II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014 A FUNÇÃO PSICOLÓGICA DO TRABALHO Yves Clot Liliane Canopf Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR) Marcio Pascoal Cassandre Universidade Estadual de Maringá (UEM-PPA) CAPÍTULO 1: UMA PSICOLOGIA COGNITIVA DO TRABALHO? Neste capítulo são apresentados, entre outros, os seguintes conceitos: Emoções - É pela mediação das emoções, cujo papel dinamogênico no comportamento humano foi enfatizado por Vygotsky, que se forma a ação mental, comover é por em movimento. “São precisamente as paixões que constituem o fenômeno fundamental da natureza humana” (p. 33). Inibições – Para Berthoz: “... a inibição neuronal é um dos mecanismos fundamentais da produção do movimento e de sua flexibilidade, sem dúvida o principal mecanismo da aprendizagem sensório-motora. Ela está igualmente na origem de mecanismos receptivos de filtragem e de seleção, desempenhando um papel positivo em certas funções cognitivas como a tomada de decisões” (p. 34). Intenções – A ação se forma em um meio saturado de atividades heterogêneas, libertando-se de suas contradições. As intenções se formam no intercâmbio entre sujeitos e em cada um. Suas realizações deixam vestígios na história emocional e corporal daqueles que trabalham, formando uma memória preditiva incorporada. Gênero – Corpo intermediário entre os sujeitos, interposto social situado entre sujeitos e entre eles e o objeto do trabalho. Um gênero sempre vincula entre si os que participam de uma situação, como coautores que conhecem, compreendem e avaliam essa situação da mesma maneira. É um sistema aberto das regras impessoais não escritas que definem, num meio dado, o uso dos objetos e o intercâmbio entre as pessoas. É um sistema flexível de variantes normativas e de restrições que comportam vários cenários e um jogo de indeterminação que diz como agir ou 1 II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014 deixar de agir; como realizar as transações entre colegas de trabalho em torno dos objetivos da ação. Estilo: O estilo individual torna-se a transformação dos gêneros, por um sujeito, em recursos para agir em suas atividades reais. A análise do trabalho situa-se diante da interioridade recíproca dos estilos e dos gêneros. Os gêneros são inacabados, moldados nos traços particulares contingentes e únicos que definem cada situação de trabalho vivida. A tarefa prescrita é definida pelos coletivos que formam e transformam os gêneros sociais da atividade vinculados com as situações reais. Eles delimitam gêneros de situação de trabalho, memória impessoal e instrumentos graças aos quais os sujeitos agem ao mesmo tempo no mundo e entre si. CAPÍTULO 2: A FUNÇÃO PSICOLÓGICA DO TRABALHO Este capítulo busca responder às seguintes perguntas: o trabalho forneceria ainda o material suficiente para uma psicologia? Ou, o trabalho exerceria uma função psicológica diferente daquela exercida por outras atividades? Discute-se o papel do trabalho no desenvolvimento do sujeito e na formação do patrimônio histórico cultural, sua conservação e transmissão. Trata da ruptura entre pré-ocupação e ocupação, a capacidade de realizar coisas úteis, manter engajamentos e trabalhar com o outro e para o outro. Resgata noções de gênero: corpo intermediário entre os sujeitos e entre estes e o objeto do trabalho, que vincula ente si os que participam de uma situação, via conjunto de regras impessoais não escritas que definem o uso de um objeto e o intercâmbio entre pessoas num determinado meio. O desenvolvimento se dá mediante a libertação do curso das atividades esperadas. O autor reafirma a centralidade do trabalho na sociedade atual, continuando a preencher uma função psicológica importante, visto que “(...) o trabalho é o lugar onde se desenrola para o sujeito a experiência dolorosa e decisiva do real, entendido como aquilo que, na organização do trabalho e na tarefa, resiste à sua capacidade, às suas competências, ao seu controle” (p. 59). Existem múltiplas pré-ocupações que disputam tempo e espaço, mas é o trabalho que oferece ao 2 II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014 sujeito o poder de fazer algo da sua vida, de protagonizar sua própria história, sendo um dos mais importantes gêneros da vida social. Segundo a psicologia histórica cultural, o trabalho se relaciona recursivamente com a natureza e com o mundo. O homem tem uma indeterminação que lhe possibilita ser autor de si mesmo através das relações com os outros. O trabalho é a inscrição do sujeito no social. Os gêneros são as formas cristalizadas da divisão do trabalho. Para Clot o trabalho está em nível equivalente ao da linguagem no desenvolvimento psicológico do sujeito. CAPITULO 3: A UNIDADE DE ANÁLISE Neste capítulo discutem-se as atividades de trabalho, a atividade dirigida e as relações através das quais a aprendizagem se transforma em desenvolvimento. A atividade de trabalho é dirigida porque não há atividade sem sujeito e trabalhar é sempre enfrentar uma heteronomia do objeto e da tarefa; é uma atividade forçada, disciplinada pelas leis da matéria e leis dos homens. E triplamente dirigida: pelo comportamento do sujeito, pelo objeto da tarefa e dirigida aos outros. Entende-se a atividade dirigida como sendo um intercâmbio social que realiza o trabalho. Esta é a unidade de análise, uma tríade viva na qual há uma opção pelo conflito como ponto de partida da pesquisa. A atividade dirigida é uma “arena” entre vários desenvolvimentos possíveis. O trabalho consiste em enfrentar as tensões destes conflitos. É essa “célula viva” e sua estruturação inacabada, aberta aos imprevistos do real que, opondo a atividade dirigida a si mesma, forma o núcleo da análise, três vidas ao mesmo tempo: a do objeto, a do sujeito e a dos outros. A atividade sempre comporta o inesperado possível na situação do real. A análise da atividade dirigida desemboca em um desenvolvimento possível dos objetos, dos artefatos, do sujeito, dos instrumentos do sujeito e da atividade coletiva. Para o sujeito, desenvolvimento é pôr o mundo social a seu serviço, em fazer dele um mundo para si a fim de integrar-se a ele, consiste em reformulá-lo participando da elaboração de novas significações; uma função que aparece três vezes na história do sujeito: primeiro no nível social, depois no interior do sujeito e após em um plano social-pessoal. 3 II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014 A atividade dirigida, do ponto de vista do seu desenvolvimento é compreendida por meio das relações entre os inesperados e os esperados de uma situação. As relações entre o fluxo das atividades vivas e o gênero estabilizado são relações no curso das quais a aprendizagem se transforma em desenvolvimento. Desenvolvimento é escolha e liberdade. CAPÍTULO 4: MÉTODOS O autor propõe métodos de análise do trabalho por meio de uma Clínica da Atividade, fundada em formas diferenciadas de coanálise e o desenvolvimento de um instrumento de pesquisa. O gênero passa a ser objeto de trabalho e de pensamento coletivo, e a reflexão sobre ele abre caminho para a análise conceitual. A matéria da análise do trabalho são as metamorfoses da atividade ao longo do tempo. Importante o pensamento, a descrição, a redescrição, a explicação de sua estruturação e a reflexão do próprio sujeito. Constituem-se zonas de desenvolvimento potencial, nas quais a experiência é estimulada pela mediação exercida pelos conceitos e pela atividade prática, uma abertura para o inesperado. A atividade dirigida é a unidade de compreensão e de explicação das situações de trabalho e esclarece o desenvolvimento do sujeito por meio da história de suas atividades vitais. A autoconfrontação é orientada por um pesquisador/psicólogo, o trabalhador descreverá o seu trabalho e será videogravado. A gravação é analisada por outro pesquisador, proporcionando assim um acesso diferente ao real da atividade do sujeito. A singularidade da situação é o objeto da análise psicológica. A produção do inesperado é um mecanismo vital do desenvolvimento, recusa a previsibilidade e pode provocar uma transformação na atividade e nos próprios sujeitos. Considerando que o estilo é uma reavaliação, uma acentuação e um retoque de gêneros na ação, esta análise favorece a elaboração estilística para revitalizar o gênero. A proposta é a pesquisa com um só sujeito em várias situações encadeadas, conforme consideração de Vygotsky: “Conheço-me apenas na medida em que sou eu mesmo um outro para mim”; em que o movimento/ato de pensar, que vai da ideia à palavra é a história de um desenvolvimento, que pode provocar um rompimento com uma alienação. As técnicas de 4 II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014 autoconfrontação cruzada em análise do trabalho são ocasião para que o sujeito se liberte dos pressupostos de sua ação e tenha a oportunidade de subjetivação. CAPÍTULO 5: OS PRESSUPOSTOS DA AÇÃO Conceitos chaves do capítulo: (1) gênero; (2) gêneros como pressupostos sociais da atividade pessoal; (3) pressupostos fundamentais da ação dos sujeitos: Experiência Histórica e Experiência Social; (4) atividade, (5) duas zonas de desenvolvimento potencial: o intelecto e o afeto; e (6) zonas de desenvolvimento psicológico: a eficiência e o sentido. O autor retoma o conceito de gênero, como o dispositivo aberto de regras impessoais seguidas por um coletivo de trabalho no uso dos objetos e no intercâmbio entre os sujeitos. O gênero é feito para agir, se realiza na situação vivida. São apresentados dois pressupostos da ação humana: o primeiro chamado “experiência histórica” nos signos e nas ferramentas e o segundo, “experiência social” nos intercâmbios vivos entre sujeitos. O autor propõe duas zonas de desenvolvimento potencial: o intelecto e o afeto. É preciso remeter o intelecto e o afeto aos conflitos do pensamento, é imperativo devolver o pensamento à vida, pois este se define em razão do fato de que age sobre o mundo. É o curso da atividade no mundo com os outros homens que convoca o cognitivo e o afetivo, ao mesmo tempo causa e efeito do desenvolvimento. São propostas também duas zonas de desenvolvimento psicológico, submetidas a duas exigências psicológicas distintas - a eficiência e o sentido. Essas duas tensões psíquicas se resolvem cruzando zonas de desenvolvimento potencial distintas, embora as duas tenham em comum o fato de sustentar a atividade de um sujeito mediante a atividade de outro ou de vários outros sujeitos. CAPÍTULO 6: A MOBILIZAÇÃO SUBJETIVA 5 II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014 A ação pode ver-se reduzida ou necrosada quando o sujeito não consegue libertar-se dos dois pressupostos em que ele está emaranhado: o operacional-técnico e o subjetivo-social, que fazem avançar e ao mesmo tempo impedem a ação. A ação é uma produção do sujeito ao mesmo tempo com a ajuda de e contra esses pressupostos, não por meio da negação deles, mas mediante o seu desenvolvimento. É aí que muitas catacreses têm origem, aquilo que é deixado de lado proporciona ao sujeito uma “margem de manobra” graças à própria incompletude de sua ação. É preciso desvincular-se das “pré-ocupações”, que são um fardo subjetivo, afastar-se de certas atividades com que se está envolvido e investir em outras, é assim que o sujeito se resgata. Nesse aspecto o desenvolvimento sempre é ao mesmo tempo recalque. Na ação, o que vem antes é naturalmente o ponto de partida, mas não a fonte do que vem depois. O passado, tanto do gênero quanto do sujeito, promove o presente e o torna possível. O estilo é a distância que um sujeito pode deixar entre si e seu trabalho, pela via do seu desenvolvimento. Ele garante a apropriação psicológica do gênero, seu ajustamento, uma flexibilidade e uma plasticidade de execução da ação. Pode-se dizer que “assinala” a qualidade do trabalho. É indissociável da eficácia da ação, é funcional, e ao mesmo tempo sua figura subjetiva. Sinônimo de uma sobriedade de execução, tira o melhor partido dos pressupostos materiais e simbólicos da ação mediante um trabalho de afastamento. Um estilo remete sempre ao afastamento do sujeito, não pela negação dos pressupostos de sua ação, no gênero social ou na memória pessoal, mas através de seu desenvolvimento genérico e subjetivo. Ele age sobre os gêneros que se intercalam entre o sujeito e o mundo, os homens e as coisas. É Polifônico, se desenha na encruzilhada da relação consigo mesmo, com os outros e com o objeto. Liberta-se do gênero comum por meio de sua transfiguração. O estilo da ação revela a liberdade tomada com os gêneros sendo um indicador essencial das possibilidades e provas do desenvolvimento da atividade. Ele participa de um gênero e o reformula, conserva vivo, perpetua ou mesmo prolonga. A invenção estilística supõe sempre um inventário profundo dos repertórios do gênero, e mesmo de vários gêneros, ela supõe que um sujeito pertence a vários gêneros ao mesmo tempo. Poder ver um gênero com os olhos de outro gênero, poder agir num gênero com recursos de outro gênero é com certeza o recurso essencial da criação estilística. 6 II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014 O estilo é a criação a que o sujeito deve recorrer a fim de dominar o jogo das mudanças de gênero, as passagens entre gêneros. É esse processo de metamorfose que convoca as criações estilísticas e mantêm os gêneros vivos. A atividade situada é a atividade que se realiza entre duas memórias, uma pessoal e a outra impessoal. “O trabalho não cria; o trabalho recria” (p. 198). A análise do trabalho constitui aquilo que, no interior da própria atividade, permite ultrapassar a atividade. CONCLUSÃO A abordagem de Clot constata o esgotamento de um modelo estritamente cognitivo do sujeito, sendo filiada às abordagens histórico-culturais. Nela ação é situada igualmente na história pessoal e social do sujeito psicológico e inclusive em seu corpo. É também uma tentativa de esclarecimento das relações entre os gêneros e os estilos da ação. A formação de uma ação responde a um processo preciso, trata-se de um trabalho sobre seus pressupostos constitutivos: a atividade e as operações. Em contrapartida, só a ação pode alimentar o desenvolvimento do sistema de atividades pessoais e sociais do sujeito, e de seus instrumentos operatórios e subjetivos. Mediante o estilo, a ação deixa marcas na memória pessoal e na memória social dos gêneros. Ela só existe no círculo aberto das atividades vitais do sujeito entre outros sujeitos, no mundo. A ação do sujeito é o tempo ao longo do qual ele se liberta do curso de suas atividades pela via do desenvolvimento dessas atividades, eis o paradoxo da ação. A atividade de trabalho é também obra e ação. O trabalho é ação e possui uma função psicológica precisamente porque põe o sujeito à prova de suas obrigações práticas e vitais em relação aos outros e ao mundo. Mas, inversamente, a ação é um trabalho, necessita libertar-se da ação no curso da atividade. Essa libertação se realiza, quando se realiza, por meio do desenvolvimento das atividades do sujeito. Estas “tiram” o sujeito de si mesmo, dando-lhe ocasião de recomeçar sua história subjetiva. Esse agir passa pela coanálise dos estilos de ação com os próprios trabalhadores. Graças a métodos de autoconfrontação cruzada que reproduzem e amplificam a atividade dirigida habitual dos trabalhadores. A multiplicação e o confronto de estilos do mesmo gênero tornam 7 II CONGRESSO BRASILEIRO DE ESTUDOS ORGANIZACIONAIS Uberlândia, 19 a 21 de novembro de 2014 este último visível e passível de ser discutido. Há entre aquilo que os trabalhadores fazem, aquilo que dizem que fazem e aquilo que fazem daquilo que dizem, toda uma gama de níveis de elaboração da experiência profissional. A atividade pessoal só é construída nessa e contra essa corrente, mediante a apropriação do gênero. Este, longe de ser um sistema abstrato de normas, sempre igual a si mesmo, vê-se absorvido na ação de um coletivo, dilacerado pelas contradições vivas de um dado meio de trabalho, para eventualmente voltar, saturado de variantes e prenhe de nuanças, com uma estabilidade que é igualmente sempre provisória. Os gêneros são no final a integral dos equívocos que sua história neles permitiu persistir. Dispor dos gêneros é algo que sempre requer que o sujeito neles introduza algo seu. REFERÊNCIA CLOT, Yves. A função psicológica do trabalho. Petrópolis, RJ. Vozes, 2007. 8