www.portaldosjornalistas.com.br Edição 950B ESPECIAL DIA DA IMPRENSA 2 de junho de 2014 A imprensa no ataque, defesa e meio de campo Profissionais fazem análises, previsões, críticas e elogios sobre a Copa no Brasil, neste especial que celebra o Dia da Imprensa Para compor um mosaico de opiniões sobre a realização da Copa no Brasil, J&Cia entrou em campo para ouvir dezenas de profissionais de todo o Brasil e, desse modo, medir a temperatura de como o Mundial está sendo visto no ambiente das redações e mesmo nas ruas. Imprensa e Copa do Mundo, tema central desta edição especial, é a homenagem de J&Cia pelo Dia da Imprensa, celebrado neste domingo, 1º de junho, quase às vésperas da abertura do Mundial, que terá, segundo a Fifa, perto de 20 mil jornalistas credenciados. São participações de mais de 80 profissionais da imprensa esportiva e de outras áreas do jornalismo, inclusive da comunicação corporativa, que incluem pesquisa, frases, minidepoimentos, entrevistas e artigos, além de um tabelão com palpites sobre os favoritos ao título (pág. 19). Democraticamente participam deste trabalho profissionais de todas as gerações, homens e mulheres, repórteres, comentaristas, editores e diretores, cada um externando a sua opinião sobre o que acha da Copa no Brasil. Roberto Muylaert, por exemplo, que presidiu por vários anos a Fundação Padre Anchieta e a Aner – Associação Nacional dos Editores de Revistas, faz uma analogia sobre a Copa de 1950 e esta de 2014, ambas no Brasil. Com um detalhe, ele estava presente no Maracanã, naquela triste tarde em que o Brasil viu o título escapar para o Uruguai, com a derrota por 2 x 1, com o gol do título sendo feito pelo (depois) lendário Ghiggia. Numa outra ponta, Leandro Beguoci, que há anos estuda, leciona e atua na chamada nova mídia, mostra como os novos veículos estão se preparando para a cobertura, naquilo que parece será um show de jornalismo. João Palomino (ESPN), Márcio Bernardes (Transamérica), Vitor Guedes (Agora São Paulo e Bandnews FM) e Luiz Fernando Gomes (Lance e Lancenet), que já estão vivendo a Copa por dentro há várias semanas pelos veículos que representam, foram entrevistados opinando sobre os prós e contras desta Copa. Também registramos com satisfação as colaborações de Apolinho (Washington Rodrigues), 52 anos de profissão e 77 de idade, que já foi até treinador do Flamengo, e dos jornalistas escritores Antônio Torres, Audálio Dantas, Ignácio de Loyola Brandão, Moacir Japiassu, Ricardo Kotscho e Ruy Castro. Uma pesquisa produzida pela In Press – Análise & Perspectiva, coordenada por Marília Stabile e que ouviu jornalistas e outros formadores de opinião, registra que de um modo geral a competição e o esporte estão preservados no imaginário da população, mas o mesmo não se pode dizer do discurso vendedor das autoridades e tampouco do possível legado que ficará para o País (pág. 18). Muitos dos depoimentos mergulharam fundo na alma brasileira, para analisar esse momento particular vivido pelo Brasil e pela sociedade. Metáforas, críticas, poesia... a edição tem de tudo um pouco e muito mais. A pluralidade crítica prevalece, embora duas coisas tenham chamado a atenção: quem se pronunciou sobre as manifestações populares considerou-as válidas, mas condenou a violência; e a grande maioria, inclusive dos que apoiam a Copa, chamou a atenção para a falta de planejamento, os altos custos e o legado duvidoso que vai ficar para os brasileiros. Aliás, como bem lembraram alguns dos depoentes, não sem certa amargura: por que, na Copa, seria diferente do que sempre foi neste País? Nossos agradecimentos a todos os que se dispuseram a colaborar com este especial com seus depoimentos e também à editora Cristina Vaz de Carvalho, que trouxe uma valiosa contribuição do Rio de Janeiro, e aos correspondentes Admilson Rezende (MG) e Lauriberto Braga (CE), que marcaram presença com depoimentos de colegas desses dois estados. O legado deveria ser um Brasil para brasileiros Sobre ele recai a responsabilidade de conduzir uma das mais preparadas equipes esportivas do País, capaz de fazer entretenimento de qualidade sem abrir mão de um jornalismo rigoroso, crítico, ousado João Palomino muitas vezes. Herdou isso de seu antecessor, o chefe José Trajano, com quem ainda tem grande convivência, ele agora na função de diretor Editorial e Trajano, como comentarista. Simpático, acessível, sorriso estampado no rosto, João Palomino concentra-se cada vez mais nos desafios de fazer uma excelente cobertura da Copa do Mundo, honrando a tradição ESPN Brasil, reconhecida pela qualidade e seriedade do trabalho no jornalismo esportivo. A emissora vai para a Copa com 236 jornalistas credenciados e a confiança de ser a equipe que mais transmitiu futebol internacional nos últimos quatro anos – foram mais de quatro mil jogos – e de reunir um grupo de comentaristas internacionais como Ballack, Nistelroy, Loco Abreu, Gilberto Silva, Rincon e Zamorano. E audiência, com tantos veículos concentrados na cobertura, de todas as plataformas, inclusive televisão? “A audiência – diz Palomino, que vai para a sua quarta Copa do Mundo – sempre se eleva na competição. Nosso desafio é tentar manter os índices no pós-Copa”. Ele estreou em Copas na França e desde então só não foi à Ásia (Japão e Coreia) porque a ESPN não tinha os direitos. “Cada uma das Copas teve características próprias, diferenciadas, mas a que mais me marcou foi a da África do Sul, que histórica e culturalmente foi a mais humana”. Palomino entende e até defende os protestos da sociedade brasileira, desde que dentro de limites aceitáveis, mas considera que tentar impedir a Copa é um exagero: “O que houve no Brasil foi uma inversão absurda de valores. O País, com um grupo pouquíssimo confiável, liderado por Ricardo Teixeira, quis a Copa sob a justificativa de que deixaria um legado enorme sem gastos públicos. Na verdade, o legado da Copa deveria ser de um Brasil para brasileiros. Qual o legado hoje que a Copa e Ricardo Teixeira, com apoio federal, deixam ao Brasil?”. Para ele, essa vai “ser a Copa mais cara para todos, principalmente para as empresas brasileiras, que precisam ficar cruzando o País para acompanhar tudo. As outras empresas internacionais podem concentrar seus esforços numa cidade, o que parece inaceitável para uma empresa brasileira”. E a imagem do Brasil? “Vejo rotineiramente notícias e vídeos internacionais sobre a Copa do Mundo. A imagem é péssima lá fora. Os relatos não poderiam ser piores para quem pretende se mostrar ao mundo como um país economicamente estabilizado e com um povo recém-saído da miséria. Corrupção, desorganização, pouco preparo, manifestações, são apenas alguns dos pontos sempre abordados nessas reportagens. E quanto o Brasil gasta para mostrar o que a Copa pode ser para o turismo?”. Logística à parte, sobretudo pela incógnita ainda existente em questões como deslocamentos, transportes, hotéis e restaurantes, ele não tem dúvida de que na parte técnica “vamos, sim, ter a impressão de uma grande Copa do Mundo. Vai ter Copa para a televisão mundial. A empresa que presta serviços à Fifa vai garantir condições para que todos trabalhem. O entorno é que é o problema”. Palomino já narrou duas eliminações brasileiras em Copas do Mundo, em 2006 e 2010, mas se como brasileiro sente uma certa tristeza por isso, como profissional é bola pra frente: ”A Copa pode acabar para o Brasil, mas não acaba para a ESPN Brasil”. E o que ele pensa da publicidade feita por jornalistas esportivos? Como compatibilizar entretenimento, jornalismo e publicidade? “Os caminhos a serem seguidos pelo jornalismo esportivo ainda são pouco explorados ou estão pouco discutidos. Prefiro o modelo americano, em que as marcas podem estar próximas do conteúdo, mas nunca do jornalista. Este é o ideal de utilização”. Edição 950B Página 2 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA Um país se constrói o tempo todo Adhemar Altieri, diretor de Comunicação Corporativa da União da Indústria da Cana-de-Açúcar (Unica) A decisão de trazer a Copa para o Brasil foi acertada, por se tratar de um dos principais eventos do mundo, com enorme potencial de gerar oportunidades, movimentar a economia e deixar ganhos que terão efeito positivo posterior. Nenhum país deve abrir mão de uma oportunidade dessas. Infelizmente, a decisão teria que ser acompanhada por uma gestão competente, algo que passa muito, muito longe do atual governo que, obrigatoriamente, deveria liderar o processo. Sabem há sete anos que a Copa seria no Brasil e não foram capazes de realizar um planejamento minimamente adequado, expondo desleixo e incompetência imperdoáveis. Como resultado, temos uma vergonhosa correria para se concluir obras em cima da hora, transmitindo e reforçando o estereótipo da falta de compromisso, disciplina e seriedade no País, produzindo uma péssima impressão tanto perante o público brasileiro quanto na mídia internacional. Sem falar nas mortes de trabalhadores, prováveis reflexos da pressa causada pelo mau planejamento. Outra enorme falha foi a utilização de recursos e financiamentos públicos para a construção de estádios, mais uma demonstração de incompetência e falta de diálogo com a iniciativa privada, que deveria ter sido engajada para realizar todos esses projetos. Enquanto presenciamos gastos exagerados em estádios que terão pouca utilidade pós-Copa, temos aqui mesmo no Brasil os exemplos das arenas do Grêmio e do Palmeiras, de ótima qualidade, sem dinheiro público e custando metade ou menos de metade das arenas construídas especialmente para a Copa. Revolta qualquer cidadão de bem o fato de se ter optado pela construção de arenas novas em lugares que farão pouco uso dessas estruturas e a custos exorbitantes, em vez de se optar pelo uso dessas duas arenas ou de um estádio emblemático e que poderia ter sido facilmente adequado para a Copa, como o Pacaembu. Temos, então, uma oportunidade ímpar sendo muito mal aproveitada e, pior, transformada em alvo de toda sorte de oportunismos e ações de caráter pouco prático ou produtivo, alguns com objetivos políticos, outros para atender a interesses específicos, sem consideração pela sociedade de forma mais ampla. É, por exemplo, de uma incrível falta de bom senso ir para as ruas agora para protestar contra a Copa do Mundo. Quem pensa assim, se fosse sério, deveria ter ido às ruas protestar em 2007, quando o Brasil decidiu pleitear a Copa, pois ela não está aqui porque a Fifa quis ou por acidente, e sim porque o governo brasileiro quis. Aquele era o momento de frear o processo. Também poderiam ter protestado quando o governo brasileiro insistiu em 12 cidades-sede, quando poderia ter resolvido tudo com bem menos cidades e menos estádios. Protestar agora é de um oportunismo barato, que só servirá para reduzir ainda mais as chances de se obter resultados positivos com a Copa e causar ainda mais prejuízos ao País, em um momento em que estaremos recebendo milhares de visitantes estrangeiros. São pessoas que vão gastar muito dinheiro para estar aqui por causa da Copa – dar show para eles com atos destrutivos, tipo queimar ônibus (verdadeira e total imbecilidade de quem faz...) ou travar o acesso a estádios, além de um ato de total desrespeito, que não ocorre com brasileiros que visitam outros países, só vai servir para multiplicar péssimas impressões mundialmente a respeito do Brasil. Quem ganha com isso? O grande problema parece ser que há muita gente no Brasil que acreditou que se deveria construir um país apenas porque aqui seria realizada uma Copa do Mundo. Agora, parece haver muita decepção porque o tal país que seria construído não ficou pronto... É uma forma distorcida de enxergar as coisas. Um país se constrói o tempo todo e nunca em função de um evento, qualquer que seja. O evento gera oportunidades, que geram renda, que geram mais impostos e é com os impostos bem administrados que se constroem os hospitais e escolas que estão faltando. Portanto, não é não fazendo o evento que se realizam essas obras – é exatamente o contrário disso. O que cabe é reclamar, e fortemente, da incompetência generalizada demonstrada pelo governo e do uso de recursos públicos onde nem mesmo um tostão de dinheiro do contribuinte deveria ter sido aplicado – em estádios, por exemplo. Aí, sim, pode-se argumentar pelo mau uso do dinheiro público, mas é preciso lembrar que isso não é culpa da Copa do Mundo, e sim da péssima condução desse projeto por quem hoje ocupa o poder no País. Resta torcer para que a maioria dos brasileiros tenha os interesses do País como prioridade durante a Copa, dirija suas reclamações ao lugar certo (que não é o fato de a Copa do Mundo ser no Brasil), deixando estratégias ignorantes, gratuitas e destrutivas para uma minoria que não quer agir de forma consciente pois tem, claramente, outros interesses e nenhum respeito pelo bem comum. “O círculo se fecha” “É hora de buscar benefícios” Affonso Ritter, colunista do Jornal do Comércio de Porto Alegre, um dos apresentadores do Jornal Gente diário e do programa Empreendedores aos sábados da Band AM (640), comentarista do BandCidade da Band e editor do site www.affonsoritter.com.br Meu entusiasmo pela Copa do Mundo no Brasil foi relativo na decisão. Diferentemente de muitos que então a festejaram e hoje promovem passeatas contra. Perto da Copa, acho que valeu. É hora de buscar seus benefícios depois de arcar com os custos. Há muita confusão de números, misturando gastos de estádios com gastos em obras de mobilidade urbana. Mesmo os gastos com estádios não foram feitos com recursos do orçamento e sim de empréstimos do BNDES, que deverão retornar com juros. Porto Alegre não tem estádio estatal. Os dois – Arena do Grêmio e Beira-Rio – são privados, ainda que tenham recebido incentivos fiscais na compra dos materiais. Para meu gosto, não seriam 12 sedes. Vão sobrar elefantes brancos, por exemplo, em Manaus e Cuiabá, que não têm futebol para ocupá-los. Alexandre Alfredo, diretor de comunicação da Nike do Brasil O futebol não nasceu no Brasil, mas ninguém ousaria negar que ele foi aperfeiçoado aqui. Nas ruas de São Paulo, nas praias do Rio de Janeiro, nos pés de lendas cujos nomes ecoam por décadas, mitos tão fortes hoje como no passado. O Brasil adotou um esporte de outro continente e o abraçou de forma tão completa e incondicional que acabou tomando como seu. É tão inseparável da vida dos brasileiros quanto o idioma ou o próprio território. E como sempre acontece com uma grande paixão, o resultado é maravilhoso. Uma nação com 200 milhões de pessoas apaixonadas pela camisa verde e amarela há quase um século. A Nike só entendeu realmente a magia do futebol quando a viu através dos olhos brasileiros. Agora, quase 20 anos depois que a Nike apareceu pela primeira vez na camisa verde e amarela, o círculo se fecha. E o maior espetáculo do futebol retorna ao seu lar espiritual. “Cobrar dos clubes e dos governos” Alexandre Salvador, repórter, editor e locutor da Agência Webcombrasil – Central de Radiojornalismo, de Curitiba/PR Para mim, a Copa do Mundo ideal seria aquela que gastasse o mínimo de dinheiro possível (reformando os estádios que já existissem e fazendo as obras que fossem extremamente necessárias) e sem tanta ingerência e autoritarismo da Fifa, como estamos vendo. Mas já que nada disso aconteceu, temos que cobrar dos clubes e dos governos a devolução gradual do dinheiro público investido na modernização/construção das arenas e a conclusão das obras que não ficarão prontas a tempo do Mundial, sem falar daquelas que sequer saíram do papel. As ferramentas certas para o seu negócio prosperar estão no SEBRAE São Paulo. Empresa sem o SEBRAE São Paulo. Empresa com o SEBRAE São Paulo. Edição 950B Página 3 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA “O bom e velho Brasil” Américo Martins, superintendente de Jornalismo e Esportes da RedeTV Eu nunca achei que a realização da Copa do Mundo ou das Olimpíadas fosse uma prioridade para o Brasil. O País tem milhões de problemas e o foco da sociedade, do governo e dos cidadãos deveria estar em tentar solucionar pelo menos parte deles. Qualquer dinheiro público também deveria ser usado prioritariamente para melhorar questões como a saúde, a educação e a segurança das pessoas. É lamentável que dinheiro público tenha sido utilizado na construção de estádios enormes, por exemplo. Mas também entendo que o Mundial pode trazer boas coisas ao Brasil. E acho que uma delas, curiosamente, será em termos de imagem do País no exterior. Eu acompanhei a questão em detalhes desde o anúncio oficial do Brasil como sede da competição, em 2007. Na época, trabalhava como editor executivo da BBC, em Londres, e fui muito questionado por colegas da empresa e de outras companhias internacionais de mídia sobre o impacto que o evento teria no Brasil em qualquer lugar do mundo. E, no fim, o balanço geral da imprensa internacional será mais positivo. Foi assim, exatamente da mesma forma, a cobertura internacional de outros eventos mundiais em países – assim como o Brasil – tidos como periféricos (como as Olimpíadas em Atenas, na Grécia, e a Copa da África do Sul). E os próprios brasileiros vão ficar muito mais animados e felizes com o desenrolar da competição. Especialmente se o Brasil começar vencendo na competição. “Momento mágico” Andrea Denadai, diretora de Comunicação da MasterCard para o Brasil e Cone Sul Sempre fui apaixonada por futebol, e a Copa do Mundo, para mim, é um momento mágico, em que as famílias e os amigos se reúnem para torcer e vibrar juntos. Por esse motivo, a Copa do Mundo no Brasil me pareceu uma excelente ideia e ainda custo a acreditar que estamos vivendo um momento tão conturbado, com e a capacidade do País de realizá-lo. Sempre afirmei que tínhamos condições de fazer uma excelente Copa (mesmo que isso não devesse estar no topo da lista de prioridades do País) e que o mundo gostaria de ver uma disputa na “terra do futebol”. Uma vez agraciados com a possibilidade de realizar a competição, tínhamos mais é que abraçar a ideia e fazer o melhor possível. E este melhor possível está sendo visto hoje. Não me surpreende de forma nenhuma que os estádios tenham ficado prontos em cima da hora, que várias obras não tenham sido realizadas a contento e que exista uma reação de parte da sociedade contra os gastos excessivos do Mundial. Este é o nosso bom e velho Brasil... Mas a Copa vai ser realizada, sim, e será, em termos de futebol e beleza, um grande sucesso. Tenho certeza de que muito vai mudar quando a bola começar a rolar. A imprensa mundial vai parar de falar dos atrasos dos estádios e da bagunça geral da nossa sociedade. Os jornalistas estrangeiros vão cobrir com riqueza de detalhes a realização de uma Copa que tem tudo para ser maravilhosa. Os jogos vão ser sensacionais e a imensa maioria dos turistas vai se divertir muito. E eles vão conhecer algumas de nossas maravilhas – mesmo que uma minoria tenha alguns problemas pontuais, como sempre acontece, protestos, dia sim, dia não, e milhares de pessoas dizendo que não vai ter Copa. Eu, particularmente, vou torcer muito por nossa Seleção. Mas não posso negar que a Copa no Brasil acabou se tornando uma metáfora para a falta de planejamento e de capacidade de execução de nossos governantes. É uma pena. “Legado ficou aquém” André Trigueiro, editor-chefe do Cidades e Soluções (GloboNews) e repórter da TV Globo O problema não é a Copa do Mundo em si, mas a constatação de que o Brasil desperdiçou uma excelente oportunidade para avançar em obras estruturais importantes e urgentes nas cidades-sede. Agravou-se a percepção de que o País não consegue entregar obras no prazo pelo preço certo. O evento poderá até ser um sucesso, mas o legado ficou aquém. Edição 950B Página 4 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA “Diálogo maduro” Angélica Consiglio, presidente da Planin “Noventa milhões em ação, Pra frente Brasil, Do meu coração... Todos juntos vamos, Pra frente Brasil, Salve a Seleção”. Foi no ritmo dessa música que nasci, em 1970. Sempre tive orgulho dessa data, marcada pelos gols de Pelé, Tostão, Zagallo e Rivellino. Esse campeonato mundial sempre aconteceu com muita empolgação. Este ano, pelo que parece, as manifestações vão tomar as ruas. Sou totalmente a favor de discussões para um País melhor, mas com um diálogo maduro, sem violência e depredação. Estamos perdendo a chance de apresentar nosso Brasil para o mundo. “Torcida única” Antoninho Rossini, colunista e apresentador do boletim diário Esportes S.A., na Rádio Bradesco Esportes, do Grupo Bandeirantes País do futebol? Iniciar comentário com uma pergunta exige atenção redobrada para evitar contradições, mas em se tratando de futebol, uma paixão nacional, onde em cada esquina há técnicos e “pais da matéria”, vale o risco. Acostumados a “pão e circo”, os brasileiros estão acordando de forma brusca para outras prioridades. “Pão e circo” elegem políticos, ajudam a economia (mesmo que artificialmente) e promovem lapsos “Vencer a apreensão” Antônio Torres, escritor, membro da Academia Brasileira de Letras Dia destes, em O Globo, Miriam Leitão definiu a expectativa dessa Copa feita em casa assim: mais tensão do que torcida. E hoje mesmo, 19 de maio, o querido Ancelmo Gois repercutiu em sua coluna um petardo de Paulo Coelho em entrevista ao francês Le Journal de Dimanche, na qual ele se mostra decepcionado com tudo o que aconteceu desde a escolha do Brasil para país-sede do Mundial, cuja cerimônia, em 201694_Africa São Paulo Publicidade_Itaú - Africa_196x155 Zurique (2007) contou com a sua presença, como membro da 29/05/2014 - 20:05 delegação oficial brasileira. Por enquanto, esse é o clima que está aí. Torçamos para que o Brasil vença a apreensão, o medo... e a Copa! Mande um SMS gratuito com a palavra ITAU para 30120 e baixe a versão completa da música do Itaú para a torcida brasileira. de alegria. Estádios bilionários com utilização duvidosa após a Copa, sistemas de transportes e de segurança artificiosos escancaradamente para poucos chegam a ser um acinte. O resultado disso é o que se observa ultimamente em todo o Brasil. São movimentos de massa, claramente gerados pelo inconsciente coletivo, espontâneos, colocando seus anseios prementes e necessários nas ruas de todo o Brasil; pena que nossas autoridades nunca observaram o clamor do povo. E vão pagar por isso. Seria uma honra para o nosso País sediar uma confraternização universal como a Copa do Mundo de Futebol se não vivêssemos uma crise institucional em todos os níveis. O que se lamenta é que o Brasil, conhecido como o país do futebol (e do carnaval) possa deixar tristes recordações assim que terminarem os jogos. Mas como não há outra alternativa, temos que nos organizar numa torcida única em favor de menos corrupção, da não violência, de mais educação, mais saúde, mais respeito e amor. Vamos receber craques e amantes do futebol de todo o mundo para esse evento da melhor forma possível. E que vença o melhor. Os times mais preparados são Espanha, Inglaterra, Argentina e Brasil. Deixei o Brasil por último propositalmente para enfatizar para quem torcerei. Apesar tudo! Essa é a linha de pensamento de um corintiano, que deixou de ir aos estádios, mas vibra ardorosamente pelo seu time. “Uma festa do futebol” Apolinho (Washington Rodrigues), jornalista e radialista, 52 anos de profissão, 77 de idade, comunicador e comentarista esportivo titular da Rádio Tupi do Rio de Janeiro, colunista do jornal Meia Hora. Foi técnico da equipe titular do Flamengo em 1995 e diretor Técnico de Futebol em 1998 Era menino, tinha 14 anos e acompanhei a Copa de 50 pelo rádio e assistindo no estádio apenas um jogo – Brasil x Iugoslávia, vencido pelo Brasil por 2 x 0, gols de Ademir e Zizinho. Uma grande festa, que teve aquele final infeliz com o Brasil perdendo para o Uruguai por 2 x 1 diante da sua torcida. De lá para cá acompanhei todas como torcedor, até a de1962, quando levantamos o bicampeonato. Itaú. Feito para você. Edição 950B Página 5 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA Como profissional, trabalhei como repórter pela Rádio Nacional na de 1966, mas no Brasil, fazendo a cobertura das ruas, acompanhando as reações do povo. Finalmente, em 1970, ainda como repórter e já na Rádio Globo, fiz a primeira viagem internacional. Fui feliz, voltei do México comemorando o tri. De lá para cá, só não fiz as de Japão e Coreia. Pela diferença de fuso, a Rádio Tupi optou por não transmitir. Os jogos eram disputados para nós na madrugada. Vejo o Brasil com reais possibilidades de título para 2014, embora advirta que não é uma obrigação a conquista do título. Existem outras 31 seleções com a mesma ambição. Lamento que o clima no País não seja o que eu esperava. Um mundial deve ser como sempre foi: uma festa do futebol. A oportunidade de se promover a confraternização entre os povos representados por seus contingentes de torcedores num clima de alegria e de integração. Desta vez vejo o País ameaçado por movimentos que podem criar um clima desfavorável. Sinto o povo preocupado. A maioria quer a Copa e torce para dar certo, a minoria que não quer ameaça agitar e provoca a sensação de medo aos nossos possíveis visitantes. No noticiário diário vejo que as providências são de tal forma que parece que o País se prepara para uma guerra e não para uma festa. Mas um fato é verdadeiro: a mídia inteira, mesmo a que condena os gastos com a Copa, corre atrás das verbas que o governo gastador reservou para a propaganda do evento. “Bons frutos para o futebol” Breiller Pires, repórter da revista Placar Desde a época em que o Brasil pleiteava o posto de sede, defendo a realização da Copa do Mundo no País. Temos capacidade para organizar megaeventos que podem acelerar mudanças e transformações. Embora tenhamos perdido a oportunidade de concretizar um legado efetivo em termos de estrutura, muito além da construção de estádios, acredito que o Mundial trará bons frutos ao Brasil e principalmente ao futebol. Devemos fiscalizar o gasto público e cobrar as obras prometidas, mas, por outro lado, é preciso desconstruir a falácia de que a Copa obstruiu investimentos em outras áreas, como educação e saúde, que foram integralmente mantidos pelo governo. Não sei se esta será, de fato, a “Copa das Copas”, mas duvido que – Maracanazo à parte – o País saia perdendo no fim das contas. “Celebrar o esporte” Carina Almeida, sócia-diretora da Textual A Copa do Mundo da Fifa Brasil 2014 é duplamente especial para nós, da Textual. Além de ser “em casa”, esta será a nossa quinta edição consecutiva do megaevento do futebol, agora com mais ênfase na comunicação digital, atendendo a seis grandes clientes. Entendo que o momento mais efetivo para cada um de nós brasileiros nos posicionarmos do campeonato dificilmente mudará a percepção de que o País ficou devendo em sua lição de casa. Argumenta-se que o dinheiro da Copa poderia ter outros destinos. Faz sentido. Apesar de ser a 7ª economia do mundo, o Brasil está em 35º lugar no ranking de educação da OCDE, em 72º no ranking da OMS em gastos com saúde, é apenas o 85º no Índice de Desenvolvimento Humano e ocupa o 54º no ranking de competitividade da Fundação Dom Cabral. “Encontro de torcedores” Castilho de Andrade, diretor de imprensa do Grande Prêmio do Brasil de Fórmula 1 desde 2006 A Copa do Mundo é o grande evento esportivo da população brasileira. E como o brasileiro gosta de festa, a Copa vai ser mais uma oportunidade para um encontro de torcedores de diversos países nos estádios e nas ruas. Poderia ter sido melhor organizada se tudo não ficasse para a última hora. Acho que o País não vai ganhar nem perder com a Copa. Mas o vandalismo assusta. “Todos seremos responsáveis” Célio Galvão, gerente de Imprensa da Ford Ao contrário de outras que vi, o Brasil vai para essa Copa com maior responsabilidade e sabendo que não basta só ser bom de bola. Como anfitriões, vamos ser avaliados mundialmente também pelo que acontecer fora de campo. E, aí, não adianta rezar, botar a culpa nos jogadores, no técnico ou no juiz. Todos nós seremos responsáveis pelo resultado. “Atrás das verbas do governo” Audálio Dantas, escritor, diretor de Redação da revista Negócios da Comunicação e presidente da Comissão Nacional da Verdade dos Jornalistas Para mim ficou claro que a cobertura do assunto Copa está contaminado pelo processo eleitoral que se aproxima. Atraso em obras, superfaturamento e outras verdades são cobertas como se jornais, revistas, rádios e tevês tratassem uma pelada de ponta de rua e não de um acontecimento esportivo que qualquer país gostaria de sediar. E quanto mais os jogos se aproximam mais toma corpo um jornalismo, digamos, pouco exigente, sem compromisso com a apuração dos fatos. Um dia, um jornal diz o contrário do que adversários do governo gritam sobre os gastos, que dariam para resolver todas as nossas mazelas: os gastos com a Copa não serão do tamanho apregoado; no outro, dão a glória da manchete ao ex-jogador e hoje negociante esportivo Ronaldo, que diz estar morrendo de vergonha pelo atraso das obras. E revistas semanais fazem jornalismo de futurismo ficcional sobre a bagunça que os visitantes estrangeiros encontrarão por aqui. sobre o caminho que queremos para o País é nas eleições de outubro. Agora, na Copa, é hora de celebrarmos o esporte que, dentro de campo, emociona, contagia e também nos ensina que a disciplina, a persistência, o trabalho em equipe e a determinação fazem toda a diferença. “Responsabilidade sobre Neymar” Carlos Conde, editor-chefe de A Tribuna, de Santos É perfeitamente natural que a Copa do Mundo seja realizada no “país do futebol”. Pena que ela, desde os preparativos, não esteja contribuindo para passar, ao exterior, uma imagem positiva do Brasil: atrasos, superfaturamento, corrupção de toda ordem. E vamos ver se os aeroportos funcionarão, se os estádios ficarão prontos. Quanto à Seleção Brasileira, claro que não pode ser comparada com as de 1970 e 1982, para citar apenas dois exemplos. A atual é jovem. Espero que o Felipão possa incutir o espírito de campeão nos meninos. Também me preocupo com a enorme responsabilidade que pesará sobre os ombros do Neymar. “Copa já foi ‘precificada’” Ciro Dias Reis, presidente da Imagem Corporativa, diretor da Abracom e VP da PROI Worldwide No passado, a realização de uma Copa do Mundo no País era desejo da maioria dos brasileiros. Hoje é diferente. O Brasil pode até se tornar hexacampeão e a infraestrutura de suporte ao evento pode até não gerar novos inconvenientes, mas o cenário geral já está dado. Como diz o jargão do mercado financeiro, a Copa do Mundo já foi “precificada”: o que acontecer até o apito final Como donos da casa, sabemos que falta ainda uma condição ideal. A esperança é, quando a bola rolar, o coração do torcedor falar mais alto. Não podemos deixar de lado o saldo positivo ou negativo desta que, com certeza, será a “Copa das Copas”. Haja coração! “Clima de paz e amor” Charlene Sant’Anna, jornalista no blog Paixão Nacional FC e comentarista no programa 4-2-4, na BlueTV Infelizmente, a Copa foi para o povo brasileiro uma paixão não correspondida. Prioridades foram deixadas de lado para mostrar uma imagem do Brasil que não é real. Mas já que estamos com um pé na Copa, que tenhamos clima de paz e amor, e que as manifestações não prejudiquem o povo brasileiro! Se houver protestos, que o façam civilizadamente! É importante reivindicar! “Amadurecimento da população” Claudia Belfort, jornalista Lamento não termos aproveitado a organização da Copa para darmos um salto organizacional no que tange nossa dificuldade de planejar, de cumprir orçamentos e prazos. Vimos o Brasil de sempre, atrasos, descaso com o dinheiro público, dúvidas sobre os benefícios do legado. Mesmo assim não acredito que a Copa no Brasil será um fiasco; é fato que não estaremos prontos, mas não a ponto de inviabilizar o evento. Tampouco me assustam os protestos. Antes de um prenúncio da desgraça, vejo nas manifestações um sinal de Edição 950B Página 6 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA amadurecimento da população, que mostra manter um senso crítico ainda que diante de sua maior paixão. Sem ser ufanista, a Copa está aí, não faz sentido torcer pela desgraça. Eu torço pela Seleção e para um evento de paz. “Da melhor forma possível” Cláudia d’Amato, gerente de Comunicação da AngloAmerican A Copa do Mundo se tornou um tema polêmico tardiamente. Agora é o momento de fazer acontecer da melhor forma possível, para não prejudicar (ainda mais) a imagem do País como ambiente para o desenvolvimento de projetos e negócios. E espero ver essa mobilização da sociedade no pós-Copa, no momento de prestação de contas e cobrança de responsabilidades. Aí sim seria muito produtivo para o Brasil. “Necessidade de mudança” Claudia Giudice, diretora-superintendente da UN Abril Segmentadas Quando o Brasil foi escolhido para sediar a Copa, senti orgulho. Na época, pensei: “Enfim crescemos”. Os atrasos, erros, altos custos e imensas fragilidades de infraestrutura que temos e que não foram “consertados” mostraram para nós e para o mundo que não, não chegamos lá. É triste. É vergonhoso. O lado bom, porém, é exatamente esta explícita fraqueza e necessidade nos cronogramas e a falta de transparência na condução do processo, itens que podem reforçar a imagem negativa do País no exterior. Brasil, Alemanha, Argentina e Espanha são as favoritas na disputa da taça. Enquanto os alemães mostram ter o time mais completo, o Brasil desponta pela torcida. Não há como resistir a um estádio inteiro cantando o hino nacional. “Cara estressada” Clóvis Rossi, colunista da Folha de S.Paulo Eu sou avesso ao patriotismo, até porque concordo, em parte, com Samuel Johnson quando diz que “o patriotismo é o último refúgio dos canalhas” (em parte, porque há patriotismos do bem e do mal). Por essa convicção íntima, confesso que fiquei perplexo ao ver o surto patrioteiro que invadiu a comitiva brasileira que participou do ato em que a Fifa escolheu o Brasil para sediar o Mundial. Mas, na época, não sabia que minha perplexidade só iria aumentar agora que a Copa é iminente. O que parecia bom (o Brasil mostrar a cara) virou uma dor de cabeça porque a cara que o País anda mostrando está muito estressada. Só espero que não piore. É tudo o que o Brasil não precisa. trazer à balança comercial do País, uma vez que o tão cantado legado parece ter sido postergado para os Jogos Olímpicos. A paralisação durante o período parece buscar argumentos racionais na paixão do brasileiro pelo futebol e pelo caráter nacionalista do evento. Seria ela inferior à apreciação que tem pelo emprego, fruto da manutenção da atividade econômica? Está na hora de separar as coisas e alocar a Copa ao espaço que merece nas agendas: o do lazer. Do ponto de vista da pesquisa, os meses de junho e julho podem ser dedicados a consultorias, desk researchs, análises e planejamentos, atividades que independem do clamor nacional. É o momento das empresas aproveitarem a pausa forçada para estabelecer estruturas sólidas para o segundo semestre, que, em minha opinião, tenderá a ser economicamente bastante ativo. Do ponto de vista da comunicação, as empresas devem evitar, a todo custo, a armadilha do espírito do bolão ufanista. Trata-se de um momento ímpar para profissionais da comunicação interna ultrapassarem a simples comunicação de festividades e, criativamente, atrelarem sua comunicação da Copa às mensagens-chave da empresa, podendo, para isso, demonstrar os desafios a curto, médio e longo de mudança. Acho que quando a Copa começar os brasileiros farão uma grande festa. Nossa gentileza e simpatia mais uma vez compensará a falta de organização dos governos e líderes. E, sim, temos reais chances de ganhar. A taça de campeão do mundo, talvez, será o único legado para o País, o que é triste e lamentável. “Momento delicado” Claudia Kucharsky, diretora de Redação da Holofote Comunicação Seria uma decisão acertada se houvesse um comprometimento do governo e de todos os envolvidos em realizar um evento que mostrasse o potencial do Brasil, não apenas dentro, mas principalmente fora de campo. Conseguimos ganhar a atenção de todo o mundo com a escolha do País como sede da Copa e das Olimpíadas, porém acabamos transformando uma oportunidade que poderia ser muito positiva para a nossa economia e nossa imagem em um momento extremante delicado e negativo, com repercussão na mídia nacional e internacional. “Estádio inteiro cantando” Claudio Arreguy, editor de Esportes do Estado de Minas O fato de o Brasil sediar a Copa foi uma escolha acertada, mas pecou-se pelo despreparo do País em assumir um compromisso desse porte. Como um bom mineiro, as desconfianças sobre a adequada realização da Copa foram confirmadas com as denúncias de superfaturamento das obras, atrasos “Lucro para as empresas” Cristiane Santos, gerente sênior de Comunicação Corporativa da Pfizer Os olhos do mundo estarão voltados para o Brasil durante a Copa do Mundo deste ano, o que significa que seremos avaliados não apenas pela qualidade do nosso futebol, mas também pela capacidade de gerenciar grandes eventos. Trata-se de uma oportunidade única de divulgar amplamente a cultura brasileira e de reforçar a boa imagem do País no âmbito internacional. Um evento desse porte, que atrai grande contingente de turistas, também movimenta a economia local, gerando lucro para empresas e aumento de investimentos no País, o que ao final pode beneficiar a todos os brasileiros. Copa e comunicação corporativa Cristina Panella, sócia da Cristina Panella Planejamento e Pesquisa, do Grupo Attitude (trecho do artigo Grandes eventos, pesquisa e comunicação corporativa: como evitar a percepção que paralisa oportunidades, publicado no site da Aberje no dia 6/5/14) “É grande a expectativa sobre os benefícios que a Copa possa prazos (preparando discursos específicos para vitórias e derrotas). Afinal, empresas não vivem do curto prazo: elas têm por objetivo perpetuar-se, o que significa que estarão aptas a lidar com vitórias e derrotas, preparando-se, sempre, para os próximos passos.” “Algo inesquecível” Cristina Toletti, sócia-diretora da XComunicação A Copa no Brasil é uma enorme oportunidade de mostrarmos ao mundo os principais elementos culturais do País. Talvez esse seja o principal legado, já que nem todas as obras de infraestrutura necessárias foram realizadas a tempo e dificilmente isso se traduzirá em melhor qualidade de vida para o brasileiro. Não podemos ignorar as manifestações, que devem ser intensificadas com a proximidade da Copa. Isso também será uma vitrine das reivindicações populares em discussão por aqui. O Mundial é o maior evento esportivo de confraternização entre as nações e sediar esse encontro é algo inesquecível para todos os brasileiros que respiram e amam o futebol. [email protected] 41 2111-6025 / 41 2111-6029 Edição 950B Página 7 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA “Importante função social” Denner Taylor, editor de Esportes de O Tempo Por se tratar do maior evento esportivo do planeta, a Copa precisa ser encarada como uma grande oportunidade de crescimento e desenvolvimento, tanto do futebol, quanto da infraestrutura do País. Se houve erros no planejamento e na condução das obras por parte do poder público é preciso haver investigação e punição dos culpados. Mas isso não pode invalidar a realização do torneio, que, mesmo com problemas, já pode ser considerado um sucesso do ponto de vista do público e dos setores diretamente envolvidos. Se a Copa serviu para mobilizar parte da sociedade em prol de melhorias, também já cumpriu uma importante função social. Acredito que o Brasil é a seleção favorita ao título, mas não posso negar que as seleções da Espanha, Alemanha e Itália são grandes concorrentes. e verdadeiramente democrática. Isso seria tão ou mais importante do que bem recepcionar e ser o melhor anfitrião da história do mundial. E para finalizar... As seleções com mais chances de conquistar este campeonato são Brasil, Brasil e Brasil. “Pouca coisa sobrará” Eduardo Pugnalli, gerente de Inteligência de Mercado do Sebrae-SP Talvez eu seja o maior “peixe fora da água” nesse especial temático. Futebol nunca foi minha paixão. Não torço para time algum. Porém, a cultura em torno do futebol sempre me encantou. É curioso pensar como o Brasil se formou em torno da bola e como isso se prolonga ao longo de tantos anos. A Copa do Mundo aqui é, sem dúvida, o ápice disso. Até “incrédulos” como eu acabam sendo envolvidos nessa onda verde e amarela. Porém, não posso deixar de olhar que, apesar da festa linda, pouca coisa sobrará posteriormente. As cidades-sede – algumas que não têm times nem na Terceira Divisão – ficarão com arenas subutilizadas, enquanto seus hospitais caem pelas tabelas, os alunos continuam caindo de divisão nas escolas e a segurança só toma cartão vermelho. “Repensar direitos de cobertura” Douglas Tavolaro, vice-presidente de Jornalismo da Rede Record Um evento com as proporções da Copa no Brasil deveria ser a razão para que os direitos de cobertura televisiva pudessem ter sido repensados de maneira inédita e que todas as emissoras da nação pudessem apresentá-lo livremente. Não falo de transmissão, mas na cobertura dos veículos de imprensa que não têm os direitos de exibição. Um momento real de integração nacional, de liberdade de veiculação da informação. Vários estilos de jornalismo, de seriedade e empenho profissional, de criatividade e de inovações na estética de vídeo, mas também com filosofias de trabalho totalmente diferentes, seriam oferecidos para a população brasileira, de norte a sul do País, de maneira plural Será que a Copa era prioridade mesmo? Vale todos esses bilhões de reais? Para mim, não. Enfim, vamos ver o que a população acha mesmo da Copa e desses últimos anos em outro grande evento, em outubro, nas eleições. Essa, sim, uma decisão de dar frio da barriga e que vai repercutir por pelo menos quatro anos, valendo muito mais que uma taça. “Influir no destino do Brasil” Eleno Mendonça, sócio-diretor da EastSide23 Com toda certeza vai ter Copa. Mas será uma Copa diferente, longe do envolvimento das anteriores, principalmente das que nos levaram a um dos cinco títulos. E é uma pena, afinal de contas estamos falando de uma Copa no nosso País, o país do futebol. Acho que houve de tudo um pouco, muito envolvimento político, muito lobby, muito desvio, números astronômicos para um povo que neste momento precisa mesmo é de mais saúde, segurança, educação. No ar sempre ficou a pergunta: e se o governo se empenhasse com a mesma vontade para fazer hospitais, escolas, iluminar as ruas, fazer saneamento básico? Isso tudo explica muito a fúria das ruas. Exageros à parte, as manifestações estão cheias de razão. Perdemos HOJE É O DIA DAQUELES QUE ACREDITAM QUE POR MEIO DA INFORMAÇÃO PODEMOS FAZER UM MUNDO MELHOR. Uma homenagem da Coca-Cola Brasil aos profissionais da imprensa, que têm uma filosofia de trabalho tão parecida com a nossa. 1º de junho – Dia da Imprensa. www.cocacolabrasil.com.br Edição 950B Página 8 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA a chance de fazer tudo isso, de construir um País melhor a partir do futebol, uma de nossas paixões. Nisso tudo a imprensa fica no meio, ora querendo fazer a melhor cobertura, ora se pondo no lado crítico da questão. Para piorar, tudo isso acontece às vésperas de uma eleição. Ou seja, o resultado da Copa pode influir em uma série de coisas, inclusive no destino do Brasil nos próximos quatro anos. Bem, mas estamos na Copa. “Experiências positivas” Elisa Prado, diretora executiva de Comunicação da Tetra Pak Eu acredito que a Copa do Mundo mudou o Brasil. De fato, o evento esportivo nem começou mas muita coisa já mudou. O povo saiu da inércia e percebeu o poder da voz. Muitas classes perceberam a força da mobilização e como podem exigir mudanças. Talvez algumas manifestações não tenham acontecido no tom ideal e da forma correta. Mas, de certa forma, os holofotes voltados para o País mostraram para os brasileiros sua real importância. Certamente podíamos ter mudado para melhor se, lá atrás, quando o Brasil foi selecionado, tivéssemos de fato estabelecido um plano estratégico não só para construir estádios, mas para deixar um legado e desenvolver o transporte, a segurança, a educação, a saúde e a qualidade de vida das pessoas. Mas, de qualquer forma, este evento trará e deixará muitas experiências positivas aos brasileiros e o intercâmbio de culturas será muito proveitoso. “Antes mesmo de o escrete canarinho pisar os abastados gramados inacabados, a máquina publicitária do Governo Federal já entrou em campo. Tomou conta de todos os intervalos comerciais da tevê. Com força. Com garra. Com vontade. Com força total. E também com uma dose considerável do que poderíamos chamar de doideira oficialista: em pleno país do futebol, onde supostamente a maioria dos nativos se delicia vendo jogadores dando chutes na bola enquanto um juiz corre atrás deles com um apito na boca, a propaganda do governo quer convencer o povo de que Copa do Mundo vale a pena, é legal, é boa à beça. Coisa estranha, convenhamos. Antes, o Governo queria porque queria fazer a Copa no Brasil pois isso traria a felicidade geral da Nação, sabidamente aficionada desse esporte exótico. Agora, precisa gastar dinheiro público para encorajar a Nação a ficar feliz, feliz no geral e no particular, porque a Copa vai ser uma apoteose. Vai ser, como diz o locutor chapa-branca, ‘a Copa das Copas’. ‘Entende?’, diria o Pelé.” “Lamber as feridas” Fabio Steinberg, jornalista e escritor Talvez por cacoete de jornalista que escreve sobre viagens e turismo sob o ângulo de negócios não consigo ver a Copa do Mundo no Brasil apenas pelo lado esportivo. Nesse sentido, lamento a perda de oportunidade de um país tão bacana como o nosso de não usar o potencial fantástico do evento para melhorar a infraestrutura, criar empregos, alavancar-se como destino se abraçando, se beijando, dançando feitos loucos. Imagina o capitão Thiago Silva levantando a taça no gramado em meio a uma chuva de papel picado, repetindo o feito de Bellini em 1958. Imagina o Brasil livre de vez do fantasma da Copa de 50. Imagina o dia seguinte. Feriado nacional. Não tem aula, não tem chefe de mau humor, não tem pobre nem rico. Não tem flamenguista nem vascaíno. Só brasileiro, com muito orgulho. Imagina se o Brasil perde essa Copa? Nem quero imaginar. Ou melhor, que falta de imaginação... “Sabor agridoce” Hélio Gomes, diretor de Conteúdo do Terra A Copa chega com sabor agridoce para mim. Por um lado, estou pronto e ansioso para encarar um desafio profissional gigantesco. E meu lado torcedor já começa a esquentar, já que sou incapaz de deixar a paixão pelo futebol de lado – é herança paterna, afinal. Por outro, preocupo-me com a segurança de nossa equipe na linha de frente da cobertura dos protestos que virão. E temo pelo saldo que restará ao País depois do Mundial, especialmente em relação à nossa imagem no exterior e ao impacto dos acontecimentos nas eleições deste ano. Há quem diga que já perdemos uma oportunidade histórica. Quero crer que ainda há esperança. “Cobertura transversal” Eugênio Araújo, assessor de Comunicação e Imprensa da Presidência da Câmara Municipal de São Paulo Não há dúvida: a cobertura desta Copa do Mundo será totalmente transversal. Ingredientes adicionais obrigam ações integradas e bem afinadas das editorias de Cidades/Cotidiano, Política e Esportes. Claro: estamos falando da grita geral em torno da mobilidade urbana, a proximidade das eleições – tudo junto e misturado, com a perspectiva do Brasil sagrar-se hexacampeão mundial de futebol. Aliás, além do Brasil, na minha opinião disputam o título de 2014, pela ordem, as seleções da Alemanha, Espanha e Argentina. Sobre a dicotomia ‘“torcer pelo Brasil” (alienados?) e “aproveitar a Copa para exigir mudanças urgentes no País” (engajados?), gosto da cena proposta por Cao Hamburguer no filme O ano em que meus pais saíram de férias, ambientado na Copa de 1970. Na hora “H” da decisão com a Itália, os militantes de esquerda empunharam as bandeiras verde-amarelas e gritaram, pulmões abertos: “É, campeão! É campeão...!!!”. “’Copa das Copas’? Ou das lorotas?” Eugênio Bucci, professor da ECA-USP e da ESPM e articulista do jornal O Estado de S.Paulo e da revista Época (trecho de artigo publicado originalmente no Estadão no dia 15/5/2014, cuja íntegra pode ser conferida pelo link http://migre.me/ jsSxX). de peso (onde patinamos há uma década, com apenas seis milhões de visitantes por ano) e inserir o País definitivamente no radar do turismo internacional. Minhas expectativas já estão agora daqui a dois anos, quando após lamber as feridas e aprender com os erros da Copa vamos realizar os Jogos Olímpicos no Rio à altura do País. “Campeonato histórico” Gil Arruda, editor de imagens, repórter e narrador esportivo da Fundação Universitária Vida Cristã, de Pindamonhangaba (SP) Penso que a Copa do Mundo será muito legal para o povo brasileiro, pois nossa população está carente de grandes partidas, de jogos com alto nível técnico. Espero que tenhamos muitos gols, equipes fortes, emoções até o último instante. Todos nós estamos esperando um campeonato histórico. Quem tiver a oportunidade de ir ao estádio, mesmo com medo do que acontecer fora das quatro linhas, não perca a chance de ver bem de perto craques que brilham pelo mundo e só podemos ver pela televisão. Tenho certeza de que será a melhor Copa da história. Ainda mais que podemos ver Brasil e Argentina em uma final! “Só imaginar...” Helio Cicero, editor de esportes de O Dia Imagina só. Quarenta e oito minutos do segundo tempo, David Luiz dá um chutão para o alto, o árbitro ergue os braços e apita o fim do jogo. Imagina, Brasil hexacampeão. Imagina a loucura no Maracanã. Imagina a gritaria nas ruas. Imagina brancos, pretos, mulatos, ruivos Copa e os tons de cinza do Brasil Ignácio de Loyola Brandão, escritor e articulista do jornal O Estado de S.Paulo (trecho de artigo que ele publicou no Estadão, em 16/5/2014) Na minha idade, segui muitas Copas do mundo com entusiasmo e alegria, participando da corrente geral que tomava o País e nos fazia rir, nos fazia crer, nos fazia torcer. Não me lembro de 1954; mas de 1958 em diante, repórter geral, aderi ao entusiasmo que coloria e arrastava o Brasil de ponta a ponta na época da Copa. Meses de risos, otimismo, ironias, brincadeiras. Quase na véspera então, fosse onde fosse, as janelas se tornavam verde-amarelas, ruas e muros pintados, grafites por toda a parte, faixas imensas desciam do alto dos edifícios, bandeirinhas nos carros, banners por toda parte. Havia apostas, farras nos bares, bons compositores criavam hinos louvatórios. Muita gente ainda canta “pra frente Brasil, salve a seleção”. Ainda canta os “milhões em ação, salve a seleção”. E são refrões de 40 anos atrás, quando havia ditadura. Onde está a música desta Copa? Até agora, ouvimos canção oficial da Fifa, chocha, tola, sem pegar nos nervos. Lembram-se das notícias mostrando o povo correndo para comprar televisores? O povo corria às lojas, era um tsunami. Os estoques se acabavam. Não vi nada até este momento, os televisores estão à espera de compradores. (íntegra em http:// migre.me/jvvWd) Edição 950B Página 9 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA “Catalisador de investimentos” Jorge Luiz Rodrigues, editor assistente de Esportes de O Globo e colunista do Panorama Esportivo Caminhando para a cobertura de minha sétima Copa do Mundo consecutiva (fui a todas desde a Itália-1990) e tendo morado sete meses na África do Sul na reta final de preparação para a de 2010, estou convencido de que este é um evento catalisador de investimentos. O Brasil já gastou mais de R$ 25 bilhões na preparação, incluindo quase R$ 8 bilhões em estádios, atrasou muitas das obras, não concluirá outras e perdeu uma oportunidade de avançar ainda mais na infraestrutura. No entanto, considero um equívoco culpar os gastos com a Copa pelas mazelas do País, como tenho visto na mídia e nas redes sociais. Nos últimos quatro anos já foi investido no Brasil mais de meio bilhão de reais em saúde e educação, e o que se conclui? Dinheiro há. Falta gestão. Na maioria das áreas. É isso que temos que fiscalizar, cobrar e acompanhar, sempre, em vez de voltar nossas baterias contra a Copa e incendiar ônibus e danificar propriedades e bens públicos. Como evento, não tenho dúvida dos benefícios da Copa do Mundo para o Brasil. as expectativas superlativas. E fica a realidade, com ônus e, quem sabe, bônus também. Embora até agora tenham sido enfatizados os custos para os brasileiros de sediar a Copa e a falta de organização do governo para terminar as obras, acredito que daqui a pouco vai ser possível contabilizar alguns ganhos. Nem que seja o ganho do aprendizado, sobretudo o de que o Mundial de Futebol e a Olimpíada – em 2016 – não vão salvar o Brasil do dever de casa que precisa ser feito. “Interesses comerciais” Luiz Carlos Costa, presidente do Diário do Comércio (MG) As cifras demandadas tornaram a Copa do Mundo no Brasil uma escolha errada. Os investimentos, que foram parcialmente realizados, certamente não conferem prioridade ao evento, cujo “legado”, tudo faz crer, entrará no rol das promessas não cumpridas. Há desequilíbrio nas relações entre a Fifa e os organismos locais, evidenciando que interesses meramente comerciais foram colocados acima de todos os demais, fazendo da Copa um acontecimento midiático e altamente elitizado, sem apelo esportivo verdadeiro. Espero que tenhamos pelo menos a alegria de ver o Brasil campeão, mas é inegável que as seleções da Alemanha, Espanha e Argentina são fortes neste mundial. como todo o processo foi conduzido se reflete na falta de empolgação nas ruas. Acredito, entretanto, que uma boa campanha da Seleção trará de volta o apoio da população. “Álbum de figurinhas é exemplo” Marceu Vieira, editor de Esportes de O Globo Nos últimos meses, nós, que trabalhamos com esporte, temos ouvido dizer que o País está desanimado pra Copa. Tem gente que até diz que não vai torcer pelo Brasil. Duvido. Num tempo em que a internet confina as reações humanas no mundo virtual das redes sociais, e nos faz esquecer os muros que pintávamos de verde e amarelo antigamente, o álbum de figurinhas da Copa, por exemplo, está aí pra provar que há, sim, interesse no Mundial. O álbum tirou a criançada da frente do computador, apartou um pouco a internet e mostrou que o brasileiro está, sim, mobilizado pra Copa. “Hora de modernizar os estádios” Marcos Guiotti Júnior, coordenador de Jornalismo e Esporte da CBN-BH Já estava na hora do Brasil voltar a sediar uma Copa do Mundo. Temos uma história mal resolvida desde 1950. Somos o maior ven- “Maior envolvimento” Josino Ribeiro, repórter de TV Globo/SporTV A Copa do Mundo é, antes de mais nada, uma festa, uma celebração. Portanto, devemos desfrutar, como brasileiros. A nós, jornalistas esportivos, compete o maior envolvimento possível. É hora de mostrar ao mundo tudo que um mundial tem a oferecer. Informações precisas, bem apuradas. Todos os fatos, detalhes, emoção, acima de tudo. O mundo estará de olho no Brasil, na Seleção Brasileira, em nós. Lamentável saber que nossos turistas sentirão na pele as promessas de autoridades não cumpridas. Faltará estrutura. Mas vai sobrar emoção e bom futebol! “Contabilizar ganhos” Liliana Lavoratti, editora-chefe do DCI (SP) Não dá para menosprezar a importância da Copa do Mundo no Brasil. É um acontecimento e tanto para os brasileiros, além de um enorme desafio para o País. Lá atrás, olhávamos de um jeito para tudo isso. Agora, às vésperas dos jogos, se desfazem as ilusões, os exageros, “Hora de o Brasil mostrar a cara” Manoela Penna, sócia-diretora da In Press Media Guide Cresci ouvindo meu pai falar da Copa de 50 e, como outros amantes de futebol da minha geração, imaginava como seria uma Copa em casa. A hora chegou e o cenário se mostra menos festivo do que o sonhado. A Copa, porém, já está sendo uma grande oportunidade de o Brasil mostrar a sua cara, de olhar para si e de buscar fazer o melhor. Em todas as instâncias, em que pesem os obstáculos. Não se deve ter a ilusão de que a Copa é feita para deixar legado como as Olimpíadas (a Copa é e sempre foi entretenimento). Que o desejado “legado” seja, porque não, uma emoção diferente da que meu pai sentiu em 1950! “Volta do apoio da população” Marcelo Senna, editor-executivo do Extra e coordenador da cobertura na Copa Para jornalistas esportivos, a Copa do Mundo é o maior sonho desde a universidade. E ser credenciado é o equivalente a ser convocado. Participei das Copas de 1998 e 2002, e as coberturas foram o ápice da minha carreira como repórter. Infelizmente, os gastos públicos exorbitantes com a competição no Brasil, com denúncias de superfaturamento em obras de estádios, ofuscaram boa parte do brilho. A maneira cedor de Copa e um dos países mais admirados no futebol. Também já era hora de modernizar os estádios e somente um evento desse porte tornou isso possível. O que eu não imaginava era a incompetência na condução de todo processo de preparação. Não há como negar que Brasil, Argentina, Alemanha e Inglaterra são fortes concorrentes ao mundial. O Brasil é sempre apontado como favorito na conquista e por que não seria jogando em casa? Nossos principais atletas atuam na Europa, mas isso não vai tirar o forte peso e apelo psicológico de estar jogando em casa. “Copa é sonho” Mário Kempes, titular do Blog do Kempes (kempao. com.br), do Ceará Se olharmos a Copa do Mundo pelo extracampo, os problemas são bem maiores que o desejo de conquistar o hexa. Desapropriações e mobilidade urbana, para ficar apenas nesses legados, impedem uma parte da população de se motivar com o Mundial. E devemos respeitar as pessoas, que se sentem injustiçadas com o louvor Edição 950B Página 10 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA à bola e o desprezo pelo remédio em um posto de saúde. Por outro lado, a Copa é o sonho para o “país do futebol”. É preciso também exaltar que dentro de campo a história será contada. A Seleção e o esporte brasileiro poderão ser eternizados com a conquista do hexa. “Salvar a imagem” Mário Lúcio Marinho, escritor, ex-editor de Esportes do Jornal da Tarde e ex-presidente da Associação dos Cronistas Esportivos do Estado de São Paulo Só o Brasil pode salvar o Brasil Como raras vezes aconteceu, o Brasil chega a uma Copa do Mundo com o time definido. Não só definido, como também muito competente. E pronto para vencer. Mas não será a Copa das Copas. Nem a melhor de todas as copas como apregoa o governo. Será a copa dos protestos, das obras inacabadas, do jeitinho malandro brasileiro, de turistas mal acomodados, explorados, perdidos. E queira Deus que fique nó nisso. Mas, em campo, a Seleção pode salvar nossa imagem; pode arrebatar os torcedores como fez na Copa das Confederações; pode se emocionar e nos emocionar; pode ser campeã. Enfim, pode limpar a nossa barra. principal legado de uma Copa em casa não deveria ser simplesmente a taça a ser erguida, talvez, pelo Thiago Silva. Mas, com prazos e orçamentos esgotados, o que resta mesmo é a estatueta banhada a ouro e sangue de nove operários mortos nas obras dos estádios. É o sorriso do povo com ou sem ingresso; é a bola na rede; é o show de Neymar, talento genuíno do futebol nacional. A Copa do Brasil é mais da Fifa do que dos brasileiros, mas, se a bola vai rolar, que tenha precisão milimétrica para estufar as redes alheias. A foto com Romário foi tirada horas depois da conquista do tetracampeonato, nos Estados Unidos, há 20 anos. Foi minha primeira Copa “Sem ordem não há progresso” Martha Esteves, subeditora de Esportes (há 17 anos) de O Dia e colunista na Copa Esportivamente falando, acho que a Copa do Mundo tem tudo para ser bem feita. Pelo menos nos grandes centros, onde os estádios ficaram prontos antes do tempo. São Paulo é um caso mais preocupante, já que o Itaquerão tem muitos problemas estruturais. Quanto ao lado social e político, a Copa é um retumbante “Poderemos torcer pela Seleção” Moacir Japiassu, escritor, blogueiro e colunista do Comunique-se Velhos amigos e companheiros do anti-petismo mais saudável anunciam “retiro espiritual” a partir de 12 de junho, pois temem estelionato político caso o Brasil conquiste o hexa. Eu, veterano de tantas batalhas, ponderei: Perdemos a Copa de 1966 e a “grande imprensa”, mesmo arrependida do apoio ao golpe dois anos antes, não teve como atribuir culpa ao general Castelo Branco; ganhamos em 1970, no México, e o general Médici não apareceu na foto com a faixa de tricampeão do mundo. Essas lembranças garantem que agora os jornalistas também poderemos torcer tranqüilamente pela Seleção; a vitória do futebol, se não ajudou a ditadura, também não servirá à falsa democracia dos que hoje se agarram ao Poder como papagaios no arame em dia de tempestade. Eu e Mr. Bunda Moisés Rabinovici, diretor de Redação do Diário do Comércio (SP) Escalado para cobrir a Seleção Italiana na Copa dos EUA, fui até à final, quando ela acabou derrotada pelo Brasil. Ia aos treinos em New Jersey, de manhã, e aos restaurantes de Little Italy, em New York, à noite. Vamos esquecer, aqui, o dia em que o querido companheiro Sílvio Lancelotti levou alguns repórteres brasileiros a viajar para comer “o melhor “Craques no nosso quintal” Mariucha Moneró, diretora de Atendimento da Agência Ideal no Rio de Janeiro A Copa seria uma excelente oportunidade de ter aqui o melhor futebol do mundo, um empurrão na infraestrutura das cidades, estádios novos para o esporte mais praticado no País e visibilidade internacional. O certo hoje é que teremos os craques no nosso quintal. A partir daí, os benefícios se perdem entre interesses políticos, superfaturamentos e promessas não cumpridas. O número de sedes é um exagero, obras fundamentais não foram entregues e o orçamento estourou. Mas é bom lembrar que a maior parte do custo não é pública e sim privada e que o problema em si não é a Copa, mas o País e suas práticas historicamente discutíveis. “Sorriso, com ou sem ingresso” Marluci Martins, repórter do Extra especializada em bastidores do futebol Para quem ama o futebol, a bola está acima da razão. Briga-se com o pai, a mulher e o vizinho. E, talvez por isso, esquece-se, mesmo com as manifestações ganhando as ruas, que o fracasso! O País perdeu uma grande chance de progredir. Construir estradas, aeroportos e aumentar sua rede hoteleira, além de cuidar de verdade da segurança de nossas cidades foram promessas não cumpridas que geraram enormes frustrações. Mas sem ordem não há progresso, e essa vai ser a Copa das Copas da Vergonha. Cabe à Seleção fazer a sua parte em campo e fazer a alegria do povo. Se é que ainda tem esse poder nos sombrios tempos de hoje... “Somos culpados?” Maurício Menezes, apresentador na Rádio Globo Rio e titular do show humorístico Plantão de Notícias Ainda vivíamos no regime militar e eu participava de uns debates na TV Educativa. Invariavelmente, a culpa de todas as mazelas do País caia em cima de nós, jornalistas. Era essa a conclusão dos debatedores. Até o dia em que um dos convidados era Ailton Fornari, diretor da Associação dos Supermercados. Pronto! Tudo mudou e a culpa dos problemas passou para ele. Acho que nós estamos precisando andar com diretores de supermercados ao nosso lado. Os atuais aprendizes de ditadores nos culpam por todos os males da humanidade. Já ouvi dizer que a Portuguesa caiu porque a TV Globo precisava salvar o Flamengo, que nem rebaixado estava... cachorro quente do mundo”, no Giants Stadium. Que decepção! Mas vamos lembrar, sim, do atacante da azzurra Paolo Maldini, que quis me bater. Era dele a bunda mais bonita da Itália, por eleição já não me lembro mais de quem. Escrevi a respeito, como toda a imprensa. E ele até entrou na brincadeira, cordial, sorridente. Só que a mim pediram suíte. Tudo bem, ele me atendeu uma segunda vez. Mas o JT ficou obcecado pelo assunto, queria-o todos os dias. E o bundão já nem podia mais me ver. Não sabia se eu cumpria pauta ou extrapolava. Foi então que chegou a Glória Maria para um Fantástico, a bunda do Maldini. Ela me procurou, já que podia ser considerado então um especialista, ou, no mínimo, um setorista. Eu a levei até o ônibus em que entrava – e o reconheci logo, de costas – Mr. Bunda. Chamei-o, à distância, e apontei para a equipe da Globo. Não precisei dizer a que vinha. E me afastei rapidamente. “Craques nas redações” Paulo Marinho, superintendente de Comunicação Corporativa do Itaú Unibanco A valorização do esporte faz parte da história e do DNA do Itaú, pois acreditamos que por meio dele podemos transformar a sociedade para melhor. Esse poder transformador também é da imprensa, que contribui para a consolidação da nossa democracia, atuando como guardiã da ética e da transparência. Neste Dia da Imprensa, especialmente no ano em que a Copa do Mundo acontece no Brasil, temos que celebrar. Não apenas pela qualidade editorial e talento dos nossos profissionais, mas pela oportunidade única de realizar uma cobertura rica, diferente e com a cara do nosso País. Nossos craques não estão apenas no campo, mas em todas as redações do Brasil. #issomudaojogo. Edição 950B Página 11 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA dias anteriores ao Mundial, a tendência é que a “Veículos mais fortes” temperatura suba na medida em que a Seleção Ricardo Stefanelli, diretor de Redação dos jornais Brasileira se reúna e as delegações estrangeiras do Grupo RBS em Santa Catarina Preparar a cobertura da Copa do Mundo no cheguem ao País. A orientação que estamos Brasil desafia, como nunca, as empresas brasi- passando ao nosso pessoal é simples: não leiras de comunicação. São 12 sedes (mais do misturar a cobertura dos aspectos esportivos que nas demais Copas) em um país continental com a das manifestações. Cada uma delas terá (maior do que a maioria das sedes anteriores), espaço e tratamento próprios. marcado por problemas estruturais (mais desestruturado do que a maioria dos países anteriores) e “Abrir espaço para a Seleção” com um povo tão apaixonado por futebol quanto disposto a Ricardo Kotscho, escritor, blogueiro, comentarista usar o evento como palco de protestos. O caldo entorna com temas da Record News e repórter da Brasileiros que, secundários em outras Copas, ganham destaque especial desta Como esta Copa vai ser no Brasil, e temos vez: recepção aos estrangeiros, organização das cidades, condições eleição presidencial em outubro, há uma indisde trânsito, aeroportos, linhas telefônicas, conexão de internet etc.. farçável torcida de boa parte da nossa mídia Quando a bola rolar, portanto, será possível identificar quem pode ser grande para que tudo dê errado. Em lugar do campeão mundial no campo e quais veículos sairão ainda mais fortes tradicional oba-oba e ufanismo, desta vez videpois da maior exigência já imposta às empresas de mídia do Brasil. vemos um clima de guerra nas redações, que Sem dúvida, desafiador. se espalha pelas ruas e vice-versa. Claro que houve muitos erros na preparação do evento, um enorme desperdício de dinheiro público e “Não misturar esporte com manifestações” privado para construir estádios novos em 12 Ricardo Galuppo, diretor de Jornalismo do Hoje em Dia O mais importante para jornais e jornalistas nesta Copa do Mundo cidades-sede num país ainda carente de quase será encontrar o equilíbrio entre o tom da cobertura dos jogos e das tudo, mas agora penso que é hora de deixar a manifestações que certamente ocorrerão durante o evento. Embora política um pouco de lado e abrir espaço para a nossa o lado esportivo tenha andado morno e atraído poucas atenções nos Seleção na maior festa do futebol mundial. “’Culpa’ não é da Copa” Roberto Nonato, âncora do Jornal da CBN – 2ª Edição e apresentador do Lado B da bola, programa sobre futebol internacional da rádio Acho que a Copa do Mundo no Brasil deveria ser a copa que podemos fazer e não aquela que gostaríamos de fazer. Explico: com tantos estádios, será que precisaríamos da construção de tantas outras arenas? Entendo que não. Certamente, muitos desses estádios ficarão apenas como peças de turismo ou decoração depois do evento. Entendo que o Brasil é um país de grandes dimensões, mas acho que essa logística poderia ter sido mais bem preparada. As obras de infraestrutura não caminharam como deveriam. O acesso aos estádios e a mobilidade urbana pouco ganharam. Logo, perdemos uma boa oportunidade de melhorar as coisas para a sociedade brasileira. E a “culpa” não é da Copa. Ou alguém acredita que sem Copa faríamos As críticas são pesadas, mas reais e justas Ele tem 43 anos de estrada. Começou em Ribeirão Preto escrevendo em todos os jornais da cidade (e até hoje faz ali uma coluna bissemanal no jornal A Cidade) e também em praticamente todas as emissoras AM. Foi ainda correspondente da Jovem Márcio Bernardes Pan entre 1974 e 1977, indo depois para a Rádio Globo/Excelsior/CBN, onde ficou até 1997. Em São Paulo, trabalhou também em emissoras como Rádio Trianon, TV Cultura, TV Manchete, TV Gazeta e está atualmente – já há 14 anos – na Transamérica, na equipe liderada por Éder Luiz. Ele é Márcio Bernardes, que os aficionados do futebol conhecem sobretudo pela condução do bem humorado e informal Debate Bola, que tem no personagem Gavião um de seus pontos altos. Se ali, em meio às partidas de futebol, ele se vale do humor para alegrar a galera e garantir a liderança disparada para a Transamérica, fora da transmissão prevalece a seriedade. Sobretudo se o assunto é Copa do Mundo. “Os gastos abusivos em estádios e o pequeno investimento em infraestrutura são reflexos do nosso País”, diz, acrescentando que “isso significa oportunismo, falta de planejamento e superfaturamento, por que não? Quanto às manifestações, elas são legítimas, desde que não haja vandalismo”. Márcio já cobriu dez Copas do Mundo – a do Brasil será a 11ª – e oito Olimpíadas. Também cobriu cinco Pan-Americanos, cinco Macabíadas em Israel e outros eventos internacionais. A Copa do Mundo mais marcante, para ele, foi a de 1982, na Espanha. Os jogadores da Seleção Italiana, que ao final se sagraram campeões do mundo, estavam em greve com a imprensa do país e por consequência com os jornalistas de todo o mundo. Devido a uma antiga amizade que ele tinha com vários todas as obras que precisamos? Acho legítimo, e mais do que justo, uma Copa do Mundo no país do futebol, mas perdemos uma ótima oportunidade de deixar um legado maior para a população. “Jeitinho brasileiro” Rodrigo Cavalcante, setorista do site Vozao.com no Ceará SC Um dos eventos mais importantes do mundo chega novamente ao Brasil: a expectativa é que tenhamos um evento turbulento em relação a protestos, mas seguro (segurança pública), partindo do pressuposto de que um grande contingente de soldados da Força Nacional estará nas ruas. Do cunho estrutural será um vexame, novamente o “jeitinho brasileiro” terá de ser usado. Futebolisticamente, o Brasil é o favorito, e a pátria deposita todas as suas esperanças nos pés de Neymar. jogadores daquele grupo, era o único jornalista que conseguia entrevistas e declarações exclusivas. E, com isso, o seu trabalho teve uma grande repercussão. Outra Copa marcante? “Ah, foi a de 2010, na África do Sul. Eu tinha, antes do Mundial, as mesmas preocupações com o país que agora percebo nos companheiros estrangeiros que virão ao Brasil este ano. Fiquei apavorado com a insegurança, com as manifestações e com os problemas que encontraria no país africano. Tomei oito vacinas antes da Copa. Tudo isso os jornalistas europeus estão fazendo agora”. Márcio, do alto dessa larga experiência em megaeventos esportivos, relembra que os problemas não são de agora. Suas palavras: “Durante a Copa das Confederações tivemos muitas dificuldades na comunicação. No primeiro teste do Itaquerão, no jogo entre Corinthians e Figueirense, foi possível perceber que teremos vários problemas. Fico pensando nos jornalistas japoneses, ingleses e outros mais, que estão acostumados com a internet voando... Vai ser um vexame!”. De todo modo, ele pondera que “o impacto da Copa na imagem internacional do Brasil vai depender dos acontecimentos. Pelo que temos visto até agora, as críticas são pesadas, mas reais e justas”. Sobre as condições de trabalho da imprensa esportiva, impossível não mencionar a questão do credenciamento: “Olha só, as emissoras de rádio e televisão só cobrem a Copa se pagarem direitos para a Globo, que tem o contrato com a Fifa. Imprensa escrita tem um número limitado de credenciais, de acordo com a sua importância e tiragem. Ainda assim isso não garante que todos os credenciados poderão entrar nos jogos. Para isso, precisa de um ingresso especial que é distribuído na véspera de cada partida”. E se o Brasil ficar pelo caminho? “Aí, como sempre acontece, a Copa do Mundo passa a ser tratada com menos importância pela imprensa. Isso é natural, pois afinal, muitos torcedores perderão o interesse e o ufanismo pela competição. Pode reparar, se isso acontecer, muitos programas de rádio e televisão serão diminuídos ou suprimidos. Páginas de jornais e revistas serão reduzidas. Mas o Brasil vai chegar longe, espero!” E a equipe da Transamérica, Márcio, como foi escalada para a Copa? “Vamos com todo o nosso plantel, incluindo a equipe de locutores (Eder Luiz, Antonio Edson, Oswaldo Maciel), comentaristas (Henrique Guilherme, Paulo Roberto Martins, José Eduardo Savóia, Ronaldo Giovaneli e Juarez Soares) e repórteres (Ivan Drago, Marco Belo, Leandro Boudakian, Guilherme Lage, Ricardo Maida e Lucas Ito). Eu vou apresentar o Debate Bola após todos os jogos, revezando com José Calil. Thomaz Rafael apresentará os programas normais (Esporte de Primeira, das 7h às 8 h da manhã, Papo de Craque – primeira edição, das 11h às 13h, Papo de Craque – 2ª edição, das 17h às 19h, e Galera Gol, das 20h às 21h30). Tem ainda o humor inteligente, diferente e irreverente do Gavião, marca registrada da nossa equipe. Vale registrar que em Copas do Mundo nossa audiência sempre cresce mais de 200%, principalmente nos carros. Nossa expectativa é de uma média de 400 mil ouvintes por minuto”. A pedido de Jornalistas&Cia, a equipe da Transamérica enviou, por ele, alguns comentários para este Especial Imprensa e Copa do Mundo: n “Copa do Mundo no Brasil: um sucesso dentro de campo, um fracasso fora dele. O Brasil é o favorito, mas não posso garantir que vai ganhar.” – José Calil n “O Brasil é sempre favorito em uma Copa do Mundo. Jogando em casa é ainda mais.” – Eder Luiz n “Esquema do Felipão: bola pro mato que futebol é cagada.” – Gavião n “Temos de rezar para o Neymar jogar bem...” – Henrique Guilherme Edição 950B Página 12 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA “Já estamos ganhando” Rui Falcão, jornalista, deputado estadual por São Paulo e presidente nacional do PT Torcemos pelo hexa, mas a realização da Copa do Mundo no Brasil já nos assegurou uma goleada. Subimos muito na “tabela” do desenvolvimento, pois o Brasil antecipou investimentos em mobilidade urbana (R$ 8 bilhões investidos), aeroportos (R$ 6,2 bilhões), segurança (R$ 1,9 bilhão) e portos (R$ 0,6 bilhão). Na realidade, do total de R$ 25,6 bilhões investidos nas 12 cidades-sede, quase 70% ampliam a nossa infraestrutura. Esse legado inclui novas vias urbanas, corredores de ônibus, estações de metrô, VLTs, BRTs, portos, aeroportos, centros integrados de segurança, expansão da rede de fibra ótica, modernização do turismo. Mesmo as obras que não ficarem prontas a tempo dos jogos serão concluídas em breve. Os outros 30% (R$ 8 bilhões) das despesas com a Copa foram destinados para obras em 12 estádios. Isso tem rendido críticas, calcadas na desinformação. Afirmam até que os gastos com o futebol desfalcam a saúde e a educação, o que não é verdadeiro. Na realidade, R$ 3,9 bilhões foram financiados pelo BNDES, e retornarão com juros ao setor público. Nenhuma verba foi retirada desses setores. Apenas para comparar, os gastos federais com educação e saúde entre 2010 e 2013 somaram R$ 825,3 bilhões, ou seja, 100 vezes o investimento nos estádios. Assim, é certo que já estamos ganhando com a Copa. Os estádios não estão tirando dinheiro de saúde e educação – ao contrário, já foram “pagos” com sobra pelos quase R$ 10 bilhões que a Copa das Confederações sozinha adicionou ao PIB do País. O ingresso não é caro – R$ 30 reais a meia-entrada para ver o Messi no Maracanã ou o Cristiano Ronaldo contra a Alemanha? O legado já existe, com 12 arenas que o país do futebol merecia há tempos – e, não, elas não são as mais caras da história das Copas. Também batemos recorde no número de inscrições para o programa de voluntários e de jornalistas credenciados. E diziam que ninguém viria por causa dos preços absurdos, que não teriam lugar para ficar. Os pessimistas erraram feio. É uma pena que boa parte dos debates sobre a Copa do Mundo já parta de uma premissa destrutiva e derrotista. Não só vai ter Copa, como ela já está acontecendo. E eu me sinto orgulhoso disso. O Brasil é a sétima economia do mundo e pentacampeão mundial, além do único país a ter participado de todas as edições da Copa do Mundo. Se nós não podemos organizar a Copa do Mundo, quem pode? Cinco ou seis países? A Copa do Mundo serve sempre a um propósito maior do que a sua organização. Gera empregos, renda, arrecadação tributária adicional, multiplica investimentos na cadeia produtiva, projeta a imagem de um país para o mundo. Em 1958 vencemos o complexo de vira-latas dentro de campo, o sentimento de inferioridade do Brasil que Nelson Rodrigues tão bem soube retratar. Hoje temos a opção de vencer esse complexo fora de campo também. É só olhar para o País e escolher se o copo está meio cheio ou meio vazio. nos gastos e pagou um preço caro por isso. Para mim, perdemos a oportunidade de realizar uma grande festa. A percepção mudou e, se o Brasil for campeão, mas a cidade não se beneficiar disso, o título não terá a mesma graça. “Reprise de vícios” Sérgio Rizzo, diretor de projetos do Media Education Lab, colaborador de Folha de S.Paulo e Valor Econômico, colunista das revistas Educação, Escola Pública e Língua Portuguesa, e professor no curso de especialização em Jornalismo Esportivo da Faap Na organização da Copa, perdemos mais uma oportunidade de demonstrar que o planejamento e a gestão de recursos no País alcançaram um estágio minimamente aceitável. Era uma chance de ouro e sinto que estamos todos incomodados com a reprise de vícios que já deveriam ter sido extirpados. Isso talvez termine por macular o que deveria ser uma grande festa esportiva, aguardada por todos os que amam o futebol nos cinco continentes. Com a bola rolando, tomara que só tenhamos a lamentar gols perdidos. “Memória curta” Sérgio Xavier, diretor de Redação da Playboy A Copa do Mundo é o curioso paradoxo do jornalismo esportivo. Os repórteres fazem o diabo para serem escalados para a cobertura. Querem muito cobrir uma Copa, sonham e trabalham duro para realizar o sonho. Mas, uma “Imprensa campeã” Ruy Castro, jornalista e escritor Antes de o Brasil ganhar a Copa da Suécia, em 1958, a imprensa brasileira já tinha sido campeã do mundo várias vezes. Para ela, em todas as Copas anteriores, a Seleção era a maior e só não ganhara o caneco porque um jogador uruguaio dera um tapa no nosso lateral ou o juiz nos garfara acintosamente contra os húngaros. Entre o patriotismo e a objetividade, nossos repórteres, locutores e comentaristas, nem vacilavam. Até que, com Didi, Pelé e Garrincha na Suécia, o Brasil jogou à altura do que a imprensa achava dele. Para se ter uma idéia de quanto o Brasil precisou jogar! “Legado já existe” Saint-Clair Milesi, diretor de Comunicação do Comitê Organizador Local da Fifa no Rio Organizar uma Copa do Mundo dá muito trabalho e necessita coragem para se abrir ao escrutínio da imprensa mundial, que segue um padrão de dissecar países que se propõem a sediar megaeventos esportivos. Nesse processo, a mídia expõe problemas nas manchetes e publica sucessos no pé de página, ao mesmo tempo em que propaga mitos e percepções equivocadas. “Fizemos o caminho inverso” Sergio du Bocage, apresentador do programa No mundo da bola”, da TV Brasil, e comentarista da Rádio Globo no Rio Apesar de jornalista esportivo, jamais tive uma Copa do Mundo no Brasil entre meus sonhos. Preferiria ver meu país fortalecido economicamente, mais igual entre as classes sociais, com serviços de saúde de qualidade, habitação digna, educação e segurança. Nesse quadro, poderíamos ir à Fifa e propor: que tal uma Copa aqui no Brasil? Mas tentar arrumar o País, a partir das exigências da Fifa? Fizemos o caminho inverso. E qual o benefício que a Copa trouxe para o futebol brasileiro? Os estádios? Então, é sinal de que nossos dirigentes esportivos não estavam preocupados com o que viam por aqui. “Copa da reflexão” Sergio Pugliese, sócio-diretor da Approach, onde responde pelo núcleo de Mídia e Esporte, e titular da coluna e do blog A pelada como ela é, em O Globo A Copa do Mundo é um sonho para qualquer um que ame futebol. No seu país, nem se fala. Mas essa transformou-se na Copa da reflexão por conta das manifestações. As obras não ficaram prontas, o governo não foi transparente vez credenciados e no front, mergulham no tédio. Reclamam das entrevistas engessadas, se queixam do excesso de colegas estrangeiros, ficam com saudades das exclusivas que conseguiam no dia a dia dos clubes. Só que a memória é curta. Daqui a quatro anos, todo mundo quer a credencial para a Copa. “Modernizar o futebol brasileiro” Toninho Nascimento, ex-editor de Esportes de O Globo, é secretário Nacional de Futebol do Ministério do Esporte Nada se compara a uma Copa do Mundo. E nada se compara a uma Copa no Mundo no Brasil para um jornalista esportivo brasileiro, como eu. Mesmo tendo trocado as redações pelo Ministério do Esporte (de pedra à vidraça), continuo um apaixonado pelo papel do futebol na nossa sociedade. Não tenho dúvidas de que teremos uma grande competição, apesar, é verdade, de alguns problemas nas obras e nos estádios. Temos defeitos, mas também temos qualidades. Uma das minhas missões, talvez a principal, seja trabalhar para que a Copa deixe um legado para o nosso futebol. Digo sempre: o Mundial tem dia para acabar, o futebol, não. Acho a Copa fundamental para mudarmos a gestão dos nossos clubes, com os dirigentes tendo mais responsabilidade por suas administrações e que as dívidas dos times com o governo sejam refinanciadas, com contrapartidas rígidas para quem não pagar o que foi acertado. Por isso, vejo a Copa do Mundo no Brasil com otimismo. Modernizar o futebol brasileiro será tão importante quanto a conquista do hexa. Aposto nos dois. Edição 950B Página 13 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA Desde 1500 o povo espera o Brasil cumprir o prometido No Agora São Paulo ele reina no caderno de Esportes com sua coluna Caneladas do Vitão, em que, com bom humor e ironia, comenta o dia a dia do futebol brasileiro. Na Bandnews FM, o desafio foi acompanhar, desde o início, a construção da Arena Corinthians, em Itaquera. Vitor Guedes, o Vitão, vai para sua segunda Copa do Mundo, ao vivo. Participou de outras duas, em 2002 e 2006, mas na retaguarda. A estreia, na África do Sul, em 2010, jamais sairá de sua memória, em especial o jogo final: “Acho difícil que algo me emocione mais do que ver a reação de todos os negros sul-africanos, dos jornalistas de todos os países, dos turistas holandeses e espanhóis, negros e brancos, quando Nelson Mandela entrou no gramado do Soccer City antes da final Espanha 1 x 0 Holanda. ‘Madiba! Madiba! Madiba!’. O grito entoado com amor, alma e sentimento pela multidão compensou os 54 dias da insuportável vuvuzela no ouvido”. Vitor vê de modo crítico e salutar a cobertura que tem sido feita sobre a Copa do Mundo, mas não gosta da generalização. Ao contrário, critica: “Cada jornalista e cada veículo são diferentes. Tirando a turma do oba-oba e a do contra, ambas desprezíveis, acho que a cobertura tem sido bem equilibrada. Sem deixar de mostrar os absurdos cometidos, os erros, as mentiras (‘será a Copa da iniciativa privada’), nem ignorando que a Copa é uma festa, uma competição esportiva, que interessa a bilhões de torcedores e fãs em todo o planeta, já que o futebol é, disparado, o esporte mais global do planeta”. Na opinião dele, ao analisar a Copa pelo prisma do mercado para os jornalistas, antes mesmo de ela começar (e a dois anos da Olimpíada), não acrescentou nada: “Aliás houve cortes em grandes empresas antes mesmo de a bola rolar, quando, historicamente, ocorriam depois. Surpresa? Um pouco, mas não muita. Os times brasileiros também estão sem patrocínio e o Brasileirão continua uma várzea, mal organizado e com estádios vazios, quando se poderia imaginar que a Copa traria receitas para quem vive de futebol, como os clubes”. Mercado à parte, a cobertura será bem feita, segundo ele, até porque a imprensa esportiva brasileira nada fica a dever à dos principais países do planeta bola: “Os jornais espanhóis, para ficar no atual campeão, distorcem e torcem claramente, especialmente os esportivos. Os tabloides ingleses são mundialmente conhecidos pela pouca credibilidade e por aí vai”. Vitor lamenta, mas considera que o Brasil infelizmente não está à altura de um desafio dessa estatura, que é organizar uma Copa do Mundo. Mas não se mostra surpreso com isso: “Desde 1500 estamos esperando o Brasil cumprir o prometido, dentro do orçado e planejado. O esporte não é um mundo à parte. Morre-se muito na construção civil. Por que nos estádios seria diferente? As obras públicas atrasam e custam mais do que deveriam e do que são orçadas na origem. Seria diferente agora? É um absurdo, uma vergonha, mas não dá pra dar uma de Ronaldo e uma hora dizer que vai ser a Copa das Copas e na outra dizer que está com vergonha. Eu fechei o bloco! Objetivamente, como todo mundo já sabia, o Brasil perdeu a oportunidade de fazer as coisas direito para aproveitar, como País, tudo o que o Mundial poderia oferecer. A Copa vai começar e tem coisa sendo feita, coisa que não ficará pronta e coisa que nem começou, nem começará, a ser feita”. Seu olhar crítico se ameniza um pouco, mas não muito, quando o assunto são os estádios e a contribuição que eles poderão trazer para as condições de trabalho para a imprensa esportiva: “Em minha opinião, afirma, nos estádios novos ficará sim esse legado, ainda que parcial, já que as tribunas usadas para a imprensa nos estádios serão reduzidas e readaptadas no pós-Copa, mas permanecerão intactas a sala de entrevistas, a tecnologia instalada e outras acomodações. Assim espero”. Como testemunha ocular e jornalística da construção do Itaquerão, Vitor diz ser possível afirmar que o estádio é fantástico, luxuoso, bonito, à altura de receber grandes jogos. “Para o Corinthians, o ganho é inestimável”, ressalta, lembrando que a arena ainda não está totalmente finalizada, o que só acontecerá, se não ocorrerem atrasos, da forma como foi planejada por Aníbal Coutinho, em janeiro de 2015. “Há o ganho imensurável e inconteste de autoestima do clube e da torcida, que há mais de um século esperavam por uma casa desse naipe, e também o legado do complexo viário de Itaquera, que é fundamental e deveria ter sido construído há muito tempo. Precisou que o Brasil sediasse uma Copa para ele ser construído, mas, enfim, agora está aí, e vai contribuir para melhorar a vida das pessoas da zona leste, especialmente o extremo da ZL e a Grande Itaquera. Claro que todos esperavam muito mais, no entanto isso é o que temos”. Sobre outros impactos positivos que a Copa, o estádio e as obras de infraestrutura possam trazer, ele acredita ser ainda muito cedo e perigoso fazer uma análise definitiva: “Os Consórcios Intermunicipais de Desenvolvimento Econômico e Social (Cides) existem desde a gestão da prefeita Marta Suplicy, é preciso calma para ver se o estádio trará com ele oportunidades duradouras de empregos e serviços à região. Acredito que sim, mas é algo a ser trabalhado. Sozinho, o estádio, ainda que lindo, luxoso e de abertura de Copa, não desenvolverá nem mudará a cara pobre e carente da região”. Vitor cita as três mortes ocorridas nas obras do estádio do Corinthians como marcas de uma profunda tristeza: as duas de 27 de novembro de 2013 e a outra de 29 de março de 2014: “Jornalista é jornalista, mas fiz toda a minha carreira no esporte, no futebol, onde alegria e tristeza são medidas por placar, classificação. Tratar de tragédia é algo que, definitivamente, não é fácil. E, pior do que isso, triste. Felizmente, houve muitos momentos felizes. Profissionalmente, foram vários, alguns furos, boletins divertidos, a coluna gerou uma repercussão acima do que imaginava quando tive a honra de ser convidado pela Bandnews FM. E, pessoalmente, conheci centenas dos milhares de trabalhadores, com dezenas deles tive bastante contato e com muitos, tenho certeza, construí uma amizade que levarei comigo. Isso não tem preço”. Ele compara a Copa no Brasil com a da África do Sul, onde vê algumas semelhanças: “Na África do Sul, cheguei e voltei com algumas obras viárias em andamento. Nos deslocamentos fora do horário padrão, tive dificuldade para achar restaurante aberto e colegas foram furtados no hotel. Não será aqui uma maravilha. Cada país tem sua cultura, seu jeito e, certamente, haverá alguns percalços para quem vier de fora, mas, no perímetro da Copa, como aliás sempre ocorre em grandes eventos, sejam esportivos, econômicos, políticos ou religiosos, vai funcionar o que o jornalista precisa para trabalhar”. Mesmo dando vez ao seu lado irreverente, Vitor, seja no Agora quanto na Bandnews, sempre pautou seus escritos e comentários pela seriedade jornalística, fruto do sangue de repórter que corre em suas veias: “Sou repórter, embora esteja colunista e possa estar um dia pauteiro, editor, fechador. Na Copa, além de colunista, voltarei a trabalhar como repórter, como fiz no Mundial vencido pelo Corinthians no Japão, mas não sou ombudsman. Não tenho pefil nem vontade para exercer esse cargo, embora tenha um olhar de ombudsman como telespectador, ouvinte, leitor e internauta. Não vou analisar o trabalho de colegas de profissão. De forma geral, só lamento que as peças confundam bom humor com irresponsabilidade e gracinha com jornalismo. Gracinha, piada e entretenimento têm valor, mas não são jornalismo. E a seriedade da informação não pode ser medida pela forma carrancuda como é dada. Está cheio de picaretas de mal com a vida, que estão sempre com aquela cara de quem vive com uma mulher que dorme de calças jeans”. Vitor Guedes “Não gosto e não sei fazer previsões. Mas torço. Torço para que a Copa seja um grande momento para o País e a Seleção Brasileira nos empolgue com seu futebol, conquiste ou não o título. Torço também para que a justiça prevaleça dentro e fora de campo.” – Carlos Maranhão, jornalista, escritor e colaborador de Veja “A sensação de uma Copa no Brasil é parecida com a da noiva às vésperas do casório: excitação, alegria e a ameaça de algo dar errado apesar de ter custado uma nota preta. Espero que no final o amor prevaleça ;).” – Marcelo Tas, âncora do programa CQC, na TV Bandeirantes, e autor do Blog do Tas Neste dia dedicado ao jornalista, o PayPal aproveita para felicitar todos e a cada um da imprensa pelo seu esforço coletivo na construção de uma sociedade bem informada e plural. Edição 950B Página 14 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA Haverá festa, mas a cobertura será crítica Foi depois de um feriado de Tiradentes, em 22 de abril de 1981, que Luiz Fernando Gomes, atual editor-chefe do Lance, iniciou sua trajetória no jornalismo, como estagiário do Jornal do Brasil, no prédio da avenida Brasil, no Rio de Janeiro. Teve sorte, como ele próprio conta: “Era um time de craques; meu primeiro chefe foi o saudoso e querido Luiz Mário Gazzaneo. Fiquei dez anos, fui de Luiz Fernando Gomes trainee a repórter especial, chefe de Reportagem, coordenador de sucursais e correspondentes e, por fim, editor do caderno Cidade”. Depois dessa década de JB, Luiz Fernando foi para O Dia e ali, ao lado de uma equipe também de craques, ajudou a consolidar uma das mais bem sucedidas experiências dos anos 1990, que levaria o jornal ao apogeu, a líder de mercado. Foram oito anos, iniciados como editor de Cidades e finalizados como editor-chefe, em que o jornal passou por uma grande reforma gráfica e editorial, além de transformar-se em full collor. A mudança para São Paulo, onde vive hoje com a esposa Cláudia Reis, sócia-diretora da agência Press à Porter, e os filhos, foi em 2001, para sua primeira experiência em televisão, como editor executivo do Jornal da Globo. Ali ficou um ano, numa experiência que ele até hoje considera fascinante, e depois foram três anos de Jornal da Tarde, também como editor executivo, até desembarcar, em 2005. no Lance, a convite do presidente da empresa Walter de Mattos Jr. Como se vê, o Lance foi sua primeira experiência diretamente na área. É ele quem explica: “Acho que, mais do que em outras áreas do jornalismo – talvez a cultura seja igual –, é preciso antes de tudo ser fã do esporte para trabalhar no esporte. Isso é o princípio de tudo. Agora, por outro lado, a formação de cidade, da rua, é fundamental, dá uma visão dos fatos, do contexto, que pode fazer de um profissional da área mais do que um simples repórter-boleiro. No meu caso, essa experiência ajudou muito. Foi importante, por exemplo, para difundir uma cultura de buscar e contar histórias, boas histórias, que são a alma do bom jornalismo em qualquer editoria. No caso da Copa do Mundo, entre a festa e a crítica o Lance e equipe ficam com os dois: “Desde que o País foi anunciado como sede, a gente evitou o oba-oba. É da tradição do Lance fiscalizar, atuar de forma crítica contra tudo aquilo que dificulta o desenvolvimento e a melhoria do esporte. Ricardo Teixeira que o diga...”. Luiz Fernando entende que as críticas, em boa parte, são justificadas, mas muitos dos que entraram na onda do #Nãovai ter Copa deveriam, segundo ele, ter gritado antes, quando se formou um comitê organizador sem participação da sociedade civil e quando se descumpriu a promessa de que não haveria investimento público nos estádios. “O Lance, e quem trabalha aqui, quer Copa. Quer bola rolando, quer emoção, quer festa. Esse é o nosso negócio. Mas não significa que vamos fechar os olhos para o resto”. Otimista por natureza, Luiz Fernando diz acreditar que vai ter clima de festa sim. E dá como exemplo o que aconteceu no Brasil durante a Copa das Confederações: “Ali, as manifestações foram as maiores das últimas décadas. E ainda teve o fator surpresa, que é um complicador, ninguém esperava. Foi ali que surgiram os black-blocs. Nós demos um dia uma edição quase toda de manifestações. Com um editorial de capa. Mas nada disso tirou o brilho da festa. Aquelas cenas antológicas do hino nacional cantado à capela nos estádios... Acho que esse cenário vai se repetir. E, tecnicamente, também acho que pode ser uma Copa para ficar entre as melhores de sempre”. E aí, Luiz, sairemos engrandecidos dessa Copa? “Boa pergunta. O que vou dizer pode parecer contraditório com a resposta anterior. Mas, do mesmo jeito que quero festa, espero que a festa não jogue para debaixo do tapete as lições que a gente tem para tirar da situação que vivemos. Se o Brasil for campeão no campo, o Brasil de fora do estádio não vai ter melhorado em nada. Vai continuar tendo fila de ônibus e corrupção desenfreada. Na verdade, a gente perdeu uma oportunidade impar de crescer. Crescer como um País em que o governo faz o que interessa à sociedade e não a grupos privilegiados. Crescer na capacidade de organização, de fiscalização. Mas, ao contrário disso, ficamos no jeitinho brasileiro de sempre. E em algumas situações isso foi desmoralizante”. Questões extra-campo à parte, o Lance vai para a Copa com um time de 25 profissionais, entre repórteres e repórteres fotográficos: “Nunca recebemos tantas credenciais da Fifa e o esquema não tem mistério: vamos ter repórteres cobrindo as principais seleções e gente em algum momento em todas as cidades-sede. Formamos um pool, uma rede com 25 jornais parceiros em 23 países, que vai permitir levar aos nossos leitores uma visão diferenciada, local, das seleções que estarão aqui. Teremos alguns colunistas extra, como Mauro Silva, Juninho Paulista, José Roberto Wright. Teremos muita opinião, pela Academia da Copa, um time de convidados de várias áreas, como marketing esportivo, medicina, preparação física, gestão, psicologia, cultura, gastronomia. Enfim, gente que vai falar da Copa sob outros ângulos”. E em termos de cobertura, prevalecerá o papel ou a web? “A Copa, hoje, é um evento midiático. Quando a Copa é no Brasil, isso fica ainda mais claro. E esse é o nosso desafio. O que fazer diferente quando você vai ter nove canais de televisão falando praticamente 24 horas por dia de Copa? Quando você tem portais e sites dando informação em tempo real. Temos de ser diferentes, tanto no site quanto no diário. Precisamos oferecer ao nosso público – um público exigente, que é viciado em esporte, em futebol, e não está aqui só por causa da Copa – a exclusividade, a análise, a opinião que ele está acostumado a encontrar. O Lancenet vai estar mais focado na cobertura factual, vai apostar na interatividade, lançar mão das ferramentas que o meio oferece. O diário será mais analítico, mais aprofundado. Sem deixar de ser boleiro, é claro”. E se o Brasil ficar pelo caminho? “Olha, nós temos um diferencial que os outros veículos, especialmente os de papel, não têm. Focamos a Copa, vivemos a Copa, mas não abandonamos a cobertura dos clubes. Teremos todo dia, mesmo durante o Mundial, pelo menos uma página de cada clube do Rio e de São Paulo. Sempre fizemos isso, em todas as copas e agora não seria diferente. O nosso leitor é clubístico até a alma. Se o Brasil cair antes (toc-toc-toc!) vamos continuar vivendo a Copa, cobrindo bem os jogos e todo o seu entorno. Mas com certeza vamos aumentar o espaço dos clubes, das negociações de jogadores, que nessa época esquentam. A bola não pode parar”. Ao analisar o impacto da Copa para a imprensa esportiva, Luiz Fernando considera que o resultado final será positivo, sobretudo para os jornalistas: “A Copa é uma experiência única. Quantos jornalistas estarão trabalhando nessa Copa e terão outra para ver no seu país? E mais: ao contrário do governo e dos organizadores, acho que a imprensa está crescendo com a Copa, amadurecendo em sua capacidade de organização, de operação, na busca criativa para ser relevante e atender às demandas do público e de cada uma das plataformas nesse mundo digital. Talvez não tenha havido o boom de contratações, de aumento de vagas no mercado, como chegou a se falar. Mas até nisso a movimentação foi saudável, sempre faz bem”. “Haverá duas Copas do Mundo: uma nos estádios, festiva; outra nas ruas, tensa.” – Juca Kfouri, blogueiro do UOL, comentarista na ESPN Brasil e da CBN e colunista da Folha de S.Paulo Edição 950B Página 15 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA Como a inovação no jornalismo será testada na Copa Por Leandro Beguoci(*), especial para J&Cia Se tudo correr bem, o cientista brasileiro Miguel Nicolelis vai colocar uma pessoa com paralisia para dar o chute inicial da Copa do Mundo de 2014. Ela estará vestida com um esqueleto robótico e comandará o aparelho com ordens vindas do seu cérebro. O mundo verá um espetáculo científico gigantesco, que precisará ser explicado. E quando entra explicação, claro, entra jornalismo. Este será apenas o primeiro entre os muitos desafios que vamos enfrentar no torneio deste ano: como explicar facilmente uma imagem que mexe com os sonhos e as angústias de milhões de pessoas espalhadas pelo mundo? É uma cena tremendamente inovadora e pedirá, naturalmente, algumas das ideias e ferramentas mais interessantes surgidas em jornalismo nos últimos anos. O robô de Nicolelis abre uma era de esperanças na ciência e a cobertura sobre ele, um horizonte de possibilidades para o jornalismo – brasileiro e mundial. Desde a última Copa do Mundo, em 2010, aconteceram movimentos da magnitude de terremotos. Eles varreram redações, destruíram revistas, encerraram jornais, enterraram sites e programas de rádio e tevê. As perguntas sobre o fim do jornalismo se multiplicaram, com centenas de variações. Mas, ao mesmo tempo, outras formas de fazer surgiram. Os movimentos foram mais sutis, menos barulhentos, mas já estão moldando a forma como o jornalismo é feito dentro e fora do Brasil. Da mesma forma como a Copa dará visibilidade a anos de trabalho de laboratório de Nicolelis, ela também mostrará anos de experiência acumuladas em inovação em jornalismo. A começar pelos maiores grupos de mídia. UOL, Globo Esporte, Terra, iG e R7 vão para a Copa com equipes bem grandes, só comparáveis ao que as tevês costumavam enviar aos mundiais na era pré-internet. Serão centenas de jornalistas, cinegrafistas, designers, programadores e especialistas em experiência do usuário jogando juntos e imaginando a melhor forma de mostrar, em múltiplas telas, o que está acontecendo nas 12 sedes do mundial. Afinal, esta Copa vai ser tuitada, compartilhada e vista pela tevê, ao vivo e nas telas de tablets e celulares. Vários estudos recentes mostram que jogos de futebol são os eventos, por excelência, das múltiplas telas. As pessoas assistem aos jogos pela tevê e comentam a partida nas redes sociais pelos celulares e tablets. De olho nessas mudanças, vários sites grandes já mudaram suas páginas e as tornaram fáceis de usar em qualquer dispositivo. Você nunca sabe por qual aparelho o seu conteúdo será acessado. Portanto, nos grandes portais, esta deve ser a Copa de muitos vídeos em tempo real e atualizações constantes, de olho na audiência que pode vir de qualquer lugar, a qualquer momento. Será uma Copa com muita informação, e uma oportunidade fantástica de ver em ação a leitura inteligente de dados. Nesta seara dos dados, aliás, a equipe da Veja.com, capitaneada pelo editor Rafael Sbarai, deve se destacar. Sbarai é especialista em jornalismo de dados, uma modalidade que consiste em condensar grandes quantidades de informação e mostrá-las da forma mais simples e interessante possível, a partir da ajuda de programadores e designers. O Estadão, no núcleo de Estadão Dados, com José Roberto de Toledo e Daniel Bramatti, sempre costuma vir com análises interessantes, especialmente sobre pesquisas de opinião. Vale a pena acompanhar o que virá deles. Esse é um aspecto interessante deste Mundial no jornalismo brasileiro, já que dados sempre pedem um conhecimento além do jornalismo: esta também será a Copa da colaboração entre diferentes áreas. Grandes produtos jornalísticos são pensados por jornalistas, designers e programadores, todos juntos. Isso expande as possibilidades do que é possível fazer. Ainda na Abril, algumas novidades devem vir da equipe chefiada por Rafael Kenski, redator-chefe do núcleo digital de várias revistas da empresa, como Placar, VIP e Superinteressante. Kenski é pioneiro em newsgames no Brasil, modalidade jornalística que consiste em explicar fenômenos no formato de jogos eletrônicos, e um dos poucos jornalistas que transita tranquilamente pelo design e pela programação. Também vale a pena ficar de olho em alguns veículos independentes que se vêm destacando bastante nos últimos anos. Eles nasceram como blogs e se transformaram em sites parrudos, com milhões de acessos por mês. Ah, sempre cabe, claro, um tanto de transparência: escrevo para alguns deles e sou amigo de pessoas que fazem alguns desses sites. Mas eu não seria maluco de recomendá-los se eles não estivessem fazendo trabalhos relevantes. A Trivela (trivela.uol.com.br), um dos sites independentes de futebol mais antigos do Brasil, e o Impedimento (impedimento.org), especialista em futebol sulamericano, juntaram forças e fizeram um guia para pessoas malucas pelo esporte (www.guiafutebolnaveia. com.br/copa). Com geolocalização (o recurso no qual o aparelho reconhece onde você está e traça a rota a partir do seu local) e disponível em três línguas (português, inglês e espanhol), o guia permite conhecer os redutos e os pontos mais interessantes do futebol nas 12 cidades-sede do Mundial. É um trabalho inédito sobre cultura futebolística no País. Além disso, vale a pena acompanhar o site Esporte Fino (esportefino.cartacapital.com.br), uma referência da nova crônica esportiva digital, e os programas que eles fazem na rádio online Central 3 (central3.com.br). A qualidade dos programas e das análises desses sites independentes ajuda a entender por que eles têm milhares de seguidores e fãs nas redes sociais. em paralelo à festa do futebol. E, se houver casos de machismo e homofobia, o Think Olga (thinkolga.com), projeto de Juliana de Faria que mistura ativismo e jornalismo, deve se destacar. Vale a pena, aliás, conhecer o fantástico projeto que Juliana fez sobre Cláudia, a mulher arrastada pela polícia no Rio de Janeiro (http://migre.me/jrDzk). Em vídeo, Bruno Torturra e a Mídia Ninja são referências obrigatórias. Se houver protestos, com certeza haverá streaming em tempo real. Mas não só. O pessoal do projeto Imagina na Copa (imaginanacopa.com.br) vem fazendo uma série de documentários jornalísticos sobre o Brasil construído e transformado nos anos que antecederam o evento. Eles estão fazendo uma série de documentários curtos, bem editados e bem narrados. A equipe online de Veja São Paulo, com Diógenes Muniz, também vem se destacando muito na seara de vídeos online bem produzidos, assim como a Folha de S.Paulo, no núcleo de João Wainer. Parece pouco? Tem mais. Essa será a Copa no Brasil, mas ela não será uma Copa restrita a veículos completamente brasileiros – e justamente por causa da internet. O Yahoo, chefiado por Ricardo Lombardi, contratou uma série de colunistas entre alguns dos principais jornalistas do País. Claudio Tognolli e Laura Capriglione trabalham no portal e costumam trazer visões originais sobre o que vem acontecendo no País. Eliane Brum é colunista da edição brasileira e online do El País. E há, claro, as bem-humoradas listas do Buzzfeed Brasil, a edição local de um dos maiores sites jornalísticos do mundo. A equipe, recém-formada, conta com Manu Barem (ex-Jezebel Brasil), Rafael Capanema (ex-Folha de S.Paulo) e Clarissa Passos (ex-iG). O Colunas, humor, internacionais... Ainda nesse campo, vale ampliar o escopo e falar de sites que não são de futebol, mas vêm fazendo ótimas coberturas. A Agência Pública e suas séries especiais sobre o Mundial são imperdíveis, e devem continuar em junho e julho. Essas reportagens vêm mostrando o lado social da Copa como poucos veículos fizeram até agora. O Catraca Livre, projeto de Gilberto Dimenstein, deverá ser muito acessado por causa da programação de festas e eventos gratuitos que vão acontecer Buzzfeed é um dos produtos jornalísticos mais lucrativos do mundo e foi analisado extensivamente pelo New York Times no seu amplamente comentado relatório sobre o estado do jornal (uma versão resumida, em inglês, pode ser lida aqui: http://migre.me/jrE1P) Se os brasileiros quiserem ir direto aos veículos estrangeiros, em inglês, também estarão bem servidos. Os EUA vêm vivendo uma fase bastante interessante. Novos veículos de comunicação estão surgindo com modelos de negócio claros e propostas editoriais relevantes. Some-se a isso o fato de que o país foi um dos maiores compradores de ingressos para o Mundial e... pronto! A Copa no Brasil estará no foco do Quartz, o site de economia do mundo real criado pelo grupo The Atlantic, e do FiveThirtyEight, o site de dados comandado por Nate Silver, que se tornou estrela mundial ao prever o resultado das eleições americanas de 2012. Ainda por lá, vale acompanhar o Vox, o site de jornalismo explicativo de Ezra Klein, ex-Washington Post, e a cobertura underground-extrema da Vice, uma das mais barulhentas e lucrativas iniciativas jornalísticas da última década. A oferta de informação, de diferentes pontos de vistas e de variados formatos será enorme nesta Copa. A cobertura será multilinguística, multiplataforma e consumida em uma enormidade de telas. O jornalismo, brasileiro e mundial, dará mostras do seu vigor e da sua enorme capacidade de reinvenção em termos de ferramentas e linguagem. E, depois da Copa, restará uma pergunta, claro. Como vamos financiar essa cobertura? Mas isso é assunto para outro texto... (*) Editor-chefe da F451 Jornalistas&Cia é um informativo semanal produzido pela Jornalistas Editora Ltda. • Tel 11-3861-5280 • Diretor: Eduardo Ribeiro (eduribeiro@jornalistasecia. com.br) • Editor-Executivo: Wilson Baroncelli ([email protected]) • Editor-assistente: Fernando Soares ([email protected]) • Assistente de redação: Mariana Ribeiro ([email protected]) • Estagiária: Georgia Aliperti ([email protected]) • Editora-regional RJ: Cristina Vaz de Carvalho, 21-2527-7808 ([email protected]) • Correspondente: Kátia Morais (DF), 61-3347-3852 ([email protected]) • Diagramação e Programação visual: Paulo Sant’Ana ([email protected]) • Departamento Comercial: Silvio Ribeiro, 11-3861-5283 ([email protected]) e Vinícius Ribeiro, 11-3861-5288 ([email protected]) • Assinaturas: Armando Martellotti, 11-3861-5280 ([email protected]) Edição 950B Página 16 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA A primeira Copa a gente nunca esquece… Os repórteres André Pugliesi, Daniel Adjuto e Fernando Rudnick dividem as expectativas para a cobertura da primeira Copa do Mundo de suas carreiras. André e Fernando pela Gazeta do Povo (PR). Daniel pela sucursal brasiliense do SBT. Em comum, o desejo de fazer um bom trabalho no Mundial, que certamente marcará a história de cada um deles. Jornalismo e esporte André Pugliesi – Eu nunca decidi ser jornalista. Minha opção era Educação Física. Na verdade, minha segunda opção, pois o que sempre sonhei foi ser jogador de futebol. Sem ter conseguido, nem insistido, pensei em aproveitar minha aptidão para os esportes. Na hora de prestar vestibular, tinha que escolher outra possibilidade, e fiquei com Jornalismo. Não passei em nenhum dos dois e na segunda tentativa, no ano seguinte, inverti. Acabei passando e toquei em frente. Sempre gostei de praticar esportes, especialmente futebol. E lia bastante sobre o assunto, especialmente a Placar. Passei e cursei Jornalismo sem a ideia fixa de enveredar pelo ramo, mas acabou sendo um caminho natural. Daniel Adjuto – Como todo adolescente, durante o Ensino Médio, estava indeciso quanto a qual carreira seguir: Engenharia Civil ou Medicina. Até que, quando estava no terceiro ano, conversava com uma amiga e ela disse que faria vestibular para Jornalismo. Aquilo me chamou a atenção e comecei ler sobre campeonato do esporte, a infraestrutura que ficará de legado e a oportunidade de mostrar o País para quem ainda não o conhece. De forma negativa, acredito que o mau uso do dinheiro público, não priorizar setores que hoje precisam mais de investimentos e corrupção que se aproveita do volume de dinheiro para o evento. Fernando Rudnick – Negativo obviamente é que os gastos para o evento foram excedidos, e houve muitos problemas no meio do caminho, nas obras, coisas que não ficarão prontas. Positivo é a proximidade da torcida, apaixonada por futebol, enchendo as arquibancadas. Em organização vai faltar, mas tem essa parte boa que é o nosso calor humano. A Copa das manifestações André Pugliesi – Acho perfeitamente legítimo. Não há momento adequado para protestar. Antes, durante, depois da Copa. É óbvio que exemplo, já fizemos matéria sobre os atingidos pela tragédia das chuvas de Teresópolis, em 2011. Três anos depois, nada mudou. E, claro, trata-se de uma correlação importante em se tratando da cidade que abriga os treinos do Brasil na Granja Comary. Eu e mais três profissionais (repórter Leonardo Mendes Júnior e fotógrafos Albari Rosa e Hugo Harada) inauguramos a cobertura do evento na Gazeta do Povo. Viajamos no dia 24/5, a seleção se apresentou no dia 26, e seguiremos até o último dia do Mundial, em 13 de julho. A Gazeta do Povo terá ainda diversos outros profissionais envolvidos na cobertura, dez viajando pelo Brasil. Daniel Adjuto – Estou me preparando basicamente com materiais, cursos e coletivas oferecidos por órgãos do governo, além de leitura de jornais nacionais e internacionais sobre as seleções. Farei a cobertura de embaixadas, do evento Fan Fest, de possíveis manifestações e do trânsito de delegações. A escala de trabalho permanece a mesma. Como tenho dois empregos, trabalho como repórter do SBT pela manhã, e repórter e Daniel Adjuto André Pugliesi a profissão. Me identifiquei na hora com o telejornalismo. Apesar disso, estudava para o vestibular de Medicina, que mais me atraía. No cursinho pré-vestibular, resolvi que queria mesmo o Jornalismo. A área de esportes veio com pautas do dia a dia. É uma editoria que permite mais liberdade de texto e explorar a criatividade. Apesar disso, não tinha a editoria como meta. Fernando Rudnick – Eu sempre gostei muito de esporte e decidi pelo Jornalismo para me tornar próximo dele. Desde o Ensino Médio já sabia que era isso que eu queria ser. Fernando Rudnick vai voltar parte dos olhares do mundo para o Brasil. Durante o período de jogos, o brasileiro vai torcer, vibrar, se envolver de fato com a mística do futebol. Por outro lado, creio que muitos também vão aproveitar a oportunidade para protestar e mostrar suas insatisfações. Fernando Rudnick – As expectativas são as melhores possíveis. É o maior evento do mundo, tirando as Olimpíadas. Vai ser um grande aprendizado, e teremos a possibilidade de mostrar aquilo que fazemos no dia a dia, mas com uma estrutura bem maior. Positivo e negativo da Copa no Brasil O que espera da Copa André Pugliesi – Pontos positivos e negativos se misturam na Copa do Mundo no Brasil, é difícil dissociá-los. São várias as melhorias com infraestrutura, especialmente no caso dos estádios. Ao mesmo tempo, muito dinheiro jogado fora (como o estádio de Brasília, por exemplo). Daniel Adjuto – Pontos positivos são o fato de o país do futebol sediar o mais importante há muita manifestação orquestrada, com interesse estranho, mas um olhar mais atento consegue separar o que é justo da sacanagem. Daniel Adjuto – As manifestações, em minha opinião, não são contra a realização dos jogos. São contra os gastos excessivos com o Mundial e o esquecimento de áreas como saúde e educação, que estão sedentas de investimento. O povo aproveita o momento em os olhos do mundo estão voltados para o Brasil para deixar claro que a poucos quilômetros do estádio mais caro da Copa – e superfaturado – , o Mané Garrincha (em Brasília), pacientes, após enfrentarem horas em uma fila, sequer tem ido para cirurgias. Fernando Rudnick – Manifestação pacífica – com razões, com motivos – está certo. O povo tem que ir pra rua reclamar mesmo. O problema é quando há violência, gente infiltrada que quer baderna. Isso é um grande problema. Até participei recentemente de um curso da Polícia Militar do Paraná para os jor- nalistas terem mais noção de como se portar na cobertura de manifestações. Mas não acho que adiante fazer manifestação hoje contra a Copa, ela já está aí, vai acontecer. apresentador à tarde pelo STJ – TV Justiça, fico mais focado nas notícias do período da manhã. No STJ, não teremos expediente, já que o próprio tribunal também não funcionará. Fernando Rudnick – Eu me preparo lendo bastante, vendo documentários, me informando. Lendo muita coisa sobre as seleções, e também no dia a dia a gente fez um Guia na Gazeta do Povo. Vou para quatro cidades. Faço oitavas e quartas de finais no Nordeste, depois vou trabalhar em São Paulo. Ficarei no estádio mesmo, acompanhando. Daniel Adjuto – Formado no início de 2013 pela Universidade de Brasília, fiz estágio voluntário de dois meses na TV Globo de Nova York. Ao voltar ao Brasil, comecei a estagiar no SBT, onde atuei como produtor do SBT Brasil. Nesse período, me destaquei com a produção de séries de reportagens e de matérias investigativas. Após um ano de estágio, fui contratado como produtor do jornal local, Jornal do SBT Brasília, onde também atuava esporadicamente como repórter. Com dois meses na função, fui convidado a assumir o posto de produtor do nacional, principalmente de política, e de fazer entradas ao vivo no SBT Manhã. Já como repórter, completarei, agora em junho, um ano no SBT Manhã, programa que de participo com informações de Brasília. Fernando Rudnick – Pós-graduado em Comunicação Esportiva, em 2008, pela PUC-PR. Atuei na Terra Forum (comunicação empresarial), em 2007, e na Bandnews FM Curitiba, em 2008. Sou repórter na Gazeta do Povo desde 2009. André Pugliesi – Em termos de cobertura, a melhor possível. Não digo que é a realização de um sonho, pois nunca sonhei com isso. Mas é, sem dúvida, um momento especialíssimo. E dificílimo também. Num curto espaço de tempo, a mistura de uma série de elementos complicados, especialmente futebol e política. Daniel Adjuto – Acredito que o campeonato A carreira André Pugliesi – Eu me formei em 2002, pelo Unicenp. Comecei a trabalhar no ramo em 2004, no Jornal Arquibancada, especializado em futebol. Depois, passei rapidamente pelo Jornal do Estado, também de Curitiba, e em novembro de 2005 entrei na Gazeta do Povo. Lá, já cobri eventos como o Pan-Americano do Rio de Janeiro, em 2007, a Copa América da Argentina, em 2011, e a Olimpíada de Londres, em 2012. Tenho 35 anos e sou curitibano. Preparação e cobertura André Pugliesi – Estou envolvido com o assunto já há bastante tempo, pela Gazeta do Povo. Participei da Copa das Confederações, do sorteio para o Mundial e de uma infinidade de pautas envolvendo a preparação de Curitiba e da Arena da Baixada para o Mundial. Logo, já estou familiarizado com o tema. Mas, claro, não basta. Tenho procurado estar atualizado o máximo possível, acompanhando boa parte do que se publica sobre a Copa, e fiz algumas leituras específicas de livros. Vou cobrir a Seleção Brasileira em Teresópolis e os jogos que serão realizados no Rio de Janeiro, incluindo a final. Também estou atento para o entorno e em caso de manifestações. Por Edição 950B Página 17 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA Copa do Mundo, 1950 x 2014 Por Roberto Muylaert (*), especial para J&Cia A década de 1950 pode ser chamada de Anos dourados, se for preciso glamurizar aquela época para uma novela. Mas também de Década do silêncio, para quem viveu o período, em que se realizou no Brasil a IV Copa do Mundo. Até na comportada massa humana presente ao Maracanã era fácil perceber que os homens só vestiam cores discretas: cinza, branco, azul-claro, bege. Um público tão educado que teve forças para aplaudir o Uruguai como campeão do mundo de 1950, ainda no Maracanã, em seguida à derrota do Brasil. A torcida se comportava bem: levantar, só na hora do gol. Não existia a atitude de saltar o tempo todo no mesmo lugar, para apoiar o time, como é comum nas torcidas dos grandes times. Como as desistências de países tinham sido muito grandes, até a última hora, os grupos para chegar às quartas de final de 1950 foram formados de forma improvisada, com participantes convidados às pressas, o que resultou na formação de grupos desequilibrados, onde o Uruguai jogaria apenas com a Bolívia para se classificar, enquanto o Brasil deveria passar por México, Iugoslávia, e Suiça. Foram classificados Brasil, Uruguai, Espanha e Suécia para a fase de mata-mata, que, em vez das eliminatórias, virou quadrangular de todos contra todos, por pontos, pela primeira e última vez em Copas do Mundo. O que se costumou chamar de “final de 50” era o último jogo da tabela, com a ordem dos jogos do quadrangular sendo sorteada, e não uma final surgida de eliminatórias. Por isso, o Brasil nessa “final” levava um ponto de vantagem, podia empatar, ainda seria o campeão. O regulamento foi modificado pelo medo que o Brasil tinha de cair fora na semifinal, se houvesse eliminatórias. Não queria decepcionar o enorme público presente no Maracanã, 200 mil pessoas, ou dez por cento da população do Rio. Um estádio equivalente construído hoje em São Paulo teria capacidade para um milhão e duzentas mil pessoas... E a estratégia quase deu certo, com o Brasil dando show contra Suécia e Espanha, no Maracanã lotado, o que fez aumentar o otimismo em relação ao último jogo, contra um time de camisas azul-celeste, que pareciam até desbotadas, mas que acabaria levando a Copa. No Maracanã lotado só dava para sentar forçando o traseiro como uma cunha entre dois torcedores já espremidos, aos brados de “brasileiro sempre cabe mais um...”. Vitórias acachapantes: 7x1 na Suécia, 6x1 na Espanha. Dez por cento da população do Rio estava no estádio, um prodígio de dimensões e de público, 200 mil pessoas, ou 14 mil toneladas de gente! Todas cantando em uníssono, e arrepiando com o Hino Nacional, numa época em que era obrigatório o ensino de canto orfeônico nas escolas (implantado por Heitor Villa-Lobos). O que acabou perturbando a calma dos jogadores concentrados em São Januário, campo do Vasco da Gama, foi a enxurrada de políticos que queriam fazer média com os jogadores e os eleitores. Era a sucessão de Getúlio Vargas, deposto após o movimento militar que acabou com 15 anos de ditadura. Os políticos prometiam empregos e cargos públicos aos jogadores, que teriam o futuro garantido como Campeões do Mundo (não como vice-campeões). Até candidato a presidente da República se apresentou para discursar para os jogadores, como foi o caso de Adhemar de Barros, político de São Paulo. Mas o auge da falta de critério e bom-senso foi o discurso pelos autofalantes do Maracanã, no jogo final, quando o responsável pela construção do estádio-gigante, general Ângelo Mendes de Morais, lançou um palavrório politicamente muito incorreto, o último dos maus agouros: “Vós, jogadores, que a menos de poucas horas sereis proclamados campeões por milhões de compatriotas. Vós, que não possuis rivais em todo o hemisfério, Vós, que superais qualquer outro competidor! Vós que eu já saúdo como vencedores! Cumpri minha promessa construindo este estádio. Agora fazei o vosso dever, ganhando a Copa do Mundo!”. O resto todo mundo sabe: a sequência do segundo gol do Uruguai, de cinegrafista ignorado, é exibida à exaustão na tevê brasileira (em meu livro Barbosa, comparo a dramaticidade desse filme com a de Zapruder, do assassinato de Kennedy, o único a mostrar o desfecho da cena). Mas houve também momentos de grande alegria, emoção, e de patriotismo na medida certa, nos três jogos do quadrangular final em que o Brasil ganhou. Nos 6x1 contra a Espanha houve um momento em que o estádio começou a acenar com lenços brancos, despedindo-se do adversário goleado, e a cantar, de improviso, um marcha de carnaval que todo mundo conhecia, como era comum naquela época: Touradas de Madrid. Surgiu de forma espontânea e sem ensaio um dos maiores corais do mundo, para euforia de quem estava lá. Na letra havia a palavra Catalunha, que pronunciada em uníssono por aquele público enorme soava como uma sirene. No meio da euforia esfuziante, só um torcedor chorava, emocionado. Era Braguinha, o compositor da música que de repente tinha virado hino nacional, naquele jogo. Ao vê-lo chorar, um torcedor não perdoou: “Todo mundo feliz e só esse espanhol filho da puta chorando...”. Embora entre 1950 e 2014 haja um abismo de diferenças, não é difícil descobrir semelhanças: uma é a crescente convicção de que vamos ganhar. A euforia crescente virá de todos os meios de comunicação somados e pode tomar conta da cabeça dos jogadores, como aconteceu em 1950. O Brasil tem uma imprensa com muito poder de fogo, mas poucos heróis esportivos, daí sua munição ser descarregada nos ídolos do futebol, a saber, em 2014, Neymar. Há também a coincidência da final da Copa ser em julho e a eleição presidencial em outubro. Em 1950 os políticos entravam na concentração em São Januário sem cerimônia. Claro que, hoje, o controle de quem pode ter contato com a seleção é rigoroso, mas ninguém impede os jogadores de assistirem tevê, o que traz as expectativas ampliadas pela imprensa para dentro da própria concentração. Quando foi confirmada a Copa do Mundo de 2014 no Brasil, o estádio de 1950 não mais servia. O Maracanã era o único estádio tombado do Brasil, inscrito, desde o ano 2000, no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico. E com imóvel tombado pelo Iphan, ninguém mexe, a não ser a Fifa. Iniciada a derrubada, o Conselho do Iphan, em 2011, classificou a reforma como “crime”, conforme matéria na Folha de S.Paulo, caderno Ilustríssima, de 25 de novembro de 2012. Em resumo, o Rio de Janeiro tinha um estádio em plena condição de uso e precisava de um mais moderno, de acordo com a Fifa. Em vez de construir um novo, por R$ 860 milhões, e conservar o Maracanã, a opção foi ficar com um estádio só, igual a todos os outros, pelo preço das duas reformas somadas, de R$ 1,46 bilhão. A lógica de quem fez a escolha deve ter sido “pague dois e leve um”. A conclusão é que, assim como a Copa de 50 foi um sucesso total, mesmo sem a vitória do Brasil, a de 2014 também será, com a diferença de que, naquele longínquo 1950, o Brasil era um país rural, onde tudo se resumia ao café. E, segundo Nelson Rodrigues, havia no País o “complexo de vira-latas”, onde o brasileiro achava que não tinha possibilidade de ganhar nada numa competição internacional. Em 2014 o “vira-latas” transformou-se num cão de raça futebolístico, que entra na Copa como o país de maior número de títulos mundiais, cinco. Uma derrota (Deus nos livre!) não teria impacto sobre o orgulho nacional. Muito distante da tragédia de 50. (*) Jornalista, escritor e publisher O que há para ler n O lado sujo do futebol, de Amaury Ribeiro Jr., Leandro Cipoloni, Luiz Carlos Azenha e Tony Chastinet chegou às livrarias com um conteúdo recheado de traições, contratos suspeitos, amizades de interesses, cartel, subornos, enriquecimento ilícito, coações, jogo político e muito mais. No prefácio, o ex-jogador e atual deputado federal Romário dá o tom: “Agora, mais do que nunca, tenho certeza de que a CBF é mesmo o câncer do futebol!”. A obra afirma, por exemplo, que João Havelange e Ricardo Teixeira desenvolveram um esquema mafioso de fraudes e conchavos, beneficiando a si e seus amigos; que Fifa e CBF se tornaram um grande balcão de negócios; e que este é um grande jogo de bolas marcadas, cujo palco principal são as Copas do Mundo. Mais informações com Fábio Diegues (11-3087-8840 e 983-994-331 ou fdiegues@editoraplaneta. com.br). n O colunista e escritor Ruy Castro está lan- çando Os garotos do Brasil – Um passeio pela alma dos craques (Foz), obra que traz 25 de seus textos publicados nos últimos 20 anos em diversos veículos – quase todos revistas de circulação dirigida – e faz um resgate histórico, revelando os sonhos, traços de caráter e miudezas de alguns de nossos maiores ídolos, como Pelé, Garrincha, Bellini e Zico, entre outros. Segundo ele, é, na realidade, “uma coletânea escrita por um torcedor que viu jogar quase todo mundo, de 1958 até mais ou menos 1990, nos estádios”. Para explicar o nome do livro, Ruy cita Nelson Rodrigues: “Sempre concordei com ele quando dizia que, em futebol, o pior cego é o que só vê a bola”. Nelson, que tinha miopia aguda, mal enxergava a bola em campo; então, como via mal o jogo, tinha de se limitar a radiografar a alma dos jogadores. Ruy também descreve os fundamentos clássicos do que seria, por assim dizer, nossa sociologia do futebol, como Charge de Fernandes A proximidade da Copa levou editoras a lançar (ou relançar) livros alusivos ao tema. Relacionamos a seguir alguns deles: Edição 950B Página 18 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA a ginga, que vem da capoeira, ou o complexo de vira-lata – expressão criada por Nelson Rodrigues para designar, segundo o próprio, a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. Com 136 páginas, Os garotos do Brasil chega ao mercado com preço sugerido de R$ 36,90. n Os cartunistas Jal e Gual inauguraram neste 1º/6, no Sesc Belenzinho, em São Paulo (rua Padre Adelino, 1.000), a exposição Figurões da Copa com material baseado no livro Brasil nas Copas (Panini), de autoria de ambos, e cartuns inéditos de 21 desenhistas com (pela primeira vez) caricaturas de todos os jogadores brasileiros que foram para as Copas. São na maioria 23 em cada Copa. A exposição lembra um álbum de figurinhas. O livro tem capa e ilustrações de Fernandes, chargista do Diário do Grande ABC. Uma delas é a que ilustra este bloco. n A fundação alemã Einrich Böll Stiftung lança Copa para quem e para quê, com organização de Marilene de Paula e Dawid Danilo Bartelt, que reúne análises sobre os Mundiais em Brasil, África do Sul e Alemanha, compilando dados públicos e minientrevistas. Gláucia Marinho, Mário Campagnani e Renato Consentino, jornalistas da ONG Justiça Global, fizeram o texto sobre o Brasil. Download grátis pelo br.boell.org/pt-br. n João Carlos Assumpção e Eugênio Goussinsky lançaram na semana passada Deuses da bola (DSOP), cujo tema é o centenário da Seleção Brasileira, que será comemorado em 21 de julho. n A Panda Books lançou diversos livros sobre Copas do Mundo e em todos eles há jornalistas como autores: u A história das camisas de todos os jogos das Copas (edição atualizada), de Paulo Gini e Rodolfo Martins Rodrigues, com ilustrações de Mauricio Rito e prefácio de Juca Kfouri. O livro conta com 847 camisas, de 80 seleções em 19 Copas, além de trazer o histórico das camisas da Seleção Brasileira desde a sua fundação até o final de 2013, incluindo as partidas de Olimpíadas. Cada capítulo revela informações e curiosidades do uniforme completo usado pelas seleções jogo a jogo. Tudo é organizado cronologicamente, trazendo também a tabela completa de cada edição dos Mundiais. u Infográficos das Copas, de Gustavo Longhi de Carvalho e Rodolfo Martins Rodrigues. Os autores compilaram as fichas técnicas de todas as partidas das Copas e montaram um banco de dados inédito. Desde 1930, quando a primeira Copa do Mundo foi realizada no Uruguai, até a África do Sul, em 2010, foram 19 mundiais, 772 jogos e 2.208 gols comemorados – todos eles marcados em 173 estádios de 143 cidades, com um público médio de 44.091 pessoas. O livro traz o resultado desse levantamento em mais de cem estatísticas ilustradas, que mostram, por exemplo, que o resultado mais comum é 1 x 0, ocorrido 145 vezes, que 948 gols saíram no primeiro tempo e 1.204 no segundo, e que as seleções que tiveram 100% de aproveitamento em Copas foram o Uruguai de 1930 (quatro jogos), a Itália de 1938 (quatro jogos) e o Brasil de 1970 (sete jogos). u Um jogo cada vez mais sujo, de Andrew Jennings. Uma das revelações deste livro é o esquema fraudulento da venda de ingressos na Copa. O escocês Jennings, que lançou Jogo sujo no Brasil em 2011, investiga os bastidores da Fifa há 20 anos e foi um dos principais responsáveis pelas reportagens que resultaram nas expulsões de João Havelange e Ricardo Teixeira da entidade. Por essas e outras, foi banido de todos os eventos da Fifa e é considerado seu inimigo número 1. u Dicionário das Copas, de André Luís Nery e Humberto Peron. São 6.297 verbetes sobre jogadores, técnicos, árbitros, mascotes, dirigentes, bolas, países, torneios e tudo o que envolve o maior evento do futebol mundial. Cada verbete inclui histórias ou curiosidades. Há também o número de jogos, vitórias, derrotas e gols de cada craque, informações dos estádios que sediaram as disputas, dados das seleções e dos países-sede de todas as edições, as polêmicas das finais, a criação das mascotes e muito mais. u Tática Mente: A história das Copas explicada pelas cabeças e pranchetas dos treinadores, de Paulo Vinicius Coelho, o PVC. O livro tem apresentação de Luiz Felipe Scolari, que lembra as grandes seleções, as vitoriosas e também as que não ganharam a Copa. PVC, atualmente nos canais ESPN, traz no livro muito do que viu ao fazer a coluna Prancheta do PVC, inicialmente no Lance e depois nos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo. Em versão impressa e digital. u O Guia dos Curiosos – Copas, de Marcelo Duarte. Nono título da coleção O Guia dos Curiosos, este trata do maior campeonato de futebol do planeta, que começou antes de a bola rolar, no Uruguai, em 1930. É o mais completo almanaque de curiosidades sobre o principal evento esportivo do mundo, que inclui os números de vários acontecimentos de dentro de campo, além de curiosidades envolvendo jogadores, árbitros e torcedores. As comemorações de gols mais marcantes, as histórias mais absurdas, as polêmicas de jogadores com a imprensa, as trapalhadas da arbitragem e outras. u Amor, sexo e traição nas Copas (somente e-book), de Gustavo Hofman e Leonardo Bertozzi. Eles foram atrás de histórias curiosas sobre o tema. Conversaram com jornalistas do mundo todo para conhecer casos que ficaram restritos à imprensa local. Pesquisaram o assunto nos mais variados sites e nas mais variadas línguas. O e-book tem também versão em inglês. A Copa em nova perspectiva Por Marília Stabile, diretora da In Press Análise & Perspectivas A In Press Análise & Perspectivas realizou de janeiro a março o estudo A Copa em nova perspectiva, o primeiro da série Cenários & Perspectivas que essa nova empresa do Grupo In Press vai fazer sobre temas da agenda nacional. O estudo reuniu sondagem de opinião, análise de imprensa e mídias sociais e avaliação socioeconômica da qualidade dos serviços públicos das 12 cidades-sede. Os resultados, que podem ser conferidos em detalhes no http://migre.me/jviET, mostram que a imagem da Copa como promoção do esporte está preservada; a associação Empresas e jornalistas A vitória do Brasil na Copa pode reduzir dela ao legado à população, não, especialmente em transporte nas cidades, aeroportos, as crí2cas em relação ao governo hospedagem, qualidade de serviços prometidos à população pelo Governo Federal. Ao contrário. A Copa ancorou e potencializou o debate sobre a qualidade dos serviços públicos e despertou a demanda reprimida por infraestrutura em geral. Os recursos destinados aos estádios revelou o desvio de finalidade para o atendimento às necessiJornalistas Empresas dades da população. Consolidou o raciocínio: se há dinheiro para estádios, deveria ter Uso abusivo de verbas públicas também para os serviços públicos. Mais: as condições de inflação alta, especialmente Aumento na previsão inicial 5% 2% dos alimentos, obras inacabadas e legado abaixo das expectativas permanecem. Por7% 7% de gastos Aumento nos preços de tanto, as manifestações vão continuar – ainda que em menor grau. A influência sobre 23% 36% 39% produtos e serviços 14% as eleições será relativa, pois o Brasil não é mais apenas o País do futebol. Ganhando Não cumprimentos dos prazos ou perdendo, uma certeza: a necessidade das mudanças para atender infraestrutura e Má qualidade dos serviços e qualidade dos serviços públicos para toda a população. do atendimento 18% 20% 5% Na sondagem de opinião, o Pulse In Press, foram ouvidos 58 jornalistas do Brasil, 11% Obras malfeitas e com 13% acidentes das editoriais de esporte, economia, política e cultura, além 72 executivos de empresas Sem Resposta nacionais e multinacionais com sede no Brasil. Na análise das mídias, o novo Índice de Impacto e Perspectivas analisou 1.452 notícias em 16 sites e portais, no primeiro trimestre deste ano. Nas mídias sociais, apenas ?)&!?1)(!()(9@@)?H1'9@()#/F!V)@/9A9V61J9V)8)?/1!&0)/!!eam Principais temas abordados refletem demanda reprimida por no mês de março, foram Até 3 SMs serviços públicos de qualidade. Resultado: cobrança do Legado avaliados 5% dos posts Mídia Social: perfil mais crí2co à gestão pública. Canais permanecem para em um universo total de organização de protestos contra governos WEB: imprensa e mídia social se 767.568. A base das anáalinham contra má imagem na gestão do governo na infraestrutura lises socioeconômicas, Assuntos – parGcipação + e – Março/ realizada pelo professor 2014 de economia da USP e 99.6 consultor da empresa Até 8 SMs 84.6 81.5 Heron do Carmo, foi a 68.6 Pesquisa de Orçamento 59.9 54.2 53.8 48.851.2 Familiar (Pofi), do IBGE, 46.2 45.8 40.1 de 2008/2209 – que vem 31.4 a ser a maior pesquisa 18.5 15.4 realizada no País sobre 0.4 hábitos e condições de Evento Gestão Pública Infraestrutura Manifestações 56 mil unidades de consumo. ]\\T\\h d\T\\h b\T\\h _V7?$5 ^VD/5 ]V75 `\T\\h 120.0 100.0 Internet Internet Internet Mídia social Mídia social Mídia social ^\T\\h \T\\h 6D> 80.0 60.0 7=?4$J ?4 $!/'$ 4F#7= $47 7=/J76?$ /7#$ 6$/=7 7D47 D=/@ 7=?7 4$-=$ D/ =>04/ =>/4 ]\\T\\h d\T\\h b\T\\h 40.0 _V7?$5 ^VD/5 ]V75 `\T\\h 20.0 ^\T\\h 0.0 \T\\h 6D> 7=?4$J ?4 $!/'$ 4F#7= $47 7=/J76?$ /7#$ 6$/=7 7D47 D=/@ 7=?7 4$-=$ D/ =>04/ =>/4 Edição 950B Página 19 ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA • ESPECIAL DIA DA IMPRENSA Jornalistas&Cia pediu a alguns profissionais que deram depoimentos para este especial que indicassem seus times de coração e quais seleções serão finalistas, além, é claro, o novo campeão do mundo. O resultado você confere neste tabelão. JORNALISTA TIME DO CORAÇÃO FINALISTAS DA COPA Adhemar Altieri Affonso Ritter Alexandre Alfredo Alexandre Salvador Américo Martins André Trigueiro Andrea Denadai Angélica Consiglio Antoninho Rossini Antônio Torres (Apolinho) Washington Rodrigues Breiller Pires Carina Almeida Carlos Conde Carlos Maranhão Castilho de Andrade Célio Galvão Charlene Sant’Anna Ciro Dias Reis Claudia Belfort Cláudia d’Amato Cláudia Giudice Claudia Kucharsky Claudio Arreguy Clóvis Rossi Cristiane Santos Cristina Toletti Denner Taylor Douglas Tavolaro Eduardo Pugnalli Eleno Mendonça Elisa Prado Eugênio Araújo Gil Arruda Helio Cicero Josino Ribeiro Liliana Lavoratti Luiz Carlos Costa Manoela Penna Marcelo Senna Marceu Vieira Marcos Guiotti Júnior Mariucha Moneró Marluci Martins Martha Esteves Roberto Nonato Rodrigo Cavalcante Sergio du Bocage Sergio Pugliese Sérgio Rizzo Toninho Nascimento Palmeiras Grêmio/RS Palmeiras Atlético/PR, Coritiba e Paraná Clube Portuguesa Fluminense Palmeiras Santos Corinthians Flamengo Flamengo Vasco Flamengo Santos Atlético/PR e Corinthians São Paulo e Portuguesa Santista São Paulo Palmeiras Santos Corinthians São Paulo Santos Palmeiras Cruzeiro Barcelona (Espanha) São Paulo São Paulo e Uruguai Atlético/MG Brasil, Argentina, Itália e Alemanha Brasil, Alemanha, Argentina, Espanha Brasil, Holanda, França e Inglaterra Brasil, Holanda, Alemanha e Espanha Brasil, Inglaterra, Portugal e Grécia Brasil, Argentina, Alemanha e Espanha Brasil, Espanha, Alemanha e Argentina Alemanha, Espanha, Argentina e Brasil Espanha, Inglaterra, Argentina e Brasil RANKING FINALSTAS BRASIL Alemanha Espanha Argentina Inglaterra Itália Portugal Holanda França Bélgica Grécia Uruguai NÃO OPINARAM 48 43 40 35 8 7 4 3 2 1 1 1 3 Atlético/PR Vasco Atlético/MG Fluminense Flamengo Botafogo Fluminense Vasco Flamengo Palmeiras Flamengo Vasco Palmeiras Fluminense CAMPEÃO Itália Brasil Brasil Brasil Brasil Brasil Brasil Alemanha Brasil Brasil Brasil, Alemanha, Argentina e Itália Brasil Espanha, Brasil, Argentina e Alemanha Espanha Brasil, Espanha, Alemanha, Argentina Brasil Brasil, Espanha, Alemanha, Argentina Brasil Alemanha, Argentina, Brasil e Inglaterra Brasil Brasil, Itália, Alemanha e Inglaterra Inglaterra Brasil, Alemanha, Itália, Espanha Brasil Brasil, Alemanha, Espanha e Portugal Alemanha Brasil, Alemanha, Espanha e Inglaterra Brasil Brasil, Argentina, Portugal e Espanha Brasil, Espanha, Argentina e Alemanha Brasil Brasil, Argentina, Alemanha e Espanha Brasil, Espanha, Argentina e Alemanha Brasil Brasil, Alemanha, Argentina e Espanha Alemanha e Brasil Alemanha, Argentina, Brasil e Espanha Brasil, Espanha, Alemanha e Inglaterra Espanha e Brasil Brasil, Espanha, Alemanha e Uruguai Brasil Brasil, Espanha, Alemanha e Itália Brasil Brasil Brasil, Argentina, Alemanha e Espanha Brasil, Alemanha, Argentina e Espanha Brasil, Espanha, Alemanha e Itália Brasil, Alemanha, Espanha e Argentina Brasil Brasil, Alemanha, Itália e Espanha Alemanha Brasil, Argentina, Alemanha e Bélgica Brasil Brasil, Portugal, Argentina, Espanha Brasil Brasil, Argentina, Espanha, Alemanha Brasil Brasil, Alemanha, Espanha e Argentina Brasil Brasil, Argentina, Espanha, Alemanha Alemanha Brasil, Alemanha, Argentina e Espanha Brasil Brasil, Argentina, Espanha e Alemanha Brasil Brasil, Argentina, Alemanha e Inglaterra Brasil Brasil , Alemanha, Espanha, Argentina Brasil Brasil, Alemanha, Espanha e Argentina Brasil Espanha, Alemanha, Brasil e França Brasil Brasil, Argentina, Alemanha e Holanda Brasil Brasil Brasil, Argentina, Alemanha e Espanha Alemanha Brasil, Argentina, Alemanha e Espanha Alemanha Brasil, Argentina, Alemanha e Espanha Brasil Brasil, Alemanha, Argentina e Espanha Brasil RANKING CAMPEÃO BRASIL Alemanha Espanha Inglaterra Itália NÃO OPINARAM 36 7 2 1 1 6