama que os negros, moçambicanos colonizados, passavam perante as leis exploralistas dos portugueses. Destaca-se neste conto, a tamanha descrição de cada acção do personagem Mussa Racua, em cada uma das suas acções, começando pela delirante introdução ao seu drama: Mussa Racua aproxima-se lentamente da palhota de Abudo (…) caminha com passos Lirmes, de cabeça erguida, o belo corpo bem direito. A ansiedade e a dorida revolta que o queimam, sabe ele escondê-las dentro de si. Só os olhos, demasiado serenos, demasiado Lixos, denotam a conformada lassidão do jogador que tudo perdeu. Abudo é a sua última esperança. Contudo, uma esperança tão remota e fugida que, longe de o animar, o enche de pavor. Não recua só para justiLicar a si próprio que lutou até ao Lim. Este o princípio da ronda que o personagem Mussa Racua faz pelas dispersas palhotas do Saua-Saua a procura duma solução do seu problema – procurar dois sacos de arroz que lhe faltam dos seis que já tem, para resolver a sua dívida com a administração que caso não conseguisse, o levaria às plantações – coisa que não chega a resolver, por não conseguir o arroz e acabara por não parar nas plantações lugar de pouca possibilidade de sobrevivência, porque decidira se suicidar. Na escuridão enluarada do pequeno quarto sente a mulher a dormir um sono agitado, mas profundo. Um desejo violento de a apertar nos braços para sempre impele-o para ela, mas recua a meio quarto. Então, com movimentos felinos, rápidos e silenciosos vai-se embora sem a olhar sequer. Maiassa (…) não sabe bem o que terá acontecido, mas sente que algo irremediável se passou, que o seu homem se foi, que não mais o terá. E é quase sem surpresa que, ao dobrar um carreiro, dá com o corpo de Mussa Racua suspenso de uma mangueira, balouçando docemente ao sabor da brisa matinal. Tombado no chão, um saco cheio de arroz. Depois desta inquietante introdução na obra, que nos tiraria um minuto de silêncio e de intensa dor, por se encontrar autênticos sinais da brutalidade com que a escritora leva este acontecimento, vem de seguida o conto “Caniço”. Em Dezembro de 1945, em Lourenço Marques, actual Maputo, num pequeno povoado constituído mesmo nas barbas da cidade, chamado Caniço, o rapaz de nome Naftal com 17 anos de idade e órfão de pai, vive um drama – miséria – e porque está mesmo num bairro aventurado numa cidade onde reside e reina a burguesia, suporta o peso de cheLiar, porque ele é o mais velho dos irmãos, uma família composta por seis elementos. Naftal, trabalhando como “moleque” era a fonte de sobrevivência da família, mas vinha de seguida, a sua irmã, Aidinha que trabalhava como “aia de meninos” que ajudava no sustento, sem que, contudo, pudessem sair da vida miserável. Um dia Aidinha desaparece. A família começa a viver a outra fase da pobreza estrema – o vai e vem de procurar esta menor que fora aliciada por uma outra “aia de meninos” de nome Aurora Caldeira que lhe albergara na sua casa na Avenida de Angola para trabalhar como prostituta. A mãe da Aidinha soubera do facto pela vizinhança e, apesar de duvidar que a sua Lilha – “uma criança sossegada, incapaz desses atrevimentos” tomou a coragem para ir até ao local em busca da menor. E de facto Aidinha se entregara na tal profissão, farta da miséria e que sendo negra, não tinha outro caminho para se livrar dela. Só tornandose puta. 28| DIÁLOGO INTERCULTURAL E querendo mudar a sua vida vendendo o seu corpo, Aidinha continuou prostituta e só regressa para casa num estado débil de saúde. Vive o drama da doença e, por outro lado, como pai, vira trazer mais desgraça a família que terá que gastar o que, mal consegue para o seu próprio sustento, para garantir a assistência médica e medicamentosa desta que vai se acabando aos bocados em casa. Naftal aceita a doença e a morte próxima da irmã como aceitou a morte do pai nas minas do John³, a miséria quotidiana, o medo e as humilhações. Para ele,tudofazpartedodestinodosnegros. Mas o drama deste adolescente não para por aqui, aliás, este é apenas um princípio de uma manhã que é acusado, no seu local de trabalho, de roubar um relógio de ouro pela sua patroa. É obrigado a confessar uma verdade que não conhece juntamente com um cozinheiro da casa. E assim não procede por conhecer a sua inocência. Por Wim, é juntamente com o seu colega, é entregue a polícia que aos negros não poupa maldições, pelo marido da patroa. Os dois são torturados. Quando o patrão volta para casa é confrontado com outra realidade. - AWinal o relógio apareceu. Estava com a Mila. Ela chegou logo a seguir de tu teres saído com os criados para a polícia. Levou-o para o colégio…é vaidosa como o pai esta tua Wilha… - Ela que não torne a fazer partidinhas dessas. E agora aqueles gajos já devem estar a apanhar porrada. - Podias lá ir dizer que encontrámos o relógio – sugere a mulher. - Ó Wilha, deixa-me descansar. Além disso é um mau princípio…. Deixa-os lá apanhar. Ainda em Lourenço Marques, já no mês de Abril de 1950, prepara-se “O Baile da Celina”, evento que ditaria a conclusão do Liceu Salazar duma rapariga de nome Celina, Wilha de um casal humilde, natural de Ilha de Moçambique. Saíra da ilha, depois de concluir a instrução primária na Escola Luís de Camões, para continuar os seus estudos em Lourenço Marques, onde havia condições para tal. A mãe da Celina, de nome Violante, é mulata e tem raiva da descriminação por ser dessa raça, por isso, quando nasce a Celina, sua Wilha única, jurou a si mesma defendê-la, a todo custo, das humilhações que lhe estariam reservadas pelo único facto de ser mulata, decidindo assim, apostar na educação da criança. Por isso, o baile de Winalistas do 7° ano seria marcante na sua vida. Ela e um aluno indiano chamado Jorge Vieira, ambos com uma cor diferente de todos que frequentavam o liceu, uma vez este, ser direccionado a brancos. E o baile para estes dois alunos não chega a acontecer, pois, chamados para o gabinete do reitor, justamente no dia e na hora do baile, foram proibidos de participar do mesmo. Quero avisar-vos que não podem ir ao baile dos Winalistas – prossegue calma- mente o reitor, pousando nos jovens o seu olhar ausente míope… Celina não pode acreditar no que está a ouvir. As fontes latejam-lhe e uma náusea incontrolável amortece-lhe os sentidos. DiWicilmente consegue permanecer de pé, a ouvir a voz do reitor que lhe soa tão suave, tão longínqua(…) - Sem dúvida que vocês compreendem – continua ele – há certas coisas que é preciso dar tempo ao tempo. Vem o senhor Governador-Geral e pessoas que não estão habituadas a conviver com gente de cor. E vocês também não haviam de sentir-se à vontade no meio delas! Para evitar aborrecimentos de parte a parte, achamos melhor vocês não irem ao baile. Seria muito aborrecido que(…) Já no conto “Ninguém Matou Suhura”, estória que mereceu ser o título da obra, estamos no centro do furacão, com o peito aquecido, Lília Momplé despeja tudo, ou melhor, o que seria tudo, porque as conWissões continuam, não só ao longo da obra, mas em outras estórias que a autora conta noutras obras. Suhura, personagem principal deste conto que relata um acontecimento de Novembro de 1970, é uma adolescente de quinze anos de idade. É analfabeta, órfã de pai e mãe e extremamente pobre. Vive numa palhota na Ilha de Moçambique com a sua avó desde a morte da mãe. À margem, a ilha é dirigida por um administrador. Homem de quarenta e oito anos de idade e casado com D. Maria Inácia. Na Ilha de Moçambique ocupa, simultaneamente, a posição de Administrador e Presidente da Câmara. Como se pode imaginar, à data dos factos, 1970, um administrador é uma autoridade que se deve muito respeito, entre brancos, e temor, entre negros. Por isso, usando da sua força, depois de numa manhã tranquila que vai circulando pelas ruas a adolescente, encantado com a negra alegre que esta era e pela humildade do seu jeito, decidiu que a queria ter. Possuído pela vontade de ter na cama uma negra pela qual, como branco e alto dirigente, 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | tem todo o poder, o administrador, ajudado por uma velha de nome Agira Momade, dona de um prostíbulo na zona que vira a comunicar a avó da Suhura que o dirigente quer possuir a sua neta. A velha Agira não esteve com delongas. Entrou logo no assunto começando por referir a grande, a enorme sorte que a avó tinha. Pois não era que o senhor administrador, um homem tão importante em todo o mundo, tinha visto a sua neta Suhura e tinha gostado dela? Gostara tanto que queria dormir com ela, uma simples negra sem valor. E o simpaio Abduzlrazaque estava ali para arranjar tudo da melhor maneira. E foi assim comunicada a avó que Wicou aWlita quando soube do facto, com o coração a doer como uma ferida ao imaginar que devia entregar a sua única neta, pessoa a quem deseja um bom futuro. Suhura não escapa das mãos do administrador num dos quartos da casa de D. Júlia Sá, esta que a recebe com uma frieza calma. E depois de algum tempo de espera, chega o senhor administrador. Já no quarto, ambos, Suhura e o administrador, entram num drama que não cabe palavras para descrever. Mas a verdade é que Suhura recusara ser possuída pelo ilustre e este tentando forçar a menor a manter relações sexuais com sigo, terá entrado numa furiosa e estúpida agitação que terá causado a morte da Suhura. Entretanto, que não se chegue a conclusão disso apenas pela minha compreensão, pois, nem a própria autora, consegue descrever o que levara ao fatídico acidente. O corpo inerte conserva uma obstinada atitude de recusa e uma Wlor de sangue contorna-lhe as magras coxas. Para além de um irritado espanto, o senhor administrador sente apenas uma estranha curiosidade em conhecer a causa desta morte: teria violentado a rapariga de tal modo que provocasse uma hemorragia fatal? Ou, no meio da sua estúpida agitação, teria ela própria batido com a nuca na cabeceira da cama? Ou morrera de puro susto? Mais tarde, já em Luanda, no ano 1974 em Abril, Moçambique já nos preparativos para a celebração da independência que vira a acontecer a 25 de Junho de 1975, a autora leva-nos para um cenário igual a outros, já nos contado, no território angolano. Eugénio vivia a um ano na Gabela em 1962. Embora residisse tão pouco nessa vila, Angola não era estranha para ele. É de nacionalidade portuguesa. Eugénio é que faz com que este conto tenha como título O Último Pesadelo, este que acontece num hotel de nome Guaraná onde é divergência entre brancos e negros, numa altura em que a media começa a exercer um papel importante e com as independências africanas os colonizadores entram em pânico e Eugénio, embora não muito ligado a opressão, por ser branco, acabaria por se achar do mesmo grupo. Cultura Aliás, Eugénio, era um branco diferente. Não compactuava e até defendia os negros quando torturados. A mais marcante parte deste conto, marca-se quando Eugénio, defende um grupo de negros a serem torturados maliciosamente no hotel pelos brancos e por isso, este foi conotado como um traidor. Eram duas horas da madrugada quando o último negro se imobilizou no chão. Houve depois, da parte dos assistentes, a preocupação de veriWicar se na verdade os negros estavam todos mortos. Satisfeitos com o exame, arrumaram os corpos para depois serem enterrados no mato. Só então Regalo permitiu que Eugénio se retirasse… Desse último instante, Eugénio guarda a lembrança de corpos intumescidos, pedaços de miolos colados nas paredes, e um cheiro intenso a fazes e a sangue. 3.Das variedades na linguagem à convergência de lugares Ao longo do percurso que se faz no livro, pode-se constatar um aspecto interessante, que aliás, por bem ou mal que seja, a literatura moçambicana tem registado: o uso de algumas expressões em línguas nacionais, como por exemplo: “Puapo nhum! Puapo nhum! Puapo nhum!” Marcas da expressão Macua que quer dizer “Ó marido”. Isto, de algum modo, traz uma originalidade principalmente quando olhamos para a estória em que este termo aparece (no conto Aconteceu em Saua – Saua) em que se descreve as personagens, como um grupo de camponeses. Outras expressões moçambicanas, como Xirico – rádio portátil muito popular em Moçambique; Torritori – doce de amendoim, coco ou gergelim torrado com açúcar em caramelo; tocoçado – caril confeccionado com peixe, galinha ou carne, água, cebola, tomate e manga verde ou seca, entre outras. Por outro lado, Lília Momplé leva o “Ninguém Matou Suhura” a um destino mais verdadeiro. Um paralelismo entre Ilha de Moçambique em Nampula, Lourenço Marques (actualmente Maputo) e Luanda, em Angola. E recorrendo à periodização dos factos subentende-se que trata-se, de facto, de uma contara “Estórias que Ilustram a História” e assim, Wica-se a se saber dos acontecimentos desses povos nessa altura, através da literatura. Para se descobrir o simbolismo literário em revelar factos históricos através de estórias da escritora Lília Momple, pode-se ainda recorrer a outros seus dois livros, nomeadamente, “Os Olhos da Cobra Verde” e “Neighbours”, cuja leitura, são os aWluentes do “Ninguém Matou Suhura”. Assim poderá perceber-se não só o rumo artístico da autora, mas os passos da história de Moçambique. Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho 2012 José Luiz Tavares DIÁLOGO INTERCULTURAL |29 Quando o rigor se faz poesia NUNO REBOCHO CaboVerde om três livros já publicados – “Paraíso Apagado por um Trovão”, “Agreste Matéria Mundo” e “Cidade do Mais Antigo Nome” -, José Luiz Tavares nasceu no Tarrafal de Santiago (Tchom Bom) em 1967. É, hoje em dia, um dos nomes salientes da nova literatura caboverdiana, sendo a sua poesia reconhecida em grande parte do mundo: recolheu prémios em Portugal, Espanha, Brasil e, naturalmente, Cabo Verde. Radicado em Portugal, em cuja Universidade de Lisboa cursou Românicas, José Luiz Tavares tem uma obra di<ícil, de extremo rigor, que em parte recorda João Vário, em parte lembra Ruy Belo. Com ele tivemos uma breve troca de palavras que permite iniciar o leitor desta poderosa obra e apontar rumos para o seu pensamento original. C - O seu último livro publicado, “Cidade do mais antigo nome”, tem por tema Cidade Velha. Está mais algum na manga, no curto prazo? JL Tavares - Da mesma natureza, há um livro em construção, em parceria com o fotógrafo Duarte Belo, cujo tema é o vulcão do Fogo e a paisagem de Chã das Caldeiras. Não sei quando o editaremos (embora a previsão seja para perto do natal), pois, como sabe, este tipo de projecto exige apoios que nem sempre se conseguem. Aliás, você acompanhou a saga que foi “Cidade do Mais Antigo Nome”, que só foi possível concretizar-se graças, em grande medida, aos bons oMícios da Câmara da Cidade Velha. Além desse projecto, tenho cerca de dez livros que aguardam oportunidade de edição. - É geralmente apontado como um poeta ora de rigor na linguagem, ora de versos duros – como Alexandre Herculano, de verbo brônzico. Nota-se, sobretudo, uma excepcional e criteriosa busca da palavra, quase matando o lugar que, por norma, se aponta à inspiração na poesia. Que valor atribui à inspiração, ao chamado estro? JLT - As críticas e aplausos fazem parte desta vida. Há que nem amoMinar-se com as primeiras, nem incharse com os segundos. O que Mica é a obra, se ela for consistente e, desse ponto de vista, pergunto: infelizmente, quantos têm dentes para a minha, aqui nestes rochedos do meio do mar? - A sua obra publicada data do sé- culo XXI, embora o seu passado tenha lastro no século XX. De resto, já se apontou a si mesmo como poeta do século XXI. Considera que a obra que certamente escreveu no século XX não tem interesse para ser publicada? JLT - A minha obra que conta é aquela que começa com “Paraíso Apagado por um Trovão”. Nada do que está antes tem importância. Aliás, eu aproveito uma parte ínMima daquilo que publico. Não acho que cada espirro meu seja qualquer coisa digna de Migurar num museu ou no catálogo das maravilhas literárias. - Diz-se que tem aCinco pelos prémios, que só publica tendo-os em vista. Concorda? Como reage a esta crítica? JLT - A única inspiração que conheço é o trabalho. E o que me leva ao trabalho? O desassossego, o sofrimento próprio e alheio, a falta e os desconcertos do mundo. Mas eu só escrevo, antes, por pressentimento, ou depois, por via do lastro e do sedimento que deixam, nunca enquanto estou mergulhado nessas afecções ou nesses padecimentos. - Considera-se ainda um poeta “cabo-verdiano” (está em Portugal desde os 20 anos)? Quase não escreve em crioulo, dir-se-ia que tem disso horror… No entanto, poucos conhecem o seu labor (que tem sido farto) na língua crioula. Como é que se dá com o crioulo? JLT - De há uns anos a esta parte que me tenho dedicado à escrita e à tradução para a língua caboverdiana. Infelizmente, muito pouco do resultado desse labor está publicado. Conhecidos do público há os textos publicados no Liberal e a versão para caboverdiano do meu primeiro livro “Paraíso Apagado por um Trovão”, cuja versão bilingue saiu há dois anos, editada pela Universidade de Santiago. Neste momento, tenho entre mãos um trabalho de grande fôlego que penso poder concluir em Minais de 2013. Como vê a minha vida é só trabalho, trabalho, trabalho. - Disse uma vez que sobreleva as máscaras pelo que mostram mais pelo que escondem (foi mais ou menos esta a frase). O que quis aCirmar com isto? JLT - O mais autêntico e mais profundo que um criador artístico consegue alcançar dá-se quando ele se transforma num outro pela força e pela necessidade de expressão. Daí que esse «outrar-se» é mais um processo de revelação do genuíno, profundo e autêntico, do que de ocultamento. Mas quando disse a frase, se calhar terá sido em contexto mais prosaico e que tinha que ver com algum anonimato cobarde e pérMido que, infelizmente, a internet propicia e ao qual alguns lançam mão para bolçarem toda a espécie de imundície que ocultam nas entranhas e que tem a ver mais com a miséria moral, inveja e frustra- ção do que propriamente com as humanas falhas ou faltas dos visados. A liberdade de expressão tem o seu contraponto na responsabilização por aquilo que se diz. No país da liberdade de expressão, o estado de Nova York está a preparar legislação especíMica contra essa prática abusiva. 30 | BARRA DO KWANZA Aquele amor MARIA CELESTINA FERNANDES D epois de um ano laborioso, as férias são sempre bem-vindas. Naquele ano, ainda não distante, Luís Maria convenceu dois antigos colegas a irem redescobrir o país onde haviam feito a formação superior. Não foi preciso utilizar muitas palavras para motivá-los. Disse que seria interessante reverem o país, onde tinham passado anos importantes das suas vidas e também que era uma forma de se livrarem, por alguns dias, do stress causado pelo trânsito diabólico, falhas de energia e água, barulho ensurdecedor das potentes aparelhagens dos organizadores de festanças e dos geradores, um mal tornado indispensável para tudo e todos. E o Tonho, o amigo cómico, não perdeu a oportunidade para lançar uma piada: – Gerador é a fonte segura, a outra é a alternativa das horas incertas! Eu então estou male, male, o fofandó está m’bora a babar óleo, e agora? Só luz de velas ou então abrir as janelas para receber a luz da lua. O pior é que na boleia do luar entram os mosquitos com o paludismo deles, melhor mesmo é aguentar já a escuridão e esperar pela luz do sol, ah, ah, ah – gargalhou. – Acho que chega de lamúrias, já houve tempos piores, não houve? Calma, dias melhores virão, vamos lá ao que interessa. – falou o Luís Maria e prosseguiu – Estava a propor irmos passar as férias em Marrocos, era bestial voltar àquele paragens numa situação diferente da de bolseiro. Fora as diHiculdades, guardo boas recordações. – Boas recordações e uma paixão que nunca se extinguiu! – lembrou o Tonho. – Foi o primeiro verdadeiro amor e não terminou por deixarmos de nos amar. Estávamos conscientes que era uma relação diHícil, devido aos preconceitos, mas prontos a enfrentar todas as barreiras; ela, inclusive, estava disposta a fugir comigo. Ainda se lembram do signiHicado de Aini, o nome dela? – Sei lá pá! – despachou um deles. – Oh, então não é Hlor, primavera? – o Luís Maria fez questão de relembrar. – E nós a torcer para que tudo desse certo, até estávamos dispostos a coadjuvar na fuga, loucuras da juventude..., recordo-me bem do desespero da Aini quando a família descobriu que vocês namoravam, foi um drama terrível e por pouco não fomos todos expulsos, por causa da trama que urdiram para nos queimarem – foram cogitando os amigos, cuja cumplicidade o tempo não fez esmorecer. – Evaporou-se, nunca mais consegui saber nada dela, através de uma amiga ainda fui informado da tortura a que foi submetida. Mas depois a amiga deixou de me falar, fugia de mim e cheguei a ser ameaçado se continuasse a tentar aproximar-me, foi mui- to doloroso. Mas enHim, o tempo passou e só resta aquela chamazinha lá bem no âmago. Ainda guardo algumas lembranças, a minha mulher sabe e nunca aceitou o fantasma da Aini, eu compreendo, ela é mulher, mas no coração ninguém pode mandar – Luís Maria foi-se abrindo. – Ei, ei, companheiro, não nos convocaste para beberes e Hicares a rebuscar o passado. Se calhar a rapariga nunca mais pensou em ti, sabes que elas tinham muitas carências, até do ponto de vista sentimental, e muitas vezes o interesse era de nos explorar, extorquir-nos. Os angolanos mandam goela, dão sempre a impressão que têm mundos e fundos! Por outro lado, elas e eles faziam de tudo para nos converter ao islamismo. O mais certo é a rapariga ter encontrado alguém entre os seus. O que é que pensas? Para aquela gente não passavas de um atrasado, um impuro… – um deles fez questão de sublinhar. – Não, ela era diferente, se assim não fosse, não estaria disposta a fugir comigo? Mas não obstante a desilusão, quero voltar, quero descobrir o que não vi. – Também quero. Agora que já não andámos a contar os tostões, vamos poder desfrutar de muita coisa e como já conhecemos o terreno e muitas das artimanhas, ninguém nos vai aldrabar, vai ser bué!– gracejou o Tonho e adiantou com o mesmo humor – O que eram as nossas diversões? Jogar futebol com os irmãos bolseiros de Cabo Verde, Guiné e São Tomé. Tínhamos uma equipa bem formada, não é? – Lá isso tínhamos, grandes trumunos disputámos na cidade universitária de Souissi e não só! Mas tínhamos também as actividades culturais e religiosas na igreja protestante de Rabat e nas férias as visitas a alguns locais emblemáticos – momentos que os três não podiam esquecer. Preparam a viagem de férias e partiram eufóricos. A mulher de Luís Maria Hicou enciumada por o 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Cultura marido não a ter convidado, chegando a pensar que ele ia à procura da dita Aini. – Os outros também não vão levar as esposas, nós só queremos ir repousar um pouco e recordar uma passagem da nossa vida estudantil, tu irias Hicar deslocada. Mas Hica prometido, para a próxima vais tu e os miúdos também, agora vou ver como está aquilo, passaram muitos anos... – Prometido é devido, vamos-te cobrar e ele avalizou: – Não há maka, Hilha! A primeira paragem foi em Casablanca. Todos repararam e comentaram as mudanças, o desenvolvimento era notório. Ficaram alguns dias por lá, hospedados num hotel de quatro estrelas, bem acomodados, diga-se de passagem! A área de lazer do complexo hoteleiro dispõe de um jardim fabuloso, piscina, redes espreguiçadeiras, corte de ténis etc., e eles disfrutaram o máximo. O emotivo Luís Maria reagiu ao ver as Hlores de laranjeira nas laranjeiras do jardim. Cortou um raminho, levou-o ao nariz e inspirou de olhos semicerrados: – Cheiro tão agradável! Nunca mais tinha visto laranjeiras em Hlor, a pureza e o perfume acoplados… – enHiou depois as Hlores no bolso, os outros repararam e piscaram-se os olhos. Andaram a visitar os locais turísticos mais referenciados, particularmente a cidade antiga, bem no alto e com uma magníHica vista para o mar. O passeio do primeiro dia terminou no famoso centro comercial Marocco Mall. Enquanto andavam de loja em loja, descobriram a fonte das águas dançantes e o aquário gingante. Perderam-se nas compras, sacos e mais sacos e ainda só estavam na primeira cidade… Rumaram para a Tanger, hospedaramse num hotel de arquitectura e ornamentação tipicamente árabe, uma maravilha! Foi em Tanger que andaram de camelo e tiveram um copioso almoço na piscina de um restaurante à beira mar. Tinham o cuidado de escolher os que serviam bebidas alcoólicas, porque dois não dispensavam uma cervejinha bem a gelada. O Roldão deliciava-se com o chá marroquino. Depois, em Rabat, a cidade onde tinham estudado, andaram a revisitar os locais turísticos e culturais que já conheciam: a parte antiga da cidade, o mausoléu real, o palácio do rei, Medina, o mercado, parques e jardins e Hizeram compras. Não era a mesma Rabat que tinham deixado anos atrás, havia muitas construções novas, boas estradas, muitas viaturas e uma condução quase tão doida como a de Luanda, as motorizadas também se enHiam e aparecem onde menos se espera. Ficaram orgulhosos ao ver a bandeira da Angola Hlutuar no mastro da embaixada, na época deles ainda Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 não existia representação diplomática naquele país. Como um deles fez anos naquele período, foram almoçar a um dos restaurantes da marina e à noite passaram numa discoteca, apenas por curiosidade. Entretanto, Luís Maria procurava descobrir a Aini entre as mulheres com quem cruzava, Mixando-as muito discretamente. Na faculdade ela trajava-se como qualquer rapariga do ocidente, mas talvez agora usasse burka e manto na cabeça, como uma boa parte das marroquinas, imaginava. A última cidade que visitaram foi Marraquexe, uma cidade com características peculiares, a começar pela cor das paredes que são todas pintadas com tinta da cor de terra vermelha, daí o nome de cidade vermelha. E o Tonho, ao reparar nos laranjais que se viam por todo lado, fez um reparo: – Se fosse lá na banda, estas laranjas assim mesmo a olharem para nós sem ninguém tocar, nunca mais! Nem sequer deixavam amadurecer… –Éporquetêmmuito,elessãograndesprodutores eexportadoresdecitrinos–justiMicouoLuísMaria. – Não sei se é a fartura ou a disciplina que impede, nós somos mesmo indisciplinados, gostamos de contrariar, desaMiar…– insinou o Roldão. – Lá isso é verdade – acabaram por assentir os três. Do hotel onde se instalaram, podiam divisar o cume das montanhas da cordilheira Atlas cobertos de neve e acordaram chegar até lá se um dia voltassem àquela localidade. – Eu vou ter mesmo de voltar, prometi à patroa – disse Luís Maria. Guiados por um cicerone, visitaram ruínas de antigos palácios e monumentos. À noite foram à praça Jemma e andaram pelo movimentado mercado Souk, onde se vende e se come de tudo, à semelhança do nosso extinto Roque Santeiro. Ali as pessoas são insistentemente assediadas pelos vendedores, com os quais regateiam os preços até a exaustão. Embora a maioria deles só fale e entenda o árabe, em questões de números todos se entendem. E como acontecia no ex-Roque, os turistas angolanos foram advertidos para terem o máximo cuidado, porque os donos do alheio estão atentos a qualquer descuido. Aliás, mesmo nas lojas dos grandes centros comerciais, os vendedores tentam vigarizar, de maneira que vale sempre a pena veriMicar os sacos, para não se levar gato por lebre, isto em todos os sítios. Luís Maria comprara um estojo de produtos de beleza da marca l’occitane, uma marca que a mulher apreciava. Para espanto, quando ela o abriu, veriMicou que o frasco da água-de-colónia estava completamente vazio. O marido Micou boquiaberto. Barafustou, ofendeu, mas já era muito tarde, há quantas pessoas já terá ela enganado com o mesmo truque? Perguntou-se. – Bolas! E eu a pensar que ninguém nos enganava, caí que nem patinho, besta duma Miga – ainda resmungou quando contou o sucedido ao Tonho. – Possa! Aquela gente é mesmo craque, como foi possível sermos enganados daquele jeito, nós estávamos a vê-la arrumar frasco por frasco na caixa, cachorra, se eu a tivesse apanhado... – Ias fazer o quê? Já te esqueceste das impunidades? A última visita foi ao Jardim Majorelle e saíram de lá maravilhados com a beleza e a tranquilidade. Recantos repletos das mais variadas espécies de plantas e árvores, muita cor, muita água em repuxos e laguinhos, um museu sobre a cultura berbere e outras curiosidades. Andaram, andaram e ninguém se queixou de cansaço, nem uma única vez se sentaram nos bancos. – Nem sinto cansaço, acho que ninguém se can- BARRA DO KWANZA | 31 sa de estar num sítio tão belo, tão tranquilo. Não admira que Yves Saint Laurent se refugiasse aqui para buscar inspiração para os modelos que fez desMilar pelas passerelles do mundo – disse a dado momento o Roldão, o homem de poucas palavras. – Sem dúvida, meu kamba, isto é inigualável, vou recomendar! – falou o Luís Maria enquanto se encaminhavam para a galeria onde se encontra a com a exposição dos cartões que o estilista desenhava para enviar aos amigos por altura das festas de Mim de ano, todos sob o lema do LOVE. – Uau! C’est vriament beau,,, – e quando se preparavam para fotografar, foram rapidamente interditos pelo zeloso vigilante. Entraram no museu da cultura berbere, quanta coisa para aprender…, e andando em direcção à saída desembocaram no memorial erigido em homenagem à Yves Saint Laurent. Ficaram algum tempo a contemplá-lo, respeitando o silêncio inscrito no epitáMio. As férias chegaram ao Mim. Belas férias! Deu para recarregar as baterias, não se cansavam de dizer. Apanharam o comboio de volta a Rabat, onde deveriam passar para apanhar a bagagem que Micara à guarda do hotel. A viagem de regresso foi tranquila, entre cochilos e conversas animadas. Bastava o humorista Tonho estar acordado para os outros não conseguirem pregar o olho, fazia anedotas de tudo o que via. Quando o comboio parou na penúltima paragem, Luís Maria foi para o corredor e Micou a contemplar a azáfama da entrada e saída de passageiros. Entretanto, o comboio apitou, as portas fecharamse e as carruagens começaram a movimentar-se. De repente, o Roldão e o Tonho ouviram o companheiro falar tão alto que saíram apressados da carruagem. – É ela, é ela! – dizia fora de si. – Ela quem, piraste ou quê? – A Aini, a Aini.. – Onde está? – Desceu, desceu, vai ali, era ela de certeza. Se não fossem os companheiros era capaz de forçar a porta para se arremessar. – Estás com alucinações, homem. Dentro daquelas vestes como podias reconhecê-la? – espantaramse quando viram a mulher de costas, para a qual ele apontava. – O olhar, o olhar, ela estava a olhar para aqui. Os amigos empurraram-no à força para o assento da carruagem de 1ª classe onde viajavam. E perdido, olhando para o vazio se manteve Luís Maria até a estação terminal. Pela aparente perturbação, os companheiros concluíram que ele regressava a buala com o fantasma da Aini viviMicado... Maria Celestina Fernandes, Assistente Social e Licenciada em Direito, membro da União Dos Escritores Angolanos, iniciou a carreira literária no início da década de oitenta, com a publicação de contos em páginas de jornais. É autora de diversos contos infantis, romances e poemas. Em 2008 foi-lhe outorgado pelo Ministério da Cultura o Diploma de Mérito “pelo seu contributo persistente na valorização, promoção e divulgação de contos infantis e da prosa Angolana”. Em 2009 foi-lhe outorgado o diploma “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil do Brasil pela obra ‘A árvore dos gingongos’. Em 2010 ganhou o prémio de literatura infanto-juvenil “Jardim do Livro” com o conto ‘As amigas em Kalandula’. Três vezes nomeada para o prémio sueco Astrid Lindgren. 32 | NAVEGAÇÕES 25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Eu sou do sul Sei de barcos e de mares navegações interiores fogos iniciais do mar, às embalas de Angola Publicidade não tem hora nem idade certa GOCIANTE PATISSA R iram-se dele, como nunca se devia rir às custas de ninguém. Ele, a muito custo, não soltou dispara- Sei de linhas e rios perfumados quase sem margens iniciais sem terra à vista, ou o suporte frágil das raízes Em silêncio, adormeço nesta onda, que quase me leva ao outro lado do mar outras águas, outras árvores com frutos pendentes quase nascendo da terra Firmino Mendes Firmino Mendes nasceu em Ronfe, Guimarães, Portugal, em 1949. Foi professor de Língua Portuguesa, na Escola Superior Artística do Porto. Poeta premiado e conhecido pelos poemas seus musicados e participantes nos festivais da Canção da RTP. Para além de publicar poemas em diversas revistas, tem publicados em livro Ilha sobre Ilha (1993; Prémio de Revelação de Poesia da A.P.E., 1991), Fronteira Animal (1993), Invocação e O9ícios (1995), Um Segredo Guarda o Mundo (1998) e e "A Terra e os Dias" (2000). Cultura te algum. E foram-se rindo, que até parecia nunca mais terminar. Ele, só raiva no peito. Era um dia com tudo a correr muito bem no quintal. Os mais-velhos, como sempre para celebrar a vida, andavam embalados naquele dialéctico lamentar por isto e aquilo, ladainhas que retiram do foco qualquer mais-novo ali presente. Não é que um olhar fora de mão foi logo espreitar pelo intervalo entre a carne e o tecido dos calções do rapaz?! Pronto, acabou vendo o que não esperava. Lá estava o que devia estar, e o que não devia também. Uma camisinha envolvendo o instrumento do menino de oito anos apenas. Não se via bem com que adereço mais se prendia o insólito, dada a diferença entre os diâmetros do homem e da borracha. Mas, também, até aí, não é olhar demais? “Use a camisinha”, vive repetindo a máquina da propaganda, muitas vezes lacónica demais para se lembrar de dizer como e quando. “Use”. A publicidade não tem hora nem idade certa. Logo, por quê a chacota, se o rapaz estava apenas a usar como muitas vezes ouve? Para os demais, era com certeza uma iniciativa precipitada e longe do previsto pela máquina da propaganda. Perguntar, que é bom, nada. Talvez com algum tabu implícito. Só depois de se cansarem de tanta consumição, se aperceberam que não se tratava de brincadeira, antes, de uma solução para não fazer xixi na cama. Quer dizer, se um gajo faz xixi na cama, riem-se. Se passa dia e noite com camisinha, como forma de evitar os raspanetes, riem-se. É chato ser-se puto, não é?! Bairro da Santa-Cruz, Lobito Chá de Caxinde abre quarta edição do concurso anual do conto infantil A Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde abriu o prazo de entrega de contos para o concurso anual “Caxinde do conto infantil”. Os candidatos têm até ao dia 30 de Setembro para proceder à entrega das obras, que devem ser inéditas. O regulamento estabelece que podem participar no concurso todos os cidadãos angolanos, residentes ou não no país, assim como os estrangeiros residentes em AnZulinni Bumba ganha prémio Jardim do Livro Infantil gola. Cada concorrente pode apresentar no máximo dois contos, com angolana Zulinni Bumba que deu a conhecer que a sua obra o mínimo de 12 mil caracteres conquistou a edição des- “é um conto em forma de narrati- (sem espaço) cada, escritos em lete ano do premio literá- va, que tem como principais Iigu- tra de corpo 14, impressos em forio nacional Jardim do Li- ras os diversos animais que fazem lhas brancas A4. Os trabalhos, assinados com vro Infantil, com a obra “O aniver- parte do mundo selvagem”. Informou que o livro será lançado pseudónimo, devem ser encerrasário do Rei Leão”. “É uma satisfação para mim. Nunca me passou durante a terceira edição do Jardim dos num envelope A4, endereçado pela cabeça que a minha estreia no do Livro Infantil, a ter lugar este mês à associação Chá de Caxinde. No inmundo literário seria marcada em Luanda. Zulinni Bumba tem tex- terior do envelope grande deve escom a conquista de um prémio. Is- tos seus inseridos numa antologia tar contido outro envelope menor, to é razão para apostar mais na li- publicada em 2004 pela Brigada Jo- fechado, contendo o nome do conteratura infantil”, disse a autora, vem de Literatura de Angola (BJLA) corrente, naturalidade, idade e con- tactos, bem como uma cópia do bilhete de identidade ou do cartão de estrangeiro residente. Os envelopes com as obras devem ser entregues na sede da Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde, em Luanda ou Lisboa, ou nas delegações de Cabinda, Benguela, Huíla e no núcleo do Lobito. A Efemérides 2012 Ano Internacional das Cooperativas | Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos 2003 – 2012 Década da Nações Unidas para a Literacia – Educação para Todos 2005 - 2012 Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável | Segunda Década Internacional dos Povos Indígenas do Mundo 2005 – 2015 Década Internacional para a acção, “Água para a Vida” 2008 - 2017 Segunda Década das Nações Unidas para a Erradicação da Pobreza 2010 - 2020 Década das Nações Unidas para os Desertos e a Luta contra a Desertificação.