Restauração de gravações - Audio List
Restauração de Gravações
Sim, é Possível!
Esse artigo, de autoria de Sólon do Valle, foi originalmente publicado na revista
Áudio, Música e Tecnologia e reproduzido aqui com autorização do autor.
Tudo pode ser feito em estilo grandioso ou modesto. Mas nem sempre a grandiosidade é
um bem necessário. Imaginem João Gilberto cantando com duas sinfônicas, ao estilo de
Pavarotti: simplesmente não funcionaria. Ou vice-versa: Pavarotti, voz e violão...
É claro que, no mundo, há lugar para coisas grandes e caras, e também para coisas
pequenas e simples – o que quer dizer que coisas baratas e boas podem existir, e mesmo
ser a melhor opção.
Este é o caso dos softwares "baratos" de restauração sonora. Muitos deles, operando no
ambiente de um modesto home studio, podem levar a surpreendentes e satisfatórios
resultados... dependendo do par de ouvidos e das mãos que o controlam.
Os processos atuais de redução de ruídos de gravações antigas vêm do tempo da II Guerra Mundial. É
claro que, naquele horrendo cenário, música não era a principal preocupação. No entanto, foram
inventados incríveis processos para retirar ruídos de transmissões de rádio, cujos descendentes agora,
com a maturidade dos microcomputadores, são empregados para restaurar gravações antigas. Esses
processos têm, também, aplicações na área forense: muitos crimes já foram desvendados através de
gravações de péssima qualidade que, após restauradas, forneceram provas impressionantemente
claras.
Felizmente, nas gravações de música, os ruídos gerados pelo envelhecimento da mídia são, em grande
parte, diferentes dos "ruídos" gerados por instrumentos musicais, de modo que, através de algoritmos
matemáticos que "entendam" essas diferenças, é possível separar o joio do trigo.
No lado altamente sofisticado, onde funcionam as empresas conceituadas de restauração e
masterização, os custos com equipamentos vão da casa das dezenas de milhares até a centenas de
milhares de dólares, com resultados realmente impressionantes em termos de remoção de impurezas
sonoras. É claro que os preços desse trabalho são elevados, o que é essencial para que se possa
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atingir os espetaculares produtos que saem dessas casas.
Vem então a pergunta óbvia: "mas existe restauração barata?", e a resposta é sim. Não esperemos,
naturalmente, gastar US$ 500 e ter o mesmo resultado que um equipamento de US$ 100 mil. Mas,
surpreendentemente, podem-se obter restaurações bastante satisfatórias gastando uma quantia
razoável.
O Cedar, o NoNoise e a Nobreza
O equipamento da Cedar Audio foi o primeiro equipamento digital de sucesso na área de restauração, e
continua sendo o líder em termos de qualidade, transparência... e custo. Os processadores Cedar são
autônomos: são unidades para rack, com toda a eletrônica contida em suas caixas, com excelentes
controles e displays. Existem também placas Cedar para uso com MacIntosh ou com PC, devidamente
acompanhadas do software de processamento. A performance é também muito alta. Para se ter um
sistema Cedar topo de linha, gasta-se mais de 100 mil dólares com o set-up, fora os outros itens
necessários, como uma console pequena mas "classe A", monitoração, toca-discos, tape decks de
primeira e equipamento para gravação e masterização, mais mídia.
O NoNoise, plugin da workstation Sonic Solutions, é outro nobre pioneiro. Usando o poder de
processamento da Sonic, permite obter resultados quase tão bons quanto os da família Cedar. Várias
casas de restauração possuem os dois sistemas, sendo virtualmente capazes de resolver qualquer
caso.
Muitos CDs de relançamentos e coletâneas, "remasterizados" e com som de primeira, podem
perfeitamente ser originários de fitas meio estragadas ou até de discos de vinil!
Princípios da Restauração
A restauração por software é um conjunto de processos que, aplicados à cópia digital de um sinal,
reduz a níveis imperceptíveis, ruídos de vários tipos, introduzidos por degradação da mídia ou já
presentes na gravação original. Nem todos os processos precisam ser desempenhados pelo mesmo
sistema, podendo-se escolher, entre mais de um pacote, os melhores efeitos de cada um.
Após a redução de ruídos, prepara-se o sinal para a versão final (a que é entregue ao interessado).
Para isto, pode-se comprimir/limitar a dinâmica para maior volume, equalizar-se e normalizar os sinais,
estabelecendo a sonoridade final de acordo com o padrão e o estilo desejado.
É assim que uma cópia restaurada de um LP pode, opcionalmente, ter o mesmo "som de vinil" mas
sem chiados e estalos, ou então pode adquirir "som de CD", com o timbre e a dinâmica atualmente
usados na masterização dos CDs comerciais.
Os ruídos encontrados nas gravações a serem restauradas são:
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Clicks: estalos de grande amplitude, mas curtíssima duração: são aqueles de sonoridade bem
aguda. Fáceis de eliminar por software.
Cracks: estalos e outros ruídos de amplitude menor que a dos clicks, mas de duração mais
longa. Às vezes se parecem com instrumentos de percussão, e enganam o software. Precisam
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de mais cuidado nos ajustes e de um algoritmo diferente dos clicks.
Hiss: chiado, geralmente originário de fita magnética ou do atrito da agulha. Pode em geral ser
reduzido a níveis muito baixos. Quando é muito forte, exige mais do hardware e do operador
também, para bom resultado.
Buzz: zumbidos, como hum e outros ruídos induzidos pela rede elétrica. Têm freqüência fixa e
são geralmente fáceis de se reduzir.
Rumble: ruído muito grave, produzido pela vibração em toca-discos. Às vezes é difícil de se
eliminar, pois confunde-se com os graves da música.
Além dos ruídos, são comuns faltas (e às vezes excessos) de graves e de agudos. Quando se trata
apenas de um desequilíbrio na equalização, isso é obviamente fácil de se corrigir com bons ouvidos e
um equalizador razoavelmente poderoso. Mas, em gravações muito antigas ou cópias mal feitas, é
comum encontrarmos perdas em ambas as extremidades do espectro de áudio. Como as freqüências
deficientes estão irremediavelmente perdidas, não há equalizador capaz de "ressuscitá-las". Existem,
para isto, softwares que recompõem graves e agudos, respectivamente através da síntese de subharmônicos e de harmônicos das freqüências em bandas vizinhas àquelas perdidas.
Antes de Tudo...
Antes de pôr os softwares em ação, é preciso usar dois dispositivos bastante poderosos na eliminação
de ruídos: água e sabão! Uma boa lavagem em água corrente, com sabonete líquido, às vezes tira 80%
dos ruídos, quando eles provêm de sujeira que aderiu ao sulco do disco.
Enxágüe muito bem para remover todo o sabão. Secar não é uma medida importante: um pouco de
umidade ajuda a agulha a deslizar, e amortece movimentos rápidos (estalos). Eu, em particular, nem
chego a enxugar os discos; apenas os sacudo para retirar a água empoçada, e os ponho para tocar
ainda bem molhados. Qualquer sinal de eletricidade estática é eliminado desta maneira.
Eliminando os Clicks-Monstros
Eu chamo de "clicks-monstros" aqueles provenientes de arranhões profundos. Geralmente, são tão
grandes que o software não consegue eliminá-los automaticamente. Para esta fase da limpeza, as
ferramentas são um editor de ondas com removedor de clicks, como o Click Removal, plugin do
programa Sound Forge, e muita paciência. Ouve-se cada faixa, identificando a posição e a amplitude
dos clicks-monstros. Pode-se configurar o programa para eliminar os clicks automaticamente,
especificando a amplitude mínima para detecção e outros parâmetros como largura do impulso e
proximidade de outros impulsos, para que sejam identificados os clicks-monstros, e assim tentar
removê-los automaticamente, gastando pouco tempo nesta operação. Porém, esses ajustes são muito
críticos. Um pouco a menos, e o software falha em remover estalos; um pouco a mais, e transientes da
música são prejudicados.
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Sinal original: clicks-monstros assinalados com setas
Então, o melhor é se armar de muita paciência, e examinar os estalos caso a caso, eliminando-os
manualmente com auxílio de um programa. Três técnicas podem ser usadas: a emenda, a interpolação
e a substituição. A emenda consiste em simplesmente cortar o click, e emendar as pontas das ondas. O
resultado é grosseiro, pois ao fim de muitos cortes a música fica menor, e os "pulos" são audíveis. A
técnica de interpolação consiste em cortar os clicks e emendar as pontas com uma reta, ou então uma
curva tangente aos dois segmentos. Os resultados são muito melhores, sendo muito menos audíveis e
não mudando a duração da faixa. A técnica de substituição é mais sofisticada, consistindo em substituir
o espaço deixado pela extração do click por uma onda cuja forma é a média entre o sinal logo antes e o
sinal logo após o click. A técnica de interpolação é perfeita para clicks muito estreitos, não afetando em
quase nada a forma de onda de um sinal que, geralmente, é de freqüências mais baixas e de
comprimentos de onda bem maiores do que a duração do click. Quando o click é assustadoramente
alto e largo, a técnica de substituição oferece resultado menos audível do que a de interpolação.
Na prática, uma ou outra técnica oferece melhor resultado, dependendo da forma de onda sobre a qual
o clic está superposto. Em trechos muito inclinados, às vezes a substituição cria uma "onda" artificial,
pior do que a linha reta ou a curva tangente.
O esforço despendido nesta remoção manual é amplamente recompensado pelo resultado: ao fim da
operação, a música estará bem mais limpa, contendo apenas estalos de pequena intensidade, como se
o disco fosse muito mais novo e bem conservado.
A seqüência mostra a eliminação de um click grande:
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1º – O click;
2º – O click marcado e o uso do Click Removal, da Sonic Foundry;
3º – O click já totalmente removido
Retirando Clicks e Cracks
Quando a música não contém clicks-monstros, o resultado deste processo é muito melhor. Muitos
softwares tratam separadamente os clicks e os cracks e, se for possível fazer os processos
independentemente, tanto melhor. Inicialmente, desliga-se o removedor de clicks, ficando só com o de
cracks acionado, e faz-se a primeira calibragem. Para avaliar os resultados, os melhores softwares
dispõem de recursos como ouvir só o que está sendo removido, e/ou de uma espécie de osciloscópio
onde aparecem superpostos a ação do filtro e o sinal. Quando a remoção não é ainda a suficiente,
pode-se ouvir estalos na música e o filtro está bem abaixo do sinal no display. Quando a ação é
exagerada, o display mostra a ação do processador ultrapassando a amplitude do sinal, indicando que
parte dele está se perdendo. Enquanto isso, monitorando-se o que se está removendo, pode-se ouvir
música.
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Depois, adiciona-se o declicker e repete-se o processo. Em seguida, vai-se variando levemente a ação
do decrackler e a do declicker, sempre ouvindo o resultado, e se possível a diferença, observando-se
também o display para que o máximo de estalos seja removido sem afetar a música. Este compromisso
é crítico. Muitas vezes, ouve-se música ao monitorar o ruído removido, sem que isso chegue a afetar o
resultado. E, às vezes, é preferível tolerar um estalo ou outro a se remover conteúdo da música.
Estes ajustes exigem, também, paciência, bons ouvidos e bom senso para que se saiba até onde é
possível chegar. Em compensação, ao ouvir a faixa sem estalos, a "satisfação parcial" já será grande.
Algorithmix Sound Laundry em ação: à esquerda em cima, controle
de reprodução; à direita em cima, seletor de plugins; em baixo, da
esq. para a dir.: painel e display de Descratcher, janela de
parâmetros de FFT e painel e display do DeNoiser
Denoiser: Retirando o Hiss e os Zumbidos
A remoção de hiss (chiado) usa outro método, já que o tipo de ruído é totalmente diferente. Os estalos
são ruídos impulsivos e aleatórios, enquanto o hiss é contínuo e de característica constante. A retirada
do chiado se baseia na mesma técnica usada para a análise de espectro: a transformada rápida de
Fourier ou simplesmente FFT. A FFT é um processo pesado de computação, através do qual as
amplitudes das várias freqüências que compõem um som ou ruído podem ser identificadas. Quanto
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maior a precisão deste processo, maior a velocidade requerida do computador. Na maioria dos
softwares de restauração, esta precisão é expressa por dois parâmetros: FFT Size e Overlap.
FFT Size é o número de bandas, de largura constante em Hertz, em que o sinal é analisado. Por
exemplo, se a banda de áudio é de 20kHz e FFT Size é 2048, a precisão é de 20.000 ÷ 2048 = 10Hz
aproximadamente. Se FFT Size é de 8192 (sempre é uma potência de 2), a precisão é de 2,5Hz, ou
seja, quatro vezes melhor. Neste processo, geralmente usa-se FFT Size de 2048 a 8192. Um FFT Size
de 1024 ou menos produz resultados grosseiros, e de 16384 ou maior torna o processo penosamente
lento, sem resultados sensivelmente melhores. O valor mais usado é de 4096, que dá um bom
compromisso de velocidade × precisão. O parâmetro Overlap corresponde à superposição entre as
bandas, o que determina também a qualidade do resultado. Um overlap muito baixo (20% ou menos)
permite um processamento rápido, mas produz piores resultados; um overlap de mais de 90% torna o
processo lento e produz uma sonoridade um pouco "velada". Geralmente, os valores de melhor
compromisso vão de 60% a 80%, sendo 75% possivelmente o valor ideal. Se fosse viável obter
precisão "infinita" (FFT Size enorme), não haveria necessidade de Overlap. Portanto, os valores destes
dois parâmetros interagem de forma que, reduzindo-se FFT Size, tem-se que aumentar Overlap. Como
já vimos, os valores "padrão" são, respectivamente, 4096 e 75%. Mas, se você tem um bom
computador, valores mais altos (8192 ou 16384) nunca são demais.
Creamware tripleDAT com plugin Osiris em ação. Em cima,
controles gerais e forma de onda; no meio, da esq. para a dir.:
painel do Declicker/Decrackler e seletor de plugins; em baixo, da
esq. para a dir.: controles do Denoiser, display do Denoiser e
controles de FFT.
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Como funciona o processo? Se o ruído tem uma característica bem definida, por exemplo, se é ruído
branco ou hum de 60Hz, pode-se usar um espectro pré-definido. Se o ruído, porém, não se encaixa
diretamente em nenhuma destas categorias, é preciso analisá-lo e determinar quais as freqüências que
o compõem, e em que amplitudes. Para isto, faz-se uma amostragem apenas do ruído (por exemplo,
entre duas faixas de um disco, onde não há música), para que o sistema possa determinar o espectro
do ruído. Com o espectro determinado, temos os elementos para realizar a "limpeza" propriamente dita.
Os parâmetros a serem ajustados são dois: o Threshold (limiar) do ruído, e a quantidade de ruído a ser
retirada. Em geral, pode-se começar estipulando uma redução em torno de 30dB. O limiar é
determinado de ouvido e/ou através do display. Deve-se determinar o nível no qual se remove o
máximo de ruído de fundo sem, contudo, afetar a música. Isto pode ser observado no display: quando a
música cai abaixo do threshold (uma curva semelhante ao espectro do ruído), perde-se substância no
sinal de saída. Estabelecido o limiar aproximadamente ideal, o ajuste final é obtido de ouvido, pela
interação entre os ajustes de threshold e de redução, ouvindo-se alternadamente o sinal de entrada
(não processado), o de saída, e se possível o ruído removido, para constatar-se que o mínimo de
música e o máximo possível de ruído estão sendo removidos.
Durante o processo de denoising (redução de ruído), especialmente se são usados baixos valores de
FFT Size e Overlap, surgem, sobrepostos ao sinal de saída, ruídos de aliasing ou "artefatos". Estes
parecem sinais "vindos de Marte", com a mesma cadência da música, mas com freqüências que nada
têm a ver com as do sinal puro. Para evitar a interferência destes "marcianos", é preciso aumentar a
precisão da FFT, o que exige maior velocidade de processamento do computador. Mesmo com tudo
otimizado, se estes E.T.s ainda aparecerem, o jeito será se contentar com um pouco mais de ruído,
abaixando o threshold e/ou diminuindo a profundidade da redução de ruído. Novamente o processo é
auditivo/interativo, estabelecendo o equilíbrio ideal entre a música e os "artefatos" da FFT.
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Sound Forge e plugins em ação. No sentido horário: painel de
seleção de plugins; forma de onda original; painel de Noise
Reduction (denoiser) mostrando espectro do ruído de fundo;
controles do Click Removal em modo automático
É possível processar o sinal "off line", em tempo maior do que o tempo real da música. Neste caso, o
resultado só poderá ser avaliado ao final e não durante o processamento, mas mesmo com um
computador lerdo será possível obter resultados de alta qualidade. Para avaliação, diferentes métodos
podem ser empregados. O mais comum é processar, só para efeito de calibragem, apenas um dos
canais (L ou R), reduzindo assim pela metade o tempo de processamento. Não esqueça, depois, de
retornar ao modo normal de estéreo antes de fazer a limpeza final! Outro método é o de obter um
resultado "quase aceitável" durante os testes em tempo real, depois aumentando o valor de FFT Size e/
ou de Overlap e mexendo no Threshold até que os "artefatos" e o ruído de fundo deixem de incomodar.
Este é um método de tentativa e erro, atingindo-se o resultado ideal depois de algumas vezes
frustradas.
Acima: a onda com clicks pequenos e ruído de fundo; abaixo: a
mesma onda, após ser processada pelo Osiris. Observe no início,
onde o sinal é pequeno, a redução dos ruídos
Equalizando e Filtrando
Com certos tipos de ruído e com equalizadores muito poderosos, é possível reduzir ou eliminar certas
interferências sem as dificuldades do Denoiser. Exemplos disso são o ruído proveniente de aterramento
deficiente (60Hz quase puro) e o ruído de fonte de alimentação (120Hz quase puro). Tendo um
equalizador com filtro "notch" (corte estreitíssimo), basta sintonizar exatamente nessas freqüências,
estabelecer um Q (seletividade do filtro) extremamente alto, e ir atenuando o ganho até que o ruído
deixe de ser audível. Com Q de 40 ou mais e corte de 20 a 30dB (quanto mais alto o Q, maior o corte
possível), o efeito sobre a música é praticamente imperceptível.
O rumble de toca-discos é um ruído extremamente grave, de freqüência muitas vezes abaixo de
qualquer freqüência da música. Além de ser auditivamente incômodo, gasta potência desnecessária do
amplificador e dos alto-falantes. Determinando-se a freqüência mais baixa existente na música, aplicahttp://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (9 de 12)29/3/2008 16:16:23
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se um filtro de corte de baixas freqüências exatamente nesse ponto, deixando passar todas as
freqüências originais da música e eliminando aquelas desnecessárias. Este procedimento deve ser
aplicado sempre que não for possível utilizar valores muito altos de FFT Size, o que acarreta baixa
precisão deste processo nas freqüências muito graves. A partir das freqüências musicais, toda redução
de ruído somente poderá ser feita pelo Denoiser. Em geral, a soma dos dois métodos (Denoiser + EQ)
produz resultados excelentes.
Nas freqüências altas, não adianta "puxar " agudos que não existem. O melhor é fazer exatamente o
contrário: aplicar um filtro passa-baixas a princípio perto de 20kHz, e ir baixando a freqüência de corte –
se possível, conferindo também o Q e a inclinação (dB/oitava) do filtro, até começar a perceber que se
estão perdendo agudos. É impressionante descobrir que, às vezes, se desce até 10 ou 12 kHz sem
sentir a menor diferença. Supondo, é claro, que seus ouvidos ouçam pelo menos até 16kHz...
A aplicação de EQ para a correção da resposta segue os "manjados" princípios da equalização, comum
em todos os sistemas de áudio. Porém, algumas vezes as freqüências extremas (graves e agudos)
foram completamente perdidas, e não há nem mais o que equalizar.
Síntese Harmônica: Chegando Perto do Milagre
É claro que não podemos fazer milagres, mas alguns princípios podem ser usados na prática, e no
caso, vamos pensar nos harmônicos. É fato sabido que o som de qualquer instrumento ou voz é
formado por uma freqüência fundamental (aquela que determina a nota musical) e por freqüências
harmônicas, que são múltiplos da fundamental. Assim, podemos pensar em duas coisas:
Os instrumentos mais graves produzem harmônicos, que recaem em faixas mais altas dos
próprios graves ou mesmo na faixa mais baixa dos médios;
Os instrumentos que produzem freqüências muito altas têm também freqüências na região mais
baixa dos agudos, ou mesmo na região mais alta dos médios.
Se tomarmos freqüências próximas ao limite dos graves com os médios-graves e as dividirmos,
mediante software (FFT), por 2, 3 ou 4, encontraremos muito provavelmente as fundamentais dos
instrumentos que produzem harmônicos nessa faixa. Por exemplo, se dividirmos 220Hz por 4,
encontraremos 55Hz, que é o Lá da terceira corda do baixo, solta. Com ouvido, musicalidade e muita
atenção e alguma paciência, conseguimos, com este processo, recriar quase exatamente o "peso"
perdido de instrumentos como o baixo, o bumbo e o surdo. Mesmo em casos mais sérios, onde a perda
começa já nos médios (por exemplo, discos de gramofone), ainda é possível acrescentar mais "corpo"
ao som restaurado.
Pelo outro extremo, se multiplicarmos freqüências médias/altas por fatores pequenos (de 2 a 10), com
alguns ajustes conseguiremos obter artificialmente agudos acima de 12 kHz, com resultados bastante
realistas. Novamente, é preciso ter bons ouvidos, determinação e atenção para se chegar ao resultado
ideal. Mesmo em discos muito antigos, em que a resposta de freqüências mal chega aos 2kHz, estendêla até uns 6kHz já é um tremendo benefício. Num caso imaginário, em que a resposta chegue aos
8kHz, é simples estendê-la até, por exemplo, 16kHz: partimos de cerca de 2kHz, multiplicados por 4,
até 8kHz multiplicados por 2. O reforço deve ser pequeno em 2kHz e máximo em 8kHz, para um timbre
mais natural. Porém, este exemplo é apenas figurativo. Na prática, o ideal é fazer este ajuste
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puramente de ouvido, mudando-se interativamente a gama de freqüências multiplicadas, a intensidade
de cada um dos fatores de multiplicação, e a intensidade geral do efeito, até chegar a um resultado ao
mesmo tempo eficiente e natural. Deve-se, também, experimentar apenas com fatores pares, ímpares,
ou combinações em diferentes proporções de todos eles.
Dois bons plugins para síntese de graves e de agudos. Respectivamente, à
esquerda o MaxxiBass da Waves e à direita, o Aural Enhancer da Event
A síntese harmônica/sub-harmônica e a equalização, por mexerem ambas com a resposta de
freqüências, interagem muito. Sempre que se usa síntese, é bom depois retocar a equalização, a fim de
atingir o equilíbrio ideal no sinal restaurado.
Concluindo o Processo...
A esta altura, o material já estará com uma sonoridade muito, muito melhor do que a original. Basta
agora comprimir o sinal (não é obrigatório, mas pode-se aumentar o volume médio, de acordo com a
tendência atual de dar valor à quantidade), e depois normalizar a gravação, isto é, chegar a 0dB nos
picos máximos. A gravação estará praticamente no padrão atual.
Discos antigos (até os anos 50) geralmente são monofônicos. Levando-se em conta que o processo de
Denoising (retirada de ruído de fundo) às vezes tira um pouco de "ar" da gravação, você poderá
recuperar os prolongamentos perdidos das notas com uma pitadinha de reverb, fácil de se adicionar
nos softwares de edição de som. Como o efeito é estéreo, de quebra seu resultado final terá maior
espacialidade do que o original.
O Software
Atualmente, há vários softwares disponíveis no mercado, alguns deles com resultados muito bons.
Vamos dar, a título de ilustração, alguns exemplos:
Creamware tripleDAT, com plugins Osiris e FireWalkers: declicker, denoiser (FFT até
4096), síntese harmônica (todos com displays), EQ paramétrico com 8 bandas (Q até 100),
compressor/limitador, normalização e reverb. Distribuidor: Interwave.
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Algorythmix Sound Laundry: declicker, denoiser (FFT até 4096), DC Removal, filtros
passa-altas e passa-baixas com inclinação ajustável, todos com display. Player com "cue"
e reprodução em loop. Existe a versão Lite, apenas com declicker e denoiser, a baixo
custo. Distribuidor: Interwave.
Sonic Foundry Sound Forge com Click Removal, Noise Reduction e Vynil Restoration:
Remoção manual ou automática de clicks, redução de ruído (FFT até 16384);
equalizadores gráfico e paramétrico; normalização e compressão; reverb; síntese de
harmônicos básica; outros efeitos através de plugins DirectX. Distribuidor: Quanta.
Dart Pro: Declicker com vários ajustes e preview (não em tempo real), denoiser com
amostragem e várias opções, edição ponto-a ponto, todos com displays e gerando
arquivos intermediários, para avaliação. Não tem EQ, reverb, etc..
Plugins de Redução de Ruídos: Há plugins de vários fabricantes, que se propõem a
fazer restauração. A maioria deles usa o protocolo DirectX, sendo compatíveis com
softwares que usam essa tecnologia. Os resultados vão desde ridículos até aceitáveis,
geralmente não se comparando aos softwares específicos.
Há ainda vários outros softwares, com resultados e preços variados. Ao comprar software, é
interessante que o programa base seja compatível com o protocolo DirectX, abrindo assim caminho
para centenas de plugins disponíveis no mercado.
A restauração é uma arte comparável a qualquer processo criativo, podendo dar grande prazer desde a
colecionadores, que passam a ter suas preciosidades protegidas em CDs ou outras mídias
contemporâneas, até a grandes gravadoras que podem relançar sucessos que, de outra forma,
estariam para sempre perdidos. Existem empresas que investem muitos milhares de dólares em
equipamentos com resultados inacreditáveis, e que atendem a gravadoras e a grandes projetos; e
existem empresas que, com alguns milhares de dólares e muita dedicação também, atendem a projetos
menores ou a clientes particulares, com custos bastante acessíveis. E a restauração pode ser um
delicioso hobby também!
Sólon do Valle, engenheiro, consultor em Áudio e Acústica, é o editor técnico da
M&T.
http://www.musitec.com.br
Nota:
Veja também outros textos relacionados nas páginas FAQ (diversos e som residencial) e
HIFI. Os links para os sites dos fabricantes podem ser encontrados nas páginas STUDIO e
BIBLIOTECA.
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