APRENDIZAGEM OBSERVACIONAL ATRAVÉS DA TELENOVELA: UM ESTUDO DE CASO DA MODA EM BELÍSSIMA Ana Paula Silva Ladeira Costa Jornalista, graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (Minas Gerais) e especialista em “Globalização, Mídia e Cidadania” pela mesma universidade. Atualmente, é aluna do mestrado em comunicação massiva da Universidade Metodista de São Paulo. Resumo: Este trabalho se justifica na importância de se analisar um fenômeno causado pela expansão dos meios de comunicação de massa: a aprendizagem de comportamentos através de modelos fornecidos pela mídia. Analisou-se a Telenovela Belíssima, exibida pela Rede Globo em 2006 e a incorporação de sua moda de vestuário pela sociedade. A Telenovela caracterizou-se pela constante referência aos assuntos ligados à moda e pela forte aceitação do público, verificado através do alto índice de audiência. Trata-se de um trabalho qualitativo de revisão bibliográfica, através do qual se analisará o comportamento do telespectador numa perspectiva proposta por Albert Bandura: a teoria da aprendizagem observacional. Palavras-chave: Moda; Telenovela; Aprendizagem Observacional; Rede Globo; Belíssima Introdução: Este trabalho buscou a compreensão de uma das mudanças sociais que estão relacionadas à telenovela no Brasil: a adoção da moda de vestuários pela sociedade, um fenômeno visível, mas pouco estudado na academia. Observou-se a telenovela Belíssima, produção da Rede Globo exibida no horário das 20h entre novembro de 2005 e julho de 2006. Para isso, buscaram-se evidências da adoção desta moda de figurino através da análise de revistas femininas, jornais, sites da internet e programas de entrevista que voltaram seu olhar, no período de exibição desta ficção seriada, para a moda que estava sendo exibida na TV. Neste momento, notouse na mídia que havia abordagem sobre o assunto, sugestões do uso de indumentárias semelhantes às utilizadas pelos atores e atrizes e críticas ao figurino. A discussão a respeito da moda de vestuário remete imediatamente à idéia de imitação, de uso geral de determinado acessório ou indumentária por um largo número de pessoas em determinado período de tempo, principalmente durante a exibição do produto cultural que criou uma tendência. Desta forma, compreende-se que, ao se falar em moda, é perfeitamente possível falar também em imitação – neste caso específico, imitação da tendência vista na TV e, em seguida, em outras pessoas, ao seu redor. Por este motivo, buscou-se uma teoria que analisasse o impacto da mídia na conduta do indivíduo e compreendesse tal fenômeno. A perspectiva escolhida foi proposta por Albert Bandura (1994; 1979), conhecida como teoria da Modelagem ou da Aprendizagem Observacional. Partindo de seu ponto de vista, considera-se que as pessoas atuam nas imagens que apreendem da realidade. E, atualmente, a maioria das imagens que as pessoas têm da realidade é adquirida através da mídia, que tanto ensina novas formas de comportamento quanto fornece elementos que possam agir nas mudanças de preferências, valores, crenças e expectativas pessoais. Por este motivo, a Aprendizagem Observacional passa a fazer parte do rol de teorias que tentam explicar os efeitos dos meios de comunicação na sociedade. Apesar de notória, a apreensão da moda de vestuário das telenovelas ainda é um objeto de escasso estudo na comunicação. Desta maneira, pretende-se trazer à tona um tema que poderá servir de futura inspiração para outras pesquisas. Este trabalho qualitativo tem como metodologia a revisão bibliográfica e o estudo de caso. O estudo de caso foi o método considerado apropriado porque esta pesquisa tem o foco voltado apenas para um objeto de estudo: a adoção da moda de vestuário da telenovela Belíssima. “O estudo de caso é o método que contribui para a compreensão dos fenômenos sociais complexos, sejam individuais, organizacionais, sociais ou políticos. É o estudo das peculiaridades, das diferenças daquilo que o torna único e por essa razão o distingue ou o aproxima dos demais fenômenos”, explica Duarte. (DUARTE: 2005, p. 234) A moda na mídia: A moda está em todos os lugares, atravessa camadas sociais, períodos de tempo e regiões geográficas; representa ideologias e culturas de determinadas sociedades, move o comércio. No entanto, conforme ressalta Lipovetsky (LIPOVETSKY: 1989: p. 09), ela tem sido pouco analisada em âmbito acadêmico: A moda é celebrada no museu, é relegada à antecâmara das preocupações intelectuais reais; está por toda parte na rua, na indústria e na mídia, e quase não aparece no questionamento teórico das cabeças pensantes. Esfera ontológica e socialmente inferior, não merece a investigação problemática; questão superficial, desencoraja a abordagem superficial; a moda suscita o reflexo crítico antes do estudo objetivo, é evocada principalmente para ser fustigada, para marcar sua distância, para deplorar o embotamento dos homens e o vício dos negócios: a moda é sempre os outros. (LIPOVETSKY: 1989: p. 09) A idéia de seguir tendência de moda de vestuário refere-se, imediatamente, à idéia de imitação. Imitação porque a tendência de moda, por si só, diz respeito ao uso generalizado de peças semelhantes por um alto número de pessoas. Assim como o cinema, os programas de moda e outros gêneros da comunicação de massa, a telenovela fornece modelos de imitação não apenas de moda, como também de comportamento, de linguajar, de formas de pensamento. Isto se acentuou, conforme afirma Steffen (2005), depois da década de 1960, quando a população passa a ter mais acesso aos bens culturais e à TV. Neste período, observa-se então uma homogeneização de costumes: A cultura de massa produz celebridades para utilizá-las no estimulo do consumo tanto na sentido real, como no imaginário. Essa cultura pretende atingir o público criando necessidades de consumo através de imagens e palavras dos apelos publicitários, que fazem do produto algo necessário para a felicidade humana. (STEFFEN: 2005, p. 07) A pesquisador analisa os figurinos de telenovela numa perspectiva voltada para o merchandising e compreende que o gênero é mais um espaço utilizado para gerar lucro. Por isso, os profissionais devem saber atender às exigências do público e lidar com a estrutura da telenovela: “o figurino de novela consiste na adaptação, re-criação da moda e seus estereótipos com a intenção de quebra a mesmice e obter a originalidade”, completa. (STEFFEN: 2005, p. 13) No entanto, Lipovetsky explica que a tendência em seguir exemplos de moda e beleza começou já nos anos de 1910, com a ascensão de atrizes e atores de cinema e que, desde então, as mulheres de sociedade não têm sido mais as líderes da moda de vestuário: As estrelas despertaram comportamento miméticos em massa, imitou-se amplamente sua maquiagem dos olhos e dos lábios, suas mímicas e posturas; houve até, no decorrer dos anos 1930, concursos de sósias de Marlene Dietrich e de Greta Garbo. Mais tarde, os penteados “rabo de cavalo” ou ondulados de Brigitte Bardot, as aparências descontraídas de James Dean ou Marlon Brando foram modelos em evidência. Ainda hoje, os jovens adolescentes tomaram como modelo o look Michael Jackson. Foco de moda, a estrela é ainda mais, nela mesma, figura de moda enquanto ser-para-a-sedução, quintessência moderna de sedução. (LIPOVETSKY: 1989, p. 214) A moda da telenovela nem sempre está diretamente ligada à moda profissional, proposta por estilistas, exposta em eventos especializados. Algumas tendências criadas pela telenovela são aperfeiçoadas ou adaptadas para o comércio e incorporadas pela população. São muitos exemplos citáveis: as meias de lurex de Dancing Days; as tranças nos cabelos da personagem Açucena, em Tropicaliente; as roupas hippies dos personagens de Estrela Guia e, finalmente, os vestidos da personagem Vitória, em Belíssima. Buscando evidências do impacto que a mídia causa na adoção de novas modas de vestuário, foram encontrados estudos anteriores que já o haviam detectado, através de diferentes metodologias. Olga L.Bustos-Romero (1992, p. 123), por exemplo, realizou pesquisa de campo no México, na década de 1990. Nele, constatou que as peças de vestuário utilizadas pelos personagens das telenovelas são tão observadas pelos telespectadores que as questões mais atrativas nas telenovelas, para homens e mulheres, eram: a atuação, as roupas e a beleza física dos atores, nesta ordem. Em trabalho realizado pelo angolano Augusto Alfredo Lourenço (1998), constatou-se que muitas garotas se prostituíam em seu país com o intuito de conseguirem se vestir de acordo com a moda apresentada nas telenovelas da Rede Globo lá exibidas. Ele comenta: “O número de angolanos que semanalmente desembarca no Rio de Janeiro, entre outras preocupações, têm como alvo preferencial novos trajes que colocarão na vanguarda da moda, atraindo a atenção de todos.”(LOURENÇO, 1998: p.87) Em pesquisa realizada por Miranda, García, Pepece e Mello ( 2000), verificou-se no trabalho de campo que a maioria das mulheres utiliza a televisão como fonte principal de informação de moda. Este trabalho, que investigou os hábitos de mídia dos entrevistados, considerou que as mulheres são mais suscetíveis a este tipo de influência. Eles explicam: “Os consumidores não compram produtos, serviços e marcas: eles adquirem imagens percebidas. A palavra-chave parece ser identificação, que pode vir a ser baseada no real ou em fantasia, mas que atenda aos anseios do consumidor.” (MIRANDA, 2000: p.13). Ou seja: o telespectador que se inspira na roupa de algum personagem e o copia, está mais conectado às mensagens que este produto possa transmitir do que ao valor material que ele, de fato, venha a possuir. Belíssima: O figurino que virou moda A telenovela Belíssima foi exibida pela Rede Globo no período compreendido entre novembro de 2005 e julho de 2006, escrita por Sílvio de Abreu e com direção geral de Carlos Araújo, Luiz Henrique Rios e Denise Saraceni. Ela se caracterizou pelo enfoque não apenas na trama policial envolta num clima de assassinatos e mistérios, mas também em assuntos ligados à moda de vestuário. Observou-se que este tema foi tratado de forma direta através da inclusão de personagens na trama, alguns deles profissionais da moda. Na ficção em questão, duas empresas voltavam seus negócios para a moda: a grande empresa Belíssima, que produzia peças íntimas femininas, e a agência de modelos Razzle Dazzle, através da qual se formava um núcleo ficcional composto por empresários, modelos, caçadores de talentos e fotógrafos. Paralelo a isto, verificou-se que, durante a exibição de Belíssima, personagens se tornaram referência na adoção da moda de vestiário por parte da população. O estilo de vestuário, criado pela figurinista da emissora para a caracterização de alguns personagens, foi copiado, comercializado e adotado pela população, demonstrando que houve uma influência da moda da ficção na moda da sociedade. Em entrevista à jornalista Marília Gabriela1, Geórgia Sampaio, figurinista da Telenovela Belíssima, comentou: A nossa novela agradou muito ao público da moda. Mas não é a intenção do figurino. Nós fazemos personagens. Então, quando pegou a moda da Vitória, que virou o maior sucesso, que foi pro shopping, foi um movimento contrário. Que como eu tinha confeccionado as roupas, elas não existiam nas lojas. E as lojas começaram a ficar desesperadas e começaram a fazer. Eu comecei a entrar no shopping e ver um vestidinho que foi baseado no que eu fiz. Eu não posso falar que foi copiado, mas foi baseado no que eu fiz. Na mesma ocasião, Geórgia Sampaio afirmou que um dos impactos causados pela moda de vestuário da telenovela foi a insatisfação das empregadas domésticas com os uniformes que costumavam vestir durante o trabalho. Em Belíssima, a personagem interpretada pela atriz Camila Pitanga utilizava uniformes estampados bastante coloridos e estampados, despertando o desejo das secretárias domésticas de serem iguais. Os principais exemplos da moda de vestuário de Belíssima adotados pela sociedade são: os vestidos da personagem Vitória (interpretada por Cláudia Abreu), as peças íntimas do personagem Matheus (interpretado por Kauãn Reymond), as faixas para a cintura utilizadas por Rebeca (Carolina Ferraz) e Júlia (Glória Pires), as saias justas, na altura dos joelhos e o sutiã à mostra da personagem Safira (Cláudia Raia), os vestidos da personagem Katina (Irene Ravache) e as roupas da personagem Mônica (Camila Pitanga). Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo (MATTOS: 2006), Walter Rodrigues, um dos mais conhecidos estilistas do país, comentou: “De fato, o 1 Marília Gabriela Entrevista: GNT, julho de 2006 figurino da Vitória estourou de um jeito muito forte, foi adotado por mulheres de Caruaru a Novo Hamburgo"2 Belíssima alcançou uma média de audiência variando entre 49 pontos na primeira semana de exibição e 60 pontos no último capítulo. A adoção da moda: Para explicar o processo que ocorre na adoção da moda de vestuário da telenovela pela população, este capítulo tem como paradigma a Teoria da Aprendizagem Observacional, explicada por Albert Bandura (1979). Ela demonstra que o processo de aprendizagem pode ocorrer através da observação do comportamento de outras pessoas e de suas conseqüências. Ou seja: os seres humanos têm a capacidade de desenvolver um aprendizado por imitação, inspirado em modelos fornecidos por outros indivíduos. É através deste tipo de aprendizagem que novos tipos de padrão de comportamento são adquiridos e antigos padrões são transformados. A Teoria da Aprendizagem Observacional é também conhecida, principalmente, como: “modelação”, “imitação”, “identificação”, “cópia” e “aprendizagem vicariante”. Bandura explica que a capacidade vicariante dos seres humanos proporciona uma aceleração no processo de aprendizagem, considerando que através dela evita-se que uma pessoa tenha que realizar todas as ações para conhecer suas respectivas conseqüências. O aprendizado observacional, portanto, difere-se do aprendizado do fazer individual que alterna experiências de tentativas e equívocos. Ele é capaz de transmitir novas formas de comportamento para pessoas em locais dispersos, às vezes através de apenas um modelo. Um dos aspectos a serem destacados refere-se exatamente a esta capacidade do ser humano de transmitir modelos a serem copiados para locais longínquos, para uma extensa camada da população, simultaneamente. Bandura destaca que os homens estão, geralmente, em contato direto com apenas um setor da sociedade, convivendo com um grupo específico de 2 Folha de São Paulo. Em 7 de maio de 2006. pessoas, fazendo os mesmos trajetos diariamente e visitando sempre os mesmos lugares. Justamente por isso, suas concepções de realidade social são fortemente influenciadas por experiências vicariantes, pelo que eles vêem e ouvem nestes ambientes. O que nos interessa aqui é lembrar que, para muitas pessoas, a idéia de realidade social está intimamente ligada à imagem que a mídia difunde para a população. E a forte exposição a este universo simbólico da mídia pode fazer com que aquilo representado na TV pareça ser verdadeiro e seja adotado por diferentes camadas da sociedade, em locais distantes uns dos outros. Bandura comenta: Considerando que anteriormente os modelos de influência estavam fortemente confinados aos padrões de comportamento exibidos no ambiente imediato das pessoas, o acelerado acesso às tecnologias de vídeo expandiu vastamente a escala dos modelos aos quais a sociedade é exposta dia após dia. (BANDURA: 1994, p.67, tradução nossa)3 Ruótolo (1998, p.169) esclarece que a teoria da Modelagem ou Aprendizagem observacional faz parte de uma das perspectivas que tentam explicar os tipos de respostas que os receptores apresentam frente aos meios de comunicação. A teoria da modelagem possui, portanto, uma perspectiva comportamental que, segundo o pesquisador, foca sua análise na conduta do indivíduo após a exposição aos conteúdos da comunicação, nos efeitos que a mídia pode provocar no comportamento dos receptores. Para ele, “o princípio básico desta perspectiva é o processo de aprendizagem observacional através de modelos. Um indivíduo exposto ao conteúdo dos meios de comunicação aprende os comportamentos de modelos (personagens e situações) apresentados” (RUÓTOLO: 1998, p. 169). Ruótolo explica também que o aprendizado por observação pode ser posto em prática apenas quando surgir uma oportunidade, podendo então haver algum espaço de tempo entre a exposição ao conteúdo e a manifestação do comportamento aprendido. 3 Texto original: “Whereas previously modeling influences were largely confined to the behavior patterns exhibited in one’s immediate environment, the accelerated growth of video delivery technologies has vastly expanded the range of models to which members of society are exposed day in and day out” Para Bandura, o processo de modelagem não é um simples processo de cópia. É um processo que deve ser, antes de tudo, adaptado às necessidades do indivíduo. Antes de manifestar um comportamento imitado, são realizadas avaliações; e as vantagens e as desvantagens daquilo que deverá ou não ser copiado são analisadas. De acordo com o autor, o processo de modelagem é governado por quatro processos: o processo de atenção, o processo representacional, a produção de comportamento e o processo motivacional. Já refletindo em termos de aprendizagem da moda de telenovelas, pensaremos em cada uma destas fases, definidas por Bandura. A primeira delas, que é o processo de atenção, determina o que será ou não modelado pelo indivíduo. Para ser modelado, um evento depende de sua importância, valor afetivo, complexidade, prevalência, acessibilidade e valor funcional. Ou seja: a moda de vestuário apresentada na telenovela deve apresentar, entre outras características, funcionalidade, um grau de complexidade compatível e ser de fácil acesso ao seu telespectador. Ainda neste primeiro estágio, também há variantes correspondentes ao telespectador, através das quais a moda de vestuário pode ou não ser notada. Isso dependerá da capacidade de percepção do telespectador, seu grau de interesse, suas capacidades cognitivas, seus preconceitos, seu entusiasmo e suas preferências. Sendo assim, é mais provável que determinado figurino de telenovela seja adotado pela população quando ela está predisposta a adotálo, apresentando características positivas para que isto aconteça. O segundo processo consiste na retenção daquilo que será modelado no futuro. Para que isto aconteça, deve haver um processo de transformação e reestruturação da informação percebida e futuramente recordada pelo telespectador. Este processo dependerá, especialmente, das capacidades e estruturas cognitivas que o telespectador possui e da codificação simbólica e organização cognitiva da mensagem. No terceiro processo, denominado Processo de Produção Comportamental, as concepções simbólicas são postas em prática. Em outras palavras: a cognição é transformada em comportamento. É desta forma que aquilo que se vê exibido nas telenovelas se transforma em ação, modificando o modo de agir, ou de se vestir, do telespectador. Neste momento, é tanto mais fácil a adoção de um novo tipo de comportamento quanto mais fortes forem as sub-habilidades dos receptores. Finalmente, na quarta e última fase, denominada Processo Motivacional, Bandura explica que os indivíduos não colocam em prática tudo aquilo que aprendem. Para que o processo de modelagem aconteça, é necessário que eles apresentem algumas qualidades que são importantes neste processo. Para a adoção da moda de vestuário, é necessário, por exemplo, que o indivíduo avalie que a imitação seja vantajosa e que os custos daquela decisão não sejam muito altos. Isso dependerá dos resultados que outros indivíduos obtiveram com o mesmo padrão de comportamento. Ele diz: “As pessoas são motivadas pelo sucesso de outras que são similares a elas mesmas, mas são desencorajadas de seguir tipos de comportamento que elas têm visto que resultaram em conseqüências adversas”. (Bandura: 1994, pag.69, tradução nossa)4 Toda esta capacidade humana de se espelhar no comportamento de outro indivíduo deve-se especialmente à capacidade de simbolização que o homem possui de compreender o meio-ambiente que o cerca, criando e regulando todos os eventos que influenciam direta ou indiretamente cada aspecto de sua vida. É através de símbolos que o homem dá sentido às suas experiências, variando de um indivíduo para outro, dependendo de sua capacidade cognitiva. Através da modelagem abstrata, as pessoas adquirem, entre outras coisas, exemplos para eventos de categorização e julgamentos, regras lingüísticas de comunicação, habilidades cognitivas de obter e utilizar os conhecimentos e os modelos pessoais para regular suas motivações e condutas. (Bandura: 1994, p. 70, tradução nossa)5 O baixo envolvimento do receptor da mensagem televisiva com a mensagem “moda de vestuário” faz com que ele opte pela imitação de um modelo. Isto lhe poupa atividade criativa e transfere a responsabilidade de ação para o modelo copiado, segundo afirma Miranda et al. (2000) Isso traz 4 Texto original: “People are motivated by the successes of others who are similar to themselves, but are discouraged from pursuing courses of behavior that they have seen often result in adverse consequences”. 5 Texto original: “Through abstract modeling, people acquire, among other things, standards for categorizing and judging events, linguistic rules of communication, thinking skills on how to gain and use knowledge, and personal standards for regulating one’s motivation and conduct.” sensação de contentamento consigo mesmo, pois o indivíduo sente-se parte de um grupo específico ou semelhante a um modelo de visibilidade (no caso, atores e atrizes de beleza e sucesso notório). Estas pessoas de notoriedade midiática, chamadas de Olimpianos por Morin (1997, p. 109), recebem tanta visibilidade da mídia, que em certos momentos os telespectadores se interessam mais pelas vidas particulares dos famosos que pelos acontecimentos que os cercam. Morin destaca que já nos anos 1930, os jovens encontravam no comportamento dos heróis de filme incitações ao sonho e modelos de conduta. Depois, ele completa: Como toda cultura, a cultura de massa elabora modelos, normas; mas, para essa cultura estruturada segundo a lei do mercado, não há prescrições impostas, mas imagens ou palavras que fazem apelo à imitação, conselhos, incitações publicitárias. A eficácia dos modelos propostos vem, precisamente, do fato de eles corresponderem às aspirações e necessidades que se desenvolvem realmente.(MORIN: 1997: p.109) Esta perspectiva propõe, portanto, que os atores e atrizes das telenovelas brasileiras tornam-se exemplos de conduta, ideais a serem seguidos pelos telespectadores não somente na moda, mas também no tipo de comportamento e no modo de falar. A adoção da moda de vestuário da telenovela deve-se não somente ao forte estímulo provocado pelas mensagens das telenovelas da Rede Globo, como também à capacidade de aprender que os indivíduos possuem, o que torna possível esta influência. Aprender ou copiar uma moda vista na telenovela Belíssima não significa apenas copiar aquele modelo utilizado pelo ator ou pela atriz. Significa, antes disso, a ocorrência de uma avaliação que gerou num resultado positivo para que aquele aprendizado ocorresse. Esta avaliação, geralmente ocorre através da observação direta na mídia ou de outro indivíduo que adotou anteriormente este modelo, o que provoca a inibição ou a desinibição de se realizar tal imitação. Adotar a moda de vestuário da telenovela pode significar, portanto: uma maior probabilidade de ser bem-sucedido nos resultados que almeja alcançar, a economia de criatividade ou responsabilidade de suas ações, a semelhança com ideais de beleza, status, prestígio e poder das pessoas que estão na mídia e, finalmente, significa sentir-se parte de um grupo, no qual o indivíduo observa novos modelos e será observado. Aprender através da observação permite chegar com mais segurança ao resultado esperado e, no caso da moda, esta aprendizagem é fugaz. A moda de vestuário consagrada pelos profissionais, dura geralmente uma estação. A moda da telenovela, por sua vez, dura o período em que ela for exibida, não se limitando apenas ao vestuário, mas também ao comportamento, trejeitos e expressões lingüísticas. Conclusões: Hoje, as telenovelas brasileiras já podem ser consideradas um produto de consumo nacional e de forte projeção internacional, evidenciando sua importância e potencial impacto em diversas sociedades nas quais elas são transmitidas. A compreensão de como se processa a modelação da moda de vestuário da telenovela pode ser explicada com detalhes pela teoria proposta por Albert Bandura. Ele demonstra a capacidade que os meios de comunicação têm de oferecer modelos a serem copiados pela sociedade. No entanto, conforme ele mesmo demonstra, há ainda outros modelos que não são propostos pela mídia e que também podem também ser imitados. Desta forma, o indivíduo pode não estar copiando a moda da telenovela e sim a moda observada no seu ambiente de trabalho. Lembrando que a recepção é também um local de conflitos, nos quais estas diferenças populacionais demonstram que esta modelagem não acontece de forma homogênea, sem passar por processos de resistência por determinados indivíduos. Isso poderia nos abrir a possibilidade de analisar este mesmo impacto através da teoria culturológica. Ambas as abordagens teóricas, tanto a funcionalista quanto a culturológica, seriam capazes de nos dar subsídios para concluir que a incorporação da moda de vestuário não se dá num sentido único. Ao contrário, diversas variáveis (através da observação direta do indivíduo, que apreende o que vê nas telenovelas, através da ação de personagens; através da observação de outros indivíduos que foram modelados pela moda da telenovela -no caso, um líder de opinião; pode ocorrer através da observação de outros meios de comunicação) devem ser consideradas na elucidação da complexa relação mídia-sociedade que marca a contemporaneidade. Sobre a autora: Ana Paula Silva Ladeira Costa é jornalista, graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora e especialista em “Globalização, Mídia e Cidadania” pela mesma universidade. Atualmente, é aluna do curso de mestrado em comunicação massiva da Universidade Metodista de São Paulo, onde desenvolve dissertação sobre a internacionalização da telenovela brasileira. Bibliografia: BANDURA, Albert. Modificação do comportamento. Rio de Janeiro: Interamericana, 1979 ___. Social Cognitive Theory of Mass Communication. In: BRYANT, J.; ZILLMAN, D. (orgs.) Media effects. Hillsdale, Erlbaum, 1994. p. 61-90 BUSTOS-ROMERO, Olga L. Gender and mass fiction in Mexico: the receptors of soap-operas. In: FADUL, Anamaria (org.). Serial Fiction in TV: the latin American telenovelas with an annotated bibliography of brazilian telenovelas. São Paulo: Núcleo de Pesquisa em Telenovelas, ECA-USP, 1992. CANCLINI, Néstor García. Consumidores e Cidadãos: conflitos multiculturais da globalização. 4ª ed. Rio de Janeiro: UFRJ, 1999. DUARTE, Márcia Yukiko Matsuuchi. Estudo de caso. In: DUARTE, Jorge; BARROS, Antonio. Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. São Paulo: Atlas, 2005. 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