REPRESENTAÇÕES SOBRE A ESCOLA NOVA NAS PÁGINAS DE UM MANUAL DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO Rodrigo Augusto de Souza – UEM [email protected] Maria Cristina Gomes Machado – UEM [email protected] RESUMO Neste trabalho analisamos as representações sobre a Escola Nova presentes em um manual de história da educação destinado à formação de professores. Optamos pela obra “Noções de História da Educação”, de Theobaldo Miranda Santos (1904-1971), de grande influência na educação brasileira, especialmente nas décadas de 50, 60 e 70. Nosso estudo se orienta pela abordagem de análise dos manuais de ensino, em particular, de história da educação. O intento não é realizar um trabalho descritivo e analítico dos conteúdos presentes no manual de ensino. Pretendemos realizar um “recorte” teórico analisando as concepções e representações sobre a Escola Nova no manual de história da educação. Entendemos o manual didático, nos cursos de formação de professores, como produção característica de um momento histórico determinado. Desse modo, a análise da categoria Escola Nova nos permitirá entender a configuração da educação e da formação docente em um dado período histórico. Palavras-chave: História da Educação; Formação de Professores; Análise de Manuais Didáticos. Introdução O nosso estudo está em sintonia com as pesquisas que tratam da análise dos manuais didáticos, em especial, as obras dedicadas à história da educação. A idéia principal é “desmistificar” o manual, mostrar suas determinações históricas, suas opções ideológicas e, ao mesmo tempo, perceber como a sua análise nos permite a compreensão da educação em um dado período histórico. Para Morgado (2004), os manuais de ensino por muito tempo foram inquestionáveis e detentores de uma suposta verdade infalível. Não podemos negar que eles prestaram uma valiosa contribuição ao conhecimento. Com suas pretensões universais, muitos deles são excelentes sistematizações das ciências e dos saberes produzidos pelo homem ao longo da história. 2 No entanto, é preciso também problematizá-lo, investigar os seus limites e identificar suas incoerências internas. Nenhum manual didático é “neutro”, isento de qualquer ideologia ou intencionalidade. Essa parece ser uma dimensão ainda pouco estudada no campo da análise de manuais de ensino. A investigação que apresentamos tem como foco a história da educação e uma obra específica “Noções de História da Educação”, de Theobaldo Miranda Santos (1904-1971). Esse manual de ensino, destinado à formação de professores, foi de grande importância na educação brasileira, principalmente nas décadas de 50,60 e 70, formando gerações de professores. O professor Theobaldo Miranda Santos teve uma vasta produção intelectual, escrevendo muitas obras que foram publicadas pela “Companhia Editora Nacional”. Atuou nas seguintes coleções da editora: “Atualidades Pedagógicas”, “Curso de Filosofia e Ciências”, “Curso de Psicologia e Pedagogia” e “Iniciação Científica”. Publicou mais de vinte livros, todos obedecendo a um rigor preciso e a uma cuidadosa sistematização. A produção intelectual de Theobaldo Miranda Santos foi objeto da tese de doutorado de Orlando José de Almeida Filho, intitulada: “A estratégia da produção e circulação católica do projeto editorial das coleções de Theobaldo Miranda Santos: (1945-1971)”, defendida em 2008, na PUC/SP. Sob a perspectiva da história cultural, o trabalho não deixa de reunir um expressivo referencial de análise para a abordagem do tema. Nessa pesquisa, em mais de trezentas páginas, é possível encontrar dados quantitativos da produção de Theobaldo e também as interpretações desses dados, segundo o referencial teórico-metodológico que orienta o trabalho. Esse artigo, embora considere a pesquisa de Orlando José de Almeida Filho como uma de suas referências, diverge dela quanto à concepção teórica e metodológica. Orientando-se pelo materialismo histórico e dialético, o nosso estudo tem um objeto particular, uma obra para a análise: “Noções de História da Educação”. Nesse manual destinado à formação docente investigamos as representações e concepções acerca da escola nova. Apresentaremos a estruturação interna do manual de história da educação. A opção pela periodização histórica como elemento ideológico presente na organização da obra. Articularemos o livro em um contexto mais amplo, isto é, na coleção editorial que 3 ele integra, e, principalmente, no momento histórico no qual está inserido. Outro ponto que observaremos são as expressões ou conceitos mais recorrentes na obra, tais como estão presentes no entendimento do autor sobre as noções de pedagogia, história, ciência e conhecimento, entre outras. Uma breve apresentação do autor será necessária para o nosso intento. A partir dessas prerrogativas faremos o “recorte” teórico pela concepção de escola nova presente no manual e suas implicações para a compreensão da história da educação. Uma Aproximação do Manual O manual “Noções de História da Educação” está organizado em oito capítulos, acrescidos de introdução e apêndice. O exemplar que temos para a análise é a nona edição, datada de 1960 e parte da coleção “Curso de Psicologia e Pedagogia”, da “Companhia Editora Nacional”. Na apresentação da capa do livro está a seguinte afirmação: “De acordo com os programas das Faculdades de Filosofia, dos Institutos de Educação e das Escolas Normais”. Temos assim, a pretensão do manual de transitar por três ambientes distintos que se ocupam da educação no período: as Faculdades de Filosofia, os Institutos de Educação e as Escolas Normais. Instituições que visavam formar os educadores para o Brasil. A nossa observação é que, a despeito da retórica, o Estado não quer, nem nunca quis, resolver o problema educacional brasileiro. A educação do povo, ou é um gesto romântico, como foi no século XIX – no caso brasileiro, na década de 30, seria a reminiscência da ideologia liberal, expressa, sobretudo, pelo Manifesto dos Pioneiros; ou é uma política realista, e então precisa alcançar níveis de generalidade e de qualidade que a definam como eficiente instrumento de promoção sócio-econômica, política e cultural. (MENDES, 1991, p. 50). Esses dados sobre os ambientes para os quais o manual é destinado já nos permitem compreender a configuração da educação brasileira naquele momento histórico. As tensões ideológicas e as divergências entre as diferentes propostas teóricas que marcavam a educação do período. Os Institutos de Educação defendiam os 4 pressupostos da escola nova e, por outro lado, as Escolas Normais ainda insistiam na chamada pedagogia “tradicional”. A intenção do manual de Theobaldo Miranda Santos é circular nessas instituições educativas de concepções pedagógicas opostas e também nas Faculdades de Filosofia. De certo modo, a obra se julga “isenta” para circular em escolas com visões tão antagônicas. Por isso, não ficaremos presos às nossas impressões primeiras sobre o manual. Na formação do espírito científico, o primeiro obstáculo é a experiência primeira, a experiência colocada antes e acima da crítica – crítica esta que é, necessariamente, elemento integrante do espírito científico. Já que a crítica não pode intervir de modo explícito, a experiência primeira não constitui, de forma alguma, uma base segura. (BACHELARD, 1999, p. 29). Para Saviani (1991), as concepções filosóficas que norteiam a educação brasileira se articulam em quatro tendências fundamentais: a) “humanista” tradicional; b) “humanista” moderna; c) analítica; d) dialética. O contexto que dá origem ao manual “Noções de História de Educação” é marcado pela concepção “humanista” moderna. Por outro lado, o modelo anterior “tradicional” ainda permanecia nas antigas Escolas Normais. Vale ressaltar que, apesar do manual ter surgido nesse período, ele não foi orientado pela concepção teórica vigente naquele momento, mas pela visão “tradicional”. Cumpre distinguir, no interior da concepção “humanista” tradicional, duas vertentes. De um lado, a vertente religiosa que afunda raízes na Idade Média e cuja manifestação mais característica consubstancia-se nas correntes do tomismo e do neotomismo. Há diversos textos e manuais de Filosofia da Educação que seguem essa orientação. De outro lado, a vertente leiga, centrada na idéia de “natureza humana” e elaborada pelos pensadores modernos já como expressão da ascensão da burguesia e instrumento de consolidação de sua hegemonia. (SAVIANI, 1991, p. 25). O manual didático surge nesse cenário de enfrentamento entre o “humanismo” tradicional e moderno, na educação brasileira. De acordo com a reflexão de Dermeval Saviani, no artigo “Tendências e Correntes da Educação Brasileira”, o período de 1945 a 1960 foi marcado pelo predomínio da tendência “humanista” moderna. Vale ressaltar que o auge da produção de Theobaldo Miranda Santos foi nesse período. Já a 5 partir da década 1960, assistimos a queda dessa abordagem e a ascensão da perspectiva tecnicista, que seguramente não inspira sua produção. Voltando à configuração do manual, notamos a forma de disposição dos capítulos com uma “lógica” bastante didática. Os capítulos seguem essa ordem: uma introdução chamada de “caracteres gerais”, seguida dos conteúdos desenvolvidos naquela unidade, depois as “notas”, “leituras” e “bibliografia”. Trata-se de um compêndio rigoroso, que obedece a uma organização metódica. Os oito capítulos vão do “tradicionalismo pedagógico” ao “antinaturalismo pedagógico”, ao longo de quatrocentas e noventa e sete páginas. A educação brasileira fica reservada ao apêndice, não merece um capítulo na organização do manual. Outra característica que chama a atenção é o tratamento oferecido ao capítulo “tradicionalismo pedagógico”. O autor faz uma incursão na “pré-história” e na “antiguidade oriental”, dando destaque à educação “primitiva”, aos “grandes” povos do oriente e da “antiguidade”. A “moderna pesquisa etnográfica” é evocada para o entendimento da “educação primitiva”. No manual há um tratamento privilegiado dos “clássicos” em detrimento da educação brasileira. A periodização histórica presente no manual está submetida à disposição dos temas desenvolvidos por Theobaldo Miranda Santos. Como recurso didático, o manual utiliza gravuras a título de ilustração dos conteúdos desenvolvidos em cada unidade. As gravuras estão sempre em preto-e-branco e geralmente retratam esculturas, edifícios ou personagens importantes da história da educação. Acreditamos que seria muito útil um estudo apenas das ilustrações desse manual didático. As representações do “homem primitivo”, por exemplo, renderiam um belo trabalho de análise. O estudo da evolução da educação, como da moral e da religião, entre os povos primitivos, nos revela, com meridiana clareza, a inanidade dos postulados evolucionistas. Pois vamos encontrar nos povos situados no mais ínfimo grau de civilização, e não nos povos primitivos econômica e materialmente mais adiantados, as formas mais puras, mais elevadas e mais espiritualizadas de religião, de moral e de educação. (SANTOS, 1960, p. 26). 6 Na organização do manual a tradição clássica: antiguidade greco-romana, a idade média e o renascimento não recebem a classificação de educação tradicional, como é recorrente em outros livros de história da educação. A educação greco-romana é entendida como “humanismo pedagógico” e o período medieval é dividido em dois momentos: recebendo o nome de “o cristianismo pedagógico” e “o medievalismo pedagógico”. Na seqüência aparece o “neo-humanismo” pedagógico, que trata do período do renascimento, dando ênfase na “educação reformista” e “contra-reformista”. Essa é uma periodização que diverge claramente da opção dos autores escolanovistas, como Anísio Teixeira (1900-1971), por exemplo. Em seu livro Educação e Mundo Moderno, Anísio sustenta que “os gregos e os medievais” representam uma cultura “espiritual”, incompatível com a modernidade calcada “na técnica, na ciência e na industrialização”. Trata-se, portanto, de uma divergência teórica quanto à compreensão dos períodos históricos. O caso da sociedade moderna é, sob muitos aspectos, o oposto da sociedade grega e, mesmo, da medieval. [...] O ideal de homem “livre” grego chega a ser uma das mais condenáveis formas de viver na sociedade moderna e o ideal monástico da Idade Média, a rigor somente sobrevive nas ordens religiosas ativas e de trabalho. Como poderia, assim, a “espiritualidade” típica dos homens de prol, gregos ou medievais, fundada na contemplação e na supressão das atividades materiais, ser o remédio para a nossa “materialidade”? (TEIXEIRA, 1969, p. 31). Desse modo há dois modos bastante antagônicos no entendimento da antiguidade clássica e da própria história, no momento em que Theobaldo Miranda Santos publica seu manual de história da educação. Uma perspectiva, mais de cunho “tradicional ou neotomista”, seguida por Theobaldo e outros autores e a visão “moderna ou científica”, referência para os partidários da escola nova. 7 A Organização do Manual A organização do manual “Noções de História da Educação”, de Theobaldo Miranda Santos segue uma estrutura bem definida. Já fizemos menção à sua preocupação com a educação nas culturas “primitivas”, na tradição clássica e no cristianismo. Trataremos agora de apresentar o plano geral de sua obra, tal como o autor apresenta no índice do manual. Segue abaixo um quadro esquemático da obra: Capítulo I – O Tradicionalismo Pedagógico Período Histórico Conteúdo Pré-história e Antiguidade 1. A Educação Primitiva; Oriental 2. A Educação Hindu; 3. A Educação Chinesa; 4. A Educação Egípcia; 5. A Educação Hebraica; 6. A Educação Persa. II – O Humanismo Pedagógico III – O Cristianismo Pedagógico Antiguidade Clássica 1. A Educação Grega; 2. A Educação Romana. Primeiros Séculos do 1. A Educação Apostólica; Cristianismo e Idade 2. A Educação Patrística; Média. 3. A Educação Monástica; 4. A Educação Escolástica. IV – O Medievalismo Pedagógico Idade Média V – Neo-Humanismo Pedagógico Século XV, XVI e XVII. 1. A Educação Feudal; 2. A Educação muçulmana. 1. A Educação Renascentista; 2. A Educação Reformista; 3. A Educação ContraReformista; 4. A Educação Jansenista. 8 VI – O Naturalismo Pedagógico Séculos XVII, XVIII e XIX. 1. A Educação Realista; 2. A Educação Disciplinar; 3. A Educação Pietista; 4. A Educação Racionalista; 5. A Educação Naturalista. 6. A Educação Filantropista; 7. A Educação Revolucionária; 8. A Educação Psicológica; 9. A Educação Científica. VII – O Neonaturalismo Pedagógico Séculos XIX e XX 1. A Educação Individualista; 2. A Educação Socialista; 3. A Educação Nacionalista; 4. A Educação Pragmatista; 5. A Educação Técnica. VIII – O Antinaturalismo Pedagógico Séculos XIX e XX 1. A Educação Espiritualista; 2. A Educação Cristã. Apêndice Educação Brasileira Período Colonial; Período Monárquico; Período Republicano. Dois temas se destacam na organização do Manual de Theobaldo Miranda Santos: a tradição grega e cristã e o naturalismo. O autor se ocupa com esses conteúdos em perspectiva histórica. A relação entre cristianismo e educação não aparece apenas na antiguidade e no medievo, aliás, perpassa toda a obra: se insere no renascimento, na 9 educação da “contra-reforma” e volta novamente no século XIX, quando o autor fala da “educação cristã”. Essa visão fica evidente na citação a seguir: A Reforma e a situação da crescente indisciplina religiosa ameaçando cada vez mais a unidade do Cristianismo, já profundamente mutilada pela revolução luterana, obrigaram a Igreja a assumir uma atitude enérgica em face dos acontecimentos, no sentido de restaurar a disciplina espiritual. [...]. Somente no tempo de Paulo III (1534-1549) se tornou possível o Papado, à luz dos princípios imutáveis do Cristianismo, realizar a reforma de que a organização da Igreja necessitava para combater, com segurança e eficácia, o liberalismo protestante e o paganismo renascentista. Um novo ardor e um redobrado entusiasmo começaram a empolgar os meios católicos. (SANTOS, 1960, p. 243). O manual “Noções de História da Educação” tem por último capítulo o “antinaturalismo pedagógico”, isto é, a tentativa de refutação das pedagogias “cientificistas e naturalistas”, inspiradas principalmente no positivismo e no darwinismo. A teoria de Darwin causou grande mal-estar no cristianismo do final do século XIX e começo do século XX. A idéia de evolucionismo foi uma afronta direta ao criacionismo bíblico e cristão. A preocupação com o naturalismo é recorrente no manual, prova disso é que Theobaldo não utiliza expressões como “ciência moderna” ou “cientificismo”. Aborda o tema do problema do “naturalismo” e do “realismo”. Não estabelece relação entre o naturalismo “moderno” e as filosofias da natureza, do período pré-socrático. Desse modo, o manual termina tratando da “educação espiritualista” e da “educação cristã”. Afirma Carlos Roberto Jamil Cury, em “Ideologia e Educação Brasileira: Católicos e Liberais”: Para os fins de nosso trabalho, embora se deva creditar maior soma de estudos às diferentes versões do liberalismo no interior do grupo dos educadores, no decorrer do período do período que pretendemos analisar, interessa-nos o momento do compromisso que se dá entre tais grupos, visando opor ao pensamento educacional elitista excludente e espiritualista da Igreja Católica um pensamento educacional liberal e leigo. (CURY, 1984, p. 20). 10 Há uma tentativa de combater esse “cientificismo pedagógico”. Essa idéia ganha mais força quando analisamos o apêndice que trata da educação brasileira. Grande ênfase é oferecida ao papel que os jesuítas desempenharam no Brasil colonial. Os jesuítas ganharam destaque no manual, compreensão também bastante diferente em relação aos autores escolanovistas, que são críticos da atuação jesuítica. Para justificar sua posição, Theobaldo cita nas referências bibliográficas obras dos jesuítas: Luiz Gonzaga Cabral, José Manuel de Madureira e Serafim Leite. Entre os escolanovistas temos: Fernando de Azevedo, Primitivo Moacir e Afrânio Peixoto. No período republicano a referência é para Rui Barbosa. Há certo silêncio em relação a Anísio Teixeira, ele aparece pouco no manual, não obstante sua influente atuação na educação brasileira do período. Talvez isso seja decorrência dos embates entre Anísio e setores da Igreja Católica. “A campanha que se faz contra mim é, sobretudo, uma campanha contra a Constituição e a República”. No fundo era mais que isso – era a luta contra a escola pública, para exaltar a escola particular, ligada a interesses de toda ordem, desde Ordens religiosas até mercadores do ensino. Sabia-se que os Bispos do Rio Grande de Sul pediriam a demissão de Anísio (do INEP), alegando ser a escola pública o caminho para o comunismo. (VIANA FILHO, 2008, p. 160). A “educação cristã” no século XIX, de que trata o manual de Theobaldo Miranda Santos se refere, por exemplo, à pedagogia São João Bosco e às idéias do cardeal John Henry Newman, que teve grande atuação na educação, entre os universitários e intelectuais. A Igreja Católica nesse período é marcada pelo Concílio Vaticano I, com forte tendência anti-modernista. Alguns papas dessa época empreenderam uma luta intensa contra os “erros do modernismo”, tais como Gregório XVI e Pio IX. Há um reaparecimento de congregações religiosas dedicadas à educação. O manual não trata do surgimento dessas novas congregações, mas aborda a pedagogia de Dom Bosco, fundador dos salesianos. A “Sociedade de Dom Bosco” foi a mais importante entidade católica surgida no século XIX para se dedicar à educação. Assim, a Igreja Católica tem na educação uma grande preocupação sua nesse período, e isso repercute, de certo modo, na educação brasileira, especialmente entre as décadas de 1930 e 1950. 11 O manual faz menção às reformas educacionais do período republicano, oferece atenção aos autores da escola nova e as “reformas” que eles empreenderam na educação brasileira. A abordagem é resumida, como o tratamento dado à educação no Brasil. Temos uma “história da educação no Brasil”, pré-golpe militar de 1964, isto é, a obra de Theobaldo Miranda Santos não entra no período da década de 1960, pois sua publicação é anterior. O Intelectual Católico Para Orlando Filho (2008), a trajetória de vida de Theobaldo Miranda Santos, acompanha o processo de resignificação do papel da Igreja Católica na sociedade brasileira a partir da década de 1940. O autor nasceu em Campos, no estado do Rio de Janeiro, em 1904. Iniciou seus estudos no Liceu de Humanidades e na Escola Normal Oficial, onde realizou o curso primário e secundário, terminando sua formação em 1920. Deu inicio ao curso de Odontologia e Farmácia, no Colégio Metodista Grambery, de Juiz de Fora. Concluída sua formação, se dedicou à carreira de professor na Escola Normal de Manhuaçu, também em Minas Gerais. A partir de 1928 retorna a Campos, e passa a lecionar aulas de física, química e história natural no Liceu de Humanidades. No Colégio Nossa Senhora Auxiliadora, nesse mesmo período, Theobaldo ensina História da Civilização. Em Campos, se tornou professor catedrático na Escola Superior de Agricultura e Veterinária, ministrando aulas de História Natural. Ainda em sua cidade natal, foi docente na Faculdade de Odontologia e Farmácia, onde lecionou Ortodontia e Odontopediatira. (ALMEIDA FILHO, 2008, p. 6). Na tese de Orlando José de Almeida Filho, que já citamos em nosso trabalho, há um cuidadoso exame da vida e da obra de Theobaldo Miranda Santos. Antes de publicar seus livros e manuais, Theobaldo iniciou, em 1932, seu trabalho como escritor redigindo artigos para jornais da região de Campos e Niterói. Transferiu-se, em 1938, para Niterói, onde passou a ensinar História Natural no Instituto de Educação, a convite do secretário de Educação do Rio de Janeiro. Foi nomeado professor de Prática de Ensino na Universidade do Distrito Federal, no Rio de Janeiro, que foi extinta na ditadura de Getúlio Vargas. Atuou como professor no curso de Pedagogia na Escola de 12 Serviço Social e ensinou Física no Colégio Nossa Senhora de Sion, do Rio de Janeiro, na década de 1940. Em 1941, durante a ditadura do Estado Novo, foi diretor do Departamento de Educação Técnico-Profissional e, em 1942, diretor geral do Departamento de Educação Primária da Prefeitura do Rio de Janeiro. Nesse período, aliado às demais funções, era professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, recém fundada. No ano de 1944 se candidata ao concurso e obtém aprovação para a cátedra de Filosofia da Educação, no Instituto de Educação do Rio de Janeiro. Aposentou-se em 1958, se dedicando a escrever e revisar seus livros e manuais até a sua morte, em 1971. Ainda no trabalho de Orlando Filho, há a referência da dissertação de mestrado de Maria Helena de Jesus Silva Morais, com o título: “Da pedagogia que ‘pegou de galho’ a uma pedagogia cristã nova e brasileira: Theobaldo Miranda Santos (19041971) e seus manuais didáticos”, defendida na Faculdade de Educação da USP, no ano de 2004. A pesquisa de Morais (2004) é outra importante fonte de pesquisa nesse tema. Apresentados esses dados biográficos fundamentais, a partir das pesquisas citadas, voltamos à nossa análise do manual “Noções de História da Educação”. Na abertura do livro está a seguinte afirmação sobre Theobaldo Miranda Santos: “Professor catedrático do Instituto de Educação, da Faculdade de Filosofia Santa Úrsula e da Universidade Católica do Rio de Janeiro”. Há uma preocupação em descrever Theobaldo como professor de instituições católicas. Como se pode notar em sua trajetória de vida, o educador esteve sempre ligado às escolas e instituições de ensino da Igreja Católica. Outro aspecto importante em sua vida foi a atuação nas instituições públicas, ora por indicação política e, posteriormente, por concurso público. Sabemos que esse período é caracterizado pela tentativa de inserção das aulas de religião na escola pública. A Igreja tinha duas posturas fundamentais em relação a escola pública, um lado a oposição, principalmente os Bispos do Rio Grande do Sul, liderados pelo Bispo Dom João Becker e posteriormente pelo cardeal Dom Vicente Scherer, o outro lado, movido pelo ideais da Ação Católica, queria aproveitar a escola para conseguir novos fiéis, grupo incentivado por Dom Sebastião Leme, então Arcebispo do Rio de Janeiro. 13 Compreendendo a figura de Theobaldo Miranda Santos como intelectual católico, fica evidente seu vínculo com a Ação Católica. Muitos intelectuais integravam esse grupo que visava levar os princípios do catolicismo para a vida social. A Ação Católica será responsável pela fundação da Universidade Católica do Rio de Janeiro, atual PUC/RJ, atendendo ao pedido de Dom Sebastião Leme. Nesse período também é inaugurada a estátua do Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, símbolo máximo da “restauração” católica no Brasil. É interessante analisar a relação de Dom Sebastião Leme com a ditadura de Getúlio Vargas. Em algumas ocasiões o Arcebispo atuou como “mediador” de conflitos do governo. Conceitos Importantes e a Escola Nova Alguns conceitos são importantes para entender o pensamento de Theobaldo Miranda Santos. Faremos uma breve análise deles a partir do manual “Noções de História de Educação”. As concepções de “pedagogia”, “história” e de “escola nova” serão apresentadas, ainda que de maneira resumida. Descrevemos abaixo a reflexão de Theobaldo no prefácio da obra que analisamos nesse estudo. O objetivo deste compêndio é examinar as doutrinas pedagógicas e as instituições educativas em seu desenvolvimento histórico. [...] Deu-se preferência pelo método tipológico, por ser este o mais vivo e didático. Com efeito, o estudo dos tipos de educação, na sua gênese e evolução ao longo da história da cultura, é muito mais fecundo e interessante [...]. Os tipos de educação [...] traduzem de maneira nítida, a realidade educativa e cultural de cada período da história da humanidade, e patenteiam, claramente, as relações íntimas e orgânicas que existem entre a evolução das doutrinas pedagógicas e a das concepções de vida. Daí a importância e a utilidade que o seu estudo oferece para a compreensão dos fenômenos históricos da educação. (SANTOS, 1960, p. 17). As idéias de Theobaldo nos chamam a atenção, já no prefácio, pelo conceito de “doutrinas pedagógicas”. O autor se refere às teorias da educação, ou às concepções pedagógicas, como doutrina. Esse termo está próximo de uma visão religiosa, mais dogmática e ortodoxa do conhecimento. A noção de doutrina concebe o conhecimento 14 como uma verdade fechada, estanque, próxima de uma espécie de dogmatismo. Doutrina é diferente de teoria, concepção ou idéia. A pretensão de verdade é muito maior. Outra característica do pensamento do autor é a expressão “evolução”. Como já apresentamos, a formação de Theobaldo é na área das ciências biológicas (Odontologia e Farmácia) sua visão “cientificista” à moda católica aparece no manual. No prefácio, a palavra “evolução” aparece ao lado de “gênese”. Parece que sintetiza uma discussão entre criacionismo, idéia de gênese, e evolucionismo, com a idéia de evolução natural. A palavra evolução aparecerá constantemente no manual. Para o estudo de Maria Helena de Jesus Silva Morais (2004), Theobaldo Miranda Santos incorpora princípios da escola nova em seus manuais, mesmo seguindo uma visão neotomista, formando assim uma “pedagogia nova católica”. É uma reflexão procedente, em certo sentido, no entanto, nos parece que o autor segue uma tendência de “restauração católica”, mais “escolástica e tomista” do que as idéias dos autores escolanovistas. O manual pretende se ocupar dos “fenômenos históricos da educação”, essa compreensão da história remete a uma espécie de fenomenologia da história, que pode ser tanto uma alusão à “fenomenologia do espírito” de Hegel, quanto uma espécie de “naturalização” da história, lembrando as idéias de Hurssel. A definição que Theobaldo oferece de pedagogia sugere mais uma aproximação da filosofia hegeliana. Ciência do espírito, por excelência, a pedagogia só pode ser compreendida, em toda a sua amplitude e totalidade, se relacionada com a evolução histórica. Como toda ciência espiritual, seu progresso não representa um simples resultado do gênio criador de um homem ou de uma época. Constituí, ao contrário, obra contínua das sucessivas gerações, trabalho gradativo da capitalização social, enfim, fruto lentamente amadurecido da tradição. (Ibid., p. 19). A pedagogia entendida como “ciência espiritual”, nos lembra o idealismo de Hegel, ao definir o primado do espiritual, isto é, do racional sobre a realidade. Assim, a pedagogia seria o fruto da “evolução espiritual”, do desenvolvimento da racionalidade. A idéia de “evolução” mostra relação com certo naturalismo, característico do autor. 15 O manual de Theobaldo Miranda Santos utiliza poucas vezes a expressão “escola nova”. A menção acontece quando o autor se refere ao “naturalismo pedagógico” e o “neo-naturalismo pedagógico”. O termo surgirá no apêndice reservado à educação brasileira. A referência do manual é ao “movimento de renovação pedagógica”, ou à “reforma educacional”. Poucas vezes aparece “escola nova”. Isso talvez seja sintoma do litígio existente entre os educadores escolanovistas e a Igreja Católica no período. Embora Theobaldo ofereça destaque a autores como Dewey, Kilpatrick, Montessori, Decroly, entre outros. Muitos deles merecem até uma fotografia no manual. A menção a Anísio Teixeira é quase imperceptível. Sabemos dos embates do educador com setores da Igreja. Esse enfrentamento, de certa forma, se traduz no manual. A visão “naturalista” e “evolucionista” aparece o tempo todo no manual. O autor tem uma visão “cientificista”, mas ele, ao mesmo tempo em que a utiliza também a combate, quando trata do “anti-naturalismo pedagógico” e da “educação cristã”. A escola nova não aparece como uma pedagogia, mas o autor a divide, falando de educação pragmatista, psicológica, humanista, tratando de modo fragmentado essa abordagem educacional. Considerações Finais O manual “Noções de História da Educação”, de Theobaldo Miranda Santos, representa uma síntese do confronto ideológico entre católicos e liberais na educação brasileira. A idéia do embate entre esses dois pensamentos antagônicos em educação está expressa no livro “Ideologia e Educação Brasileira: Católicos e Liberais”, de Carlos Roberto Jamil Cury. É claro que não é possível uma leitura simplista desse contexto histórico tão marcado por tensões e disputas ideológicas e, principalmente políticas. Essas forças opostas não são organizações simples, em sua polarização trazem diversos setores e tendências, sendo, porém, possível agrupá-las em uma forma de pensamento mais abrangente. 16 A produção de Theobaldo, representada no manual que analisamos, expõe nitidamente o seu vínculo com o catolicismo. Os temas que envolvem a relação da Igreja católica com a educação recebem um tratamento privilegiado. Embora exista a afirmação de que a atuação do autor seja no sentido de constituir uma “pedagogia nova católica e brasileira”, não há indícios muito fortes para afirmar isso. As teses evolucionistas e naturalistas são contempladas no manual e utilizadas insistentemente. Apesar disso, consideramos de acordo com Dermeval Saviani, tal como apresentamos no início do estudo, o livro parece seguir uma tendência tomista ou neotomista. Utiliza para isso a “Summa” como recurso didático. O manual de Theobaldo Miranda Santos tem essa pretensão de ser uma “Summa”, um compêndio rigoroso, quase enciclopédico. Ao mesmo tempo em que o autor recorre às teses naturalistas e evolucionistas, ele as combate, o que mostra relação com ideal de restauração católica, presente no Brasil daquele momento histórico. O que nos permite afirmar que Theobaldo Miranda Santos teve contato com os ideais da escola nova foi sua relação com os Institutos de Educação. Essas escolas destinadas à formação de professores seguiam os ideais das reformas educacionais escolanovistas, tal como nos atesta Mirian Jorge Warde, em seu artigo, “A Estrutura Universitária e a Formação de Professores”. O manual “Noções de História da Educação”, de Theobaldo Miranda Santos é a produção de um intelectual católico, que embora transite por ideais da escola nova, cumpre a função de fomentar o valor da Igreja como instituição educativa na sociedade brasileira. Podemos afirmar que esse paradoxo entre a escola nova e pensamento católico é uma contradição que marca o seu manual de história da educação. 17 Referências ALMEIDA FILHO, Orlando José de. A estratégia da produção e circulação católica do projeto editorial das coleções de Theobaldo Miranda Santos: (1945-1971). 368f. 2008. Tese (Doutorado) – Programa de Pós-Graduação em Educação, História, Política e Sociedade, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2008. Disponível em: <http://www.sapientia.pucsp.br//tde_busca/arquivo.php?codArquivo=7517> Acesso em: 07/12/2009. BACHELARD, Gaston. A Formação do Espírito Científico. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999. CURY, Carlos Roberto Jamil. Ideologia e Educação Brasileira: Católicos e Liberais. São Paulo: Cortez; Campinas: Autores Associados, 1984. EVANGELISTA, Olinda. Anísio Teixeira e a Educação: Um roteiro possível de leitura (1930-1950). Perspectiva 20, Florianópolis: UFSC, 1993, p. 87-125. MENDES, Durmeval Trigueiro (coord.). 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