25 de Junho a 8 de Julho de 2012 | Nº 7 | Ano 1
Director: José Luís Mendonça
•Kz 50,00
Moçambicanos falam de Agostinho Neto
ESPECIAL FESTINETO
LETRAS
PAG. 3
PAG. 5
Mendes de Carvalho
PAULINO DAMIÃO “CINQUENTA”
“Podia
Doutor Honoris Causa
ter feito
mais”
A poesia
de Amélia
Dalomba
LETRAS
PAG. 8
na óptica
de Akhiz Neto
ARTES
PAG. 16
CD “Angola, mares e lagoas”
Carlos Lopes
regressa
ao mercado
B. KWANZA
PAG. 30 e 31
“Aquele Amor”
Conto
de Maria
Celestina
Fernandes
2 | ECO DE ANGOLA
Sumário
ECO DE ANGOLA
Geografia de conversas | José Luís Mendonça
FESTINETO
Moçambicanos falam de Agostinho Neto | Isaquiel
Cori
LETRAS
Estorietas do meu beco | Ismael Mateus
Mendes de Carvalho, Doutor Honoris Causa pela Universidade
Metodista | Isaquiel Cori
Nok Nogueira: “Escrever é um terreno tortuoso, que precisa de ser
permanentemente lavrado” | Lula Ahrens
Duas históricas aulas literárias na FLUL | Lopito Feijóo
Manongo-Nongo, a festa dos recém-nascidos | Tazuary Nkeita
Compasso do ritmo na nona brisa | David Capelenguela
O locus dialógico da poesia de Amélia Dalomba | Akhiz Neto
“Filhos do coração” filhos de África - A literatura infantil angolana: Meio
de educação, resgate e preservação dos valores e tradições | Nguimba
Ngola
ARTES
Festival Internacional de Teatro eArtes – Luanda | Áurio Quicunga
Um teatro cada vez mais angolano | Áurio Quicunga
Etu Lene estreia peça “Quem Matou o Velho Kipacaça” | Kindala
Manuel
O regresso de Carlos Lopes dez anos depois | João Papelo
Ainformação emAngola nos anos 1960-74: a festa era da rádio | Rodri
gues Vaz
GRAFITOS NA ALMA
Defesa nacional, espaço e tempo - Novos contextos e outras
vulnerabilidades no século XXI | Luís Kandjimbo
A Sindérese e a sua relação com a Lei Natural em Tomás de Aquino | Jo
sé Manuel Bragança
DIÁLOGO INTERCULTURAL
“Niketche: Uma História de Poligamia” de Paulina Chiziane - A metalinguística dolorida da mulher moçambicana | Matadi Makola
William Carlos Williams: o poeta da ínfima grandeza da humanidade
das coisas | Zetho Cunha Gonçalves
O jeito de ilustrar a história de Lília Momplé em “Ninguém Matou Suhura” | Eduardo Quive
José Luiz Tavares ou quando o rigor se faz poesia | Nuno Rebocho
BARRA DO KWANZA
Aquele amor | Maria Celestina Fernandes
NAVEGAÇÕES
Eu sou do sul | Firmino Mendes
Publicidade não tem hora nem idade certa | Gociante Patissa
Breves
Cultura
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Editorial
Cultura
Geografia
de conversas
JOSÉ LUÍS MENDONÇA
1
O Tempo (mais uma Vicção do género humano) marcou metade deste ano.
Culturalmente falando, o mundo está cada vez mais empenhado em colmatar
a ilusão de tudo ser nada e vir a se desmoronar como o destino de Okonkwo, o
guerreiro nigeriano da tribo dos Ibo, herói mítico do romance de Chinua Achebe. Por
isso, neste dealbar do século XXI, paira no ar uma nuvem de Esperança que, para nós,
Angolanos, é perenemente Sagrada. Arvorada em bandeira ou símbolo da nossa alma
libertária no título do inderrogável Poema Épico lavrado pela mão do poeta Agostinho Neto, essa Esperança caracteriza o nosso ideário colectivo.
Trazemos aqui várias conversas esvoaçantes nesta geograVia. Mendes de Carvalho,
“Uanhenga Xitu”, fala-nos da distinção Honoris Causa que recebeu pela Universidade
Metodista de Angola, “pela dedicação de toda uma vida à construção de uma Angola
livre e independente e à ilustração e bem-estar do seu povo”.
A FilosoVia veio fazer morada nesta casa, com a tese do Padre José Manuel Bragança
sobre a sindérese e sua relação com a lei natural em Tomás de Aquino. Nok Nogueira,
uma voz da novíssima geração de poetas, destaca uma verdade que tem sido ignorada por alguns autores jovens, ávidos de publicar. Que o exercício artístico, e o literário
em particular, é uma actividade de altíssimo risco. Um trabalho de Hércules, melhor
dizendo. O risco que se corre, acrescentamos nós, é o de ter de submeter à implacável
dissecação cirúrgica da Crítica Literária.
O ensaísta e poeta Akhiz Neto mostra-nos o imaginário lírico da incansável Amélia
Dalomba, enquanto que o escritor Tazuary Nkeita nos apresenta a obra de Luciano
Canhanga, “Manongo-Nongo, a festa dos recém-nascidos”. Duas novas vozes a contribuir para a manufactura verbal deste vosso jornal. A estes se vem juntar Ismael Mateus, que nos propõe uma leitura de “Estorietas do meu beco”, o novo título de Garcia
Bires, que escreve despido “da nostalgia com que muitos dos mais velhos, conservadores, se esforçam por nos ‘impingir’ o passado como o nosso ideal de futuro.” “Compasso do ritmo na nona brisa” é uma crónica de David Capelenguela, também estreando a sua pena no jornalismo cultural, para nos contar uma faceta da vida social
do poeta Lopito Feijóo. Deste, diz Capelenguela que “vive praticamente com e no mar.
Sente as ondas a tocar os alicerces do muro de vedação, ao ponto de dar-lhe a sensação de se deixar levar pela aderência do instante, efeito do “kalunga”. Reminiscência
de um espírito de kianda?
2
Esta edição aparece prenhe de novidades. Falamos aqui de teatro, pela primeira vez. Rodrigues Vaz apresenta uma panorâmica da informação em Angola nos anos 1960-74, em que, diz, “a festa era da rádio (…) o grande meio de
comunicação social em Angola, como aliás continua a ser.”
João Papelo divulga o regresso de Carlos Lopes, dez anos depois, com um novo trabalho discográVico, intitulado “Angola, mares e lagoas”, um CD recomendável aos que
gostam de música acústica tecida com destreza de mestre.
3
São tantas as conversas e tão escasso o Tempo (ainda que Vicção do género
humano), que nada mais nos resta senão desejar que o leitor entre nelas e as
desconverse consigo mesmo e com os interlocutores aqui sentados, para que
a nossa mística Esperança emerja, deste diálogo quinzenal, cada vez mais alta como a
sombra da mulembeira.
Propriedade
Jornal Angolano de Artes e Letras
Nº 7 | Anoa 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
[email protected]
CONSELHO EDITORIAL
Director e Editor-chefe | José Luís Mendonça
Editor de Letras | Isaquiel Cori
Editor de Artes | Francisco Pedro
Assistente Editorial | Berenice Garcia
Fotografia | Paulino Damião (Cinquenta)
e Arquivo do Jornal de Angola
Edição de Arte e Paginação |
Albino Camana, Tomás Cruz, Inês Quingando,
Publicidade: (+244) 222 337 690 | 222 333 466
Alberto Bumba e Moisés Gonçalo
COLABORAM NESTE NÚMERO:
Angola -Akhiz Neto, Áurio Quicunga, David Capelenguela, Gociante Patissa, Ismael Mateus,
J.A.S. Lopito Feijóo K., João Papelo, José Manuel Bragança, Kindala Manuel, Luís Kandjimbo,
Maria Celestina Fernandes, Matadi Makola,
Nguimba Ngola, Patrício Batsikama, Tazuary
Nkeita e Zetho Cunha Gonçalves
Portugal - Rodrigues Vaz, Firmino Mendes
Moçambique - Eduardo Quive
Cabo Verde - Nuno Rebocho
FONTES DE INFORMAÇÃO:
AGULHA, revista de cultura,
São Paulo, Brasil
Correio da UNESCO, Paris, França
AFRICULTURES, Portal e revista
de referência das culturas africanas,
Les Pilles, França
Sede: Rua Rainha Ginga, 12-26 | Caixa Postal 1312 - Luanda
Redacção 333 33 69 |Telefone geral (PBX): 222 333 343
Fax: 222 336 073 | Telegramas: Proangola
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Catarina Vieira Dias Cunha
Eduardo Minvu
Filomeno Manaças
Sara Fialho
Mateus Francisco João dos Santos Júnior
José Alberto Domingos
Administradores Não Executivos |
Victor Silva
Mateus Morais de Brito Júnior
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
|3
Moçambicanos falam de Agostinho Neto
DVD reúne depoimentos sobre o primeiro Presidente da República de Angola
O
ISAQUIEL CORI
DVD produzido pela Fundação Agostinho Neto,
com depoimentos de 13
personalidades moçambicanas sobre Agostinho Neto, o primeiro presidente da República de Angola,
é digno de merecer a maior divulgação
possível. Lançado em Janeiro na província do Bié, no quadro dos festejos
do Dia da Cultura Nacional, a obra,
até aqui, teve escassa repercussão
em Angola, ao contrário do que aconteceu em Moçambique, onde foi posta a público no dia 25 de Maio num
acto bastante mediatizado que contou com a presença do Presidente Armando Guebuza.
Os depoimentos abarcam um longo
lapso de tempo da vida de Neto, desde
os tempos de estudante em Portugal,
nos anos 1940/50, até 1979, o ano da
sua morte. A trajectória de Agostinho
Neto é narrada, através das memórias
das personalidades moçambicanas,
na sua dimensão de estudante consciente da importância da libertação do
país do jugo colonial, de líder do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), de homem de cultura e
de estadista. A permear todas essas
dimensões ressalta sempre uma constante: a do homem simples, humilde e
camarada, não obstante a sua enorme
estatura intelectual e simbólica. “Era
um indivíduo que falava pouco mas
pensava muito. E quando falava só dizia as coisas muito acertadas” (Joaquim Chissano). “Ele tinha uma conversa para todos” (Mariano Matsinha). As relações estreitas entre o
MPLA e a FRELIMO, o contexto em que
as mesmas se desenrolaram, as amizades – cumplicidades - entre os dirigentes de ambos os países, alicerçadas e
ediQicadas ao longo da luta de libertação nacional, são evocadas pelos depoentes, cada um, naturalmente, à sua
maneira.
Segundo Mariano Matsinha, fundador da FRELIMO, “havia troca de informação institucionalizada, organizada
e informal sobre o que acontecia em
Angola e em Moçambique”.
Joaquim Chissano, ex-presidente de
Moçambique, e ao longo de muitos
anos ministro dos Negócios Estrangeiros, aQirma que conheceu pessoalmente Agostinho Neto em Dar-esSalam (Tanzânia) em 1965, num encontro de movimentos de libertação
das então colónias portuguesas, em
que “ele (Neto) tomou posições muito
construtivas”.
O escritor Mia Couto, que foi repórter presidencial ao tempo de Samora
Machel, e nessa qualidade esteve muito próximo de Agostinho Neto, centra
o seu depoimento na vertente cultural, fala da “dimensão mitológica” e
exalta as qualidades do poeta. Para
ele, a poesia de Agostinho Neto é de
“um africano que bebeu a cultura do
mundo e que era um homem universal”: na sua poesia não há “uma proposta de um nacionalismo estreito,
que nega as contribuições dos outros”.
Mia Couto cita particularmente o poema “Depressa”, contido no livro “Sagrada Esperança”, como um exemplo
de “poesia pura”, com “uma mensagem intemporal que deve ser ensinada nas escolas, porque ensina os jovens a terem uma atitude”.
Outro depoimento de grande impacto, sem desprimor para os outros,
é o de Sérgio Vieira, que foi director do
gabinete do presidente Samora Machel. Algumas das suas informações
são autênticas revelações, verdadeiras pérolas de memória histórica. Por
exemplo, o facto da FRELIMO ter fornecido armas, incluindo canhões BM21, ao MPLA, usadas na crucial batalha
de Kifangondo, em 1975; a criação, no
dia 12 de Novembro de 1975, de um
“banco de solidariedade” com as contribuições de um dia de salário dos
funcionários moçambicanos, que arrecadou mais de um milhão de dólares
que foram entregues ao jovem governo angolano. Sérgio Vieira dá igualmente a conhecer que pouco antes da
independência de Angola, diante da
situação de incerteza que se vivia, o
MPLA transferiu “todos os haveres” do
Banco de Angola para o Banco de Moçambique. Tais “haveres” foram devol-
vidos ao Banco de Angola logo depois
de proclamada a independência. Outra revelação: Agostinho Neto celebrou o seu último aniversário natalício, em 1978, em Moçambique.
Malangatana Ngwenya, essa personalidade irradiante da cultura moçambicana, que faleceu pouco depois
de ser entrevistado, fala da poesia de
Neto e de como ela terá enriquecido a
sua visão estética. Outros depoentes
são Marcelino dos Santos, Raimundo
Pachinuapa, Bonifácio Massamba, Alberto Chipande, Roque Félix, Abdul
Bulamusein, Aiuba Cuereneia e Frederico Alberto. Os depoimentos foram
recolhidos pelos jornalistas Altino
Matos e Horácio Pedro, sob coordenação de Amarildo da Conceição. A Fundação Agostinho Neto concebeu, produziu e realizou o projecto.
Lançamento concorrido
O lançamento do DVD aconteceu a
13 de Junho, no Centro Cultural Joaquim Chissano, na presença do chefe
de Estado moçambicano, Armando
Guebuza, da presidente da Fundação
António Agostinho Neto (FAAN), Maria Eugénia Neto, de centenas de personalidades inQluentes da sociedade
daquele país e do corpo diplomático.
O Presidente de Moçambique, a quem
foi outorgado o título de membro honorário da FAAN, considerou Agostinho Neto um “intelectual de primeira
água”, com alta perspicácia política e
uma personalidade humanística contagiante. Sublinhou que a voz de
Agostinho Neto não era apenas ouvida, mas sobretudo respeitada internacionalmente. Referiu que Neto colocou toda a sua estatura ao serviço
do povo angolano e do alcance da independência nacional.
Maria Eugénia Neto aQirmou que o
DVD foi produzido para que não se
percam as memórias dos camaradas
moçambicanos que conviveram com
Agostinho Neto, antes e depois da independência, e para que também “não
se adultere a verdadeira história de
Angola e do MPLA”.
A FAAN fez a doação de valores monetários, um total de dez mil dólares, a
duas escolas primárias, uma da cidade
da Beira, província de Sofala, e outra do
bairro Kumbeza, no distrito de Marracuene, na província de Maputo. Maria
Eugénia Neto entregou, igualmente, ao
Presidente da República de Moçambique, um poema seu, emoldurado, em
homenagem ao primeiro presidente daquele país, Samora Machel.
Amarildo da Conceição, alto funcionário da FAAN, disse ao jornal Cultura
que ainda este ano vai ser lançado o DVD
com depoimentos de personalidades de
Cabo Verde que conviveram com Agostinho Neto. Referiu que a Fundação já procedeu à recolha de depoimentos do
mesmo cariz em Angola, Argélia, Cuba,
Namíbia, Congo Brazzavile, RDC e Tanzânia, que em devido tempo também
serão publicados.
4 | LETRAS |
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Cultura
Para uma leitura de “Estorietas do meu beco”
No seu novo livro Garcia Bires lembra que as pessoas estão acima de tudo
ISMAEL MATEUS
P
ertenço a uma geração que
tem amiúde reclamado da
ausência de testemunhos
escritos das gerações anteriores, seja de que estilo e temática forem.
Felizmente para nós, o autor de
“Estorietas do meu beco” despiu-se
da nostalgia com que muitos dos
mais velhos, conservadores, se esforçam por nos “impingir” o passado como o nosso ideal de futuro. Não descortinamos neste livro qualquer tentação do autor de colorir o “seu tempo” como o melhor e nem sequer a
humana vaidade das comparaçoes.
Não há o “meu tempo, melhor” nem o
“vosso tempo, pior”, nem o contrário.
O autor, como é seu timbre na vida
pessoal, é elegante, cortez, abre, até
de modo surpreendente, as portas da
prateleira da sua memória.
São pequenas “estórias” sobre um
passado de machimbombos e tempo
para viver, feitas para serem lidas hoje
com os nossos tempos controlados
pela economia de mercado, entre um
engarrafamento e outro ou entre uma
reunião e outra.
Perpassa por todo o livro um traço
de simplicidade e clareza de raciocínio que emana do texto e se impregna
nas personagens. As diferentes personagens de “Estorietas do meu beco”
são humildes, gente bem intencionada
e sem as vaidades dos nossos tempos.
Segundo o próprio autor, “no beco que
veio do nada vivia gente trabalhadora
e bastante humilde”. Mais do que isso,
são-nos próximos, como se, ao lermos,
nos guiássemos pela vida de um dos
nossos familiares. Claro que não são
da minha geração que se pavoneia em
futilidades, sobranceria e arrogância.
As personagens de Garcia Bires são do
seu tempo. São normais, têm princípios, preocupações com a vida humana e são de uma sociedade com moral.
No seu texto literário, o autor de
“Estorietas do meu beco, não se conseguiu livrar do peso de também ser o
poeta Garcia Bires, razão porque encontramos uma prosa que evolui, se
enrosca e apimenta como um poema
expandido. Quando não está versiJicado, o sentimento poético do “duplo”
autor está na escolha das palavras, na
utilização das Jiguras de estilo e no ritmo do texto. Realmente, ler “Estorietas do meu beco” é uma conversa a
três, entre o leitor e o autor prosador,
tendo a seu lado, sentado e observador, o autor poeta.
O apresentador não deveria ter preferências mas, para ser justo, não é
possivel contornar Arnaldo. Segundo
o autor, Arnaldo era um fotógrafo natural pela sua capacidade de fotogra-
far mentalmente tudo o que lhe aparecesse pela frente. Para além da Bíblia
que lia com regularidade, tinha decorado todo o compêndio de Aritmética
Arnaldo, diz o autor, tinha na leitura e no falar uma certa dificuldade
em diferenciar a pronúncia das letras D e T: “Quarda Feira, tia quadro
na sala te aula ta professora Maria
Petroso eu esdava compledamende
tesenquatrato do dema.”
Compadre Portanto ou simplesmente
“Portantoso”.
E tambem vos recomendo o senhor
“Discursante” ou melhor Falloussó ou
também conhecido por Bongololo ou
na parte Jinal do texto identiJicado Jinalmente como Phalloussó com PH
António Diamante Kizua Jr. Leiam.
O livro “Estorietas do meu beco”, de
Garcia Bires, lançado a 25 de Maio, Dia
de África, é um apelo à reJlexão. O au-
Vicente, Joca e outros tantos povoam o livro, mas Arnaldo distinguese pela originalidade e pela caricatura,
numa altura em que nós, sobretudo
em Luanda, vamos sobrevivendo, sabe
Deus como, ao “comê, bebê ou voâ”, ou
ao “Arguma coisa, Argo argum” e até,
espantemo-nos, “voces és linda demais, como umjk inspirado resolveu
cantar”. Arnaldo como outras vidas
deste livro, é comedido. Apesar de toda a sua erudição, troca os D pelos T ou
vice versa. Mas Arnaldo não se Jica por
aí e, por entre leituras, ganhou o vício
de dizer “portanto”. Não está sozinho.
Era ou é um vício tão comum que os da
minha geração se habituaram a apelidar os “portantosos” de Tio Portanto,
tor quer que o seu beco seja reconhecido internacionalmente como património da paz e nacionalmente como
um exemplo de cidadania. Ele, o beco,
personiJica as raizes, os hábitos e costumes. Ora, assim se entende que o livro esteja centrado nas relações familiares, porque estruturam a sociedade
e a tal de angolanidade. Este é um livro
que fala das pessoas, do seu modo de
estar, do que gostam e do que fazem.
Das relações que estabelecem umas
com as outras e como isso multiplicado e consensualizado perfaz o que é
comum chamarmos de sociedade.
É um livro que nos diz claramente
que as pessoas, as vidas, as suas relações e inter relações são o centro de
“Perpassa por todo o livro um traço
de simplicidade e clareza de raciocínio que emana
do texto e se impregna nas personagens.
As diferentes personagens são humildes, gente
bem intencionada e sem as vaidades dos nossos
tempos”
tudo. As pessoas estão acima de tudo.
Boa leitura.
25 de Maio 2012.
______________________
João Garcia Bires nasceu em Luanda,
aos 27 de Fevereiro de 1944. Fez o ensino
primário na Escola Evangélica de Luanda e
o secundário no Colégio da Casa das Beiras.
Participou na luta de libertação nacional. É licenciado em Direito Internacional
pela Faculdade de Economia e Direito da
Universidade Patrice Lumumba, em Moscovo. Membro da União dos Escritores Angolanos, Garcia Bires, que também ostenta
o pseudónimo Bireslav Wolker, exerce actualmente o cargo de Embaixador de Angola na República Popular da China, depois de
ter exercido o mesmo cargo na Namíbia e
em Moçambique.
É autor, para além de “Estorietas do meu
beco”, de três obras literárias, nomeadamente, “Dia do Calendário”, “O Silêncio
acordado” e “Olhadelando”.
| LETRAS | 5
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
“Sinto que podia ter feito mais”
Mendes de Carvalho Doutor Honoris Causa pela Universidade Metodista
O
ISAQUIEL CORI
veterano escritor e político reformado Mendes
de Carvalho “Uanhenga
Xitu”, foi distinguido com
o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Metodista de Angola (UMA), no passado dia 25 de Maio.
Foi a primeira vez que uma instituição de ensino universitário no país
atribuiu tal título. Na Carta Doutoral, assinada pela reitora Teresa José Adelina da Silva Neto, a UMA refere que a homenagem leva em conta
“a dedicação de toda uma vida, pela
via da sua pro5issão, enquanto enfermeiro, pela via da sua dedicação
às artes, e à cultura em geral, enquanto escritor, e pela via da sua intervenção política comprometida,
primeiro como opositor ao governo
colonial português, depois como governante e como deputado, à construção de uma Angola livre e independente e à ilustração e bem estar
do seu povo”.
O jornal Cultura aproveitou a
oportunidade para colher algumas
palavras do escritor, que, apesar da
força da idade (quase 88 anos) ainda conserva a lucidez do discurso.
Jornal Cultura - Qual é o seu sentimento, depois de ter recebido o título de Doutor Honoris Causa pela
Universidade Metodista de Angola?
Mendes de Carvalho/Uanhenga
Xitu – Recebi muitos elogios, não sei
se merecidos. Diante da minha biograEia e dos elogios sinto que podia ter feito muito mais.
JC – Continua a escrever?
MC/UX – Já não escrevo.
JC – Há quanto tempo não escreve?
MC/UX – Há uns anos. Quase perdi
a vista e ouço muito pouco. Tentei ditar aos meus sobrinhos, mas a coisa
não é a mesma. Acabei mesmo por deixar de escrever.
JC – Não sente a falta do exercício
da escrita?
MC/UX – Leio um pouco os jornais e
tenho uma Eilha que me lê alguns livros. Por exemplo eu nunca tinha lido
os meus livros. Quando a minha Eilha
me leu “O Ministro” dei-me conta que
é um livro que continua muito actual.
JC – Até que ponto as suas obras
são <icção ou realidade?
MC/UX - Nos meus livros a Eicção e a
realidade se entrelaçam.
JC – A trama da maioria das suas
obras se desenvolve no meio rural.
O ambiente urbano nunca o cativou?
MC/UX – Nasci e cresci no meio rural. Lá as coisas são mais vivas mas sei
que o meu “mato” não é necessariamente o “mato” de hoje. Muita coisa
mudou e as pessoas também mudaram de comportamento. Deixo as coisas do meio urbano para os que sabem
escrever. Os meus livros não têm literatura, não sou capaz de fazer redacções literárias. Eu penso em kimbundo e traduzo para o português. As minhas memórias da infância e da juventude tenho-as em kimbundo e elas é
que serviram de material para os
meus livros.
JC – O que é que mais o preocupa
quando pensa na literatura angolana?
MC/UX – Alguns jovens já estão a
dizer muitas das coisas que eu esperava.
JC – O que é que esperava?
MC/UX – O retrato da vida do povo,
a sua miséria, o seu estar, a realidade
actual.
JC – Nunca pensou em passar para o papel a sua trajectória de vida,
as suas memórias?
MC/UX – As minhas memórias estão nos livros que publiquei. Considero o livro “O Ministro” uma relíquia.
JC – Considera este livro o mais
importante que escreveu?
MC/UX – Um dos mais importantes.
Todos eles são meus Eilhos. O “Mestre
Tamoda” tem as suas características
próprias. Em “Manana” fui longe demais, mergulhei fundo na tradição, na
vida dos mais velhos, no conhecimento do feitiço, do xinguiladores…
JC – Começou a escrever na cadeia, no Tarrafal, em Cabo Verde.
Como era possível?
MC/UX – Escrevíamos nuns papéis
de embrulho, que vinham da loja. Era
animado por rapazes como o António
Jacinto, o António Cardoso e o Luandino Vieira. Quase todos os meus livros
foram escritos na cadeia. Lá eu tinha
tempo, sonhava. Escrever era um passatempo.
JC – Além do poema “Eu sou pueta
de Kimbundu”, que está no livro “O
Ministro”, não se lhe conhecem outros poemas. A poesia nunca o cativou?
MC/UX – Não sou poeta. Não tenho
jeito para escrever poesia. Mas gosto
de boa poesia.
JC – Quais os escritores que mais
respeita e admira?
MC/UX – O Luandino Vieira, o Pepetela, os cabo-verdianos Baltasar Lopes, autor do romance “Chiquinho”, e
Manuel Lopes, que escreveu “Chuva
Braba”.
JC – Ainda é muito procurado por
jovens aspirantes a escritores?
MC/UX – Continuam a procurarme. Perguntam-me se os meus livros
são Eicção ou realidade e querem que
eu os ensine a escrever. Eu digo que a
Eicção também é realidade.
JC – Continua a insistir que não é
um escritor mas um simples contador de estórias. Isso não é excesso
de modéstia?
MC/UX – O que é um escritor? É um
homem que escreve livros com preocupações de linguagem. Os camaradas
é que me dizem que sou escritor. A forma nunca me preocupou. O importan-
te era escrever. Não me gabo como escritor porque sei que cometi muitos
erros. Não é modéstia a mais.
JC – Disse que continua a pensar
em kimbundo. Os jovens parecem
cada vez mais longe do aprendizado das línguas nacionais…
MC/UX – Não falo tão bem, mas ouço muito bem. Dos nossos pais recebemos o erro, por inEluência do colonialismo português, de que as nossas línguas eram língua de cão.
JC – Que conselhos dá aos mais
novos, aos jovens?
MC/UX – Aconselho-os a estudar, a
ler muito, a conEiar no trabalho que o
Presidente da República está a fazer.
Hoje há mais casas, mais estradas, o
caminho-de-ferro está a funcionar.
Neste últimos anos foi feito muito trabalho. Por isso há esperança de que o
futuro será muito melhor.
Agostinho André Mendes de Carvalho,
de pseudónimo literário Uanhenga Xitu, (n.
29/08/1924), dentre as várias funções que
exerceu foi ministro, embaixador e deputado pela bancada do MPLA. Escreveu os livros: “Meu Discurso” (1974), “Mestre Tamoda” (1974), “Bola com Feitiço”, (1974),
“Manana” (1974), “Vozes na Sanzala – Kahitu” (1976), “Os Sobreviventes da Máquina Colonial Depõem” (1980), “Os Discursos
de Mestre Tamoda” (1984), “O Ministro”
(1989) e “Cultos Especiais”, (1997). A editora Mayamba reeditou este ano os livros “O
Ministro” e “Bola com Feitiço - Kahitu”.
6 | LETRAS |
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Nok Nogueira
“Escrever é um terreno tortuoso”
LULA AHRENS
exercício artístico, e o literário em particular,
não é como um balaio de
adivinhas, onde são jogados os búzios e depois tem-se a ideia
do que virá a ser a seguir. É uma actividade de altíssimo risco.” Quem o
diz, sem papas na língua, é Nok Nogueira, uma voz da novíssima geração de poetas, em entrevista concedida nas vésperas do lançamento do
seu novo livro “Jardim de Estações”.
O
Lula Ahrens – Recebeu o Prémio
Literário “António Jacinto” em
2004, pela obra "Sinais de Sílabas’.
Considera ser este o seu melhor
trabalho? O que acha que é a força
de “Sinais de Sílabas”?
Nok Nogueira – Se assim o considerasse e se tal acontecesse, seria uma
fatalidade literária. Penso que estas
questões de natureza valorativa cabem sempre ao leitor ou aos estudiosos, e nunca ao autor. Embora reconheça que não é sua intenção levar-me
a esse exercício de auto-análise da minha própria obra sob o ponto de vista
valorativo. E se assim fosse, seria um
exercício nada saudável para o ego e
de uma tremenda injustiça para quem
nos lê. Deve existir naturalmente um
sentimento especial por esta ou aquela obra, mas ser esta ou aquela a melhor, na voz do autor, é realmente uma
fatalidade literária, tratando-se do li-
vro de estreia. Mas se tal
acontecesse provavelmente a esta hora não lhe estava
a dar esta entrevista. “Sinais de Sílabas” terá sido,
sim, o jogar de uma qualquer semente em terreno
tortuoso, que precisava e
precisa ainda permanentemente de ser lavrado. O
exercício artístico, e o literário em particular, não é como
um balaio de adivinhas, onde são jogados os búzios e
depois tem-se a ideia do que
virá a ser a seguir. É feito tiro
no escuro. O melhor arranque nem sempre caracteriza
o que de melhor possamos
produzir. A única leitura possível a esse propósito é que se
tratou de um livro que me terá despertado logo no início
de carreira para as inúmeras
vicissitudes que encontraria
pela sempre. Aliás, no acto de
entrega do prémio e lançamento do livro, o escritor Boaventura
Cardoso, nas vestes de ministro da
Cultura, chamou-me atenção para esta odisseia que viria a ser a actividade
literária. E olha que não se enganou. É
uma actividade de altíssimo risco.
LA – Considera-se antes de tudo
um jornalista, um poeta ou ambos?
NN – Considero existir uma coexistência pacíKica entre as duas Kiguras,
na medida em que o jornalismo na sua
essência sempre esteve ligado à literatura, razão
pela qual ainda hoje é-lhe chamado a
“literatura do real”. O meu caso não terá sido diferente dos de muitos outros,
e até bem sucedidos, que se iniciaram
primeiro no jornalismo e que depois
ganharam fôlego para experimentar
uma actividade literária de maior consistência. Há, no entanto, um breve relato em relação a isso a acrescer: comecei a escrever quando estava a frequentar o curso de jornalismo no Instituto Médio de Economia de Luanda
(IMEL) e foi só aplicar as ferramentas
do jornalismo ao exercício literário e
pôr as coisas a funcionarem conforme
a natureza formal de uma e de outra
realidade. Claro está que Ki-lo também
um pouco em subversão a todo um
conjunto de princípios normativos,
pois não me limitei a observar simplesmente as regras de uma área e respeitar os limites de outra. Sempre poderia ir mais além e penso que marquei o passo certo, quando tive tempo
de o fazer.
LA – Jornalismo e poesia formam
uma boa combinação?
N11N – Formam sobretudo um caminho com boas doses de tentações.
Eu explico-me: o jornalismo requer,
acima de todos os requisitos, dois factores fundamentais: objectividade e
coerência no discurso, ao passo que
estes mesmos dois factores – que estão explicitamente identiKicados no
exercício jornalístico como elementos
basilares e estruturantes – ganham
outros nomes e formas no âmbito da
abordagem estética e/ou semântica
do discurso poético. O que é coerente
Cultura
e objectivo em jornalismo em estética pode não signiKicar nada,
pode ser irrelevante. A estética
funciona muitas vezes como uma
espécie de subversão à norma,
por não permitir que o discurso
se encerre em si. Há que dar largas à voz e à extensão das palavras. Transpor a sua condição natural ou linear. Aqui reside a fronteira entre o literário e o jornalístico. Ou seja, a poesia permite
que haja esta vasta extensão e
acima de tudo uma irreprimível
voz que em seu auxílio faça ouvir
o que por meio de outros instrumentos (muitos dos quais legais)
não chega a ser ruído sequer. Logo, é uma combinação que mais
nos expõe a alguns riscos dignos
de experimentar do que uma
simples combinação alegórica.
E um bom exemplo para isso –
claro está que com o devido exagero e imodéstia que esta aKirmação possa sugerir –, é o tipo
de versos que construo. Faço uma
poesia em prosa e tenho o vício de me
explicar detalhada e demasiadamente, às vezes, extrapolando. O jornalismo não se permite a isso, mas permite
outras façanhas narrativas. Terá sido
esse o motivo para trabalhar com base
numa poesia narrativa? Provavelmente! A literatura é todo um processo, ao
passo que o jornalismo é um relato
breve.
LA – Pode descrever os seus temas mais importantes?
NN – Com a objectividade e clareza
com que me coloca a questão, é diKícil
de respondê-la, pois o caminho é longo e as abordagens também, e nunca
lineares. Aliás, é a grande artimanha
que nos possibilita a poesia, ao permitir que nos coloquemos diante do precipício e nos joguemos de um ediKício
abaixo sem darmos por isso. O meu
trabalho poético, se calhar por não se
tratar de um discurso que se encerre
em si (e aqui reKiro-me concretamente
aos dois títulos mais recentes, nomeadamente “Jardim de Estações”, já editado pela nósSomos, em Portugal, e
“As Mãos do Tempo”, por editar com a
mesma chancela), permite-me proceder a um levantamento expansivo dos
vários temas que eventualmente andem à volta de uma mesma situação.
Não se trata de experimentalismos ou
de uma outra questão que a ela se associe. Nem é um facto novo, literariamente extraordinário. Trata-se apenas de descortinar o que vai com a névoa dogmática de que têm sido vítimas as sociedades modernas, todas
elas sem excepção. Umas com maior
brutalidade e outras com alguma sub-
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Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
sado e o início do século XXI. Há coisas
más e outras menos más e há também
coisas muito boas de autores nascidos
da primeira década de 2000. Nomes?
Existem alguns, mas preMiro mantê-los
guardados sob pena de me esquecer
ou omitir o nome de um ou de outro.
Mas que há uma nova geração de poetas há, e tudo resto o tempo vai ajudarnos a descortinar depois.
________________
tileza ainda muito mal disfarçada.
Agora, há toda uma condição do “meio
envolvente”, que neste caso é Angola,
que nos vai permitindo que a desarrumemos e olhemos para o mais fundo
do poço que existe nela, para que a
percebamos em tons mais claros e menos orquestrados. Tematicamente, o
olhar poético é vasto e às vezes perdese na imensidão do caminho. Mas é
Angola e as suas desarrumações sociais, políticas e culturais que fazem o
postal do meu discurso poético.
LA – Pode dizer-me algo sobre o
seu mais recente trabalho?
NN – O “Jardim de Estações”, escrito
inteiramente em 2007 na África do
Sul, reMlecte precisamente um quadro
de renovação emotiva. O virar de uma
página que se vai impondo na vida de
cada um nós, enquanto parte integrante de todo um processo sociopolítico aberto ao cultivo de formas distintas e cúmplices, mas coerentes e saudáveis, de se fazer o presente do amanhã. Nesse ano de 2007, foi a primeiríssima vez que estava a viver as quatro estações ininterruptamente e longe do espaço terra-mãe e pátria geradora. Este mudar de estações, que acaba por se traduzir sempre num elemento novo, fez-me lembrar a minha
mãe, que acreditava que quando chegássemos (eu e os meus irmãos) à idade militar já a guerra teria terminado.
Enganou-se redondamente. O “Jardim
de Estações” não se limita a debruçarse sobre uma Angola pós-guerra civil
de modo alegórico, nem é um relato
entusiasta. Mas propõe-se a levantar
algumas questões resultantes deste
virar da página, pois é comum as pessoas, após um longo período de guerra, trazerem ao de cimo algumas questões não menos importantes sobre o
que terão sido todos esses anos e o que
virá a ser o dia seguinte de toda essa
saga de guerra. Mesmo sabendo que
esta reMlexão em nada poderá alterar o
que de facto terá lugar, uma vez que a
esfera de decisão é outra. Portanto, é
um livro comprometido com alguns
acontecimentos que decorreram ao
longo da história recente de um país
que hoje está voltado para um vasto
horizonte. Não é entretanto um livro
de alusões e nem tampouco está dotado de um discurso apologista, típico
dos ditames que nos habituaram, sendo estes politicamente correctos. É
um canto livre como as estações.
LA – De que forma tem a sua juventude influenciado o seu trabalho?
NN – Pergunta diMícil de responder,
embora fácil de a desmontar. É preciso
aqui não atribuirmos aptidões especiais à fase da juventude, pois por ela
passaram milhares de escritores e todos estes tiveram de tomar o máximo
de aproveitamento dela para se aMirmarem e atingirem depois a maturidade enquanto escritores e outros como intelectuais. Alguns foram bem sucedidos, os que mais trabalharam para tal, claro está. Mas ainda assim não
foi aí que tiveram o auge da carreira.
Foi sempre na idade adulta que chegaram à maturidade literária, no sentido
do polimento. Nesse sentido, encaro-a
como um estágio que me vai permitindo olhar a vida através de um certo
ponto de observação, mas que não é
suMicientemente capaz de me dar o talento que se precisa para se ser um
bom escritor em tão curto espaço de
tempo. Gostava vivamente de me tornar um dia num bom escritor e tenho
trabalhado para que tal aconteça. Enquanto isso, aproveito a minha juventude para me dedicar à pesquisa e sobretudo ao trabalho aturado que se
exige de um exercício criativo. E, claro,
também para sonhar com alguma intensidade exacerbada, coisa que com
maior idade se não aconselha a ninguém. Podemos ser um bom sonhador
na juventude, mas nunca um escritor
suMicientemente maduro.
LA – Quem são os seus escritores
angolanos e poetas favoritos?
NN – Olha, eu pertenço a uma geração de jovens poetas angolanos que
ainda teve um mestre e o meu foi e é o
poeta, dramaturgo e Milantropo Trajanno Nankhova Trajanno. Eu considero-me fruto da escola deste enorme
poeta angolano. Quando o conheci, já
trilhava os caminhos da literatura e
até já escrevia, mas foram os contactos
permanentes, as pequenas tertúlias a
dois que fazíamos no escritório dele,
na Sociedade Espírita Allan Kardec
(SEAKA), no Makulusu, que me permitiram descobrir a verdadeira dimensão estética da palavra poética. Claro
está que ele não me pegou na mão,
com uma caneta, e ensinou-me a escrever um verso ou mesmo um poema.
Mas foram as conversas à volta do fenómeno literário e dos grandes temas
da actualidade que me permitiram depois deMinir um caminho e tomá-lo como opção certa e seguir em frente.
Lembro-me de num desses dias ele me
ter dito o seguinte: «Nok, escreva sobre tudo que quiseres sem medo».
Acho que nessa altura ele terá percebido que eu estava pouco à vontade após
o lançamento de “Sinais de Sílabas”.
Sem esquecer que foi ele, Nankhova,
quem me baptizou com o nome de
Nok. Eu assinava Carry Casy. O Nogueira já o tinha como certo um dia,
mas o Nok foi obra do Trajanno Nankhova Trajanno. E depois há outros nomes, naturalmente, mas penso ter sido já muito extensivo.
LA – Quem - de acordo consigo representa a nova geração dos poetas e escritores angolanos?
NN – Curiosamente, nos últimos
meses muitas foram as conversas à
volta desta questão da nova geração
de poetas angolanos. Eu, apesar de estar a acompanhar de perto através das
redes sociais e publicações impressas,
procurei e procuro manter-me à parte
de todas essas questões, algumas das
quais falsas, absurdas e de um despropósito que não é recomendável a ninguém. No entanto, penso que quem o
fez no sentido de deitar abaixo uma
série de novos autores não terá sido
suMicientemente coerente com o que
se assiste desde Minais do século pas-
Nok Nogueira, pseudónimo artístico de Emílio Miguel Casimiro,
nasceu a 24 de Dezembro de 1983,
em Luanda. É jornalista de proFissão e escritor. Trabalha na Televisão Pública de Angola (TPA) desde
2004, tendo antes passado pelo extinto Semanário Actual, pela Rádio Ecclésia, e pelas
revistas África Today e Vida. Colaborou no
Jornal de Angola, onde, para além do trabalho jornalístico, publicou, no suplemento
semanal Vida Cultural, textos poéticos e de
análise crítica sobre diversos temas ligados
à música, à literatura e às artes plásticas.
Foi distinguido, em 2004, pelo Instituto
Nacional do Livro e do Disco (INALD), com
o Prémio Literário “António Jacinto”, pela
obra poética “Sinais de Sílabas” (seu livro
de estreia), e publicou, pela União dos Escritores Angolanos (UEA), o poemário
“Tempo Africano” (2006). Em 2011, marca
a sua estreia internacional no contexto editorial lusófono com o livro de poemas “Jardim de Estações”, editado pela nósSomos.
Interessa-se também pela pintura e pelo
desenho, sobretudo pelo desenho a pastel. É
membro da Brigada Jovem de Artistas Plásticos (BJAP). É mentor e fundador do Movimento Associativista Artístico e Cultural –
Atelier Monumental. É estudante do curso
de Ciências da Comunicação no Instituto
Superior Politécnico Metropolitano de Angola (IMETRO). É membro efectivo da
União dos Escritores Angolanos.
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25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Cultura
Duas históricas aulas literárias na FLUL
LOPITO FEIJÓ
D
uas memóraveis e muito
concorridas aulas abertas
aconteceram na Faculdade
de Letras da Universidade
de Lisboa- FLUL, promovidas por Ana
Mafalda Leite, Professora Associada
com Agregação do Departamento de
Literaturas Românicas da supra-citada Universidade.
Na primeira, para estudantes – licenciandos e mestrandos –, professores, bibliotecários da Universidade e
público interressado nas falas e escritas das literaturas africanas e angolana em particular, estivemos em companhia de Zetho Cunha Gonçalves e de
Nok Nogueira com Ana Paula Tavares
e Alberto de Oliveira Pinto prestigiando-nos na assistência.
Abordamos questões em torno da
História, dos movimentos, correntes e
publicações geracionais desde os ídos
do «Vamos Descobrir Angola» até às
Brigadas de Literatura, em que o Nok
contribuiu, com uma panorâmica sobre os novíssimos do seu tempo em
busca de aRirmação, tendo citado os
nomes de Décio Mateus, Gociante Patissa, David Capelenguela e Nguimba
Ngola, Kiokamba Kassua, Moisés Sandombe, Carlos Pedro e Avó Ngola Avó
como sendo alguns dos seus correligionários dentre os quais, em seu en-
tender, alguns prometem «algo algum» para o futuro das belas letras angolanas. Temos a certeza de que Nok
citou-os consciênte de que não deve
ser juíz de uma partida onde ele mesmo ainda actua como jogador.
Zetho Gonçalves falou da sua experiência de autor com cerca de vinte livros (de poesia, infanto-jovenis, traduções, antologias e outros...) publicados e desconhecidos em Angola e Portugal pois, maioritariamente, foram
editados no Brasil em função das políticas editoriais e da marginalização
editorial de alguns autores, principalmente nas terras de Camões.
Na segunda aula, quinze dias depois, no mesmo local, espaço e com a
mesma assistência, Rizemos a apresentação, por junto e atacado, dos três
mais recentes livros de poesia do poeta David Capelenguela que para o efeito deslocou-se a Portugal.
O VÉU DO VENTO, editado pela
União dos Escritores Angolanos e acabadinho de chegar aos escaparates
das nossas livrarias. TIPO-GRAFIA LAVRADA e GRAVURAS D’OUTRO SENTIDO, edições da Chá de Caxinde, que
neste espaço tivémos já a oportunidade de referenciar.
Depois da nossa intervenção em jeito de apadrinhamento, Capelenguela
falou de si e da sua poética. Da sua infância e juventude, das suas vivências
e convivências na região sul de Angola
deixando boquiaberta a assistência
que, secundando a nossa voz, não hesitou em considerá-lo mais um legítimo herdeiro da dicção antropológicopoética de Rui Duarte de Carvalho.
Aconteçeu assim o baptismo do poeta
Capelenguela, tal como já haviamos
feito com o Nok, no mesmo local.
De ilustres desconhecidos passam
agora a ser jovens poetas conhecidos,
queridos, admirados e prontos para os
fornos dos estudos das literaturas
africanas nos círculos académicos lisboetas. Remato Rinalmente, considerando históricas estas duas aulas na
FLUL. Ponto Rinal!
Me parece que da temática do amor
a mulher construtora de poesia tende
a escrever de um modo característico
em desdobrado prazer, sobretudo no
sonho de afectos e sensações emotivas, que se centram para a ardência e
amostra de momentos singulares de
paixão.
A paixão que se direcciona suave e
proporcionalmente para um universo
masculino, que, com medo de apontar
energeticamente os seus afectos e vivências, buscam profundamente encontros e reencontros, bebidas e proclamações que tangem as “Pálpebras
do Passado”.
Do poema Doce Saudade se remete
a hiperbólica conRiguração para enaltecer sonho e doçura das sensações
perante o cosmos utópico de Dalomba, que sente da transRiguração das sementes, da plantação do cafezal, e
também da doce sombra onde os pássaros chilreiam, e tornam doce a paisagem, o canavial.
A mágoa também doce repousa no
coração pela simbologia romântica
que se traduz de um foco de ternura
pela “saudade do mato”, e pela glória
simbólica e memorial das “costas no
chão na contemplação do zénite”, onde fogo e tensas propostas resvalam. A
pensar no cheiro da saudade como o
“Moinho de pedra dribla o grão/ Plantações de café à sombra de passarinhos”, alargam a beleza paisagística da
realidade “Cana brava a Rlorescer cristais de açúcar” para depois se convocar a “a doce saudade no coração magoado/ saudade do mato”, das “Costas
no chão na contemplação do zénite”,
para resgatar belezas perdidas que se
contratam com “A memória na revolta
presente de uma tragédia”, “Quem estrangula o meu mar”.
A invencibilidade de um povo destemido da guerra civil, que em Angola
parecia não ter Rim, passa do crivo da
poesia de Amélia Dalomba com todas
as mínguas o povo do Kuito Cidade em
Fumo clama e proclama-se vencedor
mesmo quando os “Olhos de pluma
vagueiam bondade na cidade em fumo/ Morte ressuscita cada despertar”.
Dolorosamente os velhos, crianças
e mulher grávida na “Inocência indaga
bala nas fachadas dos passeios”, daí se
anuncia esperança a gesticular preces
ao generoso
. É o fumo da guerra que se faz leve
nuvem pela credibilidade, “Dos cultos
ancestrais que nos dão vida/ A história pelo mastro”, como bandeira “A que
chamam Rlor”.
Odivelas, Maio/2012
O locus dialógico da poesia de Amélia Dalomba
AKHIZ NETO
A
articulação da palavra para
a poesia, em Noites Ditas à
Chuva, de Amélia Dalomba,
se acha “Na voz ferida todos
os abismos deglutidos pela esperança” e coisas doces e de prazer se fundem e a Rigura “Foi Ricando pela orla do
corpo”, como “Nasce o poeta do cravo a
rosa a maresia no olho do mar”.
A colonização encerra em si uma rede dialógica e pontilhada pela costura
das ideias que tendem a enaltecer um
quadro clínico de essência obscura. Se
construindo a obscuridade a presença
da cor. Em que a cor negra é vista como
de Satanás, ignorante, a do homem
sem coração. Nessa negatividade conceptual e como reRlexo da obscuridade
que se pretende evocar, é a cor negra
que por dentro da realidade não passa
senão de manobras e paradoxos para
uma melhor governação, maltratando
assim o autóctone negro, de sua própria terra, sobre o quadro energético
do tribalismo, regionalismo, etc.
Tudo para uma obscuridade sentida que se projecta na violência e no catolicismo (sem violência) ao serviço
do poder político vigente, da era.
A poetisa convoca para o poético os
rostos negros associados à fome, ao
infortúnio, à morte, à magia, enRim:
Rostos negros conjugam fome com
vontade de morrer
A ira aos pés do infortúnio
História vadia das terras sem volta
E montes de luto endeusados pelas
casas de feitiço e banhos
e fumaça de ossos de bichos
escalam o Tchizo[2]
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Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
Manongo-Nongo a festa dos recém-nascidos
Luciano Canhanga narra histórias de mais velhos que moldam o carácter dos mais novos
TAZUARY NKEITA
M
anongo-Nongo não é
apenas a festa dos recém-nascidos, é também
a festa de um recém-admitido no mundo da literatura. Apesar do Luciano Canhanga ser um jovem jornalista com uma experiência
profissional de vinte anos, conheci-o
há apenas quatro anos por intermédio de amigos comuns, também ligados ao jornalismo e à literatura. Facto curioso entre ele e eu, é que ambos iniciamos o jornalismo com a
mesma idade, 19 anos. Eu em 1975,
quando Angola estava a nascer e ele
em 1996 quando a independência já
era adulta. O mais curioso ainda é
que desde que o conheci, ele não deixa de me surpreender.
Surpreendeu-me a primeira vez
quando me pediu para fazer a revisão
e escrever o prefácio do seu primeiro
livro, “O Sonho de Kauia”, em 2010.
Surpreendeu-me novamente quando tomei conhecimento da publicação
deste “Manongo-Nongo - a Festa dos
Recém-nascidos” - meses depois de
ele ter pedido a minha opinião sobre
um outro livro, “O Relógio do Velho
Trinta”, a obra que ele já anunciou.
E, como se não bastasse, voltou a
surpreender-me pela última vez há
menos de três dias, quando me convidou para fazer esta apresentação, em
cima do joelho e quase na “Vigésima
Quinta Hora”.
Aceitei este desaIio única e simplesmente por causa do espírito de combatividade que lhe é característico,
que nos contagia a todos, e que tenho
elogiado desde que o conheci. E sinto
um imenso orgulho por ser chamado
de “padrinho” de um jovem assim,
quando eu próprio, também, me sinto
à deriva, procurando padrinhos, como
se fosse um recém-nascido mergulhado neste complexo universo que caracteriza a literatura angolana.
Talvez não seja o melhor dos exemplos, entre os possíveis, mas o sentimento que me anima, estando ao lado
do Luciano Canhanga, neste momento, é precisamente o da obrigação de
um proIissional da saúde, chamado a
socorrer com urgência o nascimento
de uma criança; a sensação de alguém
que vai sentir nos braços a respiração
de um novo ser; o bater súbito de um
coração na ponta dos dedos, mas, descobre, diante dos olhos, uma nova espécie de criação humana – quero dizer, o nascimento de uma obra literária com uma riqueza, um conteúdo e
uma vitalidade impressionantes!
Manongo-Nongo merece, por mérito próprio, ser também, por isso mesmo, a cerimónia festiva da consagração do autor no universo da literatura
angolana.
É o mínino que posso dizer sobre o
efeito que a leitura de “Manongo-Nongo – a Festa dos recém-nascidos” causou em mim.
O Luciano Canhanga tem agora a
oportunidade de alimentar o seu recém-nascido, espalhando repetidamente os ecos e a boa nova desta cerimónia, com a mesma combatividade
com que tem enfrentado os obstáculos
do seu dia a dia.
O livro que nos chega, hoje, às mãos
merece uma repercussão nacional. Se-
ria uma cegueira imperdoável pensar
que o principal interesse por Angola
hão-de ser eternamente as minas de
diamantes, os poços de petróleo ou o
jogo político. A prova está aqui, na
apresentação destas histórias fantásticas com um retrato magníIico da vida, da cultura e do património de povos de Angola e na mensagem que o
autor nos transmite: a nossa cultura é
vasta e o trabalho que nos espera é
maior ainda!
É um livro que se aconselha a todos
os estudantes e amantes da literatura
angolana; um livro que nos oferece
histórias de mais velhos que moldam
o carácter dos mais novos, transmitindo conhecimentos e uma hierarquia
de valores morais e sociais cujo resgaste há muito se anda à procura.
É um livro onde os animais irracionais dão lições de civismo aos seres
humanos e cuja repercussão nos faz
exclamar “esta é Angola, esta é a nossa
terra; esta é a nossa gente!”.
Outra caraterística é a recolha de
mitos populares sobre a vida, a doença, a morte e o feitiço. O autor reproduz histórias do dia a dia das aldeias
que percorreu e termina com a lição
moral que elas encerram, transmitindo valores fundamentais e fraquezas
do génio humano, tais como a solidariedade, a ingenuidade, a inveja, a ignorância, a ingratidão, o ciúme, a conIiança mútua e o triunfo da verdade e
da justiça!
Se quisermos ser rigorosos na análise, Manongo-Nongo não é propriamente uma obra infanto-juvenil, mas
um livro que os adultos devem ler e interpretar para as crianças.
É, Iinalmente, um livro que chega na
hora certa e no contexto mais certo.
Espero por conseguinte que ajude a
aumentar os níveis de conIiança de todos aqueles que ainda estão indecisos
quanto à qualidade e ao futuro da literatura angolana.
__________________________________
Texto, com ligeira adaptação, lido na
apresentação do livro “Manongo-Nongo”,
de Luciano Canhanga, na sede da União dos
Escritores Angolanos, em Luanda, no dia 05
de Junho.
10 | LETRAS |
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Cultura
Compasso do ritmo na nona brisa
DAVID CAPELENGUELA
E
m Angola, o periodo postindenpendência produziu
importantes nomes que,
com o andar do tempo, foram sendo classificados de diversas
formas. Há quem os tenha chamado
de geração de 80, geração post-independência porquanto o crítico
lierário Luís Kandjimbo os apelidou
de geração das incertezas, e vários
outros nomes.
É neste conjunto de talentosos trabalhadores da palavra poética que
emergem nomes como o de Lopito Feijóo. De vocação experimental, paródica discursiva, hermetismo, humor a
desconstrutividade ou ludismo dos
signos, é muitas vezes referenciado
como “rebelde” quiçá, dada a sua forma telúrica, irreverência e boemia.
Mas este simples homem, na nossa
(i) modesta opinião gente de trato fácil, atento e de sensibilidade apurada
para pormenores culrurais, é um artista de grande alcance e signiKicado,
se buscado na sua exigência e rigor no
âmbito do labor estético e poético. O
contacto directo com uma dada peça
de artesanato, a tela e a banda desenhada, o instrumento musical, a fotograKia e o som do vai-e-vem das ondas
do mar fazem o seu quotidinao.
Se ontem via o mar pela varanda da
“zona libertada” e à distância, hoje,
sente a nona brisa a convidá-lo para a
conversa com as calemas, com o gesto
singelo do pescador passante ou mesmo com a imersão do sol quando o dia
já pede passagem à noite. Vive praticamente com e no mar. Sente as ondas a
tocar os alicerces do muro de vedação,
ao ponto de dar-lhe a sensação de se
deixar levar pela aderência do instante, efeito do “kalunga”.
Enquanto signiKicado de transmissão colectiva, kalunga, é mar em muitas
línguas nacionais do nosso país, embora a este se tem adicionado o de “deus
da dvindade da morte”. Mas aqui questionamos, a morte de quê ou de quem?
Lendo o livro “Véu do Vento”, de um poeta angolano editado pela União dos Escritores Angolanos em 2011, na página
que dedica aos seus pais, o poeta diz:
“À memória de meus pais(...), porque a terra é apenas tapete por um lado e cobertor pelo outro, apenas uma
fronteira estreita entre aqules que a
pisam e aqueles que saõ cobertos por
ela, entre o exército do movimento e
os do repouso, duas multidões unidas
por um esquecimento mútuo”.
Remetendo-nos ao conceito de
morte, para uma tentativa de análise
perfunctória, diríamos que a natureza
da objectividade com que se nos apresenta a morte, enquanto viventes, por
vezes leva-nos à percepção de que os
mortos não têm o direito de viver, porquanto este mito não passa de mera
crença, considerada como um processo paralelo ao da passagem do sagrado para o profano. Mas para os produtores de arte, Lopito Feijóo e Aminata
Goubel, na casa que desde o primeiro
ao terceiro andar, aliás ao terraço, é
uma verdadeira transmissão de vida,
viver a arte é uma perfeita combinação entre o imaginário concreto e a
transferência da vida para uma dimensão além-morte e, em consequência, para eternidade enquanto concepcionalidade do crer, ser, estar e ser, assim mesmo como dizia este poeta:
Ao Filimone Meigos, Luis Cezerilo
e Eduardo Quive, poetas Moçambicanos…e a Aminata, Palú, Lina e Melita também poetas por transmitirem sensibilidades.
“O som do batuque da leba
Lembra o canto otyitalukilo
Todos cantam
Dançam daqui às ondas do mar
Passa um recital de poesia
Passa outro
E todos amparam o rasgo do Índico
Temperam a afeição e canto do sul
E vem conferir a urgência do kimbundu
Na voz do poeta de africalema
Em transparência do acto
Perde-se a noção do adeus
Que o sol adensa
Sob olhar atento da nona brisa
Um ninge na tradição umbundu
Magno devastador
Aqui transformado em gesto
[estimulante
Medita a gravitação da entrega
Enquanto à dois passos do alicerce
As ondas estendem-se, batem
E vão
E em vão
Soberbas cobrem os corpos na água
Ao som do batuque na praia
As vezes uma (lo)pitadela no petisco
E se a golada do marufo
Aguarda a vendedora passante
A the famous grouse faz a vez”.
Na “nona brisa”, cada dia de domingo é dia de reKlexão, tertúria, recital,
debate, teatro e dança com “batuque
na praia”, onde todos vibram e vivem,
vão e com veemência regressam do
mar e mergulham na dança, sentem o
pulsar do canto e revestem-se do gesto e da força da arte dos antepassados,
já que absorvidos pela espiritualidade
do som do batuque.
Estas pequenas manifestações, revestidas de grande esssencialidade e
signiKicado estético e artístico, que se
somam e revigoram sob a reivenção
do momento, não se rendem “à conKiguração simplicista fruto de uma intuição que vagueia”, mas pelo contrário, quando feitas com virtude e talento, precisão e concisão sob a orientação do querer e contribuir para o engrandecimento cultural, “realizam a
solenidade” das artes e “os seus cultores se podem orgulhar de lhe terem
rendido a excelência”.
| LETRAS | 11
Cultura | 25 deJunho a 8 de Julho de 2012
A literatura infantil angolana
“Filhos do coração” filhos de África
Meio de educação e de resgate e preservação dos valores e tradições
NGUIMBA NGOLA
M
arta Santos, escritora angolana, escreve no livro
“E nos céus de África...
era Natal” que tem Qilhos
que escolhem as suas mães, “são os Qilhos do coração, os que aceitamos,
porque temos amor para dar!” São para mim, Qilhos de África que protestam, sentem a necessidade de uma infância condigna, educação para todos
sem distinção, logo garante de seu desenvolvimento.
Vem dai a literatura infantil angolana contribuindo para a educação das
crianças pois é inegável a importância
que ela tem. Por meio dela a criança
desenvolve a imaginação, emoções e
sentimentos de forma prazerosa e signiQicativa e acima de tudo a carga pedagógica que encerra. O livro é um elemento fundamental no processo de
desenvolvimento da criatividade e da
personalidade das crianças. A literatura infantil deve então ser concebida
visando o deleite e a recreação mas
acima de tudo a formação. Fácil notar
nos autores angolanos essa preocupação a julgar pelos títulos dos livros editados: “A esperteza dos animais” de
John Bella, “Dois reis no céu para a terra” de Yola Castro, “O luar do saber” da
Marta Santos” e outros nomes que
pintam letras na escassa mas que se
quer vasta literatura infantil angolana.
E aproveito aqui parabenizar a nova
escritora vencedora do prémio “Jardim do Livro Infantil” Zulini Bumba,
aguardamos pela obra. A literatura infantil angolana vem ainda a ser meio
de resgate de valores ao propor estórias onde, como escreve Maria Celestina Fernandes “Aparecem personagens
que são Qiguras míticas, como a sereia
kianda, a deusa das águas, os gingongos (gémeos, tidos como pessoas sobrenaturais) e também os seres inanimados da natureza que falam, sentem
e se emocionam como os humanos. Os
autores identiQicam-se bastante com o
seu meio, a terra de origem” a moral
das estórias traz ao de cima os valores
da solidariedade, amizade, persistência, empenho, amor.
John Bella, o mais prolíQico dos escritores na vertente infantil, escreve
no livro “Estes dois são cão e gato” :
“Tata Yetu não gostava de sujidade.
Por isso achava bonito,
quando via gente a pegar em vassouras, varrendo as ruas do local onde
morava.
Depois apanhava-se o lixo. Era colocado no balde e iam deitá-lo no
contentor...”
No livro “O golozo” de Yola de Castro
o menino Juca mostra persistência,
empenho, para ser um bom jogador de
futebol. “Juca procurava estar sempre
informado sobre as últimas do futebol. Assistia a todos os jogos na televisão... Sonhava com o futebol... No seu
imaginário, marcar golos para a vitória fazia-lhe experimentar um gozo
superior ao da realidade.” A solidariedade de Tiago sente-se por ele nos
seus sonhos oferecer balões vermelhos a todas as crianças. Aprontou-se
para a “festa festança” no Jardim do Li-
vro Infantil onde certamente partilharia com amigos muita alegria como se
lê no livro da Cremilda de Lima “ O balão vermelho”. Apreciamos ainda o
exemplo da veradeira amizade que deve ser valorizada no livro de Áurio
Quicunga, “Lodinho, menino de lodo boneco de ouro”.
A kianda, o mar, o pescador, são temas recorrentes que trazem ao imaginário infantil aquilo que constitui “as
nossas tradições/ as nossas raízes culturais” escreve Cremilda de Lima no livro “A kianda e o barquinho de Fuxi”. A
oralidade está muito presente nas
obras o que aproxima as crianças ao
objecto livro pois a linguagem e alguns
contos são inspirados na oratura, a Qim
de introduzi-las na cultura tradicional.
A biblioteca viva é a Qigura do avô
que conta nas noites de luar onde “o
canto das cigarras e o crepitar das fogueiras acesas...” aumentam o encanto
de ouvir. É assim na África, “avós e netos à volta da fogueira, a aprenderem
coisas novas: lições de vida!”.
O Fuxi, esse nome africano era-lhe
assim chamado porque nasceu a seguir aos gingongos, “com as suas mãozinhas foi fazendo ondas e o barquinho navegava mesmo... Não se contentou só em fazer ondas pequeninas.
Não! Quis também fazer ondas grandes... cada vez maiores... e assim... Que
“GRANDE CALEMA” Desesperado e lágrimas nos olhos vem o avô para o
consolo. Fuxi vai então “aninhar-se
nos joelhos do avô, “um velho pescador, cabelos brancos, olhos de quem
viu e sabe tanta coisa do mar” que lhe
iria contar a história da Kianda.
“...escuta... vou-te contar uma história que o meu avô me contou e ele dizia
que o avô dele já tinha contado...
Certa noite...”
A kianda, Qigura mítica, é apresentada ao Fuxi e este percebe então que
“Não é só ir buscar peixe, é preciso
também dar de comer e beber a kianda” a rainha do mar manifesta-se na
grande onda os pescadores “para aclmarem a kianda” deitam comida, bebidas ao mar. “Todos os anos fazem uma
festa do MAR em sua homenagem”. assim todos os “fuxis” percebem, ainda
que fantasiosamente, a tradição, e
identiQicam-se com a cultura.
O gênero poesia, precisamente a
poesia infantil, não é cultivada tendo
sido apenas publicado escassos títulos. Ocorre-me agora o nome de Manuel Rui com “O Assalto, 1979” e Maria
Celestina Fernandes com o livro “A estrela que sorri 2005” do qual retiro
versos do poema “o pescador” para selar minha divagação nas letras para os
“cambongas” que são deveras “Qilhos
do coração”:
“Seguia remando seu dongo
garboso pescador da ilha,
quando, no alto mar,
ouviu um canto de encantar.
...
ora, no canto e na luz
que da sereia seriam,
Qicou para sempre enterrado
o sossego do garboso pescador.”
Mulemba waxa Ngola, 06 de Junho
de 2012. 01:10´
12 | ARTES | Teatro
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Cultura
Festival Internacional de Teatro e Artes – Luanda
A Internacionalização como sinónimo
da qualidade do Teatro Angolano
ÁURIO QUICUNGA*
P
assaram já quatro anos desde que a cidade de Luanda
ganhou mais um festival internacional de teatro (a par
do festival de Teatro do Cazenga-FESTECA), desta feita o Festival Internacional de Teatro e Artes – Luanda, organizado pelo Elinga Teatro, que vai
na sua 2ª edição, visando comemorar
a sua data de aniversário (21 de Maio).
Nestes 24 anos de Elinga, a abertura
do festival, que aconteceu de 17 a 31
de Maio de 2012, contou com a presença da ministra da Cultura, Rosa
Cruz e Silva e da Vice-Governadora para a esfera social, Juvelina Imperial,
que fez ponto forte da sua explanação
a carta branca dada aos grupos de teatro para que doravante possam utilizar os anPiteatros das diversas escolas
para desenvolvimento das artes cénicas.
Na cerimónia de abertura do festival, o grupo Horizonte Njinga Mbande,
considerado o guru do teatro angolano, foi agraciado com o prémio “Elinga
Teatro” pela sua persistência e dedicação ao desenvolvimento das artes cénicas durante 26 anos. Houve um momento de comédia – Free Yourmind
com representantes da Namíbia, e seguiu-se a exibição do Horizonte Njinga
Mbande, de Luanda, com a peça “Uanga, Feitiço”, de Óscar Ribas, um romance folclórico angolano, que retrata a
sociedade luandense dos Pins do século XIX, com os seus usos, costumes e
tradições, peça que contou com a encenação de Adelino Caracol.
Participaram seis grupos de Angola,
respectivamente pela ordem de exibição: Horizonte Njinga Mbande com a
peça “Uanga, O feitiço” de Oscar Ribas,
Elinga-Teatro com a peça “A Errância
de Caim”, versão para o teatro de José
Saramago, Projecto Perpetuar com a
peça “O Método de Groholm” de Jordi
Garcerám, Grupo Pitabel com a peça
“O Preço do Fato” texto de criação colectiva do Grupo Pitabel, Companhia
de Teatro Dadaísmo com a peça “Luanary” versão para o teatro de Luanary
de Adriano B. de Vasconcelos, Grupo
Vozes de África (Huambo) com a peça
“O Reino da Desigualdade” de Nelson
Pedro Nhanga, e o grupo Henrique Artes com a peça “fragrância de Amor”
de Flávio Ferrão.
Portugal esteve representado pelo
grupo Voz Humana, que exibiu a peça
“Três Mulheres”, de Sylvia Plath, já o
Brasil se fez representar por dois grupos, tratou-se dos grupos Dragão 7,
que trouxe na bagagem “O Auto da
barca do Inferno” de Gil Vicente, e o
grupo O Pecado que exibiu o monolo-
go “O Órfão do Rei”, da autoria de José
Mena Abrantes.
De Moçambique veio o teatro jovem
e estético do grupo Lareira (que brilhantemente tem representado Moçambique nos festivais internacionais
de língua portuguesa), com a peça “Cavaqueira no Poste” de Sérgio Mabombo, e de Cabo Verde a Companhia de
Teatro Solaris com a peça “Glória” de
Herlandson Lima Duarte.
As exibições ocorreram num clima
artístico, todas as sessões registaram
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
sala lotada, onde os grupos convidados, e não só, tiveram a oportunidade
de estarem próximos uns dos outros,
alguns encontrados somente noutros
festivais internacionais, numa trocar
de experiência entre encenadores, actores e técnicos, em conversas informais, que permitiu a discussão de aspectos ligados à actividade cênica e ao
actual estado do teatro, uma verdadeira festa.
Na opinião de Hilário Belson, encenador da Companhia de Teatro Dadaísmo, “esses eventos são importantes para a classe teatral angolana, pois
servem igualmente para unir actores
de diferentes nacionalidades, falantes
da mesma língua, pois chegamos à
conclusão que muitos problemas que
o teatro angolano enfrenta, como a falta de salas, de formação, de leis que regulem o exercício teatral e de organizações vocacionadas para as artes cênicas são enfrentados na mesma proporção por outros grupos africanos.”
Já Orlando Domingos director do
Festival de Teatro do Cazenga aUirmou
que “o festival do Elinga engrandece o
intercâmbio, consolida as posições já
conseguidas pelo teatro”.
Estes festivais devem ser encarados
como barómetros para que os grupos
possam medir o seu nível de crescimento quanto à consistência na concepção dos textos, o melhoramento
dos cenários e que os mesmos tenham
funcionalidade nas peças, e que não
sirvam meramente de função decorativa, o enquadramento e aperfeiçoamento das técnicas de luzes, que tem o
seu devido efeito e valor, assim com na
elaboração do Uigurino, e os traços que
marcam o conjunto da encenação.
“Hoje aprendemos várias correntes
Teatro |ARTES | 13
teatrais, vários tipos de teatro. Eu
acho que nós, angolanos, quando vamos a um festival internacional, é peremptório que tenhamos que mostrar
algo que é nosso, para saberem como é
a nossa cultura”, defendeu Adérito Rodrigues, encenador do Pitabel, e concluiu que “o teatro em Angola ainda
não vive os seus melhores momentos,
ainda há muito que se fazer”.
Contrariado por Flávio Ferrão, encenador do Henrique Artes, que mostrou a sua satisfação pela repercussão
que têm tido os trabalhos apresentados pelos grupos angolanos aquando
da participação em festivais internacionais, que aUirmou que “só não acredita que o teatro angolano está a crescer quem não quer ver, quem não vai a
uma sala de teatro, e não observa
aqueles itens que são apropriados para um verdadeiro espectáculo”.
“Nós, do teatro,lamentamos muito,
e não somos pragmáticos. Não é muito
fácil trabalhar nas condições em que
nos encontramos, mas nós somos os
actores deste processo.” Arrematou
Orlando Domingos, director do Festival de Teatro do Cazenga.
Além dos doze grupos que apresentaram as suas performances nos quinze dias de exibições, o festival contou
igualmente com exibições do grupo
Fee Yourmind da Namíbia, com um estilo de comédia que mistura cânticos
namibianos, com música urbana, poesia e teatro, o programa contemplou
ainda a actuação da Companhia de Artes Kussanguluka de Angola com um
espectáculo de dança teatralizada, sobre a história de Tchibinda Ilunga,
guerreiro e caçador Luba, que uniUicou o reino Lunda, teve ainda exposição de pintura e sessões de música ao
vivo no seu encerramento.
Faltou a Guiné-Bissau e São Tomé e
Príncipe, para que tivéssemos, de facto, representados todos os países falantes da língua portuguesa no continente africano, quem sabe na 3ª edição se concretize ou em outras iniciativas como esta realizada pelo Elinga,
que não seria possível sem o alto patrocínio do Governo Provincial de
Luanda e os apoios da TAAG, da Sonangol, do BPC, da TipograUia Corimba, do Jornal de Angola, do Novo Jornal, e do jornal O País.
Até lá... Que as cortinas não se fechem e os holofotes não se apaguem.
ACÇÃO!
Só na transição da década de 1960
para 1970 se assiste à criação de uma
empresa de teatro Uixada em Angola, a
Companhia Teatral de Angola (CTA),
com o Uim confessado de “ser comer-
cial e divertir”.
Os primórdios do teatro angolano
começam por ser encontrados em
três experiências concretas ocorridas
antes da independência: a primeira
nos bairros suburbanos de Luanda
nos anos 1950/1960 (na acção dos
grupos Gestos e Ngongo e nas dramatizações dos grupos carnavalescos Cidrália, Kabokomeu e outros), a segun-
Escritor, actor e comunicólogo.
Teatro cada vez mais angolano
*
ÁURIO QUICUNGA
O
teatro, expressão máxima
de um povo, registou as
suas primeiras manifestações em Angola na sua forma laica, só em meados do século XIX,
concretamente nas duas décadas
compreendidas entre 1845 e 1865,
onde se encontram referências sobre
um teatro feito em Luanda por “jovens
portugueses da classe do comércio”,
como nos comprova José Mena
Abrantes, em Teatro Angolano.
O autor dá-nos conta que, na época,
todos os espetáculos eram interpretados exclusivamente por homens, devendo as senhoras, mesmo na assistência, ocuparem uma galeria a elas
especialmente destinada. A população autóctone, pela própria diferenciação social imposta pela dominação
colonial, não tinha acesso às salas de
teatro.
14 |ARTES | Teatro
da em bases guerrilheiras no Leste do
país (com o chamado “teatro de pioneiros na guerrilha ”) e a terceira nas
escolas da capital em 1975.
O grupo cultural músico-teatral
Ngongo, criado em Outubro de 1961,
tinha como principal característica a
congregação no seu seio de um grande número de compositores, músicos, coreógrafos, actores, autores,
poetas, declamadores, dançarinos,
vocalistas e arranjadores, o que lhe
permitiu, segundo Mena Abrantes,
explorar vias originais e desenvolver
uma múltipla actividade nas áreas da
música tradicional, da música popular urbana, do teatro, da dança, da
poesia e da declamação.
O teatro feito em Angola nos primeiros anos da independência e até
Pins de 80 foi irrelevante como fenômeno cultural. No período, apenas
estiveram activos os grupos ligados à
Secretaria de Estado da Cultura, como o GAT (Grupo de Amadores de
Teatro), o GIT (Grupo de Instrutores
de Teatro), e o GET (Grupo Experimental de Teatro); o Kapa-Kapa, grupo tutelado pela UNTA (central sindical) e os dois primeiros grupos que se
podem considerar independentes, o
Tchinganje e o Xilenga.
Por essa razão, o movimento teatral só a partir de Pins dos anos 80 começou a ganhar outra expressão,
com a criação do grupo cultural Makote (Os Makotes), da escola 1° de
Maio; do grupo da Faculdade de Medicina; do Horizonte Njinga Mbande
(1986), da escola do mesmo nome;
do Oásis (1988), tutelado na altura
pela Anghotel, e do Elinga-Teatro
(1988), herdeiro directo do Tchinganje e do Xilenga.
Outros grupos foram surgindo, como o Enigma que substituiu os Makotes, o grupo Julú (1992), o Etu-Lene
(1993) e Miragem (1995), e mais recentemente têm estado a aPirmar-se
no plano interno e internacional o
Henrique Artes (2000), o Pitabel
(2001), a Companhia de Teatro Dadaísmo (2006), o Diassonama, o Protevida, o Vozes de África (Huambo), o
Damba Maria e o Ombaka (Benguela)] e alguns outros.
Para além destes, o que existe é
uma proliferação desmesurada de
25 de Junho a 8 de Julho de 2012
pequenos grupos teatrais (mais de
100 só em Luanda e algumas dezenas
nas várias capitais provinciais), quase sempre ligados a igrejas, escolas
ou empresas, sem infraestruturas,
sem meios técnicos e materiais suPicientes e sem formação adequada.
|
Cultura
Teatro Angolano volume um e dois,
da autoria de José Mena Abrantes,
duas obras de consulta obrigatória
para os fazedores de teatro, demais
estudantes e amantes do teatro, para
melhor compreensão da história das
artes cénicas angolanas.
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
Etu Lene estreia peça
Teatro |ARTES | 15
“Quem Matou o Velho Kipacaça”
KINDALA MANUEL
O
grupo de teatro Etu Lene apresentou em
estreia, no decurso da segunda quinzena
de Maio, na Liga Africana (LAASP), a peça “Quem Matou o Velho Kipacaça”, uma
representação baseada no livro de contos “A morte
do velho Kipacaça”, do escritor Boaventura Cardoso.
A peça foi produzida em Janeiro do ano em curso
e é uma adaptação da encenação original de “A Morte do Velho Kipacaça” do grupo de teatro Oásis, exibida pela primeira vez em 1999 no FENACULT. A
narrativa reHlecte a vida, hábitos e costumes de uma
povoação, algures na região Centro Sul de Angola,
centrada na descoberta das causas da morte de um
dos melhores caçadores da região, uma situação
considerada como a causa do surgimento de várias
calamidades no kimbo.
Vinte horas, as cortinas vermelhas do palco
abrem-se, e o público avaliado em 130 pessoas, presente na sala da Liga Africana, soltava aplausos com
a entrada dos actores para a encenação da peça. O
palco inundado de luzes vermelhas e verdes apresentava uma caracterização composta por casas de
adobe cobertas de capim, e montanhas a circundar a
zona. Um cenário típico algures do Centro Sul de Angola.
A ansiedade no rosto do público era patente, pelo
desfecho que iria resultar dessa coisa de um caçador
“tungar” pacaças e elefantes. A peça começa com a
dona Teté, mulher do grande caçador Kipacaça, que
conta à vizinha o mau sonho que tivera, do marido
que foi à caça e não voltou. De repente, aparece Kipacaça, com a sua infalível caçadeira, e ao aperceber-se do sonho da esposa, procura acalmá-la e aos
vizinhos com as suas famosas histórias de caça, contadas em jeito de humor.
Kipacaça não se cansava de contar ao quimbu que
ele era o único homem na aldeia que, ao cabo de três
horas de luta, venceu mais de dez pacaças, lutou
com elefantes, leões e onças, e como se não bastasse,
até o cágado o homem já havia derrotado, tendo feito recurso a cabeçadas, socos, pontapés e bassulas,
sem sofrer nem um único ferimento. E, para surtir
os efeitos desejados, as suas piadas faziam-se acompanhar sempre de gestos que traduziam os seus
malabarismos e acrobacias. Este foi um dos momentos que convidou a plateia a aplaudir Kipacaça, devido à sua forma de interagir com o público.
Na sequência da peça, Kipacaça decide ir à caça.
Na caça, ele conversa com Pupangombe, o ser invisível, venerado como sendo o protector de caçadores
da região, com o qual aborda o sonho que a esposa
teve. Passados seis meses, Kipacaça não volta da caça, então o soba do bairro decide reunir com os familiares mais próximos, para saber da causa do não regresso de Kipacaça. Kapapia, o jovem que na sanzala
é dado como homem preguiçoso e rabujento, era o
mais chegado ao caçador. Kapapia foi o único que
viu a hora e a direcção que seguira o seu amigo, um
detalhe que mateve em segredo durante seis meses,
por temer a afronta de algumas mulheres da sanzala, elas, conhecidas como experientes e ávidas em
pôr na capanga homens imprudentes em determinadas situações.
Kipacaça era o garante da sobrevivência do bairro, devido à sua misteriosa técnica de caçar. Por isso,
durante este período a região enfrentou várias cala-
midades: fome, seca, e várias outras doenças. De
acordo com a tradição da região, uma vez que o caçador não regresse da caça, e nem o seu corpo é
apresentado ao Pupangombe, considerado como o
deus invisível que concedia sorte aos caçadores,
constituía essa ausência a causa da praga que assolava o bairro. Na reunião, o soba Bernardo perguntou a Kapapia sobre o paradeiro do caçador mas a
casmurrice do rapaz fê-lo não escapar das garras da
amiga Teté, esposa de Kipacaça, que lhe aplicou o
habitual cafrique de baixo-ventre que deixou o vaidoso rapaz sem acção durante cinco minutos, valendo-lhe a intervenção do man Bernardo, o soba gran-
de, que socorreu o indefeso salvaguardando a integridade masculina do moço.
Diante das indecisões, e instaurado o problema,
os mais velhos do bairro decidiram consultar a
quimbandeira Kufuca, para saber então “Quem Matou o Velho Kipacaça”. Ela era conhecida por adoptar
nos seus julgamentos técnicas duvidosas como a da
probabilidade e do terror. Durante o julgamento tradicional, Kufuca instaura um clima de terror e de
ameaça aos intervenientes no caso e, para se saber o
culpado, os envolvidos tinham de beber uma bebida
chamada “Umbulungu” na língua da zona Centro Sul
do país, um teste muito usado em certas regiões, em
16 |ARTES | Teatro
que a prova consiste nos presumíveis culpados tomarem a bebida. Em caso de falecimento, é considerado culpado.
Todos beberam, menos Kapapia. Temendo as probabilidades da quimbanda, decidiu contar que apenas tivera visto Kipacaça partir para a caça às primeiras horas da manhã. Por esta razão, Kapapia foi
achado culpado das várias calamidades que assolaram a região, ao esconder informações importantes
sobre a morte do Velho Kipacaça, que estaria a pôr
em causa a fúria de Pupangombe, o deus que dá sorte aos caçadores.
Depois da quimbanda ter dado o veredicto Qinal –
a justiça por mãos próprias – Kapapía foi agredido
brutalmente pela população, até lhe acertarem com
um pau na cabeça e acontecer o infortúnio. A peça
não acaba nesta cena, é bom mesmo ir às salas de
teatro para sentir as emoções produzidas pelos artistas da arte de representar. No decurso da apresentação, foi notória a interação entre os actores e o
público, algo que foi motivo de muitos aplausos e risadas, causadas pelas piadas.
Produzida em Janeiro do ano em curso, a peça foi
contracenada por seis actores e teve a duração de 50
minutos.
O encenador e a história do grupo
No Qinal, Beto Cassua, encenador do grupo, informou que decidiram readaptar a peça com o título na
25 de Junho a 8 de Julho de 2012
interrogativa pela importância que representa na
divulgação de valores culturais, usos e costumes do
nosso povo. Embora readaptada, o artista garante
que a peça é uma reprodução Qiel da obra do escritor
angolano Boaventura Cardoso.
|
Cultura
Fundado a 26 de Abril de 1993, o Grupo de teatro
Etu-Lene tem 10 actores, contando no seu acervo
com mais de 20 peças, dentre elas “O feiticeiro e o
Inteligente”, “Uiji Uijia”, “Balumuka” e “O kubele e a
sogra que engoliu sapo vivo”.
O regresso de Carlos Lopes
O músico está de volta ao mercado com uma proposta madura e muito pessoal
JOÃO PAPELO
povosdasuaterra.
Os seus temas, imbuídos de lirismo, revelam a simplicidade do cantor
perante a convivência e as controvérsias da vida. Revelam mais: a humanidade de quem escreve um poema e
canta-o, fazendo expor a dualidade
plástica do artista:
“
Angola, noites e luas” é o título
do CD do músico angolano
Carlos Lopes, apresentado ao
público em 2002, reeditado
agora para deleite dos ouvidos dos
que têm bom gosto e sabem apreciar
música de qualidade ímpar. A reedição deste disco acontece na senda do
lançamento do seu novo trabalho discográQico, intitulado “Angola, mares e
lagoas”, um CD recomendável aos que
gostam de música acústica tecida
com destreza de mestre.
Com “Angola, noites e luas” Carlos
Lopes propõe-nos uma viagem de primeira classe ao seu imaginário, cujas
reminiscências, várias vezes, atravessam uma Angola com os olhos embutidos de lágrimas. Mas foi no sorrir da
paz, em 2002, que o artista nos brindou com temas de boas notas para reQlexão. ReQlexão imperiosa sobre os
desastres da guerra, sobre o alvorecer
da paz, sobre a beleza das noites e luas
e sobre a textura do amor cantado.
Para mim, Carlos Lopes, antes de
músico, é o poeta, o escultor da palavra cantada, o pintor do verbo que faz
dançar. As suas músicas são espirituais na medida em que frisam um
país de pranto em pranto, lembrando,
não raras vezes, o Bié e o Huambo chicoteados pelos canhões da guerra ci-
um dia atraco
no teu porto
e vou esquecer
minha cidade
tiro rosas do teu rosto
e planto na minha herdade
viro lavrador
descontraído
com semente e viva alma
vil. Um exímio compositor que conjuga as estiagens de Cabo Verde com as
acácias Qloridas de Benguela, na música número cinco do disco “Angola,
noites e luas”.
Depois vem o músico, o artista do
ritmo e dos acordes, o mestre dos arranjos vocais. Um músico de primeira
linha da angolanidade. Um engenheiro electrónico de formação que faz da
música o seu estandarte e baluarte de
aQirmação no mosaico cultural angolano, pleno e diverso de potencialidades. A sua coloração musical aproxima-se à de André Mingas e Filipe Mukenga, dois clássicos nossos, sem
sombra de dúvidas, que cantam com
substracto de jazz atravessando o
nosso folclore.
Carlos Lopes sabe, melhor que ninguém, dar testemunho de si neste trabalho: “quando cai a noite, em Angola,
e o silêncio invade o meu redor, a guitarra torna-se, muitas vezes, a minha
companhia”.
“Aluaeasestrelas”,sublinhaomúsico,
“sãoquasesempreosúnicosespectadoresdestecasamentorepetido.Eodisco
‘Angola,noiteseluas’éoresultadodeste
cenário”,remata.Masestecenárioétambém um ponto de encontro, de um namoro com a tradição e a memória dos
(Estrofe do tema “Amar o mar”)
Aprecie-se a dicção chique (ou
“chic!”, como prefere escrever a cantora brasileira, Paula Lima, herdeira e
intérprete do espólio da Bossa Nova)
do umbundo pronunciado de Carlos
Lopes no tema Unandalê, que chora
as desgraças da guerra.
O novo disco de Carlos Lopes, “Angola, mares e lagoas” com 12 temas
interpretados em português, umbundo e nhaneca, entre baladas, bossa
nova e fusão de semba com jazz, foi
lançado no largo da LAC nos dias 16 e
17 deste mês.
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
A festa era da rádio
ARTES | 17
A informação em Angola nos anos 1960-74
RODRIGUES VAZ
Nos anos sessenta e setenta do
passado século, a rádio era o grande meio de comunicação social em
Angola, como aliás continua a ser.
Pode até dizer-se que a própria televisão que aqui se faz atualmente
continua a revelar o dinamismo
muito próprio do tipo de rádio que
então se fazia, o que acaba, paradoxalmente, por lhe dar alguma qualidade, que as estações portuguesas não conseguem, tão preocupadas que estão na sua tabloidização.
Não será diNícil perceber porque
é que se passava isto em Angola.
Por um lado, a rádio começou a ser
feita por pura carolice, nos chamados rádios-clubes que foram aparecendo pelo menos nas capitais
distritais, hoje capitais provinciais,
onde os mais interessados na cultura começaram a dar os sinais da
sua graça. Por outro lado, contou
também muito a inNluência brasileira que sempre se fez sentir, quer
ao nível de livros – era fácil, por
exemplo, arranjar em Luanda os livros proibidos do Jorge Amado –
quer de revistas - a Manchette e o
Cruzeiro eram as mais vendidas. E
não podemos esquecer que mesmo
noutros campos da cultura havia
um inter-relacionamento mais desenvolvido do que aquele que
acontecia entre a então chamada
erradamente Metrópole e o Brasil.
Depois, e talvez seja o mais importante, nos anos cinquenta passaram pelo Huambo, então denominada Nova Lisboa, homens como o Fernando Curado Ribeiro, um
proNissional de reconhecida qualidade cultural, que teve no Sebastião Coelho um digno seguidor, o
qual fez a rádio angolana alcandorar-se a um grande nível, com o seu
programa Café da Noite. Não esquecer, entretanto, o papel de pioneiros como Mesquita Lemos, Sara
Chaves, Cremilda de Figueiredo,
Maria do Carmo Mascarenhas, Joaquim Berenguel e Norberto Franco, nem de outros proNissionais como Alexandre Caratão, Santos e
Sousa, Carlos Meleiro, Arlete Pereira, Joana Campinos, José Manuel
Frota, Cecília Victor, Carlos Moutinho, Adriano Parreira, Rodrigues
Costa, Augusto Pita Grós Dias, Fernando Marques, Teixeira Júnior,
Gioconda Ferreira, Norberto de
Castro, Maria Dinah e Ferreira
Arouca. Nos últimos anos da presença portuguesa, vale a pena citar
o Manuel Berenguel, o Francisco
Simmons, a Luisa Fançony, hoje a
grande animadora da LAC, a Wanda Maria, e evidentemente o José
Maria de Almeida, do Luanda 74, e
o Emídio Rangel, que revolucionaram ainda mais a rádio angolana
com o seu proNissionalismo e competência, qualidades que depois
estenderam à rádio portuguesa depois do regresso, inovando e renovando a maior parte das estações,
onde alcançaram lugares ímpares,
como é o caso de Fernando Alves e
de Alberto Ramos, entre muitos
outros.
Já agora convém lembrar que a
radiodifusão em Angola, cujos expoentes além dos rádios-clubes, foram a Emissora ONicial de Angola,
hoje Rádio Nacional de Angola, a
Rádio Eclésia, Emissora Católica de
Angola e a Rádio Comercial, foi iniciada por um amador devidamente
autorizado em 28 de Fevereiro de
1931, Álvaro Nunes de Carvalho, o
CR6AA, motivo porque é considerado como o pai da rádio angolana.
Está claro que a primeira emissão
em circuito aberto foi feita em Benguela, a cidade que queria ser pioneira em tudo, até foi lá que se realizou igualmente a primeira emissão de televisão em Angola, pela
mão do conhecido fotógrafo Luís
de Camões. Acrescente-se ainda o
aparecimento de a Voz de Angola,
criada em 1968, que utilizava um
emissor de Onda Curta de 10 KW e
outro de Onda Média, com 100 Kw
de potência. Na realidade, a Voz de
Angola não chegou a existir como
emissora autónoma, uma vez que
emanava da Emissora ONicial de
Angola, EOA, constituindo como
que um desdobramento de emissão. No entanto, funcionava nas
instalações da EOA, se bem que
com estúdios e pessoal de produção próprios. Assumidamente dirigida à população autóctone, privilegiava as línguas nacionais mais
usadas e a música angolana. Por isso chegou a ter bons níveis de audiência, sobretudo na capital, embora os ouvintes se apercebessem
claramente que era um órgão político por excelência, com o controlo
direto da PIDE.
Intencionalmente, só agora reNiro a presença de outro proNissional
brilhante que muito fez avançar a
rádio em Angola: Paulo Cardoso.
Autor do famoso slogan “Se não
quer que noticie, não deixe que
aconteça”, Paulo Cardoso estaria à
frente do primeiro projecto de televisão comercial em Angola, a TVA, a
qual, apesar de não autorizada pelas autoridades, chegou a ser
“inaugurada”, em 1973, pelo General Costa Gomes, antes de abandonar o cargo de Comandante em
Chefe das Forças Armadas em Angola. Convidado a visitar oNicialmente as instalações da estação, na
então Rua Luís de Camões, hoje
Rua da Missão, ao lado do Hotel
Trópico, Costa Gomes só aceitou fazer uma visita “clandestina”, mas as
coisas estavam de tal maneira preparadas e de tal modo formalizadas, que no Ninal da visita foi-lhe
ofertada uma bobine com a reportagem da sua visita, devidamente
montada e registada. De qualquer
modo, foi o primeiro reconhecimento “oNicial”.
No entanto, o braço de ferro que
a PIDE opunha a qualquer tentativa de instalação de TV em Angola,
só vem a ser amainado em 27 de Junho de 1973, com a autorização da
constituição de uma sociedade
anónima para a exploração desses
serviços em Angola, que criaria a
18 |ARTES
Radiotelevisão Portuguesa de Angola, cuja sigla, RPA, para não ser
confundida com a da proclamada
República Popular de Angola, mudará para TPA, Televisão Popular
de Angola.
No tocante à imprensa, nos últimos anos da presença portuguesa,
excetuando a revista Notícia, um
projeto proTissionalizado com pessoal competente, mas defendendo,
antes de tudo, uma Angola portuguesa, mesmo com independência,
o panorama não era muito animador.
A Província de Angola, embora
jornal privado, podia ser considerado, se não oTicial, o diário oTicioso, raramente ousando questionar
os problemas reais. É preciso termos em conta, por exemplo, que
quando um dos seus colaboradores, o António Pires, se meteu a denunciar a poderosa Diamang, a direção do jornal foi obrigada a despedi-lo, para poder continuar a ter
os anúncios daquele potentado.
Este jornalista, que também se armava pro vezes em literato, viria a
fundar o semanário Atualidade
Económica, que conheceu algum
êxito. Nos últimos anos, a Província
de Angola tinha como fundista um
tal Humberto Lopes, que vivia em
Benguela, onde aliás a delegada
Maria Virgínia de Aguiar se via às
aranhas para conter os vários interesses contraditórios dos empresários locais.
O oásis era ao domingo, com um
suplemento cultural coordenado
pelo Carlos Ervedosa, Tilho de um
dos proprietários, que conseguia
fazer conhecer a pouca literatura
que se ia fazendo, apesar de ter de
aguentar os folhetins do Reis Ventura, por sinal vastamente lidos. De
salientar que Carlos Ervedosa foi o
autor da primeira sinopse de literatura angolana, intitulada Roteiro
da Literatura Angolana, editado
pela Sociedade Cultural de Angola,
1972.
O Comércio de Luanda, cuja publicação foi várias vezes suspensa,
era mais bem feito, primeiro pela
acção de um proTissional como Ferreira da Costa, comprometidíssimo
com o regime colonial, e depois pela acção do secretário-geral, José
Maria Araújo, que fez muito bem a
ponte com o último proprietário,
António Champallimaud. Ficaram
célebres neste jornal as crónicas de
Alfredo Bobela-Mota, tão sarcásticas quão certeiras. Depois de ter
reaparecido em Maio de 1974 com
um certo equilíbrio, o apoio editorial à tentativa de golpe de Estado
em Moçambique, em Setembro daquele ano, ser-lhe-ia fatal.
Havia também dois diários vespertinos: o Diário de Luanda, da
União Nacional, e o ABC, fundado e
dirigido por Machado Saldanha, republicano da velha cepa. Ambos
25 de Junho a 8 de Julho de 2012
cumpriam o seu papel, a seu modo
e como a férrea censura da época
os deixava, isto é, o primeiro sem
ser muito agressivo, e o segundo
com muitos entraves. Como o Estado deixou de publicar anúncios no
ABC, por vingança de algumas ferroadas que conseguia ir dando, este começou a debater-se com diTiculdades Tinanceiras, que já não
eram cobertas pelo lucro proveniente da Livraria ABC na Baixa,
próximo da Versailles. Por isso, o
ABC acabaria por desaparecer enquanto o seu antigo suplemento, a
Tribuna dos Musseques, que se
emancipara ainda na década de 60,
continuou em circulação.
A Tribuna dos Musseques, na fase de suplemento do ABC, era dirigida por TeóTilo José da Costa, vulgo Cu de Palha, que foi um personagem que esteve na base do desenvolvimento do Carnaval de Luanda.
Era irmão de Carlos Lamartine,
uma das Tiguras principais da música angolana e que chegou a ser
deputado pelo MPLA. Depois, autonomizou-se e Ticou com uma redação perto da Estrada da Cuca em
pleno musseque Marçal e o Centro
de Informação e Turismo de Angola, CITA colocou lá um branco, Albuquerque Cardoso, para controlar e como redatores Maria Eduarda e Jerónimo Ramos, ambos conhecidos como muito «mussequeiros» até porque eram casados com
angolanos.
Fora de Luanda o único diário
era O Lobito, dirigido por Mimoso
Moreira, onde a extrema-direita
campeava com uma incompetência
de bradar aos céus.
Quanto aos semanários, fora o
Jornal de Angola, uma interessante
experiência da Associação dos Naturais de Angola, ANANGOLA, há
que recordar o papel importante
que teve o Intransigente, em Ben-
guela, depressa debelado pela censura, e uns anos (poucos) do Jornal
do Congo, dirigido pelo Acácio Barradas, que conseguia fazer verdadeiras diabruras aos accionistas.
O Jornal de Benguela e o Jornal
da Huila limitavam-se a funcionar,
embora este fosse mais a voz do dono, o poderoso Venâncio Guimarães Sobrinho, sogro do conhecido
Eng. Cardoso e Cunha, que foi ministro de Cavaco Silva, célebre nos
últimos anos pelas grandes confusões que arranjou à volta dos seus
negócios em vários países africanos. Lembre-se que este Venâncio
Guimarães Sobrinho, que era deputado e membro do Conselho Legislativo de Angola, subsidiava sozinho uma curiosa publicação, a
Revista de Angola, dirigida pelo
fundador do Comércio de Luanda,
Araújo Rodrigues.
E são ainda de referir a revista
Trópico, pré-tablóide, do célebre
eng. Pompílio da Cruz, fundador da
FRA, Frente de Resistência Angolana, em 1974, e que chegou a ser
candidato à presidência da República em Portugal, assim como uma
coisa que dava pelo nome de Semana Ilustrada, de Borges de Melo,
vindo do semanário O Planalto, do
Huambo, que pelo menos tinha
uma boa “saúde comercial”. É curioso analisar as capas da Trópico –
eram só “belezas” europeias, como
se Luanda não fosse a capital de um
país africano onde as suas naturais
“não pediam meças” às mais elegantes parisienses!
Além do Notícia, propriedade da
NeográTica, que pertencia ao Grupo Vinhas, da CUCA, esta editou
ainda uma revista de cultura e espetáculos, a Noite e Dia, onde colaborava o conhecido Domingos VanDúnem, ultimamente coordenada
pelo Rogério Beltrão Coelho, que
tem andado por Macau, e um sema-
|
Cultura
nário humorístico quase todo feito
pelo crítico de teatro Angerino de
Sousa, natural de Moçâmedes, que
era diretor de uma companhia de
seguros, e pelo Xico Orta, que ainda
continua a ser um excelente gráTico
– é ele que anima graTicamente os
Roteiros do TT Kwanza-Sul - irmão
do conhecido encenador português Filipe La Féria.
Ainda no que concerne às revistas não pode ser esquecida a Prisma, ligada a católicos progressistas
e que teve como diretor e principal
animador António Palha, que foi
casado com Joana Campinos, que
pertencia a uma família que viria a
estar ligada ao Partido Socialista.
Antes, Joana Campinos fora casada
com o radialista e ator Fernando
Curado Ribeiro e ainda viria a casar
com Sebastião Coelho, uma das
personalidades da rádio mais marcantes em Angola. Um dos acionistas principais da Prisma era Mota
Veiga, um grande empresário de
Angola, originário da região de Viseu. Foi para evocar a mãe, que foi
instituído o Prémio Maria José
Abrantes Mota Veiga, cuja primeira
edição foi ganha pelo livro Luuanda, da autoria de Luandino Vieira,
que a seguir viria dar grande polémica ao vencer também o Prémio
da Sociedade Portuguesa de Escritores, originando o seu encerramento compulsivo decretado pelo
regime salazarista.
Evocamos, por último, os vários
boletins que algumas instituições
mantinham mensalmente, sendo
os mais notáveis, pela sua qualidade, o Boletim do Museu de Angola,
o Boletim do Instituto de Angola, o
Boletim do Grupo “Amigos de
Luanda”, e, claro, o Boletim da Sociedade Cultural de Angola, que se
viria a transformar na revista Cultura, antepassada desta nossa
atual.
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
GRAFITOS NA ALMA | 19
O espaço e o tempo da Defesa Nacional
Novos contextos e outras vulnerabilidades no século XXI
LUIS
KANDJIMBO
Herói mítico Tchibinda Ilunga © Arquivos Museu Dapper –Foto Hughes Dubois
N
uma perspectiva epistemológica alternativa, importará trazer à reKlexão o
espaço e o tempo como
coordenadas fundamentais, e detectar a sua articulação aos conceitos de
defesa e cultura no contexto angolano.
A dimensão do espaço remete
para a semântica do território. A coordenada do tempo alude a semântica
da história. Embora situando-se no
plano categorial, o espaço e o tempo
são elementos que integram o conceito de cultura. Apesar das inúmeras
deKinições conhecidas, a cultura é tomada naquela acepção em que é concebida como interacção do homem e
seu meio, englobando o conjunto dos
modos e condições de vida de uma sociedade assente num substrato comum de tradições e do saber, bem como as diversas formas de expressão e
realização do indivíduo.
Ora, a consciência da herança comum e o sentimento de pertencer ao
mesmo espaço social e Kísico e, por outro lado, o sistema de representações
e imagens positivas em que se fundam
os comportamentos dos angolanos,
traduzem simultaneamente uma
identidade colectiva e uma identidade
cultural.
Pode parecer um truísmo abordar a identidade, ou seja, aquilo que
torna uma comunidade, uma nação diferente de outras, apesar dos intercursos por que passa ao longo dos
tempos. É que identidade traduz a
vontade de um sujeito, individual ou
colectivo, vontade que se vai concretizando incessantemente em actos
conscientes do que já é ou em projectos do que há-de ser.
Por estar sempre submetida às
tentações da alteridade, a identidade
implica um elevado grau de segurança
ontológica de que depende a actuação
de vários sujeitos. Tal actuação é, no
entanto, uma reactualização da memória e das representações colectivas.Os principais agentes dessa estratégia são os sujeitos individuais. Para
desempenho de tal papel têm de interiorizar modelos pré-existentes da
cultura.
Se a nação pode ser entendida como sujeito colectivo, constituído por
indivíduos, obviamente a sua coesão
dependerá da eKicácia com que se rea-
lizam os mecanismos de socialização.
É por meio das identidades individuais e grupais (colectivas) que se afere a segurança do projecto da identidade da nação. Isto signiKica que são os
comportamentos individuais que dão
forma aos comportamentos colectivos.
As reKlexões sobre a questão da
identidade lançam luz acerca das
condições que subjazem à concepção
de uma política de defesa que se situe ao nível das aspirações que comandam a construção da nação. Com
efeito, a política de defesa tem o seu
objecto principal na segurança do projecto de nação, que é um valor digno
de protecção nos Estados democráticos modernos. Estaremos em presença da projecção da segurança ontológica dos indivíduos. Da imagem que os
angolanos tiverem de si individualmente dependerá a imagem do projecto da nação angolana diante de outras
nações e, consequentemente, a sua
coesão e capacidade de aKirmação.
Por essa razão, a produção de
uma política nacional de defesa adequada ao nível e aos progressos da
construção do Estado em Angola e do
projecto de nação tem de emergir de
uma ideia clara de segurança enquanto premissa básica. A segurança pode
ser entendida como um fenómeno global que implica capacidades e forças
que vão desde as produtivas passando
pelas forças culturais, forças militares
com projectos de aKirmação no horizonte, sem perder de vista os planos
da sua efectivação, nomeadamente os
apoios políticos internos e os apoios
políticos externos.
É neste sentido que aponta a Lei
de Defesa Nacional e das Forças Armadas. Extraio dela duas noções importantes, o âmbito interministerial e a
natureza global. Sem me deter na primeira que alude o nível interministerial da política de defesa, veriKico que a
natureza global é deKinida como algo
que se traduz na «integração de uma
componente militar e componentes
não-militares». Isto quer dizer que a
política de defesa não se esgota apenas
no vector militar. Está igualmente patente a ideia de rigor da concertação
político-institucional. Pode-se concluir que entre as várias políticas que
complementam a defesa, enquanto
núcleo duro, teremos uma política cultural que alguns especialistas designam por política de mobilização social.
Portanto, a dimensão cultural
das políticas não pode estar oculta. Para os Estados africanos que emergem
dos escombros do colonialismo, como
é evidentemente o caso de Angola, a tomada de consciência revela-se fundamental, porque tanto o Estado quanto
a nação é extensão de múltiplas dinâmicas culturais. Daí que o espaço e o
tempo vistos num plano mais concreto, ou seja, o território e a população
que o habita, assim como a história registada na sua memória colectiva, sejam coordenadas a não perder de vista.
A primeira tarefa que se impõe
consiste em proceder à releitura do adjectivo nacional. Pretendo assim determinar os aspectos substantivos em
que se analisa o conceito de nação, pois
é dele que derivam tais adjectivações.
O sociólogo suiço Jean Ziegler,
num estudo que consagra ao continente africano, tece algumas considerações através das quais distingue o
processo de construção da nação em
África do da Europa no século XVIII e
XIX. Destaca o facto de a construção da
nação e a construção do Estado serem
tarefas complementares em África . As
elaborações conceptuais de pensadores europeus continuam, no entanto, a
impregnar o pensamento de historiadores, sociólogos, juristas e Kilósofos
africanos, embora se comecem a revelar interpretações inovadoras do fenómeno.
No seu Essai sur les moeurs e
l’esprit des nations (Ensaio sobre os
costumes e o espírito das nações), Voltaire escrevia: «a nação é uma pessoa
jurídica constituída pelo conjunto de
indivíduos que formam o Estado, mas
distingue-se deste por ser titular do
direito subjectivo de soberania». Ainda no dizer de Voltaire, «a nação é um
grupo de homens estabelecidos num
território determinado, constituindo
uma comunidade política que se caracteriza pela consciência da sua unidade e a sua vontade de viver em comum». Outro ensaísta francês, Ernest
Renan, numa conferência proferida na
Sorbonne em 1882, considerava que
«uma nação é uma alma, um princípio
de ordem espiritual. Um destes aspectos – continua Renan – é a posse comum de um rico legado de lembranças; o outro é o consentimento actual,
20 |GRAFITOS NA ALMA
o desejo de viver em sociedade, a vontade de fazer valer a herança indivisa.
Uma nação é expressão de grande solidariedade constituída pelo sentimento de sacriTícios partilhados […]» .
Num artigo publicado em 1954, Marcel Mauss deTinia a nação como sendo
«uma sociedade material e moralmente integrada, com um poder estável, permanente, com fronteiras determinadas, uma relativa unidade moral e cultural dos habitantes que aderem conscientemente ao Estado e a
suas leis».
Na senda desta mesma tradição
ocidental alinham ainda hoje vários
sociólogos e cientistas políticos. Tiryakian e Nevitte (1985:57-86) evidenciam também a dimensão subjectiva ou voluntarística da nação. O
conceito não é redutível às «condições
objectivas» como o território. Estes
autores entendem que «a nação é uma
realidade dinâmica do ponto de vista
histórico (cada nação tem sua historicidade) e a pertença a uma colectividade nacional implica um elemento de
compromisso e escolha subjectiva». E
acrescentam: «Diferentes actores habitando o mesmo território podem
produzir diferentes interpretações
sobre a sua comunidade societal»
(1985:57-86).
A nação assim entendida dá lugar
ao conceito de nacionalismo, exprimindo a dimensão política, a actividade que gravita em redor do poder político, isto é, do Estado. O nacionalismo
nos Estados liberais europeus era
uma ideologia através da qual se inculcava o espírito de nação às populações que, apesar das diferenças e da
estratiTicação social, habitavam o território do mesmo Estado.
A história do conceito de nação,
bem como de outros substantivos e
adjectivos que lhe andam associados, como nacionalismo, nacionalidade e nacional, demonstra a sua natureza Ticcional. Tradição inventada e
comunidade imaginada , duas expressões forjadas por historiadores europeus traduzem bem a ideia de Ticção.
No contexto da África contemporânea, o chamado «Estado pós-colonial», que pretende ser também um
Estado-nação, caracterizou-se sempre por um certo pluralismo. Atento
a estes fenómenos está igualmente o
cientista político Mwayila Tshiembe,
que apresenta argumentos a favor
de um Estado multinacional africano.
Segundo o cientista político congolês
democrata, é o conceito de nação
sociológica que melhor se adequa à
especiTicidade do fenómeno social e
do político en África, e ao reconhecimento da etnia enquanto comunidade cultural e simultaneamente sociedade política.Já ao conceito actual
de nação, tributário das teorias políticas europeias do século XIX e XX,
prefere atribuir o sentido de nação
jurídica, pois entende tratar-se de
uma Ticção jurídica .
Se a etnicidade em África representava, aos olhos dos observadores, o
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Chefe sentado © Arquivos Museu Dapper e Hughes Dubois
estigma do primordialismo, um fenómeno pré-moderno, a verdade é que
as experiências de desintegração dos
Estados-nação europeus, vieram provar a falibilidade do modelo, além de
um pluralismo étnico que conTirma a
existência de uma percentagem muito
insigniTicante de Estados etnicamente
homogéneos. Mas a ideia de falência
do Estado-nação não se concretiza
apenas ao nível sociológico e político,
tal acontece igualmente ao nível económico. Um dos mais ferozes apologistas do desaparecimento do Estadonação é o japonês Kenichi Ohmae. Ele
defende que a existência de uma economia planetária está a dar lugar ao
surgimento de Estados-regiões. Nesta linha de pensamento parece indispensável evitar a confusão entre cultura e economia. Aliás, não tendo
aprofundado as ideias a este respeito,
Kenichi Ohmae aborda levemente esta
dicotomia ao pôr em causa a visão polemológica de Samuel Huntington assente no «choque de civilizações».
Apesar da questionada validade
do conceito de nação, para a presente
reTlexão interessa mais a realidade
que lhe está subjacente. Em estudo
publicado em 1985, G.P. Nielsson
concluiu que numa taxionomia centrada no Estado (state-centric taxonomy) de 1981, cobrindo um universo de 161 Estados (de um total de
168) e três territórios dependentes
( de um total de 16), o conceito convencional de Estado-nação aplica-se
a ¼ de membros do sistema de Estados. Outra conclusão aponta indicadores respeitantes à existência de vários grupos étnicos num Estado e a
dispersão de um mesmo grupo por vários Estados.Em ambas as amostras,
Angola Tigura na lista de países com
uma situação de pluralismo étnico.
Com efeito, o mapa de Angola apresenta um traçado de fronteiras para
além das quais se disseminam comunidades étnicas habitando o espaço
angolano e o espaço de países vizinhos. Apesar de algumas comunida-
Cultura
des étnicas angolanas não habitarem
exclusivamente o território angolano,
é ele que legitima os mitos defensivos.
O território é, em sentido amplo, um
elemento cultural de grande relevância para a caracterização da nação entendida como sujeito colectivo. O território é o lugar em que se Tixa e se estabelece a unidade do povo na sua diversidade. Em sentido estrito, pode,
dizer-se que o território permite deTinir os contornos de uma fronteira cultural angolana.
Convém, no entanto, que o leitor
esteja de sobreaviso quanto ao debate
que se trava a respeito da falência e da
crise do modelo de Estado-nação territorial. Invoca-se o facto de os territórios dos Estados serem vulneráveis.
Joseph S. Nye Jr catalogou cinco modelos alternativos construídos para corresponder àquela constatação. São
eles: federalismo mundial, funcionalismo, regionalismo, ecologismo, ciber-feudalismo.
Ainda assim continuam a ser reconhecidas importantes virtualidades
ao Estado-nação, quando se trata de
alcançar objectivos primordiais como
«segurança Tísica, bem-estar económico e identidade comum». É que o
Estado-nação ou Estado territorial sofre os efeitos das vulnerabilidades
provocadas, por exemplo, pela revolução no domínio das tecnologias de informação. Fala-se de um novo tipo de
ameaças susceptíveis de abalar o Estado territorial. São os ciber-ataques,
produtos da revolução da informação,
que liquidaram o sistema de Vestefália. É o Tim do território, como diz Bertrand Badie.
1 Mwayila Tshiembe e Muyele Bukasa,
L’Afrique face à ses Problémes de Sécurité
et de Défense, Paris, Présence Africaine,
1989, p.241
2 Jean Ziegler, Main Basse sur L’Afrique,
Paris, Editions du Seuil, 1980, 39
3 Ernest Renan, Qu’est qu’ une nation?,
Paris, Calmann-Levy, 1882
4 Ver Eric Hobsbawm e Terence Ranger
(ed.), La invencion de la tradicion, Barcelona, Libros de Historia, 2002; e Benedict Anserson, Imagined communities, London,
New York, Verso, 2002; Liah Greenfeld, Nacionalismo.Cinco Caminhos para modernidade, Lisboa, Publicações Europa-América,1998 .
5 Mwayila Tshiembe, «L’Etat Multinational como modèle politique et constitutionnel
des sociétès plurinationales» in
www.eur.nl/frg/iacl/papers/tshiembe.htm
l
6 Kenichi Ohmae, De L’État-Nation aux
Étas-régions, Paris, DUNOD, 1996
7 Ver Edward Tiryakian e Ronald Rogowski (ed.), New Nationalisms of the Developed West, Boston, London, Sydney, Allen &
Unwin, 1985,pp.57-86
8 Ver Joseph S. Nye Jr., Compreender os
ConQlitos Internacionais.Uma introdução à
Teoria e História, Lisboa, Gradiva, 2002,
pp.265
9 Bertand Badie, O Fim dos Territórios
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
GRAFITOS NA ALMA | 21
A Sindérese e a sua relação
com a Lei Natural em Tomás de Aquino
O Padre José Manuel Bragança
defendeu no passado dia 30 de Abril
a sua tese de doutoramento em @iloso@ia pela Ponti@ícia Universidade
Urbaniana, na cidade do Vaticano,
perante um júri constituído por três
professores catedráticos.
O tema da pesquisa escolhido pelo
prelado é “A Sindérese e sua relação
com a Lei Natural em Tomás de
Aquino”, que apresenta a sindérese
como o hábito que contém os primeiros preceitos da lei natural ou primeiros princípios do agir, que comandam o impulso de se fazer e perseguir o bem e de se evitar o mal. O
acto foi assistido pelo embaixador
de Angola junto da Santa Sé, Armindo do Espírito Santo, bem como por
familiares, amigos, colegas e funcionários diplomáticos.
Natural de Luanda, José Manuel
Bragança, foi ordenado sacerdote
pelo cardeal dom Alexandre do Nascimento, na Sé Catedral de Luanda
em Março de 1997. Foi professor no
Instituto de Ciências Religiosas de
Angola (ICRA) e trabalhou na paróquia de Nossa Senhora da Nazaré
em Luanda e no Santuário de São José do Calumbo até Maio de 2003.
José Bragança, que é Mestre em
Filoso@ia pela Ponti@ícia Universidade Urbaniana desde 2006, aguarda
a publicação em livro da sua tese, altura em passará a usar o título de
doutor em @iloso@ia. Publicamos a
seguir o resumo da dissertação.
1. Introdução
O
tema da nossa pesquisa é a
sindérese e sua relação
com a lei natural em Tomás
de Aquino. Com efeito, Tomás aborda a questão da sindérese e
da lei natural, a partir dos escritos juvenis, concentrando-a na consideração do livre arbítrio, e proseguindo
nas obras da maturidade com a consideração das virtudes, dos actos humanos e dos princípios que os orientam.
Ele apresenta a sindérese como o
hábito que contém os primeiros preceitos da lei natural ou primeiros princípios do agir, que comandam de se fazer e perseguir o bem e de se evitar o
mal. Porém, a compreensão de tal hábito e respectivos preceitos, diante da
consideração dum agir humano que se
coloca para além do bem e do mal e, pelas várias interpretações que têm recebido, torna complexa a sua abordagem
e suscita múltiplas interrogações.
Ora, uma primeira preocupação recai sobre as razões pelas quais se deve
fazer e perseguir o bem e se evitar o
mal. E daquí podem seguir-se outros
questionamentos a respeito do hábito
e dos preceitos, como aqueles sobre a
potência racional na qual se constituem, sobre o ordenamento que exprimem, sobre a validade dos mesmos e o
bem que apresentam.
E ainda, pelo facto de Tomás abordar o agir humano tanto no ordenamento da lei como no ordenamento da
virtude, essa sua explicitação do agir
do sujeito humano, pode ser interpretada de maneira variada.
2. Motivações e objectivos
As motivações para a escolha desse
tema, reenviam não só à problemática
que se quer afrontar, mas também ao
pensamento do autor e à existência de
uma diversidade de posições, por parte de alguns estudiosos que interpretam Tomás. A escolha desse tema ligase ao desejo de aprofundar o ensino de
Tomás, de maneira especial sobre um
aspecto particular, aquele da sindérese e sua relação com a lei natural, o
qual reveste-se de várias implicações
teóricas e práticas.
De facto, o período no qual Tomás
viveu, foi marcado pelo desabrochar
de várias correntes de pensamento e
de fortes disputas intelectuais, que exigiam um esclarecimento de posições.
No enunciado do tema, embora se
pressuponha a existência da sindérese e da sua relação com a lei natural,
todavia, não se procura colocar a sindérese em relação com a lei natural
em todos os seus domínios, mas sim,
focalizando aquele ponto onde a sindérese atinge a lei natural, isto é, os
seus primeiros preceitos, os quais nos
colocam no campo do fundamento
agir humano.
Para aprofundar a análise nos concentramos nos textos nos quais Tomás
trata da sindérese. E tal procedimento
não reduz a abordagem da sindérese
nem altera o nosso objectivo, na medida em que, não impede que desde a
sindérese se busque a sua ligação com
a lei natural.
Assim, nos propusemos clari@icar o
ensino de Tomás sobre a sindérese e
sua relação com a lei natural, identi@icando, as posições a ele reconduzidas,
se são da responsabilidade dos intérpretes ou encontram no vasto conteúdo do seu ensino quaisquer elementos
onde se fundamentam.
4. Propósito e método
Posto isso, devemos frisar que o trabalho realizado concentra-se na análise dos textos de Tomás sobre a sindérese. E com esse estudo pretendemos
demostrar que o tema da sindérese e a
abordagem da sua relação com a lei
natural, revela que se trata, não só, de
um tema de particular interesse da re@lexão de Tomás desde as obras da juventude até às da maturidade, mais
também, de um ponto fundamental do
seu ensino sobre o agir humano.
Para isso, usamos na pesquisa o método histórico crítico com diferentes
acentuações dos seus aspectos: para
se indicar o percurso histórico do problema em torno da sindérese e do primeiro preceito da lei natural; para a
análise dos textos de Tomás colocando-os no conjunto do seu ensino; e para fazer a distinção do pensamento de
Tomás das interpretações contrárias.
5. Estrutura do trabalho
Dividimos o trabalho em três capítulos, nos quais ao @inal faz-se uma
breve síntese conclusiva, e a conclusão geral no @im do trabalho.
Capítulo I
Assim, no primeiro capítulo, @izemos um breve percurso histórico-literário sobre a sindérese e os primeiros
preceitos da lei natural nos predecessores e contemporâneos de Tomás,
com destaque às @iguras de S. Boaven-
tura e S. Alberto Magno. E também
apontamos, alguns traços principais
do desenvolvimento posterior à Tomás até aos nossos dias.
Deste modo, são apresentados alguns elementos ligados à origem do
tema da sindérese, à sua natureza, ao
seu conteúdo e função, à sua consideração de hábito da razão prática e às
tensões nascidas ultimamente na concepção dos preceitos da lei natural.
Quanto a problemática referente ao
primeiro preceito da lei natural, nos
ocupamos de interrogações que os intérpretes de Tomás suscitam, como as
questões ligadas à natureza da formulação do mesmo, a sua colocação no discurso prático, a sua disposição para o
universal ou particular, a sua colocação
diante do intelecto e da vontade, sem
deixar de mencionar o seu carácter e
função na consideração moral do agir.
Capítulo II
No segundo capítulo, passamos em
revista os textos de Tomás que se referem à sindérese no contexto da obra a
que pertencem. Ora, vimos a sindérese e sua relação, não só, com a lei natural, mas também, com as outras instâncias a@ins, tal como foi abordado
por Tomás. Assim, observamos os aspectos de distinção e de semelhança
da sindérese com a razão, a consciência, o livre arbítrio e a lei natural.
Focalizamos, os motivos pelos
quais, a potência racional, que é o intelecto prático, tem necessidade dum
hábito, os da a@irmação de que a sindérese nunca erra e da sua não extinção,
e os da distinção do acto da sindérese
do acto pessoal.
Notamos as razões aduzidas para
uma certa prioridade do intelecto em
relação à vontade na realização da acção e da diferença das mesmas quanto
ao acto próprio de cada: o conhecer e o
querer.
E assinalamos a presença da sindérese e da sua relação com a lei natural
desde as primeiras obras até à maturidade do seu pensamento.
Capítulo III
Já no terceiro capítulo, para responder as inquietações levantadas nos
dois primeiros capítulos, @izemos a
distinção do pensamento de Tomás
das interpretações contrárias para demostrar os elementos da sua proposta. Colocamos em evidência os principais problemas relacionados com o tema, começando por afrontar a compreensão da natureza da sindérese, à
luz da passagem feita por Tomás de
“potência com hábito” à simplesmente
22 |GRAFITOS NA ALMA
“hábito”.
E ainda, observamos algumas a@irmações de Tomás relacionadas com a
temática e que recebem interpretações divergentes, como por exemplo:
que o intelecto divide-se em especulativo e prático; que existe uma certa
prioridade própria do intelecto especulativo; que o intelecto especulativo
por extensão à obra se torna prático; e
que o intelecto especulativo não causa
movimento, enquanto que o prático
sim.
Outrossim, abordamos uma série
de questionamentos ligados ao modo
da obrigatoriedade do preceito, à sua
imutabilidade, à tensão entre preceito
e liberdade.
E na compreensão da racionalidade
prática, apresenta-se o questionamento da relação lei e virtude, tendo
em conta que Tomás ao tratar da acção
boa, relaciona-a tanto à lei quanto à
virtude, indicando ambos como elementos determinantes do seu carácter moral. Todavia, torna-se surpreendente, o facto de no @inal da tratação,
fundamentalmente, apresentar o bem
moral como bem virtuoso.
Nas posições dos antecessores e
contemporâneos de Tomás, nota-se
uma preocupação na determinação do
intelecto prático entre o intelecto e a
vontade, devido a sua relação ao verdadeiro e ao bem. É nesse contexto de
preocupação que Tomás procura explicar o hábito da sindérese, distinguindo-a do intelecto, da consciência e
da lei natural.
Para Tomás a sindérese reside no
intelecto e pode ligar-se na sua inerrância ao conhecimento afectivo, que
pertence à vontade, impedindo-a de
qualquer erro na apreensão do bem
quanto aos princípios universais, porém não quanto aos particulares elegíveis . Para a garantia da justiça no agir
racional, Tomás aponta para uma certa prioridade do intelecto em relação à
vontade, e a presença da sindérese garante que o voluntário não seja a@irmado irracionalmente, nem a razão
contra a vontade.
A sindérese é considerada enquanto natureza e enquanto princípio de
acção. Ora, se a sindérese considerada
em si mesma, não pode ser extinta
sem que se extinga a própria alma, o
mesmo já não se pode dizer do seu acto. O acto da sindérese que é a a@irmação dos primeiros preceitos da lei natural e o acto pessoal no homem, fundam-se na mesma natureza racional,
mas não se identi@icam, porque o acto
da sindérese diz respeito à natureza
segundo a espécie e o acto pessoal à
natureza segundo o indivíduo.
A sindérese é constitutiva da natureza do conhecimento humano, nela
dá-se uma apreensão imediata dos
primeiros princípios práticos naturalmente conhecidos, e comporta quatro
características: ser um conhecimento
da verdade sem pesquisa; ser o princípio de todo o conhecimento sucessivo;
estar presente naturalmente no ho-
mem; e estar de modo habitual.
Já, a razão prática enquanto potência, tem necessidade do hábito da sindérese, por três motivos fundamentais: primeiro, para o seu aperfeiçoamento, pois a presença da virtude melhora a disposição da potência. Em segundo lugar, para a sua operação, pois
possibilita a sua passagem à acto , e @inalmente para a sua condução ao @im,
ao óptimo para a potência, que é a realização do seu acto.
Com isso permite-se a@irmar que a
acção indeterminada da razão prática
não constitui um tipo de acção anterior à aquela moral, já que para Tomás,
a indeterminação impossibilita qualquer acção por parte da razão prática,
porque sem uma determinação do hábito a razão prática não pode agir.
Notamos que, as acções recebem a
sua razão de bondade desde a sua submissão ao ordenamento do preceito
da lei natural . Porém, as acções consideradas em si mesmas, não constituem um critério para julgar sobre a
e@icácia dos princípios práticos. Contudo, os preceitos da lei natural ou
princípios da razão prática orientam
as acções humanas não de modo indiferente, mas segundo a verdade, a
bondade e a justiça, ou seja, segundo o
@im último do homem.
Ora, os primeiros princípios da sindérese e os primeiros preceitos da lei
natural, tratam-se dos mesmos para
ambas instâncias. Contudo, a origem
do carácter do seu dever ou da obrigatoriedade que os acompanha, não se
refere de igual modo para a sindérese
e para a lei natural.
Com efeito, o dever e o conteúdo
que o primeiro preceito da lei natural
a@irma, encontra-se já radicado na formulação e segue o ordenamento racional dado pela sindérese. De facto,
embora a razão prática apreenda naturalmente as inclinações naturais como bens humanos básicos, a formulação dos primeiros princípios evidentes por si, não cabe a ela, mas sim ao
hábito da sindérese.
É ainda, a luz da sindérese que se
pode compreender a correspondência
entre a ordem dos preceitos da lei natural com a ordem das inclinações naturais, na medida em que tais ordenamentos apóiam-se não nos preceitos
nem nas inclinações, mas na razão. E
não é contrário ao ordenamento da razão a presença de um triplo ordenamento das inclinações naturais e de
preceitos da lei natural.
Com isso, Tomás a@irma não só que
os objectos das inclinações, ou seja, a
vida, a procriação, a vida social e o conhecimento de Deus, são bens fundamentais, mas sobretudo que a presença de uma ordem entre as inclinações
torna claro a existência de uma ordem
entre os bens fundamentais : «a ordem das inclinações naturais corresponde à ordem dos preceitos da lei natural» . E neste particular, Tomás
aponta haver uma ligação ordenada
entre, inclinação, princípio e preceito.
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Nessa correspondência, sem a presença da sindérese, não se pode conceber a moralidade expressa pela lei
natural. Embora a moralidade apresenta uma referência ao bem colhido
pela vontade na inclinação natural, a
sua concepção é obra do intelecto, ou
seja, enquanto é elaborado pelo intelecto e dele recebe a sua força. O referimento moral da sindérese liga-se à estreita relação da sindérese com as potências que caracterizam o acto humano, o intelecto e a vontade, a moralidade é natural à sindérese.
Contudo, não só, a sindérese permite uma melhor compreensão da lei natural, mas também, essa ligação ordenada, que permite a correspondência
da inclinação natural e do preceito natural, ajuda a comprender a sindérese
enquanto hábito natural.
A apresentação da sindérese em relação com a lei natural, focalizada nos
primeiros preceitos, garante a a@irmação da inerrância da lei natural em
universal, e pede que, se indique a sua
relação com a consciência, que é a instância da razão onde se faz a aplicação
dos mesmos preceitos no particular.
Quanto a relação entre a sindérese e
a consciência é aquela de hábito e acto,
análoga à relação de causa e efeito. A
consciência depende e recebe a sua
força da sindérese . E quanto ao bem
moral, este é conhecido, directamente
em universal e indirectamente em
particular, no mesmo acto de conhecer do intelecto.
Em Tomás, a “objectividade” do preceito da lei natural e a “subjectividade”
do hábito da sindérese ao revelarem os
aspectos do “bem fundamental humano” e da “boa realização de tal bem fundamental” cooperam na compreensão
do sujeito moral e da sua acção.
7. Contribuições e perspectivas
Da leitura dos textos de Tomás, notamos um desenvolvimento do seu
pensamento acerca da sindérese e da
lei natural, que indica um interesse em
aprofundar e esclarer essa temática.
De facto, observa-se uma evolução na
apresentação da sindérese e, consequentemente da relação da sindérese
com a lei natural. Com efeito, nos primeiros escritos fala que existe uma relação da sindérese com a lei natural, ou
seja, que os preceitos da lei natural estão inscritos na sindérese, mas a a@irmação é, sobretudo, para distinguir as
duas instâncias. Na Suma Teológica, a
relação é para fundamentar o agir do
sujeito humano desde as faculdades
operativas do indivíduo em ordem a
sua natureza especí@ica, de modo a poder produzir o acto bom e recto.
Nessa apresentação da sindérese como hábito que contém os preceitos da
lei natural e da sua função junto da potência racional com vista a acção, decorrem estes elementos, que reclamam
por uma rea@irmação, para demostrar a
especi@icidade do agir humano, a uni-
Cultura
dade entre agente-acção-@im, e que
uma consideração da moral não pode
prescendir dos elementos afrontados
por Tomás, em torno da abordagem da
sindérese e da sua relação com a lei natural, com o risco de se deturpar a caracterização do agir humano.
E esta constatação encontra uma
certa concordância nos resultados
parciais da pesquisa a que chegou Abbà, indagando sobre a lei e a virtude
em Tomás, ao indicar que a mudança
de perspectiva da consideração do
agir humano, tenha pedido «por soluções novas acerca do habitus e acerca
da lei natural, e consequnetemente
acerca do modo de conceber o exemplar divino» .
De facto, o homem pode não só começar a agir, mas sobretudo, decidir
perseguir o seu bem com um certo tipo de acção porque tem uma inclinação, que se exprime num triplo modo
de ordenamento correspondente à
tripla dimensão da ordem da lei natural, cujos primeiros princípios o homem conhece naturalmente graças ao
“hábito natural”, que é a sindérese.
Portanto, sem a colocação da sindérese em relação à lei natural, esta última não se concebe correctamente e
perde fundamento o dever moral expresso pelos seus preceitos, ou seja, em
Tomás para se compreender o carácter
moral da lei natural, esta não pode ser
vista sem a sua relação com a sindérese, que constituida como hábito da razão prática, formula os primeiros preceitos da lei natural, inclina para a acção e orienta o agir humano de acordo
com os preceitos por si formulados.
GRAFITOS NA ALMA |23
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
Com efeito, na relação sindérese e lei
natural, Tomás indica não só que é um
bem que o homem naturalmente seja
orientado para o bem através dos primeiros preceitos, mas também que
constitui um bem que ele naturalmente
seja capacitado pelo hábito da sindérese para agir sempre bem. Assim, no homem a sua moralidade apóia-se na
orientação para o bem e na capacidade
para agir bem, que pertencem naturalmente ao homem, graças à sindérese.
O contributo do nosso estudo é a
análise dos textos de Tomás sobre a
sindérese e as implicações relacionadas com a lei natural, indicando os
pontos fundamentias do seu ensino e
os elementos principais que cooperaram para o desenvolvimento do seu
pensamento sobre essa temática.
A particularidade da nossa pesquisa, encontramos não somente no resultado da mesma, mas sobretudo, no
seu desenvolvimento e nos elementos
postos em evidência, que nos permitiram chegar a aLirmar aquilo que Tomás ensina a respeito da sindérese e
da sua relação com a lei natural.
Estamos conscientes de não ter esgotado todas as perspectivas desse relacionamento, seja pela subtileza e
abrangência do assunto, seja pela opção de afrontar o assunto desde os textos referidos à sindérese, seja pela relação com outras instâncias aLins como a consciência e o livre arbítrio, e
daí que pode-se considerar igualmente como um ponto de partida para estudos posteriores.
Contudo, esperamos que o ensinamento de Tomás aqui analisado, possa
contribuir para uma melhor compreensão das questões relacionadas
com a sindérese e com a lei natural, e
especialmente, sobre a moralidade
dos seus preceitos.
O conceito de sindérese:
termo e problemática
“Sindérese” provém do grego, syntéresis ou syndéresis, embora não se explica com precisão essa variação de
uma à outra; ou ainda de syneídesis
(consciência) . Com efeito, a palavra derivaria do verbo syn – teréo, que signiLica eu conservo, mantenho, preservo, ou
de syn – diairéo que signiLica, eu distingo, divido. É dessas duas etimologias
que possivelmente surgem os dois modos de escrever a palavra , ainda que se
reconheça uma certa obscuridade acerca da origem Lilológica do termo . Contudo, não se pode negar alguma aLinidade quanto ao conceito de “conservar”
do estoicismo na perspectiva teológica
medieval e também a presença do conceito de “natura” tanto dos estoicos como de Aristóteles (384-322 a.C.) na
problemática da sindérese.
O vocábulo syntéresis ou syndéresis
para alguns estudiosos parece ter provido de um modo posterior de escrita ,
enquanto que para outros foi devido a
um erro de transcrição da palavra contida no mesmo texto do comentário de
S. Jerónimo (347-420) sobre o conteúdo da visão de Ezequiel , no qual cita
uma teoria LilosóLica que compara os
quatro animais da visão com a distinção platónica das partes da alma .
S. Jerónimo em seguida aproxima
esta sindérese à duas passagens de S.
Paulo. A realidade chamada sindérese
corresponderia igualmente àquela
que S. Paulo entendeu pelo termo “espírito”, aquele espírito que clama no
íntimo do homem com gemidos inefáveis (Romanos 8, 26), que conhece tudo aquilo que está em nós (1 Coríntios
2, 11) e que o apóstolo recomenda aos
cristãos de salvaguardar (1 Tessalonicenses 5, 23). Na sequência do texto, S.
Jerónimo prende provavelmente o
termo syntéresis como sinónimo do
termo syneídesis e o traduz simplesmente por conscientia . A passagem
sugere assim por si mesmo que o termo syntéresis poderia não ser senão
uma deformação de syneídesis, que
signiLica conhecimento em comum,
informação, estar cônscio, sentido íntimo, ‘consciência’.
Esse erro ou mudança de transcrição não disturba o pensamento de S.
Jerónimo, pois para ele syntéresis é sinónimo de syneídesis. Mas o mesmo
não acontece no pensamento dos medievais, os quais procuram distinguir
os termos . Contudo, o facto de que em
S. Jerónimo os termos syneídesis e
syntéresis ou syndéresis, apesar da
mudança na sua transcrição, tenham a
mesma signiLicação, daí não se pode
concluir que os dois últimos derivem
necessariamente do primeiro termo .
Os historiadores e linguistas ainda discutem acerca dessa variação do termo,
mas os Lilósofos não estão tão preocupados com o desenvolvimento histórico da palavra, quanto das interpretações escolásticas do sentido do termo .
A passagem desse comentário de S.
Jerónimo citado por Pedro Lombardo
(1100-1160) nas suas Sentenças , colocado no contexto do estudo do pecado e da graça é incontestavelmente o
ponto de partida da acepção do termo
nos pensadores da Idade Média . Contudo, é oportuno salientar que Pedro
Lombardo nessa citação não usa o termo syndérese, mas sim superior scintilla rationi .
Residindo na alma humana, a sindérese abre-nos também ao estudo da
psicologia humana na sua perspectiva
clássica. Para alguns estudiosos ela
constitui igualmente o ponto de partida para a comprensão da Psiché humana . Tendo nascido num contexto
de tradição cristã e o termo estar presente em alguns tratados de moral, o
seu uso não se restringe à essa tradição, pois que a sindérese diz respeito à
pessoa e à natureza humana colocando «o problema do fundamento moral
no entrelaçamento entre natureza,
desejo, Lim, bem» .
A “sindérese” foi muito usada na
doutrina moral pelos escolásticos, os
quais indicavam-na também por scintilla conscientiae, naturale iudicato-
rium, ratio naturalis, lex intellectus
nostri, intellectus primorum principiorum operabilium, scintilla animae,
e destes variados apelativos, surgem
as tensões na precisão da natureza da
sindérese, se se trata de uma “potência”, uma “potência com hábito” ou
simplesmente um “hábito”.
1 Cfr. TOMÁS DE AQUINO, De malo, q. 16, a. 6,
também por Borgonovo, segundo o qual «o erro
2 Cfr. ID., STh., I-II, q. 55, a. 2, Resp.
primitivo syneídesis (consciência), num não me-
ad s. c. 6.
3 ID., In Sent., I, d. 47, q. 1, a. 4, Resp.
4 Cfr. M. MURPHY, Natural Law and Practical
Rationality, cit., 195
5 TOMÁS DE AQUINO, STh., I-II, q. 94, a. 2.
6 Cfr. ID., In Sent., II, d. 24, q. 2, a. 4, ad 6 e
Resp.
7 G. ABBÀ, Lex et virtus..., cit., 268.
de um qualquer copista que, transformando o
lhor precisado syntéresis, viria a fornecer, mau
grado seu e sem saber, um precioso termo para
um conceito que o aguardava e à volta do qual
surgiria um serrado debate.» (Cfr. G. BORGONOVO, Sinderesi e coscienza..., cit., 49).
14 Veja-se em Ezequiel, 1, 5-8.
15 Cfr. S. JERÓNIMO, Comentario a Ezequiel,
8 Albertuni indica que os termos syntéresis e
L. 1, [10-13], in Obras Completas (Edición Bilin-
syneídesis, ou seja, consciência. Ainda que apre-
tradução de Hipólito-B. RIESCO ÁLVAREZ) vol.
syndéresis sejam um erro de escrita da palavra
senta a idéia de uma possível origem estoica do
termo, resalta os vários sentidos que ligam a
sindérese à consciência, comparando a sindére-
gue promovida por la Orden de San Jerónimo –
Va, Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid
2005, 17-22.
16 «O termo sindéresis é uma inovação em
se à consciência moral, ao sentimento de remor-
relação ao pensamento aristotélico e foi intro-
sequente, à consciência antecedente. Contudo,
ma problemática através de um texto, a Glossa
so, à consciência psicológica, à consciência con-
sublinha que o problema principal do conceito
não assenta na origem da palavra, se nasce de
escrita errada ou do uso estoico, mas da sua relação com a consciência, a lei natural e a razão.
(Cfr. C. A. ALBERTUNI, O conceito de sindérese...,
cit., 13-15).
9 Cfr. I. SCIUTO, «Sinderesi, desiderio natura-
le...», cit., 128; M. PANGALLO, Legge di Dio, Sinde-
resi e Coscienza nelle “Quaestiones” di S. Alberto
Magno, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano 1997, 25.
10 Cfr. J. A. GARCÍA-JUNCEDA, «La sindéresis
en el pensamiento…», cit., 433.
11 Cfr. C. A. ALBERTUNI, O conceito de sindé-
rese..., cit., 219-220.
duzido na teologia e cilosocia medievais de for-
de Jerônimo a Ezequiel, em que consta o termo
syntéresin e em seguida uma referência ao mesmo através da expressão scintilla conscientiae.
Daí, o conceito por ele designado, ter sido elabo-
rado numa tensão permanente com o conceito
de consciência, uma vez que havia dúvida sobre
a origem do termo sindérese, que talvez fosse
uma transcrição errada do vocábulo grego syneídesis, que já circulava entre os estudiosos
com o signicicado de consciência. A despeito disso, na evolução do debate medieval, o conceito
de sindérese ganhou autonomia e importância
na teoria da acção moral» (C. A. ALBERTUNI, O
conceito de sindérese..., cit., 11).
17 «A distinção entre sindérese e consciência
12 Nega-se que a mudança seja devido à um
tornou-se usual nos pensadores medievais a
forma antiga da palavra, como indica Dalia
mentário sobre Ezequiel de S. Jerónimo, no qual
erro de transcrição, mas por um abandono da
Stanciené. «O estudioso francês Christian Trott-
mann acirma que a ortogracia de syndéresis co-
mo syneídesis encontrada nos mais antigos ma-
nuscritos não é um erro dos escribas mas o testemunho de alguma inicial tradição de escrever a
palavra, que foi abandonada mais tarde com o
surgimento da escola de empréstimo dos comentários, em 842, Rabão Mauro, um escriba,
utiliza syntéresis» (Cfr. D. M. STANCIENÉ, «Synderesis in Moral Actions», in PONTIFICIA ACADE-
MIA SANCTI THOMAE AQUINATIS, Atti del Con-
partir do século XII por causa de um texto do Coaparece o termo “syndéresis” ou “syntéresis”.
Em que modo S. Jerónimo tenha usado a palavra
“sindérese” foi um tema amplamente debatido
na primeira metade do Novecento. Provavelmente o termo ή ς está por ί η ς por um erro
de transcrição […], mas o signicicado da palavra
[syndéresis] não se diferenciaria daquele de
consciência, ao menos no pensamento de S. Jeró-
nimo» (Cfr. M. PANGALLO, Legge di Dio, Sinderesi..., cit., 21).
18 Cfr. I. SCIUTO, «Sinderesi, desiderio natu-
gresso Internazionale su l’umanesimo cristiano
rale...», cit., 128.
D’Aquino 21-25 Settembre 2003, vol. II, Pontici-
Actions», cit., 857.
Vaticano 2005, 856).
in ID., Sententiae in IV Libri Distinctae (ed. PP
ção nesse escrito de S. Jerónimo e essa é uma opi-
venturianum, IV), Ad Claras Aquas 1971, 556,
nel III millennio: La prospettiva di Tommaso
cia Academia Sancti Thomae Aquinatis, Città del
13 Acirma-se que houve um erro de transcri-
não comum. Em vez de syneídesis (consciência)
do texto original na transcrição colocou-se syn-
19 Cfr. D. M. STANCIENÉ, «Synderesis in Moral
20 Veja-se PEDRO LOMBARDO, Sent. II, d. 39,
COLLEGII S. BONAVENTURAE, Specilegium Bonann. 5-9.
21 Cfr. C. A. ALBERTUNI, O conceito de sindé-
térese ou syndérese. A prova foi tentada por Fr.
rese..., cit., 16.
R. Leiber (1912). Três manuscritos do comentá-
556, nn. 5-9. «Diz-se simplesmente que o homem
sis ao lugar de syntéresis. Na mesma senda colo-
tade boa e recta; certamente a centelha superior
Nitzch uma primeira vez e retomada depois por
rio de S. Jerónimo portam efetivamente syneídeca-se J. De Blic, que em 1949 no seu artigo «syn-
dérèse ou conscience?» concirma a tese, tendo
examinado vinte e dois manuscritos. «O erro seria portanto dos copistas e como tal chegou à
22 Cfr. PEDRO LOMBARDO, Sent. II, d. 39, cit.,
quer o bem, porque está comprometido na vonda razão que também, como acirma S. Jerónimo,
não pode extinguir-se; quer sempre o bem e
odeia o mal».
23 Cfr. J. F. SELLÉS DAUDER, «La Sindéresis o
Rabão Mauro no IX século» (Cfr. M. PANGALLO,
razón natural...», cit., 321-322.
do Padre J. De Blic sobre o assunto é mencionado
rale...», cit., 126.
Legge di Dio, Sinderesi..., cit., 24-25); o parecer
24 Cfr. I. SCIUTO, «Sinderesi, desiderio natu-
24 | DIÁLOGO INTERCULTURAL
25 de Junho a 8 de Julho de 2012
|
Cultura
“Niketche: Uma História de Poligamia” de Paulina Chiziane
A metalinguística dolorida
da mulher moçambicana
MULHER É TERRA. SEM SEMEAR, SEM REGAR, NADA PRODUZ
(PROVÉRBIO ZAMBEZIANO)
MATADI MAKOLA
A
contaminação entre a prosa e a poesia nasce das evasões de Rami. A protagonista traz, por via da comparação dos estatutos sociais entre um homem e uma mulher, o seu complexo
mundo interior. Os rasgos de poeticidade vazam em momentos de tristeza
e repúdio da penitência de um amor e
da condição de mulher na sociedade.
Rami, a revoltada pedinte de amor,
traz no discurso uma verbalizada acção feminista recheada de imagens
que realçam ontologicamente a diferença.
“Niketche”, de algum modo, no campo imaginário do leitor, expande-se
como uma contradição sofrida entre a
essência das entranhas e a super@ície
num consequente jogo de sonho e realidade.
De débil distanciamento estético e
presa conformada da estética da recepção em que o anti “eu” romântico
do autor narcisista é sacri@icado para
dar regalias ao destinatário/leitor e o
herói é construído como @igura disfuncional cujo protagonismo é retirado
para investir na temática, o que faz
com que a obra aconteça num plano
em que todos são vítimas e participantes incondicionais do sentido trágico
que a vida toma, seguindo assim a
apologia de Taine de que a literatura
deve ser resultado de meio, raça e momento.
Apesar da sua tentadora actuação
feminista, conserva a sua intenção de
sonora ferramenta de luta ante as lacunas da sociedade, instrumento para
superar os desvarios da natureza através do retrato fácil e @iel, consequentemente apoiado no determinismo e
historicismo cultural para ajustar o
seu neo-realismo.
Esta tese, que é debatida nas letras
desde meados do século XIX, repugnando a alienada arte pela arte e
abrindo-se como alternativa ao decadente romantismo, a@irmou-se como
uma corrente de pensamento que atribui à obra literária a categoria de fonte
ou forma de conhecimento positivo.
“Niketche” leva o leitor a decifrar o silogismo duma visão auto crítica e a
correr riscos de condescender a adopção, por via da sugestão implícita, de
realidades culturais afectas ao ocidente, injectadas ao leitor pela tragicomédia que a trama ganha ao revirar as
consequências da autoridade da cultura e da paradoxal superioridade
darwinista na coabitação entre homem e mulher.
Mas é, sobretudo, na disposição dos
factos que a narrativa revela-se uma
arrepiante metalinguística da vida
conjugal debatida até a exaustão. Este
debate que obriga uma dialéctica nutrida, traz à obra, além de factos e denúncias resultantes do crivo de investigação da autora, uma mão cheia de
imprudentes tentativas inverosímeis
na transposição do real ao @ictício.
A trama do quinteto de mulheres
falseia em seus extensos momentos de
intensidade uma variação técnica como pontos de exaltação que se @ixam
na trama como pilares ou alternativas
do clímax.
Esta técnica de Paulina faz transparecer que a obra é composta de vários
momentos e problemáticas, ligados
por uma temática que funciona como
momento de eclosão resultante da colisão entre passado, presente, futuro,
cultura, modernidade, tradição, liberdade, conservadorismo, relativismo e
utopia.
Paulina subentende a sua preocupação de tornar a obra uma mensagem de fácil digestão para o leitor a
@im de cumprir uma função edi@icadora e accionar o relativismo pretendido
com a pragmática daquele texto.
Entretanto, esta incessante preocupação que se estende em toda obra
custa-lhe a sublime consagração de irreverente em verbalismo e conoto-a
como possuidora de um realismo desgovernado que, em alguns momentos,
abre rasgos para uma satisfação naturalista.
Investida na digestão da temática,
“Niketche” não é uma obra em que
des@ilam primorosas visões nos detalhes comportamentais, engenhosa caracterização adjectival, ironia elegante, sátira mordaz e jocosa ou um senso
fértil de criatividade na feitiçaria da
palavra. A obra assume-se determinantemente como parte pragmática
da realidade em primeiro plano que
leva-a ser dependente incontornável
de factores extrínsecos à literatura.
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho 2012
William Carlos Williams
DIÁLOGO INTERCULTURAL |25
O poeta da ínfima grandeza
da humanidade das coisas
ZETHO CUNHA GONÇALVES
P
oeta, ficcionista, autor dramático, ensaísta e memorialista, William Carlos
Williams nasceu em Ruthford, Nova Jersey, E.U.A., a 17 de Setembro de 1883, e aí veio a falecer a
4 de Março de 1963. Fez os estudos
primários e secundários na sua cidade natal, tendo sido enviado em
1897 para Génova e Paris, onde estudou durante dois anos. De regresso,
estudou em Nova Iorque e, depois de
ter sido aprovado num exame especial, foi admitido em 1902 na Faculdade de Medicina da Universidade
da Pensilvânia, em Filadélfia, onde
concluiu a formatura em 1906.
Estudante do 1.º ano de medicina
conheceu o poeta Ezra Pound (também ele aluno da mesma Universidade, mas de letras), de quem se tornou
imediatamente amigo, e cuja amizade
perdurou até ao [im da vida de Williams. Ainda na Pensilvânia conheceu
a poetisa H.D. (Hilda Doolittle), outra
amizade intelectual importante para
Williams.
Em 1909, publica “Poems”, o seu
primeiro livro, com o nome de William
C. Williams. O segundo livro, “The
Tempers”, já assinado com o nome de
William Carlos Williams, virá a lume
em Londres, em 1912, pela intercedência de Ezra Pound, que se tornará
no maior promotor, agente e divulgador da poesia “moderna” e de toda a literatura de vanguarda: “Digamos então”, escreve Pound no seu livro “Make
it New” (Londres, 1934), “que, a partir
de 1912 e durante mais de uma década me empenhei em forçar a edição e,
secundariamente em comentar a respeito, de certas obras hoje reconhecidas como válidas por todos os leitores
competentes.”
É neste espírito de ruptura com “a
dicção poética predominante na época”, que William Carlos Williams ingressa no movimento Imagista, cujo
mentor era Pound, e cuja publicação,
“Des Imagistes”, de 1914, conglomerava nomes como os de H.D., Richard
Aldington, F.S. Flint, Skipwith Cannell, Amy Lowell, James Joyce, Ford
Madox Ford, Allen Upward e John
Cournos, para além do próprio
Pound e de Williams.
Com o advento da I Guerra Mundial
e o subsequente exílio de vários intelectuais europeus em Nova Iorque,
William Carlos Williams adere, em
1915, ao grupo “The Others” (“Os Outros”). Fundado pelo poeta Alfred
Kreymborg e pelo fotógrafo e artista
plástico Man Ray, faziam ainda parte
deste grupo Walter Conrad Arensberg, Wallace Stevens, Mina Loy, Marianne Moore e Marcel Duchamp.
Em 1917 dá à estampa “Al Que Quiere!”. Em 1920, na sequência da publicação do seu livro mais arrojadamente
experimental, “Kora in Hell: Improvisations”, Williams sofre violentas críticas, inclusive dos seus amigos mais
chegados, como H.D. (que apodou a
obra de “petulante e super[icial”), enquanto Ezra Pound a considerou “uma
obra incoerente”. No ano seguinte aparece “Sour Grapes”, e, dois anos mais
tarde, “Go Go” e “Spring and All”, podendo ler-se nesta última obra alguns
dos seus poemas que o tempo transformou em verdadeiros clássicos da
poesia norte-americana, como “By the
Road to the Contagious Hospital”, “The
Red Wheelbarrow”, e “To Elsie”.
Entretanto, a publicação em 1922
de “The Waste Land” de T.S. Eliot, que
se tornara de imediato num dos maiores monumentos da poesia mundial
do século XX, ensombrou as aspirações literárias de Williams. E tal foi o
impacto, que Williams acabou confessando na sua “Autobiogra[ia” como a
publicação de “The Waste Land” o fez
“sentir, de uma vez por todas, ter regredido vinte anos” nas suas pesquisas e no seu labor poético, voltando a
publicar apenas em 1932, “The Cod
Head”. Em 1934 sai a público a primeira reunião da sua obra poética, “Collected Poems 1921-1931”, a que se seguem “An Early Martyr and Other
Poems”, (1935), “Adam & Eve & The Ci-
ty”, (1936), “The Complete Collected
Poems: 1906-1938”, (1938), “The Broken Span”, (1941), “The Wedge”
(1944), até à publicação da vasta epopeia “Paterson”, originalmente dada à
estampa em cinco volumes, entre
1946 e 1958, e que venceu o National
Book Award for Poetry, em 1950.
Contrapondo o coloquial da língua
inglesa falada nos E.U.A. (que de longe preferia) ao intelectualismo de
Eliot (com seu uso frequente de linguagens e alusões da literatura clássica europeia), Williams construiu a
sua obra escorada na história, no povo e na alma da cidade de Paterson,
em Nova Jersey.
Em “Paterson”, onde a imagem da
cidade é como um homem deitado a
seu lado, povoando os lugares e as
ruas com os seus pensamentos, Williams tentou a escrita e a criação do
seu próprio poema épico, visceralmente moderno, centrando-o “não
em ideias, mas em coisas”, utilizando
e impondo o “regionalismo” numa
radicalidade que antes apenas havia
ensaiado.
Inovador, incansável experimentalista do “fazer poético”, Williams in[luenciou profundamente os poetas
da Beat Generation, sendo considerado por estes, com Allen Guinsberg à
cabeça, um profeta na “Revolução da
Palavra” e uma alternativa ao gosto
instituído pelas academias.
Para além de várias antologias e
reuniões da sua poesia, publicou ainda: “The Clouds”, 1948; “The Pink
Church”, 1949; “The Desert Music and
Other Poems”, 1954; “Journey to Love
(includes Asphodel, That Greeny Flower)”, 1955; “The Lost Poems of William Carlos Williams; or, The Past Recaptured”, 1957; “Pictures From
Brueghel and Other Poems”, 1962, a
que foi atribuído postumamente o
Prémio Pulitzer, em 1963.
Obra em prosa ([icção, ensaio, autobiogra[ia e teatro): “The Great American Novel”, 1923; “In the American
Grain (essays)”, 1925; “A Voyage to Pagany (novel)”, 1928; “The Knife of the
Times, and Other Stories (short stories)”, 1932; “A Novelette and Other
Prose”, 1932; “The First President
(three-act libretto for an opera)”,
1936; “White Mule (novel; part I of trilogy)”, 1937; “Life along the Passaic
River (short stories)”, 1938; “In the
Money (novel; part II of White Mule
trilogy)”, 1940; “A Dream of Love
(three-act play)”,1948; “A Beginning
on the Short Story: Notes”, 1950; “Make Light of It: Collected Stories”, 1950;
“Autobiography”, 1951; “The Build-Up
(novel; part III of White Mule trilogy)”,
1952; “I Wanted to Write a Poem: The
Autobiography of the Works of a Poet”,
1958; “Yes, Mrs. Williams: A Personal
Record of My Mother”, 1959; “Many
Loves and Other Plays: The Collected
Plays of William Carlos Williams”,
1961; “The Farmers’ Daughters: Collected Stories”, 1961.
Em 1949 William Carlos Williams
foi convidado para consultor da Biblioteca do Congresso, tendo então
declinado o convite, alegando motivos
de saúde: sofrera um ataque cardíaco,
que o haveria de marcar para o resto
da vida. Porém, a sua devoção à causa
da poesia não se alterou: apenas o tema da morte como exorcismo em favor da vida, e o tema do amor que se
regenera (ou seja, como sublinhou
Hofstadter, “o amor e a imaginação como essência da vida”) se tornaram
mais presentes na sua obra.
Acusado, na sequência da publicação do seu poema “Rússia”, de comunista, pela editora da revista Lyric, não
pôde Williams, quando em 1952 decidiu aceitar o cargo na Biblioteca do
Congresso, assumi-lo, nem jamais o
convite lhe foi alguma vez renovado.
A permanente atenção, quer à ín[ima grandeza das coisas do mundo,
quer ao sentido mais frágil ou mais heróico do ser humano (a que não é
alheia a sua condição de médico), ou
ao seu lado trágico e não raro burlesco, fazem da poesia de William Carlos
Williams um hino à vida numa contenção exuberante do seu dizer inaugural
e límpido.
26 | DIÁLOGO INTERCULTURAL
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Cultura
3 poemas de William Carlos Williams
O DESCENSO
Convoca-nos o descenso
como nos convoca a ascensão.
A memória é um acaso de cortesia,
uma renovação
– e mais: uma iniciação:
os espaços
que abre são novos lugares
povoados por tribos errantes
até então inexistentes,
novas espécies
movendo-se para novos objectivos
(os mesmos
que antes haviam abandonado.)
Nenhuma derrota
é eternamente derrota:
o mundo que abre é sempre
um lugar antes insuspeitado.
Um mundo perdido é um mundo
que nos convoca aos lugares originais:
nenhuma brancura
(perdida) é tão branca
como a memória da brancura.
Ao anoitecer, o amor desperta
– ainda que as sombras,
altivas pela lei do sol,
esvoacem agora
e se desprendam do desejo.
O amor agora sem sombras
fortalece-se e
conforme a noite avança
desperta.
O descenso
feito de desesperos
pelo não cumprido
nos cumpre: é um novo despertar,
reverso
do desespero.
Aquilo que não pudemos cumprir,
o que ao amor foi negado,
perdido na antecipação,
cumpre-se num descenso,
sem Aim: indestrutível.
O PARDAL
A meu pai
Este pardal
que vem saltitar
por sobre o peitoril da minha janela,
mais que um ser natural
é uma verdade poética.
O seu canto,
as suas danças,
os seus hábitos –
o prazer
com que sacode as asas
na poeira –
tudo o demonstra;
claro que o faz
para se espulgar
mas o alívio que sente
incita-o
a gorjear com veemência:
algo
mais próximo da música
que o próprio silêncio.
Onde quer que se encontre
no despontar da primavera,
rua vagabunda
ou palácio,
prossegue
imperturbável
os seus namoricos.
Principia no ovo,
o sexo é o seu talento:
Há presunção
mais inútil,
endeusamento maior
de nós mesmos?
É algo que nos arrasta,
quase sempre, ao abismo.
Nem o pequeno galo nem o corvo
com suas vozes desaAiantes
superam
o seu gorjeio
incessante.
Certa vez
no El Paso,
até ao anoitecer,
vi (ouvi)
dez mil pardais.
Vinham do deserto
para dormir
e cobriram as árvores
de um pequeno parque.
Os humanos,
zumbindo-lhes os ouvidos,
fugiram
sob a tempestade de dejectos.
Deixaram livre o terreno
aos lagartos que vivem na fonte.
A sua imagem
não é menos familiar
que a do aristocrático
unicórnio – pena
que haja menos azémolas agora
a comer aveia:
isso facilitava-lhe a vida.
Não importa:
seu breve tamanho,
seus olhos aguçados,
seu bico eAiciente
e sua truculência
garantem-lhe a sobrevivência
– para já não falar
da sua inumerável
descendência.
Até os japoneses
o conhecem
e têm-no pintado
com simpatia,
com profunda intuição
das suas características
mais insigniAicantes.
Nada
menos subtil
que os seus galanteios.
Agacha-se
perante a fêmea,
arrasta as asas,
valsa,
atira para trás a cabeça
e, por Aim,
provoca um alarido.
O impacto é terrível.
O seu modo de limpar o bico
batendo-o
contra uma tábua
é contundente.
Como, de resto,
tudo o que faz.
Cor de cobre, as sobrancelhas
dão aquele ar
de ser ele sempre
o vencedor
– porém
eu vi, certa vez,
uma das suas fêmeas,
empoleirada com determinação
na borda
de um cano de água,
agarrá-lo
pelo cocuruto de penas
(para que não guinchasse),
prendê-lo,
suspenso das ruas,
até
que o recalcou.
E tudo isso
para quê?
Perplexa,
ali está ela agora suspensa
da sua própria façanha.
Ri-me com vontade.
Prático até ao Aim,
o que depois triunfou
foi o poema
da sua existência:
uma nódoa de penas
incrustada no chão,
as asas simetricamente
estendidas, como se voassem,
a cabeça desfeita,
o negro escudo de armas do peito
indecifrável:
a imagem de um pardal,
reles pasta seca de penas,
e ossos, e sangue,
ali deixada para dizer
– e diz
sem ofensa,
duma forma exemplar:
Isto era eu,
um pardal.
Fiz
e dei
o meu melhor,
adeus.
ENTRE MUROS
ao fundo
na ala
do hospital
onde
já carvão
nada despontará
verdes
brilham os cacos
de uma garrafa
partida
(Tradução de Zetho Cunha Gonçalves)
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
DIÁLOGO INTERCULTURAL |27
O jeito de ilustrar a história de Lília
Momplé em “Ninguém Matou Suhura”
À LÍLIA MOMPLÉ E OS SEUS PAIS
“A FELICIDADE JAMAIS SE ALCANÇARÁ DEFINITIVAMENTE; É NECESSÁRIO CONQUISTÁ-LA DIA A DIA, COM UMA INABALÁVEL ESPERANÇA NO FUTURO, MAS TAMBÉM COM OS ENSINAMENTOS DO SOFRIMENTO PASSADO.”
LÍLIA MOMPLÉ, IN “NINGUÉM MATOU SUHURA”
EDUARDO QUIVE
“
Ninguém Matou Suhura¹” de
Lília Momplé nos remete a
uma viagem latente, para factos inalados pela história que
ainda se recusa a passar para a memória dos Moçambicanos.
No discurso da leitura que se pode
fazer da obra, notam-se as marcas de
quem, viveu o passado composto
por opressão, impunidade, injustiça
prevaricada por uma raça branca de
estrangeiros, que já se tinham tornado donos de uma porção de terra,
onde existiam já, povos e culturas.
ReLiro-me aos portugueses que colonizaram Moçambique e a autora
ilustra os fatos datados de Junho de
1935 e a Abril de 1975, enquanto o
País, na altura uma província de Portugal, estava entre o mais alto período do jugo colonial e por outro lado,
chegava à independência.
1.“Histórias que ilustram a estória”
“Ninguém Matou Suhura” não são
apenas vivências que a escritora nos
leva a conhecer, mas trata-se de 5
contos – estórias que ilustram a história – relatados por quem as viveu
e sentiu na pela, mais do que, por
uma alma feminina que nos transmite, em cada parágrafo, alma de
uma mãe que vive o calvário de ver
seu filho atirado aos bichos.
Que não seja só por isso, até porque
a esta obra, mais do que uma denuncia
e desabafo dos macabros acontecimentos da era colonial em Moçambique, vem carregada de uma energia
que a leva a renovar-se todos os dias,
isto é, ler “Ninguém Matou Suhura”, é
ter em si, o poder da escrita e em mão,
uma verdadeira narrativa realista com
dimensão única entre nós.
“Ninguém Matou Suhura” é a consagração, logo a primeira, da Lília Momplé como uma verdadeira contadora
de estórias em volta da lareira – Xitiku
Ni Mbaula – pela objectividade da sua
obra, mas pela eLiciência do seu domínio da palavra, não deixa de criar uma
convulsão para, antes de nos passar a
mensagem, fazer com que participemos das suas emoções.
Se bem que na Literatura Moçambicana, pelo menos lançando um olhar
para a presença feminina, muito pouco nos é fornecido em termos de livros, e da sua geração menos ainda,
em Moçambique, na literatura feita
por mulheres, há mais poetisas (com
pouca expressividade, principalmente sob ponto de vista de qualidade artística da sua poesia) do que prosistas,
género em que Liguram como exímias.
Ilustrar a história através deste livro foi a chegada em peso, de uma mulher nas artes escritas, depois da reconhecida Noémia de Sousa que inspira
gerações, aliás, embora esta ter se destacado por ilustrar a história com a
poesia, pode-se considerar a Lília
Momplé, mais um braço direito na
continuidade desta linha, mas de um
jeito mais atrevido, ao ter pautado pelo conto.
2.Os Contos
O primeiro conto, “Aconteceu em
Saua-Saua” o assunto principal é o suicídio de um homem chamado Mussa
Racua que, por não ter conseguido
atingir a meta dos 8 sacos de arroz exigidos pela administração colonial como pagamento de imposto depois de
longas jornadas de procura de ajudas
à vizinhança.
Ficara inconformado de perder a esposa e ter que viver o drama das torturas nas plantações (locais onde se levavam negros que não conseguiam pagar
o imposto ao Posto Administrativo),
preferiu pendurar o pescoço numa
corda e balouçar eternamente numa
árvore. Neste acontecimento, nota-se
o drama que os negros, moçambicanos
colonizados, passavam perante as leis
exploralistas dos portugueses.
Destaca-se neste conto, a tamanha
descrição de cada acção do personagem Mussa Racua, em cada uma das
suas acções, começando pela delirante introdução ao seu drama:
Mussa Racua aproxima-se lentamente da palhota de Abudo (…) caminha com passos Lirmes, de cabeça erguida, o belo corpo bem direito. A ansiedade e a dorida revolta que o queimam, sabe ele escondê-las dentro de
si. Só os olhos, demasiado serenos, demasiado Lixos, denotam a conformada
lassidão do jogador que tudo perdeu.
Abudo é a sua última esperança.
Contudo, uma esperança tão remota e
fugida que, longe de o animar, o enche
de pavor. Não recua só para justiLicar a
si próprio que lutou até ao Lim.
Este o princípio da ronda que o
personagem Mussa Racua faz pelas
dispersas palhotas do Saua-Saua a
procura duma solução do seu problema – procurar dois sacos de arroz que lhe faltam dos seis que já
tem, para resolver a sua dívida com
a administração que caso não conseguisse, o levaria às plantações –
coisa que não chega a resolver, por
não conseguir o arroz e acabara por
não parar nas plantações lugar de
pouca possibilidade de sobrevivência, porque decidira se suicidar.
Na escuridão enluarada do pequeno quarto sente a mulher a dormir um
sono agitado, mas profundo. Um desejo violento de a apertar nos braços para sempre impele-o para ela, mas recua a meio quarto. Então, com movimentos felinos, rápidos e silenciosos
vai-se embora sem a olhar sequer.
Maiassa (…) não sabe bem o que terá acontecido, mas sente que algo irremediável se passou, que o seu homem
se foi, que não mais o terá. E é quase
sem surpresa que, ao dobrar um carreiro, dá com o corpo de Mussa Racua
suspenso de uma mangueira, balouçando docemente ao sabor da brisa
matinal. Tombado no chão, um saco
cheio de arroz.
Depois desta inquietante introdução na obra, que nos tiraria um minuto
de silêncio e de intensa dor, por se encontrar autênticos sinais da brutalidade com que a escritora leva este acontecimento, vem de seguida o conto
“Caniço”.
Em Dezembro de 1945, em Lourenço Marques, actual Maputo, num pequeno povoado constituído mesmo
nas barbas da cidade, chamado Caniço, o rapaz de nome Naftal com 17
anos de idade e órfão de pai, vive um
drama – miséria – e porque está mesmo num bairro aventurado numa cidade onde reside e reina a burguesia,
suporta o peso de cheLiar, porque ele é
o mais velho dos irmãos, uma família
composta por seis elementos.
Naftal, trabalhando como “moleque” era a fonte de sobrevivência da
família, mas vinha de seguida, a sua irmã, Aidinha que trabalhava como “aia
de meninos” que ajudava no sustento,
sem que, contudo, pudessem sair da
vida miserável.
Um dia Aidinha desaparece. A família começa a viver a outra fase da pobreza estrema – o vai e vem de procurar esta menor que fora aliciada por
uma outra “aia de meninos” de nome
Aurora Caldeira que lhe albergara na
sua casa na Avenida de Angola para
trabalhar como prostituta.
A mãe da Aidinha soubera do facto
pela vizinhança e, apesar de duvidar
que a sua Lilha – “uma criança sossegada, incapaz desses atrevimentos” tomou a coragem para ir até ao local em
busca da menor.
E de facto Aidinha se entregara na
tal profissão, farta da miséria e que
sendo negra, não tinha outro caminho para se livrar dela. Só tornandose puta.
28| DIÁLOGO INTERCULTURAL
E querendo mudar a sua vida vendendo o seu corpo, Aidinha continuou
prostituta e só regressa para casa num
estado débil de saúde. Vive o drama da
doença e, por outro lado, como pai, vira trazer mais desgraça a família que
terá que gastar o que, mal consegue
para o seu próprio sustento, para garantir a assistência médica e medicamentosa desta que vai se acabando
aos bocados em casa.
Naftal aceita a doença e a morte próxima da irmã como aceitou a morte do
pai nas minas do John³, a miséria quotidiana, o medo e as humilhações. Para
ele,tudofazpartedodestinodosnegros.
Mas o drama deste adolescente não
para por aqui, aliás, este é apenas um
princípio de uma manhã que é acusado, no seu local de trabalho, de roubar
um relógio de ouro pela sua patroa. É
obrigado a confessar uma verdade
que não conhece juntamente com um
cozinheiro da casa. E assim não procede por conhecer a sua inocência.
Por Wim, é juntamente com o seu colega, é entregue a polícia que aos negros não poupa maldições, pelo marido da patroa. Os dois são torturados.
Quando o patrão volta para casa é
confrontado com outra realidade.
- AWinal o relógio apareceu. Estava
com a Mila. Ela chegou logo a seguir de
tu teres saído com os criados para a
polícia. Levou-o para o colégio…é vaidosa como o pai esta tua Wilha…
- Ela que não torne a fazer partidinhas dessas. E agora aqueles gajos já
devem estar a apanhar porrada.
- Podias lá ir dizer que encontrámos
o relógio – sugere a mulher.
- Ó Wilha, deixa-me descansar. Além
disso é um mau princípio…. Deixa-os
lá apanhar.
Ainda em Lourenço Marques, já no
mês de Abril de 1950, prepara-se “O
Baile da Celina”, evento que ditaria a
conclusão do Liceu Salazar duma rapariga de nome Celina, Wilha de um casal humilde, natural de Ilha de Moçambique. Saíra da ilha, depois de concluir a instrução primária na Escola
Luís de Camões, para continuar os
seus estudos em Lourenço Marques,
onde havia condições para tal.
A mãe da Celina, de nome Violante,
é mulata e tem raiva da descriminação
por ser dessa raça, por isso, quando
nasce a Celina, sua Wilha única, jurou a
si mesma defendê-la, a todo custo, das
humilhações que lhe estariam reservadas pelo único facto de ser mulata,
decidindo assim, apostar na educação
da criança. Por isso, o baile de Winalistas do 7° ano seria marcante na sua vida. Ela e um aluno indiano chamado
Jorge Vieira, ambos com uma cor diferente de todos que frequentavam o liceu, uma vez este, ser direccionado a
brancos. E o baile para estes dois alunos não chega a acontecer, pois, chamados para o gabinete do reitor, justamente no dia e na hora do baile, foram
proibidos de participar do mesmo. Quero avisar-vos que não podem ir ao
baile dos Winalistas – prossegue calma-
mente o reitor, pousando nos jovens o
seu olhar ausente míope…
Celina não pode acreditar no que está a ouvir. As fontes latejam-lhe e uma
náusea incontrolável amortece-lhe os
sentidos. DiWicilmente consegue permanecer de pé, a ouvir a voz do reitor
que lhe soa tão suave, tão longínqua(…)
- Sem dúvida que vocês compreendem – continua ele – há certas coisas
que é preciso dar tempo ao tempo.
Vem o senhor Governador-Geral e
pessoas que não estão habituadas a
conviver com gente de cor. E vocês
também não haviam de sentir-se à
vontade no meio delas! Para evitar
aborrecimentos de parte a parte,
achamos melhor vocês não irem ao
baile. Seria muito aborrecido que(…)
Já no conto “Ninguém Matou Suhura”, estória que mereceu ser o título da
obra, estamos no centro do furacão,
com o peito aquecido, Lília Momplé
despeja tudo, ou melhor, o que seria
tudo, porque as conWissões continuam,
não só ao longo da obra, mas em outras estórias que a autora conta noutras obras.
Suhura, personagem principal deste conto que relata um acontecimento
de Novembro de 1970, é uma adolescente de quinze anos de idade. É analfabeta, órfã de pai e mãe e extremamente pobre.
Vive numa palhota na Ilha de Moçambique com a sua avó desde a morte da mãe. À margem, a ilha é dirigida
por um administrador. Homem de
quarenta e oito anos de idade e casado
com D. Maria Inácia. Na Ilha de Moçambique ocupa, simultaneamente, a
posição de Administrador e Presidente da Câmara.
Como se pode imaginar, à data dos
factos, 1970, um administrador é uma
autoridade que se deve muito respeito, entre brancos, e temor, entre negros. Por isso, usando da sua força, depois de numa manhã tranquila que vai
circulando pelas ruas a adolescente,
encantado com a negra alegre que esta
era e pela humildade do seu jeito, decidiu que a queria ter. Possuído pela
vontade de ter na cama uma negra pela qual, como branco e alto dirigente,
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
tem todo o poder, o administrador,
ajudado por uma velha de nome Agira
Momade, dona de um prostíbulo na
zona que vira a comunicar a avó da Suhura que o dirigente quer possuir a
sua neta.
A velha Agira não esteve com delongas. Entrou logo no assunto começando por referir a grande, a enorme sorte
que a avó tinha. Pois não era que o senhor administrador, um homem tão
importante em todo o mundo, tinha
visto a sua neta Suhura e tinha gostado
dela? Gostara tanto que queria dormir
com ela, uma simples negra sem valor.
E o simpaio Abduzlrazaque estava ali
para arranjar tudo da melhor maneira.
E foi assim comunicada a avó que Wicou aWlita quando soube do facto, com
o coração a doer como uma ferida ao
imaginar que devia entregar a sua única neta, pessoa a quem deseja um bom
futuro. Suhura não escapa das mãos
do administrador num dos quartos da
casa de D. Júlia Sá, esta que a recebe
com uma frieza calma. E depois de algum tempo de espera, chega o senhor
administrador. Já no quarto, ambos,
Suhura e o administrador, entram
num drama que não cabe palavras para descrever.
Mas a verdade é que Suhura recusara ser possuída pelo ilustre e este tentando forçar a menor a manter relações sexuais com sigo, terá entrado
numa furiosa e estúpida agitação que
terá causado a morte da Suhura. Entretanto, que não se chegue a conclusão disso apenas pela minha compreensão, pois, nem a própria autora,
consegue descrever o que levara ao fatídico acidente.
O corpo inerte conserva uma obstinada atitude de recusa e uma Wlor de
sangue contorna-lhe as magras coxas.
Para além de um irritado espanto, o
senhor administrador sente apenas
uma estranha curiosidade em conhecer a causa desta morte: teria violentado a rapariga de tal modo que provocasse uma hemorragia fatal? Ou, no
meio da sua estúpida agitação, teria ela
própria batido com a nuca na cabeceira da cama? Ou morrera de puro susto?
Mais tarde, já em Luanda, no ano
1974 em Abril, Moçambique já nos
preparativos para a celebração da independência que vira a acontecer a 25
de Junho de 1975, a autora leva-nos
para um cenário igual a outros, já nos
contado, no território angolano.
Eugénio vivia a um ano na Gabela
em 1962. Embora residisse tão pouco
nessa vila, Angola não era estranha para ele. É de nacionalidade portuguesa.
Eugénio é que faz com que este conto tenha como título O Último Pesadelo, este que acontece num hotel de nome Guaraná onde é divergência entre
brancos e negros, numa altura em que
a media começa a exercer um papel
importante e com as independências
africanas os colonizadores entram em
pânico e Eugénio, embora não muito
ligado a opressão, por ser branco, acabaria por se achar do mesmo grupo.
Cultura
Aliás, Eugénio, era um branco diferente. Não compactuava e até defendia os negros quando torturados. A
mais marcante parte deste conto,
marca-se quando Eugénio, defende
um grupo de negros a serem torturados maliciosamente no hotel pelos
brancos e por isso, este foi conotado
como um traidor.
Eram duas horas da madrugada
quando o último negro se imobilizou
no chão. Houve depois, da parte dos
assistentes, a preocupação de veriWicar se na verdade os negros estavam
todos mortos. Satisfeitos com o exame, arrumaram os corpos para depois
serem enterrados no mato. Só então
Regalo permitiu que Eugénio se retirasse…
Desse último instante, Eugénio
guarda a lembrança de corpos intumescidos, pedaços de miolos colados
nas paredes, e um cheiro intenso a fazes e a sangue.
3.Das variedades na linguagem à
convergência de lugares
Ao longo do percurso que se faz no
livro, pode-se constatar um aspecto
interessante, que aliás, por bem ou
mal que seja, a literatura moçambicana tem registado: o uso de algumas expressões em línguas nacionais, como
por exemplo:
“Puapo nhum! Puapo nhum! Puapo
nhum!”
Marcas da expressão Macua que
quer dizer “Ó marido”. Isto, de algum
modo, traz uma originalidade principalmente quando olhamos para a estória em que este termo aparece (no
conto Aconteceu em Saua – Saua) em
que se descreve as personagens, como
um grupo de camponeses.
Outras expressões moçambicanas,
como Xirico – rádio portátil muito popular em Moçambique; Torritori – doce de amendoim, coco ou gergelim torrado com açúcar em caramelo; tocoçado – caril confeccionado com peixe,
galinha ou carne, água, cebola, tomate
e manga verde ou seca, entre outras.
Por outro lado, Lília Momplé leva o
“Ninguém Matou Suhura” a um destino mais verdadeiro. Um paralelismo
entre Ilha de Moçambique em Nampula, Lourenço Marques (actualmente
Maputo) e Luanda, em Angola. E recorrendo à periodização dos factos subentende-se que trata-se, de facto, de
uma contara “Estórias que Ilustram a
História” e assim, Wica-se a se saber dos
acontecimentos desses povos nessa
altura, através da literatura.
Para se descobrir o simbolismo literário em revelar factos históricos através de estórias da escritora Lília Momple, pode-se ainda recorrer a outros
seus dois livros, nomeadamente, “Os
Olhos da Cobra Verde” e “Neighbours”,
cuja leitura, são os aWluentes do “Ninguém Matou Suhura”. Assim poderá
perceber-se não só o rumo artístico da
autora, mas os passos da história de
Moçambique.
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho 2012
José Luiz Tavares
DIÁLOGO INTERCULTURAL |29
Quando o rigor se faz poesia
NUNO REBOCHO
CaboVerde
om três livros já publicados – “Paraíso Apagado por um Trovão”,
“Agreste Matéria Mundo” e “Cidade do Mais Antigo
Nome” -, José Luiz Tavares nasceu no Tarrafal de Santiago
(Tchom Bom) em 1967. É, hoje
em dia, um dos nomes salientes da nova literatura caboverdiana, sendo a sua poesia
reconhecida em grande parte
do mundo: recolheu prémios
em Portugal, Espanha, Brasil
e, naturalmente, Cabo Verde.
Radicado em Portugal, em
cuja Universidade de Lisboa
cursou Românicas, José Luiz
Tavares tem uma obra di<ícil,
de extremo rigor, que em parte
recorda João Vário, em parte
lembra Ruy Belo. Com ele tivemos uma breve troca de palavras que permite iniciar o leitor desta poderosa obra e
apontar rumos para o seu pensamento original.
C
- O seu último livro publicado,
“Cidade do mais antigo nome”, tem
por tema Cidade Velha. Está mais
algum na manga, no curto prazo?
JL Tavares - Da mesma natureza, há
um livro em construção, em parceria
com o fotógrafo Duarte Belo, cujo tema é o vulcão do Fogo e a paisagem de
Chã das Caldeiras. Não sei quando o
editaremos (embora a previsão seja
para perto do natal), pois, como sabe,
este tipo de projecto exige apoios que
nem sempre se conseguem. Aliás, você
acompanhou a saga que foi “Cidade do
Mais Antigo Nome”, que só foi possível
concretizar-se graças, em grande medida, aos bons oMícios da Câmara da Cidade Velha.
Além desse projecto, tenho cerca de
dez livros que aguardam oportunidade de edição.
- É geralmente apontado como
um poeta ora de rigor na linguagem, ora de versos duros – como
Alexandre Herculano, de verbo
brônzico. Nota-se, sobretudo, uma
excepcional e criteriosa busca da
palavra, quase matando o lugar
que, por norma, se aponta à inspiração na poesia. Que valor atribui à
inspiração, ao chamado estro?
JLT - As críticas e aplausos fazem
parte desta vida. Há que nem amoMinar-se com as primeiras, nem incharse com os segundos. O que Mica é a
obra, se ela for consistente e, desse
ponto de vista, pergunto: infelizmente, quantos têm dentes para a minha,
aqui nestes rochedos do meio do mar?
- A sua obra publicada data do sé-
culo XXI, embora o seu passado tenha lastro no século XX. De resto, já
se apontou a si mesmo como poeta
do século XXI. Considera que a obra
que certamente escreveu no século
XX não tem interesse para ser publicada?
JLT - A minha obra que conta é
aquela que começa com “Paraíso Apagado por um Trovão”. Nada do que está
antes tem importância. Aliás, eu aproveito uma parte ínMima daquilo que
publico. Não acho que cada espirro
meu seja qualquer coisa digna de Migurar num museu ou no catálogo das
maravilhas literárias.
- Diz-se que tem aCinco pelos prémios, que só publica tendo-os em
vista. Concorda? Como reage a esta
crítica?
JLT - A única inspiração que conheço é o trabalho. E o que me leva ao trabalho? O desassossego, o sofrimento
próprio e alheio, a falta e os desconcertos do mundo. Mas eu só escrevo,
antes, por pressentimento, ou depois,
por via do lastro e do sedimento que
deixam, nunca enquanto estou mergulhado nessas afecções ou nesses padecimentos.
- Considera-se ainda um poeta
“cabo-verdiano” (está em Portugal
desde os 20 anos)? Quase não escreve em crioulo, dir-se-ia que tem
disso horror… No entanto, poucos
conhecem o seu labor (que tem sido
farto) na língua crioula. Como é que
se dá com o crioulo?
JLT - De há uns anos a esta parte
que me tenho dedicado à escrita e à
tradução para a língua caboverdiana.
Infelizmente, muito pouco do resultado desse labor está publicado. Conhecidos do público há os textos publicados no Liberal e a versão para caboverdiano do meu primeiro livro “Paraíso Apagado por um Trovão”, cuja
versão bilingue saiu há dois anos, editada pela Universidade de Santiago.
Neste momento, tenho entre mãos um
trabalho de grande fôlego que penso
poder concluir em Minais de 2013.
Como vê a minha vida é só trabalho,
trabalho, trabalho.
- Disse uma vez que sobreleva as
máscaras pelo que mostram mais
pelo que escondem (foi mais ou menos esta a frase). O que quis aCirmar
com isto?
JLT - O mais autêntico e mais profundo que um criador artístico consegue alcançar dá-se quando ele se
transforma num outro pela força e pela necessidade de expressão. Daí que
esse «outrar-se» é mais um processo
de revelação do genuíno, profundo e
autêntico, do que de ocultamento.
Mas quando disse a frase, se calhar
terá sido em contexto mais prosaico e
que tinha que ver com algum anonimato cobarde e pérMido que, infelizmente, a internet propicia e ao qual alguns lançam mão para bolçarem toda
a espécie de imundície que ocultam
nas entranhas e que tem a ver mais
com a miséria moral, inveja e frustra-
ção do que propriamente com as humanas falhas ou faltas dos visados.
A liberdade de expressão tem o seu
contraponto na responsabilização por
aquilo que se diz. No país da liberdade
de expressão, o estado de Nova York
está a preparar legislação especíMica
contra essa prática abusiva.
30 | BARRA DO KWANZA
Aquele amor
MARIA CELESTINA FERNANDES
D
epois de um ano laborioso, as férias são
sempre bem-vindas. Naquele ano, ainda
não distante, Luís Maria convenceu dois
antigos colegas a irem redescobrir o país
onde haviam feito a formação superior.
Não foi preciso utilizar muitas palavras para
motivá-los. Disse que seria interessante reverem o
país, onde tinham passado anos importantes das
suas vidas e também que era uma forma de se livrarem, por alguns dias, do stress causado pelo trânsito
diabólico, falhas de energia e água, barulho ensurdecedor das potentes aparelhagens dos organizadores de festanças e dos geradores, um mal tornado
indispensável para tudo e todos.
E o Tonho, o amigo cómico, não perdeu a oportunidade para lançar uma piada: – Gerador é a fonte
segura, a outra é a alternativa das horas incertas! Eu
então estou male, male, o fofandó está m’bora a babar óleo, e agora? Só luz de velas ou então abrir as janelas para receber a luz da
lua. O pior é que na boleia
do luar entram os mosquitos com o paludismo deles,
melhor mesmo é aguentar
já a escuridão e esperar pela luz do sol, ah, ah, ah – gargalhou.
– Acho que chega de lamúrias, já houve tempos
piores, não houve? Calma,
dias melhores virão, vamos
lá ao que interessa. – falou o
Luís Maria e prosseguiu – Estava a propor irmos passar as
férias em Marrocos, era bestial voltar àquele paragens
numa situação diferente da
de bolseiro. Fora as diHiculdades, guardo boas recordações.
– Boas recordações e uma
paixão que nunca se extinguiu! – lembrou o Tonho.
– Foi o primeiro verdadeiro
amor e não terminou por deixarmos de nos amar. Estávamos conscientes que era uma
relação diHícil, devido aos preconceitos, mas prontos a enfrentar todas as barreiras; ela,
inclusive, estava disposta a fugir
comigo. Ainda se lembram do
signiHicado de Aini, o nome dela?
– Sei lá pá! – despachou um deles.
– Oh, então não é Hlor, primavera? – o Luís Maria
fez questão de relembrar.
– E nós a torcer para que tudo desse certo, até estávamos dispostos a coadjuvar na fuga, loucuras da
juventude..., recordo-me bem do desespero da Aini
quando a família descobriu que vocês namoravam,
foi um drama terrível e por pouco não fomos todos
expulsos, por causa da trama que urdiram para nos
queimarem – foram cogitando os amigos, cuja cumplicidade o tempo não fez esmorecer.
– Evaporou-se, nunca mais consegui saber nada
dela, através de uma amiga ainda fui informado da
tortura a que foi submetida. Mas depois a amiga deixou de me falar, fugia de mim e cheguei a ser ameaçado se continuasse a tentar aproximar-me, foi mui-
to doloroso. Mas enHim, o tempo passou e só resta
aquela chamazinha lá bem no âmago. Ainda guardo
algumas lembranças, a minha mulher sabe e nunca
aceitou o fantasma da Aini, eu compreendo, ela é
mulher, mas no coração ninguém pode mandar –
Luís Maria foi-se abrindo.
– Ei, ei, companheiro, não nos convocaste para
beberes e Hicares a rebuscar o passado. Se calhar a
rapariga nunca mais pensou em ti, sabes que elas tinham muitas carências, até do ponto de vista sentimental, e muitas vezes o interesse era de nos explorar, extorquir-nos. Os angolanos mandam goela, dão
sempre a impressão que têm mundos e fundos! Por
outro lado, elas e eles faziam de tudo para nos converter ao islamismo. O mais certo é a rapariga ter encontrado alguém entre os seus. O que é que pensas?
Para aquela gente não passavas de um atrasado, um
impuro… – um deles fez questão de sublinhar.
– Não, ela era diferente, se assim não fosse, não
estaria disposta a fugir comigo? Mas não obstante a
desilusão,
quero voltar, quero descobrir o que não vi.
– Também quero. Agora que já não andámos a
contar os tostões, vamos poder desfrutar de muita
coisa e como já conhecemos o terreno e muitas das
artimanhas, ninguém nos vai aldrabar, vai ser bué!–
gracejou o Tonho e adiantou com o mesmo humor –
O que eram as nossas diversões? Jogar futebol com
os irmãos bolseiros de Cabo Verde, Guiné e São Tomé. Tínhamos uma equipa bem formada, não é?
– Lá isso tínhamos, grandes trumunos disputámos na cidade universitária de Souissi e não só! Mas
tínhamos também as actividades culturais e religiosas na igreja protestante de Rabat e nas férias as visitas a alguns locais emblemáticos – momentos que
os três não podiam esquecer.
Preparam a viagem de férias e partiram eufóricos. A mulher de Luís Maria Hicou enciumada por o
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Cultura
marido não a ter convidado, chegando a pensar que
ele ia à procura da dita Aini.
– Os outros também não vão levar as esposas,
nós só queremos ir repousar um pouco e recordar
uma passagem da nossa vida estudantil, tu irias Hicar deslocada. Mas Hica prometido, para a próxima
vais tu e os miúdos também, agora vou ver como está aquilo, passaram muitos anos...
– Prometido é devido, vamos-te cobrar e ele avalizou: – Não há maka, Hilha!
A primeira paragem foi em Casablanca. Todos repararam e comentaram as mudanças, o desenvolvimento era notório. Ficaram alguns dias por lá, hospedados num hotel de quatro estrelas, bem acomodados, diga-se de passagem! A área de lazer do complexo hoteleiro dispõe de um jardim fabuloso, piscina, redes espreguiçadeiras, corte de ténis etc., e eles
disfrutaram o máximo. O emotivo Luís Maria reagiu
ao ver as Hlores de laranjeira nas laranjeiras do jardim. Cortou um raminho, levou-o ao nariz e inspirou de
olhos semicerrados:
– Cheiro tão agradável!
Nunca mais tinha visto laranjeiras em Hlor, a pureza e
o perfume acoplados… –
enHiou depois as Hlores no
bolso, os outros repararam
e piscaram-se os olhos.
Andaram a visitar os
locais turísticos mais referenciados,
particularmente a cidade antiga,
bem no alto e com uma
magníHica vista para o
mar. O passeio do primeiro dia terminou no famoso centro comercial Marocco Mall. Enquanto andavam de loja em loja,
descobriram a fonte das
águas dançantes e o
aquário gingante. Perderam-se nas compras,
sacos e mais sacos e
ainda só estavam na
primeira cidade…
Rumaram para a
Tanger, hospedaramse num hotel de arquitectura e ornamentação tipicamente árabe,
uma maravilha! Foi em Tanger que andaram de camelo e tiveram um copioso almoço na piscina de um
restaurante à beira mar. Tinham o cuidado de escolher os que serviam bebidas alcoólicas, porque dois
não dispensavam uma cervejinha bem a gelada. O
Roldão deliciava-se com o chá marroquino.
Depois, em Rabat, a cidade onde tinham estudado, andaram a revisitar os locais turísticos e culturais que já conheciam: a parte antiga da cidade, o
mausoléu real, o palácio do rei, Medina, o mercado,
parques e jardins e Hizeram compras. Não era a mesma Rabat que tinham deixado anos atrás, havia muitas construções novas, boas estradas, muitas viaturas e uma condução quase tão doida como a de
Luanda, as motorizadas também se enHiam e aparecem onde menos se espera.
Ficaram orgulhosos ao ver a bandeira da Angola
Hlutuar no mastro da embaixada, na época deles ainda
Cultura | 25 de Junho a 8 de Julho de 2012
não existia representação diplomática naquele país.
Como um deles fez anos naquele período, foram
almoçar a um dos restaurantes da marina e à noite
passaram numa discoteca, apenas por curiosidade.
Entretanto, Luís Maria procurava descobrir a Aini
entre as mulheres com quem cruzava, Mixando-as
muito discretamente. Na faculdade ela trajava-se
como qualquer rapariga do ocidente, mas talvez
agora usasse burka e manto na cabeça, como uma
boa parte das marroquinas, imaginava.
A última cidade que visitaram foi Marraquexe,
uma cidade com características peculiares, a começar pela cor das paredes que são todas pintadas com
tinta da cor de terra vermelha, daí o nome de cidade
vermelha.
E o Tonho, ao reparar nos laranjais que se viam
por todo lado, fez um reparo:
– Se fosse lá na banda, estas laranjas assim mesmo a olharem para nós sem ninguém tocar, nunca
mais! Nem sequer deixavam amadurecer…
–Éporquetêmmuito,elessãograndesprodutores
eexportadoresdecitrinos–justiMicouoLuísMaria.
– Não sei se é a fartura ou a disciplina que impede, nós somos mesmo indisciplinados, gostamos de
contrariar, desaMiar…– insinou o Roldão.
– Lá isso é verdade – acabaram por assentir os
três.
Do hotel onde se instalaram, podiam divisar o
cume das montanhas da cordilheira Atlas cobertos
de neve e acordaram chegar até lá se um dia voltassem àquela localidade.
– Eu vou ter mesmo de voltar, prometi à patroa –
disse Luís Maria.
Guiados por um cicerone, visitaram ruínas de
antigos palácios e monumentos. À noite foram à praça Jemma e andaram pelo movimentado mercado
Souk, onde se vende e se come de tudo, à semelhança
do nosso extinto Roque Santeiro. Ali as pessoas são
insistentemente assediadas pelos vendedores, com
os quais regateiam os preços até a exaustão. Embora
a maioria deles só fale e entenda o árabe, em questões de números todos se entendem. E como acontecia no ex-Roque, os turistas angolanos foram advertidos para terem o máximo cuidado, porque os donos do alheio estão atentos a qualquer descuido.
Aliás, mesmo nas lojas dos grandes centros comerciais, os vendedores tentam vigarizar, de maneira
que vale sempre a pena veriMicar os sacos, para não
se levar gato por lebre, isto em todos os sítios.
Luís Maria comprara um estojo de produtos de
beleza da marca l’occitane, uma marca que a mulher
apreciava. Para espanto, quando ela o abriu, veriMicou que o frasco da água-de-colónia estava completamente vazio. O marido Micou boquiaberto. Barafustou, ofendeu, mas já era muito tarde, há quantas
pessoas já terá ela enganado com o mesmo truque?
Perguntou-se.
– Bolas! E eu a pensar que ninguém nos enganava, caí que nem patinho, besta duma Miga – ainda resmungou quando contou o sucedido ao Tonho.
– Possa! Aquela gente é mesmo craque, como foi
possível sermos enganados daquele jeito, nós estávamos a vê-la arrumar frasco por frasco na caixa, cachorra, se eu a tivesse apanhado...
– Ias fazer o quê? Já te esqueceste das impunidades?
A última visita foi ao Jardim Majorelle e saíram
de lá maravilhados com a beleza e a tranquilidade.
Recantos repletos das mais variadas espécies de
plantas e árvores, muita cor, muita água em repuxos
e laguinhos, um museu sobre a cultura berbere e outras curiosidades.
Andaram, andaram e ninguém se queixou de
cansaço, nem uma única vez se sentaram nos bancos.
– Nem sinto cansaço, acho que ninguém se can-
BARRA DO KWANZA | 31
sa de estar num sítio tão belo, tão tranquilo. Não admira que Yves Saint Laurent se refugiasse aqui para
buscar inspiração para os modelos que fez desMilar
pelas passerelles do mundo – disse a dado momento
o Roldão, o homem de poucas palavras.
– Sem dúvida, meu kamba, isto é inigualável,
vou recomendar! – falou o Luís Maria enquanto se
encaminhavam para a galeria onde se encontra a
com a exposição dos cartões que o estilista desenhava para enviar aos amigos por altura das festas de
Mim de ano, todos sob o lema do LOVE.
– Uau! C’est vriament beau,,, – e quando se preparavam para fotografar, foram rapidamente interditos pelo zeloso vigilante.
Entraram no museu da cultura berbere, quanta
coisa para aprender…, e andando em direcção à saída desembocaram no memorial erigido em homenagem à Yves Saint Laurent. Ficaram algum tempo a
contemplá-lo, respeitando o silêncio inscrito no epitáMio.
As férias chegaram ao Mim. Belas férias! Deu para recarregar as baterias, não se cansavam de dizer.
Apanharam o comboio de volta a Rabat, onde
deveriam passar para apanhar a bagagem que Micara
à guarda do hotel. A viagem de regresso foi tranquila, entre cochilos e conversas animadas. Bastava o
humorista Tonho estar acordado para os outros não
conseguirem pregar o olho, fazia anedotas de tudo o
que via.
Quando o comboio parou na penúltima paragem, Luís Maria foi para o corredor e Micou a contemplar a azáfama da entrada e saída de passageiros.
Entretanto, o comboio apitou, as portas fecharamse e as carruagens começaram a movimentar-se. De
repente, o Roldão e o Tonho ouviram o companheiro
falar tão alto que saíram apressados da carruagem.
– É ela, é ela! – dizia fora de si.
– Ela quem, piraste ou quê?
– A Aini, a Aini..
– Onde está?
– Desceu, desceu, vai ali, era ela de certeza.
Se não fossem os companheiros era capaz de
forçar a porta para se arremessar.
– Estás com alucinações, homem. Dentro daquelas vestes como podias reconhecê-la? – espantaramse quando viram a mulher de costas, para a qual ele
apontava.
– O olhar, o olhar, ela estava a olhar para aqui.
Os amigos empurraram-no à força para o assento da carruagem de 1ª classe onde viajavam.
E perdido, olhando para o vazio se manteve Luís
Maria até a estação terminal. Pela aparente perturbação, os companheiros concluíram que ele regressava a buala com o fantasma da Aini viviMicado...
Maria Celestina Fernandes, Assistente Social e Licenciada em Direito, membro da União Dos Escritores
Angolanos, iniciou a carreira literária no início da década de oitenta, com a publicação de contos em páginas
de jornais. É autora de diversos contos infantis, romances e poemas. Em 2008 foi-lhe outorgado pelo Ministério da Cultura o Diploma de Mérito “pelo seu contributo persistente na valorização, promoção e divulgação
de contos infantis e da prosa Angolana”. Em 2009 foi-lhe outorgado o diploma “Altamente Recomendável” pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil do Brasil pela obra ‘A árvore dos gingongos’. Em 2010 ganhou
o prémio de literatura infanto-juvenil “Jardim do Livro” com o conto ‘As amigas em Kalandula’. Três vezes nomeada para o prémio sueco Astrid Lindgren.
32 | NAVEGAÇÕES
25 de Junho a 8 de Julho de 2012 |
Eu sou do sul
Sei de barcos e de mares
navegações interiores
fogos iniciais
do mar, às embalas de Angola
Publicidade não tem hora
nem idade certa
GOCIANTE PATISSA
R
iram-se dele, como nunca
se devia rir às custas de
ninguém. Ele, a muito
custo, não soltou dispara-
Sei de linhas e rios perfumados
quase sem margens iniciais
sem terra à vista, ou o suporte frágil
das raízes
Em silêncio, adormeço
nesta onda, que quase me leva ao outro lado do mar
outras águas, outras árvores
com frutos pendentes
quase nascendo
da terra
Firmino Mendes
Firmino Mendes nasceu em Ronfe, Guimarães, Portugal, em 1949. Foi professor
de Língua Portuguesa, na Escola Superior
Artística do Porto. Poeta premiado e conhecido pelos poemas seus musicados e
participantes nos festivais da Canção da
RTP. Para além de publicar poemas em diversas revistas, tem publicados em livro
Ilha sobre Ilha (1993; Prémio de Revelação de Poesia da A.P.E., 1991), Fronteira
Animal (1993), Invocação e O9ícios
(1995), Um Segredo Guarda o Mundo
(1998) e e "A Terra e os Dias" (2000).
Cultura
te algum.
E foram-se rindo, que até parecia
nunca mais terminar. Ele, só raiva
no peito. Era um dia com tudo a
correr muito bem no quintal. Os
mais-velhos, como sempre para celebrar a vida, andavam embalados
naquele dialéctico lamentar por isto e aquilo, ladainhas que retiram
do foco qualquer mais-novo ali
presente. Não é que um olhar fora
de mão foi logo espreitar pelo intervalo entre a carne e o tecido dos
calções do rapaz?! Pronto, acabou
vendo o que não esperava. Lá estava o que devia estar, e o que não devia também.
Uma camisinha envolvendo o instrumento do menino de oito anos
apenas. Não se via bem com que
adereço mais se prendia o insólito,
dada a diferença entre os diâmetros do homem e da borracha. Mas,
também, até aí, não é olhar demais?
“Use a camisinha”, vive repetindo
a máquina da propaganda, muitas
vezes lacónica demais para se lembrar de dizer como e quando. “Use”.
A publicidade não tem hora nem
idade certa. Logo, por quê a chacota, se o rapaz estava apenas a usar
como muitas vezes ouve? Para os
demais, era com certeza uma iniciativa precipitada e longe do previsto pela máquina da propaganda.
Perguntar, que é bom, nada. Talvez
com algum tabu implícito. Só depois de se cansarem de tanta consumição, se aperceberam que não
se tratava de brincadeira, antes, de
uma solução para não fazer xixi na
cama.
Quer dizer, se um gajo faz xixi na
cama, riem-se. Se passa dia e noite
com camisinha, como forma de evitar os raspanetes, riem-se. É chato
ser-se puto, não é?!
Bairro da Santa-Cruz, Lobito
Chá de Caxinde abre quarta edição
do concurso anual do conto infantil
A Associação Cultural e Recreativa Chá de Caxinde abriu o prazo de
entrega de contos para o concurso
anual “Caxinde do conto infantil”.
Os candidatos têm até ao dia 30 de
Setembro para proceder à entrega
das obras, que devem ser inéditas.
O regulamento estabelece que
podem participar no concurso todos os cidadãos angolanos, residentes ou não no país, assim como
os estrangeiros residentes em AnZulinni Bumba ganha prémio Jardim do Livro Infantil gola. Cada concorrente pode apresentar no máximo dois contos, com
angolana Zulinni Bumba que deu a conhecer que a sua obra o mínimo de 12 mil caracteres
conquistou a edição des- “é um conto em forma de narrati- (sem espaço) cada, escritos em lete ano do premio literá- va, que tem como principais Iigu- tra de corpo 14, impressos em forio nacional Jardim do Li- ras os diversos animais que fazem lhas brancas A4.
Os trabalhos, assinados com
vro Infantil, com a obra “O aniver- parte do mundo selvagem”.
Informou que o livro será lançado pseudónimo, devem ser encerrasário do Rei Leão”. “É uma satisfação para mim. Nunca me passou durante a terceira edição do Jardim dos num envelope A4, endereçado
pela cabeça que a minha estreia no do Livro Infantil, a ter lugar este mês à associação Chá de Caxinde. No inmundo literário seria marcada em Luanda. Zulinni Bumba tem tex- terior do envelope grande deve escom a conquista de um prémio. Is- tos seus inseridos numa antologia tar contido outro envelope menor,
to é razão para apostar mais na li- publicada em 2004 pela Brigada Jo- fechado, contendo o nome do conteratura infantil”, disse a autora, vem de Literatura de Angola (BJLA) corrente, naturalidade, idade e con-
tactos, bem como uma cópia do bilhete de identidade ou do cartão de
estrangeiro residente.
Os envelopes com as obras devem ser entregues na sede da Associação Cultural e Recreativa Chá de
Caxinde, em Luanda ou Lisboa, ou
nas delegações de Cabinda, Benguela, Huíla e no núcleo do Lobito.
A
Efemérides
2012 Ano Internacional das Cooperativas | Ano Internacional da Energia Sustentável para Todos 2003 – 2012 Década da Nações Unidas para a Literacia –
Educação para Todos 2005 - 2012 Década das Nações Unidas da Educação para o Desenvolvimento Sustentável | Segunda Década Internacional
dos Povos Indígenas do Mundo 2005 – 2015 Década Internacional para a acção, “Água para a Vida” 2008 - 2017 Segunda Década das Nações Unidas
para a Erradicação da Pobreza 2010 - 2020 Década das Nações Unidas para os Desertos e a Luta contra a Desertificação.
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