AU TO RA L TO EI DI R DE LE I UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES LA PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” O PE EM MARKETING DO CU M EN TO PR OT EG ID AVM FACULDADE INTEGRADA Consumo Consciente LGBT: Como fazer do consumo uma atividade política Por: Paula Cristina da Costa Ramos Orientador Prof. Mário Luz Brasília 2 2012 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” AVM FACULDADE INTEGRADA Consumo Consciente LGBT – Como fazer do consumo uma atividade política Apresentação de monografia à AVM Faculdade Integrada como requisito parcial para obtenção do grau de especialista em Marketing Por: Paula Cristina da Costa Ramos 3 AGRADECIMENTOS ....aos amigos e colegas de trabalho que tanto me incentivaram a concluir mais essa etapa. 4 DEDICATÓRIA .....dedico a presente monografia não a uma ou outra pessoa, mas à causa LGBT que está explícita em todas as suas linhas. 5 RESUMO O tema aqui apresentado é de suma importância, especialmente no que diz respeito a essa promissora camada da população, que ainda não é bem assistida enquanto nicho de mercado consumidor com grande potencial. Entende-se que são necessárias discussões, pesquisas e proposição de parcerias a fim de se conhecer, identificar e disseminar ações de empoderamento, até por que a falta de assistência a essa população se dá principalmente pelo desconhecimento e até mesmo pelo preconceito que está enraizado em uma sociedade pouco esclarecida sobre o assunto e muito ligada a preceitos de intolerância. Durante a pesquisa, que foi além de uma pesquisa bibliográfica, tive conversas informais com representantes do movimento LGBT da minha região, essas pessoas se manifestaram favoráveis a uma parceria entre os empresários locais e ONG que trabalham com a temática, a maioria desses representantes, acha importante que haja essa manifestação de consumo consciente e acreditam que um dos caminhos percorridos para a igualdade de direitos pode passar pela igualdade enquanto consumidores. Diante da análise e das reflexões realizadas no discorrer do trabalho, percebi que o nicho em questão carece de um bom atendimento e tem por costume estabelecer uma relação de fidelidade àquelas marcas que são aliadas à causa, essa percepção me fez propor uma parceria que ainda está em teste, porém, já têm apresentado lucratividade, perante o que foi acima exposto, além do desenvolvimento do trabalho, acredito que é possível que haja uma verdadeira interação entre consumo consciente e a atividade política desse segmento. 6 METODOLOGIA A presente pesquisa será realizada através de um minucioso estudo de revisão bibliográfica de livros e sites de autores reconhecidos nacional e internacionalmente, como: Adriana Nunan, Franco Reinaudo e Laura Bacellar entre outros que se destacam sobre o mercado de consumo da população LGBT. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 08 CAPÍTULO I – Conhecendo a comunidade LGBT 10 1.1 – Histórico do comportamento de Consumo LGBT 10 1.2 – Percentual LGBT perante a população geral 11 1.3 – Comportamento de Consumo LGBT nos Estados Unidos 12 1.4 – Comportamento de Consumo LGBT no Brasil 15 CAPÍTULO II – Meios de Comunicação, mídia e publicidade LGBT 19 2.1 – Nos Estados Unidos 20 2.2 – No Brasil 26 CAPÍTULO III – Nicho de Mercado LGBT: Legitimação ou Exclusão? 33 CONCLUSÃO 38 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 39 BIBLIOGRAFIA CITADA 40 ANEXOS 45 ÍNDICE 00 8 FOLHA DE AVALIAÇÃO 00 INTRODUÇÃO O tema da presente monografia foi escolhido devido ao perceptível e crescente aumento da necessidade de atendimento customizado a todos os nichos de consumo. O nicho aqui estudado será o LGBT. Mas como entender quais os interesses de consumo da população LGBT? O tema aqui apresentado é de suma importância, especialmente no que diz respeito a essa promissora camada da população, que ainda não é bem assistida enquanto nicho de mercado consumidor com grande potencial. Entende-se que são necessárias discussões, pesquisas e proposição de parcerias a fim de se conhecer, identificar e disseminar ações de empoderamento, até por que a falta de assistência a essa população se dá principalmente pelo desconhecimento e até mesmo pelo preconceito que está enraizado em uma sociedade pouco esclarecida sobre o assunto e muito ligada a preceitos de intolerância. Atualmente, têm se mapeado diversos hábitos de consumo de diversos nichos. Recentemente nos deparamos com pesquisas e artigos sobre a população LGBT, fala-se em consumidores exigentes, com alto poder aquisitivo e alto grau de exigência em relação aos produtos e serviços a serem adquiridos. Partindo do pressuposto que as afirmativas acima são verdadeiras, deve-se elaborar um mapeamento das características de consumo dessa população, além de identificar os produtos/serviços a que esse segmento tem procurado, a finalidade é a de atendê-la em suas necessidades. 9 Quando falamos em homossexuais, logo nos vêm em mente o preconceito e a desigualdade imposta pela sociedade a esse nicho. Vivendo em uma organização social capitalista, é importante que sejam apresentadas as possibilidades e as necessidades de todos os seguimentos, podendo até mesmo fazer do hábito de consumo, uma atividade política de inclusão. São, portanto, objetivos centrais deste estudo: a) Identificar os interesses de consumo dos LGBT; b) Analisar o mercado de oferta dos interesses de consumo identificados; c) Apresentar parcerias entre o mercado de ofertas e o mercado de consumo LGBT. Os capítulos a seguir relatam um pouco do histórico de um segmento que sempre esteve à margem da sociedade, que busca, para além de direitos civis igualitários, relações cotidianas que o atenda em suas necessidades básicas ou secundárias, como é o caso das mais diversas formas de consumo. Algumas pesquisas publicadas nos Brasil e no exterior servirão de norte para os esclarecimentos necessários em relação ao tema central proposto. 10 CAPÍTULO I CONHECENDO A COMUNIDADE LGBT 1.1 – Histórico do comportamento de consumo LGBT ...para construção do futuro, é importante entender o que se passou. Desde 1970, quando o comportamento do consumidor tornou-se um campo teórico fértil, estudiosos têm pesquisado sistematicamente as diferenças nos padrões de consumo de culturas e subculturas específicas. Nas pesquisas sobre o comportamento do consumidor, assim como na maior parte das ciências sociais, a prática geralmente precede a teoria. Este tem sido o caso a partir da década de 90, quando os publicitários dos Estados Unidos e da Europa, “descobriram”, subitamente, o mercado LGBT. Desta forma, apesar do forte e insidioso preconceito contra os homossexuais, mudanças na competição entre empresas, no comportamento dos consumidores e na mídia em geral, assim como contribuições por parte dos movimentos LGBT, tem feito com que o mercado volte cada vez mais atenção para esta parcela da população (Peñaloza, 1996; Wardlow,1996). Apesar de a existência do mercado LGBT ter sido constatada na prática por profissionais de marketing, teóricos que estudam o comportamento de consumo de subculturas específicas têm praticamente ignorado o assunto, existindo pouquíssimas pesquisas sobre as diferenças entre o consumo heterossexual e o homossexual (Newman e Nelson, 1996). Na década de 90, juntamente com uma explosão de revistas e jornais veiculados para este público, agências de publicidade e marketing começaram 11 a fazer pesquisas pequenas e pouco científicas com o intuito de compreender melhor esse “novo” tipo de comportamento de consumo (Harris,1995; Wilke, 1995; Wilke 1996a, Lukenbill,1999; Chasin,2000). Pode-se dizer que a cultura de consumo LGBT é uma derivação da subcultura gay e de suas respectivas características mercadológicas (incluindo produtos, serviços, publicidade e publicações especializadas). Em outras palavras, uma comunidade em uma subcultura de consumo e vice-versa (Freitas e cols., 1996). 1.2 - Percentual LGBT perante a população Em termos gerais, de acordo com dados de algumas pesquisas, acredita-se que entre 4% a 8% da população ocidental adulta (vivendo em grandes centros urbanos) seja homossexual (Small,1996; Kahan & Mulryan,1995). Estes dados, no entanto, precisam ser analisados com cautela, pois das inúmeras pesquisas que estudam o número de indivíduos homossexuais na população geral, poucas são confiáveis. Primeiramente, devido ao preconceito e à estigmatização, muitos sujeitos não revelam a sua verdadeira orientação sexual ou mentem sobre aspectos relacionados a ela, mesmo quando as respostas são anônimas. Neste caso, o número de homossexuais seria muito maior. Em segundo lugar, os critérios para definir o que é ser homossexual variam conforme o estudo. Por exemplo: aceita-se para efeitos sociais que homossexual é o indivíduo que se relaciona com membros de seu mesmo sexo biológico. Em alguns estudos, no entanto, também são considerados gays indivíduos que tiveram uma única experiência homossexual durante toda a vida ou que têm fantasias homossexuais. Por outro lado, muitos indivíduos que se consideram heterossexuais já tiveram uma ou mais experiência homossexuais. 12 Desta forma, a homossexualidade pode ser definida tanto pelo comportamento sexual de desejo do sujeito, pelos seus sentimentos de atração com relação a pessoas do mesmo sexo biológico ou por auto identificação (o sujeito de se auto identifica como homossexual). Pode-se dizer assim, que as pesquisas acabam sendo prejudicadas, dentre outros motivos, pela falta de rigor dos termos científicos (Bhat e cols., 1996; Badgett,1998). Não obstantes estas ressalvas, quando falamos em mercado LGBT o que importa é saber é o número que se auto identificam como gays (isto é, que adotam uma identidade homossexual), o que não é a mesma coisa que o comportamento homossexual (ter relações afetivo-sexuais com parceiros do mesmo sexo biológico). Em outras palavras, a verdadeira preocupação de empresas que desejam atingir este consumidor não deve ser a porcentagem de homossexuais na população geral, mas sim o que estamos chamando de identidade gay, com tudo o que ela implica em valores, atitudes, aspirações e emoções, que geram, consequentemente, um comportamento de consumo diferenciado (Lukenbill,1999). 1.3 – Comportamento de Consumo LGBT nos Estados Unidos A primeira pesquisa sobre o consumidor LGBT foi feita em 1968 nos Estados Unidos, quando se estudaram os leitores do jornal Gay The Advocate, mas somente a partir da década de 90 é que começaram a surgir agências de publicidade e marketing especializadas no mercado gay (Lukenbill, 1999). Uma das maiores pesquisas sobre este assunto até o momento foi realizada em conjunto por duas agências norte americanas, uma de marketing (Simmons Market Research Bureau) e outra de publicidade (Mulryan/ Nash Advertsing), em 1997. O estudo recebeu o nome de Gay and Lesbian Market Study e confirmou a relativa influência do mercado LGBT. 13 A pesquisa revelou que os elevados salários desta parcela da população se justificariam basicamente por duas razões: a maioria não teria filhos e, ao que parece, os homossexuais seriam mais escolarizados do que a população geral. A partir deste momento, os homossexuais ficariam conhecidos como DINKS (double income, no kids), isto é, casais de profissionais sem filhos que, por este motivo, podem gastar considerável parte de sua renda em artigos supérfluos ou de luxo (Kahan & Milryan, 1995; DeLozier & Rodrigue, 1996; Baker, 1997; Wilke 1997a). Com relação aos padrões de consumo, gays e lésbicas gastaria maiores quantias do que os heterossexuais em viagens, carros, cartões de crédito, cigarros, serviços de telefone, música, bebidas (alcóolicas ou não), restaurantes cinema, teatro, roupas, perfumes, produtos eletrônicos, academias de ginástica, artigos esportivos e objetos de luxo em geral. Estes consumidores também seriam mais jovens, preocupados com moda, fiéis a determinadas marcas e bem informados social e politicamente, se comparados com a população heterossexual. Outorgariam igualmente muita importância às amizades, gostando de presentear entes queridos. Outros autores acrescentariam ainda que muitos homossexuais são trabalhadores autônomos preocupados com seu-bem estar físico e psicológico, características de uma população aberta a novas tecnologias e cuidados com a saúde. Outro lado bastante interessante é o seguinte: por não terem filhos, os homossexuais disporiam de mais tempo livre de que os heterossexuais, tempo este dedicado ao lazer e, consequentemente, ao consumo (Bowes, 1996; DeLozier & Rodrigue, 1996; Newman & Nelson, 1996; Pritchard e cols., 1998). No que se refere especificamente ao turismo LGBT, estas pesquisas apontam para o fato de que os homossexuais viajam com bastante frequência (tanto dentro como fora do país) e tendem a escolher destinos onde existe maior liberdade sexual ou uma comunidade gay estabelecida (Costa,2002). Apesar das pesquisas mencionadas acima apontarem para a lucratividade do mercado homossexual, definindo, inclusive, como “uma mina 14 de ouro não explorada”, estudos posteriores expõem o fato de que a diversidade econômica da população homossexual é tão grande quanto a existente entre os heterossexuais (Badgett, 1998). Estudos também revelaram um outro dado bastante interessante: aproximadamente 25% dos homossexuais eram pais ou cuidavam de crianças menores de 18 anos, fenômeno que aponta para o elevado número de famílias homoparentais. Diversos autores criticam as pesquisas realizadas até o momento, afirmando que a maioria destes estudos apresenta uma característica distorcida dos gays e lésbicas, porque se baseiam em leitores de revistas e jornais gays e em usuários de internet. Isto faz com que se desenvolva um número ainda maior de mitos com relação aos homossexuais, e acaba-se por ter a impressão de que todos os gays são ricos e sem filhos que podem gastar seus elevados salários em artigos de luxo e viagens pelo mundo (Hardisty & Gluckman, 1997). O 2002 Gay/Lesbian Consumer Online Census foi criticado por ter sido conduzido online, e a pesquisa Gay and Lesbian Market Study foi severamente julgada em razão dos problemas metodológicos semelhantes (Kahan & Mulryan, 1995). Empresas que desejem anunciar para esse público devem procurar os nichos que são mais receptivos aos seus produtos ou serviços. Em outras palavras, a mesma segmentação que é aplicada ao mercado geral, isto é, divisões por idade, raça, classe social, local de residência e características de personalidade , também devem ser levadas em conta quando se estuda o comportamento de consumo gay (Lukenbill, 1999). Outros dados importantes, tais como o número de LGBT nãoassumidos, ainda não estão disponíveis. Todos esses elementos acabam fazendo com que as empresas interessadas no consumidor homossexual tomem decisões baseadas em palpites e estereótipos, técnicas que seriam inaceitáveis para outros setores da população. Mal informadas pela escassez de pesquisas confiáveis, as empresas compram espaços publicitários inadequados e acabam por ter a impressão de que o mercado gay não é viável (Poux, 1998). 15 Na verdade, o medo de estigma de associar determinados produtos à homossexualidade tem impedido muitas empresas de fortalecer sua presença no mercado (Peñaloza, 1996). A principal razão, no entanto, para evitar o mercado homossexual parece ser o medo de perder consumidores heterossexuais, que formam a maior parte da população (DeLozier & Rodrigue, 1996). Não se pode ignorar a prevalência do preconceito sexual entre a população geral, principalmente em sociedades patriarcais como a brasileira. Neste sentido, acredita-se que o mercado gay crescerá com a diminuição do preconceito (Nunan, 2003). 1.4 – Comportamento de Consumo LGBT no Brasil Antes de iniciar a discussão sobre o caso brasileiro, torna-se necessário fazer uma ressalva sobre os termos utilizados a seguir. Apesar de estarmos falando em mercado gay e comportamento de consumo homossexual (termos que são frequentes nos Estados Unidos e na Europa), muitos estudos nacionais preferem referir-se a este fenômeno como Mercado GLS, siglas que correspondem a “gay”, “lésbica” e “simpatizante” (Trevisan, 2000). Pode ser definido como simpatizante, aquele indivíduo que não preconceito contra homossexuais e opta por interagir socialmente com eles. É comum, no entanto, que os simpatizantes sejam rotulados de homossexuais, “suspeitos” ou “sem coragem de assumir”. O conceito GLS surgiu nos anos 90, introduzindo no contexto brasileiro a ideia americana de gay flriendly. Segundo Gonçalves (2000), ele teria sido cunhado pela equipe do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual, com o objetivo de abranger o público que lotou as sessões da primeira edição do festival, em 1993. O Festival Mix Brasil é uma mostra de filmes e vídeos (nacionais e internacionais) que tratam de diversas expressões da sexualidade. 16 Tem sido idealizado pelo publicitário André Fisher, o festival acontece anualmente nas principais cidades brasileiras. A sigla teria sido apresentada oficialmente em 1994 em um folheto do 2º Festival Mix Brasil, sendo rapidamente aprovada pela mídia nacional. Trevisan (2000) discorda, afirmando que a sigla foi baseada em certos modelos de carro que se enquadravam nas categorias GL (Gran Luxo) e GLS (Gran Luxo Super). O conceito de queer, similar ao de GLS em alguns aspectos começou a ser amplamente utilizado nos Estados Unidos nesta mesma época, fruto dos lesbian and gay studies. Queer é um termo inclusivo, que abrange uma série de identidades sexuais culturalmente marginais (gays, lésbicas, bissexuais, transgêneros, entre outras), posteriormente dando origem ao que ficou conhecido como Queer Theory (Jagose, 1996). Não obstante estas ressalvas, quando nos referimos ao caso brasileiro continuaremos a utilizar a expressão mercado gay, por acreditar que o conceito GLS induz à invisibilidade e ao enrustimento, fatores altamente prejudiciais para a conquista dos direitos homossexuais. De acordo com Parker (1999), dado o crescimento de uma série de estabelecimentos comerciais e culturais construídos sobre a noção de identidade gay, a mídia brasileira começou a noticiar, a partir de meados da década de 90, o que tem sido descrito como mercado gay. No Brasil, até o presente momento, tanto quanto saibamos, não existem pesquisas relevantes sobre o comportamento de consumo LGBT, e as poucas que foram realizadas podem ser criticadas pelos mesmos motivos que as pesquisas norte americanas, isto é, se baseiam em subgrupos específicos do mercado gay, sobretudo em homossexuais com alto grau de escolaridade, renda elevada e usuários de internet (Alsop & Fontana, 2000). Apesar desta crítica inicial, no entanto, um estudo brasileiro realizado em agosto de 2002 por um dos maiores sites gays do país, o Mix Brasil, parece ter confirmado grande parte dos dados levantados pelas pesquisas estrangeiras, não obstante, a renda mensal dos homossexuais brasileiros aparentar ser consideravelmente menor do que a dos norte-americanos. 17 O comportamento de consumo entre homossexuais norte-americanos e brasileiros também seria parecido, dados estes que foram revelados por uma pequena pesquisa realizada em 1997 em São Paulo (De Angeli, citado por Soares, 2000). Constatou-se, por exemplo, que independente da classe social os homossexuais dariam muito valor à imagem, aparência e moda, mesmo que o estilo de roupa adotado fosse distinto (isto é, alguns homossexuais se vestiriam de forma “clássica” enquanto que outros adotariam um visual “extravagante”). De acordo com um pequeno estudo realizado pela empresa L2 Pesquisas e Comunicação, o movimento mercadológico para os homossexuais no Brasil ainda é recente e concentrado nas principais cidades (sobretudo Rio de Janeiro e São Paulo), onde a subcultura gay parece ser mais visível (Borges & Lima, 1999). Não obstante este estudo ter sido realizado em São Paulo com uma amostra pouco representativa da população LGBT geral (apenas homossexuais assumidos, frequentadores de estabelecimentos gays), os dados levantados são bastante interessantes. Em primeiro lugar, afirmam que o público gay é voltado ao lazer e à informação, preferindo meios interativos como a internet. Aproveitariam igualmente qualquer oportunidade para contatos interpessoais, dados estes que também foram identificados nos Estados Unidos. No lazer os gays procurariam dois benefícios: informação (sobre o que está na moda e o que está acontecendo no mundo) e relacionamentos pessoais. Dentre os sujeitos pesquisados 56% têm o hábito de leitura, incluindo livros, jornais e revistas. As revistas são citadas como veículo que consegue maior intimidade com o público: são discretas, fáceis de guardar, podem ser colecionadas e compartilhadas com amigos, e não expõem a vida privada, apesar de alguns sujeitos terem reportado certa timidez de comprar estas publicações em bancas de jornal. Dentre as publicações homossexuais, a G Magazine foi eleita a revista que melhor expressa o mundo gay, pois oferece informação e lazer (fotos de 18 homens nus), além de ser o único título de circulação nacional (outras revistas citadas foram a Sui Generis e Homens). Revistas “tradicionais” que são avidamente lidas pelo público LGBT incluem Veja, Caras e Isto é. A preocupação estética também parece ser forte entre os homossexuais entrevistados, muitos dos quais almejam o padrão de beleza das barbies através da prática de musculação. As marcas mais presentes no cotidiano desses consumidores seriam àquelas relacionadas a roupas ou cosméticos: Ellus, M. Officer, Natura e O Boticário. Os autores também constataram que os gays brasileiros são fiéis a poucas empresas que anunciam para eles (tais como a marca de roupas Ellus), percebendo-as como marcas vanguardistas e que desempenham um importante papel na integração dos LGBT à sociedade. 19 CAPÍTULO II Meios de comunicação, mídia e publicidade LGBT Quando falamos em imprensa gay estamos nos referindo a livros, jornais e revistas dirigidos ao público LGBT. Apesar de este tema ser bastante extenso, daremos, primeiramente, uma breve explicação sobre o que ficou conhecido como livros gays (que incluem desde literatura erótica até material acadêmico), assim como o surgimento das livrarias especializadas nestas publicações. Os jornais, particularmente, as revistas gays serão abordadas com um pouco mais de profundidade, a seguir. A importância da imprensa LGBT reside no fato que ela tem tido um papel fundamental tanto na construção da identidade como na expansão de ideias do movimento LGBT e do “mercado gay”. Não obstante estes aspectos positivos, a imprensa gay também tem constantemente ignorado questões relacionada a raça, gênero e classe social, o que propiciou o surgimento de revistas especializadas para estes subgrupos marginalizados pelas publicações tradicionais. Nesse sentido, Chasin (2000) discorda de muitos autores que entendem a imprensa LGBT como uma única instituição, visto que a diferença de gênero e raça têm criado pelo menos três imprensas gays distintas – uma para homossexuais masculinos brancos, outra para lésbicas e uma para gays negros ou de outras origens raciais. Antes de iniciar uma análise da relação entre as publicações homossexuais e o comportamento de consumo gay, faz-se importante ressaltar a função de construção de identidade nas publicações dirigidas a indivíduos estigmatizados. Neste sentido, mencionamos que a leitura da literatura do grupo pode ser uma experiência reorganizadora, fornecendo orientação para homossexuais que muitas vezes não tem um acesso a modelos identificatórios positivos. 20 A publicação de livros para homossexuais tem sido extremamente importante para o movimento LGBT, pois difundiu a cultura homossexual. Este mercado parece estar em expansão, sobretudo porque um número cada vez maior de homossexuais está assumindo a sua orientação sexual, enquanto profissionais heterossexuais que trabalham com homossexuais procuram aprofundar seus conhecimentos sobre o tema. O crescimento deste tema acabou dando origem a livrarias especializadas em vender publicações LGBT, e diversas livrarias tradicionais também passaram a ter sessões dedicadas exclusivamente a este assunto (Lukenbill, 1999). 2.1 – Nos Estados Unidos Os Estados Unidos contariam hoje em dia com 175 livrarias gays e mais de 500 livrarias tradicionais com sessões para LGBT (Lukenbill, 1999). Os jornais e revistas voltados para o público homossexual surgiram na década de 50, fruto de esforços de ativistas que não visavam o lucro, mas apenas difundir as ideias no incipiente movimento LGBT. Até essa data os homossexuais eram impedidos pela censura norteamericana de imprimir qualquer material, enquanto os discursos oficiais sobre a homossexualidade eram de natureza médica, legal ou religiosa. A primeira publicação feita para homossexuais foi a revista lésbica Vice-versa (lançada em 1947), seguida pelas publicações Mattachine Review (1953) e ONE (1955), ligadas a organizações LGBT e mais direcionadas ao público masculino (Chasin, 2000). Nos primórdios de seu aparecimento, as publicações LGBT, consideradas por muito como sendo pouco críticas, eram distribuídas basicamente pelo correio a seus assinantes. Na década de 60, impulsionados pelos movimentos sociais do período, essas publicações adotaram uma postura mais militante e confrontacionista, fortalecendo o que depois se convencionou a se chamar subcultura gay. 21 Apenas no final dos anos 70, quando a imprensa seguiu o movimento LGBT em sua luta pelos direitos civis, é que algumas bancas de jornal começaram a vender o The Advocade (uma das publicações gays mais antigas e importantes dos Estados Unidos, existindo desde 1967). Nesta mesma época, diversas metrópoles americanas já tinham o seu próprio jornal gay, o que criou a Gay Press Association em 1981. Uma tática muito utilizada era o outing (ato de noticiar a homossexualidade de personalidades famosas), pois acreditava-se que que uma maior visibilidade significaria uma diminuição do preconceito. No entanto, este talvez tenha sido o último momento em que a imprensa LGBT adotou uma postura que enfatizava informação e ação política em oposição ao entretenimento, característico da década de 90. Em vez de referir-se aos leitores como participantes de um movimento, a imprensa gay agora os aborda como consumidores de um mercado. Desta forma, a categoria das revistas gays parece ter explodido , com uma profusão de títulos para os mais diversos subgrupos que formam a população LGBT (Krakowka, 1997; Wilke, 1997b). As pesquisas citadas também analisaram a frequência de anúncios por categoria de produto ou serviço. Em primeiro lugar vieram bebidas alcóolicas, restaurantes, bares e boates, seguidos de serviçoes telefônicos em geral, classificados, eventos ou congressos gays, produtos de varejo (roupas, perfumes, etc.) e turismo (Wilke, 1995) No que se refere à publicidade de bebidas alcóolicas, pode-se dizer que as empresas desse setor foram as primeiras a anunciar para o mercado LGBT, interessando-se pelo comportamento desse consumo homossexual desde a década de 80. Sem se preocupar com eventuais críticas de grupos conservadores, essas empresas rapidamente se deram conta de que, naquela época, o mercado LGBT estava associado a uma grande rede de bares, em sua maioria, altamente lucrativos. A vodca Absolut, por exemplo, que anuncia para homossexuais desde 1979, é adorada por este segmento da população. 22 Têm se notado, através de pesquisas que o alcoolismo é um problema grave entre os homossexuais, e não é por acaso que as empresas que vendem bebidas anunciam frequentemente nas publicações gays, sendo também os maiores patrocinadores de eventos dentro da comunidade (Wilke, 1997c). No que se refere ao conteúdo editorial das publicações, as pesquisas apontam para o fato de que 25% deste era indicado à categoria de entretenimento, incluindo cinema, teatro e livros. Curiosamente, apenas 6% dos anúncios de revistas se enquadravam nesta classificação, o que indica uma boa oportunidade para distribuidoras de filmes, produtores de teatro e livrarias de anunciarem seus produtos (Krakowka, 1997). Outras categorias editoriais que apareceram com frequência foram notícias críticas de bares, boates e restaurantes e roteiros de viagem. Outro fato bastante curioso é que essas revistas norte-americanas estão cada vez mais “heterossexualizadas” (isto é, praticamente indistinguíveis de publicações “heterossexuais” a não ser pelas fotos de dois homens ou duas mulheres como um casal), e o conteúdo sexual foi minimizado ao máximo com o objetivo de atrair o maior número possível de anunciantes. Da mesma forma, tal como mencionado anteriormente, essas publicações deixaram de ser politicamente militantes, adotando um conteúdo editorial voltado para moda e imagem, estratégia pela qual têm sido duramente criticadas (Harris, 1995; Bowes, 1996). Os homossexuais, que antigamente traziam consigo a ameaça da subversão de gênero, passaram agora a se apresentar como homens “masculinos”, no mesmo sentido que este conceito tem para os heterossexuais (Nunan, 2003). Segundo diversos autores, têm sido utilizadas três estratégias publicitárias distintas para atingir a população homossexual: extrapolar um anúncio “heterossexual” para o público homossexual; modificar anúncios para que estes se adaptem ao comportamento de consumo homossexual; ou desenvolver anúncios específicos para homossexuais (mostrando estes em imagens positivas, realistas e não estereotipadas). 23 Neste último caso, a publicidade é mais efetiva (pois retrata gays como participantes da cena, inserindo-os na realidade do uso do produto ou serviço), apesar de precisar ser testada antes de seu lançamento, tanto com consumidores homossexuais como heterossexuais. Vale a pena lembrar que o primeiro anúncio dirigido ao público LGBT foi veiculado na revista norte-americana ONE em 1954, e o produto em questão eram roupas íntimas bordadas com pedrinhas coloridas. Em um sentido semelhante, pode-se especular que a progressiva erotização do corpo masculino em anúncios dirigidos ao mercado de massa (sobretudo em anúncios de marcas de grandes estilistas) teria facilitado o boom da publicidade dirigida especificamente a homossexuais da década de 90 (DeLozier & Rodrigue, 1996; Kates, 1998). Utilizando gíria, símbolos, gestos e fotografias ambíguas, essas imagens tornam-se códigos para a identidade gay, ao mesmo tempo em que evitam alienar consumidores heterossexuais. Esta estratégia, no entanto, tende a irritar consumidores mais sofisticados, que logo percebem que empresa está querendo atingir duas populações distintas com a mesma campanha. Fazer publicidade para homossexuais tanto em revistas gays como em publicações tradicionais parece ser a escolha mais audaciosa. Tal tentativa foi realizada com sucesso pela vodca Absolut, que anuncia seu produto para homossexuais desde 1979, tal como dito acima, sendo a pioneira do ramo (Bhat e cols., 1996; Baker, 1997). Desta forma, a atitude de entrar em contato com o mercado homossexual em um ambiente neutro parece ser a tendência do futuro. Qualquer que seja a categoria do produto, a regra de ouro “conheça seu consumidor” também se aplica ao mercado gay: todas as empresas que obtiveram sucesso planejaram suas campanhas cuidadosamente. Deve-se evitar também veicular anúncios com casais heterossexuais em revistas gays, sobretudo porque os homossexuais não se identificam e rapidamente se dão conta que a empresa só estava querendo “entrar na moda” (Krakowka, 1997). 24 Ao que parece, anúncios que mostram casais do mesmo sexo ou figuras andróginas atingem melhor os objetivos da campanha. Outro cuidado a ser tomado relaciona-se com a excessiva utilização de símbolos gays em anúncios dirigidos a este público, sobretudo no que se refere ao triângulo rosa invertido (que era utilizado pelos nazistas como uma forma de identificar os homossexuais nos campos de concentração). Símbolos mais conhecidos, como a bandeira do arco íris, a palavra orgulho ou os símbolos de gênero podem ser usados, mas com cautela. Lembre-se que o arco-íris é provavelmente o símbolo mais conhecido em todo o mundo. A bandeira criada pelo artista Gilbert Baker, é reconhecida oficialmente e foi utilizada pela primeira vez em 1978 na parada gay de São Francisco. Atualmente a bandeira é composta por seis cores vermelho (vida), laranja (cura), amarelo (sol), verde (natureza), azul (artes) e violeta (espírito) e é hasteada em paradas ou estabelecimento comerciais, para celebrar o orgulho gay. Com relação a determinados termos, mencionamos que nos Estados Unidos a palavra pride (orgulho), power (poder) e freedom (liberdade), que antes eram utilizadas pelo movimento LGBT em paradas e marchas com uma retórica libertacionista, foram apropriadas pelo mercado como mais um slogan para vender produtos. Finalmente, no que se refere aos símbolos de gênero, vale apontar que estes baseiam-se nos símbolos astrológicos: o símbolo de vênus, com uma cruz, representa feminino, e o de marte , com uma seta, representa o masculino. Desde a década de 70, símbolos masculinos e femininos duplicados têm sido utilizados para representar gays e lésbicas. Faz-se importante ressaltar que, quando uma empresa de grande porte decide voltar seus esforços publicitários para o mercado LGBT, os anúncios devem ser claros e a política deve ser consciente e honesta. Acredita-se que aquelas empresas que se dispuserem a adotar políticas de não-discriminação por orientação sexual, outorgar benefícios aos parceiros do mesmo sexo, tratar bem seus consumidores homossexuais e ser 25 diretas e honestas com relação ao fato de estarem tentando atingir o mercado LGBT serão bem sucedidas. Acredita-se que não faz qualquer sentido anunciar para o público LGBT se a empresa discrimina seus empregados homossexuais. Por outro lado, muitos consumidores gays parecem ser bastante preocupados com questões de ordem política, analisando não só os anúncios que são veiculados para eles, como também a estrutura interna da empresa que os produz. Visto que o preconceito e a discriminação contra os homossexuais são um dado histórico, esta população tende suspeitar, com razão, de qualquer empresa que, subitamente, comece a veicular seus produtos para eles. Para as empresas que desejam obter lucros e fidelidade com relação à sua marca, é necessário seriedade, perseverança, e uma presença a longo termo em publicações gays, fatores que estimulam a confiança do consumidor. Anunciar para o mercado homossexual em um e depois retrair-se, com receios de ser criticado por consumidores heterossexuais, acabe sendo contraproducente porque irrita a população LGBT, podendo causar inclusive uma forte propaganda negativa. Gays tendem a apreciar empresa que os apoiam em campanha publicitárias, retribuindo estes esforços com uma poderosa propaganda “boca a boca” dos produtos de que mais gostam (Pritchard & cols., 1998). Esta propaganda informal, aliada a boicotes de companhias claramente preconceituosas, é uma forma de os homossexuais demonstrarem que fazem parte da comunidade LGBT e com ela estão comprometidos. “...gays e lésbicas mostram sua gratidão para com empresas que têm a coragem de servi-los. Em recompensa pelo que eles interpretam como aceitação e respeito, consumidores homossexuais farão tudo o que puderem para auxiliar estas empresas” (Kahan & Mulryan, 1995: 46) Assim, pode-se dizer que gays e lésbicas são extremamente fiéis a marcas, sobretudo com relação àquelas que foram as primeiras a anunciar para esse mercado: a coragem dessas empresas fica gravada na mente dos consumidores. 26 É interessante notar que muito heterossexuais não preconceituosos tendem a encarar homossexuais como líderes de moda e opinião em algumas áreas, o que pode significar, no futuro, a possibilidade de campanhas feitas para os homossexuais também atingirem o público heterossexual (Gluckman & Reed, 1997). Tal como aponta Goffman ([1963] 1988), pessoas que se desviam das normas sociais comumente fornecem modelos de vida para indivíduos pouco conformistas. Deve ficar claro, no entanto, que as empresas não devem esperar lealdade por parte da comunidade LGBT apenas devido aos esforços isolados de publicidade. O impacto final das campanhas dependerá, em última instância, de sua qualidade, criatividade, frequência de exposição, entendimento das necessidades e problemas específicos da população LGBT e, particularmente, da qualidade do produto ou serviço. 2.2 – No Brasil Embora no Brasil a imprensa voltada para o público LGBT ainda não esteja tão evoluída como nos Estados Unidos, pode-se citar a existência de livros, jornais e revistas voltadas para o consumidor gay. Com relação à literatura homossexual, até o presente momento, tanto quanto sabe-se, não existem livrarias tradicionais que disponham de uma sessão exclusiva para gays e lésbicas. Não obstante, duas livrarias gays surgiram nos últimos anos: a Futuro Infinito (localizada em São Paulo, mas que fechou as suas portas em 2003) e a O Passado me Condena (inaugurada em 2001 no Rio de Janeiro). No que se refere à edição de livros com temática homossexual, existe desde 2008 a Edições GLS (dedicada exclusivamente ao mercado LGBT), e grandes editoras tradicionais têm selos específicos para o público homossexual, como a Record (com o selo Contraluz), Rocco e Siciliano (com o 27 selo Mandarim). Vale lembrar também que em fevereiro de 2003 foi realizada, no Ceará, a 1ª Feira do Livro GLS. Em 1987 surge a revista Um Outro Olhar, destinadas às Lésbicas. Após mais de 10 anos sem publicações importantes (O Lampião fechou em 1981), surge em janeiro de 1995 no Rio de Janeiro a revista Sui Generis, a primeira revista gay de circulação nacional, que continha alguns anúncios e um mercado consumidor forte. Direcionada a homossexuais de classe social elevada e tratando abertamente e de forma séria questões relacionadas à subcultura homossexual, a Sui Generis era voltada para as áreas de comportamento, cultura, política, moda e lazer. (Soares, 2000). Não obstante a qualidade (editorial e gráfica) e o enorme sucesso alcançado, a Sui Generis teve sua última edição em março de 2000, após 55 números. Neste mesmo ano surgiram ainda outras duas revistas: a Ok Magazine (impressa em tamanho menor , como se fosse um gibi, mudou seu nome para Yes Magazine, mas fechou em julho de 1998) e a Opção (que teve apenas duas edições). Entre os títulos publicados em 2000 conta-se o lançamento das revistas Dignidade (voltada para um público mais diversificado, incluindo o subgrupo dos transgêneros) e Somos (uma publicação com características similares à Sui Generis), ambas tendo sobrevivido poucas edições. Em outubro de 2002 foi lançada a revista Question que, apesar de não ser direcionada para o público LGBT, apresentava um forte imaginário homossexual. Voltada para a moda e política, a revista continha diversos anúncios genéricos de grandes anunciantes, fato que provavelmente se deve ao apelo mais amplo da publicação. Alguns meses mais tarde aparece nas bancas a Uber, que se auto define como “uma revista de comportamento GLS”, adotando uma linha editorial que mistura comportamento, moda e nu masculino. Com relação às publicações com fotos de nus masculinos pode-se citar, primeiramente, as revistas Spartacus e Alone (surgidas entre as décadas de 60 e 70). Em abril de 1997 chega às bancas de todo país a Bananaloca, revista paulista que depois de algumas edições e mudança de direção se 28 transforma na G Magazine, um fenômeno editorial chamada por muito de “Playboy gay”. Dirigida para os homossexuais masculinos, a G Magazine se tornou conhecida do grande público devido à adoção de uma estratégia semelhante à Playboy, isto é, convidar personalidades famosas para posarem nuas na revista. Além das fotos de nudez frontal, esta publicação, de elevada qualidade gráfica, conta também com informações sobre lazer e cultura. Uma comparação preliminar entre as revistas gays norte-americanas e brasileiras revelou outro fato bastante curioso: enquanto as publicações nacionais apresentam conteúdo sexualmente sugestivo ou explícito, as revistas estrangeiras estão cada vez mais “heterossexualizadas”. Esta talvez seja uma das razões pelas quais as revistas brasileiras tenham dificuldade de conseguir anunciantes: pois quanto mais o conteúdo sexual tiver uma publicação gay, menos anúncios ela veiculará. Curioso notar, no entanto, que isto se refere apenas às publicações com conteúdo sexual homossexual, pois revistas com fotos de mulheres nuas (como a Playboy) são recheadas de anúncios. A preocupação das empresas parece ser mais com a sexualidade homossexual do que com a sexualidade em geral (Soares, 2000). Além do preconceito contra a homossexualidade (e a exposição de fotos com nus masculinos), outras razões podem ser citadas para a falta de anúncios nas publicações brasileiras atuais: escassez de pesquisas sobre o comportamento do consumidor homossexual e baixa qualidade (editorial e gráfica) de algumas destas revistas. O autor acima menciona ainda a ausência de uma postura mercadológica fortemente direcionada a nichos no Brasil. O aumento da demanda por parte dos consumidores LGBT tornou inevitável a concorrência, dando origem a uma nova oferta de produtos e serviços mais diversificada e profissional. Assim, o número de estabelecimentos voltados para o público gay dobrou nos últimos cinco anos e o Brasil já conta com mais de 200 empresas voltadas para o consumidor LGBT, incluindo bares, boates, restaurantes, saunas, agências de viagem, hotéis, spas, academias de ginástica, curso pré- 29 vestibular, estação de rádio, lojas, festivais de cinema, locadoras de vídeo, agências de casamento, feiras de moda alternativa, organização de festas rave e sites na internet (Martins, 2001; Ponce de Leon, 2001). Esse grande crescimento do mercado, que fatura mais de 150 milhões ao ano, levou a criação da Associação das Empresas Gays, em janeiro de 2001. A internet precisa ser analisada em separado, pois embora não existam pesquisas de grande porte sobre este assunto, um estudo realizado em 2001 pelas empresas Harris Interactive e Witeck-Combs Communicatios revelou que os homossexuais consomem mais via internet e passam mais tempo online do que os heterossexuais. Acredita-se que a internet teria um forte apelo dentro da comunidade homossexual por ser um meio abrangente, discreto, privado, seguro e que permite intimidade. No Brasil haveria cerca de 1000 sites direcionados a LGBT, sendo os mais importantes o Mix Brasil (sediado pelo UOL) e o GLS Planet (sediado pelo Terra). Vale lembrar que o provedor de internet Universo On-Line (UOL) da Folha de São Paulo, que também hospeda o site da revista G Magazine, lançou em fevereiro de 2001, o UOL Gay, uma estação especializada em homossexuais que reúne notícias e entretenimento. A revista Sui Generis, que por sua vez fechou em no início de 2000, fez uma volta triunfal com uma edição eletrônica, enquanto o portal IG assinou um contrato com o Gay.com (um dos maiores portais norte-americanos) para Criar o Gay.com Brasil. O crescimento do setor de internet entre os gays é tão grande que muitas empresas que desejam atingir estes consumidores estão optando por anunciar em sites (Trevisan, 2000). A despeito da escassez de informação sobre o mercado LGBT no Brasil, Green (1999) observa que já em 1962 a cervejaria Antarctica patrocinava oficialmente o bailes gays como o Baile dos Enxutos. Trevisan 2000 acrescenta que em meados da década de 70 foram lançados 2 anúncios com temática homossexual (um de um perfume e outro de uma marca de creme de leite), ambos com surpreendente aumento de 30 vendas. Segundo este autor, esse anúncios abriram um precedente em termos de publicidade gay no país. Não obstante esse incipiente movimento em direção ao consumidor LGBT, o regime militar e a recessão econômica causada pela dívida externa e inflação descontrolada limitaram o crescimento do mercado homossexual no Brasil nas décadas de 70 e 80 (Parker, 1999). Já no começo dos anos 90, a adoção de políticas neoliberais fez com que o mercado gay tivesse um aumento substancial. Com relação à publicidade direcionada para gays no Brasil, pode-se dizer que de forma alguma ela se desenvolveu como nos Estados Unidos. Grandes empresas raramente anunciam em publicações homossexuais, e exemplos como a Polygram (que colocou anúncios genéricos na Sui Generis) são raros. Casos de anúncios criados especificamente para homossexuais são praticamente inexistentes, mesmo por parte de empresas que já fazem esse tipo de publicidade no exterior. Entre as poucas empresas que veicularam anúncios em revistas homossexuais, cito como por exemplo: Ellus, Emi –Odeon e South African (que anunciaram na Sui Generis), DirectTV, Concessionária Metrocar e Jornal Folha de São Paulo (na G Magazine) e os cosméticos Halston (na Gold). É importante frisar que nenhum destes anúncios visava especificamente homossexuais, ao contrário do que é bastante comum nas revistas voltadas para o público LGBT internacionais. Com relação à televisão, podemos dizer que o célebre “Namorados”, criado para a Folha de São Paulo em 1994, talvez tenha sido uma das poucas ocasiões em que a homossexualidade foi tratada de forma contemporânea e respeitosa. Neste anúncio (que fazia parte de uma campanha maior, cujo tema era “O mundo está mudando, é melhor você começar a ler a folha”), o filho apresenta seu namorado aos pais. Vale lembrar que a Revista da Folha publica semanalmente duas páginas dirigidas ao público homossexual. Um anúncio com temática similar, veiculado em 1996 é o “Pai & Filho”, das camisinhas Jontex da Johnson e 31 Johnson. Nesse anúncio, pai e filho encontram-se em um quarto de sauna conversando sobre sexo seguro. O pai confronta o filho sobre a homossexualidade deste, mas depois pergunta simpaticamente quando vai conhecer seu “genro”. Sexo seguro também é o tema do anúncio “Namorado”, veiculado pelo Ministério da Saúde em 2002, na qual a família de um jovem homossexual apoia quando este rejeita um namorado que não quer usar preservativo. É possível encontrar também, ainda que esporadicamente, anúncios com referências à homossexualidade, apresentando personagens efeminados com humor e ironia. Como por exemplo, pode-se citar alguns anúncios da Bombril, Brastemp, Fininvest e Rider. O anúncio da Rider (que mostrava três rapazes saindo correndo do bar porque o garçom entregou, por engano, bilhetes deles a três gays) foi duramente criticado pelo movimento LGBT, por mostrar preconceito a gays como algo engraçado. Um exemplo de publicidade com imaginário homossexual é o anúncio da campanha Torpedo da Telefônica Celular, que mostrava a imagem de dois rapazes mandando um torpedo (mensagem de texto via celular) para um outro rapaz (que aparecia como sendo o alvo da mensagem). O anúncio foi veiculado na revista Veja em agosto de 2000 e em alguns outdoors, mas foi rapidamente substituída por outros com imaginário heterossexual. Um anúncio que causou controvérsia na sociedade brasileira foi o do portal O Site: intitulado “Beijos”, o anúncio feito para a televisão mostrava uma série de pessoas se beijando, inclusive um casal de gays e outro de lésbicas. Veiculado em horário noturno na Rede Globo, SBT, Bandeirantes e alguns canais a cabo em dezembro de 2000, o anúncio teve que ser modificado devido aos protestos de alguns telespectadores. A saída encontrada pela agência de publicidade foi colocar uma tarja preta em cima dos beijos homossexuais, com a frese “Veja esta cena em www.osite.com.br”. 32 Apesar de engenhosa, pois o anúncio não precisou ser retirado do ar e muitos telespectadores curiosos acabaram, de fato, acessando o portal, a tarja fez com que o beijo homossexual não pudesse mais ser visto na TV. Segundo diversos autores, grande parte dos empresários brasileiros que investiram no mercado LGBT têm tido lucros bastante elevados. Na verdade, o que parece tornar o ramo lucrativo é a baixa oferta de produtos e serviços especializados. Visto que o mercado LGBT tem necessidades particulares que ainda não são atendidas no Brasil, acredita-se que empresas voltadas para esse setor da população verão um considerável aumento em seus lucros, sobretudo graças ao número cada vez maior de homossexuais assumidos. No entanto, a pequena não garante por si só o sucesso de quem entra neste mercado: os riscos para quem abre um negócio voltado para homossexuais são os mesmo de qualquer outra atividade. Por outro lado, segundo Mott (citado por Eugênio, 2000), apesar da aparente lucratividade do mercado LGBT , o forte preconceito da sociedade brasileira ainda impede que que este mercado se expanda como nos Estados Unidos e na Europa. Inversamente, como já dissemos, acredita-se que a existência do mercado LGBT pode contribuir para enfraquecer preconceitos. O crescimento do mercado LGBT no Brasil passou a oferecer uma ampla variedade de opções de lazer e informação a homens e mulheres que se identificam como homossexuais ou preferem participar de espaços definidos como tais. De acordo com Parker (1999), o impacto emocional destes estabelecimentos sobre os consumidores homossexuais é incalculável. O universo da rua frequentado por muito indivíduos em busca de homossexuais têm limitações óbvias: impessoalidade, risco de violência e impossibilidade de uma interação mais social do que sexual. O mundo comercial gay seria assim uma resposta a esta frustação, unindo a eventual busca por parceiros sexuais a uma possibilidade mais ampla de socialização. 33 Capítulo III – Nicho de mercado LGBT: Legitimação ou Exclusão? A cultura LGBT ocidental, nos últimos 20 anos, têm sofrido muito mais mudanças do que em qualquer outro período da história da humanidade. Isso gerou para os homossexuais, uma visibilidade com a qual o mundo moderno jamais teria sonhado. Da mesma forma, o capitalismo criou as condições socioeconômicas e psicológicas necessárias para a emergência da identidade homoafetiva moderna. Em outras palavras, o capitalismo permitiu que os homossexuais, entre outros indivíduos oprimidos, se sentissem livres para expressar sua identidade através do uso criativo de produtos e serviços, o que fez com que o mercado homossexual se transformasse em um dos pilares desta subcultura. A acomodação dos homossexuais no mercado é um fenômeno altamente complexo, que pode ser ao mesmo tempo benéfico (diminuindo o preconceito) ou alienante, sobretudo se os esforços publicitários se concentrarem, exclusivamente, na orientação sexual desta população, apenas um dos aspectos de sua identidade (Ruud, 1996; Pritchard e cols., 1998). Teóricos, publicitários e membros do movimento LGBT discutem os efeitos a longo prazo de se abordar homossexuais como consumidores diferenciados. Com relação a este tema, existem basicamente duas posições contrárias: uma que acredita que o mercado gay legitima os homossexuais e ajuda a diminuir o preconceito , e outra que encara esse fenômeno como um entrave para a real aquisição de direitos políticos e sociais, a análise dessa discussão pode ajudar a compreender a relação entre consumo e cidadania. Autores que defendem a existência do mercado homossexual afirmam que em sociedades capitalistas, como a nossa, voltar esforços para 34 o marketing para um segmento específico da população, tende a legitimá-lo e dar lhe visibilidade (Newman e Nelson, 1996). No caso dos homossexuais, a aceitação por parte do mercado mais seria importante no sentido de que a orientação sexual é um elemento fundamental na vida do indivíduo. A maior atenção por parte da mídia e do mercado também afetaria a comunidade homossexual fazendo com que esta seja reconhecida como uma força social, política e econômica. Em um sentido semelhante, Canclini (1996) aponta para a cumplicidade que hoje existe entre consumo e cidadania: as pessoas já não compram mais objetos apenas pelo que eles podem fazer, mas pelo que significam. Para os homossexuais, comprar objetos especificamente para eles anunciados, significaria a concretização de um respeito esperado por tantos anos. Se, tal como Celix (1998), acreditarmos que a publicidade “faz ver” e “faz crer”, incluir a população homossexual na mídia como um todo e na publicidade em particular nos “faria ver” que, afinal de contas, não há nada que temer. Em outras palavras, as mudanças provocadas pela tentativa de entender os homossexuais como consumidores específicos podem significar o advento de uma nova era de inclusão, quando a sociedade aumentará sua tolerância para com a diferença sexual. Na posição contrária encontra-se uma série de estudiosos que acreditam que a visibilidade não constitui em si mesma um gesto de liberação ou aceitação social assim como a familiaridade não reduz necessariamente o menosprezo. Badinter (1992) observa que, historicamente, quanto mais os homossexuais se tornaram visíveis, mais se defrontaram com novos tipos de hostilidade. Isso desmentiria o argumento liberal de que a visibilidade aumenta a legitimidade social. Por outro lado, a cidadania se torna um efeito de incorporação ao mercado, apenas consumidores (isto é, indivíduos com poder aquisitivo) podem se tornar cidadãos. 35 Neste sentido, Goldstein (1996) faz uma aparente aceitação que o dinheiro pode comprar: o fato de a homossexualidade ter se transformado num segmento de mercado não que o preconceito contra ela esteja menor; pelo contrário, agora ele é velado e, portanto, ainda mais perigoso. Aceitar os homossexuais como consumidores não é mesma coisa que aceita-los como cidadãos: a “diferença” que faz com que esses indivíduos sejam entendidos como uma subcultura de consumo serve a objetivos econômicos ao mesmo tempo que é uma barreira entre os homossexuais e determinados direitos legais. Desta forma, a luta pelos direitos homossexuais acabou sendo reduzida a uma busca pela igualdade de acesso a serviços de bens de consumo. As críticas mais fortes parecem vir de Chasin (2000), que postula que o mercado gay prometeu cidadania aos LGBT através do consumo, afirmando que este seria o melhor caminho para atingirem as tão sonhadas mudanças sociais e políticas. Assim, de acordo com este raciocínio, consumir determinados produtos significaria participar politicamente e obter melhoria na qualidade de vida de todos os gays e lésbicas. Outros autores adotam um argumento semelhante quando afirmam que os homossexuais se desvencilharam de um sistema social que os oprime por causa de sua sexualidade (considerando-os imorais ou doentes) para entrar numa forma de identidade comercializada que os valoriza apenas por seus padrões de consumo (Kates, 1998). A existência dos homossexuais, que antes era negada, precisa agora ser validada externamente, através da força do mercado, e a identidade gay se transforma em uma série de escolhas de serviços e produtos. No mercado gay, a “diferença” ficaria reduzida a opções de estilo (de moda) que podem ser preenchidas por produtos, não precisando, necessariamente, levar a um processo político. Neste sentido, o comportamento de consumo LGBT seria uma espécie de falsa consciência, que provê soluções imaginárias para problemas reais da comunidade. 36 Ao mostrar os homossexuais como “bons consumidores”, o mercado acaba promovendo uma ética de “libertação pela acumulação”, na qual, aceitação e a mobilidade sociais podem ser atingidas através da compra de determinados acessórios considerados “adequados” pela sociedade heterossexual (Miller, citado por Chasin, 2000). Dito de outra forma, os LGBT estariam sendo oprimidos pelo mesmo sistema capitalista que coloca ênfase na heterossexualidade e na família nuclear, e o mercado gay estaria, em última instância, reforçando o status de discriminação e intolerância. Ainda segundo Chasin (2000), o mercado promove a assimilação da subcultura homossexual a uma cultura nacional homogênea, encorajando a diferença de identidade apenas nos aspectos em que ela pode servir para estabelecer um segmento de mercado. Assim, por causa do mercado, a identidade gay teria se tornado tanto uma característica pessoal como um elemento que pode ser negociado em transações econômicas. Para serem aceitos, os homossexuais precisariam minimizar suas diferenças com relação à sociedade mais ampla, mas o valor da subcultura homossexual está justamente naquilo que está sendo negado, ou seja a diferença. A reivindicação dos direitos homoafetivos passa pelo esforço de ser aceito; no entanto, é mais fácil ser aceito aparecendo de acordo com o padrão heterossexual (heteronormatividade) do que em oposição a ele. Os gays não podem levar muito a sério a aceitação diplomática e condicional da sociedade, porque ela depende de que os heterossexuais sejam pressionados além de um determinado ponto. Aceitar a homossexuais normificados é uma coisa, assimilar indivíduos efeminados, travestilizados ou transexuais é outra completamente diferente. Com relação a este assunto, vale lembrar que, similar ao mercado gay norte-americano que “heterossexualizou” suas revistas, as Paradas Gays (Paradas do Orgulho LGBT), de muitos países têm tentado minimizar 37 a visibilidade pública de homossexuais que não se enquadram no padrão assimilacionista. “ A sociedade mercadológica favorece aberturas, quando pode tirar lucros, mas cobra juros, através de uma cooptação cruel.” (Trevisan, 2000: 326). Desta forma, a liberação da homoafetividade na sociedade contemporânea é um engano, já que ela só pode ser experienciada dentro de determinados limites territoriais (tais como bares, boates, saunas e hotéis), locais onde se vive uma sexualidade confinada (Barcelos, 1998). A normalidade é concedida ao homossexual apenas na medida em que ele se torna um sujeito consumidor, o que por sua vez se transforma em uma nova forma de controle social, mantendo a hegemonia heterossexual. Assim, do ponto de vista homossexual, a assimilação pode representar sujeição e perda de controle sobre os ganho do movimento LGBT. Em suma, quando se une um movimento e mercado, a luta pelos direitos homoafetivos passa de contestação para assimilação social. 38 CONCLUSÃO O trabalho apresentado, para muito além de identificar e mapear um nicho mercado consumidor promissor, visa compreender a necessidade de um atendimento personalizado e digno para uma comunidade que tem vivido à margem de nossa sociedade no que tange a sua cidadania. Atualmente, a melhor forma de crescimento encontrada nas pelas empresas é atender bem o cliente, esse atender bem passa pelo conhecer e entender, com o intuito de que as empresas interessadas em atender o público LGBT as conheça melhor é que o trabalho foi traçado. Na minha região, trabalhando com o movimento social, percebi que existem inúmeros empresários ingressando nesse mercado, muitos deles procuram apoio e tentam entender, porém, a pouca publicidade gerada em torno do tema faz com que esses empresários desistam ou não se deem bem, fechando esses negócios em média em um ano. No decorrer do trabalho, foi lançada uma parceria entre o movimento LGBT e os empresários da região, um folder com anúncios de estabelecimentos comerciais que desejam se intitular: gay friendly ¹ têm sido distribuído em locais de grande circulação de homossexuais, a parceria ainda está em teste, mas a proposta foi muito bem recebida pelos empresários e já houve uma proposta para uma segunda edição contemplando mais estabelecimentos que conheceram o trabalho. Diante da análise e das reflexões realizadas no discorrer do trabalho, percebi que o nicho em questão carece de um bom atendimento e tem por costume estabelecer uma relação de fidelidade àquelas marcas que são aliadas à causa, essa percepção me fez propor uma parceria que ainda está em teste, porém, já têm apresentado lucratividade, perante o que foi acima exposto, além do desenvolvimento do trabalho, acredito que é possível que haja uma verdadeira interação entre consumo consciente e a atividade política desse segmento. ¹ O termo gay friendly, refere-se a locais que visam criar um ambiente amigável com a comunidade LGBT. 39 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA SOUSA, I. Mundo do Marketing - Mercado é cego para potencial de consumo do público LGBT, 2012. Acessível em: http://www.mundodomarketing.com.br/reportagens/mercado/25000/mercado-ecego-para-potencial-de-consumo-do-publico-lgbt.html NUNAN, A . Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo, Rio de Janeiro, 2003. 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Advertising Age, v. 68, n.31, Aug.4,1997b. p.1,10-11. 44 _____. Gay Print Media ad Revenue Up 36%. Advertising Age, v.68, Oct. 6, 1997c. p. 26. 45 Anexos “Mercado é cego para potencial de consumo do público LGBT O potencial de consumo do público LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) ainda não é explorado pelas marcas como poderia. Com uma população estimada em 18 milhões de pessoas no Brasil, 78% dos gays têm cartão de crédito e gastam até 30% mais em bens de consumo do que os heterossexuais. A renda elevada se explica pelas classes sociais em que estão inseridos: 36% pertencem a A e 47% a B, segundo pesquisa da inSearch Tendências e Estudos de Mercado. Com uma média salarial de R$ 3.247,00 e uma estrutura familiar nãotradicional, boa parte sem filhos, os homossexuais têm mais oportunidades em consumir imóveis, carros e viagens. De acordo com a Associação Brasileira de Turismo para Gays, Lésbicas e Simpatizantes (Abrat-GLS), o perfil movimenta R$ 150 bilhões por ano no Brasil. Cidades como o Rio de Janeiro, considerada uma das mais gay friendlys do mundo, investem em iniciativas para atender o visitante e fomentar o turismo. Uma estratégia realizada pela capital carioca foi a promoção de cursos de capacitação sobre a Lei de Direitos Civis e Humanos para donos e funcionários de estabelecimentos comerciais. Apesar de bastante rentável, o setor turístico é apenas um entre diversos outros onde o público LGBT espera encontrar hospitalidade. “O primeiro passo das empresas é a exposição. Uma marca que se coloca como friendly ou que tem um produto específico tem que se mostrar dessa forma. Há um preconceito muito grande, mas muitas estão deixando isso de lado e partindo para o que interessa: negócio, desenvolvimento e faturamento”, avalia Luiz Redeschi, empresário e organizador da Expo Business LGBT Mercosul, em entrevista ao Mundo do Marketing. Quando mais é menos: O desenvolvimento de produtos, serviços ou ações de Marketing 46 específicos para o público LGBT não precisam ser complexas e passar por grandes revoluções na forma de atuação. Iniciativas do Banco Itaú são exemplos de que geraram respostas positivas. A instituição vem dialogando nas redes sociais de forma natural com os gays. No Dia dos Namorados deste ano, um desenho no Facebook composto por um casal heterossexual teve agregado um casal de gays e um de lésbicas com a frase “Feliz Dia dos Namorados do Seu Jeito”. Para a Parada Gay de São Paulo, uma das maiores do mundo com mais de três milhões de participantes, o Itaú também parabenizou a diversidade por meio da bandeira do movimento LGBT e da frase “A gente é laranja, mas é feito pra todas as cores”. De forma mais institucional, o banco também permite o financiamento imobiliário com duas pessoas solteiras do mesmo sexo em conjunto, mesmo que não haja relação de parentesco entre si. A possibilidade abre precedentes antes impensáveis pelos gays. Após a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de legalizar a união estável, pesquisa realizada pela inSearch indicou que dos 58% que têm parceiro fixo, 19% deles pretendem comprar um imóvel financiado no nome do casal. No setor imobiliário, a Tecnisa realiza desde 2003 ações voltadas para o mercado LGBT, como a campanha “Mais cedo ou mais tarde, vocês vão morar juntos”. O anúncio trazia um varal com duas cuecas penduradas. A construtora se atentou para o mercado e, em 2010, percebeu que o ticket médio de homossexuais chegava a R$ 400 mil. O diálogo entre as marcas e o público gay não precisa, necessariamente, ser direto, mas pontual. “Não é desenvolver um produto ou serviço, mas conversar bem. Existem empresas mais sensíveis a isso, que fazem um plano de comunicação excelente. A Fnac é um exemplo, assim como o Itaú e a própria Tecnisa. Ao falar com o público LGBT, esses grupos assumem que o mundo vive hoje uma grande diversidade”, analisa Fábio Mariano, especialista em comportamento do consumidor e Diretor Executivo da inSearch. Futuro promissor: 47 Ainda que ações específicas para este target encontrem barreiras no mercado brasileiro, a tendência é que as marcas se adequem aos consumidores em potencial. Eventos como a Expo Business LGBT Mercosul, ocorrida pela segunda vez na semana passada no país, são iniciativas que ajudam as marcas a entenderem o perfil dos homossexuais. Com 32 expositores, entre eles os governos de São Paulo, Pernambuco, Argentina e Uruguai, bem como de marcas voltadas para o turismo e outras como a Dell e a Brazilian Hospitality Group (BHG), o evento propõe o diálogo e a troca de experiências. “O principal aprendizado é que será inevitável não pensar em uma participação cada vez maior dos homossexuais no mercado. Ainda que poucas, as conquistas existiram do ponto de vista cível e até mesmo nas propagandas, hoje é quase inexistente uma novela que não tenha ao menos um gay. A comunicação das empresas terá que passar por mudanças”, aponta Fábio Mariano. As modificações, no entanto, não precisam necessariamente ser agressivas. Mais do que colocar uma bandeira colorida na porta, as empresas tem de captar a essência do desejo dos homossexuais. “Não adianta só querer investir ou vender um negócio apenas no papel. Tem que comercializar bem, saber conversar, respeitar e recebê-los bem. Caminhou-se muito, mas ainda há um longo período para caminhar. É a hora das empresas saírem do armário”, afirma Luiz Redeschi.”* 48 ÍNDICE FOLHA DE ROSTO 2 AGRADECIMENTO 3 DEDICATÓRIA 4 RESUMO 5 METODOLOGIA 6 SUMÁRIO 7 INTRODUÇÃO 8 49 CAPÍTULO I (TÍTULO) 11 1.1 - A Busca do Saber 12 1.2 – O prazer de pesquisar 15 1.2.1 - Fator psicológico 15 1.2.2 - Estímulo e Resposta 17 CONCLUSÃO 48 ANEXOS 49 BIBLIOGRAFIA CONSULTADA 52 BIBLIOGRAFIA CITADA 54 ÍNDICE 55