Restauração de gravações - Audio List Restauração de Gravações Sim, é Possível! Esse artigo, de autoria de Sólon do Valle, foi originalmente publicado na revista Áudio, Música e Tecnologia e reproduzido aqui com autorização do autor. Tudo pode ser feito em estilo grandioso ou modesto. Mas nem sempre a grandiosidade é um bem necessário. Imaginem João Gilberto cantando com duas sinfônicas, ao estilo de Pavarotti: simplesmente não funcionaria. Ou vice-versa: Pavarotti, voz e violão... É claro que, no mundo, há lugar para coisas grandes e caras, e também para coisas pequenas e simples – o que quer dizer que coisas baratas e boas podem existir, e mesmo ser a melhor opção. Este é o caso dos softwares "baratos" de restauração sonora. Muitos deles, operando no ambiente de um modesto home studio, podem levar a surpreendentes e satisfatórios resultados... dependendo do par de ouvidos e das mãos que o controlam. Os processos atuais de redução de ruídos de gravações antigas vêm do tempo da II Guerra Mundial. É claro que, naquele horrendo cenário, música não era a principal preocupação. No entanto, foram inventados incríveis processos para retirar ruídos de transmissões de rádio, cujos descendentes agora, com a maturidade dos microcomputadores, são empregados para restaurar gravações antigas. Esses processos têm, também, aplicações na área forense: muitos crimes já foram desvendados através de gravações de péssima qualidade que, após restauradas, forneceram provas impressionantemente claras. Felizmente, nas gravações de música, os ruídos gerados pelo envelhecimento da mídia são, em grande parte, diferentes dos "ruídos" gerados por instrumentos musicais, de modo que, através de algoritmos matemáticos que "entendam" essas diferenças, é possível separar o joio do trigo. No lado altamente sofisticado, onde funcionam as empresas conceituadas de restauração e masterização, os custos com equipamentos vão da casa das dezenas de milhares até a centenas de milhares de dólares, com resultados realmente impressionantes em termos de remoção de impurezas sonoras. É claro que os preços desse trabalho são elevados, o que é essencial para que se possa http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (1 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List atingir os espetaculares produtos que saem dessas casas. Vem então a pergunta óbvia: "mas existe restauração barata?", e a resposta é sim. Não esperemos, naturalmente, gastar US$ 500 e ter o mesmo resultado que um equipamento de US$ 100 mil. Mas, surpreendentemente, podem-se obter restaurações bastante satisfatórias gastando uma quantia razoável. O Cedar, o NoNoise e a Nobreza O equipamento da Cedar Audio foi o primeiro equipamento digital de sucesso na área de restauração, e continua sendo o líder em termos de qualidade, transparência... e custo. Os processadores Cedar são autônomos: são unidades para rack, com toda a eletrônica contida em suas caixas, com excelentes controles e displays. Existem também placas Cedar para uso com MacIntosh ou com PC, devidamente acompanhadas do software de processamento. A performance é também muito alta. Para se ter um sistema Cedar topo de linha, gasta-se mais de 100 mil dólares com o set-up, fora os outros itens necessários, como uma console pequena mas "classe A", monitoração, toca-discos, tape decks de primeira e equipamento para gravação e masterização, mais mídia. O NoNoise, plugin da workstation Sonic Solutions, é outro nobre pioneiro. Usando o poder de processamento da Sonic, permite obter resultados quase tão bons quanto os da família Cedar. Várias casas de restauração possuem os dois sistemas, sendo virtualmente capazes de resolver qualquer caso. Muitos CDs de relançamentos e coletâneas, "remasterizados" e com som de primeira, podem perfeitamente ser originários de fitas meio estragadas ou até de discos de vinil! Princípios da Restauração A restauração por software é um conjunto de processos que, aplicados à cópia digital de um sinal, reduz a níveis imperceptíveis, ruídos de vários tipos, introduzidos por degradação da mídia ou já presentes na gravação original. Nem todos os processos precisam ser desempenhados pelo mesmo sistema, podendo-se escolher, entre mais de um pacote, os melhores efeitos de cada um. Após a redução de ruídos, prepara-se o sinal para a versão final (a que é entregue ao interessado). Para isto, pode-se comprimir/limitar a dinâmica para maior volume, equalizar-se e normalizar os sinais, estabelecendo a sonoridade final de acordo com o padrão e o estilo desejado. É assim que uma cópia restaurada de um LP pode, opcionalmente, ter o mesmo "som de vinil" mas sem chiados e estalos, ou então pode adquirir "som de CD", com o timbre e a dinâmica atualmente usados na masterização dos CDs comerciais. Os ruídos encontrados nas gravações a serem restauradas são: ❍ ❍ Clicks: estalos de grande amplitude, mas curtíssima duração: são aqueles de sonoridade bem aguda. Fáceis de eliminar por software. Cracks: estalos e outros ruídos de amplitude menor que a dos clicks, mas de duração mais longa. Às vezes se parecem com instrumentos de percussão, e enganam o software. Precisam http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (2 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List ❍ ❍ ❍ de mais cuidado nos ajustes e de um algoritmo diferente dos clicks. Hiss: chiado, geralmente originário de fita magnética ou do atrito da agulha. Pode em geral ser reduzido a níveis muito baixos. Quando é muito forte, exige mais do hardware e do operador também, para bom resultado. Buzz: zumbidos, como hum e outros ruídos induzidos pela rede elétrica. Têm freqüência fixa e são geralmente fáceis de se reduzir. Rumble: ruído muito grave, produzido pela vibração em toca-discos. Às vezes é difícil de se eliminar, pois confunde-se com os graves da música. Além dos ruídos, são comuns faltas (e às vezes excessos) de graves e de agudos. Quando se trata apenas de um desequilíbrio na equalização, isso é obviamente fácil de se corrigir com bons ouvidos e um equalizador razoavelmente poderoso. Mas, em gravações muito antigas ou cópias mal feitas, é comum encontrarmos perdas em ambas as extremidades do espectro de áudio. Como as freqüências deficientes estão irremediavelmente perdidas, não há equalizador capaz de "ressuscitá-las". Existem, para isto, softwares que recompõem graves e agudos, respectivamente através da síntese de subharmônicos e de harmônicos das freqüências em bandas vizinhas àquelas perdidas. Antes de Tudo... Antes de pôr os softwares em ação, é preciso usar dois dispositivos bastante poderosos na eliminação de ruídos: água e sabão! Uma boa lavagem em água corrente, com sabonete líquido, às vezes tira 80% dos ruídos, quando eles provêm de sujeira que aderiu ao sulco do disco. Enxágüe muito bem para remover todo o sabão. Secar não é uma medida importante: um pouco de umidade ajuda a agulha a deslizar, e amortece movimentos rápidos (estalos). Eu, em particular, nem chego a enxugar os discos; apenas os sacudo para retirar a água empoçada, e os ponho para tocar ainda bem molhados. Qualquer sinal de eletricidade estática é eliminado desta maneira. Eliminando os Clicks-Monstros Eu chamo de "clicks-monstros" aqueles provenientes de arranhões profundos. Geralmente, são tão grandes que o software não consegue eliminá-los automaticamente. Para esta fase da limpeza, as ferramentas são um editor de ondas com removedor de clicks, como o Click Removal, plugin do programa Sound Forge, e muita paciência. Ouve-se cada faixa, identificando a posição e a amplitude dos clicks-monstros. Pode-se configurar o programa para eliminar os clicks automaticamente, especificando a amplitude mínima para detecção e outros parâmetros como largura do impulso e proximidade de outros impulsos, para que sejam identificados os clicks-monstros, e assim tentar removê-los automaticamente, gastando pouco tempo nesta operação. Porém, esses ajustes são muito críticos. Um pouco a menos, e o software falha em remover estalos; um pouco a mais, e transientes da música são prejudicados. http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (3 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List Sinal original: clicks-monstros assinalados com setas Então, o melhor é se armar de muita paciência, e examinar os estalos caso a caso, eliminando-os manualmente com auxílio de um programa. Três técnicas podem ser usadas: a emenda, a interpolação e a substituição. A emenda consiste em simplesmente cortar o click, e emendar as pontas das ondas. O resultado é grosseiro, pois ao fim de muitos cortes a música fica menor, e os "pulos" são audíveis. A técnica de interpolação consiste em cortar os clicks e emendar as pontas com uma reta, ou então uma curva tangente aos dois segmentos. Os resultados são muito melhores, sendo muito menos audíveis e não mudando a duração da faixa. A técnica de substituição é mais sofisticada, consistindo em substituir o espaço deixado pela extração do click por uma onda cuja forma é a média entre o sinal logo antes e o sinal logo após o click. A técnica de interpolação é perfeita para clicks muito estreitos, não afetando em quase nada a forma de onda de um sinal que, geralmente, é de freqüências mais baixas e de comprimentos de onda bem maiores do que a duração do click. Quando o click é assustadoramente alto e largo, a técnica de substituição oferece resultado menos audível do que a de interpolação. Na prática, uma ou outra técnica oferece melhor resultado, dependendo da forma de onda sobre a qual o clic está superposto. Em trechos muito inclinados, às vezes a substituição cria uma "onda" artificial, pior do que a linha reta ou a curva tangente. O esforço despendido nesta remoção manual é amplamente recompensado pelo resultado: ao fim da operação, a música estará bem mais limpa, contendo apenas estalos de pequena intensidade, como se o disco fosse muito mais novo e bem conservado. A seqüência mostra a eliminação de um click grande: http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (4 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List 1º – O click; 2º – O click marcado e o uso do Click Removal, da Sonic Foundry; 3º – O click já totalmente removido Retirando Clicks e Cracks Quando a música não contém clicks-monstros, o resultado deste processo é muito melhor. Muitos softwares tratam separadamente os clicks e os cracks e, se for possível fazer os processos independentemente, tanto melhor. Inicialmente, desliga-se o removedor de clicks, ficando só com o de cracks acionado, e faz-se a primeira calibragem. Para avaliar os resultados, os melhores softwares dispõem de recursos como ouvir só o que está sendo removido, e/ou de uma espécie de osciloscópio onde aparecem superpostos a ação do filtro e o sinal. Quando a remoção não é ainda a suficiente, pode-se ouvir estalos na música e o filtro está bem abaixo do sinal no display. Quando a ação é exagerada, o display mostra a ação do processador ultrapassando a amplitude do sinal, indicando que parte dele está se perdendo. Enquanto isso, monitorando-se o que se está removendo, pode-se ouvir música. http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (5 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List Depois, adiciona-se o declicker e repete-se o processo. Em seguida, vai-se variando levemente a ação do decrackler e a do declicker, sempre ouvindo o resultado, e se possível a diferença, observando-se também o display para que o máximo de estalos seja removido sem afetar a música. Este compromisso é crítico. Muitas vezes, ouve-se música ao monitorar o ruído removido, sem que isso chegue a afetar o resultado. E, às vezes, é preferível tolerar um estalo ou outro a se remover conteúdo da música. Estes ajustes exigem, também, paciência, bons ouvidos e bom senso para que se saiba até onde é possível chegar. Em compensação, ao ouvir a faixa sem estalos, a "satisfação parcial" já será grande. Algorithmix Sound Laundry em ação: à esquerda em cima, controle de reprodução; à direita em cima, seletor de plugins; em baixo, da esq. para a dir.: painel e display de Descratcher, janela de parâmetros de FFT e painel e display do DeNoiser Denoiser: Retirando o Hiss e os Zumbidos A remoção de hiss (chiado) usa outro método, já que o tipo de ruído é totalmente diferente. Os estalos são ruídos impulsivos e aleatórios, enquanto o hiss é contínuo e de característica constante. A retirada do chiado se baseia na mesma técnica usada para a análise de espectro: a transformada rápida de Fourier ou simplesmente FFT. A FFT é um processo pesado de computação, através do qual as amplitudes das várias freqüências que compõem um som ou ruído podem ser identificadas. Quanto http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (6 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List maior a precisão deste processo, maior a velocidade requerida do computador. Na maioria dos softwares de restauração, esta precisão é expressa por dois parâmetros: FFT Size e Overlap. FFT Size é o número de bandas, de largura constante em Hertz, em que o sinal é analisado. Por exemplo, se a banda de áudio é de 20kHz e FFT Size é 2048, a precisão é de 20.000 ÷ 2048 = 10Hz aproximadamente. Se FFT Size é de 8192 (sempre é uma potência de 2), a precisão é de 2,5Hz, ou seja, quatro vezes melhor. Neste processo, geralmente usa-se FFT Size de 2048 a 8192. Um FFT Size de 1024 ou menos produz resultados grosseiros, e de 16384 ou maior torna o processo penosamente lento, sem resultados sensivelmente melhores. O valor mais usado é de 4096, que dá um bom compromisso de velocidade × precisão. O parâmetro Overlap corresponde à superposição entre as bandas, o que determina também a qualidade do resultado. Um overlap muito baixo (20% ou menos) permite um processamento rápido, mas produz piores resultados; um overlap de mais de 90% torna o processo lento e produz uma sonoridade um pouco "velada". Geralmente, os valores de melhor compromisso vão de 60% a 80%, sendo 75% possivelmente o valor ideal. Se fosse viável obter precisão "infinita" (FFT Size enorme), não haveria necessidade de Overlap. Portanto, os valores destes dois parâmetros interagem de forma que, reduzindo-se FFT Size, tem-se que aumentar Overlap. Como já vimos, os valores "padrão" são, respectivamente, 4096 e 75%. Mas, se você tem um bom computador, valores mais altos (8192 ou 16384) nunca são demais. Creamware tripleDAT com plugin Osiris em ação. Em cima, controles gerais e forma de onda; no meio, da esq. para a dir.: painel do Declicker/Decrackler e seletor de plugins; em baixo, da esq. para a dir.: controles do Denoiser, display do Denoiser e controles de FFT. http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (7 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List Como funciona o processo? Se o ruído tem uma característica bem definida, por exemplo, se é ruído branco ou hum de 60Hz, pode-se usar um espectro pré-definido. Se o ruído, porém, não se encaixa diretamente em nenhuma destas categorias, é preciso analisá-lo e determinar quais as freqüências que o compõem, e em que amplitudes. Para isto, faz-se uma amostragem apenas do ruído (por exemplo, entre duas faixas de um disco, onde não há música), para que o sistema possa determinar o espectro do ruído. Com o espectro determinado, temos os elementos para realizar a "limpeza" propriamente dita. Os parâmetros a serem ajustados são dois: o Threshold (limiar) do ruído, e a quantidade de ruído a ser retirada. Em geral, pode-se começar estipulando uma redução em torno de 30dB. O limiar é determinado de ouvido e/ou através do display. Deve-se determinar o nível no qual se remove o máximo de ruído de fundo sem, contudo, afetar a música. Isto pode ser observado no display: quando a música cai abaixo do threshold (uma curva semelhante ao espectro do ruído), perde-se substância no sinal de saída. Estabelecido o limiar aproximadamente ideal, o ajuste final é obtido de ouvido, pela interação entre os ajustes de threshold e de redução, ouvindo-se alternadamente o sinal de entrada (não processado), o de saída, e se possível o ruído removido, para constatar-se que o mínimo de música e o máximo possível de ruído estão sendo removidos. Durante o processo de denoising (redução de ruído), especialmente se são usados baixos valores de FFT Size e Overlap, surgem, sobrepostos ao sinal de saída, ruídos de aliasing ou "artefatos". Estes parecem sinais "vindos de Marte", com a mesma cadência da música, mas com freqüências que nada têm a ver com as do sinal puro. Para evitar a interferência destes "marcianos", é preciso aumentar a precisão da FFT, o que exige maior velocidade de processamento do computador. Mesmo com tudo otimizado, se estes E.T.s ainda aparecerem, o jeito será se contentar com um pouco mais de ruído, abaixando o threshold e/ou diminuindo a profundidade da redução de ruído. Novamente o processo é auditivo/interativo, estabelecendo o equilíbrio ideal entre a música e os "artefatos" da FFT. http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (8 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List Sound Forge e plugins em ação. No sentido horário: painel de seleção de plugins; forma de onda original; painel de Noise Reduction (denoiser) mostrando espectro do ruído de fundo; controles do Click Removal em modo automático É possível processar o sinal "off line", em tempo maior do que o tempo real da música. Neste caso, o resultado só poderá ser avaliado ao final e não durante o processamento, mas mesmo com um computador lerdo será possível obter resultados de alta qualidade. Para avaliação, diferentes métodos podem ser empregados. O mais comum é processar, só para efeito de calibragem, apenas um dos canais (L ou R), reduzindo assim pela metade o tempo de processamento. Não esqueça, depois, de retornar ao modo normal de estéreo antes de fazer a limpeza final! Outro método é o de obter um resultado "quase aceitável" durante os testes em tempo real, depois aumentando o valor de FFT Size e/ ou de Overlap e mexendo no Threshold até que os "artefatos" e o ruído de fundo deixem de incomodar. Este é um método de tentativa e erro, atingindo-se o resultado ideal depois de algumas vezes frustradas. Acima: a onda com clicks pequenos e ruído de fundo; abaixo: a mesma onda, após ser processada pelo Osiris. Observe no início, onde o sinal é pequeno, a redução dos ruídos Equalizando e Filtrando Com certos tipos de ruído e com equalizadores muito poderosos, é possível reduzir ou eliminar certas interferências sem as dificuldades do Denoiser. Exemplos disso são o ruído proveniente de aterramento deficiente (60Hz quase puro) e o ruído de fonte de alimentação (120Hz quase puro). Tendo um equalizador com filtro "notch" (corte estreitíssimo), basta sintonizar exatamente nessas freqüências, estabelecer um Q (seletividade do filtro) extremamente alto, e ir atenuando o ganho até que o ruído deixe de ser audível. Com Q de 40 ou mais e corte de 20 a 30dB (quanto mais alto o Q, maior o corte possível), o efeito sobre a música é praticamente imperceptível. O rumble de toca-discos é um ruído extremamente grave, de freqüência muitas vezes abaixo de qualquer freqüência da música. Além de ser auditivamente incômodo, gasta potência desnecessária do amplificador e dos alto-falantes. Determinando-se a freqüência mais baixa existente na música, aplicahttp://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (9 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List se um filtro de corte de baixas freqüências exatamente nesse ponto, deixando passar todas as freqüências originais da música e eliminando aquelas desnecessárias. Este procedimento deve ser aplicado sempre que não for possível utilizar valores muito altos de FFT Size, o que acarreta baixa precisão deste processo nas freqüências muito graves. A partir das freqüências musicais, toda redução de ruído somente poderá ser feita pelo Denoiser. Em geral, a soma dos dois métodos (Denoiser + EQ) produz resultados excelentes. Nas freqüências altas, não adianta "puxar " agudos que não existem. O melhor é fazer exatamente o contrário: aplicar um filtro passa-baixas a princípio perto de 20kHz, e ir baixando a freqüência de corte – se possível, conferindo também o Q e a inclinação (dB/oitava) do filtro, até começar a perceber que se estão perdendo agudos. É impressionante descobrir que, às vezes, se desce até 10 ou 12 kHz sem sentir a menor diferença. Supondo, é claro, que seus ouvidos ouçam pelo menos até 16kHz... A aplicação de EQ para a correção da resposta segue os "manjados" princípios da equalização, comum em todos os sistemas de áudio. Porém, algumas vezes as freqüências extremas (graves e agudos) foram completamente perdidas, e não há nem mais o que equalizar. Síntese Harmônica: Chegando Perto do Milagre É claro que não podemos fazer milagres, mas alguns princípios podem ser usados na prática, e no caso, vamos pensar nos harmônicos. É fato sabido que o som de qualquer instrumento ou voz é formado por uma freqüência fundamental (aquela que determina a nota musical) e por freqüências harmônicas, que são múltiplos da fundamental. Assim, podemos pensar em duas coisas: Os instrumentos mais graves produzem harmônicos, que recaem em faixas mais altas dos próprios graves ou mesmo na faixa mais baixa dos médios; Os instrumentos que produzem freqüências muito altas têm também freqüências na região mais baixa dos agudos, ou mesmo na região mais alta dos médios. Se tomarmos freqüências próximas ao limite dos graves com os médios-graves e as dividirmos, mediante software (FFT), por 2, 3 ou 4, encontraremos muito provavelmente as fundamentais dos instrumentos que produzem harmônicos nessa faixa. Por exemplo, se dividirmos 220Hz por 4, encontraremos 55Hz, que é o Lá da terceira corda do baixo, solta. Com ouvido, musicalidade e muita atenção e alguma paciência, conseguimos, com este processo, recriar quase exatamente o "peso" perdido de instrumentos como o baixo, o bumbo e o surdo. Mesmo em casos mais sérios, onde a perda começa já nos médios (por exemplo, discos de gramofone), ainda é possível acrescentar mais "corpo" ao som restaurado. Pelo outro extremo, se multiplicarmos freqüências médias/altas por fatores pequenos (de 2 a 10), com alguns ajustes conseguiremos obter artificialmente agudos acima de 12 kHz, com resultados bastante realistas. Novamente, é preciso ter bons ouvidos, determinação e atenção para se chegar ao resultado ideal. Mesmo em discos muito antigos, em que a resposta de freqüências mal chega aos 2kHz, estendêla até uns 6kHz já é um tremendo benefício. Num caso imaginário, em que a resposta chegue aos 8kHz, é simples estendê-la até, por exemplo, 16kHz: partimos de cerca de 2kHz, multiplicados por 4, até 8kHz multiplicados por 2. O reforço deve ser pequeno em 2kHz e máximo em 8kHz, para um timbre mais natural. Porém, este exemplo é apenas figurativo. Na prática, o ideal é fazer este ajuste http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (10 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List puramente de ouvido, mudando-se interativamente a gama de freqüências multiplicadas, a intensidade de cada um dos fatores de multiplicação, e a intensidade geral do efeito, até chegar a um resultado ao mesmo tempo eficiente e natural. Deve-se, também, experimentar apenas com fatores pares, ímpares, ou combinações em diferentes proporções de todos eles. Dois bons plugins para síntese de graves e de agudos. Respectivamente, à esquerda o MaxxiBass da Waves e à direita, o Aural Enhancer da Event A síntese harmônica/sub-harmônica e a equalização, por mexerem ambas com a resposta de freqüências, interagem muito. Sempre que se usa síntese, é bom depois retocar a equalização, a fim de atingir o equilíbrio ideal no sinal restaurado. Concluindo o Processo... A esta altura, o material já estará com uma sonoridade muito, muito melhor do que a original. Basta agora comprimir o sinal (não é obrigatório, mas pode-se aumentar o volume médio, de acordo com a tendência atual de dar valor à quantidade), e depois normalizar a gravação, isto é, chegar a 0dB nos picos máximos. A gravação estará praticamente no padrão atual. Discos antigos (até os anos 50) geralmente são monofônicos. Levando-se em conta que o processo de Denoising (retirada de ruído de fundo) às vezes tira um pouco de "ar" da gravação, você poderá recuperar os prolongamentos perdidos das notas com uma pitadinha de reverb, fácil de se adicionar nos softwares de edição de som. Como o efeito é estéreo, de quebra seu resultado final terá maior espacialidade do que o original. O Software Atualmente, há vários softwares disponíveis no mercado, alguns deles com resultados muito bons. Vamos dar, a título de ilustração, alguns exemplos: Creamware tripleDAT, com plugins Osiris e FireWalkers: declicker, denoiser (FFT até 4096), síntese harmônica (todos com displays), EQ paramétrico com 8 bandas (Q até 100), compressor/limitador, normalização e reverb. Distribuidor: Interwave. http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (11 de 12)29/3/2008 16:16:23 Restauração de gravações - Audio List Algorythmix Sound Laundry: declicker, denoiser (FFT até 4096), DC Removal, filtros passa-altas e passa-baixas com inclinação ajustável, todos com display. Player com "cue" e reprodução em loop. Existe a versão Lite, apenas com declicker e denoiser, a baixo custo. Distribuidor: Interwave. Sonic Foundry Sound Forge com Click Removal, Noise Reduction e Vynil Restoration: Remoção manual ou automática de clicks, redução de ruído (FFT até 16384); equalizadores gráfico e paramétrico; normalização e compressão; reverb; síntese de harmônicos básica; outros efeitos através de plugins DirectX. Distribuidor: Quanta. Dart Pro: Declicker com vários ajustes e preview (não em tempo real), denoiser com amostragem e várias opções, edição ponto-a ponto, todos com displays e gerando arquivos intermediários, para avaliação. Não tem EQ, reverb, etc.. Plugins de Redução de Ruídos: Há plugins de vários fabricantes, que se propõem a fazer restauração. A maioria deles usa o protocolo DirectX, sendo compatíveis com softwares que usam essa tecnologia. Os resultados vão desde ridículos até aceitáveis, geralmente não se comparando aos softwares específicos. Há ainda vários outros softwares, com resultados e preços variados. Ao comprar software, é interessante que o programa base seja compatível com o protocolo DirectX, abrindo assim caminho para centenas de plugins disponíveis no mercado. A restauração é uma arte comparável a qualquer processo criativo, podendo dar grande prazer desde a colecionadores, que passam a ter suas preciosidades protegidas em CDs ou outras mídias contemporâneas, até a grandes gravadoras que podem relançar sucessos que, de outra forma, estariam para sempre perdidos. Existem empresas que investem muitos milhares de dólares em equipamentos com resultados inacreditáveis, e que atendem a gravadoras e a grandes projetos; e existem empresas que, com alguns milhares de dólares e muita dedicação também, atendem a projetos menores ou a clientes particulares, com custos bastante acessíveis. E a restauração pode ser um delicioso hobby também! Sólon do Valle, engenheiro, consultor em Áudio e Acústica, é o editor técnico da M&T. http://www.musitec.com.br Nota: Veja também outros textos relacionados nas páginas FAQ (diversos e som residencial) e HIFI. Os links para os sites dos fabricantes podem ser encontrados nas páginas STUDIO e BIBLIOTECA. http://paginas.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/restaur/restaur.htm (12 de 12)29/3/2008 16:16:23