APRENDIZAGEM OBSERVACIONAL ATRAVÉS DA TELENOVELA: UM
ESTUDO DE CASO DA MODA EM BELÍSSIMA
Ana Paula Silva Ladeira Costa
Jornalista, graduada pela Universidade Federal de Juiz de Fora (Minas
Gerais) e especialista em “Globalização, Mídia e Cidadania” pela mesma
universidade. Atualmente, é aluna do mestrado em comunicação massiva
da Universidade Metodista de São Paulo.
Resumo:
Este trabalho se justifica na importância de se analisar um fenômeno causado
pela expansão dos meios de comunicação de massa: a aprendizagem de
comportamentos através de modelos fornecidos pela mídia. Analisou-se a
Telenovela Belíssima, exibida pela Rede Globo em 2006 e a incorporação de
sua moda de vestuário pela sociedade. A Telenovela caracterizou-se pela
constante referência aos assuntos ligados à moda e pela forte aceitação do
público, verificado através do alto índice de audiência. Trata-se de um trabalho
qualitativo
de
revisão
bibliográfica,
através
do
qual se
analisará
o
comportamento do telespectador numa perspectiva proposta por Albert
Bandura: a teoria da aprendizagem observacional.
Palavras-chave: Moda; Telenovela; Aprendizagem Observacional; Rede
Globo; Belíssima
Introdução:
Este trabalho buscou a compreensão de uma das mudanças sociais que
estão relacionadas à telenovela no Brasil: a adoção da moda de vestuários
pela sociedade, um fenômeno visível, mas pouco estudado na academia.
Observou-se a telenovela Belíssima, produção da Rede Globo exibida no
horário das 20h entre novembro de 2005 e julho de 2006.
Para isso, buscaram-se evidências da adoção desta moda de figurino
através da análise de revistas femininas, jornais, sites da internet e programas
de entrevista que voltaram seu olhar, no período de exibição desta ficção
seriada, para a moda que estava sendo exibida na TV. Neste momento, notouse na mídia que havia abordagem sobre o assunto, sugestões do uso de
indumentárias semelhantes às utilizadas pelos atores e atrizes e críticas ao
figurino.
A discussão a respeito da moda de vestuário remete imediatamente à
idéia de imitação, de uso geral de determinado acessório ou indumentária por
um
largo
número
de
pessoas
em
determinado
período
de
tempo,
principalmente durante a exibição do produto cultural que criou uma tendência.
Desta forma, compreende-se que, ao se falar em moda, é perfeitamente
possível falar também em imitação – neste caso específico, imitação da
tendência vista na TV e, em seguida, em outras pessoas, ao seu redor. Por
este motivo, buscou-se uma teoria que analisasse o impacto da mídia na
conduta do indivíduo e compreendesse tal fenômeno. A perspectiva escolhida
foi proposta por Albert Bandura (1994; 1979), conhecida como teoria da
Modelagem ou da Aprendizagem Observacional.
Partindo de seu ponto de vista, considera-se que as pessoas atuam nas
imagens que apreendem da realidade. E, atualmente, a maioria das imagens
que as pessoas têm da realidade é adquirida através da mídia, que tanto
ensina novas formas de comportamento quanto fornece elementos que possam
agir nas mudanças de preferências, valores, crenças e expectativas pessoais.
Por este motivo, a Aprendizagem Observacional passa a fazer parte do rol de
teorias que tentam explicar os efeitos dos meios de comunicação na
sociedade.
Apesar de notória, a apreensão da moda de vestuário das telenovelas
ainda é um objeto de escasso estudo na comunicação. Desta maneira,
pretende-se trazer à tona um tema que poderá servir de futura inspiração para
outras pesquisas.
Este trabalho qualitativo tem como metodologia a revisão bibliográfica e
o estudo de caso. O estudo de caso foi o método considerado apropriado
porque esta pesquisa tem o foco voltado apenas para um objeto de estudo: a
adoção da moda de vestuário da telenovela Belíssima.
“O estudo de caso é o método que contribui para a
compreensão dos fenômenos sociais complexos, sejam
individuais, organizacionais, sociais ou políticos. É o estudo das
peculiaridades, das diferenças daquilo que o torna único e por
essa razão o distingue ou o aproxima dos demais fenômenos”,
explica Duarte. (DUARTE: 2005, p. 234)
A moda na mídia:
A moda está em todos os lugares, atravessa camadas sociais, períodos
de tempo e regiões geográficas; representa ideologias e culturas de
determinadas sociedades, move o comércio. No entanto, conforme ressalta
Lipovetsky (LIPOVETSKY: 1989: p. 09), ela tem sido pouco analisada em
âmbito acadêmico:
A moda é celebrada no museu, é relegada à antecâmara das
preocupações intelectuais reais; está por toda parte na rua, na
indústria e na mídia, e quase não aparece no questionamento
teórico das cabeças pensantes. Esfera ontológica e socialmente
inferior, não merece a investigação problemática; questão
superficial, desencoraja a abordagem superficial; a moda suscita
o reflexo crítico antes do estudo objetivo, é evocada
principalmente para ser fustigada, para marcar sua distância,
para deplorar o embotamento dos homens e o vício dos
negócios: a moda é sempre os outros. (LIPOVETSKY: 1989: p.
09)
A idéia de seguir tendência de moda de vestuário refere-se,
imediatamente, à idéia de imitação. Imitação porque a tendência de moda, por
si só, diz respeito ao uso generalizado de peças semelhantes por um alto
número de pessoas. Assim como o cinema, os programas de moda e outros
gêneros da comunicação de massa, a telenovela fornece modelos de imitação
não apenas de moda, como também de comportamento, de linguajar, de
formas de pensamento.
Isto se acentuou, conforme afirma Steffen (2005), depois da década de
1960, quando a população passa a ter mais acesso aos bens culturais e à TV.
Neste período, observa-se então uma homogeneização de costumes:
A cultura de massa produz celebridades para utilizá-las no
estimulo do consumo tanto na sentido real, como no imaginário.
Essa cultura pretende atingir o público criando necessidades de
consumo através de imagens e palavras dos apelos publicitários,
que fazem do produto algo necessário para a felicidade humana.
(STEFFEN: 2005, p. 07)
A pesquisador analisa os figurinos de telenovela numa perspectiva
voltada para o merchandising e compreende que o gênero é mais um espaço
utilizado para gerar lucro. Por isso, os profissionais devem saber atender às
exigências do público e lidar com a estrutura da telenovela: “o figurino de
novela consiste na adaptação, re-criação da moda e seus estereótipos com a
intenção de quebra a mesmice e obter a originalidade”, completa. (STEFFEN:
2005, p. 13)
No entanto, Lipovetsky explica que a tendência em seguir exemplos de
moda e beleza começou já nos anos de 1910, com a ascensão de atrizes e
atores de cinema e que, desde então, as mulheres de sociedade não têm sido
mais as líderes da moda de vestuário:
As estrelas despertaram comportamento miméticos em massa,
imitou-se amplamente sua maquiagem dos olhos e dos lábios,
suas mímicas e posturas; houve até, no decorrer dos anos 1930,
concursos de sósias de Marlene Dietrich e de Greta Garbo. Mais
tarde, os penteados “rabo de cavalo” ou ondulados de Brigitte
Bardot, as aparências descontraídas de James Dean ou Marlon
Brando foram modelos em evidência. Ainda hoje, os jovens
adolescentes tomaram como modelo o look Michael Jackson.
Foco de moda, a estrela é ainda mais, nela mesma, figura de
moda enquanto ser-para-a-sedução, quintessência moderna de
sedução. (LIPOVETSKY: 1989, p. 214)
A moda da telenovela nem sempre está diretamente ligada à moda
profissional, proposta por estilistas, exposta em eventos especializados.
Algumas tendências criadas pela telenovela são aperfeiçoadas ou adaptadas
para o comércio e incorporadas pela população. São muitos exemplos citáveis:
as meias de lurex de Dancing Days; as tranças nos cabelos da personagem
Açucena, em Tropicaliente; as roupas hippies dos personagens de Estrela Guia
e, finalmente, os vestidos da personagem Vitória, em Belíssima.
Buscando evidências do impacto que a mídia causa na adoção de novas
modas de vestuário, foram encontrados estudos anteriores que já o haviam
detectado, através de diferentes metodologias.
Olga L.Bustos-Romero (1992, p. 123), por exemplo, realizou pesquisa de
campo no México, na década de 1990. Nele, constatou que as peças de
vestuário utilizadas pelos personagens das telenovelas são tão observadas
pelos telespectadores que as questões mais atrativas nas telenovelas, para
homens e mulheres, eram: a atuação, as roupas e a beleza física dos atores,
nesta ordem.
Em trabalho realizado pelo angolano Augusto Alfredo Lourenço (1998),
constatou-se que muitas garotas se prostituíam em seu país com o intuito de
conseguirem se vestir de acordo com a moda apresentada nas telenovelas da
Rede Globo lá exibidas. Ele comenta: “O número de angolanos que
semanalmente desembarca no Rio de Janeiro, entre outras preocupações, têm
como alvo preferencial novos trajes que colocarão na vanguarda da moda,
atraindo a atenção de todos.”(LOURENÇO, 1998: p.87)
Em pesquisa realizada por Miranda, García, Pepece e Mello ( 2000),
verificou-se no trabalho de campo que a maioria das mulheres utiliza a
televisão como fonte principal de informação de moda. Este trabalho, que
investigou os hábitos de mídia dos entrevistados, considerou que as mulheres
são mais suscetíveis a este tipo de influência. Eles explicam:
“Os consumidores não compram produtos, serviços e marcas:
eles adquirem imagens percebidas. A palavra-chave parece ser
identificação, que pode vir a ser baseada no real ou em fantasia,
mas que atenda aos anseios do consumidor.” (MIRANDA, 2000:
p.13).
Ou seja: o telespectador que se inspira na roupa de algum personagem
e o copia, está mais conectado às mensagens que este produto possa
transmitir do que ao valor material que ele, de fato, venha a possuir.
Belíssima: O figurino que virou moda
A telenovela Belíssima foi exibida pela Rede Globo no período
compreendido entre novembro de 2005 e julho de 2006, escrita por Sílvio de
Abreu e com direção geral de Carlos Araújo, Luiz Henrique Rios e Denise
Saraceni. Ela se caracterizou pelo enfoque não apenas na trama policial
envolta num clima de assassinatos e mistérios, mas também em assuntos
ligados à moda de vestuário. Observou-se que este tema foi tratado de forma
direta através da inclusão de personagens na trama, alguns deles profissionais
da moda. Na ficção em questão, duas empresas voltavam seus negócios para
a moda: a grande empresa Belíssima, que produzia peças íntimas femininas, e
a agência de modelos Razzle Dazzle, através da qual se formava um núcleo
ficcional composto por empresários, modelos, caçadores de talentos e
fotógrafos.
Paralelo a isto, verificou-se que, durante a exibição de Belíssima,
personagens se tornaram referência na adoção da moda de vestiário por parte
da população. O estilo de vestuário, criado pela figurinista da emissora para a
caracterização de alguns personagens, foi copiado, comercializado e adotado
pela população, demonstrando que houve uma influência da moda da ficção na
moda da sociedade.
Em entrevista à jornalista Marília Gabriela1, Geórgia Sampaio, figurinista
da Telenovela Belíssima, comentou:
A nossa novela agradou muito ao público da moda. Mas não é a
intenção do figurino. Nós fazemos personagens. Então, quando
pegou a moda da Vitória, que virou o maior sucesso, que foi pro
shopping, foi um movimento contrário. Que como eu tinha
confeccionado as roupas, elas não existiam nas lojas. E as lojas
começaram a ficar desesperadas e começaram a fazer. Eu
comecei a entrar no shopping e ver um vestidinho que foi
baseado no que eu fiz. Eu não posso falar que foi copiado, mas
foi baseado no que eu fiz.
Na mesma ocasião, Geórgia Sampaio afirmou que um dos impactos
causados pela moda de vestuário da telenovela foi a insatisfação das
empregadas domésticas com os uniformes que costumavam vestir durante o
trabalho. Em Belíssima, a personagem interpretada pela atriz Camila Pitanga
utilizava uniformes estampados bastante coloridos e estampados, despertando
o desejo das secretárias domésticas de serem iguais.
Os principais exemplos da moda de vestuário de Belíssima adotados
pela sociedade são: os vestidos da personagem Vitória (interpretada por
Cláudia Abreu), as peças íntimas do personagem Matheus (interpretado por
Kauãn Reymond), as faixas para a cintura utilizadas por Rebeca (Carolina
Ferraz) e Júlia (Glória Pires), as saias justas, na altura dos joelhos e o sutiã à
mostra da personagem Safira (Cláudia Raia), os vestidos da personagem
Katina (Irene Ravache) e as roupas da personagem Mônica (Camila Pitanga).
Em entrevista ao jornal Folha de São Paulo (MATTOS: 2006), Walter
Rodrigues, um dos mais conhecidos estilistas do país, comentou: “De fato, o
1
Marília Gabriela Entrevista: GNT, julho de 2006
figurino da Vitória estourou de um jeito muito forte, foi adotado por mulheres de
Caruaru a Novo Hamburgo"2
Belíssima alcançou uma média de audiência variando entre 49 pontos
na primeira semana de exibição e 60 pontos no último capítulo.
A adoção da moda:
Para explicar o processo que ocorre na adoção da moda de vestuário da
telenovela pela população, este capítulo tem como paradigma a Teoria da
Aprendizagem Observacional, explicada por Albert Bandura (1979). Ela
demonstra que o processo de aprendizagem pode ocorrer através da
observação do comportamento de outras pessoas e de suas conseqüências.
Ou seja: os seres humanos têm a capacidade de desenvolver um aprendizado
por imitação, inspirado em modelos fornecidos por outros indivíduos. É através
deste tipo de aprendizagem que novos tipos de padrão de comportamento são
adquiridos e antigos padrões são transformados.
A Teoria da Aprendizagem Observacional é também conhecida,
principalmente, como: “modelação”, “imitação”, “identificação”, “cópia” e
“aprendizagem vicariante”. Bandura explica que a capacidade vicariante dos
seres humanos proporciona uma aceleração no processo de aprendizagem,
considerando que através dela evita-se que uma pessoa tenha que realizar
todas as ações para conhecer suas respectivas conseqüências. O aprendizado
observacional, portanto, difere-se do aprendizado do fazer individual que
alterna experiências de tentativas e equívocos. Ele é capaz de transmitir novas
formas de comportamento para pessoas em locais dispersos, às vezes através
de apenas um modelo.
Um dos aspectos a serem destacados refere-se exatamente a esta
capacidade do ser humano de transmitir modelos a serem copiados para locais
longínquos, para uma extensa camada da população, simultaneamente.
Bandura destaca que os homens estão, geralmente, em contato direto com
apenas um setor da sociedade, convivendo com um grupo específico de
2
Folha de São Paulo. Em 7 de maio de 2006.
pessoas, fazendo os mesmos trajetos diariamente e visitando sempre os
mesmos lugares.
Justamente por isso, suas concepções de realidade social são
fortemente influenciadas por experiências vicariantes, pelo que eles vêem e
ouvem nestes ambientes. O que nos interessa aqui é lembrar que, para muitas
pessoas, a idéia de realidade social está intimamente ligada à imagem que a
mídia difunde para a população. E a forte exposição a este universo simbólico
da mídia pode fazer com que aquilo representado na TV pareça ser verdadeiro
e seja adotado por diferentes camadas da sociedade, em locais distantes uns
dos outros.
Bandura comenta:
Considerando que anteriormente os modelos de influência
estavam
fortemente
confinados
aos
padrões
de
comportamento exibidos no ambiente imediato das pessoas, o
acelerado acesso às tecnologias de vídeo expandiu
vastamente a escala dos modelos aos quais a sociedade é
exposta dia após dia. (BANDURA: 1994, p.67, tradução
nossa)3
Ruótolo (1998, p.169) esclarece que a teoria da Modelagem ou
Aprendizagem observacional faz parte de uma das perspectivas que tentam
explicar os tipos de respostas que os receptores apresentam frente aos meios
de comunicação. A teoria da modelagem possui, portanto, uma perspectiva
comportamental que, segundo o pesquisador, foca sua análise na conduta do
indivíduo após a exposição aos conteúdos da comunicação, nos efeitos que a
mídia pode provocar no comportamento dos receptores.
Para ele, “o princípio básico desta perspectiva é o processo de
aprendizagem observacional através de modelos. Um indivíduo exposto ao
conteúdo dos meios de comunicação aprende os comportamentos de modelos
(personagens e situações) apresentados” (RUÓTOLO: 1998, p. 169).
Ruótolo explica também que o aprendizado por observação pode ser
posto em prática apenas quando surgir uma oportunidade, podendo então
haver algum espaço de tempo entre a exposição ao conteúdo e a manifestação
do comportamento aprendido.
3
Texto original: “Whereas previously modeling influences were largely confined to the behavior patterns
exhibited in one’s immediate environment, the accelerated growth of video delivery technologies has
vastly expanded the range of models to which members of society are exposed day in and day out”
Para Bandura, o processo de modelagem não é um simples processo de
cópia. É um processo que deve ser, antes de tudo, adaptado às necessidades
do indivíduo. Antes de manifestar um comportamento imitado, são realizadas
avaliações; e as vantagens e as desvantagens daquilo que deverá ou não ser
copiado são analisadas. De acordo com o autor, o processo de modelagem é
governado por quatro processos: o processo de atenção, o processo
representacional, a produção de comportamento e o processo motivacional.
Já refletindo em termos de aprendizagem da moda de telenovelas,
pensaremos em cada uma destas fases, definidas por Bandura. A primeira
delas, que é o processo de atenção, determina o que será ou não modelado
pelo indivíduo. Para ser modelado, um evento depende de sua importância,
valor afetivo, complexidade, prevalência, acessibilidade e valor funcional. Ou
seja: a moda de vestuário apresentada na telenovela deve apresentar, entre
outras características, funcionalidade, um grau de complexidade compatível e
ser de fácil acesso ao seu telespectador.
Ainda neste primeiro estágio, também há variantes correspondentes ao
telespectador, através das quais a moda de vestuário pode ou não ser notada.
Isso dependerá da capacidade de percepção do telespectador, seu grau de
interesse, suas capacidades cognitivas, seus preconceitos, seu entusiasmo e
suas preferências. Sendo assim, é mais provável que determinado figurino de
telenovela seja adotado pela população quando ela está predisposta a adotálo, apresentando características positivas para que isto aconteça.
O segundo processo consiste na retenção daquilo que será modelado no
futuro. Para que isto aconteça, deve haver um processo de transformação e
reestruturação da informação percebida e futuramente recordada pelo
telespectador. Este processo dependerá, especialmente, das capacidades e
estruturas cognitivas que o telespectador possui e da codificação simbólica e
organização cognitiva da mensagem.
No
terceiro
processo,
denominado
Processo
de
Produção
Comportamental, as concepções simbólicas são postas em prática. Em outras
palavras: a cognição é transformada em comportamento. É desta forma que
aquilo que se vê exibido nas telenovelas se transforma em ação, modificando o
modo de agir, ou de se vestir, do telespectador. Neste momento, é tanto mais
fácil a adoção de um novo tipo de comportamento quanto mais fortes forem as
sub-habilidades dos receptores.
Finalmente, na quarta e última fase, denominada Processo Motivacional,
Bandura explica que os indivíduos não colocam em prática tudo aquilo que
aprendem. Para que o processo de modelagem aconteça, é necessário que
eles apresentem algumas qualidades que são importantes neste processo.
Para a adoção da moda de vestuário, é necessário, por exemplo, que o
indivíduo avalie que a imitação seja vantajosa e que os custos daquela decisão
não sejam muito altos. Isso dependerá dos resultados que outros indivíduos
obtiveram com o mesmo padrão de comportamento. Ele diz: “As pessoas são
motivadas pelo sucesso de outras que são similares a elas mesmas, mas são
desencorajadas de seguir tipos de comportamento que elas têm visto que
resultaram em conseqüências adversas”. (Bandura: 1994, pag.69, tradução
nossa)4
Toda esta capacidade humana de se espelhar no comportamento de
outro indivíduo deve-se especialmente à capacidade de simbolização que o
homem possui de compreender o meio-ambiente que o cerca, criando e
regulando todos os eventos que influenciam direta ou indiretamente cada
aspecto de sua vida. É através de símbolos que o homem dá sentido às suas
experiências, variando de um indivíduo para outro, dependendo de sua
capacidade cognitiva.
Através da modelagem abstrata, as pessoas adquirem, entre
outras coisas, exemplos para eventos de categorização e
julgamentos, regras lingüísticas de comunicação, habilidades
cognitivas de obter e utilizar os conhecimentos e os modelos
pessoais para regular suas motivações e condutas. (Bandura:
1994, p. 70, tradução nossa)5
O baixo envolvimento do receptor da mensagem televisiva com a
mensagem “moda de vestuário” faz com que ele opte pela imitação de um
modelo. Isto lhe poupa atividade criativa e transfere a responsabilidade de ação
para o modelo copiado, segundo afirma Miranda et al. (2000) Isso traz
4
Texto original: “People are motivated by the successes of others who are similar to themselves, but are
discouraged from pursuing courses of behavior that they have seen often result in adverse consequences”.
5
Texto original: “Through abstract modeling, people acquire, among other things, standards for
categorizing and judging events, linguistic rules of communication, thinking skills on how to gain and use
knowledge, and personal standards for regulating one’s motivation and conduct.”
sensação de contentamento consigo mesmo, pois o indivíduo sente-se parte de
um grupo específico ou semelhante a um modelo de visibilidade (no caso,
atores e atrizes de beleza e sucesso notório).
Estas pessoas de notoriedade midiática, chamadas de Olimpianos por
Morin (1997, p. 109), recebem tanta visibilidade da mídia, que em certos
momentos os telespectadores se interessam mais pelas vidas particulares dos
famosos que pelos acontecimentos que os cercam. Morin destaca que já nos
anos 1930, os jovens encontravam no comportamento dos heróis de filme
incitações ao sonho e modelos de conduta. Depois, ele completa:
Como toda cultura, a cultura de massa elabora modelos,
normas; mas, para essa cultura estruturada segundo a lei do
mercado, não há prescrições impostas, mas imagens ou
palavras que fazem apelo à imitação, conselhos, incitações
publicitárias. A eficácia dos modelos propostos vem,
precisamente, do fato de eles corresponderem às aspirações e
necessidades que se desenvolvem realmente.(MORIN: 1997:
p.109)
Esta perspectiva propõe, portanto, que os atores e atrizes das
telenovelas brasileiras tornam-se exemplos de conduta, ideais a serem
seguidos pelos telespectadores não somente na moda, mas também no tipo de
comportamento e no modo de falar. A adoção da moda de vestuário da
telenovela deve-se não somente ao forte estímulo provocado pelas mensagens
das telenovelas da Rede Globo, como também à capacidade de aprender que
os indivíduos possuem, o que torna possível esta influência.
Aprender ou copiar uma moda vista na telenovela Belíssima não
significa apenas copiar aquele modelo utilizado pelo ator ou pela atriz.
Significa, antes disso, a ocorrência de uma avaliação que gerou num resultado
positivo para que aquele aprendizado ocorresse. Esta avaliação, geralmente
ocorre através da observação direta na mídia ou de outro indivíduo que adotou
anteriormente este modelo, o que provoca a inibição ou a desinibição de se
realizar tal imitação.
Adotar a moda de vestuário da telenovela pode significar, portanto: uma
maior probabilidade de ser bem-sucedido nos resultados que almeja alcançar,
a economia de criatividade ou responsabilidade de suas ações, a semelhança
com ideais de beleza, status, prestígio e poder das pessoas que estão na mídia
e, finalmente, significa sentir-se parte de um grupo, no qual o indivíduo observa
novos modelos e será observado. Aprender através da observação permite
chegar com mais segurança ao resultado esperado e, no caso da moda, esta
aprendizagem é fugaz. A moda de vestuário consagrada pelos profissionais,
dura geralmente uma estação. A moda da telenovela, por sua vez, dura o
período em que ela for exibida, não se limitando apenas ao vestuário, mas
também ao comportamento, trejeitos e expressões lingüísticas.
Conclusões:
Hoje, as telenovelas brasileiras já podem ser consideradas um produto
de consumo nacional e de forte projeção internacional, evidenciando sua
importância e potencial impacto em diversas sociedades nas quais elas são
transmitidas.
A compreensão de como se processa a modelação da moda de
vestuário da telenovela pode ser explicada com detalhes pela teoria proposta
por Albert Bandura. Ele demonstra a capacidade que os meios de comunicação
têm de oferecer modelos a serem copiados pela sociedade. No entanto,
conforme ele mesmo demonstra, há ainda outros modelos que não são
propostos pela mídia e que também podem também ser imitados. Desta forma,
o indivíduo pode não estar copiando a moda da telenovela e sim a moda
observada no seu ambiente de trabalho.
Lembrando que a recepção é também um local de conflitos, nos quais
estas diferenças populacionais demonstram que esta modelagem não acontece
de forma homogênea, sem passar por processos de resistência por
determinados indivíduos. Isso poderia nos abrir a possibilidade de analisar este
mesmo impacto através da teoria culturológica.
Ambas as abordagens teóricas, tanto a funcionalista quanto a
culturológica, seriam capazes de nos dar subsídios para concluir que a
incorporação da moda de vestuário não se dá num sentido único. Ao contrário,
diversas variáveis (através da observação direta do indivíduo, que apreende o
que vê nas telenovelas, através da ação de personagens; através da
observação de outros indivíduos que foram modelados pela moda da
telenovela -no caso, um líder de opinião; pode ocorrer através da observação
de outros meios de comunicação) devem ser consideradas na elucidação da
complexa relação mídia-sociedade que marca a contemporaneidade.
Sobre a autora:
Ana Paula Silva Ladeira Costa é jornalista, graduada pela Universidade Federal
de Juiz de Fora e especialista em “Globalização, Mídia e Cidadania” pela
mesma universidade. Atualmente, é aluna do curso de mestrado em
comunicação massiva da Universidade Metodista de São Paulo, onde
desenvolve dissertação sobre a internacionalização da telenovela brasileira.
Bibliografia:
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UERJ,
2005.
Disponível
em:
<http://reposcom.portcom.intercom.org.br/bitstream/1904/17145/1/R15561.pdf>
11 looks que Mônica vai usar na novela pra ficar ainda mais poderosa! Revista
Ana Maria. n° 503. 2.jun.2006
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APRENDIZAGEM OBSERVACIONAL ATRAVÉS DA TELENOVELA